Prévia do material em texto
CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS ESTE CAPÍTULO DESTACA N a maior parte deste livro, supusemos que os consumidores e os produtores possuem informações completas a respeito das va- 17.1 Incerteza quanto à qualidade e o riáveis econômicas relevantes para as escolhas com que se de- mercado de produtos de qualidade frontam. Agora veremos que ocorre quando algumas partes possuem duvidosa (lemons) mais informações do que outras isto é, quando há informações as- simétricas. 17.2 Sinalização de mercado As informações assimétricas são bastante comuns. Freqüente- 17.3 Risco moral mente, o vendedor de determinado produto conhece mais a respeito de sua qualidade do que 0 comprador. Os trabalhadores geralmente 17.4 problema da relação conhecem melhor sua própria destreza e habilidade do que seus em- agente-principal pregadores. Os administradores de empresas sabem mais a respeito *17.5 Incentivos aos administradores de dos custos, da posição competitiva e das oportunidades de investimen- uma empresa integrada to da empresa do que os proprietários. As informações assimétricas explicam a razão de muitos arran- 17.6 Informações assimétricas no mercado jos institucionais que ocorrem em nossa sociedade. Elas nos ajudam a de trabalho: teoria do salário de compreender por que as empresas automobilísticas oferecem garan- eficiência tias para peças e serviços de automóveis novos, por que empresas e funcionários assinam contratos que incluem incentivos e recompensas LISTA DE EXEMPLOS e por que os acionistas devem monitorar 0 comportamento dos admi- nistradores de empresas. Iniciaremos examinando uma situação na qual os vendedores de 17.1 Jogadores de qualidade duvidosa determinado produto possuem melhores informações sobre sua quali- (lemons) na liga principal de beisebol dade do que seus compradores. Veremos de que modo esse tipo de infor- 17.2 Trabalhando noite adentro mação assimétrica pode ocasionar um desvio da eficiência de mercado. Na segunda seção, mostraremos de que maneira vendedores podem 17.3 Reduzindo risco moral: garantias evitar alguns dos problemas associados às informações assimétricas, en- de saúde animal viando sinais aos potenciais compradores a respeito da qualidade de 17.4 Os salários dos CEOs seus produtos. As garantias de produtos oferecem um tipo de seguro que pode ser útil quando os compradores dispõem de menos informa- 17.5 Os administradores de hospitais sem ções do que os vendedores. Mas, como poderemos ver na terceira seção, fins lucrativos como agentes a aquisição do seguro acarreta certas dificuldades quando os comprado- 17.6 Salários de eficiência na Ford res possuem melhores informações do que os vendedores. Na quarta seção, mostraremos que, quando se torna dispendioso para os proprietários de empresas privadas monitorar comporta- mento de seus administradores, estes podem passar a buscar objetivos diferentes da maximização de lucros. Em outras palavras, os adminis- tradores possuem melhores informações do que os proprietários. De- monstraremos também de que maneira as empresas podem estimular seus administradores a maximizar lucros, mesmo quando a monitora- ção do comportamento deles é dispendiosa. Por fim, demonstraremos que os mercados do trabalho podem passar a operar de modo ineficien- te quando os funcionários dispõem de melhores informações sobre sua produtividade do que seus empregadores.530 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO informações assimétricas 17.1 INCERTEZA QUANTO À QUALIDADE E 0 MERCADO DE PRODUTOS DE QUALIDADE Situação na qual 0 com- prador e o vendedor pos- DUVIDOSA (LEMONS) suem informações diferen- tes sobre uma transação. Suponhamos que você tenha adquirido um automóvel novo por $20.000, tenha rodado com ele por 150 quilômetros e, então, percebeu que não desejava tê-lo. Não havia nada de errado com au- tomóvel, pois ele funcionou maravilhosamente e atendeu a todas as suas expectativas. No entanto, você simplesmente sentiu que poderia estar igualmente bem sem ele e que seria melhor economizar dinheiro para outras compras. Sendo assim, você decide vender 0 automóvel. Quanto poderia espe- rar obter por ele? Provavelmente, não mais do que $16.000, mesmo que 0 automóvel seja novo, tenha rodado apenas 150 quilômetros e ainda possua uma garantia transferível para um novo proprietário. Caso você fosse um potencial comprador, provavelmente também não daria muito mais do que $16.000 por ele. Por que razão mero fato de o automóvel ser de segunda mão reduz tanto seu valor? Para poder responder a essa pergunta, pense a respeito de suas próprias preocupações se fosse um potencial compra- dor. Você gostaria de saber: por que esse automóvel está à venda? Será que seu proprietário realmente mudou de idéia a respeito do automóvel ou haveria alguma coisa errada com ele? Esse automóvel é um produto de qualidade duvidosa (lemon)? Os automóveis usados são vendidos por muito menos do que os automóveis novos porque existem informações assimétricas a respeito de sua qualidade: vendedor de um automóvel usado sabe muito mais a respeito do veículo do que seu potencial comprador. Este poderia contratar um mecânico para verificar automóvel, mas 0 vendedor possui experiência com automóvel e, portanto, ainda assim saberia mais a respeito dele. Além disso, o simples fato de automóvel estar à venda indica que ele poderia realmen- te ser um veículo de qualidade duvidosa: afinal, por que alguém colocaria à venda um automóvel con- fiável? Conseqüentemente, potencial comprador de carros usados sempre suspeita da qualidade do veículo e por boas razões. As implicações das informações assimétricas a respeito da qualidade de um produto foram ori- ginalmente analisadas por George A análise de Akerlof vai muito além de mostrar o que ocorre no mercado de automóveis usados. Os mercados de seguro, de crédito financeiro e até mesmo de empregos são também caracterizados por informações assimétricas sobre a qualidade dos produ- tos. Para compreendermos as implicações das informações assimétricas, estudaremos inicialmente mercado de automóveis usados e, então, veremos de que maneira os mesmos princípios se aplicam a outros mercados. 0 MERCADO DE AUTOMÓVEIS USADOS Suponhamos que dois tipos de automóveis encontrem-se disponíveis para compra automó- veis de alta qualidade e automóveis de baixa qualidade. Além disso, suponhamos que tanto os vendedo- res como os compradores sejam capazes de reconhecer de qual tipo é automóvel. Haverá, então, dois mercados, conforme ilustra a Figura 17.1. Na parte (a), é a curva de oferta dos automóveis de alta qualidade, e representa a curva da demanda pelos automóveis de alta qualidade. Da mesma forma, SB e na parte (b) são, respectivamente, a curva da oferta e a curva da demanda dos automóveis de bai- xa qualidade. Observe que, para qualquer nível de preço, é mais elevada do que porque os pro- prietários dos automóveis de alta qualidade se mostram mais relutantes em vendê-los, e para que isso ocorra é necessário que seja pago um preço mais elevado. Do mesmo modo, vem a ser mais elevada do que pois os compradores estão dispostos a pagar mais por um automóvel de alta qua- lidade. Como mostra a ilustração, o preço de mercado dos automóveis de alta qualidade é $10.000, e dos automóveis de baixa qualidade, $5.000, sendo vendidas 50.000 unidades de cada um dos dois tipos. Na vida real, vendedor de um automóvel usado sabe muito mais a respeito de sua qualida- de do que comprador. (Os compradores descobrirão a qualidade apenas depois de terem adquiri- do automóvel e o dirigido por algum tempo.) o que ocorre, então, quando os vendedores conhe- cem a qualidade do automóvel, mas os compradores não? Inicialmente, os compradores podem pensar que as chances de um automóvel ser de alta qualidade sejam de 50%. Por quê? Porque quan- do vendedores e compradores conhecem a qualidade, são vendidas 50.000 unidades de cada tipo. George Akerlof, "The market for 'lemons': quality uncertainty and the market Quarterly Journal of Economics, ago. 1970, p. 488-500.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 531 PA PB SA $10.000 $10.000 SB DA $7.500 $7.500 DM $5.000 $5.000 DB DB 25.000 50.000 50.000 75.000 (a) Automóveis de alta qualidade (b) Automóveis de baixa qualidade Figura 17.1 mercado de automóveis usados Quando os vendedores de produtos têm melhor informação do que os compradores, 0 problema dos produtos de qualidade duvidosa (lemons problem) pode surgir de uma maneira em que os produtos de qualidade inferior expulsam os produtos de melhor qualidade. Em (a), a curva da demanda por automóveis de melhor qualidade é Entretanto, à medida que os compradores reduzem suas expectati- vas a respeito da qualidade média dos automóveis no mercado, a curva da demanda percebida desloca-se para Do mesmo modo, em (b), a curva da demanda percebida para automóveis de baixa qualidade desloca-se de para Como resultado, a quantidade de au- tomóveis de alta qualidade vendidos cai de 50.000 para 25.000, e a quantidade de automóveis de baixa qualidade vendidos aumenta de 50.000 para 75.000. Ao final, apenas automóveis de baixa qualidade serão vendidos. Portanto, ao fazer uma aquisição, os compradores estimam que todos os automóveis tenham 'qua- lidade no sentido de que existe probabilidade igual de comprar um automóvel de alta qualidade ou um de baixa qualidade. (Evidentemente, após adquirir 0 automóvel, eles passarão a conhecer sua verdadeira qualidade.) A demanda por automóveis de qualidade média, indicada por na Fi- gura 17.1, encontra-se abaixo de mas acima de Como mostra a ilustração, esses carros de qualidade média serão vendidos por cerca de $7.500 cada. Entretanto, será vendida uma quantidade menor (25.000) de automóveis de alta qualidade e uma quantidade maior (75.000) de automóveis de baixa qualidade. À medida que os consumidores começam a perceber que a maioria dos automóveis vendidos (cerca de três quartos do total) é de baixa qualidade, a demanda deles é deslocada. Como mostra a Fi- gura 17.1, a nova curva da demanda passa a ser 0 que significa que, na média, os automóveis possuem qualidade entre baixa e média. Entretanto, a combinação de automóveis vendidos passa a conter maior proporção de automóveis de baixa qualidade. Conseqüentemente, a curva da demanda é deslocada ainda mais para a esquerda, fazendo com que a combinação de automóveis passe a con- ter uma proporção ainda maior de automóveis de baixa qualidade. Essa sucessão de deslocamentos conti- nua até que apenas automóveis de baixa qualidade sejam vendidos. A essa altura, 0 preço de mercado estará muito baixo para ofertar automóveis de alta qualidade, e os consumidores vão supor corretamente que qualquer automóvel que venham a adquirir nesse mercado será de baixa qualidade. Logo, a cur- va da demanda passará a ser A situação da Figura 17.1 é um caso extremo. mercado pode alcançar equilíbrio com um preço que inclua pelo menos alguma quantidade de automóveis de alta qualidade. Entretanto, a fra- ção dos automóveis de alta qualidade será menor do que se os consumidores fossem capazes de identificar sua qualidade antes de efetuar a aquisição. Essa é a razão pela qual você deve esperar vender seu automóvel novinho, que você sabe que está em perfeitas condições, por valor muito inferior ao que original- mente pagou por ele. Na presença de informações assimétricas, as mercadorias de baixa qualidade expulsam as de alta qualidade do mercado. Esse fenômeno, às vezes conhecido como problema dos532 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO produtos de qualidade duvidosa (lemons problem), é uma importante fonte de falhas no mercado. A pro- pósito, vale a pena enfatizar: Problema dos produtos de qualidade duvidosa (lemons problem): com informações assimétricas, mercadorias de baixa qualidade podem expulsar do mercado as de alta qualidade. IMPLICAÇÕES DAS INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS No exemplo com automóveis usados, fica claro como as informações assimétricas podem resul- tar em falha do mercado. Em um mundo ideal, com mercados em pleno funcionamento, os consumi- dores teriam a possibilidade de escolher entre automóveis de baixa qualidade e de alta qualidade. En- quanto alguns escolherão os automóveis de baixa qualidade por custarem menos, outros preferirão pagar mais e obter automóveis de alta qualidade. Infelizmente, no mundo real, os consumidores não podem determinar facilmente a qualidade de um automóvel usado antes que tenham adquirido. Conseqüentemente, preço dos automóveis usados cai, e os automóveis de alta qualidade são afas- tados do mercado. A falha de mercado ocorre, portanto, porque há donos de automóveis de alta qualidade que os avaliam por um preço maior do que fazem seus compradores potenciais. Ambas as partes poderiam sair ganhando com essa troca, mas, infelizmente, a falta de informações por parte dos compradores im- pede que a troca mutuamente vantajosa ocorra. SELEÇÃO ADVERSA Nosso exemplo dos automóveis usados é apenas uma ilustração simplificada de um importante problema que pode ser encontrado em muitos mercados 0 problema de seleção adversa. A seleção adversa surge quando produtos de qualidades distintas são vendidos ao mesmo preço, por- seleção adversa Forma de falha de mercado que que compradores e vendedores não estão suficientemente informados para determinar a qualidade ocorre quando, devido a real do produto no momento da compra. Como resultado, muitos produtos de baixa qualidade e pou- informações assimétricas, cos de alta são vendidos no mercado. Examinaremos agora alguns outros exemplos de informações as- produtos de diferentes simétricas. Com isso, veremos também de que maneira governo ou as empresas privadas podem en- qualidades são vendidos frentar 0 problema. a um preço único; dessa maneira, vendem-se inú- o MERCADO DE SEGUROS Por que as pessoas com mais de 65 anos têm dificuldades para