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FILOSOFIA AULA 6 Prof. Paulo Niccoli Ramirez 2 CONVERSA INICIAL Fenomenologia e existencialismo Estudaremos nesta aula duas importantes correntes filosóficas desenvolvidas ao longo do século XX: a fenomenologia e o existencialismo. A fenomenologia é um campo específico do conhecimento filosófico fundado por Edmund Husserl (1859-1938), conforme abordaremos no Tema 1. Um de seus alunos foi o pensador alemão Martin Heidegger (1859-1938), que será estudado no Tema 2. Husserl e Heidegger procuraram promover estudos ontológicos, ou seja, investigar o ser, a constituição e origem de nossa consciência, ou das atividades e operações do pensamento humano. O existencialismo tornou-se relevante por meio da figura do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) e do feminismo de Simone de Beauvoir (1908-1986), apresentados no Tema 3. Sartre e Beauvoir procuraram demonstrar que a característica principal do que se denomina como ser é a liberdade. O existencialismo afirma a liberdade como elemento principal do ser no mundo. No Tema 4, trataremos da fenomenologia de Merleau-Ponty (1908-1961). Sua principal contribuição ao pensamento filosófico foi ampliar o campo da compreensão da consciência, pois considera que mente e corpo constituem uma unidade, havendo, portanto, intencionalidade nas sensações corporais e em seus movimentos. O Tema 5 aborda os pensadores chilenos Varela (1946-2001) e Maturana (1928-2021) que atribuíram e relacionaram a fenomenologia a todas as formas de vida presentes na natureza. Em linhas gerais, os autores relacionam conhecimentos do campo da biologia com a filosofia de cunho fenomenológico, procurando demonstrar que a natureza e suas formas de vida possuem certo grau de intencionalidade ou mesmo de inteligência. TEMA 1 – HUSSERL E A FUNDAÇÃO DA FENOMENOLOGIA A fenomenologia representou, na passagem do final do século XIX para o início do XX, a crítica à intenção dos cientistas positivistas de eliminar a metafísica e a ontologia (filosofia que estuda o ser) como fontes de conhecimento, por considerá-las muito subjetivas e sem comprovação empírica. 3 Husserl, contra esta postura, promoveu a tentativa de reelaboração da história da filosofia em torno da investigação sobre a existência do ser e do conhecimento, sob novas bases rigorosas e científicas, fornecendo à fenomenologia os status de ciência e filosofia. Quando nos questionamos sobre o ser (espírito, alma, consciência, essência), é preciso ter em mente que não devemos buscar uma lógica teológica, em que se atribui ao ser uma entidade sobrenatural ou metafísica-divina, como é costume nas interpretações religiosas; tampouco a filosofia, que questiona o ser, deve ser comparada ao pragmatismo científico pelo qual apenas se aceita algo como real ou verídico se este possuir existência concreta ou física (como os fenômenos físicos, químicos e biológicos). A palavra fenomenologia tem origem nos termos gregos phainesthai, ou “aquilo que se apresenta ou que se mostra”; e logos “explicação, ciência ou razão”. Seu estudo afirma a importância dos fenômenos da consciência que devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos. Por exemplo: feche os olhos e tente não pensar em nada; suspenda qualquer fluxo de pensamento de sua mente. É possível impedir a mente de pensar em algo? Vemos, com este breve experimento mental (ou fenomenológico), a manifestação de nosso ser – sua intencionalidade e a noção, constatada por Husserl –, que se resume na seguinte frase: a consciência é sempre consciência de algo. Em outras palavras, a mente possui intencionalidade constante. Vamos agora estudar mais detalhadamente no que consiste a filosofia da consciência de Husserl. 