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/ LEONARDO CHIANCA PQ RTUGU PR2794 . R7 C55 1997x editora scipione BOSTON PUBLIC UBRARV Gopley Square SERIE REENCONTRO WILLIAM SHAKESPEARE > " fSW-ttft Romeu e Julieta TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO" EM PORTUGUÊS DE LEONARDO CHIANCA editora scipione Para Márcia Leite pelo amor à escrita , esta e muitas outras. L.C. (*) Traduzido e adaptado de Romeo and Juliet, de William Shakespeare, contido em The complete works of William Shakespeare. New York, Doubleday, Garden City, 1 968. r editora scipione DIRETORIA Luiz Esteves Sallum Maurício Fernandes Dias Vicente Paz Fernandez Patrícia Fernandes Dias José Gallafassi Filho Antonio Carlos Fiore GERÊNCIA EDITORIAL Aurélio Gonçalves Filho FOR PR2794 • R7 C65 1 997 x EDITORA AFILIADA RESPONSABILIDADE EDITORIAL Samira Youssef Campedelli ASSISTÊNCIA EDITORIAL Dulce S. Seabra REVISÃO chefia - Sâmia Rios assistência - Míriam de Carvalho Abões preparação - Maysa Monção Gabrielli e Sílvia Cunha revisão - Laura Barcellar e Paulo Fernando Cunha GERÊNCIA DE PRODUÇÃO Gil Naddaf ARTE coordenação geral - Sérgio Yutaka Suwaki edição de arte - Didier D. C. Dias de Moraes coordenação - Maria do Céu Pires Passuello assistência - Cláudio Faustino da Silva ilustração - Cecilia Iwashita projeto de capa - Ricardo Postacchini EDITORAÇÃO ELETRÔNICA coordenação - Márcia Sasso assistência - Jean Cláudio da S. Aranha COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO José Ántonio Ferraz IMPRESSÃO E ACABAMENTO Prol - Editora Gráfica Ltda. 1997 ISBN 85-262-3133-2 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Editora Scipione Ltda. MATRIZ Shakespeare , William, 1564-1616. Romeu e Julieta / William Shakespeare ; adaptaçao Praça Carlos Gomes, 46 01501-040 -São Paulo -SP em português de Leonardo Chianca. — São Paulo : Scipione, 1097. — (Serie reencontro) DIVULGAÇÃO 1. Literatura infanto-juvenil I. Chianca, Rua Fagundes, 121 Leonardo. II. Titulo. III. Serie. 01 508-030 -São Paulo -SP Tel. (011)242 8411 Caixa Postal 65131 97-0634 COO-028.5 índices para catalogo sistemãtico: 1. Literatura infanto-juvenil 2. Literatura juvenil 028.5 Qrntt fci UJi£í!úwt ShalmpeuM? No verão de 1587, um rapaz interiorano andava pelas ruas de Londres. Tinha consigo apenas algumas libras, mas fmalmente encontrava-se no ambiente propício para desenvolver a sua vocação — a literatura. A capital inglesa havia sido, por muito tempo, apenas um sonho para William Shakespeare. Nascido em 1564 em Stratford-upon-Avon, gozou de uma vida abastada até os 12 anos. A partir de então, com a falência de seu pai, viu-se obrigado a trocar os estudos pelo trabalho árduo, passando a contribuir para o sustento da família. Guardava, entretanto, os conhecimen- tos adquiridos na escola elementar, onde havia iniciado seus estudos de inglês, grego e latim; por sua própria conta, continuou a ler os autores clássicos, poemas, novelas e crônicas históricas. Era também um profundo conhecedor da Bíblia. Aos 18 anos já estava casado com a rica Anna Hathaway, com quem teve três filhos. Não se sabe ao certo por que motivo seguiu sozinho para Londres, quando contava 23 anos; o fato é que veio a tomar-se a figura mais expressiva da literatura inglesa. Foi o maior poeta e dramaturgo do Renascimento de seu país. De maneira bem simples, podemos definir o Renascimento como a reto- mada da cultura da Antiguidade clássica, baseada na valorização de todas as capacidades do homem e no estudo e conhecimento da natureza, que se desen- cadeou em vários países da Europa nos séculos XIV, XV e XVI, reformulando as artes, as letras e as ciências. Esses princípios eram bem diferentes daqueles que nortearam a cultura medieval, centralizada na adoração a Deus e no estudo exclusivo dos livros sagrados e dos assuntos espirituais. Vários foram os fatores que determinaram esse processo: a centraliza- ção do poder na figura dos reis, que estimulavam a produção artística esperando obter dessa forma alguma promoção pessoal; o desenvolvimento do comércio e das cidades; e o enriquecimento dos comerciantes, que pas- saram a pagar para que os artistas e literatos produzissem obras que divul- gassem os valores dessa classe em ascensão. Tal efervescência cultural era bastante acentuada em Londres, onde se desenvolvia uma intensa atividade teatral. Shakespeare iniciou sua carreira como ator na companhia teatral do Conde de Leicester. Pouco tempo depois, passou a dedicar-se à adaptação de textos alheios para o palco. O sucesso obtido nessa atividade levou-o a escrever suas próprias peças. Nos dez anos seguintes — já com sua companhia teatral — escreveu 15 peças, quase todas comédias leves e dramas históricos ou sentimentais, como Sonho de uma noite de verão , A megera domada , Muito barulho por nada , Ricardo III e Romeu e Julieta. A partir de 1601, durante um período de recolhimento e 3 meditação, elaborou a maior parte de suas tragédias, como Otelo , Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Depois disso, Shakespeare retomou seu velho otimismo, mas com um humor mais contido, filosófico e por vezes melancólico. Nesse período escreveu Péricles, príncipe de Tiro e A tempestade. Romeu e Julieta, escrita provavelmente em 1595, foi uma das primei- ras obras de Shakespeare e revela ainda uma certa imaturidade do autor. Contudo, é a sua maior tragédia renascentista. A trágica lenda de Romeu e Julieta tem antecedentes na mitologia grega, com Hera e Leandro, Píramo e Tisbe, e também nas lendas medie- vais. A célebre história de amor já fora contada de diversas maneiras, entre elas, a versão de Luigi de Porto, de 1524, e a de Arthur Brooke, de 1562. A fonte mais direta de Shakespeare foi o poema narrativo de Brooke. Romeu e Julieta inicia o ciclo shakespeariano do amor contrariado por circunstâncias adversas de ordem familiar, social ou nacional, que seguirá em Troilo e Crésida e em Otelo , e culminará em Antônio e Cleópatra , um ciclo em que o amor aparece como um novo sentimento que transforma a quem o vive até o extremo de exigir sua própria vida. Como tragédia de amor, Romeu e Julieta prefigura Otelo em pelo menos dois pontos: baseia-se em uma história de amor romântica e parte de fórmulas de comédia. Ambos os aspectos estão relacionados entre si. Quan- do tratam de amor, a tragédia e a comédia têm uma origem comum nas histórias românticas gregas ou renascentistas: os diversos incidentes que determinam a ação tendem a ser improváveis e o final, feliz ou triste, arbitrário. A história de Romeu e Julieta acaba mal porque um frade não consegue entregar uma carta e um criado dá uma mensagem errada. O infortúnio dos protagonistas deve-se, portanto, mais ao acaso do que à necessidade trágica. Romeu e Julieta produz um efeito trágico porque os personagens, com os quais é fácil a identificação, são vulneráveis e acabam vítimas de uma situação de ódio e violência que não podem evitar. 4 CAPÍTULO 1 No norte da Itália, por volta de 1600, a região do Vêneto estava sob o domínio de Veneza. Penetrando no interior do país, aos pés dos Alpes Centrais, encontra-se Verona. A presença vigilante do monte Lessini dilui-se com serenidade nas doces a águas do Adige; o rio corre para o mar Adriático que, com suas águas salgadas, banha a cidade de Veneza. O palco e cenário desta história é a bela Verona, com suas inúmeras casas e fortificados palácios de pedras, e suas compri- das e estreitas vielas. Nela, sobre as pontes cujos arcos ligam as margens das águas azuladas do rio, amanhecia um domingo de julho. Saindo dessas margens, e embrenhando-se pela cidade em meio aos seus cidadãos, dois homens armados de espada e broquel provocavam uma revoada de pombos na larga praça. — Eu lhe dou minha palavra, Gregório: nós não iremos levar desaforos para casa! — É claro, Sansão, caso contrário nos tomariam por tolos. — Preste atenção: quando fico zangado, puxo logo a es- pada! — Sim, mas se quiser permanecer vivo, trate de puxar o pescoço para fora do nó daestivesse banido, padre, então poderia falar e arrancar os cabelos. Isso somente eu posso fazer! — diz Romeu, atirando-se ao chão, revoltado consigo mesmo e com o próprio destino. Nesse momento, começam a bater desesperadamente à por- ta da cela de frei Lourenço. O padre pedia a Romeu que se levantasse, mas ele nâo se movia. Temendo que Romeu fosse preso, o frei obriga seu protegido a esconder-se em seu quarto. Quando abre a porta, porém, é surpreendido pela ama de Julieta. — Oh, santo frade! — exclama exageradamente a ama. — Onde está o esposo de minha senhora? Onde está Romeu? — Ali no chão de meu quarto... Vê? Está embriagado nas próprias lágrimas! — Incrível! Está no mesmo estado de minha Julieta! Exa- tamente igual! — compara a ama, aflita. — Semelhantes na dor e no amor... Que situação lamentá- vel! — concorda frei Lourenço. A ama, revoltada em ver Romeu naquele estado deplorável, pede-lhe energicamente que reaja: — Coragem! Fique de pé se for homem! Pelo amor de Julieta, levante-se! — exige a ama. — Ama?! — surpreende-se Romeu, obedecendo-lhe. — Meu senhor, a morte é o fim de tudo! Surpreendentemente preocupado com outra pessoa além de si próprio, Romeu indaga sobre as condições de Julieta e sobre o julgamento que ela fazia dele depois de haver matado Tebaldo: — Que pensa de mim a minha querida Julieta? Que sou um cruel assassino capaz de manchar de sangue a sua honrada fa- mília? E o que ela pensa do nosso amor aniquilado? 47 — Não pensa nem diz, ela só chora. Chora, atira-se na cama, levanta-se e grita: “Tebaldo!”. Depois chora, atira-se na cama, levanta-se e grita: “Romeu!”. Depois... Sentindo-se o culpado e causador de tanta desgraça e sofri- mento, Romeu puxa sua espada e ameaça matar-se, mas frei Lourenço o repreende: — Detenha sua desesperada mão! — grita o padre. — Você é um homem, Romeu? Seu corpo diz que sim, mas suas lágri- mas dizem o contrário, seus atos frenéticos mostram apenas a fúria irrefletida de uma fera! Atônito diante de seu confessor, Romeu ouvia as palavras que frei Lourenço disparava em sua direção: — Porque matou Tebaldo, quer agora matar-se? E, matan- do-se, matar a esposa que à sua vida se dedica? Cuidado, Romeu, cuidado! — adverte o franciscano. — É isso mesmo — diz a ama, sem que o padre lhe dê importância. — Vamos, homem, ânimo! A sua Julieta, por cujo ardente amor queria morrer há pouco, está viva! E esta é a sua felicidade! Tebaldo queria matá-lo, mas foi você quem o matou, e nisto tam- bém teve sorte! Quer mais? A lei ameaçava com a morte, e terá a pena do exílio apenas! Desperte, rapaz, a felicidade o corteja! Não a renegue ou morrerá em desventura! — profetiza o padre. — E o que faço, frade? — pergunta Romeu, perplexo, se- guindo atento as palavras de frei Lourenço. — Vou lhe dizer o que fazer... Vá procurar o seu amor conforme estava combinado, subir até o quarto dela e dar-lhe consolação, me entende? — Claro que entendo, padre. — Mas não fique até a hora em que colocam a guarda, senão não poderá partir. — Partir? Partir para onde? — Para Mântua. Permanecerá em Mântua até que encontre- mos ocasião para anunciar o matrimônio de vocês, reconciliar as duas famílias e conseguir o perdão do príncipe. Dessa forma, poderá voltar vinte mil vezes mais alegre do que agora, com os 48 lamentos que emite ao partir. O plano parecia perfeito. Romeu mostrava-se disposto a acatar as instruções de seu conselheiro. O padre pede então à ama que siga na frente e apresse toda a casa a ir mais cedo para a cama. Romeu iria em seguida. — Oh, senhor, poderia passar aqui a noite toda para escutar tão bons conselhos! Que sabedoria! — exclama a ama. — Ama, espere... — pede Romeu. — Avise Julieta que logo estarei com ela para que me puna pelo que fiz. — Ora, deixe disso, homem... Ah, senhor, Julieta me pediu que lhe entregasse este anel... Tome-o! E vá logo ver minha dama, já está ficando tarde! Romeu queria que o anel em suas mãos fosse os olhos de Julieta, ali representados numa translúcida pedra azul, azul do bri- lho das estrelas, azul das águas do rio, azul da esperança no infinito. — Vamos, Romeu, agora vá! Disso depende a sua vida: parta antes que a guarda seja montada, ou então saia disfarçado quando despontar o dia. Fique em Mântua e de lá não saia! Procurarei seu criado, Baltasar, e ele levará notícias com fre- qüência; assim, saberá de tudo quanto suceder e lhe interessar. Dê-me a sua mão... Está ficando tarde. Adeus! Boa noite, filho! CAPÍTULO 16 No início da noite, Páris conversava, na casa dos Capuletos, com quem julgava ser seu futuro sogro. Sensibilizado pela prema- tura, inesperada e trágica morte de Tebaldo, o senhor Capuleto mostrava-se confuso e mesmo inconseqüente no que dizia: — Páris, meu jovem conde, coisas lamentáveis ocorreram por aqui neste dia, e mal tivemos tempo de conversar com nossa filha... Ela era muito apegada ao seu primo, assim como eu. Bem, todos nós nascemos para um dia morrer, que se há de fazer?! Já é tarde, meu bom amigo, por isso Julieta não irá 50 descer. Eu mesmo, a uma hora destas, já estaria na cama! — comenta o senhor Capuleto, insinuando o avançado da hora. — O senhor tem razão. Estes tempos dolorosos, dias de luto, não são nada apropriados para galanteios... Já estou de partida. Re- comendações à sua filha. Boa noite, senhor. Até mais ver, senhora. A senhora Capuleto, seduzida pelas boas maneiras do con- de, queria garantir-lhe que, na manhã seguinte, saberia da filha o que ela pensava de suas pretensões: — Esta noite minha filha está enclausurada na própria tris- teza — ela diz, justificando a reclusão de Julieta. Aproveitando as palavras da esposa, o velho Capuleto atre- via-se a falar pela filha, antecipando-se à velocidade natural dos acontecimentos. Ordenava à senhora Capuleto que, antes de dei- tar-se, comunicasse a Julieta o amor que Páris nutria por ela. — Diga-lhe que na quarta-feira... Espere, que dia é hoje? — pergunta o velho senhor. — Segunda-feira, senhor — responde Páris prontamente. — Segunda-feira... Ahn... Não, quarta é cedo demais. Diga- lhe que na quinta-feira ela se casará com o conde! — arremata o senhor Capuleto. — Quinta-feira, senhor? — Páris surpreende-se com a de- cisão do pai de Julieta. — Está disposto? Que pensa desta pressa, nobre conde? Não está contente? — Claro que sim, senhor. Desejaria que quinta-feira fosse amanhã mesmo! Pensando em tudo, o pai de Julieta expressa o desejo de que a cerimônia não tivesse grande pompa; seriam convidados pou- cos amigos, já que a morte de Tebaldo se fazia muito recente e os cidadãos de Verona poderiam pensar que eles não respeita- vam o luto pelo sobrinho. — Se está de acordo, jovem Páris, prepare-se, então... Será na quinta-feira! — avisa o patriarca para seu futuro genro, e, voltando-se para a senhora Capuleto, a instrui: — Minha esposa, converse com a nossa filha antes de deitar-se e prepare-a para o dia do casamento... Adeus, senhor, e muito boa noite! 51 CAPÍTULO 17 Era noite ainda. Acreditando ouvir o canto da cotovia, men- sageira da aurora, Romeu julgava prudente a sua partida. — Não, meu amado, acredite, não é a cotovia, mas sim a voz do rouxinol ali sobre a romãzeira. Todas as noites ele can- ta... Fique, meu amor, fique mais um pouco comigo! O dia ainda não está próximo! Julieta preferia acreditar que a luz despontada ao longe fosse de algum meteoro, que, como Romeu, passava por sua vida naquela noite. Mas não, era o sol que trazia o dia e, com ele, a separação indesejada. — Preciso partir e viver, minha amada, ou ficar e morrer! — sentencia Romeu. — Então, que aquela claridade seja uma tocha que ilumine seu caminho para Mântua! Ai, Romeu, fique mais um pouco e me deixe adormecer em seus braços... — implora Julieta. A tentação de Romeu em ficar e deixar que a morte o surpreendesse era grande. O desejo de Julieta de que ficasse vencia sua vontade de partir. Que as almas dos dois amantes repousassemjuntas, ainda que em outro mundo. Como que pressentindo o pior, Julieta subitamente recupera a razão e libera seu amado para partir. Romeu também prefere acreditar num futuro esperançoso e decide depositar confiança nas palavras de frei Lourenço. — Vá, amor, está ficando cada vez mais claro! — Ao contrário do nosso infortúnio, Julieta! — Senhora, minha senhora — diz a ama adentrando ines- peradamente no quarto de Julieta. — Sua mãe está vindo para cá! Seja prudente, cuidado! — Então, que pela minha janela entre o dia e saia a vida! — deseja ardentemente Julieta. Como na outra noite, a despedida dos amantes era sofrida e protelada. Julieta temia não receber notícias de Romeu. — Preciso saber de seus passos a cada hora, a cada minuto! 