adquirir segu- meros produtos de baixa ro-saúde, seja a preços altos ou baixos? Os indivíduos mais velhos realmente apresentam riscos muito qualidade e pouquíssimos mais elevados de vir a ter doenças sérias, mas por que o preço do seguro-saúde não poderia ser aumen- de alta qualidade. tado de modo que refletisse tais riscos mais altos? Mais uma vez, a razão são as informações assimétri- cas. As pessoas que adquirem esse tipo de seguro sabem muito mais a respeito de seu próprio estado geral de saúde do que qualquer companhia seguradora poderia ter esperança de saber, mesmo que in- sistisse na realização de exames médicos. Conseqüentemente, surge uma seleção adversa, muito seme- lhante à que acontece no mercado de automóveis usados. Pelo fato de pessoas com problemas médicos estarem mais propensas a adquirir seguro-saúde, a proporção de indivíduos desse tipo aumenta no grupo de indivíduos segurados. Esse fato faz com que preço desse tipo de seguro aumente, induzindo as pessoas mais sadias, conscientes de seus riscos baixos, a não adquiri-lo. Isso aumenta ainda mais a proporção de pessoas com problemas de saúde entre os segurados, que obriga preço do seguro-saú- de a aumentar mais. Esse processo continua até que a maioria dos indivíduos que estejam dispostos a adquiri-lo estejam de fato doentes. Nesse ponto, seguro se torna muito caro, ou em última instância as seguradoras deixam de A seleção adversa pode ainda tornar problemáticas as operações nos mercados de seguro de outras maneiras. Suponhamos que uma companhia seguradora esteja interessada em oferecer uma apólice pa- ra determinada ocorrência, como acidente automobilístico, que resulte em danos à propriedade. Ela es- colhe público-alvo por exemplo, homens com idade inferior a 25 anos ao qual pretende vender a apólice e, para tanto, faz uma estimativa da freqüência de acidentes dentro desse grupo. Para alguns desses indivíduos, a probabilidade de estar envolvido em um acidente é baixa, sendo muito inferior a 0,01; para outros, essa probabilidade é alta, sendo muito superior a 0,01. Se a companhia seguradora não conseguir distinguir entre os homens de alto e de baixo risco, ela baseará 0 prêmio para todos os ho- mens na experiência média observada isto é, conforme a probabilidade de acidentes de 0,01. Com me- lhores informações, algumas pessoas (aquelas com baixa probabilidade de se acidentarem) optarão por não adquirir esse seguro, ao passo que outras (aquelas com alta probabilidade de estarem envolvidas em acidentes) decidirão pela aquisição. Por sua vez, esse fato fará com que a probabilidade de acidentes en- tre os que optaram pelo seguro passe a ser superior a 0,01, obrigando a companhia seguradora a aumen- tar valor do prêmio. Em um caso extremo, apenas os indivíduos com elevada probabilidade de esta-CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 533 rem envolvidos em acidentes optarão pela aquisição do seguro, 0 que tornará impraticável a venda des- sa modalidade de apólice. Uma solução para 0 problema da seleção adversa é agrupar riscos. No caso do seguro-saúde, go- verno pode fazer seu papel, oferecendo programas de assistência médica a idosos ou incapacitados, nos moldes do norte-americano Medicare, por exemplo. Ao oferecer seguro para todas as pessoas aci- ma de 65 anos, governo elimina problema da seleção adversa. De maneira análoga, as segurado- ras tentam evitar, ou pelo menos reduzir, 0 problema da seleção adversa oferecendo seguros-saúde em grupo para funcionários de empresas. Ao cobrir todos os trabalhadores, saudáveis ou não, a segura- dora distribui os riscos e, assim, reduz a probabilidade de que muitos indivíduos com alto risco ad- quiram o seguro.² MERCADO DE CRÉDITO Ao usar um cartão de crédito, tomamos empréstimos sem a apresentação de nenhuma garantia. A maioria dos cartões permite que seu portador fique devendo vários milhares de dólares, e muitos indivíduos utilizam diversos cartões de crédito. As administradoras de cartões ganham dinheiro cobrando juros sobre os saldos devedores. Mas de que maneira uma administra- dora de cartões de crédito pode conseguir distinguir entre devedores de alta qualidade (aqueles que pagam suas dívidas) e devedores de baixa qualidade (aqueles que não pagam)? Certamente, os pró- prios devedores estão mais bem informados isto é, sabem mais sobre suas possibilidades de pagar do que a empresa de cartões de crédito. Novamente, surge problema dos produtos de qualidade duvidosa (lemons). Em comparação com os tomadores de empréstimo de alta qualidade, os de baixa qualidade estão mais propensos a desejar crédito, que acaba elevando a taxa de juros, que au- menta número de tomadores de empréstimo de baixa qualidade, 0 que, mais uma vez, força um aumento da taxa de juros, e assim por diante. Na verdade, as administradoras de cartões de crédito e os bancos podem, dentro de determinados limites, fazer uso de históricos de crédito computadorizados, que eles freqüentemente compartilham entre si, para distinguir devedores de alta qualidade dos de baixa qualidade. Muitos indivíduos são da opinião de que os históricos de crédito são uma invasão de sua privacidade. Devemos permitir que as empresas mantenham esses históricos e os compartilhem entre si? Não temos como responder a essa pergunta, mas podemos observar que os históricos de crédito preenchem uma importante função: eles eliminam, ou pelo menos reduzem bastante, os problemas de informações assimétricas e de seleção ad- versa, que de outra maneira poderiam impedir a operação das administradoras de cartões de crédito. Sem esses históricos, até os pagadores mais pontuais encontrariam sérias dificuldades na hora de pedir um empréstimo. IMPORTÂNCIA DA REPUTAÇÃO E DA PADRONIZAÇÃO As informações assimétricas estão também presentes em muitos outros mercados. Aqui estão apenas alguns exemplos: Lojas de varejo: será que a loja consertará ou permitirá que você devolva determinado produto defeituoso? A loja sabe mais a respeito da política que utiliza do que você. Lojas de raridades como selos, moedas, livros e pinturas: será que os itens são originais ou falsifica- dos? comerciante sabe muito mais a respeito da autenticidade desses objetos do que você. Telhadores, encanadores e eletricistas: quando um pedreiro faz um conserto ou reforma telhado de sua casa, você sobe para verificar a qualidade do trabalho realizado? Restaurantes: com que freqüência você vai à cozinha do restaurante para verificar se 0 chef utiliza ingredientes frescos e segue as normas sanitárias? Em todos esses casos, o vendedor sabe muito mais a respeito da qualidade do produto do que 0 comprador. A menos que os vendedores possam oferecer informações sobre qualidade para seus clientes, as mercadorias e os serviços de baixa qualidade acabarão eliminando as mercadorias e os serviços de alta qualidade do mercado, que vem a ser uma falha de mercado. Os vendedores de mer- Alguns argumentam que o agrupamento de riscos não é a principal justificativa do programa Medicare, pois histórico médico da maioria das pessoas está bem definido aos 65 anos, que tornaria possível, para as segura- doras, distinguir entre os indivíduos de alto e baixo risco. Outra justificativa para 0 Medicare seria a distribuição de renda. Após os 65 anos, até as pessoas relativamente saudáveis tendem a requerer mais assistência médica, que tornaria o seguro caro mesmo na ausência de informações assimétricas com isso, muitos idosos não teriam condições de adquiri-lo.534 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO cadorias e serviços de alta qualidade possuem, pois, um grande estímulo para tentar convencer os consumidores de que sua qualidade é realmente alta. Nos exemplos mencionados, isso é feito princi- palmente por meio da criação de reputação. Você faz compras em determinada loja porque ela possui reputação de dar assistência aos compradores de seus produtos; você contrata determinado pedreiro ou encanador porque ele tem reputação de executar bons serviços; você freqüenta determinado res- taurante porque ele possui reputação de utilizar ingredientes frescos e porque ninguém que conheça jamais ficou doente após ter comido lá. Às vezes, no entanto, torna-se impossível para uma empresa adquirir reputação. Por exemplo, co- mo a maioria dos clientes de um restaurante ou hotel em uma estrada freqüenta esses locais apenas uma vez, ou com pouca freqüência, os empresários desses setores não têm possibilidade de adquirir re- putação. Como esses estabelecimentos podem tratar do problema da incerteza sobre a qualidade dos produtos e dos serviços que vendem? Uma maneira seria a padronização. Em sua cidade natal, talvez vo- cê não queira comer regularmente em um McDonald's. No entanto, um McDonald's pode parecer mais atraente quando você estiver dirigindo em uma estrada e sentir vontade de dar uma parada para tomar um lanche. Por quê? Porque 0 McDonald's oferece um produto padronizado: os mesmos ingredientes são utilizados e os mesmos lanches são servidos em todos os McDonald's de qualquer lugar do país. Um restaurante desconhecido pode servir uma refeição até melhor, mas no McDonald's você sabe exatamen- te o que está adquirindo. EXEMPLO 17.1 Jogadores de qualidade duvidosa (lemons) na liga principal de beisebol Como podemos saber se estamos na presença de um mercado de produtos de qualidade duvidosa (lemons)? Uma maneira é comparar o desempenho dos produtos que costumam ser revendidos com de produtos similares que raramente voltam ao mercado. Em um mercado de produtos de qualidade duvidosa, como os compradores de artigos de segunda mão têm informações limitadas, os produtos re- vendidos devem ter qualidade menor do que os produtos que raramente surgem no mercado. Um desses mercados de 'segunda mão' foi criado há alguns anos nos Estados Unidos em virtude de uma alteração na legis- lação que regulamenta contratos de jogadores de equipes da primeira divisão de beisebol no país.³ Antes de 1976, as equipes de beisebol da primeira divisão possuíam direitos exclusivos para a renovação dos contratos de seus jogadores. Depois de uma sentença proferida em 1976, declarando ilegal tal exclusividade, criou-se um novo arranjo para as contratações. Após cumprirem seis anos de serviço nas equipes da primeira divisão, os jogadores podem assinar novos contratos com sua equi- pe original ou se tornarem donos do próprio passe para assinar contratos com outros times. A exis- tência de muitos jogadores donos do próprio passe criou um mercado de segunda mão para jo- gadores de As informações assimétricas estão fortemente presentes nesse mercado. A equipe original do jogador, um dos potenciais compradores, possui melhores informações a respeito das habili- dades dele do que as demais equipes. Se fosse 0 caso de automóveis usados, poderíamos confir- mar a existência de informações assimétricas comparando seus respectivos históricos de conser- tos. No caso do beisebol, podemos comparar os registros de contusões dos jogadores. Se o atleta estiver trabalhando com afinco e seguindo programas rigorosos de preparo físico, é bem provável que haja uma pequena chance de ele estar contundido e é alta a probabilidade de que venha a atuar mesmo que esteja. Em outras palavras, os jogadores mais motivados permanecerão menos tempo sem jogar em decorrência de contusões. No mercado de atletas de qualidade duvidosa (lemons), também é provável que os jogadores donos de seus passes tenham registros mais freqüentes de contusões do que aqueles com contratos regularmente renovados com suas equipes. Os jogadores podem também apresentar condições físicas que são do conhecimento de suas equipes originais, as quais os tornam candidatos menos desejáveis a uma possível renovação de contrato. Pelo fato de uma proporção maior de esses jogadores se tornarem donos do próprio passe, é bem provável que os donos do próprio passe apresentem uma possibilidade mais elevada de não jogar por mo- tivos de saúde. A Tabela 17.1, que apresenta 0 desempenho pós-contratual de todos os jogadores que assina- ram contrato por vários anos, revela dois pontos: em primeiro lugar, tanto os jogadores que se torna- Esse exemplo baseia-se no estudo do mercado de jogadores donos do próprio passe efetuado por Kenneth Lehn. Veja "Information asymmetries in baseball's free-agent market", Economic Inquiry, 1984, p. 37-44.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 535 TABELA 17.1 Dias perdidos por jogadores Dias perdidos com contusões por temporada Pré-contrato Pós-contrato Variação % Todos OS jogadores 4,73 12,55 165,4 Jogadores com contrato renovado 4,76 9,68 103,4 Jogadores donos do próprio passe 4,67 17,23 268,9 ram donos do próprio passe como os atletas com contrato renovado apresentam maiores taxas de contusão após a assinatura do contrato. Os dias perdidos por temporada (por causa de contusões) aumentam de uma média de 4,73 para 12,55. Em segundo lugar, as taxas de contusão pós-contra- tuais para jogadores com contrato renovado e não renovado são significativamente diferentes entre si. Na média, os jogadores com contrato renovado perdem 9,68 dias, enquanto os jogadores donos do próprio passe perdem 17,23 dias. Essas duas constatações sugerem que há um problema de qualidade duvidosa no mercado de jogadores donos do próprio passe porque os times de beisebol conhecem melhor seus próprios joga- dores do que os outros times com os quais competem. 