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colecção SABER MARC BLOCH INTRODUÇÃO PUBLICAÇÕES EUROPA-AMERICATítulo original: Apologie pour l'histoire ou Métier d'historien Tradução de Maria Manuel e Rui Grácio Capa: estúdios P. E. A Librairie Armand Collin Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. INDICE Nenhuma parte desta publicação pode ser re- Pág. produzida ou transmitida por qualquer forma A LUCIEN FEBVRE, à guisa de dedicatória 9 ou por qualquer processo, electrónico, mecânico 11 ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia INTRODUÇÃO ou gravação, sem autorização prévia e escrita Capítulo A os HOMENS E o TEMPO 24 do editor. Exceptua-se naturalmente a transcri- 124 ção de pequenos textos ou passagens para apre- I. A opção do historiador sentação ou crítica do livro. Esta excepção não II. A história e os homens 29 deve de modo nenhum ser interpretada como III. tempo histórico 31 sendo extensiva à transcrição de textos em re- IV. idolo das origens colhas antológicas ou similares donde resulte Dos limites do actual e do inactual 36 prejuízo para o interesse pela obra. Os trans- VI. Compreender o presente pelo passado 39 VII. Compreender o passado pelo presente 42 gressores são passíveis de procedimento judicial Capítulo OBSERVAÇÃO HISTÓRICA 47 I. Caracteres gerais da observação histórica 47 56 II. Os testemunhos III. A transmissão dos testemunhos 64 73 Capítulo III CRÍTICA I. Esboço de uma história do método 73 II. Em perseguição da mentira e do erro 82 III. Ensaio de uma lógica do método critico 98 Capítulo IV A ANÁLISE 121 Editor: Francisco Lyon de Castro I. Julgar ou compreender? 121 Edição n.° 101059/4397 II. Da diversidade dos factos humanos à uni- dade das consciências 126 136 Execução técnica: III. A nomenclatura 164 Gráfica Europam, Lda., Capítulo V Mira-Sintra - Mem Martins Apêndice COMO SE APRESENTAVAM os MANUSCRITOS DO POR LUCIEN 171 Depósito legal 17537/87 FEBVRE ALGUMAS NOTAS DO PUNHO DE MARC BLOCH 17728 MARC BLOCH 29 INTRODUÇÃO ponto de cruzamento, onde a aliança de duas disciplinas cia, forma contra fundo: questiúnculas boas para lançar se revela indispensável a toda a tentativa de explicação; no alforje de pleitos da escolástica! por outro lado, um ponto de passagem, onde, quando o Não há menos beleza numa equação exacta que numa fenómeno foi assinalado e só os seus efeitos, doravante, frase apropriada. Mas cada ciência tem a estética própria estão em causa, ele é de algum modo definitivamente ce- da sua linguagem. Os factos humanos são, por essência, dido por uma disciplina a outra. Que aconteceu todas as fenómenos delicadissimos, muitos dos quais escapam à vezes que houve que fazer-se imperioso apelo à interven- medida matemática. Cumpre utilizar uma linguagem fi- ção da história? Surgiu que era humano. uma cor adequada ao tom verbal, para traduzir com efeito, que os nossos grandes precursores, um Miche- bem os factos humanos, e portanto para os penetrar bem let, um Fustel de Coulanges, nos tinham ensinado a re- (pois é lá possível compreender perfeitamente aquilo que o objecto da história é por natureza o ho- não formos capazes de dizer?). Onde é impossível o cál- mem (4). Melhor: os homens. Mais do que o singular, culo aritmético impõe-se sugerir. Entre a expressão das favorável à abstracção, convém a uma ciência da diver- realidades do mundo físico e a expressão das realidades sidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade. do humano o contraste é, em suma, o mesmo que Por detrás dos traços da paisagem, dos uten- existe entre a tarefa do operário fresador e a do fabri- sílios ou das máquinas, por detrás dos documentos es- cante de instrumentos de corda: ambos trabalham com critos aparentemente mais glaciais e das instituições rigor milimétrico; mas primeiro utiliza aparelhos me- aparentemente mais distanciadas dos que as elaboraram, cânicos de o segundo guia-se, sobretudo, pela são exactamente os homens que a história pretende apreen- sensibilidade do ouvido e dos dedos. Não seria conve- der (5). Quem não conseguir será, quando muito e na niente nem que fresador se contentasse com o empi- melhor das hipóteses, um servente da erudição. bom rismo daquele fabricante, nem que este imitasse o fresa- esse, assemelha-se ao monstro da lenda. Onde dor. Quem negará que não haja, como o tacto manual, farejar carne humana é que está a sua caça. um tacto das palavras? tempo histórico Do carácter da história como conhecimento dos homens Ciência dos homens>>, dissemos