1.1 As influências de Descartes, Kant e Hegel A fenomenologia de Husserl é uma ciência com base filosófica que pretende demonstrar a existência e a manifestação do ser. Para tanto, Husserl, em duas importantes obras, Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica (2006) e Meditações cartesianas: introdução à fenomenologia (2001), publicadas respectivamente em 1913 e 1931, terá como base pontos de aproximação e distanciamento com as seguintes concepções: 4 1. O Cogito, de Descartes: a origem das ideias é a razão (o Cogito); as ideias verdadeiras são inatas na mente e não dependem dos sentidos (ou sensibilidade). O Cogito é consolidado por meio da dúvida hiperbólica. 2. A concepção de fenômeno de Kant: a “coisa em si” (essência, alma, ser) não é alcançada pela razão ou percepção, apenas podemos conhecer os fenômenos (aquilo se manifesta). 3. A fenomenologia de Hegel: a ideia, o ser e a essência se manifestam fenomenologicamente na história e na ação humana. Lembremos que para Hegel, o espírito absoluto é uma entidade divina, um deus; é racional e anterior à existência humana, mas se realiza, progressivamente, na história da civilização. Por isso, o espírito absoluto não se revela como coisa em si, mas fenomenologicamente, ou seja, no campo dos fenômenos (influência de Kant) por meio das práticas e conquistas racionais humanas, realizadas primeiro por indivíduos excepcionais. Trata-se de promover a razão na história ou no mundo. Vejamos como estes pensadores influenciaram a constituição da fenomenologia de Husserl. A redução fenomenológica ou eidética (eidos, em grego, significa “ideia”) é o método rigoroso e científico empregado por Husserl para demonstrar a existência do ser. A redução tem inspiração na dúvida hiperbólica radical cartesiana. Com a dúvida, Descartes havia alcançado o Cogito, constatando a primeira verdade, algo inquestionável ou indubitável: “penso, logo existo”. Descartes emprega a dúvida hiperbólica e radical, que em Husserl será traduzida e intensificada com a incorporação da noção grega de epoché, palavra que significa “suspender os juízos” ou “colocar o mundo entre parênteses”. Husserl, com a epoché, resultado da redução fenomenológica, buscará abolir o fluxo do pensamento ou, simplesmente, não pensar em nada; trata-se da tentativa de suspender todos os conhecimentos até hoje adquiridos (científicos ou da vida cotidiana), a linguagem ou qualquer forma de pensamento. O resultado da epoché é a expressão tomada de Brentano (1838-1917), que afirma que a consciência é sempre consciência de algo. Quanto a Kant, é necessário recordar que o pensador separa radicalmente o “fenômeno” da “coisa em si”, sendo impossível provar a existência da alma, do ser ou da natureza humana. Husserl, por sua vez, não promove a separação radical entre coisa em si e o fenômeno, de modo que o 5 ser é detectável e demonstrável de forma fenomenológica (científica e rigorosa), ou seja, em seus atos – como pensar, falar, agir, ou no cotidiano, em suas manifestações. Hegel afirma que o real é racional, e o espírito absoluto, espécie de deus, manifesta-se ou se materializa – ou seja, a ideia se manifesta por meio do progresso da racionalidade no decorrer da história da humanidade. Husserl, como vimos, não procura explicações divinas ou teológicas sobre o ser, porém concorda com o fato de que o ser se manifesta ou se torna evidente por meio de nossas manifestações mentais lançadas ao mundo. Com base nessas três influências, Husserl (2006; 2001) afirma ter identificado a consciência intencional, isto é, o ser. 1.2 A consciência intencional Husserl concebeu ter alcançado as coisas mesmas, ou seja, a essência de todo ser e saber, a denominada consciência intencional. Ao promover a ciência eidética, ele julgou ter fundamentado o ego transcendental, o ser que é capaz de evidenciar o mundo, de modo que a redução fenomenológica se confunde com a existência da consciência ou do ser. Podemos traduzir essa série de conceitos complexoscom a seguinte percepção: é impossível suspender o fluxo do pensamento, ou não pensar em nada, mesmo