17.2 SINALIZAÇÃO DE MERCADO Já vimos que as informações assimétricas podem às vezes ocasionar um problema de produtos de qualidade duvidosa: pelo fato de os vendedores saberem mais do que os compradores a respeito da qualidade de determinada mercadoria, os compradores podem presumir que sua qualidade seja baixa, que causa uma redução nos preços, e apenas os artigos de baixa qualidade passam a ser vendidos. Vi- mos também que a intervenção governamental (por exemplo, no mercado de seguro-saúde) ou o de- senvolvimento de uma reputação (por exemplo, no setor de serviços) pode ajudar a aliviar esse tipo de problema. Agora examinaremos um outro importante processo por meio do qual os vendedores e os compradores procuram resolver problema das informações assimétricas: a sinalização de merca- sinalização de mercado do. o conceito de sinalização de mercado foi originalmente desenvolvido por Michael Spence, que Processo pelo qual os ven- mostrou que, em alguns mercados, os vendedores enviam sinais aos compradores, transmitindo infor- dedores enviam sinais aos mações a respeito da qualidade de determinado compradores, transmitin- Para entendermos de que modo a sinalização de mercado funciona, examinaremos mercado de tra- do informações a respeito balho, que constitui um bom exemplo de mercado com informações assimétricas. Suponhamos que uma da qualidade do produto. empresa esteja considerando a possibilidade de contratar alguns funcionários. Os novos funcionários (os 'vendedores' de mão-de-obra) conhecem muito mais a respeito da qualidade do trabalho que podem ofe- recer do que a empresa (a 'compradora' de mão-de-obra). Por exemplo, os vendedores sabem com que afinco tendem a trabalhar, quão responsáveis são, quais são suas habilidades, e assim por diante. A em- presa só descobrirá isso depois que eles tiverem sido contratados e tenham trabalhado por algum tempo. Por que as empresas simplesmente não contratam trabalhadores, observam seus respectivos de- sempenhos e, então, demitem aqueles que apresentam baixa produtividade? Porque essa política se tor- na, na maioria das vezes, muito dispendiosa. Em primeiro lugar, em muitos países e em muitas organi- zações é muito difícil demitir alguém que já tenha trabalhado por mais do que apenas alguns meses. (A empresa pode ter de provar que foi por justa causa ou então ter de pagar as despesas relativas ao desli- gamento do funcionário.) Além disso, em muitos empregos os trabalhadores não se tornam plenamen- te produtivos antes de pelo menos seis meses. Durante esse período, pode ser necessário um considerá- vel treinamento interno, no qual a empresa tem de investir recursos substanciais. Portanto, a empresa pode não conhecer o grau de competência dos novos funcionários antes de um período de seis meses a um ano. Certamente, as empresas fariam um melhor negócio se pudessem saber quão produtivos são os potenciais funcionários antes que fossem admitidos. Quais características uma empresa pode investigar para obter dados relativos à produtividade dos indivíduos antes que sejam contratados? Os potenciais funcionários podem transmitir informações im- portantes a respeito de sua própria produtividade? Vestir-se bem para a entrevista inicial pode fornecer certas informações interessantes, entretanto, os indivíduos pouco produtivos também podem se vestir bem. Dessa maneira, vestir-se bem é um sinal fraco ele não ajuda muito a distinguir os indivíduos de Michael Spence, Market signaling. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974.536 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO alta produtividade dos de baixa produtividade. Para ser forte, um sinal deve ser mais facilmente transmitido por pessoas de alta produtividade do que por indivíduos de baixa produtividade, de tal modo que possa ser encontrado mais freqüentemente entre os indivíduos de alta produtividade. Por exemplo, a educação é um sinal forte no mercado de trabalho. nível educacional de um indi- víduo pode ser medido de diversas maneiras pelo número de anos de escolaridade, pelos títulos alcan- çados, pela reputação da universidade ou da faculdade na qual seus títulos foram obtidos, pela média de notas, e assim por diante. Certamente, a educação pode melhorar direta e indiretamente a produti- vidade de uma pessoa ao lhe proporcionar informações, habilidades e conhecimentos gerais que sejam úteis no trabalho. Mas, mesmo que a educação não melhorasse a produtividade de alguém, ela ainda se- ria um sinal útil de produtividade, pois os indivíduos mais produtivos têm mais facilidade para alcançar níveis elevados de educação. Não é surpreendente que os indivíduos produtivos tendem a ser mais in- teligentes, mais motivados, mais disciplinados e mais energéticos e trabalhadores características que também são úteis na escola. Portanto, é mais provável que os indivíduos produtivos consigam alcançar um nível mais elevado de educação, a fim de sinalizar sua produtividade para as empresas de modo que obte- nham cargos mais bem remunerados. Por isso, as empresas estão corretas em considerar a educação como sinal de produtividade. MODELO SIMPLES DE SINALIZAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO Para podermos compreender modo de funcionamento da sinalização, será útil discutirmos um modelo Vamos supor que haja apenas trabalhadores de baixa produtividade (Grupo I), cujos produtos médio e marginal sejam iguais a 1, e trabalhadores de alta produtividade (Grupo II), cujos produtos médio e marginal sejam iguais a 2. Esses trabalhadores serão contratados por empre- sas competitivas cujos produtos são vendidos por $10.000 e que esperam uma média de 10 anos de trabalho de cada funcionário. Estaremos também supondo que metade dos trabalhadores da popu- lação pertença ao Grupo I e a outra metade, ao Grupo II, de tal forma que a produtividade média de todos os funcionários seja igual a 1,5. Observe que a receita gerada pelos trabalhadores do Grupo I é de $100.000 ($10.000/ano X 10 anos) e pelos trabalhadores do Grupo II é de $200.000 ($20.000/ano 10 anos). Se as empresas pudessem identificar os indivíduos segundo sua respectiva produtividade, elas ofereceriam a todos uma remuneração igual à sua receita do produto marginal. Os indivíduos do Gru- po I receberiam $10.000 por ano e os do Grupo II, $20.000. Por outro lado, se as empresas não pudes- sem identificar tipo de produtividade dos candidatos antes de contratá-los, pagariam a todos uma mesma remuneração anual igual à produtividade média (ou seja, $15.000). Nesse caso, os trabalhado- res do Grupo I estariam recebendo mais ($15.000 em vez de $10.000) à custa dos trabalhadores do Gru- po II (que estariam recebendo $15.000 em vez de $20.000). Agora vamos considerar que poderia ocorrer com uma sinalização por meio da educação. Su- ponhamos que todos os atributos da educação (títulos obtidos, média de notas etc.) possam ser resu- midos por meio de um único índice, y, que representa os anos de educação superior. Toda formação educacional envolve um custo e, quanto mais elevado nível de escolaridade y, maior seu custo. Esse custo inclui as anuidades escolares e os livros, custo de oportunidade de salários abandonados e o custo psíquico de ter de se empenhar para obter notas altas. importante é que custo da educação é maior para grupo de baixa produtividade do que para grupo de alta produtividade. Esse fato pode se dar por duas razões. Em primeiro lugar, os trabalhadores de baixa produtividade poderiam simplesmente ser menos estudiosos. Em segundo lugar, os trabalhadores de baixa produtividade poderiam ter progres- so mais lento nos estudos para a obtenção dos títulos que visam a alcançar. Em particular, suponha- mos que, para os indivíduos do Grupo I, o custo da obtenção do nível educacional y seja expresso por: = $40.000y e para os indivíduos do Grupo II esse custo seja: $20.000y Agora, suponhamos que (para simplificarmos as coisas e darmos ênfase à importância da si- nalização) a educação não contribua para aumentar a produtividade dos indivíduos, e que seu único valor se- ja de servir como sinal. Vamos ver se conseguimos encontrar um equilíbrio de mercado no qual in- divíduos diferentes obtenham diferentes níveis de educação, e as empresas vejam a educação como sinal de produtividade. Esse é essencialmente 0 modelo desenvolvido na obra de Spence, Market signaling.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 537 EQUILÍBRIO Consideremos 0 seguinte equilíbrio. Suponhamos que as empresas utilizem a seguinte re- gra para tomada de decisão: qualquer pessoa com um nível de educação y* ou superior pertence ao Grupo II, sen- do a ela oferecida uma remuneração de $20.000, enquanto qualquer pessoa com um nível de educação menor do que y* faz parte do Grupo I, sendo a ela oferecida uma remuneração de $10.000. 0 nível específico y* que as empre- sas escolherão é arbitrário, mas, para que essa regra de tomada de decisão possa propiciar a obtenção de um equilíbrio, as empresas devem identificar corretamente os indivíduos. De outro modo, vão querer alterá-la. Será que essa regra pode funcionar? Para respondermos a essa pergunta, é necessário que façamos a determinação da quantidade de educação que os indivíduos de cada nível obterão, considerando que as empresas estejam utilizando essa regra para tomada de decisão. Para tanto, lembre-se de que a educação permite que uma pessoa obtenha um car- go mais bem remunerado. 0 benefício da educação B(y) é 0 aumento de remuneração associado ao nível de educação, conforme mostra a Figura 17.2. Observe que B(y) é inicialmente 0, que representa os $100.000 de rendimentos referentes a um período de 10 anos, supondo a inexistência de qualquer edu- cação universitária. Para um nível de educação abaixo de y*, B(y) permanece 0, porque 10 anos de ren- dimentos permanecem no nível básico estimado em $100.000. Entretanto, quando 0 nível de educação alcança valor igual ou superior 10 anos de rendimentos aumentam para $200.000, 0 que eleva B(y) para $100.000. Qual nível de educação os indivíduos deveriam obter? Evidentemente, a escolha estará entre ne- nhuma educação (isto é, y 0) e um nível de educação igual a Por quê? Qualquer nível de educação inferior a y* resultará no mesmo rendimento básico de $100.000. Portanto, não haverá benefício na ob- tenção de um nível de educação superior a 0, mas inferior a y*. Da mesma forma, não haverá nenhum benefício em obter um nível de educação acima de y*, porque y* é suficiente para permitir que uma pes- soa obtenha a remuneração mais elevada de $200.000. COMPARAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO Na tomada de decisão sobre nível de educação a ser obtido, os indiví- duos comparam benefício da educação (uma remuneração mais elevada) com seu respectivo custo. As pessoas em cada um dos grupos podem decidir 0 nível de educação que adquirirão fazendo os seguin- tes cálculos de custo-benefício: obtenha nível de educação y* se benefício (isto é, aumento de remuneração) Valor do (a) Grupo I Valor do (b) Grupo II ensino ensino superior superior $200.000 $200.000 (y) $40.000y $100.000 $100.000 (y) $20.000y B(y) B(y) 0 1 2 3 4 5 6 0 2 3 4 5 6 y* Anos de y* Anos de Escolha ótima de faculdade Escolha ótima de faculdade y para grupo I y para grupo II Figura 17.2 Sinalização A educação pode ser um sinal útil da alta produtividade de certo grupo de trabalhadores se for mais fácil de ser obtida por este grupo do que por um grupo de baixa produtividade. Em (a), 0 grupo de baixa produtividade escolherá um nível educacional y 0, porque cus- to da educação é maior do que 0 aumento de rendimentos resultantes da educação. Entretanto, em (b), grupo de alta produtividade escolherá nível y* 4, porque o aumento nos rendimentos é maior do que 0 custo.538 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO for pelo menos tão grande quanto custo da educação. Para ambos os grupos, 0 benefício (o aumento de re- muneração) é de $100.000. Entretanto, os custos diferem para os dois grupos. Para Grupo I, custo é de $40.000y, mas para o Grupo II, custo é de apenas $20.000y. Portanto, os indivíduos do Grupo I não obterão educação universitária se: $100.000 2,5 e as pessoas do Grupo II obterão educação universitária de nível y* se: $100.000 > ou y*CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 539 lhas, a empresa pode levar anos para reconhecer completamente esse seu talento. Considerando as informações assimétricas, qual política os empregadores devem utilizar para determinar aumentos de salário e promoções? Os funcionários talentosos e excepcionalmente produtivos podem sinalizar essas qualidades, recebendo, em conseqüência disso, promoções mais rápidas e salários mais altos? Os funcionários podem sinalizar que têm talento e produtividade trabalhando mais horas e com mais afinco. Por terem mais satisfação e prazer ao realizar seu trabalho, torna-se menos custoso para eles enviar esse tipo de sinal para os seus empregadores. Tal sinal é bastante forte: transmite infor- mações. Como resultado, os empregadores podem confiar nesse sinal, baseando-se nele para tomar decisões a respeito de salários e promoções. Esse processo de sinalização vem afetando a maneira de trabalhar de muitas pessoas. Em vez de um salário por hora, funcionários que trabalham em áreas que requerem conhecimentos técnicos especializados têm um salário fixo por semana (referente a 35 ou 40 horas de trabalho) e não rece- bem por horas extras. Ainda assim, costumam trabalhar muitas horas além de sua carga contratual por semana. Pesquisas do Ministério do Trabalho norte-americano (U.S. Labor Department), por exemplo, descobriram que a porcentagem das pessoas que trabalham 49 horas ou mais por semana aumentou de 13%, em 1976, para 19%, em Muitos advogados, contadores, consultores e pro- gramadores jovens costumam trabalhar à noite e durante os fins de semana perfazendo um total de 60 ou 70 horas semanais. É surpreendente que trabalhem tanto? Nem um pouco. Estão apenas ten- tando enviar sinais que podem influir bastante em suas carreiras. Os empregadores estão realmente confiando cada vez mais no valor do sinal "longas horas de trabalho", pois as rápidas mudanças tecnológicas diminuem as possibilidades de avaliar as habilidades e a produtividade dos funcionários. Um estudo sobre os engenheiros de software da Xerox Corpora- tion, por exemplo, mostrou que muitos deles trabalham à noite por medo de que seus chefes tenham deles a imagem de pessoas negligentes que escolhem as tarefas mais fáceis. Como deixam claro os chefes, esse medo é justificado: "Não temos como avaliar um funcionário que emprega conhecimen- to técnico especializado no trabalho com as novas tecnologias", disse um gerente da Xerox, "e por isso valorizamos aqueles que trabalham à noite". À medida que as empresas se tornam mais relutantes em oferecer estabilidade de emprego e que se intensifica a competição por promoções, os assalariados sofrem cada vez maior pressão para trabalhar horas a mais. Alguém que trabalhe 60 ou 70 horas por semana pode ver seu trabalho sob um ângulo otimista: está enviando fortes sinais à empresa. 