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COLEÇÃO ORIGINAL A SUPERAÇÃO DO DIREITO COMO NORMA Uma Revisão Descolonial da Teoria do Direito Brasileiro Para mais informações, visite nosso site! SUMÁRIO 4. A Revisão do “Direito Como Norma”, as “Microinstruções Normativas” e o Giro Descolonial à Marginalidade 2. A “Crise de Sentidos” Contemporânea e o Enfraquecimento Teórico-Pragmático do Direito como “Reserva Institucional” Introdução 1. A Realidade Fática e as Insuficiências Normativas no Direito Brasileiro 3. A Matriz Eurocêntrica da Teoria do Direito Brasileira: Direito Oficial x Inoficial 1. A vida humana na contemporaneidade e o “direito oficial” 2. Problemas da vida humana postos à normatividade pátria 1. Sentidos, instituições, estabilizações, orientações e crise 2. Direito, institucionalização e estabilização de sentidos 3. A constituição e a crise de sentidos na contemporaneidade 1. O processo de transplante/assimilação/recepção da teoria do direito européia 2. Colonialidade do poder e do ser latino-americano 3. Colonialidade da teoria do direito brasileira 4. A colonialidade do direito oficial brasileiro 5. A crise de sentidos: matriz justéorica européia vs realidade sócio-cultural-nacional 6. A incapacidade teórico-dogmática de superação da crise de sentidos no direito 1. Reflexões zetético-erotizadas, transmodernidade, analética e pensamento crítico fronteiriço 2. Giro descolonial e ausência do “ponto zero” na teoria do direito br asileir o 3. Pluralismo e multinormatividade dialógica 4. Proposições metodológicas – do “etnojuricídio” ao “filtro descolonizador” 5. Microinstruções: do “direito como norma” ao “direito como instrução” Conclusão Referências INTRODUÇÃO O presente ensaio se apresenta como uma reflexão sobre as angústias da teoria do direito brasileira diante de inúmeros problemas que se vivem no contexto atual, desde insuficiências de respostas institucionais, até mesmo de crise de instituições que pretendem dar soluções às adversidades da realidade cotidiana e da vida do cidadão(a) brasileiro(a). Certamente é um momento de crise, e enquanto tal, há oportunidade e necessidade de se analisar e se averiguar possíveis causas, consequências e formas de controle e resolução a fim de superar passividades e anacronismos técnicos. A escrita é marcada por uma análise de teoria e filosofia do direito propriamente ditas, cumprindo à antropologia do direito e à sociologia do direito apenas fornecer as bases de constatação e investigação, como uma costura, um pano de fundo sobre o qual as indagações hão de ser feitas. Isto implica aceitar, com certa cautela crítica, mas sem polemizar tudo o que poderia ser feito, as apurações elaboradas por estas disciplinas acerca da matriz hegemônica e contra hegemônica do direito oficial brasileiro. O percurso metodológico assim se desenvolve: reflexão sobre os problemas cotidianos e a ausência de respostas jurídicas satisfatórias; compreensão teórica dessa ausência como um produto da “crise institucional de sentidos” pela qual passam o direito e o direito brasileiro; leitura dessa crise como produto do esgotamento do direito como norma e do direito eurocêntrico, ambos em descompasso com a realidade nacional; para chegar à proposição da necessidade de uma guinada teórica em direção ao direito como instrução e a um direito e sua teoria descolonizados. As idéias centrais da qual se parte são: (a) de um lado, a compreensão do exaurimento na teoria do direito da constante do direito como norma; (b) de outro, do eurocentrismo da teoria do direito brasileira e a necessidade de superação descolonial. Ambas revelam de algum modo a esgotadura das reflexões sobre o direito em sua perspectiva ontológica e sobre o direito brasileiro em termos teóricos e práticos. Num plano geral, vivem-se atualmente problemas dentro do direito de inúmeras ordens, e isto, sem dúvida, não é algo exclusivo destes tempos, mas não significa dizer que se pode identificá-los com a mesma natureza, feição e intensidade daqueles outrora experimentados. A crise já deflagrada no positivismo pelas ondas jusnaturalistas e pelos movimentos críticos, especialmente no pós- guerra, sem descurar do eco do antiformalismo tedesco e francês das últimas décadas do séc. XIX, não encontrou ainda um lugar de solução e de apaziguamento. Talvez seja possível, e isto é o peculiar dos tempos de hoje, afirmar que esta crise vivencia expressões tão singulares, que nem mesmo os movimentos críticos conseguem encontrar um foco muito preciso de debate. Há dois séculos ao menos se pode dizer que o direito reconheceu no elemento normativo sua singularidade no campo das ciências humanas, e sua reflexão caminhou por perspectivas bastante distintas: ora próximo das noções de “poder” (coação, sanção, prescrição), ora do “estado” (origem estatal, procedimento criativo, autoridades formais), ora, enfim, do “valor” (justiça com fim supremo, bem estar coletivo como fim único, igualdade como elemento intrínseco). Um vasto campo se abriu para a cientificidade do direito em leituras mais extremadas ou menos em torno de sua pureza. De qualquer modo, a idéia da norma ou do ordenamento jurídico como um lugar seguro, de refúgio de sentidos, de certeza sobre o modo como as relações sociais devem se estabelecer e sobre como as condutas individuais podem ou não prosseguir sempre esteve presente. Não por outra razão a teoria do direito a par de suas vicissitudes se desdobrou em compreender esse fenômeno legítimo ou não, válido ou não, eficaz ou não, eficiente ou não. Estabelecer sua origem, sua interiorização sistêmica, seu modo de operação, sua aptidão e formas de decisão e definição de caminhos esteve sempre em seus horizontes, pois o direito deveria, apesar dos ataques, ser mantido como uma “instituição”, um exímio “arquivo histórico de sentidos”. Contudo, tem-se percebido que esta forma de compreensão do fenômeno jurídico – do direito como norma – parece ter exaurido suas possibilidades em razão de sua incapacidade imanente justo deste caráter de segurança, certeza, previsibilidade de condutas etc. São tempos de alta instrumentalidade técnica, virtualidade dos textos normativos, pluralidade de novos institutos, novos mecanismos de solução de conflitos e de acesso à justiça, empréstimo inconseqüente e irresponsável de institutos alienígenas, de um rigor cada vez mais severo no trato com as questões constitucionais, e ao mesmo tempo um certo pavor que percorre a teoria do direito em dar suas tão estimadas respostas aos problemas existentes. Isto leva este ensaio a refletir possibilidades, e talvez desossar o direito como norma e pensá-lo de modo mais modesto, ou se não despretensioso, como um guia, um lugar como outro qualquer, embora reserve suas peculiaridades, de conduzir, estimular, desestimular, permitir escolhas mais vantajosas, mais úteis, desapegado de seu esforço moral, de sua moralidade objetiva, enfim, como discutido ao final, um direito como instrução. Ainda que em perspectiva mais zetética e menos dogmática, mais reflexiva e menos concludente, o fato é que a teoria do direito sente- se intimidada e hesitante diante das respostas institucionais que têm sido criadas nos últimos anos, especialmente no Brasil por um ativismo judicial amedrontador e impulsivo. Há juízes mais próximos da realidade e em princípio mais comprometidos com um universo material, o que a herança importante dos movimentos críticos deixou, mas ao mesmo tempo um elogio absoluto da subjetividade das personagens jurídicas, um cultuar de que o direito ganha sua juridicidade nas bravas mãos do aplicador do direito, como um direito supostamente mais eqüitativo e eficiente pela proximidade com o mundo. No entanto, um afã bravio e intrépido vindo do judiciário brasileiro, à certa imagem do que na Europa também se manifesta, expõe a faceta crua de um direito que traz o cenho de um aparato humano e dogmático despreparado para ouvir o outro, entender suas intimidades, sua luta efetiva por direitos, sua ossatura ontológica, enfim, seu grito de respeito à diversidade e aoda lei (expressões usadas e reiteradas para dividir o universo feminino entre boas e más mulheres); o ato é justificado por necessidade de vida ou de saúde da mulher (que se encontra sem emprego ou não tem condições e tempo de se dedicar), enfim, algo que diz com a autonomia da mulher; se não fosse criminalizado a instrução poderia ser maior sobre efeitos, métodos, e consequências; em grande medida decorre a gravidez da violência familiar e doméstica; a impossibilidade do uso de contraceptivos pelos próprios parceiros fixos, cuja ignorância machista perpetua; além de comuns, em grande parte são meninas ricas e pobres que se sujeitam em razão da proibição moral e jurídica; livre disposição do corpo da mulher; deficiência possível no feto enfim. Portanto, é neste instante que a crise institucional de sentidos se opera, com mais vigor do que na moral familiar, pedagógica, eclesiástica, no plano do reconhecimento de um possível direito inoficial. A insegurança na tomada de decisão e a impossibilidade do direito se manter seguro como reserva de sentido, porque não atento a multiplicidade de valores sociais e às distintas formas de existência, desacreditam-no em seu lugar institucional, cumprindo-lhe papel nulo, ou, como ao final se discutirá, um simples e talvez nem tão seguro lugar de indicação, de mais um guia, enfim, de um direito como instrução. 3. A constituição e a crise de sentidos na contemporaneidade “Modernização”, “secularização” e “pluralismo” geraram significativas mudanças na orientação do homem e da sociedade e desencadearam uma distinta “crise de sentidos” jamais experimentada. A ordem de coisas encerrada no Medievo e toda a sua cosmologia e mundividência (Weltanschauung), que vista num ciclo de longa duração braudeliano se esgota no Ancien Régime, cumpria uma função estável, majoritariamente legítima e aceita, de dar sentidos às coisas e às formas de existência humana. Dos oráculos de Tirésias aos ritos eclesiásticos, passando pela extensa dominação do Collegium Pontificum romano, a hegemonia do controle das explicações, respostas e orientações para os problemas da vida permitia que os sentidos e os hábitos de significação se reproduzissem com certa estabilidade e segurança entre os homens. Contudo, dentre tantas causas, que aqui convém deixar à história do direito, industrialização, urbanização, migração e comunicação de massas fragmentaram a unidade simbólica do homem pré-moderno pela fragilidade dos sistemas de sentido e de valores. A angústia diante do mundo operada pelo deslocamento geográfico e familiar, o medo diante de experiências passageiras e fugazes, a que levou tantos europeus ao suicídio retratado nas obras goethianas e durkheimianas, implicou por si só um distanciamento entre a comunidade de vida e a comunidade de sentidos aparentemente estáveis. Do homem enclausurado em fábricas, com tempo de lazer e tempo de trabalho, com a perda da dimensão do seu labor, do enfraquecimento do convívio familiar, da alienação de sua origem outrora de ourives, padeiro, marceneiro etc., enfim, da modernidade que lhe foi imposta, sentidos ficaram suspensos e as escolhas individuais e os modos de agir se tornaram perigosamente desor ient ados. Com isso, veio também o desencatamento weberiano ( Entzauberung) proporcionado pelo recuo da religião e o conseqüente despedaçamento da ordem universal de sentidos. O ser moderno (este aqui ainda lido desde o eurocentrismo, mas que adiante será posto em questão) que passou a se distanciar da fé num mundo sobrenatural, num lugar possível de redenção, cuja ritualística operada pela Igreja Católica bem poderia o conduzir à sua “boa vida” novamente, já que o maniqueísmo superado esteve na base dos Santos Padres, especialmente de Santo Agostinho, agora não via mais a possibilidade de voltar a ser “bom”, a encontrar o reto caminho, o caminho das virtudes pelo cristianismo. A vida privada e a existência em sociedade se mostraram problemas comezinhos, individuais (e sobre isto gerações de teólogos se dedicaram a compreender) não cumprindo à religião curar os males, conduzir os homens, orientar a vida com exclusividade. Esta secularização crescente rompeu com o monopólio de sentidos e valores que havia e criou ao mesmo tempo possibilidades supraespaciais de convicção. Naturalmente, subculturas cresceram, valores transcenderam às relações sociais tradicionais, “ilhas de sentido” passaram a existir, desobrigando moralmente a todos e permitindo com que interesses pessoais se sobrepusessem aos globais. Disso decorre à entrega do indivíduo a si mesmo e uma conseqüente e inevitável insegurança. O recuo da religião e o enfraquecimento da ordem única pré-moderna suspendem o histórico “arquivo de sentidos”, lançando o indivíduo a crises cotidianas de modos de ser e de agir, o velho ethos grego. Com a modernidade e seu crescimento populacional, motilidade geográfica, entrecruzamento cultural e familiar, migrações, economias descentralizadas, veio também o pluralismo. Multiplicidade e diversidade, naturalmente em termos bem distantes de hoje, e não democraticamente polifônicas como se poderia imaginar atualmente, trouxeram choques culturais. O pluralismo permitiu que valores morais entrassem em conflito e que não houvesse mais a segurança de uma configuração institucional perfeita hábil a harmonizar todos os valores desejados por todas as pessoas e grupos sociais.20 A existência de conflitos irreconciliáveis de valores passou a ser natural, já que as pessoas gozam por natureza tanto de um senso de justiça, de compreender, aplicar e agir conforme princípios de justiça, quanto da aptidão para ter uma concepção de bem, ou sejá, dos fins que são merecedores de empenho de cada um.21 Com isso, aparece um relativismo de valores e de interpretação capaz de desorientar o indivíduo e os grupos sociais pela incapacidade que as instituições deixaram de ter de preservar sentidos. O conhecimento deixa de ser auto-evidente, e o indivíduo passa a precisar definir diariamente as dimensões de sua existência, já que a comunidade de vida não coincide mais perfeitamente à comunidade de sentidos. Isso leva constantemente o indivíduo a ter de pensar e repensar a sua vida e a orientação de suas ações conforme parâmetros de valores e sentidos conflitivos. A quebra dos programas institucionais na internalização da consciência individual, sedimentado em camadas graduais desde a socialização primária e das instituições primárias, conduz à censura institucional frágil e inofensiva, tornando a vida cada vez mais complexa, na linha luhmanniana de que se falou acima. De consequência, a concorrência inevitável entre diferentes ordens coexistentes incrementou as angústias subjetivas pela falácia das instituições únicas como “reservatório de sentidos”. Alternativas se colocam constantemente para o indivíduo, que passa a ser obrigado a refletir o fundamento de suas escolhas e os próprios sentidos, rechaçando destinos, instintos e predeterminação. Então, as interpretações se tornam apenas hipóteses, as convicções exclusivamente percepções volitivas individuais e os hábitos comportamentos individuais mecânicos apenas, mas destituídos de sentido. Contudo, na contemporaneidade, é preciso agregar um conjunto também significativo de mudanças, igualmente flexionador e fragmentador dos sentidos do homem moderno, que talvez se possa indicar, com o devido respeito à filosofia pura, com a “virtualidade”. Por certo que apenas o tempo é que permitirá surgir construções retroativas e mais seguras sobre as significativas mudanças históricas, mas a “virtualidade”, dentre outras facetas da vida contemporânea, parece apontar para um momento singular. Desde os tempos em que Barthes, Baudrillard, Warat entre nós etc. realçou o lugar do “mito semiológico” como um segundo momento da formação de sentidos, ao agregar elementos de natureza diversa (ideológicos, religiosos, mercadológicos entre outros) como significantes de significados já fechados inicialmente na linha saussureana, e, com isso, elucidou o papelque elementos extra-linguísticos desempenham na conformação de sentidos nas proposições entre emissores e receptores, fato é que a “virtualidade” foi se construindo como chave de compreensão das relações intersubjetivas nos últimos cinquenta/sessenta anos. A mídia; as redes sociais profissionais, de entretenimento, de relacionamento familiar, de envolvimento amoroso e sexual etc.; e a internet como lugar de conhecimento implicaram significativa alteração nos padrões de comunicação, relacionamento, persuasão, convencimento e acordos de sentido entre os seres humanos. Vivem-se tempos em que a “virtualidade” tem assumido parcela majoritária das horas diárias das pessoas, reduzindo o campo do contato e da interação física, impedindo o encontro real das pessoas, substituindo o lugar e a confiabilidade das instituições reais nas instituições virtuais. Há um significativo avanço da “virtualidade”, haja vista que os mercados têm sido deixados de lado no encontro real entre demandantes e ofertantes para o ser virtual; com isso se alteram profundidades e modos de relacionamento por vezes mais fragmentado, mais rápido, embora mais freqüente, mais superficial em parte pela ausência dos outros sentidos envolvidos, mas mais profundo justo porque a ausência física permite a exploração de ideias melhores e mais corajosas, mais livres, com menos autoridade e menos esforço, enfim, um novo modo de ser. A “virtualidade” de que aqui se fala como um quarto pilar da “crise de sentidos” em termos gerais não é propriamente um mundo à parte do mundo real22 ou uma forma ilusória de experimentar e viver a realidade e sim algo bem mais complexo que, com o auxílio das novas tecnologias de comunicação, fazem sentidos se esfacelarem, desorientarem-se, fugirem aos lugares tradicionais de suas fontes construtivas e suas recepções e caminharem para lugares distintos, inusitados, não identificáveis facilmente. Tem-se uma ruptura nos modos de formação e apreensão de sentidos institucionais, o que naturalmente há de afetar a instituição jurídica também. Mas que virtual é esse que desagrega e reorganiza sentidos? Há algum tempo que uma nova relação entre a universalidade e particularidade se estrutura na humanidade, especialmente por causa da globalização econômica, social e cultural ter alcançado os atuais níveis. Novas operações, novas espacialidades, novas tecnologias intelectuais provocam rupturas significativas no processo comunicativo, relacionando escrita, impressão e oralidade e conduzindo a experiência da vida a formas estranhas de se viver, não ilusória e nem fantasiosa, mas diversa, em outra escala de construção de sentidos. Na linha de Pierre Lévy, o “virtual” tem certa afinidade com os temas do ilusório, do falso ou do imaginário, mas isso não implica aceitar a correlação superficial com a ausência da materialidade ou de existência e concretude. Trata-se de algo que “existe em potência”, e não enquanto ato na linha escolástica, portanto, algo que tende a se “atualizar”, embora ainda não passado à concretização propriamente dita. Por esta razão, a “virtualidade” está oposta à “atualização” e não à “realidade”, logo, “virtual” e “real” são dois modos de ser. Noutro sentido, o “possível” é pleno e integralmente constituído, uma espécie de “real latente”, que inevitavelmente ocorrerá (existirá) independentemente de qualquer alteração no mundo material ou na sua própria natureza. “Possível” e “real” não se diferenciam senão em termos lógicos, o “possível” ao se realizar não é propriamente criado, já que não é algo novo e sim algo que já existia de modo latente, algo estático e já configurado, apenas sem existência. É em oposição a este “possível” que o “real” se coloca e não ao “virtual” portanto. Há uma díade então entre “possível e real”, de um modo, e entre “atual e virtual” de outro. Isto porque o “virtual” se encontra em oposição ao “atual”, já que o “virtual” é um complexo problemático, um nó de tendências/forças que está presente e é concomitante em todo contexto de um acontecimento, demandando uma “resolução”: uma “atualização”. Tem-se, pois, quatro modos de ser: possível, real, virtual e atual,23 que estão em constante interação dialética, já que o “virtual” se “atualiza” pelo acontecimento e pela resolução, e o “possível” deixa de ser potência (como a semente da árvore) quando se “realiza” dialeticamente na existência. São modos de ser próprios do homem e não uma mentira ou um engodo como a “virtualidade” sugere aparentar vulgarmente. O homem passa a ser um lugar de comunhão na estrutura rizomática de comunicação entre estes modos de ser, que se exponenciam na tecnologia das redes sociais, internet, comunicações visuais etc. A grande mudança, então, operada pela “virtualidade” não redunda propriamente num embuste ou numa farsa, mas num “simulacro” nos termos baudrillardiano, uma metáfora com o real,24 e é esta vivida pelos meios de comunicação e não propriamente a realidade existencial experimentada. Com isso, afastamo-nos de toda uma tradição que transformara a matéria em sentido, o conteúdo em expressão, o processo social em sistema significante (Hegel), que reduz superestrutura a infraestrutura (Marx), estrutura superficial em estrutura profunda (Chomsky). Ao levar em conta essa nova pragmática, abandonamos o modelo da árvore, da ordem linear dos elementos linguísticos, do tronco que se enraíza e da raiz presente até a última folha, para entrar no modelo rizoma, cujos elementos não possuem mais ordem linear fixa, conforme Deleuze/Guattari. Segue daí: (i) a impossibilidade de conceber a linguagem como um código, visto que este é a condição que torna possível uma explicação, ou a impossibilidade de conceber a linguagem como comunicação de uma informação, pois ordenar, interrogar, prometer, afirmar não é informar um comando, uma dúvida, um compromisso, uma asserção, mas efetuar atos específicos imanentes, necessariamente implícitos; (ii) a impossibilidade de definir uma semântica, uma sintaxe como as zonas científicas da linguagem, até independentes da pragmática, como se esta fosse a cloaca da semiótica, fazendo com que a pragmática se torne, como percebera Viehweg intuitivamente, o pressuposto de todas as dimensões, insinuando- se por toda parte; (iii) e, sobretudo, a impossibilidade de manter-se a distinção língua/fala, visto que a fala não mais pode ser definida como simples utilização da língua, pois, ao contrário, é o sentido semântico e a gramaticalidade sintática que não se deixam definir independentemente dos atos de fala que ela pressupõe.25 No modelo da árvore26 (em sede jurídica, da ordem escalonada, da pirâmide) somos sempre levados à busca de uma constante, a um ponto inicial, a um movimento centrífugo. No modelo do rizoma percebemos que uma “variável” pode ser contínua em uma parte de seu trajeto, depois saltar ou pular sem que sua variação contínua seja por isso afetada, como se vê, por exemplo, num quarteto de Beethoven, em que a variação se libera e se transforma em criatividade. Ou, mais ainda, a música produzida por um sintetizador, da qual até mesmo os furos, os silêncios, as rupturas, os cortes fazem parte de um “sistema”, por assim dizer, sobrelinear. É como se tomássemos, por exemplo, a noção de maioria/minoria de tal modo que maioria seja antes um estado de poder e de dominação e não ao contrário, isto é, como se um estado de poder resultasse de uma maioria. Nesse sentido se entende a possibilidade de dizer que o “homem” (varão) é maioria mesmo sendo menos numeroso que as mulheres, o homem branco é maioria, mesmo quando menos numeroso que os negros etc. Dessa virtualidade, tem-se como excelência o “ciberespaço”, o lugar em que os sentidos na contemporaneidade se formam e se tornam “nós de tensão” à espera de uma atualização e de uma resolução, em suma, o lugar de virtualização do corpo, da economia, da inteligência-comunicação e da experiência. Por isso Pierre Lévy reduz o papel das máquinas, computadores, programas para ressaltar o lugar da “comunicação”, do espaço “navegável”que agrega os fluxos informacionais. É nessa comunicação operada e mediada ontologicamente pelo “virtual” que os sentidos se orientam, fragmentam-se e se reorganizam e se colocam dispostos aos seres humanos. Há, portanto, uma virtualização da relação comunicativa, do texto propriamente dito. O texto, a leitura, os sentidos se constroem no mesmo momento, por isso o espaço do sentido não pode preexistir à leitura. Ao se ler e extrair o conteúdo do texto, radiografando-o e o cartografando, forjam-se sentidos, constantemente “atualizados”. O sentido já não é mais o mesmo e nem de seu emissor, se não produto deste processo de atualização. A essência virtual que todo texto carrega traz consigo a atualização como um processo intrínseco. Interpretações não apenas expõem sentidos, mas, ao atualizá-lo, produzem a própria subjetividade a partir do texto (desde memórias evocadas, experiências vividas, referências enraizadas, sentimentos recalcitrantes). Cada subjetividade produzida será sempre renovada e reconstruída a cada produção de sentidos. É nesta perspectiva que aparece o “hipertexto” como conjunto de textos potenciais que podem ou não vir a se realizar a partir da interação entre texto e leitor. O campo dos sentidos vive uma dialética entre o atual e o virtual, ao tempo que o campo da digitalização (do armazenamento digital), para Pierre Levy, experimenta a oposição entre o possível e o real, posto que este arquivamento é uma potencialização e a exposição e exibição deste conteúdo é uma realização. Logo, não há texto e nem hipertexto apenas com o conteúdo de proposições exibidas no “ciberespaço”, se não com a interação da subjetividade do leitor, que o atualiza. Cumpre a ele apenas potencializar a informação. Atualizar implica reformular e até criar novos sentidos para si e para o texto a partir deste texto inicial,27 por isso, em sendo o hipertexto “multimodal” (verbais e não verbal – sons, imagens, diagramas etc), sua expansão é exponencial e sua reverberação na cadeia de sentidos ainda mais ampla e infinita. Não por outra razão, e pelo efeito moebius (passagem do interior ao exterior e vice- versa), escrita e leitura trocam de lugares constantemente à medida que o receptor, participando do hipertexto, torna–se desde logo um leitor, e, atualizando-o, manifestando sua interpretação no hipertexto, torna-se um escritor de novos sentidos que aparecerão a partir de então no “ciberespaço” (que está, por essência e por força da conexão entre computadores, em todos os lugares possíveis, como se fosse um só). Efeito análogo, que aqui não importa diretamente, mas que Pierre Levy enuncia na economia, a partir da substituição da noção de “consumo” por “co-produção”. O hipertexto lido assim é então um “complexo problemático”, que existe em potência, em estado latente cujas forças de significação e resignifcação estão instáveis e contidas apenas à espera de uma subjetividade, de sua leitura e reescritura, em suma, de uma “resolução”, portanto, de uma “atualização”. Por isso é gravado pelo princípio da metamofose28, em razão da própria mutação e reconstrução da rede hipertextual existente na cibercultura; pela heterogeneidade, vez que reúne informações de fontes diversas e por formatos distintos; pela multiplicidade, pois os nós de informação se ramificam indistintamente a partir de outros nós informacionais e em outros nós informacionais; pela exterioridade, já que nos comentários, textos, imagens são agregados constantemente; pela topologia, que aproxima e distancia o curso dos acontecimentos, funcionando em si mesmo como um espaço; e pela mobilidade dos centros, já que, desterritorializado e descentralizado, o hipertexto está a serviço da atividade do leitor. A informação acessada pelo hipertexto desvenda uma nova textualidade à medida que relaciona elementos por associações fluidas e não seqüências já pré-determinadas, lineares, na linha originalmente proposta por Vannevar Bush nos anos quarenta. Cada indivíduo acessa por si e por sua máquina a rede de computadores e através de nós e conexões, o hipertexto, simultaneamente a outros. É esta conexão, ao que por hora parece ao menos relevante aqui, que modifica o lugar, a fonte, o alcance, o conteúdo e o processo da formação dos sentidos nos dias de hoje, qualificando, então, a virtualidade como um processo atual decisivo para fins jurídicos, do direito enquanto normatividade, do direito enquanto instituição estabilizadora, de sentidos. A gradativa complexidade pelas quais as instituições passaram a partir da “virtualidade”, agregando-se os demais fatores (modernidade, secularização e pluralismo), rompeu com hábitos evidentes, porque promoveram mudanças radicais na vida dos indivíduos. Com uma década de redes sociais e um pouco mais de internet, modelos de comportamento e modos de agir, valores, experiências de vida, formas de realizar escolhas, padrões de decisão, tudo se tornou muito fluido e líquido no dizer baumaniano, com enfraquecimento não apenas do contato pessoal ou dos ritos de passagem e tradições, mas modos de ser e de agir se flexibilizaram, permitiram o acesso a hierarquias de valores e a valores distintos, cada vez mais plurais, múltiplos, não uniformes. As instituições tradicionais, em razão do alto grau de sincretismo nas interpretações, diante da policromia da vida e seus valores, seja pela diversidade sexual, de gênero, de desejos sexuais, de comunidades imigrantes, de culturas tradicionais, fragmentaram-se ainda mais na inscrição, na conservação e na transmissão de sentidos. A auto- evidência se tornou quase nula, nem mesmo conseguindo passar desapercebidas de tal processo as instituições especializadas. Consubstanciam-se, então, condições estruturais para a difusão de crises subjetivas e intersubjetivas de sentidos, desestabilizando o papel do Estado, especialmente, no lugar aglutinador destes processos, à medida que não mais costura povo, comunidades, território, estrangeiros, culturas, direito, instituições etc. Um solipsismo moral, metafísico e gnosiológico impede a formação das identidades pessoais, a significância da vida, consequentemente, esquemas de ação, continuidade de ordens de sentido e valor supraordenados e obrigatórios, bem como categorias de julgamento e ação, enfim, um alto grau de certeza e segurança na comunidade da vida. Na verdade, com isso se observa uma peculiar mudança na forma jurídica de argumentação. Ao invés de culminar em catálogos móveis e diferenciados de topoi, em que princípios se revelam antes como proposições diretivas (Leitsätze) e procedimentos interpretativos se direcionam por abduções mais que deduções (por exemplo, partir de asserções cientificamente verdadeira para concluir numa direção que a falseia), ela aparece agora como se o raciocínio jurídico obedecesse a uma nova “lógica”, a lógica do hipertexto, desses textos eletrônicos cujas partes remetem a outros textos e a outras partes e a outros textos. Tudo é então possível de se ligar a tudo mediante links.29 Essa perspectiva inova consideravelmente, pois o hipertexto, como se percebe, livra o sentido do discurso da forma “livro” e da autoridade do autor. O hipertexto desconstrói a escrita linear e a sugestão dessa de que as ideias são organizadas de modo homogêneo, pois torna explícita coexistência de diversas estruturas. Entramos numa forma de comunicação em rede. Na verdade, nem mesmo rede, mas formas de nós em expansão, para todos os lados. O que lembra um pouco o papel desempenhado pelas antigas notas de rodapé generalizantes a um texto e suas múltiplas referências30, porém, agora tornadas texto (hipertexto). Desse modo, a textualidade argumentativa em sua forma linear espacial, vertical/horizontal (autor, enunciado, argumentos, conclusão) se vê substituída por um processamento sobrelinear, organizado mais temporalmente, não cronologicamente (diacronia), mas por operações sincréticas (sincronia). Em termos de argumentação, exige-se uma forma mais complexa de organização, um modelo acêntrico, não hierárquico, capaz de conjugardecisões a partir de standards que ele mesmo produz. Ou seja, um modelo nem escatológico nem em rede, nômade, pois capaz de produzir diferenças assistemáticas e inesperadas, dividindo e abrindo, sendo possível diferenciar e sintetizar ao mesmo tempo. Com isso, a decisão jurídica ganha um destaque especial, pois se libera efetivamente de um todo pré-constituído. Em lugar do poder de decidir ela aparece como uma decisão de poder (não um “decido porque posso”, mas um “posso porque decido”), que está registrada numa ordem acêntrica e heterárquica, de possibilitar a abertura para o novo, para o desconhecido. - 7 As reflexões sobre a crise de sentido na “modernidade” estão embasadas em Peter Berger e Thomas Luckmann na obra de 1995 Modernität, Pluralismus und Sinnkrise: Die Orientierung des modernen Menschen, publicada pela Verlag de Gütersloh, mas, sobretudo, na clássica e já difundida de 1966 The Social Construction of Reality, publicada pela Doubleday & Company. Emprestam-se aqui os conceitos desta compreensão fenomenológica da sociologia do conhecimento sobre institucionalização, internalização, assimilação e transmissão de conhecimento, pois, no que diz com o “conhecimento cotidiano” em torno dos indivíduos, seja em perspectiva objetiva, seja subjetiva, suas construções permitem dialogar com a teoria sistêmica luhmanniana e com a reflexão sobre o lugar do Direito enquanto instituição no mundo contemporâneo. 8 Idéias a partir de HUSSERL, Edmund. Die Idee der Phänomenologie: Fünf Vorlesungen. Hg. Von Walter Biemel. Den Haas: Martinus Nijhoff, 2. Ed., 1958, Ideen I, § 74. 9 Idéias a partir de HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1977, § 7.A. 10 BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. Modernität ..., p. 20. 11 PARSONS, Talcott, The Social System. New York: Free Press, 1951. 12 Leia-se esta “institucionalização” na esteira da sociologia do conhecimento de Peter Berger e Thomas Luckmann, que trabalham com a noção de saberes, mas, principalmente, de “sentidos” – fato fundamental para o que aqui se propõe como a crise de sentidos operada pela instituição do direito -, e não, portanto, dentre as possíveis “teorias da institucionalização”, ora como “escolhas racionais”, ou “questões culturais” ou mesmo de “choque e crise”, que remontam à orignal teoria weberiana distintiva de Zweckrationalität (racionalidade orientada a fins) e Wertrationalität (racionalidade orientada a meios/valores). 13 LUHMANN, Niklas. The Autopoiesis of Social Systems. in Sociocybernetic Paradoxes: Observation, Control and Evolution of Self-Steering Systems (org F. Geyer and J. Van d. Zeuwen). London: Sage., p. 172-192. 1986. 14 LUHMANN, Niklas. Die Wissenschaft der Gesellschaft. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1990, p. p. 30. e LUHMANN, Niklas. Funktionen und Folgen formaler Organisation. 5 ed. Berlin: Duncker & Humblot, 1964 (1999), p. 72. 15 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. A filosofia como discurso aporético: uma análise da filosofia do ângulo lingüístico-pragmático. In. Revista Latinoamericana de Filosofia. V. 1, n. 1, mar. 1975. 16 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Do discurso sobre a justiça. In Revista da Faculdade de Direito da USP, v. 74, São Paulo: Edusp, 1979, p. 153-166. 17 Toda essa construção normativa, encontra-se originalmente desenvolvida em algumas obras: FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. A filosofia como discurso aporético: uma análise da filosofia do ângulo lingüístico-pragmático. In. Revista Latinoamericana de Filosofia. V. 1, n. 1, mar. 1975. _____. Direito, Retórica e Comunicação. São Paulo: Saraiva, 1973; _____. Subsídios para a Constituição de uma pragmática do discurso: modelo de uma pragmática jurídica (pesquisa patrocinada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e realizada em São Paulo, 1972/73; _____. Análise sócio-lingüística do discurso jurídico (curso realizado na pós-graduação do Departamento de Ciências Jurídicas da PUC – Rio de Janeiro, 1973-74; _____. Validade das normas jurídicas do ângulo da pragmática. (pesquisa patrocinada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e realizada em São Paulo, 1974; _____. Análise pragmática das normas permissivas. Conferência no Instituto Brasileiro de Filosofia, São Paulo, 1976;_____. Da justiça material: como um código fraco na comunicação normativa”; _____. Análise pragmática da comunicação normativa” (pesquisa patrocinada pela Alexander von Humboldt-Stiftung e realizada em Mainz – Alemanha, 1975/7; _____. O discurso da justiça. in O novo em Direito e Política. Porto Alegre: Livraria do Advogado, p. 31-38, 1997; _____. Teoria da norma jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 1978; _____. Notas para uma Pragmática do discurso. in Esboço de Figura: homenagem a Antônio Cândido, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1979; _____. A norma jurídica. (obra coletiva) Rio de Janeiro, Editora Freitas Bastos, 1980; _____. A legitimidade pragmática dos sistemas normativos. in Direito e Legitimidade. São Paulo: Landy, p. 288-297, 2003; _____. O problema das normas auto- referentes na perspectiva da norma da comunicação/A convocação da constituinte como um problema de controle comunicacional; _____. Com Habermas, contra Habermas: direito, discurso e democracia”, (prefácio). São Paulo: Landy, São Paulo, 2004; 18 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ..., p. 161. 19 Baseado em falas da audiência pública sobre a discriminalização do aborto, iniciada em ago/18 no STF. 20 “Conflito valores” de Isaiah Berlin e “politeísmo de valores” de Max Weber. WEBER, Max: Wissenschaft als Beruf. In: Geistige Arbeit als Beruf. Vier Vorträge vor dem Freistudentischen Bund. München: Erster Vortrag. 1919.; e ISAIAH, Berlin. Does political theory still exist? In.: Concepts and Categories, Oxford: Oxford University Press, p. 143-172, 1978. 21 RAWLS, John. Political liberalism. New York: Columbia University Press, 1993. 22 As reflexões sobre a “virtualidade” desde logo emprendidas, sobretudo sobre a hipertextualidade, segue, a par de outros autores, as distinções operadas por Pierre Lévy na obra Qu’est-ce que le virtuel?, publicada pela La Découverte como edição de bolso emParis no ano de 1998. 23 LÉVY, Pierre. Qu’-est-ce que le virtuel ..., p. 136. 24 Em linhas gerais, Jean Baudrillard na obra Simulacres et Simulation de 1981, nos termos que aqui importa, sustenta que uma aproximação do “simulacro” com a “imagem”. O signo expressa uma realidade densa num primeiro estágio, mas ao mesmo tempo a deforma em seguida. A realidade, que está ausente, passa a ser refletida por uma máscara, a qual desemboca num último estágio, que é o do “simulacro”, enfim, a plena ausência derelação entre realidade e signo ou propriamente da imagem presente. 25 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – v 2. (trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão). São Paulo: Editora 34, , 2015, p. 15. 26 Passagem da cultura da árvore (tronco, ramificações) para os rizomas: a árvore impõe o verbo ser, o rizoma tem um tecido de acréscimos: e, e, e, e. 27 Em termos jurídicos, pensando em textos e documentos normativos, e normas como produto da experiência do interprete com as proposições e com o discurso normativo, a questão do hipertexto tem produzido efeitos severos, e talvez uma das mudanças mais relevantes em termos de Teoria do Direito, que no último capítulo serão mais bem exam inados . 28 LÉVY, Pierre. Qu’-est-ce que le virtuel ..., p. 26. 29 Hipertexto, textos eletrônicos cujas partes remetem a outros textos e a outras partes e a outros textos ... 30 Notas do tipo: leia-se também/o tema remete a outros/fulano trata do tema em outra perspectiva ... Capítulo 3 A Matriz Eurocêntrica da Teoria do Direito Brasileira: Direito Oficial x Inoficial 1. O processo de transplante/assimilação/recepção da teoria do direito europeia Se em termos abstratos, as instituições, e, sobretudo o direito, experimentam nítida incapacidade de superação das incertezas e conseqüente contribuição na estabilização de sentidos,no Brasil, há de se agregar um fato de singular relevância, que pode ser sintetizado em seu descompasso entre arcabouço teórico e realidade pátria: a colonialidade do saber jurídico. Não se trata, certamente, de um olhar de “idéias fora do lugar” (expressão que ficou complexa na crítica feita por Maria Sylvia de Carvalho Franco à clássica obra de Roberto Schwarz sobre o escravismo no liberalismo brasileiro oitocentista e a ignorância da teoria da dependência),31 já que a formação de um imaginário jurídico e de toda uma teoria do direito no país foi, de fato, feita por europeus, por brasileiros que recorreram às construções mais bem elaboradas da época – de matriz européia –, e feita a serviço histórico, econômico e político condizente com a presença incomensurável do modelo de ciência e de vida europeu no país naquele momento. Erigiu-se, assim, uma conformação jurídico- estatal, seja legal, doutrinária ou jurisprudencial que passou a representar uma espécie de “direito oficial”, como ocorre em qualquer país colonial, seja ainda por laços formais com a metrópole, seja por laços culturais do autoritarismo e do determinismo central. A teoria do direito brasileira passou por um processo intenso de transplante e assimilação, a ponto de forjar-se como uma teoria nitidamente européia. Mencionar assimilação aqui é discutir, desde um comparativismo jurídico (Peter de Cruz)32, o modo como o direito oficial e sua teoria jurídica foi elaborado não apenas como um reflexo, porque não se trata simplesmente de uma extensão territorial e política européia, mas de verdadeira forja de uma teoria que estivesse a serviço do capitalismo europeu, e, conseqüentemente, da modernidade jurídica européia. Não se há de ignorar a correlação feita por Enrique Dussel entre capitalismo, modernidade, colonialismo e eurocentrismo.33 Trata-se da transposição da racionalidade jurídica, teórica e prática, européia, como uma se fosse uma tradição inevitável e natural, mas que no fundo foi inventada aos moldes da influência greco-romana no contexto central,34 numa espécie de mito que funda a legitimidade da imposição do modelo eurocêntrico aos povos selvagens e subalternos latino-americanos. Discursos acadêmicos, práticas institucionais nas primeiras estruturas formais no país, sobretudo no séc. XIX, criaram por meio de uma ritualística simbólica, a compreensão de fatalidade do direito europeu como o direito oficial brasileiro, junto com tudo o que poderia de vir de mais forte, como uma teoria do direito revigorante de seus termos. Repetições, continuidades, evocações gloriosas do passado e das nações mais evoluídas foram se enraizando e inventando tradições no dizer hobsbawniano, e como consequência desrespeitando autonomias culturais, e, sobretudo, normativas no que aqui interessa, logo, a autonomia normativa e teórica brasileira. Transposição às claras, mas também por vezes silenciosa que impedia e ainda impede a crítica deste papel avassalador, sempre sob a justificativa da utopia idílica da magnitude dos povos desenvolvidos (e isto se repete ainda hoje, a ver-se por importações desastrosas e sem reflexão de institutos, como a “delação premiada” etc.). Um exercício que retirou historicamente a autonomia nacional, criando no Brasil em termos de direito oficial e de teoria do direito uma sociedade heteronômica (société hétéronome), marcada pela clivagem entre a sociedade instituída e a sociedade instituinte, esta ocultadora de originalidades.35 Isto implica que não se tratou de simples reflexo aqui apresentado, mas verdadeira instituição forçada de uma racionalidade ocultada na tradição por instâncias extra- sociais em grande parte. Instituições perenes, procedimentos iluminados são colocados por vozes intertextuais neste processo de ocultação das origens, impedindo a crítica e forjando uma simples e mera “recepção”36. Com isto se esconde o autoritarismo da sociedade européia instituinte, por um poder que é sempre re- legitimado por recursos à origem (que não existiu propriamente porque inventada) – como nas decisões judiciais novecentistas que aqui rememoravam legislações portuguesas e européias – e cujos erros são apenas reescritos por interesses políticos, o que os alemães denominam de “equívocos eficientes” (produktives M i ssver stehen) . 