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/
LEONARDO CHIANCA
PQ RTUGU
PR2794
. R7
C55
1997x
editora scipione
BOSTON PUBLIC UBRARV
Gopley Square
SERIE REENCONTRO
WILLIAM SHAKESPEARE >
" fSW-ttft
Romeu e
Julieta
TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO" EM PORTUGUÊS DE
LEONARDO CHIANCA
editora scipione
Para
Márcia Leite
pelo amor à escrita ,
esta e muitas outras.
L.C.
(*) Traduzido e adaptado de Romeo and Juliet, de William Shakespeare, contido em The complete works of
William Shakespeare. New York, Doubleday, Garden City, 1 968.
r
editora scipione
DIRETORIA
Luiz Esteves Sallum
Maurício Fernandes Dias
Vicente Paz Fernandez
Patrícia Fernandes Dias
José Gallafassi Filho
Antonio Carlos Fiore
GERÊNCIA EDITORIAL
Aurélio Gonçalves Filho
FOR
PR2794
• R7
C65
1 997
x
EDITORA AFILIADA
RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Samira Youssef Campedelli
ASSISTÊNCIA EDITORIAL
Dulce S. Seabra
REVISÃO
chefia - Sâmia Rios
assistência - Míriam de Carvalho Abões
preparação - Maysa Monção Gabrielli e Sílvia Cunha
revisão - Laura Barcellar e Paulo Fernando Cunha
GERÊNCIA DE PRODUÇÃO
Gil Naddaf
ARTE
coordenação geral - Sérgio Yutaka Suwaki
edição de arte - Didier D. C. Dias de Moraes
coordenação - Maria do Céu Pires Passuello
assistência - Cláudio Faustino da Silva
ilustração - Cecilia Iwashita
projeto de capa - Ricardo Postacchini
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
coordenação - Márcia Sasso
assistência - Jean Cláudio da S. Aranha
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
José Ántonio Ferraz
IMPRESSÃO E ACABAMENTO
Prol - Editora Gráfica Ltda.
1997
ISBN 85-262-3133-2
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Editora Scipione Ltda.
MATRIZ
Shakespeare , William, 1564-1616.
Romeu e Julieta / William Shakespeare
; adaptaçao
Praça Carlos Gomes, 46
01501-040 -São Paulo -SP
em português de Leonardo Chianca. — São Paulo :
Scipione, 1097. — (Serie reencontro)
DIVULGAÇÃO 1. Literatura infanto-juvenil I. Chianca,
Rua Fagundes, 121 Leonardo. II. Titulo. III. Serie.
01 508-030 -São Paulo -SP
Tel. (011)242 8411
Caixa Postal 65131
97-0634 COO-028.5
índices para catalogo sistemãtico:
1. Literatura infanto-juvenil
2. Literatura juvenil 028.5
Qrntt fci UJi£í!úwt ShalmpeuM?
No verão de 1587, um rapaz interiorano andava pelas ruas de Londres.
Tinha consigo apenas algumas libras, mas fmalmente encontrava-se no
ambiente propício para desenvolver a sua vocação — a literatura.
A capital inglesa havia sido, por muito tempo, apenas um sonho para
William Shakespeare. Nascido em 1564 em Stratford-upon-Avon, gozou de
uma vida abastada até os 12 anos. A partir de então, com a falência de seu
pai, viu-se obrigado a trocar os estudos pelo trabalho árduo, passando a
contribuir para o sustento da família. Guardava, entretanto, os conhecimen-
tos adquiridos na escola elementar, onde havia iniciado seus estudos de
inglês, grego e latim; por sua própria conta, continuou a ler os autores
clássicos, poemas, novelas e crônicas históricas. Era também um profundo
conhecedor da Bíblia.
Aos 18 anos já estava casado com a rica Anna Hathaway, com quem
teve três filhos. Não se sabe ao certo por que motivo seguiu sozinho para
Londres, quando contava 23 anos; o fato é que veio a tomar-se a figura mais
expressiva da literatura inglesa. Foi o maior poeta e dramaturgo do
Renascimento de seu país.
De maneira bem simples, podemos definir o Renascimento como a reto-
mada da cultura da Antiguidade clássica, baseada na valorização de todas as
capacidades do homem e no estudo e conhecimento da natureza, que se desen-
cadeou em vários países da Europa nos séculos XIV, XV e XVI, reformulando
as artes, as letras e as ciências. Esses princípios eram bem diferentes daqueles
que nortearam a cultura medieval, centralizada na adoração a Deus e no estudo
exclusivo dos livros sagrados e dos assuntos espirituais.
Vários foram os fatores que determinaram esse processo: a centraliza-
ção do poder na figura dos reis, que estimulavam a produção artística
esperando obter dessa forma alguma promoção pessoal; o desenvolvimento
do comércio e das cidades; e o enriquecimento dos comerciantes, que pas-
saram a pagar para que os artistas e literatos produzissem obras que divul-
gassem os valores dessa classe em ascensão.
Tal efervescência cultural era bastante acentuada em Londres, onde se
desenvolvia uma intensa atividade teatral. Shakespeare iniciou sua carreira
como ator na companhia teatral do Conde de Leicester. Pouco tempo depois,
passou a dedicar-se à adaptação de textos alheios para o palco. O sucesso
obtido nessa atividade levou-o a escrever suas próprias peças. Nos dez anos
seguintes — já com sua companhia teatral — escreveu 15 peças, quase todas
comédias leves e dramas históricos ou sentimentais, como Sonho de uma
noite de verão , A megera domada , Muito barulho por nada , Ricardo III e
Romeu e Julieta. A partir de 1601, durante um período de recolhimento e
3
meditação, elaborou a maior parte de suas tragédias, como Otelo
,
Hamlet, Rei
Lear e Macbeth. Depois disso, Shakespeare retomou seu velho otimismo, mas
com um humor mais contido, filosófico e por vezes melancólico. Nesse
período escreveu Péricles, príncipe de Tiro e A tempestade.
Romeu e Julieta, escrita provavelmente em 1595, foi uma das primei-
ras obras de Shakespeare e revela ainda uma certa imaturidade do autor.
Contudo, é a sua maior tragédia renascentista.
A trágica lenda de Romeu e Julieta tem antecedentes na mitologia
grega, com Hera e Leandro, Píramo e Tisbe, e também nas lendas medie-
vais. A célebre história de amor já fora contada de diversas maneiras, entre
elas, a versão de Luigi de Porto, de 1524, e a de Arthur Brooke, de 1562.
A fonte mais direta de Shakespeare foi o poema narrativo de Brooke.
Romeu e Julieta inicia o ciclo shakespeariano do amor contrariado por
circunstâncias adversas de ordem familiar, social ou nacional, que seguirá
em Troilo e Crésida e em Otelo
,
e culminará em Antônio e Cleópatra
,
um
ciclo em que o amor aparece como um novo sentimento que transforma a
quem o vive até o extremo de exigir sua própria vida.
Como tragédia de amor, Romeu e Julieta prefigura Otelo em pelo
menos dois pontos: baseia-se em uma história de amor romântica e parte de
fórmulas de comédia. Ambos os aspectos estão relacionados entre si. Quan-
do tratam de amor, a tragédia e a comédia têm uma origem comum nas
histórias românticas gregas ou renascentistas: os diversos incidentes que
determinam a ação tendem a ser improváveis e o final, feliz ou triste,
arbitrário. A história de Romeu e Julieta acaba mal porque um frade não
consegue entregar uma carta e um criado dá uma mensagem errada. O
infortúnio dos protagonistas deve-se, portanto, mais ao acaso do que à
necessidade trágica. Romeu e Julieta produz um efeito trágico porque os
personagens, com os quais é fácil a identificação, são vulneráveis e acabam
vítimas de uma situação de ódio e violência que não podem evitar.
4
CAPÍTULO 1
No norte da Itália, por volta de 1600, a região do Vêneto
estava sob o domínio de Veneza. Penetrando no interior do país,
aos pés dos Alpes Centrais, encontra-se Verona. A presença
vigilante do monte Lessini dilui-se com serenidade nas doces
a
águas do Adige; o rio corre para o mar Adriático que, com suas
águas salgadas, banha a cidade de Veneza.
O palco e cenário desta história é a bela Verona, com suas
inúmeras casas e fortificados palácios de pedras, e suas compri-
das e estreitas vielas. Nela, sobre as pontes cujos arcos ligam as
margens das águas azuladas do rio, amanhecia um domingo de
julho. Saindo dessas margens, e embrenhando-se pela cidade em
meio aos seus cidadãos, dois homens armados de espada e
broquel provocavam uma revoada de pombos na larga praça.
— Eu lhe dou minha palavra, Gregório: nós não iremos
levar desaforos para casa!
— É claro, Sansão, caso contrário nos tomariam por tolos.
— Preste atenção: quando fico zangado, puxo logo a es-
pada!
— Sim, mas se quiser permanecer vivo, trate de puxar o
pescoço para fora do nó daestivesse banido, padre, então poderia falar e arrancar os cabelos.
Isso somente eu posso fazer! — diz Romeu, atirando-se ao chão,
revoltado consigo mesmo e com o próprio destino.
Nesse momento, começam a bater desesperadamente à por-
ta da cela de frei Lourenço. O padre pedia a Romeu que se
levantasse, mas ele nâo se movia. Temendo que Romeu fosse
preso, o frei obriga seu protegido a esconder-se em seu quarto.
Quando abre a porta, porém, é surpreendido pela ama de Julieta.
— Oh, santo frade! — exclama exageradamente a ama.
— Onde está o esposo de minha senhora? Onde está Romeu?
— Ali no chão de meu quarto... Vê? Está embriagado nas
próprias lágrimas!
— Incrível! Está no mesmo estado de minha Julieta! Exa-
tamente igual! — compara a ama, aflita.
— Semelhantes na dor e no amor... Que situação lamentá-
vel! — concorda frei Lourenço.
A ama, revoltada em ver Romeu naquele estado deplorável,
pede-lhe energicamente que reaja:
— Coragem! Fique de pé se for homem! Pelo amor de
Julieta, levante-se! — exige a ama.
— Ama?! — surpreende-se Romeu, obedecendo-lhe.
— Meu senhor, a morte é o fim de tudo!
Surpreendentemente preocupado com outra pessoa além de si
próprio, Romeu indaga sobre as condições de Julieta e sobre o
julgamento que ela fazia dele depois de haver matado Tebaldo:
— Que pensa de mim a minha querida Julieta? Que sou um
cruel assassino capaz de manchar de sangue a sua honrada fa-
mília? E o que ela pensa do nosso amor aniquilado?
47
— Não pensa nem diz, ela só chora. Chora, atira-se na
cama, levanta-se e grita: “Tebaldo!”. Depois chora, atira-se na
cama, levanta-se e grita: “Romeu!”. Depois...
Sentindo-se o culpado e causador de tanta desgraça e sofri-
mento, Romeu puxa sua espada e ameaça matar-se, mas frei
Lourenço o repreende:
— Detenha sua desesperada mão! — grita o padre. — Você
é um homem, Romeu? Seu corpo diz que sim, mas suas lágri-
mas dizem o contrário, seus atos frenéticos mostram apenas a
fúria irrefletida de uma fera!
Atônito diante de seu confessor, Romeu ouvia as palavras
que frei Lourenço disparava em sua direção:
— Porque matou Tebaldo, quer agora matar-se? E, matan-
do-se, matar a esposa que à sua vida se dedica? Cuidado,
Romeu, cuidado! — adverte o franciscano.
— É isso mesmo — diz a ama, sem que o padre lhe dê
importância.
— Vamos, homem, ânimo! A sua Julieta, por cujo ardente
amor queria morrer há pouco, está viva! E esta é a sua felicidade!
Tebaldo queria matá-lo, mas foi você quem o matou, e nisto tam-
bém teve sorte! Quer mais? A lei ameaçava com a morte, e terá a
pena do exílio apenas! Desperte, rapaz, a felicidade o corteja! Não
a renegue ou morrerá em desventura! — profetiza o padre.
— E o que faço, frade? — pergunta Romeu, perplexo, se-
guindo atento as palavras de frei Lourenço.
— Vou lhe dizer o que fazer... Vá procurar o seu amor
conforme estava combinado, subir até o quarto dela e dar-lhe
consolação, me entende?
— Claro que entendo, padre.
— Mas não fique até a hora em que colocam a guarda,
senão não poderá partir.
— Partir? Partir para onde?
— Para Mântua. Permanecerá em Mântua até que encontre-
mos ocasião para anunciar o matrimônio de vocês, reconciliar as
duas famílias e conseguir o perdão do príncipe. Dessa forma,
poderá voltar vinte mil vezes mais alegre do que agora, com os
48
lamentos que emite ao partir.
O plano parecia perfeito. Romeu mostrava-se disposto a
acatar as instruções de seu conselheiro. O padre pede então à
ama que siga na frente e apresse toda a casa a ir mais cedo para
a cama. Romeu iria em seguida.
— Oh, senhor, poderia passar aqui a noite toda para escutar
tão bons conselhos! Que sabedoria! — exclama a ama.
— Ama, espere... — pede Romeu. — Avise Julieta que
logo estarei com ela para que me puna pelo que fiz.
— Ora, deixe disso, homem... Ah, senhor, Julieta me pediu
que lhe entregasse este anel... Tome-o! E vá logo ver minha
dama, já está ficando tarde!
Romeu queria que o anel em suas mãos fosse os olhos de
Julieta, ali representados numa translúcida pedra azul, azul do bri-
lho das estrelas, azul das águas do rio, azul da esperança no infinito.
— Vamos, Romeu, agora vá! Disso depende a sua vida:
parta antes que a guarda seja montada, ou então saia disfarçado
quando despontar o dia. Fique em Mântua e de lá não saia!
Procurarei seu criado, Baltasar, e ele levará notícias com fre-
qüência; assim, saberá de tudo quanto suceder e lhe interessar.
Dê-me a sua mão... Está ficando tarde. Adeus! Boa noite, filho!
CAPÍTULO 16
No início da noite, Páris conversava, na casa dos Capuletos,
com quem julgava ser seu futuro sogro. Sensibilizado pela prema-
tura, inesperada e trágica morte de Tebaldo, o senhor Capuleto
mostrava-se confuso e mesmo inconseqüente no que dizia:
— Páris, meu jovem conde, coisas lamentáveis ocorreram
por aqui neste dia, e mal tivemos tempo de conversar com nossa
filha... Ela era muito apegada ao seu primo, assim como eu.
Bem, todos nós nascemos para um dia morrer, que se há de
fazer?! Já é tarde, meu bom amigo, por isso Julieta não irá
50
descer. Eu mesmo, a uma hora destas, já estaria na cama! —
comenta o senhor Capuleto, insinuando o avançado da hora.
— O senhor tem razão. Estes tempos dolorosos, dias de luto,
não são nada apropriados para galanteios... Já estou de partida. Re-
comendações à sua filha. Boa noite, senhor. Até mais ver, senhora.
A senhora Capuleto, seduzida pelas boas maneiras do con-
de, queria garantir-lhe que, na manhã seguinte, saberia da filha
o que ela pensava de suas pretensões:
— Esta noite minha filha está enclausurada na própria tris-
teza — ela diz, justificando a reclusão de Julieta.
Aproveitando as palavras da esposa, o velho Capuleto atre-
via-se a falar pela filha, antecipando-se à velocidade natural dos
acontecimentos. Ordenava à senhora Capuleto que, antes de dei-
tar-se, comunicasse a Julieta o amor que Páris nutria por ela.
— Diga-lhe que na quarta-feira... Espere, que dia é hoje?
— pergunta o velho senhor.
— Segunda-feira, senhor — responde Páris prontamente.
— Segunda-feira... Ahn... Não, quarta é cedo demais. Diga-
lhe que na quinta-feira ela se casará com o conde! — arremata
o senhor Capuleto.
— Quinta-feira, senhor? — Páris surpreende-se com a de-
cisão do pai de Julieta.
— Está disposto? Que pensa desta pressa, nobre conde?
Não está contente?
— Claro que sim, senhor. Desejaria que quinta-feira fosse
amanhã mesmo!
Pensando em tudo, o pai de Julieta expressa o desejo de que
a cerimônia não tivesse grande pompa; seriam convidados pou-
cos amigos, já que a morte de Tebaldo se fazia muito recente e
os cidadãos de Verona poderiam pensar que eles não respeita-
vam o luto pelo sobrinho.
— Se está de acordo, jovem Páris, prepare-se, então... Será
na quinta-feira! — avisa o patriarca para seu futuro genro, e,
voltando-se para a senhora Capuleto, a instrui: — Minha esposa,
converse com a nossa filha antes de deitar-se e prepare-a para
o dia do casamento... Adeus, senhor, e muito boa noite!
51
CAPÍTULO 17
Era noite ainda. Acreditando ouvir o canto da cotovia, men-
sageira da aurora, Romeu julgava prudente a sua partida.
— Não, meu amado, acredite, não é a cotovia, mas sim a
voz do rouxinol ali sobre a romãzeira. Todas as noites ele can-
ta... Fique, meu amor, fique mais um pouco comigo! O dia
ainda não está próximo!
Julieta preferia acreditar que a luz despontada ao longe
fosse de algum meteoro, que, como Romeu, passava por sua
vida naquela noite. Mas não, era o sol que trazia o dia e, com
ele, a separação indesejada.