nós. E ainda muito decorre a sua posição particular perante o problema da vago. Temos de acrescentar: homens no expressão. E a história ou Os nossos o historiador não pensa apenas o humano. A atmosfera por volta de 1800, gostavam de dissertar com em que o seu pensamento respira naturalmente é a cate- gravidade a seu respeito. Mais tarde, cerca de 1890, res- goria da duração. pirando uma atmosfera de positivismo um tanto ou quanto E certo ser imaginar uma ciência, seja ela qual rudimentar, houve especialistas do método que se indigna- for, que possa abstrair do tempo. Contudo, para muitas vam com o facto de, nos trabalhos históricos, o público delas que, por convenção, o fragmentam em partes artifi- atribuir uma importância, em seu entender excessiva, cialmente homogéneas, o tempo não é mais do que uma a que eles chamavam a Arte contra ciên- medida. Realidade concreta e viva volvida à irreversibili-MARC BLOCH INTRODUÇÃO HISTÓRIA 31 30 dade do seu impulso, o tempo da história é, pelo con- trário, o próprio plasma em que banham os fenómenos, ídolo das origens e como que o lugar da sua inteligibilidade. o número de segundos, de anos ou de séculos que um corpo radioactivo Nunca foi mau começar por um mea culpa. A expli- leva a transformar-se noutros corpos é, para a atomística, cação do mais próximo pelo mais remoto, sendo natural- um dado fundamental. Mas que esta ou aquela meta- mente prezada pelos homens que fazem do passado o seu morfose se tenha verificado há mil anos, ontem ou hoje, principal tema de investigação, dominou por vezes os ou se verifique amanhã, é consideração que indiscutivel- nossos estudos até à hipnose. Na sua forma mais carac- mente interessaria o geólogo, e porque a geologia é, a terística, este da tribo dos historiadores tem por seu modo, uma disciplina histórica, deixa físico perfei- nome a obsessão das origens. No desenvolvimento do pen- tamente indiferente. Em contrapartida, nenhum historia- samento histórico teve também o seu momento de parti- dor se dará por satisfeito sabendo que César levou oito cular favor. Creio ter sido Renan que escreveu um dia (cito de anos para conquistar a Gália; que foram precisos quinze a Lutero para que do ortodoxo noviço de Erfurt surgisse memória, por isso receio não ser absolutamente Em todas as coisas humanas, são sobretudo dignas de reformador de Wittemberg. Importa-lhe muito mais estudo as origens.> E Sainte-Beuve antes dele: determinar o lugar cronológico exacto da conquista da e fixo com curiosidade o que E bem do tempo Gália no quadro das vicissitudes das sociedades europeias; deles a ideia. A palavra também. Às Origens e, sem negar de maneira nenhuma o que possa ter havido do Cristianismo corresponderam um pouco mais tarde as de eterno numa crise de alma como a do irmão Martinho, o historiador só julgará tê-la apreciado devidamente depois Origens da França Sem contar os epígo- de lhe ter fixado com precisão o momento na curva dos nos. Mas a palavra é inquietante, por equivoca. Significa ela simplesmente Quase que será destinos tanto do homem que foi o herói de tal crise de clara. E, mesmo assim, sob a reserva de que para a alma como da civilização que ela teve por clima. maioria das realidades históricas a própria noção desse Ora, esse tempo verdadeiro é, por natureza, contínuo. E também mudança. Da antítese destes dois atri- ponto inicial é singularmente fugidia. sem dúvida, uma butos procedem os grandes problemas da investigação questão de definição. De uma definição que, infelizmente, histórica. Antes de qualquer outro, aquele que em nos esquecemos frequentemente de propor. causa a própria razão de ser do nosso trabalho. Suponha- Por origens entenderemos, pelo contrário, as causas? mos dois períodos sucessivos delimitados na corrente Não haverá então maiores dificuldades do que aquelas ininterrupta das idades. Em que medida quer o nexo que que constantemente (e mais ainda, é claro, nas ciências fluxo da duração estabelece entre eles ou não, sobre do homem) são, por natureza, inerentes às investigações a dissemelhança nascida dessa mesma duração em que medi- causais. Mas entre os dois sentidos verifica-se, frequente- da cumpre considerar o conhecimento do mais antigo como ne- mente, uma contaminação que é tanto mais temível quanto cessário ou supérfluo inteligência do mais recente? não é, em geral, claramente sentida. No vocabulário corrente, as origens são um começo que explica. Pior ainda: que basta para explicar. Eis a ambiguidade, o perigo.MARC BLOCH