37 Esta concepção européia fica evidente (e aqui o recurso a registros factuais serve enquanto ferramenta e não propriamente como historiografia do direito) quando, por exemplo, examinados os livros de filosofia e teoria do direito da virada do séc. XIX para o séc. XX, ou os próprios planos de ensino destas disciplinas nas faculdades de direito expoentes no país. Como ilustração destas idéias, é possível ver neste período, período significativo de consolidação do positivismo jurídico na Europa nas mãos kelsenianas, que havia herdado as idéias do historicismo de Göttingen (Historische Rechtsschule), da exegética francesa (L’École d’Éxegèse), da tradição de autores isolados como Jeremy Bentham, John Austin, Georg Jellinek e de escolas do final do século como a jurisprudência dos conceitos (Begriffsjurisprudenz), a influência decisiva na ciência jurídica nacional. O juspositivismo se enraizava cada vez mais na Europa no início do séc. XX à medida que era atacado, debatendo-se em refutar o antiformalismo alemão da jurisprudência dos interesses (Interessenjurisprudenz) e do movimento do direito livre (Freirechtsbewegung), bem como do antiformalismo legal francês (droit libre).38 Ao vencer o debate, impondo uma hegemonia quase inconteste na Europa, ao menos até Gustav Radbruch e o despertar jusnaturalista no pós-guerra com as questões de extrema injustiça (extreme Ungerechtigkeit)39, o juspositivismo se consolida nas derradeiras décadas do séc. XIX e primeiras do séc. XX, como a mais refinada, legítima e democrática construção da noção de normatividade. Trazendo em seu bojo características fundamentais e que, apesar de terem variado de autores em autores e escolas em escolas, formaram um modo quase uniforme de concepção do direito, que, em termos sintéticos, talvez se pudesse resumir aqui apenas a título elucidativo em: (a) sob perspectiva filosófica pura: (i) o mundo é exterior ao sujeito cognoscente e não representa parcela de sua própria substância; (ii) por ser separado do homem, cumpre ao sujeito apenas e de maneira neutra representar o que lhe é exterior, posto que o objeto se lhe impõe naturalmente; (iii) por força desta exterioridade, dá-se a objetividade da realidade e sua disposição como objeto cognoscível, rivalizando com o homem o espaço e o separando enquanto sujeito cognoscente; (iv) o homem é posto como objeto cognoscível e pode ser compreendido em sua integralidade; (v) ao sujeito cognoscente cumpre apenas compreendê-lo e o descrever, sem que juízos e valores sejam ponderados neste processo epistemológico; (vi) ética, moral, religião, política constituem juízos do homem sobre a exterioridade e não interferem sobre o processo cognitivo; (vii) os comportamentos humanos são regidos por leis e princípios naturais, independentes do próprio homem, cumprindo ao sujeito cognoscente apenas captá-los e os enunciar; (viii) as relações intersubjetivas igualmente se regem por leis naturais harmônicas, autônomas da vontade, captáveis em sua mecânica funcional; (ix) as experiências humanas constituem-se em fatos impositivos ao sujeito cognoscente, apreensíveis sob rígidos métodos de similitude, padronização, observância, comparação e descrição; (x) tal os fenômenos naturais, o ambiente humano, por ser integralmente captado pelo sujeito cognoscente e traduzido em regras, pode ser filtrado pela razão e explicado segundo o princípio da causalidade e das inferências lógicas; e sob perspectiva estritamente jurídica, seguindo o mesmo raciocínio: (i) o direito é fenômeno histórico datado e determinado; (ii) o fenômeno jurídico é singular em relação à moral, religião e regras sociais, sobretudo, por força da exterioridade e da coerção; (iii) o direito se reduz formalmente ao conteúdo positivadoem legislações; (iv) legítimas são apenas as normas exclusivamente postas pelo ente político (monismo jurídico); (v) o direito é produto na manifestação formal da vontade estatal, logo, da figura competente segundo ele mesmo afirma (cada figura legislativa só pode decorrer de quem está devidamente autorizado para emaná-la); (vi) a interpretação é atividade cognitiva que extrai a verdade contida nos enunciados legislativos; (vii) os magistrados apenas expressam, sem criatividade, a literalidade técnica da norma posta pelo legislador; (ix) há rígida separação dos poderes estatais; (x) no âmbito jurídico, apenas fazem parte questões formalmente interiorizadas segundo suas próprias regras; (xi) o ordenamento jurídico é marcado, tradicionalmente, pela perspectiva lógico-sistemática; (xii) alterações normativas apenas decorrem de procedimentos previamente estabelecidos pela vontade da maioria e nos estritos termos da delegação de poder respectivo. Por conseguinte, a teoria jurídica se desenvolvia numa espécie de tensão entre a tomada de decisão (decisão judicial, administrativa, negocial etc.) e o trabalho do legislador, donde as controvérsias sobre a relevância da interpretação doutrinária (doutrina jurídica), fundada em topoi como o topos do “interesse e suas valorações”, em torno do qual se coordenam vários outros, como “vontade negocial”, “proteção do valor funcional da propriedade”, “confiança”, todos fórmulas adjetivas a girar em torno do problema mais abrangente referente ao justo. Isso, por outro lado, em confronto com a interpretação autêntica (por exemplo, efetuada pelo órgão judicial, porém mediada pela doutrina) seus argumentos tópicos (proibição da decisão contra legem, proibição do non liquet, uso autorizado de meios extralegais em caso de lacuna – princípios, analogia, equidade) não obstante o papel secundário exercido pela jurisprudência dos tribunais como fonte do direito (o juiz limitado à lei e à Constituição). Nessa tradição que vinha do século XIX, a hermenêutica jurídica, vista como atividade de interpretar, seria atividade que precederia a atividade de aplicar. O sentido normativo de um comportamento (roubar, furtar, prevaricar, corromper, contratar, doar, herdar, produzir um fato gerador de tributo etc.) viria, assim, “domesticado’’, isto é, dotado de um sentido reconhecível, para uso e utilidade dos aplicadores jurídicos. A tarefa do doutrinador seria torná-los “casos abstratos, definidos em termos jurídicos”, isto é, em termos de “significados juridicamente reconhecíveis”. Mesmo quando, no caso de lacunas no ordenamento, este era integrado por meio de analogia, de princípios gerais de direito, até por equidade, o que se fazia era orientar-se, mediante presunção, pelas avaliações próprias de um problema central e recorrente (como se constitui o sentido das normas?), mediante os topoi da vontade do legislador ou da lei. Interpretar, nesses termos, seria capacitar-se para apontar o alcance abstrato de conceitos em vista de possíveis conflitos concretos (interpretação extensiva, restritiva, analógica). Portanto, a noção central da teoria do direito deste momento histórico mencionado é a de que a pureza do direito passa a significar o objeto da ciência jurídica como o direito como norma, mais propriamente como ordenamento jurídico40. De consequência, erigiu-se um direito enquanto instituição marcado pelo autoritarismo, exclusividade, estatalidade, e, sobretudo, universalidade no trato com as questões de fato e da vida cotidiana, enfim, um direito que se poderia denominar de um direito oficial41. Um direito artificial, que por si só enquanto instituição já é produto das forças dominantes, mas, que em países coloniais, agrava-se significativamente no distanciamento da realidade. Esta unicidade do direito enquanto instituição, e, portanto, na esteira do que se disse há pouco, como verdadeiro “acervo histórico de sentidos”, no Brasil passou a se ter de lidar com um campo paralelo “indesejado” (ou ao menos complexo para a teoria do direito), quiçá nem paralelo e sim coexistente no mesmo espaço, que se poderia resumir num direito inoficial. Um “direito” ou, por enquanto, uma “normatividade fática” que, em razão da colonialidade do poder e do ser brasileiro se apresentou consistente e legítimo, embora tenha sido controverso, escondido, ocultado propositadamente pelo modelo jurídico eurocêntrico que aqui se desenvolveu (mas antes de ingressar neste modelo convivente com o a oficialidade, cumpre explicar um pouco esta colonialidade da teoria do direito e do direito oficial). O fenômeno da colonialidade da teoria do direito brasileira e do próprio direito oficial é produto, sem dúvida, de uma questão anterior fundamental que é a própria colonialidade do poder e do ser latino- americano visto como um todo. Como consequência deste processo, fruto do colonialismo europeu, que domesticou e formatou a mentalidade do povo brasileiro, os saberes produzidos na universidade e por vezes o popular, e todo a arquitetura das instituições formais do Estado Brasileiro, imprimiu-se por certo a mesma influência e as mesmas características e racionalidade, e talvez com vigor ainda maior, na ciência jurídica doméstica, bem como no direito e no ordenamento jurídico brasileiros. Dentro daquela concepção de transposição de uma sociedade heteronômica de que acima se discutiu. Sem aprofundar questões históricas e geopolíticas da América, do “descobrimento” e a formação do sistema-mundo moderno- colonial, tomando-as como inquestionáveis aqui, fato é que o jogo de forças do capitalismo comercial e industrial, o tabuleiro internacional das potências que se constituíam como Estado-Nação no longo processo do séc. XV ao XIX, e a luta por mercados de matéria- prima e consumo42 impuseram ao Brasil uma formação baseada na conquista, submissão e dominação de suas origens. Submissão que se reforçou, como é notória, por discursos de inferiorização dos colonizados a fim impedir emancipações e reforçar a servidão em todos os seus aspectos.43 Toda essa submissão operada no plano metrópole-colônia e discursos de inferiorização foram elaborados em dois eixos de classificação: articulações de forma de trabalho e idéia de raça, gênero e sexualidade. Lugares, posições e grupos sociais passam a ocupar situações pré-determinadas conforme as classificações 2. Colonialidade do poder e do ser latino-americano sociais decorrentes do esquema econômico do capitalismo: centro- periferia, proprietário-escravo, empresário-trabalhador. Relações rígidas que se naturalizam no processo de reprodução das relações sociais e manutenção de formas próprias e estrangeiras de poder, enfim, a marca do colonialismo – “poder”.44 Expressão disso é a característica das instituições nacionais e dos lugares ocupados pelos brasileiros nesta estrutura, sempre sob a submissão da mesma lógica capitalista e sempre reforçadas pelos mesmos meios de manutenção da opressão. Contudo, o eixo da imposição da classificação racial e étnica, que leva ao conceito de colonialidade – “ser” está muito além da relação de dominação-exploração operada na estrutura política e nos recursos e meios de produção e trabalho (dominação político- econômica e jurídico-administrativa), mas avança na conformação da “identidade pessoal” e da sua hierarquia evolutiva. A criação da raça pela artificialidade fenotípica (cor de pele, forma e cor do cabelo, olhos, nariz entre outros) e sua distinção (ignorando as próprias diferenças entre indígenas, entre mestiços, entre negros etc.) serviu como processo de diferenciação entre conquistadores e conquistados, europeus e não-europeus, hierarquizando os povos. Ao lado do trabalho e da raça, o gênero e a sexualidade foram sendo artificialmente construídos igualmente com os mesmos propósitos, de normalização e patologia, garantindo eficiência na manutenção das relações familiares e sociais ao tempo que exclusão e submissão dos que estivessem fora do padrão estabelecidos. Toda essa gramática do poder e do ser imposto de europeus parabrasileiros45, cuja latinidade se fez artificialmente, impôs a construção de subjetividades hegemônicas e como consequência subjetividades marginais. Negros, indígenas, quilombolas, caiçaras- mestiços, ribeirinhos, mulheres, LGBT’s, imigrantes, refugiados tornaram-se parte de uma subjetividade aqui imposta como subalterna, marginal, uma típica subjetividade colonial, quase sempre atrelada aos mesmos meios de exclusão econômica do pobre, do feio, do morador de rua, do desempregado etc. Trabalho, classe, raça, gênero elucidam a classificação excludente da colonialidade do saber e do ser operada no Brasil em sua formação histórica e que até hoje deixam seus traços, sobretudo, nos seus institutos jurídicos, no direito oficial e na racionalidade da teoria do direito. Por força do etnocentrismo típico do evolucionismo antropológico do séc. XIX na Europa, justamente no momento em que o Brasil, particularmente, reconhecia-se e se construía como nação e formava seu arcabouço legislativo e constitucional, uma tradição eurocêntrica se imiscuiu em todos os aspectos jurídicos da vida doméstica, deixando os vestígios peculiares do colonialismo jurídico. Dentre as inúmeras marcas coloniais possíveis de serem reconhecidas, está, por um lado (no que aqui é relevante), o modelo de fundação ética da teoria do direito nacionalmente disseminada, calcada nas teorias cognitivistas-normativistas éticas. Não por outra razão, são evidentes os traços moralizadores nos institutos jurídicos, nas instituições, na racionalidade e nas legislações que respondem a este projeto objetivista-ético aos moldes europeu. Não são poucas as evidenciais de que o direito e sua teoria na realidade brasileira (em parte idêntica neste aspecto à latino-americana) carregam leituras no embate com a moral a partir de autores objetivistas, logo, a partir da literatura greco-clássica, romana, patrística, escolástica, racionalista, positivista etc. Isto implica reconhecer, e não há nada de novo nisto naturalmente para as teorias pós-coloniais, que a estruturação institucional do país no séc. XIX foi em grande medida forjada pela dominação européia, seja colonial, seja imperialista. A análise da formação da política externa brasileira bem demonstra o anseio das elites nacionais em atrelar o país ao modelo etnocêntrico que havia, seja pela imagem de progresso, de civilização, de superioridade (biológica inclusive desde os tempos lamarckianos). Desde uma perspectiva política, não é de se deslembrar que a independência brasileira no início do séc. XIX, ao contrário dos demais países latino-americanos, fez-se por um acordo de elites e sob a forma de um novo império, logo, um processo sem ruptura, sem revolução, conformando não apenas uma história peculiar, mas com todo um sentido próprio: tratava-se de um escudo capaz de manter a “empresa escravocrata”, a unidade territorial e a repulsa da ingerência britânica. Os ingleses participaram dos últimos momentos do Brasil – Colônia, logo, tornaram-se responsáveis por inserir o Brasil no jogo de forças internacional (marcado pelo “pentágono de equilíbrio de poderes” do Concerto de Viena de 1815). Deste modo, como é sabido, embora independente, o país se inseriu na “divisão internacional do trabalho e do comércio” consoante os interesses ingleses, o que, certamente, retardou a construção de uma “imagem”, uma “identidade” internacional. Se a preocupação da “política externa portuguesa” quando do Brasil-Colônia voltou-se exclusivamente à questão platina, e, genericamente, à “definição geral dos limites”, no Brasil-Império, vê-se a lenta consecução de uma política externa brasileira, e a diversificação dos interesses. A própria edificação do Estado e da nação no Brasil se perfaz historicamente de modo gradual, a tal ponto dela também tardar a se definir. Segundo Celso Lafer, é possível perceber que esta política agiu em duas linhas geopolíticas: Sistema Internacional e Sistema Regional. O Brasil começa, então, por meio de sua política externa, a ganhar um espaço e uma identidade internacional. Uma política que cruza o séc. XIX inteiro em três perspectivas, que, segundo Luis Wernek Viana se apresenta em três momento distintos: (i) acomodação (1822-44) – voltada ao sistema internacional, ao reconhecimento da soberania brasileira, ao tratamento do lugar do Brasil no tabuleiro do capitalismo industrial; (ii) reação (1844-71) – de um lado o país que cria o seu comércio exterior pela “Tarifa Alves Branco”, logo, rompe em parte com a hegemonia e a dependência, e, doutro, preocupa-se com o “subsistema regional” (Guerra do Paraguai – 1864-70); (iii) consolidação (1871-89) – resolvida a questão platina e tendo se colocado como “semi-periferia” e o “cuore” o capitalismo, o Brasil se volta para as turbulências internas que marcam o fim do Império e levam à Proclamação da República. Como consequência desta formação brasileira do séc. XIX, o que se tem como verdadeiro foi a importação, cega à peculiaridade cultural nacional, de um modelo de racionalidade jurídica que bem poderia responder ao projeto europeu daquele momento histórico, logo, de um modelo estrutural de códigos, institutos, instituições que representavam a superioridade européia em relação ao resto das nações. Este projeto geopolítico estava na base do evolucionismo biológico da primeira metade do século e do evolucionismo antropológico da segunda metade, e que bem reflete o projeto cultural europeu, a ver-se nas obras de Johan Bachofen, Fustel de Coulanges, John Macleman, Edward Tylor, Louis Morgan e James Frazer. Não por outra razão, toda a estruturação jurídica brasileira feita pelos bacharéis do Império e mesmo da velha república foi embebida desta perspectiva cultural etnocêntrica novecentista. Se bem servia ao centro, a periferia era ignorada em suas idiossincrasias, especialmente no amálgama cultural brasileiro na linha de Darci Ribeiro e dos demiurgos do país, como Caio Prado, Sergio Buarque de Hollanda, Celso Furtado, Antonio Cândido, Florestan Fernandes etc., robustamente marcada pela formação africana e indígena. O multiculturalismo original nacional foi planificado, em termos jurídicos, pelo projeto autárquico jusetnocêntrico. A colonialidade se manteve e se sobrepôs às diferenças, inclusive sob a perspectiva institucional jurídica, já que os temas nacionais não fizeram parte do imaginário dos legisladores, apenas os que representavam os interesses eurocêntricos, naturalmente, de matriz burguesa e estrangeira. A consequência, na perspectiva ética, que aqui importa em peculiar, foi a recepção da tradição cognitivista-normativista na teoria do direito, especialmente naquele momento do kantismo e do utilitarismo europeu. Com isso, desde uma perspectiva ética, a formação de uma moral padrão se fez presente nos institutos do direito privado, do direito penal, do direito administrativo imperial etc. Moral essa, como se investigará com Nietzsche, que serve justamente à psicologia da dominação, a moral dos fracos, baseada no medo e na oposição à vida, e, conseqüentemente, à diferença. O “mau selvagem” brasileiro é ignorado pelo modelo europeu, e evidentemente é rechaçado na teoria do direito que se formava à sua semelhança. De consequência, uma gama imensa de experiências subjetivas típicas da realidade multifacetada da cultura brasileira não Este modo de ser, pensar e viver gravados pelo eurocentrismo e o colonialismo impôs à teoria do direito e ao saber jurídico de um modo geral brasileiros igualmente um modo de racionalizar os problemas jurídicos nacionais através dos mesmos modelos, estruturas, molduras e características do saber central. Houve, por meio da importação quase literal e idêntica da ciência jurídica européia e dos ordenamentos jurídicos domésticos de lá, uma sobreposição forçada diante de quaisquer manifestações plurais aqui já existentes, como experiências indígenas, caiçaras, “quilombolas” etc. foi em nenhum momento recepcionada por esta institucionalização jurídica nacional, sendo apenas ignorada na construção de direitos.Eis aqui, um ponto de investigação já reconhecido. O Outro latino- americano sempre foi simplesmente ignorado, não apenas nas atribuições de direitos, como bem sempre lutaram as teorias críticas, mas pela estatura de diálogo ético por parte do ordenamento jurídico e da teoria do direito. É justamente contra este diagnóstico que se coloca este ensaio. A proposta, adiante analisada, que se apresenta é de que seria oportuno trabalhar algo a partir das “sensações jurídicas”, a possibilidade de construção de critérios de juridicidade a partir de éticas subjetivistas, como a linhagem dos afetos spinozanos, das impressões humeanas, etc. Algo como a necessidade de superação do objetivismo axiológico em direção ao resgate do emotivismo ético... sobretudo pelo momento de ponderação, principiologismo em que se vive, ativismo judicial, mas que é trabalhado pelo sistema ainda em perspectiva institucional, formalista e liderado pelo positivismo contemporâneo. Com isso, a recepção do Outro, no relativismo axiológico e as inúmeras formas plurais de moral (comunidades quilombolas, caiçaras, indígenas, ribeirinhas etc.) poderiam vir a experimentar, tal o pensamento pré- socratico, devires mais atentos a diversidades típicas da cultura br as ileir a. 3. Colonialidade da teoria do direito brasileira Em termos histórico-jurídico, é possível com certa segurança, afirmar que a manifestação do eurocentrismo se dá pelas mãos da romanística46, largamente difundida nos bancos acadêmicos. Por certo que não se tratou apenas de uma disciplina histórica e dogmática em torno dos institutos do direito romano, mas sobretudo verdadeira disciplina de formação e costura da normatividade no país, seja em termos teóricos, seja pragmático. Esta romanística que se difundiu no Brasil como efeito, embora formalmente pós- colonial, ainda bastante vinculado ao academicismo europeu, foi aquela construída na era moderna na retomada do ambiente romano, especialmente, do plano jurídico, também marcado por uma matriz positivista. Não à toa é no seio do historicismo alemão, pelas mãos de Savigny, mas também da pandectista que se formava ainda no final do séc. XVIII por Windscheid e seu usus modernus, que se constrói a jusromanística. Até o séc. XVIII e XIX, o estudo do Direito Romano seguia uma lógica diversa, destinada mais a recepcionar o Direito Romano e tentar compreendê-lo com vistas à aplicação prática. O intenso debate no baixo medievo que se formará da herança do mos italicus com o mos gallicus bem demonstra a lógica em que os estudos romanísticos estavam inseridos. Porém, a partir da consolidação da figura estatal, do momento do pensamento nacionalista, ressurge o estudo do Direito Romano, agora já embebido de uma leitura científica, positivista e metódica. É aqui que se erige todo um saber específico sobre o Direito Romano, a que se acostumou a denominar de romanística clássica, tradicional ou catedrática (porque inserida nos bancos acadêmicos). A jusromanística clássica, que perdurou por cerca de quase dois séculos, e e apesar das mudanças teóricas, ainda persiste ao rigor positivista, privilegiou o estudo das fontes documentais e oficiais em detrimento de outras; restringiu-se ao plano do que é verificável e objetivo no ambiente romano; preocupou-se em construir uma sólida, cronológica e sistemática leitura dos institutos, no afã de uma neutralidade e de uma cientificidade típicas do positivismo histórico. Fez-se verificar, assim, uma romanística dogmática, com resquícios de antiquaria, baseada na continuidade e na linearidade dos institutos e das instituições, sempre na relação de causalidade e de progresso. Por essa razão, o próprio ensino do Direito Romano ganhou contornos positivistas, tendo por objeto a mesma análise asséptica do historiador tradicional, porque destinado a fomentar nos acadêmicos a formação de um saber clássico, elitista, culturalmente arquivista, quando não atrelado propositadamente ou não à manutenção das estruturas de poder e de tradição. A romanística catedrática, portanto, seguiu com seu objeto específico o mesmo curso da história do direito do séc. XIX e sua busca incessante pelo método47 (Friedrich Bluhme, Franz Hoffman). No Brasil, seguindo a Europa, embora com certo atraso, o estudo do Direito Romano teve papel importante, a ponto de, segundo Moreira Alves, afirmar que o direito civil pátrio era mais romanizado que o português, o que demonstra claramente a influência européia, nitidamente romanista e civilista no séc. XIX, assim como toda a teoria do direito forjada nesta época em torno das construções abstratas de sujeito, direito, dever, obrigação, responsabilidade, enfim, de uma subjetividade moderna, racional, ilustrada e tipicamente ideal. Estes estudos romanistas brasileiros realizados no final do séc. XIX e início do séc. XX estão inevitavelmente atrelados ao momento de algumas idéias, como do bacharelismo, da construção das noções de nação à européia, branquiamento populacional, semeadura (Paulo Prado), de uma alienação burguesa propositada (um jurista que se acostumou a “viver nos outros”, Sergio Buarque). Por outro, há um papel importante, leitura institucional, que serviu à estruturação do ordenamento jurídico brasileiro. No Brasil, em 1823 se determinou expressamente que as Ordenações portuguesas, mesmo após a independência, permaneceriam em vigor. Tecnicamente, as Ordenações Filipinas ainda continuariam a ser aplicadas em alguns aspectos até o vigor do Código Bevilácqua. Aqui desaguou o direito civil português fruto destas Ordenações de 1603, amplamente marcado pelo Código Visigótico (traduzido para o espanhol na época do domínio como Fuero Juzgo), pelo direito costumeiro (normas de origem romana vulgar), pelo direito germânico, e, ainda, em certo aspecto, o direito muçulmano. Esta estrutura pluralista permaneceu em Portugal até o séc. XIII, momento da recepção medieval do Direito Romano. Portugal, separado da Espanha, teve interesse nos estudos bolonheses, pois os reis pretendiam resgatar o caráter imperial da legislação romana. Estas Ordenações – Leis Gerais – tinham fundo essencialmente romano e canônico. Assim, todo este arcabouço normativo acabou em duas compilações iniciais privadas: Ordenações de Dom Duarte e o Livro das Leis e Posturas, para, em seguida, resultar nas Ordenações Afonsinas de 1446. Estas substituídas pelas Manuelinas de 1521 e em 1603 pelas Filipinas (Livro Quarto). Foi exatamente por forças dessas Ordenações, e também pela recepção na época da dominação, da Ley de las Siete Partias de D. Afonso X (séc. XIII), que o direito nacional ficou, em princípio, romanizado. Sempre que as Ordenações fossem lacunosas, cumpria ao Direito Romano colmatá-las. Aceitou-se, inclusive, se não houvesse resposta, que se recorresse à Glosa de Acúrsio e às opiniões de Bártolo. Assim, o Direito Romano assumia um caráter subsidiário: i) só aplicável quando condizente com a boa razão; ii) as interpretações dos glosadores e comentadores só poderiam ser aplicadas se não fossem contrárias à opinio communis doctorum. Como as Ordenações eram lacunosas, o Direito Romano assumiu então papel decisivo. Naturalmente, acabou-se gerando um “uso abusivo” do Direito Romano. Em Portugal, no séc. XVIII, o iluminismo e a escola jusnaturalista opuseram-se já ao Direito Romano, até então ius commune, substituindo-o lentamente pelo projeto codificador moderno. Isto fica evidente na legislação pombalina de 1769 (Lei da Boa Razão), que substituiu o conceito de “boa razão” que havia nas ordenações (entendida como a interpretação segundo primitivos princípios baseados na ética dos romanos) por um novo conceito de “boa razão” (entendida como o filtro baseado nas “leis das nações cristãs, iluminadas e polidas da sã jurisprudência”). Com isto, profunda reforma opera-se em Portugal, liberando o direito laico da influência canônica e da reinterpretação romana. Todavia, no Brasil, como a própria legislação imperial continuou a ser aplicada, manteve-se a predominância do Direito Romano. Não bastasse isto,em meados do século, Teixeira de Freitas (1859) foi incumbido pelo Governo de fazer uma “consolidação das leis civis vigentes” no Brasil. O projeto reforçou a influência romanizada portuguesa, mas, apesar da Constituição de 1824 ter previsto um Código Civil, este não chegou a ser feito. Teixeira de Freitas, embora tenha feito grandes esforços, e tenha influenciado códigos latino- americanos, não obteve êxito, posto que repudiou o código negreiro. Segundo Silvio Meira, seu objeto central foi as Ordenações e a legislação extravagante brasileira, nitidamente marcada por um conteúdo romanista. Entretanto, apesar de romanista, tinha “espírito libérrimo” (Silvio Magnasco), e não se limitou a recuperar apenas os romanos. Críticas foram feitas às ordenações (pois as entendia “pobríssimas”), razão pela qual decidiu buscar as fontes puras do Direito Romano, especialmente as Institutiones de Gaio. Segundo Silvio Meira, os principais romanistas que influenciaram Teixeira de Freitas foram: Pothier, Demangeat, Ortolan, Demolombe, Savigny. Ainda, Teixeira de Freitas se valeu de muitos institutos lusitanos, enquanto nem mesmo Visconde de Seabra, redator do Código Civil Português de 1865 havia se utilizado, já que este se filiara à família de codificadores napoleônicos. A Consolidação de Teixeira de Freitas, segundo o Ministro da época Martim Francisco, estava dividida numa Parte Geral e outra em Civil propriamente dito. Porém, como não foi aprovado, permaneceu no país, ainda, o recurso à legislação romanista embora o próprio Direito Romano não fosse estudado em São Paulo e em Recife, seguindo Teixeira de Freitas, houve tentativas de Nabuco Araújo, Felício dos Santos, a da Comissão de 1889 (Cândido de Oliveira, Barão de Sobral, Afonso Pena), depois de Coelho Rodrigues (tradutor das Institutiones Gai), até que Clóvis Bevilácqua elabora e apresenta em 1899 um novo projeto, que seria aceito. O próprio Beviláqua afirma em suas Linhas e Perfis Jurídicos de 1930 que o nosso direito civil era romano, com modificações germânicas e canônicas. O romanista Aberlardo Lobo chegou a mencionar que dos 1807 artigos do Código Civil, 1445 eram produtos da cultura romana, isto porque Bevilácqua era romanista, ao lado dos que o ajudaram, como Andrade Figueira e Rui Barbosa). Assim, a romanística, se marcada por um traço de vanguarda à época, ainda que posteriormente criticada, desempenhou papel fundamental não apenas na formação cultural e jurídica do país, mas na própria elaboração legislativa que se forjou ao longo de dois séculos. O direito romano, leia-se aqui, o direito europeu vinculou a elaboração do regime jurídico privado brasileiro, colocando a romanística num destacado e singular lugar na formação dos saberes propedêuticos, ainda que de modo dogmático e asséptico. Ao lado desta compreensão da romanística, toda a conformação da teoria do direito esteve embebida do modelo europeu. Aqui se recepcionaram as teorias filosóficas e jurídicas européias. A análise dos primeiros manuais de filosofia e teoria do direito (introdução à ciência do direito) do séc. XX mostram claramente que o ensino circulava em autores (Loria, Littrê, Cogliolo, Comte, Spencer, Ihering, Stammler) e matrizes européias (enciclopédia jurídica, natureza e classificação das normas, idéia de direito e sentimento jurídico, relações com outras disciplinas, valor, método, interpretação, princípios e institutos jurídicos, fontes, lei e regulamento, direito natural e direito positivo, direito objetivo e direito subjetivo).48 Em sua grande medida uma teoria geral do direito. Um momento no início do século de definições e contornos sobre a filosofia do direito e a teoria do direito, embora ambas européias. O início das construções remonta ao positivismo da virada do séc. XIX para o Séc. XX, quando herdeiros de Adolph Merkel, Karl Bergbohm e Ernst Bierling (August Thon, Félix Sòmlo, Edmund Mezger e Ernst Weigelin) e os primeiros publicistas alemães empreendem a defesa de uma teoria geral do direito(allgemeine Rechtslehre) em distinção da filosofia do direito (Rechtsphilosophie), justamente no momento em que ciência e filosofia estão em desacerto com o Direito como um objeto próprio. Enquanto a última gastaria seus argumentos ultrapassando o próprio estatuto juspositivista, embora tendo nele seu berço, e procurando refletir objetos não científicos, especialmente aqueles próximos dos valores resguardados pela normatividade (justiça – fim último), a primeira seria a generalização do saber imanente à dogmática jurídica, e, logo, dos modos próprios de se trabalhar com a técnica do dever-ser (José Echavarría). A teoria geral do direito alcança lentamente sua identidade nas primeiras décadas do séc. XX, saindo de uma perspectiva inicialmente nacionalista, de modo que seria “única” para cada ordenamento jurídico (algo não muito estranho de se aceitar, colocadas as idéias no seu lugar de origem da escola história – historische Rechtsschule – fonte do positivismo) até outra de universalização, propiciada pelos neokantianos e hegelianos, assim como os jusfenomenólogos. Seu estatuto era o estudo dos elementos comuns e gerais a quaisquer dogmáticas modernas, leia- se, a reflexão sobre caracteres e institutos próprios do Direito hábeis a unirem e identificarem as dogmáticas como técnicas coesas e ordenadas (estatais, sem dúvida) a serviço da manutenção da ordem e da comunidade. Era a busca incessante por uma base conceitual comum e orgânica dentro da ciência do direito. A elaboração de uma doutrina dos conceitos jurídicos fundamentais (Hans Nawiasky). Nessa medida, uma disciplina nomográfica, porque destinada a expor e sistematizar as prescrições já formuladas, o que diferiria da filosofia do direito e seu papel formulador. Por isso se restringia às formas jurídicas (Rechtsformenlehre) (García Máynez) e à extração empírica dos ordenamentos jurídicos dos conceitos gerais. Comumente estudada no Brasil a partir dos anos 1930 nas disciplinas de Introdução ao Estudo do Direito. Não à toa seu roteiro quase atemporal e eterno era a visualização técnica do nascimento do direito enquanto direitos, sua perspectiva normativo-sistêmica, suas classificações e suas categorias fundamentais essencialmente dualistas (objetividade e subjetividade; obrigações e faculdades; relações e responsabilidades, direitos e deveres). Se refletido o programa da allgemeine Rechtslehre nos tempos de Felix Somló é visível a semelhança com o programa de teoria geral do direito ainda hoje em muito trabalhado, porque preocupado com o Direito apenas enquanto um dato e seus aspectos comuns, cumprindo à dogmático jurídica os estudos das peculiaridades deste Direito. Sintetizando a perspectiva européia da teoria do direito que aqui foi artificialmente posta, em termos estruturais, é possível afirmar que a compreensão do direito girou em torno das noções de normae ordenamento jurídico. A norma jurídica, em sendo um juízo hipotético (e não de causalidade, como nas ciências naturais), mas com vistas a incidir diante de um fato trazendo consigo um valor escolhido previamente, apresenta uma parte destinada a prever o ser, outra para formalizar o dever-ser, e, outra, por fim, para prescrever eventual consequência no descumprimento deste dever-ser. Estas divisões da norma implicam nas chamadas estruturas normativas, e depende da percepção de cada autor. Há, contudo, algumas já t r adicionais: Hans Kelsen entendia que a norma, por ser uma proposição jurídica, e, conseqüentemente, um juízo hipotético ou condicional, apresenta-se como uma imposição e uma coação, ou seja, há uma norma primária e uma norma secundária. A primária estabelece como devida a fixação de um condicional ato de coação pelo órgão judicial em caso de violação da norma, enquanto a secundária seria a conduta estabelecida para cumprimento dos sujeitos. Então, para Hans Kelsen, a norma primária é a norma jurídica propriamente dita (dado a importância da sanção para ele, como visto acima), e apresenta a seguinte estrutura: uma primeira estrutura,denominada de antecedente ou suposto normativo (pródase para Lourival Vilanova), no qual se supõe um fato hipotético ilícito, portanto, com características de ação num tempo e num espaço que levam ao descumprimento do dever ser; e outra dita conseqüente normativo (apódase para o jurista pernambucano), no qual se propõe uma consequência pelo descumprimento – via de regra uma sanção. De outro lado, Carlos Cossio, numa perspectiva mais ampla e que tem sido mais aceita, sustenta que haveria uma endonorma, gravada pela conceituação da prestação, e uma perinorma, que expõe a conceituação da sanção. Paulo de Barros Carvalho, valendo-se do avanço de Carlos Cossio, manifestando sua leitura para o direito tributário, mas afirmando se tratar de percepção de teoria do direito, sustenta as seguintes estruturas: antecedente normativo – mundo dos fatos hipotético (qualificado pelos critérios material – ação/omissão; critério temporal – conduta em algum momento específico; e critério espacial – conduta ocorrida em algum lugar) e um conseqüente normativo, cumprindo o juízo “dado um fato, então deve haver uma consequência na ordem jurídica” (qualificado pelos critérios pessoal – alguém/sujeito ativo realizar a obrigação para outro/ sujeito passivo e obrigacionais – uma sanção ou uma obr igação) . A idéia de norma como objeto da ciência do direito permaneceu com relativa estabilidade por quase todo o séc. XIX. No entanto, a evolução do pensamento no âmbito das ciências naturais, bem assim o franco desenvolvimento da sociologia no final do século pelas mãos de Émile Durkheim e Max Weber, trouxe a necessidade de serem ampliados os horizontes científicos no direito para algo mais complexo. Num dado instante, como visto nas farpas lançadas pelos movimentos antiformalistas francês e alemão do último quartel do séc. XIX, as críticas sociais fizeram com que a idéia de norma começasse a titubear como critério de racionalidade e justiça do direito. Houve, então, um dado momento, como afirma Norberto Bobbio, que se começou a pensar, em termos abstratos, se haveria a possibilidade do direito se resumir a apenas um tipo normativo, seja de proibição, faculdade ou permissão, contudo, logo se percebeu que a realidade estava tão mais vasta por força do imperialismo, do capitalismo financeiro emergente, da segunda onda da revolução industrial, do adensamento das cidades, que a idéia de ordem normativa começa a pulular. É neste instante, portanto, que a noção de sistema passa a intrigar os juspositivistas, que encontram em Immanuel Kant um grande recurso de recepção. Conquanto não fosse nova a noção de sistema, posto que os filósofos antigos (Políbio, Platão, Aristóteles, Luciano, Arriano, Plutarco ao falar em constituição democrática, complexo de estados, legações, senado etc.) já haviam sobre ela se debatido (não por outra razão a etimologia remete à idéia de syn – com, junto, stéma, sténai – estabelecer, colocar em pé, possuir, estar, colocar e o sufixo ma – instrumento, meio, resultado (o efeito da ação), logo, algo como agregado de partes, conjunto de elementos, especialmente pelo conceito de kósmos (como já visto no cap. 3), a noção moderna se lhes apresenta muito mais próximo da compreensão desejada, tal como na astrologia, na biologia e na sintaxe. A reflexão kantiana supera o modelo mecânico por outro, dito, orgânico, que, para além do conjunto de elementos ao sabor aristotélico, pressupõe uma força única, central que age de modo teleológico, isto é, a noção de sistema envolve obrigatoriamente a noção de elementos em conjunto, mas que se organizam dirigidos a um fim premeditado. Em seu clássico Crítica da Razão Pura, de modo mais claro no capítulo Arquitetônica da Razão, que compõe a parte sobre a Doutrina Transcendental do Método, menciona duas vezes a expressão sistema (System), ao dizer que a arquitetônica é a arte dos sistemas, bem assim a “unidade sistemática” é o que permite transformar o conhecimento vulgar em conhecimento científico. Tempos depois, no final da década de oitenta, em sua Crítica da Razão Prática, quando discute especificamente a doutrina do direito, volta a mencionar a idéia de sistema íntegro e contínuo. Contudo, a sua contribuição decisiva para o tema está na Crítica da Faculdade de Julgar, quando pormenoriza a discussão no item Do sistema teleológico nas relações dos seres organizados e noutra Do fim último da natureza como sistema teleológico. É nestas reflexões, quando discute o reino dos seres vivos, que menciona a idéia de organização que pressupõe um fim interno e autônomo capaz de unir e classificar o que lhe pertence e o que lhe está fora. É esta a noção clássica kantiana que influencia Kelsen a pensar o direito em perspectiva sistemática, assim como o fará Santi Romano e Norberto Bobbio (ressalte-se, apenas a título de esclarecimento, que embora Santi Romano seja o primeiro a usar a expressa “ordenamento”, em seu livro de 1918, sua perspectiva é bem diversa, estando mais próximo do pluralismo de Maurice Hauriou e Georges Renard do que os herdeiros de Kelsen). Para ser sistema, é imperioso haver um conjunto de elementos organizados a partir de um princípio ou de um fim específico. Ao falar na idéia de sistema, há: um repertório (conjunto de normas) e uma estrutura (conjunto de regras). São justamente estas regras que organizam, qualificam, singularizam e estruturam um sistema. No exemplo49, ao ser ver uma ordem numérica 9, 7, 5, 3, 1, é fácil verificar o repertório composto de números, mas com certa reflexão, é possível perceber que existem algumas regras, a ponto de excluir o 2, o 8 ou o 4, pois se trata de: (i) números cardinais e não ordinais; (ii) números ímpares; (iii) números seqüenciais; (iv) números decrescentes; (v) números separados entre si por duas unidades etc. São as normas que estruturam este conjunto e fazem perceber a existência de algo que vai além da mera aglomeração de números, mas um verdadeiro sistema. Há algo que lhe dá identidade, que se estrutura logicamente e permite afirmar que há em si um determinado sistema de números.Esta compreensão foi levada, então, para o direito, a partir da noção de ordenamento, que, para além de um conjunto de normas, também tem sua estrutura, como normas produzidas ou não pelo legislador, normas vigentes, normas constitucionalmente autorizadas etc. Por isso o direito é um sistema de alta complexidade, em face de existência de uma rede complexa de normas que lhe conferem a perspectiva sistemática. É essa idéia que leva Kelsen, como visto no cap. 3, valar em validade formal, que estabelece o critério de identidade capaz de dizer se uma norma é norma e se ela pertence ao ordenamento (porque produzida por quem a poderia fazer – teoria das fontes -, sobre o que é permitido e de acordo com os trâmites previstos). Há, nesta perspectiva clássica a necessidade de se respeitarem as regras de inferência, para que o direito seja um sistema lógico, ou seja, é preciso que haja uma identidade, que não haja contradição e tampouco ausência de regramento. Respeitadas estas regras, há um sistema no direito. (Jacques Chevallier). Quanto à identidade, Kelsen afirmou que se faz pelo respeito à teoria das fontes e ao procedimento, de modo que há uma norma superior fundante que, numa cadeia de validação, permite que outra seja uma norma inferior fundada. É preciso que haja um princípio unificador, como a Grundnorm (a norma hipotética de que se falou anteriormente). De igual modo, é preciso que seja coerente, não apresentando contradição, nem tampouco não preveja todas as hipóteses, ou seja, que se apresente com lacunas. Esta noção prevaleceu nestes contornos por quase todo o séc. XX, que, apesar de suas oxigenações, não foram capazes de prever qualquer mudança razoável na idéia de sistema ao sabor do início do séc. XIX. Todavia, em termos jusfilosóficos, permanece a dúvida se se pode ainda falar em sistema ou ordenamento após toda a fragilidade apontada no pós-guerra. Será que ainda há uma ordem jurídica, e, mais precisamente, uma noção de sistema,novo. A jusantropologia, a teoria do direito e a jusfilosofia se encontram epistemologicamente atreladas a estatutos incapazes de responder a demandas éticas distintas, a se estruturar a partir de valores, usos, existências que seguem a outras regras, a outras lógicas, com outra hierarquia de princípios, com outros fins, com perspectivas existenciais diversas, e, especialmente, como formas de se aproximar e se distanciar do direito energicamente distintas. A consequência deste desequilíbrio teórico em ouvir e em sentir éticas paralelas, marginais, para-tradicionais, ditas, “subterrâneas”, complexas e diversamente organizadas e pautadas em anseios e coexistências sociais dessemelhantes, fica evidente na impossibilidade de diálogo efetivo do direito em toda a sua plenitude (desde sua racionalidade até a incidência material de seus institutos) com situações novas, como a questão dos transgêneros, direitos de “minorias”1, direitos laterais (quilombolas, indígenas, caiçaras, imigrantes etc.), novos atores sociais, novas práticas familiares (como as uniões plurissubjetivas e de amor livre etc.). A conclusão em princípio a que se chega é que a teoria crítica, absurda e robustamente inovadora, com consequências fundamentais até os dias de hoje, perdeu seu fôlego em se desdobrar, de tal maneira que as grandes questões do direito hoje ou sucumbem a uma dogmática infértil, instrumental e preocupada exclusivamente com a eficiência e a redução de custos teóricos, ou a um eco das teorias críticas dos anos oitenta e noventa que na América Latina se erigiram. Ao que se constata por ora é que o que de novo se cria parece ser um desdobrar epistemológico destas teorias críticas já consolidadas, e não novas teorias críticas. Há certamente novos temas, novas linhas, como, por exemplo: (a) a “teoria do positivismo democrático” de Habermas e Maus; (b) a “teoria sistêmica” de Luhmann e Teubner; (c) os partidários da “teoria crítica”; (d) a “teoria do poder e do direito” de matriz foucaultiana; (e) as “teorias feministas”; (f) a “teoria dos campos” de sustenção em Bourdieu; g) a “teoria do estilo do direito” de Agamben; (h) a “teoria da fragmentação radical” de Karl-Heinz Ladeur; (i) a “teoria da interpretação” de Donald Davidson; (j) a “teoria psicanalítica do direito” de Peter Goodrich; (k) a “neuroteoria do direito” de Christian Eurich, Stefan Wilke e Künstliches Gedächtnis; (l) a “teoria do processo jurídico transnacional” de Klaus Günther; m) a “teoria jurídica evolucionista” de Marc Amstutz; (n) a “teoria deliberativa do direito” de Bettina Lösch; e (o) talvez não tão recente, a “teoria econômica do direito” da matriz de Chicago. Entretanto, aparentam não ser em termos epistêmicos diversas das originadas no seio do pensamento crítico pós-frankfurtiano, se não resultados, desdobraduras, reverberação da magnitude e da força das inovações destas teorias do passado. Diante deste cenário, a indagação provisória que se quer investigar e aprofundar é a manutenção não apenas da racionalidade conservadora e não “erotizada” do método do direito, mas sobretudo da mesma implicação ética sobre a qual, ainda que crítica, a teoria do direito continua assentada. O caminho, contudo, que parece ser mais interessante, ao menos hoje, aponta talvez para uma desfragmentação do direito como norma, mas, sobretudo, de um direito atento a esta realidade nacional, e, portanto, um direito e uma teoria que passem pelo giro descolonial efetivamente e procurem se reconfigurar sob novas variáveis aptas a ler esta diversidade cultural, étnica, e, especialmente, ética. A teoria do direito moderna, seja na perspectiva tradicional, seja crítica, constituiu-se, criou e organizou seus institutos e seu aparelhamento racional a partir de teorias cognitivistas-normativas da ética, especialmente a ética das virtudes, o kantismo e o utilitarismo. Isto implica afirmar um objetivismo constitutivo, justo o que se acredita, por ora, impedir o diálogo epistêmico-ético de alteridade. Neste sentido, um campo relevante e vivo, mas historicamente esquecido na filosofia do direito é aquele gravado pelas teorias não- cognitivas ou ditas metaéticas, como o intuicionismo, prescritivismo e o emotivismo. Dentre todas as teorias negligenciadas pela jusfilosofia, o emotivismo ético elaborado por autores como Baruch Espinosa, David Hume, Soren Kierkegaard, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Max Weber e Sigmund Freud aparenta trazer inquietações relevantes para um possível desalojamento da razão dentro da teoria do direito e uma possível alteração epistemológica. A temática dos afetos, dos desejos, dos instintos, dos sentimentos, da simpatia, do amor, da compaixão, da bondade, das emoções, das paixões e do ceticismo, tanto esquecidas pela jusfilosofia, incitam possíveis desconfortos a serem investigados à medida que resgatam o subjetivismo ético e talvez permitam repensar o fundamento ético no direito a partir de outra perspectiva e de outras varáveis, bem mais aptas, possivelmente à audição da postura ética do Outro: questões essenciais na realidade brasileira. Ouvir o outro não apenas caminha junto neste ensaio com o seu propósito descolonizar, mas é antes um exercício radical de democracia, desapegada de sua concepção moderna. Filia-se aqui neste sentido às críticas promovidas pela noção de democracia radical e agonística de Chantal Mouffe, na necessidade de se abandonar por vez a ilusão de uma “boa sociedade” pacificada e harmoniosa que supera divergências por um consenso imposto por valores comuns. Mas ao contrário, a sociedade não pode se sustentar na matriz racional, individual e universalista (típica da modernidade eurocêntrica) que posta à penumbra as paixões do campo da política, a natureza do político e a inerradicabilidade do antagonismo e das manifestações de poder. Deve-se, e o Estado e o direito assumem papel fundamental, manifestar uma sociedade em que a esfera pública seja formada por visões conflitantes capazes de se expressar e permitir a escolha entre projetos alternativos legí t imos. 2. Nesse sentido de uma concepção radical da democracia, nenhum ator social pode atribuir a si mesmo a representação da totalidade, alegando o domínio deste fundamento, como usualmente se fez na democracia moderna. O poder não pode ser uma relação externa entre identidades pré-constituídas, mas antes o constituinte de identidades. Ouvir as diversidades desuniversaliza os sujeitos políticos, rompe com essencialismos, dando vazão à heterogeneidade e ao político, com toda a sua marca de desentendimentos nas relações sociais, permitindo a transformação da democracia de antagonismos entre inimigos para a noção democrática de agonismos entre adversários. O direito, ao se descolonizar e ouvir os anseios da multiculturalidade e plurietnicidade existentes aqui, permite compartilhar anseios e a adesão aos princípios ético-políticos da democracia, não apenas deliberativa e baseada num “campo neutro do jogo de interesses”, mas gravada por um pluralismo em que os atores realmente interferem na construção de identidades coletivas, manifestando suas dissidências, suas plurais cidadanias, e permitindo a conversão por um consenso conflitual. Capítulo 1 A Realidade Fática e as Insuficiências Normativas no Direito Brasileiro 1. A vida humana na contemporaneidade e o “direito oficial” A contemporaneidade do contexto jurídico brasileiro tem exposto uma série infindável de problemas da vida humana que atualmente não encontram respostas adequadas ou ao menos suficientes na dogmática jurídica e mesmo na teoria do direito. Trata-se de situações fáticas que se apresentaram e se avolumaram nos dias de hoje, seja no plano das relações intersubjetivas, seja das relações cidadão-Estado, por diversas razões que outrora inexistiam, cujas implicações sistêmicas, teóricas ou práticas, dentro do ordenamento jurídico oficial não se acomodam mais da maneira usual a que se estava acostumado. Os institutos jurídicos, as instituições estatais e extra-estatais, as racionalidades técnicasainda que não mais enclausurado? Será que eventual abertura da noção de sistema, como feito por Hart, Carré de Malberg, o próprio Santi Romano, afeta a existência e a importância da idéia de sistema ou de representação sistematizada interna ao direito? É possível um sistema plural e assimétrico? Não são poucas as teorias que ainda procuram sustentar que a noção de sistema é fundamental: teorias dos jogos (D. Lecourt, E. Mackary, G. Ferrari, W. Krawietz, F. Ost, e F Vande Kerchove), teoria da adaptação (J. Piaget e J. Moigne), teoria da organização (E. Morin e J. Moigne), teoria da decisão (R. Gassin), teoria dos conjuntos imprecisos – ensambles flous (M. Delmas-Marty e B. Walliser), teoria da auto-reflexividade (C. Grzegorczyk, H. Willke e G. Teubner), teoria da sistêmica – systémique (R. Vernengo, G. Timsit e C. Samper) etc. No entanto, acordam todos a relevância da noção de sistema trazida para o direito e que ainda permanece, e, também, estão de acordo que a noção de sistema pressupõe ainda hoje os seguintes requisitos (François Ost e Michel Van de Kerchove): (i) um conjunto de elementos, ainda que de natureza diferente e ainda que formem internamente sub-sistemas; (ii) os elementos devem estar em interação e apresentem uma certa organização no seio do sistema, logo, não simples justaposição de elementos, mas elementos organizados por interdependência ou por solidariedade; e (iii) há necessidade de certa unidade, além do simples conjunto de elementos com interação, dando-lhe especificidade. A teoria do ordenamento jurídico, aqui transporta pelo colonialismo, que se desenvolveu nas primeiras décadas do séc. XX, especialmente com Kelsen, recepcionou a idéia de sistema por hierarquia, ou como afirma Carré de Malberg, por degraus, de modo que critérios como subordinação, causalidade, competência etc., apesar de relevantes, não conferem a centralidade do elemento sistemático no direito. A unidade implica afirmar que um ordenamento apresenta uma estrutura lógico-sistemática porque seus elementos estão de tal modo interligados que é possível claramente distinguí- los de outros sistemas. Ainda que as normas jurídicas esbocem valores e traduzam fatos, elas pertencem a um dado ordenamento porque possuem com este uma identidade (e aqui, como já dito outrora, resgatam-se as regra de inferência da identidade, em que algo é algo e não pode ser outro e nem a sua negação, e do terceiro-excluído, em que a proposição ou é verdadeira, ou é falsa, não podendo outra coisa). Esta unidade se estabelece, seja porque as normas foram produzidas por quem as deveria produzir (teoria das fontes subjetivas), e ingressaram pelos instrumentos que poderiam ingressar (teoria das fontes objetivas), bem como respeitaram o modo, o procedimento pelo qual poderiam