17.3 MORAL Quando uma pessoa ou empresa encontra-se plenamente segurada e não pode ser meticulosa- mente monitorada por uma companhia de seguros, já que esta só dispõe de informações limitadas, a parte segurada pode agir de um modo que aumente a probabilidade de um acidente ou dano ocorrer. Por exemplo, se minha casa está segurada contra furto, posso me descuidar de trancar as portas ao sair; posso, também, optar por não instalar um sistema de alarme. A possibilidade de que o comportamento individual possa ser alterado após a contratação do seguro é um exemplo de um problema conhecido como risco moral. risco moral Quando uma o conceito de risco moral aplica-se não apenas ao problema dos seguros, mas também ao proble- parte apresenta ações que ma criado pelos trabalhadores que têm desempenho abaixo de suas potencialidades quando os empre- não são observadas e que gadores não podem monitorar seu comportamento. Em geral, risco moral ocorre quando as ações de podem afetar a probabili- uma parte, que não podem ser observadas por outra, influem na probabilidade ou na magnitude de um dade a magnitude de pagamento. Por exemplo, se possuo total cobertura de seguro-saúde, poderei passar a visitar médico um pagamento associado a um evento. com maior freqüência do que faria caso minha cobertura fosse limitada. Se a companhia seguradora pu- der monitorar o comportamento de seus segurados, poderá cobrar taxas mais elevadas dos segurados que demandam um atendimento mais amplo. Mas, se não puder fazê-lo, provavelmente perceberá que seus pagamentos estão sendo mais elevados do que 0 previsto. Dada a existência do risco moral, as com- panhias seguradoras podem se ver forçadas a aumentar 0 prêmio que cobram de seus clientes ou até mesmo a deixar de oferecer determinada modalidade de seguro. Por exemplo, consideremos as decisões com que se defrontam os proprietários de um armazém avaliado em $100.000 por sua companhia seguradora. Suponhamos que, se eles custearem um progra- "At the desk, off the clock and below statistical radar", New York Times, 18 jul. 1999. Os dados sobre horas traba- lhadas estão disponíveis no Current Population Survey (CPS), Bureau of Labor Statistics (BLS), em Persons at work in agriculture and nonagricultural industries by hours of work.540 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO ma de prevenção contra incêndios para seus funcionários no valor de $50, a probabilidade de que ocor- ra um incêndio será de 0,005. Sem esse programa de prevenção, a probabilidade aumenta para 0,01. Ao saber disso, a companhia de seguros enfrenta um dilema caso não possa monitorar a decisão da empre- sa na condução do programa de prevenção. A apólice que ela oferece não tem condições de incluir uma cláusula declarando que seu pagamento será realizado somente se for instituído um programa de pre- venção contra incêndios na empresa. Se tal programa estivesse em funcionamento, a companhia segu- radora poderia efetuar 0 seguro do armazém mediante um prêmio referente às perdas sofridas em de- corrência de um incêndio uma perda estimada igual a 0,005 X $100.000 $500. Entretanto, após a aquisição da apólice de seguro, os proprietários do armazém não terão estímulo para manter em vigor o programa de prevenção contra incêndios. Caso um sinistro como esse ocorra, suas perdas serão plena- mente cobertas. Portanto, se a companhia seguradora tiver vendido sua apólice por $500, ela terá pre- juízos, pois a perda esperada decorrente de incêndio será de $1.000 (0,01 $100.000). Risco moral não é apenas um problema de companhias seguradoras. Ele também altera a capaci- dade de os mercados alocarem recursos eficientemente. Na Figura 17.3, por exemplo, a curva D indica a demanda pela utilização de automóveis em milhas por semana. A curva da demanda, que expressa 0 benefício marginal da utilização de um automóvel, possui inclinação descendente porque muitas famí- lias mudam para tipos alternativos de transporte à medida que o custo da utilização do automóvel vai aumentando. Suponhamos, inicialmente, que custo de transporte inclua o custo do seguro correspon- dente e que as companhias seguradoras possam monitorar com precisão a quantidade de milhas roda- das pelos automóveis. Nesse caso, não há risco moral e custo marginal da utilização do automóvel é dado por CMg. Os motoristas sabem que uma maior utilização do automóvel aumenta seu respectivo prêmio de seguro e, dessa maneira, eleva também seu custo total de transporte (estamos supondo que custo por milha seja constante). Por exemplo, se 0 custo do transporte for de $1,50 por milha (do qual $0,50 refere-se ao custo do seguro), usuário do veículo optará por dirigir 100 milhas por semana. problema do risco moral surge quando as companhias seguradoras não conseguem monito- rar os hábitos individuais de utilização do automóvel, de modo que 0 prêmio do seguro não é calcu- lado em virtude de milhas percorridas. Nesse caso, os usuários de automóveis estarão supondo que os custos de quaisquer acidentes que possam sofrer serão distribuídos entre um grande grupo, e que apenas uma fração insignificante afetará individualmente cada um deles. Como seu prêmio de segu- ro não varia em função da quantidade de milhas percorridas, uma milha adicional de transporte cus- tará $1, conforme mostrado na curva do custo marginal CMg', em vez de $1,50. número de milhas percorridas aumentará de 100 para 0 nível socialmente ineficiente de 140. o risco moral não apenas altera comportamento dos indivíduos, mas também cria ineficiência econômica. A ineficiência surge porque, com seguro, a percepção individual tanto do custo como do benefício da atividade difere do custo e do benefício reais para a sociedade. Por exemplo, na Figura 17.3, Custo por milha $2,00 $1,50 CMg $1,00 CMg' $0,50 D BMg 0 50 100 140 Milhas por semana Figura 17.3 Os efeitos do risco moral 0 risco moral altera a capacidade de os mercados alocarem recursos eficientemente. A curva D representa a demanda por utilização de automóveis. Sem risco moral, 0 custo marginal de transporte, CMg, é de $1,50 por milha; 0 motorista dirige 100 milhas, 0 que representa uma quantidade eficiente. Com risco moral, custo marginal por milha percebido pelo motorista é CMg' = $1,00, e ele dirige 140 milhas.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 541 o nível da ineficiência da utilização do automóvel é dado pela da curva de benefício margi- nal (BMg) com a de custo marginal (CMg). Com risco moral, no entanto, 0 custo marginal percebido (CMg') é menor do que 0 custo real, e número de milhas percorrido por semana (140) é maior do que 0 nível eficiente, no qual custo marginal é igual ao benefício marginal (100). EXEMPLO 17.3 Reduzindo o risco moral: garantias de saúde animal Compradores de gado consideram muito importantes as informações a respeito da saúde dos Animais com pouca saúde ganham peso mais lentamente e apresentam menor probabilidade de reprodução do que animais sadios. Pelo fato de haver informações assimétricas no mercado de gado (isto é, os vendedores conhecem melhor a saúde do animal do que comprador), a maior parte dos estados nor- te-americanos exige certificado para a realização de vendas no mercado pecuarista. De acordo com essas leis, os vende- dores não só garantem (certificam) que seus animais não têm doenças ocultas, como também são responsáveis por todos os custos decorrentes de qualquer animal doente. Embora os certificados resolvam problema relacionado ao fato de que vendedor possui me- lhores informações do que comprador, eles criam um tipo de risco moral. A garantia de reembolso ao comprador de todos os custos decorrentes de doenças dos animais significa, na realidade, que as taxas de seguros não estão vinculadas aos níveis de cuidados que os compradores ou seus agentes de- veriam ter para proteger os animais contra as doenças em geral. Em conseqüência da existência des- ses certificados, os compradores de gado evitam solicitar diagnósticos precoces para animais doen- tes, de tal maneira que os prejuízos aumentam. Em resposta ao problema do risco moral, muitos estados introduziram modificações nas leis que regulamentam os certificados, passando então a exigir que os vendedores informem aos compra- dores se gado está ou não doente no momento da venda. Alguns estados também exigem que os vendedores cumpram os requisitos das legislações estaduais e federais referentes à saúde animal, re- duzindo assim as doenças. Além dessas medidas, entretanto, os certificados de que os animais não tenham doenças ocultas devem constituir uma garantia explícita adicional, escrita ou verbal, que precisa ser dada aos compradores. 17.4 PROBLEMA DA RELAÇÃO AGENTE-PRINCIPAL Se as informações estivessem amplamente disponíveis e se a monitoração da produtividade dos trabalhadores não envolvesse custos, os proprietários de uma empresa poderiam estar seguros de que seus administradores e funcionários estariam trabalhando efetivamente. Entretanto, na maioria das problema da relação agente-principal Pro- empresas, os proprietários não têm condições de acompanhar tudo 0 que seus funcionários fazem es- blema que surge quando tes estão mais bem informados do que os proprietários. Essa assimetria de informações cria 0 proble- os agentes (os administra- ma da relação agente-principal. dores de uma empresa, Dizemos que há uma relação de agência sempre que há um arranjo entre pessoas no qual o bem-es- por exemplo) perseguem tar de um dos participantes depende daquilo que é feito por uma outra pessoa, também participante. suas próprias metas em vez das metas dos princi- agente representa a pessoa atuante, e principal, a parte que é afetada pela ação do agente. proble- pais (os donos da empre- ma da relação agente-principal surge quando os agentes perseguem seus próprios objetivos, e não os do principal. Em sa, por exemplo). nosso exemplo, o administrador e os funcionários são os agentes, e os proprietários, os principais. Nes- se caso, o problema da relação agente-principal surge do fato de que os administradores podem perse- guir os próprios objetivos, mesmo que isso acarrete lucros menores para os proprietários. agente Indivíduo empre- As relações de agência estão disseminadas em nossa sociedade. Por exemplo, médicos trabalham gado por um principal pa- ra atingir os objetivos deste. para hospitais como agentes e, assim, podem selecionar seus pacientes e adotar procedimentos que, mesmo coerentes com suas preferências pessoais, não são necessariamente coerentes com os objetivos do próprio hospital. Da mesma forma, administradores de imóveis residenciais que trabalham como principal Indivíduo que agentes para proprietários podem não estar efetuando a manutenção dos imóveis da forma que seus emprega um mais proprietários gostariam. E, algumas vezes, as partes seguradas podem ser consideradas agentes e as agentes para atingir um companhias de seguro, os principais. objetivo. Esse exemplo baseia-se no artigo de Terence J. Centner e Michael E. Wetzstein, "Reducing moral hazard associated with implied warranties of animal health", American Journal of Agricultural Economics 69, 1987, p. 143-150.542 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO De que maneira as informações incompletas e a monitoração dispendiosa influenciam modo de ação dos agentes? Quais mecanismos podem dar aos administradores o estímulo para que operem em sintonia com os interesses do proprietário? Essas perguntas são fundamentais em qualquer aná- lise da relação agente-principal. Nesta seção, estudaremos essa questão a partir de diversas perspec- tivas. Em primeiro lugar, examinaremos 0 problema da relação entre proprietário e administrador dentro de empresas privadas e públicas. Em seguida, abordaremos os meios pelos quais os proprietá- rios podem utilizar acertos contratuais com seus funcionários para enfrentar os problemas da relação agente-principal. 