INTRODUÇÃO A HISTÓRIA 33 glaterra, o passado apenas foi tão activamente empregado para explicar o presente no propósito de o justificar ou de o condenar. De modo que, em muitos casos, o demónio Seria interessantissimo promover uma investigação das origens talvez fosse apenas um avatar daquele outro acerca desta obsessão tão arreigada em satânico inimigo da verdadeira história: a mania de toda a preocupação de exegetas. compreendo a sua julgar. confessava Barrès a um sacerdote que perdera * a fé. têm que ver com a minha sensibilidade as dis- cussões de um punhado de sábios à volta de alguns Voltemos, entretanto, aos estudos cristãos. Para a nomes hebraicos? Basta a atmosfera das E inquieta consciência que se busca, uma regra de fixar Maurras dizia, por sua vez: me importam os evan- a sua atitude perante a religião católica, tal como ela se gelhos de quatro judeus quer aqui define quotidianamente nas nossas igrejas, é uma dizer, penso eu, plebeus; porque a Mateus, Marcos, Lu- mas já é outra, para o historiador, explicar como um cas e João parece difícil não reconhecer, ao menos, uma facto de observação o catolicismo do presente. conhe- certa notoriedade literária). Esses pantomineiros disse- cimento dos primórdios dos fenómenos religiosos actuais ram coisas nem Pascal nem Bossuet teriam fa- é indispensável, escusado é dizê-lo, à sua justa compreen- lado assim, com certeza. Podemos conceber uma são, mas não basta para os explicar. Para simplificação cia religiosa que não deva nada à história. Ao deísta puro do problema, renunciemos mesmo à questão de saber até basta uma iluminação interior para crer em Deus. Não que ponto, sob um mesmo nome, a fé, na sua substância, para crer no Deus dos cristãos. Porque o cristianismo, permaneceu de facto absolutamente imutável. Por muito já o disse, é por essência uma religião histórica: quero intacta que se suponha uma tradição, há sempre que dizer, uma religião cujos dogmas primordiais assentam encontrar as razões por que se manteve. Razões humanas, em acontecimentos. Tornem a o Credo: em entenda-se; a hipótese de uma acção providencial esca- Jesus Cristo... que foi crucificado sob o poder de Pôncio paria à ciência. A questão, numa palavra, já não é a de Pilatos... e ressuscitou dos mortos ao terceiro Aqui, saber se Jesus foi crucificado e depois ressuscitou. o que os princípios da fé são também os seus alicerces. se pretende compreender, daqui em diante, é como há Ora, por um contágio sem dúvida inevitável, estas tantos homens que crêem na Crucificação e na Ressur- preocupações, que, em certa forma de análise religiosa, reição. Ora, a fidelidade a uma crença é, sem sombra teriam a sua razão de ser, alargaram-se a outros domi- de dúvida, um dos aspectos da vida geral em que este nios de investigação, onde a sua legitimidade era muito carácter se manifesta. E como que um nó em que se mais contestável. Domínios em que uma história tendo mistura uma quantidade de traços convergentes, quer de por centro os princípios das coisas foi posta ao serviço estrutura social, quer de mentalidade. Em suma, levanta da apreciação dos valores. Perscrutando as da um problema de clima humano. o carvalho nasce da França do seu tempo, que se propunha Taine senão de- bolota. Mas em carvalho se torna e em carvalho perma- nunciar o erro de uma política procedente, em sua opinião, nece apenas se encontra condições de favoráveis, de uma falsa filosofia do homem? Quer se tratasse de que não são já do foro da embriologia. invasões germânicas ou da conquista normanda da In-34 MARC BLOCH INTRODUÇÃO 35 gerações posteriores, na Europa, das ditas feudais, haviam de continuar. Modificando-as muito, aliás. De ambos os lados, sobretudo, eram empre- A história religiosa foi aqui citada apenas como gadas palavras (beneficium) entre os La- exemplo. Em todas as modalidades de estudo da activi- tinos, entre os Germanos- de que essas ge- dade humana, o mesmo risco espreita os indagadores de rações continuaram a servir-se, conferindo-lhes, a pouco origens: confundir uma filiação com uma explicação. e pouco, e sem se aperceberem bem disso, um conteúdo Era já, afinal, a dos velhos etimologistas, que inteiramente novo. Porque, para grande desesepero dos pensavam ter dito tudo quando confrontavam a signifi- historiadores, os homens não têm o hábito de mudar o cação actual de uma palavra com a significação mais vocabulário de cada vez que mudam os costumes. Não antiga que se conhecia; quando tinham demonstrado, ná dúvida de que são