52 Quando nos encontrarmos novamente, já terei envelhecido, Romeu, porque num minuto há muitos dias! — Tenho certeza de que nos veremos muito brevemente, Julieta, e um dia ainda nos recordaremos destas dores de hoje como um passado muito remoto... Adeus! Descendo do balcão do quarto de Julieta de volta ao jardim, depois de uma noite de inesquecível amor, Romeu imortalizava em seus olhos o semblante triste da amada. Julieta, acompanhando Romeu com o olhar, sentia-se toma- da por maus pressentimentos, como se visse, desde o alto, um cadáver no fundo de um túmulo. — Ou minha visão me engana, ou você está muito pálido, Romeu — confessa Julieta. — Acredite-me, amor, os meus olhos também a vêem pá- lida. A dor sedenta bebe nosso sangue! Romeu vira-se de costas e, deixando Julieta para trás no bal- cão, salta o muro e desaparece. Escondendo-se de seu próprio mundo, de sua própria Verona, Romeu parte em direção a Mântua. Espantada por encontrar a filha em pé tão cedo e ainda chorando o que pensava ser a morte do primo Tebaldo, a senho- ra Capuleto tentava consolá-la: — Sei bem a dor que sente, minha filha. Chora a morte de seu primo e também o fato de estar vivo o infame que o matou. — Que infame, mãe? — Ora, esse infame Romeu! Julieta pensava com o coração, por isso a Romeu tudo per- doava. Sua mãe, ao contrário, chamava-o de traidor e ansiava por vingança. — Vou enviar alguém a Mântua, para onde certamente irá esse desterrado vagabundo, e mandarei que lhe façam tomar uma estranha bebida... Assim, muito brevemente estará em companhia de Tebaldo. Julieta preferia dissimular e, dizendo à mãe que a apoiava em suas intenções, queria dizer justamente o contrário. Como desejava juntar-se a seu amado o quanto antes... Não queria envenená-lo, mas sim amá-lo! Não queria vê-lo morto, mas sim abraçado a ela! Minha querida, não foi para falarmos de dores que vim... 53 Trago boas-novas! — interrompe a màe. Ainda bem que traz alguma alegria para este coração des- troçado! Quais são as notícias?— Julieta simula um ar de interesse. — Seu pai encontrou um meio de tirá-la da tristeza, um dia imprevisto de felicidade que nem você aguardava nem eu previa. — Que bom... E que dia é esse, minha mãe? — Na próxima quinta-feira, pela manhã, o galante, jovem, nobre e gentil-homem, o conde Páris, na igreja de São Pedro, terá a sorte de fazê-la uma feliz esposa! Assustada com tamanha pressa, Julieta evocava ao próprio São Pedro para negar à mãe o desejo do pai. — Avise meu pai que não me casarei com quem não conhe- ço! A casar com este Páris, prefiro casar-me com Romeu... A quem odeio, como bem sabe! — Pois muito bem, aí vem seu pai. Diga a ele pessoalmente o que acaba de me dizer! — Que é isso, minha menina? — diz o senhor Capuleto, que adentra no quarto da filha como quem invade o mundo interior de Julieta. — Parece uma goteira! Sempre em lágrimas e chorando torrentes! Em seu pequeno corpo, parece um barco, um oceano e um vento... Que olhos são esses? Está emocionada com as notícias que trouxe sua mãe? — interroga o velho, es- forçando-se para parecer carinhoso. — Não, homem... — antecipa-se sua esposa. — Ela disse que agradece, mas não aceita o pedido do conde. Imagine! Que- ria que esta tola se casasse com um túmulo! Irado, o velho Capuleto não podia acreditar que sua jovem e única filha não se sentisse orgulhosa e dignificada por casar- se com alguém como o conde Páris. — Se não for se casar nesta quinta-feira — ameaça — , eu a arrastarei até a igreja numa carreta! Fora da minha presença, carcaça doentia! Fora daqui, libertina! — Cale-se, meu marido! Ficou doido? — Pai, eu lhe peço de joelhos... — implora Julieta. — Enforque-se, criatura desobediente! Ouça o que digo: ou vai à igreja na quinta-feira ou jamais me olhe na cara! E não 54 abra a boca, pois meus dedos ardem! A minha única filha é minha verdadeira maldição! Saia da minha vista, ordinária! O senhor Capuleto estava realmente enlouquecido. Abala- va-o imensamente ver a filha renegar um homem de família principesca; acima de tudo, ver a filha frustrar um sonho seu. — Se não se casar, em minha casa nunca mais colocará seus pés! — sentencia, sem piedade. — Reflita bem, pois não estou brincando. Quinta-feira está próximo; ponha a mão no seu cora- ção e pense... Se quiser ser uma filha obediente, eu a entregarei a meu amigo; se não, consuma-se na fome e na miséria, morra no meio da rua! Por minha alma, nunca a reconhecerei e nada que me pertence jamais lhe pertencerá! Aviso: não voltarei atrás! Capuleto deixa as mulheres a sós e sai. Julieta implorava à sua mãe que a ajudasse ou então a deixasse sepultada com Tebaldo. A senhora Capuleto, porém, insensível ao pedido da filha, deixa-a sozinha com a ama. Sentindo-se absolutamente enfraquecida em seu sofrimento, desprovida de seu amor e de sua fé, Julieta suplica à ama que a ajude. — Romeu está banido — argumenta a ama — e aposto como nunca mais voltará para vê-la. Dessa forma, penso que o melhor remédio é conformar-se com o destino e casar-se com o nobre Páris. O conde é encantador e Romeu é um rústico! E mesmo que não fosse, considere seu primeiro marido morto, uma vez que não pode nem poderá tê-lo a seu lado... Julieta não podia acreditar nas palavras que ouvia. Ela se perguntava se a ama não tinha ao menos um pouco de coração... — Ama, agradeço seu consolo — diz Julieta, decidindo reagir por conta própria. — Vá dizer à minha mãe que estou aflita por haver contrariado meu pai. E que vou me confessar na cela de frei Lourenço e receber sua absolvição. — Que sábia decisão, minha querida. Vou correndo contar à sua mãe! — exclama a ama, saltitante, antes de sair. Julieta sentia-se completamente só. Todos contra ela, contra seus desejos, contra seu coração. Desesperada, nada mais alme- java neste mundo. Procuraria o frade e lhe pediria um remédio que decidisse entre sua própria vida e sua própria morte. 55 CAPÍTULO 18 A terça-feira amanhecia com ares ainda mais rubros. Até mesmo na abadia, onde o silêncio, a devoção e o resguardo eram previstos, a aflição arrombava portas. Na cela de frei Lourenço, o conde Páris exortava o frade a casá-lo com Julieta. — Quinta-feira, senhor? É muito próximo, é pouco tempo! — reclama o franciscano. — Essa é a vontade do senhor Capuleto, e não sou eu quem vai demovê-lo dessa pressa — explica o conde Páris, não escon- dendo um ar de satisfação. — Não me parece correto o encaminhamento. O que pensa Julieta a respeito? — Julieta? Como assim? — surpreende-se Páris. — Ora, se ignoramos os sentimentos da jovem dama... — justifica o frei, na realidade tentando ganhar tempo para resolver o terrível impasse, ou seja, casar Julieta estando ela casada com Romeu, o que seria um sacrilégio. — Julieta não pára de chorar a morte de Tebaldo — infor- ma Páris — , por isso não pudemos falar de amor. Esse é justa- mente o motivo da pressa: se Julieta permanecer imersa nessa dor, aquela casa se inundará em lágrimas. Sem saber como remediar a situação que se configurava, o frei se sente aliviado com a chegada inesperada de Julieta à sua cela. Surpresa com a presença de seu pretendente, Julieta disfar- çava sua ansiedade, procurando manter-se calmae sensata dian- te do conde. — Que agradável encontro, minha esposa! — Quem sabe, senhor, mas para que eu seja a sua esposa, teremos antes de nos casar — responde a jovem. — Não tenha dúvidas, minha querida, pois assim será na próxima quinta-feira — insiste Páris. — O que tiver de ser, será. — Verdade indiscutível — intervém o frei, cortando o inu- sitado colóquio. 56 — Veio confessar-se com o padre? — prossegue Páris. — Se eu lhe responder, estaria me confessando com o se- nhor e não com o padre. — Revele a ele o amor que sente por mim. — Da mesma forma, se agora lhe disser o que direi ao padre, estarei me confessando com o senhor e não com quem devo fazê-lo — explica Julieta, na realidade pensando em como poderia amar a quem nem mesmo conhecia. — Pobre menina, vê-se no seu belo rosto as lágrimas de sua dor — observa o conde. — Seria uma vitória das lágrimas tal fato, pois meu rosto já era bastante feio antes mesmo que elas se instalassem — rebate Julieta, insistindo em contrariar seu pretendente. — Não quis ofendê-la! — desculpa-se Páris. — Não me ofendeu, senhor. Eu só disse a verdade! Frei Lourenço presenciava aflito aquela tensa conversa. Por sorte, Julieta toma a iniciativa de lhe perguntar se deveria voltar à tarde. O padre, preferindo que a jovem dama ficasse, pede ao conde para deixá-los a sós. — Não importunarei este sagrado momento. Na próxima quinta-feira, meu amor, irei despertá-la bem cedinho... Adeus! — finaliza Páris ao despedir-se. — Feche a porta, santo padre. E me ajude, por favor! — suplica Julieta, agora sim deixando-se vencer pela agonia. Desesperançada, Julieta ajoelhava-se diante de frei Louren- ço, implorando socorro, uma réstia de esperança que fosse. Evo- cando a sabedoria de seu confessor, Julieta pedia-lhe que a au- xiliasse em sua determinação de dar cabo da própria vida. — Com este punhal, acabarei imediatamente com a minha alma! O senhor uniu a minha mão à de Romeu, mas Deus uniu os nossos corações. E antes que esta minha mão sele um novo contrato, prefiro usá-la em meu próprio peito! — Tenha paciência, minha filha. — Como paciência, padre? Dê-me, então, um conselho, ou, se não quiser me ver cravada neste punhal, dê-me um remédio que ponha fim a esta dor! 57 — Pare, filha! — exalta-se frei Lourenço, levando as mãos à cabeça, e estirando, em seguida, a sua longa barba branca. Rodando pela cela em passos pensativos, na tentativa de evitar um desenlace desesperado, o frei vislumbrava uma pos- sibilidade mais esperançosa, ainda que tresloucada. Antes que expusesse seu plano, queria saber de Julieta até onde iria sua anunciada coragem, pois, se mantinha a palavra de tirar a pró- pria vida, teria, seguramente, coragem para desenvolver sua estratégica ação. Com o intuito de evitar o casamento com o conde Páris, frei Lourenço propõe a Julieta um simulacro de morte. — Como assim, padre? Eu fingiria o meu próprio fim? — Mais que isso, minha filha: eu lhe daria um remédio que simularia a sua morte! — Para não casar-me com Páris, sou capaz de saltar do alto de uma torre, esconder-me entre serpentes, enterrar-me numa cova amortalhada com cadáveres, qualquer coisa! Diga-me o que fazer e não vacilarei nem terei medo, desde que tenha es- perança de viver ao lado do meu doce amor! Frei Lourenço, convencido, instrui Julieta detalhadamente. Ela deveria voltar para casa, mostrar-se alegre e dizer que con- sentia em casar-se com Páris. No dia seguinte, quarta-feira, quando a noite chegasse, Julieta deveria dispensar a ama e iso- lar-se em seu quarto. — Leve este frasco, filha. Quando estiver deitada, beba-o até a última gota! — Sim, senhor. Continue... O frei explica que, imediatamente após a ingestão do remé- dio, Julieta sentiria correr pelas veias um líquido gelado e entor- pecente, que faria com que nenhuma pulsação prosseguisse seu batimento. — Tudo cessará. Não sentirá calor nem qualquer hálito de vida. As faces perderão seu rosado e também os lábios se tor- narão cinza, como se estivesse desmaiada. As janelas de seus olhos se fecharão, como a morte encerra a vida. Por fim, os membros ficarão frios e rígidos, e sua aparência será de morta! 58 — Morta, padre? Estarei morta? — Calma, filha, calma. Escute-me com atenção... Tenha coragem! Julieta ficaria como se estivesse morta por um período de vinte e quatro horas, despertando, depois, como de um profundo sono. Dessa forma, na manhã de seu casamento, sua família a julgaria morta em seu leito e faria seu enterro no antigo túmulo dos Capuletos. Nesse meio tempo, antes que o efeito do remédio ces- sasse e Julieta acordasse, Romeu estaria recebendo, em Mântua, carta do frei instruindo-o a voltar a Verona para concluir o plano. — Juntos, ele e eu aguardaremos o seu despertar, a sua volta à vida. Nessa mesma noite, Romeu a levará a Mântua e vocês se verão finalmente livres! E agora eu lhe pergunto, filha: terá coragem para assim agir? — Claro, meu bom conselheiro! Dê-me logo o remédio! — Tome-o! E agora vá! Tenha sorte na sua resolução. Vou enviar imediatamente a Mântua um frade com minha carta para Romeu! — O meu amor é forte e sua força me guiará! Adeus, querido padre! — despede-se Julieta, esperançosa. CAPÍTULO 19 A casa dos Capuletos estava em polvorosa com os prepara- tivos para o casamento. Os criados acatavam aparvalhados as exigentes ordens de seus amos, demonstrando que a pressa ser- via como inimiga dos melhores arranjos. No momento em que a ama de Julieta anunciava a seu senhor que sua desobediente filha fora avistar-se com frei Lou- renço, a própria Julieta adentrava na sala, onde também se en- contrava sua mãe. — E então, minha filha, tem algo para nos dizer? — per- gunta o senhor Capuleto a Julieta. 60 — Por certo que tem — intromete-se a ama, antevendo boas-novas. — Não percebem como traz o semblante contente? — Estive com o meu confessor... — informa Julieta. — Disso já sabemos! — descarrega seu pai agressivamente. — Quero saber se aquele velho frade enfiou alguma sensatez nesta jovem cabeçuda! — O bom frei me ensinou a arrepender-me do pecado de desobedecer ao meu pai e desacatar suas ordens. Por isso, meu pai, eu me ajoelho a seus pés e lhe suplico perdão. Perdoai-me, pois de hoje em diante só me farei conduzir por seus desejos! — Estou encantado! Juro por Deus que toda nossa cidade louvará o nome desse santo frade! Mandem buscar o conde e digam a ele que Julieta o aguarda para ser sua obediente esposa! — Eu o encontrei na cela de frei Lourenço... — acrescenta Julieta. — Muito bem, muito bem... — grita exageradamente o senhor Capuleto, andando agitado pela sala. — Comuniquem ao nobre conde Páris que amanhã cedo será firmado o enlace ma- trimonial! — Mas amanhã é quarta-feira! — intervém a senhora Capuleto. — Exatamente! Resolvamos isto de uma vez por todas... Cumpram a minha palavra! — ordena o pai de Julieta, eufórico com o que pensava ser fruto dos bons conselhos do frei, resolvendo, para surpresa de todos, antecipar a cerimônia para o dia seguinte. Apreensiva, porém controlada, Julieta pede à ama que a acompanhe até seu quarto a fim de ajudá-la nos preparativos. Ao mesmo tempo, sua mãe protestava com o marido, alegando falta de tempo para os acertos de todos os detalhes, mas o velho Capuleto estava irredutível: — Deixe-me só! Trabalharei sem parar para que tudo ande bem! Se for necessário, não pregarei os olhos esta noite! Fique tranqüila, esposa, e vá ajudar nossa filha a embelezar-se... Irei agora mesmo, pessoalmente, pedir ao conde que aqui esteja bem cedo! Meu coração está maravilhosamente leve depois que essa pequena caprichosa voltou à razão! 