— Preciso partir e viver, minha amada, ou ficar e morrer!
— sentencia Romeu.
— Então, que aquela claridade seja uma tocha que ilumine
seu caminho para Mântua! Ai, Romeu, fique mais um pouco e
me deixe adormecer em seus braços... — implora Julieta.
A tentação de Romeu em ficar e deixar que a morte o
surpreendesse era grande. O desejo de Julieta de que ficasse
vencia sua vontade de partir. Que as almas dos dois amantes
repousassemjuntas, ainda que em outro mundo.
Como que pressentindo o pior, Julieta subitamente recupera
a razão e libera seu amado para partir. Romeu também prefere
acreditar num futuro esperançoso e decide depositar confiança
nas palavras de frei Lourenço.
— Vá, amor, está ficando cada vez mais claro!
— Ao contrário do nosso infortúnio, Julieta!
— Senhora, minha senhora — diz a ama adentrando ines-
peradamente no quarto de Julieta. — Sua mãe está vindo para
cá! Seja prudente, cuidado!
— Então, que pela minha janela entre o dia e saia a vida!
— deseja ardentemente Julieta.
Como na outra noite, a despedida dos amantes era sofrida
e protelada. Julieta temia não receber notícias de Romeu.
— Preciso saber de seus passos a cada hora, a cada minuto!
52
Quando nos encontrarmos novamente, já terei envelhecido,
Romeu, porque num minuto há muitos dias!
— Tenho certeza de que nos veremos muito brevemente,
Julieta, e um dia ainda nos recordaremos destas dores de hoje
como um passado muito remoto... Adeus!
Descendo do balcão do quarto de Julieta de volta ao jardim,
depois de uma noite de inesquecível amor, Romeu imortalizava
em seus olhos o semblante triste da amada.
Julieta, acompanhando Romeu com o olhar, sentia-se toma-
da por maus pressentimentos, como se visse, desde o alto, um
cadáver no fundo de um túmulo.
— Ou minha visão me engana, ou você está muito pálido,
Romeu — confessa Julieta.
— Acredite-me, amor, os meus olhos também a vêem pá-
lida. A dor sedenta bebe nosso sangue!
Romeu vira-se de costas e, deixando Julieta para trás no bal-
cão, salta o muro e desaparece. Escondendo-se de seu próprio
mundo, de sua própria Verona, Romeu parte em direção a Mântua.
Espantada por encontrar a filha em pé tão cedo e ainda
chorando o que pensava ser a morte do primo Tebaldo, a senho-
ra Capuleto tentava consolá-la:
— Sei bem a dor que sente, minha filha. Chora a morte de
seu primo e também o fato de estar vivo o infame que o matou.
— Que infame, mãe?
— Ora, esse infame Romeu!
Julieta pensava com o coração, por isso a Romeu tudo per-
doava. Sua mãe, ao contrário, chamava-o de traidor e ansiava
por vingança.
— Vou enviar alguém a Mântua, para onde certamente irá esse
desterrado vagabundo, e mandarei que lhe façam tomar uma estranha
bebida... Assim, muito brevemente estará em companhia de Tebaldo.
Julieta preferia dissimular e, dizendo à mãe que a apoiava em
suas intenções, queria dizer justamente o contrário. Como desejava
juntar-se a seu amado o quanto antes... Não queria envenená-lo,
mas sim amá-lo! Não queria vê-lo morto, mas sim abraçado a ela!
Minha querida, não foi para falarmos de dores que vim...
53
Trago boas-novas! — interrompe a màe.
Ainda bem que traz alguma alegria para este coração des-
troçado! Quais são as notícias?— Julieta simula um ar de interesse.
— Seu pai encontrou um meio de tirá-la da tristeza, um dia
imprevisto de felicidade que nem você aguardava nem eu previa.
— Que bom... E que dia é esse, minha mãe?
— Na próxima quinta-feira, pela manhã, o galante, jovem,
nobre e gentil-homem, o conde Páris, na igreja de São Pedro,
terá a sorte de fazê-la uma feliz esposa!
Assustada com tamanha pressa, Julieta evocava ao próprio
São Pedro para negar à mãe o desejo do pai.
— Avise meu pai que não me casarei com quem não conhe-
ço! A casar com este Páris, prefiro casar-me com Romeu... A
quem odeio, como bem sabe!
— Pois muito bem, aí vem seu pai. Diga a ele pessoalmente
o que acaba de me dizer!
— Que é isso, minha menina? — diz o senhor Capuleto,
que adentra no quarto da filha como quem invade o mundo
interior de Julieta. — Parece uma goteira! Sempre em lágrimas
e chorando torrentes! Em seu pequeno corpo, parece um barco,
um oceano e um vento... Que olhos são esses? Está emocionada
com as notícias que trouxe sua mãe? — interroga o velho, es-
forçando-se para parecer carinhoso.
— Não, homem... — antecipa-se sua esposa. — Ela disse
que agradece, mas não aceita o pedido do conde. Imagine! Que-
ria que esta tola se casasse com um túmulo!
Irado, o velho Capuleto não podia acreditar que sua jovem
e única filha não se sentisse orgulhosa e dignificada por casar-
se com alguém como o conde Páris.
— Se não for se casar nesta quinta-feira — ameaça —
, eu
a arrastarei até a igreja numa carreta! Fora da minha presença,
carcaça doentia! Fora daqui, libertina!
— Cale-se, meu marido! Ficou doido?
— Pai, eu lhe peço de joelhos... — implora Julieta.
— Enforque-se, criatura desobediente! Ouça o que digo: ou
vai à igreja na quinta-feira ou jamais me olhe na cara! E não
54
abra a boca, pois meus dedos ardem! A minha única filha é
minha verdadeira maldição! Saia da minha vista, ordinária!
O senhor Capuleto estava realmente enlouquecido. Abala-
va-o imensamente ver a filha renegar um homem de família
principesca; acima de tudo, ver a filha frustrar um sonho seu.
— Se não se casar, em minha casa nunca mais colocará seus
pés! — sentencia, sem piedade. — Reflita bem, pois não estou
brincando. Quinta-feira está próximo; ponha a mão no seu cora-
ção e pense... Se quiser ser uma filha obediente, eu a entregarei
a meu amigo; se não, consuma-se na fome e na miséria, morra no
meio da rua! Por minha alma, nunca a reconhecerei e nada que
me pertence jamais lhe pertencerá! Aviso: não voltarei atrás!
Capuleto deixa as mulheres a sós e sai. Julieta implorava à
sua mãe que a ajudasse ou então a deixasse sepultada com
Tebaldo. A senhora Capuleto, porém, insensível ao pedido da
filha, deixa-a sozinha com a ama.
Sentindo-se absolutamente enfraquecida em seu sofrimento,
desprovida de seu amor e de sua fé, Julieta suplica à ama que a ajude.
— Romeu está banido — argumenta a ama — e aposto
como nunca mais voltará para vê-la. Dessa forma, penso que o
melhor remédio é conformar-se com o destino e casar-se com o
nobre Páris. O conde é encantador e Romeu é um rústico! E
mesmo que não fosse, considere seu primeiro marido morto,
uma vez que não pode nem poderá tê-lo a seu lado...
Julieta não podia acreditar nas palavras que ouvia. Ela se
perguntava se a ama não tinha ao menos um pouco de coração...
— Ama, agradeço seu consolo — diz Julieta, decidindo
reagir por conta própria. — Vá dizer à minha mãe que estou
aflita por haver contrariado meu pai. E que vou me confessar na
cela de frei Lourenço e receber sua absolvição.
— Que sábia decisão, minha querida. Vou correndo contar
à sua mãe! — exclama a ama, saltitante, antes de sair.
Julieta sentia-se completamente só. Todos contra ela, contra
seus desejos, contra seu coração. Desesperada, nada mais alme-
java neste mundo. Procuraria o frade e lhe pediria um remédio
que decidisse entre sua própria vida e sua própria morte.
55
CAPÍTULO 18
A terça-feira amanhecia com ares ainda mais rubros. Até
mesmo na abadia, onde o silêncio, a devoção e o resguardo eram
previstos, a aflição arrombava portas. Na cela de frei Lourenço,
o conde Páris exortava o frade a casá-lo com Julieta.
— Quinta-feira, senhor? É muito próximo, é pouco tempo!
— reclama o franciscano.
— Essa é a vontade do senhor Capuleto, e não sou eu quem
vai demovê-lo dessa pressa — explica o conde Páris, não escon-
dendo um ar de satisfação.
— Não me parece correto o encaminhamento. O que pensa
Julieta a respeito?
— Julieta? Como assim? — surpreende-se Páris.
— Ora, se ignoramos os sentimentos da jovem dama... —
justifica o frei, na realidade tentando ganhar tempo para resolver
o terrível impasse, ou seja, casar Julieta estando ela casada com
Romeu, o que seria um sacrilégio.
— Julieta não pára de chorar a morte de Tebaldo — infor-
ma Páris —
,
por isso não pudemos falar de amor. Esse é justa-
mente o motivo da pressa: se Julieta permanecer imersa nessa
dor, aquela casa se inundará em lágrimas.
Sem saber como remediar a situação que se configurava, o
frei se sente aliviado com a chegada inesperada de Julieta à sua
cela. Surpresa com a presença de seu pretendente, Julieta disfar-
çava sua ansiedade, procurando manter-se calmae sensata dian-
te do conde.
— Que agradável encontro, minha esposa!
— Quem sabe, senhor, mas para que eu seja a sua esposa,
teremos antes de nos casar — responde a jovem.
— Não tenha dúvidas, minha querida, pois assim será na
próxima quinta-feira — insiste Páris.
— O que tiver de ser, será.
— Verdade indiscutível — intervém o frei, cortando o inu-
sitado colóquio.
56
— Veio confessar-se com o padre? — prossegue Páris.
— Se eu lhe responder, estaria me confessando com o se-
nhor e não com o padre.
— Revele a ele o amor que sente por mim.
— Da mesma forma, se agora lhe disser o que direi ao
padre, estarei me confessando com o senhor e não com quem
devo fazê-lo — explica Julieta, na realidade pensando em como
poderia amar a quem nem mesmo conhecia.
— Pobre menina, vê-se no seu belo rosto as lágrimas de sua
dor — observa o conde.
— Seria uma vitória das lágrimas tal fato, pois meu rosto
já era bastante feio antes mesmo que elas se instalassem —
rebate Julieta, insistindo em contrariar seu pretendente.
— Não quis ofendê-la! — desculpa-se Páris.
— Não me ofendeu, senhor. Eu só disse a verdade!
Frei Lourenço presenciava aflito aquela tensa conversa. Por
sorte, Julieta toma a iniciativa de lhe perguntar se deveria voltar
à tarde. O padre, preferindo que a jovem dama ficasse, pede ao
conde para deixá-los a sós.
— Não importunarei este sagrado momento. Na próxima
quinta-feira, meu amor, irei despertá-la bem cedinho... Adeus!
— finaliza Páris ao despedir-se.
— Feche a porta, santo padre. E me ajude, por favor! —
suplica Julieta, agora sim deixando-se vencer pela agonia.
Desesperançada, Julieta ajoelhava-se diante de frei Louren-
ço, implorando socorro, uma réstia de esperança que fosse. Evo-
cando a sabedoria de seu confessor, Julieta pedia-lhe que a au-
xiliasse em sua determinação de dar cabo da própria vida.
— Com este punhal, acabarei imediatamente com a minha
alma! O senhor uniu a minha mão à de Romeu, mas Deus uniu
os nossos corações. E antes que esta minha mão sele um novo
contrato, prefiro usá-la em meu próprio peito!
— Tenha paciência, minha filha.
— Como paciência, padre? Dê-me, então, um conselho, ou,
se não quiser me ver cravada neste punhal, dê-me um remédio
que ponha fim a esta dor!
57
— Pare, filha! — exalta-se frei Lourenço, levando as mãos
à cabeça, e estirando, em seguida, a sua longa barba branca.
Rodando pela cela em passos pensativos, na tentativa de
evitar um desenlace desesperado, o frei vislumbrava uma pos-
sibilidade mais esperançosa, ainda que tresloucada. Antes que
expusesse seu plano, queria saber de Julieta até onde iria sua
anunciada coragem, pois, se mantinha a palavra de tirar a pró-
pria vida, teria, seguramente, coragem para desenvolver sua
estratégica ação.
Com o intuito de evitar o casamento com o conde Páris, frei
Lourenço propõe a Julieta um simulacro de morte.
— Como assim, padre? Eu fingiria o meu próprio fim?
— Mais que isso, minha filha: eu lhe daria um remédio que
simularia a sua morte!
— Para não casar-me com Páris, sou capaz de saltar do alto
de uma torre, esconder-me entre serpentes, enterrar-me numa
cova amortalhada com cadáveres, qualquer coisa! Diga-me o
que fazer e não vacilarei nem terei medo, desde que tenha es-
perança de viver ao lado do meu doce amor!
Frei Lourenço, convencido, instrui Julieta detalhadamente.
Ela deveria voltar para casa, mostrar-se alegre e dizer que con-
sentia em casar-se com Páris. No dia seguinte, quarta-feira,
quando a noite chegasse, Julieta deveria dispensar a ama e iso-
lar-se em seu quarto.
— Leve este frasco, filha. Quando estiver deitada, beba-o
até a última gota!
— Sim, senhor. Continue...
O frei explica que, imediatamente após a ingestão do remé-
dio, Julieta sentiria correr pelas veias um líquido gelado e entor-
pecente, que faria com que nenhuma pulsação prosseguisse seu
batimento.
— Tudo cessará. Não sentirá calor nem qualquer hálito de
vida. As faces perderão seu rosado e também os lábios se tor-
narão cinza, como se estivesse desmaiada. As janelas de seus
olhos se fecharão, como a morte encerra a vida. Por fim, os
membros ficarão frios e rígidos, e sua aparência será de morta!
58
— Morta, padre? Estarei morta?
— Calma, filha, calma. Escute-me com atenção... Tenha
coragem!
Julieta ficaria como se estivesse morta por um período de vinte
e quatro horas, despertando, depois, como de um profundo sono.
Dessa forma, na manhã de seu casamento, sua família a julgaria
morta em seu leito e faria seu enterro no antigo túmulo dos
Capuletos. Nesse meio tempo, antes que o efeito do remédio ces-
sasse e Julieta acordasse, Romeu estaria recebendo, em Mântua,
carta do frei instruindo-o a voltar a Verona para concluir o plano.
— Juntos, ele e eu aguardaremos o seu despertar, a sua
volta à vida. Nessa mesma noite, Romeu a levará a Mântua e
vocês se verão finalmente livres! E agora eu lhe pergunto, filha:
terá coragem para assim agir?
— Claro, meu bom conselheiro! Dê-me logo o remédio!
— Tome-o! E agora vá! Tenha sorte na sua resolução. Vou
enviar imediatamente a Mântua um frade com minha carta para
Romeu!
— O meu amor é forte e sua força me guiará! Adeus,
querido padre! — despede-se Julieta, esperançosa.
CAPÍTULO 19
A casa dos Capuletos estava em polvorosa com os prepara-
tivos para o casamento. Os criados acatavam aparvalhados as
exigentes ordens de seus amos, demonstrando que a pressa ser-
via como inimiga dos melhores arranjos.
No momento em que a ama de Julieta anunciava a seu
senhor que sua desobediente filha fora avistar-se com frei Lou-
renço, a própria Julieta adentrava na sala, onde também se en-
contrava sua mãe.
— E então, minha filha, tem algo para nos dizer? — per-
gunta o senhor Capuleto a Julieta.
60
— Por certo que tem — intromete-se a ama, antevendo
boas-novas. — Não percebem como traz o semblante contente?
— Estive com o meu confessor... — informa Julieta.
— Disso já sabemos! — descarrega seu pai agressivamente.
— Quero saber se aquele velho frade enfiou alguma sensatez
nesta jovem cabeçuda!
— O bom frei me ensinou a arrepender-me do pecado de
desobedecer ao meu pai e desacatar suas ordens. Por isso, meu
pai, eu me ajoelho a seus pés e lhe suplico perdão. Perdoai-me,
pois de hoje em diante só me farei conduzir por seus desejos!
— Estou encantado! Juro por Deus que toda nossa cidade
louvará o nome desse santo frade! Mandem buscar o conde e
digam a ele que Julieta o aguarda para ser sua obediente esposa!
— Eu o encontrei na cela de frei Lourenço... — acrescenta
Julieta.
— Muito bem, muito bem... — grita exageradamente o
senhor Capuleto, andando agitado pela sala. — Comuniquem ao
nobre conde Páris que amanhã cedo será firmado o enlace ma-
trimonial!
— Mas amanhã é quarta-feira! — intervém a senhora
Capuleto.
— Exatamente! Resolvamos isto de uma vez por todas...
Cumpram a minha palavra! — ordena o pai de Julieta, eufórico
com o que pensava ser fruto dos bons conselhos do frei, resolvendo,
para surpresa de todos, antecipar a cerimônia para o dia seguinte.
