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O conteúdo deste trabalho não representa a posição da Consultoria Legislativa, tampouco da Câmara dos Deputados, sendo de exclusiva responsabilidade de seus autores. SETEMBRO DE 2023 ESTUDO TÉCNICO Políticas de Cotas no Brasil: das “ações negativas” imigratórias e fundiárias às ações afirmativas na educação superior Renato de Sousa Porto Gilioli Consultor Legislativo da Área XV Educação, Cultura e Desporto 2 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. © 2024 Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados(as) os(as) autores(as). São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seus(suas) autores(as), não representando a posição da Consultoria Legislativa, caracterizando-se, nos termos do art. 13, parágrafo único da Resolução nº 48, de 1993, como produção de cunho pessoal do(a) consultor(a). 3 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. RESUMO EXECUTIVO No Brasil, existe discriminação racial e sociorracial ainda no presente. Por essa razão, sem ações afirmativas a desigualdade vivida por negros, indígenas, e pessoas com deficiência (PcDs), o que se aplica também às mulheres, essa discriminação continuaria talvez tão intensa e dramática quanto no século passado. Este Estudo recupera, historicamente, a aplicação de políticas de cotas em nosso país, retomando desde as “ações negativas” de exclusão de imigrantes africanos e as orientadas a restringir a imigração asiática — bem como, simultaneamente, estimular fluxos migratórios de brancos europeus com o propósito de embranquecimento da população — até, pelo seu reverso, as ações afirmativas destinadas ao ingresso de negros, indígenas e PcDs na educação superior pública. Para além dessas políticas de cotas, são também recuperadas outras cotas vinculadas à imigração, ao trabalho, aos concursos públicos e às candidaturas eleitorais. A Constituição de 1988 foi marco fundamental para a mudança qualitativa das políticas de cotas, que desde então se institucionalizaram de fato como ações afirmativas. Isso ocorre primeiramente para PcDs, seguindo-se para a reserva de vagas para candidatas mulheres nas eleições, depois para o ingresso em cursos superiores em Estados como o Rio de Janeiro e na rede federal de ensino, seguidas das cotas para concursos públicos, sendo que, nessas últimas, o estabelecimento de comissões de heteroidentificação se institucionalizou com mais força desde 2018. Para tanto, são analisadas normas legais do país que remontam o início da República e chegam até os últimos anos. Como conclusão, tem-se que, enquanto as cotas que se configuraram como “ações negativas” em um passado mais distante orientavam-se a prejudicar grupos como negros, indígenas e “trabalhadores nacionais” em detrimento de imigrantes brancos europeus, as cotas existentes desde 1990 estabeleceram-se como políticas públicas destinadas a promover igualdade material de oportunidades a segmentos historicamente hipossuficientes — PcDs, negros, indígenas e mulheres. Palavras-chave: políticas públicas, cotas, “ações negativas”, ações afirmativas, imigração, branqueamento, eugenia, racismo, trabalhadores nacionais, imigrantes, trabalho, eleições, educação superior, pessoas com deficiência (PcDs), negros, pretos, pardos, indígenas, mulheres, antirracismo. 4 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................... 5 2. COTAS ANTERIORES ÀS EDUCACIONAIS: IMIGRAÇÃO, TRABALHO, CONCURSOS PÚBLICOS E ELEIÇÕES .......................................................... 6 2.1 POVOS INDÍGENAS: DA AUSÊNCIA DA PLENA CIDADANIA COMO IMPEDIMENTO DE AÇÕES AFIRMATIVAS AO MARCO DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 COMO NOVO CICLO DE LUTA POR DIREITOS ............................ 7 2.2 IMIGRAÇÃO, TRABALHO E CANDIDATURAS ELEITORAIS ............... 14 3. AÇÕES AFIRMATIVAS NA EDUCAÇÃO ................................................... 33 3.1 RESULTADOS DOS COTISTAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR ............. 43 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................... 56 5. REFERÊNCIAS ............................................................................................ 58 5 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. 1. INTRODUÇÃO No Brasil, há discriminação racial e sociorracial ainda no presente. Os efeitos de séculos de discriminação persistem nas gerações futuras, visto que os segmentos não discriminados conseguem melhores condições de transmissão transgeracional de suas vantagens sociais. Sem ações afirmativas, a desigualdade vivida por indígenas, negros, mulheres e pessoas com deficiência continuaria talvez tão intensa e dramática quanto era no século passado. As primeiras iniciativas de cotas voltadas à inserção cidadã desses segmentos na sociedade surgiram no âmbito de políticas para o trabalho e cotas para candidatas mulheres nos anos 1990, posteriormente se estendendo às instituições de ensino superior e para os concursos públicos. Essas ações dos poderes públicos permitem às comunidades discriminadas terem acesso a instrumentos que permitem a melhoria de suas condições e a de seus descendentes. Ações afirmativas em empregos privados, no serviço público e em instituições de ensino superior são políticas públicas orientadas a oferecer igualdade material de oportunidades a segmentos historicamente hipossuficientes. A escravidão (até 1888), as diversas leis contrárias às comunidades negras e aos povos indígenas (até o marco inovador da Constituição Federal de 1988), o racismo estrutural e a discriminação racial reinantes (até hoje presentes) foram e são fatores que impediram e impedem a competição meritocrática indistinta de todos os segmentos da população brasileira. Por essa razão, foi necessário inserir mecanismos legais, normativos e administrativos — por meio das ações afirmativas —, para que a condição de competição meritocrática de grandes segmentos hipossuficientes (como negros, indígenas e pessoas com deficiência) se tornasse minimamente mais equilibrada em relação aos demais. No caso da educação superior, não somente os cotistas tiveram chance de adentrar um espaço institucional e social antes de difícil acesso, como mostraram, segundo vários levantamentos, 6 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. resultados equivalentes ou até melhores do que os não cotistas, o que reforça o quanto a reserva de vagas não fere a competição e o reconhecimento dos melhores e proporciona quadros estudantis qualificados e representados na diversidade na educação superior pública. No entanto, embora as ações afirmativas destinadas a segmentos como negros, indígenas e pessoas com deficiência tenham um histórico mais recente, políticas de cotas têm um retrospecto mais antigo no Brasil, nem sempre tendo se configurado como ações afirmativas, mas sim como “ações negativas”. Esses elementos devem ser recuperados para uma melhor compreensão dos sentidos, dinâmicas e desafios das atuais ações afirmativas, que se revelam como iniciativas fundamentais para a promoção de uma cidadania equilibrada e justa para todos. 2. COTAS ANTERIORES ÀS EDUCACIONAIS: IMIGRAÇÃO, TRABALHO, CONCURSOS PÚBLICOScandidatos às vagas das ações afirmativas teriam que necessariamente ser “carentes”. Dessa forma, o critério social tornou- se anterior ao critério racial: Lei Estadual nº 4.151, de 4 de setembro de 2003 [modificada pelas Leis Estaduais nº 5.074/2007 e nº 5230/2008, que inseriram o inciso III do caput do art. 1º] https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10536010/art-1-da-lei-3708-01-rio-de-janeiro 35 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Art. 1º - Com vistas à redução de desigualdades étnicas, sociais e econômicas, deverão as universidades públicas estaduais estabelecer cotas para ingresso nos seus cursos de graduação aos seguintes estudantes carentes: I - oriundos da rede pública de ensino; II - negros; III - pessoas com deficiência, nos termos da legislação em vigor, integrantes de minorias étnicas, filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. Como se pode observar, o primeiro critério é o social. Como subgrupo dos candidatos carentes, foram desdobrados egressos da rede pública de ensino, os negros, os portadores de deficiência e os integrantes de minorias étnicas e filhos de agentes de segurança mortos ou incapacitados em serviço. As subcotas (entre as quais a subcotas raciais) integrantes das cotas sociais têm suas subdivisões determinadas segundo as seguintes proporções: Art. 5º - Atendidos os princípios e regras instituídos nos incisos I a IV do artigo 2º e seu parágrafo único, nos primeiros 5 (cinco) anos de vigência desta Lei deverão as universidades públicas estaduais estabelecer vagas reservadas aos estudantes carentes no percentual mínimo total de 45% (quarenta e cinco por cento), distribuído da seguinte forma: I - 20% (vinte por cento) para estudantes oriundos da rede pública de ensino; II - 20% (vinte por cento) para negros; e III - 5% (cinco por cento) para pessoas com deficiência, nos termos da legislação em vigor, integrantes de minorias étnicas, filhos de policiais civis, militares, bombeiros militares e de inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos em razão do serviço. 36 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. De acordo com a redação dada pelo diploma legal de 2007, o § 3º do art. 1º passou a ter a seguinte redação: § 3º - O edital do processo de seleção, atendido o princípio da igualdade, estabelecerá as minorias étnicas e as pessoas com deficiência beneficiadas pelo sistema de cotas, admitida a adoção do sistema de autodeclaração para negros e pessoas integrantes de minorias étnicas, e da certidão de óbito, juntamente com a decisão administrativa que reconheceu a morte em razão do serviço, para filhos dos policiais civis, militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, cabendo à universidade criar mecanismos de combate à fraude. (NR) A ação afirmativa estabelecida nessa lei não se restringe, no entanto, ao ingresso na educação superior pública estadual, incluindo também mecanismos como bolsas e outros instrumentos para a garantia da permanência e da conclusão do curso: Art. 4º - O Estado proverá os recursos financeiros necessários à implementação imediata, pelas universidades públicas estaduais, de programa de apoio visando obter resultados satisfatórios nas atividades acadêmicas de graduação dos estudantes beneficiados por esta Lei, bem como sua permanência na instituição. Em 2008, após a última modificação na lei estadual de 2003, foi editada nova norma no Rio de Janeiro, revogando todas as anteriores em favor do seguinte texto, que é similar (cota social desdobrada em subcotas educacionais, raciais e demais, com a diferença de que a referência genérica a “minorias” foi subtraída): Lei nº 5346, de 11 de dezembro de 2008 Art. 1º Fica instituído, por dez anos, o sistema de cotas para ingresso nas universidades estaduais, adotado com a finalidade de assegurar seleção e classificação final nos exames vestibulares aos seguintes estudantes, desde que carentes: 37 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. I - negros; II - indígenas; III - alunos da rede pública de ensino; IV - pessoas portadoras de deficiência, nos termos da legislação em vigor; V - filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. § 1º Por estudante carente entende-se como sendo aquele assim definido pela universidade pública estadual, que deverá levar em consideração o nível socioeconômico do candidato e disciplinar como se fará a prova dessa condição, valendo- se, para tanto, dos indicadores socioeconômicos utilizados por órgãos públicos oficiais. § 2º Por aluno oriundo da rede pública de ensino entende-se aquele que tenha cursado integralmente todas as séries do 2º ciclo do ensino fundamental e do ensino médio em escolas públicas de todo território nacional. § 3° O edital do processo de seleção, atendido ao princípio da igualdade, estabelecerá as minorias étnicas e as pessoas portadoras de deficiência beneficiadas pelo sistema de cotas, admitida a adoção do sistema de autodeclaração para negros e pessoas integrantes de minorias étnicas, e da certidão de óbito, juntamente com a decisão administrativa que reconheceu a morte em razão do serviço, para filhos dos policiais civis, militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, cabendo à universidade criar mecanismos de combate à fraude. Art. 2º As cotas de vagas para ingresso nas universidades estaduais serão as seguintes, respectivamente: I - 20% (vinte por cento) para os estudantes negros e indígenas; II - 20 % (vinte por cento) para os estudantes oriundos da rede pública de ensino; III - 5% (cinco por cento) para pessoas com deficiência, nos termos da legislação em vigor, e filhos de policiais civis, 38 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. militares, bombeiros militares e de inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. A vigência de dez anos do texto foi prorrogada, no 2º semestre de 2018, pela Lei nº 8.121, de 27 de setembro de 2018, nos seguintes termos (acréscimo de quilombolas, entre outros aspectos): Art. 1º Fica prorrogada, pelo prazo mínimo de dez anos, a vigência do Programa de Ação Afirmativa, previsto na Lei 5.346, de 11 de dezembro de 2008, aplicável ao ingresso e permanência de estudantes, negros, indígenas e quilombolas, alunos oriundos da rede pública de ensino, pessoas com