vir nele nascer ou ser inseridas. O tema das fontes do direito, portanto, não se reduz apenas à discussão sobre a origem do direito, mas passa, desde o paradigma kelseniano, pelo ponto de referência, ao lado dos procedimentos normativos, do que pode ou não fazer parte do ordenamento jurídico, ou seja, pela questão da validade que, como visto, gira em torno de quem pode emitir uma norma, qual a norma permitida e de ser emitida, e qual o procedimento adequado de emissão para que integre um sistema normativo específico. Quanto à quem pode emitir (critério subjetivo); o sujeito que detém a outorga do poder normativo, trata-se de questão que remete necessariamente à norma principal, e, num sistema pátrio, em última análise, à Constituição (logo, ao Poder Constituinte Originário) e suas formas de outorga de poder competente. Quanto ao modo em que pode ser emitida (critério procedimental), igualmente depende da norma principal e seus passos devidamente definidos. Por fim, quanto às formas, embora também dependa da norma principal, é comum na teoria “geral” do direito que estas sejam estabelecidas menos por uma técnica e mais por uma “racionalização do estado liberal”.50 A questão da consistência e da completude do ordenamento jurídico vincula-se à problemática dos centros produtores de normas. Por isto, a teoria das fontes utiliza-se da idéia de que o direito não é um dado, mas construção da cultura humana. A consequência disto é que há dois tipos básicos de fonte: o direito no seu aspecto dado, e o direito no seu aspecto construído. As primeiras dizem respeito às fontes substancias, dividindo-se elementos materiais, os quais não constituem prescrições, mas contribuem para a própria formação do direito; elementos históricos, racionais e ideais. As segundas, as fontes formais dizem respeito à elaboração técnica das fontes substanciais por meio de forma solene. Naturalmente, a questão que se coloca diz, portanto, dada esta divergência intrínseca entre fontes, da percepção do ordenamento em sua unidade. Por isso questões vêm à tona quanto legitimação do direito e quanto à fundamentação da ordem, levando a doutrina ora a minimizar as fontes formais, ora a minimizar as fontes materiais. Trata-se, aqui, de um jogo estratégico e absolutamente relevante no plano jurídico. O positivismo, como dito, privilegiou de maneira excludente as fontes formais, e relevou a segundo plano as fontes materiais (tão somente naqueles momentos em que o próprio ordenamento jurídico abriu formalmente espaço). Por outro lado, leitura jusnaturalistas e críticas tendem a dar atenção especial às fontes materiais e as novas formas de origem do direito (eis aí um papel central conferido à interpretação e aplicação judicial). Por fonte, tem-se termo ambíguo: em princípio, pretende significar origem, gênese, contudo, discute-se o significado jurídico conforme se analise sua origem histórica, sociológica, psicológica, ou então, a origem analítica, sua natureza filosófica etc. Estas ambigüidades têm, no entanto, sua razão de ser, na medida em que a teoria das fontes relaciona-se com a identificação do direito, como visto (a teoria piramidal kelseniana), ou seja, com a “dominação legal”. Trata-se de problema existente na sociedade sempre que esta não apresenta, segundo olhares tradicionais, mais padrões estáveis, passando assim a dogmática a assumir tal função. Na linha foucaultiana, o poder disciplinar vai tornando-se cada vez mais racionalizável, robusto, e não descontínuo, cumprindo ao aparelho estatal conhecer sempre novas subjetividades e novas formas, e se valendo da ciência dogmática moderna para tal fim. É a teoria das fontes lugar privilegiado para tal fim. Ela permite uma série de regras referentes à entrada de uma norma no conjunto, a partir da distinção entre os elementos que constituem o repertório (como visto), e as relações conforme as regras, compondo a estrutura do sistema. Com isto, tem-se a identificação do direito para aplicá-lo (decidibilidade). Não por outra razão, em perspectiva liberal desde o início do séc. XIX, o princípio orientador geral desta teoria é os ideais de segurança, certeza e previsibilidade, podendo-se, a partir daí estabelecer-se uma classificação, na qual aparecem: (i) fontes estatais (gravadas de autoridade e maiores formalidade); (ii) fontes menos objetivas (os costumes e a jurisprudência), e, (iii) fontes negociais (a atividade privada, variável e dotada de subjetividade). Em termos de direito positivo, nas fontes formais, está a legislação em sentido geral, assim subdividida segundo o ordenamento pátrio (questão esta que há de ser estudada pelo Direito Constitucional e não propriamente pela teoria do direito): legislação, costumes, jurisprudência (i) legislação – constitui um modo de formação de normas jurídicas por meio de atos competentes, isto é, sancionadores, estabelecidos de normas soberanas. Apresentam-se como: (a) constituição – conceito bastante controvertido, sendo entendido atualmente como a Lei Fundamental (porque contém normas essencialmente secundárias, embora haja normas obrigacionais) de um país, possuindo normas respeitantes à organização básica do Estado, os direitos fundamentais consagrados e a definição do exercício do poder público. Surgedaí uma classificação, qual seja, a de constituição material e constituição formal. No tocante à matéria, há então normas que definem procedimentos para a elaboração de outras. De outra parte, as formais se identificam não pela matéria, mas porque estão submetidas a processos específicos de produção e alteração. Outra questão relevante diz respeito a seu caráter fundamental e supremo, sendo desta problemática que advém os três conceitos de constituição: o sociológico, o político e o jurídico. Para o primeiro, a constituição seria a soma dos fatores reais de poder. Estes constituem a força ativa que forma todas as leis e instituições jurídicas. Os fatores reais transformam-se em fatores jurídicos quando se dá uma organização de procedimentos para a elaboração de normas jurídicas (constituição escrita). A problemática desta corrente é de que somente a constituição escrita que refletisse perfeitamente os fatores reais de poder poderia ser considerada constituição real. No seu sentido político, a constituição seria a decisão política fundamental, equivalendo assim ao próprio estado. Assim, a decisão política se identificaria pelo seu conteúdo político- social, e é em função de seu decisionismo (vontade do poder que a estabelece) que esta noção se difere da concepção sociológica. A terceira concepção refere-se à lei fundamental, ou seja, a normas que viabilizam os procedimentos. Este aspecto independe de outros fatores, sendo a constituição um conjunto de normas básicas, de conteúdo técnico, de onde o jurista retira elementos para solucionar conflitos. A fonte desta concepção seria o que Kelsen denomina norma fundamental pressuposta (como visto acima). (b) leis – em regimes constitucionais, as leis assumem papel de grande relevância, de modo que as constituições dão-lhe preeminência, por meio do princípio da legalidade (e aqui a marca do juspositivismo é fundamental). É importante, então, que a norma seja revestida sob forma de lei, tida como a verdadeira fonte do direito para o pensamento burguês. Isto implica que é lei se uma série de procedimentos foram realizados, conferindo à norma seu caráter legal. Os acontecimentos que lhe conferem este caráter são basicamente a promulgação e a publicação (esta apenas com vistas a neutralizar a ignorância, sem contudo eliminá-la). Não são poucos os tipos de lei existentes, conforme a força que possuem: emendas constitucionais, leis complementares, leis ordinárias e leis delegadas. Ademais, os diversos níveis da federação também possuem leis com amplitudes distintas: leis federais, estaduais ou municipais. No âmbito das leis, também se dá a distinção entre um sentido formal (modo de produção de normas) e um sentido material (conteúdo, de forma que, segundo a antiga concepção liberal, teria como características a generalidade e a universalidade). Ressalte-se que o tema da hierarquia das fontes legais (leis, decretos, regulamentos, portarias e instruções) depende, naturalmente, do ordenamento jurídico doméstico. Normalmente, assim se apresentam: decretos são atos normativos do poder executivo, os quais têm basicamente a função explicitar as normas, vinculados que estão ao princípio da legalidade; portarias atos administrativos ministeriais; instruções normativas constituem-se em atos internos dos órgãos administrativos. Esta complexidade normativa decorre do desenvolvimento do Estado-gestor, o qual com sua infinidade de funções tornou necessários estes atos, embora acabem por implodir a clássica estrutura hierárquica das fontes. A existência desta hierarquia está, naturalmente, no sistema kelseniano norma fundante e norma fundada, levando à idéia simples de “a lei superior prevalece sobre a inferior”. As controvérsias iniciam-se quando se questiona qual lei, ordinária ou complementar é superior. A solução ocorre pela verificação de qual delas contrariou os limites horizontais. Ressalte-se que a questão da hierarquia é uma função mais jurídico-política do que analítica. Uma fonte prevalece sobre as outras pela sua validade, e não pela generalidade de suas normas. Resolve-se então a questão pela idéia de norma origem, a qual confere validade a outras. Os sistemas normativos conteriam, assim, várias normas origens, constituindo um todo coeso, integrado, o qual se rege pelo princípio da finalidade equitativa, segundo o qual um mesmo ponto pode ser regido por diversas origens. (c) tratados e convenções internacionais – fontes normativas internacionais, cuja importância vem crescendo, tanto no direito público quanto no privado, o que acaba se tornando um fator complicador da teoria das fontes tradicional, a qual surgiu com a formação dos Estados Modernos e sua noção de soberania. Não obstante, se incorporados ao ordenamento sob uma forma correta, adquirem força de lei, sujeitas ao sistema. Os tratados constituem acordos entre as vontades soberanas dos Estados. As convenções, por sua vez, são atos de organismos internacionais que, uma vez reconhecidos, integram o ordenamento (classificação, contudo, não segura e varia radicalmente de autor para autor, que, inclusive, chegam a dizer não haver diferença entre elas). Há, por outro lado, normas internacionais que repercutem imediatamente nos indivíduos, relativas a direitos fundamentais, o que acaba por implodir o conceito antigo de soberania. Também os costumes internacionais são importantes, à medida em que prevalecem sobre as ordens jurídicas e se equiparam às Constituições. a consequência é a necessidade da ampliação da teoria das fontes pela força das relações internacionais. O tema da recepção destas normas é complexo, sobretudo quando envolve direitos humanos, e há de ser cuidadosamente estudado pelo Direito Constitucional. (ii) Costume e Jurisprudência – costume constitui-se num segundo grupo de fontes, mas de menor objetividade, pois exige um procedimento difuso. Tem, portanto, menor importância que no passado (embora no direito internacional seja ainda de grande relevância). Dois são os requisitos para sua existência: o uso continuado e a convicção de sua obrigatoriedade. Esta última seria a distinção entre o costume e o uso, embora se configure imprecisa. Procura-se diferenciá-lo pela expectativa de reação quando um uso é contrariado, as quais seriam distintas. O defeito desta tentativa é que acaba por inverter a ordem de procedência das coisas. Uma segunda solução que então aparece seria o apelo à ordem jurídica como um todo, tornando-se costume quando esta confere reconhecimento aos usos. Novamente, porém, inverte-se causa e consequência. A solução deve, portanto, advir do aspecto sociológico e sua noção de institucionalização. A obrigatoriedade dos costumes teria origem na expectativa de consenso. Instituições seriam processos que se verificam enquanto atuam, de forma que quem se coloca contra ela acaba por romper o consenso e observar uma reação social. Normas consuetudinárias, portanto, seriam também dotadas de validade (opinio sive necessitatis) e de eficácia. Esta noção de institucionalização seria em verdade uma explicação sociológica. Dogmaticamente, os costumes seriam regras estruturais, contidas em fórmulas doutrinárias. A prova de sua vigência, entretanto, por não haver publicação, deve ser realizada por quem a alega, devendo haver também um controle da autoridade. Ressalte-se que, dentre os tipos de costumes, há aqueles que disciplinam matérias que a lei não conhece (praeter legem), diferentes dos secundum legem, os quais são coincidentes à lei. E aqui reside o grande problema do conflito de fontes no debate jusnaturalismo vs juspositivismo, pois para aquele o costume praeter legem deve ter a atenção necessária para a própria oxigenação do direito, enquanto deste se ignora quase que por completo, exceto quando o próprio ordenamento jurídico assim permite. Há também usos que possuem relevância, mesmo não sendo fontes, pois não trazem a opinio necessitatis, tal o caso dos usos do direito comercial, os usos da praça (local e data de pagamento, por exemplo). Contudo, como dito, questão importantea se refletir é se o costume jurisprudencial é ou não fonte do direito. Esta dúvida remonta à história do direito, na qual se nota que na tradição anglo- saxônica, os preceitos judiciais possuíam força vinculante. Esta concepção vai sofrendo uma evolução na idade moderna, de forma que atualmente possuem as seguintes características principais: tribunais inferiores devem respeitar as decisões dos tribunais superiores, e estes se obrigam por suas decisões; qualquer decisão constitui um argumento relevante para outra; o que vincula nestas decisões é um princípio geral do direito; um precedente nunca perde a sua vigência, apenas a sua aplicação prática. Obviamente, tal liberdade tem sua explicação histórica, na medida em que cada juiz não é um mero funcionário do Estado, mas é especialmente escolhido. Todavia, desde o direito Romano, há uma proibição desta liberdade, devendo as decisões ser subordinados à lei geral. Não há, portanto, esta vinculação à jurisprudência. O juiz deve julgar conforme a lei e a sua consciência. Nota-se, no entanto, uma jurisprudência pacífica, com relação às interpretações uniformes e constantes que ocorrem. (iii) fontes negociais (racionais) – doutrina, princípios gerais do direito, equidade e negócios jurídicos. Estas são consideradas as fontes de menor grau de objetividade. As fontes negociais caracterizam atos de autonomia privada que derivam da lei. Dentre estes, os atos praeter legem são aqueles que atuam no vazio da norma, formando regras gerais. Sua força repousa no costume, e portanto, só são aceitos como fontes do direito no sentido de criar normas individuais (ao menos para o positivismo rígido). A razão jurídica, por sua vez, baseia-se primordialmente na doutrina, a qual não é fonte do direito, mas orienta a interpretação, embora haja verdadeiras construções doutrinárias que poderiam ser fontes (mas não vinculam). A função principal da doutrina, bem como da jurisprudência, é criar certos standards que dão ao direito alguma uniformização. São os conceitos de mulher honesta ou justa causa, por exemplo. Quantos aos princípios gerais do direito, previstos na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, constituem uma reminiscência do direito natural, baseado na idéia de equidade (no sentido de sentimento do justo). À medida que não são normas, mas sim princípios, não compõem o repertório do sistema, mas atuam como regras estruturais, responsáveis pela imperatividade do sistema. Assim, não se trata de fontes no mesmo sentido das demais, pois são meta-linguagem, compostas por lugares-comuns e de caráter tópico. Por sua vez, a equidade, é uma consideração harmônica das situações concretas, ajustando à norma para a solução mais justa. Possui, assim, esta mesma função metalinguística. Por fim, a razão jurídica possui um caráter meta- normativo, dela derivando, por exemplo, as fontes negociais, que são vínculos formais e normativos estabelecidos por particulares.Para além da teoria das fontes, porque então já definido quem e através de que meio as normas podem existir formalmente no direito, é preciso, no fundo, ver em abstrato, que toda esta percepção passa pelo filtro piramidal kelseniano de que se falou acima, isto é, uma norma, para que seja assim qualificada e ingresse formalmente no ordenamento jurídico, deve respeitar a idéia de sistema por hierarquia, logo, é preciso que haja sempre uma norma superior fundante que a permite ser uma norma inferior fundada, ou seja, é preciso que ela seja antes uma norma de execução de uma norma superior de produção. Se respeitado o escalonamento normativo, há uma identidade entre as normas, e, portanto, é possível se falar em unidade. Por isso é que ordens jurídicas plurais, como feitas por comunidades tradicionais, são tão difíceis de serem aceitas, se não também a partir da recepção via Poder Judiciário, já que, no fundo, é uma maneira também formal de interiorizar regras externas como normas jurídicas. Contudo, não basta para que exista um sistema, ao menos em perspectiva positivista clássica, que este conjunto de normas esteja organizado por regras que lhe conferem identidade e permitam dizer ou que pertence e o que não pertencem a um ordenamento. É preciso que não haja lacunas, isto é, que o sistema tenha em si regras escalonadas de tal como que as incompletudes não existam, e, se elas aparecerem com o tempo, que haja todo um conjunto integrado de regras capaz de lhes colmatar. O dogma da plenitude certamente foi árduo para os positivistas, sobretudo com o incremento da tecnologia, das novas formas de vida, da complexidade da realidade urbana, dos novos agenciamentos econômicos e migratórios do séc. XX, etc., de modo que o pilar no qual se apoiava (e do que já se falou bastante nestes breves apontamentos) foi sucumbindo, sobretudo no pós-guerra e a fragilidade do dogma da lei. O dogma da plenitude, sobretudo por força do engessamento da realidade social, e por força das lutas proletárias do séc. XIX, bem assim das insuficiências em garantir direitos frente a movimentos totalitários do início do séc. XX, foi criticado já pelos movimentos, como vistos, antiformalistas francês e alemão. Talvez por isso, a melhor definição de lacuna seja feita nesta perspectiva crítica, como a de Karl Engisch, que afirma se tratar de uma “incompletude insatisfatória dentro da totalidade jurídica”.51 A muito contragosto, os positivistas passaram a estudar as incompletudes, sobretudo para tentar salvá-las e manter a integridade do sistema. Por isso, uma das primeiras questões foi classificá-las para melhor conhecê-las, a partir de alguns critérios: (i) lacuna autêntica e inautêntica (Ernst Zitelmann) – que parte da situação em que a própria lei não leva a uma resposta (porque impossível: inexistente ou não encontrada), logo, autêntica, e quando a resposta existe, mas não é desejada, logo, inautêntica; (ii) lacuna intencional e não intencional (Félix Somló) – parte da situação em que o legislador, ciente, não legisla sobre determinada situação fática porque não se entende em condições de elaborar a norma – intencional (dita também querida), contudo, é possível que não o faça – não intencional – porque não percebe a problemática possível, porque as situações do contexto não permitem que perceba, ou, então, porque não foi diligente o suficiente para percebê-la; (iii) lacunas originárias e posteriores (Karl Engisch) – são lacunas que já estão presentes no ordenamento desde a origem, mas não havia sido colocadas à tona – originais -, ou que decorrem do tempo, por força da modificação do sistema ou da realidade; (iv) lacunas patentese lacunas latentes – as primeiras ocorrem quando não há norma que regule uma dada situação fática, enquanto as últimas ocorrem quando a norma existe, mas é de tal modo amplo que apenas a incidência fática da norma é que permitirá perceber a sua insuficiência – ausência de restrições necessárias (Claus Canaris); e (v) lacunas de conflito – quando não há regras capazes de estabelecer a resposta adequada diante da antinomia normativa (Ulrich Klug). Classificadas as lacunas, estabeleceram então os positivistas mecanismos sistêmicos para resolvê-las, ou seja, estabeleceram o que se denomina de integração do direito. Aqui, para evitar análise exaustiva, apenas se referenciam estes mecanismos, que nada mais são do que fontes do direito: costumes, analogia, princípios gerais do direito. Diante da ausência da norma, cumpre ao aplicador, sobretudo o magistrado, valer-se de um poder criativo e encontrar respostas capazes de construir uma norma de decisão para o caso concreto. No entanto, não basta que um sistema normativo evite ausências normativas ou normas que lhe sejam estranhas, é preciso que respeite outra regra de inferência: princípio da não-contradição, ou seja, não podem elementos negarem uns aos outros, sob pena de se manter a higidez sistêmica. Por esta razão, um ordenamento jurídico deve ser um conjunto de normas com coerência interna, logo, sem conflitos normativos. Contudo, este constantemente ocorre,o que levou os positivistas a refletirem a sua existência, igualmente para entendê-los e solucionar o problema dito: antinomia. O primeiro a mencionar o termo foi Rudolph Goclenius em 1613 ao falar em antinomia entre sentença/proposição e entre leis. Ambas antinomias real e aparente. Em seguida, Johan Heinrich Zedler em 1732, ao dispor sobre contrariedade de leis que se opõem e se contradizem. Contudo, coube a Alexander Gottlieb Baumgarten em 1770 promover o grande avanço classificatório. Seguindo a linha que aqui se adota da leitura semiológica, distingue as antinomias na tríade: (i) antinomia lógico-matemática – autocontradição por processos aceitos de raciocínio, em que o raciocínio é simultaneamente contraditório e demonstrável (tudo o que é totalidade de um conjunto não pode ser parte do conjunto, algo passível de ocorrer na questão constitucional entre constituição formal e regras para sua reforma); (ii) antinomia semântica – contradição resultante de dedução correta a partir de premissas incoerentes por força do pensamento ou da linguagem. (clássico: só é verdadeiro se for falso o “eu estou mentindo”), no entanto, a resposta estaria na teoria dos níveis de linguagem (Carnap e Tarski) e seria a diferença entre língua-objeto (enunciados sobre objetos) e meta-língua (enunciados sobre enunciados), logo, “eu estou ”52 De igual modo às lacunas, seguindo a linha terciana, é possível classificar as antinomias em: (i) real quando não há regra normativa de solução e existem critérios (lacuna de regra de solução); (ii) próprias e impróprias – é própria por razões formais e – é quando em virtude do conteúdo material das normas ( valores contraditórios, como liberdade e segurança; : proteção de : pena mais leve para delito mais grave; : fins propostos por uma norma incompatíveis com os meios propostas por outra para alcançá-los) – na imprópria há mais um conflito entre o comando estabelecido e a consciência do aplicador do que mentindo” é meta-língua e não pode valer para a língua-objeto, ou seja, o enunciado “eu estou mentindo” vale para todos os enunciados do mentiroso, mas não pode se referir a si próprio. Aqui o mesmo exemplo da reforma constitucional; (iii) antinomia pragmática – condições: forte relação complementar entre emissor e receptor (superior-inferior, chefe-subordinado: relação de diferença), instrução a ser desobedecida para ser obedecida, receptor em posição inferior insustentável (não consegue agir sem ferir a complementaridade e não possui meios para dela fugir). Em suma: na lógico-matemática há uma ‘’falácia”, na semântica “sem-sentido” e na pragmática “situação de indecidibilidade”. Na antinomia jurídica, há os mesmos fatores da pragmática, mas se revela no deôntico: duas normas com operadores opostos (uma permite e outra proíbe) e conteúdos de ação/omissão que se negam internamente um no outro (uma prescreve o ato e a outra omissão): “é permitido pisar na grama” e “é obrigatório não pisar na grama”. Há ainda comandos-sísifos “fecha a porta sempre que estiver aberta”/”abra a porta sempre que estiver fechada”. De modo claro, assim é possível assim conceituar: “ O posi ção entre duas normas contraditórias (total ou parcialmente), emanadas de autoridades competentes, num mesmo âmbito normativo espacial e temporal, colocando o sujeito numa posição insustentável pela ausência ou inconsistência de critérios para permitir uma saída dentro do ordenamento. antinomias reais e aparentes apar ente anti nom i as imprópria de princípios de valoração tel eol ógi ca evidentemente uma interdição para agir; (iii) antinomias de direito interno, internacional e interno-internacional. É de «direito interno” quando se dá entre normas domésticas e os critérios de solução são os tradicionais; é de “direito internacional” quando ocorre entre aquelas fontes do art. 38 da Convenção da CIJ 1946 (antiga CPJI 1920): costumes, princípios gerais e tratados difícil resolução, face a ausência de relação de complementaridade entre editor e receptor (quando se dá entre atos bilaterais e destes com multilaterais, valem as regras: prior in tempore potior in jus; lex posterior derrogat priori; lex specialis derrogat generali; e lex superior derrogat inferior – vista como superar enquanto valor encarnado na ordem pública internacional; e, quando se dá entre atos coletivos, as regras se tornam difíceis de serem aplicadas); é de “direito interno- internacional” e depende da adoção da teoria monista de prevalência interna (Georges Bourdeau e Jellinek) ou internacional (Kelsen e Verdross), ou da teoria dualista (Dionisio Anzilotti e Heinrich Triepel); (iv) antinomias total-total, total-parcial e parcial-parcial – É “total- total” quando não se é possível aplicar uma norma sem entrar em conflito com outra em nenhuma circunstância; é “total-parcial” quando o campo de conflito é apenas em parte em relação a uma delas; e parcial-parcial quando o campo de conflito é em parte em ambas. O grande problema das antinomias jurídicas, é que ela coloca o aplicador da norma em uma posição insustentável: ausência de saída, ou, ausência de uma regra no sistema que o auxilie, como os critérios (regras práticas) da hierarquia, especialidade e cronologia (lembrando que não mais existe o critério lex favorabilis derrogat odiosa: prevalência da permissiva sobre a proibitiva, ou seja, deve- se dar preferência em situações de ambigüidade ou incerteza na interpretação de um texto a mais favorável – lex favorabilis prevê liberdade, faculdade ou direito subjetivo e lex odiosa uma obrigação seguida de sanção)53. Esta posição insustentável, como já organizara Friedrich Savgny nos anos quarenta, deixa de existir se houver critérios que permitem dizer qual a norma que deve ser aplicada, ou seja: (i) critério hierárquico – lex superior derogat legi inferiori (a lei superior derroga a inferior); (ii) critério da especialidade – lex specialis derogat generali (a lei especial derroga a geral); e (iii) critério temporal – lex posterior derogat legi priori (a lei posterior derroga a anterior). Contudo, pode ser que situações coloquem os critérios em disputa, ou seja, é possível que uma norma seja posterior, mas genérica, outra inferior, mas mais recente, em suma, nestas há a necessidade de metacritérios para tentar estabelecer qual o critério há de prevalecer, se hierárquico, temporal ou de especialidade. Quando houver os seguintes conflitos: (a) entre critério hierárquico e critério cronológico, tem-se como metacritério – lex posteriori inferiori non derrogat priori superiori (lei posterior inferior não derroga lei anterior superior); (b) entre critério de especialidade e critério cronológico – lex posteriori generalis non derrogat priori speciali (lei posterior geral não derroga lei anterior especial); e (c) entre critério hierárquico e critério de especialidade, a doutrina é quase uníssona em afirmar que não há meta-regra geral, pois adotar o da especialidade implica em desrespeitar, às vezes, à norma superior, e o primeiro em desrespeitar a adaptabilidade e efetividade do direito. Logo, há uma antinomia de segundo grau insanável, cumprindo ao juiz estabelecer de modo criativo um critério de decisão prudente. Enfim, é justamente este o objeto da teoria do direito que tradicionalmente se transpôs ao país e que ainda se mantém com força nos planos de ensino, qual seja, a idéia eurocêntrica de um Direito baseado na noção, em sentido amplo, de norma e ordenamento, logo, do direito como norma, a qual, por si só, já se parece em crise, como se analisará ao final deste ensaio. 4. A colonialidade do direito oficial brasileiro Por outro lado, se o pensar jurídico nacional também se construiu eurocêntrico pelas mãos da romanística, não haveria de se estruturar de modo distinto o direito conformado pelas instituições formais do Estado brasileiro. Como visto, as primeiras legislações e codificações feitos no país manifestaram clara a presença dos modelos, da racionalidade ordenamental e dos institutos jurídicos pensados na Europa paraa realidade européia. Isto fez com que se erigisse aqui um direito oficial articulado em termos oficiais com uma realidade bastante diversa da que se encontrava, especialmente naquele momento histórico. Como visto, a matriz do direito europeu aqui transposto em termos teóricos e que por muito tempo se ensina no país, a partir de algumas distinções nas disciplinas de teoria do direito, teoria geral do direito e introdução ao estudo do direito está calcada na centralidade das noções de norma jurídica e de ordenamento jurídico. Em termos pragmáticos, esta compreensão teórica aparece no Estado Brasileiro naquilo que se poderia denominar de um direito oficial, isto é, um direito hegemônico e formal que se constrói historicamente calcado, dentre tantas variáveis possíveis, na unidade do ordenamento jurídico, à medida que afirma e reafirma certeza, segurança jurídica, supremacia de interesses públicos, dignidade da justiça como elementar ao bem comum, normas primeiras e hierarquicamente organizadas em relação às demais em torno da cadeia de validação, enfim, os postulados essenciais que guardam o positivismo jurídico em sua essência e reafirmam a máxima monista: “não há dois senhores como não há dois direitos que se contraponham perpetuamente.”54 A função primordial passa ser do direito oficial canalizar as distintas pretensões sociais para um mesmo lugar, o lugar em que o monopólio da violência se perfectibiliza, e as relações de igualdade e desigualdade se institucionalizam, reduzindo sua complexidade e sua multiplicidade material, em grande medida por questões dicotômicas: ter ou não ter propriedade, ser possuidor ou não o ser, ser responsável ou ser isento etc. Essa abstração e redução da contingência mundana permite reafirmar o direito como um só direito, como o único que institucionaliza sentidos. Essa universalização que o direito oficial (lido enquanto ordenamento, por certo) permite a mediatização das incertezas e diferenças sociais, algo difícil de se conseguir em sociedades complexas. Este direito passa a desempenhar, então, o papel de organizar, controlar e unificar as diversas demandas sociais, num processo de especificação contínuo capaz de lhe garantir o lugar de dominação na recepção formal destas demandas, quanto na interpretação de sua cláusulas sistêmicas, por essência, abertas, como segurança nacional, preservação do ordem pública etc. Essa generalização se opera como um “padrão em dois níveis”: um primeiro nível baseado na modelação dos fatos sociais, à medida que passa a dizer como as coisas devem ser; e num segundo, ao abstrair intencionalmente as diferenças, tende a uma globalidade e integração, como algo inevitável e inexorável. E aqui, naturalmente, vai se colocando o problema que se quer discutir em parte neste ensaio: universalidade, abstração, generalidade e exclusividade, criadas artificialmente, passam a se chocar com universos jurídicos paralelos, se, por primeiro, forem aceitos pelo raciocínio monista como existentes. A hegemonia do direito oficial se constrói através de processos progressivos de diferenciação social, que passam a definir desde logo o binômio lícito-ilícito. O que estiver no campo do ilícito passa ser colocado, então, como no lugar do não-direito. Logo, a experiência subjetiva em situações de não-direito (como atos criminosos e outros) são situações de negação do direito, de destruição da própria sociedade, já que ela está estruturada integralmente no direito oficial. Essa diferenciação se opera em nível abstrato, pela edição normativa, quanto na resolução de casos judiciais, cumprindo ao juiz promover pragmaticamente essa distinção de licitude em situações conflitivas (ordem reguladora). O papel desempenhado nos processos judiciais é, no fundo, a definição e a distinção do que é meramente fato e do que pode ser reconhecido como existente e válido perante o direito oficial – uma questão, então, de diferenciação do direito atento aos f at os. Este mecanismo encontra-se estruturado num processo lento, que ora institucionaliza apenas a relação entre homens e direito na cidade, em seguida numa ordem hierárquica de prestígios, para desembocar na diferenciação de papéis sociais. Diferenciação funcional que institucionaliza algumas escolhas e que se realiza por procedimentos decisórios (não apenas judiciais), tornando-se um “complexo de expectativas normativas” e vinculando autoridade e decisão concreta. A autoridade do direito oficial, genérica e abstrata, mas formal, em prol de seus fins essenciais, como paz, justiça, bem estar, igualdade e liberdade, acaba por servir à organização das ameaças de violência, quando a desobediência estiver presente, mantendo o uso do poder dentro da sociedade política de modo organizado. Quaisquer mudanças precisam, também e obrigatoriamente, passar por sua autoridade. Isto lhe impõem uma dualidade central: de um lado, o direito é um sistema formal e diferenciado da ordem vital, de outro, um instrumento artificial de planificação, cuja função é a oposição entre o âmbito jurídico e jurisdicizável do não jurídico, leia- se, entre o direito oficial e o direito inoficial. Opor-se ao inoficial é uma manifestação de autoridade, em que comportamentos sociais, neste processo de diferenciação, são qualificados como não-direito. Esta autoridade, se não natural como na relação parental, recorre ao um terceiro, um editor normativo (legislador, mediador, juiz), enfim, um “ente personalizado” que por meio de uma “meio despsicologizado” que é a norma, acaba por reafirmar a sua força, ao passo que se oculta e se dissimula enquanto força justamente pela norma. Ao destinatário, cabem três comportamentos possíveis: confirmar, rejeitar ou desconfirmar. É justo na desconfirmação que a autoridade é posta em questão, pois o direito pode ser negado, mas não desautorizado (alegar ignorância, o que não está proibido está permitido etc.). Por isso, permitido, proibido e facultado esgotam os modais normativos porque esgotam as situações de licitude-ilicitude, rechaçando a desconfirmação. Só é direito, então, o direito oficial, sendo o inoficial a desacreditação de sua autoridade, a sua desconfirmação enquanto dir eit o. Apesar desta ideologia positivista, fato é que, sobretudo em países marcados pela autoridade política de uma metrópole, e mesmo em decorrência do próprio desenvolvimento do sistema capitalista, as diversidades existem na vida e são intensas, nem sempre capazes de serem absorvidas pelos procedimentos formais do direito oficial. Esta “inoficialidade” não se opera, necessariamente, por uma forma drástica, revolucionária, ou mesmo sutil como uma desobediência civil, mas por vezes não intencional, através de crises intermitentes, como nas situações dos movimentos sociais.55 Os movimentos sociais sustentam-se em três séries de motivos nesta inoficialidade: (a) “permissão expressa”, porque crêem às vezes autorizados pelo próprio direito oficial; (b) “permissão implícita”, à medida que situações de fato e ignorância do direito oficial faz crer que há direito; e, (c) “situação de fato”, necessidades, luta por reconhecimento, receio de violência etc. Por certo que em todos estes motivos, a questão da consciência da contrariedade, sua intensidade e limites, estão presentes, pois no primeiro não há consciência alguma, no segundo, a consciência é precária, e no terceiro não há consciência da infração ao direito oficial. Se o primeiro rejeita, e o segundo desconfirma sutilmente, o terceiro desconfirma de modo camuflado, baseado no princípio da necessidade, e, logo, da justiça. A questão que se coloca nesta desconfirmação é a de se ela pode ou não gerar um verdadeiro direito inoficial, se não apenas é mais uma forma de negação do direito, que está mesmo reconhecida pelo kelsenianismo, já que situações de fato contra legem podem gerar direitos, quando, naturalmente, baseadas na necessidade. A autoridade do direito oficial, baseada na predominância e na força unificadora dos anseios sociais pela ressonância das esperanças prevalecentese dominantes, gera o governo do direito como superior ao arbítrio dos homens. “No universo oficial, os ideais contraditórios aparecem como coerentes, pois se demonstra que o direito é, ao mesmo tempo, seguro e elástico, justo e compassivo, socialmente eficiente e moralmente eqüitativo, digno e solene, mas também funcional e técnico” (O oficial...)56. Quando em conflito, as incoerências dos anseios não são eliminadas pelo direito oficial, mas, formalmente, são neutralizadas pelo distanciamento da autoridade (primado da legalidade) e pela retórica dos lugares comuns dominantes (sensos comuns teóricos dos juristas). Com isto, o direito se dissimula e representa, quase como automático, uma resposta igualitária às necessidades sociais, inclusive para ser reconhecido como direito. O problema é que os movimentos sociais, as demandas de minorais abalam as condições de efetivação do direito oficial, e a retórica e a afirmação abstrata da autoridade não são suficientes, assim como o recurso à força desnaturaliza a própria essência do direito. Assim, a desconfirmação se transforma em verdadeiro direito inoficial, criando um universo jurídico paralelo, concomitante e conflitante. Há, como consequência, uma crise de autoridade, pela desacreditação do direito oficial, já que ele se torna impotente e incoerente com as demais sociais, verdadeira desconfiança das soluções normativas. Quando isso ocorre, não se trata de uma ilicitude, ou desconfirmação revolucionária, ou desuso e costume negativos, mas uma verdadeira articulação desarticulada do direito oficial, pois este direito acaba por se articular conforme um padrão que o desacredita e o reforça ao mesmo tempo, logo, este direito inoficial não é ruptura ou anormalidade dentro do direito oficial, por isso coexistem direito oficial e o direito inoficial em permanente cr ise. O grande problema é que, se abstratamente o direito reage deste modo às suas desarticulações, em países ex-coloniais, essas desconfirmações se intensificam e um conflito peculiar, para além de questões econômicas se coloca: entre oficialidade e subalternidade, ou dito de outro modo, entre estatalidade e marginalidade. A plurietnicidade e a plurinacionalidade foram historicamente aplainadas pelo direito oficial, o que não poderia ser diferente se pensado nesta perspectiva existencial do direito acima exposto de sua autoridade. Contudo, mantêm-se coexistentes as subjetividades marginais e desconfirmações ditas culturais se tornam proeminentes, já que o direito oficial está edificado sobre pilares etnocêntricos. Nem sendo extra-elástica a recepção se opera, pois fato é que este direito oficial e sua teoria do direito não estão preparados para ouvir éticas paralelas, marginais, para-tradicionais, “subterrâneas”, complexas e diversamente organizadas e pautadas em anseios e coexistências sociais dessemelhantes. Com isto, populações invisibilizadas (transgêneros, minorias, uniões plurisubjetivas) ou demandas historicamente ancestrais (quiombolas, indígenas, caiçaras, faxinalenses) se chocam com as categoriais, a racionalidade, a procedimentalidade e a institucionalização de sentidos tradicionais, levando, inevitavelmente, a descrença do direito oficial, logo, à sua desconfirmação enquanto instituição. Perde-se a sua dinâmica institucionalizadora, assim como se perde a sua qualidade de “reservatório de sentidos”. Como expressão desta plurinacionalidade e da insufiência normativa, desconhece-se tanto na teoria do direito quanto no direito oficial a existência de experiência jurídica diversas, o que vem a demonstrar claramente que parte da crise de sentidos e da desautorização do direito estatal decorre deste choque entre a oficialidade e a inoficialidade. Ciganos, caiçaras, quilombolas etc., certamente apresentam formas de se relacionar com o fenômeno jurídico de modo absolutamente diverso da cultura jurídica dominante. Isto implica afirmar que o direito oficial não guarda possibilidade de servir como “arquivo de sentidos” a fim de estabilizar, apaziguar, possibilitar a existência social concomitante com a tradicionalidade do direito est at al. 5. A crise de sentidos: matriz justéorica européia vs realidade sócio- cult ur al- nacional ). A dubiedade manifestava-se na medida em que se atendia à ameaça de excomunhão em caso de cativeiro e carnificina, estabelecida pelos Papas Paulo III (1537), Urbano VIII (1639) e, mais tarde, Benedito XIV (1741), que concitavam os cristãos a respeitar o gentio como ser humano.57 Desde logo, porém, uma segunda questão jurídica aflorava, quando da regulamentação das sesmarias, quanto à propriedade da terra. Pois se expedia o Alvará de 01/04/1680, ratificando o de 10/11/1647, que determinava que “os índios descidos do sertão” fossem senhores de suas fazendas, que lhes fossem designados “lugares convenientes, para neles lavrarem e cultivarem”, desobrigando-os de pagarem foro ou tributo, mesmo em sesmarias, posto que considerados “primários e naturais senhores delas”58. Sinal desta colonialidade do direito estatal é a ausência por completo, seja de experiência, seja mesmo de estudos, sobre manifestações jurídicas plurais. Mas elas existem e apresentam riqueza cognitiva vasta, de modo a demonstrar, quando examinadas, que a realidade cultural e jurídica brasileira está muito distante, e, por isso, em choque, com o direito oficial. O direito oficial no caso das populações indígenas tem uma trajetória curiosa que merece sublinhada. O problema jurídico gerado pelo contato do colonizador com os habitantes que encontram nas terras descobertas foi colocado, primeiramente, em termos do reconhecimento de sua condição humana. Uma lei de 1570, em Portugal, dispunha de forma dúbia sobre aquela condição, proibindo a “escravidão amarela”, mas ressalvando hipóteses: “ guerra ou que costumassem saltear os portugueses”. No mesmo diapasão apareceu, posteriormente, outra lei, em 1655, acrescentando novas exceções à escravização ( a não ser que se tratasse de índios tomados em justa quando impediam a pregação evangélica; quando presos a corda para serem comidos por seus contrários; quando, por guerra, fossem tomados por outros í ndi os ”59, o que conduziu ao conceito de direito congênito, diferente de ocupação, enquanto título adquirido.60 Em sede constitucional, a Constituição de 1934, art. 129, determinou o respeito à posse de terra dos silvícolas “que nela se achem permanentemente localizados”, vedando-lhes a possibilidade A menção a esses antigos diplomas jurídicos faz-se apenas para destacar as dificuldades surgidas desde o princípio da configuração do Brasil como território componente de uma organização estatal. Se em 1718, por meio de uma Provisão, os índios eram declarados homens livres e isentos da jurisdição da coroa portuguesa, desde os Governos Gerais ocorria uma sistemática integração do índio à “sociedade civilizada”, quer por meio da evangelização quer pela prática de “acordos”, consentâneos com a povoação do território descober t o. O governo imperial brasileiro, cuja Constituição era omissa a respeito, veio a promulgar, em 1850, a Lei das Terras, regulamentada em 1854, mediante a qual as terras reservadas para a colonização dos indígenas e entre eles repartidas, eram destinadas ao seu usufruto, não podendo ser alienadas sem autorização imperial. Passavam os índios a ser tutorados por juízes, passando a participar do ordenamento nacional na qualidade de usufrutuários e possuidores diretos das terras que habitavam. Mas as terras eram consideradas devolutas (Lei nº 601/1850, art. 3o). Com o advento da República, a nova Constituição, art. 64 – parágrafo único -, desconheceu a natureza especial das terras reservadas à colonização do índio, aglomerando-as às devolutas estaduais, com o que não se consideraram recebidas as disposições da Lei das Terras que estatuíam o resguardo das terras ocupadas pelos indígenas, ressalvada a posse. Não obstante, é sob sua égide que surge, no início do século XX, a discussão sobre as terras do , definidas pelo referido JoãoMendes de Almeida Junior, em 1912, como: “ i ndi genato sendo terras congenitamente possuídas, não são devolutas, isto é, são originariamente reservadas, na forma do Alvará e 1o de abril de 1680 e por dedução da própria Lei de 1850 e do art. 24, par. 1o , do Decreto de 1854 de alienação. A expressão repete-se na Constituição de 1937 (art. 154) e de 1946 (art. 216: “Será respeitada aos silvícolas a posse das terras onde se achem permanentemente localizados, com a condição de não a transferirem”). Comentando-a, Sampaio Dória entende tratar-se da “posse da terra onde residam” tribos “mais ou menos selvagens”, sendo que tal posse “passa de geração a geração, entre as tribos, ou entre membros delas”.61 A Constituição de 1967, art. 4° – IV determinou a inclusão das “ terras ocupadas pelos silvícolas” entre os “bens da União”. E o art. 186 assegurou aos índios a posse permanente das terras que habitam, com direito ao usufruto exclusivo. Pontes de Miranda, comentando os textos, distingue entre o silvícola integrado (capaz) e o não integrado (incapaz), sendo bens da União apenas as terras que habita o segundo, assim se expressando: “Se lá não habitam, não têm posse. Se habitam, têm-na”62. A posse (de usufrutuário) das terras, que era imediata (direta) e imprópria (não a título de proprietário), deveria satisfazer o pressuposto da permanência que, segundo o autor, estava ligada à residência. Tal posse, ainda que anterior à Constituição de 1934, prevaleceria contra quaisquer títulos, mesmo registrados, desde que existisse à data da promulgação da Constituição de 1967.63 Este posicionamento é importante, pois será repetido a propósito da Constituição vigente. A Emenda nº 1 de 1969 não introduziu modificação na regência da matéria (artigos 4o e 5o e 198). Mas, como a anterior, não falava em direitos originários. Por esta razão, José Celso de Mello Filho entendia, contudo, que não tinham nem aplicação retroativa nem atingiam o direito adquirido dos legítimos proprietários, o que relativizava a posição adotada por Pontes de Miranda a propósito da Constituição de 1967.64 Contudo, reconhece José Celso de Mello, que as terras habitadas pelos silvícolas à época da promulgação, eram intangíveis.65 Mas é nesse período, de qualquer modo, que surge o chamado Estatuto do Índio (Lei nº 6001/73), alterando significativamente o conceito de índio. Abandona-se o critério de aculturação, substituindo-o pelo de dependência do civilizado (isolados, em vias de integração, integrados), posto que nesse novo conceito, a aculturação deixa de ser vista como um propósito da política indigenista, sugerindo que seja retardada o máximo possível, para a preservação dos seus valores culturais. É nesse contexto, afinal, que sobrevém a Constituição de 1988. No seu contexto histórico, o constituinte reconhece aos índios sua organização social, seus costumes, sua língua, suas crenças, suas tradições e seus direitos sobre terras que tradicionalmente ocupam (CF, art. 231). Mas nada discute sobre a questão jurídica, e aqui é preciso avançar. Toda a questão, como visto, girou em torno do indigenato, mas não houve propriamente dito o reconhecimento de uma “cultura jurídica”, e uma validação constitucional da possibilidade de manifestações jurídicas vindas da comunidade indígena. No entanto, a título de exemplo, é possível afirmar com certa segurança, após pesquisa de campo66, que existe uma experiência jurídica indígena brasileira e que ela, com toda a sua fundamentação, se bem examinada, deixa antever, de um lado, este descompasso com o etnocentrismo das categorias do direito oficial, e, de outro, a própria existência de uma experiência jurídica marginalizada, mas que não deixa de ser, de modo algum, uma verdadeira experiência jurídica. Dentre todas as experiências que servem a esse fim, a experiência jurídica indígena brasileira é bastante hábil a mostrar a sua existência e a sua opacidade para o direito oficial, razão pela qual norteou a investigação deste ensaio para este fim de expressão de experiências marginais em choque com o eurocentrismo jurídico. Não se pode dizer que os índios guaranis possuem de fato um Direito (ainda que nas suas falas surja a expressão “lei guarani”), nos termos como os brancos, usualmente