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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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responder ao
questionamento feito anteriormente, qual seja, se a jurisprudência administrativa revelada
pelos enunciados do CRPS teria natureza jurídica de fonte formal do direito, ou melhor, se
integrariam o ordenamento previdenciário com status de norma jurídica.
Ao contrário da jurisprudência judicial, à exceção das súmulas vinculantes, a
força normativa da jurisprudência administrativa é evidente. Enquanto que as súmulas
adotadas pelos órgãos do Poder Judiciário não se apresentam com força cogente vinculante,
embora tenham relevância interpretativa na construção dos julgados, na esfera
jurisprudencial nascida da jurisdição administrativa previdenciária as decisões têm matiz
especial.
Os enunciados adotados pelo CRPS possuem eficácia geral e normativa e sua
formulação é preceito de ordem obrigatório para a Administração Pública Previdenciária e
para as partes interessadas. Por conseguinte, as autoridades administrativas judicantes
detêm atribuição legal de editarem enunciados (que não deixam de ser regras) com
características de generalidade e impessoalidade. Esse feixe de atribuição normativa
confere à Administração Pública Previdenciária o caráter de fonte de produção do direito
(source du droit) que se manifesta sob a forma dos enunciados do CRPS.
Operacionaliza um fenômeno de amplificação de efeitos das decisões
administrativas segundo o preceito adotado no enunciado. Melhor explicando: o acórdão
transitado em julgado (administrativamente), no caso concreto decidido pelo CRPS, deita
efeitos sobre as partes envolvidas (beneficiário e INSS), portanto, com alcance bipolar. Ao
se editar um enunciado, o que se pretende é outorgar certeza na linha decisória do
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Conselho, gerando convergência no entendimento jurisprudencial administrativo difundido,
deste modo, seus efeitos a um leque diferenciado e difuso de interessados. Diferenciado
porque não integrantes do caso concreto decido no acórdão; difuso, pois vinculante para a
Administração Pública que deverá pautar sua interpretação segundo a tese predominante,
atingindo os administrados de forma equânime.
Destarte, os enunciados, súmulas e prejulgados estão inseridos na cadeia
normativa da ordem jurídica previdenciária. Possuem, conteúdo normativo como normas
regulamentares, devendo ser fielmente cumpridas pela Administração Previdenciária.
Possuem força vinculante para toda a Administração Pública. Revelam a idéia-força319 de
que o processo administrativo previdenciário deve ser animado pela simplificação das
postulações e celeridade na apresentação da decisão.
Wagner Balera ensina que os enunciados, súmulas e prejulgados devem ser
alojados na “cadeia normativa da ordem jurídica pátria no mesmo escalão hierárquico das
regras que podem emanar as supremas autoridades executivas”320.
Pode-se dizer que as espécies uniformizadoras de jurisprudência adotadas pelo
Pleno do CRPS revelam-se como peculiar modo normativo de expressão da atividade
administrativa em matéria de previdência social.
Para garantir a uniformidade da jurisprudência e para dar
maior estabilidade à exegese administrativa o que, obviamente,
beneficiará os sujeitos de direitos. Eis a função estabilizadora dos
prejulgados que enunciam o modelo a ser seguido na decisão dos
casos semelhantes que, de futuro, serão apreciados pela autoridade
pública.321 
Cumpre reconhecer que se trata de forte e valioso instrumento que garante a
uniformidade das decisões administrativas tomadas no plano do Instituto Nacional do
Seguro Social, evitando-se, inclusive, recursos inúteis e protelatórios por parte da própria
Entidade Autárquica. 
 
319 Termo utilizado por Sérgio Ferraz em sua obra 3 Estudos de Direito, p. 97.
320 BALERA, Processo Administrativo Previdenciário , p. 284.
321 Ibid., p. 280.
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De outro giro, em uma visão mais moderna de atuação preventiva de litígios
com os administrados por parte da Administração Pública, a uniformização da interpretação
da legislação previdenciária vai de encontro à busca de uma maior eficiência administrativa
e, por via de conseqüência, à diminuição de demandas judiciais que acabam gerando mais
dispêndios financeiros para o Estado. 
Diante da clareza dos ensinamentos colhidos na obra amplamente citada na
presente parte do trabalho, e do que consta do próprio regimento Interno do CRPS, segundo
o qual os entendimentos emanados da linha jurisdicional administrativa vinculam a
Administração Previdenciária, há que se incluir os enunciados previdenciários como fonte
formal do Direito Previdenciário no âmbito da Administração Pública.
Portanto, do exposto acima, não há como negar à jurisprudência previdenciária
função proeminente no arcabouço normativo. 
5.3 Procedimento de Uniformização de Jurisprudência. Espécies
Reconhecida a via jurisdicional administrativa, em matéria previdenciária,
como função típica do Poder Executivo, a importância do processo administrativo como
instrumento colocado à disposição do Estado Democrático de Direito para cumprir seus
objetivos de bem-estar e justiça sociais, bem como a jurisprudência administrativa
previdenciária como fonte do direito para a Administração Pública, passa-se a tecer alguns
comentários em relação ao procedimento de uniformização da jurisprudência
administrativa.
O art. 14 do Regimento Interno do CRPS, transcrito supra, revela que a edição
de enunciado, com força normativa vinculante, ocorre por intermédio de um procedimento
de uniformização de jurisprudência perante o Conselho Pleno.
É oportuno destacar que não há um momento processual definido, para que se
instaure esse procedimento incidental perante o Conselho Pleno, pelo menos na sua
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vertente abstrata, como ocorre, ao contrário, no incidente de uniformização de
jurisprudência no domínio do processo civil.
Analisando o diploma que regulamenta o processo administrativo
previdenciário perante o CRPS322, é possível reconhecer em linhas gerais, a existência de
duas espécies de uniformização de jurisprudência levadas a cabo pelo Conselho Pleno.
O Capítulo IX do Regimento Interno do CRPS faz referência à uniformização
em tese de jurisprudência (Seção I) e ao pedido de uniformização de jurisprudência (Seção
II). Wladimir Novaes Martinez323 faz referência a esses instrumentos como institutos
técnicos: a Uniformização em Tese de Jurisprudência (arts. 61/62 do RICRPS) e o Pedido
de Uniformização de Jurisprudência (art. 63 do RICRPS). 
Em que pese as semelhanças de nomenclatura, o que dificulta sobremaneira a
caracterização dessas duas modalidades quando da referência ao nomen juris, há diferenças
a ser reconhecidas.
Grosso modo, a principal diferença, já que os procedimentos e os resultados são
semelhantes324, é que uma espécie de uniformização de jurisprudência ocorre em tese, ou
seja, de forma abstrata, enquanto que a outra se dá perante um julgamento de um caso
concreto, incidenter tantum, quando se observa divergência entre o decisum e outro julgado
anterior no âmbito do CRPS.
A uniformização de jurisprudência em tese encontra-se prevista no art. 61 do
Regimento Interno do CRPS, o qual segue transcrito:
Art. 61. A uniformização, em tese, da jurisprudência
administrativa previdenciária pode ser suscitada para encerrar
divergência jurisprudencial ou, para os fins do art. 30, caput, deste
Regimento, para consolidar jurisprudência reiterada no âmbito do
Conselho de Recursos da Previdência Social.
 
322 Cabe relembrar que o atual Regimento Interno do Conselho de Recursos da Previdência Social foi
aprovado pela Portaria nº 88, de 22 de janeiro de 2004.
323 MARTINEZ, op. cit., p. 237.
324 Já que são feitas referências recíprocas ao aproveitamento das disposições procedimentais.