A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
9 pág.
Cinema Brasileiro

Pré-visualização | Página 1 de 3

Cinema Brasileiro
Podemos dizer que o Brasil pós-inflacionário gestou um novo tipo social, que o cinema soube captar antes de sua consagração sociológica, a saber, o batalhador, ou a nova classe trabalhadora. Segundo Jessé Souza1, este novo tipo social se caracterizaria pela inclinação para a auto-superação. Retenhamos o nome escolhido para designar este movimento maciço de ascensão social: batalhador, o que nos remete à retórica da guerra e do confronto diário e continuado, cujo resultado é obtido por meio de ação planejada. O batalhador possui elevado senso de sacrifício para projeção dos filhos e para a ascensão, condição necessária para a disciplina de poupança e economia integrada a uma visão negocial da vida capaz de gerar um senso permanente de orientação para o futuro. Esta disposição ascética requer uma orientação para bens de consumo superiores, uma qualificação dos atos de consumo que implica em adiamento da satisfação como virtude. A importância atribuída à aprendizagem pela experiência e sua transmissão as descendentes e aos membros da comunidade estendida reforça o senso de solidariedade e lealdade com o passado assim como consolida a família como unidade de produção compartilhada. Inversamente a família organiza-se me torno da construção de uma imagem positiva, da disposição para fazer-se de exemplo e para reconhecer a importância do exemplo. Mas não se trata de uma família hierarquizada ou centralizada em torno da figura ou das expectativas que recairiam sobre o pai. Como lugar de convergência entre o poder econômico e a força moral. A família é antes uma unidade de produção e um laço regido por trocas e divisões de esforços e favores, ou seja, é o que Lacan chamaria de discurso do mestre o que faz a função de distribuir posições e dívidas.
Entre a posição dos novos batalhadores temos de um lado a antiga classe média que vive momentos de insegurança crescente, não apenas do fantasma da proletarização, mas também da crise que demanda novos esforços de identificação. Do outro lado encontramos o significativo contingente de miseráveis que passam a integrar a posição do que Jessé de Souza chamou de “ralé”, ou seja, que consegue se incluir em padrões mínimos de consumo e cidadania. O batalhador exprime assim uma nova modalidade subjetivação na qual o trabalho adquire uma centralidade inovadora. Sua própria existência questiona a posição daqueles que obtém e exibem signos de status social, sem que possam apresentar as credenciais de sua obtenção por meios dotados de valor. No espaço de 20 anos o Brasil aprendeu que é preciso justificar a riqueza e que a ascensão social destituída de uma história que a legitime pode ser tão suspeita ou condenável quanto a exclusão e a invisibilidade.
Disso infere-se, em escala invertida, novas narrativas de sofrimento e novos tipos de sintomas, inicialmente caracterizada pelo exagero ou pela suspensão das disposições psíquicas associadas a tal forma de vida. De fato é o que ocorre quando encontramos a desarticulação da gramática do sacrifício, ou seja, da violação do pacto subjetivo, expressa nas atitudes de cinismo, de excesso de instrumentalização das relações, de corrupção, trapaça, suspeição da fidelidade com relação às origens. Aqui a violência cumprirá um papel restitutivo, assumindo uma função trágica de lembrança e de retorno. O temor de que aquilo que se adquiriu com muita disciplina, mas não sem o concurso da fortuna, pode igualmente ser perdido, mostra-se em uma permanente crítica de si e de prevenção diante das ilações desejantes que podem arrastar o sujeito para uma “vida de dissipações”. A dívida simbólica torna-se assim uma dívida impagável, sendo seu incremento e reposição, parte da filiação que se espera do batalhador. Gratidão sem fim, privações auto-impostas, masoquismo moral, são efeitos clínicos desta espécie de gramática do sacrifício que se torna a mímese perfeita das estratégias de reconhecimento e de demanda.