0 PROBLEMA DA RELAÇÃO AGENTE-PRINCIPAL EM EMPRESAS PRIVADAS Uma família ou instituição financeira possui mais de 10% das ações de apenas 16 das 100 maio- res indústrias Claramente, pois, a maioria das empresas de grande porte é contro- lada por administradores. fato de que grande parte dos acionistas individuais possui apenas uma pequena porcentagem do capital acionário das empresas torna difícil a obtenção de informações a respeito do desempenho de seus administradores. Uma das funções dos proprietários (ou de seus re- presentantes) é monitorar 0 comportamento de seus administradores. Entretanto, tal monitoramen- to é dispendioso, e sai caro, especialmente para um único indivíduo, obter e utilizar informações. Os administradores de empresas privadas podem, assim, procurar atingir seus próprios objetivos. Mas quais são tais objetivos? Há um ponto de vista segundo 0 qual eles poderiam estar mais preocupados com crescimento das vendas do que com 0 lucro propriamente dito: quanto mais rápido o crescimento das vendas e maior a fatia do mercado, melhor fluxo de caixa, que, por sua vez, permite que os admi- nistradores obtenham maiores compensações. Um outro ponto de vista enfatiza a utilidade que os ad- ministradores obtêm com seus cargos, não apenas em termos de lucro, mas também em relação ao respeito por parte dos colegas de empresa, ao poder de controle sobre a organização, aos benefícios adicio- nais e outras compensações e a uma permanência mais longa no emprego. Entretanto, há importantes limitações com relação à possibilidade de os administradores se desviarem dos objetivos dos proprietários. Em primeiro lugar, os acionistas podem reclamar com vee- mência ao sentir que os administradores estão se comportando de maneira inadequada e, em casos excepcionais, podem até demitir a administração existente (talvez com a ajuda do conselho de dire- tores, cuja função é acompanhar comportamento dos administradores). Em segundo lugar, um for- te mercado para controle acionário pode se desenvolver. Se as chances de ocorrer uma oferta para obter controle acionário são maiores quando a empresa estiver sendo mal dirigida, seus administra- dores passarão a ter um forte estímulo para procurar alcançar 0 objetivo de maximização de lucros. Em terceiro lugar, pode haver um mercado altamente expandido para administradores. Se houver uma grande demanda por administradores capazes de maximizar os lucros, eles poderão receber al- tas remunerações, que, por sua vez, proporciona a outros administradores um estímulo para alcan- çar o mesmo objetivo. Infelizmente, os meios de que dispõem os acionistas para controlar o comportamento dos ad- ministradores são limitados e imperfeitos. Por exemplo, a aquisição do controle acionário de empre- sas pode ser motivada pelo poder pessoal e econômico em vez de pela eficiência econômica. o merca- do de trabalho dos administradores pode também não ter um bom andamento, já que, muitas vezes, os principais executivos já se encontram próximos da aposentadoria e ainda possuem contratos de longa duração. o problema do controle limitado por parte dos acionistas torna-se mais grave no caso da remuneração dos executivos, que cresceu de maneira muito rápida nas últimas décadas. Em 2002, um levantamento da revista Business Week entre as 365 maiores empresas norte-americanas mostrou que os CEOs receberam, em média, $13,1 milhões no ano 2000, e os salários continuaram a aumen- tar a uma taxa de dois dígitos. Ainda mais perturbador é o fato de que, para as dez empresas de capi- tal aberto dirigidas pelos CEOs mais bem pagos, havia uma correlação negativa entre a remuneração do CEO e 0 desempenho da empresa. Fica claro que os acionistas não têm sido capazes de controlar adequadamente o comportamento dos administradores. 0 que pode ser feito para contornar esse problema? Em teoria, a resposta é sim- ples: precisamos encontrar mecanismos que alinhem melhor os interesses de administradores e acio- nistas. Na prática, porém, isso parece difícil. Entre as sugestões recentemente postas em prática pela Securities and Exchange Commission (SEC),* que regula as empresas de capital aberto nos Estados Uni- dos, há reformas que conferem mais autoridade a diretores externos independentes. Outras reformas 8 Veja Merritt B. Fox, Finance and industrial performance in a dynamic economy. Nova York: Columbia University Press, 1987. No Brasil, órgão que exerce as ações equivalentes à SEC é a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) (N.R.T.).CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 543 possíveis poderiam vincular a remuneração dos executivos mais diretamente ao desempenho de longo prazo da empresa. Programas de recompensa com foco na lucratividade em um período de 5 a 10 anos têm mais chance de motivar os administradores de maneira eficiente do que as de horizonte mais cur- to. Na próxima seção, abordaremos algumas outras soluções para esse importante problema o da re- lação agente-principal. EXEMPLO 17.4 Os salários dos CEOs Quando Jack Welch se aposentou como CEO da General Electric em 2001, seu salário era de $16,7 milhões, e os dividendos de suas ações e outros benefícios lhe rendiam mais alguns milhões. Além disso, seus direitos pós-aposentadoria incluíam uma renda mensal de $2,1 milhões, a utilização de um apartamento da empresa em Manhattan e o uso sem limites de um jato comercial modelo Boeing 737, também de propriedade da empresa. Em 2002, 0 novo CEO da GE, Jack Immelt, usu- fruía um pacote de remuneração que remontava a $23,6 milhões, ainda que, naquele ano, retorno total da GE para os acionistas tivesse ficado em 37,7% negativos.⁹ Outros CEOs também têm recebi- do pacotes de remuneração extremamente generosos, mesmo quando suas empresas apresentam baixo desempenho. A remuneração dos CEOs tem subido em ritmo acelerado nas últimas três décadas. Em dóla- res constantes de 1998, o salário médio anual dos profissionais norte-americanos passou de $32.522, em 1970, para $35.864, em 1999. No mesmo período, a remuneração anual média dos 100 CEOs mais bem cotados do mercado passou de $1,3 milhão para $37,5 milhões. Em outras palavras, se os CEOs antes ganhavam 40 vezes mais do que um profissional médio, ao longo das últimas três décadas passaram a ganhar 1.000 vezes mais.¹⁰ Por quê? Será que os altos executivos tornaram-se mais produtivos, ou será que os CEOs estão simplesmente explorando suas empresas? A resposta reside no problema da relação agente-principal, que está na raiz da determinação do salário para esse tipo de profissional. Durante anos, muitos economistas acreditaram que a remuneração dos executivos refletia a re- compensa apropriada por seu talento. Os indícios recentes, porém, sugerem que os administradores conseguiram aumentar seu poder sobre os conselhos diretivos e vêm usando esse poder para obter pacotes de remuneração que não condizem com sua contribuição econômica às empresas. Em essên- cia, os administradores vêm aumentando, a passos largos, sua capacidade de obter renda econômi- ca.¹¹ Como isso aconteceu? Em primeiro lugar, a maioria dos conselhos diretivos não dispõe das informações necessárias nem de independência para negociar de maneira efetiva com os administradores. Os conselhos são compostos por membros internos os altos executivos ou seus representantes e membros externos, que são escolhidos pelos altos executivos e muitas vezes têm grande proximidade com eles. Esses di- retores não são capazes de monitorar adequadamente desempenho dos executivos e, assim, não podem negociar a remuneração deles de maneira Além disso, quando um membro do con- selho não apóia o CEO, muitas vezes pedem a ele que renuncie. Somente se um pacote de remune- ração for considerado ultrajante, do ponto de vista de observadores externos, os membros do conse- lho começam a negociar agressivamente em nome dos interesses dos acionistas. Em segundo lugar, os administradores introduziram formas de remuneração que camuflam a transferência de renda do bolso dos acionistas para 0 bolso deles. Opções de ações, por exemplo, po- dem render payoffs substanciais aos executivos, mas aparentemente não custam nada, pois as em- presas não têm de contá-las como despesa nos livros contábeis. Por que essa obtenção de renda aumentou tanto ao longo do tempo? Uma razão é que fre- qüentemente os conselhos diretivos perguntam a consultores de remuneração quanto os CEOs de outras empresas ganham. Como, em geral, a empresa quer que seu CEO receba pelo menos 0 salário médio dos outros CEOs, resultado vem sendo uma tendência de crescimento na remuneração. Com a publicidade em torno dos altos salários dos CEOs, 0 quadro da obtenção de renda cria- do pelo problema da relação agente-principal começou a mudar um pouco em 2002 e 2003. paco- "GE's Immelt compensation tops $23 million: Graef Crystal", Bloomberg News, abr. 2003. 10 "Does class count in today's land of opportunity?" New York Times, 18 jan. 2003, citando um trabalho do so- ciólogo Paul W. Kingston. Resultados semelhantes em diferentes períodos de tempo podem ser vistos em www.aflcio.org/corporateamerica/paywatch. 11 Uma discussão detalhada desse tópico pode ser encontrada em Lucian Arye Bebchuk, Jesse M. Fried e David I. Walker, "Managerial power and rent extraction in the design of executive compensation", University of Chicago Law Review 69, 2002, p. 751-846.544 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO te médio de pagamentos totais aos executivos de 209 empresas cresceu 11,8%, bem acima da taxa de inflação, mas menos do que nos anos anteriores.¹² Se esse crescimento menor continuar nos próxi- mos anos, será provavelmente resultado de reformas que relacionam de maneira mais próxima a re- muneração do CEO a sua produtividade individual. 0 PROBLEMA DA RELAÇÃO AGENTE-PRINCIPAL EM EMPRESAS PÚBLICAS A análise da relação agente-principal pode também ajudar a estudar 0 comportamento de admi- nistradores de órgãos públicos. Esses administradores podem estar interessados em poder e em gratifi- cações, objetivos que podem ser alcançados expandindo-se órgão para além de seu nível 'eficiente'. Devido ao alto custo do monitoramento do comportamento dos administradores públicos, não há ga- rantias de que eles atingirão níveis eficientes de produção. Investigações realizadas pelo Legislativo so- bre determinado órgão do governo provavelmente não serão eficazes, uma vez que 0 órgão possui um número maior de informações a respeito de seus próprios custos do que dispõe Legislativo. Embora setor público não esteja submetido às forças de mercado que mantêm os administrado- res de empresas privadas sob controle, ainda assim os órgãos do governo podem ser monitorados com eficácia. Em primeiro lugar, os administradores desses órgãos preocupam-se com muitos aspectos além do tamanho das agências governamentais que dirigem. De fato, muitos deles optaram por cargos públi- de baixa remuneração por se preocupar com o 'interesse Em segundo lugar, os administra- dores públicos estão sujeitos aos rigores de seu mercado de trabalho de modo muito semelhante aos profissionais de empresas privadas. Se for constatado que determinados administradores públicos es- tão procurando alcançar objetivos impróprios, a possibilidade de obter altos salários no futuro pode di- minuir. Em terceiro lugar, as legislaturas e outros órgãos governamentais executam uma função de su- pervisão. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Government Accounting Office e o Office of Management and Budget utilizam uma parte substancial de sua capacidade de trabalho no monitoramento de outros órgãos governamentais norte-americanos. Os administradores públicos estão sujeitos a um grau de controle local ainda maior do que o fe- deral. Por exemplo, suponhamos que 0 departamento de transporte de um município tenha expandido os serviços de transporte coletivo além do nível eficiente. Os cidadãos podem se mobilizar para destituir esses administradores de seus cargos, ou, se tudo mais falhar, utilizar transportes alternativos (ou até mesmo deixar a cidade). A competição entre órgãos públicos pode ser tão efetiva quanto a competição entre empresas privadas para controlar o comportamento dos administradores. EXEMPLO 17.5 Os administradores de hospitais sem fins lucrativos como agentes Será que os administradores de organizações sem fins lucrativos têm os mesmos objetivos que os de organizações com fins lucrativos? As instituições sem fins lucrativos são mais ou menos eficientes do que as empresas com fins lucra- tivos? Podemos ter uma noção desse assunto ao examinar a área de saúde. Em um estudo abrangendo 725 hospitais per- tencentes a 14 grandes redes, pesquisadores compararam retorno dos investimentos e os custos médios de organiza- ções sem fins lucrativos e de organizações com fins lucrativos para poder determinar se seus respectivos desempenhos apresentavam 0 estudo revelou que, em 1977 e 1981, retorno dos investimentos realmente havia sido dife- rente. Em 1977, por exemplo, os hospitais com fins lucrativos apresentaram uma taxa de retorno de 11,6%, enquanto para os hospitais sem fins lucrativos a taxa foi de apenas 8,8%. Em 1981, os hospi- tais com fins lucrativos apresentaram taxa de retorno de 12,7% e, no caso dos hospitais sem fins lu- crativos, a taxa foi de apenas 7,4%. Entretanto, não é apropriada uma comparação direta entre as ta- xas de retorno e os custos desses dois tipos de hospitais, dado que eles têm funções diferentes. Por exemplo, 24% dos hospitais sem fins lucrativos oferecem programas de residência médica, em com- paração com apenas 6% dos hospitais com fins lucrativos. Diferenças semelhantes podem ser encon- tradas no fornecimento de tratamentos especializados, em que 10% dos hospitais sem fins lucrativos 12 "2002 pay raises show smaller stock option grants: Graef Crystal", Bloomberg News, 4 abr. 2003. 13 Regina E. Herzlinger e William S. Krasker, "Who profits from nonprofits?" Harvard Business Review 65, jan.-fev. 1987, p. 93-106.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 545 possuem centros de cirurgia cardiológica, em comparação com apenas 5% dos hospitais com fins lu- crativos. Além disso, 43% dos hospitais sem fins lucrativos possuem unidades para atendimento de bebês prematuros, e, entre os hospitais com fins lucrativos, essa taxa é de 29%. Utilizando uma análise de regressão linear, que leva em conta as distinções entre os diferen- tes serviços prestados, é possível determinar se essas diferenças podem ser responsáveis por cus- tos mais elevados. 