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Tópico: A Escola Norte-Americana
Como os Estados Unidos foram colonizados por europeus, é comum comparar sua história e, consequentemente, de sua educação, com a da Europa. Sobre a relação entre a escola norte-americana e a europeia, Mario Alighieri Manacorda desta que “[...] a escola na Europa continuava sendo, no seu conjunto, a velha escola livresca, verbalista e autoritária. Perante esta, a escola dos Estados Unidos aparecia, no seu conjunto, muito diferente”[footnoteRef:1] [1: Manacorda, Mario Alighieri. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. Tradução de Gaetano Lo Monaco. São Paulo: Cortez, 1996, p. 307. ] 
O fim da escravidão nos Estados Unidos, em 1865, não possibilitou a construção de escolas multiétnicas. As escolas para afrodescendentes eram exclusivas para estes, procurando incutir hábitos morais e voltados para o trabalho, dentro do escopo de formação de mão de obra. Exemplo disso, o “Instituto Agrícola e Normal de Hampton, que no último terço do século XIX formou professores negros para lecionar nas classes primárias, associando as disciplinas de praxe ao ensino agrícola profissionalizante”[footnoteRef:2] enquanto os brancos tinham suas próprias escolas. [2: Veiga, Cynthia Greive. História da educação. São Paulo: Ática, 2007. p. 115.] 
O apelo de Thomas Jefferson (1743-1826) para que fosse difundido o conhecimento, era um ideal deste presidente norte-americano de 1801 a 1809. De modo geral, a educação era atendida por escolas ligadas à religião protestante e por escolas de associações locais. 
Na primeira metade do século XIX predominou a ação da Igreja, símbolo do compromisso protestante com a alfabetização, e é importante notar que havia taxas significativas de alfabetização nas zonas rurais e nas pequenas cidades americanas em contraste com os centros urbanos. Em 1840 surgiram escolas urbanas de caridade, mantidas com subvenções públicas, e desde o início do século XIX, como na Inglaterra, tornou-se popular o método Lancaster ou o ensino monitorial.[footnoteRef:3] [3: , Veiga. p. 114.] 
As escolas públicas cresceram em número a partir de meados do século XIX. Elas eram mantidas por impostos locais e com relativa autonomia em relação ao poder central do país, de tal modo que, informa Veiga, 
[...] o Ministério da Educação dos Estados Unidos, criado em 1867, quase não teve outra função além de compilar estatísticas escolares até a década de 1960. Dessa forma, a relação entre escola e Estado se fez de forma descentralizada, com administração local por meio de distritos escolares comunitários.[footnoteRef:4] [4: Veiga. p. 114. ] 
O que é uma característica do comunitarismo estadunidense. Conforme apontam Peralta, Dias e Gonçalves, “Nos EUA, o governo é descentralizado e o controle de muitas funções públicas, como o ensino escolar, fica a cargo, essencialmente, dos estados e das comunidades locais” [footnoteRef:5] [5: Peralta, Deise Aparecida; Dias, Ana Lucia Braz; Gonçalves, Harryson Junio Lessa. Educação Profissional nos EUA: traços históricos, legais e curriculares. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 43, n. 3, p. 969-987, jul./set. 2018. p. 970. ] 
Do ponto de vista da Filosofia da Educação, eram difundidas as ideias utilitaristas e liberais, dentro do espírito pragmático que marcou a sociedade estadunidense. Nos Estados Unidos, havia 
[...] uma escola de tipo novo, onde não existiam mais traços de métodos de ensino através de palavras que não fossem traduzidas em ato pelos alunos e onde os alunos eram treinados para encontrar sozinhos as verdades, a resolver problemas científicos; onde, enfim, o critério fundamental era aprender fazendo, o learning by doing.[footnoteRef:6] [6: Manacorda. p. 309. ] 
 Esse espírito liberal pressupunha a necessidade da educação para disciplinar a inteligência dos alunos com vistas a conquista da independência ou autonomia pessoal. 
Algumas questões importantes:
a- Em 1890 já havia 184 escolas normais, visando preparar professores, sendo 138 públicas e 46 privadas.
b- A escola serviu para adaptar os imigrantes que chegavam em larga escala aos Estados Unidos, inclusive com aulas de inglês em contraturno.
c- No ano da independência dos Estados Unidos, 1776, já havia 11 instituições de ensino superior no país. Em 1862 já eram 250 (Veiga, p. 115). Essas universidade buscam no modelo alemão de ensino superior a ideia de associação entre pesquisa e ensino. Apenas que, como são ligadas às empresas que fornecem dotações orçamentárias, as pesquisas, às vezes, ficam atreladas aos interesses do mercado, comprometendo uma suposta autonomia universitária. 
d- A relação entre moral e trabalho, típicas da colonização puritana, marca fortemente a educação estadunidense. 
Sobre o ambiente educacional no século XIX estadunidense, vale a pena reproduzir, aqui, uma reportagem de 1874, publicada pela revista Harper’s Magazine, que trata do ataque sofrido pelas escolas. Observe como esse periódico se alinha ao partido republicano e combate o partido democrata.
“Mas os inimigos do sistema público de instrução são numerosos, tenazes, ativos e estão presentes em toda parte da União [...]
Os membros mais violentos da democracia sulista se uniram numa associação secreta para destruir a escola pública e para exercer terríveis violências sobre os professores. Sob o governo republicano, o sistema público de instrução foi introduzido na Geórgia, Alabama e Texas. Porém, os democratas conquistaram o controle desses estados, pela violência e pela fraude, e desde então as leis escolares forma ignoradas ou destruídas e até a grande maioria da população branca é condenada a uma ignorância perpétua.
Contra as escolas de cor e seus professores, a raiva da democracia sulista chegou a níveis de verdadeira loucura... Uma distinta jovem senhora de cor, que ousara trabalhar como professora no West Tennesse, foi morta na sua própria casa; há apenas três dias começara sua perigosa profissão. Espera-se que a Nação inflija uma pena de exemplar severidade aos autores destes horríveis fatos nos Estados do Sul...
Nos Estados do Norte, os únicos inimigos perigosos do sistema público de instrução são os padres católicos romanos. Estes são, em geral estrangeiros não acostumados aos princípios da liberdade e do progresso americanos... Por isso o clero católico romano forma em toda parte da União um corpo forte e unido, que trabalha para destruir as escolas públicas... De fato, algo semelhante aconteceu em Nova Iorque. Durante um longo período de domínio dos católicos romanos, as escolas decaíram. Grandiosos seminários católicos forma instituídos à custa da cidade. O Education Board,[footnoteRef:7] nomeado por Tweed, se empenhou, numa tentativa secreta ou aberta, em diminuir a eficiência das escolas públicas... Agora está fazendo tudo para abolir a high school noturna, na qual, durante os noves anos passados, centenas de jovens adquiriram vantagens e instrução. (19 de setembro de 1874)”[footnoteRef:8] [7: Conselho de Educação] [8: Citado em Manacorda. p. 308.]

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