Apreensiva, porém controlada, Julieta pede à ama que a
acompanhe até seu quarto a fim de ajudá-la nos preparativos. Ao
mesmo tempo, sua mãe protestava com o marido, alegando falta
de tempo para os acertos de todos os detalhes, mas o velho
Capuleto estava irredutível:
— Deixe-me só! Trabalharei sem parar para que tudo ande
bem! Se for necessário, não pregarei os olhos esta noite! Fique
tranqüila, esposa, e vá ajudar nossa filha a embelezar-se... Irei
agora mesmo, pessoalmente, pedir ao conde que aqui esteja bem
cedo! Meu coração está maravilhosamente leve depois que essa
pequena caprichosa voltou à razão!
61
CAPÍTULO 20
Mascarando seus verdadeiros sentimentos, Julieta procura-
va desvencilhar-se de sua ama, pedindo a ela que a deixasse
sozinha na noite da véspera de suas núpcias com o conde Páris.
— Ama querida, você sabe bem o quanto estou mergulhada
em falsidade e pecado. Preciso rezar esta noite, orar muito paraser perdoada... Rogo, portanto, que me deixe só!
A mãe de Julieta, no entanto, também queria participar
daquele momento que julgava tão especial e único na vida da
filha. Julieta apressava-se em separar tudo o que fosse necessá-
rio para a cerimônia do dia seguinte e pedia à mãe que a dei-
xasse sozinha para melhor descansar.
— Está bem, minha filha — concorda a senhora Capuleto.
— Boa noite... Deite-se e descanse, pois está precisando. Adeus!
Julieta não sabia ao certo quando as duas tornariam a se
encontrar. A pressa descabida de seu pai fazia com que seus
planos fossem antecipados. Traz para perto de si o frasco dado
por frei Lourenço. Porém, na dúvida quanto à eficiência do
remédio, coloca ao lado da cama outro instrumento que também
poderia impedir seu casamento: um punhal.
Os pensamentos vagavam atordoadamente na cabeça de Julieta.
Ela cogitava a possibilidade de que o frasco contivesse um veneno
mortal; pensava que talvez o padre preferisse vê-la morta por
temor à desonra a que estaria submetido, caso viessem a saber que
a casara em segredo com Romeu. Mas não, deveria acreditai* na-
quele santo homem que sempre havia dado provas de querê-la bem.
Outras terríveis suposições a perturbavam. E se ela acordas-
se antes do tempo previsto? Ficaria asfixiada dentro da
catacumba? Morreria antes da chegada de Romeu? Ou, pior que
tudo, teria de conviver com os incontáveis espíritos de seus
antepassados ali sepultados, dentre eles o próprio Tebaldo?
— Não! — srita em sua cama Julieta. E. com o frasco nas
mãos, anuncia: — Romeu, meu Romeu, já estou indo ao seu
encontro! Bebo isto em seu nome!
62
CAPÍTULO 2
1
Durante a madrugada, o salão da casa da família Capuleto
era sinônimo da mais completa confusão. Ninguém ainda havia
descansado, nem mesmo o velho patriarca, que insistia em su-
pervisionar os preparativos para a cerimônia. Os servidores cor-
riam de um lado para o outro, carregando lenha, espetos, comida
e tudo o que fosse necessário para bem receber os poucos con-
vidados que a tempo haviam sido avisados das bodas.
— E os músicos? — lembra o senhor Capuleto. — Esque-
cemos de contratar os músicos!
— Fique tranqüilo, meu esposo. O conde se comprometeu
a trazê-los!
— Muito bem... Mulheres, o dia vem chegando e creio que
já é hora de acordar Julieta. Vá, ama, corra a chamá-la, e vista-
a bem! Eu vou ao encontro de Páris; o noivo já deve estar
vindo! Vá, ande depressa!
Prestativa e bastante afoita por despertar sua pequena me-
nina, a ama corre até os aposentos de Julieta.
— Pobrezinha, dorme como um anjo! Vamos, cordeirinho,
acorde, dorminhoca... — insiste a ama, tentando chamá-la, po-
rém sem resultados. — Que diz, senhora noiva, nenhuma pala-
vra?
Falando sozinha e inutilmente, a ama aconselhava Julieta a
aproveitar bem aquele sono pesado, pois o seu futuro marido
não haveria de lhe dar descanso nos dias que se seguiriam.
— Ora, nem se despiu? — surpreende-se a ama ao puxar-
lhe a coberta e perceber que a sua senhora dormia vestida. —
Que se passa, minha doce criatura?... Aiü Como está gelada! E
pálida! Meu Deus, socorro!! Socorro, ela está morta!! — grita,
horrorizada.
— Que barulho é esse, ama? — pergunta a senhora
Capuleto, entrando no quarto da filha.
— Que dia infeliz, que horror! — repete a ama, chorando
copiosamente.
63
— Pelo amor de Deus, o que aconteceu, ama?
Veja com seus próprios olhos, senhora! — a ama aponta
para o leito de Julieta.
— Ai, meu Deus! Ai de mim, minha única filha, minha
própria vida! Acorde, menina, reviva! Abra os olhos ou também
morrerei! Socorro!! — exclama a senhora Capuleto, sentindo-se
desfalecer.
Atraído pela gritaria, sem no entanto entender o que se
passava, o velho Capuleto entrava no quarto chamando pela
filha:
— Que vergonha! Tragam Julieta! O noivo dela já chegou!
— Julieta está morta, senhor! Morta!
— Deixem-me vê-la... Ai, meu Deus, está gelada! — cons-
tata, incrédulo, o senhor Capuleto.
Havia várias horas que a morte pousara sobre os lábios e
sobre o corpo rígido de tão bela dama. Estendida placidamente
sobre a cama, Julieta não parecia corresponder às lamentações
que se faziam ouvir à sua volta.
Os pais de Julieta, consternados, deixam a ama velando a
pobre filha e dirigem-se ao salão, onde os esperavam frei Lou-
renço e o conde Páris.
— E então — indaga o padre —
,
a jovem noiva está pronta
para se dirigir à igreja?
— Pronta para ir — responde o velho Capuleto —
,
mas
para nunca mais voltar!
— O que aconteceu, senhor? — quer saber o noivo.
— Oh, meu filho, na véspera de suas bodas a morte deitou-
se com sua esposa. A morte a deflorou, a morte será meu genro,
a morte será meu herdeiro... Com ela minha filha se casou!
Agora, a morte também a quero eu!
O conde encarnava a máscara da decepção, sonho desejado
e frustrado. Os Capuletos choravam a perda do que tinham de
mais valioso na vida. Apenas frei Lourenço parecia não imergir
na dor que o rodeava:
— Silêncio, por favor, e muita calma! Não temos mais esta
bela criatura; quem a possui agora são os céus, e a esta vontade
64
devemos respeitar. Não se cura a dor com o remédio da deso-
rientação; por isso, se não souberam bem amar a pobre Julieta,
não enlouqueçam neste momento em que está morta!
Acatando as palavras do frade, o senhor Capuleto ordena
que o que fora anteriormente destinado para o festim das bodas
fosse agora desviado para um banquete funerário, e que toda a
alegria se transformasse em melancólico luto.
Frei Lourenço dita, então, a cada um dos presentes, suas
respectivas incumbências, orientando passo a passo o funeral.
— Cada um deve estar preparado para acompanhar este
belo corpo ao seu sepulcro. O céu com certeza nos pune por
alguma maldade que fizemos. Não devemos irritá-lo, pois esta-
ríamos indo contra a vontade divina!
CAPÍTULO 22
Encoberto pela tristeza do exílio em Mântua, Romeu aguar-
dava notícias de Julieta, isolado na pequena cidade a poucas
horas ao sul de Verona.
Melancólico em seu desterro do mundo e do amor, exílio
físico e espiritual, Romeu dormia atirado numa calçada do cen-
tro da cidade. Seus sonhos traziam estranhos presságios: ele se
via morto enquanto Julieta recobria de beijos seu corpo sem
vida; cálidos beijos que o despertavam de sua pena, trazendo-o
de volta à vida e transformando-o num poderoso imperador.
Mal sabia Romeu do que se passava em Verona enquanto
sonhava sob o sol escaldante. Seu fiel criado Baltasar, contudo,
ao saber da notícia da morte de Julieta, saíra em disparada ao
seu encontro, totalmente ignorante quanto aos planos de frei
Lourenço. Assim que o vê, Romeu indaga por notícias:
— O que traz, Baltasar? Tem carta do frade?
— Carta? Não, senhor, não tenho nenhuma carta para que
leia!
65
— Que tem para me contar, então? Meu pai não está bem?
— pergunta Romeu.
Seu pai?! Não, senhor, o senhor Montecchio goza de
boa saúde!
— Tem notícias da minha Julieta, então? Ela está bem,
Baltasar?
— Creio que melhor do que nós — Baltasar tenta explicar,
meio embaraçado. — Ela não terá mais desgostos nem doloro-
sos temores... O seu belo corpo está definitivamente adormecido
no sepulcro dos Capuletos e sua parte imortal vive agora entre
os anjos!
— Não é possível, Baltasar! — exclama incrédulo Romeu.
— Devem tê-lo enganado! Não seria um plano do frade?
— Infelizmente não, meu senhor. Eu mesmo a vi ser enterrada
na tumba da família e parti imediatamente para avisá-lo. Perdoe-me
por ser o portador de tão triste notícia! — lamenta Baltasar.
— Que tragédia, meu Deus! — vocifera Romeu, erguendo
os braços aos céus. — Que se faça noite sobre o meu coração!
Será possível, minhas estrelas? Como poderei seguir acreditando
em seus poderes?
Completamente desiludido e bastante perturbado com a
notícia, Romeu pergunta mais uma vez se Baltasar não trazia
alguma carta de frei Lourenço. Diante da negativa, pede a seu
criado para lhe arranjar cavalos, a fim de partir naquela mesma
noite para Verona.
— Ah, traga-me também tintae papel...
Contrariado, porém prestativo, Baltasar intui que a galope
estaria vindo mais uma tragédia.
Unir-se a Julieta em seu descanso eterno passava a ser o
único pensamento de Romeu. Para que seu desejo se realizasse,
no entanto, teria de buscar os meios adequados que tranqüilizas-
sem o coração de um amante desesperado. Lembra-se, então, de
um boticário que já lhe houvera oferecido um veneno poderoso.
O farmacêutico era um tipo maltrapilho, de aspecto tétrico,
porém com a sabedoria, expressa nos olhos e nas mãos, de quem
conhecia profundamente as plantas medicinais. Nas estantes do
66
velho distinguia-se um amontoado de caixas vazias, potes de
terra esverdeada, sementes mofadas, restos de barbantes e ve-
lhos pàes de rosas espalhados para bem impressionar. Apesar de
saber que em Mântua a venda de venenos era punida com a
morte, Romeu acreditava que o boticário não recusaria o seu
pedido; afinal, era um estrangeiro e tinha dinheiro.
— O que deseja, meu senhor? De que necessita para curar
esse semblante de aflição e morte, de amor e desejo?
— Necessito conhecer o eterno repouso para os que amam
perdidamente... — suplica Romeu. — Venha aqui, homem,
aproxime-se!
— Vejo que boa coisa não quer de mim...
— Sei que é pobre, por isso tome quarenta ducados, mas
em troca dê-me uma dose de veneno, uma substância tão forte
que, correndo pelas veias, faça a alma sair do corpo tão violen-
tamente quanto a pólvora se precipita para fora de um canhão!
— Possuo uma droga exatamente como essa que me pede,
mas não posso vendê-la. As leis...
— Conheço as leis, caro senhor. No entanto, conheço tam-
bém a face de um homem esfomeado. O desprezo e a pobreza
pendem de seus ombros; o mundo não é seu amigo, nem
tampouco suas leis!
— Não sei, estrangeiro... A minha pobreza consente, mas
não a minha vontade! — retruca o boticário.
— Pois estou pagando pela sua miséria... — insiste Romeu.
— Então tome! Coloque estes grãos no líquido que quiser...
Mesmo que tenha a força de vinte homens, cairá morto antes que
possa dar um suspiro! — informa o farmacêutico com convicção.
— Aqui tem o seu ouro, este sim, o pior dos venenos para
as almas dos homens, que mais crimes têm cometido neste mun-
do sujo do que estas pobres drogas misturadas que não o deixam
vender. Sou eu quem está lhe dando um veneno, não o senhor
a mim! Adeus... Compre alimentos e engorde um pouco as suas
carnes. Este frasco me acompanhará, como um amigo, até o
túmulo de Julieta. Lá, dele me fartarei! — conclui, desesperado,
Romeu.
67
CAPÍTULO 23
No sombrio mosteiro de Verona, frei Lourenço aguardava,
enormemente preocupado, o retomo de um irmão franciscano,
portador de sua carta a Romeu. Calculara as horas com precisão
e previa, para pouco depois da meia-noite, o despertar de Julieta.
Como o horário se aproximava, o frade ansiava a chegada de
Romeu para juntos irem ao cemitério.
— Santo frade! Irmão! Irmão! — grita esbaforido frei João, a
quem frei Lourenço havia incumbido de encontrar-se com Romeu.
— Bem-vindo, caro irmão. Já estava aflito aguardando no-
ticias suas... Como foi em Mântua? O que disse Romeu? Ele
veio consigo ou mandou alguma mensagem escrita? Se for as-
sim, dê-me a carta!
— Não pude chegar a Mântua! — informa frei João, para
espanto de frei Lourenço.
— Não lhe deixaram entrar na cidade?
— Não, senhor, não pude nem mesmo sair de Verona! —
ele esclarece.
— Como assim, irmão? Explique-se melhor... O que acon-
teceu?
— Fui em busca de um irmão descalço, que visitava pes-
soas enfermas, para me acompanhar até Mântua. Mas os guardas
da cidade, pensando que viéssemos de uma casa onde reinava a
peste infecciosa, todas as portas nos fecharam, não deixando
sequer que saíssemos de Verona!
— Quem levou, então, minha carta para Romeu? — inter-
rompe aflito o velho franciscano.
— Ninguém, irmão! Não pude enviá-la nem achar um men-
sageiro, todos temerosos de que estivéssemos infectados! Aqui
está a carta! — diz frei João, devolvendo-lhe o papel.
— Por Deus... O conteúdo desta mensagem era de grave
importância! Seu atraso pode trazer consequências desastrosas!
— prevê frei Lourenço. — Frei João, arranje-me uma barra de
ferro!
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— Vou buscá-la agora mesmo, irmão!
Como faltava pouco tempo para a bela Julieta despertar de
sono tão precisamente calculado, o monge pensava em resgatar
a corajosa dama e escondê-la em sua cela até que pudesse avisar
Romeu que sua prometida esposa o aguardava com vida.
CAPÍTULO 24
No cemitério de Verona, a poucos metros do mausoléu dos
Capuletos, Páris e um pajem acercavam-se silenciosos. O conde
pedia a seu acompanhante que lhe assobiasse caso aparecesse
algum estranho. Segurando um ramalhete de flores numa mão e
uma tocha na outra, o nobre dirige-se ao túmulo onde jazia
enterrada sua quase esposa.
Páris cobre com flores a sepultura de Julieta, a quem ofe-
rece também o seu amargo e sincero pranto de tristeza. Nesse
instante, escuta um assobio que o avisava da aproximação de
alguém. Ao avistar a luz de uma tocha, ele se esconde.
— Passe-me o ferro, Baltasar, e também a picareta... —
pede Romeu a seu criado. — Espere, segure esta carta e não
deixe de entregá-la a meu pai ao amanhecer.
Apoiando a tocha no alto de uma pedra a fim de iluminar
a entrada do túmulo, Romeu faz uma advertência a Baltasar:
— Agora, afaste-se, meu bondoso ajudante... Não me inter-
rompa, não importa o que vir ou escutar! Descerei a este leito de
morte para rever o rosto de minha amada. Agora, deixe-me só e não
se aproxime de mim, caso contrário nem sei do que serei capaz!
— Pode deixar, senhor. Estou indo embora e não o incomo-
darei — diz o criado, respeitando a vontade de seu amo.
Ao despedir-se, Romeu presenteia Baltasar com uma pe-
quena bolsa cheia de moedas de ouro. Baltasar, por precaução,
oculta-se atrás de um outro jazigo, ali permanecendo a vigiar,
enquanto Romeu abria a sepultura.
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Atento ao que se passava, o conde Páris, acreditando estar
Romeu cometendo uma torpe profanação de corpos amortalha-
dos, interrompe-o com violentos brados:
Banido e orgulhoso Montecchio, assassino de Tebaldo,
o primo do meu amor! Miserável condenado, considere-se pre-
so! Venha comigo, pois deve morrer!
— Exatamente para morrer é que aqui me encontro, cava-
lheiro — contesta Romeu, sem que consiga reconhecer quem o
aborda. — Não provoque um amante desesperado! Fuja daqui e
me deixe em paz!
— É o que pensa! — repudia Páris.
— Não acrescente um novo pecado sobre a minha cabeça!
Vim armado contra mim, por isso lhe peço, pelos céus, não
provoque meu furor! Parta logo e diga para o futuro que um
louco o obrigou a fugir!
r— E um traidor, Romeu! Eu o desafio!
— Defenda-se, então!
Na escuridão da noite, Romeu e Páris duelam. Suas espadas
cintilavam em meio ao fogo das tochas que precariamente ilu-
minavam seus caminhos. O pajem do conde, que a tudo assistia
a distância, corre para chamar a guarda, mas já era tarde. Seu
amo cai ao chão, atingido por um golpe certeiro do irado e
apaixonado Romeu.