deficiência, filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço, desde que carentes, nos cursos de graduação das respectivas instituições públicas de ensino superior do Estado do Rio de Janeiro. A prorrogação se deu, portanto, por pelo menos mais dez anos (até 2028), com detalhamentos extensos acerca da política de ação afirmativa: os percentuais determinados na lei estadual de 2008 tornam-se mínimos, podendo ser ampliados pelos Conselhos Universitários da Uerj e da Uenf; o prazo mínimo de dez anos também pode ser estendido a critério dessas universidades públicas; além de regular ações para além da cota de ingresso, como reservas de vagas de estágio e bolsas permanência, entre outras. Outras instituições de ensino superior também adotaram cotas para ingresso em seus cursos superiores. Na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), seu Conselho Superior decidiu,em 18 de julho de 2002, pela implementação de um sistema de cotas destinado a candidatos negros, sendo a reserva de vagas depois ampliada para candidatos indígenas, em 2007, e para vários outros grupos — quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e com altas habilidades, travestis e transexuais — em 2018. Em paralelo, na Universidade de Brasília (UnB), o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou, em 6 de junho de 2003, o Plano https://www.jusbrasil.com.br/topicos/205406591/art-1-da-lei-8121-18-rio-de-janeiro https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/87636/lei-5346-08 https://noticias.unb.br/images/Noticias/2018/06-Jun/Plano-de-Metas-Cotas-UnB1.pdf 39 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. de Metas para Integração Social, Étnica e Racial, segundo o qual 20% das vagas do vestibular seriam destinadas a candidatos negros, além de prever a disponibilização de vagas para indígenas de acordo com demanda específica. A medida entrou em vigência no ano seguinte (2004). Note-se que, nesse caso, a cota era exclusivamente racial e o critério de classificação era a autoidentificação, algo que nos anos recentes foi- se alterando, no caso das instituições federais de ensino, para a heteroidentificação (para evitar “fraudes” na declaração, embora elas possam ser igualmente detectadas e punidas segundo o critério da autoidentificação, como já ocorreu em vários casos). Não apenas no sistema federal a heteroidentificação se aplica, mas também em sistemas de educação superior pública estaduais, como no Estado de São Paulo, conforme se pode verificar em LEITE (2019). Na esfera federal, a Lei do Prouni instituiu cotas sociais e educacionais, detalhadas no art. 1º da Lei nº 11.096, 13 de janeiro 2005 (conversão de Medida Provisória do ano anterior), com subcotas raciais estabelecidas no art. 7º, para ingresso na educação superior privada: § 1º A bolsa de estudo integral será concedida a brasileiros não portadores de diploma de curso superior, cuja renda familiar mensal per capita não exceda o valor de até 1 (um) salário- mínimo e 1/2 (meio). § 2º As bolsas de estudo parciais de 50% (cinquenta por cento) ou de 25% (vinte e cinco por cento), cujos critérios de distribuição serão definidos em regulamento pelo Ministério da Educação, serão concedidas a brasileiros não-portadores de diploma de curso superior, cuja renda familiar mensal per capita não exceda o valor de até 3 (três) salários-mínimos, mediante critérios definidos pelo Ministério da Educação. [critério social: baixa renda familiar mensal per capita] Art. 2º A bolsa será destinada: I - a estudante que tenha cursado o ensino médio completo em escola da rede pública ou em instituições privadas na condição de bolsista integral; https://noticias.unb.br/images/Noticias/2018/06-Jun/Plano-de-Metas-Cotas-UnB1.pdf 40 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. II - a estudante portador de deficiência, nos termos da lei; III - a professor da rede pública de ensino, para os cursos de licenciatura, normal superior e pedagogia, destinados à formação do magistério da educação básica, independentemente da renda a que se referem os §§ 1o e 2o do art. 1o desta Lei. […] Art. 7º As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: […] II - percentual de bolsas de estudo destinado à implementação de políticas afirmativas de acesso ao ensino superior de portadores de deficiência ou de autodeclarados indígenas e negros. § 1º O percentual de que trata o inciso II do caput deste artigo deverá ser, no mínimo, igual ao percentual de cidadãos autodeclarados indígenas, pardos ou pretos, na respectiva unidade da Federação, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. § 2º No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios do § 1o deste artigo, as vagas remanescentes deverão ser preenchidas por estudantes que se enquadrem em um dos critérios dos arts. 1º e 2º desta Lei. Antes de passar à Lei de Cotas de 2012 (ingresso em instituições federais de ensino superior), não se pode deixar de fazer referência às edições da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006), que tem dispositivo que se refere ao combate à discriminação racial (art. 8º, caput, IX) e do Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010), que contempla uma série de políticas de combate à discriminação racial no País. Na educação superior, a modelagem da Lei do Prouni serviu de referência para a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012 — Lei de Cotas de acesso à educação pública federal (ensino médio técnico em escolas técnicas federais e cursos superiores em instituições federais de ensino superior). As cotas da lei de 2012 são primeiramente educacionais, tendo como 41 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. desdobramento subcotas sociais e as subcotas dedicadas a pessoas com deficiência e a negros e indígenas, bem como, conforme exemplo da lei estadual carioca de 2008, prazo de vigência de dez anos: Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012 [alterada pela Lei nº 13.049/2016, que adicionou as pessoas com deficiência às cotas raciais] Art. 1º As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Parágrafo único. No preenchimento das vagas de que trata o caput deste artigo, 50% (cinquenta por cento) deverão ser reservados aos estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo (um salário-mínimo e meio) per capita. Art. 3º Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Parágrafo único. No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, aquelas remanescentes deverão ser completadas por estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Art. 4º As instituições federais de ensino técnico de nível médio reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso em cada curso, por turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que cursaram integralmente o ensino fundamental em escolas públicas. http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2012.711-2012?OpenDocument 42 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Parágrafo único. No preenchimento das vagas de que trata o caput deste artigo, 50% (cinquenta por cento) deverão ser reservados aos estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo (um salário-mínimo e meio) per capita. Art. 5º Em cada instituição federal de ensino técnico de nível médio, as vagas de que trata o art. 4º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termosda legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo do IBGE. Parágrafo único. No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, aquelas remanescentes deverão ser preenchidas por estudantes que tenham cursado integralmente o ensino fundamental em escola pública. Art. 7º No prazo de dez anos a contar da data de publicação desta Lei, será promovida a revisão do programa especial para o acesso às instituições de educação superior de estudantes pretos, pardos e indígenas e de pessoas com deficiência, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. No mesmo ano em que foi editada a Lei de Cotas (2012), o Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento da ADPF nº 186, decidiu por unanimidade que as cotas exclusivamente raciais da UnB, existentes desde 2004, eram constitucionais. Nesse ano, com o advento da Lei de Cotas, a UnB, por ser universidade federal, ficou submetida ao novo regramento legal, pelo qual, conforme mencionado, as cotas são educacionais (egressos da rede pública), com subcotas sociais (renda) e subcotas para pessoas com deficiência e raciais, nas proporções da população registrada pelo Censo do IBGE em cada Unidade da Federação. 43 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. 3.1 RESULTADOS DOS COTISTAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR Como avaliação consolidada das cotas para ingresso na educação superior, três pesquisas sucessivas do perfil do alunado das universidades federais conduzidas pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) demonstram, ao longo da década de 2010, como resultado que se pode atribuir à edição da Lei de Cotas, que as instituições federais de ensino superior alteraram fortemente o perfil de seu alunado, de modo que, atualmente, cerca de 60% dos alunos são carentes e mais de metade já são negros. Contrariamente à realidade existente até os anos 1990, na qual estudantes ricos e brancos, egressos do ensino médio privado ingressavam nas instituições de ensino superior públicas em números expressivos, tem-se que os efeitos práticos da Lei de Cotas demonstram cabalmente notável democratização do acesso às universidades federais por parte de candidatos negros oriundos de famílias pobres. No entanto, a noção de que “a universidade pública é um espaço ocupado pelas elites” — que já não mais corresponde à situação real — persiste, no senso comum, como até o presente. Vários levantamentos também demonstram que o ingresso de cotistas não rebaixou o nível acadêmico dos estudantes. O acesso por cotas sociorraciais não significa necessariamente que os cotistas ingressantes têm menor aproveitamento nas disciplinas ao longo de seus cursos de graduação. Em alguns casos, como já se identificou no Prouni, por exemplo, o resultado dos cotistas (sejam eles oriundos de cotas meramente sociais ou também raciais) ao longo do curso superior até mesmo supera o dos alunos que ingressaram nas vagas de ampla concorrência. Os casos em que se registra desempenho superior dos cotistas ao longo da graduação se explica, em parte, pelo fato de que aquela é uma oportunidade única para aquele estudante (e, não raro, para toda a sua família), que se esforça ainda mais do que um não cotista em seus estudos, sabendo que isso lhe renderá a garantia de permanecer vinculado ao programa (o desempenho é uma exigência do Prouni) e de colher os frutos profissionais e pessoais posteriores ao fim do curso superior. 44 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. No que se refere à Lei de Cotas de 2012 (ingresso em educação superior pública federal), o resultado dos cotistas, ao longo dos cursos superiores é similar ao dos não cotistas: Uma das principais perguntas no debate sobre cotas em universidades públicas é se alunos beneficiados conseguem acompanhar a faculdade. Os dados mostram que aqueles que entram por esse caminho se formam com desempenho próximo aos demais alunos em pouco mais da metade dos cursos. A nota deles é inferior, porém, especialmente nas exatas. Dos dez cursos em que os cotistas estão mais atrás dos demais, sete são dessa área. A Folha analisou o desempenho de 252 mil estudantes nas últimas três edições do Enade, de 2014 a 2016. O exame é aplicado pelo Ministério da Educação a alunos no último ano da graduação e contém perguntas de conhecimentos gerais e específicos. Em 33 dos 64 cursos, a nota média dos estudantes beneficiados por cotas ou outra ação afirmativa foi superior ou até 5% inferior -desempenho considerado semelhante, pois representa diferença de até dois pontos em cem possíveis em uma prova (TAKAHASHI, SALDANHA e SOARES, 2017)). A matéria detalha, ainda, que o curso em que os cotistas tiveram resultado inferior maior em relação aos não cotistas não apresenta diferença substancial: odontologia (6% menor, resultado muito próximo também à média). No entanto, nas exatas, o problema é generalizado, uma vez que a evasão chega a 50%, tanto para cotistas como para não cotistas. No que se refere a esse aspecto, a bolsa permanência e outras políticas de assistência estudantil são fator decisivo, tanto para cotistas quanto para não cotistas, para que os alunos consigam acompanhar o curso superior, sem evasão e com sucesso escolar. Há diversas proposições legislativas no sentido de tornar lei o Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), criado pela Portaria MEC nº 39, de 12 de dezembro de 2007, seguido da edição do Decreto nº 7.234, de 19 de julho de 2010, que deu estatura regulamentar de maior envergadura ao 45 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Programa. A fixação em lei do Pnaes, que figurou como uma necessidade durante muito tempo (pois um dos grandes desafios para os cotistas é permanecer no curso superior e concluí-lo) foi alcançada, finalmente, com a edição da Lei nº 14.914, de 3 de julho de 2024, que “institui a Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes)”. É fundamental, ainda, garantir ampliação de recursos orçamentários para essa Política, para que a assistência estudantil possa efetivamente mitigar a evasão e auxiliar a manutenção do estudante ao longo de seu curso superior. Em paralelo, com foco especialmente em indígenas e quilombolas, o