61 CAPÍTULO 20 Mascarando seus verdadeiros sentimentos, Julieta procura- va desvencilhar-se de sua ama, pedindo a ela que a deixasse sozinha na noite da véspera de suas núpcias com o conde Páris. — Ama querida, você sabe bem o quanto estou mergulhada em falsidade e pecado. Preciso rezar esta noite, orar muito paraser perdoada... Rogo, portanto, que me deixe só! A mãe de Julieta, no entanto, também queria participar daquele momento que julgava tão especial e único na vida da filha. Julieta apressava-se em separar tudo o que fosse necessá- rio para a cerimônia do dia seguinte e pedia à mãe que a dei- xasse sozinha para melhor descansar. — Está bem, minha filha — concorda a senhora Capuleto. — Boa noite... Deite-se e descanse, pois está precisando. Adeus! Julieta não sabia ao certo quando as duas tornariam a se encontrar. A pressa descabida de seu pai fazia com que seus planos fossem antecipados. Traz para perto de si o frasco dado por frei Lourenço. Porém, na dúvida quanto à eficiência do remédio, coloca ao lado da cama outro instrumento que também poderia impedir seu casamento: um punhal. Os pensamentos vagavam atordoadamente na cabeça de Julieta. Ela cogitava a possibilidade de que o frasco contivesse um veneno mortal; pensava que talvez o padre preferisse vê-la morta por temor à desonra a que estaria submetido, caso viessem a saber que a casara em segredo com Romeu. Mas não, deveria acreditai* na- quele santo homem que sempre havia dado provas de querê-la bem. Outras terríveis suposições a perturbavam. E se ela acordas- se antes do tempo previsto? Ficaria asfixiada dentro da catacumba? Morreria antes da chegada de Romeu? Ou, pior que tudo, teria de conviver com os incontáveis espíritos de seus antepassados ali sepultados, dentre eles o próprio Tebaldo? — Não! — srita em sua cama Julieta. E. com o frasco nas mãos, anuncia: — Romeu, meu Romeu, já estou indo ao seu encontro! Bebo isto em seu nome! 62 CAPÍTULO 2 1 Durante a madrugada, o salão da casa da família Capuleto era sinônimo da mais completa confusão. Ninguém ainda havia descansado, nem mesmo o velho patriarca, que insistia em su- pervisionar os preparativos para a cerimônia. Os servidores cor- riam de um lado para o outro, carregando lenha, espetos, comida e tudo o que fosse necessário para bem receber os poucos con- vidados que a tempo haviam sido avisados das bodas. — E os músicos? — lembra o senhor Capuleto. — Esque- cemos de contratar os músicos! — Fique tranqüilo, meu esposo. O conde se comprometeu a trazê-los! — Muito bem... Mulheres, o dia vem chegando e creio que já é hora de acordar Julieta. Vá, ama, corra a chamá-la, e vista- a bem! Eu vou ao encontro de Páris; o noivo já deve estar vindo! Vá, ande depressa! Prestativa e bastante afoita por despertar sua pequena me- nina, a ama corre até os aposentos de Julieta. — Pobrezinha, dorme como um anjo! Vamos, cordeirinho, acorde, dorminhoca... — insiste a ama, tentando chamá-la, po- rém sem resultados. — Que diz, senhora noiva, nenhuma pala- vra? Falando sozinha e inutilmente, a ama aconselhava Julieta a aproveitar bem aquele sono pesado, pois o seu futuro marido não haveria de lhe dar descanso nos dias que se seguiriam. — Ora, nem se despiu? — surpreende-se a ama ao puxar- lhe a coberta e perceber que a sua senhora dormia vestida. — Que se passa, minha doce criatura?... Aiü Como está gelada! E pálida! Meu Deus, socorro!! Socorro, ela está morta!! — grita, horrorizada. — Que barulho é esse, ama? — pergunta a senhora Capuleto, entrando no quarto da filha. — Que dia infeliz, que horror! — repete a ama, chorando copiosamente. 63 — Pelo amor de Deus, o que aconteceu, ama? Veja com seus próprios olhos, senhora! — a ama aponta para o leito de Julieta. — Ai, meu Deus! Ai de mim, minha única filha, minha própria vida! Acorde, menina, reviva! Abra os olhos ou também morrerei! Socorro!! — exclama a senhora Capuleto, sentindo-se desfalecer. Atraído pela gritaria, sem no entanto entender o que se passava, o velho Capuleto entrava no quarto chamando pela filha: — Que vergonha! Tragam Julieta! O noivo dela já chegou! — Julieta está morta, senhor! Morta! — Deixem-me vê-la... Ai, meu Deus, está gelada! — cons- tata, incrédulo, o senhor Capuleto. Havia várias horas que a morte pousara sobre os lábios e sobre o corpo rígido de tão bela dama. Estendida placidamente sobre a cama, Julieta não parecia corresponder às lamentações que se faziam ouvir à sua volta. Os pais de Julieta, consternados, deixam a ama velando a pobre filha e dirigem-se ao salão, onde os esperavam frei Lou- renço e o conde Páris. — E então — indaga o padre — , a jovem noiva está pronta para se dirigir à igreja? — Pronta para ir — responde o velho Capuleto — , mas para nunca mais voltar! — O que aconteceu, senhor? — quer saber o noivo. — Oh, meu filho, na véspera de suas bodas a morte deitou- se com sua esposa. A morte a deflorou, a morte será meu genro, a morte será meu herdeiro... Com ela minha filha se casou! Agora, a morte também a quero eu! O conde encarnava a máscara da decepção, sonho desejado e frustrado. Os Capuletos choravam a perda do que tinham de mais valioso na vida. Apenas frei Lourenço parecia não imergir na dor que o rodeava: — Silêncio, por favor, e muita calma! Não temos mais esta bela criatura; quem a possui agora são os céus, e a esta vontade 64 devemos respeitar. Não se cura a dor com o remédio da deso- rientação; por isso, se não souberam bem amar a pobre Julieta, não enlouqueçam neste momento em que está morta! Acatando as palavras do frade, o senhor Capuleto ordena que o que fora anteriormente destinado para o festim das bodas fosse agora desviado para um banquete funerário, e que toda a alegria se transformasse em melancólico luto. Frei Lourenço dita, então, a cada um dos presentes, suas respectivas incumbências, orientando passo a passo o funeral. — Cada um deve estar preparado para acompanhar este belo corpo ao seu sepulcro. O céu com certeza nos pune por alguma maldade que fizemos. Não devemos irritá-lo, pois esta- ríamos indo contra a vontade divina! CAPÍTULO 22 Encoberto pela tristeza do exílio em Mântua, Romeu aguar- dava notícias de Julieta, isolado na pequena cidade a poucas horas ao sul de Verona. Melancólico em seu desterro do mundo e do amor, exílio físico e espiritual, Romeu dormia atirado numa calçada do cen- tro da cidade. Seus sonhos traziam estranhos presságios: ele se via morto enquanto Julieta recobria de beijos seu corpo sem vida; cálidos beijos que o despertavam de sua pena, trazendo-o de volta à vida e transformando-o num poderoso imperador. Mal sabia Romeu do que se passava em Verona enquanto sonhava sob o sol escaldante. Seu fiel criado Baltasar, contudo, ao saber da notícia da morte de Julieta, saíra em disparada ao seu encontro, totalmente ignorante quanto aos planos de frei Lourenço. Assim que o vê, Romeu indaga por notícias: — O que traz, Baltasar? Tem carta do frade? — Carta? Não, senhor, não tenho nenhuma carta para que leia! 65 — Que tem para me contar, então? Meu pai não está bem? — pergunta Romeu. Seu pai?! Não, senhor, o senhor Montecchio goza de boa saúde! — Tem notícias da minha Julieta, então? Ela está bem, Baltasar? — Creio que melhor do que nós — Baltasar tenta explicar, meio embaraçado. — Ela não terá mais desgostos nem doloro- sos temores... O seu belo corpo está definitivamente adormecido no sepulcro dos Capuletos e sua parte imortal vive agora entre os anjos! — Não é possível, Baltasar! — exclama incrédulo Romeu. — Devem tê-lo enganado! Não seria um plano do frade? — Infelizmente não, meu senhor. Eu mesmo a vi ser enterrada na tumba da família e parti imediatamente para avisá-lo. Perdoe-me por ser o portador de tão triste notícia! — lamenta Baltasar. — Que tragédia, meu Deus! — vocifera Romeu, erguendo os braços aos céus. — Que se faça noite sobre o meu coração! Será possível, minhas estrelas? Como poderei seguir acreditando em seus poderes? Completamente desiludido e bastante perturbado com a notícia, Romeu pergunta mais uma vez se Baltasar não trazia alguma carta de frei Lourenço. Diante da negativa, pede a seu criado para lhe arranjar cavalos, a fim de partir naquela mesma noite para Verona. — Ah, traga-me também tintae papel... Contrariado, porém prestativo, Baltasar intui que a galope estaria vindo mais uma tragédia. Unir-se a Julieta em seu descanso eterno passava a ser o único pensamento de Romeu. Para que seu desejo se realizasse, no entanto, teria de buscar os meios adequados que tranqüilizas- sem o coração de um amante desesperado. Lembra-se, então, de um boticário que já lhe houvera oferecido um veneno poderoso. O farmacêutico era um tipo maltrapilho, de aspecto tétrico, porém com a sabedoria, expressa nos olhos e nas mãos, de quem conhecia profundamente as plantas medicinais. Nas estantes do 66 velho distinguia-se um amontoado de caixas vazias, potes de terra esverdeada, sementes mofadas, restos de barbantes e ve- lhos pàes de rosas espalhados para bem impressionar. Apesar de saber que em Mântua a venda de venenos era punida com a morte, Romeu acreditava que o boticário não recusaria o seu pedido; afinal, era um estrangeiro e tinha dinheiro. — O que deseja, meu senhor? De que necessita para curar esse semblante de aflição e morte, de amor e desejo? — Necessito conhecer o eterno repouso para os que amam perdidamente... — suplica Romeu. — Venha aqui, homem, aproxime-se! — Vejo que boa coisa não quer de mim... — Sei que é pobre, por isso tome quarenta ducados, mas em troca dê-me uma dose de veneno, uma substância tão forte que, correndo pelas veias, faça a alma sair do corpo tão violen- tamente quanto a pólvora se precipita para fora de um canhão! — Possuo uma droga exatamente como essa que me pede, mas não posso vendê-la. As leis... — Conheço as leis, caro senhor. No entanto, conheço tam- bém a face de um homem esfomeado. O desprezo e a pobreza pendem de seus ombros; o mundo não é seu amigo, nem tampouco suas leis! — Não sei, estrangeiro... A minha pobreza consente, mas não a minha vontade! — retruca o boticário. — Pois estou pagando pela sua miséria... — insiste Romeu. — Então tome! Coloque estes grãos no líquido que quiser... Mesmo que tenha a força de vinte homens, cairá morto antes que possa dar um suspiro! — informa o farmacêutico com convicção. — Aqui tem o seu ouro, este sim, o pior dos venenos para as almas dos homens, que mais crimes têm cometido neste mun- do sujo do que estas pobres drogas misturadas que não o deixam vender. Sou eu quem está lhe dando um veneno, não o senhor a mim! Adeus... Compre alimentos e engorde um pouco as suas carnes. Este frasco me acompanhará, como um amigo, até o túmulo de Julieta. Lá, dele me fartarei! — conclui, desesperado, Romeu. 67 CAPÍTULO 23 No sombrio mosteiro de Verona, frei Lourenço aguardava, enormemente preocupado, o retomo de um irmão franciscano, portador de sua carta a Romeu. Calculara as horas com precisão e previa, para pouco depois da meia-noite, o despertar de Julieta. Como o horário se aproximava, o frade ansiava a chegada de Romeu para juntos irem ao cemitério. — Santo frade! Irmão! Irmão! — grita esbaforido frei João, a quem frei Lourenço havia incumbido de encontrar-se com Romeu. — Bem-vindo, caro irmão. Já estava aflito aguardando no- ticias suas... Como foi em Mântua? O que disse Romeu? Ele veio consigo ou mandou alguma mensagem escrita? Se for as- sim, dê-me a carta! — Não pude chegar a Mântua! — informa frei João, para espanto de frei Lourenço. — Não lhe deixaram entrar na cidade? — Não, senhor, não pude nem mesmo sair de Verona! — ele esclarece. — Como assim, irmão? Explique-se melhor... O que acon- teceu? — Fui em busca de um irmão descalço, que visitava pes- soas enfermas, para me acompanhar até Mântua. Mas os guardas da cidade, pensando que viéssemos de uma casa onde reinava a peste infecciosa, todas as portas nos fecharam, não deixando sequer que saíssemos de Verona! — Quem levou, então, minha carta para Romeu? — inter- rompe aflito o velho franciscano. — Ninguém, irmão! Não pude enviá-la nem achar um men- sageiro, todos temerosos de que estivéssemos infectados! Aqui está a carta! — diz frei João, devolvendo-lhe o papel. — Por Deus... O conteúdo desta mensagem era de grave importância! Seu atraso pode trazer consequências desastrosas! — prevê frei Lourenço. — Frei João, arranje-me uma barra de ferro! 68 — Vou buscá-la agora mesmo, irmão! Como faltava pouco tempo para a bela Julieta despertar de sono tão precisamente calculado, o monge pensava em resgatar a corajosa dama e escondê-la em sua cela até que pudesse avisar Romeu que sua prometida esposa o aguardava com vida. CAPÍTULO 24 No cemitério de Verona, a poucos metros do mausoléu dos Capuletos, Páris e um pajem acercavam-se silenciosos. O conde pedia a seu acompanhante que lhe assobiasse caso aparecesse algum estranho. Segurando um ramalhete de flores numa mão e uma tocha na outra, o nobre dirige-se ao túmulo onde jazia enterrada sua quase esposa. Páris cobre com flores a sepultura de Julieta, a quem ofe- rece também o seu amargo e sincero pranto de tristeza. Nesse instante, escuta um assobio que o avisava da aproximação de alguém. Ao avistar a luz de uma tocha, ele se esconde. — Passe-me o ferro, Baltasar, e também a picareta... — pede Romeu a seu criado. — Espere, segure esta carta e não deixe de entregá-la a meu pai ao amanhecer. Apoiando a tocha no alto de uma pedra a fim de iluminar a entrada do túmulo, Romeu faz uma advertência a Baltasar: — Agora, afaste-se, meu bondoso ajudante... Não me inter- rompa, não importa o que vir ou escutar! Descerei a este leito de morte para rever o rosto de minha amada. Agora, deixe-me só e não se aproxime de mim, caso contrário nem sei do que serei capaz! — Pode deixar, senhor. Estou indo embora e não o incomo- darei — diz o criado, respeitando a vontade de seu amo. Ao despedir-se, Romeu presenteia Baltasar com uma pe- quena bolsa cheia de moedas de ouro. Baltasar, por precaução, oculta-se atrás de um outro jazigo, ali permanecendo a vigiar, enquanto Romeu abria a sepultura. 69 Atento ao que se passava, o conde Páris, acreditando estar Romeu cometendo uma torpe profanação de corpos amortalha- dos, interrompe-o com violentos brados: Banido e orgulhoso Montecchio, assassino de Tebaldo, o primo do meu amor! Miserável condenado, considere-se pre- so! Venha comigo, pois deve morrer! — Exatamente para morrer é que aqui me encontro, cava- lheiro — contesta Romeu, sem que consiga reconhecer quem o aborda. — Não provoque um amante desesperado! Fuja daqui e me deixe em paz! — É o que pensa! — repudia Páris. — Não acrescente um novo pecado sobre a minha cabeça! Vim armado contra mim, por isso lhe peço, pelos céus, não provoque meu furor! Parta logo e diga para o futuro que um louco o obrigou a fugir! r— E um traidor, Romeu! Eu o desafio! — Defenda-se, então! Na escuridão da noite, Romeu e Páris duelam. Suas espadas cintilavam em meio ao fogo das tochas que precariamente ilu- minavam seus caminhos. O pajem do conde, que a tudo assistia a distância, corre para chamar a guarda, mas já era tarde. Seu amo cai ao chão, atingido por um golpe certeiro do irado e apaixonado Romeu. — Por favor, senhor, tenha compaixão... Abra a tumba da família Capuleto e coloque-me ao lado de Julieta! — são as últimas palavras do nobre Páris. Só então Romeu examina o rosto do homem que acabara de matar, reconhecendo o parente do príncipe e de seu amigo Mercúcio. O nome do conde Páris traz a lembrança do comen- tário feito por Baltasar quando para ali se dirigiam, de que ele era o homem com quem Julieta deveria se casar. Concordando que ao conde também lhe fora imposta enorme desgraça, Romeu o arrasta pelos braços, levando-o até o salão interno do mauso- léu, conferindo-lhe, assim, seu último desejo. Ao adentrar na sepultura, porém, Romeu logo avista a sua Julieta. Atira-se sobre o corpo de sua amada ainda tão bela, 70 desesperado e ao mesmo tempo alegre por tê-la, enfim, em seus braços. Ao perceber Tebaldo, coberto por mortalha ensangüen- tada, estirado a poucos palmos da prima, pede perdão por lhe haver arrancado tão abruptamentesua jovem vida. — Ai, Julieta minha! Seus lábios ainda guardam a cor de todo o amor que possuía! Permanecerei a seu lado para sempre, sem jamais sair desta morada eterna, desta noite sombria coberta de misteriosas estrelas! Olhando pela última vez para sua amada, Romeu lhe dedica o derradeiro abraço. Em seguida, com o frasco nas mãos, entre- ga-se ao destino. — Por minha querida Julieta, eu o beijo etemamente! — proclama antes de beber o veneno e selar com um beijo o pacto infinito com a morte devoradora. Conforme a promessa do fiel boticário, a droga mostra-se eficaz. E, cumprindo o seu desejo mais profundo, Romeu des- pede-se da vida com um beijo, debruçado ao lado da bem-amada Julieta. CAPÍTULO 25 — Que São Francisco me proteja! — clama frei Lourenço ao entrar no cemitério, trazendo uma lanterna, uma alavanca e uma pá. — Quem é você, homem? Que faz aí no chão como se fosse uma alma rastejante?! — É o senhor, frei Lourenço? Ai, meu santo padre, pensei que fosse uma alma do outro mundo! — responde Baltasar. — Estou velho, mas nem tanto! Você não é o criado de Romeu? — pergunta o frei. — Sim, senhor... Baltasar é meu nome, ao seu dispor! — Deixe disso, homem, levante-se! Onde está Romeu? Cheguei tarde? Aquela luz ali, que os vermes e as vazias cavei- ras ilumina, não arde no mausoléu dos Capuletos? 