— Por favor, senhor, tenha compaixão... Abra a tumba da
família Capuleto e coloque-me ao lado de Julieta! — são as
últimas palavras do nobre Páris.
Só então Romeu examina o rosto do homem que acabara de
matar, reconhecendo o parente do príncipe e de seu amigo
Mercúcio. O nome do conde Páris traz a lembrança do comen-
tário feito por Baltasar quando para ali se dirigiam, de que ele
era o homem com quem Julieta deveria se casar. Concordando
que ao conde também lhe fora imposta enorme desgraça, Romeu
o arrasta pelos braços, levando-o até o salão interno do mauso-
léu, conferindo-lhe, assim, seu último desejo.
Ao adentrar na sepultura, porém, Romeu logo avista a sua
Julieta. Atira-se sobre o corpo de sua amada ainda tão bela,
70
desesperado e ao mesmo tempo alegre por tê-la, enfim, em seus
braços. Ao perceber Tebaldo, coberto por mortalha ensangüen-
tada, estirado a poucos palmos da prima, pede perdão por lhe
haver arrancado tão abruptamentesua jovem vida.
— Ai, Julieta minha! Seus lábios ainda guardam a cor de
todo o amor que possuía! Permanecerei a seu lado para sempre,
sem jamais sair desta morada eterna, desta noite sombria coberta
de misteriosas estrelas!
Olhando pela última vez para sua amada, Romeu lhe dedica
o derradeiro abraço. Em seguida, com o frasco nas mãos, entre-
ga-se ao destino.
— Por minha querida Julieta, eu o beijo etemamente! —
proclama antes de beber o veneno e selar com um beijo o pacto
infinito com a morte devoradora.
Conforme a promessa do fiel boticário, a droga mostra-se
eficaz. E, cumprindo o seu desejo mais profundo, Romeu des-
pede-se da vida com um beijo, debruçado ao lado da bem-amada
Julieta.
CAPÍTULO 25
— Que São Francisco me proteja! — clama frei Lourenço
ao entrar no cemitério, trazendo uma lanterna, uma alavanca e
uma pá. — Quem é você, homem? Que faz aí no chão como se
fosse uma alma rastejante?!
— É o senhor, frei Lourenço? Ai, meu santo padre, pensei
que fosse uma alma do outro mundo! — responde Baltasar.
— Estou velho, mas nem tanto! Você não é o criado de
Romeu? — pergunta o frei.
— Sim, senhor... Baltasar é meu nome, ao seu dispor!
— Deixe disso, homem, levante-se! Onde está Romeu?
Cheguei tarde? Aquela luz ali, que os vermes e as vazias cavei-
ras ilumina, não arde no mausoléu dos Capuletos?
71
— Exatamente, meu padre. E lá está meu amo de quem
tanto gosta!
— Há quanto tempo Romeu está lá? — quer saber o frade.
— Mais de meia hora...
— Então, venha comigo à cripta! — solicita o velho frei,
antevendo alguma desgraça.
— Não posso, senhor. Assim ordenou meu amo e a ele dei
minha palavra.
— Não me importa... Irei sozinho!
— Espere, padre, preciso lhe contar...
— O quê? Diga logo!
— Creio que meu amo se bateu com outro senhor, que
parece haver tombado morto!
— Ai, meu Deus... Mais um! — exclama nervoso o ffanciscano.
Temeroso de um funesto desenlace, frei Lourenço avança
com rapidez ao túmulo da família Capuleto. No umbral de en-
trada, o monge percebe duas espadas, uma delas ensangüentada,
manchando a pedra do piso. Penetrando no túmulo, encontra
Romeu caído ao lado de Julieta, em sua palidez de morte, e
Páris atirado no chão, todo coberto de sangue.
— Frade... Oh, frade, o senhor está aqui? — diz Julieta,
despertando do profundo sono, simulacro de morte que se cum-
prira conforme previsto pelo frei.
— Julieta, minha filha! — saúda o padre, cauteloso.
— Frade, onde está Romeu? — pergunta Julieta, ainda
entorpecida.
— Ouço barulho, Julieta. Saiamos deste antro de morte,
contágio e sonho monstruoso! Uma vontade superior às nossas
frustrou nossos planos! Venha, saiamos daqui!
— Romeu! Onde está Romeu, frei? — Julieta insiste deses-
perada.
— Seu marido jaz morto a seu lado, jovem querida... E
Páris, ali no chão, também!
— Oh, não... Meu Romeu!! O que será de mim?
— Venha comigo, filha, e eu lhe entregarei a uma comu-
nidade de santas religiosas.
72
iia&xrx-*
— Não, padre... Por quê? Por quê?
— Não perca tempo com perguntas... Há movimento lá
fora! Vamos, corajosa menina, acompanhe-me! — insiste o frei,
bastante aflito com a aproximação da guarda.
Vá, padre, eu não sairei daqui! — avisa Julieta, fiel aos
seus sentimentos.
— Não me atrevo a permanecer mais tempo! — confessa
frei Lourenço, antes de abandonar Julieta com Romeu morto em
seus braços, Páris caído de um lado e Tebaldo envolto em mor-
talha de sangue.
Desolada no meio de tão triste cenário e envolvida pelos
braços inertes do amado, Julieta encontra o pequeno frasco de
veneno apertado na palma da mão de Romeu. Reclama, chorosa,
da ingratidão de seu amor por não lhe haver reservado uma
única gota. Beija-lhe então os lábios à procura de uma réstia de
líquido que a entorpecesse defmitivamente e pudesse aliviá-la de
seu sofrimento.
— Seus lábios ainda estão quentes, meu amor! — sussurra-
lhe docemente, embalando o corpo do amado.
O rito de amor e dor é, porém, interrompido por uma voz
que se anunciava à entrada do mausoléu. Julieta intui que deve-
ria apressar-se em consumar sua vontade e, sendo assim, arre-
bata o punhal de Romeu.
— Esta é a sua bainha, punhal amigo! Repouse cúmplice
dentro de mim e deixe-me morrer! — diz Julieta, antes de cravar
o punhal no peito e curvar-se imóvel sobre o corpo de Romeu,
selando com seu gesto a eternidade de tão imenso quanto infeliz
amor.
74
CAPÍTULO 26
O pajem do conde Páris trazia a guarda da cidade até o
cemitério à procura de Romeu Montecchio. Penetrando pelos
soturnos corredores daquele dormitório de almas,- no entanto,
tudo o que encontravam eram rastros de sangue, e que levavam
a um só lugar: o mausoléu da família Capuleto.
— Santo Deus! — espanta-se um guarda ao encontrar, ain-
da sangrando, o corpo da jovem Julieta. — A menina já havia
sido sepultada... Chamem o príncipe! Corram à casa do senhor
Capuleto! Acordem os Montecchios! Que espetáculo desolador!
Outros guardas conseguem flagrar Baltasar, oculto atrás de
uma tumba, e o aprisionam até a chegada do príncipe. Frei
Lourenço também é encontrado e trazido para o cenário da
desgraça.
— O que faz este frade aqui? Ele treme, suspira e chora
numa atitude muito suspeita! Detenham-no também! — ordena
um dos guardas.
O príncipe Escalo chega logo em seguida, com seu
inseparável séquito a protegê-lo.
— Espero que tenham bons motivos para despertar-me tão
/
cedo! Quem vem ali? E o velho Capuleto e sua esposa? Santo
Deus, o que houve desta vez? — questiona o príncipe.
— Meu soberano príncipe — anuncia um dos guardas —
,
aqui jaz o conde Páris assassinado! Romeu Montecchio também
está morto! E Julieta Capuleto, já sepultada, acaba de morrer
pela segunda vez!
— Não diga tolices, homem! Quem pode explicar como
ocorreu esta horrível matança?
À presença do príncipe são então trazidos frei Lourenço e
Baltasar, ambos munidos de suas ferramentas.
O velho Capuleto e sua esposa, espantados ao encontrar a
filha, que já havia sido enterrada, sangrando, percebem com
surpresa e pesar que o punhal cravado em seu peito vinha da
bainha vazia do cinto de Romeu.
75
Aproxime-se, velho Montecchio! — diz o príncipe, avis-
tando o pai de Romeu. Prepare-se, senhor, para encontrar o
corpo tombado de seu filho!
— É muito grande o vulto desta desgraça, meu príncipe...
lamenta Montecchio, consternado. — A minha esposa acaba
de falecer esta noite, tamanho o desgosto pelo desterro de nosso
filho! E, agora, como pode ser possível essa jovem criatura
precipitar-se na morte antes mesmo deste velho pai?!
O príncipe, pedindo silêncio a todos os presentes, convoca
os envolvidos a esclarecerem o ocorrido. Frei Lourenço toma
primeiro a palavra, anunciando-se como o principal culpado da-
quela horrível carnificina. Declarando-se condenado e ao mes-
mo tempo absolvido, promete relatar os fatos com fidelidade.
— Romeu, aqui sem vida, era esposo desta jovem, Julieta,
que, aqui também morta, era fiel esposa deste rapaz. Eu os casei,
secretamente, pouco antes de morrerem Mercúcio e Tebaldo,
cuja morte prematura motivou o banimento de Romeu, por
quem Julieta sofria, e não por seu primo, como todos julgavam.
Contra a vontade de Julieta, seu pai prometeu casá-la com o
conde Páris. Desesperada, a jovem implorou-me, então, que
encontrasse um meio de livrá-la deste segundo casamento, ou,
caso contrário, se mataria. Comovido pelo sofrimento dos aman-
tes, dei-lhe uma poção soporífera que agiu como o esperado,
produzindo nela aparência de morte. Enquanto isso, escrevi a
Romeu, pedindo-lhe que viesse ao meu encontro, nesta horrível
noite, ajudar-me a despertar Julieta de sua falsa tumba, assim
que cessasse o efeito da poção. Porém, o portador de minha
carta, frei João, não conseguiu chegar a Mântua e trouxe de
volta a minha mensagem. Assim, sozinho, decidi tirar Julieta da
cripta na hora prevista, com a intenção de mantê-la escondida
em minha cela até que pudesse avisar Romeu. Ocorre que, ao
chegar aqui poucos minutos antes de Julieta despertar,encontrei
mortos o nobre Páris e o fiel Romeu. Quando a menina acordou,
supliquei-lhe que saísse comigo e suportasse com paciência mais
este golpe do destino; mas, naquele momento, um inesperado
rumor me obrigou a fugir do mausoléu. Julieta, desesperada,
76
negou-se a me seguir e, segundo deduzo agora, atentou contra
a própria vida. Eis tudo o que sei. Quanto ao casamento, a ama
estava avisada. Se alguma coisa saiu errada por minha culpa,
meu príncipe, sacrifique minha vida, já caduca, sob o peso da
mais severa lei.
O príncipe agradece ao frade, acrescentando que sempre o
considerara um santo homem. Em seguida, chama o criado de
Romeu para que enriquecesse o depoimento doloroso de frei
Lourenço.
— Fui a Mântua avisar meu amo sobre a morte de Julieta
— conta Baltasar. — De lá, partimos de volta para Verona,
direto para este cemitério. O meu senhor me recomendou que
entregasse esta carta para seu pai, o senhor Montecchio, e, en-
trando no túmulo, ameaçou-me de morte caso não o deixasse só.
O príncipe pede-lhe a carta e ordena que se apresente o
pajem do conde Páris.
— Meu patrão — conta o dedicado homem — veio depo-
sitar flores na tumba de sua dama. Pediu que o esperasse a
distância. Chegou, então, um homem com uma tocha e uma
barra para abrir a sepultura. Pouco depois, meu amo tirou a
espada contra ele e eu saí correndo para chamar a guarda. Quan-
do voltei, estavam todos mortos!
Ao ler a carta que Romeu dirigira a seu pai, o príncipe tem
a comprovação de serem verdadeiras as palavras de frei Louren-
ço. A carta narrava os incidentes de tais amores, a notícia da
morte de Julieta e acrescentava ainda o modo como Romeu
adquirira, de um pobre boticário, o veneno que trouxera para
morrer e repousar ao lado de sua esposa.
— Onde estão estes inimigos? Capuleto! Montecchio! Po-
dem ver o flagelo causado pelo ódio cultivado por suas famí-
lias? Este foi o meio encontrado pelos céus para, por intermé-
dio do amor, destruir todas as suas alegrias! E, como se já não
bastasse, fez-me perder dois queridos parentes! Todos fomos
punidos!
Constrangido e submerso na mais profunda dor, o velho
Capuleto estende sua mão em direção ao velho Montecchio.
77
— Montecchio, meu irmão, dê-me sua mão, pois este é o
r
dote de minha filha Julieta... E tudo o que posso lhe pedir!
— Capuleto, meu caro, talvez eu possa lhe oferecer mais:
mandarei levantar uma estátua em ouro puro à sempre fiel
Julieta, sua filha. Assim, Verona nunca mais se esquecerá de sua
alma!
— Igualmente rica será a estátua de Romeu, seu filho, junto
de sua dama, pobres vítimas de nossa inimizade!
Após ouvir as palavras arrependidas e conciliatórias de
Montecchio e Capuleto, o príncipe pede que todos se recolham
a fim de refletirem mais demoradamente sobre os infelizes acon-
tecimentos daquela noite.
— O sol não mostrará seu rosto por causa do nosso luto.
Alguns serão por mim perdoados e outros, punidos, pois nunca
houve história mais triste do que esta de Romeu e Julieta.
78
Quem é Leonardo Chianca?
Nascido em São Paulo, em 1960, Leonardo es-
creve textos de ficção para crianças, jovens e adultos.
Dentre os títulos infantis, destacam-se O menino e o
pássaro (Scipione, 1992), seu primeiro livro, e Jonas
e o mundo secreto das tartarugas (RHJ). Dos livros
juvenis, publicou em parceria, também pela Scipione,
o romance Nosso filme ;
pela Atual publicou Tia
Marita, escrevi um livro /, e participou de dois volu-
mes da Série Vínculos, Irmão mais velho, irmão mais
novo e Tio e sobrinho. Escreveu ainda obras
t
r
paradidáticas de Estudos Sociais (Atica) e fez tradu-
ções do espanhol. Executou trabalhos diversos como
roteirista de audiovisual, rádio, vídeo e cinema, e atu-
almente exerce a função de editor assistente.
Na opinião de Leonardo “o ofício de escrever
requer mais e mais maturidade, e o desafio de adaptar
um mito da literatura universal como Shakespeare é
um passo adiante num caminho que ainda está no
início. A história de Romeu e Julieta nos põe em
contato com as possibilidades infinitas de um amor
que nos arrebata o coração. Nesse sentido, ela se
parece muito com os desencontros dos nossos primei-
ros amores. Mas, em lugar de aceitar a tragédia, é
necessário sobreviver. E se amar melhor pela longa
trilha de nossas curtas vidas’’.
79
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disciplinar de leitura e atividades con-
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— E que se mexem comigo...
— Então tome cuidado, Sansão, para não se irritar tão fa-
cilmente.
— Mas se até um cachorro da família dos Montecchios me
deixa irritado, Gregório!
— Se você ficar irritado, vai é sair correndo, isso sim.
— De jeito nenhum... Cachorro, homem ou mulher, qual-
quer um que seja, se for Montecchio, eu o enfrentarei.
— Que nada, Sansão. A pendência é entre os nossos amos
e entre nós, que somos seus servidores.
— Como assim?
— Ora, Sansão... Nossos amos duelam entre si, e nós
duelamos com os servidores do inimigo.
5
— Por isso mesmo, Gregório... Serei tirano e cruel com
todos os que vier a enfrentar, sejam homens ou mulheres!
Criados do senhor Capuleto, Sansão e Gregório já estavam
com os ânimos acalorados apesar do sol baixo do amanhecer.
Fiéis ao seu senhor, anteviam, logo adiante, a grande oportuni-
dade de demonstrar suas iras.
— Vamos, Sansào, prepare suas armas que aí vêm dois
criados da casa dos Montecchios.
— Minha espada já está nua, Gregório. Se quiser provocá-
los, vá em frente que eu guardo suas costas.
— Como assim? Virando-se e saindo em disparada? —
ironiza Gregório.
— Não tenha medo de mim!
— Ora essa, Sansão! E por que eu o temeria?
r— E melhor ficarmos com a lei do nosso lado... Que eles
comecem!
— Vou atiçá-los...
Em nome da rivalidade entre as duas famílias, os criados de
Capuleto começavam a atormentar Abraão e Baltasar, criados
do senhor Montecchio.
— Os senhores estão nos provocando? — indaga Abraão.
— Não — responde Sansão, irônico.
— Está procurando briga, senhor? — insiste Abraão.
— Por quê, o senhor está querendo brigar? — devolve
Gregório.
— Eu, brigar? Absolutamente!
— Se está procurando briga, senhor, estou às suas ordens
persiste Gregório. — Sirvo a um amo tão bom quanto o seu.
— Mas não melhor que o meu — instiga Abraão.
— Está bem, senhor — amansa Sansào.
Mas Gregório cochicha para o parceiro:
— Diz que nosso amo é melhor que o dele, Sansão —
combina ao avistar Benvólio Montecchio. — O sobrinho do
senhor Montecchio vem vindo...
— O nosso amo é melhor que o seu, senhor!
— Está mentindo! — enerva-se Abraão.