Programa Bolsa Permanência, instituído pela Portaria MEC nº 389, de 9 de maio de 2013, concede auxílio financeiro a estudantes de graduação matriculados em instituições federais de ensino superior (Ifes) em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O sentido é similar ao do Pnaes, com a diferença que este último abrange não apenas bolsas para graduandos, mas também assistência para saúde, creche, alimentação e outros setores. O Programa Bolsa Permanência foi estabelecido, portanto, como o objetivo de minorar as desigualdades sociais e étnico-raciais no acesso, permanência e conclusão de cursos superiores das Ifes. Como resultados da bolsa permanência, registra-se o dado de que foram alocados R$ 133 milhões “para execução das ações do programa no ano de 2022, [com] 12.327 estudantes indígenas e quilombolas e 803 vulneráveis atendidos pelo programa no ano de 2022”. Outra pesquisa, realizada pelos professores Jacques Wainer (Unicamp) e Tatiana Melguizo (Universidade do Sul da Califórnia) aponta também equivalência nos resultados de estudantes cotistas e não cotistas, abrangendo não somente as instituições federais de ensino superior, mas também as privadas, por meio do Prouni (queno Censo da Educação Superior do Inep, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Eram 7.256 indígenas matriculados e esse quantitativo passou para 57.706, o que representa 0,68% do total de estudantes em universidades, centros universitários e faculdades. No Paraná vivem cerca de 13.300 indígenas e aproximadamente 70% pertence ao povo caingangue, o que reforça a importância e perenidade do projeto. O Estado tem 23 terras indígenas demarcadas pelo governo federal. Esta reportagem da série “Paraná, o Brasil que dá certo” mostra como o acesso à universidade tem transformado a realidade de estudantes oriundos de comunidades indígenas. Ronaldo Alves da Silva, tem 33 anos, pertence à etnia Guarani e é da Terra Indígena Pinhalzinho, no Norte Pioneiro, onde vivem cerca de 160 indígenas. Na escola ele já 53 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. percebeu a necessidade da presença de professores indígenas que trabalhassem com a cultura local. E esse cenário foi o que motivou Ronaldo a buscar uma formação de ensino superior para contribuir com a comunidade (PARANÁ, 2023). Por ocasião da edição da Lei nº 14.723, de 13 de novembro de 2023, a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012) foi alterada, “para dispor sobre o programa especial para o acesso às instituições federais de educação superior e de ensino técnico de nível médio de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino médio ou fundamental em escola pública”. Pela modificação efetuada na Lei de Cotas, são incluídos os quilombolas nas reservas de vagas já existentes; é estabelecida prioridade para a assistência estudantil aos cotistas que se encontrarem em situação de vulnerabilidade social; e há determinação de que as instituições federais de ensino superior (Ifes) promovam políticas de ações afirmativas para inclusão de negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência em seus programas de pós-graduação stricto sensu. Este último ponto merece ser ressaltado, pois aponta para um novo horizonte de aplicação de cotas. Ainda que respeitada a autonomia da Ifes para adotar a reserva de vagas na pós-graduação stricto sensu, a inserção no ordenamento jurídico pátrio dessa nova cota sugere que não somente as políticas de ação afirmativa anteriores se consolidaram, como também tendem a se expandir ainda mais no âmbito da educação superior. Vale transcrever alguns dos dispositivos inseridos na Lei de Cotas pela Lei nº 14.723/2023, incluídos neles a mencionada ampliação das cotas para a pós-graduação e a previsão legal de que se faça avaliação decenal da política de cotas: Art. 7º A cada 10 (dez) anos a contar da data de publicação desta Lei, será promovida a avaliação do programa especial para o acesso às instituições de educação superior de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência, bem como dos que tenham cursado integralmente o ensino médio em escola pública. Parágrafo único. O Ministério da Educação divulgará, anualmente, relatório com informações sobre o programa especial de acesso às instituições federais de educação https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12711.htm#art7.0 54 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. superior e de ensino técnico de nível médio, do qual deverão constar, pelo menos, dados sobre o acesso, a permanência e a conclusão dos alunos beneficiários e não beneficiários desta Lei.” (NR) Art. 7º-A. Os alunos optantes pela reserva de vagas no ato da inscrição do concurso seletivo que se encontrem em situação de vulnerabilidade social terão prioridade para o recebimento de auxílio estudantil de programas desenvolvidos nas instituições federais de ensino. Art. 7º-B. As instituições federais de ensino superior, no âmbito de sua autonomia e observada a importância da diversidade para o desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação, promoverão políticas de ações afirmativas para inclusão de pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência em seus programas de pós- graduação stricto sensu. Art. 7º-C. Após 3 (três) anos da divulgação dos resultados do censo do IBGE, o Poder Executivo deverá adotar metodologia para atualizar anualmente os percentuais de pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência em relação à população das unidades da Federação, na forma da regulamentação. Em outra linha de ação, são ainda poucos docentes negros e indígenas em Ifes, de modo que a ampliação desse contingente pode ser objeto de iniciativas que desaguem em novas políticas públicas doravante. Vale o registro para as ponderações de José Jorge de Carvalho: Devemos também aprofundar o sentido da construção da cidadania multirracial implícito na Lei 12.990/2014 de cotas para o serviço público. Se quisermos transformar o Brasil em uma sociedade de cidadania plena para todos, multirracial, multiétnica e verdadeiramente diversa em nações, povos, comunidades e segmentos populares, será preciso que as provas de ingresso na carreira de servidor público incluam questões que avaliem um conhecimento básico acerca da diversidade étnica e racial do país e um domínio igualmente básico dos valores, saberes e visões de mundo das nações indígenas e das comunidades afro-brasileiras. Na medida em que as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) preparam os professores que ensinarão os materiais didáticos acerca da História da África, da Cultura Afro- Brasileira e da Cultura Indígena, conforme determinam as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, espera-se, portanto, que os candidatos a servidores públicos demonstrem conhecimento da complexidade e da https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12711.htm#art7a https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12711.htm#art7b https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12711.htm#art7c 55 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. riqueza étnica e racial da sociedade brasileira. Além dos conteúdos destas duas leis, os concursos devem refletir a diversidade racial, de classe e gênero na composição das bancas de seleção e incluir questões que avaliem o conhecimento dos candidatos acerca dos aspectos do racismo brasileiro e das estratégias e políticas antirracistas. Coerente com a implementação da legislação mencionada acima, o Estado deve explicitar a mudança profunda que todas as leis supracitadas propõem e afirmar uma ética antirracista, a ser assumida em todos os três níveis da administração pública. Por razões idênticas, é preciso que os concursos para professores e técnicos administrativos nas IFES, em todas as áreas, incluam uma avaliação do conhecimento dos candidatos acerca das políticas de cotas e dos valores antirracistas que deverão nortear um novo convívio acadêmico, ou seja, para além das cotas (e junto com elas), esperamos que os docentes e os técnicos das IFES adquiram consciência de que fazem parte de uma instituição pública pautada pelo valor da igualdade racial e da convivência antirracista (e também antissexista, anti-homofóbica, obviamente) (CARVALHO, 2022). Note-se que, para além de cotas para ingresso na graduação, na pós-graduação stricto sensu e para docentes nas Ifes, bem como do incremento das políticas de assistência estudantil aos cotistas, não se trata unicamente de prover espaços e recursos materiais, na medida em que o espaço universitário — seja no âmbito privado (Prouni) quanto no público (Ifes e instituições públicas estaduais) — deve ser epistemologicamente acolhedor aos cotistas, em especial no caso dospovos indígenas e dos quilombolas, cujas identidades como sujeitos coletivos se estabelecem de maneira diferenciada. A valorização de saberes comunitários desses segmentos é vital, assim como o próprio processo de construção de conhecimentos precisa ser inclusivo, democrático, intercultural e plural, adotando critérios pedagógicos, avaliativos, práticas de estudo, ações de valorização das línguas maternas indígenas e de dialetos quilombolas, entre outros aspectos. Expressa-se, em suma, a necessidade de um conjunto que não seja orientado por uma perspectiva excludente. 56 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este Estudo teve o objetivo de apresentar retrospecto de maior alcance histórico acerca das políticas de cotas no Brasil. Para além das ações afirmativas adotadas no âmbito da educação — em especial a reserva de vagas para cursos superiores públicos federais, constante na Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012) —, as quais datam de pouco mais de duas décadas em nosso país, identificamos uma série de políticas de cotas anteriores, em outros setores. Cotas para imigrantes, para a cessão de terras, para o trabalho, para concursos públicos e para candidaturas às eleições antecederam as ações afirmativas na educação. Por serem políticas públicas e estabelecerem cotas diversas, cada qual com propósitos e formas de implementação distintas, não podiam ser negligenciadas na presente análise. Ademais, as primeiras cotas (cota zero para imigrantes africanos, por exemplo, no início da República) inserem-se no que denominamos “ações negativas”, ou seja, políticas públicas destinadas a prejudicar determinados segmentos (negros, indígenas, “trabalhadores nacionais”) em benefício de outros (imigrantes brancos europeus). Os efeitos históricos, ao longo de gerações, dessas “ações negativas” auxiliam a entender, em parte, o próprio surgimento das ações afirmativas destinadas a proteger segmentos sociais hipossuficientes (PcDs, negros, indígenas). Afinal, se a República por muito tempo retirou oportunidades de igualdade de cidadania de negros e indígenas, bem como pouco fez políticas de real promoção às PcDs ao longo da maior parte do século XX, as ações afirmativas contemporâneas podem ser interpretadas, entre outras formas, como uma reversão daquelas “ações negativas” históricas. Nessa trajetória, a República desde o início promoveu políticas públicas fundamentadas no pensamento eugênico, desfavorecendo “trabalhadores nacionais” (prioritariamente negros e indígenas), proibindo a imigração de africanos e dificultando a de asiáticos, para priorizar a vinda de brancos europeus. Uma vez que este influxo migratório foi colossal e 57 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. consolidado, a distribuição de terras priorizou, também com cotas, os imigrantes europeus. Nos anos 1930, foram registradas as primeiras políticas de cotas que se destinavam a proteger os trabalhadores nacionais em atividades laborais. No entanto, normas como a Lei dos Dois Terços não eram de fácil aplicação. Ademais, havia a ressalva de que os estrangeiros que estavam há mais tempo no país eram equiparados aos brasileiros, de modo que as restrições à vinda de novos imigrantes e a que ocupassem postos de trabalho no Brasil não foram de tão grande impacto quanto uma primeira impressão poderia evocar. A mudança na própria dinâmica dos fluxos migratórios da Europa para as Américas também já havia mudado estruturalmente. O momento era outro. Mesmo assim, a finalidade de embranquecimento da população manteve-se nas leis vigentes ao menos até o começo dos anos 1980. Entre os anos 1940 e a década de 1980, o Brasil acatou diversos tratados e compromissos internacionais que propugnavam a implementação de ações afirmativas para segmentos da sociedade que sofriam discriminação racial. Momento de grande modificação foi representado pela Constituição de 1988, que abriu um novo ciclo de demandas de direitos e de promoção mais ampliada da cidadania. Não por coincidência, a lei do regime jurídico dos servidores públicos de 1990 estabeleceu, pouco depois da promulgação da Carta Magna, cota para PcDs em concursos públicos, seguida da inserção de cota para PcDs em postos de trabalho (1991). Em 1997, vieram as cotas para candidatas mulheres nas eleições, progressivamente ampliadas nos anos seguintes, as cotas para ingresso em universidades públicas estaduais no Rio de Janeiro em 2000, as cotas da Lei do Prouni (2005), a Lei de Cotas para ingresso nas instituições federais de ensino (2012) e as cotas para negros em concursos públicos (2014). Até 2012, predominava a autoidentificação. A partir de então, cada vez mais a heteroidentificação passou também a ser critério adicional, com o destaque para o estabelecimento de comissões de heteroidentificação desde 2018, por regulamento federal. 