verificações Po- suponhamos, que bureau designou, primitivamente, um derá julgar-se que esgotam o problema das causas. o tecido, ou timbre um tambor. Como se o feudalismo europeu, nas suas instituições características, portante não fosse o de saber como e porquê de uma não se fez por uma arcaica textura de sobrevivências. significação se deslizou para outra. Como se, principal- Durante uma certa fase do nosso passado, nasceu de toda mente, tanto quanto o seu próprio passado, uma palavra uma ambiência social. não tivesse seu papel, em uma língua, determinado Seignobos disse algures: Creio que as ideias revolu- pelo estado contemporâneo do vocabulário, vocabulário do século XVIII... provêm das ideias inglesas que, por sua vez, está dependente das condições sociais do século XVII.> Queria ele dizer com isto que, tendo os do momento. Bureaux, no caso das repartições de minis- publicistas franceses da época das luzes lido determinados tério, significa uma burocracia. Quando peço timbres escritos ingleses do século precedente ou sofrido indirec- (selos) nos correios, uso que faço do termo tamente a sua influência, lhes adoptaram os princípios além da organização lentamente elaborada de um serviço políticos? Podemos dar-lhe razão. Pelos menos se supuser- postal, a transformação técnica decisiva para o futuro mos que os nossos filósofos não tenham lançado, por sua das permutas entre pensamentos humanos, que substituiu vez, nas fórmulas estrangeiras, nada de verdadeiramente recentemente a impressão de um carimbo pela aposição original, como substância intelectual ou como tonalidade de uma vinheta gomada. Isto foi possível porque, de sentimento. Mas, mesmo assim reduzida, com muita especializadas por mesteres, as diferentes acepções da arbitrariedade, a influências estranhas, a história deste velha palavra a tal ponto se afastaram uma da outra movimento de pensamento está longe de ficar completa- que não há confusão possível entre o selo que colo no mente esclarecida. Porque subsiste sempre o problema de meu sobrescrito e o timbre de um instrumento musical. eaber por que razão a transmissão se operou na data do regime é costume Aonde ir buscá-las? Responderam uns: Outros: indicada: nem mais cedo, nem mais tarde. Um contágio As razões de tais miragens são supõe duas coisas: gerações de micróbios e, no instante Num lugar como noutro existiam, com efeito, certos costu- em que se declara o mal, um mes relações de companheirismo guerreiro, Em suma: nunca um fenómeno histórico se explica função da tenência como salário dos serviços que as plenamente fora do estudo do seu momento. E isto é vá- lido para todas as etapas da evolução. Para aquela emMARC BLOCH 36 A HISTÓRIA 37 que vivemos, como para outras. Já um provérbio árabe dade e para tentar resolvê-los, os antece- o dissera: Os homens parecem-se mais com seu tempo dentes. Como hão-de os próprios historiadores, influencia- que com os seus Foi por se ter olvidado esta sabe- dos também, embora sem se aperceberem claramente disso, doria oriental que se desacreditou às vezes o estudo do por esta atmosfera modernista, não ter sentimento de passado. que, igualmente no seu domínio, a fronteira que separa V. Dos limites do actual e do inactual recente do antigo se não desloque com um movimento menos constante? regime da moeda estável e do padrão- Entretanto, pelo facto de o passado não explicar todo -ouro, que ainda ontem figurava, em todos os manuais o presente, será caso de julgar que o passado é inútil de economia política, como a própria norma da actuali- para a sua explicação? que é estranho é que a questão, dade, pertence ainda, para o economista de hoje, ao pre- hoje, se possa pôr. sente ou à história que já cheira bastante a bafio? Por Na realidade, até uma época muito próxima de nós, detrás destes paralogismos, todavia, é fácil descobrir um tal questão afigurou-se quase por unanimidade antecipa- feixe de ideias menos inconsistentes e cuja simplicidade, damente resolvida. aquele que se ativer ao presente, pelo menos aparente, seduziu determinados ao actual, não compreenderá o escrevia, no sé- culo passado, Michelet, no início daquele belo livro do Povo, cheio, no entanto, dos entusiasmos momento. E já Leibniz entre os benefícios que esperava da his- vasto fluir dos tempos, julgamos poder à parte tória origens das coisas presentes encontradas nas uma fase pouco extensa. Relativamente pouco distante de nós no seu ponto de partida, ela abarca no seu termo coisas passadas; acrescenta ele, melhor