nos sonhos. Portanto, com esse simples exercício notamos a existência de consciência intencional (ou intencionalidade). O ser e a consciência, para Husserl, se revelam fenomenologicamente com a intencionalidade. Segundo Husserl, há uma gramática imanente, ou natural, em nossa consciência. Ele utiliza o termo “mentar”, também designado como “visada intencional”. A intencionalidade revelada por meio da redução eidética (ou fenomenológica) demonstra que a consciência é sempre consciência de algo. Em sua obra A filosofia como ciência de rigor (1965), Husserl apresenta mais claramente seus propósitos em torno do que compreende como fenomenologia: Mas é precisamente próprio da filosofia, desde que remonte às suas origens extremas, o seu trabalho científico situar-se em esferas de intuição direta, e constitui o maior passo a dar pela nossa época, reconhecer-se que a intuição filosófica no sentido autêntico, a percepção fenomenológica do Ser, abre um campo imenso de trabalho 6 e leva a uma ciência que, sem todos os métodos indiretamente simbolizantes e matematizantes, sem o aparelho das conclusões e provas, não deixa de chegar a amplas intelecções das mais rigorosas e decisivas para toda a filosofia ulterior. (Husserl, 1965, p. 73) Husserl demonstra que o Ser não pode ser demonstrado por meio de conteúdo ou ideias puras, senão por meio da intencionalidade, isto é, a forma como se manifesta, por exemplo, com a linguagem, ou para dar significado aos objetos à nossa volta. A visada intencional refere-se ao fato de que o ser ou intencionalidade possuem um vetor mental (ou fluxo permanente de consciência) que fornece sentido e significado a todos os objetos e elementos que estão diante de nossa visão. A intencionalidade demonstra que o Ser existe, porém jamais conseguimos tomá-lo como “coisa em si”, senão como manifestação, ou seja, fenômeno. Os objetos da fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais das operações da mente ou Ser (noesis), e as entidades ou manifestações, suas características e qualidades que se objetivam (noema). Quadro 1 – Concepções de noesis e noema Noesis Noema Do grego νόησις, significa “cheirar”, “farejar”, “captar”, “pressentir”, “perceber instintivamente algo”. Trata-se de uma espécie de saber instintivo ou imanente. Refere-se à consciência intencional, ao fluxo do pensamento ou intencionalidade (mentar). Antes de qualquer coisa ser pensada, há a visada intencional. Diz respeito àquilo que é sentido, manifesto ou percebido. Do grego νόημα, significa “noção” ou “conceito”; é o conjunto das características e dos atributos dos modos de ser dados pela experiência e percepção; é aquilo que é pensado, ou que representa os elementos capturados pela percepção (a cor, o tamanho, o conteúdo do pensamento). O método fenomenológico de Husserl acabou por influenciar a constituição da corrente da psicologia conhecida como Gestalt, desenvolvida durante o século XX. TEMA 2 – HEIDEGGER E O DASEIN O pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger é motivo de controversas entre os estudiosos da filosofia. Do ponto de vista político, o filósofo manifestou simpatia por Hitler, e foi nomeado pelos nazistas em 1933 para o cargo de reitor da Universidade de Friburgo. Do ponto de vista filosófico, foi aluno e influenciado por Husserl, além de ser o responsável, na visão de Sartre 7 (conforme veremos no próximo tema), por tecer relações entre a fenomenologia e o existencialismo. Em sua obra Ser e tempo, [1927]/(1995), Heidegger aborda o problema do Ser e emprega o método fenomenológico formulado por Husserl. A fenomenologia procura investigar os objetos do conhecimento do modo como aparecem na mente, isto é, como imediatamente são apresentados à consciência. Heidegger procurou, no entanto, fornecer uma interpretação do ser distante do “ente”, ou seja, afastou-se das tradicionais formas de busca pelo ser em sua essência, algo que o