58 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Salvo para o caso da UnB no período 2004-2012 (cotas exclusivamente raciais), em todos os casos as cotas são educacionais e sociais, havendo subcotas, entre as quais as raciais; no caso da Lei nº 12.711/2012, a principal cota é educacional, tendo subcota social e subcotas raciais e para PcDs. Todos os julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) confirmaram a validade jurídica e a constitucionalidade das cotas que, em algum momento, foram questionadas. Quanto aos resultados das políticas de ação afirmativa na educação, fartamente documentados e objeto de medições para a educação superior, é predominante — quase unânime — a conclusão de que o desempenho acadêmico dos cotistas, em termos gerais, equipara-se ao dos não cotistas e, em alguns casos, até mesmo superior a estes (especialmente no caso do Prouni). Esse retrospecto de cotas aplicadas por meio de políticas públicas permite compreendermos uma série de dinâmicas da ordem jurídica interna ao longo de mais de um século, podendo se constatar que nem sempre cotas foram sinônimo de ações afirmativas, dada a existência, no passado, do que denominamos, aqui, “ações negativas”. No entanto, as cotas para ingresso na educação superior são recentes no Brasil, estabelecidas em leis estaduais e federais, bem como amplamente amparadas por decisões do STF, que consolidou a validade dessas políticas desde 2012. No presente, a Lei de Cotas foi alterada para prever a ampliação das reservas de vagas para a pós- graduação stricto sensu das instituições federais. De todo modo, pode-se sumarizar as ações afirmativas contemporâneas como ações e políticas essenciais dos poderes públicos destinadas a promover reparações históricas para os segmentos hipossuficientes, entre os quais PcDs, mulheres, negros e indígenas. 5. REFERÊNCIAS BANIWA, Gersem. A Lei de Cotas e os povos indígenas: mais um desafio para a diversidade e para a inclusão social. Portal Geledés, 13 dez. 2012. Disponível 59 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. em: https://www.geledes.org.br/a-lei-das-cotas-e-os-povos-indigenas-mais-um- desafio-para-a-diversidade. Acesso em: 17 ago. 2023. BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Programa Bolsa Permanência. Brasília: MEC, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/acesso-a- informacao/institucional/secretarias/secretaria-de-educacao- superior/bolsapermanencia. Acesso em: 17 ago. 2023. BRASIL. Câmara dos Deputados. Comissão de Educação e Cultura (CEC). Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). Acesso e permanência no ensino superior: cotas raciais e étnicas. Brasília, 2004. CARRANÇA, Thais. Cotas raciais foram mais efetivas que por renda, afirma estudo. Valor, “Brasil”, 10 jun.http://www.anped.org.br/sites/default/files/gt11-4981-int.pdf http://www.anped.org.br/sites/default/files/gt11-4981-int.pdfE ELEIÇÕES As políticas de ação afirmativa abrangem largo espectro de ações e iniciativas, entre as quais as mais conhecidas são as chamadas cotas, ou seja, reservas de vagas. Se as cotas para ingresso na educação superior são a face mais conhecida das ações afirmativas, muito antes houve estabelecimento de cotas para recebimento de imigrantes, para pessoas com deficiência em concursos públicos e para postos de trabalho. Em período histórico mais recente, também foram criadas cotas para ocupação de candidaturas femininas a mandatos eletivos e as destinadas a negros em concursos públicos. Antes, porém, de nos debruçarmos sobre essas diversas políticas de cotas estabelecidas ao longo de décadas, cabe um apontamento relativo aos povos indígenas, de maneira a circunstanciar aspectos relativos à atuação dos poderes públicos junto a esse segmento. Prosseguimos com um detalhamento de normas que estabeleceram cotas nas áreas de imigração, trabalho e eleições. 7 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. 2.1 POVOS INDÍGENAS: DA AUSÊNCIA DA PLENA CIDADANIA COMO IMPEDIMENTO DE AÇÕES AFIRMATIVAS AO MARCO DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 COMO NOVO CICLO DE LUTA POR DIREITOS Os direitos fundamentais e a cidadania dos povos sempre se constituíram em grandes desafios ao longo de nossa história. Povos originários, que habitavam o território antes da chegada dos portugueses, vivenciaram processos de dizimação e tomada de suas terras ao longo de séculos. Por conta do avanço da colonização, a questão fundiária sempre foi, talvez, o fulcro da discussão das normas jurídicas referentes aos povos indígenas. Na América Portuguesa, por muito tempo foi permitida a escravização dos indígenas, que só foi proibida por meio de leis editadas em 1755 e 1758. Portanto, nem sequer a condição de sujeito de direito foi reconhecida por mais de duzentos anos. Uma das primeiras medidas que mitigaram a privação de direitos dos povos indígenas durante o período colonial foi o Alvará de 1º de abril de 1680, que passou a considerá-los “primários e naturais senhores” das terras que ocupavam, em relação às quais ficaria reconhecida sua posse. Em tese, essas terras não poderiam ser concedidas pela Coroa a proprietários por meio de sesmarias. No entanto, a formalização dos poucos direitos que os povos indígenas poderiam usufruir era dificultosa, de modo que, na prática, as normas que estabeleciam medidas de proteção raramente eram aplicadas. Ademais, outras eram abertamente contrárias a esses povos. Em 1808, por exemplo, foram editadas cartas régias que permitiam “guerras justas” contra os “índios” nas Províncias de São Paulo (que compreendia o atual Paraná) e de Minas Gerais (Sposito, 2011). Pouco antes da Independência, dados demográficos oficiais apontavam a existência de 800 mil “índios não domesticados” no Brasil (1816- 17) e outros 3,6 milhões de habitantes do território brasileiro. Projetos de constitucionalização da temática indígena surgiram no âmbito das Cortes de Lisboa (1821) e, após a ruptura do Brasil com Portugal, da Constituinte de 1823. Nessa Assembleia, houve até uma “Comissão de Civilização, Catequese e Colonização”, cujos trabalhos levaram à inclusão, no Projeto de Constituição de 8 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. setembro de 1823, do seguinte dispositivo: “art. 245. Terá igualmente cuidado de criar estabelecimentos para a catequese e civilização dos índios, emancipação lenta dos negros e sua educação religiosa e industrial” (Sposito, 2011, p. 61). O objetivo presente nas discussões da época que deram origem a esse texto era a “assimilação” e a conversão desses povos em mão de obra assalariada. Porém, nenhuma dessas iniciativas foi positivada no ordenamento jurídico da época. A Constituição Imperial de 1824 não mencionou os indígenas, lacuna que os colocava à margem de qualquer cidadania possível, sem qualquer estabelecimento de participação civil ou política para esse segmento da população. Na medida em que não era reconhecido qualquer grau mínimo de cidadania aos povos originários, eles sequer seriam destinatários de políticas públicas por muito tempo. Mesmo as cartas régias que permitiam as “guerras justas” contra indígenas em SP e MG somente foram revogadas em 1831 (Sposito, 2011). Os indígenas voltaram a ser objeto de atenção no ordenamento jurídico apenas no meio do século XIX. Pela Lei de Terras de 1850 (Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, que dispõe sobre as terras devolutas do Império), “o Governo reservará das terras devolutas as que julgar necessárias: 1º, para a colonisação dos indigenas; [...]” (art. 12). A despeito da sinalização aparentemente positiva em favor dos povos indígenas, o texto da Lei de Terras de 1850 não apresentava nenhuma obrigação de o poder público reservar efetivamente terras aos indígenas. O referido dispositivo dessa lei não estabeleceu cotas de terras destinada aos indígenas, mas aparenta ter sido uma espécie de embrião das normas que, mais tarde, deram origem à criação de reservas indígenas. No entanto, a primeira reserva, o Parque Nacional do Xingu, demorou mais de um século após a Lei de Terras de 1850 para ser proposta (1952) e somente foi oficializada em 1961. A Lei nº 1.114, de 27 de setembro de 1860, autorizou o governo, no seu art. 11, a diversas ações, entre as quais “aforar ou vender, na conformidade da Lei nº 601, de 18 de Setembro de 1850, os terrenos pertencentes ás antigas Missões e Aldêas dos Indios, que estiverem 9 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. abandonados, cedendo todavia a parte que julgar sufficiente para a cultura dos que nelles ainda permanecerem, e os requererem” (art. 11, § 8º). Ainda assim, as discussões no âmbito das políticas públicas restringiam-se, como se observa, à ocupação e uso da terra, com efeitos práticos limitadíssimos naquilo que poderia representar algum esboço de garantia de direitos aos indígenas. No Censo de 1872, a denominação que se referia aos indígenas era “caboclos”, alterada somente no Censo de 1940, quando estes passaram a ser classificados como “pardos” e, finalmente, “indígenas” no Censo de 1991. Conforme o verbete “Serviço de Proteção ao Índio” do CPDOC- FGV: A catequese missionária não conseguira convertes os índios, impedir as invasões de seus territórios, nem impedir o extermínio de inúmeras tribos. Muitas desapareceram pelo contágio de doenças transmitidas pelos invasores, ou pela matança promovida por matadores profissionais, os chamados bugreiros, que eram contratados pelos especuladores de terras. A situação se agravou quando da abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que atravessava o território dos índios Kaingang, no estado de São Paulo, desencadeando uma disputa armada entre esses índios e os trabalhadores da estrada de ferro. O mesmo ocorreu em Minas Gerais e no Espírito Santo, quando os índios Botocudos reagiram à invasão de suas terras por colonos. Também no sul do Brasil, em Santa Catarina e Paraná houve lutas entre índios e colonos. Em 1908, durante o XVI Congresso de Americanistas, em Viena, Áustria, houve denúncias de que o Brasil estava massacrando os índios. Essa denúncia levou o governo federal a buscar uma ação de proteção leiga e privativa do Estado às populações indígenas (FGV, CPDOC, s/d). Em resposta à péssima repercussão internacional do tratamento conferido aos povos indígenas no Brasil, o governo federal tratou de dar uma resposta jurídica à situação. Mesmo assim, a norma que criou o Serviço de 10 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Proteção aos Índios e Localização dos TrabalhadoresNacionais (SPILTN) — Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910, sendo esse órgão desmembrado, com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em 1918 (Decreto-Lei nº 3.454, de 6 de janeiro de 1918) —, mantinha como um de seus focos centrais, novamente, a questão fundiária: Art. 4º Realizado o accôrdo, o Governo Federal mandará proceder medição e demarcação dos terrenos, levantar a respectiva planta com todas as indicações necessarias, assignalando as divisas com marcos ou padrões de pedra. Art. 10. Si os indios, que estiverem actualmente aldeiados, quizerem fixar-se nas terras que occupam, o governo providenciará de modo a lhes ser mantida a effectividade da posse adquirida. Art. 11. As terras de que trata o artigo anterior serão medidas e demarcadas na fórma do art. 4º. Art. 15. Cada um dos antigos aldeiamentos, reconstituidos de accôrdo com as prescripções do presente regulamento, passará a denominar-se «Povoação Indigena», onde serão estabelecidas escolas para o ensino primario, aulas de musica, officinas, machinas e utensilios agricolas, destinados a beneficiar os productos das culturas, e campos apropriados a aprendizagem agricola. Art. 20. Taes aldeiamentos ou instituições passarão logo ao regimem instituido no presente regulamento para os similares creados pelo Governo Federal. Art. 21. Os indios trabalharão livremente e terão pleno direito ao producto integral do seu trabalho. Para além da difícil aplicação das regras de proteção aos indígenas, seu tratamento como incapazes foi afirmado peremptória e explicitamente no Código Civil de 1916: Art. 6. São incapazes, relativamente a certos atos (art. 147, n. 1), ou à maneira de os exercer: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L3071.htm#art147 11 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. I. Os maiores de dezesseis e menores de vinte e um anos (arts. 154 a 156). II. As mulheres casadas, enquanto subsistir a sociedade conjugal. III. Os pródigos. IV. Os silvícolas. Parágrafo único. Os silvícolas ficarão sujeitos ao regime tutelar, estabelecido em leis e regulamentos especiais, o qual cessará á medida que se forem adaptando á civilização do paiz. De acordo com o Decreto nº 5.484, de 27 de junho de 1928, “a capacidade, de facto, dos indios soffrerá as restricções prescriptas nesta lei, emquanto não se incorporarem elles á sociedade civilizada” (art. 5º). Reitera-se: na medida em que não eram considerados cidadãos plenos, nem sequer se entendia que os povos indígenas deveriam ter acesso a quaisquer cotas ou políticas públicas destinadas a promover maior acesso a quaisquer direitos e prerrogativas de outros cidadãos. Mais uma vez, a questão fundiária era o centro de preocupação dos poderes públicos: Art. 10. O Governo Federal promoverá a cessão gratuita para o dominio da União das terras devolutas pertencentes aos Estados, que se acharem