6
— Se for homem, puxe a espada! — desafia Sansão e, viran-
do-se para Gregório, brada: — Não se esqueça de me resguardar!
E começam a lutar. Representando o ódio das duas casas,
uns em nome dos Capuletos e outros em nome dos Montecchios,
os criados reavivavam a antiga inimizade entre duas das mais
dignas famílias de Verona.
— Parem com isso, seus loucos! Guardem suas espadas!
Vocês não sabem o que estão fazendo! — intervém Benvólio
Montecchio, tentando apartar a luta.
No entanto, para completar e equilibrar o quadro de discór-
dia e enfrentamento, Tebaldo Capuleto, sobrinho do patriarca da
família inimiga, aparece e também se intromete:
— Como pode desembainhar a espada contra esses míseros
servidores?! Aqui, Benvólio! Venha encarar a sua morte!
— Eu só queria separar estes homens. Guarde a espada,
Tebaldo, e ajude-me a manter a paz!
— Como pode falar em paz com a espada nas mãos? Odeio essa
palavra como o próprio inferno, assim como odeio todos os
Montecchios... Começando por você, Benvólio! Em guarda, covarde!
A rivalidade entre as duas famílias começava a envolver
cada vez mais membros ligados aos Montecchios e aos
Capuletos. A hostilidade era ferrenha. Benvólio e Tebaldo luta-
vam em praça pública, enquanto partidários das duas casas se
misturavam aos combatentes.
— Abaixo os Capuletos! — gritam alguns cidadãos, arma-
dos de paus.
— Abaixo os Montecchios! — bradam outros.
A multidão crescia, junto com a ira e a confusão. Até a chegada
do velho Capuleto que, vestindo uma comprida toga de lã, intervém:
— Que barulho é esse? Passem a minha espada! Vamos, a
minha espada de combate!
Correndo atrás do marido, a senhora Capuleto não atende à
sua ordem:
— Espada? Uma muleta, isso sim... Uma muleta é do que
precisa! Para que quer uma espada, homem? — ela pergunta,
indignada.
7
A espada é o que estou pedindo... A minha espada,
vamos! — insiste Capuleto, quase desesperado. — Lá vem o
velho Montecchio brandindo a sua lâmina!
— Ora, ora, Capuleto... Seu infame! Seu vilão! — acusa o
senhor Montecchio. — Não me detenham, deixem-me! Você se
verá comigo, Capuleto!
— Pare aí! — ordena a senhora Montecchio, detendo o
marido. — Aonde pensa que vai? Não dará um passo sequer em
direção a seu inimigo!
Quando o confronto parecia iminente, uma voz mais pode-
rosa que a de todos os presentes se faz marcante:
— Súditos rebeldes, inimigos da paz, profanadores de espa-
das manchadas com o sangue de seus próprios vizinhos!
brada o príncipe Escalo, autoridade máxima de Verona.
Irritado com seus vassalos, o príncipe adentra na praça, es-
coltado por um enorme séquito. E, vermelho de raiva, discursa:
— Meus caros homens, feras selvagens que apagam o fogo
de insensata fúria com as torrentes rosadas que brotam de suas
próprias veias! Não me escutam? Pois tratem de abrir os ouvi-
dos: sob pena de tortura, atirem ao chão, com suas mãos sangui-
nolentas, suas maltemperadas armas!
Voltando os olhos para os patriarcas das duas famílias, o
príncipe Escalo, enérgico, avisa:
Os senhores, velho Capuleto e velho Montecchio, por
três vezes perturbaram a paz de nossas ruas. E por quais moti-
vos? Por palavras vãs, apenas. Os velhos cidadãos de Verona,
com suas velhas mãos, por inúmeras vezes brandiram seus bas-
tões por causa desse velho e arraigado ódio.
E, com a autoridade que lhe era devida, o príncipe procla-
ma sua sentença:
Se novamente vierem a perturbar a paz de nossa cidade,
os senhores darão suas vidas pela paz quebrada. Capuleto, siga
comigo. Montecchio, compareça esta tarde à corte de justiça
para tomar conhecimento de nossas resoluções sobre o caso! E,
agora — ameaça o príncipe —
,
retirem-se todos, sob pena de
morte!
8
CAPÍTULO 2
Desfeita a confusão da praça central, Benvólio discutia com
seu tio Montecchio sobre os motivos que os levavam a reavivar
tão antiga controvérsia, enquanto a senhora Montecchio agrade-
cia à sorte pelo fato de seu filho Romeu não se haver envolvido
no combate. Mesmo assim, estavam todos preocupados com o
jovem rapaz, principalmente Benvólio, que avistara o primo
pouco antes do nascer do sol, caminhando num bosque próximo
às montanhas.
Ninguém, nem seus pais nem Benvólio, conhecia as causas
das aflições de Romeu, as razões que o levavam, como costuma-
va ser visto, a perambular cabisbaixo, confundindo lágrimas
com orvalho, avolumando nuvens com seus suspiros profundos.
E se o nascer do sol a todos alegrava, de sua luz Romeu vinha
fugindo, trancando-se em seu quarto, cerrando as janelas e cri-
ando, para sua dor, noites artificiais.
— Lá vem Romeu, meus tios — interrompe Benvólio, ao
avistar o primo que se aproxima. — Partam para que eu possa
arrancar dele alguma confissão... Ei, primo, bom dia!
— Como assim, já é dia? — diz Romeu, um tanto aéreo.
— São nove da manhã.
s— Ai, ai, ai... E que as horas tristes nunca passam.
— E que dor é essa que faz o tempo ser tão longo?
— Se eu tivesse aquilo que queria...
— Está falando de amor?
— Do amor a mim privado por não ter aquela a quem amo.
— O amor parece gentil quando, na realidade, é cruel e
tirano, primo!
— E como! Já sei do que aconteceu por aqui... Não eram
meus pais aqueles que saíam, Benvólio?
— Sim, e eles estão muito preocupados com sua tristeza,
Romeu.
— Ora, ora... O ódio dá muito o que fazer por aqui, não?!
/
E o amor ainda mais! E um amor briguento, um ódio amoroso!
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— Nào fale assim, primo.
— Mas é isso mesmo. Viemos do nada e vivemos como
plumas de chumbo, fumaça luminosa, chama glacial, saúde en-
ferma, sono sempre vigilante, que nunca é o que é. Como o
amor que sinto e que me causa apenas dor... Não está com
vontade de rir?
— De jeito nenhum! Só se for vontade de chorar!
— Por que chorar?
— Porque seu coração está apertado, Romeu.
— Que coração bondoso, amigo... Mas o amor é assim
mesmo! A minha dor aumentacom esse tormento que você me
revela, ao mesmo tempo que me dá mais alento. O amor é a
fumaça dos suspiros. Ele é puro como o fogo nos olhos dos
amantes, um mar revolto de lágrimas... Que mais seria? Loucura
temperada, fel que nos abafa, doçura que nos salva... Estou indo,
primo. Adeus!
— Espere, Romeu... — diz Benvólio, abraçando o primo,
disposto a acompanhá-lo na solitária caminhada.
Ele precisava saber mais. Aquelas palavras não lhe basta-
vam; ao contrário, afligiam-no.
— Fale-me seriamente, primo: está apaixonado por quem?
— Estou amando uma bela mulher.
— Pois então atinja certeiro esse alvo!
— Não posso, a seta de Cupido não consegue alcançá-la.
Ela possui a sabedoria da deusa Diana, e a castidade é a sua
soberana.
— Como assim, primo? Ela jurou permanecer sempre virgem?
— Exatamente, e por isso vive fora do alcance do arco do
amor. Ela resiste a todas as propostas amorosas. E além disso é
linda, da mais rica beleza, e nela jurou morrer. Jurou nunca
amar, nem por um só momento. E dessa forma eu vivo morto,
podendo apenas contar a minha tristeza.
Diante do desespero de Romeu, Benvólio sugere a ele que
liberte seus olhos em direção a outras belezas, outras mulheres.
Romeu, no entanto, sentia-se cego pelo amor que não podia ter
e que não podería esquecer.
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CAPÍTULO 3
Na entrada de sua casa, o velho Capuleto conversava com
o jovem conde Páris. Parente do príncipe Escalo, o nobre pajem
era um típico aprendiz de boas maneiras, sempre cordato e em-
penhado no próprio futuro como cavaleiro.
— Tanto eu como Montecchio recebemos a mesma pena-
lidade — explica o senhor Capuleto. — Nós já estamos velhos
e aos velhos não é penoso viver em paz.
— O senhor me perdoe, ambos gozam de altíssimo concei-
to, são honrados e preservam a maior das dignidades possíveis
aos homens de Verona... Contudo, é lamentável que os dois
tenham vivido tanto tempo inimizados! — avalia Páris. — Mas
agora, meu senhor, o que diz de meu pedido?
Capuleto respeitava a opinião sensata do nobre conde, e
sabia que sua grande preocupação se devia ao fato de não ter
ainda consentido que se casasse com sua filha Julieta.
— Repito-lhe uma vez mais, meu rapaz: a minha filha é
ainda uma estranha neste mundo. Mal completou catorze anos.
Se puder esperar mais dois verões para se casar com ela...
— Há muitas moças mais novas que sua filha que já são mães...
— Mas muito cedo murcham aquelas que cedo se casam.
Esta terra já me levou todas as esperanças, gentil rapaz, só me
resta Julieta.
Páris deveria esperar. Porém, se cortejasse a pequena jovem
e conquistasse seu coração, portanto a concordância da filha,
Capuleto autorizaria o matrimônio.
— Hoje à noite, como já é costume e tradição, darei uma
festa para a qual convidei pessoas de minha maior estima. Con-
vide as suas também, pois elas serão bem-vindas — sugere
Capuleto a Páris. — Venha contemplar as estrelas que porão os
pés em minha pobre casa, iluminando este céu sombrio. Esteja
atento a todas as mulheres e mostre-se contente com a que mais
lhe agradar. Entre muitas estará minha filha, que torço para que
seja sua escolhida.
Chamando então um criado, Capuleto entrega-lhe uma lista
de convidados.
— Vá, rapaz, depressa! Corra a bela Verona e procure pe-
los nomes desta lista, anunciando a todos que minha casa e
minha hospitalidade estarão à espera de suas presenças.
Atordoado com a incumbência a ele atribuída, o criado sai
perdido pelas ruas da cidade, sem saber como resolver seu enor-
me problema, pois não sabia ler.
— Como poderei procurar os donos destes nomes? Para
mim, aqui está escrito que o sapateiro deve entender-se com sua
fita métrica e o alfaiate, com sua fôrma; o pescador, com seus
pincéis e o pintor, com suas redes...
Ele não entendia como lhe pediam para desempenhar tarefa
tão impossível. O fato é que precisava de ajuda. Havia de buscar
quem fosse instruído.
— Oh! Até que enfim! — exclama o criado, ao trombar no
meio da rua com um distraído rapaz, este sim com aparência de
letrado e inteligente, justamente Romeu.
— Cuidado, homem, não vê por onde anda!? — exclama
Romeu, aparvalhado.
— Não se assuste, homem! — comenta Benvólio, ainda na
companhia de Romeu. E, tentando justificar a atitude do primo,
acrescenta: — Ele está atonnentado e fora deste mundo.
— Que Deus lhes dê uma boa tarde, senhores — cumpri-
menta o criado, curvando-se. E, dirigindo-se a Romeu, aproveita
a oportunidade: — Por gentileza, senhor, sabe ler?
— Claro que sei! — responde Romeu. — Sei ler o meu
próprio destino e a minha própria miséria.
— Ora, senhor, para isso não necessita de livro. Quero
saber se pode ler qualquer coisa que veja?
— Desde que conheça as letras e a linguagem!
— Bem, deixe para lá. Passe bem... — diz, ressentido, o
criado, fazendo menção de se retirar.
— Espere, amigo: eu leio, sim! Posso ajudá-lo? — redime-
se Romeu, tirando-lhe o pergaminho das mãos. — Vejamos o
que temos aqui...
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E, virando o papel, lê em voz alta os nomes listados, um
após o outro:
— “O senhor Martino, sua esposa e filhas; o conde Anselmo
com suas encantadoras irmãs; a senhora viúva de Vitrúvio; o
senhor Placêncio e suas amáveis sobrinhas; Mercúcio e seu irmão
Valentino; meu tio Capuleto, sua esposa e filhas; minha linda
sobrinha Rosalina; Lívia; o senhor Valêncio com seu primo
Tebaldo; Lúcio e a jovial Helena. ” Que bela assembléia! E onde
acontecerá o evento, hein?! — quer saber Romeu, curioso.
— Será uma ceia.
— Uma ceia? Onde?
— Em nossa casa!
— Casa de quem?
— Do meu amo, é claro!
— Ora, que distração a minha. Nem perguntei de onde vem...
Ironia ou não do destino, Romeu havia trombado com um
criado do riquíssimo Capuleto. O desengonçado homem agrade-
ce ao distraído rapaz que o ajudara a sair daquela enrascada, e
avisa que, caso não seja um Montecchio, certamente será bem-
vindo a esvaziar um copo de vinho na festa de logo mais à noite.
— Espero que se divirta! — finaliza o criado antes de
despedir-se. — Que fique sempre alegre! Adeus!
Benvólio, sabendo que na tradicional festividade dos
Capuletos estaria presente, juntamente com as demais beldades
de Verona, a formosa Rosalina, arrisca um palpite:
— Não é a bela Rosalina a mulher que está amando, meu
primo?
— Sim, é ela mesma quem perturba o meu pobre coração.
— Pois então vá até lá e compare o rosto dela com outros
que lhe apontarei. Estou certo de que me dará razão.
Por não ter olhos para mais ninguém, Romeu não admitia
que pudesse desviar sua atenção para outra mulher que não fosse
a sua amada Rosalina.
— Sim, eu irei — decide-se Romeu, para espanto de
Benvólio. — Não para presenciar o espetáculo de outras formo-
suras, mas para me ofuscar no esplendor do meu amor.
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CAPÍTULO 4
Anoitece cedo em Verona. As enormes e volumosas mon-
tanhas que protegem a cidade a oeste e também ao norte escon-
diam o sol muito antes do que se poderia supor.
— Ama, ama, já é tarde! Onde está minha filha? — grita,
ansiosa, a senhora Capuleto.
A ama de Julieta, uma mulher de meia-idade, simpática e
espalhafatosa, prestativa e vulgar, corria pela casa em busca de
sua protegida.
— Juro pela minha virgindade de quando tinha doze anos
que já a chamei mil vezes!
— Pois trate de encontrá-la, mulher!
— Eh, minha ovelhinha, onde está? Venha cá, meu cora-
ção, minha pirralha! Por Deus, onde se escondeu essa menina?
Julieta, Julieta!
Assustada com tanta gritaria, a jovem Julieta aparece na
sala e vem ao encontro da mãe.
— Ama, deixe-nos a sós por um momento. Preciso falar em
segredo com minha filha.
— Se prefere assim...
— Não, ama, volte. Lembrei-me agora que preciso que
ouça nossa conversa, pois você a conhece muito bem, não é
mesmo?!
— E como! Posso até contar sua idade, hora por hora,
minuto por minuto.
— Ainda não completou catorze anos, a minha Julieta! —
comenta, pensativa, a sua mãe.
— Eu ia mesmo apostar catorze dos meus dentes, embora
só tenha quatro, como ainda não fez catorze anos. Ela cumpre
na Festa do Pão, primeirode agosto... Falta quanto?
— Pouco mais de uma quinzena — observa a senhora
Capuleto.
A ama de Julieta realmente a conhecia desde sempre. Re-
cordava-se do dia de seu nascimento, de quando a pequena
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Julieta provara pela primeira vez o amargor do bico do seu
peito. Nesse mesmo dia houvera um terremoto em Verona, data
inesquecível para todos os cidadãos da região.
— Julieta foi a mais linda criatura que alimentei. Se um dia
puder vê-la casada... Ah, isso é tudo o que desejo!
Ao entender o motivo que levara a mãe a procurá-la, Julieta
afirma sem rodeios:
— Casar-me é uma honra com a qual não sonho.
— Honra, isso mesmo! — exclama a ama. — Se não tives-
se sido sua única ama, diria que minha pequena mamou sabedo-
ria quando criança.
Por conhecer o temperamento da filha, e por saber que
Julieta não se deixava dominar com facilidade, a senhora
Capuleto citava o próprio exemplo, ressaltando o fato de que
ela, assim como muitas outras damas de Verona, se tomara mãe
aos catorze anos. Ver a filha ainda donzela com um pretendente
como o conde Páris aos seus pés parecia-lhe um despropósito.
— O valente e valoroso conde Páris a deseja como esposa
— arremata, em poucas palavras, a senhora Capuleto.
— Que homem, menina! Um homem desses não se encon-
tra facilmente no mundo — comenta a ama, eufórica. — Ele é
como uma figura de cera, uma verdadeira obra de arte!
— A primavera de Verona não possui flor igual —
complementa a mãe. — E então, minha filha, é capaz de amar
esse fidalgo?
Atônita, Julieta ouve o comunicado da mãe de que iria vê-
lo na festa de logo mais à noite.
— Observe bem a beleza do rosto do jovem conde. Repare
na harmonia de suas feições e no quanto poderá partilhar com
ele no futuro. Agora vamos, responda de uma vez por todas: vê
com agrado o amor de Páris?