ma- neira de compreender uma realidade é conhecer-lhe as os próprios que vivemos. Nesta fase, nem os carac- teres salientes do estado social ou político, nem a ferra- sua (6). menta material, nem a tonalidade geral da civilização, Mas, após Leibniz, após Michelet, deu-se um grande nada, apresentam parece diferenças profundas com acontecimento: as sucessivas revoluções das técnicas alar- o mundo em que temos os nossos hábitos. Parece, di- garam desmesuradamente o intervalo psicológico entre gamos, afectada, em relação a nós, por um fortíssimo as gerações. Não é sem alguma razão, talvez, que o homem coeficiente de E a honra, ou da idade da electricidade ou do avião se sente muito longe a tara, de não ser confundida com o resto do passado. dos seus antepassados. Donde logo conclui, mais impru- 1830 para cá já não é história>>, um dos nossos dentemente ainda, que deixou de ser determinado por eles. professores do liceu, muito velho já, quando eu era ainda Acrescentemos o jeito modernista próprio da mentalidade muito novo, é Hoje já se não diria: 1830 do engenheiro. Será necessário ter compreendido as ideias para Três por sua vez, envelhe- do velho Volta sobre galvanismo para pôr em movi- ceram nem é Mas, antes, num tom respei- mento e consertar um Por analogia, decerto toso: ou, com menos consideração: defeituosa, mas que espontâneamente se impõe a mais de uma inteligência submetida à máquina, poderá tam- Muitos, contudo, repetiriam de bom grado: pensar-se que, do mesmo modo, de nada serve para desde 1914 ou 1940, já não é história. Sem se entende- compreender os grandes problemas humanos da actuali- rem bem, acerca dos motivos deste ostracismo.MARC BLOCH INTRODUÇÃO A HISTORIA 39 38 Alguns, julgando que os factos que estão mais perto de nós são por isso menos refractários a qualquer estudo VI. Compreender presente pelo passado verdadeiramente sereno, desejam evitar à casta Clio inflamados contactos. Assim pensava, creio eu, o meu Visto de perto, o privilégio de auto-inteligibilidade professor. que é minimizar o que temos assim atribuído ao presente assenta numa sucessão de dos nossos nervos. E esquecer também que, quando as estranhos postulados. ressonâncias sentimentais entram em jogo, o limite entre Supõe, antes do mais, que as condições humanas so- actual e o inactual não se regula necessariamente pela freram, no intervalo de uma ou duas gerações, uma mu- medida matemática de um intervalo de tempo. Tinha dança não só muito rápida, como também total: de sorte tão pouca razão o meu bom reitor que, no liceu do Lin- que nenhuma instituição um pouco antiga, nenhuma con- duta tradicional, teriam escapado às revoluções do labo- guadoque onde assentei praça como professor, me adver- ratório ou da fábrica. E esquecermo-nos da força da inér- tia com a grossa de capitão de ensino: o sé- culo XIX não é muito perigoso. Mas, quando chegar às cia própria de tantas criações sociais. guerras da tenha Em boa verdade, aquele que, à sua mesa de trabalho, não tenha força suficiente para subtrair cérebro aos do momento, homem passa o tempo a montar mecanismos de que será capacíssimo de deixar inquinar de toxinas um comen- torna depois prisioneiro mais ou menos voluntário. tário da Iliada ou do Ramayana. Que observador, percorrendo as nossas do Outros sábios, pelo contrário, julgam com razão que o Norte, se não impressionou com o estranho desenho dos presente humano é perfeitamente de conheci- seus campos? A despeito das atenuações que as vicissi- mento científico. Mas pensam-no, reservando o seu estudo a disciplinas muito diferentes da que tem por objecto o tudes da propriedade trouxeram, no decurso das idades, passado. Por exemplo, analisam e pretendem compreender esquema primitivo, o espectáculo dessas fitas, desme- guradamente estreitas e alongadas, que dividem o solo a economia contemporânea à custa de observações limi- tadas, no tempo, a algumas décadas. Em suma, consi- arável num número prodigioso de parcelas, ainda hoje é deram a época em que vivem separada das antecedentes de molde a confundir o agrónomo. Não pode contestar-se por contrastes grandes de mais para não ter em si mesma dissipação de esforços causada por tal disposição das a sua própria explicação. Tal é também a atitude instin- terras, nem os que impõe aos cultivadores. Como tiva de muitos que são simples curiosos. A história dos Pelo Código Civil e seus inevitáveis efeitos períodos um pouco longínquos sedu-los apenas como um responderam publicistas apressados em