occupadas pelos indios, bem como a das terras das extintas aldeias, que foram transferidas ás antigas Provincias pela lei de 20 de outubro de 1887. § 1º As terras cedidas serão delimitadas em zonas correspondentes á occupação legal já existente, sendo respeitada a posse dos indios, assim como o uso e goso por eIles das riquezas naturaes ahi encontradas. § 2º Respeitada essa posse, poderá o Governo Federal empregar as ditas terras para a fundação de povoações indigenas, ou quaIquer outra fórma de localização de indios. A tutela sobre o sujeito indígena era ainda intensa no Estatuto do Índio (Lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973), a ponto de ser necessária https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L3071.htm#art154 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L3071.htm#art156 12 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. decisão judicial e cumprimento de determinados pré-requisitos para que essa tutela civil não fosse exercida pela Funai: Art. 9º Qualquer índio poderá requerer ao Juiz competente a sua liberação do regime tutelar previsto nesta Lei, investindo-se na plenitude da capacidade civil, desde que preencha os requisitos seguintes: I - idade mínima de 21 anos; II - conhecimento da língua portuguesa; III - habilitação para o exercício de atividade útil, na comunhão nacional; IV - razoável compreensão dos usos e costumes da comunhão nacional. Parágrafo único. O Juiz decidirá após instrução sumária, ouvidos o órgão de assistência ao índio e o Ministério Público, transcrita a sentença concessiva no registro civil. Portanto, as políticas públicas para os indígenas foram, ao menos até a Constituição de 1988, orientadas à chamada “assimilação” desses povos à mão de obra nacional e à sociedade circundante. Gabriela Rocha, por sua vez, explana o processo de mobilização entre os povos indígenas e a conquista de uma condição de efetiva cidadania normativo-jurídica, positivada na Carta Magna vigente: Assim, na condição de coletivos étnicos, os povos começaram a se reunir em assembleias indígenas em meados da década de 1970. Até 1983, já haviam se realizado 16 assembleias nacionais indígenas, quando surgiram também as primeiras organizações formalizadas, além da União da Nações Indígenas, em 1980. O movimento começava então a se constituir em diferentes escalas, enfrentando o desafio de conectar realidades muito diversas, além de obstáculos materiais como a distância, a dificuldade de acesso e a falta de recursos para a promoção dos encontros (RAMOS, 1998). Mesmo assim, fortaleceu-se do apoio de uma série de aliados, dentre eles missionários, indigenistas, ambientalistas e intelectuais em sua maioria. 13 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. O resultado dessas transformações históricas na resistência indígena, após um importante lobby indígena – permeado por disputas, alianças e a tomada, simbólica e física, dos espaços de poder – foi a conquista de um novo paradigma interétnico na Constituição de 1988, superando o integracionista e tutelar. Naquele momento se revogavam todas as disposições do Estatuto do Índio que contrariassem o novo paradigma, como a discriminação dos níveis de integração e seu correspondente estatuto de cidadania. Uma das mudanças mais significativas foi o fim da residualidade, premissa do evolucionismo cultural até então vigente. Além disso, a cidadania indígena deixa de ser pautada no indivíduo a ser integrado e passa a se referir às comunidades étnicas, reconhecidas como sujeitos coletivos de direitos. Por fim, o indigenismo passava a se constituir, a partir dali, uma importante ferramenta de tradução de diferenças, em lugar de se reduzir a um dispositivo de dominação e de indiferenciação (ROCHA, 2021). Na Constituinte de 1987-88, chegou a ser apresentada proposta de emenda popular no sentido de que o Brasil fosse definido como “República Federativa e Plurinacional”. Mesmo não tendo adotado essa redação, a Constituição Cidadã de 1988 estabeleceu novo quadro jurídico que conferiu, pela primeira vez, um rol extenso, amplo, orgânico e articulado de direitos aos povos indígenas, e que representou significativo impulso para as lutas subsequentes por direitos. Como exemplo, o art. 231 da Constituição Federal vigente prevê que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (caput), com os parágrafos desse dispositivo detalhando uma série de outras garantias. Assuntos indígenas ficaram sob a competência da União e a defesa desses povos sob responsabilidade do Ministério Público Federal. Pelo § 2º do art. 210, “o ensino fundamentalregular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem”. De acordo com o § 1º 14 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. do art. 215, “o Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. Por fim, as disposições constitucionais transitórias estabeleceram prazo de cinco anos para que fossem concluídas as demarcações de terras indígenas (art. 67 do ADCT). Como se pode verificar, foi somente com a atual Carta Magna que os povos indígenas passaram a usufruir de uma condição normativo-jurídica de cidadania suficiente para que os poderes públicos pudessem ser instados a estabelecer políticas em favor desse segmento. Não à toa que nunca houve quaisquer políticas de cotas para os indígenas antes de 1988, nem mesmo para o trabalho. Ao mesmo tempo, a promulgação da atual Constituição abriu um novo ciclo de lutas, que se expressou na inserção dos povos indígenas nas ações afirmativas contemporâneas. 2.2 IMIGRAÇÃO, TRABALHO E CANDIDATURAS ELEITORAIS Feitos esses apontamentos acerca dos povos indígenas, necessários para contextualizar a trajetória e os desafios desse segmento na obtenção de normas jurídicas positivadas que os retirassem da condição de não cidadãos — ou, no máximo, cidadãos de segunda classe, impedindo, na prática, que quaisquer políticas de cotas lhes fossem direcionadas —, tem-se que as leis de cotas no Brasil assumiram ao menos duas faces: as conhecidas ações afirmativas, que foram instituídas há menos tempo; e, com um retrospecto mais afastado, o que poderíamos denominar de “ações negativas”. Esta segunda ordem de nossas cotas é menos conhecida, mas fundamental que seja mencionada, até para que se compreenda parte do sentido das ações afirmativas estabelecidas nas últimas décadas. O que denominamos “ações negativas” consiste em um conjunto de leis que dificultaram o acesso das comunidades negras a certos direitos fundamentais. O Decreto nº 528, de 28 de junho de 1890 (Lei Glicério), proibiu a imigração africana e asiática ao Brasil. A Lei nº 97, de 5 de outubro de 1892, acabou com a proibição da entrada de asiáticos, mas manteve a de africanos. 15 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. O Decreto nº 6.455, de 19 de abril de 1907, concedia terras aos imigrantes em prejuízo dos brasileiros. Negros e indígenas, que eram a massa predominante de “trabalhadores nacionais”, dispunham somente de uma exígua cota de 10% dos lotes cedidos pelo governo a colonos rurais. Os demais 90% de terras oferecidas pela União deveriam ser cedidos a imigrantes (brancos europeus, segundo as políticas e ações governamentais de embranquecimento da população brasileira vigentes à época): Art. 46. Em nucleos destinados a estrangeiros apenas se poderá vender a nacionaes um numero de lotes inferior a 10% dos que aquelles occuparem. Todavia, quando em um nucleo a quantidade de lotes possuidos por estrangeiros attingir ou for superior a 300, será organizada, si conveniente, uma secção contigua de lotes para agricultores nacionaes. Art. 53. Em nucleos auxiliados pela União, a porcentagem de lotes destinados a nacionaes não deverá exceder de 10% dos reservados para agricultores estrangeiros. O auxilio pela collocação de cada familia de colonos nacionaes poderá attingir, no maximo, 500$, pagos em prestações, conforme as alineas a e b do n. V do artigo antecedente, porém depois de effectiva localização de familias estrangeiras, em quantidade que corresponda á porcentagem acima mencionada. Paragrapho unico. Sem auxilio da União, poderá o Estado formar, com o numero de lotes que entender, secções contiguas, destinadas a nacionaes. Art. 78. Effectivamente occupados 50 lotes ruraes por familias de immigrantes estrangeiros, poderá a empreza localizar cinco familias de nacionaes em lotes contiguos, e assim successivamente, concedendo o Governo, neste caso, os mesmos premios referidos no artigo precedente para collocação de familias estrangeiras. O PL nº 209/1921 tentou impedir o ingresso no Brasil de “indivíduos humanos das raças de côr preta”. O projeto não foi considerado inconstitucional pela grande maioria dos deputados, embora não tenha sido convertido em lei. Mais tarde, os constituintes de 1933 introduziram na 16 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Constituição de 1934 a defesa da eugenia (suposta “melhora da raça”) como parte da política que objetivava o embranquecimento da população. O art. 2º do Decreto-Lei nº 7.967, de 18 de setembro de 1945, estabelecia, além de cotas limitando a quantidade de estrangeiros a ingressar em território brasileiro, também determinação no sentido de “desenvolver […] as características mais convenientes da sua [dos imigrantes] ascendência europeia”: Art. 2º Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia, assim como a defesa do trabalhador nacional. Art. 3º A corrente imigratória espontânea de cada país não ultrapassará, anualmente a cota de dois por cento sôbre o número dos respectivos nacionais que entraram no Brasil desde 1º de janeiro de 1884 até 31 de dezembro de 1933. O órgão competente poderá elevar a três mil pessoas a cota de uma nacionalidade e promover o aproveitamento dos saldos anteriores. Parágrafo único. Quando se criar novo Estado, ser-1he-á fixada uma cota, tendo-se em vista especialmente a nacionalidade ou as nacionalidades nêle incluídas. Art. 4º Estão excluídos da cota: caráter temporário; a) a estrangeira casada com brasileiro, ou viúva de brasileiro, e o estrangeiro casado com brasileira; b) o estrangeiro que viajar em companhia do filho brasileiro; c) os imigrantes introduzidos no país de acôrdo com o estabelecido no Capítulo I do Título III. Em outra frente, em que se discutiam políticas públicas para a área do trabalho, o governo Vargas, em seu início, editou o Decreto nº 19.482, de 12 de dezembro de 1930, pelo qual “fica, pelo prazo de um ano, a contar de 1 de janeiro de 1931, limitada a entrada, no território nacional, de passageiros estrangeiros de terceira classe” (art. 1º), com poucas exceções (em essência, 17 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. estrangeiros que viajassem em terceira classe e: viessem por motivos comerciais, tivessem parentes aqui, fossem já domiciliados no Brasil e que tivessem ocupação laboral já certa). O art. 2º da mesma norma previa o seguinte: Art. 2º Salvo o disposto no artigo anterior, a nenhum estrangeiro que pretenda, vindo para o Brasil, nele permanecer por mais de 30 dias, será permitida a entrada sem provar que possue, no mínimo, quantia correspondente, em moeda nacional, a dois e três contos de réis, tratando- se, respectivamente, de indivíduos até doze anos e maiores de doze anos de idade. Esta norma legal ficou conhecida como “Lei de Nacionalização do Trabalho” ou “Lei dos Dois Terços”, pela previsão contida em seu art. 3º: Art. 3º Todos os indivíduos, empresas, associações, companhias e firmas comerciais, que explorem, ou não, concessões do Governo federal ou dos Governos estaduais e municipais, ou que, com esses Governos contratem quaisquer fornecimentos, serviços ou obras, ficam obrigadas a demonstrar perante o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, dentro do prazo de noventa dias, contados da data da publicação do presente decreto, que ocupam,entre os seus empregados, de todas as categorias, dois terços, pelo menos, de brasileiros natos. Parágrafo único. Somente na falta, de brasileiros natos, e para serviços rigorosamente técnicos, a juizo do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, poderá ser alterada aquela proporção, admitindo-se, neste caso, brasileiros naturalizados, em primeiro lugar, e, depois, os estrangeiros. A “Lei dos Dois Terços” — diferentemente de outras leis raciais anteriormente mencionadas — foi a primeira norma legal brasileira com ações afirmativas não destinadas a excluir um determinado grupo populacional. Ao contrário, tinha como propósito a inclusão dos trabalhadores nacionais no mercado de trabalho por meio de cotas. No entanto, de facto, não representava uma contundente exclusão de estrangeiros de levas migratórias anteriores, na medida em que a grande maioria deles havia, nas décadas anteriores, se naturalizado. 