o definem e o estudam sistematicamente nos bancos escolares. Tentar identificar a existência de um Direito nestes termos é um erro, a uma, porque se trata de regras com essencialidades completamente distintas, as quais se aproximam apenas vagamente em alguns aspectos de moralidade e de religiosidade, e, a duas, porque não se pode esquecer, que usualmente o Estado se colocou na redução da diferença e da alteridade (Pierre Clastres), e, sobretudo, que houve e continua a existir uma prática trágica de sombreamento de experiências jurídicas diversas, que talvez se possa chamar de um “etnojuricídio” operado pela hegemonia violenta do ordenamento jurídico estatal. Nesta linha, é possível tracejar os contornos, ou, ao menos, as variáveis de localização no saber da existência de uma autêntica experiência jurídica nos povos guaranis do litoral paranaense, uma verdadeira mundividência jurídica indígena, claramente não reconhecida pelo direito oficial. Em termos didáticos67, é possível reconhecer a existência desta experiência a partir das seguintes divisões: (a) Metafísica normativa68: num exercício de “antropologia do direito” propriamente dita, é possível perceber que a experiência jurídica guarani não chega às minúcias de especificar functores normativos naturalmente, mas isto não implica dizer que não possuem comportamentos proibidos, facultados e obrigatórios. O modo de viver adequado e equilibrado, a que chamam de Ñandereko, cuja correta hermenêutica é volúvel e está especialmente nas mãos do tcheramói, transparece o que se “deve” ou se “pode” fazer para ter uma boa vida, assim como, ouvindo os deuses, o pajé rechaça comportamentos desagregadores da comunidade ao “proibir” determinadas condutas. A vida é marcada por “regras” comunitárias, mas também por “princípios”, que estão na quadratura do “bem viver”. Há princípios que norteiam suas vidas, como lealdade, igualdade, dizer o certo e fazer o bem. Há aqui algumas nuances, já que para eles, a igualdade é realmente plena, a ponto de nem a idade avançada ou a menoridade ou mesmo a fragilidade etc. servirem a comportamentos diferenciados. Todos são realmente iguais, inclusive suas falas, que na Escuta Étnica teve a participação de crianças, chamadas pelos mais velhos para se manifestarem. A igualdade é também discursiva e não sofre o influxo de nenhuma autoridade. Em ambas as tribos se reiterou que a “palavra”, por seu conteúdo e pelo pensamento que carrega, prevalece sobre a boca que a emite, logo, a palavra dita corretamente se sobrepõe em termos de igualdade a qualquer desigualdade que a vida material evidencia: jovens, idosos, casados, solteiros são vistos sob absolutamente o mesmo teto da igualdade. Talvez se possa arriscar dizer que acima da justiça ou de qualquer outro valor entre os guaranis, a igualdade se destaca e torna o princípio unificador da comunidade e o guia das condutas individuais. Mas não se trata apenas da palavra dita sempre em comunidade e na frente de todos, inclusive daqueles que estão sendo julgados ou estão cumprindo punições, mas dita verdadeiramente, abertamente, pensada e discutida entre todos antes de ser exposta. Não à toa por costume furam o lábio de baixo dos recém ingressos na vida adulta, para serem comedidos no apetite e comerem o essencial que os permita estar em estado de alerta sempre, mas, sobretudo, para falarem pouco e pensarem mais. O dizer é uma arte, o discurso é uma arte, e, por conseguinte, em sendo o direito uma experiência discursiva, é uma arte e uma ascese cujo exercício cauteloso e bem refletido se torna justo e igualitário ao mesmo tempo. Se por um lado, o dizer o bem, o bem viver, que se manifesta essencialmente por conselhos na casa de rezas, o ato que atenta contra estes conselhos se torna “inadequado” (nas palavrasdo cacique), revestindo um caráter de contrariedade ao que é certo fazer. Embora não classifiquem estas inadequações a partir do objeto e da ordem de bens afetados, entendem que há distinções de “gravidade” de atos praticados, que naturalmente merecem punições proporcionais impostas coletivamente. É o coletivo que dá o tom do controle e do limite, ao tempo que o equilíbrio das punições. Gravidades diversas fazem evidenciar que atos apresentam impactos diversos na comunidade, exteriorizando, à imagem hegemônica, ilicitudes de graus diversos. Trata-se, portanto, de uma experiência jurídica com evidente complexidade, ainda que não didaticamente ainda explorada, mas certamente não arbitrária. É preciso despir-se da imagem de barbárie e selvageria, que outrora se lhes foi imposta, para compreender que não há nada de irracional nestas gravidades ou punições, não se está num campo de ilicitudes subjetivas ao sabor de autoridades medievais, mas de múltiplas influências na definição do justo e do não aceito. Arriscaríamos a dizer que raramente, como deixaram transparecer, a punição é injusta de acordo com o fato praticado, e aqui então não há nada de irracional, o que nem sempre se manifesta no direito hegemônico. Há de se suspender a imagem do desencantamento weberiano e ler nesta experiência jurídica guarani uma peculiaridade, um regramento diverso, com outra epistemologia e outra cosmologia, segura, racional, ponderada, coletiva, igualitária, ainda que conserve traços religiosos e morais. Ao não distinguir a gravidade de ações em razão da pessoa (se cacique, apenas membro da comunidade, criança etc.), ou de quem sob algum efeito (se cacique, mulher casada, mulher solteira, criança, idoso etc.) demonstra-se que a experiência jurídica guarani é construída em torno exclusivamente de «condutas», do «ato certo ou do ato que desagrega a comunidade» e não em razão das pessoas. O que há de irracional nisso, ainda que os deuses falem o certo por meio do tcheramói? Trata-se de uma manifestação de juridicidade fática, altamente concentrada nos atos praticados e nas palavras ditas e não nas subjetividades envolvidas, sobretudo por ser o sujeito um “sujeito coletivo”. É um jogo da palavra dita e do silêncio que intermedeiam as ideias e o agir no corpo social. Esta racionalidade, completando este primeiro âmbito de análise (metafísico), também se apresenta na condução e na correção de condutas inadequadas. A experiência jurídica guarani estipula, basicamente, as seguintes punições: a conversa reta e intimidadora do tcheramói ao ouvir as divindades; o trabalho comunitário variável (de dez, vinte ou trinta dias) na plantação, construção e alimentação coletivas (ainda que algumas tribos não o pratiquem); e o deslocamento para outra tribo sob os auspícios de outro cacique (nunca o simples banimento), cujo tempo não acaba por ser superior a cinco anos. Guaranis jamais estabelecem o puro banimento, porque entendem a vinculação com a terra que o indígena tem, e por serem, em grande medida, parentes, já que as tribos guaranis são sempre com pequenas famílias (Cerco Grande possuindo atualmente cinco famílias e Araçaí por volta de trinta). Igualmente não estabelecem prisão (ainda que outras etnias prevejam “gaiolas”, como dito na Escuta Étnica) e tampouco a pena de morte, porque incompatível com Ñamanduí, ou o princípio criador, anterior a tudo. Ressalte, por fim, que as punições não são eternas para o povo guarani, cumprindo às autoridades de onde a punição é executada dizer quando o punido já está curado e liberado para a vida comum. A punição nunca é vexatória, não à toa repetiram ambas as tribos a opinião de que o principal a fazer com o punido não é discriminá-lo, mas sim, cuidar de sua vida e de sua alma para voltar ao caminho correto. Mesmo na tribo em que o punido com o deslocamento é recebido, sua recepção é apenas austera para que respeite as regras do lugar em que a punição será cumprida, mas não de exclusão, isolamento ou discriminação. De igual modo, não há punição de caráter retributivo ou vingativo, pois a ira e a vingança, o “sangue quente” ofuscam os bons pensamentos e precisam ser trabalhados na casa de rezas, com o auxílio do tcheramói para passar pelo seu infortúnio. (b) Contornos da juridicidade: Prosseguindo, de modo sintético, é necessário vislumbrar um segundo bloco de percepções desta experiência, intitulado acima de uma tentativa de enunciar os “contornos da juridicidade” da experiência guarani, a partir de suas origens, levando em conta a existência de exemplos de antepassados, heróis, manifestações da natureza, imagens e símbolos religiosos, impressões individuais e/ou comunitárias; hierarquias por poder físico, político, social, espiritual; vinculações individuais, familiares, tribais, étnicas e geográficas, bem como extra-comunitárias. A Escuta Étnica permitiu elucidar em parte as fontes da experiência jurídica guarani e vislumbrar de onde parte, de quem parte, de que modo se apresenta e de que influências sofre esta emissão do que é certo, errado, justo, injusto, permitido, obrigatório ou proibido. Ainda que os guaranis não tenham elaborado toda uma sorte de fontes jurígenas que gravem a identidade de um ordenamento ou ao menos, burguesamente, costurem quem pode dizer o direito e através de que meios pelas fontes formais diretas objetivas/imediatas e subjetivas/ mediatas, isto não significa dizer que não há uma experiência jurídica (como já visto) e nem tampouco de que esta não nasce e nem se apresenta de algum modo peculiar. Pelas falas dos próprios guaranis, emitidas com a imanente e sábia cautela, após o fumo do petyguá (cachimbo), que permite com que o pensamento venha da melhor maneira possível, com a proteção do dito necessária, ficaram evidentes que o certo, o proibido, o permitido e toda gama de modais não elencados abertamente podem partir do exemplo já usado em outras tribos, de manifestações de outras gerações, de antepassados, da simples decisão da comunidade após reuniões diárias e noturnas (sem hora para acabar) na casa das rezas, corriqueira ou casuisticamente, mas, sobretudo, em razão das divindades acessadas pelo tcheramói e cujos conselhos são repassados nas rezas. Jakairá, Tupã, Karaí, Ñanderú, como dito nas Escutas Étnicas são evocados de modo misterioso pelo tcheramói, cujo papel hermenêutico se exerce com absoluta autoridade entre os guaranis. Sua autoridade é suprema e não questionada e nem desrespeitada, reafirmando a juridicidade de uma simples regra moral ou religiosa. O bem cuidar dos filhos, o respeitar os conviventes, o agir corretamente é reafirmado pela autoridade do tcheramói, que goza de um domínio legitimado ao manter o equilíbrio do grupo. Ao ouvir entre todos, Ñanderu, o deus maior da segunda terra (essa em que vivemos), como afirmado por Ana Freitas, diz o direito o que deve ser feito, mas também nas situações de condutas inadequadas, reafirmando e evitando que, a uma, a experiência jurídica guarani seja desacreditada (em relação ao direito hegemônico quando isto acontece e a autoridade do direito se enfraquece), e, a duas, que os filhos não se percam na terra em que vivemos, “cheia de males e sombras”.69 Por isso, a manifestação do que é justo, injusto, certo, errado etc. para os guaranis gira tudo em torno dos deuses, da figura do tcheramói, das reuniões coletivas e diárias nas casas de reza, de acordo com o princípio único do “bem viver”, que, apesar das diferenças entre tribos, reúne o povo em torno do que é o elo da comunidade. Dizer o que é o direito nesta perspectiva da experiência jurídica guarani é então afirmar este lugar costurado entre o certo, o manifestado pelos deuses, o aceito pela comunidade. Uma tríade indissociável que qualifica e torna complexos os contornos da juridicidade, apenas de bastante clara e definida em termos de lugar e de desenho institucional. Ao contrário do que usualmente se possa pensar, não é esta experiência jurídica uma experiência irracional, arbitrária, autoritária, escura, secreta, desigual ou reclusa,mas, ao contrário, uma experiência que parte de lugares bem claros, por meios precisos, conhecidos por todos e a todos publicizada. Como salientado em ambas as tribos, tudo é dito na frente de todos, nada é reservado, pois todos têm direito igual de se pronunciar e de saber. Portanto, nenhuma outra experiência que tenha servido de base para construir a juridicidade do direito hegemônico pode ser servir aqui, seja ela grega, seja romana, pois, em ambas, além de tudo, a juridicidade sempre teve seus traços silenciosos de exclusividade e manutenção do “poder” (expressão essa que não se ouviu em nenhuma das falas de nenhum dos guaranis, em suma, palavra que não faz parte, curiosamente, da juridicidade indígena). Nesta perspectiva, portanto, não é possível afirmar que as fontes da experiência jurídica guarani e mesmo os contornos da juridicidade estão relacionados ao poder, como acontece no direito hegemônico, mesmo quando não havia Estado, já que gregos e romanos falavam, cada um ao seu modo, em bios (poder, vida, violência) e auctoritas/potestas para construir a juridicidade. Logo, se não é o Estado que dá o elemento de autoridade para o direito hegemônico, o que se pode concluir é que o poder é imanente à juridicidade ocidental, diversamente do que ocorre com o povo guarani. (c) Características normativas: entendidos os contornos desta juridicidade e suas origens na experiência jurídica guarani, é possível afirmar que algumas “características” estão presentes, demarcando um campo muito peculiar de compreensão guarani. Trata-se, portanto, de uma experiência jurídica marcada pela: (1) multiplicidade originária da juridicidade - as fontes jurígenas são plurais, como visto, dos deuses, da vida comunitária, das experiências extra-tribais, das reuniões nas casas de rezas; (2) transmissão geracional - os ensinamentos do justo são transmitidos de pais para filhos, mas, especialmente, na própria comunidade, à medida que crianças participam das reuniões coletivas e das casas de rezas (fato significativo foi a participação sempre presente nas Escutas Étnicas das crianças e dos jovens, estes, inclusive, com o direito de fala, o que permite a transmissão coletiva “tradicional” da normatividade; (3) discursividade - a predominância da juridicidade guarani é a discursividade, pois a palavra, o conteúdo da palavra, o modo como as proposições são pensadas e emitidas com cautela, a preocupação com a boa palavra que é evocada pelo ar, pelo fumo e pela erva para alterar os estados de consciência e falar manifestando a vontade dos deuses, e o cuidado com o receptor denotam a importância com que a discursividade se apresenta na manifestação e na própria elaboração e enunciação do justo e do certo (a linguagem é aqui elemento existencial, constitutivo e epistemológico da relação guarani-terra-divindade e não apenas meio ou instrumento de intersubjetividade); (4) oralidade - apesar de manifestarem ambas as tribos a existência de eventuais registros de punições aplicadas em livro sob a guarda das autoridades indígenas, fato é que a juridicidade é essencialmente oral, passada de modo geracional, por meio da palavra dita, mas também da dança e dos cantos, não à toa os instrumentos na casa de rezas, cuja afinação e número de cordas destoa dos instrumentos usuais dos brancos (violão e violino), bem como os chocalhos das maracas, estão presentes e tem vocação sagrada, pois por meios deles a oralidade e suas rimas penetram no imaginário e na memória dos guaranis entre gerações; (5) variabilidade do justo os guaranis afirmam categoricamente que as decisões nos casos de condutas inadequadas são casuísticas, não se valendo de precedentes anteriores, o que denota, apesar de haver similitudes por evidentes razões culturais, inclusive entre tribos, que os contornos do que é justo, injusto, correto etc. varia de caso a caso, contexto a contexto, época a época, mas nunca por simples irracionalidade, mas porque mais adaptados à solução do conflito e à cura do punido; (6) mutação da aplicação das regras - não apenas a compreensão do justo é variável, mas a própria aplicação das regras também não é sempre exatamente a mesma, ainda que sempre haja uma lógica próxima, quer dizer, em todos os casos, os guaranis seguem um mesmo modo de aplicar as regras, por meio das mesmas instituições, com a oitiva das mesmas pessoas etc., ainda que mudanças possam ocorrer sem que isso desestruture a experiência jurídica deles; (7) persuasão/retórica - deixam antever em suas falas os guaranis ouvidos que a persuasão existe e está obrigatoriamente sempre presente, mas é de natureza objetiva e não subjetiva, pois a força dos argumentos, a palavra bem dita e bem refletida, convence, traz acordos, persuade de tal modo que o conselho final se legitima e se reafirma pela retórico e a escolha certa na hora certa dos argumentos (isto ficou bem claro em Araçaí quando a índia mais velha, fumando o petyguá, rodeava a reunião dos oradores a fim de que os bons espíritos se fizessem presentes e intermediassem a fala precisa, justa, nem pouca, nem muita; (8) vinculação tribal/étnica/geográfica - como já mencionado, a experiência jurídica indígena é bastante diversa, quando se está falando de etnias indígenas, isto implica afirmar uma variabilidade imensa se pensada entre guaranis, caingangues, xetás, mas também entre as setes tribos do litoral paranaense há diversidade (ainda que hoje bastante mais homogênea em razão do que os meios de comunicação permitem de intercâmbio entre as autoridades indígenas); (9) difusão pelo convívio - a comunicação a novos membros que chegam à tribo não se dá por ensinamento rigoroso e sistemático, mas por falas na casa de rezas, por experiências compartilhadas e conversas comunitárias; e, por fim, ao menos sinteticamente, (10) alterabilidade das punições - creem guaranis que as punições podem ser alteradas em razão das circunstâncias (e não arbitraria ou irracionalmente), mesmo se levados em conta fatos parecidos, e, inclusive, quando aplicadas por outras tribos no caso de transferência, possuem maleabilidade e dependem mais do procedimento xamânico a que se submete o punido do que ao rigor do que foi aplicado como punição, sobretudo porque também entendem mais graves os atos qualificados por uma reiteração na conduta. (d) Instituições jurídicas: definida a experiência guarani como uma experiência jurídica propriamente dita, gravadas com características peculiares, é possível averiguar que existem «instituições jurídicas” cuja função é personalizar a própria existência da juridicidade, a aplicação do direito e a execução de punições. Não há uma confusão entre instituições, como se poderia de modo preconceituoso afirmar à imagem de sociedades “sem” estado históricas, como a crítica tradicional já destacou.70 As falas indígenas permitem reconhecer que, em termos de fonte mediata do direito estão o sujeito coletivo da comunidade, as lideranças tribais, o cacique internamente, e, sobretudo, o tcheramói (pajé). Os deuses, pelo pajé, e a comunidade evocam os preceitos imanentes guaranis que existem, cumprindo a todos na casa de rezas julgar os fatos, e ao cacique zelar pelo cumprimento da punição, com o acompanhamento do tcheramói. O caráter por vezes coletivo das instituições impede arbítrios, abusos, excessos como pode acontecer quando há concentração entre instituições. Cacique recebe as queixas, mas as leva sempre às noites na opy, independentemente de quem seja, para que todos na casa de reza analisem os fatos e possam bem julgar. Sua força, institucional, como afirmaram os indígenas, não influencia no julgamento, o que denota que a sua eventual e não obrigatória participação de fala num caso não é decisiva e nem contamina o julgamento, posto que não é seu. De igual modo, não lhe cabe, ainda que fiscalize o cumprimento da punição, perdoar a punição ou a diminuir por vontade própria, a uma porque o “perdão” não faz parte do vocabulário guarani (essencialmente católico) e a duas porque a interferência xamânica do tcheramói é decisiva.(e) Pragmática jurídica: por fim, é possível reconhecer que estas instituições singularizam uma experiência jurídica e põem em prática uma “pragmática jurídica” também peculiar, marcada por encaminhamentos essencialmente ritualísticos, gravados pela variabilidade do rito em razão exclusivamente do fato (e não do agente ou da vítima), pela execução a ser feita coletivamente, com influência distante mas presente de movimentos sociais externos (como feminismo, luta por terras etc.) e impressões do direito hegemônico. O ritual de afirmação da juridicidade na casa de reza noturna e diariamente, com conselhos do tcheramói sobre o bem viver, o ser abaête (pessoa honrada), angatu (boa alma, estar bem) e ête (sincera), apesar das variações, sempre ocorre e estreita os laços da comunidade. Mas o ritual em que juridicidade da experiência guarani se afirma quando uma conduta inadequada ocorre também, com algumas nuances se dá do seguinte modo: a notícia do fato é feita por qualquer pessoa da comunidade indistintamente, inclusive por crianças para o cacique. Este, leva o conflito para a casa de reza assim que pode. Lá, expõe a todos da comunidade reunidos após a evocação espiritual. Ouvem a vítima e o acusado (nem sempre nessa ordem, mas sempre os dois, não tanto pelas pessoas, mas pela narrativa contada). É preciso cercar-se igualmente de prova, pois a “denúncia infundada” não é bem vista e perigosa (embora quase inexistente). Ouvem as versões, os lamentos e as angústias das famílias (e aqui um ponto bastante peculiar, pois mesmo que rechacem o ato praticado pelo responsável da conduta, levam muito em conta o impacto para ele de uma punição e, sobretudo, para a sua família, que, nas palavras dos guaranis, “sofrem junto”. Em seguida, abre-se espaço para que qualquer um, indistintamente, emita sua opinião, seja contraditado, proponha punições. Esses debates podem se dar em várias reuniões, haja vista que o tempo não os condiciona e nem os pressiona. Ao final, a palavra do tcheramói é ouvida com cautela e todos chegam a uma punição que entendem necessária para rever o fato e afastar o mal que recai sobre o agente. Cabe a declaração expressa da punição ao cacique, que zela para que ela seja cumprida, inclusive comunique outra tribo em caso de transferência do guarani em razão da gravidade do ato. Quando necessário, e apenas excepcionalmente, entendem que é possível comunicar o Estado e não apenas se auto resolverem. Como dito anteriormente, salvo quando não houver autoridade indígena para resolver, e em sendo um homicídio que os faz temer o futuro, aí então podem deliberar para que o Estado seja informado (algo que não ocorrera propositadamente neste caso, também por não se tratar de homicídio). Enfim, esse é um breve retrato, sem a intenção de configurar um registro dos costumes jurídicos, do modo como guaranis, especialmente guaranis do litoral paranaense, compreendem a juridicidade dos fatos e estabelecem suas formas de enfrentamento e resolução, ao que se poderia denominar, então, propriamente de uma verdade experiência jurídica guarani. Experiência esta que está, como se pode perceber, em verdadeiro choque e irritação com o direito oficial, mas que, quase sempre é apenas ignorada em razão do eurocentrismo das categorias oficiais. Evidentemente, a questão indígena, seja pela sua ancestralidade, seja pela possibilidade histórica de manutenção, seja pela própria idéia de família única e língua própria como elemento aglutinador, de certo modo, seja de seu núcleo cultural, é a que melhor expressa o quanto experiências subjetivas e jurídicas foram historicamente ocultadas, negligenciadas, silenciadas em razão do eurocentrismo e do etnocentrismo aqui manifestado. Mas olhadas as demais manifestações invisibilizadas, também se vê fortemente a presença do modelo de estrutura, de sociedade, de ser humano no pior das vezes, europeu reverberando historicamente com força na comunidade doméstica. Por exemplo, na questão de gênero e definição sexual isto também é bastante presente. Inobstante já houvesse aqui a heteronormatividade e o machismo nas sociedades tradicionais, não é de se esquecer que o modelo europeu, com toda a sua “civilidade” e “evolução científica” exponenciou este padrão cultural no país. E de modo ruidoso ou discreto reforçou um modelo e uma forma de compreensão do tema, e ignorou por completo possibilidades existenciais outras que não aquela do homem branco, europeu, culto, heterossexual etc. Não se pode esquecer os inúmeros dispositivos do código napoleônico sobre estrutura familiar, proibição da mulher de receber doações, emancipar filhos, trabalhar sem autorização marital etc., que foram literalmente colocados como espelho no código Bevilácqua. Contudo, é sabido que a noção de gênero, assim como a de sexo, como já desvendado no texto butleriano Gender Trouble há quase três décadas, é uma questão eminentemente discursiva e cultural, e está atrelada a uma construção social datada, manifestada pelas expectativas sociais de desempenho que cada ser humano deve atender tendo em vista o seu sexo genital (Letícia Lanz).71 Infelizmente, há uma ordem compulsória de obrigatoriedade entre sexo, gênero e desejo, e o gênero legitima esta ordem à medida que representa um instrumento expresso pela cultura e pelo discurso que inscreve o sexo e as diferenças sexuais fora do campo do social, logo, o que se percebe é que o gênero blinda o sexo de eventual crítica e desconstrução. Logo, o gênero, por ser culturalmente determinado, produz uma falsa noção de estabilidade heterossexual exposta por simples oposições binárias: homem vs mulher, macho vs fêmea, masculino vs feminino etc. Trata-se de um discurso que repete e mantém esta ordem compulsória e que perpassa falas, comportamentos, atos, gestos, signos culturais reforçando a construção dos corpos masculinos e femininos como usualmente se mostram e se apresentam. Por isso o gênero é uma questão de performatividade no dizer butleriano, um ato intencional, um gesto performativo que produz significados e que são aceitos, massificados, criando costumes, saberes acumulados, intertextuais e determinantes de crenças, hábitos, ficções que regem atos de enunciação e decisão. De consequência, justamente por ser cultural, não se há de esquecer que no Brasil ainda e muito se mantêm padrões de pensamento e de comportamento, seja no campo das relações privadas, seja no âmbito das instituições, que identifica e etiqueta as pessoas, cuja opção sexual não se coaduna como o sexo genital (exclusivamente genético, fisiológico e anatômico), como desviantes, divergentes, transgressoras, enfim, como anormais, próximas a uma patologia à espera do fármaco, da terapêutica, ainda que não se expresse e nem se declare expressamente. Este modo de ler o gênero como determinante pelo sexo povoa o imaginário de uma parcela ainda significativa da população brasileira e no modo como as instituições públicas ou privadas tratam as pessoas, de maneira a contrariar o que Simone de Beauvoir já dissera nos final dos anos quarenta, de que o gênero é algo que se aprende a ser e com o qual não se nasce. Infelizmente, como um discurso silencioso, incógnito, elétrico, invisível e sutil, as práticas de equiparar sexo e gênero são constantes e nem sempre se revelam por um preconceito ativo, já que muitas vezes se traduzem em simples ignorância despropositada, mas reveladora de um estigma e de um juízo formatado na origem do pensamento e do modo de ser e de agir. O “não perceber”, ou o “não se preocupar”, ou o “sem querer” ainda que não violentos e nem agressivos, podem representar diversas vezes formas mais robustas e drásticas de preconceitos contra o gênero do que as manifestações do campo da estupidez ou da irracionalidade. Ainda se vive no Brasil de hoje um apego do gênero à genitália do “macho” e da “fêmea”, como se não fosse nem sequer um discurso, vastamente aberto à autoridade das formas dominantes cisgêneras e à maquinaria das formas de poder, isto sem entrar no campo do desejo erótico-afetivo,existentes, bem como o manejo dos resultados obtidos com a incidência do direito enquanto tecnologia e decidibilidade de conflitos hoje vivem evidente “crise de sentidos”. Houve um tempo em que a teoria do direito e a dogmática, com todas as suas instituições materiais e imateriais, conseguiram “bem” se pronunciar e apaziguar anseios sociais, ainda que com alguma dificuldade de legitimidade ou ineficiência, não necessariamente de modo “justo”, mantendo coesão social, estabilidade, segurança, certeza, previsibilidade de condutas, superação de expectativas fáticas frustradas, enfim, com certa habilidade para fazer com que o ordenamento jurídico pátrio cumprisse seu fim. Contudo, a realidade atual que o Direito Brasileiro como um todo experimenta, desde construções abstratas da teoria do direito até decisões concretas emitidas por autoridades estatais, vive um peculiar momento de fluidez, motilidade, instabilidade, liquidez, contingência e complexidade próprias deste contexto em que se está. As razões para esta inconstância dos padrões de comportamento, das diretrizes de condutas, da hierarquia de valores, da volatilidade das escolhas individuais, e da própria mudança de julgamentos e juízos etc. não são poucas e certamente trazem justificativas que bem mostram o quão particular é o momento atual. Os meios de comunicação, a profusão em massa das informações, as redes sociais, a virtualidade quase hegemônica da vida, a pluralidade social, a mobilidade geográfica operada pelos meios de transporte, a impermanência das experiências profissionais, as alterações das estruturas familiares, a fragilidade dos contatos sociais, a intranquilidade quase diária com o futuro, a insegurança nas instituições estatais, do Legislativo ao Judiciário, enfim, uma série de causas que inquestionavelmente não havia em tempos passados por razões mesmo óbvias da tecnologia, justificam em grande parte uma verdadeira crise de sentidos para o Direito Br as ileir o. Sem recair num maniqueísmo, já que ao próprio direito não cumpre o certo ou o errado, mas o mais razoável ou menos razoável argumentativamente desde a superação do paradigma da consciência pela linguagem, fato é que a realidade contemporânea assume peculiaridades quase incompatíveis com a própria essência do direito. A isto se atrela não apenas a falibilidade das respostas institucionais, como a edição normativa pelo legítimo poder do povo, mas, em grau mais elevado atualmente, das respostas dadas pelo Poder Judiciário, a quem cumpriria apaziguar conflitos. O Poder Judiciário é, dentre todos, aquele que está na tensão do direito, na tensão entre a normatividade e a factualidade, logo, em última instância é ele quem reafirma o sistema, define os contornos da normatividade ou rejeita a recepção dos comportamentos como comportamentos lícitos. À exceção da jurisdição voluntária, é de todo conhecido que ao juiz não cumpre outra função imediata senão a resolução de conflitos, manifestados no plano intersubjetivo ou nas relações indivíduo- estado pela lide ou pelo caso penal. É o conflito, portanto, o fim a que se predestina o juiz, e é dele que se extrai sua razão existencial. Mas para além de sua evidente manifestação estética, que deste movimento se tem como consequência, o conflito ressalta o lugar comum, o ponto de suspensão pragmática e metafísica sobre o qual se sustentam todas as estruturas e todas as ações jurídicas (seja a clássica perspectiva normalizadora pela decisão judicial, seja pela renovada solução conciliatória). É ele o lugar de tensão, por excelência, entre o desejo de normatividade e o lugar absoluto da liberdade. Representa a linha de hostilidades que pode costurar ou descosturar a tecitura social. Expressa, ao fim e ao cabo, o momento limite em que a normatividade é posta à prova, e de sua lida pode gerar o elogio ainda mais vivo e robusto do substrato normativo, quanto a derrocada apreensiva de sua juridicidade. O conflito convoca, portanto, antes mesmo que a figura subjetiva do magistrado, o próprio ordenamento a se tensionar na resposta que será construída, prévia ou casuisticamente. O juiz nada mais é senão a subjetividade momentânea, pontual e institucional capaz de examiná-lo em sua margem, em suas fronteiras. Ao juiz, portanto, é dado o ofício de se colocar neste espaço de pressão e de inquietude entre os fatos e seus estados e a própria experimentação material do direito e seus conceitos. É por seu agir (não exclusivo por certo, mas singular e exemplar) que este estiramento social se examina e se põe em evidência, avaliando as escolhas, presumindo respostas, construindo raciocínios e promovendo a própria consagração do Direito. Não por outra razão a fundamentação de sua decisão implica a expressão, por indícios, manifestações, sinais, signos (físicos ou linguísticos) deste conturbado e complexo contato entre o mundo da vida (Lebenswelt)3 e o mundo do direito (Rechtswelt)4. Cumpre a ela a tarefa de expor a própria manifestação da experiência do Direito na velha herança (e aqui válida apenas metaforicamente, já que a história há muito a desconstruiu em sua singeleza), dos princípios tardo-romanos narra mihi factum, narro tibi ius, bem como iura novit curia, ambos com suas variantes Contudo, nem mesmo esta autoridade tem encontrado um lugar seguro no plano institucional, sobretudo em razão dos avanços do “ativismo judicial”. Desencontros e personalismos nas instâncias superiores, originalmente colegiadas para calibrar o sistema, idiossincrasias e solipsismos morais, tem enfraquecido não apenas o poder na quadratura estatal, mas esta resposta da tensão fático- normativa, e, com isso, a própria função estabilizadora e arquivadora de sentidos. Isto parece evidente no Brasil diante dos tantos problemas normativos que fazem parte do cotidiano das pessoas e para as quais o direito oficial não tem, não consegue dar respostas e quando o faz, desautoriza e desconfirma a sua própria essência de direito como norma. 2. Problemas da vida humana postos à normatividade pátria Nestes trinta anos de singular vivência constitucional, ainda se apresentam problemas cotidianos, embora não recentes, sem respostas adequadas, e outros novos que forçam resoluções sistêmicas improváveis e inseguras. São problemas fruto da rapidez das mudanças culturais e sociais pelas quais as sociedades perpassam, como visto, e, no Brasil, com maior nitidez, de um lado, dado o amálgama cultural, o sincretismo religioso, a ausência de qualquer padrão racial (ainda que as teorias de “miscigenação” assim não o tenham querido), a imensidão territorial e sua diversidade biótica, as influências estrangeiras distintas em regiões nacionais, enfim, a pluralidade que é intrínseca à realidade doméstica; e, de outro, a conformação dos estratos estatais autoritários e o saber científico nitidamente arrítmicos e estranhos a esta realidade. Se o povo brasileiro não se identificou muito bem como o conceito de povo que se quisera nos tempos da semeadura de Paulo Prado5, certamente a conformação do saber jurídico e dos institutos dogmáticos jurídicos tampouco guardaram verdadeira relação e homologação com os costumes e os modos de ser nacionais. Isto sem mencionar as constantes influências e modificações de influências estrangeiras, ao sabor da própria oscilação que a política externa brasileira6 historicamente vivenciou, que esteve presente na construção da teoria do direito e do direito br as ileir o. Dentre estes problemas, convém citar alguns mais controversos e suas eventuais conclusões dadas ou estimadas pela teoria do direito e a dogmática jurídica brasileira. Trata-se de fatos existentes, nem sempre comuns ou corriqueiros, de natureza individual ou social, mas que causam perplexidade sistêmica e forçam institutos, instituições e racionalidades a não desautorizar, nem negar o direito oficial, tampouco desconfirmar soluções tradicionais, mas de se desdobrarem na tentativa de legitimar enfrentamentos técnicos e resoluções razoáveis e abertas. Procurando organizá-los didaticamentede complexidade ainda mais vasta e muito menos compreendida e aceita, mas que não convém avançar. Este dispositivo totalitário e hegemônico da aplicação compulsória das normas binárias de conduta de gênero e sexo (e também orientação sexual), manifestando uma evidente heteronormatividade, age sem que as estruturas sociais, e, sobretudo o direito (pensando no exemplo de missivas enviadas por instituições para o nome ainda antigo da pessoa que já o alterou formalmente, como simples erro e sem dano algum, conforme ressoa na jurisprudência pátria) façam efetivamente algo com intenção de desrespeitar pessoas com gênero e sexo tido como “anormais”. Os discursos institucionais, as práticas particulares e públicas, reforçando o eurocentrismo, demonstram um “desinteresse” sintomático e quase generalizado no país pela promoção da igualdade e da liberdade das pessoas. Este “não dar-se conta” típico, ainda que sem má-fé dolosa, é, na percepção de uma teoria do direito atenta à colonialidade, algo que não se pode manter intacto ainda nos dias de hoje. Não se trata de hipertrofiar a questão de gênero para além do que o direito, enquanto “reserva histórica de sentidos” no âmbito discursivo-político consegue arquivar, mas ter a consciência de que o gênero, para quem está submetido como “desviante” à ordem compulsória de que suso se mencionou, é absolutamente relevante, porque reflexo de todo o resto: status socioeconômico, estética, roupa, família, escola, emprego etc, em suma, para quem é “normal” nos termos culturalmente aceitos, no âmbito do verdadeiro, o gênero pode ser irrelevante enquanto discurso se comparados a outros fatores do cotidiano, porém certamente não o é numa sociedade coagulada de prejuízos e preconceitos para quem “transgride”. Logo, estar ciente disso, é reconhecer a presença forte do eurocentrismo na realidade brasileira, primeiro passo para que a teoria do direito possa enfrentar novos institutos e novas racionalidades éticas a partir do giro descolonial e ouvir o Outro. Modernidade, secularização, pluralismo e virtualidade marcam essa crise de sentidos no mundo contemporâneo, naturalmente, não haveria de ser diverso o lugar crítico em que o direito, visto em termos gerais, e o direito formal brasileiro, especificamente, encontram-se. Além do mais, aquele descompasso entre a realidade brasileira e suas subjetividades subalternas, experiências jurídicas marginais, e teoria e o direito oficial aqui existente naturalmente grava e exponencia a crise institucional do direito no país. Tanto a teoria crítica do direito, como visto, quanto o próprio direito oficial não conseguem, se não apenas driblarem, exercer um lugar estabilizador de sentidos na comunidade de vida, logo, não conseguem superar essa crise de sentidos de que tanto se falou acima, gerando não apenas mais crise quanto cada vez mais desautorização e insatisfação normativas. Respostas individualizadas, casuísticas com o fim apenas de por fim ao debate e não propriamente dar uma solução e arquivar sentidos capazes de criar programas de ação, esquemas de pensamento, padrões de escolhas e fórmulas de decisão se tornaram a regra. Naturalmente, o direito enquanto instituição deixa de ter um lugar privilegiado para trabalhar com sentidos, e, também, de os criar e os guardar em níveis epistêmicos. O direito, ao não dar respostas satisfatórias, não contribui mais, ainda que não de modo auto- evidente, para a construção cognitiva do pensamento, para a interiorização de idéias e argumentos sobre a realidade e a cultura atual (e não naturalmente hegemônica), para a possibilidade de julgamento entre sentidos desejáveis e indesejáveis, úteis e inúteis, eficientes e ineficientes, morais e imorais etc., bem como escolhas possíveis entre opções julgadas, passadas em exame e refletidas, e, 6. A incapacidade teórico-dogmática de superação da crise de sentidos no direito por fim, orientar ações, condutas e comportamentos a serem empreendidos pelos cidadãos. Enfim, uma incapacidade teórico-dogmática de superação da crise de sentidos no direito, levando a uma repetição exaustiva e padronizada na formação de prejuízos, de tradições e conservações de sentidos absolutamente desconexos com a realidade pluriétnica, plurinacional e pluricultural como a brasileira. - 31 CARVALHO FRANCO, Maria Sylvia de. As idéias estão em seu lugar. In.: Cadernos de Debate n. 1, São Paulo: Brasiliense, 1976. p. 62-63,. 32 CRUZ, Peter de. Comparative Law in a Changing World. London/Sidney: Cavendish Publishing Ltd., 1999. 33 Dentre outros: DUSSEL, Enrique. Europa, modernidade e eurocentrismo. In.: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciência sociais: perspectivas latino-americanas. Clacso, 2005. 34 HOBSBAWN, Eric. Introduction: inventing traditions; In.: The invention of tradition (orgs. Eric Hobsbawn e Terence Ranger) Cambridge: Cambridge University Press, p. 1-14, 1983. 35 CASTORIADIS, Cornelius. L’imagináire social et l’institution. In.: L’ institution imaginaire de la société, Paris: Le Seuil, 1975, p. 536.; _____. Institution de la société et religión. In.: Domaines de l’homme, Paris: Points, 1982, p. 476. 36 CASTORIADIS, Cornelius. Les carrefours du labyrinthe: la montée de l’insignificiance. t. IV. Paris: Points, 1996. 37 LIEDTKE, Ralf. Die Hermetik: traditionelle Philosophie der Differenz. Paderbom: Schöningh, 1996, p. 52-55. 38 FARALLI, Carla. La filosofia del diritto contemporánea: i temi e le sfide.. ROMA-BARI: Laterza, 2005; Profili di storia della filosofia del diritto. Bologna: Gedit, 2006. e TREVES, Renato. Sociologia del diritto. Torino: Enaudi, 1987. 39 RADBRUCH, Gustav. Gesetzliches Unrecht und übergesetzliches Recht. In.: Süddeutsche Juristenzeitung, Mohr Siebeck Verlag, v. 107, 1946, p. 105; _____. Fünf Minuten Rechtsphilosophie. In: Gustav Radbruch: Rechtsphilosophie, Studienausgabe. Heidelberg: C. F. Müller, 1999, p. 209-210; e _____. Vorschule der Rechtsphilosophie. 2. Auflage. Göttingen 1959, p. 34. 40 Ordenamento aqui na linha sistêmica kantiana (qualificado por repertório de elementos e regras que lhe dão logicidade, unidade, plenitude e coerência) e não propriamente nos termos da expressão abstratamente considerada, cujo aparecimento se deu pelas mãos de Santi Romano na obra de 1918, já que esta seria bem diversa, estando mais próximo do pluralismo de Maurice Hauriou e Georges Renard do que de Hans Kelsen e seus herdeiros. 41 Estas idéias já foram há muito esboçadas, ainda que noutro contexto, no artigo: FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. O oficial e o inoficial. In.: Conflito de direito de propriedade: invasões urbanas (org. Joaquim de Arruda Falcão). Rio de Janeiro: Forense, p. 103-124, 1984. 42 MIGNOLO, Walter D. Local histories/global designs: coloniality, subaltern klowledges and border thinking. Princeton: Princeton University Press, 2012, p. 84. 43 FANON, Frantz. Racisme et culture. In.: Présence Africaine, 2 v, n. VIII-IX-X, p. 122-131, juin-nov. 1956. 44 QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad/racionalidad. In.: Perú Indígena, Lima, v. 13, n. 29, p. 11-29, 1991.; 45 Algo naturalmente ocorrido, ainda que com particularidades, com outros povos colônizados, como denunciou em seus escritos dos anos trinta e quarenta Simone Weil ao narrar se tratar de um fenômeno dúplice, uma “colonização interna e dos espíritos” (em même temps, colonisation intérieure et colonisation des esprits). WEIL, Simone. Contre le colonialisme. Paris: Rivages Poche Petite Bibliothèque, 2018, p. 85-110. 46 A título de base, os textos que mais expressam a formação da ciência jurídica européia atrelada à romanística, bem assim a influência na construção dos saberes pátrios, convém a leitura dos seguintes: BRUNNER, Otto. Land und Herrschaft (1939). FUNARI, Pedro Paulo Abreu. 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Manz: Pfaff, 1900. 48 Programas das “cadeiras” de Introdução à Ciência do Direito, Philosophia do Direito e História do Direito consultados na Biblioteca da Fadusp e UFRJ (acervo da Faculdade Nacional) entre os anos 1900 e 1930. 49 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito ..., p. 140-142. 50 FERRAZ JÚNIOR, Tercio. Introdução ao estudo do direito ..., p. 181-204. 51 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito ..., p. 177 52 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito ..., p. 166. 53 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito ..., p. 175 54 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. O oficial e o inoficial ..., p. 103. 55 Questão analisada no início dos anos oitenta, quando as ocupações ocorridas na região do Recife: FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. O oficial e o inoficial ..., p. 103 e segs. 56 Idem. 57 ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Os indígenas do Brasil: seus direitos individuais e políticos, TYPOGRAPHIA Hennies Irmãos, 1912, p. 50. 58 ARNAUD, Expedito. Aspectos da legislação sobre os índios do Brasil. In.: Publicações Avulsas Museu Paraense Emilio Goeldi, Belém, v. 22, 1973, 45p. 59 ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Os indígenas do Brasil ..., p. 62. 60 SILVA, José Afonso da. Auto-aplicabilidade do art. 198 da Constituição Federal. In.: RTJE, v. 7, n. 25, p. 3-13, 1983. 61 DÓRIA, Sampaio. Direito Constitucional. v. 4. São Paulo: Max Limonad, 1960, p. 871. 62 MIRANDA, Pontes de. Comentários à Constituição de 1967. t. 1. São Paulo: RT, 1967, p. 529. 63 MIRANDA, Pontes de. Comentários à Constituição de 1967 ..., p. 436. 64 MELLO FILHO, José Celso de. Constituição Federal anotada. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 17. 65 MELLO FILHO, José Celso de. Constituição Federal anotada ..., p. 433. 66 A síntese aqui apresentada é fruto de escutas étnicas realizadas nas tribos guaranis de Cerco Grande – Guaraqueçaba/PR e Araçaí – São José dos Pinhais/PR no ano de 2018, com entrevistas dirigidas diretamente aos caciques, demais membros das tribos, e acompanhada por antropóloga especializada em questão indígena Prof. Ana Elisa de Castro Freitas – UFPR/ Litoral. Certamente são oitivas feitas em apenas tribos do litoral paranaense, contudo, com a família guarani é única e extensa pelo território nacional, é possível afirmar que as impressões sobre a experiência jurídica guarani aqui apresentadas representam a experiência jurídica guarani nacional, com devidas nuances, e, talvez, em sua generalidade, a experiência jurídica indígena nacional. 67 A compreensão desta experiência, pela ausência de um roteiro acadêmico mais preciso de que se possa se socorrer, não pode fugir, como sói acontecer em leituras feitas de um lugar exterior, da escolha inevitável de filtros de análise partindo da experiência jurídica hegemônica, ainda que bastante abertos os olhares e os ouvidos à captura, sem preconceito, de experiências diferentes e singulares como a guarani (cujo desconhecimento dos autores era quase inexistente). Por esta razão, entendeu-se por bem conduzir as perguntas a partir de cinco blocos de compreensão, a fim de permitir uma leitura mais cristalina e pedagógica desta experiência jurídica: (a) metafísica normativa; (b) contornos da juridicidade; (c) características jurídicas; (d) instituições jurídicas; e, (e) pragmática jurídica. A ideia desta divisão foi de entender o que é a juridicidade do direito e como ele se singulariza; como nasce a partir das fontes jurígenas; como se estrutura enquanto norma e ordenamento; como se interpreta e se aplica, guardadas as devidas idiossincrasias da experiênciajurídica guarani e do direito hegemônico. 68 Optou-se, então, por primeiro, definir os contornos da essencialidade desta experiência jurídica, ao que se poderia definir como “metafísica normativa”, perscrutando respostas que abordassem os modais normativos de proibição, obrigatoriedade e faculdade; princípios em confronto com regras e normas; definições de igualdade, justiça e confusões com o direito; antijuridicidade e suas escalas de ofensividade e gravidade; efeitos de antijuridicidade na comunidade; subjetividades envolvidas na qualidade de autor e vítima; bem como punições exis tentes . 69 FREITAS, Ana Elisa de Castro. Nas brumas revigorantes de Jakaira Chy Ete, o encantamento feminino das belas palavras Mbya Guarani. In.: Das Questões, v. 5, n. 5, p. 1- 11, jan-jul 2018. 70 CLASTRES, Pierre. La société contre l’État: recherches d’anthropologie politique. Paris: Minuit, 1975. 