Lançarei meu olhar e procurarei gostar do conde, minha
mãe, mas somente se ele também gostar de mim.
Passado algum tempo, um servidor da casa interrompia mãe
e filha, anunciando que os convidados presentes já perguntavam
pela jovem senhora.
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— Não nos atrasemos, minha filha — apressa a senhora
Capuleto. — A ceia já será servida, e o conde certamente anseia
pelo seu olhar.
— Vai, minha menina. Procura por felizes noites para fe-
lizes dias! — profecia a ama.
CAPÍTULO 5
Em uma escadaria próxima à casa dos Capuletos, um nume-
roso grupo de homens, todos mascarados e munidos de tochas,
caminhava em direção à festa já iniciada.
Além de Romeu e Benvólio, Mercúcio estava presente.
Assim como o conde Páris, Mercúcio possuía parentesco com o
príncipe Escalo, sendo portanto nobre e igualmente pajem. No
entanto, num ponto divergia: tinha forte proximidade com os
Montecchios, particularmente com Romeu, de quem, muito em-
bora, estivesse sempre a discordar. Apenas Mercúcio constava
da lista de convidados; todos os demais mascarados do grupo
seriam intrusos.
— E então, recitaremos um discurso como desculpa ou
entraremos na festa sem qualquer explicação? — pergunta
Romeu, aludindo a um costume da época, o de fazer um discur-
so ao dono da casa quando não se tinha convite.
— Deixe para lá, Romeu. Chega de tanto falatório —
sugere Benvólio. — Não precisamos de um Cupido vendado
com um arco na mão assustando as mulheres e tampouco ne-
cessitamos de prólogo para nossa entrada. Pensem o que qui-
serem de nós! Entramos, damos alguns passos de dança e de-
pois partimos.
— Concordo, chega de conversa. Mas eu não tenho dispo-
sição para bailes. Passem-me uma tocha que iluminarei o cami-
nho. — Romeu reclama, impaciente.
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— Que é isso, gentil Romeu? Queremos vê-lo dançar! —
solicita Mercúcio.
Não posso. Vocês vestem sapatos de baile com solas
leves... Eu tenho a alma pesada como chumbo. Estou preso ao
chão sem poder mover-me.
— Está apaixonado, isso sim — prossegue Mercúcio. —
Pede emprestadas as asas de Cupido e sobe com elas além dos
limites possíveis.
— Estou ferido pela flecha de Cupido e por isso não posso
voar. Sou esmagado pelo peso do amor.
— Carregue o amor consigo, Romeu.
— Não pense que o amor é temo, meu amigo. O amor é
áspero, rude, violento... E, além do mais, fere como espinho.
— Pois, então, domine o amor. Cubra com uma máscara a
máscara de seu rosto e não se importe se algum olhar curioso
perceber sua feiura!
Mercúcio provocava Romeu a todo o instante, e para
ironizá-lo ainda mais e provar o quanto o amigo se afundava em
fantasias, começa a contar, antes de entrarem na festa, a história
da rainha Mab. Parteira das ilusões, Mab, noite após noite, cos-
tumava navegar pelos cérebros dos amantes, provocando-lhes
sonhos amorosos, e passear pelos lábios das donzelas, fazendo
com que sonhassem com beijos que se transformavam em mal-
dição.
— Fantasia inútil a sua, Romeu. Ela é como o vento que
acaricia e depois sopra para bem longe.
— Esse vento de que está falando, Mercúcio, afasta-nos de
nós mesmos — finaliza Benvólio. — A ceia por certo já acabou
e chegaremos tarde demais, isso sim.
Receio que muito cedo — corrige Romeu. — Meu co-
ração pressente alguma fatalidade, suspensa nas estrelas, que
começará amargamente seu temível curso com esta festa notur-
na, talvez pondo fim prematuro à desprezível vida que trago em
meu peito. De qualquer forma, torço para que Aquele que go-
verna o leme da minha existência possa dirigir a minha nave e
guiar a minha vida! Avante, amigos!
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CAPÍTULO 6
— Muito bem-vindos à minha casa, cavalheiros. Que dan-
cem as mulheres que não sofrem de calos nos pés! Portanto,
todas ao salão! E os homens, o que acontece com os senhores?
Quando eu era jovem, colocava uma máscara e cochichava
uma história qualquer nos ouvidos de uma mulher... E agrada-
va, juro por tudo! Mas está longe esse tempo! Tudo passa, tudo
passa... Por isso, aproveitem! Atenção, músicos: toquem, va-
mos, toquem! Abram caminho para a dança! Pés ligeiros,
meninas!
O velho Capuleto já não rodava como um jovem, mas bem
sabia animar uma festa. O salão estava todo reluzente, cheio de
alegria e vida, repleto de eufóricos mascarados. Os criados an-
davam de um lado para o outro, na tentativa de bem atender a
todos.
Romeu, Benvólio e Mercúcio aproveitavam a festa como
podiam e sabiam. A atenção de Romeu, porém, é despertada
com a chegada de uma jovem dama, e nela vê o brilho esplên-
dido de uma preciosa jóia. Admirado, comenta com seus com-
panheiros sobre a formosura de tão bela moça.
— Vou procurá-la e tentarei tocar com minha rude mão a
sua bendita pele. Sinto que meu coração nunca amou, porque
em toda minha vida jamais conheci tamanha beleza!
Enquanto Romeu pronunciava contraditórias e volúveis
palavras, Tebaldo, sobrinho de Capuleto, reconhecia a sua voz
como sendo a de um Montecchio e, portanto, de um inimigo.
— Como um miserável de um Montecchio se atreve a vir
até aqui, encoberto com uma grotesca máscara, ridicularizar
nossa família? — diz Tebaldo, irado, enquanto chama um cria-
do. — Traga-me uma espada! Pela honra e pelo sangue de
minha família julgo que matá-lo não seja pecado!
O anfitrião, Capuleto, entretanto, estava atento aos passos
do sobrinho e o interpela energicamente:
— Que há, caro sobrinho? Por que está tão agitado?
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Meu tio, aquele é um Montecchio, nosso inimigo, um
vilão que aqui entrou por zombaria, para estragar nossa festa.
— Mas não é o jovem Romeu?
— Ele mesmo, o infame Romeu!
Capuleto, imbuído de espírito festivo e precavido pelos in-
cidentes da manhã, tenta acalmar Tebaldo, alertando-o para o
bom comportamento de Romeu, motivo, inclusive, de orgulho
para Verona. O velho garantiu que não o deixaria ser ofendido
em sua própria casa.
— Acalme-se, meu sobrinho, e trate de alegrar-se, pois essa
é a minha vontade. E não me desacate!
Tebaldo, a contragosto, via-se obrigado a suportar a presen-
ça de Romeu. E, como se isso não bastasse, ainda testemunhava
a aproximação de seu inimigo junto à sua prima, Julieta.
Ao cortejar a jovem donzela, todavia, Romeu nem sequer
imaginava de quem se tratava.Dirigindo-lhe insinuantes galan-
teios, estendia-lhe a mão, fantasiado de peregrino.
— Se minha indigna mão não merece o devido respeito, só
lhe peço que meus lábios de peregrino envergonhado possam
suavizar este encontro com um temo beijo.
— Meu bondoso peregrino — contesta Julieta, brincando
com a pose de Romeu —
,
não seja exagerado, pois o encontro
de nossas palmas já quase vale por um beijo.
— Mas não haverá lábios dessa donzela para os piedosos
lábios deste peregrino?
— Sim, peregrino, lábios para orações.
— Deixe então que nossos lábios façam o que fazem nossas
mãos e mostrem o caminho certo aos nossos corações.
— Posso apenas pemianecer imóvel atendendo às nossas
orações.
— Pois não se mova. Enquanto recolho os frutos uc minhas
preces, limpo meus pecados em sua boca — diz Romeu, beijan-
do Julieta.
Nesse momento, a ama interrompe o idílio, pedindo a
Julieta que vá encontrar-se com sua mãe.
— Quem é a mãe dela? — pergunta Romeu.
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Ora essa, caro mancebo! Uma digna senhora, honesta e
sábia, que por acaso é a dona desta casa. E eu, cavalheiro, ainda
que não me pergunte, sou quem amamentou esta senhorita que
acaba de beijar. E uma coisa lhe digo: quem com ela se casar,
receberá uma montanha em ouro, o ouro de sua castidade e o
ouro de um imenso baú.
— Meu Deus, então ela é uma Capuleto!
Rapidamente Benvólio intervém, alertando para a gravida-
de que ganhara aquela brincadeira. Ordena, por fim, que partam
o mais depressa possível.
— Não, cavalheiros, não saiam ainda, pois é muito cedo...
— intercede o velho Capuleto, com hipocrisia. E, usando de
certa diplomacia, desfaz o imbróglio: — Porém, já que fazem
questão de partir, agradeço a presença de todos e aproveito para
encerrar de uma vez esta agradável festa! Obrigado, meus ami-
gos, já é tarde... Boa noite!
Enquanto saíam os últimos convidados, Julieta chamava a
ama em um canto da casa, perguntando-lhe, curiosa, pelo jovem
que a abordara havia pouco, deixando seu coração descompas-
sado.
— Romeu é o seu nome e é o único filho do velho
Montecchio!
— Não pode ser! Meu primeiro e único amor nascido de
meu único ódio?! Cedo demais o vi, sem saber quem era, e tarde
demais o conheci, para não poder mais vê-lo! Como este mons-
tro, o amor, brinca comigo: tenho de estar justamente apaixona-
da pelo meu inimigo?!
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CAPÍTULO 7
Mercúcio e Benvólio procuravam por Romeu, que, sorratei-
ro, escapara dos amigos, quando caminhavam pelas escuras vi-
elas de Verona.
— Romeu, Romeu, Romeu...
Ao entrar num beco sem saída, percebem um vulto que
julgam ser o de Romeu saltar um muro do final da rua. Mal
sabiam os dois amigos que aquela parede de pedras divisava o
jardim da casa dos Capuletos.
Benvólio preocupava-se e pressentia problemas para seu
primo; Mercúcio, por sua vez, destilava ironicamente os mais
ácidos comentários:
— Vem, caro Romeu! Caprichoso, louco, apaixonado, amante...
Apareça em forma de suspiro! Dá as caras recitando ao menos um
único verso. Exclama somente “ai de mim” e rima amor com dor.
— Quieto, Mercúcio. Pode ser que Romeu esteja ouvindo.
— Melhor assim, pois quero provocá-lo! Romeu, pobre Romeu,
peço-lhe que apareça, vamos! Pelos brilhantes olhos de Rosalina, por
seu lindo rosto e lábios escarlates, por seus delicados pés, esbeltas
pernas, palpitantes coxas e adjacências... Vamos, Romeu, apareça!
— Se ele escutou, vai ficar magoado.
— Não, isso não o magoa, Benvólio. A minha invocação é
bela e honesta. Pronuncio o nome de sua amada para que ele
apareça, apenas isso.
Benvólio imaginava que Romeu preferisse permanecer es-
condido na úmida penumbra, combinando seu amor cego com a
escuridão da noite.
— Ora, Mercúcio, vamos embora. Por que seguir procuran-
do quem não quer ser encontrado?!
— O amor é cego — observa Mercúcio — , e é por isso que
nunca acerta o alvo!
Estranhos sentimentos os de Romeu. Avassalador amor, esse
que se aproximava. A bela Rosalina, por quem suspirava e desejava
a morte, perdera seu encanto, comparada à tema Julieta. Agora,
23
encantados ambos pelo feitiço dos olhares, Romeu amava e também
se sentia amado. Mas, sendo Julieta sua inimiga, como se aproxima-
ria dela para alentá-la com as promessas dos amantes? Havia de se
acreditar na paixão que dera força e vontade ao salto de Romeu,
justamente no jardim dos Capuletos, e coincidentemente bem abaixo
do balcão em cuja janela Julieta aparecia antes de dormir.
Romeu admirava sua beleza, silencioso e deslumbrado.
Conseguia vê-la brilhar como um claro sol que empalidecia a
triste lua, sendo a moça muito mais linda que o astro da noite.
Romeu via, diante de si, a sua dama, o seu amor.
— Ai de mim! — suspira Julieta.
Escondido, Romeu pensava ver, refletido nos olhos de sua
amada, o brilho das mais resplandecentes estrelas. Invejava-as.
Quando a viu apoiar a mão no rosto, queria ser uma luva a tocar
aquela pele macia.
— Ah, Romeu, Romeu... Por quê, Romeu? Renegue seu pai
e recuse seu nome! Ou então, se preferir, jure que me ama e eu
deixarei de ser uma Capuleto!
Romeu não podia acreditar nas palavras que ouvia. Mas
preferia agüentar o retumbar de seu alegre coração dentro do
peito e seguir escutando a confissão de Julieta às estrelas.
— Somente o seu nome é meu inimigo, Romeu. Você seria
o que é, mesmo que não fosse um Montecchio. E o que é um
Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem
outra parte qualquer pertencente a um homem! Ah, Romeu, por
que não tem outro nome? A flor que chamamos de rosa, se outro
nome tivesse, teria o mesmo perfume. Assim, Romeu, se não
tivesse o nome de Romeu, teria a mesma perfeição que tem agora.
Ah, meu amado, troque de nome e fique comigo etemamente!
Sentindo que não mais agüentaria de tanta emoção, Romeu
emerge da escuridão em que se escondia:
Tomo-lhe a palavra, Julieta. Chame-me somente de
amor e eu serei de novo batizado e, assim, jamais serei Romeu.
Julieta, surpreendida, sente-se desnudada em seus segredos.
— Como veio parar aqui? O muro é alto... Se algum paren-
te meu o encontrar, este jardim será a sua sepultura!
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— Saltei o muro com as leves asas do amor, que as pedras
não me são empecilho.
— Mas não se esqueça de que é um Montecchio... Se o
virem, o matarão!
— Vejo mais perigos em seus olhos do que nas espadas.
Olhe-me com doçura e estarei imune às inimizades!
— A última coisa que desejo neste mundo é que o descu-
bram por aqui.
— Fique tranqüila, pois trago comigo o manto da noite, que me
oculta dos olhos de seus parentes. Se me ama de verdade, eles até
podem me encontrar aqui. Prefiro que acabem com a minha vida
pelo ódio que me dedicam a ter a morte longa pela falta do seu amor.
— Quem foi seu guia? Como descobriu este lugar?
— O amor... Foi o amor que me trouxe a coragem. O amor
me deu conselhos e eu lhe emprestei meus olhos. Mas, mesmo
que estivesse tão longe quanto a praia mais extensa banhada
pelo mar longínquo, eu me aventuraria para encontrá-la.
Envergonhada, mas agradecendo à máscara da noite que
encobria no seu rosto o rubor de sua virgindade, Julieta aventu-
ra-se à pergunta que seu coração pedia:
— Você me ama, Romeu?
— Ah, Julieta...
— Espere, não diga nada... Sei que me dirá sim e acredi-
tarei em sua resposta. E não precisa jurar, senão parecerá falso.
Se me ama, gentil Romeu, proclame o seu amor com sincerida-
de. Meu querido Montecchio, estou perdida e louca de amor!
Não pense que sou leviana, pois lhe serei a mais fiel das mulhe-
res e minha confissão tem por culpada a minha própria paixão
e a facilidade da escuridão desta noite.
Romeu desejava jurar pela lua todo o amor que sentia, mas
Julieta não queria um juramento seu e muito menos em nome do
astro da noite, tão mutante a cada mês. Julieta acreditava em Romeu.
— O nosso amor, Romeu, brilha mais precipitado que um
relâmpago numa noite clara... Agora, preciso entrar. Adeus, meu
querido... Que o hálito ardente do estio amadureça este botão de
amor, para que ele possa transformar-se numa delicada flor25
quando nos virmos uma próxima vez. Que tão doce e tranqüilo
repouso alcance seu coração, como o que se alenta dentro do
meu peito. Boa noite, meu amado!
Romeu não desejava separar-se de Julieta. A despedida o afli-
gia. Quantas juras de amor ainda não poderiam trocar se a ama de
Julieta não estivesse chamando? Julieta pede a Romeu, antes de
entrar, que a aguarde um pouco; ao voltar, flagra-o falando sozinho:
— Ah, bendita noite, tomara que tudo isto não seja apenas
um sonho por demais encantador e doce para ser verdadeiro!
— Esta noite é verdadeira, meu amado. Se os seus pensa-
mentos amorosos são honestos e pensa em casamento, envie
amanhã, por intermédio de uma pessoa de minha confiança, uma
palavra dizendo onde e a que horas deseja que se realize a
cerimônia. Colocarei minha sorte a seus pés e o seguirei pelo
mundo onde quer que seja, aonde quer que vá!
— Julieta!! — grita a ama de dentro da casa.
— No entanto — prossegue Julieta —
,
se suas intenções
não são boas, eu lhe suplico que pare de me seduzir e me deixe
só com a minha dor.
— Como minha alma está feliz!
— Amanhã enviarei alguém! Mil vezes boa noite, Romeu!
Julieta desaparece dentro do quarto. Romeu já percorria o
caminho de volta, quando Julieta reaparece no balcão:
— Escute, Romeu, escute!
— Ah, Julieta, como é doce ouvir sua voz dizendo o meu
nome... Soa como música a chamar a minha alma!