0 estudo revelou que, após os ajustes entre as diferenças de serviço, 0 custo mé- dio diário por paciente nos hospitais sem fins lucrativos era 8% mais alto do que nas instituições com fins lucrativos. Essa diferença implica que a preocupação com 0 lucro afeta desempenho do hospital, conforme previsto pela teoria da relação agente-principal: não estando diante de forças competitivas, como ocorre com os hospitais com fins lucrativos, as instituições de saúde sem fins lucrativos podem estar se preocupando menos com seus custos e, portanto, apresentando menor probabilidade de servir apropriadamente como agentes de seus principais isto é, a sociedade co- mo um todo. Certamente os hospitais sem fins lucrativos oferecem serviços que a sociedade pode estar disposta a Entretanto, custo adicional de funcionamento de um hospital sem fins lu- crativos deveria ser levado em conta ao se determinar se ele deve ou não ficar isento do pagamen- to de impostos. INCENTIVOS NO SISTEMA AGENTE-PRINCIPAL Já vimos por que os objetivos de administradores e proprietários têm probabilidade de ser diferen- tes em um sistema baseado na relação agente-principal. Sendo assim, de que maneira podem ser ela- borados sistemas de recompensa de tal forma que administradores e funcionários possam se aproximar ao máximo dos objetivos do proprietário da empresa? Para responder a essa questão, vamos analisar um problema específico. Uma pequena empresa utiliza trabalho e capital para produzir relógios. Seus proprietários têm in- teresse em maximizar os lucros. Eles precisam confiar em um técnico de máquinas cujo empenho in- fluirá na probabilidade de que as máquinas quebrem e, portanto, afetará o nível de lucros da empresa. Esse nível também depende de outros fatores aleatórios, como a qualidade das peças e a confiabilidade de outros trabalhadores. Em conseqüência do alto custo de monitoramento, os proprietários não podem medir diretamente o empenho do encarregado da manutenção nem podem se assegurar de que mes- mo empenho sempre gere mesmo nível de lucros. A Tabela 17.2 descreve essas circunstâncias. Ela mostra que o encarregado da manutenção pode ter um empenho alto ou baixo. Um baixo em- penho (a 0) resulta em receitas de $10.000 ou de $20.000 (ambos com iguais probabilidades de ocor- rência), dependendo dos fatores aleatórios mencionados anteriormente. Demos a denominação de 'azar' ao nível mais baixo de receitas e a denominação de 'sorte' ao mais alto. Quando o encarregado da manutenção se empenha mais (a 1), a receita pode ser de $20.000 (havendo azar) ou de $40.000 (ha- vendo sorte). Esses números evidenciam problema das informações incompletas: quando a receita da empresa for de $20.000, os proprietários não poderão saber se 0 encarregado da manutenção teve mais ou menos empenho. Agora suponhamos que objetivo do encarregado da manutenção seja maximizar sua remunera- ção, menos o custo (em termos das horas de lazer que deixou de desfrutar e do trabalho desagradável que tem de fazer) de seu empenho. Para simplificarmos, estamos supondo que 0 custo do baixo empe- nho seja 0 e que custo do alto empenho seja $10.000 (conforme a equação, $10.000a). A partir daí, poderemos enunciar problema da relação agente-principal sob a perspectiva do proprietário. objetivo do proprietário é maximizar lucro esperado levando em conta a existência de incerteza quanto aos resultados e considerando que comportamento do encarregado da manu- tenção não pode ser monitorado. Os proprietários podem fazer um contrato para remunerar 0 traba- lho do encarregado da manutenção, mas esse contrato deve estar baseado inteiramente no resultado mensurável (isto é, no lucro) do processo produtivo e não no grau de empenho do encarregado da ma- nutenção. Para caracterizarmos essa ligação, descreveremos 0 esquema de pagamento como w(R), dando ênfase ao fato de que os pagamentos serão feitos apenas em virtude da receita medida. TABELA 17.2 Receitas no mercado de relógios Azar Sorte Baixo empenho (a = 0) $10.000 $20.000 Alto empenho 1) $20.000 $40.000546 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO Qual é o melhor esquema de remuneração? Será que tal esquema pode ser tão eficaz quanto al- gum outro que se baseasse no grau de empenho e não na produção? Aqui poderemos apenas começar a examinar as respostas a essas questões. melhor esquema de remuneração depende da natureza da produção, do grau de incerteza e dos objetivos tanto de proprietários como de administradores. o arran- jo escolhido nem sempre será tão efetivo quanto um esquema ideal que esteja diretamente ligado ao grau de empenho. A falta de informações pode reduzir a eficiência econômica porque há possibilidade de que tanto a receita dos proprietários como a remuneração do encarregado da manutenção sejam re- duzidos ao mesmo tempo. Vamos ver de que forma poderia ser elaborado um esquema de remuneração caso 0 funcionário encarregado da manutenção estivesse disposto a maximizar sua remuneração líquida, ou seja, com a re- dução dos custos de seu empenho.¹⁴ Em primeiro lugar, suponhamos que os proprietários ofereçam uma remuneração fixa para 0 encarregado da manutenção. Qualquer uma serviria, mas torna-se mais fácil estabelecer uma remuneração igual a 0. (Aqui, 0 poderia representar um salário que não fosse mais al- to do que aquele normalmente pago para cargos compatíveis.) Estando diante de uma remuneração 0, 0 encarregado da manutenção não teria nenhum estímulo para ter um empenho maior. A razão é sim- ples: ele não estaria compartilhando dos ganhos que os proprietários obteriam com 0 maior empenho. Conclui-se, portanto, que uma remuneração fixa proporcionaria um resultado ineficiente. Quando a = 0 e W 0, 0 proprietário obtém uma receita esperada de $15.000, e a remuneração líquida do encarre- gado de manutenção Seria vantajoso tanto para os proprietários como para encarregado da manutenção que fosse uti- lizado um esquema de remuneração que recompensasse funcionário por seu empenho produtivo. Su- ponhamos, por exemplo, que os proprietários ofereçam ao encarregado da manutenção o seguinte es- quema de remuneração: Se R $10.000 ou $20.000, então W = 0 (17.1) Se R $40.000, então $24.000 Sob esse arranjo de gratificação, um baixo empenho resulta em nenhuma remuneração. Entre- tanto, um alto empenho gera uma remuneração esperada de $12.000, e uma remuneração esperada me- nos custo do empenho equivalente a $12.000 $10.000 $2.000. Nesse esquema, encarregado da manutenção optará por um alto nível de empenho. Esse esquema é mais vantajoso do que anterior pa- ra os proprietários, porque eles têm uma receita esperada de $30.000 e um lucro esperado de $18.000. Entretanto, esse não é único esquema de remuneração que pode ser utilizado pelos proprietá- rios. Suponhamos que tivessem acertado um contrato em que trabalhador estivesse envolvido em um arranjo de participação nos lucros, como apresentado a seguir. Quando a receita for maior do que $18.000: R $18.000 (17.2) (Caso contrário a remuneração é igual a zero.) Nesse caso, se o encarregado da manutenção trabalhar com baixo empenho, ele obterá um ganho esperado de $1.000. Mas, se trabalhar com um alto nível de empenho, sua remuneração esperada será de $12.000, e sua remuneração esperada menos custo de seu empenho, que é de $10.000, será de $2.000. (0 lucro líquido do principal seria de $18.000, da mes- ma forma que antes.) Portanto, nesse nosso exemplo, um arranjo de participação nas receitas gera 0 mesmo resultado que 0 sistema de remuneração com gratificação. Em situações mais complexas, serão diferentes os es- tímulos proporcionados por esses dois tipos de arranjo. Entretanto, a idéia básica aqui ilustrada aplica- se a todos os problemas que envolvem a relação agente-principal. Quando se torna impossível a medi- ção direta do empenho pessoal, uma estrutura de incentivos que seja capaz de recompensar 0 resultado obtido por altos níveis de empenho pode induzir os agentes a procurar alcançar os objetivos estabeleci- dos pelos proprietários. *17.5 INCENTIVOS AOS ADMINISTRADORES DE UMA EMPRESA INTEGRADA Já tivemos a oportunidade de ver que proprietários e administradores de empresas podem possuir informações assimétricas sobre demanda, custo e outras variáveis. Já vimos, também, de que maneira 14 Presumimos que, como encarregado da manutenção é neutro a riscos, não ocorre nenhuma perda de eficiência. Entretanto, se ele fosse avesso a riscos, haveria perda de eficiência.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 547 os proprietários podem elaborar estruturas de remuneração para estimular administradores a oferecer um grau apropriado de empenho pessoal. Agora enfocaremos as empresas integradas ou seja, aquelas que têm diversas divisões, cada uma das quais com seus próprios administradores. Algumas empresas integração horizontal são horizontalmente integradas: diversas fábricas produzem mesmo produto ou produtos correla- Forma organizacional na tos. Há também as verticalmente integradas: divisões iniciais produzem materiais, peças e compo- qual várias fábricas pro- nentes para serem utilizados pelas divisões finais na montagem dos produtos finais. A integração cria duzem o mesmo produto problemas organizacionais; já abordamos alguns deles no apêndice do Capítulo 11, em que discutimos produtos correlatos pa- a determinação dos preços de transferência na empresa verticalmente integrada ou seja, 0 modo pelo qual ra uma empresa. a empresa estabelece os preços de peças e componentes que as divisões iniciais fornecem às divisões fi- nais. Aqui, vamos examinar os problemas originados pelas informações assimétricas. integração vertical For- ma organizacional na qual uma empresa possui diver- INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS E INCENTIVOS NA EMPRESA INTEGRADA sas divisões e algumas delas produzem peças e Em uma empresa integrada, os administradores das divisões provavelmente dispõem de informa- componentes que outras ções mais completas do que a administração central sobre seus custos operacionais diferenciados e seu utilizam para a montagem potencial de produção. Essas informações assimétricas causam dois problemas. dos produtos finais. 1. De que maneira uma administração central pode obter informações adequadas com os ad- ministradores de cada divisão a respeito dos custos operacionais e de seu potencial de pro- dução? Essas informações são importantes pelos seguintes motivos: os produtos de algumas divisões podem ser insumos para outras, as entregas devem ser programadas com os clien- tes, e os preços não podem ser determinados sem que seja conhecida a capacidade e o custo total da produção. 2. Que estrutura de recompensa ou de incentivo deve ser utilizada pela administração cen- tral para estimular os administradores das divisões a produzir da maneira mais eficiente possível? Eles devem receber gratificações baseadas em seus respectivos níveis de produ- ção? Em caso afirmativo, de que modo essa estrutura de remuneração poderia ser orga- nizada? Para compreender esses problemas, considere uma empresa que possua diversas fábricas, to- das produtoras da mesma mercadoria. Cada um de seus administradores dispõe de um número maior de informações a respeito da capacidade de produção de sua divisão do que a administração central. Por sua vez, para evitar atrasos na produção e para que as entregas possam ser planejadas de modo confiável, a administração central da empresa está interessada em saber mais a respeito da capacidade de produção de cada uma das fábricas. Ela também deseja que cada uma produza o máximo possível. Vamos examinar de que maneiras ela pode obter as informações que deseja e co- mo pode estimular os administradores a operar suas respectivas unidades da forma mais eficiente possível. Uma maneira seria dar aos administradores das fábricas determinada gratificação com base na produção total de suas unidades ou em seu lucro operacional. Embora essa abordagem pudesse estimu- lar os administradores a maximizar produto, ela puniria os administradores cujas fábricas apresentas- sem custos mais altos e menor capacidade de produção. Mesmo que essas fábricas viessem a produzir efi- cientemente, seus respectivos níveis de produção e lucro operacional e, portanto, a gratificação seriam menores do que os das fábricas com custos mais baixos e maior capacidade de produção. Esses adminis- tradores também não teriam nenhum incentivo para obter e revelar informações precisas a respeito de custo e capacidade. Uma segunda maneira seria perguntar aos administradores das fábricas a respeito de seus respec- tivos custos e capacidades e depois realizar um cálculo da gratificação de cada um deles em relação à exa- tidão de suas respostas. Por exemplo, poderia ser perguntado a cada administrador qual quantidade sua fábrica pode produzir anualmente. Posteriormente, no final do ano, cada administrador receberia uma gratificação baseada em quão perto dessa meta chegou a produção de sua fábrica. Por exemplo, se a es- timativa de nível de produção possível feita pelo administrador fosse a gratificação anual em dóla- res, B, poderia ser: 10.000 (17.3) onde Q é a produção atual da fábrica, 10.000 é a gratificação quando a produção atinge a capacidade possível prevista, e 0,5 é um fator escolhido para reduzir 0 valor da gratificação caso Q venha a ser me- nor do que548 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO Entretanto, com esse esquema, os administradores teriam um estímulo para subestimar a capaci- dade de produção de suas fábricas. Ao declarar uma capacidade de produção menor do que aquela que eles sabem que é a verdadeira, eles teriam mais facilidade para receber uma grande gratificação, mes- mo que não estivessem operando de modo eficiente. Por exemplo, se um administrador estimasse a ca- pacidade de sua fábrica em 18.000 em vez de 20.000, e na realidade ela produzisse apenas 16.000, sua gratificação aumentaria de $8.000 para $9.000. Portanto, esse esquema não conseguiria fornecer infor- mações exatas a respeito da capacidade produtiva e não poderia assegurar que as fábricas estivessem sendo operadas da maneira mais eficiente possível. Agora efetuaremos uma modificação nesse esquema. Continuaremos com a pergunta feita aos ad- ministradores das fábricas sobre qual seria a capacidade possível de produção, atrelando suas gratifica- ções a essas estimativas. Entretanto, utilizaremos uma fórmula ligeiramente mais complexa do que a equação 17.3 para 0 cálculo das gratificações: Se 0,2(Q (17.4) Se Q) Os parâmetros (0,3, 0,2 e 0,5) foram escolhidos de modo que cada administrador tenha um incen- tivo para revelar seu verdadeiro nível possível de produção e a tornar Q, a