71 — Exatamente, meu padre. E lá está meu amo de quem tanto gosta! — Há quanto tempo Romeu está lá? — quer saber o frade. — Mais de meia hora... — Então, venha comigo à cripta! — solicita o velho frei, antevendo alguma desgraça. — Não posso, senhor. Assim ordenou meu amo e a ele dei minha palavra. — Não me importa... Irei sozinho! — Espere, padre, preciso lhe contar... — O quê? Diga logo! — Creio que meu amo se bateu com outro senhor, que parece haver tombado morto! — Ai, meu Deus... Mais um! — exclama nervoso o ffanciscano. Temeroso de um funesto desenlace, frei Lourenço avança com rapidez ao túmulo da família Capuleto. No umbral de en- trada, o monge percebe duas espadas, uma delas ensangüentada, manchando a pedra do piso. Penetrando no túmulo, encontra Romeu caído ao lado de Julieta, em sua palidez de morte, e Páris atirado no chão, todo coberto de sangue. — Frade... Oh, frade, o senhor está aqui? — diz Julieta, despertando do profundo sono, simulacro de morte que se cum- prira conforme previsto pelo frei. — Julieta, minha filha! — saúda o padre, cauteloso. — Frade, onde está Romeu? — pergunta Julieta, ainda entorpecida. — Ouço barulho, Julieta. Saiamos deste antro de morte, contágio e sonho monstruoso! Uma vontade superior às nossas frustrou nossos planos! Venha, saiamos daqui! — Romeu! Onde está Romeu, frei? — Julieta insiste deses- perada. — Seu marido jaz morto a seu lado, jovem querida... E Páris, ali no chão, também! — Oh, não... Meu Romeu!! O que será de mim? — Venha comigo, filha, e eu lhe entregarei a uma comu- nidade de santas religiosas. 72 iia&xrx-* — Não, padre... Por quê? Por quê? — Não perca tempo com perguntas... Há movimento lá fora! Vamos, corajosa menina, acompanhe-me! — insiste o frei, bastante aflito com a aproximação da guarda. Vá, padre, eu não sairei daqui! — avisa Julieta, fiel aos seus sentimentos. — Não me atrevo a permanecer mais tempo! — confessa frei Lourenço, antes de abandonar Julieta com Romeu morto em seus braços, Páris caído de um lado e Tebaldo envolto em mor- talha de sangue. Desolada no meio de tão triste cenário e envolvida pelos braços inertes do amado, Julieta encontra o pequeno frasco de veneno apertado na palma da mão de Romeu. Reclama, chorosa, da ingratidão de seu amor por não lhe haver reservado uma única gota. Beija-lhe então os lábios à procura de uma réstia de líquido que a entorpecesse defmitivamente e pudesse aliviá-la de seu sofrimento. — Seus lábios ainda estão quentes, meu amor! — sussurra- lhe docemente, embalando o corpo do amado. O rito de amor e dor é, porém, interrompido por uma voz que se anunciava à entrada do mausoléu. Julieta intui que deve- ria apressar-se em consumar sua vontade e, sendo assim, arre- bata o punhal de Romeu. — Esta é a sua bainha, punhal amigo! Repouse cúmplice dentro de mim e deixe-me morrer! — diz Julieta, antes de cravar o punhal no peito e curvar-se imóvel sobre o corpo de Romeu, selando com seu gesto a eternidade de tão imenso quanto infeliz amor. 74 CAPÍTULO 26 O pajem do conde Páris trazia a guarda da cidade até o cemitério à procura de Romeu Montecchio. Penetrando pelos soturnos corredores daquele dormitório de almas,- no entanto, tudo o que encontravam eram rastros de sangue, e que levavam a um só lugar: o mausoléu da família Capuleto. — Santo Deus! — espanta-se um guarda ao encontrar, ain- da sangrando, o corpo da jovem Julieta. — A menina já havia sido sepultada... Chamem o príncipe! Corram à casa do senhor Capuleto! Acordem os Montecchios! Que espetáculo desolador! Outros guardas conseguem flagrar Baltasar, oculto atrás de uma tumba, e o aprisionam até a chegada do príncipe. Frei Lourenço também é encontrado e trazido para o cenário da desgraça. — O que faz este frade aqui? Ele treme, suspira e chora numa atitude muito suspeita! Detenham-no também! — ordena um dos guardas. O príncipe Escalo chega logo em seguida, com seu inseparável séquito a protegê-lo. — Espero que tenham bons motivos para despertar-me tão / cedo! Quem vem ali? E o velho Capuleto e sua esposa? Santo Deus, o que houve desta vez? — questiona o príncipe. — Meu soberano príncipe — anuncia um dos guardas — , aqui jaz o conde Páris assassinado! Romeu Montecchio também está morto! E Julieta Capuleto, já sepultada, acaba de morrer pela segunda vez! — Não diga tolices, homem! Quem pode explicar como ocorreu esta horrível matança? À presença do príncipe são então trazidos frei Lourenço e Baltasar, ambos munidos de suas ferramentas. O velho Capuleto e sua esposa, espantados ao encontrar a filha, que já havia sido enterrada, sangrando, percebem com surpresa e pesar que o punhal cravado em seu peito vinha da bainha vazia do cinto de Romeu. 75 Aproxime-se, velho Montecchio! — diz o príncipe, avis- tando o pai de Romeu. Prepare-se, senhor, para encontrar o corpo tombado de seu filho! — É muito grande o vulto desta desgraça, meu príncipe... lamenta Montecchio, consternado. — A minha esposa acaba de falecer esta noite, tamanho o desgosto pelo desterro de nosso filho! E, agora, como pode ser possível essa jovem criatura precipitar-se na morte antes mesmo deste velho pai?! O príncipe, pedindo silêncio a todos os presentes, convoca os envolvidos a esclarecerem o ocorrido. Frei Lourenço toma primeiro a palavra, anunciando-se como o principal culpado da- quela horrível carnificina. Declarando-se condenado e ao mes- mo tempo absolvido, promete relatar os fatos com fidelidade. — Romeu, aqui sem vida, era esposo desta jovem, Julieta, que, aqui também morta, era fiel esposa deste rapaz. Eu os casei, secretamente, pouco antes de morrerem Mercúcio e Tebaldo, cuja morte prematura motivou o banimento de Romeu, por quem Julieta sofria, e não por seu primo, como todos julgavam. Contra a vontade de Julieta, seu pai prometeu casá-la com o conde Páris. Desesperada, a jovem implorou-me, então, que encontrasse um meio de livrá-la deste segundo casamento, ou, caso contrário, se mataria. Comovido pelo sofrimento dos aman- tes, dei-lhe uma poção soporífera que agiu como o esperado, produzindo nela aparência de morte. Enquanto isso, escrevi a Romeu, pedindo-lhe que viesse ao meu encontro, nesta horrível noite, ajudar-me a despertar Julieta de sua falsa tumba, assim que cessasse o efeito da poção. Porém, o portador de minha carta, frei João, não conseguiu chegar a Mântua e trouxe de volta a minha mensagem. Assim, sozinho, decidi tirar Julieta da cripta na hora prevista, com a intenção de mantê-la escondida em minha cela até que pudesse avisar Romeu. Ocorre que, ao chegar aqui poucos minutos antes de Julieta despertar,encontrei mortos o nobre Páris e o fiel Romeu. Quando a menina acordou, supliquei-lhe que saísse comigo e suportasse com paciência mais este golpe do destino; mas, naquele momento, um inesperado rumor me obrigou a fugir do mausoléu. Julieta, desesperada, 76 negou-se a me seguir e, segundo deduzo agora, atentou contra a própria vida. Eis tudo o que sei. Quanto ao casamento, a ama estava avisada. Se alguma coisa saiu errada por minha culpa, meu príncipe, sacrifique minha vida, já caduca, sob o peso da mais severa lei. O príncipe agradece ao frade, acrescentando que sempre o considerara um santo homem. Em seguida, chama o criado de Romeu para que enriquecesse o depoimento doloroso de frei Lourenço. — Fui a Mântua avisar meu amo sobre a morte de Julieta — conta Baltasar. — De lá, partimos de volta para Verona, direto para este cemitério. O meu senhor me recomendou que entregasse esta carta para seu pai, o senhor Montecchio, e, en- trando no túmulo, ameaçou-me de morte caso não o deixasse só. O príncipe pede-lhe a carta e ordena que se apresente o pajem do conde Páris. — Meu patrão — conta o dedicado homem — veio depo- sitar flores na tumba de sua dama. Pediu que o esperasse a distância. Chegou, então, um homem com uma tocha e uma barra para abrir a sepultura. Pouco depois, meu amo tirou a espada contra ele e eu saí correndo para chamar a guarda. Quan- do voltei, estavam todos mortos! Ao ler a carta que Romeu dirigira a seu pai, o príncipe tem a comprovação de serem verdadeiras as palavras de frei Louren- ço. A carta narrava os incidentes de tais amores, a notícia da morte de Julieta e acrescentava ainda o modo como Romeu adquirira, de um pobre boticário, o veneno que trouxera para morrer e repousar ao lado de sua esposa. — Onde estão estes inimigos? Capuleto! Montecchio! Po- dem ver o flagelo causado pelo ódio cultivado por suas famí- lias? Este foi o meio encontrado pelos céus para, por intermé- dio do amor, destruir todas as suas alegrias! E, como se já não bastasse, fez-me perder dois queridos parentes! Todos fomos punidos! Constrangido e submerso na mais profunda dor, o velho Capuleto estende sua mão em direção ao velho Montecchio. 77 — Montecchio, meu irmão, dê-me sua mão, pois este é o r dote de minha filha Julieta... E tudo o que posso lhe pedir! — Capuleto, meu caro, talvez eu possa lhe oferecer mais: mandarei levantar uma estátua em ouro puro à sempre fiel Julieta, sua filha. Assim, Verona nunca mais se esquecerá de sua alma! — Igualmente rica será a estátua de Romeu, seu filho, junto de sua dama, pobres vítimas de nossa inimizade! Após ouvir as palavras arrependidas e conciliatórias de Montecchio e Capuleto, o príncipe pede que todos se recolham a fim de refletirem mais demoradamente sobre os infelizes acon- tecimentos daquela noite. — O sol não mostrará seu rosto por causa do nosso luto. Alguns serão por mim perdoados e outros, punidos, pois nunca houve história mais triste do que esta de Romeu e Julieta. 78 Quem é Leonardo Chianca? Nascido em São Paulo, em 1960, Leonardo es- creve textos de ficção para crianças, jovens e adultos. Dentre os títulos infantis, destacam-se O menino e o pássaro (Scipione, 1992), seu primeiro livro, e Jonas e o mundo secreto das tartarugas (RHJ). Dos livros juvenis, publicou em parceria, também pela Scipione, o romance Nosso filme ; pela Atual publicou Tia Marita, escrevi um livro /, e participou de dois volu- mes da Série Vínculos, Irmão mais velho, irmão mais novo e Tio e sobrinho. Escreveu ainda obras t r paradidáticas de Estudos Sociais (Atica) e fez tradu- ções do espanhol. Executou trabalhos diversos como roteirista de audiovisual, rádio, vídeo e cinema, e atu- almente exerce a função de editor assistente. Na opinião de Leonardo “o ofício de escrever requer mais e mais maturidade, e o desafio de adaptar um mito da literatura universal como Shakespeare é um passo adiante num caminho que ainda está no início. A história de Romeu e Julieta nos põe em contato com as possibilidades infinitas de um amor que nos arrebata o coração. Nesse sentido, ela se parece muito com os desencontros dos nossos primei- ros amores. Mas, em lugar de aceitar a tragédia, é necessário sobreviver. E se amar melhor pela longa trilha de nossas curtas vidas’’. 79 DISTRIBUIDORES ACRE RIO BRANCO Livrarias Paim • R. Rio Grande do Sul, 331 • Centro CEP 69903-420 - Cx. Postal 441 Tels.: (0681* 224-3432/224-8972/224 3065 Fax (068) 224-7528 ALAGOAS MACEIÓ H. C. Distribuição de Livros Didáticos Ltda. R. Dr. Mizael Domingues, 46 Centro -CEP 57020-600 Tel : (082)* 223-3466 - Fax (0821* 223-4039 AMAZONAS MANAUS Livraria Concorde R Henrique Martins, 453 Centro - CEP 69010-010 Tels : (0921* 633-3133/633-3209/ 236-1094 - Fax (092) 233-6837 BAHIA SALVADOR Editora Scipione R da Independência, 21/13 - Nazaré CEP 40040-340 - Tel.: (071)* 321-4225 Fax 1071)321-3759 CEARA FORTALEZA Distrib. de Livros Marques Soares Ltda. Vendas Av. 13 de Maio, 2072 -Loja 07 CEP 60040-531 - Tel.: (085)' 281-6551 Telefax: 10851*281-6551 DISTRITO FEDERAL BRASÍLIA Centauro Distr. de Livros - SIG - Quadra 3 - Bloco 8 Loja 59 - Z. 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Álvares Maciel, 31 Santa Efigènia CEP 30150-250 • Tel.: (0311* 241-3662 Fax (031)241-1113 JUIZ DE FORA MC Distr. de Livros Ltda. - R. Antonio Dias, 486 Centro CEP 36010-370 -Tel : (032)* 215-7861 Fax (032) 216-1641 UBERLÂNDIA Livraria Henriques Ltda. - Av. Cipriano Del Fávero, 921 - Centro CEP 38400-048 - Cx. Postal 228 Tels.: (0341* 236-9253/236-2556/236-4074 Fax (034) 236-4074 VARGINHA Sigma Distr. de Livros Ltda Av Sáo José, 445 • Centro CEP37002-130- TelJFax: (035)* 222-2532 PARA BELÉM Livraria Jinkings - R. dos Tamoios, 1592 Batista Campos CEP 66025-540 -Tels : (091)* 241-8666/241-7785 Fax (091) 241-1299 Casa do Professor R. dos Mundurucus, 1567 - Batista Campos CEP 66025-540 - Tel.: (0911* 241-8666 PARAÍBA JOÁO PESSOA Polly Distr. de Livros Ltda. Av. dos Tabajaras, 1086 • Centro CEP 58013-270 - TelTFax: (0831*221-4312 Casa do Professor: (083)* 221-9791 PARANÁ CURITIBA Livrarias Curitiba Ltda. - Av. Marechal Floriano Peixoto, 1742-Rebouças CEP 80230-1 10 - Cx. Postal 2856 Tel: (041)* 322-5455 Fax (041) 232-5511 LONDRINA Distr. Acadêmica de Livros Ltda. R. Porto Alegre, 653 - Centro CEP86020-110 - Tel.: (043)* 330-7575 Fax (043) 321-1851 MARINGÁ - Casa do Professor R. Basílio Sattchuck, 356 sala 1 - Zona 1 CEP 87013-190 - Tel.: (0441* 222-3351 PERNAMBUCO RECIFE Editora Scipione Av. Visconde de Suassuna, 634 - Santo Amaro CEP 50050-540- Tel,: (081)* 421-6026 Fax (081) 231-7287 PIAUÍ TERESINA Livraria Corisco - R. Álvaro Mendes, 1310 Centro -CEP 64000-060 Tel : (086)* 221-4845 Fax (086)221-3717 Casa do Professor R. Quintino Bocaiuva, 260 - Centro CEP 64000860 - Tel.: (086)* 222-2617 RIO DE JANEIRO CAMPOS DOS GOITACAZES Casa do Professor Av. Dr. Felipe Uebe, 371 - Parque Califórnia CEP 28013-140 - TeIJFax: (02471* 22-4386 RIO DE JANEIRO Editora Scipione R. Teodoro da Silva, 1004 - Vila Isabel CEP 20560-001 - Tel.: (021)* 577-1444 Fax (021) 577-6664RIO GRANDE DO NORTE MOSSORÓ - Casa do Professor R. José de Alencar, 74 - Centro CEP 59600-000 - Tel.: (084)* 321-7297 NATAL DPL • Av Rio Branco, 825 - Cidade Alta CEP 59025-003 - Tels.: (084)* 212-2228/212-1093/ 212-2012 - Fax (084) 221-4851 RtO GRANDE DO SUL PORTOALEGRE Distr de Lhros Nascimento Ltda Av Maranháo, 251 - Sáo Geraldo CEP 90230-041 - Tel.: (0511* 337-6004 RONDÔNIA PORTO VELHO Loja do Livro - Av. Rogério Weber, 1987 - Centro CEP 78916-050 - Cx. Postal 893 Tels.: (069)* 223-2130/223-2455/223-2295 Fax (069) 223-2130 SANTA CATARINA FLORIANÓPOLIS Livrarias Catarinense Vendas R Fúlvio Aducci, 416 • Estreito CEP 88075-000 - Cx. Postal 795 Tel : (048)* 248-6766- Fax (0481 244-6305 Divulgaçáo R. Conselheiro Mafra. 421 - Centro CEP 88010-101 - Tel.: (048)* 248-6766 SÃO PAULO ARARAQUARA - Casa do Professor R. Voluntários da Pátria, 761 • Sáo José CEP 14800-350 - Tel.: (0162)* 22-3781 BAURU Sem Limites - R. 