demasia. Modi- inofensivo luxo do De uma banda, um punhado fical, portanto, as leis sobre herança, acrescentavam eles, de antiquários ocupados, por deleite macabro, em desen- e suprimireis assim todo o mal. Se soubessem mais his- faixar os deuses mortos; de outra, sociólogos, economistas, tória, se tivessem também interrogado melhor uma men- publicistas: os únicos exploradores das coisas vivas... talidade camponesa formada por séculos de empirismo, haveriam de julgar o remédio menos Com efeito, essa estrutura remonta a origens tão recuadas que nenhum sábio, até agora, a explicou de modo satisfatório;MARC BLOCH 41 40 A velmente, é maior a responsabilidade dos arroteadores da aquelas transferências pensamento que constituem, no época dos dólmenes do que a dos legistas do Primeiro sentido próprio, a continuidade de uma civilização. Lu- Império. Como o erro sobre a causa se continua, como tero, Calvino, Loiola: homens de outros tempos, é ver- acontece quase em erro de dade, homens do século XVI, que o historiador, ocupado a ignorância do passado não se limita a prejudicar o em e em fazer terá como conhecimento do presente; compromete, no presente, a primeiro dever restituir ao meio respectivo, banhados própria acção. pela atmosfera mental do seu tempo, a contas com pro- Mas há mais. Para que um'a sociedade, seja qual for, blemas de consciência que já não são exactamente os pudesse ser determinada por inteiro pelo momento ime- nossos. No entanto, será lícito afirmar que, para a justa diatamente anterior que vive, não bastaria ter compreensão do mundo actual, a inteligência da Reforma uma estrutura tão perfeitamente adaptada à mudança protestante ou da Reforma católica, de nós por que seria verdadeiramente invertebrada; seria ainda ne- centenas de anos, não interessa mais que a muitos cessário que as permutas entre as gerações se operassem outros movimentos de ideias ou de sensibilidade indubità- se assim posso dizê-lo, em fila indiana não velmente mais próximos no tempo mas mais tendo as crianças outro contacto com os seus antepas- erro, em suma, é evidente, e, para o liquidar, basta sados a não ser por mediação de seus pais. formulá-lo. E costume imaginar-se o decorrer da evolução Sabemos que isto se não passa assim, mesmo no caso humana como constituído por uma sequência de breves e das comunicações puramente orais. Vejamos, por exem- profundos durando cada um deles apenas es- plo, as nossas aldeias. Dadas as condições de trabalho paço de algumas vidas. Prova a observação, pelo con- que obrigam o pai e a mãe a estarem afastados dos trário, que nessa imensa continuidade as grandes pertur- filhos quase o dia inteiro, são eles criados sobretudo pelos bações são perfeitamente capazes de se propagar desde as mais até às mais próximas. Que Por cada nova formação de recua-se, por- tanto, um passo, que, por cima da geração eminentemente se havia de dizer de um geofísico que, contentando-se portadora de vincula os cérebros mais maleá- com o apuramento dos miriâmetros, considerasse a acção da Lua sobre o nosso globo muito mais importante que veis aos mais cristalizados. E procede, antes de mais nada não tenhamos dúvidas o tradicionalismo ine- a acção do Sol? Tanto no que respeita à duração como rente a tantas sociedades camponesas. caso é parti- a eficiência de uma força não se mede exclusiva- cularmente evidente. Mas não é único. Como o mente pela distância. nismo natural aos grupos de idade se verifica principal- De entre as coisas mesmo aquelas crenças mente entre grupos acontece que mais do que desaparecidas sem deixar menor rasto, formas sociais uma juventude ficou a dever às lições dos velhos pelo malogradas, técnicas mortas - que, como parece, deixa- menos tanto quanto às dos homens feitos. ram de dirigir o presente, iremos considerá-las inúteis para a sua compreensão? Seria esquecer que não há ver- * dadeiro conhecimento sem um certo teclado de compara- Contanto, está claro, que o confronto incida sobre Com muita maior razão, o processo escrito facilita realidades ao mesmo tempo diferentes e, contudo, aparen- bastante, entre gerações por vezes deveras afastadas, poderá dizer que não seja assim.42 MARC BLOCH INTRODUÇÃO À 43 Já não pensamos hoje, realmente, como o escrevia surpresa, acrescentou: eu fosse um antiquário, só Maquiavel, como o pensavam Hume ou Bonald, que há teria olhos para as Mas sou um historiador. no tempo uma coisa, pelo menos, que é E por isso que amo a Nesta faculdade de apreensão Aprendemos que também o homem mudou