produção real de sua fábrica, a mais elevada possível. Para ver como esse esquema funciona, examine a Figura 17.4. Suponhamos que verdadeiro li- mite de produção seja Q* = 20.000 unidades por ano. A gratificação que o administrador receberá caso declare a verdadeira produção possível é indicada pela linha 20.000. Essa linha vai além do limite de produção de 20.000 para ilustrar a natureza desse esquema de gratificação, mas essa continuação é feita em linha tracejada, para mostrar a impossibilidade desses níveis de produção. Observe que a gra- tificação do administrador é maximizada quando a empresa produz seu limite de 20.000 unidades; a gratificação é, então, de $6.000. Entretanto, suponhamos que administrador declare uma capacidade possível de apenas 10.000 unidades. Desse modo, sua gratificação é indicada pela linha 10.000. Agora a gratificação máxima é de $5.000, sendo obtida com uma produção de 20.000 unidades. No entanto, observe que esse valor é inferior à gratificação que administrador receberia se tivesse dado a informação correta de que sua ca- pacidade possível era de 20.000 unidades. A mesma linha de raciocínio se aplica quando o administrador exagera a capacidade possível. Su- ponhamos que ele informe que sua capacidade possível é de 30.000 unidades por ano. A respectiva gra- Bônus (dólares por ano) Qp = 30.000 10.000 Qp 20.000 Qp = 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0 10.000 20.000 30.000 40.000 Produção (unidades por ano) Figura 17.4 Concepção de incentivos em uma empresa integrada Um esquema de gratificação pode ser formulado de modo que proporcione ao administrador incentivo pa- estimar precisamente a capacidade de sua fábrica. Se administrador declara que a capacidade possível é de 20.000 unidades por ano, igual à capacidade real, a gratificação recebida é maximizada (em $6.000).CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 549 tificação é indicada pela linha = 30.000. Sendo assim, a gratificação máxima de $4.000, recebida com uma produção de 20.000 unidades, é menor do que a gratificação que ele poderia ter recebido caso ti- vesse informado corretamente a capacidade possível.¹⁵ APLICAÇÕES Como 0 problema das informações assimétricas e da elaboração de sistemas de incentivos ocorre freqüentemente no ambiente administrativo, esquemas como aquele que apresentamos anteriormente poderão ser necessários em muitos contextos. Por exemplo, de que maneira os administradores podem estimular os vendedores a estabelecer e a revelar metas realistas de vendas e, depois, trabalhar da me- lhor maneira possível para poder alcançá-las? Em sua maioria, os vendedores são responsáveis por determinados territórios. Um vendedor res- ponsável pela cobertura de um território urbano e densamente povoado geralmente pode vender mais unidades de produtos do que um que seja responsável por um território de baixa densidade demográfi- ca. Entretanto, a empresa quer recompensar justamente todos os seus vendedores. Ela também quer es- timulá-los a trabalhar da melhor maneira possível e a apresentar metas realistas de vendas, de tal mo- do que ela possa planejar sua produção e sua programação de pedidos. As empresas sempre fazem uso de gratificações e comissões para recompensar seus vendedores, mas freqüentemente tais esquemas de incentivos são muito mal elaborados. Tipicamente, as comissões dos vendedores são proporcionais às suas vendas. Esse procedimento não garante a obtenção de informações precisas sobre metas de vendas nem sobre desempenho máximo. Atualmente, as empresas estão aprendendo que os esquemas de gratificação do tipo descrito pe- la equação 17.4 dão resultados muito melhores. Pode-se dar ao vendedor uma matriz de números que mostre a gratificação em função tanto da meta de vendas (escolhida pelo próprio vendedor) como do nível real de vendas. (Essa matriz de números poderia ser calculada a partir da equação 17.4 ou de al- guma fórmula similar.) Os vendedores rapidamente perceberão que a melhor alternativa é informar me- tas de venda possíveis e, então, trabalhar da melhor maneira para alcançá-las.¹⁶ Conforme discutimos na 17.6 INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS NO MERCADO DE TRABALHO: TEORIA DO SALÁRIO Seção 14.1, em um mer- cado de trabalho total- DE EFICIÊNCIA mente competitivo, as em- presas contratam pessoal Quando o mercado de trabalho é competitivo, todos aqueles que desejam fazer parte dele en- até o ponto em que salá- contrarão empregos com remuneração igual a seu produto marginal. Embora muitas pessoas procu- rio real (valor do salário dividido pelo preço do rem emprego tenazmente, a maioria dos países possui substanciais níveis de desemprego. Muitos dos produto) é igual ao produ- que não conseguem encontrar ocupação presumivelmente até aceitariam trabalhar por remunerações to marginal do mais baixas do que as que são pagas aos profissionais que se encontram empregados. Por que não ve- mos as empresas reduzindo as remunerações e aumentando os níveis de emprego para, dessa manei- ra, aumentar seus lucros? Os modelos de equilíbrio competitivo são capazes de explicar o desempre- teoria do salário de efi- go persistente? ciência Explicação pa- Nesta seção, mostraremos de que maneira a teoria do salário de eficiência pode explicar a ra a presença de desem- prego e de discriminação presença do desemprego e da discriminação de Até aqui, determinamos a produti- de salários que reconhece vidade da mão-de-obra em função das habilidades dos trabalhadores e em decorrência de investi- que a produtividade da mentos de capital efetuados pelas empresas. Os modelos de salário de eficiência reconhecem que a mão-de-obra pode ser produtividade da mão-de-obra também depende da remuneração. Há diversas explicações para es- afetada pelo nível do sa- sa relação. Nos países em desenvolvimento, os economistas têm sugerido que a produtividade dos lário. 15 Qualquer gratificação na forma + para e para com > > > 0 funciona bem. Esse esquema encontra-se analisado detalhadamente no artigo de Martin L. Weitzman, "The new soviet incentive model", Bell Journal of Economics 7, inverno 1976, p. 251-256. No entanto, há um problema di- nâmico com esse esquema que estamos ignorando: os administradores devem ponderar 0 recebimento de uma grande gratificação no ano corrente contra 0 recebimento de metas mais ambiciosas no futuro. Esse assunto é dis- cutido no artigo de Martin Weitzman, "The 'ratchet principle' and performance incentives", Bell Journal of Economics 11, primavera 1980, p. 302-308. 16 Veja Jacob Gonik, "Tie salesmen's bonuses to their Harvard Business Review, maio-jun. 1978, p. 116-123. 17 Veja Janet L. Yellen, "Efficiency wage models of American Economic Review 74, maio 1984, p. 200-205. A análise é baseada no artigo de Joseph E. Stiglitz, "The causes and consequences of the dependence of quality on price", Journal of Economic Literature 25, mar. 1987, p. 1-48.550 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO trabalhadores depende do nível de remuneração por razões nutricionais: os trabalhadores mais bem pagos podem adquirir mais e melhores alimentos e, portanto, são mais saudáveis e podem traba- lhar de maneira mais produtiva. No caso dos Estados Unidos, 0 modelo de 'enrolação' seria uma explicação melhor. Pelo fa- modelo de 'enrolação' Princípio segundo qual to de ser dispendioso ou até mesmo impossível monitorar trabalhadores, as empresas dispõem de os empregados têm incen- informações imperfeitas a respeito da produtividade de seus funcionários, de tal maneira que se tivos para ser negligentes configura um problema da relação agente-principal. Em sua forma mais simples, modelo de 'en- caso a empresa lhes pa- pressupõe mercados perfeitamente competitivos, nos quais todos os trabalhadores são gue um salário igual igualmente produtivos e podem obter a mesma remuneração. Depois de serem contratados, os fun- àquele que equilibra mercado, pois aqueles cionários podem trabalhar produtivamente ou então 'enrolar'. Entretanto, como as informações so- que forem demitidos po- bre seu desempenho são limitadas, eles podem não ser demitidos, mesmo apresentando uma con- dem ser contratados por duta negligente. outras empresas receben- Esse modelo funciona da seguinte maneira: se uma empresa paga a seus trabalhadores a remu- do o mesmo salário. neração de mercado W*, eles têm estímulo para 'enrolar'. Mesmo que sejam descobertos e demitidos (o que pode não ocorrer), eles podem imediatamente ser contratados por outra empresa pela mesma re- muneração. Uma vez que a ameaça de demissão não impõe um custo aos trabalhadores, eles não encon- tram incentivo para ser produtivos. Como estímulo para que a negligência não ocorra, a empresa deve oferecer uma remuneração mais alta a seus trabalhadores. Com um nível mais alto de remuneração, os profissionais que forem demitidos por negligência terão de se defrontar com uma redução de salário, ca- so sejam contratados por outra empresa pela remuneração w*. Se a diferença entre os salários for sufi- cientemente grande, os trabalhadores serão induzidos a uma maior produtividade, e a empresa não se salário de eficiência Sa- defrontará com 0 problema da negligência. 0 nível de remuneração em que a 'enrolação' deixa de exis- lário que uma empresa tir chama-se salário de paga a um funcionário co- Até aqui, examinamos apenas uma empresa, porém todas as outras se defrontam com esse pro- mo incentivo para que ele blema. Por isso, todas as empresas oferecerão remunerações maiores do que a remuneração de merca- não do por exemplo, We (salário de eficiência). Será que essa medida eliminaria incentivo para os tra- balhadores não serem negligentes, uma vez que eles poderiam ser contratados por salários mais altos Na Seção 14.2, explica- em outras empresas, caso viessem a ser demitidos? Não, pois todas as empresas estariam oferecendo re- mos que salário de munerações maiores do que a demanda de mão-de-obra seria menor do que a quantidade de equi- equilíbrio é dado pela in- líbrio de mercado, e haveria desemprego. Conseqüentemente, os trabalhadores demitidos em virtude da tersecção entre a curva 'enrolação' se defrontariam com um período de desemprego antes de conseguir um trabalho pela remu- da demanda e a da ofer- neração We em alguma outra empresa. ta de trabalho (mão-de- A Figura 17.5 apresenta a 'enrolação' no mercado de trabalho. A demanda de mão-de-obra, obra). possui inclinação descendente devido às razões tradicionais. Caso a conduta negligente não ocorresse, Remuneração Restrição de ausência de negligência (RAN) Demanda por trabalho W* L* Quantidade de trabalho Figura 17.5 Desemprego em um modelo de 'enrolação' 0 desemprego pode surgir em mercados competitivos quando os empregadores não conseguem monitorar precisamente os trabalhadores. Aqui, a curva de restrição de ausência de negligência (RAN) aponta 0 salário necessário para que os trabalhadores não 'enrolem'. A empresa contrata L, trabalhadores (a um salário mais alto do que salário de eficiênica, criando L* L, de desemprego.CAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 551 o ponto de entre e a curva de oferta de mão-de-obra estaria determinando a remu- neração de mercado no nível e 0 resultado seria o nível total de emprego (L*). Entretanto, com a existência da 'enrolação', as empresas individualmente não estão dispostas a pagar Em vez disso, para cada nível de desemprego no mercado, as empresas devem pagar alguma remuneração maior do que para poder induzir seus trabalhadores a serem produtivos. Essa remuneração é apresentada na curva de restrição de ausência de negligência (RAN). Essa curva mostra a mínima remuneração que é neces- sário pagar aos trabalhadores para que não ocorra a a cada nível de desemprego. Observe que, quanto maior for 0 nível de desemprego, menor será a diferença entre salário de eficiência e Por que isso ocorre? Porque, para altos níveis de desemprego, os trabalhadores negligentes correm risco de permanecer desempregados por longos períodos e, portanto, não necessitam de muito estímu- lo para serem produtivos. Na Figura 17.5, a remuneração de equilíbrio encontra-se no ponto de entre as cur- vas RAN e quando um número L, de trabalhadores está recebendo a remuneração Esse equilí- brio ocorre porque a curva RAN indica a remuneração mínima que as empresas podem pagar, e, ainda assim, desestimular a Dessa maneira, elas não precisam pagar um valor acima dessa re- muneração para obter o número de trabalhadores de que necessitam em seus quadros, e não pagarão menos porque uma remuneração mais baixa estimularia a Observe que a curva de restri- ção RAN nunca intercepta a curva da oferta de mão-de-obra. Isso significa que sempre haverá algum desemprego no equilíbrio. EXEMPLO 17.6 Salários de eficiência na Ford Um dos exemplos mais antigos de pagamento de salário de eficiência pode ser encontrado na história da Ford Motor Company. Antes de 1913, a produção de automóveis dependia de mão-de- obra especializada. No entanto, a introdução da linha de montagem modificou radicalmente 0 am- biente de trabalho. Desse momento em diante, os cargos começaram a exigir menos especialização, e a produção passou a depender cada vez mais da manutenção dos equipamentos da linha de mon- tagem. Mas, à medida que as fábricas se modificaram, os trabalhadores ficaram cada vez mais frus- trados. Em 1913, a rotatividade de mão-de-obra na Ford chegou a 380%. No ano seguinte, atingiu 1.000%, e sua margem de lucro apresentou uma acentuada redução. A Ford necessitava manter sua equipe de trabalho estável; Henry Ford (e seu sócio James Cou- zens) tomou providências para que isso ocorresse. Em 1914, quando a remuneração diária no setor industrial estava em uma faixa entre $2 e $3, a Ford introduziu uma política de salários de $5 por dia para seus trabalhadores. Essa política era motivada pela busca de mão-de-obra mais eficiente, e não por generosidade. 