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Fagundes, 121 - Liberdade CEP 01 508-030 -Tel.: (01 D* 2428411 SERGIPE ARACAJU - Casa do Professor R Dom José Thomaz, 551 - Sáo José CEP 49015-090 - Tel.: (079)* 21 1-7510 Fax (079)224-1309 * Código DOO BOSTON PIIRI IO l IRRARV 3 9999 04184 422 4 I - * • . ‘ * K . c % >> u*r* ; DEMCO S E R REENCONTRO A Série Reencontro oferece aos lei- tores os maiores clássicos da literatura universal, recontados por escritores de capacidade e talento. A fim de atender às diferentes áreas de interesse, os livros da Série Reencon- tro foram divididos em quatro blocos temáticos: aventura, mistério, humor e romance. Cada volume apresenta uma ficha de leitura que auxilia o trabalho de análise literária. Acompanha a série um Roteiro inter- disciplinar de leitura e atividades con- tendo boas contextualizações históricas e literárias, além de sugestões de filmes de interesse. SBN 85-262-3133-2 editora scipione 788526 231337 fBítWforca. — E que se mexem comigo... — Então tome cuidado, Sansão, para não se irritar tão fa- cilmente. — Mas se até um cachorro da família dos Montecchios me deixa irritado, Gregório! — Se você ficar irritado, vai é sair correndo, isso sim. — De jeito nenhum... Cachorro, homem ou mulher, qual- quer um que seja, se for Montecchio, eu o enfrentarei. — Que nada, Sansão. A pendência é entre os nossos amos e entre nós, que somos seus servidores. — Como assim? — Ora, Sansão... Nossos amos duelam entre si, e nós duelamos com os servidores do inimigo. 5 — Por isso mesmo, Gregório... Serei tirano e cruel com todos os que vier a enfrentar, sejam homens ou mulheres! Criados do senhor Capuleto, Sansão e Gregório já estavam com os ânimos acalorados apesar do sol baixo do amanhecer. Fiéis ao seu senhor, anteviam, logo adiante, a grande oportuni- dade de demonstrar suas iras. — Vamos, Sansào, prepare suas armas que aí vêm dois criados da casa dos Montecchios. — Minha espada já está nua, Gregório. Se quiser provocá- los, vá em frente que eu guardo suas costas. — Como assim? Virando-se e saindo em disparada? — ironiza Gregório. — Não tenha medo de mim! — Ora essa, Sansão! E por que eu o temeria? r— E melhor ficarmos com a lei do nosso lado... Que eles comecem! — Vou atiçá-los... Em nome da rivalidade entre as duas famílias, os criados de Capuleto começavam a atormentar Abraão e Baltasar, criados do senhor Montecchio. — Os senhores estão nos provocando? — indaga Abraão. — Não — responde Sansão, irônico. — Está procurando briga, senhor? — insiste Abraão. — Por quê, o senhor está querendo brigar? — devolve Gregório. — Eu, brigar? Absolutamente! — Se está procurando briga, senhor, estou às suas ordens persiste Gregório. — Sirvo a um amo tão bom quanto o seu. — Mas não melhor que o meu — instiga Abraão. — Está bem, senhor — amansa Sansào. Mas Gregório cochicha para o parceiro: — Diz que nosso amo é melhor que o dele, Sansão — combina ao avistar Benvólio Montecchio. — O sobrinho do senhor Montecchio vem vindo... — O nosso amo é melhor que o seu, senhor! — Está mentindo! — enerva-se Abraão. 6 — Se for homem, puxe a espada! — desafia Sansão e, viran- do-se para Gregório, brada: — Não se esqueça de me resguardar! E começam a lutar. Representando o ódio das duas casas, uns em nome dos Capuletos e outros em nome dos Montecchios, os criados reavivavam a antiga inimizade entre duas das mais dignas famílias de Verona. — Parem com isso, seus loucos! Guardem suas espadas! Vocês não sabem o que estão fazendo! — intervém Benvólio Montecchio, tentando apartar a luta. No entanto, para completar e equilibrar o quadro de discór- dia e enfrentamento, Tebaldo Capuleto, sobrinho do patriarca da família inimiga, aparece e também se intromete: — Como pode desembainhar a espada contra esses míseros servidores?! Aqui, Benvólio! Venha encarar a sua morte! — Eu só queria separar estes homens. Guarde a espada, Tebaldo, e ajude-me a manter a paz! — Como pode falar em paz com a espada nas mãos? Odeio essa palavra como o próprio inferno, assim como odeio todos os Montecchios... Começando por você, Benvólio! Em guarda, covarde! A rivalidade entre as duas famílias começava a envolver cada vez mais membros ligados aos Montecchios e aos Capuletos. A hostilidade era ferrenha. Benvólio e Tebaldo luta- vam em praça pública, enquanto partidários das duas casas se misturavam aos combatentes. — Abaixo os Capuletos! — gritam alguns cidadãos, arma- dos de paus. — Abaixo os Montecchios! — bradam outros. A multidão crescia, junto com a ira e a confusão. Até a chegada do velho Capuleto que, vestindo uma comprida toga de lã, intervém: — Que barulho é esse? Passem a minha espada! Vamos, a minha espada de combate! Correndo atrás do marido, a senhora Capuleto não atende à sua ordem: — Espada? Uma muleta, isso sim... Uma muleta é do que precisa! Para que quer uma espada, homem? — ela pergunta, indignada. 7 A espada é o que estou pedindo... A minha espada, vamos! — insiste Capuleto, quase desesperado. — Lá vem o velho Montecchio brandindo a sua lâmina! — Ora, ora, Capuleto... Seu infame! Seu vilão! — acusa o senhor Montecchio. — Não me detenham, deixem-me! Você se verá comigo, Capuleto! — Pare aí! — ordena a senhora Montecchio, detendo o marido. — Aonde pensa que vai? Não dará um passo sequer em direção a seu inimigo! Quando o confronto parecia iminente, uma voz mais pode- rosa que a de todos os presentes se faz marcante: — Súditos rebeldes, inimigos da paz, profanadores de espa- das manchadas com o sangue de seus próprios vizinhos! brada o príncipe Escalo, autoridade máxima de Verona. Irritado com seus vassalos, o príncipe adentra na praça, es- coltado por um enorme séquito. E, vermelho de raiva, discursa: — Meus caros homens, feras selvagens que apagam o fogo de insensata fúria com as torrentes rosadas que brotam de suas próprias veias! Não me escutam? Pois tratem de abrir os ouvi- dos: sob pena de tortura, atirem ao chão, com suas mãos sangui- nolentas, suas maltemperadas armas! Voltando os olhos para os patriarcas das duas famílias, o príncipe Escalo, enérgico, avisa: Os senhores, velho Capuleto e velho Montecchio, por três vezes perturbaram a paz de nossas ruas. E por quais moti- vos? Por palavras vãs, apenas. Os velhos cidadãos de Verona, com suas velhas mãos, por inúmeras vezes brandiram seus bas- tões por causa desse velho e arraigado ódio. E, com a autoridade que lhe era devida, o príncipe procla- ma sua sentença: Se novamente vierem a perturbar a paz de nossa cidade, os senhores darão suas vidas pela paz quebrada. Capuleto, siga comigo. Montecchio, compareça esta tarde à corte de justiça para tomar conhecimento de nossas resoluções sobre o caso! E, agora — ameaça o príncipe — , retirem-se todos, sob pena de morte! 8 CAPÍTULO 2 Desfeita a confusão da praça central, Benvólio discutia com seu tio Montecchio sobre os motivos que os levavam a reavivar tão antiga controvérsia, enquanto a senhora Montecchio agrade- cia à sorte pelo fato de seu filho Romeu não se haver envolvido no combate. Mesmo assim, estavam todos preocupados com o jovem rapaz, principalmente Benvólio, que avistara o primo pouco antes do nascer do sol, caminhando num bosque próximo às montanhas. Ninguém, nem seus pais nem Benvólio, conhecia as causas das aflições de Romeu, as razões que o levavam, como costuma- va ser visto, a perambular cabisbaixo, confundindo lágrimas com orvalho, avolumando nuvens com seus suspiros profundos. E se o nascer do sol a todos alegrava, de sua luz Romeu vinha fugindo, trancando-se em seu quarto, cerrando as janelas e cri- ando, para sua dor, noites artificiais. — Lá vem Romeu, meus tios — interrompe Benvólio, ao avistar o primo que se aproxima. — Partam para que eu possa arrancar dele alguma confissão... Ei, primo, bom dia! — Como assim, já é dia? — diz Romeu, um tanto aéreo. — São nove da manhã. s— Ai, ai, ai... E que as horas tristes nunca passam. — E que dor é essa que faz o tempo ser tão longo? — Se eu tivesse aquilo que queria... — Está falando de amor? — Do amor a mim privado por não ter aquela a quem amo. — O amor parece gentil quando, na realidade, é cruel e tirano, primo! — E como! Já sei do que aconteceu por aqui... Não eram meus pais aqueles que saíam, Benvólio? — Sim, e eles estão muito preocupados com sua tristeza, Romeu. — Ora, ora... O ódio dá muito o que fazer por aqui, não?! / E o amor ainda mais! E um amor briguento, um ódio amoroso! 10 — Nào fale assim, primo. — Mas é isso mesmo. Viemos do nada e vivemos como plumas de chumbo, fumaça luminosa, chama glacial, saúde en- ferma, sono sempre vigilante, que nunca é o que é. Como o amor que sinto e que me causa apenas dor... Não está com vontade de rir? — De jeito nenhum! Só se for vontade de chorar! — Por que chorar? — Porque seu coração está apertado, Romeu. — Que coração bondoso, amigo... Mas o amor é assim mesmo! A minha dor aumentacom esse tormento que você me revela, ao mesmo tempo que me dá mais alento. O amor é a fumaça dos suspiros. Ele é puro como o fogo nos olhos dos amantes, um mar revolto de lágrimas... Que mais seria? Loucura temperada, fel que nos abafa, doçura que nos salva... Estou indo, primo. Adeus! — Espere, Romeu... — diz Benvólio, abraçando o primo, disposto a acompanhá-lo na solitária caminhada. Ele precisava saber mais. Aquelas palavras não lhe basta- vam; ao contrário, afligiam-no. — Fale-me seriamente, primo: está apaixonado por quem? — Estou amando uma bela mulher. — Pois então atinja certeiro esse alvo! — Não posso, a seta de Cupido não consegue alcançá-la. Ela possui a sabedoria da deusa Diana, e a castidade é a sua soberana. — Como assim, primo? Ela jurou permanecer sempre virgem? — Exatamente, e por isso vive fora do alcance do arco do amor. Ela resiste a todas as propostas amorosas. E além disso é linda, da mais rica beleza, e nela jurou morrer. Jurou nunca amar, nem por um só momento. E dessa forma eu vivo morto, podendo apenas contar a minha tristeza. Diante do desespero de Romeu, Benvólio sugere a ele que liberte seus olhos em direção a outras belezas, outras mulheres. Romeu, no entanto, sentia-se cego pelo amor que não podia ter e que não podería esquecer. 11 CAPÍTULO 3 Na entrada de sua casa, o velho Capuleto conversava com o jovem conde Páris. Parente do príncipe Escalo, o nobre pajem era um típico aprendiz de boas maneiras, sempre cordato e em- penhado no próprio futuro como cavaleiro. — Tanto eu como Montecchio recebemos a mesma pena- lidade — explica o senhor Capuleto. — Nós já estamos velhos e aos velhos não é penoso viver em paz. — O senhor me perdoe, ambos gozam de altíssimo concei- to, são honrados e preservam a maior das dignidades possíveis aos homens de Verona... Contudo, é lamentável que os dois tenham vivido tanto tempo inimizados! — avalia Páris. — Mas agora, meu senhor, o que diz de meu pedido? Capuleto respeitava a opinião sensata do nobre conde, e sabia que sua grande preocupação se devia ao fato de não ter ainda consentido que se casasse com sua filha Julieta. — Repito-lhe uma vez mais, meu rapaz: a minha filha é ainda uma estranha neste mundo. Mal completou catorze anos. Se puder esperar mais dois verões para se casar com ela... — Há muitas moças mais novas que sua filha que já são mães... — Mas muito cedo murcham aquelas que cedo se casam. Esta terra já me levou todas as esperanças, gentil rapaz, só me resta Julieta. Páris deveria esperar. Porém, se cortejasse a pequena jovem e conquistasse seu coração, portanto a concordância da filha, Capuleto autorizaria o matrimônio. — Hoje à noite, como já é costume e tradição, darei uma festa para a qual convidei pessoas de minha maior estima. Con- vide as suas também, pois elas serão bem-vindas — sugere Capuleto a Páris. — Venha contemplar as estrelas que porão os pés em minha pobre casa, iluminando este céu sombrio. Esteja atento a todas as mulheres e mostre-se contente com a que mais lhe agradar. Entre muitas estará minha filha, que torço para que seja sua escolhida. Chamando então um criado, Capuleto entrega-lhe uma lista de convidados. — Vá, rapaz, depressa! Corra a bela Verona e procure pe- los nomes desta lista, anunciando a todos que minha casa e minha hospitalidade estarão à espera de suas presenças. Atordoado com a incumbência a ele atribuída, o criado sai perdido pelas ruas da cidade, sem saber como resolver seu enor- me problema, pois não sabia ler. — Como poderei procurar os donos destes nomes? Para mim, aqui está escrito que o sapateiro deve entender-se com sua fita métrica e o alfaiate, com sua fôrma; o pescador, com seus pincéis e o pintor, com suas redes... Ele não entendia como lhe pediam para desempenhar tarefa tão impossível. O fato é que precisava de ajuda. Havia de buscar quem fosse instruído. — Oh! Até que enfim! — exclama o criado, ao trombar no meio da rua com um distraído rapaz, este sim com aparência de letrado e inteligente, justamente Romeu. — Cuidado, homem, não vê por onde anda!? — exclama Romeu, aparvalhado. — Não se assuste, homem! — comenta Benvólio, ainda na companhia de Romeu. E, tentando justificar a atitude do primo, acrescenta: — Ele está atonnentado e fora deste mundo. — Que Deus lhes dê uma boa tarde, senhores — cumpri- menta o criado, curvando-se. E, dirigindo-se a Romeu, aproveita a oportunidade: — Por gentileza, senhor, sabe ler? — Claro que sei! — responde Romeu. — Sei ler o meu próprio destino e a minha própria miséria. — Ora, senhor, para isso não necessita de livro. Quero saber se pode ler qualquer coisa que veja? — Desde que conheça as letras e a linguagem! — Bem, deixe para lá. Passe bem... — diz, ressentido, o criado, fazendo menção de se retirar. — Espere, amigo: eu leio, sim! Posso ajudá-lo? — redime- se Romeu, tirando-lhe o pergaminho das mãos. — Vejamos o que temos aqui... 13 E, virando o papel, lê em voz alta os nomes listados, um após o outro: — “O senhor Martino, sua esposa e filhas; o conde Anselmo com suas encantadoras irmãs; a senhora viúva de Vitrúvio; o senhor Placêncio e suas amáveis sobrinhas; Mercúcio e seu irmão Valentino; meu tio Capuleto, sua esposa e filhas; minha linda sobrinha Rosalina; Lívia; o senhor Valêncio com seu primo Tebaldo; Lúcio e a jovial Helena. ” Que bela assembléia! E onde acontecerá o evento, hein?! — quer saber Romeu, curioso. — Será uma ceia. — Uma ceia? Onde? — Em nossa casa! — Casa de quem? — Do meu amo, é claro! — Ora, que distração a minha. Nem perguntei de onde vem... Ironia ou não do destino, Romeu havia trombado com um criado do riquíssimo Capuleto. O desengonçado homem agrade- ce ao distraído rapaz que o ajudara a sair daquela enrascada, e avisa que, caso não seja um Montecchio, certamente será bem- vindo a esvaziar um copo de vinho na festa de logo mais à noite. — Espero que se divirta! — finaliza o criado antes de despedir-se. — Que fique sempre alegre! Adeus! Benvólio, sabendo que na tradicional festividade dos Capuletos estaria presente, juntamente com as demais beldades de Verona, a formosa Rosalina, arrisca um palpite: — Não é a bela Rosalina a mulher que está amando, meu primo? — Sim, é ela mesma quem perturba o meu pobre coração. — Pois então vá até lá e compare o rosto dela com outros que lhe apontarei. Estou certo de que me dará razão. Por não ter olhos para mais ninguém, Romeu não admitia que pudesse desviar sua atenção para outra mulher que não fosse a sua amada Rosalina. — Sim, eu irei — decide-se Romeu, para espanto de Benvólio. — Não para presenciar o espetáculo de outras formo- suras, mas para me ofuscar no esplendor do meu amor. 14 CAPÍTULO 4 Anoitece cedo em Verona. As enormes e volumosas mon- tanhas que protegem a cidade a oeste e também ao norte escon- diam o sol muito antes do que se poderia supor. — Ama, ama, já é tarde! Onde está minha filha? — grita, ansiosa, a senhora Capuleto. A ama de Julieta, uma mulher de meia-idade, simpática e espalhafatosa, prestativa e vulgar, corria pela casa em busca de sua protegida. — Juro pela minha virgindade de quando tinha doze anos que já a chamei mil vezes! — Pois trate de encontrá-la, mulher! — Eh, minha ovelhinha, onde está? Venha cá, meu cora- ção, minha pirralha! Por Deus, onde se escondeu essa menina? Julieta, Julieta! Assustada com tanta gritaria, a jovem Julieta aparece na sala e vem ao encontro da mãe. — Ama, deixe-nos a sós por um momento. Preciso falar em