— Romeu...
— Meu amor.
— A que horas lhe envio o mensageiro?
— As nove.
— Irá sem falta! Parecerão vinte anos até lá... Esqueci por
que o chamei de volta.
— Deixe-me ficar aqui até que possa se lembrar.
— Assim nunca me lembrarei para que nunca parta...
O dia teimava em se fazer presente, mas a dor da despedida
dos amantes não podia prolongar-se etemamente.
26
CAPÍTULO 8
O velho frei Lourenço, pai espiritual de Romeu e confessor
de Julieta, observava, da janela de sua cela no convento, a au-
rora sorrir rosada à sinistra noite que findava. Enquanto a luz
entrava pela senda do dia, e antes que o sol animasse aquela
segunda-feira, secando o úmido orvalho da noite, frei Lourenço
enchia seu cesto de vime com ervas malignas e flores de preci-
oso suco.
Imensa é a poderosa graça que vive nas ervas, plantas e
pedras, e raras são suas qualidades. Dentro do temo cálice de
uma débil flor, por exemplo, residem o veneno e o poder me-
dicinal. Se for aspirada, pode trazer deleite a todo o corpo; se
for provada, pode destruir o coração e todos os seus sentidos.
— Dois reis, inimigos entre si — pensa alto o solitário frei
—
, acampam dentro do homem e das plantas: um é benigno e
o outro é maligno...
— Bom dia, meu bom padre.
— Ora, salve! Que voz matinal me saúda tão docemente?
Ah, Romeu! Meu jovem filho, dizer adeus à cama tão cedo
revela ânimo intranqüilo. Este pobre velho está preocupado. O
seu madrugar denuncia que talvez nem tenha se deitado esta
noite.
/— Acertou, padre. E que meu repouso foi mais doce do que
pensa!
— Deus me perdoe o pecado! — exclama o padre, persig-
nando-se. — Esteve com Rosalina?
Diante da negativa de Romeu, frei Lourenço tranqüiliza-se,
ainda que por pouco tempo. Ao saber que Romeu esteve numa
festa em casa de seu inimigo, o frei volta a inquietar-se. Romeu
lhe conta que uma pessoa o feriu no coração e que da mesma
forma por ele também foi ferida; o remédio para ambos depen-
deria do amparo e da santa medicina do padre.
— Já não tenho mais ódio, santo padre. Cá estou a lhe pedir
auxílio em benefício de minha felicidade.
28
— Seja claro e simples, Romeu. Uma confissão equivocada
apenas encontrará uma absolvição igualmente equivocada.
O velho frei fica sabendo, então, que Romeu está amando
a bela filha do rico Capuleto e que seu amor é correspondido.
— Resta-nos apenas, para nossa completa união, que o se-
nhor nos una em santo matrimônio. Como tudo aconteceu, eu
lhe conto depois. O que peço agora é que consinta em casar-nos
hoje mesmo!
— O amor dos jovens não está nos corações e sim nos
olhos! — exclama o admirado frei. — O que aconteceu com seu
amor por Rosalina? O sol ainda não limpou o céu de seus sus-
piros, os seus lamentos ainda soam em meus velhos ouvidos!
— Ora, padre...
— Olhe, filho: aqui sobre a sua face aparece a marca de
uma antiga lágrima que ainda não secou! Como pode haver
mudado tanto?
— Mas, padre, várias vezes o senhor me repreendeu por
amar Rosalina!
— Por amá-la não, filho, por idolatrá-la.
— Agora é diferente, frei. Se antes eu não era retribuído,
a minha eleita agora troca comigo bondade por bondade, amor
por amor.
Apesar de contrariado, frei Lourenço parecia aceitar os ar-
gumentos de Romeu.
— Vou ajudá-lo, rapaz. Mas por uma razão: esta aliança
pode ser proveitosa, transformando em puro afeto o rancor des-
sas duas famílias!
— Ajamos rápido, então.
— Sábia e calmamente, isso sim, pois quem muito corre
pode facilmente cair — pondera o frei.
29
CAPÍTULO 9
A
Mercúcio e Benvólio caminhavam pelas margens do Adige,
mirando as pedras e protegendo a vista dos reflexos do sol, que
começava a aquecer os ânimos dos cidadãos de Verona.
Mercúcio estava preocupado com o paradeiro de Romeu.
Acreditava ainda que o avoado amigo se atormentava pela pá-
lida Rosalina. Benvólio trazia notícias, ao menos parte delas. Ele
sabia que Romeu não passara a noite na casa dos pais.
— Conversei com meu tio Montecchio — conta Benvólio.
Ele tinha em mãos uma carta de Tebaldo.
— Tebaldo?
— Um parente do senhor Capuleto, creio que seu sobrinho.
— Conheço o valente Tebaldo Capuleto! Aposto minha
vida que se trata de um desafio!
— Exatamente, mas Romeu lhe responderá.
— Ora, qualquer um pode responder a uma carta!
— Não será com palavras escritas e sim de corpo presente!
— Se assim for, considere o pobre Romeu um homem morto!
— ponderou Mercúcio, preocupado. — Apunhalado pelos olhos
magros de uma donzela branca, atravessado pelos ouvidos por uma
canção de amor... Será que Romeu é capaz de enfrentar Tebaldo?
— Ora essa, e por que não? O que tem esse Tebaldo?
Mercúcio descreve-o como um Príncipe dos Gatos, tama-
nha a sua habilidade e precisão na hora do ataque. Um valente
capitão que sabia se bater com ritmo certeiro, contando o tempo,
o intervalo e a medida; e ainda conhecedor da pausa e momento
justo de acertar o peito. Verdadeiro carniceiro com botões de
seda! Um duelista de primeira!
Entretidos, os dois acercavam-se da praça central, quando,
saído de uma viela do lado do mosteiro, Romeu se interpõe
entre ambos.
— Bom dia, meus amigos.
— Signore Romeu, bonjourl Que bela peça nos pregou
ontem à noite, hein?!
30
— Eu, Mercúcio? A que peça se refere?
— Como se faz de tonto! Correu de nós como um rato foge
de um gato...
— Perdoe-me, bom Mercúcio. Tinha um assunto importan-
te para resolver e acabei violando a cortesia.
Romeu tratava de desculpar-se com os amigos, sem, no
entanto, revelar o verdadeiro motivo de tê-los abandonado na
noite anterior. Guardava também em silêncio o amor que carre-
gava no peito e o recém-combinado acordo com frei Lourenço.
Nesse momento, aos três juntam-se a ama de Julieta e o
criado Pedro. Intrometida, já chegava arrogante:
— Pedro, passe-me o leque.
— Vamos, Pedro, dê-lhe o leque para que possa esconder
o rosto, pois dos dois o mais belo é o leque — brinca com a ama
o irônico Mercúcio.
— Deus lhes dê um bom dia, cavalheiros — diz a ama.
— Deus lhe dê uma boa tarde, caríssima dama — rebate
Mercúcio, apontando para o sol.
— Que insolente! Quem pensa que é, senhor?! Ora, esque-
ça... Digam-me uma coisa: algum de vocês pode me informar
onde posso encontrar o jovem Romeu?
— Eu posso— responde o próprio—
,
mas o jovem Romeu
já estará mais velho quando o encontrar. Na falta de outro pior,
eu sou o mais novo com esse nome.
— Como fala bonito!
A ama deixa claro a Romeu que precisava falar-lhe a sós.
Mercúcio e Benvólio partem, não sem antes marcarem um jantar
para aquela mesma noite na casa do pai de Romeu.
— Adeus, velha senhora! Adeus, adeus! — cantarolaMercúcio, afastando-se do grupo.
— Vão com Deus! — grita a ama, comentando com
Romeu: — Por favor, senhor, que desaforado era esse que me
dizia tantas bobagens?
— Um cavalheiro apenas, um homem que gosta de se
ouvir falar e que fala mais em um minuto do que falaria em
um mês.
31
A ama, então, anuncia-se como a prometida emissária de
Julieta.
Diga à sua senhora que descubra algum pretexto para ir
esta tarde confessar-se na cela de frei Lourenço, porque lá, além
de nos confessar, ele nos casará.
— Então será hoje à tarde, senhor?
— Sim, e tome este trocado pelo seu trabalho.
— De jeito nenhum, senhor! Mas fique tranqüilo: à tarde
Julieta estará lá.
Romeu transmite, ainda, novas instruções à ama. Ela deve-
ria esperar atrás do muro da abadia, dentro de uma hora, pelo
seu criado Baltasar, que iria entregar-lhe a escada de cordas para
Romeu escalar o balcão de sua amada Julieta, na silenciosa noite
de núpcias.
— Senhor, seu criado é de confiança?
— Completamente, senhora.
— Outra coisa, senhor.
— Sim, ama, diga.
— Há na cidade um nobre cavalheiro, um certo Páris, que
de bom grado lançaria o seu arpão para abordar minha protegi-
da. Mas aquele coraçãozinho prefere ver um sapo de verdade a
olhar para ele.
— Está bem, ama, está bem... — encerra a conversa
Romeu, não se importando com o que ouvia. — Obrigado por
tudo. Agora, vá!
— Sim, é claro... Pedro, Pedro!
— Aqui estou!
— Pedro, segure o meu leque e caminhe à frente... Depressa!
32
CAPÍTULO 10
O sol forte deixava Julieta irritada e impaciente. No jardim
de sua casa, a jovem donzela aguardava ansiosa pelo retorno de
sua ama, que partira havia mais de três horas, tendo prometido
retomar em apenas trinta minutos. Por certo tardara em encon-
trar quem buscava.
Mas os pensamentos de quem ama correm mais depressa do
que os raios solares quando expulsam as sombras das colinas
nubladas, e Julieta sabia disso. Se ao menos a ama tivesse ido
diretamente ao destino de seu amor e as palavras dele trazido de
volta a ela...
Quando já sentia seu peito explodir de aflição, por espera
tão longa e dolorida, Julieta vê, vagarosa, pesada como chumbo,
a ama chegando com seu criado.
— E então, doce e bondosa ama, que novidades traz para
mim?
— Espere, menina... Pedro, saia daqui e me deixe a sós
com a minha queridinha.
— Vamos, ama... Por que está com um ar tão triste? Conte-
me as notícias alegremente, mesmo que de tristezas venham
recheadas.
— Estou cansada, minha pequena. Como doem os meus
ossos! Que corrida eu dei! Deixe-me descansar um momento...
— Queria que tivesse os meus ossos e eu, suas informações.
Vamos, eu lhe suplico: fale, minha ama, fale!
— Por Jesus, que pressa é essa? Não pode esperar um
pouco? Não vê que estou sem fôlego?
A ama parecia mesmo brincar com os sentimentos de
Julieta. A sua demora em falar era indesculpável, denotava pura
crueldade.
— As notícias são boas ou más? — implora uma vez mais
Julieta.
— Bem, a sua escolha foi inconveniente. Parece que não
sabe como escolher um homem! Romeu? Não, ele não! Embora
33
tenha um lindo rosto e melhores pernas do que qualquer outro.
Quanto à mão, ao pé, ao corpo, nada tenho a dizer, realmente
estão acima de qualquer comparação. Não é a flor da cortesia,
mas é gentil. Ah, minha pequena, já comeram aqui em casa?
— Como?! Não, ainda não... Mas isso não importa! Tudo
que está me contando eu já sabia! O que ele disse a respeito de
nosso casamento?
— O seu amor disse que, como honrado cavalheiro, cortês,
amável, virtuoso... Onde está sua mãe?
— Minha mãe? Ora, está lá dentro! Onde mais poderia
estar? Que estranho modo de responder o seu...
— Preste atenção, minha menina: tem permissão para se
confessar hoje?
— Sim, tenho.
— Então, corra até a cela de frei Lourenço... Ali encontrará
um marido aguardando-a para lhe fazer sua esposa!
— Sério?
— Vejo que o sangue lhe sobe ao rosto! Vá, corra para a
igreja! Devo ir por outro caminho, para arranjar uma escada
com a qual o seu amor vai subir a um ninho de pássaro assim
que anoitecer.
— Que bela notícia me traz, querida ama!
— Eu sou um animal de carga que sofre pelo seu prazer...
Mas, à noite, será minha menina quem carregará o peso do amor
no corpo de um homem. Agora estou faminta, irei comer. Vá,
corra para o confessionário!
— Sim, vou direto ao encontro da felicidade, direto para os
braços do meu amor!
34
CAPÍTULO 1
1
Na cela de frei Lourenço, Romeu ouvia atento os conselhos
do velho padre:
— Que os céus sorriam a esta sagrada cerimônia, jovem
rapaz. E que os tempos futuros não nos condenem com o seu
pesar.
Romeu era o fiel retrato da felicidade, extasiado ante a
iminente aliança que prometia consagrar seu infinito amor. O
padre, porém, alertava:
— Cuidado com estas violentas alegrias. Elas têm fim
igualmente violento e morrem em pleno triunfo, como o fogo e
a pólvora que num beijo se consomem. O mais doce mel pode
estragar o apetite pelo seu excelente gosto.
— O que o senhor está querendo me dizer, frei?
— Que deve amar Julieta, porém deve amá-la moderada-
mente, pois assim se conduz o verdadeiro amor. Tarde chega
quem muito corre, assim como se atrasa quem caminha por
demais lentamente.
Tão concentrado Romeu estava nas palavras de frei Louren-
ço, que nem percebe os leves passos da dama que entrava.
— Para o meu santo confessor, boa tarde.
— Julieta, meu amor! — admira-se Romeu ao ver a sua
amada.
— Seja bem-vinda, minha filha... Romeu lhe agradecerá
por nós dois.
Romeu e Julieta contemplavam-se como se o encontro de
seus olhares fosse a tampa de um baú que se abrisse reluzente,
exibindo jóias preciosas guardadas em seu interior e que, de um
instante para o outro, ganhassem força e brilho.
— Venham, venham comigo, minhas flores, e agiremos
rapidamente — interrompe frei Lourenço aquele momento de
magia. — De uma vez por todas, e para sempre, com os seus
consentimentos, não permitirei que permaneçam sozinhos até
que a Santa Igreja tenha incorporado os dois em um só!
35
CAPÍTULO 12
Interminável tarde a de segunda-feira. Insuportável calor o
de Verona. E, como todos sabiam, o sangue costumava ferver
nesses dias quentes, principalmente o das famílias Capuleto e
Montecchio.
Essa era a preocupação de Benvólio enquanto caminhava
com Mercúcio pela praça abarrotada de gente, exatamente a
mesma praça que presenciara o duelo do dia anterior. Seu temor,
na verdade, era o de cruzar com um Capuleto mais afoito e
metido a valente. Pensava em Tebaldo, claro. Afinal, o comba-
tente e provocador sobrinho do velho Capuleto até havia desa-
fiado Romeu por escrito.
Já Mercúcio, nada temia. Pelo contrário, brincava com
Benvólio, insinuando que o amigo seria um covarde e não um
bravo; no máximo, um bravo estúpido, que costumava se bater
sem motivos. Mercúcio acreditava que justificativas não lhe fal-
tavam para lutar com um Capuleto. Em defesa de seu amigo
Romeu, seria capaz de afrontar o mais temido dos cavalheiros
de Verona.
— Por minha cabeça, Mercúcio, aí vem um Capuleto! —
surpreende-se Benvólio ao perceber a aproximação de
Tebaldo.
— Por meus calcanhares — ironiza o destemido Mercúcio
—
,
pouco me importo!
Tebaldo chegava arrogante, protegido por um grupo prova-
velmente de criados. De outro lado, Mercúcio e Benvólio tam-
bém se agrupavam aos seus servis seguidores. A todos se soma-
vam, ainda, alguns curiosos cidadãos que começavam a rodeá-
los, certamente prevendo alguma confusão.
Os dias quentes daquele mês de julho conheciam o auge da
inimizade das famílias Montecchio e Capuleto. As duas mais
dignas casas de Verona jamais haviam estado com os ânimos tão
aflorados. Por isso, não foi necessário grande esforço para que
nova contenda se iniciasse.
37
Com licença... — avança Tebaldo. — Boa tarde, cava-
lheiros. Uma palavra com um dos dois.
— Só uma palavra com um de nós? — contesta Mercúcio.
Por que não a junta com alguma outra coisa, para que sejam
uma palavra e um golpe?
— Sem problemas, senhor. Se me derocasião para isso...
— devolve Tebaldo.
— E não poderia agarrar uma ocasião sem precisar que
alguém a dê? — provoca Mercúcio.
— Mercúcio, está concertado com Romeu? — investe o
desconfiado Tebaldo, talvez temendo alguma trama inimiga.
— Como assim? Pensa que somos músicos para estarmos
concertados um com o outro? Se pensa que somos menestréis,
engana-se; de nossas bocas só ouvirá discordâncias. Aqui está o
meu arco de violino! — diz Mercúcio, apontando a própria
espada. — Aqui está o que lhe fará dançar!
Benvólio, apavorado e já prevendo uma desgraça, tentava
convencê-los a que deixassem a discussão de lado. Por estarem
em um lugar público e por ter o príncipe alertado quanto a
novos duelos, melhor seria aquietar os ânimos. De nada serviam,
porém, os seus conselhos. Todos os olhares já pousavam sobre
eles.