18 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. A disposição afetava, em essência, os novos imigrantes ou aqueles que tinham vindo mais recentemente para o Brasil e que ainda não haviam se naturalizado. Tanto é assim que o Decreto nº 20.291, de 12 de agosto de 1931, que aprovava regulamento para o art. 1º da “Lei dos Dois Terços”, dispunha o seguinte: Art. 2º Para os efeitos do disposto no artigo anterior, são equiparados aos brasileiros natos os estrangeiros cujos cônjuges forem brasileiros, e que, tendo filhos brasileiros, residam no Brasil há mais de 10 anos, ficando igualmente equiparados, durante cinco anos, a contar da data do decreto n. 20.261, de 29 de julho de 1931, os demais estrangeiros com o mesmo tempo de residência daqueles no país. […] Art. 7º Quando, por falta de trabalho, qualquer estabelecimento ou empresa houver de reduzir o número de seus empregados, operários ou trabalhadores, a dispensa dos estrangeiros deverá preceder sempre a dos brasileiros natos da mesma categoria, observado o disposto no art. 2º. Vários imigrantes eram equiparados a brasileiros natos, o que reduzia ainda mais o alcance da “Lei dos Dois Terços”. De todo modo, o intuito geral da lei e da norma regulamentar era proteger os brasileiros do desemprego. O desempregado tinha, em tese, a obrigação de assim se declarar, para que o governo pudesse dispor de sua mão de obra, direcionando-o a novos núcleos de povoamento e oferecendo passagens para esse deslocamento, “não podendo o desempregado, sem prévia autorização da repartição competente, tomar destino diferente do determinado nos documentos da passagem que lhe for fornecida” (§ 2º do art. 15 do Regulamento). Ou seja, era uma política de alocação de mão de obra, na qual o desempregado que assim se declarasse, ficava “na mão” do governo, sendo tolhida sua liberdade de movimento. Se o desempregado não obedecesse às ordens e destinos geográficos que o governo lhe impunha, o desrespeito ensejava “inquérito administrativo ou policial” (§ 2º do art. 16 do Regulamento) e multas para o trabalhador. Além disso, o trabalhador ficava sob o controle e a 19 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. fiscalização do Ministério do Trabalho (podendo também, eventualmente, ficar a cargo de órgãos estaduais congêneres) para puni-lo por não seguir o que o governo lhe ordenava, inclusive com multas. Caso desrespeitasse as diretivas do governo, se fosse intimida por essa razão, aos órgãos fiscais era dado poder de cobrar as multas emitidas contra o trabalhador pelo Ministério do Trabalho. Complementarmente, o art. 4º previa punições: Art. 4º Todos os desempregados, nacionais e estrangeiros, deverão apresentar-se nas delegacias de recenseamento do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, e, na falta destas, nas delegacias de polícia, fazendo declarações acerca de sua identidade, profissão e residência, afim de serem tomadas as medidas convenientes sobre sua ocupação, principalmente em serviços agrícolas. § 1º Os desempregados, nacionais ou estrangeiros, que, no prazo de noventa dias, contados da data deste decreto, não tenham feito as declarações a que alude este artigo, obtendo o documento comprobatório de sua apresentação àquelas delegacias, ficam sujeitos a processo por vadiagem, nos termos das leis penais em vigor. § 2º Ficam sujeitos às penas de que trata o art. 8º os indivíduos que, já estando empregados, fizerem declarações falsas, com o intuito de conseguir melhoria de colocação. […] Art. 8º Nos regulamentos que o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio expedir para a execução das medidas constantes deste decreto serão estabelecidas multas de 2:000$0 a 20:000$0 e prisão até 30 dias, conforme a natureza da infração. Pelo Decreto nº 20.917, de 7 de janeiro de 1932, a previsão da norma anterior foi prorrogada por mais um ano: “Ficam revigoradas até 31 de dezembro de 1932, as disposições constantes dos arts. 1º e 2º e respectivos parágrafos, do Decreto n.º 19.482, de 12 de dezembro de 1930” (art. 1º), apenas mitigado pela possibilidade de redução das quantias de dois e três mil réis pela metade, a juízo do Ministro do Trabalho (art. 2º). 20 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Alguns anos depois, a chamada “lei de cotas” de 1934 foi uma medida destinada a acentuar o controle sobre a entrada e a distribuição de trabalhadores estrangeiros no país. Na verdade, tratou-se de uma emenda ao Projeto de Constituição, no âmbito da Assembleia Nacional Constituinte de 1933- 34, que foi incorporada em dois parágrafos daquela Carta Magna. A seguir expomos sumariamente elementos constantes nas análises de Endrica Geraldo (2012). A Constituição de 1934 foi escrita tendo por base um anteprojeto, prevendo, nessa seara, que matéria de imigração seria privativa da União. Pelo anteprojeto, o governo federal poderia barrar imigrantes individual ou coletivamente e, nesse segundo caso, a legislação deveria prever quais correntes de imigrantes deveriam ser privilegiadas ou coibidas. Partindo desse texto, foram apresentadas emendas que desejavam tornar ainda mais rígida (e não somente uma disposição constitucional genérica, que “apenas” remetia à regulação posterior em lei) a política migratória oficial. Entre as emendas apresentadas, havia as que pretendiam: vedar o ingresso de analfabetos; impedir a entrada de não brancos; proibir imigrantes africanos e asiáticos; reduzir a vinda de asiáticos a 5%; estabelecer outras cotas étnicas (sempre no mesmo sentido eugênico); estabelecer a obrigação de exame de sanidade física e mental para os ingressantes; priorizar trabalhadores nacionais na colonização da Amazônia. Uma das intenções mais frequentes era limitar a entrada de japoneses, fluxo migratório que, iniciado no início do século XX, vinha crescendo anualmente. Além disso, outro grupo que parlamentares constituintes pretendiam manifestamente limitar a entrada de assírios iraquianos. Em paralelo, o exemplo do Immigration Act of 1924 (EUA) — com cotas de imigração por nacionalidade baseadas nas estatísticas do censo demográfico de 1890 daquele país e privilégios para se conseguir a cidadania estadunidense aos brancos europeus — também influenciou os debates parlamentares naquela Constituinte. De acordo com Geraldo, “[…] a versão final do texto resultou também de uma importante pressão exercida pelo próprio Getúlio Vargas. O chefe de Governo, por meio do Itamaraty, exerceu um importante papel para 21 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. impedir que a restrição fosse destinada apenas a africanos e asiáticos, ou ainda que a imigração japonesa fosse proibida em sua totalidade” (Geraldo, 2012,p. 200). Por fim, a Emenda nº 1619 “foi aprovada por 146 votos contra 41, estabelecendo o sistema de cotas para todas as nacionalidades de imigrantes”. Embora o art. 121 da CF 1934 trouxesse uma série de inegáveis avanços na seara trabalhista, conforme se pode verificar adiante, o texto definitivo, em seus §§ 6º e 7º, resultou da Emenda em questão: Art 121 - A lei promoverá o amparo da produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos do País. § 1º - A legislação do trabalho observará os seguintes preceitos, além de outros que colimem melhorar as condições do trabalhador: a) proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; b) salário mínimo, capaz de satisfazer, conforme as condições de cada região, às necessidades normais do trabalhador; c) trabalho diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos previstos em lei; d) proibição de trabalho a menores de 14 anos; de trabalho noturno a menores de 16 e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e a mulheres; e) repouso hebdomadário, de preferência aos domingos; f) férias anuais remuneradas; g) indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa; h) assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante, assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, e instituição de previdência, mediante contribuição igual da União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte; i) regulamentação do exercício de todas as profissões; j) reconhecimento das convenções coletivas, de trabalho. 22 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. § 2º - Para o efeito deste artigo, não há distinção entre o trabalho manual e o trabalho intelectual ou técnico, nem entre os profissionais respectivos. § 3º - Os serviços de amparo à maternidade e à infância, os referentes ao lar e ao trabalho feminino, assim como a fiscalização e a orientação respectivas, serão incumbidos de preferência a mulheres habilitadas. § 4º - O trabalho agrícola será objeto de regulamentação especial, em que se atenderá, quanto possível, ao disposto neste artigo. Procurar-se-á fixar o homem no campo, cuidar da sua educação rural, e assegurar ao trabalhador nacional a preferência na colonização e aproveitamento das terras públicas. § 5º - A União promoverá, em cooperação com os Estados, a organização de colônias agrícolas, para onde serão encaminhados os habitantes de zonas empobrecidas, que o desejarem, e os sem trabalho. § 6º - A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante, não podendo, porém, a corrente imigratória de cada país exceder, anualmente, o limite de dois por cento sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos cinqüenta anos. § 7º - É vedada a concentração de imigrantes em qualquer ponto do território da União, devendo a lei regular a seleção, localização e assimilação do alienígena. § 8º - Nos acidentes do trabalho em obras públicas da União, dos Estados e dos Municípios, a indenização será feita pela folha de pagamento, dentro de quinze dias depois da sentença, da qual não se admitirá recurso ex-offício. De acordo, ainda, com Endrica GERALDO (2012), Os imigrantes foram muitas vezes considerados como “indesejáveis”, com exceção dos chamados “brancos europeus”. Os que já se encontravam aqui fixados foram muitas vezes acusados de constituírem uma ameaça à formação da nacionalidade, em termos raciais ou culturais. A concentração de determinados grupos em núcleos coloniais (resultado de 23 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. políticas anteriores de imigração) foi pejorativamente denominada de “quistos” étnicos ou raciais. A partir do Estado Novo, o governo moveu campanhas destinadas a fiscalizar e “nacionalizar” os núcleos que possuíam escolas e imprensa em língua estrangeira. Com os acontecimentos internacionais que resultaram na Segunda Guerra Mundial, medidas repressivas se tornaram mais frequentes principalmente contra os estrangeiros de origem japonesa, alemã e italiana, além da elaboração de medidas de caráter sigiloso que visavam impedir a entrada de refugiados judeus. Antes disso, uma das decisões de maior relevância na política imigratória nacional ocorreu com a aprovação da emenda que ficou conhecida como “lei de cotas” (p. 175-176). As disposições dos §§ 6º e 7º do art. 121 da Constituição de 1934 eram, no entanto, difíceis de serem cumpridas na prática (pela dificuldade em ter estatísticas precisas, bem como pelo fato de os fluxos migratórios dos anos 1930 serem diferentes dos registrados nas décadas anteriores, o que inviabilizava o cumprimento de algumas das cotas, como a de italianos), de modo que Vargas criticou por vezes essa parte do texto constitucional após a promulgação daquela Carta Magna. Ainda assim, essa disposição, somada à ideia geral de proteger o brasileiro contra o desemprego promoveu, conjugada com outros fatores conjunturais — e, inclusive, externos, vinculados à redução da emigração oriunda de outras nações —, um menor fluxo migratório de estrangeiros para nosso país. Mais adiante, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT, Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943) inscreveu de maneira mais perene, na legislação nacional, a cota de dois terços para brasileiros nas atividades laborais: Art. 352 - As empresas, individuais ou coletivas, que explorem serviços públicos dados em concessão, ou que exerçam atividades industriais ou comerciais, são obrigadas a manter, no quadro do seu pessoal, quando composto de 3 (três) ou mais empregados, uma proporção de brasileiros não inferior à estabelecida no presente Capítulo. […] 24 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Art. 354 - A proporcionalidade será de 2/3 (dois terços) de empregados brasileiros, podendo, entretanto, ser fixada proporcionalidade inferior, em atenção às circunstâncias especiais de cada atividade, mediante ato do Poder Executivo, e depois de devidamente apurada pelo Departamento Nacional do Trabalho e pelo Serviço de Estatística de Previdência e Trabalho a insuficiência do número de brasileiros na atividade de que se tratar. Parágrafo único - A proporcionalidade é obrigatória não só em relação à totalidade do quadro de empregados, com as exceções desta Lei, como ainda em relação à correspondente folha de salários. Da regra do art. 352, estavam excluídos apenas os empreendimentos extrativistas não minerais de regiões rurais. De modo análogo ao regulamento da norma anterior (a “Lei dos Dois Terços”), “estrangeiros que, residindo no País há mais de dez anos, tenham cônjuge ou filho brasileiro” eram equiparados a brasileiros natos (art. 353), salvo para poucas profissões reservadas exclusivamente aos natos. Depois de décadas de cotas que se apresentaram, de um lado, como o que denominamos “ações negativas” (especialmente proibição de imigração de países cujos fluxos migratórios eram considerados “indesejáveis” e restrições de advento de novos imigrantes estrangeiros ao país), ou, de outro, como reserva de postos de trabalho em favor de brasileiros, após a promulgação da Constituição Federal de 1988, iniciativas diversas trouxeram, sob nova perspectiva, o debate da aplicação de cotas como políticas públicas, desta vez como ações afirmativas para promover acesso àcidadania a segmentos da população historicamente discriminados, e por isso hipossuficientes. O primeiro grupo a ser beneficiado com as reservas de vagas contemporâneas foi o das pessoas com deficiência (PcDs). A reserva de vagas para PcDs em concursos públicos foi obra da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, que “dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais”. O art. 5º dessa norma, que trata dos “requisitos básicos para investidura em cargo público”, tem o seguinte comando: “§ 2º Às pessoas portadoras de deficiência é assegurado o 25 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. direito de se inscrever em concurso público para provimento de cargo cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que são portadoras; para tais pessoas serão reservadas até 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas no concurso”. Pouco depois, foram criadas cotas para PcDs em postos de trabalho, retomando, ainda que de forma reelaborada e com outro foco, o fio histórico iniciado pelas cotas trabalhistas dos anos 1930. A cota para PcDs consta do art. 93 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que “dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências”. O dispositivo mencionado tem a seguinte redação: Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, na seguinte proporção: I - até 200 empregados..............................................2%; II - de 201 a 500.........................................................3%; III - de 501 a 1.000.....................................................4%; IV - de 1.001 em diante. ............................................5%. V - (VETADO). § 1º A dispensa de trabalhador reabilitado ou de deficiente habilitado ao final de contrato por prazo determinado de mais de 90 (noventa) dias, e a imotivada, no contrato por prazo indeterminado, só poderá ocorrer após a contratação de substituto de condição semelhante. (Vide Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) § 1º A dispensa de pessoa com deficiência ou de beneficiário reabilitado da Previdência Social ao final de contrato por prazo determinado de mais de 90 (noventa) dias e a dispensa imotivada em contrato por prazo indeterminado somente poderão ocorrer após a contratação de outro trabalhador com deficiência ou beneficiário reabilitado da Previdência Social. § 2º O Ministério do Trabalho e da Previdência Social deverá gerar estatísticas sobre o total de empregados e as vagas preenchidas por reabilitados e deficientes habilitados, fornecendo-as, quando solicitadas, aos sindicatos ou entidades representativas dos empregados. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm#art101 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm#art101 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm#art127 26 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. § 2º Ao Ministério do Trabalho e Emprego incumbe estabelecer a sistemática de fiscalização, bem como gerar dados e estatísticas sobre o total de empregados e as vagas preenchidas por pessoas com deficiência e por beneficiários reabilitados da Previdência Social, fornecendo-os, quando solicitados, aos sindicatos, às entidades representativas dos empregados ou aos cidadãos interessados. § 3º Para a reserva de cargos será considerada somente a contratação direta de pessoa com deficiência, excluído o aprendiz com deficiência de que trata a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1º de maio de 1943. § 4º (VETADO). Foi um grande avanço para o atendimento de um grupo historicamente desfavorecido, tendo sido um marco que prenunciaria iniciativas em outros campos: o eleitoral e, por fim, o educacional. Nesse sentido, cotas para mulheres candidatas foram estabelecidas no art. 11 da Lei nº 9.100, de 29 de setembro de 1995, em dispositivo que tratava de eleições para Câmaras Municipais: Art. 11. Cada partido ou coligação poderá registrar candidatos para a Câmara Municipal até cento e vinte por cento do número de lugares a preencher. § 1º Os partidos ou coligações poderão acrescer, ao total estabelecido no caput, candidatos em proporção que corresponda ao número de seus Deputados Federais, na forma seguinte: I - de zero a vinte Deputados, mais vinte por cento dos lugares a preencher; II - de vinte e um a quarenta Deputados, mais quarenta por cento; III - de quarenta e um a sessenta Deputados, mais sessenta por cento; IV - de sessenta e um a oitenta Deputados, mais oitenta por cento; V - acima de oitenta Deputados, mais cem por cento. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm 27 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. § 2º Para os efeitos do parágrafo anterior, tratando-se de coligação, serão somados os Deputados Federais dos partidos que a integram; se desta soma não resultar mudança de faixa, será garantido à coligação o acréscimo de dez por cento dos lugares a preencher. § 3º Vinte por cento, no mínimo, das vagas de cada partido ou coligação deverão ser preenchidas por candidaturas de mulheres. § 4º Em todos os cálculos, será sempre desprezada a fração, se inferior a meio, e igualada a um, se igual ou superior. A proporção de 20% foi ampliada para 30% na Lei Geral de Eleições de 1997 (Lei nº 9.504/1997): Art. 10. Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, Câmara Legislativa, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, até cento e cinqüenta por cento do número de lugares a preencher. Art. 10. Cada partido ou coligação poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais no total de até 150% (cento e cinquenta por cento) do número de lugares a preencher, salvo: (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015) Art. 10. Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais no total de até 100% (cem por cento) do número de lugares a preencher mais 1 (um). (Redação dada pela Lei nº 14.211, de 2021) I - nas unidades da Federação em que o número de lugares a preencher para a Câmara dos Deputados não exceder a doze, nas quais cada partido ou coligação poderá registrar candidatos a Deputado Federal e a Deputado Estadual ou Distrital no total de até 200% (duzentos por cento) das respectivas vagas; (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015) I - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 14.211, de 2021) II - nos Municípios de até cem mil eleitores, nos quais cada coligação poderá registrar candidatos no total de até 200% (duzentos por cento) do número de lugares a preencher. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015) https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 28 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalhoé de exclusiva responsabilidade de seu autor. II - (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 14.211, de 2021) § 1º No caso de coligação para as eleições proporcionais, independentemente do número de partidos que a integrem, poderão ser registrados candidatos até o dobro do número de lugares a preencher. § 1º (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015) § 2º Nas unidades da Federação em que o número de lugares a preencher para a Câmara dos Deputados não exceder de vinte, cada partido poderá registrar candidatos a Deputado Federal e a Deputado Estadual ou Distrital até o dobro das respectivas vagas; havendo coligação, estes números poderão ser acrescidos de até mais cinqüenta por cento. § 2º (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015) § 3º Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo. § 3º Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo. (Redação dada pela Lei nº 12.034, de 2009) § 4º Em todos os cálculos, será sempre desprezada a fração, se inferior a meio, e igualada a um, se igual ou superior. § 5º No caso de as convenções para a escolha de candidatos não indicarem o número máximo de candidatos previsto no caput e nos §§ 1º e 2º deste artigo, os órgãos de direção dos partidos respectivos poderão preencher as vagas remanescentes até sessenta dias antes do pleito. § 5º No caso de as convenções para a escolha de candidatos não indicarem o número máximo de candidatos previsto no caput, os órgãos de direção dos partidos respectivos poderão preencher as vagas remanescentes até trinta dias antes do pleito. (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015) Art. 11. Os partidos e coligações solicitarão à Justiça Eleitoral o registro de seus candidatos até as dezenove horas do dia 5 de julho do ano em que se realizarem as eleições. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14211.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art15 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art15 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L12034.htm#art3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13165.htm#art2 29 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. […] Art. 46. Independentemente da veiculação de propaganda eleitoral gratuita no horário definido nesta Lei, é facultada a transmissão por emissora de rádio ou televisão de debates sobre as eleições majoritária ou proporcional, assegurada a participação de candidatos dos partidos com representação no Congresso Nacional, de, no mínimo, cinco parlamentares, e facultada a dos demais, observado o seguinte: (Redação dada pela Lei nº 13.488, de 2017) I - nas eleições majoritárias, a apresentação dos debates poderá ser feita: a) em conjunto, estando presentes todos os candidatos a um mesmo cargo eletivo; b) em grupos, estando presentes, no mínimo, três candidatos; II - nas eleições proporcionais, os debates deverão ser organizados de modo que assegurem a presença de número equivalente de candidatos de todos os partidos e coligações a um mesmo cargo eletivo, podendo desdobrar-se em mais de um dia; II - nas eleições proporcionais, os debates poderão desdobrar-se em mais de um dia e deverão ser organizados de modo que assegurem a presença de número equivalente de candidatos de todos os partidos que concorrem a um mesmo cargo eletivo, respeitada a proporção de homens e mulheres estabelecida no § 3º do art. 10 desta Lei; (Redação dada pela Lei nº 14.192, de 2021) II - nas eleições proporcionais, os debates deverão ser organizados de modo que assegurem a presença de número equivalente de candidatos de todos os partidos a um mesmo cargo eletivo e poderão desdobrar-se em mais de um dia, respeitada a proporção de homens e mulheres estabelecida no § 3º do art. 10 desta Lei; Antes de tratar das ações afirmativas na educação, no entanto — as quais demandam uma análise mais alongada, acurada e específica —, vale fazer dois outros registros: o da política de cotas implementada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) no âmbito do Concurso de Admissão https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13488.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13488.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14192.htm#art6 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14192.htm#art6 30 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. à Carreira Diplomática (CACD) e o da lei de cotas para negros em concursos públicos. No primeiro caso, o Itamaraty instituiu, em Editais publicados anualmente, desde 2002, o Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco, que concede bolsas de estudo a candidatos afrodescendentes à admissão na carreira diplomática. Pouco depois, instituiu, nos Editais do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD), reserva de vagas de 10% para afrodescendentes na 1ª fase das provas para o ingresso no Itamaraty. As cotas para negros em concursos públicos, por sua vez, foram inseridas no ordenamento jurídico pátrio por meio da Lei nº lei nº 12.990, de 9 de junho de 2014, ampliando a reserva de vagas nesses certames para além das previstas desde 1990 para os PcDs. A Lei nº 12.990/2014, estabeleceu novas cotas, exclusivamente raciais, nos concursos públicos federais (nesta norma legal, o critério é a autodeclaração e não há cotas para indígenas): Art. 1º Ficam reservadas aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das 21 autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União. § 1º A reserva de vagas será aplicada sempre que o número de vagas oferecidas no concurso público for igual ou superior a 3 (três). § 3º A reserva de vagas a candidatos negros constará expressamente dos editais dos concursos públicos, que deverão especificar o total de vagas correspondentes à reserva para cada cargo ou emprego público oferecido. Art. 2º Poderão concorrer às vagas reservadas a candidatos negros aqueles que se autodeclararem pretos ou pardos no ato da inscrição no concurso público, conforme o quesito cor ou raça utilizado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Parágrafo único. Na hipótese de constatação de declaração falsa, o candidato será eliminado do concurso e, se houver sido nomeado, ficará sujeito à anulação da sua admissão ao serviço ou emprego http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2012.990-2014?OpenDocument http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2012.990-2014?OpenDocument 31 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor.público, após procedimento administrativo em que lhe sejam assegurados o contraditório e a ampla defesa, sem prejuízo de outras sanções cabíveis. Adicionalmente ao critério da autodeclaração constante na Lei de Cotas nos Concursos Públicos (Lei nº 12.990/2014), ato regulamentar do governo federal (Portaria Normativa MPOG nº 4, de 6 de abril de 2018) estabeleceu o procedimento de heteroidentificação, no qual uma comissão confirma se a autoidentificação prestada pelo candidato no ato da inscrição não é fraudulenta, para efeito de cumprimento da Lei nº 12.990/2014. Por fim, o Supremo Tribunal Federal, em junho de 2017, reconheceu, também por unanimidade, a plena validade da Lei nº 12.990/2014. Mais recentemente, a