segredo com minha filha. — Se prefere assim... — Não, ama, volte. Lembrei-me agora que preciso que ouça nossa conversa, pois você a conhece muito bem, não é mesmo?! — E como! Posso até contar sua idade, hora por hora, minuto por minuto. — Ainda não completou catorze anos, a minha Julieta! — comenta, pensativa, a sua mãe. — Eu ia mesmo apostar catorze dos meus dentes, embora só tenha quatro, como ainda não fez catorze anos. Ela cumpre na Festa do Pão, primeirode agosto... Falta quanto? — Pouco mais de uma quinzena — observa a senhora Capuleto. A ama de Julieta realmente a conhecia desde sempre. Re- cordava-se do dia de seu nascimento, de quando a pequena 15 Julieta provara pela primeira vez o amargor do bico do seu peito. Nesse mesmo dia houvera um terremoto em Verona, data inesquecível para todos os cidadãos da região. — Julieta foi a mais linda criatura que alimentei. Se um dia puder vê-la casada... Ah, isso é tudo o que desejo! Ao entender o motivo que levara a mãe a procurá-la, Julieta afirma sem rodeios: — Casar-me é uma honra com a qual não sonho. — Honra, isso mesmo! — exclama a ama. — Se não tives- se sido sua única ama, diria que minha pequena mamou sabedo- ria quando criança. Por conhecer o temperamento da filha, e por saber que Julieta não se deixava dominar com facilidade, a senhora Capuleto citava o próprio exemplo, ressaltando o fato de que ela, assim como muitas outras damas de Verona, se tomara mãe aos catorze anos. Ver a filha ainda donzela com um pretendente como o conde Páris aos seus pés parecia-lhe um despropósito. — O valente e valoroso conde Páris a deseja como esposa — arremata, em poucas palavras, a senhora Capuleto. — Que homem, menina! Um homem desses não se encon- tra facilmente no mundo — comenta a ama, eufórica. — Ele é como uma figura de cera, uma verdadeira obra de arte! — A primavera de Verona não possui flor igual — complementa a mãe. — E então, minha filha, é capaz de amar esse fidalgo? Atônita, Julieta ouve o comunicado da mãe de que iria vê- lo na festa de logo mais à noite. — Observe bem a beleza do rosto do jovem conde. Repare na harmonia de suas feições e no quanto poderá partilhar com ele no futuro. Agora vamos, responda de uma vez por todas: vê com agrado o amor de Páris? Lançarei meu olhar e procurarei gostar do conde, minha mãe, mas somente se ele também gostar de mim. Passado algum tempo, um servidor da casa interrompia mãe e filha, anunciando que os convidados presentes já perguntavam pela jovem senhora. 16 — Não nos atrasemos, minha filha — apressa a senhora Capuleto. — A ceia já será servida, e o conde certamente anseia pelo seu olhar. — Vai, minha menina. Procura por felizes noites para fe- lizes dias! — profecia a ama. CAPÍTULO 5 Em uma escadaria próxima à casa dos Capuletos, um nume- roso grupo de homens, todos mascarados e munidos de tochas, caminhava em direção à festa já iniciada. Além de Romeu e Benvólio, Mercúcio estava presente. Assim como o conde Páris, Mercúcio possuía parentesco com o príncipe Escalo, sendo portanto nobre e igualmente pajem. No entanto, num ponto divergia: tinha forte proximidade com os Montecchios, particularmente com Romeu, de quem, muito em- bora, estivesse sempre a discordar. Apenas Mercúcio constava da lista de convidados; todos os demais mascarados do grupo seriam intrusos. — E então, recitaremos um discurso como desculpa ou entraremos na festa sem qualquer explicação? — pergunta Romeu, aludindo a um costume da época, o de fazer um discur- so ao dono da casa quando não se tinha convite. — Deixe para lá, Romeu. Chega de tanto falatório — sugere Benvólio. — Não precisamos de um Cupido vendado com um arco na mão assustando as mulheres e tampouco ne- cessitamos de prólogo para nossa entrada. Pensem o que qui- serem de nós! Entramos, damos alguns passos de dança e de- pois partimos. — Concordo, chega de conversa. Mas eu não tenho dispo- sição para bailes. Passem-me uma tocha que iluminarei o cami- nho. — Romeu reclama, impaciente. 17 — Que é isso, gentil Romeu? Queremos vê-lo dançar! — solicita Mercúcio. Não posso. Vocês vestem sapatos de baile com solas leves... Eu tenho a alma pesada como chumbo. Estou preso ao chão sem poder mover-me. — Está apaixonado, isso sim — prossegue Mercúcio. — Pede emprestadas as asas de Cupido e sobe com elas além dos limites possíveis. — Estou ferido pela flecha de Cupido e por isso não posso voar. Sou esmagado pelo peso do amor. — Carregue o amor consigo, Romeu. — Não pense que o amor é temo, meu amigo. O amor é áspero, rude, violento... E, além do mais, fere como espinho. — Pois, então, domine o amor. Cubra com uma máscara a máscara de seu rosto e não se importe se algum olhar curioso perceber sua feiura! Mercúcio provocava Romeu a todo o instante, e para ironizá-lo ainda mais e provar o quanto o amigo se afundava em fantasias, começa a contar, antes de entrarem na festa, a história da rainha Mab. Parteira das ilusões, Mab, noite após noite, cos- tumava navegar pelos cérebros dos amantes, provocando-lhes sonhos amorosos, e passear pelos lábios das donzelas, fazendo com que sonhassem com beijos que se transformavam em mal- dição. — Fantasia inútil a sua, Romeu. Ela é como o vento que acaricia e depois sopra para bem longe. — Esse vento de que está falando, Mercúcio, afasta-nos de nós mesmos — finaliza Benvólio. — A ceia por certo já acabou e chegaremos tarde demais, isso sim. Receio que muito cedo — corrige Romeu. — Meu co- ração pressente alguma fatalidade, suspensa nas estrelas, que começará amargamente seu temível curso com esta festa notur- na, talvez pondo fim prematuro à desprezível vida que trago em meu peito. De qualquer forma, torço para que Aquele que go- verna o leme da minha existência possa dirigir a minha nave e guiar a minha vida! Avante, amigos! 18 CAPÍTULO 6 — Muito bem-vindos à minha casa, cavalheiros. Que dan- cem as mulheres que não sofrem de calos nos pés! Portanto, todas ao salão! E os homens, o que acontece com os senhores? Quando eu era jovem, colocava uma máscara e cochichava uma história qualquer nos ouvidos de uma mulher... E agrada- va, juro por tudo! Mas está longe esse tempo! Tudo passa, tudo passa... Por isso, aproveitem! Atenção, músicos: toquem, va- mos, toquem! Abram caminho para a dança! Pés ligeiros, meninas! O velho Capuleto já não rodava como um jovem, mas bem sabia animar uma festa. O salão estava todo reluzente, cheio de alegria e vida, repleto de eufóricos mascarados. Os criados an- davam de um lado para o outro, na tentativa de bem atender a todos. Romeu, Benvólio e Mercúcio aproveitavam a festa como podiam e sabiam. A atenção de Romeu, porém, é despertada com a chegada de uma jovem dama, e nela vê o brilho esplên- dido de uma preciosa jóia. Admirado, comenta com seus com- panheiros sobre a formosura de tão bela moça. — Vou procurá-la e tentarei tocar com minha rude mão a sua bendita pele. Sinto que meu coração nunca amou, porque em toda minha vida jamais conheci tamanha beleza! Enquanto Romeu pronunciava contraditórias e volúveis palavras, Tebaldo, sobrinho de Capuleto, reconhecia a sua voz como sendo a de um Montecchio e, portanto, de um inimigo. — Como um miserável de um Montecchio se atreve a vir até aqui, encoberto com uma grotesca máscara, ridicularizar nossa família? — diz Tebaldo, irado, enquanto chama um cria- do. — Traga-me uma espada! Pela honra e pelo sangue de minha família julgo que matá-lo não seja pecado! O anfitrião, Capuleto, entretanto, estava atento aos passos do sobrinho e o interpela energicamente: — Que há, caro sobrinho? Por que está tão agitado? 19 Meu tio, aquele é um Montecchio, nosso inimigo, um vilão que aqui entrou por zombaria, para estragar nossa festa. — Mas não é o jovem Romeu? — Ele mesmo, o infame Romeu! Capuleto, imbuído de espírito festivo e precavido pelos in- cidentes da manhã, tenta acalmar Tebaldo, alertando-o para o bom comportamento de Romeu, motivo, inclusive, de orgulho para Verona. O velho garantiu que não o deixaria ser ofendido em sua própria casa. — Acalme-se, meu sobrinho, e trate de alegrar-se, pois essa é a minha vontade. E não me desacate! Tebaldo, a contragosto, via-se obrigado a suportar a presen- ça de Romeu. E, como se isso não bastasse, ainda testemunhava a aproximação de seu inimigo junto à sua prima, Julieta. Ao cortejar a jovem donzela, todavia, Romeu nem sequer imaginava de quem se tratava.Dirigindo-lhe insinuantes galan- teios, estendia-lhe a mão, fantasiado de peregrino. — Se minha indigna mão não merece o devido respeito, só lhe peço que meus lábios de peregrino envergonhado possam suavizar este encontro com um temo beijo. — Meu bondoso peregrino — contesta Julieta, brincando com a pose de Romeu — , não seja exagerado, pois o encontro de nossas palmas já quase vale por um beijo. — Mas não haverá lábios dessa donzela para os piedosos lábios deste peregrino? — Sim, peregrino, lábios para orações. — Deixe então que nossos lábios façam o que fazem nossas mãos e mostrem o caminho certo aos nossos corações. — Posso apenas pemianecer imóvel atendendo às nossas orações. — Pois não se mova. Enquanto recolho os frutos uc minhas preces, limpo meus pecados em sua boca — diz Romeu, beijan- do Julieta. Nesse momento, a ama interrompe o idílio, pedindo a Julieta que vá encontrar-se com sua mãe. — Quem é a mãe dela? — pergunta Romeu. 20 Ora essa, caro mancebo! Uma digna senhora, honesta e sábia, que por acaso é a dona desta casa. E eu, cavalheiro, ainda que não me pergunte, sou quem amamentou esta senhorita que acaba de beijar. E uma coisa lhe digo: quem com ela se casar, receberá uma montanha em ouro, o ouro de sua castidade e o ouro de um imenso baú. — Meu Deus, então ela é uma Capuleto! Rapidamente Benvólio intervém, alertando para a gravida- de que ganhara aquela brincadeira. Ordena, por fim, que partam o mais depressa possível. — Não, cavalheiros, não saiam ainda, pois é muito cedo... — intercede o velho Capuleto, com hipocrisia. E, usando de certa diplomacia, desfaz o imbróglio: — Porém, já que fazem questão de partir, agradeço a presença de todos e aproveito para encerrar de uma vez esta agradável festa! Obrigado, meus ami- gos, já é tarde... Boa noite! Enquanto saíam os últimos convidados, Julieta chamava a ama em um canto da casa, perguntando-lhe, curiosa, pelo jovem que a abordara havia pouco, deixando seu coração descompas- sado. — Romeu é o seu nome e é o único filho do velho Montecchio! — Não pode ser! Meu primeiro e único amor nascido de meu único ódio?! Cedo demais o vi, sem saber quem era, e tarde demais o conheci, para não poder mais vê-lo! Como este mons- tro, o amor, brinca comigo: tenho de estar justamente apaixona- da pelo meu inimigo?! 22 CAPÍTULO 7 Mercúcio e Benvólio procuravam por Romeu, que, sorratei- ro, escapara dos amigos, quando caminhavam pelas escuras vi- elas de Verona. — Romeu, Romeu, Romeu... Ao entrar num beco sem saída, percebem um vulto que julgam ser o de Romeu saltar um muro do final da rua. Mal sabiam os dois amigos que aquela parede de pedras divisava o jardim da casa dos Capuletos. Benvólio preocupava-se e pressentia problemas para seu primo; Mercúcio, por sua vez, destilava ironicamente os mais ácidos comentários: — Vem, caro Romeu! Caprichoso, louco, apaixonado, amante... Apareça em forma de suspiro! Dá as caras recitando ao menos um único verso. Exclama somente “ai de mim” e rima amor com dor. — Quieto, Mercúcio. Pode ser que Romeu esteja ouvindo. — Melhor assim, pois quero provocá-lo! Romeu, pobre Romeu, peço-lhe que apareça, vamos! Pelos brilhantes olhos de Rosalina, por seu lindo rosto e lábios escarlates, por seus delicados pés, esbeltas pernas, palpitantes coxas e adjacências... Vamos, Romeu, apareça! — Se ele escutou, vai ficar magoado. — Não, isso não o magoa, Benvólio. A minha invocação é bela e honesta. Pronuncio o nome de sua amada para que ele apareça, apenas isso. Benvólio imaginava que Romeu preferisse permanecer es- condido na úmida penumbra, combinando seu amor cego com a escuridão da noite. — Ora, Mercúcio, vamos embora. Por que seguir procuran- do quem não quer ser encontrado?! — O amor é cego — observa Mercúcio — , e é por isso que nunca acerta o alvo! Estranhos sentimentos os de Romeu. Avassalador amor, esse que se aproximava. A bela Rosalina, por quem suspirava e desejava a morte, perdera seu encanto, comparada à tema Julieta. Agora, 23 encantados ambos pelo feitiço dos olhares, Romeu amava e também se sentia amado. Mas, sendo Julieta sua inimiga, como se aproxima- ria dela para alentá-la com as promessas dos amantes? Havia de se acreditar na paixão que dera força e vontade ao salto de Romeu, justamente no jardim dos Capuletos, e coincidentemente bem abaixo do balcão em cuja janela Julieta aparecia antes de dormir. Romeu admirava sua beleza, silencioso e deslumbrado. Conseguia vê-la brilhar como um claro sol que empalidecia a triste lua, sendo a moça muito mais linda que o astro da noite. Romeu via, diante de si, a sua dama, o seu amor. — Ai de mim! — suspira Julieta. Escondido, Romeu pensava ver, refletido nos olhos de sua amada, o brilho das mais resplandecentes estrelas. Invejava-as. Quando a viu apoiar a mão no rosto, queria ser uma luva a tocar aquela pele macia. — Ah, Romeu, Romeu... Por quê, Romeu? Renegue seu pai e recuse seu nome! Ou então, se preferir, jure que me ama e eu deixarei de ser uma Capuleto! Romeu não podia acreditar nas palavras que ouvia. Mas preferia agüentar o retumbar de seu alegre coração dentro do peito e seguir escutando a confissão de Julieta às estrelas. — Somente o seu nome é meu inimigo, Romeu. Você seria o que é, mesmo que não fosse um Montecchio. E o que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um homem! Ah, Romeu, por que não tem outro nome? A flor que chamamos de rosa, se outro nome tivesse, teria o mesmo perfume. Assim, Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, teria a mesma perfeição que tem agora. Ah, meu amado, troque de nome e fique comigo etemamente! Sentindo que não mais agüentaria de tanta emoção, Romeu emerge da escuridão em que se escondia: Tomo-lhe a palavra, Julieta. Chame-me somente de amor e eu serei de novo batizado e, assim, jamais serei Romeu. Julieta, surpreendida, sente-se desnudada em seus segredos. — Como veio parar aqui? O muro é alto... Se algum paren- te meu o encontrar, este jardim será a sua sepultura! 