Durval Discos
O segundo tipo de temor que colide com as aspirações do batalhador ou da nova classe média brasileira são as patologias do consumo e sua inevitável associação com a aparição de um objeto intrusivo, seja ele a droga, as más companhias, ou tudo aquilo que desvia e retira o sujeito de seus valores de origem, de seu compromisso com o futuro, de sua comunidade de destino. Adições e acumulações, recusa ou excesso de consumo, exibicionismo, nos colocariam na trilha de uma violência cuja função é segregativa, ou seja, ela não reequilibra narrativamente um desvio das virtudes mas exclui ou inclui comunidades e modos de satisfação.
A terceira forma típica de sofrimento inferida da narrativa ascendente do batalhador brasileiro baseia-se no trabalho de articulação simbólica entre suas origens e sua atual posição social. Uma ascensão baseada no esforço coletivo, na ajuda mútua, nos laços de produção familiares ou comunitários, muitas vezes reforçado por comunhão religiosa e moral, requer uma ampla articulação histórica de sua própria forma de vida. Neste contexto a desregulação sistêmica, pode colocar em risco a unidade, coerência e congruência entre valores de origem e valores que triunfam ao final do percurso ascensional. É a insegurança sistêmica de que assim como o “triunfo” se colocou por vias e regras que não se sabe esclarecer, um grande fracasso e um retorno podem ocorrer a qualquer momento. Há um tipo de depressão ansiosa que se desenvolve facilmente neste contexto. O esforço para sonhar, desejar e imaginar novos futuros possíveis depende da consolidação simbólica das realizações passadas. A ausência desta articulação pode se apresentar como o sentimento permanente de uma “vida postiça” ou de um empuxo à performática social. Aqui a violência assume o aspecto de fantasia de punição ou de imagens masoquistas,
A quarta narrativa do sofrimento, característica do Brasil pós-inflacionário, refere-se às patologias da imagem de si. Isso pode se apresentar sob forma de reificação de uma forma de vida cujo protótipo são as figuras da adolescência: indeterminação de destinos, crise permanente da identidade de si, sentimento de inadequação do corpo próprio, orientação sexual-amorosa baseada na experimentação. Aqui é a narrativa da perda da alma, e das estratégias de recuperação que ganha relevo. A violência assume a figura da demanda de reconhecimento. Os tempos articulatórios da demanda: o pedido, a recusa, o objeto oferecido e a negação, encontram-se dispersos e por vezes desarticulados. Isso explicaria os fenômenos secundários da erotização da infância e das práticas de controle e descontrole alimentar (anorexia, bulimia, vigorexia).
A ideia de uma nova forma de violação do pacto social aparece em Boca do Lixo de Eduardo Coutinho (1992). Aqui vemos a violência silenciosa, baseada na ruptura da conexão ideológica entre pobreza-violência ser deslocada para a narrativa da violação do pacto entre ricos e pobres, lido agora na chave das patologias do consumo. A rarefação de ideais, torna-se um problema maior do que a oposição entre estética ou cosmética da fome. O estudo sobre a população que vive e se reproduz em torno do lixo encontra sua apoteose na cena final na qual a massa se percebe no pequeno monitor de televisão posicionado em cima de uma Kombi da produção, ao som de uma romântica balada que reproduz um sucesso musical americanizado. Vidas em situação de precariedade, na qual pequenos sonhos e a capacidade de imaginar um futuro melhor aparecem como despropósitos desmentidos pelo documentário. Vidas que retratam a ordem e o caráter sistemático em uma situação à qual supõe-se anomia e efeitos radicais da exclusão. Percebe-se então diferenças até então irrelevantes, entre aquele que pertence à ralé e o que pode emergir como batalhador. Diferença tão sutil como perder ou manter os dentes da frente, possuir ou não uma carroça para catar papelão, ter um endereço para receber entregas ou um telefone para se definir a partir de um “lugar”.
É a dificuldade de sonhar, desejar e imaginar futuros possíveis que se encontra