71 LANZ, Letícia. O corpo da roupa. Curitiba: Tansgente, 2014. Capítulo 4 A Revisão do “Direito como Norma”, as “Microinstruções Normativas” e o Giro Descolonial à Marginalidade 1. Reflexões zetético-erotizadas, transmodernidade, analética e pensamento crítico fronteiriço Constatada ao menos de modo mais específico a existência de uma “crise de sentidos” na teoria do direito brasileira e no direito oficial, convém a título ensaístico investigar estas inconsistências levantadas e, se não dar propriamente uma resposta segura para dela sair, ao menos esclarecer sentidos, propor possibilidades, indagar formas diversas de reflexão. No entanto, o eixo por trás deste manejo das idéias não pode fugir ao que se entende aqui relevante, talvez sintetizado em termos teóricos em três eixos: reflexões zetético- erotizadas72; transmodernidade; pensamento crítico fronteiriço. Interrogar os saberes tradicionais traz em sua essência, naturalmente, um exercício de natureza tipicamente filosófica, crítica, que serve a estimular o pensamento a ultrapassar limites, distanciar- se das margens, abandonar corrimãos, esquecer pontos de partida, tentar ser, dentro do possível, uma outra forma de pensar, como um pensar do fora, da exterioridade. Ao se indagar pela necessidade de superação da colonialidade e do eurocentrismo da teoria do direito e do direito oficial quer-se ponderar possibilidades, fragilizar certezas, e examinar respostas hoje um tanto insuficientes para o próprio propósito a que se dispõem o direito, talvez possível de ser resumido nas finalidades (Zweck) mais simples (ao tempo que complexas): a paz social (soziale Frieden), a segurança (Sicherheit), o bem-estar coletivo (soziale Wohlfahrt), e, essencialmente: a justiça ( G er echti gkei t) 73. Refletir zeteticamente implica, opondo-se claramente ao enfoque dogmático, um pensar que acentua as perguntas, os conceitos básicos, as premissas, os princípios abertos às dúvidas; um saber que constrói hesitações e como sugere sua origem grega (zetein), mais que opinião, seu propósito é perquirir, desintegrar, dissolver argumentos, colocá-los em dúvidas. Em sua essência, as questões têm função especulativa explícita e infinita (ou seja, seu questionamento aberto faz dos problemas zetéticos questões infinitas); e o problema tematizado é configurado como um ser (que é algo?); eis porque se preocupa em saber o que é uma coisa, com uma função predominantemente informativa da linguagem, de modo mais aberto e arejado, já que suas premissas são dispensáveis, substituíveis, caso os resultados não sejam bons. É uma pensar que se obriga a interpretações capazes de conformar as premissas aos problemas e se as premissas não se adaptam aos problemas, devem elas ser trocadas, já que sua origem se torna viciada. Isto é fundamental no campo do giro descolonial da teoria do direito brasileira que aqui se investiga. É preciso repensar todas as premissas, todos os pontos de partida sobre os quais se enraizaram e se sustentaram as compressões do que é direito nos bancos acadêmicos nacionais se o propósito é desvendar influências, clarificar equívocos e incongruências, enfim, aclarar formas, métodos, meios, institutos, objetivos e técnicas de cunho eurocêntrico. No plano das investigações zetéticas, pode-se dizer que elas são constituídas de um conjunto de enunciados que visa a transmitir informações verdadeiras, sendo estes, basicamente, constatações, por isso, seu ponto de partida é uma evidência – enunciados constatados – verificável e comprovável. Não quer-se, portanto, nestas linhas, um saber dogmático, que acentua respostas, uma vez que certos elementos são, de antemão, subtraídos à dúvida, postos fora de questionamento, mantidos como soluções não atacáveis, tidos como insubstituíveis, postos de modo absoluto. Por esta razão, também não se priorizam respostas que sequer põem em dúvida as premissas das quais partem, apenas sendo a elas ajeitadas de maneira aceitável; logo, não pretende ensinar, doutrinar (dokein) ou construir opiniões. Ao fugir de questões diretivas explícitas e finitas, não se ocupa do que as coisas realmente são, mas numa função interrogativa da linguagem, foge de conceitos fixos e interpretações conformadas em sensos comuns (de que há pouco se falou) e se abre a viabilidades, contingências e prospecções. Este pensar zetético, base para o giro descolonial origina uma reflexão erotizada na teoria do direito, e como tanto, tentando não fazer escolhas e tentando fugir à lógica eurocêntrica, buscar redefinir limites e horizontes. Erotizar aqui, na linha deleuzeana e foucaultiana, é reconfigurar a moldura, o método, os cânones e as variáveis sobre as quais se apóiam as reflexões e os argumentos da teoria do direito pátria. Discutir desde uma perspectiva dilacerante do novo, do fora e do impensável, e não de uma reconceituação de institutos e classificações, tanto frios quanto ainda humanos. Por muito tempo, a pesquisa crítica do direito procurou reformular os conceitos jurídicos existentes, ora os aproximando de uma vertente rígida e sistêmica, tal como esmiuçado pelo positivismo, ora de uma visão democrática e política, tal como contestado pelas teorias críticas. Entretanto, outra epistemologia se lhe deve impor se pensada nesta lógica da colonialidade. Um novo sentimento, um novo propósito, um vetor gnosiológico diverso é preciso que se agregue às pesquisas, fugindo à beleza e, ao mesmo tempo, à tragicidade da Entzauberung weberiana do mundo (desencantamento) ou da Mündigkeit kantiana (maioridade). Deve agregar-se outra espécie de experiência ao discurso jurídico, uma experiência voltada para um devir de sensibilidade, de feminilidade, um cuidado vivenciado a partir da redistribuição dos possíveis, das linhas de fuga, que encontram na sua própria dobra no mundo material a saída interna, a desterritorialização, que conduzem o discurso normatizado à experiência do fora. Por essa razão, é preciso pensar o discurso jurídico diferentemente, pensá-lo dentro de um universo de criação de multiplicidades, pensá-lo, em suma, “deleuzeanamente”. São estas multiplicidades teóricas que talvez possa trazer para dentro da teoria do direito e do direito oficial não apenas pluralidades normativas, mas especialmente, novas perspectivas ético-culturais e novas configurações epistemológicas. Para refleti-lo de fora, como um discurso de “transgressão”74, é preciso que a teoria do direito brasileira incorpore efetivamente a desconstrução da idéia moderna de razão, por um lado, tanto trabalhada pelos autores do século passado, fugindo, então, da lógica estabelecida pelo discurso de conservação positivista e da própria compressão do direito como norma (abaixo examinado), bem como da fundação matricial eurocêntrica do modo de pensar e de ser da própria teoria do direito brasileira. Para isso, há necessidade de, como quisera Luis Warat noutro contexto da teoria crítica, de um direito aberto às pulsões emocionais e prazerosas do sujeito (o espaço de Vadinho)75, e, recorrendo à experiência interior de Georges Bataille, pelos conceitos de horror, de obscenidade, de sacrifício, de perda e deacaso, fazer fervilhar o erotismo e a efetiva ruptura, e, por conseguinte, um direito erotizado, um direito abstratamente pensado não mais como norma ou pior, norma nos termos coloniais, mas um direito lido como orientação, instrução, indicativo, um norte elucidativo das questões da vida e das questões sociais. Na linha bataillana, é um retomar de angústia e perturbação, e, sobretudo, de questionamento de sua existência. Ao aceitar que é a angústia que define inteiramente o acaso, mas, ao mesmo tempo, é a angústia que contesta esse mesmo acaso, parte-se da idéia de que esta acaso é o que está forado direito oficial e da teoria “oficial”, rompendo com identidades, bem como com a experiência utilitária baseada na determinação de eventos. Nestes termos, uma forma última de um discurso destinado ao leitor exasperado76(a um cidadão em conflito ou mesmo a um teórico inconformado), uma espécie de “movimento aberto da reflexão”, gravado pela provisoriedade, pelo inacabado, e pela feliz inclinação “em direção à noite do não-saber”.77 A partir do instante que o erotismo enquanto fundamento teleológico fizer parte da realidade imanente da teoria do direito e do direito oficial, este direito erótico será automaticamente uma violação do eu natural, do eu puro, e, por conseguinte, um direito ligado à morte, à negação78. A violação de seu eu será a violação, num primeiro momento, de sua identidade, o que poderia em princípio trazer questionamentos negativos, mas, por outro lado, de sua continuidade: condição essencial de sua mudança. Ao morrer discursivamente, a teoria do direito sobrevive, já que a miscibilidade do discurso jurídico é posta à tona, e sua capacidade de se imiscuir em outros discursos e se unir apresentar a violação de seus limites. Nestes termos, a reflexão zetético-erotizada posta aqui é em termos teóricos uma violação da proibição (uma espécie de luta edipiana contra a matriz central), uma transgressão de tabus, claramente regulada. É um caminho para a continuidade do ser na morte. O direito, para cada pessoa, é descontínuo, como uma fonte fundamental de angústia, e a isso a filosofia e a teoria geral não podem se furtar querendo simplesmente generalizá-lo, sobretudo se estiver em mente as marginalidades e as subalternidades de que há pouco se mencionou. Para que seja violação e transgressão, o discurso que delas emana, tal como quisera Bataille, deve ser a expressão de um “pensamento móvel” sem que nele se busque o definitivo, uma vez que a filosofia seria sempre para ele um “canteiro de obras” e não algo já construído79. Nestes termos, a teoria do direito brasileira deve trabalhar com a estratégia da surpresa, e por sua obscenidade natural enquanto lasciva, deve construir com ousadia os seus enunciados, e arrebatar o leitor pelo choque do inesperado e do irrepresentável, numa ambivalência entre náusea a prazer80. Na esteira de Janine Ribeiro: “a frase que choca ou impressiona tem eficácia – a de ofuscar, a de permitir um novo conhecimento mediante o desalojar a razão, presa das rotinas ... ao leitor, busca-se surpreender, fazendo que perca suas rotas usuais mediante lampejos, pontuais, de sedução...”81 Pensar assim, nestes termos, rompendo com algemas, limites e as fronteiras do discurso tradicional parece ser o ponto de partida para reagir à realidade insustentável na qual se vive em termos jurídicos materiais, teóricos e institucionais no país, tal Le Bleu du Ciel ou mesmo L’Histoire de l’oleil são formas de reagir à realidade em Bataille, Blanchot, Barthes e Deleuze. Ao pensar de modo marginal, descolonizando o seu estatuto e dessubstanciando a essência do direito enquanto norma nos dias de hoje, a teoria do direito coloca-se como um discurso transgressional, pensando-se de fora, tentando escapar às categorias tradicionais e ousando de certo modo a partir de indagações. Contudo, é preciso algo a mais quando se está falando na realidade latino-americana, e nisso o pensamento de Enrique Dussel82, pela sua primogenitura, em muito contribui. Propõe o filósofo argentino a necessidade de superação do método filosófico clássico pela assunção do que denomina de analética – novo método de pensamento crítico integral sobre a realidade humana. Seguindo a linha dos pensadores críticos dos anos 1970, coloca o tema da ética a partir de ferramentas hermenêuticas do pensamento ocidental, porém, desde e para um contexto latino-americano, com vistas a uma proposta de libertação. Sucintamente, parte Enrique Dussel da ideia da corporalidade do ser vivente como modo de realidade, isto é, a vida humana não é apenas um conceito, uma idéia, tampouco um horizonte abstrato, mas o modo de realidade individual, de cada ser humano em concreto, o que é condição absoluta da ética e das exigências de libertação. No entanto, no plano material, o Eu convive obrigatoriamente com o Outro, e muito além da ideia honnethiana da igualdade de reconhecimento, este Outro grita e coloca em questão o próprio Eu. Por isso, não apenas uma categoria filosófica e um critério de discernimento, mas, nesta perspectiva da praxis ético- política, é algo concreto, obrigatoriamente histórico, que interpela o Eu a partir de um lugar empírico. Como consequência, sendo o Outro um corpo, o seu grito é o grito da corporalidade sofrida e seu inevitável clamor de justiça para que não se mate. O Eu, ao dirigir-se ao Outro, compromete a sua auto-identificação de tal modo que esta busca incessante pelo Outro lhe traz um poderoso questionamento de suas bases, de suas certezas, numa espécie de provocação subversiva da mesmice. Esta visão do Outro leva ao conceito de pedagógica, para expressar a filosofia latino-americana. Longe da pedagogia, ciência do ensino e do aprendizado que pretende investigar a passagem do menino ao pai e da menina à mãe, essencialmente ideológica, a pedagógica remete ao vetor filosófico que pensa a relação face-a- face do pai com o filho, do político com o cidadão, do professor com o aluno. Amplia-se a noção de aprendizado e ensino para a perspectiva de “disciplina”, e, conseqüentemente, da convergência e passagem recíproca da erótica e da política. A pedagógica parte do filho, do acadêmico, do lugar erótico para concluir com o adulto na sociedade política, assim como da criança na instituição pedagógica- política, como a cultura, igreja, escola, para concluir seu trabalho no homem ou na mulher formados para a vida erótica fecunda. Em suma, parte e conclui na mesma erótica dos filhos aos pais no âmbito doméstico e na mesma política das crianças na escola ao pr of essor. Para além desta perspectiva erótico-política da pedagógica que se opera por um novo olhar sobre o ensino, permitindo o olhar sobre o Outro concreto, a filosofia da libertação ultrapassa o plano da pós- modernidade, como simples superação das categorias modernas da tradicional análise cartesiana e hegeliana, para alcançar o plano da transmodernidade, como proposta de libertação social e cultural comum aos países periféricos face o “colonialismo intelectual europeu”. Partindo das premissas marxistas das relações de classe existente no capitalismo tardio, Enrique Dussel a supera pela analética, criticando o pensamento filosófico essencialmente opressor europeu. Sustenta a passagem na filosofia dos períodos problemáticos aos períodos de hegemonia. Os problemáticos se apresentam em momentos de expressão criativa da filosofia, como o final do séc. XX, quando povos oprimidos periféricos se levantaram contra os antigos colonizadores. Nesse sentido, ao se nascer e viver na periferia, tem-se para a filosofia uma situação privilegiada em relação ao tipo de filosofia que se pode praticar nos centros colonizadores, pois ao invés de opressão e de dominação, pode-se converter num verdadeiro instrumento de libertação. Procurando ultrapassar as críticas de Karl Otto Apel e Jürgen Habermas, a analética e sua proposta de uma ética de libertação (e aqui é preciso perceber as nuanças das obras de 1973 e 1988) leva a ética a uma efusiva crítica, mostrando sua operatividadeprática e a necessidade de superação discursiva tradicional (crítica direta à situação utópica e ideal de fala, inaplicável, segundo ele, à realidade latino-americana) em prol de uma ética de pluralidade principiológica. Questionando o mono principismo da ética herdeira dos gregos, e, logo, a idéia de que há sempre um princípio que justifica qualquer ação como sendo boa) propõe a analética da libertação novas categorias para se pensar a conduta humana. Por isso, cinco aspectos são necessários de serem pensados: (A) Histórico – a reflexão filosófica e ética não é abstrata, embora assim possa parecer. A filosofia é produto de circunstâncias históricas, concretas e se desenvolve a partir de espaços geopolíticos igualmente materiais, com pretensões de universalização, como a filosofia grega, medieval, moderna, alemã etc. Logo, o mono principismo é produto de uma visão de mundo, de uma ação política e de uma filosofia peculiar, que justifica, segundo Enrique Dussel, história de dominação, como se fez de modo autoritário em relação à periferia. (B) Meta-ontologia da alteridade – tendo em vista o que os radicais gregos sugerem respectivamente (ir além, reflexão sobre o ser ocidental e o outro), é necessário que a filosofia pense o Outro mais além do Ocidente, logo, América Latina, África e Ásia, negros, árabes, índios etc. Este Outro é plural, distintamente revelado no mundo material, cujas expectativas de pensamento, de reações e de conduta são inesperadas, logo, não podem ser raciocinadas pela ontologia fenomenológica, mas por planos transcendentais. Esta superação se opera pelo encontro com a alteridade, do encontro com o Outro distinto, um outro ser humano, cuja dignidade exige respeito que é aceita pelo outro eticamente (fato este que não ocorreu com os colonizadores que se depararam com índios e negros, vistos como animais e não humanos, e que até hoje deixa marcas). Neste sentido, ela apresenta as seguintes categorias: (a) proximidade – filosofia como revelação do outro, do encontro com a palavra do outro, do primeiro encontro, algo iniciado desde a tenra idade, pois apenas esta proximidade (que Enrique Dussel chega a manifestar pelo simples abraço familiar) tem o papel de anular distanciamentos espaciais e temporais; (b) totalidade – após o encontro do Outro, a filosofia deve se desligar do ser e do mundo e abrir-se à exploração coletiva da vida, da natureza e do mundo social, regressando, em seguida, à proximidade; (c) mediações – olhar as coisas, os entes, os objetos com vistas a transformá-los e os usar como meios para o desenvolvimento da vida em todas as dimensões humanas; (d) exterioridade – pensamento sobre algo que está além do ser, fora do sistema, uma espécie de filosofia do não-ser, do estranho, do diferente, do incompreensível, algo que não está na totalidade e nem em outro ser humano, mas na própria interioridade, quando se é livre, autônomo, independente (porque não é um objeto, uma coisa, mas sujeito de direitos); (e) alienação – reflexão pela negação do outro humano, do não ético, do reconhecimento e esquecimento do que está além do ser, pela destruição e morte do outro, algo mais além do mundo próprio, coisificado, fruto da manipulação e da exploração que precisa ser revisto; (f) libertação – a partir da consciência ética que escuta quem está mais além do mundo e do sistema, abrindo a totalidade a outros distintos para serem reconhecidos, aceitos, julgando a vida de um pela dos outros e a confirmando pela proximidade (é ela que busca a plena realização da vida dos outros, construindo uma humanidade total de modo ético pela transformação da realidade inumana em humana). (C) Práticas de alteridade – nas relações entre os seres humanos, sujeito-sujeito, é necessário, pela concretização de todas as categorias ditas meta-ontológicas, como proximidade, exterioridade etc. que sejam práticas políticas (pensadas no exercício das relações de poder nos espaços públicos), práticas eróticas (pensadas nas relações entre os homens no âmbito da sexualidade), práticas pedagógicas (nas relações educativas, entre pais e filhos, professores e acadêmicos etc.), e prática antifetischistas (nas relações entre os homens e a dimensão do completamente desconhecido). (D) “Produtiva” de alteridade – filosofia como capacidade criativa e transformadora do ser humano a serviço das seguintes distinções ônticas: a natureza – realidade interior do ser humano, a semiótica – capacidade simbólica do ser humano, a poiética – capacidade de transformar as coisas em objetos culturais; e a econômica – relações de produção, distribuição e consumo, que devem igualmente estar atentas às categorias meta-ontológicas e às práticas de alteridade. (E) Discurso metodológico – a filosofia da libertação deve estar atenta à necessidade e à pluralidade dos métodos de reflexão da realidade: dialético – pensado pelo ser, todo e parte; analético – salto do ser ao não-ser, do mundo individual ao do outro; prático – pensadas as diversas relações humanas; poético – guia do saber técnico e construtivo; métodos das ciências humanas – essencialmente hermenêutico; ideológico – que alteram a realidade em prol de interesses individuais; e críticos – os que levam aos descobrimentos das negatividades humanas. Vistos tais aspectos, o principismo da ética européia deve ser repensado a partir do contexto dos diversos grupos humanos, das diferentes condições sociais, das diversidades histórico-culturais, atento às necessidades próprias e aos anseios igualmente legítimos e válidos, longe do pensamento burguês e seus mitos de unidade, identidade e universalidade. Isto se torna possível a partir da crítica e da analética própria à filosofia da libertação e sua capacidade de auscultar dentro de cada um os propósitos e os valores plurais existentes. Cabe a ela fugir aos principais usos e encontrar novos princípios capazes de guiar as condutas humanas, igualmente importantes e obrigatoriamente sopesados por quem os questiona. Uma nova ética da vida latino-americana, nas mais diversas relações, aberta à pluralidade. Isto implica afirmar, enfim, na linha da crítica dusseliana, que o agir típico latino-americano deve ser ponderado a partir não de um único critério ético-político universal, mas do princípio da vida – manifesto pela razão político-prática de propiciar e desenvolver a vida humana em comunidade e toda a sua materialidade (momento material); do princípio da democracia – que pressupõe a legitimidade da vida pela participação pública livre e discursiva de sujeitos autônomos (momento formal); do princípio de possibilidade – o qual crê na razão político-instrumental para a realização necessária da vida e da democracia pela existência de condições de possibilidade lógica, empírica, ecológica, social, política e cultural (momento de facticidade); do princípio do reconhecimento do outro – expresso pela luta da solidarização com as vítimas do sistema e a luta pelo reconhecimento político diante da não-verdade e não-validade da ordem política formal (momento crítico-material); do princípio de organização – em que os atores sociais excluídos assumam democraticamente a organização dos movimentos sociais críticos à ordem vigente (momento crítico- formal); e do princípio da transformação ou da libertação – em que a razão político-libertadora permite a transformação eficaz pela concessão dos meios, desconstruindo estruturas injustas e construindo novas perspectivas sistêmicas (momento crítico de f act icidade) . Assim, conhecido o claustro dos mitos burgueses fáticos, estruturais e discursivos produzidos na modernidade, convém então neste propósito descolonial, pelo exercício do saber filosófico-jurídico e pela perspectiva jusantropológica da atitude crítica, repensar as categorias existentes em atenção aos princípios ético-políticos da filosofia da libertação e toda a sorte de construção de novas subjetividades jurídicas no ordenamento jurídico pátrio a partir de novas experiências éticas. O primeiro passo, portanto, é reconhecer por este pensamentocrítico que a “cultura jurídica”, especialmente a nacional, é gravada cotidianamente por conhecimentos jurídicos tradicionais sobre os institutos e sobre a interpretação dos fatos e que estes são produtos do colonialismo. Conhecimento de tal modo enraizado e naturalizado que passa despercebido e imune a críticas, constituindo aquilo que Luis Warat denunciou como o senso comum teórico dos juristas, o sentido comum teórico dos juristas, as vozes incógnitas das verdades jurídicas, ou, enfim, o monastério dos sábios.83 Este “saber imanente” posto usualmente nos enunciados institucionais e interpretativos é o que se manifesta, no dizer do autor, como “condições implícitas” de produção, circulação e consumo de verdades nas enunciações. Uma espécie de “constelação” de representações, imagens, pré-conceitos, crenças, hábitos, ficções que regem atos de enunciação e decisão. Seu modo de agir é silencioso, subliminar, presente nas manifestações doutrinárias e forenses, referido como uma “intertextualidade das enunciações jurídicas”. Por esta razão, é um campo aberto para trabalhar com juízos supostamente neutros, quando, no fundo, são carregados ideologicamente, uma espécie de “para-linguagem” além dos significados da realidade dominante. Manifesta-se como uma “linguagem eletrificada e invisível”, uma “voz incógnita”, capaz de exercer um campo de significados em que a aceitabilidade do real se opera facilmente. Algo como se fosse sempre assim (a tradição inventada denunciada por Eric Hobsbawn), e do que não se pode ousar duvidar e nem admite oposição. Esta força oculta ganha sorrateiramente a adesão do auditório, inserindo-se nos corpos e nas mentes dos juristas, criando-lhes hábitos de significação, o que favorece o propósito do Direito como técnica de controle social. Trata-se de um “saber acumulado” que permite o exercício do controle jurídico da sociedade, relacionando o direito, à política e aos sistemas de enunciação. Nesse sentido, estabelece-se através de um “arsenal de pequenas condensações de saber”: “fragmentos de teorias vagamente identificáveis e coágulos de sentidos surgidos dos discursos dos outros”. É o próprio “lugar do secreto” de manifestação dos discursos jurídicos tradicionais, o que o faz, inevitável e conscientemente, servir ao poder e à autoridade de quem o exercer. Expõe-se como simples “costumes intelectuais” que ocultam o elemento político da investigação de verdades, canonizando imagens e crenças para preservação de segredos, que usualmente não convêm serem desvendados, especialmente para aqueles fins de modificação do sistema e da estrutura hierárquica social. Ao contrário das demais ciências em que é perfeitamente possível se distinguir doxa e episteme, no âmbito do Direito, em razão das representações ideológicas por detrás das regras lógico-metódicas, há uma perigosa confusão, de modo que as crenças produzidas preservam a imagem política do Direito e do Estado, cumprindo ao senso comum teórico um “conjunto de opiniões comuns dos juristas manifestados como ilusão epistêmica”. Não há propriamente epistemologia, se não um “sentido comum científico”. Nessa perspectiva, produz-se em razão da imbricação entre “razões teóricas” e “justificações”, de modo que a verdade depende do senso comum para ganhar confiabilidade pela persuasão. É um discurso fruto de um vínculo orgânico da cultura com a instituição social por meio da política, logo, como exercício de autoridade (e aqui a aula inaugural foucaultiana no Collège de France não pode ser esquecida). Por isso, “disciplina anonimamente a produção social da subjetividade dos operadores da lei e do saber do direito, compensando-os de suas carências”. Conseqüentemente, todo um ambiente propício para o discurso jurídico é estabelecido antes mesmo de que ele seja visível, um produto de “neutralizações simbólicas”, criando efeitos de significação na constituição do “sujeito de direito”, um sujeito hipotético, que serve para garantir uma “suposta natureza humana na qual as normas jurídicas se referem para regulá-las coercitivamente”. O sujeito de direito é fabricado e representa a “versão jurisdicista do paradigma normativo da personalidade social.” Tem-se, enfim, a produção do que os juristas chamam de “real”, através de um “fluxo de significações” e uma “trama de símbolos”, gerando um indissociável vínculo entre as significações jurídicas e sua própria história discursiva (citações anônimas e vozes incógnitas). Logo, acaba por fabricar “ilusões epistêmicas” que impedem separar razões teóricas e justificações políticas. Isto Imbuída a reflexão desta perspectiva crítica, não parece haver outra solução na teoria crítica do direito brasileira se não se distanciar de estudos pós-coloniais, bastante marcados pelo pós-estruturalismo europeu de Michel Foucault, Jacques Lacan e Jacques Derrida, e avançar para aquilo que há três décadas ao menos (valendo-se da originalidade de Aníbal Quijano em 1992) se constituiu como giro descolonial,84 ou seja, na necessidade de superação do binômio modernidade-colonialidade, acima trabalhado. Promover essa guinada pressupõe criticar o paradigma europeu de racionalidade erigido na modernidade, não por uma ingênua negação totalitária do discurso, das categoriais epistêmicas ou da totalidade do conhecimento, mas da “vinculação da racionalidade/modernidade com a colonialidade”85 e logo de qualquer explicação e construção que não seja livre na origem e de acordo com a realidade latino- americana. Em suma, uma negação da razão moderna e sua instrumentalidade supostamente a serviço de libertação e progresso, mas que no fundo e a cabo produzem distorções e desencontros culturais com a sociedade brasileira.86 As instituições jurídicas, a teoria informante dos fatos jurídicos, enfim, aquilo que está na base do direito oficial e da teoria do direito produz confiabilidade e verossimilhança nas conclusões persuasivas dos raciocínios jurídicos, criando um elemento de pertinência capaz de permitir o reconhecimento das verdades no campo jurídico. Torna- se, portanto, um campo fértil para reproduzir no imaginário uma determinada concepção de ciência jurídica e seu valor social, naturalizando o seu método, criando preconceitos epistemológicos para ocultar as funções políticas dos discursos de verdade e outorgando ao conflito, pelo intermédio necessário entre a lei e o saber do direito, um sentido de transgressão, que precisa ser rechaçada em busca da estabilização. Em suma, uma “doxa no coração da episteme”. 2. Giro descolonial e ausência do “ponto zero” na teoria do direito brasileiro oficial se mantidas aqui em sua integralidade ainda reforçam um eurocentrismo jurídico e se mostram contraditórias à leitura de experiências plurais, como, por exemplo, a experiência guarani supra mencionada, ignorando-se por completo sua ontologia jurídica, cujas marcas são bastante distantes do direito oficial, porque muitas vezes marcadas em toda a América Latina pela oralidade, orientação cosmológica, caráter coletivista etc.87 Partir de perspectivas cotidianamente aceitas impede ler o que a antropologia jurídica já o fez há muito quando percebeu que direitos tradicionais estão mais próximos de um direito modelo e menos de um direito sanção, clássica distinção entre culturas de vergonha e de culpa88; que direitos tradicionais são flexíveis por essência, seja em termos de autoridade, de jurisdição, de acomodação de fatos a preceitos normativos, de formas variadas de punições e não estáveis e nem uniformes etc., sem que isso represente necessariamente arbitrariedade e irracionalidade. Por esta razão, manter-se ainda em torno de categorias tradicionais para ler experiências jurídicas marginais reafirma uma colonização jurídica (Norbert Rouland/Michel Alliot)89, estimulando mutações forçadas nas experiências jurídicas subalternas, aculturações e transferências irresponsáveis, que impedem a leitura de hibridismos ocorridos, de heterogeneidades existentes e de reconhecimento de autonomias normativas e axiológicas. É preciso fazerum esforço jusantropológico e ignorar teoricamente possíveis reflexões sobre o quilombola, o caiçara, o indígena brasileiro estar situado ou fazer parte do Brasil (algo que tem sido revisitado e revolvido por Viveiros de Castro na etnologia entre clássicos e contatos interétnicos), em suma de todas as “minorias” éticas distintas, mas optar por refletir as experiências subjetivas de modo não engajado (nos termos dos nouveaux philosophes), mas pluralista e com cautela com as culturas jurídicas subalternas, ainda bastante incipiente em termos de leitura justeórica nacional. A teoria do direito usual, se aceita aqui, mesmo em toda a sua complexidade teórica e seus desenvolvimentos analíticos e argumentativos, confirma, e mais, valida a denunciada colonialidade do poder90 que tanto serviu e ainda serve, na história indigenista e racialista latino-americana, à colonialidade do ser,91 ratificando a leitura da superioridade da experiência jurídica estatal em face das experiências jurídicas marginais. Manter-se assim é ignorar o discurso periférico, a transmodernidade e o pensamento crítico fronteiriço de que há pouco se falou em prol da simples e insustentável planificação e homogeneização do direito oficial t r adicional. Distanciar-se da teoria do direito tradicional é uma forma de um “dar-se conta jurídico” de subjetividades marginais em relação à subjetividade hegemônica, abrindo espaço, em termos de alteridade, para o reconhecimento de que o direito estatal, tal qual recepcionado no Brasil, cumpre ainda mais um papel de reafirmar a subalternidade dos excluídos e revigorar o lugar de fala e de dever- ser das instituições jurídicas aplicadas pelo Estado. É preciso reconhecer que não há um ponto zero, por analogia ao discurso científico,92 quando o direito oficial analisa condutas praticadas por indígenas contra indígenas (algo naturalmente diverso e bem mais complexo, talvez, se envolvesse não-índios), ou entre quilombolas, caiçaras, ribeirinhos etc, mas sim e sempre mais uma forma de exclusão, criminalizada na maioria das vezes, típica latino-americana, do inferior, do feio e do selvagem (Eugenio Zaffaroni)93. Nestes termos, é preciso fazer um giro descolonial e desconstruir discursivamente a teoria do direito a partir do reconhecimento de uma outra leitura do fenômeno jurídico, cujo lugar de partida está na experiência jurídica subalterna (como a guarani acima esclarecida) e não no ordenamento jurídico estatal. Especialmente relatada e falada de indígena para branco e não o inverso (eis porque a Escuta Étnica é indispensável). Contudo, isto talvez não baste. No plano das teorias descoloniais,94 é preciso repensar o posicionamento do intelectual diante do Outro, a experiência e representação dos excluídos, as novas narrativas e a nova plataforma de direitos, mas, sobretudo, mantendo-se na linha fanoniana e dusserliana, o olhar do outro pela figura do exclusivo, do subalterno, da subjetividade sofrida ignorada, dentre tantos aspectos, não apenas na ausência de direito, mas, sobretudo, na sua variabilidade ética. Quando se fala aqui em experiências marginais subalternas, está se falando num amplo rol95, que talvez pudesse ser agrupado deste modo: (a) minoria étnica: indígenas, caiçaras, quilombolas, ribeirinhos; (b) minoria de gênero: movimento LGBT e movimento feminista; (c) minoria racial: negros; (d) minoria periférica: faxinalenses e suburbanos; (e) minorias nacionais: imigrantes, apátridas e refugiados.96 É por meio desta descolonização da teoria do direito que se promove uma descolonização epistemológica, logo, uma abertura a uma nova comunicação inter-cultural, um intercâmbio de experiências e significações com base em outra legitimidade e outra racionalidade. O subalterno, o excluído brasileiro, seja no gênero (o feminismo, o transgênero etc.), na raça (o negro e o índio), na classe (o pobre e o miserável), na origem (os imigrantes, refugiados e migrantes), em número (as minorias), sempre teve sua fala silenciada ou desconhecida pelo discurso colonial, discriminatório, estereotipado, e hoje, naturalmente, luta pela emancipação, pela conquista do lugar do autor-fala, do lugar da subjetividade jurídica, da desconstrução dos simulacros e das simulações simbólicas, de identidade cultural etc. Esse movimento naturalmente não é novo e remonta ao menos de modo decisivo no pós-guerra, na cultura “pós-moderna” que veio se construindo a passos rápidos na comparação histórica, mas lento na cronologia de uma vida. Contudo, não se tem refletido sobre a manutenção institucional de um discurso eminentemente burguês, de matriz ético-objetiva-cognitivista, calcada na ideia de que há uma moral apenas, uma moral dita “democrática”, e que deve prevalecer e ser enaltecida pela racionalidade jurídica. Por essa razão, o objetivismo ético aparenta estar em descompasso com a cultura brasileira, vivamente poligenérica, multicultural e globalmente desterritorializada, sendo necessário diagnosticá-lo numa primeira parte. É um objetivismo que caminha longe do projeto descolonizador, porque ignora subjetividades de fronteira, ignora a forja do sujeito colonial, quando haveria de ser buscar um desaprendizado para um novo modo de aprender. Diante deste diagnóstico, se o que se quer é rediscutir a teoria do direito, talvez um caminho seja buscar a leitura desde outros filósofos que não os tradicionais do direito, seja os próprios filósofos europeus ignorados propositadamente, seja filósofos latino-americanos. Um dos lugares possíveis seria o acervo de filósofos de matriz subjetivista, relativista, que permitem trazer aportes para rever a fundamentação ética padronizada da teoria do direito e do ordenamento jurídico, e tornar-se mais aguda e apta a admitir e discutir formas de vida existenciais diversas, possibilidades vivas de morais distintas, contextuais etc., que talvez o subjetivismo permita e conseqüentemente elimine as barreiras para o diálogo jurídico com o Outro. Eis porque convém ler autores esquecidos dentro da filosofia, autores que não estão presentes nos livros de filosofia e teoria do direito e antropologia jurídica. Analisando os argumentos tradicionais e fundadores do direito moderno, é possível reconhecer que o direito moderno está calcado em alguns pilares: a ética das virtudes greco-clássica, pelas virtudes morais e intelectuais e o caminho ascético de vida, de maneira que o direito passou a ser mais um dos possíveis elementos sociais no auxílio dos homens em comunidade neste percurso; a ética utilitarista e a diferença qualitativa dos prazeres como forma de estabelecer juízos de satisfação do maior número de pessoas através do direito; e a ética kantiana como limitação da autonomia privada pelo imperativo categórico da moral dos deveres, de maneira que o direito seria o lugar comum das máximas morais. Contudo, se indagadas as correntes do subjetivismo ético usualmente não discutidas dentro do direito, é possível perceber uma gama extensa de autores ignorados, que talvez possam ser agrupados em três construções teóricas: intuicionismo, prescritivismo e emotivismo. O intuicionismo critica a maximização da felicidade utilitarista do maior número através da crença de que os valores éticos não são estratégicos e nem lógicos, e parte de intuições, instantâneas, empíricas, diretas e não mediadas. De outro lado, o prescritivismo se apóia, em princípio, sobre a idéia de que as regras morais não seriam relativas à sociedade e nem ao indivíduo, porque as coisas certas e erradas existem em qualquer situação, cabendo ao sujeito capturá-las em sua consciência. Por fim, talvez mais significativo a afinada com os propósitos desconstrutivistas deste ensaio, está o emotivismo e sua crítica de que por meio da razão só se pode chegar a compreender o útil ou o conveniente para certos fins, mas não algo é bom ou mau. Por isso, os emotivistas acreditam que bondade e maldade se sentem, não se conhecem racionalmente. Juízo moral é o meio para se comunicar estes sentimentos e tentar convencer aos demais de sua validade,logo, os conceitos da ética não fazem referência a fatos ou à razão, mas a sentimentos, desejos, interesses. As proposições éticas apenas mostram a posição dos homens diante de uma situação: concordância, aceitação etc., então, as proposições morais não são verdadeiras ou falsas, apenas expressam ou suscitam atitudes emocionais. Enfim, é pelos juízos morais que o sujeito exprime emoções, sentimentos, atitudes perante um problema moral e busca alterar as atitudes do destinatário. Com isso, a moralidade deve ser essencialmente subjetiva e cumpriria ao direito trabalhar nesta perspectiva. A metaetica não diz a maneira correta de como se deve agir, mas formula questões sobre questões, questiona-se: a moralidade é questão de gosto ou de verdade? Adquire-se a moralidade por meio da razão? Existem fatos morais? Se eles existem, qual sua origem e como os apreendemos? Eles são relativos ou universais? Como substrato essencial, há várias compreensões teóricas, mas talvez sigular estejam: Baruch Espinosa, David Hume, Soren Kierkegaard, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Max Weber e Sigmund Freud. A ética espinosana aponta especialmente para refutação dos moralismos pela ampliação do papel do desejo, da liberdade e da intuição, como fontes de afetação dos indivíduos e a impressão de um senso ético. Crê a reflexão espinosana que há uma potência do corpo de afetar e ser afetado pelas coisas existentes, logo, aumentando-se a potência de sentir, aumenta-se a de pensar e existir. Quando corpos se encontram há “afecções”, que alteram um ao outro, aumentando ou diminuindo a potência do outro, então, os “afetos” representam estas experiências vividas na transição. Quanto mais um afeto incita a pensar e a agir, mais positiva e ativa for esta afetação (como o amor, o desejo), mais importância ganha um corpo para o outro. Nesse sentido, a ética conduz o ser humano à felicidade e não ao dever. Com a ética humeana pode-se entender a importância e o lugar dos sentimentos e da simpatia pelo outro como construção de valores e padrões de conduta próprios. A partir da compreensão de que não existe verdade em qualquer código moral, pois não há razão teórica que permita considerar uma proposição moral como verdadeira (ou, como usualmente se afirma a sua “guilhotina”, de que não se pode deduzir o que deveria do que é), crê-se então que o bem não pode jamais ser determinado, e o que realmente importa é a “empatia” pelas pessoas próximas, como precondição de aprovação ou desaprovação moral, altamente subjetiva. Da ética kierkegaardiana pode-se definir novos espaços de subjetividade, à medida que a subjetividade é uma experiência ética, uma subjetividade encarnada que se constituiu no esforço em edificar a si mesmo no âmago da interioridade a singularidade humana. Longe do “estadio estético”, mas sem alcançar o “religioso”, esta singularidade implica na abnegação ou na renúncia de si, pois o fundamento do si mesmo não se encontra em seu interior, mas na abertura e generosidade do existir para o próximo, logo, de uma ética subjetiva, algo que muito pode contribuir na reflexão. Pela ética schopenhauereana podem-se aprofundar as noções de amor, de compaixão e das dores do mundo como fundadores de experiências éticas contrárias aos patamares tradicionais. Se a existência é manifestação de um querer essencial, a representação é a vontade, a vontade que define o ser humano. Uma vontade que não está limitada no tempo, no espaço e nem na causalidade (diversamente da razão kantiana), mas é marcada pela eternidade, multiplicidade e liberdade. Nesse sentido, o sujeito cognoscente e consciente depende sobremaneira da vontade, base de seu aparecer, logo, o seu conhecer é dependente de seu querer. Por isso, baseado neste querer, as motivações morais determinam conseqüentemente o conhecimento. Mas o querer é egoísta, expõe o “eu”, é dor e sofrimento e somente a ética, pelo reconhecimento da dor do outro, é que permite o ser humano conduzir-se a ser feliz. Não se fazendo mal ao outro, mas, mais ainda, ajudando o outro, reconhecendo suas vontades e seus valores, é que se pode agir para livrar os outros seres do sofrimento. A ética, então, é prática e viva, baseada na compaixão, pois esta aproxima os homens. Através da investigação da ética nietzscheana é possível a indagação sobre como as paixões e as emoções são determinantes na composição dos valores subjetivos e como a noção de bem e de mal não é absoluta. Quer-se discutir a recepção de valores mutáveis, históricos e culturais como crítica de uma ética universal, dita de “rebanho” que controla paixões e homogeneíza homens e que nega todos os valores “afirmativos da vida” como vontade, criatividade e sentimento estético. Com ela se abre para a transmutação dos valores, combatendo a filosofia metafísica, essencialmente racional que despreza os sentidos, a desmesura dionisíaca em prol do controle da harmonia apolínea. Olha-se para o devir do corpo, da transformação, da vida em fluxo, do corpo à frente do pensamento e com isso a possibilidade de se ouvir um outro ser humano que não apático, desanimado e indiferente, niilista pela cultura de uma religião que fez o ser humano fraco que necessita de entidades metafísicas como a verdade para enfrentar a vida. A vida é vista pelos homens na linha nietzscheana como um erro, razão pela qual se há de se concentrar na outra vida (niilismo negativo) ou com um objeto na modernidade pela morte de Deus e a superação da ciência (niilismo reativo), mas sempre excluídos em suas sensações, desejos e apetites. A moral tradicional é a moral dos ressentidos, baseada no medo e no ódio à vida e às suas experiências, é, no fundo, uma criação dos fracos para corroer a alma dos fortes (estratégia psicológica de dominação). Tendo a finalidade da ética weberiana como norte, pode-se indagar como a bondade está à frente de padrões morais. Enquanto a “ética da convicção” é deontológica, em que a virtude se submete ao imperativo categórico da lei moral, regulada por normas e valores já estabelecidos independentemente das circunstâncias ou das consequências daí resultantes, como ética do dever, do absoluto; a “ética da responsabilidade” é teleológica, pensada a partir das consequências, logo, não é como a outra baseada em certezas, de modo intemporal e formal, mas contextualizada, baseada em costumes e tradições. São os valores sociais mutáveis que podem definir e permitir a conduta que o indivíduo deseja. Neste sentido, apenas, é que a reflexão weberiana pode vir auxiliar, à medida que flexibiliza a compreensão ética e permite o diálogo do direito com outras formas éticas. Por fim, ao menos ao que ora se pode ensaiar de modo exemplificativo, pela investigação incipiente da ética freudiana é possível dar vazão aos instintos como instituidores de condutas para além do simples livre-arbítrio racional. Investigar de que modo o instinto e a felicidade estão relacionados e como os limites da civilização e o sentimento de culpa estabelecem o mal-estar reafirmado pela ética dos deveres. Enfim, todas experiências éticas mesmo eurocêntricas excluídas da teoria do direito, mas que o emotivismo ético pode, suplantando o objetivismo ético tradicional, melhor balizar o direito e toda a sua racionalidade e seus institutos a melhor ouvir o Outro brasileiro em suas dimensões éticas, em seus anseios, em suas lutas. 3. Pluralismo e multinormatividade dialógica Esta guinada em busca de uma teoria do direito descolonizada implica, antes de qualquer reflexão sobre institutos, procedimentos, institucionalizações etc, aceitar e interiorizar seguramente uma previsão de princípios e variáveis a partir da recíproca interdependência entre direito estatal e experiências jurídicas plurais. Há de se discutir, já que este ensaio está permeado pelo paradigma da linguagem, um pluralismo não apenas teórico ou abstrato, mas um pluralismo jurídico dialógico a fim de que seja efetivo neste processo de descolonização. Para elucidar esse tema, seria de paradigmática relevância lembrar quea primeira recepção da multinormatividade, ou talvez o primeiro passo, seja aceitar que a base central do povo brasileiro esteve calcada durante séculos na figura do indígena (não se há de esquecer aqui a advertência acima feita sobre a inexistência de utopia indígena ou negação das demais invisibilidades), e por certo que se houve uma mescla de plurinormatividade, ao menos a mais significativa, esta se deu com a experiência jurídica indígena, a despeito de outras experiências marginais, como mencionado acima. Talvez aqui esteja um primeiro momento, uma indicação de como refletir este pluralismo a partir do choque entre práticas tradicionais e práticas jurídicas subalternas, na linha das “irritações recíprocas” luhmaniana entre sistemas. Nestes termos, parece necessário que qualquer erotização da teoria do direito, para ser mais eficaz e certamente alvissareira, caminhe num campo de reconhecimento da materialidade de outros direitos, e, sobretudo, do “direito indígena” (a título de exemplo), pois, um “pluralismo substancial”, visto nesta perspectiva, ao passo que conduz a discussão para um “constitucionalismo pluricultural”, implica revisitar a tormentosa noção do Estado-Nação no Brasil (que tanto marginalizou e excluiu o povo indígena), e se aproximar de uma teoria do direito balizada na plurietnicidade e na plurinacionalidade, algo já presente nas mais recentes constituições, sobretudo a equatoriana e a boliviana, mas ignorado no país. Esse reconhecimento num plano material ostenta até mesmo ser mais robusto do que a “simples” aceitação da jurisdição indígena, não apenas porque, pelo diálogo entre racionalidades jurídicas, permite a interferência da jusmundividência indígena na juscompreensão estatal, mas porque evita que se localize nas esferas jurisdicionais indígenas questões menores ou uma espécie de “tribalização” dos sistemas jurídicos, fenômeno comum nos países latino-americanos de matrizes espanholas usualmente denominado de “folklorismo jurídico”97. A aceitação da jurisdição indígena, como se fez em parte dos países latino-americanos98, parece não conduzir, ainda que em termos pedagógicos, se pudesse se sustentar, a um efetivo pluralismo. O pluralismo jurídico se efetiva quando a multinormatividade se encontra diante de um diálogo (eis porque um “pluralismo dialógico”), com concessões mútuas, alterações normativas recíprocas, interpenetrações de racionalidades, aceitações de semelhanças e diferenças, costuras pragmáticas de efetividade e verdadeiro respeito ético e não apenas jurídico ou moral. Talvez aqui esteja uma forma de efetivação do projeto emancipatório tão necessário à subjetividades subalternas, especialmente indígenas brasileiros99. Reconhecer que existem experiências jurídicas diversas, que atos praticados por estas subjetividades excluídas no processo civilizador podem ser lidos de modo diverso do direito oficial (como, por exemplo, os delitos culturalmente motivados)100 parece implicar um verdadeiro direito de participação dos povos “subalternos” na construção de direitos frente ao Estado e não apenas um respeito a um lugar isolado na quadratura constitucional. Reconhecer o isolamento jurisdicional e jusnormativo não é muito distante em perspectiva epistemológica do assimilacionismo total que ainda marca a história da relação índio- estado brasileiro. Quando a intersecção entre a normatividade indígena e a normatividade estatal se opera em termos materiais, evita-se uma opacidade do próprio ordenamento jurídico oficial, e se caminha em direção a um verdadeiro reconhecimento do outro (a que já se chegou a chamar de selvagem). A escuta de que éticas diversas podem existir (algo que usualmente o objetivismo ético adotado pela teoria do direito na tradição que remonta desde os códigos de virtude socráticos tanto emperra), como visto, só se consubstancia quando o direito estatal, via, por exemplo a atuação do Poder Judiciário, ao relatar a si mesmo enquanto normatividade reconhece possibilidades normativas no outro, na linha butleriana, e, portanto, aceita o “diferente” e sua mundividência como possibilidades existenciais legítimas, abrindo, enfim, a “localidade do nós à universalidade do outro”101, em termos de direitos humanos. O direito indígena, ou melhor dito, a experiência jurídica indígena é talvez a expressão mais viva do modo como no Brasil não houve de forma alguma a recepção de experiências plurais na construção da teoria do direito e do próprio ordenamento jurídico estatal. A esse título, nenhuma faculdade no país traz em seu bojo nas disciplinas propedêuticas o reconhecimento de uma experiência jurídica guarani e de outras experiências marginais, como se elas não houvesse. E uma pesquisa de campo, como visto acima, pode muito bem demonstrar que elas existem, são ricas, vistas desde uma outra perspectiva, que precisam ser incorporadas na teoria do direito a fim de efetivar este projeto acadêmico e pragmático do giro descolonial. 