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INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS AULA 3 Prof. Vinícius Bednarczuk de Oliveira 2 CONVERSA INICIAL Nesse estudo, abordaremos diversos pontos ligados as Ciências Farmacêuticas, como: matriz curricular do curso, contexto histórico, conceitos básicos, áreas de atuação, origem dos medicamentos, formas farmacêuticas, classes terapêuticas, ética farmacêutica e âmbito profissional. A pesquisa farmacêutica vai além da ciência, sendo um campo estratégico na busca por inovações terapêuticas. Nos laboratórios, os minuciosos estudos in vitro e os essenciais testes in vivo revelam a complexidade molecular e a interação entre fármacos e organismos. É um processo rigoroso de experimentação e confirmação, em que cada descoberta molecular representa um possível avanço na terapêutica e no cuidado ao paciente. Nessa jornada incansável, o farmacêutico desbrava fronteiras em busca de medicamentos mais seguros, eficazes e alinhados às necessidades da saúde pública. Nesta etapa, vamos abordar desde as terminologias básicas utilizadas no âmbito farmacêutico até o desenvolvimento de um medicamento, abordando a pesquisa pré-clínica. Assim, abordaremos os seguintes tópicos: Terminologias básicas; Alopatia e homeopatia; Origem de novos fármacos; Pesquisa farmacêutica; Pesquisa pré-clínica. TEMA 1 – TERMINOLOGIAS BÁSICAS DA ÁREA FARMACÊUTICA A terminologia farmacêutica compreende um vasto conjunto de termos especializados que são essenciais para a prática e entendimento no campo da farmácia. Desde definições básicas até conceitos mais complexos, esses termos são fundamentais para uma comunicação precisa e eficaz entre profissionais da área e para garantir a segurança e eficiência no manuseio de medicamentos e produtos farmacêuticos. Entre os termos mais comuns, destacam-se: Fármaco – Uma substância química definida, com propriedades ativas, produzindo efeitos terapêuticos; Droga – Qualquer substância que interaja com o organismo produzindo algum efeito, seja positivo ou negativo; 3 Medicamento – Fármaco utilizado com fins terapêuticos ou de diagnóstico. Muitas substâncias podem ser consideradas medicamentos ou não, depende da finalidade com que são utilizadas; Remédio (re = novamente; medior = curar): qualquer ação que traga benefícios para o organismo humano, podendo ser categorizado em três divisões: o o Químico: substância animal, vegetal, mineral ou sintética com finalidade terapêutica; o o Físico: são procedimento que envolvam ações físicas como ginástica, massagem, acupuntura, banhos, etc. o o Psicológico: são ações que envolvam benefícios por um viés psicológico, como a fé ou crença; tratamento com psicoterapeuta. Placebo (placeo = agradar): tudo o que é feito com intenção benéfica para aliviar o sofrimento: fármaco/medicamento/droga/remédio (em concentração pequena ou mesmo na sua ausência. Farmacodinâmica: área que estuda o mecanismo de ação dos fármacos no organismo humano. Farmacocinética: área que estuda a absorção, distribuição, metabolização e excreção de fármacos no organismo humano. Farmacologia pré-clínica: estuda a eficácia e reações adversas de medicamentos (RAM) dos fármacos nos animais (mamíferos). Farmacologia clínica: estuda eficácia e RAM do fármaco no homem (voluntário sadio; voluntário doente). Reação adversa a medicamento (RAM): é qualquer resposta prejudicial ou indesejável a um medicamento, que ocorre nas doses usualmente empregadas no homem para profilaxia (prevenção), diagnóstico, terapia da doença ou para a modificação de funções fisiológicas. Farmacognosia (gnósis = conhecimento): estudo das substâncias ativas animais, vegetais e minerais no estado natural e suas fontes. Farmacoterapia (assistência farmacêutica): orientação do uso racional de medicamentos. Fitoterapia: uso de plantas medicinais e seus derivados vegetais como os medicamentos fitoterápicos no tratamento das mais diversas patologias. Farmacotécnica: área que estuda o preparo e conservação do medicamento em formas farmacêuticas. 