24 — Saltei o muro com as leves asas do amor, que as pedras não me são empecilho. — Mas não se esqueça de que é um Montecchio... Se o virem, o matarão! — Vejo mais perigos em seus olhos do que nas espadas. Olhe-me com doçura e estarei imune às inimizades! — A última coisa que desejo neste mundo é que o descu- bram por aqui. — Fique tranqüila, pois trago comigo o manto da noite, que me oculta dos olhos de seus parentes. Se me ama de verdade, eles até podem me encontrar aqui. Prefiro que acabem com a minha vida pelo ódio que me dedicam a ter a morte longa pela falta do seu amor. — Quem foi seu guia? Como descobriu este lugar? — O amor... Foi o amor que me trouxe a coragem. O amor me deu conselhos e eu lhe emprestei meus olhos. Mas, mesmo que estivesse tão longe quanto a praia mais extensa banhada pelo mar longínquo, eu me aventuraria para encontrá-la. Envergonhada, mas agradecendo à máscara da noite que encobria no seu rosto o rubor de sua virgindade, Julieta aventu- ra-se à pergunta que seu coração pedia: — Você me ama, Romeu? — Ah, Julieta... — Espere, não diga nada... Sei que me dirá sim e acredi- tarei em sua resposta. E não precisa jurar, senão parecerá falso. Se me ama, gentil Romeu, proclame o seu amor com sincerida- de. Meu querido Montecchio, estou perdida e louca de amor! Não pense que sou leviana, pois lhe serei a mais fiel das mulhe- res e minha confissão tem por culpada a minha própria paixão e a facilidade da escuridão desta noite. Romeu desejava jurar pela lua todo o amor que sentia, mas Julieta não queria um juramento seu e muito menos em nome do astro da noite, tão mutante a cada mês. Julieta acreditava em Romeu. — O nosso amor, Romeu, brilha mais precipitado que um relâmpago numa noite clara... Agora, preciso entrar. Adeus, meu querido... Que o hálito ardente do estio amadureça este botão de amor, para que ele possa transformar-se numa delicada flor25 quando nos virmos uma próxima vez. Que tão doce e tranqüilo repouso alcance seu coração, como o que se alenta dentro do meu peito. Boa noite, meu amado! Romeu não desejava separar-se de Julieta. A despedida o afli- gia. Quantas juras de amor ainda não poderiam trocar se a ama de Julieta não estivesse chamando? Julieta pede a Romeu, antes de entrar, que a aguarde um pouco; ao voltar, flagra-o falando sozinho: — Ah, bendita noite, tomara que tudo isto não seja apenas um sonho por demais encantador e doce para ser verdadeiro! — Esta noite é verdadeira, meu amado. Se os seus pensa- mentos amorosos são honestos e pensa em casamento, envie amanhã, por intermédio de uma pessoa de minha confiança, uma palavra dizendo onde e a que horas deseja que se realize a cerimônia. Colocarei minha sorte a seus pés e o seguirei pelo mundo onde quer que seja, aonde quer que vá! — Julieta!! — grita a ama de dentro da casa. — No entanto — prossegue Julieta — , se suas intenções não são boas, eu lhe suplico que pare de me seduzir e me deixe só com a minha dor. — Como minha alma está feliz! — Amanhã enviarei alguém! Mil vezes boa noite, Romeu! Julieta desaparece dentro do quarto. Romeu já percorria o caminho de volta, quando Julieta reaparece no balcão: — Escute, Romeu, escute! — Ah, Julieta, como é doce ouvir sua voz dizendo o meu nome... Soa como música a chamar a minha alma! — Romeu... — Meu amor. — A que horas lhe envio o mensageiro? — As nove. — Irá sem falta! Parecerão vinte anos até lá... Esqueci por que o chamei de volta. — Deixe-me ficar aqui até que possa se lembrar. — Assim nunca me lembrarei para que nunca parta... O dia teimava em se fazer presente, mas a dor da despedida dos amantes não podia prolongar-se etemamente. 26 CAPÍTULO 8 O velho frei Lourenço, pai espiritual de Romeu e confessor de Julieta, observava, da janela de sua cela no convento, a au- rora sorrir rosada à sinistra noite que findava. Enquanto a luz entrava pela senda do dia, e antes que o sol animasse aquela segunda-feira, secando o úmido orvalho da noite, frei Lourenço enchia seu cesto de vime com ervas malignas e flores de preci- oso suco. Imensa é a poderosa graça que vive nas ervas, plantas e pedras, e raras são suas qualidades. Dentro do temo cálice de uma débil flor, por exemplo, residem o veneno e o poder me- dicinal. Se for aspirada, pode trazer deleite a todo o corpo; se for provada, pode destruir o coração e todos os seus sentidos. — Dois reis, inimigos entre si — pensa alto o solitário frei — , acampam dentro do homem e das plantas: um é benigno e o outro é maligno... — Bom dia, meu bom padre. — Ora, salve! Que voz matinal me saúda tão docemente? Ah, Romeu! Meu jovem filho, dizer adeus à cama tão cedo revela ânimo intranqüilo. Este pobre velho está preocupado. O seu madrugar denuncia que talvez nem tenha se deitado esta noite. /— Acertou, padre. E que meu repouso foi mais doce do que pensa! — Deus me perdoe o pecado! — exclama o padre, persig- nando-se. — Esteve com Rosalina? Diante da negativa de Romeu, frei Lourenço tranqüiliza-se, ainda que por pouco tempo. Ao saber que Romeu esteve numa festa em casa de seu inimigo, o frei volta a inquietar-se. Romeu lhe conta que uma pessoa o feriu no coração e que da mesma forma por ele também foi ferida; o remédio para ambos depen- deria do amparo e da santa medicina do padre. — Já não tenho mais ódio, santo padre. Cá estou a lhe pedir auxílio em benefício de minha felicidade. 28 — Seja claro e simples, Romeu. Uma confissão equivocada apenas encontrará uma absolvição igualmente equivocada. O velho frei fica sabendo, então, que Romeu está amando a bela filha do rico Capuleto e que seu amor é correspondido. — Resta-nos apenas, para nossa completa união, que o se- nhor nos una em santo matrimônio. Como tudo aconteceu, eu lhe conto depois. O que peço agora é que consinta em casar-nos hoje mesmo! — O amor dos jovens não está nos corações e sim nos olhos! — exclama o admirado frei. — O que aconteceu com seu amor por Rosalina? O sol ainda não limpou o céu de seus sus- piros, os seus lamentos ainda soam em meus velhos ouvidos! — Ora, padre... — Olhe, filho: aqui sobre a sua face aparece a marca de uma antiga lágrima que ainda não secou! Como pode haver mudado tanto? — Mas, padre, várias vezes o senhor me repreendeu por amar Rosalina! — Por amá-la não, filho, por idolatrá-la. — Agora é diferente, frei. Se antes eu não era retribuído, a minha eleita agora troca comigo bondade por bondade, amor por amor. Apesar de contrariado, frei Lourenço parecia aceitar os ar- gumentos de Romeu. — Vou ajudá-lo, rapaz. Mas por uma razão: esta aliança pode ser proveitosa, transformando em puro afeto o rancor des- sas duas famílias! — Ajamos rápido, então. — Sábia e calmamente, isso sim, pois quem muito corre pode facilmente cair — pondera o frei. 29 CAPÍTULO 9 A Mercúcio e Benvólio caminhavam pelas margens do Adige, mirando as pedras e protegendo a vista dos reflexos do sol, que começava a aquecer os ânimos dos cidadãos de Verona. Mercúcio estava preocupado com o paradeiro de Romeu. Acreditava ainda que o avoado amigo se atormentava pela pá- lida Rosalina. Benvólio trazia notícias, ao menos parte delas. Ele sabia que Romeu não passara a noite na casa dos pais. — Conversei com meu tio Montecchio — conta Benvólio. Ele tinha em mãos uma carta de Tebaldo. — Tebaldo? — Um parente do senhor Capuleto, creio que seu sobrinho. — Conheço o valente Tebaldo Capuleto! Aposto minha vida que se trata de um desafio! — Exatamente, mas Romeu lhe responderá. — Ora, qualquer um pode responder a uma carta! — Não será com palavras escritas e sim de corpo presente! — Se assim for, considere o pobre Romeu um homem morto! — ponderou Mercúcio, preocupado. — Apunhalado pelos olhos magros de uma donzela branca, atravessado pelos ouvidos por uma canção de amor... Será que Romeu é capaz de enfrentar Tebaldo? — Ora essa, e por que não? O que tem esse Tebaldo? Mercúcio descreve-o como um Príncipe dos Gatos, tama- nha a sua habilidade e precisão na hora do ataque. Um valente capitão que sabia se bater com ritmo certeiro, contando o tempo, o intervalo e a medida; e ainda conhecedor da pausa e momento justo de acertar o peito. Verdadeiro carniceiro com botões de seda! Um duelista de primeira! Entretidos, os dois acercavam-se da praça central, quando, saído de uma viela do lado do mosteiro, Romeu se interpõe entre ambos. — Bom dia, meus amigos. — Signore Romeu, bonjourl Que bela peça nos pregou ontem à noite, hein?! 30 — Eu, Mercúcio? A que peça se refere? — Como se faz de tonto! Correu de nós como um rato foge de um gato... — Perdoe-me, bom Mercúcio. Tinha um assunto importan- te para resolver e acabei violando a cortesia. Romeu tratava de desculpar-se com os amigos, sem, no entanto, revelar o verdadeiro motivo de tê-los abandonado na noite anterior. Guardava também em silêncio o amor que carre- gava no peito e o recém-combinado acordo com frei Lourenço. Nesse momento, aos três juntam-se a ama de Julieta e o criado Pedro. Intrometida, já chegava arrogante: — Pedro, passe-me o leque. — Vamos, Pedro, dê-lhe o leque para que possa esconder o rosto, pois dos dois o mais belo é o leque — brinca com a ama o irônico Mercúcio. — Deus lhes dê um bom dia, cavalheiros — diz a ama. — Deus lhe dê uma boa tarde, caríssima dama — rebate Mercúcio, apontando para o sol. — Que insolente! Quem pensa que é, senhor?! Ora, esque- ça... Digam-me uma coisa: algum de vocês pode me informar onde posso encontrar o jovem Romeu? — Eu posso— responde o próprio— , mas o jovem Romeu já estará mais velho quando o encontrar. Na falta de outro pior, eu sou o mais novo com esse nome. — Como fala bonito! A ama deixa claro a Romeu que precisava falar-lhe a sós. Mercúcio e Benvólio partem, não sem antes marcarem um jantar para aquela mesma noite na casa do pai de Romeu. — Adeus, velha senhora! Adeus, adeus! — cantarolaMercúcio, afastando-se do grupo. — Vão com Deus! — grita a ama, comentando com Romeu: — Por favor, senhor, que desaforado era esse que me dizia tantas bobagens? — Um cavalheiro apenas, um homem que gosta de se ouvir falar e que fala mais em um minuto do que falaria em um mês. 31 A ama, então, anuncia-se como a prometida emissária de Julieta. Diga à sua senhora que descubra algum pretexto para ir esta tarde confessar-se na cela de frei Lourenço, porque lá, além de nos confessar, ele nos casará. — Então será hoje à tarde, senhor? — Sim, e tome este trocado pelo seu trabalho. — De jeito nenhum, senhor! Mas fique tranqüilo: à tarde Julieta estará lá. Romeu transmite, ainda, novas instruções à ama. Ela deve- ria esperar atrás do muro da abadia, dentro de uma hora, pelo seu criado Baltasar, que iria entregar-lhe a escada de cordas para Romeu escalar o balcão de sua amada Julieta, na silenciosa noite de núpcias. — Senhor, seu criado é de confiança? — Completamente, senhora. — Outra coisa, senhor. — Sim, ama, diga. — Há na cidade um nobre cavalheiro, um certo Páris, que de bom grado lançaria o seu arpão para abordar minha protegi- da. Mas aquele coraçãozinho prefere ver um sapo de verdade a olhar para ele. — Está bem, ama, está bem... — encerra a conversa Romeu, não se importando com o que ouvia. — Obrigado por tudo. Agora, vá! — Sim, é claro... Pedro, Pedro! — Aqui estou! — Pedro, segure o meu leque e caminhe à frente... Depressa! 32 CAPÍTULO 10 O sol forte deixava Julieta irritada e impaciente. No jardim de sua casa, a jovem donzela aguardava ansiosa pelo retorno de sua ama, que partira havia mais de três horas, tendo prometido retomar em apenas trinta minutos. Por certo tardara em encon- trar quem buscava. Mas os pensamentos de quem ama correm mais depressa do que os raios solares quando expulsam as sombras das colinas nubladas, e Julieta sabia disso. Se ao menos a ama tivesse ido diretamente ao destino de seu amor e as palavras dele trazido de volta a ela... Quando já sentia seu peito explodir de aflição, por espera tão longa e dolorida, Julieta vê, vagarosa, pesada como chumbo, a ama chegando com seu criado. — E então, doce e bondosa ama, que novidades traz para mim? — Espere, menina... Pedro, saia daqui e me deixe a sós com a minha queridinha. — Vamos, ama... Por que está com um ar tão triste? Conte- me as notícias alegremente, mesmo que de tristezas venham recheadas. — Estou cansada, minha pequena. Como doem os meus ossos! Que corrida eu dei! Deixe-me descansar um momento... — Queria que tivesse os meus ossos e eu, suas informações. Vamos, eu lhe suplico: fale, minha ama, fale! — Por Jesus, que pressa é essa? Não pode esperar um pouco? Não vê que estou sem fôlego? A ama parecia mesmo brincar com os sentimentos de Julieta. A sua demora em falar era indesculpável, denotava pura crueldade. — As notícias são boas ou más? — implora uma vez mais Julieta. — Bem, a sua escolha foi inconveniente. Parece que não sabe como escolher um homem! Romeu? Não, ele não! Embora 33 tenha um lindo rosto e melhores pernas do que qualquer outro. Quanto à mão, ao pé, ao corpo, nada tenho a dizer, realmente estão acima de qualquer comparação. Não é a flor da cortesia, mas é gentil. Ah, minha pequena, já comeram aqui em casa? — Como?! Não, ainda não... Mas isso não importa! Tudo que está me contando eu já sabia! O que ele disse a respeito de nosso casamento? — O seu amor disse que, como honrado cavalheiro, cortês, amável, virtuoso... Onde está sua mãe? — Minha mãe? Ora, está lá dentro! Onde mais poderia estar? Que estranho modo de responder o seu... — Preste atenção, minha menina: tem permissão para se confessar hoje? — Sim, tenho. — Então, corra até a cela de frei Lourenço... Ali encontrará um marido aguardando-a para lhe fazer sua esposa! — Sério? — Vejo que o sangue lhe sobe ao rosto! Vá, corra para a igreja! Devo ir por outro caminho, para arranjar uma escada com a qual o seu amor vai subir a um ninho de pássaro assim que anoitecer. — Que bela notícia me traz, querida ama! — Eu sou um animal de carga que sofre pelo seu prazer... Mas, à noite, será minha menina quem carregará o peso do amor no corpo de um homem. Agora estou faminta, irei comer. Vá, corra para o confessionário! — Sim, vou direto ao encontro da felicidade, direto para os braços do meu amor! 34 CAPÍTULO 1 1 Na cela de frei Lourenço, Romeu ouvia atento os conselhos do velho padre: — Que os céus sorriam a esta sagrada cerimônia, jovem rapaz. E que os tempos futuros não nos condenem com o seu pesar. Romeu era o fiel retrato da felicidade, extasiado ante a iminente aliança que prometia consagrar seu infinito amor. O padre, porém, alertava: — Cuidado com estas violentas alegrias. Elas têm fim igualmente violento e morrem em pleno triunfo, como o fogo e a pólvora que num beijo se consomem. O mais doce mel pode estragar o apetite pelo seu excelente gosto. — O que o senhor está querendo me dizer, frei? — Que deve amar Julieta, porém deve amá-la moderada- mente, pois assim se conduz o verdadeiro amor. Tarde chega quem muito corre, assim como se atrasa quem caminha por demais lentamente. Tão concentrado Romeu estava nas palavras de frei Louren- ço, que nem percebe os leves passos da dama que entrava. — Para o meu santo confessor, boa tarde. — Julieta, meu amor! — admira-se Romeu ao ver a sua amada. — Seja bem-vinda, minha filha... Romeu lhe agradecerá por nós dois. Romeu e Julieta contemplavam-se como se o encontro de seus olhares fosse a tampa de um baú que se abrisse reluzente, exibindo jóias preciosas guardadas em seu interior e que, de um instante para o outro, ganhassem força e brilho. — Venham, venham comigo, minhas flores, e agiremos rapidamente — interrompe frei Lourenço aquele momento de magia. — De uma vez por todas, e para sempre, com os seus consentimentos, não permitirei que permaneçam sozinhos até que a Santa Igreja tenha incorporado os dois em um só! 35 CAPÍTULO 12 Interminável tarde a de segunda-feira. Insuportável calor o de Verona. E, como todos sabiam, o sangue costumava ferver nesses dias quentes, principalmente o das famílias Capuleto e Montecchio. Essa era a preocupação de Benvólio enquanto caminhava com Mercúcio pela praça abarrotada de gente, exatamente a mesma praça que presenciara o duelo do dia anterior. Seu temor, na verdade, era o de cruzar com um Capuleto mais afoito e metido a valente. Pensava em Tebaldo, claro. Afinal, o comba- tente e provocador sobrinho do velho Capuleto até havia desa- fiado Romeu por escrito. Já Mercúcio, nada temia. Pelo contrário, brincava com Benvólio, insinuando que o amigo seria um covarde e não um bravo; no máximo, um bravo estúpido, que costumava se bater sem motivos. Mercúcio acreditava que justificativas não lhe fal- tavam para lutar com um Capuleto. Em defesa de seu amigo Romeu, seria capaz de afrontar o mais temido dos cavalheiros de Verona. — Por minha cabeça, Mercúcio, aí vem um Capuleto! — surpreende-se Benvólio ao perceber a aproximação de Tebaldo. — Por meus calcanhares — ironiza o destemido Mercúcio — , pouco me importo! Tebaldo chegava arrogante, protegido por um grupo prova- velmente de criados. De outro lado, Mercúcio e Benvólio tam- bém se agrupavam aos seus servis seguidores. A todos se soma- vam, ainda, alguns curiosos cidadãos que começavam a rodeá- los, certamente prevendo alguma confusão. Os dias quentes daquele mês de julho conheciam o auge da inimizade das famílias Montecchio e Capuleto. As duas mais dignas casas de Verona jamais haviam estado com os ânimos tão aflorados. Por isso, não foi necessário grande esforço para que nova contenda se iniciasse. 