4. Proposições metodológicas – do “etnojuricídio” ao “filtro descolonizador”. Descolonizar a teoria do direito e tentar fugir à insuficiência da matriz tradicional do direito eurocêntrico exige uma mudança não apenas de racionalidade, como se tem ensaiado aqui, mas significativa mudança metodológica no trato com a normatividade, numa desconstrução global de categorias e procedimentos. Embora aqui seja um campo aberto à reflexão, quatro questões parecem essenciais para que se fuja do usual e histórico etnojuricídio (talvez metáfora um pouco rigorosa aqui usada, mas que bem expressa a idéia) e se promova um verdadeiro filtro descolonizador da teoria do direito eurocêntrica e do direito oficial: (a) comparativismo jurídico interno – é necessário fazer a experiência jurídica marginal dialogar de modo plural com a experiência jurídica hegemônica e não apenas aceitar como uma ordem paralela, do contrário há o risco de um folclorismo jurídico; (b) escutas étnicas processuais – as experiências jurídicas marginais devem ser evetivamente ouvidas pelo direito oficial, mas não a partir de uma comunicação que parte do Estado para os subalternos silenciados e esquecidos, mas deles para o Estado; (c) ponderação de segunda ordem de princípios – ponderação étnica – todos os institutos devem passar por um filtro descolonizador, e, portanto, além de serem ponderados sempre conforme os valores constitucionalmente aceitos, há de se ponderar conforme a efetividade prática e a realidade plural e multiétnica brasileira; e, por fim, (d) entrecruzamento típico – é preciso sempre olhar atos e sentidos produzidos em cultura silenciadas e historicamente negligenciadas a partir da sua própria cultura e não a partir da cultura hegemônica, ou seja, é de se averiguar uma tipicidade ou atipicidade cruzada entre um comunidade de vida e a cultura contrária. (a) Comparativismo jurídico interno. Em se tratando, no caso exemplificado, de um direito oficial marcadamente em desconexão com a realidade cultural e histórica brasileira, evitando-se ainda mais a importação quase não refletida de institutos que usualmente tem sido feita, como delação premiada, técnica de negociação plee bargaing etc., parece ser oportuno que se passe em atento quaisquer estrangeirismos e mesmo institutos materiais e processuais já existentes em perspectiva comparativista com esta realidade, ou, melhor, este direito inoficial que aqui existe está a todo instante num processo de desconfirmação e desautorização da normatividade tradicional. Seguir a lógica comparativista significa comparar não direitos, mas compreender a racionalidade diversa entre normatividades diversas, e, conseqüentemente, compreender e fazer dialogar modelos jurídicos distintos com interpenetrações recíprocas, sem que um se torne ou se mantenha hegemônico diante do outro. Esta metodologia comparativista parece oportuna porque, embora torne bem mais complexo o diálogo, evita que a subalternidade de práticas e experiências normativas se mantenham, e minorias sociais, econômicas e culturais existentes no país possam fazernão apenas os seus anseios serem reconhecidos política e juridicamente, mas serem reconhecidos com sua ética e sua normatividade global (metafísica, procedimental, pragmática, institucional) diversas. A título de exemplo, como se poderia fazer de modo mais simplificado talvez com questões de invisibilidades de gênero ou sociais, mas mais complexos com “minorias” étnicas e históricas, tais os quilombolas, convém aqui experimentar este comparativismo com a experiência jurídica indígena brasileira, a uma porque já facilitada pelas características acima mencionadas do povo indígena majoritário no país, os da família guarani (cuja pesquisa de campo dá um pouco mais de segurança a este ensaio), e a duas porque certamente o pluralismo do “direito indígena” é o mais forte na América Latina como um todo, e o é também no Brasil, apesar de seu quase ínfimo reconhecimento. Naturalmente, ressalte-se, nada de idílico há aqui, nenhuma imagética da pureza do “bom selvagem” permeia este ensaio. De algum modo, a experiência jurídica indígena se apresenta como segura e qualquer reflexão nacional sobre pluralismo, multinormatividade e descolonização não pode deixar de começar pela reciprocidade normativa entre direito formal e direito indígena, aqui entre direito oficial e direito inoficial. Fatos culturalmente motivados desacreditam e não negam (porque em outra lógica e racionalidade) o direito oficial e, portanto, precisam ser pensados desde outro lugar jurídico. Valendo-se de um caso hipotético ocorrido dentro de uma tribo indígena guarani, em que um cacique supostamente esteja sendo processado porque denunciado por ter “estuprado” sua enteada, menor de quatorze anos, que com ele reside. A questão passa a ser complexa e coloca em choque o direito oficial, aquele que serve de base para a denúncia nos termos do código penal, e, de outro, por se tratar de um “delito culturalmente motivado” (praticado entre indígenas, dentro da tribo, e cujo conhecimento só saiu dos limites da tribo porque supostamente a professora, que não é indígena, da escola da vítima, ciente do relato pela mãe que apenas teria comunicado a ausência temporária da aluna, noticiara ao Conselho Tutelar, e, este, ao órgão acusatório). Optando-se por efetivar um pluralismo dialógico e não apenas reconhecer a jurisdição indígena (até porque inexistente em termos constitucionais no país e porque implicaria apenas aceitar que subalternos julguem a si mesmos, sem a interpenetração sistêmica), é de se promover um “comparativismo jurídico” e com isso procurar, na medida do possível, caminhar pela descolonização da teoria do direito e do direito oficial. Numa linha que se poderia denominar de constitucionalismo estrutural (Giuseppe de Vergottini), ao mesmo tempo fugindo do monismo estatal eurocêntrico, a implementação deste pluralismo dialógico material se opera pela superação da estagnação metodológica que ainda persiste neste campo de diálogo de fontes – essencialmente etnocêntrica – e sua necessidade de superação102. Esta metodologia intelectiva da comparação de direitos permite abordar o confronto entre a experiência jurídica guarani e o ordenamento jurídico hegemônico de maneira mais técnica, criteriosa e racional. Sem adentrar em minúcias da teoria comparativista, mas seguindo as mais bem elaboradas atualmente, Pierre Legrand, Konrad Zweigert, Hein Koetz, Walter Kamba, Peter de Cruz e Diego López-Medina, a comparação dentro do giro descolonial é, de fato, uma comparação entre experiências jurídicas, entre uma oficial e outra que a desacredita, haja vista que se trata de pessoas postas sob uma cultura que outrora foi hegemônica no país, mas que hoje é subalterna e completamente ignorada enquanto direito inoficial (por certo que politicamente as questões foram recepcionada pelo direito oficial, sobretudo na CR/88, ou mesmo o indigenato, mas só). Esta comparação não deve ser histórica ou com fins de unificação internacional de direitos, de melhoria do ordenamento jurídico estatal, ou mesmo para fins científicos, mas, exclusivamente, é uma metodologia (com passos a serem seguidos) para permitir que o conhecimento da juridicidade guarani seja mais bem compreendido em comparação com o direito estatal brasileiro, e, nestes termos, habilitar a afirmação da existência de uma experiência jurídica indígenae tentar superar o choque contemporâneo pelo diálogo metódico, logo, de preservar a instituição do Direito como um “reservatório pluriétnico de sentidos”. O comparativismo lido em perspectiva doméstica permite cientificamente conhecer outra perspectiva jurídica para confrontar o direito oficial eurocêntrico, e o fazer dialogar com o modelo padrão. Não se pode esquecer, e aqui um reforço argumentativo, que os comparativistas estrangeiros, quando analisam as famílias jurídicas a partir da reconhecida obra de René David para enquadrar dois ordenamentos, a qual, de maneira patológica (porém normal sistemicamente), dividem-as em romano-germânica, common law, direito africano, direito asiático e direito muçulmano, nada mencionam sobre a existência de experiências jurídicas indígenas. O não reconhecimento desta experiência enquanto uma “família jurídica” é prova contundente de como a leitura feita na linha eurocêntrica deve ser cautelosamente observada e precisa ser abandonada ou “revista” pela teoria do direito brasileira. Nestes termos, a comparação de experiências jurídicas, longe do confronto entre ordenamentos jurídicos (o que é usual), dá-se entre a experiência jurídica de uma juridicidade completamente diversa, ainda que tenha passado por um processo de transplante/assimilação involuntária,103 algo próprio de ex-colônias, que é a indígena guarani e o ordenamento jurídico estatal brasileiro, haja vista que, no exemplo simulado, o acusado seria oriundo de uma experiência jurídica e estaria sendo julgado se levando em conta outra experiência jurídica. (1) Fase eletiva: numa primeira abordagem, deve-se compreender quais os os sistemas jurídicos envolvidos, e, de acordo com o exemplo acima, poderia se dizer que seriam o ordenamento jurídico estatal vs a experiência jurídica guarani do litoral paranaense, e a matéria jurídica é a reprovação ou não de ato sexual praticado por padrasto contra enteada menor de quatorze anos. Esta eleição dos sistemas envolvidos e da matéria não apenas se dá, naturalmente, pelo objeto do caso hipotético, mas pelas respostas que eventualmente um perito atropológico venha a fazer, que aqui se esboçam pelas perguntas: o acusado é membro de um determinado grupo étnico? o grupo tem uma tradição à qual se aproxima o comportamento do acusado? o acusado foi influenciado por esta cultura quando manifestou a sua conduta? o comportamento é produto de uma percepção ou lógica cultural diversa da qual está sendo reprimido? há normas morais/jurídicas discrepantes entre o sistema de sua origem e o de sua atual repressão? a causa psíquica que o fez praticar tal ato possui explicação no arcabouço cultural que porta consigo? há, enfim, diferenças consistentes de valoração e de tratamento entre o seu ambiente cultural de origem e o ambiente de reprovação?104. A resposta a estas questões que podem bem demonstram a existência de dois “sistemas” jurídicos diferentes envolvidos, em razão da natureza da motivação cultural do comportamento do agente. A matéria aqui é peculiar à cultura indígena brasileira, se comparada, por exemplo, ao que se sucede na América “espanhola”, em casos variados de repressão à feitiçaria, como no Chaco boliviano, tratado e reprimido, muitas vezes com a pena de morte pelos guaranis ou com a pena de banimento, enquanto no direito estatal pelo cárcere.105 (2) Fase descritiva: em nível macrocomparativo,106 é possível sinteticamente afirmar, em relação ao (i) “ordenamento jurídico estatal”, que ele tem sua juridicidade/racionalidade normativa definida (apesar das críticas) a partir de perspectivas de um modelo estatalista, monista e autoritário, logo, que o fato posto em questão é jurídico porque há lei prévia, visto pelaa partir de temática, seria possível assim elencá-los: (a) gênero – mulher-trans que requer ao juiz da execução para ser transferida da ala masculina para a feminina do presídio, o que implica um conflito entre a autodefinição de gênero e o dever de manter a intregridade física pelo Estado, sobretudo em razão da prisão ter sido por ele mesmo efetuada; a exigência que os processos judiciais sobre “união estável” fazem de prova da publicidade da relação duradoura, nos termos do código civil, mesmo em situações homoafetiva (as quais são peculiares em razão do medo da violência sem que isso não signifique relação duradoura e estável); inexistência no país ainda da possibilidade do registro de nascimento em cartório sem que conste o gênero da criança; previsão de portaria e resolução de decisão conjunta de entidade médica e ministério da saúde proibindo a doação de sangue por homossexuais “masculinos” baseadas em pesquisas infundadas e expositoras apenas de juízos morais conservadores; concursos públicos para polícia e exército que exigem características de bravura “masculina” sob a justificativa da coragem, força, liderança, e que acabam ficando nas mãos judiciais por ter uma definição; etc. (b) sexualidade – insatisfatoriedade até por ausência de qualquer previsão normativa e mesmo orientação jurisprudencial na ocorrência de crimes sexuais culturalmente motivados por indígenas, estrangeiros, quilombolas, entre outros; a ausência da discussão e da resposta normativa e jurisprudencial seguras sobre o dever moral de notificação que o parceiro deve ter ou não em relação ao outro da existência de contaminação por AIDS; cirurgias de alteração de sexo e “redefinição” de gênero baseadas em conselhos de classes ante a ausência de previsão normativa suficiente; inexistência de legislação (e por ora posicionamento claro do STF) sobre a criminalização da homofobia e da transfobia; sigilo do doador de sêmen e direito à vida da criança e o conhecimento da paternidade, sobretudo em casos de transplantes; aborto, reprodução assistida e controle de gametas; etc. (c) comunidade – comunidades indígenas que praticam ato sexuais com menores de idade civil, incesto, infanticídio, gerontocídio, canibalismo etc., cuja resposta sistêmica é absolutamente casuística; comunidades de grupos que optam pela autolesão e automutilação para identificar-se enquanto grupo (identidade de existência x integridade física); imigrantes que aceitam colocar droga dentro de filho recém-nascido para fugir da guerra civil de seu país e poder, com a remuneração pela viagem de tráfico, buscar seus outros filhos e deixar o país natal, implicando um conflito principiológico entre direito/dever de maternidade e segurança de vida; etc. (d) família – ausência de previsão normativa e mesmo autorização judicial para situações de adoção pluriafetiva (de casais heteros, de poliamor, de casais homoafetivos etc.); a controversa temática do aborto, que põe em questão o direito da mulher de ter uma vida digna, sobretudo se possuir mais filhos, pelo resto da vida face a vida da criança concebida; a existência maciça ainda hoje de casamento infantil em comunidades ciganas e para as quais o direito oficial ou mesmo a teoria do direito não possuem resposta; discussão e previsão normativa sobre a barriga de aluguel, levando em conta se a eventual legalização pode implicar na exploração de mulheres pobres; etc. (e) religião – previsão exclusivamente jurisprudencial em que testemunhas de jeová optam pela não transfusão sanguínea própria, e em outra situação, dos filhos, levando ao questionamento sobre a criminalização da conduta diante do conflito entre a vida e a religião; proibição sob justificativa de segurança do uso do “eketê do candomblé em audiências que ficam a cargo da moralidade e da compreensão sobre religião do magistrado; manutenção de símbolos religiosos em órgãos públicos e insuficiência normativa sobre o tema. (f) raça – previsão normativa para o crime de racismo e injúria racial que são bastante controversas e inseguras, já que em termos absolutos não haveria propriamente uma distinção, exceto sob a justificativa “formal” de evitar o aprisionamento excessivo ou mesmo em situações extremamente elastecidas sobre o conceito de crime de racismo recentemente dada pelos tribunais superiores; ausência de previsão normativa ainda sobre quotas em concursos da magistratura; etc. Enfim, problemas recorrentes, cotidianos, típicos da universidade dos dias de hoje e da democratização do país, mas para os quais o direito oficial ou mesmo a teoria do direito não conseguem exercer a função estabilizadora de sentidos na comunidade de vida. - 3 HUSSERL, Edmund. Die Lebenswelt: Auslegungen der vorgegebenen Welt und ihrer Konstitution. Texte aus dem Nachlaβ (1916-1937) Gesammelte Werke, Band 39, Rochus Sowa ed. Springer, Dordrecht, 2008). Esta reflexão também aparece anos mais tarde em: HABERMAS, Jürgen. Theorie des kommunikativen Handelns. v.1 Frankfurt am Main: Suhrkamp, p. 106. 4 HASSEMER, Winfried; REEMTSMA, Jan Philipp. Verbrechensopfer: Gesetz und Gerechtigkeit. München: C. H. Bech, 2002, p. 169 5 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1997 (1928). 6 BUENO, Clodoaldo; CERVO, Amado Luiz. História da política externa brasileira. São Paulo: Ática, 1992. Capítulo 2 A “Crise de Sentidos” Contemporânea e o Enfraquecimento Teórico-Pragmático do Direito como “Reserva Institucional” 1. Sentidos, instituições, estabilizações, orientações e crise Antes de ingressar nas possíveis causas e explicações para que estes problemas façam parte da realidade brasileira, seja no campo da teoria do direito lato sensu, seja da pragmática e todas as suas possíveis dimensões: subjetividades envolvidas (legisladores, executores, magistrados, cidadãos) – emissores normativos, estruturas institucionais (poderes estatais, organizações sociais) e modos de concretização do direito via decisão de conflitos, convém investigar em perspectivas fenomenológicas o lugar do direito como instituição privilegiada e fortalecida na construção, adaptação, circulação, vigor e consumo de sentidos para a vida cotidiana. 7 A presença do direito na vida social está intimamente ligada à produção de sentidos que se opera na consciência. A sua maior ou menor presença, a sua maior ou menor credibilidade subjetiva, ainda que vinculada a inúmeros fatores de diversas ordens (legitimidade política, social, cultural, econômica etc.), está certamente bastante coordenada com o modo e o processo de produção de sentidos dos atos e das condutas individuais na consciência humana. Esta consciência não é pura, abstrata, não é categórica, mas é intencional, porque dirigida a algo, tomada em termos de sua atenção e de seu objeto intencional. É nesta consciência que os sentidos, em parte produzidos e reforçados pelo direito se constituem para Peter Berger e Thomas Luckmann. Uma consciência lida em termos fenomenológicos, por isso, convém aqui explicitar um pouco mais em que termos consciência e intencionalidade estão na base da “institucionalização de sentidos”. Partindo-se da superação sujeito-objeto a partir da “consciência sensível” (sinnliche Bewuβtsein), lendo os acontecimentos cognoscitivos como fenômenos (Erscheinungen) ou manifestações sob um dúplice aspecto: pelo modo como os atos de consciência se tornam conscientes das objetividades e pelo modo como as objetividades se exibem como objetividade8, abre-se nesta perspectiva de consciência um campo concreto bastante aberto de significações. Leia-se aqui fenômeno como o que se mostra, o manifesto, posto em claro. Isto implica eleger a consciência como a única e mais viva instância capaz de ver de forma absoluta, muito longe do simples psicologismo ou do naturalismo e seu olhar totalitário. A consciência (Bewuβtsein), na linha husserliana, é ativa, predisposta, que se projeta sobre a experiência sempre de modo desejado, seguro em seu fim. Por isso, é intencionalidade (Intentionalität), porque dirigidateoria das fontes normativas, emanada de autoridade normativa competente, que o define, especificamente, enquanto crime (art. 217-A do CP). Ademais, sua racionalidade ordenamental se apresenta pela elaboração de legislação ordinária por meio de código escrito reprovador e sancionador da conduta do acusado, e sua racionalidade decisional se faz por interpretação ainda tradicional, de subsunção, condicionalidade de direitos e deveres, expectativa de obrigatoriedade, ameaça de coação e submissão à decisão do Poder Judiciário. (ii) em relação à “experiência jurídica guarani” é possível afirmar que a sua juridicidade/racionalidade normativa, como salientado acima, constrói-se a partir de casuística, sem estatalidade, como possibilidades de influências múltiplas e fontes normativas gravadas pela religiosidade e moralidade. Ainda, que a sua racionalidade ordenamental se expressa pela elaboração de uma tradição histórica não-escrita, intergeracional e intertribal, (inobstante as demais características suso relatadas) cuja autoridade normativa se consubstancia na pessoa do sujeito coletivo, e, sobretudo, do caraí e do tcheramói. Quanto à racionalidade decisional, verifica-se que há multiplicidade de interpretação, forte elemento religioso, animista, politeísta e contextual, manifestado por entes comunitários coletivos diante de fatos ditos, que varia de contexto a contexto, de momento a momento, nunca rígida, apesar de ritualista, igualmente coletiva. Desde uma perspectiva estática e ontológica, não se pode olhar o ambiente jurídico guarani a partir da categoria de sistema jurídico/ordenamento, ainda que num viés contemporâneo, como um repertório discursivo complexo de normas lógico e racionalmente organizado para fins de estabilidade, segurança, certeza, previsibilidade de condutas, estabilização de expectativas, superação de expectativas frustradas contra-fáticas etc. Se isto serve à compreensão do direito hegemônico, constitui erro inescusável se voltados os olhares para os guaranis nestes termos. Das respostas dadas pela Escuta Étnica, percebe-se que o fenômeno jurídico manifestado nas tribos do litoral paranaense compreende uma outra noção de direito, um direito vivenciado, um direito dialogado, logo, a chave de compreensão não pode ser uma categoria fechada e absoluta, ou o legado do tipo ideal weberiano, mas uma forma mais porosa, que pode ser resumida ao conceito de experiência jurídica.107 Categorias baseadas num modelo paradigmático acabam por construir institutos históricos unívocos e generalizantes que, certamente, no universo jurídico guarani, impedem o conhecimento das suas peculiaridades. A compressão a partir da experiência cumpre um papel melhor, sobretudo porque privilegia a pluralidade diacrônica e sincrônica das categorias jurídicas, do fenômeno normativo e da cultura jurídica indígena. Em nível microcomparativo, pode-se afirmar em linhas bastante gerais, que o (i) “ordenamento jurídico estatal” apresenta as seguintes características sistêmicas: há funções bastante definidas, claras e exercidas por personalidades jurídicas envolvidas (poder legislativo – elaboração da proibição normativa; poder judiciário – no processamento e na resposta ao caso penal e universidade pública – na expertise de perito antropólogo e influenciador do juízo). Em termos de segmentos normativos, o caso hipotético pensado tem lugar específico no ordenamento jurídico, posto que previsto ex ante como delito, logo, pertencente ao campo da repressão penal, e, em termos de institutos envolvidos e conceituação, sua delimitação está no campo do estupro de vulnerável dada a condição de hierarquia e confiança do padrasto e a idade da vítima. Por fim, é possível afirmar que as linhas amplas do desenvolvimento histórico do sistema jurídico, no que pertine ao caso, estão na implementação gradativa dos direitos humanos, da proteção da violência contra mulheres e crianças, bem como da redução da criminalização de condutas. Em contrapartida, pode-se esboçar que a (ii) experiência jurídica guarani, conforme a Escuta Étnica, deixa transparecer outras características sistêmicas, que foram elencadas acima, não sendo conveniente as rememorar. De qualquer modo, tendo em conta os segmentos normativos, pode-se dizer que o caso em questão não possui lugar específico na reflexão indígena como tal o é na rigidez do CP, sendo bastante flexível o seu enquadramento enquanto um fato “mais ou menos ou nada reprovável” a depender dos contextos culturais, temporais e sociais analisados. Para o “direito oficial” a questão é bastante simples, havendo prova de autoria, materialidade e a prática da conduta de: “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”, trata-se de estupro de vulnerável sob a perspectiva típica. No que diz com os institutos envolvidos e conceituação, do modo como foi imputado numa denúncia, não se pode afirmar que a conduta está regulada no campo dos delitos sexuais, porque não o é pensada no campo da experiência jurídica guarani desta maneira, haja vista a diferença de idade para fins de vulnerabilidade, a forma como o sexo é percebido (posto que não é tabu e nem gravado pela intimidade ou pelo pudor), assim como a relação dentro da família, ainda que o incesto seja inexistente na relação direta pai-mãe/filho- filha. Em termos de desenvolvimento histórico do ‘sistema’, no que pertine, igualmente se pode extrair das Escutas Étnicas que os indígenas estão cada vez mais atentos à igualdade de gênero e à intensificação da proteção da “mulher indígena”, reprovando “estupros”, “assédios” e “abusos” familiares. Contudo, não é ainda uma questão simples, nem fácil e nem claro o uso de uma maior reprovação para os fatos sexualmente considerados inadequados. Em suma, não estão necessariamente caminhando num mesmo compasso o “direito oficial”, que a cada vez mais criminaliza condutas atentatórias à questão de gênero (algo que para muitos penalistas e criminólogos tem seus revezes), quanto o “direito inoficial”, à medida que o debate da questão de gênero é incipiente e apenas nas gerações mais novas, não apresenta o mesmo patamar de gravidade e nem tampouco de punição severa como a forma mais adequada de lidar com estes problemas sociais. (3) Fase identificativa: analisando ambas juridicidades, com base no que foi levado em conta na Escuta Étnica, é possível a partir de uma decomposição e recomposição normativas, operadas intelectualmente, reconhecer entre o “ordenamento jurídico estatal” e a “experiência jurídica guarani” as seguintes semelhanças: ambos, ao seu modo, estabelecem (a) graduações de gravidade de fatos praticados; (b) modais normativos próximos; (c) existência de regras e princípios; (d) personalidades jurídicas diversas para o exercício da função de “acusar, processar, julgar e fiscalizar punições”; (e) influências extra-comunitárias; (f) vinculação geográfica e ao povo; (g) rito e procedimento para julgamento; e (h) influências de movimentos sociais externos. Contudo, as diferenças, em número significativo e mais contundente, resumem-se nos seguintes elementos principais, no que é aqui relevante: abstratamente, (a) não se trata de culturas que dividem o mesmo espaço territorial, haja vista ser a tribo lugar protegido em Guaraqueçaba; (b) possuem contextos histórico- cultural-sócio e político bastante diversos, especialmente em razão dos caracteres da individualidade de um e da coletividade do outro; (c) justiça para o oficial se sobrepõe a igualdade, o que não acontece com o inoficial; (d) “minorias” de gênero, idade, raça, opção sexual em alguma medida (aquém do que deveria naturalmente) importam ao oficial, mas não para o inoficial, já que todos são absolutamente iguais, inclusive como agentes e vítimas de fatos; (e) exemplos anteriores são importantes para o oficial por meio da jurisprudência, contudo, para o inoficial, são quase sempre irrelevantes para o julgamento de novos casos; (f) enquanto para o direito oficial o que é determinante está no conjunto ordenamental,para o inoficial pode ter origem na religião, na natureza, mas também em acordos comunitários; (g) o direito oficial, em razão de sua secularidade e seu caráter laico, não sofre de modo declarado (embora é evidente as tantas e claras influências católicas) a interferência de imagens e símbolos religiosos, o que diverge, naturalmente, do direito inoficial, altamente “iconoclasta” (com o cuidado da expressão histórica); (h) impressões individuais e comunitárias atingem indiretamente o direito oficial; enquanto o inoficial é essencialmente marcado por tais impressões; (i) se no direito oficial as interferências existem mas não são declaradas em torno do poder físico, político, social, econômico (e aqui toda a sorte de debates sociológicos assim o demonstram), no direito inoficial a dimensão do “poder” não é algo relevante; (j) influências extracomunitárias servem, ainda que como fonte formal, imediata, mas indireta do direito oficial, no âmbito inoficial ocorrem, servem como comparação, mas não estão presentes ou quase não se sabem delas na definição do certo, errado, justo ou injusto em dadas situações; (k) as fontes jurídicas são definidas e precisas no direito oficial (e está sem dúvida é a chave burguesa do direito hegemônico e já redunda tradicional no juspositivismo), o que não o é no campo do direito inoficial; (l) não há transmissão entre gerações no direito oficial, enquanto no inoficial o aprendizado das regras é essencialmente balizado na educação familiar e comunitária; (m) o registro é a regra do direito oficial, enquanto no inoficial a oralidade e as boas palavras faladas se sobressaem; (n) a noção de justo tende a ser estável no direito oficial em razão da matriz positivista, o que não se sucede com o inoficial, que é contextual, sobretudo; (o) as regras aplicadas são estáveis e com dificuldade de serem alteradas no direito oficial, enquanto no inoficial são gravadas muitas vezes pela mutabilidade, ainda que não impliquem provisoriedade; (p) persuação e retórica estão relacionadas aos argumentos e aos emissores e receptores discursivos no direito oficial, o que não ocorre no inoficial, haja vista que incidem exclusivamente sobre a consistência dos argumentos; (q) novos membros automatica e obrigatoriamente acessam o regramento do direito oficial, em função do princípio da proibição da ignorância da lei, ao contrário do direito inoficial, cuja transmissão se dá por experiências e palavras na casa das rezas; (r) as punições são prévias, legalmente previstas, únicas, individuais e estáveis no direito oficial, enquanto gravadas pela alterabilidade no direito inoficial; (s) apesar de ser ritualístico, no direito oficial há estreiteza do seu seguimento sob pena de nulidades declaradas, enquanto o inoficial apresenta variações sem grandes repercussões comunitárias e para a consecução da justiça; (t) o direito oficial se altera em razão do fato, da vítima, e, sobretudo no campo penal, ainda que não declarado, do autor, enquanto o direito inoficial ignora quaisquer questões subjetivas em prol da análise exclusiva do fato; e, por ora, (u) enquanto o direito inoficial sofre os denominados “transplantes” da cultura jurídica hegemônica, o inoficial nunca, razão pela qual, enfim, esta sentença pretende se colocar de modo diverso (se o direito oficial “pode” realizar “apropriação cultural”, o inoficial “sofre” a assimilação inevitável). (4) Fase explicativa: em síntese, tendo em conta as considerações acima, é possível entender que a experiência jurídica guarani, a partir do que deixaram antever as próprias autoridades indígenas ouvidas na Escuta Étnica, assim como a partir da compreensão que o julgador consegue extrair do ordenamento jurídico estatal, não é tão somente um “direito de manifestação consuetudinária”, lido na linha do consuetudo como civil e common law o fazem (levando em conta a reiteração e a opinio communis), mas ganha foros de dimensões mais complexas, com ontologia, epistemologia e pragmática diversas, absolutamente incapazes de serem aqui resumidas se não apenas apontadas dadas as suas distinções. Há, de fato, embora não se reconheça judicial ou academicamente de modo tão fácil, uma verdadeira experiência jurídica indígena, algo que envolve muito mais do que um “simples encaminhamento” jurídico de eventuais conflitos comunitários. Se o direito hegemônico soube bem reduzir, na linha arendtiana, a dimensão do ius à lex na modernidade, fazendo do direito simples tecnologia a serviço dos cânones positivistas, a experiência jurídica indígena jamais pode ser resumida a esta instrumentalidade e tecnologia modernas. A descolonização do saber jurídico exige que a complexidade religiosa, a legitimidade das instituições normativas e “jurisdicionais”, a mutabilidade, a dinamicidade dos ritos, a multiplicidade étnico-axiológica, a variabilidade das autoridades intra e intertribos, a diversidade da hierarquização dos valores jurídicos, a liberdade, a oralidade, a cosmologia, a reciprocidade, a eficiência, a solidariedade típicas, a agilidade procedimental, a impossibilidade de codificação e de registro, a coletividade do trato social e suas normas presentes na cultura indígena guarani sejam respeitadas em prol da alteridade jurídica que deve se manifestar, na linha de Viveiros de Castro, quando posta em pluralismo dialógico com o direito estatal. Ignorar a jusmundividência que a cultura jurídica indígena apresenta, como dito acima, distancia os olhos do direito (e em casos práticos, do Poder Judiciário) para um verdadeiro reconhecimento da “autodeterminação dos povos” (art. 4º, III do CP), algo inadmissível em tempos de assunção do autoritarismo, da hegemonia violenta e do integracionismo do qual o Estado Brasileiro se tornou devedor historicamente. Entendemos que os desacordos entre os modelos de normatividade são muitos e essenciais se comparados às compatibilidades, por essa razão, a subsunção há de ser feita exclusivamente perante à experiência jurídica guarani e com isso há de se operar no direito estatal uma abertura a ruídos e a estímulos vindos da experiência guarani. A subsunção cruzada, mesclando a processualística do direito processual penal, como fora entabulada pelo direito oficial, com algumas criações necessárias, tal a Escuta Étnica e a cautelar diversa, com a experiência jurídica guarani permite «irritações recíprocas» entre sistemas e mundos de vida diversos, favorecendo um reconhecimento mais seguro e verdadeiro entre experiências jurídicas distintas, sem qualquer monopólio de redução de complexidade de sentidos. Portanto, aceitando que estas diferenças sistêmicas se sobressaem e que a relação cruzada entre experiências jurídicas é a maneira que se entende mais confiável para evitar duplas ofensas, e não apenas unilaterais (direito estatal à experiência jurídica indígena), é preciso materializar um último passo comparativista, qual seja, uma fase de interpenetração jussistêmica. (5) Fase integracionista: ao invés de uma “prova de funcionalidade”, última fase acadêmica para os comparativistas estrangeiros, momento em que se usariam exemplos teóricos a fim de averiguar a prova real da comparação, é preciso, dado a lógica da descolonização aqui presente, e diante de casos que envolvam soluções a serem dadas, que essa última fase seja substituída por uma denominada de “integracionista”, já que a função primordial da análise não é apenas cognitiva ou pedagógica e sim decisória e desconstrutivista. Aqui se devem encontrar mecanismos de integração de racionalidade, bem como se estabelecer os limites e os termos dialógicos de encontro entre a experiência jurídica guarani e o ordenamento jurídico estatal. Então, parece razoável um caso como este, de modo integrado, siga o rito ordinário do código de processo penal, com apenas duas nuances já mencionadas: (a) uma, no que tange às medidas cautelares substitutivas da prisão, pois, em se havendo de “delito culturalmente motivado”, quando se tratar de fatos praticados entre indígenas, que para evitar ofensas culturais, amedida cautelar mais adequada não é nem o recolhimento do indígena no sistema prisional estatal, nem tampou o uso de monitoramento, recolhimento domiciliar etc., mas, sim, colocar o indígena numa outra tribo, sob os auspícios de um outro cacique conforme definição de autoridades indígenas envolvidas, a quem cumpre deliberar sobre as regras de liberdade de trânsito e convivência social (com alguma excepcionalidade, de proibição por ordem judicial de ingressar na tribo em que a vítima se encontra), com informações para o juiz do processo; (b) outra, que diz respeito, além da existência do laudo pericial realizado por antropólogo, que se viabilize uma Escuta Étnica, cuja função, como se verá abaixo, é a inspeção judicial não para produção probatória ou cognição dos fatos pelo magistrado, mas como forma de cognição da experiência jurídica não-hegemônica. Enfim, feitos estes passos, é possível perceber que o direito oficial passa a dialogar, através do campo da culturalidade que o direto material manifesta, com outra racionalidade jurídica, com outra experiência jurídica subalterna, notoriamente renegada e ocultada, interpenetrando métodos, percepções, soluções, logo, descolonizando a teoria do direito contemporânea. Eis aqui um método que haveria de se utilizar no direito oficial para dialogar com experiências ético-jurídicas invisibilizadas e mesmo com institutos estrangeiros, para evitar ainda mais que se reforce a “colonização do saber jurídico nacional”. (b) Escutas étnicas processuais . Para tentar descolonizar a prática judicial e não apenas a teoria do direito e estar a reflexão e a cognição do direito abertas à oitiva de novas expressões ética, e, sobretudo, de novas racionalidades jurídicas, talvez fosse importante a criação de novos institutos processuais, como algo que se poderia denominar originalmente de Escuta Étnica. Para se identificar e afirmar, em termos teóricos e pragmáticos, a existência de uma outra cultura jurídica que não a hegemônica, e, portanto, de um direito inoficial essencialmente descolonizado, poderia sê-la criado aos moldes do que já se tem com a inspeção judicial, mas em perspectiva de cognição judicial não de fatos e sim de racionalidades marginais Uma escuta étnica seria uma fala de uma expressão marginal para um poder instituídos formalmente no direito oficial e não o inverso. Portanto, alterar-se por completo o vetor cognitivo no processo, já que não parte do magigstrado para as partes e sim dos interessados para o magistrado. Com isso, primeiro, pode-se saber dos próprios indígenas, ribeirinhos, quilombolas e comunidades envolvidas (e não por meio de observação do magistrado) quais as suas formas de manifestação jurídica, reservando-lhes o lugar de fala necessário, e, segundo, que, tratando-se de situações de delitos culturalmente motivado, seria oportuno que a cultura jurídica não hegemônica seja manifestada, ao lado dos demais elementos culturais que a perícia antropológica pode alcançar. Uma escuta cuja função não está em registrar a experiência jurídica subalterna e muito menos fazer um processo de catalogação de costumes, porque atentaria contra a própria cultura marginal, e reforçaria ainda mais a exclusão e colonialidade, mas tão somente permitir o acesso das instituições estatais, sobretudo do magistrado, no que for possível, à experiência jurídica marginal e possibilitar uma reflexão sobre o atos praticados de acordo com a juridicidade própria marginal e não de acordo com a juridicidade do direito oficial. A título de exemplo, tendo em conta aquele exemplo indígena, algumas questões podem ser formuladas com vistas a promover este projeto descolonial, sempre com a presença de antropólogo especialista (que dita o ritmo e o modo de intervenção) e sempre na presente de autoridades indicadas pelos próprios “escutados”: 1) Quais os elementos/argumentos/raciocínios que definem algo como exemplar na comunidade?; 2) Quais os elementos/argumentos/ raciocínios que definem algo como reprovável na comunidade?; 3) O que faz vocês entenderem algo como uma norma/regra/princípio entre vocês?; 4) Ao pensarem no que é possível, proibido ou facultado de ser feito, vocês pensam a partir do que? Do que a comunidade espera? Do que a família apenas deseja? Do que a natureza o quer? Do que a religião tem como expectativa?; 5) Isso que entendem como proibido/permitido etc., é algo estável (sempre visto do mesmo jeito, se não, do que depende a variação, do tempo? Da orientação religiosa? Da condução da tribo? Das pessoas envolvidas nas controversas?); 6) Estas proibições/permissões são passadas de geração em geração ou são sempre recriadas?; 7) Estas proibições/permissões dependem de quem está no poder de orientação religiosa ou “tribal”?; 8) Questões de poder físico, espiritual, “econômico”, de socialidade, político etc., interferem na definição do que é permitido/proibido?; 9) Hierarquias familiares interferem nestas permissões/ proibições?; 10) Orientações religiosas definem proibições/permissões até que momento e em que termos?; 11) Tribos distintas, agrupamentos distintos, etnias distintas, localizações geográficas distintas variam suas percepções do que é permitido/proibido?; 12) Exemplos pessoais contribuem na definição do que é permitido/proibido? Em suma, exemplos do que é certo/errado são enaltecidos para fins de estimular a comunidade para agir dentro do que é proibido/permitido?; 13) Em sendo politeísta, de que modo, qual instituição interfere na definição do que permitido/proibido?; 14) O que se entende por justo? É algo rígido, fixo, pré-estabelecido (sempre ou às vezes)? Existe esta idéia de justiça?; 15) Há diferença entre o que é permitido/proibido e o que é justo ou eles sempre se equivalem?; 16) Tudo é oral ou há alguma forma de registro?; 17) Sendo oral, como se passa a tradição do que é permitido/proibido?; 18) Que tipos de interferências há na definição do justo? Conjunturas política internas? Externas?; 19) Há interferências intertribais na definição do que é justo e do que é permitido/proibido?; 20) A construção do que é justo, do que é permitido/proibido é individual, de uma autoridade comunitária/religiosa/, histórico-geracional, coletiva?; 21) Práticas consideradas inadequadas/injustas são vistas de que modo pela comunidade?; 22) Há um clara definição de quem exerce funções como dizer o que é certo/errado, permitido/proibido, justo/ injusto previamente?; 23) De onde nascem as permissões/proibições: costumes, autoridades comunitárias, autoridades religiosas?; 24) Quando alguém novo chega à tribo, como se adapta a proibições/permissões? Há algum forma de ensinamento ou se adere por experiência?; 25) Quem diz isto é a mesma “autoridade” que resolve eventuais descumprimentos?; 26) Há alguma forma de se recorrer externamente à tribo para definir questões de justo/injusto, proibido/permitido?; 27) Há distinções em graus dos atos praticados e considerados indevidos?; 28) Quais formas de encaminhamento? Individual? Coletivo?; 29) Este encaminhamento é fixo ou é flexível? Isto é, varia conforme o tempo, o contexto, as pessoas envolvidas?; 30) O encaminhamento segue algum rito específico? Quais as formas de processamento interno? Depende da natureza do ato praticado?; 31) A posição de “chefe” interfere em termos de eventual encaminhamento desfavorável ou favorável quando se pratica um ato contrário à cultura da tribo?; 32) Atos sexuais, sofrem que tipo de punição?; 33) Há distinção em termos de práticas proibidas/permitidas como algo a ser mais ou menos reprovado pela comunidade? Existe a figura de um crime?; 34) Há diferença de gravidade/punição pelo fato de um ato sexual ser praticado contra uma criança?; 35) Quais os incômodos internos gerados na comunidade quando um ato como esse é praticado?; 36) A figura feminina como vítima de um ato sexual, é algo refletido de modo diverso dentro da comunidade indígena?; 37) Há costumes envolvendo punições?; 38) Eventuais punições sofrem algum tipo de controle/fiscalização interno? Sob os cuidados de qual autoridadese encontra a pessoa punida?; 39) Como se dá o encerramento do cumprimento da punição? Há algum ato formal perante a tribo de cumprimento? Há alguma forma de comunicação à tribo, agrupamento de origem e às pessoas eventualmente envolvidas?; 40) Qual a visão de atos praticados por indígenas contra indígenas serem avaliados e julgados pela Estado? Etc. Enfim, um instituto que, criado no processo civil ou penal, parece apto a oitiva da diversidade brasileira, evitando planificações processuais típicas e cotidianas do . . O postulado da proporcionalidade108 é um dos temas de grande relevância no âmbito da teoria geral do direito, em especial, do direito constitucional, à medida que a leitura tradicional positivista dos comandos normativos há muito cedeu espaço para o campo das visões axiológicas do direito. A percepção da incompletude normativa do sistema, bem como da dinamicidade a que se submete o direito frente à complexidade da realidade, conduziram os juristas a discutir instrumentos aptos a abrir a dogmática jurídica a outros campos que não o estrito território do lícito-ilícito. Se de um lado, técnicas processuais procuraram melhor adaptá-lo às relações materiais, por outro, técnicas materiais procuraram atualizar o homem e o sistema, na tentativa de harmonizá-los num mesmo percurso epistemológico. Deste os fatores que influenciaram tal processo de abertura sistêmica (como já suso explorado), sem dúvida, as vicissitudes do constitucionalismo e do Estado estão entre os principais. A idéia inicial é que o constitucionalismo constitui a marca do Estado de Direito. O grande problema sempre posto foi do paradoxo: constitucionalismo vs democracia, ou, dito de outro modo, entre o postulado de haver limites às deliberações populares em busca do bem comum e o ideal de autodeterminação do povo. Em suma, como conjugar novos valores e supremacia do interesse público, como conjugar segurança jurídica e não-enrijecimento do sistema normativo? direito oficial (c) Ponderação de segunda ordem de princípios – “ponderação étnica” ou uma “ponderação descolonial” Tal contradição se enfatiza à medida que mais valores são incorporados ao texto constitucional, e, naturalmente, um grupo maior de decisões se torna insuscetível de revisão pelas maiorias futuras. A passagem do Estado de Direito para um Estado Social, ou do Estado formal para o Estado material operou no séc. XX a “materialização da CF”. Esse processo se avolumou no pós-Guerra, no fenômeno conhecido como neoconstitucionalismo (Frank Michelman). Para este processo, a constituição deixou de ser mera delimitadora da atuação Estatal (protegendo liberdades, estruturando e limitando a formação política e o poder) para se transformar num instrumento de “positivação jurídica” de valores fundamentais da vida coletiva. A jurisdição constitucional passou a influenciar sobre as deliberações políticas de órgãos de cunho representativo. Nesse sentido, surge a ponderação dos postulados ético-morais feita pelo Judiciário e os questionamentos sobre a sua legitimidade em pensar a Constituição como “ordem de valores”. A primeira grande percepção deste fenômeno foi o Caso Lüth – BverfGE 7, 198 – (1950, Erich Lüth, dirigente do Clube de Imprensa de Hamburgo, chamou os distribuidores cinematográficos para boicotar o filme Amante Imortal – Unsterbliche Gelibte de Veit Harlan, antigo partidário de Hitler e divulgador de ideologias anti-semitas. Em detrimento da liberdade de expressão, sustentou-se que os direitos fundamentais também se aplicam nas questões privadas, e não apenas na relação estado-indivíduo, logo, que o espírito da Constituição privilegiava os bons costumes em contrário a liberdade total de manifestação de opinião art. 5.1), quando o Tribunal Constitucional Alemão optou pela recepção da teoria axiológica, aceitando que a Constituição não seria neutra. Desvendou-se, assim, a “dimensão objetiva” dos direitos fundamentais (Dieter Grimm). Percebeu-se, então, naquele processo de objetivação dos direitos fundamentais, que tais direitos não poderiam ser mera garantia de posição subjetiva do indivíduo face ao Estado, mas valores básicos da sociedade política, base do Estado Democrático. Com isso, atribui-se maior poder ao Judiciário de materializar os valores abstratos da CF. Já que o Estado Social impôs um incremento na intervenção do Poder Legislativo e do Poder Executivo na vida privada, cumpre ao Poder Judiciário conter os eventuais abusos contra a dignidade da pessoa humana (Otto Bachof) – afirmação esta naturalmente perigosa e não isenta de fundadas críticas. Numa perspectiva tradicional da proporcionalidade, é possível afirmar que um dos grandes instrumentos para que o Poder Judiciário possa trabalhar com os valores sociais e corrigir falhas dos demais poderes tem sido a proporcionalidade, vez que capta conflitos axiológicos e permite uma melhor adaptação da situação material ao ordenamento jurídico. Por essa razão, não é exatamente nova a discussão em torno dela, mas certamente é muito mais robusta a sua fundamentação nos dias de hoje. Fundamentação essa que não passa ilesa de críticas, sejam