4 Farmacoepidemiologia: estudo das RAM, do risco/benefício e custo dos medicamentos numa população. Farmacovigilância: detecção de RAM, validade, concentração, apresentação, eficácia farmacológica, industrialização, comercialização, custo, controle de qualidade de medicamentos já aprovados e licenciados pelo Ministério da Saúde. ANVISA: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgão responsável pela legislação de medicamentos no Brasil. Drogaria: local de dispensação e comércio de drogas na sua embalagem original. Farmácia: local de manipulação de fórmulas magistrais e oficiais, de comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos, compreendendo a dispensação e o atendimento privativo de unidade hospitalar ou de qualquer outra equivalente de assistência médica. Esses termos formam a base da terminologia farmacêutica, mas o espectro é vasto e inclui áreas como a farmacodinâmica e a farmacocinética, que estudam os mecanismos de ação dos fármacos no organismo e o comportamento desses fármacos no corpo, respectivamente. Além disso, há outras áreas importantes, como a farmacologia pré-clínica e clínica, que analisam a eficácia e possíveis reações adversas dos medicamentos em humanos e animais. A fitoterapia, farmacoepidemiologia, farmacovigilância e farmacognosia são áreas igualmente relevantes que enriquecem o panorama da prática farmacêutica. Esses conceitos são fundamentais para a atuação do farmacêutico, pois permitem uma compreensão mais profunda sobre o funcionamento dos medicamentos, seu impacto no organismo e a importância de sua utilização racional. No curso de Farmácia, essas terminologias são estudadas em profundidade, capacitando o profissional para uma prática segura, ética e eficaz no cuidado à saúde. Um exemplo adicional dessas terminologias é o estudo da maceração, decocção e infusão, conceitos cruciais na disciplina de farmacognosia, que exploram o preparo de substâncias vegetais para a elaboração de medicamentos fitoterápicos. Compreender e dominar as terminologias é essencial para uma atuação competente e responsável do farmacêutico no cenário da saúde, garantindo o 5 uso adequado dos medicamentos e contribuindo para o bem-estar e segurança dos pacientes. TEMA 2 – ALOPATIA E HOMEOPATIA A alopatia e a homeopatia representam duas abordagens contrastantes no campo da medicina, cada uma com suas próprias filosofias, princípios e métodos terapêuticos. Alopatia: é a forma convencional de medicina praticada pela maioria dos profissionais de saúde no mundo ocidental. Essa abordagem baseia-se no princípio de que substâncias que causam sintomas semelhantes aos da doença podem ser usadas para tratá-la. Os tratamentos são direcionados para aliviar os sintomas específicos da doença, muitas vezes utilizando medicamentos que agem de maneira oposta aos sintomas apresentados pelo paciente. A alopatia é largamente apoiada por evidências científicas e se utiliza de medicamentos sintéticos ou substâncias químicas. Homeopatia: por outro lado, a homeopatia é uma abordagem terapêutica que se baseia no princípio da "lei dos semelhantes". Segundo esse princípio, uma substância que provoca determinados sintomas em uma pessoa saudável pode, em doses extremamente diluídas, curar os mesmos sintomas em uma pessoa doente. Os medicamentos homeopáticos são diluídos repetidamente para atingir níveis extremamente baixos de substância ativa. A homeopatia tem como foco a pessoa como um todo, buscando identificar e tratar a causa subjacente da doença, não apenas seus sintomas. Ambas as abordagens têm seus adeptos e críticos. A alopatia é amplamente aceita e utilizada na medicina convencional, apoiada por uma vastabase de evidências científicas. Por outro lado, a homeopatia é vista por alguns como uma medicina complementar ou alternativa, sendo objeto de debates e discussões em termos de eficácia e validade científica. A escolha entre alopatia e homeopatia muitas vezes está relacionada à preferência pessoal, experiências individuais, e ao tipo de tratamento que um paciente busca. Enquanto a alopatia é mais voltada para tratamentos sintomáticos, a homeopatia visa uma abordagem holística, considerando não 6 apenas os sintomas, mas também o estado mental, emocional e físico do paciente. Independentemente da escolha, é importante que o paciente busque orientação médica adequada e informada, entendendo os princípios e as diferenças entre essas abordagens para tomar decisões conscientes sobre seu tratamento e cuidados com a saúde. 