próprio Husserl havia realizado. Heidegger se dá conta de que o Ser é sempre velado e esconde-se no campo de suas manifestações, pois cada gesto, ato ou linguagem apresentam o ser como fenômeno passível de interpretação, o que foi denominado hermenêutica. Porém, embora velado nas manifestações humanas, o Ser está presente na tensão entre o velar e o desvelar. Dessa forma, o Ser se manifesta no mundo e se desvela do ponto de vista da manifestação dos comportamentos, porém, é velado porque não temos acesso a sua essência. Por exemplo, ao vermos uma pessoa falando, não vemos o Ser desse indivíduo, apenas observamos sua manifestação quando ele fala. Ou seja, o Ser está no limiar de uma tensão entre o velar (não ser visível) e o desvelar (se manifesta nos nossos atos, como a fala ou outras formas de linguagem). A elaboração de Heidegger visa interpretar o que se mostra e o que se manifesta “aí”, ou seja, no mundo, mas que, de plano e na maioria das vezes, não se deixa ver. Por isso, Heidegger emprega o termo alemão Dasein, que poderia ser traduzido como “Ser-aí”. O ponto de partida necessário é “determinar” o sentido do ser, de modo que o indivíduo é compreendido como Ser-aí. Heidegger denomina o Dasein, Ser-aí, estar aí. O Dasein é a grande questão de nossa existência, pois a humanidade é a única capaz de se questionar sobre o sentido do Ser. Embora discípulo de Husserl, Heidegger fará ressalvas ao seu mestre. Concorda com a imanência da consciência intencional, mas vislumbra que o mundo a nossa volta, seus objetos, os outros e seus cotidianos exercem também a intencionalidade. Por isso, há um Dasein, Ser-aí, que está aí. O ser exerce intencionalidade e o mundo ao seu redor também. A Figura 1 permite observar as diferenças entre as respectivas concepções de intencionalidade de Husserl e Heidegger. Enquanto o primeiro verifica que a consciência exerce 8 intencionalidade sobre a realidade, Heidegger avalia que, além da consciência intencional, o mundo (aí) ao redor de nossa consciência, também é intencional. Figura 1 – Diferenças entre os modelos fenomenológicos de Husserl e Heidegger Considerando a interação entre o Ser e o mundo, e o estar aí (Dasein), Heidegger se diferencia de Husserl ao entender que não nos é possível alcançar o Ser em sua essência, senão de forma hermenêutica, ou seja, interpretativa. O Ser é velado quando se manifesta. Entretanto, com suas manifestações, é possível apreciar o desvelamento do Ser, ainda que de forma interpretativa. Na obra A caminho da linguagem [1959]/(2011), Heidegger nos diz que a linguagem poética é a que melhor expressa a tensão entre velamento e desvelamento do ser, sendo possível, por meio da poesia, constatar a intencionalidade do ser em sua essência, sensibilidade e em contato com o mundo. A poesia é apresentada como o que há de mais íntimo ao ser, permitindo uma abertura ou trilha que conduz até a essência e profundidade desse Ser, Dasein, porém acaba velado pelo uso da própria linguagem. TEMA 3 – A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA Na década de 1920, Sartre estudou na Alemanha e foi aluno de Heidegger, incorporando parte do vocabulário de seu mestre na composição de sua mais importante obra, O ser e o nada (Sartre,1999), publicado em 1943 e escrito durante a ocupação nazista em Paris, na Segunda Guerra Mundial. Sartre será o responsável por dar outra face à fenomenologia, incorporando-a ao que denominou como existencialismo. Aprofundaremos nossa discussão sobre esses aspectos no primeiro item deste tema. 9 No segundo item, apresentaremos o pensamento da filósofa Simone de Beauvoir, com quem Sartre manteve um relacionamento aberto que escandalizou os conservadores franceses do século passado. Beauvoir foiresponsável por aproximar a filosofia existencialista das lutas feministas, sendo ela uma importante porta-voz das lutas pelas liberdades sexuais durante as manifestações de maio de 1968, em Paris (França). 