quanto ao seu alcance, quanto à sua sustentação intra-sistêmica, quanto mesmo à sua própria definição dentre as inúmeras categorias da Ciência Jurídica. A proporcionalidade não é um princípio, mas um dever, um “postulado aplicativo” que serve à resolução de conflitos. Não é princípio, quanto também não é regra. Dworkin e Alexy diferenciam (como visto acima), apesar de algumas contradições entre ambos, os princípios e as regras como base em dois critérios: a) grau de abstração e generalidade da prescrição normativa (princípios se dirigem a um número indeterminado de pessoas e de situações, sendo mais amplos que as regras); b) fundamento de validade (os princípios se encontram baseados na noção do Estado de Direito, enquanto as regras em texto normativo). Um postulado capaz de evitar que um princípio destrua o sentido do outro. Uma vez que os princípios possuem pesos distintos diante da casuística (tal Dworkin “dimension of weight”), ao contrário das regras, que se sustentam na regra “tudo ou nada” (all-or-nothing, alles-oder-nichts), os princípios só podem ser aplicados com base numa “cláusula de reserva”, isto é, só aplicados se outro princípio não tiver maior peso. Compete ao “postulado da proporcionalidade” ( Verhältnismässigheitsprinzip) captar a melhor realização dos princípios diante do caso concreto, ponderando-os segundo as “possibilidades fáticas” (adequação – Geeignetheit e necessidade – Erforderlicheit) e as “possibilidades normativas” (razoabilidade) (Robert Alexy). Isto implica dizer que o meio escolhido deve ser necessário, adequado e razoável diante da colisão de princípios (Luis Fernando Schuartz). Nesse sentido, o dever de proporcionalidade cria as condições necessárias para que a interpretação normativa possa se realizar diante de um caso concreto, sempre que valores distintos e positivamente consagrados estejam em jogo. Humberto Ávila resume seus requisitos: “Uma medida é adequada se o meio escolhido está apto a alcançar o resultado pretendido; necessária, se, dentre todas as disponíveis e igualmente eficazes para atingir um fim, é a menos gravosa em relação aos direitos envolvidos; proporcional ou correspondente, se, relativamente ao fim perseguido, não restringir excessivamente os direitos envolvidos.”109 Logo, o dever de proporcionalidade abre um espaço à subjetividade judicial, à medida que o intérprete, diante do conflito entre bens jurídicos materiais (liberdade, vida, segurança, dignidade humana, interesse público etc.), numa relação meio-fim, compõe a solução com vistas mais adequada, necessária e proporcional proteção do fim desejado. Destaque-se, como bem afirma Humberto Ávila, que o dever de proporcionalidade se difere da “razoabilidade”, pois esta informa que as condições pessoais e individuais dos sujeitos envolvidos hão de ser consideradas na decisão, logo, relaciona-se ao que normalmente, cotidianamente acontece com osindivíduos. Por isso, o autor resume a definição da proporcionalidade como “postulado normativo aplicativo decorrente da estrutura principal das normas e da atributividade do Direito, e dependente do conflito de bens jurídicos materiais e do poder estruturador da relação meio-fim, cuja função é estabelecer uma medida entre bens jurídicos concretamente correlacionados.” Em busca das suas origens doutrinárias e jurisprudências, é possível encontrar traços singulares, basicamente, em dois ordenamentos: o germânico e o norte-americano (sem embargo a experiência escandinava e a canadense, de grande evolução, conquanto pouco originais do ponto de vista de suas racionalidades, já que emprestas daqueles modelos). No modelo alemão não há uma hierarquia entre os direitos fundamentais, apenas no caso concreto é que se sustenta, eis porque a análise é contextual, assim como nos EUA e no Canadá, seus casos tendem mais a se limitar às situações de atos legislativos, abstratos, que aos dos atos do executivo. Contudo, é visível a existência de três etapas claramente def inidas. Desde os anos 1930 já se aplicam critérios de proporcionalidade, porém foi só em 1953, numa tese formulada por Rupprecht Kraus é que o terceiro passo apareceu. Ali passou a se valorizar a ponderação stricto sensu: “Quanto maior é o grau de não satisfação ou de prejuízo de um dos princípios, tanto maior deve ser a importância da satisfação do outro princípio”. (Robert Alexy). Desde então, a corte foi aprimorando a sua recepção, e, atualmente, os modelos de Robert Alexy e de Bernard Schlink têm se destacado. De outro lado, o modelo norte americano também apresenta as suas singularidades. Alexander Aleinikoff, mostra que os primeiros casos em que a Suprema Corte usou por voto de maioria a ponderação (balancing) foi no final dos anos 1930 e início dos anos 1940, pois antes prevalecia o “modo categórico”, em que as normas constitucionais eram regras e não princípios. Exemplo dessa primeira fase é o caso Lochner, em que não se efetuou uma ponderação entre interesses públicos e particulares para se verificar se era válido o estatuto de NY que limitou a jornada de trabalho dos padeiros. Apenas se discutiu se a lei poderia ou não ser tida como expressão do poder de polícia do Estado (Alexander Aleinikoff). Diante do debate entre PE e PL, é que a partir dos anos 1940 a Suprema Corte passou, no ambiente do New Deal, a se fazer a calibração de interesses. A lei passou a ser vista como um “meio” para um “propósito”, logo, era preciso fazer um escrutínio dos interesses sociais em jogo quando diante de um conflito (Paulo Branco). Essa visão ganha fôlego nos anos 1950, por força da filosofia do pragmatismo de William James e John Dewey, que reconhece limites à lógica, relativizando a noção de verdade, tornando o direito funcional e experimental. Assim, é preciso buscar ver quando a norma consegue melhor atingir o fim social buscado, eis porque fazer o balanço de interesses. Nessa época se reconheceu constitucional a lei que previu moratória de hipotecas para os afetados pela Depressão. No final dos anos 1950, aprimorando-se o sistema, nas questões envolvendo “liberdade de expressão” e “religião”, passou a se exigir um cuidado maior na intervenção sobre o direito individual apenas quando houvesse um “interesse público peremptório” (compelling state interest) e que a medida não fosse além do necessário (least restrictive means, narrowly drawn). Famoso caso de 1951, em que se manteve o processo judicial contra líderes do Partido Comunista, no auge do período Macartista. A liberdade de expressão não poderia se sobrepujar aos valores de alto relevo para o momento, que era o medo do avanço comunista (a ponderação deveria ser feita caso a caso). O grande problema é que a ponderação passou a ser vista como um “instrumento pró-governo” e nos anos 1960 e 1970 houve um recuo no seu uso na Corte de Waren, privilegiando-se posturas categóricas. A partir de meados de 1970, volta a ponderação em jogo, no Caso Roe v. Wade de 1973, em que se fez uma ponderação abstrata, conceitual, válida para casos seguintes e não apenas ponderação ad hoc, em que se entendeu ilegítima a lei punitiva do aborto no Texas (também houve a valorização do direito de voto das comunidades negras – o Reapportionment Cases nos anos 1960 – e o discurso do ódio de Brandenburg v. Ohio de 1969) (Paulo Branco). Hoje, o que se tem é a exigência de que haja uma proporcionalidade entre o objetivo da medida e seus bons efeitos e os efeitos maléficos por ela causados nos direitos fundamentais (loss for the fundamental right vs. gain for the good protected by the law) (Dieter Grimm). Assim, é que se obrigo o “teste intermediário” (intermediate review), tal a proporcionalidade estrita européia. Exemplo dessa aplicação foi o Caso Texas, em que, embora a necessidade da redução de gastos do sistema educacional, esta não poderia prevalecer sobre o interesse de crianças filhas de imigrantes ilegais. Assim também o Caso Craig v. Boren de 1976, em que se entendeu indevida a lei estadual que proibia a venda de cerveja para homens menores de 21 anos e para mulheres menores de 18 anos, pois nada justificava o volume de crimes para essas diferenciações. Em suma, os americanos também fazem na razoabilidade (reasonableness) um juízo de adequação e necessidade, mas não separam claramente as fases. Este modelo que se constrói a partir de perguntas a casos práticos, que aqui não as convém remorar, mas que variam segundo dois autores – o modelo de Bernhard Schlink e o modelo de Robert Alexy –, independentemente das críticas e defesas (Ernest Fortshoff, Carl Schimitt, Erns-Wolfgang Böckenförde, Bernhard Schling, Jürgen Habermas, John Hart Ely, Alexander Aleinikoff e Dieter Grimm), mas que de fato, tem sido bastante utilizado pela teoria do direito hoje e pelos tribunais pátrios, não pode ficar restrito aos princípios sistêmicos já existentes.110 É preciso, após a ponderação, e após a escolha do meio menos ofensor aos demais princípios envolvidos, que se passe por uma nova ponderação, eis porque uma “ponderação de segunda ordem”, em que o valor preponderante seja passado pelo filtro descolonizador, e, portanto, seja novamente ponderador se ele mantém, então, este valor preponderante diante da cultura marginal em questão eventualmente discutida. Explica-se. Diante de um conflito entre proteção do “bem estar coletivo” e da “dignidade humana”, que um eventual ato praticado pelo estado tenha gerado, caso se chegue à conclusão que o bem estar coletivo deva preponderar, sem aniquilar a dignidade humana, naturalmente, se ele está ou não de acordo com os valores informante da cultura historicamente negligenciada em questão. Primeiro, chega-se ao valor vencedor no rito tripartite da ponderação, em seguida, pondera- o, agora novamente, com o valor da cultura subalterna envolvida, para saber se realmente deve ser vencedor ou não, a fim de se analisar se a colonialidade e o colonialismo não estão de algum modo se perpetuando. A questão indígena acima discutida é um desses casos. Ainda que a ponderação seja um exercício mental, e se chegue à conclusão de uma tipificação da conduta, será que a sua escolha – punir pelo “bem estar social e proteção da mulher” – manteria sua rigidez diante dos valores da cultura indígena? Será que indígenas não estabelecem uma quadratura de valores diversa? Se não passar, não deve ser o valor preponderante, pois será aparentemente preponderante, mas o deixando de ser numa segunda ponderação: “ponderação étnica” (descolonial). (d) Entrecruzamento típico – Além da realização do comparativismo com as experiências jurídicas subalternas e da escuta étnica, talvez um passo importante fosse passar em exame institutos jurídicos tradicionais, sobretudo no campo penal, porque revelador de modo expressivo de elementos morais, e se possível, a criação de outros tantos mais aptos à realidade nacional, do que estrangeirismo perigosos, como já dito outrora, da delação premiada etc. 111 No campo penal,valendo-se do exemplo acima do ato praticado por um cacique contra a sua enteada, seria bastante simples fazer a subsunção ao delito de estupro de vulnerável, tal qual descrito pelo direito oficial brasileiro. Supondo não haver dúvidas sobre autoria e materialidade, a questão se traduz numa tipicidade elementar, que junto consigo carrega, de modo quase autoevidente, as demais partições da teoria do delito: antijuridicidade e culpabilidade. Contudo, a questão fundamental para promover a descolonização da teoria do direito e mesmo das dogmáticas, como o direito penal oficial, é perceber que o ato praticado pelo indígena contra indígena está inserido em outra mundividência, em outra esfera cultural, e, portanto, julgá-lo e o condenar nos termos da tipicidade oficial é ignorar por completo que a proibição ou autorização de práticas na cultura indígena é em grande parte radicalmente diversa da cultura branca ocidental. Por mais complexo que isso seja para os olhares de um direito e de seus operadores já historicamente definidores de “sentidos” e estabilizadores de concepções medianas de mundo, fato é que se deve olhar de outro lugar, ainda que inóspito e eventualmente constrangedor e com certo dissabor ao olhar et nocênt r ico. Um instituto/raciocínio que poderia ser pensado, e aqui apenas a título de exemplo, seria o uma espécie de subsunção cruzada ou propriamente uma “atipicidade cruzada”: subsumir a conduta do indígena à experiência jurídica indígena e não ao direito penal oficial. No momento decisório da imputação, além da antijuridicidade e da culpabilidade, cumpre investigar a tipicidade, e, portanto, averiguar, em razão do imperativo do princípio da legalidade (revelada pela ordem jurídico-estatal, em sua vertente do nullum crimen sine lege), apenas fatos que possam ser considerados “delitos”, já que manifestam o que uma sociedade num dado momento entende como culturalmente reprovável, descrevendo astratamente pelo ‘tipo’ os elementos objetivos da conduta lesiva (normativos, descritivos e subjetivos), bem como os subjetivos (dolo e culpa), independentemente de elementos axiológicos ou de juízos de valor, acreditamos que a questão deve ser posta em outros t er mos . Para descolonizar o direito penal, passa a ser necessário olhar o comportamento do cacique a partir do regramento indígena e não a partir do direito penal brasileiro (art. 217-A do CP), bem como da incoerência epistemológica de se valer das categoriais usadas para definição da própria noção de delito nos termos da teoria tripartite aceita (sem entrar nas agruras que isto causa por si só aos penalistas) pelo CP, optando-se por seguir os traços da racionalidade jurídica guarani, seria conveniente efetivar um juízo cruzado de “comparativismo jurídico” a fim de refletir se o indígena é ou não responsável pelo ato de que foi acusado pelo Estado. Num primeiro olhar, fosse um ato praticado por alguém pertencente à cultura hegemônica, como os tantos atos de violência sexual recentemente denunciados no Brasil (embora ainda em número quase inexpressivo), poderia ser um caso simples e corriqueiro, de se avaliar a tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade do fato a fim de eventualmente reconhecer que a situação hipotética descrita no tipo do art. 217-A do CP incide normativamente sobre o fato, e, portanto, torna o fato um fato delitivo que merece a censura estabelecida com a pena privativa de liberdade. Entretanto, como dito, tais categorias, gravadas por um forte cunho eurocêntrico, precisam ser refletidas desde uma perspectiva descolonial, e, naturalmente, serem abandonadas em prol da tentativa de compreensão do fenômeno jurídico de acordo com as manifestações culturais indígenas, e, logo, de acordo com toda a mundividência guarani e a sua experiência jurídica acerca de um fato como este considerado, pela cultura hegemônica e pelo direito oficial, estupro de vulnerável. Mas optar por revisar isso, não seria discutir um tertius genus, naturalmente, pois a questão não é tão simples, mas também não se pode se sobrepor e impor concepções universalistas estruturantes de diretos humanos ao particularismo informador de culturas e vivências singulares. Nesse ponto, e um laudo antropológico pode e deve auxiliar nestes termos, deve ser destacado que na perspectiva sociocultural do corpo e da pessoa Guarani, a divisão entre a infância e a vida adulta é marcada não pelo critério etário informador da capacidade no sistema jurídico comum (também empregado para análise da presunção da violência nos crimes sexuais), mas pelo advento da menstruação. Já tendo a vítima menstruada quando do ato, isto deve ser refletido. Conforme a pesquisa efetivada acima mencionada, no mês seguinte da menstruação, há a reclusão da, então, mulher por um mês isolada, sem encostar no chão, dormindo em cama suspensa e com comida balanceada de sal etc., enfim, todo um procedimento que marca a sua maturação guarani como mulher, doravante apta ao sexo, ao casamento e à reprodução.112 Para além da questão maioridade/menoridade, o próprio relacionamento entre pessoas de parentesco próximo possui contornos peculiares e flexíveis, quebra de protocolo que merece reparação, sendo que a transposição de fronteiras de parentesco detém implicações coletivas. Contudo, o tratamento do assunto exige procedimentos xamânicos de diferentes níveis de complexidade, e não pode, naturalmente, resumirem-se a uma prisão ou a um tratamento ambulatorial, como se faria pelo direito oficial. É de se pensar se a alterabilidade da vida não significa propriamente um “estupro de vulnerável”, nos termos em que o define o direito hegemônico, mas uma fato comum, com alguns incômodos, mas sem que se afigure como um fato absolutamente inaceitável e tampouco de mesma ou parecida gravidade que se apresente aos olhares da cultura dominante. Também estudos antropológicos mostram que não se pode esquecer que o sexo praticado no mundo guarani apresenta traços bastante diversos do mundo “ocidental” (modo como indígenas se referem à cultura hegemônica), não havendo questões típicas da cultura branca, dentre tantas, como o pudor, o tabu, a privacidade como imperativo, a homossexualidade como patologia ou, no melhor das vezes, como algo levemente aceito, embora exótico. Neste ponto, inclusive, a própria homossexualidade guarani não é reprovada e encontra elementos de boa aceitação para algumas pessoas, por expor a capacidade da pessoa em transitar entre dois mundos, mas também entre o mundo terreno e o dos deuses. Enfim, a sexualidade é pensada de modo diverso, razão pela qual é imperioso não pensar nos “delitos sexuais”, já desde logo e tão somente por isso nos mesmos termos da cultura “padrão”. Também, naturalmente, agregam-se a maturação sexual diversa, que afasta quaisquer perspectivas de vulnerabilidade, tal como a definimos, as relações familiares com famílias extensas diversas, o consentimento que tem perspectiva distinta à medida que a iniciação sexual se dá muitas vezes por pessoas da família e, ainda que soe estranho à cultura dominante, por homens mais velhos da comunidade, a criação familiar e comunitária para o destino da vida na tribo e para o casamento (sem aqui cair no preconceito ocidental de análise, por certo), que se dá bastante jovem, podendo ocorrer já aos 10, 11 anos, enfim, a compreensão do “estupro” jamais pode ser pensada nos termos culturais hegemônicos. Ademais, a própria noção de “consentimento” é também diversa se pensada a partir de uma cultura que não está calcada, como a hegemônica, na moderna e iluminista autonomia da vontade do sujeito de direito, e toda a sorte de elementos que se agregam a esta noção, como um sujeito individual, exemplar, médio, livre, homem (sobretudo), heterossexual, proprietário etc., autonomia privada, liberdade de expressão, mas sim, de um «sujeito coletivo» que revolve desde um lugar «do fora» a noção de autonomia da vontade e do consentimento. Ainda que um laudo de materialidade e perguntas sejam feitas por médico oficial ou mesmo unilateralmentepelo órgão estatal acusador à vítima, esta não assistida como usualmente ocorre, também se deve pensar que a interpretação do ato deve ser de forma mais digna individual e coletivamente tendo em conta a cultura indígena, por meio de práticas capazes de informar a mundividência indígena e proporcionar a comparação que leva em conta a experiência guarani. A confecção do laudo também deve ser diversa ao se ouvir o depoimento da vítima, do contrário é produzido de modo equivocado, porque parte de um paradigma hegemônico, que planifica a diversidade da concepção de mundo da própria vítima, diferente da cultura dominante, inclusive a partir da própria linguagem. Processos judiciais que apuram delitos sexuais são, notoriamente, violadores de direitos de mulheres e crianças, porque insensíveis às violências estruturais inerentes a fatos como estes – são abundantes os estudos que apontam a revitimização das mulheres e crianças característica de uma cultura que culpabiliza vítimas, pautada pelo machismo e estereótipos de gênero. Tratando-se de uma cultura diversa da hegemônica, a questão é bem mais complexa e precisa passar por um “filtro descolonizador”. No caso de pessoas indígenas, a lei penal pode não só reproduzir essa mesma violência e revitimização, mas principalmente ignorar a própria experiência indígena e suas concepções de mundo, sequestrando seus conflitos e enfraquecendo laços comunitários. A proposta para enxergar o fato a partir da experiência jurídica guarani não deve ser infirmada por laudo e depoimento colhido a partir de paradigmas hegemônicos que baseiam a lei penal, que não levam em conta as especificidades de um fato como esse e nem garantem à própria vítima respeito à sua diversidade e às suas visões de mundo. Deslocar o impacto inevitavelmente por “nós” sentido diante de um fato como esse é um exercício de alteridade para enfrentar que a solução da lei penal nem sempre é a mais adequada e digna para aqueles/aquelas que de “nós” divergem culturalmente. Obviamente, pensar assim não é de modo algum concordar com ou desconsiderar violências de gênero ou as minimizar, nem tampouco reconhecer que tais fatos não devam ser criminalizados. A questão é evidentemente mais profunda e complexa, como exposto, e apenas tentando “descolonizar” é que a reflexão se aprofunda. Como dito acima, ignorar isso seria o processo mais simples, mas isto é reafirmar o autoritarismo da cultura eurocêntrica na base da teoria do direito e do direito oficial br as ileir o. Por estão razão, parece que não é nada seguro reprovar estes delitos de modo inopinado, indiscutível e fechado hermeneuticamente perante a cultura guarani, à medida que variam a repressão caso a caso com toda a sorte das características da experiência jurídica guarani. A subsunção a “delitos sexuais”, conforme a cultura guarani, carece de segurança a ponto de se ter a certeza de uma reprovação coletiva e certa do fato praticado pelo cacique inclusive pelos guaranis. A prova de que esta questão não é refletida pelo direito oficial, é sua ausência completa na jurisprudência das cortes superiores113. Descolonizar este exemplo também implicar admitir, em exercício reflexivo e teórico-dogmático, que não se trata de “antijuridicidade” ou de não “culpabilidade”, como usualmente também assim os penalistas o colocam. Por mais valor e robustez nos argumentos que sustentam ser de “erro de proibição”, baseando-se no “erro culturalmente condicionado” de Eugenio Zaffaroni (que quando inevitável afasta a consciência da ilicitude), é de se refletir que se está no campo da «tipicidade» propriamente dito, mas de uma «tipicidade» lida desde um «giro descolonial”, e, portanto, uma “tipicidade cruzada”, já que se está analisando um fato a partir de um “tipo” forjado numa outra cultura, de uma reprovação (ou não) do que se entende como culturalmente necessário de ser protegido pela repressão penal. Talvez pudesse se falar numa espécie de “atipicidade cruzada ou étnica”. A própria configuração da noção de “bem jurídico” discutida pela doutrina, mesmo em perspectivas críticas de legitimação da expansão penal hegemônica, de proporcionalidade e não apenas político-criminal,114 embora densa, também carece de sentido neste caso que envolve subjetividade marginal. Igualmente também se poderia pensar que seria algo afeto à “culpabilidade”, contudo, isto seria absolutamente incoerente pois partiria da análise, baste usual (já que em processos de indígenas no Brasil de regra se instala um Incidente de Insanidade mental”), de que averiguar o “aculturamento”, a “integração” do indígena à cultura branca (ou ao “mundo dito civilizado”, como sói se falar) ou conhecimento desta é algo irrelevante, pois a sua cultura é justamente outra. Em sendo delito entre indígenas, cultura não hegemônica, parece absolutamente incoerente e forma de reforçar a perspectiva etnocêntrica, admitir a insanidade do indígena conforme o “acervo histórico de sentidos” da cultura dominante e do direito oficial. Por isso, refletir de modo intermediário entre tais mundos seria pensar o “erro de proibição” como erro de compreensão e consciência dissidentes, já que a questão central seria a “não interiorização” das regras estatais. Ao decidir pela linha reflexiva e argumentativa de que se está diante de questões culturais e “delito culturalmente motivado” e não de conhecimento da ilicitude penal típica, não há razão para se indagar, por este fundamento, a imputabilidade ou inimputabilidade do indígena, especialmente (ou talvez apenas) por ser um delito praticado entre indígenas e dentro da tribo. A questão evidentemente é muito mais complexa do que médica e baseada apenas no tradicional “duplo critério bio-psicológico”. Trata-se de alguém acusado de ato motivado por uma mundividência específica, mas cujo regramento feito pelo direito oficial é diverso e não de um acusado que não consegue «se determinar conforme o entendimento da ilicitude do fato para o mundo branco». Eis porque a indagação sobre a «inimputabilidade» perde sentido, a não ser se que valesse desta categoria para pensar o entendimento do indígena conforme a experiência jurídica indígena. Enfim, algo que diz respeito à cognição de regras de organização e de vida diversas e não de alguma patologia mental ou desvio anômico que impedisse o razoável discernimento das coisas e das regras “brancas”. Portanto, a partir desta percepção, seria bastante irrazoável (tentando manter a integridade e a higidez da reflexão que se tem feito neste ensaio) colocar a questão no âmbito da “culpabilidade” e não da “tipicidade”. Com isso se reafirmaria uma concepção criminológica novamente hegemônica que lê o indígena como “inferior”, desprovido de “razão e cognição”, da razão que a modernidade eurocêntrica e colonial assim a definiu (Enrique Dussel). Tampouco haveria de se pensar em “atipicidade material”, rechaçada por parcela de criminólogos por incidência do princípio da inadequação social, pois não se está sustentando como socialmente útil ou adequado o ato praticado pelo indígena, mas que se entende como razoável e visto com outra perspectiva e outra gravidade segundo o que a cultura e a experiência jurídica guaranis aceitam como reprovável, portanto, de verdadeira «atipicidade» se fossem utilizadas as categorias tradicionais do direito penal, que, como dito em outros momentos acima, devem ser refletidas desde outro lugar de alteridade, do lugar da cultura jurídica que sofreu o etnojuricídio, que por assimilações culturais, na sua subalternidade, foi obrigada a incorporar a visão de mundo hegemônica. Trata-se, portanto, de fato não incriminado porque não “típico” nos termos da experiência jurídica guarani. Ignorar esta mundividência peculiar indígena e a sua experiência jurídica negligenciada historicamente pode conduzir também a um equívoco, que supostamente pode se esgotar argumentativamente em prol do “respeito ao direito das mulheres e crianças” pela punição do indígena. Tipificar a conduta do indígena conforme o direito oficial aparentementeleva a uma suposta proteção da vítima, contudo, os riscos de uma ofensa cultural parecem ser maiores. Reconhecer a ordem de valores que informa a cultura indígena impedindo a leitura do fato perpetrado pelo cacique como delito não significa amplamente chancelar o comportamento e ignorar o papel do direito oficial para a promoção do direito das mulheres e meninas, inclusive o papel importante para impulsionar a proteção delas dentro da cultura indígena. Sabe-se que mulheres e meninas são segmentos vulneráveis tanto nas culturas hegemônicas quanto indígenas. Assim, emerge a questão: o direito oficial tem a função/ capacidade de, por intermédio da aplicação da lei penal, proteger e promover o direito das mulheres na cultura indígena? A questão é evidentemente complexa, sendo necessário sopesar a aplicação do direito estatal punitivo e sua conseqüente violação à cultura indígena vs a eventual proteção e promoção de direitos das mulheres e meninas na cultura indígena por intermédio da aplicação da lei penal. Ciente de que algumas constituições latino-americanas, sobretudo a do Equador e do México, ao tempo que reconhecem a jurisdição indígena, restringem a autocomposição de interesses a práticas que não atentem contra os direitos humanos e que não protejam especificamente meninas e mulheres, é de se pensar se o uso de instrumentos como a própria Lei Maria da Penha não é perigoso e mesmo irresponsável até certo ponto, porque unilateral, ineficiente e ofensor da cultura indígena. A aplicação do direito oficial parece mais violenta em relação à cultura indígena do que capaz de ser vetor de mudança para a defesa do direito das mulheres e meninas. Parece arbitrário por todos os ângulos que se interprete aplicar a legislação penal a um fato interno da cultura indígena, ainda que aparentemente tenha isso “bons sentimentos”, mas poderosamente contrário ao giro descolonial. A aplicação da repressão penal hegemônica pouco ou nada faria pela promoção de direitos das mulheres, sendo uma punição não reconhecida e improdutiva. O reconhecimento, por outro lado, de que esta é uma conduta inadequada, violadora de direitos, que deve ser sancionada dentro dos ritos indígenas, contribui para o fortalecimento das mudanças dentro da cultura indígena. Naturalmente que não é adequado e muito menos correto, se pensado desde a proteção dos direitos humanos e da proteção das meninas e da mulher indígena, que culturas violem esses valores. Por certo que a violência intra-étnica doméstica é também inadmissível sob qualquer filtro, contudo, a mudança cultural em prol do direito das mulheres deve ser operada de dentro da experiência jurídica indígena, haja a vista a sua complexidade, a sua peculiaridade, e não imposta pelo direito estatal punitivo, sob pena de arbitrariedade e violência. Cumpre às mulheres indígenas e não ao homem branco a escolha da forma de superação adequada da violência.115 Não são poucos os grupos que discutem políticas de redução deste tipo de violência (cujas fontes são bastante variadas, desde questões culturais até mesmo por força do contato com o «Homem branco»), mas fato também é que a desconfiança em termos de desestruturação cultural interna que se promove pelo contato com a repressão estatal penal se apresenta como um lugar comum. O direito oficial, em perspectivas de interculturalidade e interetnicidade própria da variabilidade indígena no país, tem braços outros para proteger e promover o direito das mulheres e meninas, mais próximos de um campo de implementação de políticas públicas não universalizantes para a garantia de direitos, especialmente no campo da saúde, educação, etc. Criação de conselhos de mulheres com participação de mulheres indígenas; previsão de mecanismos que assegurem a participação de mulheres nas discussões sobre questões indígenas em sentido geral; criação de casas de apoio com profissionais habilitados na área da assistência social, psicologia, enfermagem para cuidar de violência indígena propriamente dita; cursos de capacitação de agentes estatais para lidar com a mulher indígena; mecanismos de fomento da mobilidade territorial e intercâmbio cultural para resolução de casos intra-étnicos, enfim, instrumentos baseados numa reflexão e numa praxis epistemológica feminista crítica e descolonial (que discute, especialmente, a subalternidade ao homem heterossexual, patrimonial, europeu, cristão, branco etc.) parecem mais robustos e efetivos na atuação do Estado Brasileiro nestas situações do que por via da repressão penal operada nas instituições oficiais. De modo ainda mais relevante, não se pode ignorar que a criminalização indígena é apenas mais uma das formas de seletividade penal operadas pelas instituições sociais e estatais de repressão. O direito só funciona na sua função sancionatória em face da população indígena, justo porque não está em outra matriz senão eurocêntrica e negligenciadora de vozes dissonantes. Os direitos à saúde, educação, o respeito à demarcação de suas terras, e, especificamente, o fomento à autonomia das mulheres para rompimento de eventuais ciclos de violência não funcionam. Portanto, não parece razoável a aplicação de um direito punitivo sob o pretexto de que é necessário que o Estado reprima condutas atentatórias aos direitos humanos. Nada ou muito pouco foi feito para o estímulo a essa mudança cultural e a sanção penal deve ser o último recurso. Por esta razão, eventual atuação do Poder Público e do direito oficial via processo criminal só reforça um processo segregacionista da cultura e da pessoa indígena, impondo ao juiz criminal um papel neosertanista, cujos traços bandeirantes não podem, nos dias de hoje, sobreviver, se nem sequer num plano político o debate no país tem foros mais freqüente e intenso. A superação operada pela Convenção 169/89 da OIT em relação à sua predecessora 107/57, bem assim a própria Declaração Universal dos Povos Indígenas de 2006 impedem juízo diverso que a leitura da conduta do indígena sob os olhares de sua própria cultura, logo, de uma não tipicidade perante a experiência jurídica indígena. Isto parece ser, na linha dusseliana, a oitiva do pluralismo cultural brasileiro. 5. Microinstruções: do “direito como norma” ao “direito como instrução” Por fim, dando um passo para além deste fenômeno peculiar da realidade pátria, que parece indispensável para uma teoria do direito efetivamente zetética, é de se perguntar, de modo mais geral e com vistas para a revolução tecnológica atual, se ainda subsiste nos dias de hoje a possibilidade de se sustentar a reflexão da essência do direito na ideia de normatividade, seja nas mais diversas concepções ao longo do séc. XX: (a) teoria do mandato ou estatualista – a norma jurídica obriga porque é uma disposição que emana do Estado (Francesco Carnelutti); (b) teoria do conteúdo valorativo – a norma jurídica obriga porque contém um valor (Récaseans Siches); (c) teoria coacionista – a norma pressupõe coercibilidade ou coação (Hans Kelsen); (d) teoria imperativista – a norma é comando ou imperativo (é a teoria prevalente) (August Thon); e (f) teoria mista, que afirma, sem originalidade em comparação às existentes, que a norma jurídica é tanto imperativo quanto disposição estatal (Giorgio Del Vecchio). Estaria esgotado este modo de pensar o Direito? Esta questão se coloca, em parte, seja no país, seja em termos de teoria do direito genericamente pensada, em razão do exaurimento das clássicas construções operadas na dicotomia central do pensamento jurídico: jusnaturalismo vs jusnaturalismo. De modo bastante sintético, porque não conviria aqui dado o seu conhecimento generalizado, a teoria do direito, a par de movimentos críticos como culturalismo, raciovitalismo, egologismo, critical legal studies, magistratura democrática, teoria crítica, uso alternativo do direito, o direito achado na rua, teoria transmoderna etc., rivaliza com nuances diversas entre a aceitação de uma juridicidade positivada, institucional, formal, estatal, objetiva, precisa e centralizada na teoriado ordenamento jurídico, com nulas ou pequenas revisões pelos juízes, já que a competência jurídica estaria democraticamente apenas no povo e seus representantes, e de outro lado a noção milenar de subjetividade, intemporalidade, pluralidade e matriz essencialmente valorativa, com poderes amplos e eqüitativos conferidos aos juízes, que estão no entre-choque direito oficial vs realidade. O “descompasso sinoidal” entre o direito e a realidade não é nada novo e nem o poderia ser, já que o direito na modernidade assumiu esse papel prescritivo das práticas, dos usos, dos costumes, das tradições. Enquanto todas as demais teorias das ciências humanas seguiram passos críticos, a teoria do direito esteve sempre atrás algumas décadas das experiências subjetivas. O direito é essencialmente conservador, seja pela sua própria conceituação, como visto há pouco, já que seu papel deontológico implica um agir, por supostos hipotéticos prévios, após os fatos pela incidência normativa. Ou seja, o direito tem o grande trunfo de engessar a realidade, estabilizando as relações de poder, sociais, econômicas em busca de seus imanentes predicados de certeza, segurança e previsibilidade de comportamentos. Isto implica afirmar, portanto, que as teorias do direito aparecem sempre em momentos paradigmáticos por longos períodos, e nem as teorias críticas conseguem romper com esta perspectiva, pois, uma vez ocorrendo, já estão em descompasso com outras teorias humanas. Apenas a título de exemplo, quando no séc. XIX o juspositivismo começava a sofrer os seus primeiros abalos pelo antiformalismo alemão, na própria metamorfose de Jhering e seus discursos dos anos 1860, quando assume claramente leituras menos formais e mais sociais (a culminar com os discursos de Viena dos anos oitenta), movimento então essencialmente crítico, as teorias descritivas e interpretativas da realidade já estavam em outro momento. As teorias artísticas, e arte propriamente dita, nos anos 1840 está ainda intimamente ligada à visão marxista da realidade, como em Honoré Daumier, que em 1840 pinta “O vagão de Terceira Classe”; como em François Millet, que em 1850 pinta “O semeador”; como em Rosa Bonheur, que em 1849 pinta “Arando no Nivernais”; e de modo mais evidente, em Gustave Coubert, que em 1849 pinta “Os quebradores de pedra”. Essas expressões da pintura representam a necessidade em que arte da primeira metade do século XIX se revestia: criar uma arte fundada na realidade, na mais dura, triste e infiel realidade, com suas condições, ainda que péssimas, reais de existência e seus terríveis pesares. O quadro de Coubert teria surgido no momento de impactos revolucionários que varriam a Europa (terceira onda de revoluções burguesas), o que o levou a criar uma arte que tivesse a realidade como fundamento artístico e inspirador. Como desejava Charles Baudelaire, amigo de Coubert, que queria quadros que expressassem “o heroísmo da vida moderna”, e não apenas pinturas de anjos ou pastos, ainda que recebesse crítica de ser uma arte vulgar e sem conteúdo espiritual. Na poesia, com Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, o discurso poético ganha um mau-humor (spleenful baudelairiano) e uma melancolia, não simplesmente burguesa, embora constituam a fase ultrarromântica, mas principalmente, em virtude das condições repudiáveis em que o ser humano do século XIX se encontrava. Da mesma forma a literatura portuguesa, com Antero de Quental, com seus “Raios de extinta luz”; Eça de Queirós, com “As cidades e as serras”; Cesário Verde; Gonçalves Crespo, Gomes Leal, Guerra Junqueira, e Teófilo Braga. Portanto, a poesia deste período resgata as condições em que o homem moderno, especificamente da época de Marx, vivenciava. A teoria como forma de contribuição à crítica e à mudança do mundo. Em suma, a escultura, a literatura e, sobretudo, a pintura vivem este momento de crítica social quase três décadas antes, e quando nasce o momento crítico no antiformalismo jurídico, a própria arte já caminhava novamente para uma possível abstração de pensamento, já quase simbolista. Ou seja, a teoria jurídica, mesmo crítica, caminha em descompasso com outras teorias humanas críticas, sempre após a crítica e a crise da realidade, servindo como um grande rescaldo apenas dos movimentos de mutação real. Talvez, estes movimentos críticos, quando puderem encontrar suas sinoides com as de outras teorias críticas possam deixar de ser conservação e ser efetivamente a fundação de uma nova perspectiva e servir ao dualismo jusnaturalismos vs juspositivismos. Inobstante esse descompasso, típico da Europa por essência, e o próprio descompasso da colonialidade do saber jurídico nacional acima trabalhado, fato é que hoje se vive um fenômeno peculiar. Os sistemas normativos, historicamente, traduzem-se em sistemas comunicacionais com padrões de funcionamento próprios capazes de manter a relação, em todos os seus níveis, entre autoridade e sujeito, ora um padrão-legalidade, ora um padrão- efetividade. Naturalmente, evitando a fratura de sua funcionalidade, tais padrões pressupõem mecanismos de calibração, como o câmbio no automóvel ou o termostato na geladeira, capazes de compor e equilibrar situações adversas.116 Em termos próprios, implica afirmar que estes calibradores são capazes de identificar uma norma-origem, mesmo que eventualmente esta norma, perante outros modelos de comparação de validade, não a eles se equipare integralmente, sem que isto signifique a sua exclusão sistêmica (veja-se aqui a proximidade com a abertura de Wilhem Canaris). As inúmeras regras de calibração, dispersas no sistema normativo, como interesse público, boa-fé objetiva, princípio da equidade etc., seja por meio de normas postas, seja por decisões judiciais, muitas vezes (mas nem sempre) próximas de cláusulas gerais, permitem que o sistema encontre coerência e coesão à medida que confere flexibilidade e condições de transformação t écnica. Nos modelos normativos em que a regra se estabelece entre autoridade e sujeito, e, logo, relações de sujeição-obrigação, sujeição-proibição ou sujeição-permissão, como os modelos ocidentais, os elementos político, social, cultural e social interferem diretamente na “consistência sistêmica”, de modo que o simples jogo organizado por Savigny no séc. XIX das regras de superioridade, anterioridade e especialidade não é suficiente. A manutenção da estrutura sistêmica, tão bem esboçada por Kelsen na estrutura piramidal (Stufenbau) na esteira de Adolf Merkel, pressupõe cadeias sucessivas de autorização, num produto escalonado de “norma superior-fundante” e “norma inferior-fundada”, entretanto, pressupõe “regras de calibração” que permitam a manutenção não apenas da validade, mas da eficácia das normas e do ordenamento. Nesse sentido, a razoabilidade se torna chave, para além de ponderação de valores, mas de filtro de uma determinada proposição normativa diante de todo o complexo jogo de autorizações e fundações normativas, seja no plano infraconstitucional, seja mesmo no tecido da carta política. Assim, o padrão de validade material de uma norma pressupõe que esta alcance uma efetividade, sob o risco de (inobstante o arcaico desuetudo não permita a exclusão sistêmica) ter de suportar normas arbitrárias, descontextualizadas e retrógradas à realidade fática. O problema desta razoabilidade sistêmica é que, com ela, veio um irresponsável e desmedido ativismo judicial. Oscilando entre o positivismo extremado e o subjetivismo, incrementou-se, no país pós- CR/88, um crescente posicionamento dos juízes como não apenas “guardiões de promessas”, mas senhores da constituição a serviço de seus próprios interesses e seu próprio direito, gerando incertezas, inseguranças e ausência de confiabilidade no direito como “reserva de sentidos”. A compreensão desse ativismo é fundamental, porque talvez justo ele em grande medida tenha esgotado a leitura do direito como norma. Falar de ativismo jurídico117 pressupõe o compreender como inserido na mudança do constitucionalismo modernopara o contemporâneo, e, consequentemente, na base do esgotamento do modelo burguês novecentista. O modelo burguês permaneceu relativamente rígido, apesar das crises proletárias do séc. XIX, até a Segunda Guerra mundial, passando a entrar em crise justamente com a Guerra e concomitantemente à teoria hermenêutica tradicional. A crise operada no constitucionalismo moderno assim se apresentou por força: (a) do capitalismo financeiro e a redefinição das fronteiras estatais (colapso de Viena); (b) da insuficiência do Poder Legislativo na consecução dos direitos e garantias dos cidadãos; (c) do aparecimento do Welfare State e o incremento do Poder Executivo; (d) do ápice do direito nazifacista (negação de direitos naturais) e da noção de extreme Ungerechtigkeit (extrema injustiça); (e) da crise do primado da legalidade (ao se mostrar que, justamente a serviço da lei, foram feitas as maiores irracionalidades da história, logo, a lei já não era simplesmente sinônimo de racionalidade e progresso humano e social); (f) dos movimentos anti- formalistas (jurisprudência dos interesses, movimento livre e realismos); e (g) o Poder Judiciário se modifica, ainda para questionar os limites da legalidade (com os novos tribunais constitucionais, iniciando-se com o Alemão em 1949). A consequência disso foi o que se denomina de constitucionalismo contemporâneo ou neoconstitucionalismo para outros. Trata-se do regime atual, nascido então formalmente no recente pós-guerra, com novas e essenciais características que servem ao que a nova hermenêutica estava por desenvolver em sua perspectiva criativa. De modo bastante sucinto: (a) novas constituições e um constitucionalismo material (Schmitt, Smend e Heller); (ii) as constituições deixam de ser estatais para serem políticas e dirigentes (Verfassungsdirektiven – Peter Lerche 1965); (iii) há uma reaproximação entre direito e moral – dita mudança kantiana (kantische Wende) e a leitura moral do direito; (iv) um reaparecimento do jusnaturalismo, como visto, ao se questionar a validade exclusivamente formal do direito; (v) a idéia de força normativa da constituição (die normative Kraft der Verfassung), a partir da aula inaugural em Freiburg de Konrad Hesse em 1959) – normierend Kraft; e (vi) a constituição passa a ser vista como ordem objetiva (e não mais como “direitos de defesa” – Abwehrrechte) com eficácia de irradiação (Austrahlungswirkung). Estas mudanças, permitindo um amplo papel ao Poder Judiciário na análise das normas feitas pelo Poder Legislativo, a partir das novas constitucionais, trouxeram para a nova hermenêutica (com suas características de pré-compreensões), a própria novação de interpretação constitucional (Verfassungs Auslegung) como concretização (Konkretisierung) de valores e não apenas elucidação de valores existentes, permitindo-se a fuga dos métodos tradicionais de interpretação de Savigny de 1851 e a abertura ao que se passou a denominar de jurisdição constitucional (essencialmente pelos tribunais constitucionais), à medida que, pela interpretação, passaram à atribuição de sentidos e ressignificação dos estatutos fundamentais. Então, as constituições passaram a ser vistas como simples moldura (Rahmenordnung), e, naturalmente, abrindo um amplo espaço criativo (einen weiten Gestaltungsspielraum), com sua ordem de valores (Wertordnung) (por isso, alguns autores chegam a falar que a Begriffsjurisprudenz do séc. XIX, a qual cedeu espaço para a Interessenjurisprudenz, torna-se, então, uma Wertejurisprudenz – Jurisprudência dos Valores), e servindo em última instância como unidade de sentido (sinnganzes). Eis que surge, então, o movimento do judicial review (revisão judicial), no momento em que há o enfraquecimento do PL e do PE, mudando-se o ponto de gravidade para o Poder Judiciário (Schwerpunkt – Bockenford) e seu raciocínio interpretativo a partir (Abwägung – Schlink) dos valores constitucionais. Há, portanto, no neoconstitucionalismo a redefinição da legalidade pelas cláusulas gerais, princípios; uma mudança de efeito (Wechselwirkung) entre “legislações e direitos”; o reaparecimento das discussões sobre justiça e democracia, bem assim a perspectiva de uma nova democracia deliberativa e a reafirmação do poder constituinte pelas mutações constitucionais (Verfassungswandel) – democracia radical. Neste cenário, a nova hermenêutica vem a ser um grande estofo para a teoria hermenêutica, atrelando-se ao papel das constituições, e, sobretudo, ao sobrelevado papel que se concedeu ao Poder Judiciário. Com isso nasce, então, o perigoso (mas muitas vezes necessário), ativismo judicial. O ativismo judicial aparece num momento de crescente constitucionalização do direito privado e judicialização das relações sociais, à medida que o Poder Judiciário passa a ser visto como o ente garantidor da vontade geral. Nesse sentido, manifestam-se concomitantemente: uma amplitude operada pelos novos direitos, os novos sujeitos coletivos, as minorias e a luta pelo reconhecimento de direitos (no Brasil a redemocratização), a constituição abrangente, novas ações constitucionais, novos perfis institucionais (MP e DP), e a reafirmação das garantias do Poder Judiciário. Este ativismo leva ao embate teórico entre procedimentalistas, para os quais o controle jurisdicional dos atos executivos e legislativos deveria se restringir à fiscalização dos processos políticos e tomada de decisão; e substancialistas, para quem há se fazer uma integral revisão destes atos estatais, a partir do caráter valorativo das constituições. Nestes, portanto, o ativismo é proeminente, e se opera pela: (i) aplicação direta da constituição em situações não previstas; (ii) declaração de inconstitucionalidade dos atos normativos; e (iii) imposição de condutas e abstenções ao Poder Público. Não tardaram as críticas ao ativismo judicial. Por certo que não se trata de movimento simples, sofrendo, como deveria ser, inúmeras críticas, que podem ser, sucintamente, assim resumidas: (i) falta de legitimidade (the counter-majoritarian difficulty Bickel, 1962), haja vista que o juiz, especialmente no caso brasileiro, apenas ingressa por concurso, não representando interesse de nenhuma “maioria” ou “minoria” social; (ii) paternalismo da jurisprudência dos valores, pois, como afirma, Ernst Böckenförd, o juiz deixa de ser o guardião da constituição (Hüter der Verfassung) para ser o senhor da constituição (Herr der Verfassung); (iv) os tribunais se transformam no “cume da soberania”der Zipfel der Souveranität, o que igualmente é perigoso, pois não lhe seria função essencial; (v) Winfried