37 Com licença... — avança Tebaldo. — Boa tarde, cava- lheiros. Uma palavra com um dos dois. — Só uma palavra com um de nós? — contesta Mercúcio. Por que não a junta com alguma outra coisa, para que sejam uma palavra e um golpe? — Sem problemas, senhor. Se me derocasião para isso... — devolve Tebaldo. — E não poderia agarrar uma ocasião sem precisar que alguém a dê? — provoca Mercúcio. — Mercúcio, está concertado com Romeu? — investe o desconfiado Tebaldo, talvez temendo alguma trama inimiga. — Como assim? Pensa que somos músicos para estarmos concertados um com o outro? Se pensa que somos menestréis, engana-se; de nossas bocas só ouvirá discordâncias. Aqui está o meu arco de violino! — diz Mercúcio, apontando a própria espada. — Aqui está o que lhe fará dançar! Benvólio, apavorado e já prevendo uma desgraça, tentava convencê-los a que deixassem a discussão de lado. Por estarem em um lugar público e por ter o príncipe alertado quanto a novos duelos, melhor seria aquietar os ânimos. De nada serviam, porém, os seus conselhos. Todos os olhares já pousavam sobre eles. Nesse justo momento, aparece Romeu, o Montecchio por quem Tebaldo procurava. — Romeu, o ódio que sinto agora não encontra melhor expressão do que esta: você é um covarde! — Ora, Tebaldo, não tenho razão para odiá-lo; ao contrá- rio, sobram-me motivos para estimá-lo. Não sou um covarde... Sendo assim, adeus, pois vejo que não me conhece! Rapaz, suas palavras não desculpam as injúrias que já me fez! Portanto, desembainhe sua espada! — Protesto! Nunca o injuriei, Tebaldo! Acredite que o es- timo mais do que imagina... Pena não poder dizer-lhe a causa de meu afeto. Romeu estava, agora, casado com Julieta. Tebaldo passava a ser, portanto, seu parente. 38 — Bondoso Capuleto — prossegue Romeu — , cujo nome respeito tanto quanto o meu, considere-se satisfeito. — Chega de tanta desonra! — corta Mercúcio. — Vamos logo decidir essa história... Alia stoccatal — grita ao puxar a espada. — Que deseja de mim, Mercúcio? — quer saber Tebaldo antes de aceitar o duelo. — Ora, Rei dos Gatos, nada... Somente uma de suas nove vidas, com a qual farei o que bem entender. Em seguida, espan- carei as outras oito. Puxe logo sua espada antes que a minha arranque suas orelhas! — Se assim prefere... Estou ao seu dispor! — Tebaldo aceita o desafio, também desembainhando a sua espada. Romeu tentava ainda conter os espíritos, mas já era tarde. Mercúcio e Tebaldo começavam a lutar. Seus pedidos de ajuda a Benvólio e a todos os cidadãos presentes de nada adiantavam. Como derradeiro esforço, interpõe-se entre os duelistas, mas apenas consegue atrapalhar seu amigo: Tebaldo enfia sua espada por baixo do braço de Romeu, ferindo o peito do nobre Mercúcio. Em seguida, foge com seus companheiros. CAPÍTULO 13 Estirado no chão, as vestes de Mercúcio manchavam-se de sangue. Revoltado pelo ferimento recebido e por não haver fe- rido seu rival, ele amaldiçoava Montecchios e Capuletos, as duas famílias causadoras daquela desgraça. — Onde está Tebaldo? Aquele infeliz fugiu? — diz o irado nobre em agonia. É grave seu estado, Mercúcio? — inquieta-se Benvólio. — Foi só um arranhão... — mente Mercúcio. — Onde está meu criado? — Aqui estou, nobre senhor. 39 Corra, vá buscar um cirurgião! Ande, ande... Rápido, homem! — ordena-lhe Mercúcio, mal prevendo que seu destino já estava traçado. Extremamente perturbado e sentindo-se culpado pela ago- nia do fiel amigo, Romeu não sabia se socorria Mercúcio ou se corria atrás de Tebaldo. — Coragem, meu amigo! O ferimento não é grande! — consola Romeu. Mercúcio, em plena agonia, não perdia sua irônica verborragia: — Meu ferimento não é tão fundo quanto um poço, nem tão largo quanto o portal de uma igreja, mas é o suficiente e quanto basta. Pergunte por mim amanhã e saberá que me trans- formei num homem grave, talvez grave como um túmulo. — Ora, deixe disso, amigo. — Estou amaldiçoado para este mundo. Que uma praga dizime as duas famílias! E o que pensa que sou? Serei morto por um arranhão? Ora, Romeu, por que diabos tinha de se meter entre nós? Fui ferido por debaixo de seu braço! — Fiz com a melhor das intenções... — justifica-se Romeu, atordoado. — Benvólio, leve-me daqui para morrer dentro de uma casa — diz Mercúcio, aceitando a própria sina. — Transformaram- me em carne para verme! Benvólio carrega Mercúcio para a sombra de um abrigo próximo. Romeu, paralisado, lamentava profundamente a sorte de tão corajoso e verdadeiro amigo, que fora terrivelmente fe- rido por defender uma causa sua. — Minha honra está manchada com o ultraje de Tebaldo! — vocifera Romeu. E completa para si: — Justamente Tebaldo, que há menos de uma hora se tomou meu primo! Enquanto Romeu pensava em sua amada e recém-esposada Julieta e na coragem diminuta, Benvólio retomava, gritando a quem se dispusesse a ouvi-lo: — Romeu, Romeu! O bravo Mercúcio está morto! — Morto? — Morto, Romeu! Aquele galante espírito, que tão cedo 40 desprezou a terra, fora de hora ascendeu às nuvens! Nem bem Romeu tirava suas mãos de lamentação de cima do rosto, seus olhos cruzam com os do furioso Tebaldo, vivo e triunfante, altivo e, mais do que nunca, provocador. Romeu sente estremecer-se de raiva, com o sangue fervilhando pelo corpo. — Tebaldo, devolvo o covarde que me dirigiu há pouco! A alma de Mercúcio está muito próxima de nossas cabeças espe- rando que a sua vá fazer-lhe companhia. Um de nós, ou os dois, deve juntar-se a ele. — Romeu, estúpido rapaz, dele era companheiro e com ele partirá! — Tebaldo preconiza. r— E o que veremos! — devolve Romeu, puxando sua es- pada ao mesmo tempo que Tebaldo. A multidão ofegante não tem tempo sequer para dois sus- piros. O combate é tão violento quanto rápido. Em poucas es- tocadas, Tebaldo jazia no chão de pedra da praça central de Verona. — Corra, Romeu, fuja! — grita precavidamente Benvólio. — Toda a cidade para cá se dirige... Tebaldo está morto! Não fique aí parado! Se o prendem, o príncipe o condenará à morte! Vá, fuja para longe daqui! Incrédulo, sentindo-se o próprio joguete do destino, a Romeu não restava alternativa, senão a de abandonar imediata- mente o cenário de tantos crimes. Os primeiros guardas chegam procurando pelo assassino de Mercúcio, parente do príncipe. Quando começavam a entender os acontecimentos, chega à praça o próprio príncipe Escalo, com seu séquito, mais o velho Montecchio seguido do velho Capuleto, os dois com suas esposas. — Quem iniciou esta briga? — indaga o príncipe. Benvólio oferece a sua versão: — Oh, nobre príncipe, posso revelar todo o desenrolar des- ta disputa fatal. Ali jaz, morto pelo jovem Romeu, o homem que matou seu parente, o bravo Mercúcio. Desesperada, a senhora Capuleto chorava a morte do filho 41 de seu irmão, o sobrinho Tebaldo. E clamava que o príncipe fizesse justiça, derramando o sangue de um Montecchio em tro- ca do Capuleto derrubado. A pedido do príncipe, Benvólio relata detalhadamente os fatos, desde o seu princípio. — Tebaldo, que aqui jaz, recebeu sua morte das mãos de Romeu. Romeu lhe pedia com cortesia que considerasse a futi- lidade da discussão que mantinham, e para isso invocou até mesmo a sua vontade, meu príncipe. Tebaldo, entretanto, surdo à paz, atirou-se de espada em punho contra o peito do valoroso Mercúcio. Romeu precipitou-se entre eles, rogando que paras- sem, mas um golpe traiçoeiro de Tebaldo atingiu, por debaixo do braço de Romeu, a vida de Mercúcio. Tebaldo, em seguida, fugiu. — Se Tebaldo havia fugido, como veio aqui morrer? — prossegue o príncipe com o inquérito. — Pois então... Enquanto Romeu começava a pensar em vingança, Tebaldo voltou. E como raios os dois se atiraram um contra o outro, e antes que eu pudesse separá-los com a minha espada, Tebaldo já estava caído morto. — E Romeu, onde se encontra? — Romeu empreendeu sua fuga imediatamente, meu prín- cipe. E essa é toda a verdade ou serei condenado à morte. A senhora Capuleto seguia protestando. Acusava Benvólio, também ele um Montecchio, de mentir por afeição. — Romeu matou meu sobrinho e Romeu deve perder a vida! — exige a tia de Tebaldo. — Romeu matou Tebaldo, é verdade — diz o príncipe — , mas Tebaldo matou Mercúcio!Quem deve pagar agora o preço desse estimado sangue? O pai de Romeu sai em defesa do filho: — Romeu não, meu príncipe, pois ele e Mercúcio eram amigos! Sua culpa foi antecipar o castigo que a própria lei im- punha, ou seja, cortar a existência de Tebaldo. A sentença do príncipe logo se fez ouvir: - A Romeu, por esta ofensa, imediatamente nós o exilamos 42 de Verona! Entretanto, muito me interessa o modo como se en- caminha o ódio entre vocês todos! O meu sangue ferve por causa de suas ferozes contendas! Mas a todos imporei um castigo tão duro que deplorarão a perda que tive. Desde agora, faço-me surdo aos pedidos de desculpas; nem lágrimas nem queixas serão sufi- cientes para reparar tais abusos... Saia Romeu desta cidade o mais depressa possível ou, se for descoberto, será essa sua última hora! Levem esse corpo daqui e respeitem nossa vontade! A clemência seria assassina se perdoasse aos que matam! CAPÍTULO 14 Anoitecia. Julieta caminhava solitária no jardim de sua casa, embalada pela doce lembrança de Romeu sob sua janela, na noite anterior. A rapidez com que os fatos se desencadearam a impressionava. Agora que uma nova noite se aproximava, a graciosa donzela já era uma mulher casada, ainda que isso fosse segredo. Tinha, contudo, na bênção de frei Lourenço a represen- tação de Deus, e isso lhe bastava. O véu espesso da escuridão era bem-vindo, mantilha prote- tora do amor. Noite que traria Romeu voando para os seus bra- ços. Julieta aguardava ansiosa pelo seu amado para que, enfim, celebrassem seus amorosos ritos, cego amor que melhor combi- nava com os ares noturnos. Que a noite viesse logo, a noite e Romeu, trazendo o ver- dadeiro afeto, e levando consigo a virgindade de amor tímido guardada pela linda e jovem Capuleto. Julieta esperava pela consumação de seu casamento, como uma menina impaciente aguarda pela hora da festa com seus vestidos novos. Sua ama, porém, tardava em trazer notícias de Romeu e a escada de cor- das encomendada por ele, sem a qual o abraço desejado se mostraria tão distante quanto o cume da mais alta montanha. Que há, ama? Quais são as notícias? — indaga Julieta à 43 chegada da ama. — Que traz aí? A escada que Romeu lhe encomen- dou? — suplica a jovem, sentindo seu coração tomado de agonia. — Sim, a escada... Sim, a escada — repete a ama, atirando as cordas ao chão. — Mas por que esse semblante aflito, ama? Por que torce tanto suas mãos? — pergunta Julieta ante o torturante silêncio da ama. — Que dia mais azarado, meu Deus! Ele morreu, ele mor- reu! Estamos perdidas! Ai, que dia! — protela a ama, parecendo regozijar-se diante do desespero de Julieta. — Mas por que seria o céu tão cruel comigo?! — O céu jamais é cruel, menina, mas Romeu sim! Ah, Romeu, quem poderia imaginar?! — Deixe de ser demoníaca, minha ama! Por que me ator- menta assim? Tortura igual só se encontra no inferno! Romeu se matou? E isso? Diga sim e nunca mais serei a mesma... Ele está morto? Sim ou não? Diga, por favor: sim ou não? — Eu vi a ferida com estes olhos que Deus me deu! Era um cadáver, um cadáver ensangüentado, pálido como as cinzas, todo coberto de sangue, sangue coagulado... Só de vê-lo, des- maiei! — Meu coração está destroçado! Acabou minha sonhada liberdade! Enterrarei meus olhos com os de Romeu! — desabafa Julieta, sentindo-se desfalecer de tristeza. — Ai, meu querido Tebaldo! Justo Tebaldo, o melhor ami- go que eu tinha! Leal cavalheiro... Eu não deveria viver para vê- lo morto um dia! — diz a ama, suspirando com exagero. — Afinal, o que está me dizendo, ama? Agora joga a tem- pestade para o lado contrário?! Os dois morreram? Meu amado Romeu e meu primo Tebaldo foram mortos? Então chegou o Juízo Final! Quem sobrou vivo? — Não, minha querida... Tebaldo não existe mais e Romeu está banido! Romeu o matou e por isso foi desterrado! — Oh, Deus! A mão de Romeu derramou o sangue de Tebaldo? — Julieta pergunta incrédula. Julieta, desnorteada em seus sentimentos, amaldiçoava os 44 céus e todos os deuses e homens deste mundo, lamentando seu destino. Já a ama reclamava a perda de Tebaldo, seu “fiel escu- deiro”, como gostava de chamá-lo, condenando impiedosamente quem o matara: — Que a vergonha caia sobre Romeu! — E que sua língua apodreça por desejar tal sorte a meu amor! — devolve Julieta, indignada por perceber-se desampara- da em sua tristeza. — Mas ele matou o seu primo! — Romeu é agora o meu esposo, entende o que isso signi- fica para mim? — contesta Julieta, segurando as lágrimas. Julieta não entendia os motivos pelos quais Romeu teria matado seu primo. Tebaldo talvez tivesse tentado matar Romeu... Esse pensamento a confortava em parte. Porém, como se não bastasse a desgraça da morte do primo, ela vinha acom- panhada da notícia do desterro de Romeu, desgraça ainda pior. No fundo, Julieta preferiria que todos estivessem mortos, Tebaldo, Romeu, seus pais e ela mesma; dessa forma, não so- freria tanto. — Seus pais choram junto ao cadáver de Tebaldo. Se você quiser, pobre criatura, eu a levo até eles... — sugere a ama. — Que meu pai e minha mãe lavem as feridas de meu primo com suas lágrimas. As minhas serão gastas com o banimento de Romeu! — diz Julieta, desiludida. E, acreditando- se enganada pelo destino, pede à ama: — Leve as cordas para o meu quarto. Que a morte, e não Romeu, receba a minha vir- gindade! A ama, preocupada com o sofrimento de sua querida Julieta, pede que a jovem corra para o quarto e lá aguarde pela chegada de seu amado. — Eu sei onde ele está. Fique tranqüila, pois vou encontrá- lo... Romeu aqui estará esta noite sem falta! — Vá, minha ama, encontre o meu amor e peça-lhe que venha me ver para o nosso derradeiro adeus! Ah, espere, entre- gue este anel a meu fiel cavalheiro! Agora vá, vá! 45 CAPÍTULO 15 Após o confronto com Tebaldo, aconselhado por Benvólio, Romeu refugia-se na cela de frei Lourenço. O franciscano, que fora buscar notícias sobre a sentença imposta pelo príncipe a Romeu, encontra-o desconsolado. — Que expressão de medo é essa, Romeu? Parece enamo- rado da aflição! Está casado com a desgraça? — Ora, padre, conte-me logo sobre a minha dor... Qual pena me foi imposta? Algo menor do que a morte? — Os lábios do príncipe pronunciaram palavras brandas, meu filho: a sentença não é a morte do corpo, mas o exílio do corpo! — Banimento? Não, padre, prefiro a morte ao banimento! O exílio é muito mais aterrador do que a morte! — Você foi desterrado de Verona apenas. Seja paciente, pois o mundo é vasto e espaçoso! — consola o frei. Para Romeu não havia mundo além dos muros de Verona, e sim purgatório, tortura, inferno! Estar banido de Verona era como estar banido do mundo, e tal exílio seria a morte sob falso nome. Frei Lourenço mostrava-se indignado com o pensamento de Romeu. Para ele, o príncipe havia sido generoso na atribuição da pena, uma vez que as leis da cidade previam a morte para casos como esse. Portanto, se o príncipe havia trocado a conde- nação à morte pela condenação ao desterro, Romeu recebera um imenso e particular favor. — Prefiro ser um gato, um cão ou um rato e estar próximo da minha Julieta. Queria ser uma mosca e poder pousar em suas mãos ou em seus lábios, como a pecar em seus beijos! Romeu desespera-se, pedindo então que frei Lourenço lhe dê um ativo veneno ou um agudo punhal, algo que possa tirar- lhe a vida rapidamente. — Mais do que isso, Romeu, eu lhe darei uma armadura para suportar o banimento: a filosofia, o doce leite da adversi- dade, para confortá-lo. 46 — Padre, se nâo puder me dar a pequena Julieta, transferir uma cidade de lugar ou derrubar a sentença de um príncipe, prefiro não ouvi-lo. — Ora, vejam só: os loucos não têm ouvidos! — Para o senhor é fácil, padre, pois não sabe o que estou sentindo. Se o senhor fosse jovem como eu e Julieta, e conhecesse o nosso amor; se estivesse casado há tão poucas horas; se tivesse matado Tebaldo como fiz eu; se amasse com delírio e, como eu,