Instrução Normativa MGI nº 23, de 25 de julho de 2023 (Ministério da Gestão), regulamentou “a aplicação da reserva de vagas para pessoas negras nos concursos públicos para provimento de cargos públicos nos termos da Lei nº 12.990, de 9 de junho de 2014; e nas contratações por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público, de que trata a Lei nº 8.745, de 9 de dezembro de 1993” (art. 1º, caput e incisos I e II). Entre outros pontos a serem ressaltados, essa normativa determina que “os editais de concursos públicos ou de processos seletivos simplificados deverão garantir a participação de pessoas negras optantes pela reserva de vagas em todas as etapas do certame, sempre que atingida a nota mínima exigida em cada fase” (art. 10). Em seus dois artigos subsequentes, a Instrução Normativa prevê o seguinte: Art. 11. A nomeação de pessoas aprovadas, ainda que exclusivamente em cadastro de reserva e enquanto válido o certame, respeitará os critérios de alternância e proporcionalidade, devendo ser considerada a relação entre o número total de vagas, inclusive as que surgirem após a publicação do edital, e o número de vagas reservadas a pessoas com deficiência e a pessoas negras. Art. 12. Nos certames em que não haja previsão de vagas reservadas a pessoas negras em razão do quantitativo ofertado no edital, nos 32 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. termos do § 1º do art. 1º da Lei nº 12.990, de 2014, deverá ser assegurada a inscrição de pessoas autodeclaradas negras na condição de cotistas. Parágrafo único. Na hipótese de surgimento de novas vagas durante o prazo de validade do certame, será realizada a nomeação das pessoas negras aprovadas nos termos do edital, respeitado o percentual previsto no art. 1º da Lei nº 12.990, de 2014. Como regra adicional e alternativa, tem-se a determinação de que “os órgãos e entidades integrantes do Sipec poderão implementar outras estratégias de gestão para maximizar os resultados da implementação da Lei nº 12.990, de 2014, fazendo uso, entre outras alternativas, do agrupamento de vagas” (art. 31). O procedimento de heteroidentificação e as formas de atuação das comissões de heteroidenticação (bem como as comissões de recurso ao resultado) são detalhados do art. 14 ao 29. Desses, entre outras disposições, destaca-se o estabelecido no art. 21: Art. 21. A comissão de heteroidentificação utilizará exclusivamente o critério fenotípico para aferição da condição declarada pela pessoa no certame. § 1º Serão consideradas as características fenotípicas da pessoa ao tempo da realização do procedimento de heteroidentificação. § 2º Não serão considerados, para os fins do caput, quaisquer registros ou documentos pretéritos eventualmente apresentados, inclusive imagem e certidões referentes a confirmação em procedimentos de heteroidentificação realizados em certames federais, estaduais, distritais e municipais ou em processos seletivos de qualquer natureza. § 3º Não será admitida, em nenhuma hipótese, a prova baseada em ancestralidade. A escolha do critério fenotípico como único possível para a atuação das comissões de heteroidentificação, em oposição a quaisquer provas baseadas “em ancestralidade”, reforça a noção contemporânea de que o conceito de raça que se adota não é baseado na hereditariedade, mas sim na 33 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. situação que torna, de fato, os negros pessoas socialmente hipossuficientes: o preconceito baseado na aparência física. Embora essa normativa somente se dedique a regulamentar a lei de cotas para negros nos concursos públicos de 2014, a positivação jurídica desse conceito representa passo relevante para a consolidação de políticas de ação afirmativa em geral. 3. AÇÕES AFIRMATIVAS NA EDUCAÇÃO Há décadas a discussão das ações afirmativas existe no Brasil. No entanto, nenhuma área ganhou tanta notoriedade, ao se tratar de cotas, como a educação. A então ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), lembrou, em audiência pública na Câmara dos Deputados, em 13 de maio de 2004 — intitulada “Sistema de cotas em instituições de ensino superior público” —, que “Abdias do Nascimento, em 1946, sugeria o debate sobre ações afirmativas no Brasil, chamando a atenção das instituições públicas e privadas para que assumissem sua parcela de responsabilidade na construção da igualdade e da justiça social, a fim de garantir cidadania à população negra ex-escrava” (BRASIL, 2004, p. 18). A ideia de criar cotas na área da educação não é recente, portanto, embora sua positivação no ordenamento jurídico pátrio sim. No fim dos anos 1960, o Brasil tornou-se signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial (1967), que propugnava pela adoção de ações afirmativas nas políticas públicas. Mais tarde, a III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas (Conferência de Durban, 2001), trouxe, em sua Declaração e Plano de Ação de Durban, a reafirmação da relevância das ações afirmativas como forma de combate ao racismo. As primeiras medidas adotadas no Brasil pelos poderes públicos, nesse sentido, foram registradas pouco tempo antes dessa relevante reunião internacional também promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). A implementação de políticas de ação afirmativa na educação superior se deu no âmbito dos processos seletivos, primeiramente em nível estadual e, depois, na esfera federal. A primeira legislação que estabeleceu 34 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. cotas para o ingresso na educação superior foi a Lei Estadual nº 3.524, de 28 de dezembro de 2000 (Rio de Janeiro), que em seu art. 2º estabeleceu critério unicamente socioeconômico e educacional para o acesso às universidades públicas daquele Estado (Uerj e Uenf): Art. 2º - As vagas oferecidas para acesso a todos os cursos de graduação das universidades públicas estaduais serão preenchidas observados os seguintes critérios: I - 50% (cinquenta por cento), no mínimo por curso e turno, por estudantes que preencham cumulativamente os seguintes requisitos: a) tenham cursado integralmente os ensinos fundamental e médio em instituições da rede pública dos Municípios e/ou do Estado. […] No ano seguinte, outra lei estadual carioca estabeleceu cotas exclusivamente raciais para as universidades públicas daquela Unidade da Federação: Lei Estadual nº 3.708, de 9 de novembro de 2001 Art. 1º - Fica estabelecida a cota mínima de até 40% (quarenta por cento) para as populações negra e parda no preenchimento das vagas relativas aos cursos de graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. O arco de beneficiados pelas cotas foi ampliado dois anos depois, para determinar que todos ospovos indígenas e dos quilombolas, cujas identidades como sujeitos coletivos se estabelecem de maneira diferenciada. A valorização de saberes comunitários desses segmentos é vital, assim como o próprio processo de construção de conhecimentos precisa ser inclusivo, democrático, intercultural e plural, adotando critérios pedagógicos, avaliativos, práticas de estudo, ações de valorização das línguas maternas indígenas e de dialetos quilombolas, entre outros aspectos. Expressa-se, em suma, a necessidade de um conjunto que não seja orientado por uma perspectiva excludente. 56 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este Estudo teve o objetivo de apresentar retrospecto de maior alcance histórico acerca das políticas de cotas no Brasil. Para além das ações afirmativas adotadas no âmbito da educação — em especial a reserva de vagas para cursos superiores públicos federais, constante na Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012) —, as quais datam de pouco mais de duas décadas em nosso país, identificamos uma série de políticas de cotas anteriores, em outros setores. Cotas para imigrantes, para a cessão de terras, para o trabalho, para concursos públicos e para candidaturas às eleições antecederam as ações afirmativas na educação. Por serem políticas públicas e estabelecerem cotas diversas, cada qual com propósitos e formas de implementação distintas, não podiam ser negligenciadas na presente análise. Ademais, as primeiras cotas (cota zero para imigrantes africanos, por exemplo, no início da República) inserem-se no que denominamos “ações negativas”, ou seja, políticas públicas destinadas a prejudicar determinados segmentos (negros, indígenas, “trabalhadores nacionais”) em benefício de outros (imigrantes brancos europeus). Os efeitos históricos, ao longo de gerações, dessas “ações negativas” auxiliam a entender, em parte, o próprio surgimento das ações afirmativas destinadas a proteger segmentos sociais hipossuficientes (PcDs, negros, indígenas). Afinal, se a República por muito tempo retirou oportunidades de igualdade de cidadania de negros e indígenas, bem como pouco fez políticas de real promoção às PcDs ao longo da maior parte do século XX, as ações afirmativas contemporâneas podem ser interpretadas, entre outras formas, como uma reversão daquelas “ações negativas” históricas. Nessa trajetória, a República desde o início promoveu políticas públicas fundamentadas no pensamento eugênico, desfavorecendo “trabalhadores nacionais” (prioritariamente negros e indígenas), proibindo a imigração de africanos e dificultando a de asiáticos, para priorizar a vinda de brancos europeus. Uma vez que este influxo migratório foi colossal e 57 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. consolidado, a distribuição de terras priorizou, também com cotas, os imigrantes europeus. Nos anos 1930, foram registradas as primeiras políticas de cotas que se destinavam a proteger os trabalhadores nacionais em atividades laborais. No entanto, normas como a Lei dos Dois Terços não eram de fácil aplicação. Ademais, havia a ressalva de que os estrangeiros que estavam há mais tempo no país eram equiparados aos brasileiros, de modo que as restrições à vinda de novos imigrantes e a que ocupassem postos de trabalho no Brasil não foram de tão grande impacto quanto uma primeira impressão poderia evocar. A mudança na própria dinâmica dos fluxos migratórios da Europa para as Américas também já havia mudado estruturalmente. O momento era outro. Mesmo assim, a finalidade de embranquecimento da população manteve-se nas leis vigentes ao menos até o começo dos anos 1980. Entre os anos 1940 e a década de 1980, o Brasil acatou diversos tratados e compromissos internacionais que propugnavam a implementação de ações afirmativas para segmentos da sociedade que sofriam discriminação racial. Momento de grande modificação foi representado pela Constituição de 1988, que abriu um novo ciclo de demandas de direitos e de promoção mais ampliada da cidadania. Não por coincidência, a lei do regime jurídico dos servidores públicos de 1990 estabeleceu, pouco depois da promulgação da Carta Magna, cota para PcDs em concursos públicos, seguida da inserção de cota para PcDs em postos de trabalho (1991). Em 1997, vieram as cotas para candidatas mulheres nas eleições, progressivamente ampliadas nos anos seguintes, as cotas para ingresso em universidades públicas estaduais no Rio de Janeiro em 2000, as cotas da Lei do Prouni (2005), a Lei de Cotas para ingresso nas instituições federais de ensino (2012) e as cotas para negros em concursos públicos (2014). Até 2012, predominava a autoidentificação. A partir de então, cada vez mais a heteroidentificação passou também a ser critério adicional, com o destaque para o estabelecimento de comissões de heteroidentificação desde 2018, por regulamento federal. 58 Renato de Sousa Porto Gilioli O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seu autor. Salvo para o caso da UnB no período 2004-2012 (cotas exclusivamente raciais), em todos os casos as cotas são educacionais e sociais, havendo subcotas, entre as quais as raciais; no caso da Lei nº 12.711/2012, a principal cota é educacional, tendo subcota social e subcotas raciais e para PcDs. Todos os julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) confirmaram a validade jurídica e a constitucionalidade das cotas que, em algum momento, foram questionadas. Quanto aos resultados das políticas de ação afirmativa na educação, fartamente documentados e objeto de medições para a educação superior, é predominante — quase unânime — a conclusão de que o desempenho acadêmico dos cotistas, em termos gerais, equipara-se ao dos não cotistas e, em alguns casos, até mesmo superior a estes (especialmente no caso do Prouni). Esse retrospecto de cotas aplicadas por meio de políticas públicas permite compreendermos uma série de dinâmicas da ordem jurídica interna ao longo de mais de um século, podendo se constatar que nem sempre cotas foram sinônimo de ações afirmativas, dada a existência, no passado, do que denominamos, aqui, “ações negativas”. No entanto, as cotas para ingresso na educação superior são recentes no Brasil, estabelecidas em leis estaduais e federais, bem como amplamente amparadas por decisões do STF, que consolidou a validade dessas políticas desde 2012. No presente, a Lei de Cotas foi alterada para prever a ampliação das reservas de vagas para a pós- graduação stricto sensu das instituições federais. De todo modo, pode-se sumarizar as ações afirmativas contemporâneas como ações e políticas essenciais dos poderes públicos destinadas a promover reparações históricas para os segmentos hipossuficientes, entre os quais PcDs, mulheres, negros e indígenas. 5. REFERÊNCIAS BANIWA, Gersem. 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