3.1 Sartre: o ser e a liberdade Segundo Sartre, nas obras O ser o nada (1999) e O existencialismo é um humanismo (1987) “a existência precede a essência”. Isto significa dizer que não há nada de inato no ser humano, nem essência, tampouco natureza humana. Dessa forma, Sartre procurou superar seus antecessores, Heidegger e Husserl. Para o existencialismo, a consciência intencional, a intencionalidade ou o Ser não são imanentes ou inatos (não nascemos com a intencionalidade e nem ela é natural). Na verdade, eles são construídos historicamente. Por isso, o título da obra O ser e o nada: não há, para Sartre, uma intencionalidade originária, como queriam Husserl e Heidegger. Sartre inverte a fenomenologia de seus mestres ao demonstrar que a intencionalidade não é anterior ao mundo ou imanente, como uma gramática mental natural, mas antes uma construção histórica, ou seja, a existência histórica é, na verdade, anterior à intencionalidade da consciência, e a influencia. Sartre questiona qualquer teoria inatista ou naturalista sobre a origem da consciência, por isso volta-se contra o argumento mais importante da fenomenologia de Husserl e Heidegger: a afirmação da consciência intencional como imanente, ou mesmo natural. Para Sartre, a consciência intencional é formada de fora para dentro, ou seja, do mundo (existência) para o ser (a consciência). Contra a noção de natureza humana, Sartre defende a concepção de condição humana, caracterizada por ser flexível, plástica e em permanente transformação, por estar em relação dialética com a história (entendida como meio social ou meio ambiente, e relações sociais). A noção de natureza humana implica na afirmação de que o ser nasce pré-determinado ou condenado a cumprir um dever ou ocupar uma posição na sociedade. A noção de natureza humana, por exemplo, estava presente nas concepções políticas de Aristóteles na Antiguidade. Aristóteles concebia que os 10 escravos são o que são por natureza, ou seja, a condição de subjugação seria natural. Sartre critica a noção de natureza humana ao propor uma outra concepção: a de condição humana, pois o ser não nasce com um projeto preestabelecido de vida natural ou divino. O ser é, na realidade, livre, pois faz escolhas e projeta sua subjetividade no mundo. Sartre avalia o ser como devir histórico e sempre em transformação. Há, em Sartre, inspiração na dialética marxista, ou seja, no materialismo histórico e dialético. Marx concebia que a consciência é construída dialeticamente com base e em relação com a infraestrutura econômica, ou seja, as condições materiais econômicas. Isso significa dizer que o materialismo histórico avalia que a origem da consciência se dá sob relação de contradição ou dialética com o meio social, a partir de suas bases econômicas. Sartre sintetiza a formulação marxista (Figura 2) com a máxima: “a existência precede a essência”, ou seja, o meio social constitui a consciência, ou, o ser que, em seguida, passa a influenciar e transformar o mundo sob um processo permanente de retroalimentação. Figura 2 – “A existência precede a essência” Ao projetar, por meio de escolhas e da liberdade, o ser no mundo, passam a ocorrer relações dialéticas com a história, com os outros, ou seja, com o ser e as subjetividades alheias. Dialética (Aufhebung, em alemão) é a palavra que revela o sentido de negar, suprimir, conservar e superar ou elevar. Para Sartre, a humanidade nasce desprovida de qualquer determinação divina ou natural (negação do conceito de natureza humana). O meio social (a existência ou história) atua dialeticamente sobre o ser, o qual entra em contradição com o meio e, em seguida, o transforma, dando dimensões humanas à realidade. Apesar de afirmar o Cogito como uma profissão de fé em sua filosofia, Sartre se opõe a Descartes, conforme aponta no ensaio O existencialismo é um humanismo (1987). Enquanto o Cogito de Descartes é inato, Sartre indica que o Cogito existencialista, portanto, o Ser, é constituído historicamente (a existência precede a essência). 