Brohm fala de uma oligarquia dentro da democracia (Oligarchie in der Democratie), já que os juízes assumem lugar destacado em relação aos demais agentes públicos; (vi) excesso enquanto legislador positivo, quando, no fundo, foi criado no máximo como legislador negativo ao retirar do ordenamento jurídico normas insustentáveis; (vii) criação de um direito judicial no lugar de um direito legislativo, pois, como afirma Ingwer Ebsen, coloca-se o Poder Judiciário num lugar de super instância (Supertatscheninstanz), ou como diz Josef Isensee, num Estado Jurisdicional (Jurisdiktionstaat); e (viii) permite-se a erosão da juridicidade (erosion der Rechtsform), com uma crescente incerteza do direito e a doutrina de valores (Wertordnungslehre). De outro lado, seu defensores, cujas sustentações não são menos importantes: (i) a legitimidade dos juízes é, no fundo, extraída da própria constituição; (ii) é possível que a intervenção judicial não seja rigorosa, bastando que se faça um uso moderado, com base na teoria do self restraint (Dieter Grimm); (iii) não há como fugir a idéia de constituição como um processo aberto de interpretação (Verfassungsinterpretations als öffentlicher Prozess – Peter Häberle), permitindo a redefinição da “esfera pública pluralista” (die pluralistische Öffentlichkeit), o que muitas vezes a legalidade abstrata e genérica revela por produzir injustiças (ainda que democráticas); (iv) a percepção de que a democracia formalà captura do fenômeno, visto como a manifestação do mundo dos objetos, da objetividade (Gegenständlichkeit). Uma objetividade (e aqui não se pode deslembrar o paradigma da linguagem em que o ser está inserido, logo, um ser que nada mais é do que um acontecimento revelado nos signos lingüísticos) só ocorre na interação da consciência com o mundo, e, logo, no plano da normatividade do direito, entre a consciência cognitiva e normalizadora com os fatos mundanos. Há, certamente, uma dupla implicação existencial (o que o racionalismo e o empirismo rechaçaram aos seus modos), vez que os objetos existem em razão da intencionalidade da consciência e a consciência funda sua existência na manifestação da objetividade. Os sentidos captam a mundidade (Weltlichkeit) e a realidade (Realität) e a projetam sobre a consciência, que, uma vez alterada, exercita-se como experiência e consciência do que foi captado.9 Dessa interação, o fenômeno se apresenta ao sujeito cognoscente como que lhe é dado no universo de sua vivência. É na sua vivência que se constrói a sua percepção, o caminho de realização da existência humana. Cabe a ela, porque também dirigida a algo, perceber a objetividade, não em sua pura essência, mas em seu estado – estados de coisas. Nesse sentido a fenomenologia se remete às coisas mesmas, pois a percepção se envolve com seus estados e não apenas com fatos que se desbordam das coisas. Elas se manifestam à intencionalidade perceptiva em suas variadas maneiras, de modo que a fenomenologia concentra-se, então, na ciência desta vivência consciência-mundo (intencionalidade e estados de coisas). Ao projetar-se sobre o mundo, a percepção da intencionalidade da consciência captura os estados das coisas, o modo como as coisas se manifestam na fenda de abertura no mundo. Por meio da redução fenomenológica, o mundo é posto em parênteses, nos quais as crenças, os sensos comuns e mesmo as explicações científicas tradicionais são suspensos de modo a permitir ao sujeito recuperar do mundo aquilo que realmente é. É o que permite auscultar as coisas mesmas, a essência (eidos) para além da simples manifestação do fenômeno, garantindo a sua vivência e sua evidência no espaço subjetivo do “eu penso”, tal quisera Edmund Husserl no resgate cartesiano. Pensadas as coisas deste modo, imbricam-se sujeito-objeto como categorias indissociáveis, de correlações recíprocas, que fazem os estados das coisas se manifestarem na vivência subjetiva e na objetividade das coisas – justo lugar de onde partem e retornam os sentidos. O agir da consciência se mostra como atitude fenomenológica e se evidencia pelas razões da fundamentação nas escolhas próprias que o intérprete faz para desvelar a normatividade dos fenômenos. É assim uma atitude fenomenológica (phänomenologische Einstellung) à medida que o ego promove a interação da consciência e sua atividade de conhecimento (atividade noética – noesis) e da subjetividade com o mundo (unidade significativa do objeto – noema) (Edmund Husserl), tomando uma posição radical que pretende constituir o mundo desde si. Ao promover a intenção descritiva das essências dos fenômenos, tem-se esta interação noética-noemática, diga-se subjetivo-objetiva na polaridade própria da atividade cognitiva (valor-realidade, tal avançou Miguel Reale e seu criticismo ontognoseológico de base fenomenológica). O intérprete faz a o mundo ser vivido na consciência intencional, operando uma redução fenomenológica (phänomenologische Reduktion), selecionando as notas essenciais, passando por alto (übergehen), retirando o que é posto ao espírito como acessório, até chegar à essência das coisas. Pratica, então, “a dúvida metódica de tudo o que não se ofereça como evidente na consciência, na relação intuicional.” (Edmund Husserl) A intuição permite e instaura a percepção ao visualizar os variados vetores de sentidos no mundo. Não idealiza o mundo e nem o reflete, ao contrário, capta os objetos no mundo da vida postos à intencionalidade perceptiva. É neste viver subjetivo do fenômeno intencionalmente percebido, que o exercício da compreensão do mundo e do julgamento se manifestam. É por este processo fenomenológico que o sujeito expõe-se ao mundo e desvela a vivência no a priori material de sua consciência. É o momento do cuidado (Sorge) que se expressa nos estados das coisas, visto como um anteceder-a-si-mesmo-no-já-ser-em-sendo-junto-a (no querer fenomenológico do terceiro modo de ser de Sein und Zeit heideggeriano) se imbricando na consciência intencional do sujeito e do seu modo de ser exterior. A exterioridade absoluta entra em acordo com a normatividade fenomênica dos fatos, desvelando o Dasein (ser-no-mundo), aquele anteceder-a-si-mesmo (Sich- vorweg), um estar-lançado (Geworfenheit). Ocorre, então, a manifestação da consciência no mundo da publicidade (Offentlichkeit) que permite o reconhecimento da objetividade, do Dasein próprio (Selbst) do sujeito (Martin Heidegger). A consciência explicita então a vivência dos sentidos que se forma num tríplice modo-de-ser (Seinsart) enquanto ser-no-mundo (Dasein): da coisa, com sua estrutura ontológica substancial e suas propriedades; do manual com sua estrutura ontológica da manualidade (Zuhandenheit) e seu para-algo (Um-zu) ; e, do homem, com sua estrutura ontológica do cuidado como um anteceder-a-si-mesmo-no-já-ser-em-sendo-junto-a. Evitando, no que é possível, a obscuridade da linguagem heideggeriana, sucintamente, entendem-se estes modos de ser no raciocínio a seguir. (a) O ente possui substância (materialidade ou idealidade) e se mostra com propriedades, como o pincel do artista, o artigo do acadêmico, a música do violinista etc.. (Heidegger usa martelo – Hammer –, plaina – Hobel –, agulha – Nadel –, sapato – Schuh –). O pincel é fino, com pêlos longos e escuros; a música é intensa, grave, alta etc. O pincel e música o são não por suas propriedades, mas por suas matérias. Há, assim, uma estrutura da substância pincel e música com suas propriedades, levando, então, à forma como o ente se mostra em seu modo de ser da coisa, da coisidade (Dinglichkeit). Eis o centro de atenção das ciências. (b) Não basta a coisidade para explicar algo, pois não basta dizer que um pincel é uma estrutura de madeira com pêlos (e suas propriedades fino, longo …) ou a música é uma combinação de sons e ritmos pré-organizados no tempo (e suas propriedades intensa, grave …). É preciso saber para que serve, como se dá a sua lida, a sua manualidade/utilizabilidde (Zuhandenheit), a sua ocupação (Besorgen), em suma, seu segundo modo de ser como manual/instrumento (Seinsart des Zeugs), como ser-para (zu-sein), como algo-para (etwas, um zu). Logo, um pincel e uma música, na medida em que estão sempre à mão (material ou idealmente), definem-se não por sua substância, mas para que servem, pelo modo de sua ocupação: um pincel nas mãos de um pintor para produzir quadros e afrescos e uma música nas mãos de um violinista para produzir arte, congraçamentos, terapêutica, ritos sociais e culturais … Ampliada a reflexão em busca de sua totalidade, olhando para o mundo circundante, é possível avançar sobre o pincel e sobre a música a partir de seu ser como manual, pois do pincel e sua capacidade de produzir afrescos ou da música e sua terapêutica, na sua extensão, aparece a matéria-prima fios de crina de cavalo ou sintéticos, e a crina de cavalo de potros ou não etc. ou sons de uma terapia, junto com aromas e cores relaxantes etc. Há uma extensão da coisa e sua ocupação até chegar ao núcleo da natureza, quando esta se abre como mundo circundante do manual, a conformidade-a- mundo do mundo-ambiente (Die am innerweltlich Seienden). As coisas (pincel e música) existem junto de algo (mit … bei, bei etwas), remitidas para algo, conjuntas a algo (bei etwas sein Bewenden), ou dito simplesmente por Heidegger, como conjuntação (Bewandtnis). No entanto, as coisas (pincel e música) aparecem para o homem antes como manualidade do que coisidade (há uma prioridade ontológica, já que antes se vê o pintar do pincelnão é necessariamente equitativa e racional, sendo importante ter em vista que as premissas da maioria podem ser movidas por interesses privados, permitindo uma moral reading of constitution (Ronald Dworkin); e (v) para fugir da busca de valores pessoais no processo interpretativo (algo que a pré-compreensão coloca, como visto), a saída é a pensar num “constitucionalismo cooperativo”, de modo que o Judiciário, numa sociedade órfã (Vaterlosen Gesellschaft – Ingeborg Maus) pela deficiência do Poder Legislativo e do Poder Executivo, passe a ser o guardião das promessas constitucionais (guardien des promesses), como disse Antoine Garapon, dos valores cooperativos lá existentes e não os seus valores pessoais. A par disso, fato é que no Brasil, nos dias de hoje, esse movimento, defensável ou criticável, apresenta traços mais drásticos, que é o personalismo evidenciado. Não são poucos os processos judiciais, os membros do Ministério Público e da Magistratura que passaram a ocupar lugares de destaque no mundo midiático. Juízes moralizadores, heróis, transformaram este movimento do ativismo judicial em verdadeiro instrumento egóico, e, com isso, quebraram ainda mais o papel da estabilização e institucionalização de sentidos pelo direito. Nem mesmo instituições clássicas de harmonização e estabilidade institucional, como os tribunais superiores, escaparam deste processo de personificação da justiça, com evidentes conflitos internos, mudanças diárias de jurisprudência, influências político- partidárias etc. Enfim, o direito enquanto instituição perde seu caráter de “reserva histórica de sentidos” e acaba por se tornar, na lógica do hipertexto, móvel e fluido. O modo como o Estado, as experiências jurídicas e os cidadãos tem costurado esta relação com o fenômeno jurídico parece indicar um caminho diverso, sobretudo se pensada a “crise de sentidos” que há por força daquele quarto pilar de crise, ao lado da modernidade, pluralismo e secularização, ou seja, a virtualidade. O autocontrole dos meios clássicos de formação da opinião pressupunha, no passado, sempre a formação de repertórios tópicos, estáveis ou móveis, capazes de orientar o que deveria ser dito como um tema válido. Esses repertórios eram também um requisito para o controle das fronteiras da esfera do que se dizia em público e que, no passado permaneceu, quase sem exceção, relegado a uma tópica bem-comportada no âmbito do direito privado. Formavam-se redes completas de decisões judiciais que garantiam para as diversas constelações (esfera pública política, entretenimento, arte, ciência) uma “proteção de fronteiras” móvel entre a liberdade de opinião e direitos de personalidade que, apesar da vagueza de seus lugares comuns gerais e da multiplicidade de possibilidades de comparação e ligações, permitiam uma certa previsibilidade das fronteiras do dizível – isto é, daquilo que pode ser dito e que deve ser provado. Veja-se, por exemplo, o tema da proteção judicial à honra, que depende da existência de normas sociais práticas, geradas por meio dos meios de comunicação e apoiada pela formação de lugares comuns jornalísticos (ética jornalística). Essas normas precisam ser mais ou menos aceitas ou endossadas pelo público geral (lugares comuns aceitos socialmente). Hoje, contudo, essa formação da opinião pública parece ameaçada. Quando, por exemplo, a não condenação de um político por causa de frases públicas, consideradas como ofensivas, que ele direcionou a seus apoiadores, foi vista por parte do público (os “outros”) menos como uma espécie de troféu, mais como um acinte, então, percebemos que a proteção à dignidade, como topos fundante da personalidade, parece não funcionar inteiramente. A erosão das fronteiras do dizível na fragmentada rede das redes que é a internet é, assim, evidente. Ofensas a direitos de personalidade tornaram-se endêmicas. Antes mesmos da discussão sobre fake news já era possível observar que os lugares comuns historicamente válidos não encontram nenhuma consideração na internet, até porque a proteção privada da honra parece praticamente derrogada. E como isso repercute no âmbito da práxis jurídica? Fica difícil conceber, por exemplo, a velha exigência do dever de prova, o onus probandi no sentido tradicional. O fazer, o provar sem meta preestabelecida, além da capacidade de julgar por meio de um processo de ajuste de argumentos e de coordenações de decisões com os argumentos, não vai muito além de uma forma liquefeita de pontos de vista comuns. Segue daí o aparecimento de formas (alternativas) de resolução de problemas, orientadas mais fortemente pela mudança do que pela manutenção, que permitem uma espécie de “learning by monitoring”, uma práxis que se deixa observar, por exemplo, na concessão de liminares pelo Supremo, cujos conflitos permanecem em suspense mediante juízos ad hoc, e que implicam formas procedurais modulares de viabilização que, ao longo do tempo, precisam ser encontradas em um contexto que se encontra para além dos lugares comuns tradicionais. Trata-se, porém, de uma tópica diferente. Ao invés de culminar em catálogos móveis e diferenciados de topoi, em que princípios se revelam antes como proposições diretivas e procedimentos interpretativos se direcionam por abduções mais que deduções (por exemplo, partir de asserções cientificamente verdadeira para concluir numa direção que a falseia), ela aparece agora como se o raciocínio jurídico obedecesse a uma nova “lógica”, a lógica do hipertexto, como visto anteriormente, desses textos eletrônicos cujas partes remetem a outros textos e a outras partes e a outros textos. Tudo é então possível de se ligar a tudo mediante links. Essa perspectiva inova consideravelmente, pois o hipertexto, como se percebe, livra o sentido do discurso da forma “livro” e da autoridade do autor. O hipertexto desconstrói a escrita linear e a sugestão dessa de que as ideias são organizadas de modo homogêneo, pois torna explícita a coexistência de diversas estruturas. Está-se numa forma de comunicação em rede. Na verdade, nem mesmo rede, mas formas de nós em expansão, para todos os lados. O que lembra um pouco o papel desempenhado pelas antigas notas de rodapé generalizantes a um texto e suas múltiplas referências, porém, agora tornadas texto (hipertexto). Com isso a textualidade argumentativa em sua forma linear espacial, vertical/horizontal (autor, enunciado, argumentos, conclusão) se vê substituída por um processamento sobrelinear, organizado mais temporalmente, não cronologicamente (diacronia), mas por operações sincréticas (sincronia). Em termos de argumentação, exige-se uma forma mais complexa de organização, um modelo acêntrico, não hierárquico, capaz de conjugar decisões a partir de standards que ele mesmo produz. Ou seja, um modelo nem escatológico nem em rede, nômade, pois capaz de produzir diferenças assistemáticas e inesperadas, dividindo e abrindo, sendo possível diferenciar e sintetizar ao mesmo tempo. Com isso, a decisão jurídica, no seio do ativismo judicial, ganha um destaque especial, pois se libera efetivamente de um todo pré- constituído. Em lugar do poder de decidir ela aparece como uma decisão de poder (não um decido porque posso, mas um posso porque decido), que está registrada numa ordem acêntrica e heterárquica (Deleuze/Guattarry), de possibilitar a abertura para o novo, para o desconhecido. Essa conclusão conduz ao que já se vinha discutindo neste ensaio, a superação inevitável do direito como norma por um direito como instrução. A erosão dos lugares do direito; a motilidade e o personalismo das decisões judiciais, que estão muito além de serem petições de princípio ou de política, mas sinceras expressões de idiossincrasias; das categorias elementares como a noção de direito subjetivo;118 da perda gradativa e robusta de seu caráter institucional de “reserva de sentidos”, enfim fragmentam insistentemente a noção de direito como foi perseguida historicamente nos últimos dois séculos. Trata-se de um direito que perde sua autoridade e passa a ser desconfirmadosobre o quadro ou a música sendo usada em rito cultural, como casamentos, festas etc., tudo antes do próprio pincel e da música. (c) Isto leva ao modo de ser do homem, já que o pincel e seu pincelar de arte, ou a música e sua arte de congraçar existe em função daquele que quer ver e regozijar-se com a pintura, ou do ouvinte e seu deleitar com a música. O como a obra de arte deve ser feita, o como a pintura e a música hão de ser produzidas é posto pelo homem. Os instrumentos se direcionam para o homem e só podem ser compreendidos para ele. Em suma, um pincel e uma música só hão se ser entendidos (verstehen) se vistos como instrumentos – modo de ser como manual – , com suas substâncias e propriedades – modo de ser como essência – , usados pelo homem para um fim cultural desejado (logo, sempre historicamente determinado) – modo de ser do homem. Um homem é um anteceder-a-si-mesmo ou ser-adiantado- em-relação-a-si (Sich-vorweg-sein) , posto que é livre e, apesar de ser condicionado pelo mundo circundante, não é por ele na essência determinado, logo, é um para-nada ou sujeito falta de mundo (weltlosen Subjekt), podendo escolher livremente o que pretende ser, suas possibilidades existenciais próprias (eigentliche existenzielle M ögl i chkei ten) . O fato de ser condicionado implica sempre um já-ser-em ou aquilo-em-vista-de-que (worumwillen das Dasein), visto a partir do mundo circundante, isto é, um pintor ou um violinista, já o foi, mas poder vir a deixar de sê-lo. Sua totalidade se exerce, por fim, ao ser- junto-a (Sein-bei), porque interpretado desde os outros entes com os quais ele convive. Assim, o pintor e o violinista o são porque o pincel e a música, como substância e suas propriedades do modo como utilizados para algo, tornaram-nos artistas vistos assim desde sempre (em sua vivência interior e no confronto com o mundo) “adiantados-em-relação-a-si-mesmos”, marcados pelo mundo em que vivem – “ser-junto-a”, mas livres para serem outra existência – “já-ser-em”. Em suma, é nesta peculiar totalidade existencial que o homem e o objeto, a noesis e o noema se entrelaçam, expondo-se ao mundo. São nestas exposições, exteriorizações e interiorizações concomitante da dupla implicação sujeito-objeto na reflexão fenomenológica que os sentidos se constituem na consciência humana, e, sobretudo, é nestes termos que o direito aparece como mais um lugar de reforço dos sentidos, ou, ao menos, assim o fez durante parte da modernidade. A consciência captura os objetos (estes já forjados também pela normatividade) e formula os sentidos, que se apresentam mais ou menos como pontos de partida para escolhas, julgamentos, decisões, ações e comportamentos. As experiências individualmente consideradas separam-se da simples vivência (do Dasein) e são capturadas pela consciência, ao passo que conectadas por esta com outras experiências, postas em comparação por relações qualitativas e quantitativas de igualdade, similitude, diferença, singularidade a partir de núcleos e contextos. É neste processo que o sentido se forma em seu grau mais elementar, ou seja, ele não é real, ele não existe propriamente dito, senão apenas enquanto linguagem, mas que, por ser sempre referencial às vivências, apresentam-se como “formas complexas da consciência”, ou seja, o sentido nada mais é do que consciência de que há relações entre experiências (Peter Berger e Thomas Luckmann). Da mesma maneira, a própria experiência é relacionada pela consciência com diversas outras experiências, e, sobretudo, com algum tipo de experiência, um esquema ou alguma máxima comportamental. Eis aqui o lugar privilegiado de códigos morais, que se apresentam como máximas para delinear padrões de comparação e correlação de experiências, e, não menos relevante, o direito (moral única, vencedora e legitimada), como paradigma privilegiado de padronização. Juridicidade, moralidade etc. se tornam acervos sociais de conhecimento subjetivo das experiências vividas como “sentidos” pela consciência. A experiência subjetiva é vivida intencionalmente pela consciência, que a coloca em relação com outras, classificando-a existencialmente ou a partir de uma classificação retirada do acervo social do conhecimento, para então integrá-la num plano geral de ação. Embora vivida na consciência, esta experiência individual não é isolada senão produto obrigatório da coexistência do indivíduo em sua comunidade. Por isso há múltiplas experiências da “ação” enquanto um “agir social”. Os sentidos se formam nas vivências individuais apenas num primeiro estrato, num plano mais inferior, porém, à medida que sua experiência jamais pode ser isolada, estratos superiores o conectam com sentidos vindos das experiências dos outros, objetivando o próprio “agir social” e o “sentidos comumente vivenciados”. Não há, portanto, um sentido que possa ser apenas e puramente individual, já que sua formação é obrigatoriamente um produto complexo das percepções individuais das experiências, mas também, do “acervo social” que se vivencia concomitantemente. De modo rudimentar: ao vivenciar a experiência da morte de um parente próximo, sentidos sobre vida e morte (dos mais abstratos aos mais concretos) são forjados para o indivíduo, mas que não o mantém em termos puros, porque junto com a experiência subjetiva há de sua parte um recurso consciente e inconsciente ao “acervo social” institucionalizado dos sentidos igualmente sobre a vida e a morte (presentes em decorrência de tradições e instituições diversas ao longo de sua socialização primária e secundária: família, igreja, escola etc.). Ao nascer, o indivíduo já se depara com esse “acervo histórico de sentidos” formatado por inúmeras razões: a localidade (o país, a cidade) de nascimento – que guarda suas idiossincrasias na forja de sentidos em relação a outros; a época em que nasce – cujos costumes criam e aniquilam sentidos em perspectiva diacrônica; a família na qual há de ser criado – já que passará suas primeiras percepções sobre os sentidos nucleares, mas também gerais de sua história; a comunidade em que vivenciará suas primeiras socializações; a escola e sua formação técnica; a igreja, quando presente, na condução dos sentidos da fé e da crença; etc., enfim, “instituições” que se apresentam como “acervo social do conhecimento” (sozialer Wissensbestand).10 Estas instituições, ao fornecerem/imporem ao indivíduo, para além de uma cultura peculiar, tipificações, classificações, padrões de experiência e esquemas de ação, orientam seus pensamentos, suas escolhas, seus juízos, suas tomadas de decisão, e, principalmente, suas ações. De modo reconfortante, sua função também passa a ser de dar “soluções” aos questionamentos existenciais do indivíduo, aos seus problemas e às suas angústias diante da complexidade e da contingência da vida, tornando o seu agir mais tranqüilo, mais “socialmente aceito”, mais imediato (auto-evidente) porém. As instituições exercem assim um papel nas experiências individuais de atenuar a ansiedade, a inquietação, o temor diante do novo e das vicissitudes da vida. Ao se cumprir com os sentidos socialmente outorgados, vistos como “patrimônio de experiências”, a aflição diante do desconhecido, do como se deve ou não agir em uma determinada situação da vida é e amainada pelo “acervo histórico de sentidos”. Para além da serenidade que conforta o agir subjetivo, este “acervo histórico” nivela e homogeneíza respostas diante dos desafios da vida à medida que fornece, com seu arcabouço cognitivo e moral, as possibilidades e as probabilidades de reações sociais, de variações temporais, de caminhos presentes e futuros, de sistemas de esforço e recompensa, de retribuições e, sobretudo, de segurança, certeza e previsibilidade de condutas. Este acervo cria uma noção de reciprocidade intersubjetiva (querida ou não) entre presentes e entre ausentes (na transmissão geracional de valores e conhecimentos), vez que, ao padronizar respostas ou no máximo possível as tornar semelhantes, vincula e implica indivíduos socialmente os mesmos pensamentose as mesmas ações. Tem-se, então, numa linha não distante do parsonismo, uma “institucionalização” operada entre indivíduos em torno de sentidos11. Mais complexa e mais dinâmica que o estrutural-funcionalismo norte- americano, já que a questão temporal está presente. O “reservatório social do sentido” manifestado pela “institucionalização” apresenta, naturalmente (ou ao menos nas sociedades mais complexas) atividades especializadas que hierarquizam valores e saberes, estabelecendo critérios de ordenação, bem como funções especializadas de censura, canonização, pedagogização, sistematização, classificação etc. Nesse se encontram catálogos organizados de saberes e de sentidos, cuja função primordial é fornecer “esquemas de ação”, cujas máximas morais e comportamentais regulam ao tempo que explicitam as “condutas individuais”. Forjam-se “áreas de sentidos”, cujas rotinas cotidianas servem a reprocessar socialmente os sentidos e que encontram nas “instituições” o papel primordial de controlar a produção dos sentidos, regular sua transmissão, conservar e os disponibilizar, ou seja, orientar o seu próprio fornecimento. O “sentido de agir” é então posto para o indivíduo, por meio das instituições, como natural, imanente, exclusivo e ao mesmo tempo “óbvio”, ainda que desvios possam existir e ainda que questionamentos o tornem passível de falhas e inseguranças. O indivíduo é configurado, ao cabo, pelas instituições, que administram as “reservas de sentido”, e o seu sentido subjetivamente constituído é moldado pelo sentido objetivo formal, empurrando-o a agir de acordo com o modelo pregado pelas instituições. Desde novo as ações subjetivas passam a ser regulares, diretas, recíprocas e previsíveis entre pais e filhos, e as demais pessoas igualmente agem conforme “esquemas de experiência”, repassando os sentidos reservados institucionalmente. E aqui então está esboçado o que se perdurará. A “identidade pessoal” se funda desde logo num fatal sistema de valores obrigatórios que estão contextualmente presentes no momento em que se forma. Por gestos, palavras, conversas, exemplos, passa a ser reprimido e incentivado, num sistema consciente e inconsciente de prêmios e punições, pela “comunidade da vida”, que partilha, apesar de algumas reticências, do mesmo sistema de valor historicamente hierarquizado. Reforçam-se assim os sentidos e a própria confiabilidade e durabilidade nas instituições (famílias, igreja, mercado, colégios, polícia, escolas de artes, direito etc.). Ainda que divergências haja, nas comunidades de vida há uma “comunhão” de sentidos, ao menos sobre valores e questões primordiais. Comunidade de vida são, então, comunidades de sentido, se tudo mantiver-se nas mesmas condições. Se não houver imposição pela força, atos desviantes, ou negação de sentidos aceitos, são reconfigurados para igualar-se ao acervo ou, então, eliminados enquanto formas de expressão e ação. O problema está justo na desconfirmação. Questão esta que se verá adiante também quando se pensa num direito inoficial desautorizando o direito oficial. A desconfirmação implica o que se chama de “crise de sentidos”. Partindo de sociedades em que não há um sistema de valores único e obrigatório, típicas das sociedades primeiras ou muitas vezes religiosas, as crises ocorrem quando parte dos membros da comunidade da vida se chocam contra a comunidade de sentidos, pois os valores comuns não asseguram estruturalmente uma homologia com interesses e valores intersubjetivos. O bem comum se põe em contradição com as preferências subjetivas e o modo como parte da comunidade se reconhece existencialmente e então a própria noção de instituição entra em crise. A crise intra e intersubjetiva se apresenta à medida que a coexistência de diferentes ordens de valores e fragmentos de ordem de valores não dialoga com a “comunidade de sentidos” historicamente configurada, rechaçando perspectivas pluralistas. Quanto mais complexa são as sociedades, maior a propensão a tais crises. Isso passa a ser relevante neste ensaio, talvez, por três grandes argumentos: um, em razão da crise de sentidos na contemporaneidade, fruto da modernização, pluralismo, secularização, e, sobretudo, virtualidade da vida; dois, pela própria crise institucional do direito atualmente no Brasil e sua falibilidade em manter-se na sua integridade normativa; e, três, em razão da colonização do saber jurídico e da dogmática domésticos, que distanciam a comunidade da vida multiétnica e plurinacional da comunidade de sentidos operacionalizada pelo direito oficial. 2. Direito, institucionalização e estabilização de sentidos Diante disso, enquanto a maior parte das instituições conta com sistemas apenas culturais e políticos de legitimidade e aceitação no imediatismo, o direito coloca-se, então, como um saber destacado de respostas, porque seu lugar na quadratura dos poderes estatais e dos processos mentais científicos é qualificado pela mais alta “institucionalização”12, segura, reforçada, constante e balizadora de ações e pensamentos enquanto “reserva social privilegiada de sentidos”. O direito lido assim desempenha papel relevante na estabilização de sentidos ao padronizar formas específicas de agir e valores também específicos. Aqui a sociologia luhmanniana, embora siga outra vertente naturalmente, porque sistêmica, pode auxiliar na explicação deste papel, que não difere da sociologia do conhecimento (apenas, evidentemente, nesta questão). Partindo da idéia de que o mundo contemporâneo é “contingente”, porque não há relações necessárias, pré-determinadas, senão pluralidade de opções a partir da sempre possível análise, observação e decisão diversa; mas também “complexo”, vez que há relações várias, distintas opções de informações e de caminhos, impedindo a logicidade da causa- consequência, e de que a sociedade é uma “rede de comunicações” entre subsistemas a partir da idéia de “sentido”, como o grande redutor destas inseguranças, crê a sociologia luhmanniana que as operações sociais são constantes entre a vida, a personalidade e a sociedade, e a única forma de organizar a complexidade externa e permitir que o sistema psíquico subjetivo se oriente para a comunicação coletiva é pelo “sentido”. A cognição aberta a estímulos e ruídos (order from noise), embora fechada operacionalmente, só se exercita porque o “sentido” seleciona as informações que podem ser captadas social e individualmente, e diz o que pode ou não estar dentro do sistema social e não no ambiente. É justo, portanto, pelos “sentidos” formados pelos sistemas, de maneira essencialmente autorreferencial, porque operações do passado projetam sentidos futuros, que a complexidade da vida permite o encontro intersubjetivo de modo seguro e estável. Cumpre, portanto, ao “sentido” este papel redutor de complexidades, servindo como lugar de respostas para o indivíduo se socializar, certamente, mas, sobretudo, orientar suas ações. O direito, enquanto instituição redutora da complexidade da vida pela superação e confirmação de expectativas normativas, afirma e reafirma sentidos através de uma operação de forma, indicando situações aceitas a partir de sua qualificação binária lícito-ilícito, e definindo identidades e diferenças recebidas no sistema jurídico (marked spacee unmarked space).13 Indicação e distinção (“drawn a distinction”) qualificam o direito nesta perspectiva sistêmica como um lugar hábil a ser “reservatório de sentidos”. À medida que ele, como qualquer outro sistema ou subsistema, não consegue dar resposta a toda perturbação que ele sofre (já que é operacionalmente fechado), as experiências individuais lidas como “informações do ruído”, ao tempo que podem gerar reestruturação do próprio sistema, e, logo, reformulá-lo enquanto “acervo histórico de sentidos”, também o reconstrói por estas operações de forma, de indicação e distinção, comunicando ao ambiente e especialmente ao sistema social (por um acoplamento estrutural – Strukturelle Kopplung)14 novas orientações. Informação, emissão, entendimento e aceitaçãocontribuem desde a perspectiva do direito para identificar sentidos e os estabilizar, e, especialmente, para evitar as angústias nas tomadas de decisão cotidianas. As instituições, portanto, colocam-se num lugar privilegiado para trabalhar com estes sentidos. Elas criam “esquemas”, “padrões”, “categorias” a partir dos sentidos em diversos níveis epistêmicos: desde a forja cognitiva na construção do pensamento, quanto a partir das idéias de mundo produzidas e interiorizadas, a possibilidade de julgamento entre sentidos desejáveis e indesejáveis, úteis e inúteis, eficientes e ineficientes, morais e imorais etc., bem como escolhas possíveis entre opções julgadas, passadas em exame e refletidas, e, por fim, orientar ações, condutas e comportamentos a serem empreendidos pelos cidadãos. Este processo institucional e autoritário ao fim cumpre o papel de orientar, e, sobretudo, de estabilizar os sentidos sociais, conduzindo com a sua repetição exaustiva e padronizada a formação de prejuízos, de tradições e conservações de sentidos. A mecânica da formação desses sentidos é comunicacional, pois está no modo como emissor e receptor trocam proposições diante das expectativas frustradas (razão para que o direito atue decisivamente) e o modo como um terceiro emissor, um emissor normativo, pretende superar tal frustração contra-fática. A estabilização dos sentidos encontra seu auge justo no instante em que as expectativas se frustram e o direito, enquanto instituição, com sua carga autoritária e subtraído à avaliação de existência formal dos envolvidos, para a se sobrepor às agruras subjetivas, escolhendo, fundamentando, decidindo o valor, a moral, a técnica, enfim, o “sentido” prevalecente diante da ossatura do ordenamento jurídico estatal. Isto se torna mais claro a partir da compreensão da norma como discurso. O direito lido em perspectiva comunicacional estabilizador e institucionalizador de sentidos vê a norma como um fenômeno lingüístico, e, portanto, muito mais complexo que a simples relação entre poder e direito desde a perspectiva sociológica, e sim poder e direito em linhagem microfísica. Explicitando, na teoria da linguagem, enquanto a morfologia se ocupa do estudo dos termos em si, a sintaxe da relação entre os termos/objetos, a semântica da relação entre o termo/sujeito e o objeto referenciado (significado); a pragmática se ocupa da relação entre o sujeito/objeto e os demais sujeitos. E aqui reside a questão central. A pragmática jurídica preocupa-se com os aspectos comportamentais da relação discursiva, valendo-se do “princípio da interação” (mensagens trocadas entre pessoas – Watzlawick-Beavin-Jackson). “Uma análise pragmática é um estudo dos aspectos comportamentais no uso dos signos, por exemplo, das palavras”15. O “ato de falar” é uma relação entre emissor e receptor por meio de signos lingüísticos. Mesmo quem não participa de uma argumentação, ou não quer, ou não está preparado para ela, está dentro de uma “situação comunicativa” (princípio da impossibilidade de não comunicação). A pragmática ressalta que a ideologia é um fator indissociável da estrutura conceitual explicitada nas normas gerais, pois para existir univocidade significativa, é preciso prévia coincidência ideológica (conexão entre as palavras da lei, fatores políticos e ideológicos). Nessa perspectiva pragmática, a norma é uma comunicação que expressa entre emissor e receptor uma atitude normativa (discurso normativo). É discurso por ser ato de fala dirigido a alguém com vistas a ser compreendido por outro. Ao colocar-se um “orador” (aquele que propõe a primeira asserção embasada – pretensão de autoridade por desejar ser aprendida e repetida), um “ouvinte” (destinatário da ação lingüística) e uma “questão” (ação lingüística que deve ser compreendida), tem-se uma “situação comunicativa”. Toda comunicação envolve dois níveis: o da informação (relatio) que é passada, e o do modo como o ouvinte deve se portar diante do emissor (metainformação – cometimento). Ao se dizer algo para que alguém o faça, há a relatio, que implica no conteúdo da informação (Fale baixo!), como o cometimento, que exige do ouvinte o comportamento desejado pela subordinação (faça) ou pela coordenação (por favor). Este cometimento é digital/verbal ou não– verbal (p. ex., entonação de voz, gestual). A norma, então, discurso, porque gravada pela troca de informações, apresenta característica peculiar, que não é comum a qualquer discurso. Dentre os tipos de discurso,16 existem: (a) dialógico, é o discurso que permite o questionamento sobre as premissas (reflexivo – intercâmbio). Tem caráter personalíssimo e não se permite desvincular ação lingüística e emissor. O ouvinte é convidado a intervir, sendo a “questão” um dubium (comportamento do ouvinte é crítico, reflexivo). Nesse sentido, o discurso vira um “jogo de estratégias” organizadas a partir de topoi, devendo regras serem respeitadas: “dever de fundamentação”; “possibilidade de questionamento pelo ouvinte”; “inatacabilidade das ações lingüísticas primárias” (presunções, pressupostos, axiomas) do emissor (já que ele pode defendê-las) e “impossibilidade do emissor modificar suas ações lingüísticas primárias”. Pode ser “homológico” (estratégia de convencimento embasado por enunciados verdadeiros, demonstráveis e refutáveis/ discussão-com) ou “heterológico” (estratégia de persuasão embasada no interesse face conflitos de expectativas incompatíveis que exigem uma decisão / discussão- entre); (b) monológico, no qual o emissor parte de uma verdade irrefutável como premissa (nem todos os atos do orador podem ser atacados, pois, caso o sejam, não pode nem ser proposto). Baseia- se no princípio do terceiro excluído. O lugar do emissor é secundário, pois não é responsável pessoalmente pelo “ato de falar não-atacável”. Tem caráter impessoal, podendo ser generalizado e universalizado. Há uma interrupção da reflexividade, pois o receptor não pode intervir, logo, a questão é um certum (verdadeiro ou falso); e (c) normativo, é sui generis, pois corresponde à norma jurídica e apresenta características de ambos os tipos dialógico e monológico. O discurso normativo se apresenta à medida que, havendo conflito de expectativas normativas, é preciso criar regras para institucionalizá-lo, transformando-o em uma questão a ser decidida. Recorre-se a um terceiro comunicador – comunicador ou editor normativo – que generaliza as expectativas e fixa regras para o processamento da comunicação. Assim, ele passa a fazer parte do sistema comunicativo, tornando-se orador, mas invertendo a lógica do dever de provar, que passa a incumbir ao ouvinte caso se recuse a receber a informação transmitida. É uma “relação hierárquica de superioridade” (complementar), entre editor e ouvinte, gerando uma situação comunicativa normativa. As palavras do emissor são premissas indiscutíveis. As expectativas desiludidas se resolvem e a decisão normativa se mantém se confirmada por terceiros não participantes da relação (não precisa ser expressa, pode ser suposta). Esta suposição de consenso social implica em afirmar que a autoridade está institucionalizada. Está institucionalizado no mais alto grau, afirmando-se sobre o consenso real, torna uma norma “jurídica”. O ouvinte não pode desconfirmar ou desconhecer a relação, de maneira que o emissor (editor normativo) define as posições para que o receptor assuma uma relação complementar, já garantida por outra relação complementar que tem por objeto aquela relação complementar (relação metacomplementar). A decisão do emissor/comunicador normativo adquire força contra-fática, respaldada pela institucionalização e baseada na expectativa geral de que será respeitada. Eis aqui o caráter prescritivo das normas jurídicas. A metacomplementaridade garante-se pelo aspecto-comentimento do discurso normativo através dos operadores/functores normativos: é obrigado, é proibido, é permitido. Os comunicadores na situação comunicativa normativa, então, são: (a) regra de imputação do dever de prova pela recusa dacomunicação ao endereçado; (b) regra de garantia do conflito, pois os comunicadores sociais não podem mais se eximir da situação; (c) regras da exigibilidade, relacionada à expectativa contra-fática do comunicador normativo. Por esta singularidade, é possível então afirmar que o discurso normativo é dialógico em seu aspecto-relato, e monológico em seu aspecto-cometimento. Logo, um certum e um dubium. É um certum, no plano cometimento, na medida em que os endereçados são convidados exclusivamente a se submeterem, não havendo possibilidade de reflexão. A metacomplementaridade implica um reforço da autoridade, posto que o endereçado deve ter uma adesão convicta (não submetida a coações externas ou persuasão – esta vista como “suspensão de autoridade”) e o editor já prevê eventuais reações do endereçado. Logo, o editor normativo já prevê a metacomplementaridade em que ou o endereçado coopera ou a sua conduta será rechaçada. Caso o ouvinte não aceite a ação lingüística do editor, é desde logo lhe posto o ônus de provar. Por outro lado, no aspecto relato é convidado a interpretar, podendo concordar, discordar, comparar etc., pois serve à co-determinação do sentido. Logo, o editor é um dos argumentantes, cumprindo-lhe adotar procedimentos para persuadir o endereçado na direção de seu propósito (dubium). A autoridade se afirma mesmo que haja descumprimento, desde que prevista a reação ao descumprimento (expectativa contra-fática) até onde ocorra o rompimento da comunicação. A ameaça de sanção integra o relato e não o cometimento, pois é argumento de persuasão para dissuadir o Ao lado da e das (as quais constituem o aspecto-relato), existe aquele responsável pela metacomplementaridade, ou, o aspecto-cometimento. Com função sintática, o operador pragmático atribui o caráter prescritivo da norma ao qualificar uma ação e a relação autoridade/ sujeito. “É proibido, facultado ou permitido define a relação entre as partes, de modo metacomplementar. Quando for uma norma de proibição (é proibido)/obrigação (é obrigatório), o operador pragmático qualifica a relação entre emissor/receptor como imposta, logo, confirmação da confirmação, rejeição da rejeição ou desconfirmação da desconfirmação. Quando for uma norma de permissão), vale-se do é permitido, desde que, ou seja, vale de acordo como uma obrigação ou proibição geral (é permitido furtar, desde que em estado de necessidade), sempre for uma regra de exceção à norma de obrigação/ proibição, e, quando for independente, vale-se do é permitido (regras de competência ou que conferem direitos). Neste último caso, o editor comunica que ao receptor é tolerado uma ação e se garante a sua realização. Isto se difere de seu silêncio, pois mesmo o silêncio, como dito, é comunicação, mas aqui não há uma relação de cometimento. Diante de situações jurídicas subjetivas: a depender do ônus da prova da recusa em se comunicar (aspecto-cometimento) e da sanção (aspecto-relato), haverá situações distintas. O editor normativo, quando imputa o ônus da prova ao receptor, indica a sua contra-reação (sanção) em determinadas circunstâncias (reações). (a) dever jurídico – se o sujeito normativo tem o ônus e pode ser ameaçado de sanção, trata-se de uma norma de obrigação/proibição, em que o comportamento previsto está no relato e imposição de metacomplementaridade está no cometimento. (b) direito subjetivo – se o sujeito normativo está isento do ônus da prova e não pode ser ameaçado de sanção, trata-se de uma norma de permissão. (c) poder jurídico – se o sujeito normativo pode endereçado. Eis aqui o paradoxo do discurso: o editor mantém sua autoridade, mas a suspende temporariamente, até que o comportamento condicional ocorra. descrição de ação condições da ação quaestio .”18 Em suma, sobre decisões (determinar alternativas decisões para por fim e não necessariamente solucionar um conflito). A norma diz qual decisão/escolha deve ser tomada e qual pré- decisão deve ser entendida pelo endereçado (relato e cometimento). Por isso, diversamente de Kelsen, a sanção não é elemento caracterizador da norma jurídica, embora importante. Também não concorda que uma norma seja geral e abstrata, pois uma sentença é específica, e uma norma de revogação de outra não é abstrata. Para a dogmática é “imperativo despsicologizado (pois privilegia papéis sociais e não pessoas), de natureza vinculante (obrigatório), coercitivo (institucionalizado), bilateral (pois fixa posições sociais dos sujeitos) que estabelece uma hipótese normativa à qual se imputa uma consequência jurídica, servindo como critério de tomada de decisão (decidibilidade)”. É justo esta tomada de decisão, tal qual na linha da sociologia do conhecimento de Peter Berger e Thomas Luckmann que os sentidos são definitivamente institucionalizados e o direito, como instituição, passa a desempenhar o papel singular e reforçado de “reservatório de sentidos”. Pelo lugar em que ocupa institucionalmente, bem assim a natureza coercitiva, imperativa e prescritiva que historicamente passou a desempenhar, sua função acaba por eliminar a coexistência e a pluralidade de sentidos, valores e formas de organização, imputar a outro o ônus da prova e ameaçá-lo com sanção (ou isentar terceiro do ônus). Portanto, seguindo a original construção,17 a norma jurídica se mostra como “expectativas contra-fáticas, que se expressam por meio de proposições de dever-ser, estabelecendo-se entre os comunicadores sociais relações complementares institucionalizadas em alto grau (relação metacomplementar de autoridade/sujeito), cujos conteúdos têm sentido generalizável, conforme núcleos significativos mais ou menos abstratos” – “discursos heterológicos, decisórios, estruturalmente ambíguos, que instauram uma meta- complementaridade entre orador e ouvinte e que, tendo por um conflito decisório, o solucionam na medida em que lhe põem fim decisões tendendo naturalmente à construção de uma perspectiva monista e objetiva sob a perspectiva moral. Não à toa o objetivismo moral (contra o qual neste ensaio se procura refutar ao final pelo emotivismo ético) muito bem serviu a este fim. Pensando num exemplo, a fim de explicitar esta situação formadora de sentido, estabilizadora de conteúdos e institucionalizadora da escolha e decisão moral, própria ao direito, ou, ao menos, secularmente assim lhe imposta tal função, sobretudo da modernidade jurídica para os dias de hoje: uma tentativa de aborto19. Ao se tentar fazê-lo às escondidas, para além da moralização da vida operada por todas as instituições, sentidos são comunicados à mulher e envolvidos que se encontram no “reservatório institucional”: a criminalização com duas exculpantes legais e outra jurisprudencial; a mulher que o faz ignora os avanços da medicina e a garantia de uma gestação próxima da normalidade; a desautorização religiosa e a vida profana; ausência de certeza do óbito do feto; criação de risco adicional à vida da gestante; hierarquização de vidas à medida que a da gestante estaria acima da do feto; a impossibilidade de reparação do mal causado pela violência sexual com o aborto; possibilidade de acompanhamento psicológico etc. Enfim, todo um “arquivo de sentidos” são comunicados, no momento da tentativa do aborto ou historicamente pelas instituições (família, estado, igreja, escola etc.), cumprindo ao direito oficial papel singular ao impedir pela coação da pena privativa de liberdade o estabilizador principal de sentidos, como se autoevidente fosse, e criando para a gestante um pensamento, uma escolha, uma decisão e uma forma de agir estável e padronizada. Contudo, experiência paralelas, por vezes marginais, da comunidade de vida e de convicção, partilham novos sentidos para a mulher: não se trata de um ato isolado, mas um número representativo de mulheres que abortam por ano (uma em cada cinco mulheres já abortou, consoante o Plano Nacional de Aborto); são comuns as mulheres que assim o fazem clandestinamente, porque vão à escola, à igreja, têm filhos etc., e não mulheres depravadas, promíscuas ou fora