do que é vivo é que reside, efectivamente, a qualidade muito: no seu e, até nos mais fundamental do historiador. Não nos deixemos seduzir delicados mecanismos do corpo. Como poderia ser de friezas do estilo. Tiveram-na os maiores outro modo? Transformou-se profundamente a sua atmos- entre nós: Fustel ou Maitland à sua maneira, que era fera mental; e também a sua higiene, a sua alimentação. mais austera, e não menos que Michelet. E até talvez Convimos, todavia, em que existe na natureza humana seja na sua origem um dom das fadas, que ninguém po- e nas sociedades humanas um fundo permanente. Se derá ter a pretensão de possuir se a não tiver trazido do assim não fosse, os próprios vocábulos de e de berço. Mas nem por isso tem menos necessidade de ser não significariam coisa nenhuma. Teremos constantemente exercitada e desenvolvida. De que ma- nós a veleidade de compreender esses homens se os estu- Apenas, como o exemplo dado pelo próprio Pi- darmos apenas nas suas perante as circunstân- renne, por um contacto perpétuo com o presente. peculiares a um momento? Mesmo a respeito daquilo Porque o frémito de vida humana, necessitando de um que nesse momento eles são, a experiência será esforço penoso de imaginação que a restitua aos velhos ciente. Muitas virtualidades pouco apa- textos, é daquela maneira directamente perceptivel pelos rentes, mas que, a cada instante, se podem revelar, muitos nossos sentidos. Já tenho lido muitas vezes, já muitas motores, mais ou menos inconscientes, das atitudes indi- vezes tenho contado, descrições de guerra e de viduais ou colectivas, ficarão na sombra. Uma experiência Mas conhecia eu verdadeiramente, no pleno sentido do única é sempre impotente para discriminar os seus pró- verbo conhecer, conhecia eu por dentro, antes de por prios factores; impotente, por conseguinte, para propiciar mim mesmo ter experimentado o gosto da sua náusea a própria interpretação. atroz, o que representam para um exército o cerco, para um povo a derrota? Antes de eu próprio ter rado a alegria da vitória naquele Verão e naquele Ou- VII. Compreender o passado pelo presente tono de 1918 esperando, bem o desejo, tornar a encher com ela os meus pulmões uma segunda vez: mas o per- E tal a força da solidariedade das épocas que os laços fume, ai de não será já precisamente o mesmo de inteligibilidade entre elas se tecem verdadeiramente sabia eu verdadeiramente a encanto que aquela palavra nos dois sentidos. A incompreensão do presente nasce encerra? Em boa verdade, conscientemente ou não, é fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não eempre às nossas experiências quotidianas que, em última seja mais útil esforçarmo-nos por compreender o análise, vamos buscar, dando-lhes, onde for necessário, os se nada sabemos do presente. Já algures esta matizes de novas tintas, os elementos que nos servem para anedota: acompanhava eu Henri Pirenne a Estocolmo; a reconstituição do passado: as próprias palavras de que Parece mal diz-me ele: vamos nós ver primeiro? DOS servimos para caracterizar os estados de alma desa- que há uma Câmara Comecemos por parecidos, as formas sociais estioladas, que sentido teriam Depois, como se me quisesse evitar um movimento de para nós se não tivéssemos visto primeiro viver os ho-44 MARC BLOCH INTRODUÇÃO A 45 mens? Vale mil vezes mais esta impregnação instintiva ilustres historiadores cometeram, por vezes, erros estra- que uma observação voluntária e controlada. Um grande nhos. Fustel de Coulanges sobre as matemático não o é menos, creio eu, se passar de olhos das instituições feudals, de que tinha uma imagem, des- fechados pelo mundo em que vive. Mas o erudito que não confio eu, bastante confusa, e sobre as primícias de uma tenha o gosto de olhar à volta de si mesmo, nem para servidão a que ele emprestava, mal instruído por descri- os homens, nem para as coisas, nem para os aconteci- ções de segunda mão, cores completamente falsas. mentos, merece talvez, como dizia Pirenne, que cha- Acontece, e com mais frequência do que se pensa, que mem um prestimoso Mas ter o se tenha exactamente de vir até ao presente para que a senso de renunciar ao nome de historiador. luz se Por alguns dos seus caracteres fundamentais, a nossa paisagem rural sabemo-lo já data de épocas extremamente remotas. Mas houve uma condição primor- dial a respeitar, a fim de interpretarmos raros do- Além do mais, não é apenas a educação da sensibili- cumentos que permitem penetrar nessa génese brumosa, dade histórica que está em