11 Segundo Sartre, ser livre significa produzir angústia e náusea por dois motivos: 1. Toda escolha (liberdade) implica no abandono ou anulação de todas as outras possibilidade de ação. 2. Cada escolha (projeto) não irá se realizar no futuro tal como o planejado originalmente no presente. Isso se deve ao fato de que “meu ser” se encontra numa relação dialética com a história e com as infinitas subjetividades dos outros. Por isso, afirma Sartre: o inferno são os outros. Portanto, angústia e náusea correspondem ao fenômeno da nadificação (Sartre, 1987), segundo o qual o ser é resultado de todos os fracassos e escolhas que não se realizaram, ou mesmo de desvios que minha liberdade operou sobre a história, transformando-a. Por estarmos em relação dialética com os outros e como o meio social e, portanto, com todas as demais subjetividades, Sartre considera que cada ato ou escolha, cada passo de nossa liberdade, tem ressonância universal, de forma que sempre somos responsáveis pelos outros. Sartre demonstra que a responsabilidade perante o mundo é permanente, cada ato nosso está interligado ao universal. O existencialismo é um humanismo (Sartre, 1987) foi escrito por Sartre para se opor aos seus críticos, que o acusavam de ser demasiado pessimista. Para o filósofo, o existencialismo é um humanismo, ou seja, possui na verdade um caráter otimista, pois embora considere o movimento de nadificação sobre o ser, ou seja, estamos destinados à angústia e à náusea por sermos livres, Sartre percebe que este ser é suficientemente livre para, a todo instante e, permanentemente, se construir, reconstruir ou projetar dialeticamente sempre novas formas de ser e sua liberdade na história. Sartre (1987) considera um ato de má-fé o sujeito que afirma ser possível não escolher, ou não ser livre. Na verdade, a condição humana é ser livre ou fazer escolhas, ainda que essas escolhas signifiquem não escolher ou, mesmo, escolher a submissão, a escravidão ou qualquer outra forma de subjugação. 3.2 Simone de Beauvoir: existencialismo e feminismo A obra O segundo sexo, de Simone de Beauvoir [1949]/(2016), influenciou as lutas pelas liberdades sexuais femininas durante as manifestações ocorridas em maio de 1968, em Paris (França). Sua obra estabeleceu diálogo entre o 12 existencialismo e o feminismo por meio da crítica do conceito de natureza humana e a afirmação da condição humana como sinônimo de liberdade, conforme Sartre havia proposto. Enquanto Sartre julga que a existência precede a essência, Beauvoir (2016) produzirá sob a fundamentação existencialista, a máxima que afirma que ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Além de aplicar o existencialismo à abordagem feminista, significa dizer que não há predeterminações naturais ou divinas sobre as funções sociais das mulheres. Trata-se da crítica às explicações naturalistas (fatalistas), de modo que homens e mulheres não possuem seus papéis sociais estabelecidos biologicamente, ou por alguma divindade. Mas o que recusamos, é a ideia de que [os dados biológicos] constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definir uma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada. (Beauvoir, 2016a, p. 60) Beauvoir parte em direção à denúncia e à crítica ao patriarcado, pois as relações sociais de cunho machista não passam de construções sociais, não sendo uma ordem universal, imutável, divina, tampouco natural. O machismo foi elaborado e construído sob relações de dominação, e não é natural. Tratando-se de uma construção artificial, o patriarcado poderá ser também desfeito por meio das lutas das mulheres, dando origem a uma nova ordem social mais justa e igualitária, construída por meio do exercício da liberdade. A partir de Beauvoir, foi possível realizar a distinção entre sexo