Nesse justo momento, aparece Romeu, o Montecchio por
quem Tebaldo procurava.
— Romeu, o ódio que sinto agora não encontra melhor
expressão do que esta: você é um covarde!
— Ora, Tebaldo, não tenho razão para odiá-lo; ao contrá-
rio, sobram-me motivos para estimá-lo. Não sou um covarde...
Sendo assim, adeus, pois vejo que não me conhece!
Rapaz, suas palavras não desculpam as injúrias que já
me fez! Portanto, desembainhe sua espada!
— Protesto! Nunca o injuriei, Tebaldo! Acredite que o es-
timo mais do que imagina... Pena não poder dizer-lhe a causa de
meu afeto.
Romeu estava, agora, casado com Julieta. Tebaldo passava
a ser, portanto, seu parente.
38
— Bondoso Capuleto — prossegue Romeu —
,
cujo nome
respeito tanto quanto o meu, considere-se satisfeito.
— Chega de tanta desonra! — corta Mercúcio. — Vamos
logo decidir essa história... Alia stoccatal — grita ao puxar a
espada.
— Que deseja de mim, Mercúcio? — quer saber Tebaldo
antes de aceitar o duelo.
— Ora, Rei dos Gatos, nada... Somente uma de suas nove
vidas, com a qual farei o que bem entender. Em seguida, espan-
carei as outras oito. Puxe logo sua espada antes que a minha
arranque suas orelhas!
— Se assim prefere... Estou ao seu dispor! — Tebaldo
aceita o desafio, também desembainhando a sua espada.
Romeu tentava ainda conter os espíritos, mas já era tarde.
Mercúcio e Tebaldo começavam a lutar. Seus pedidos de ajuda
a Benvólio e a todos os cidadãos presentes de nada adiantavam.
Como derradeiro esforço, interpõe-se entre os duelistas, mas
apenas consegue atrapalhar seu amigo: Tebaldo enfia sua espada
por baixo do braço de Romeu, ferindo o peito do nobre
Mercúcio. Em seguida, foge com seus companheiros.
CAPÍTULO 13
Estirado no chão, as vestes de Mercúcio manchavam-se de
sangue. Revoltado pelo ferimento recebido e por não haver fe-
rido seu rival, ele amaldiçoava Montecchios e Capuletos, as
duas famílias causadoras daquela desgraça.
— Onde está Tebaldo? Aquele infeliz fugiu? — diz o irado
nobre em agonia.
É grave seu estado, Mercúcio? — inquieta-se Benvólio.
— Foi só um arranhão... — mente Mercúcio. — Onde está
meu criado?
— Aqui estou, nobre senhor.
39
Corra, vá buscar um cirurgião! Ande, ande... Rápido,
homem! — ordena-lhe Mercúcio, mal prevendo que seu destino
já estava traçado.
Extremamente perturbado e sentindo-se culpado pela ago-
nia do fiel amigo, Romeu não sabia se socorria Mercúcio ou se
corria atrás de Tebaldo.
— Coragem, meu amigo! O ferimento não é grande! —
consola Romeu.
Mercúcio, em plena agonia, não perdia sua irônica verborragia:
— Meu ferimento não é tão fundo quanto um poço, nem
tão largo quanto o portal de uma igreja, mas é o suficiente e
quanto basta. Pergunte por mim amanhã e saberá que me trans-
formei num homem grave, talvez grave como um túmulo.
— Ora, deixe disso, amigo.
— Estou amaldiçoado para este mundo. Que uma praga
dizime as duas famílias! E o que pensa que sou? Serei morto por
um arranhão? Ora, Romeu, por que diabos tinha de se meter
entre nós? Fui ferido por debaixo de seu braço!
— Fiz com a melhor das intenções... — justifica-se Romeu,
atordoado.
— Benvólio, leve-me daqui para morrer dentro de uma casa
— diz Mercúcio, aceitando a própria sina. — Transformaram-
me em carne para verme!
Benvólio carrega Mercúcio para a sombra de um abrigo
próximo. Romeu, paralisado, lamentava profundamente a sorte
de tão corajoso e verdadeiro amigo, que fora terrivelmente fe-
rido por defender uma causa sua.
— Minha honra está manchada com o ultraje de Tebaldo!
— vocifera Romeu. E completa para si: — Justamente Tebaldo,
que há menos de uma hora se tomou meu primo!
Enquanto Romeu pensava em sua amada e recém-esposada
Julieta e na coragem diminuta, Benvólio retomava, gritando a
quem se dispusesse a ouvi-lo:
— Romeu, Romeu! O bravo Mercúcio está morto!
— Morto?
— Morto, Romeu! Aquele galante espírito, que tão cedo
40
desprezou a terra, fora de hora ascendeu às nuvens!
Nem bem Romeu tirava suas mãos de lamentação de cima
do rosto, seus olhos cruzam com os do furioso Tebaldo, vivo e
triunfante, altivo e, mais do que nunca, provocador. Romeu
sente estremecer-se de raiva, com o sangue fervilhando pelo
corpo.
— Tebaldo, devolvo o covarde que me dirigiu há pouco! A
alma de Mercúcio está muito próxima de nossas cabeças espe-
rando que a sua vá fazer-lhe companhia. Um de nós, ou os dois,
deve juntar-se a ele.
— Romeu, estúpido rapaz, dele era companheiro e com ele
partirá! — Tebaldo preconiza.
r— E o que veremos! — devolve Romeu, puxando sua es-
pada ao mesmo tempo que Tebaldo.
A multidão ofegante não tem tempo sequer para dois sus-
piros. O combate é tão violento quanto rápido. Em poucas es-
tocadas, Tebaldo jazia no chão de pedra da praça central de
Verona.
— Corra, Romeu, fuja! — grita precavidamente Benvólio.
— Toda a cidade para cá se dirige... Tebaldo está morto! Não
fique aí parado! Se o prendem, o príncipe o condenará à morte!
Vá, fuja para longe daqui!
Incrédulo, sentindo-se o próprio joguete do destino, a
Romeu não restava alternativa, senão a de abandonar imediata-
mente o cenário de tantos crimes.
Os primeiros guardas chegam procurando pelo assassino de
Mercúcio, parente do príncipe. Quando começavam a entender
os acontecimentos, chega à praça o próprio príncipe Escalo, com
seu séquito, mais o velho Montecchio seguido do velho
Capuleto, os dois com suas esposas.
— Quem iniciou esta briga? — indaga o príncipe.
Benvólio oferece a sua versão:
— Oh, nobre príncipe, posso revelar todo o desenrolar des-
ta disputa fatal. Ali jaz, morto pelo jovem Romeu, o homem que
matou seu parente, o bravo Mercúcio.
Desesperada, a senhora Capuleto chorava a morte do filho
41
de seu irmão, o sobrinho Tebaldo. E clamava que o príncipe
fizesse justiça, derramando o sangue de um Montecchio em tro-
ca do Capuleto derrubado.
A pedido do príncipe, Benvólio relata detalhadamente os
fatos, desde o seu princípio.
— Tebaldo, que aqui jaz, recebeu sua morte das mãos de
Romeu. Romeu lhe pedia com cortesia que considerasse a futi-
lidade da discussão que mantinham, e para isso invocou até
mesmo a sua vontade, meu príncipe. Tebaldo, entretanto, surdo
à paz, atirou-se de espada em punho contra o peito do valoroso
Mercúcio. Romeu precipitou-se entre eles, rogando que paras-
sem, mas um golpe traiçoeiro de Tebaldo atingiu, por debaixo
do braço de Romeu, a vida de Mercúcio. Tebaldo, em seguida,
fugiu.
— Se Tebaldo havia fugido, como veio aqui morrer? —
prossegue o príncipe com o inquérito.
— Pois então... Enquanto Romeu começava a pensar em
vingança, Tebaldo voltou. E como raios os dois se atiraram um
contra o outro, e antes que eu pudesse separá-los com a minha
espada, Tebaldo já estava caído morto.
— E Romeu, onde se encontra?
— Romeu empreendeu sua fuga imediatamente, meu prín-
cipe. E essa é toda a verdade ou serei condenado à morte.
A senhora Capuleto seguia protestando. Acusava Benvólio,
também ele um Montecchio, de mentir por afeição.
— Romeu matou meu sobrinho e Romeu deve perder a
vida! — exige a tia de Tebaldo.
— Romeu matou Tebaldo, é verdade — diz o príncipe —
,
mas Tebaldo matou Mercúcio!Quem deve pagar agora o preço
desse estimado sangue?
O pai de Romeu sai em defesa do filho:
— Romeu não, meu príncipe, pois ele e Mercúcio eram
amigos! Sua culpa foi antecipar o castigo que a própria lei im-
punha, ou seja, cortar a existência de Tebaldo.
A sentença do príncipe logo se fez ouvir:
- A Romeu, por esta ofensa, imediatamente nós o exilamos
42
de Verona! Entretanto, muito me interessa o modo como se en-
caminha o ódio entre vocês todos! O meu sangue ferve por causa
de suas ferozes contendas! Mas a todos imporei um castigo tão
duro que deplorarão a perda que tive. Desde agora, faço-me surdo
aos pedidos de desculpas; nem lágrimas nem queixas serão sufi-
cientes para reparar tais abusos... Saia Romeu desta cidade o mais
depressa possível ou, se for descoberto, será essa sua última hora!
Levem esse corpo daqui e respeitem nossa vontade! A clemência
seria assassina se perdoasse aos que matam!
CAPÍTULO 14
Anoitecia. Julieta caminhava solitária no jardim de sua
casa, embalada pela doce lembrança de Romeu sob sua janela,
na noite anterior. A rapidez com que os fatos se desencadearam
a impressionava. Agora que uma nova noite se aproximava, a
graciosa donzela já era uma mulher casada, ainda que isso fosse
segredo. Tinha, contudo, na bênção de frei Lourenço a represen-
tação de Deus, e isso lhe bastava.
O véu espesso da escuridão era bem-vindo, mantilha prote-
tora do amor. Noite que traria Romeu voando para os seus bra-
ços. Julieta aguardava ansiosa pelo seu amado para que, enfim,
celebrassem seus amorosos ritos, cego amor que melhor combi-
nava com os ares noturnos.
Que a noite viesse logo, a noite e Romeu, trazendo o ver-
dadeiro afeto, e levando consigo a virgindade de amor tímido
guardada pela linda e jovem Capuleto. Julieta esperava pela
consumação de seu casamento, como uma menina impaciente
aguarda pela hora da festa com seus vestidos novos. Sua ama,
porém, tardava em trazer notícias de Romeu e a escada de cor-
das encomendada por ele, sem a qual o abraço desejado se
mostraria tão distante quanto o cume da mais alta montanha.
Que há, ama? Quais são as notícias? — indaga Julieta à
43
chegada da ama. — Que traz aí? A escada que Romeu lhe encomen-
dou? — suplica a jovem, sentindo seu coração tomado de agonia.
— Sim, a escada... Sim, a escada — repete a ama, atirando
as cordas ao chão.
— Mas por que esse semblante aflito, ama? Por que torce
tanto suas mãos? — pergunta Julieta ante o torturante silêncio
da ama.
— Que dia mais azarado, meu Deus! Ele morreu, ele mor-
reu! Estamos perdidas! Ai, que dia! — protela a ama, parecendo
regozijar-se diante do desespero de Julieta.
— Mas por que seria o céu tão cruel comigo?!
— O céu jamais é cruel, menina, mas Romeu sim! Ah,
Romeu, quem poderia imaginar?!
— Deixe de ser demoníaca, minha ama! Por que me ator-
menta assim? Tortura igual só se encontra no inferno! Romeu se
matou? E isso? Diga sim e nunca mais serei a mesma... Ele está
morto? Sim ou não? Diga, por favor: sim ou não?
— Eu vi a ferida com estes olhos que Deus me deu! Era um
cadáver, um cadáver ensangüentado, pálido como as cinzas,
todo coberto de sangue, sangue coagulado... Só de vê-lo, des-
maiei!
— Meu coração está destroçado! Acabou minha sonhada
liberdade! Enterrarei meus olhos com os de Romeu! — desabafa
Julieta, sentindo-se desfalecer de tristeza.
— Ai, meu querido Tebaldo! Justo Tebaldo, o melhor ami-
go que eu tinha! Leal cavalheiro... Eu não deveria viver para vê-
lo morto um dia! — diz a ama, suspirando com exagero.
— Afinal, o que está me dizendo, ama? Agora joga a tem-
pestade para o lado contrário?! Os dois morreram? Meu amado
Romeu e meu primo Tebaldo foram mortos? Então chegou o
Juízo Final! Quem sobrou vivo?
— Não, minha querida... Tebaldo não existe mais e Romeu
está banido! Romeu o matou e por isso foi desterrado!
— Oh, Deus! A mão de Romeu derramou o sangue de
Tebaldo? — Julieta pergunta incrédula.
Julieta, desnorteada em seus sentimentos, amaldiçoava os
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céus e todos os deuses e homens deste mundo, lamentando seu
destino. Já a ama reclamava a perda de Tebaldo, seu “fiel escu-
deiro”, como gostava de chamá-lo, condenando impiedosamente
quem o matara:
— Que a vergonha caia sobre Romeu!
— E que sua língua apodreça por desejar tal sorte a meu
amor! — devolve Julieta, indignada por perceber-se desampara-
da em sua tristeza.
— Mas ele matou o seu primo!
— Romeu é agora o meu esposo, entende o que isso signi-
fica para mim? — contesta Julieta, segurando as lágrimas.
Julieta não entendia os motivos pelos quais Romeu teria
matado seu primo. Tebaldo talvez tivesse tentado matar
Romeu... Esse pensamento a confortava em parte. Porém, como
se não bastasse a desgraça da morte do primo, ela vinha acom-
panhada da notícia do desterro de Romeu, desgraça ainda pior.
No fundo, Julieta preferiria que todos estivessem mortos,
Tebaldo, Romeu, seus pais e ela mesma; dessa forma, não so-
freria tanto.
— Seus pais choram junto ao cadáver de Tebaldo. Se você
quiser, pobre criatura, eu a levo até eles... — sugere a ama.
— Que meu pai e minha mãe lavem as feridas de meu
primo com suas lágrimas. As minhas serão gastas com o
banimento de Romeu! — diz Julieta, desiludida. E, acreditando-
se enganada pelo destino, pede à ama: — Leve as cordas para
o meu quarto. Que a morte, e não Romeu, receba a minha vir-
gindade!
A ama, preocupada com o sofrimento de sua querida
Julieta, pede que a jovem corra para o quarto e lá aguarde pela
chegada de seu amado.
— Eu sei onde ele está. Fique tranqüila, pois vou encontrá-
lo... Romeu aqui estará esta noite sem falta!
— Vá, minha ama, encontre o meu amor e peça-lhe que
venha me ver para o nosso derradeiro adeus! Ah, espere, entre-
gue este anel a meu fiel cavalheiro! Agora vá, vá!
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CAPÍTULO 15
Após o confronto com Tebaldo, aconselhado por Benvólio,
Romeu refugia-se na cela de frei Lourenço. O franciscano, que
fora buscar notícias sobre a sentença imposta pelo príncipe a
Romeu, encontra-o desconsolado.
— Que expressão de medo é essa, Romeu? Parece enamo-
rado da aflição! Está casado com a desgraça?
— Ora, padre, conte-me logo sobre a minha dor... Qual
pena me foi imposta? Algo menor do que a morte?
— Os lábios do príncipe pronunciaram palavras brandas, meu
filho: a sentença não é a morte do corpo, mas o exílio do corpo!
— Banimento? Não, padre, prefiro a morte ao banimento!
O exílio é muito mais aterrador do que a morte!
— Você foi desterrado de Verona apenas. Seja paciente,
pois o mundo é vasto e espaçoso! — consola o frei.
Para Romeu não havia mundo além dos muros de Verona,
e sim purgatório, tortura, inferno! Estar banido de Verona era
como estar banido do mundo, e tal exílio seria a morte sob falso
nome.
Frei Lourenço mostrava-se indignado com o pensamento de
Romeu. Para ele, o príncipe havia sido generoso na atribuição
da pena, uma vez que as leis da cidade previam a morte para
casos como esse. Portanto, se o príncipe havia trocado a conde-
nação à morte pela condenação ao desterro, Romeu recebera um
imenso e particular favor.
— Prefiro ser um gato, um cão ou um rato e estar próximo
da minha Julieta. Queria ser uma mosca e poder pousar em suas
mãos ou em seus lábios, como a pecar em seus beijos!
Romeu desespera-se, pedindo então que frei Lourenço lhe
dê um ativo veneno ou um agudo punhal, algo que possa tirar-
lhe a vida rapidamente.
— Mais do que isso, Romeu, eu lhe darei uma armadura
para suportar o banimento: a filosofia, o doce leite da adversi-
dade, para confortá-lo.
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— Padre, se nâo puder me dar a pequena Julieta, transferir
uma cidade de lugar ou derrubar a sentença de um príncipe,
prefiro não ouvi-lo.
— Ora, vejam só: os loucos não têm ouvidos!
— Para o senhor é fácil, padre, pois não sabe o que estou
sentindo. Se o senhor fosse jovem como eu e Julieta, e conhecesse
o nosso amor; se estivesse casado há tão poucas horas; se tivesse
matado Tebaldo como fiz eu; se amasse com delírio e, como eu,

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