causa. Acontece que, numa de pormos os problemas correctamente, de formarmos determinada linha, o conhecimento do presente interessa sequer uma ideia deles: tal condição foi observar, ana- mais directamente ainda à inteligência do passado. lisar a paisagem de hoje. E isto porque só ela podia Seria, com efeito, erro grave julgar que a ordem adop- propiciar as perspectivas de conjunto de que era necessá- tada pelos historiadores nas suas investigações tenha rio partir. Não, por certo, que devêssemos, fixada uma necessariamente de modelar-se pela dos acontecimentos. vez por todas essa imagem de conjunto, impô-la tal qual Tiraram frequentemente proveito, sob a condição de res- a cada etapa do passado, sucessivamente reencontrada depois à história o seu movimento verdadeiro. de jusante 'a montante. Neste caso, como noutros, o que de começarem a como dizia historiador deseja captar é exactamente uma mudança. Porque caminho natural de qualquer investigação se Mas, no filme que observa, só está intacta a última peli- faz do mais bem ou do menos mal para o mais cula. Para reconstituir os apagados das restan- obscuro. Não é certo que a luz dos documentos se torne tes é forçoso, primeiro, desbobinar a no sentido regularmente mais viva à medida que se desce ao longo inverso das filmagens. do tempo. Estamos menos infor- * mados acerca do século X da nossa era, por exemplo, que a respeito da época de César ou de Augusto. Na maioria dos casos, no entanto, os períodos mais próximos Só há, pois, uma ciência dos homens no tempo e que coincidem com zonas de relativa claridade. Devemos acres- tem de incessantemente o estudo dos mortos centar que procedendo mecânicamente de trás para a ao dos vivos. Como dominá-la? Já disse por que razão o frente corremos sempre risco de perder o tempo à caça nome antigo de me parece o mais compreensivo, dos primórdios ou das causas dos fenómenos que depois, o menos exclusivo; o mais carregado também das emo- luz da experiência, se revelarão talvez imaginários. Por cionantes recordações de um esforço muito mais que não terem praticado, quando e onde se impunha, um secular; por conseguinte, melhor. Ao propormos alargar método prudentemente regressivo é que alguns dos mais o nome, a certos preconceitos, de restoMARC BLOCH 46 muito mais novos do que ele, até ao conhecimento do presente, não se pretende formular valerá a pena nenhuma reivindicação corporativa. A vida é de- masiado breve, excessivamente demorada a aquisição dos conhecimentos, para ser possível, mesmo ao maior génio, uma experiência total da humanidade. mundo actual CAPITULO terá sempre os seus especialistas, como a idade da pedra ou a egiptologia. A uns e a outros se pede simplesmente A OBSERVAÇÃO que se lembrem de que as investigações históricas não suportam nenhuma autarcia. Isolado, ninguém com- preende as coisas senão por metade, mesmo no seu I. Caracteres gerais prio âmbito de estudos; e a única história verdadeira, da observação histórica que só pode ser feita mediante colaboração recíproca, é a história universal. Para começar, vamos deliberadamente focar o estudo Contudo, uma ciência não se define apenas pelo seu do passado. objecto. Os seus limites podem igualmente ser fixados Os caracteres mais aparentes da informação pela própria natureza dos seus métodos. Importa pois rica, entendida no sentido restrito e usual do termo, foram descritos muitíssimas vezes. Dizem-nos que o historiador perguntar se, consoante nos afastemos ou nos aproxime- mos do presente, as próprias técnicas de investigação não não pode, em absoluto, e por definição, observar os factos deverão ser tidas por radicalmente diferentes. E pôr o pro- que estuda. Nenhum egiptólogo viu Ramsés. Nenhum especialista das guerras napoleónicas ouviu o canhão de blema da observação histórica. Austerlitz. Das épocas que nos precederam, só poderemos falar, portanto, a partir de testemunhas. Estamos, em relação a elas, na mesma situação do juiz de instrução que procura reconstituir um crime a que não assistiu; na do físico que, retido em casa pela gripe, fosse conhe- cendo os resultados das suas experiências pelos rios do servente de laboratório. Em suma, por contraste com do presente, o do passado seria for- cosamente Ninguém pode negar que haja alguma verdade nestas observações. Têm, no entanto, de ser sensivelmente temperadas. Suponhamos um cabo de guerra que acaba de alcançar uma vitória. E que começa logo a escrever o relato por

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