e gênero. O sexo é definido biologicamente (macho ou fêmea, masculino ou feminino). O gênero, por sua vez, é uma construção social, que pode ter seu comportamento alterado a todo instante, variando de sociedade para sociedade, de época para época, ou, mesmo, de indivíduo para indivíduo. Dessa forma, o que se estabelece hoje como homem ou mulher, talvez não seja idêntico como foi no passado, ou como será no futuro de uma sociedade ou civilização. O sexo pertence ao campo biológico; o gênero, ao social. Vemos que a liberdade pode ser empregada tanto de forma negativa, a ponto de criar uma ordem patriarcal, ou mesmo a aceitação e obediência dessa ordem; no entanto, a liberdade pode promover lutas e transformações positivas para a sociedade e a emancipação feminina. 13 TEMA 4 – MERLEAU-PONTY E A INTENCIONALIDADE DO CORPO Neste tema estudaremos outro pensador francês que se dedicou ao estudo da fenomenologia: Maurice Merleau-Ponty. Em sua obra considerada inovadora, A fenomenologia da percepção (1999), publicada em 1945, o filósofo realiza movimentos de oposição com o pensamento fenomenológico de Husserl e de Heidegger, pois eles deram grande destaque à fenomenologia da consciência, esquecendo-se do corpo, não enfatizando estudos sobre as percepções corporais. Merleau-Ponty passa a construir a fenomenologia corporal, atrelada, de forma íntima, à mente. Trata-se de apresentar, de forma inédita, a intencionalidade do corpo e de suas faculdades sensoriais. Na fenomenologia da percepção, o ser é expresso pelo quiasma entre corpo e mente. Na obra O visível e o invisível (2005), o quiasma será denominado também como carne. O quiasma (ou carne) expressa o entrecruzamento ou ponto de intersecção na forma de um “xis”: o entrelaçamento das faculdades sensoriais ou corporais, e as mentais, que constituem a intencionalidade do ser – observe a Figura 3. Figura 3 – Fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty Merleau-Ponty identifica a intencionalidade no quiasma, ou seja, entrelaçamento entre corpo e mente. Isso significa dizer que o Ser não é apenas mental; é também corporal/sensorial, de modo que o corpo é extensão da mente, e a mente é extensão do corpo. Merleau-Ponty, na obra Fenomenologia da percepção (1999), define a intencionalidade presente no quiasma corpo x mente, como Cogito tácito. O Cogito tácito não deixa de ser uma menção crítica a Descartes, para quem a mente é o próprio Cogito; o corpo funcionaria meramente como uma máquina obediente à mente, nessa perspectiva cartesiana. O Cogito de 14 Descartes é expresso por meio do pensamento (Cogito ergo sum, ou “penso, logo existo”). Em Merleau-Ponty, o Cogito tácito se aproxima da afirmação “percebo ou sinto, logo existo”. Para Merleau-Ponty, a percepção diz respeito ao conjunto de faculdades sensoriais e seus desdobramentos (paladar, olfato, tato, visão e audição) que operam de forma sinestésica entre si, e com a mente. Formam o que o filósofo define como esquema corporal. A intencionalidade da percepção torna o corpo e a mente sujeitos e objetos um do outro, simultaneamente, e como quiasmas. Merleau-Ponty compara essa relação entre corpo e alma com as mãos de um mesmo sujeito que se tocam. Quem é o sujeito, quem é o objeto? Ambas as mãos compartilham do mesmo campo da percepção, tal como a relação entre o corpo e a mente. Mais do que morada do Ser, o corpo faz com que o indivíduo se realize no mundo e com os outros. O corpo é o tecido que reveste o Ser. Para todo movimento do corpo, há intencionalidade ou poder simbólico, que dá significação ao mundo, à cultura e às relações sociais. O corpo possui intencionalidade compartilhada com a mente, constituindo a existência do ser no mundo. A intencionalidade não implica apenas na consciência sobre as coisas, mas na percepção corporal. Os sentidos são os modos de conhecimento ou a percepção do próprio corpo. Trata-se do que o filósofo designou