2.1 Princípios da Alopatia e Homeopatia Alopatia e homeopatia representam dois sistemas terapêuticos com fundamentos e abordagens distintas na prática médica. Quadro 1 – Princípios da alopatia e homeopatia Alopatia Homeopatia Trata os sintomas por meio de medicamentos que agem de forma oposta aos sinais da doença. Baseia-se no princípio da similitude, usando substâncias que provocam sintomas semelhantes aos da doença para tratá-la. Utiliza medicamentos geralmente derivados de substâncias sintéticas e são testados com base em evidências científicas. Emprega medicamentos altamente diluídos, por meio de processos de dinamização. Foca na supressão dos sintomas para alívio imediato e busca direcionar o tratamento para os sintomas específicos. Considera o indivíduo em sua totalidade, tratando não apenas os sintomas, mas também as causas subjacentes da doença. A abordagem é mais direcionada para o tratamento de doenças agudas e crônicas. Visa tratar doenças crônicas e agudas, considerando aspectos físicos, emocionais e mentais do paciente. Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. O quadro anterior ilustra os princípios fundamentais que norteiam a alopatia e a homeopatia, mostrando suas diferenças essenciais na forma como encaram e tratam as condições de saúde. Esses sistemas terapêuticos, embora distintos, têm sido aplicados na prática médica, despertando debates e 7 discussões sobre sua eficácia e alcance no cuidado aos pacientes. A escolha entre esses métodos muitas vezes é baseada nas preferências pessoais do paciente, nas condições de saúde e nas respostas individuais a cada tratamento. A seguir estão alguns exemplos do emprego desses dois sistemas terapêuticos: Alopatia: o Analgésicos para dor: a alopatia frequentemente utiliza analgésicos convencionais, como o paracetamol ou o ibuprofeno, para aliviar dores, como dores de cabeça ou dores musculares. o Antibióticos para infecções: em casos de infecções bacterianas, a alopatia prescreve antibióticos, como a amoxicilina ou a azitromicina, para combater a infecção. o Medicamentos anti-hipertensivos: Para controlar a pressão arterial em pacientes com hipertensão, são prescritos medicamentos como inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA). Homeopatia: o Arnica montana para contusões: a arnica montana, em forma homeopática, é usada para tratar contusões, hematomas e dores musculares após traumas físicos. o Belladonna para febres altas: Belladonna é um remédio homeopático frequentemente usado para febres altas, especialmente em casos de febres repentinas e quentes, com pele vermelha. o Arsenicum album para distúrbios gastrointestinais: esse medicamento homeopático é utilizado para tratar distúrbios gastrointestinais, como diarreia ou vômitos, quando há sintomas como fraqueza extrema e ansiedade. Esses exemplos ilustram diferentes abordagens terapêuticas entre a alopatia e a homeopatia. A alopatia utiliza medicamentos que têm o objetivo de suprimir ou combater diretamente os sintomas da doença, enquanto a homeopatia emprega substâncias altamente diluídas, visando tratar a pessoa como um todo, buscando atenuar os sintomas e promover a capacidade natural de cura do organismo. 8 TEMA 3 – ORIGEM DOS MEDICAMENTOS A busca por soluções terapêuticas e curativas tem sido uma constante na história da humanidade, impulsionando a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos. Essas substâncias terapêuticas têm origens diversas e são classificadas principalmente em três categorias: medicamentos de origem natural, semissintéticos e sintéticos, cada um com particularidades em sua obtenção e propriedades terapêuticas. 3.1 Medicamentos de origem natural Os medicamentos de origem natural são obtidos diretamente de fontes naturais, incluindo plantas, animais e minerais. A fitoterapia, por exemplo, faz uso de plantas medicinais conhecidas por suas propriedades terapêuticas, como a valeriana para indução do sono ou a equinácea para fortalecer o sistema imunológico. Esses medicamentos preservam os componentes originais da fonte natural e, muitas vezes, são utilizados na forma de extratos, tinturas, chás ou óleos essenciais. Além disso, substâncias como a heparina, um anticoagulante, são extraídas do tecido pulmonar de animais, como o porco. Esse tipo de medicamento natural, embora possa variar em eficácia dependendo da colheita ou produção, possui uma riqueza de compostos ativos que podem fornecer uma gama diversificada