0 objetivo era atrair melhores trabalhadores que permanecessem no emprego e, assim, aumentar os lucros. Embora Henry Ford tenha sido criticado por causa dessa política, ela foi um sucesso. Sua equipe de trabalho realmente tornou-se mais estável, e a publicidade em torno do assunto ajudou a aumentar as vendas da companhia. Além disso, como havia selecionado os funcionários, Henry Ford pôde contratar um grupo cuja produtividade estava acima da média. Ford afirmou que, na realidade, 0 aumento de remuneração aumentou a lealdade e a eficiência pessoal de seus funcio- nários, e as estimativas quantitativas realizadas confirmaram suas afirmações. De acordo com os cálculos feitos pelo responsável pelo departamento de recursos humanos da Ford, a produtividade aumentou em 51%. Um outro estudo concluiu ainda que as faltas haviam caído pela metade e que as demissões por justa causa haviam também apresentado um acentuado declínio. Dessa manei- ra, o aumento de eficiência mais do que compensou aumento das remunerações. Conseqüente- mente, a lucratividade da Ford aumentou substancialmente: passou de $30 milhões, em 1914, pa- ra $60 milhões, em 1916. Resumo 1. 0 vendedor de um produto freqüentemente possui melhores certificados e garantias ou encontrarem outras formas de informações a respeito de sua qualidade do que o compra- manter uma boa reputação para seus produtos. dor. Informações assimétricas desse tipo criam um desvio de 2. Os mercados de seguros freqüentemente envolvem informa- eficiência de tal forma que os produtos de baixa qualidade ções assimétricas, porque aquele que adquire 0 seguro possui tendem a eliminar do mercado os de alta qualidade. Esse melhores informações a respeito do risco envolvido do que a desvio de eficiência de mercado pode ser eliminado se os companhia seguradora. Isso pode ocasionar a seleção adver- vendedores oferecerem produtos padronizados, fornecerem sa, na qual pessoas envolvidas com riscos mais altos passam552 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO a optar pela aquisição do seguro e as com riscos mais baixos ções e benefícios para si próprios ou então adotar 0 objetivo passam a optar por não adquiri-lo. Um outro problema para de maximizar as vendas, mesmo que acionistas prefiram a os mercados de seguro é 0 risco moral, no qual a parte segu- maximização de lucros. rada passa a ter menos cuidado de evitar perdas após a aqui- 5. Os proprietários podem evitar alguns dos problemas da rela- sição do seguro. ção agente-principal elaborando contratos que dêem a seus 3. Os vendedores podem solucionar problema das informa- agentes incentivos para um desempenho produtivo. ções assimétricas enviando sinais aos compradores sobre a 6. As informações assimétricas podem explicar por que os mer- qualidade de seus produtos. Por exemplo, os trabalhadores cados de trabalho apresentam substanciais níveis de desem- podem sinalizar sua alta produtividade obtendo educação de prego mesmo quando há trabalhadores procurando emprego nível superior. tenazmente. De acordo com a teoria do salário de eficiência, 4. As informações assimétricas podem tornar mais dispendiosa uma remuneração mais alta (o salário de eficiência) do que a para os proprietários de empresas (os principais) a monitora- do mercado competitivo aumenta a produtividade dos traba- ção exata do comportamento de seus administradores (agen- lhadores ao desencorajar a 'enrolação' no desempenho de tes). Esses profissionais podem procurar maiores compensa- suas funções. Questões para revisão 1. Por que as informações assimétricas entre compradores e 6. Joe recebeu boas notas durante os quatro anos da faculda- vendedores podem ocasionar um desvio de eficiência em de. Para seu futuro empregador, essa conquista é um forte mercados que, de outra forma, poderiam ser totalmente sinal de que ele será um profissional altamente produtivo? competitivos? Por quê? 2. Se 0 mercado de automóveis usados é caracterizado por mer- 7. Por que os administradores de empresas podem ter outros cadorias de qualidade duvidosa (lemons), como comparar o objetivos que não a maximização dos lucros, que é a meta histórico dos consertos dos automóveis usados que conse- dos acionistas? guem ser vendidos com 0 dos veículos usados que não foram 8. De que modo modelo agente-principal pode ser utilizado vendidos? para explicar por que empresas públicas, por exemplo, os 3. Explique a diferença entre a seleção adversa e risco moral Correios, podem passar a buscar objetivos diferentes da ma- no mercado de seguros. Será que a seleção adversa e risco ximização de lucros? moral podem existir um sem o outro? 9. Por que as políticas de participação nos lucros e de pagamen- 4. Descreva diversas maneiras pelas quais vendedores podem to de gratificações têm a possibilidade de resolver o problema convencer compradores de que seus produtos são de alta da relação agente-principal, enquanto um esquema de re- qualidade. Quais os métodos que podem ser utilizados no ca- muneração fixa provavelmente não o resolveria? so dos seguintes produtos: máquinas de lavar da marca May- 10. que é salário de eficiência? Por que é lucrativo para a em- tag, hambúrgueres Burger King e diamantes grandes. presa pagar um salário de eficiência em situações nas quais 5. Por que determinado vendedor poderia achar vantajoso sina- os trabalhadores possuem informações mais completas a res- lizar a qualidade de um produto? De que modo as garantias e peito de sua produtividade do que ela? os certificados atuam como sinalização de mercado? Exercícios 1. Muitos consumidores vêem a fama de uma marca como um tanto, sua instituição tem uma longa experiência em fi- sinal de qualidade e, por isso, estão dispostos a pagar um nanciamento de automóveis para recém-formados. Será preço mais alto por um produto já estabelecido no mercado que isso pode ser útil no caso de Gary? Em caso afirma- (por exemplo, aspirina da Bayer em vez de uma aspirina ge- tivo, de que modo? nérica). A forma de uma marca conhecida pode se constituir 3. Uma importante universidade proíbe que os professores em uma forma de sinalização útil? Por quê? dêem notas D ou E. Ela justifica sua ação afirmando que os 2. Gary terminou recentemente 0 curso universitário. Após seis estudantes tendem a ter desempenho acima da média quan- meses em seu novo emprego, conseguiu finalmente poupar do estão livres da pressão representada pela possibilidade de suficiente para a aquisição de seu primeiro automóvel. não passar nos exames. A universidade afirma ainda que a. Gary sabe muito pouco sobre as diferenças entre marcas gostaria que todos os seus estudantes tirassem notas A ou B. e modelos de veículos. De que maneira ele poderia se va- Se o objetivo da instituição for de aumentar de modo geral ler das sinalizações de mercado, como reputação ou pa- o número de notas para ou mais, será que essa nova polí- dronização, para fazer comparações entre automóveis? tica pode ser considerada boa? Discuta essa questão levando b. Suponhamos que você seja um funcionário do setor de em consideração problema do risco moral. empréstimos de um banco. Depois de ter escolhido seu 4. professor Jones acabou de ser contratado pelo departa- automóvel, Gary vai até 0 banco em busca de um em- mento de economia de uma importante universidade. 0 préstimo. Como ele terminou a faculdade recentemente, presidente do conselho dirigente declarou que a universida- não possui ainda um longo histórico de crédito. No en- de está empenhada em dar uma educação de alta qualidadeCAPÍTULO 17 MERCADOS COM INFORMAÇÕES ASSIMÉTRICAS 553 a seus alunos. Jones faltou a suas aulas durante dois meses Sem acesso a informações adicionais, os consumidores não neste semestre. Há indicações de que ele estaria dedicando conhecem a qualidade dos automóveis de cada agência. Nes- todo o seu tempo a pesquisas em vez de se dedicar ao ensino. sas circunstâncias, eles imaginam que têm 50% de chance de Por outro lado, Jones argumenta que sua pesquisa trará pres- comprar um automóvel de alta qualidade e, assim, estão dis- tígio ao departamento de economia e à universidade. A insti- postos a pagar $8.500 por um carro. tuição deve permitir que ele continue a se dedicar exclusiva- dono da Harry's tem uma idéia: oferecerá uma garantia mente à pesquisa? Discuta com base no problema da relação para cada automóvel que vender. Ele sabe que uma garantia por agente-principal. Y anos custa $500Y em média e também sabe que, se a Lew's 5. Ao se defrontar com uma reputação de fabricar automóveis tentar oferecer a mesma garantia, isso custará à Lew's com históricos ruins de manutenção, diversas empresas nor- $1.000Y em média. te-americanas passaram a oferecer amplas garantias aos a. Suponhamos que a Harry's ofereça garantia de um ano compradores de seus veículos (por exemplo, garantia de sete para cada automóvel que vender. anos para todas as peças e consertos relacionados com pro- i. Qual será 0 lucro da Lew's se ela não oferecer garantia blemas mecânicos). de um ano? E se ela oferecer? a. Com base em seu conhecimento do mercado de automó- ii. Qual será lucro da Harry's se a Lew's não oferecer veis de qualidade duvidosa, explique por que essa nova garantia de um ano? E se ela oferecer? política é razoável. iii. Será que a Lew's vai imitar a Harry's e oferecer a ga- b. Essa nova política pode criar um problema de risco mo- rantia de um ano? ral? Explique. iv. Para a Harry's, é uma boa idéia oferecer garantia de 6. Para promover a competição e bem-estar, 0 órgão responsá- um ano? vel pela regulação do comércio no país passa a exigir que as b. 0 que acontecerá se a Harry's oferecer uma garantia de empresas façam propaganda com informações fidedignas. dois anos para cada unidade? Essa atitude gerará um si- De que forma a verdade na propaganda promove a competi- nal confiável de qualidade? E se for uma garantia de três ção no mercado? Por que determinado mercado pode vir a anos? ser menos competitivo caso as empresas façam propaganda enganosa? Se você fosse consultor da Harry's, qual tempo de garan- tia sugeriria? Explique sua resposta. 7. Uma companhia seguradora está considerando a possibilida- de de passar a vender três tipos de apólices de seguro: (i) se- Como presidente das Indústrias ASP, você estima que seu lu- guro total; (ii) seguro total com franquia de $10.000; e (iii) cro anual é dado pela tabela abaixo. 0 lucro (П) depende da seguro com cobertura de 90% dos prejuízos totais. Qual des- demanda de mercado e do empenho de seu novo CEO. As sas três apólices apresenta maiores possibilidades de criar probabilidades de cada condição de demanda ocorrer tam- problemas de risco moral? bém são mostradas na tabela. 8. Vimos de que maneira as informações assimétricas podem Demanda Demanda Demanda Demanda reduzir a qualidade média dos produtos vendidos em de- de mercado baixa média alta terminado mercado à medida que as mercadorias de baixa Probabilidades qualidade eliminam as de alta qualidade. Nos mercados de mercado 0,30 0,40 0,30 em que prevalecem as informações assimétricas, você con- cordaria ou discordaria das afirmações a seguir? Explique. Baixo empenho П $5 milhões П $10 milhões П milhões a. o governo deveria subsidiar uma publicação denomina- Alto empenho П milhões П $15 milhões П $17 milhões da Informativo do Consumidor. b. o governo deveria implementar padrões de qualidade; Você precisa delinear um pacote de remuneração para 0 CEO por exemplo, não deveria ser permitido que as empresas que maximize o lucro esperado da empresa. Embora a em- vendessem produtos de baixa qualidade. presa seja neutra ao risco, CEO é avesso ao risco. A função produtor de uma mercadoria de alta qualidade prova- de utilidade do CEO é: velmente estaria disposto a oferecer uma ampla garantia para seu produto. Utilidade quando ele se empenha pouco d. governo deveria exigir que todas as empresas passas- Utilidade 100, quando ele se empenha muito sem a oferecer amplas garantias para seus produtos. onde W é a renda do CEO. (-100 "custo de utilidade" em 9. Duas agências de automóveis usados competem lado a lado que 0 CEO incorre ao se empenhar muito.) Você conhece a em uma avenida importante. A primeira, Harry's Cars, vende função de utilidade do CEO, e tanto você quanto ele têm automóveis de alta qualidade cuidadosamente inspecionados acesso a todas as informações da tabela precedente. Você não e, caso seja necessário, reparados. Cada automóvel que a sabe nível de empenho do CEO no momento da remunera- Harry's vende lhe custa em média $8.000, somando-se 0 pre- ção ou o estado exato da demanda. Você sabe, porém, qual é ço de compra e os reparos. A segunda agência, Lew's Motors, 0 lucro da empresa. vende apenas automóveis de baixa qualidade, que lhe cus- tam em média $5.000. Se os consumidores conhecessem a Como presidente das Indústrias ASP, qual das três alternati- vas de pacotes de remuneração abaixo você prefere? Por quê? qualidade dos automóveis que compram, pagariam $10.000 em média por carro da Harry's e apenas $7.000 em média por Pacote 1: pagar ao CEO um salário base de $575.000 carro da Lew's. por ano.554 PARTE IV INFORMAÇÃO, FALHAS DE MERCADO E PAPEL DO GOVERNO Pacote 2: pagar ao CEO uma porcentagem fixa de 6% so- sua remuneração menos esforço W e (com custo por uni- bre os lucros anuais da empresa. dade de esforço sendo igual a 1). Determine nível de esfor- Pacote 3: pagar ao CEO um salário base de $500.000 por ço e 0 nível de lucro (receita menos salário pago) para cada ano e, além disso, 50% sobre qualquer lucro aci- uma das condições a seguir. Explique por que essas diferen- ma de $15 milhões. tes relações agente-principal geram resultados distintos. 11. A receita de curto prazo de uma empresa é dada por R = 10e a. W = 2 para e ≥ 1; caso contrário, W = 0. onde e é 0 nível de esforço de um trabalhador típico (pre- sumindo-se que todos os trabalhadores sejam idênticos). Um b. W = R/2. trabalhador escolhe seu nível de esforço a fim de maximizar