de efeitos terapêuticos. No Quadro 2, são apresentados exemplos de substâncias de origem natural e sua ação. Quadro 2 – Exemplos de medicamentos de origem natural e sua ação Medicamento de Origem Natural Fonte Natural Ação Farmacológica Morfina Papoula (Papaver somniferum) Analgésico potente, utilizado para alívio de dores intensas, como as causadas por câncer ou pós-cirúrgicas. Artemisinina Artemísia (Artemisia annua) Antimalárico eficaz no tratamento de malária, 9 especialmente contra cepas resistentes aos medicamentos comuns. Quinina Casca de cinchona (Cinchona spp.) Antiparasitário e febrífugo, utilizado no tratamento da malária e na redução de febres. Digoxina (Digitálicos) Dedaleira (Digitalis purpurea) Cardiotônico, usado para tratar insuficiência cardíaca congestiva e problemas cardíacos. Paclitaxel (Taxol) Casca do teixo (Taxus spp.) Agente antineoplásico, utilizado no tratamento de vários tipos de câncer, como o de mama e ovário. Ciclosporina Fungo (Tolypocladium inflatum) Imunossupressor, empregado para prevenir a rejeição de órgãos transplantados e no tratamento de doenças autoimunes. Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. 3.2 Medicamentos semissintéticos Os medicamentos semissintéticos têm origem em substâncias naturais modificadas em laboratório. Uma porção da molécula do composto original é alterada, o que resulta em um medicamento com propriedades terapêuticas aprimoradas. Um exemplo clássico é a penicilina, inicialmente obtida de fungos do gênero Penicillium. Por meio de processos de modificação química, a estrutura da penicilina foi alterada, gerando antibióticos mais eficazes e estáveis, como a amoxicilina e a ampicilina. Esses medicamentos semissintéticos frequentemente conservam algumas características benéficas da substância original, enquanto ajustam propriedades específicas para atender às necessidades terapêuticas contemporâneas. No Quadro 3, são apresentados exemplos de substâncias de origem semissintética e sua ação. 10 Quadro 3 – Exemplos de medicamentos de origem natural e sua ação Medicamento de Origem Semissintética Fonte Original Ação Farmacológica Amoxicilina Penicilina natural modificada Antibiótico usado no tratamento de infecções bacterianas, como infecções urinárias, otites e sinusites. Morfina Semissintética Morfina naturalmodificada Analgésico potente, utilizado para alívio de dores intensas, como as causadas por câncer ou pós-cirúrgicas. Codeína Semissintética Codeína natural modificada Analgésico utilizado para alívio de dores moderadas e para supressão de tosse. Cefalotina Cefalosporina modificada Antibiótico cefalosporínico utilizado no tratamento de infecções bacterianas, especialmente infecções de pele e tecidos moles. Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. 3.3 Medicamentos sintéticos Os medicamentos sintéticos são totalmente produzidos em laboratório, sem base em substâncias naturais. São criados a partir de reações químicas controladas para formar compostos específicos. O paracetamol, utilizado como analgésico e antipirético, e o ibuprofeno, um anti-inflamatório não esteroide, são exemplos de medicamentos sintéticos amplamente empregados na prática médica. 11 Por não terem origem natural, os medicamentos sintéticos podem ser mais facilmente padronizados e controlados em termos de pureza, eficácia e efeitos colaterais, o que os torna valiosos na medicina moderna. No Quadro 4, são apresentados exemplos de substâncias de origem natural e sua ação. Quadro 4 – Exemplos de medicamentos de origem sintética e sua ação Medicamento de Origem Sintética Ação Farmacológica Paracetamol Analgésico e antipirético, utilizado para alívio de dores leves a moderadas e redução de febre. Omeprazol Inibidor da bomba de prótons, utilizado no tratamento de úlceras gástricas e refluxo gastroesofágico. Metformina Hipoglicemiante oral, utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 para reduzir os níveis de glicose no sangue. Ibuprofeno Analgésico, antipirético e anti-inflamatório, usado para alívio de dores e inflamações. Atorvastatina Estatina usada no tratamento de hipercolesterolemia, reduzindo os níveis de colesterol no sangue. Sildenafil Vasodilatador usado no tratamento da disfunção erétil, aumentando o fluxo sanguíneo para o pênis. Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. TEMA 4 – PESQUISA FARMACÊUTICA PARA NOVOS MEDICAMENTOS A pesquisa farmacêutica, essencial para o desenvolvimento de novos medicamentos, é um processo complexo e multifacetado que abrange diversas etapas. Inicialmente, há a fase de descoberta, onde cientistas buscam identificar compostos promissores que possam ter potencial terapêutico. Esse estágio pode levar anos e envolver uma análise extensiva de moléculas, por vezes milhares delas, antes que uma seja escolhida para avançar para as próximas fases. Uma vez identificado um composto com potencial, inicia-se a fase de desenvolvimento pré-clínico, onde são conduzidos testes in vitro e in vivo para avaliar a segurança, eficácia e toxicidade do composto. Esses testes são cruciais para garantir a viabilidade do medicamento e podem durar vários anos. 12 Após esses estágios, o composto pode entrar nos ensaios clínicos, que compreendem três fases. A Fase 1 envolve testes em um pequeno número de voluntários saudáveis para determinar a segurança e a dosagem. A Fase 2 expande o estudo para um grupo maior de pacientes para avaliar a eficácia e possíveis efeitos colaterais. Já a Fase 3 é realizada em um número muito maior de pacientes para confirmar a eficácia, monitorar efeitos adversos e determinar benefícios comparados a tratamentos existentes. Todo esse processo é longo e caro. Estima-se que possa levar em média 10-15 anos, com custos que podem ultrapassar bilhões de dólares para um único medicamento chegar ao mercado. Além disso, a maioria dos medicamentos que são testados acaba não sendo aprovada para comercialização, o que aumenta ainda mais os custos e a complexidade da pesquisa farmacêutica. TEMA 5 – PESQUISA PRÉ-CLÍNICA: IN VIVO E IN VITRO A pesquisa pré-clínica é um estágio essencial no desenvolvimento e na avaliação de novos medicamentos e tratamentos. Este estágio envolve uma série de estudos laboratoriais e experimentos conduzidos em modelos biológicos, que são divididos principalmente em dois métodos distintos: in vivo e in vitro. A pesquisa in vivo compreende estudos realizados em organismos vivos, como animais de laboratório, visando compreender como um organismo responde a uma substância ou tratamento em um ambiente completo e funcional. Esses estudos oferecem uma compreensão mais integral e contextualizada das interações entre o organismo e o composto testado, fornecendo informações cruciais sobre a eficácia, toxicidade e farmacocinética de um fármaco em um sistema biológico complexo. Por outro lado, a pesquisa in vitro é conduzida em um ambiente controlado de laboratório, utilizando células ou tecidos isolados do organismo, permitindo uma análise detalhada e específica dos efeitos de uma substância ou tratamento em nível celular ou molecular. Esses estudos são fundamentais para investigar mecanismos de ação, avaliar interações e testar a eficácia e segurança de novos compostos em condições controladas. Ambos os métodos são complementares e desempenham papéis cruciais no processo de descoberta e desenvolvimento de medicamentos. Enquanto a pesquisa in vivo proporciona uma compreensão mais abrangente do 13 funcionamento do organismo, a in vitro permite estudos mais detalhados e específicos a nível celular, estabelecendo uma base sólida para transição aos ensaios clínicos e para o posterior uso terapêutico. Esses testes pré-clínicos (Figura 1) são fundamentais para garantir a segurança e eficácia de um medicamento antes de sua aplicação em ensaios clínicos humanos. Fornecem dados valiosos para reduzir o risco de efeitos adversos inesperados, aumentar as chances de sucesso na fase clínica e otimizar o desenvolvimento de terapias mais seguras e eficazes. Em última análise, a pesquisa pré-clínica é um alicerce indispensável para o avanço seguro e efetivo da farmacologia e da medicina. Figura 1 – Ensaios pré-clínicos realizados na pesquisa de novos medicamentos Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. A fase pré-clínica é composta por testes em laboratório (em situações artificiais e em animais de experimentação) e sua conclusão pode durar anos. A fase clínica é composta por quatro fases sucessivas e necessárias para a aprovação da nova medicação da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no Brasil, pelo FDA (Federal Food and Drug Administration), nos Estados Unidos e pelo EMA (European Medicines Agency), para posterior liberação e disponibilização para uso geral. A pesquisa farmacêutica utiliza uma variedade de métodos para avaliar a eficácia, segurança e comportamento dos medicamentos. Entre esses métodos, En sa io s P ré -c lín ic o s Definição da estrutura química Ensaios farmacológicos (mecanismo de ação) Toxicidade 14 destacam-se os testes in vitro e in vivo. Os testes in vitro são conduzidos em ambientes controlados de laboratório, utilizando células ou tecidos isolados para estudar os efeitos de substâncias em nível celular ou molecular. Por outro lado, os testes in vivo são realizados em organismos vivos, como animais de laboratório, para entender como um organismo responde a um tratamento em um contexto mais complexo. Aqui estão exemplos de testes in vitro e in vivo: Quadro 5 – Exemplos de testes in vitro e in vivo Testes In Vitro Exemplo Teste de Citotoxicidade Avaliação do potencial tóxico em células Estudo de Metabolismo Análise de como uma substância é processada Cultura de Células Estudar respostas celulares em diferentes meios Testes In Vivo Exemplo Teste de Toxicidade Avaliação de efeitos tóxicos em animais Estudo de Eficácia Verificar se um medicamento funciona em animais Farmacocinética Analisar a absorção e metabolismo de substâncias Fonte: Vinícius Bednarczuk de Oliveira, 2023. Todas as substâncias para uso médico devem ter uma indicaçãoespecífica, em função de seu efeito biológico desejado para o qual se elabora um ensaio clínico. Um novo produto só é levado à experimentação em seres humanos depois de conhecidos seus aspectos químicos, farmacológicos, mecanismos de ação e toxicidade em provas pré-clínicas, in vitro ou em modelos experimentais quando disponíveis. O desenho do protocolo clínico e a documentação dos estudos devem seguir as recomendações dos órgãos normativos e de vigilância de medicamentos do país, para que os resultados possam ser considerados válidos para aprovação do produto. NA PRÁTICA 1. Novos medicamentos sempre estão sendo desenvolvidos, e a ANVISA é a agência responsável pela regulação destes medicamentos no Brasil. 15 Entre no site da ANVISA e procure no site quais medicamentos estão em fase de desenvolvimento e para qual finalidade este futuro medicamento poderá ser utilizado. No site abaixo, clique na situação autorizados e em ok. Disponível em: . Acesso em: 27 nov. 2023. 2. No portal da ANVISA são postadas as notificações de farmacovigilância, entre no site e veja as últimas três notificações e qual o motivo que levou a inclusão destes alertas. Disponível em: . Acesso em: 27 nov. 2023. FINALIZANDO Neste material, vimos a importância da pesquisa farmacêutica, ao qual emergem aspectos cruciais que fundamentam o desenvolvimento de novos tratamentos. Os testes in vitro e in vivo representam pilares distintos e essenciais neste processo. A pesquisa in vitro, realizada em ambientes controlados de laboratório, oferece uma análise detalhada do comportamento de substâncias a nível celular, permitindo a compreensão dos mecanismos de ação e interações moleculares. Por outro lado, os estudos in vivo apresentam um olhar mais abrangente, permitindo avaliar o comportamento das substâncias em organismos vivos, possibilitando a compreensão dos efeitos sistêmicos e interações complexas em contextos biológicos reais. Essas etapas representam não apenas fases isoladas, mas elementos vitais na validação e compreensão dos potenciais terapêuticos de novas substâncias. São os pilares do desenvolvimento farmacêutico, respaldando não somente a descoberta, mas também a segurança e a eficácia dos medicamentos. A pesquisa farmacêutica, permeada pela meticulosidade técnica e pelo comprometimento científico, delineia uma trilha promissora para avanços na saúde, na qual cada avanço é uma contribuição tangível para terapias mais aprimoradas e confiáveis. 16 17 REFERÊNCIAS ALLEN, J. R.; LOYD, V. Introdução à farmácia de Remington. Artmed Editora, 2015. BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. Resolução n. 586, de 29 de agosto de 2013. Regula a prescrição farmacêutica e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 26 set. 2013. Seção 1, p.136-8. CARNEIRO, A. V. Como avaliar a investigação clínica. O exemplo da avaliação crítica de um ensaio clínico. 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