como sensiente (a consciência dos sentidos), que corresponde ao emaranhado de sensações que apreendem a realidade ao funcionarem mutuamente como uma confederação. As percepções humanas são atos conscientes do corpo. O corpo não é constituído por partes ou fragmentos funcionais e desprovidos da capacidade de dar sentido ou falta de consciência. O corpo não é uma máquina obediente à mente, senão parte integrante da mente, e vice-versa. As faculdades sensíveis correspondem a um todo que percebe o mundo e que atribuem significados a ele. Em Fenomenologia da percepção (1999), Merleau-Ponty apresenta as potencialidades presentes nessa forma de intencionalidade. Entre alguns exemplos, destaca o fato de os olhos (a visão) tatearem o espaço e os objetos. O esquema corporal permite que cegos desenvolvam a audição e olfato a ponto de identificarem pessoas e objetos a sua volta. Amputados, com os quiasmas e sinestesias, têm ou apresentam dor ou sensação fantasma. A dança expressa o corpo sensiente. Um ambiente com 15 iluminação amarelada faz com que nosso aparelho perceptivo o transforme a ponto de desconsiderar a cor da iluminação. A relação entre corpo e mente se assemelha à linguagem oral ou escrita. Quando falamos espontaneamente, não pensamos antes de falar, senão pensamos enquanto falamos; muitos conseguem escrever (digitar, ou no papel) enquanto suas ideias se articulam com o movimento dos dedos. O corpo, ao lado da mente, durante uma chuva, decide qual é o salto que deve ser dado para escapar de uma poça d´água. A fenomenologia da percepção permite sucessivas adaptações do esquema corporal. Trata-se da noção de que o corpo está em permanente metamorfose, e passa por adequações sensoriais, garantindo o acesso ao mundo e aos outros indivíduos. TEMA 5 – MATURANA E VARELA: A ÁRVORE DO CONHECIMENTO Estudaremos, a seguir, os pensadores chilenos Maturana e Varela (neurobiólogos, biólogos e filósofos), que publicaram, em 1984, a obra A árvore do conhecimento (1995). Eles procuram demonstrar a existência de intencionalidade no campo biológico (ou dos seres vivos) – do mundo vegetal ao animal. Trata-se da aplicação da fenomenologia aos estudos sobre a natureza. O termo autopoiese (Maturana; Varela, 1995) traduz o caráter e a dinâmica constitutiva de todos os seres vivos. Para viver e exercer a autopoiese, os seres vivos precisam recorrer a recursos do meio ambiente, transformando a si mesmos e exercendo fenomenologicamente sua existência sobre o mundo. Poiesis é um termo grego que significa “produção” ou “criação”. Autopoiese quer dizer “autoprodução” ou “autocriação”, expressando o que estes autores denominam como a fenomenologia dos seres vivos. A característica mais marcante de um sistema autopoiético é que ele se levanta por seus próprios cordões, e se constitui como distinto do meio circundante mediante sua própria dinâmica, de modo que ambas as coisas são inseparáveis. Os seres vivos se caracterizam por sua organização autopoiética. Diferenciam-se entre si por terem estruturas diferentes, mas são iguais em sua organização. Reconhecer que aquilo que caracteriza os seres vivos é sua organização autopoiética permite relacionar uma grande quantidade de dados empíricos sobre o funcionamento celular e sua bioquímica. O conceito de autopoiese, portanto, não contradiz esse corpo de dados – ao contrário, apoia-se neles e propõe, explicitamente, interpretá-los de um ponto de vista específico, que enfatiza o fato de os seres vivos serem unidades autônomas. (Maturana; Varela, 1995, p.87-88) 16 O termo autopoiese surgiu em 1974 com o objetivo de demonstrarque os seres vivos são sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos porque, ao mesmo tempo, são produto e produtores do meio ambiente e de si mesmos. Os autores chilenos não se opõem à teoria da evolução das espécies de Darwin. Consideram para além das concepções darwinistas, a concepção na qual todos os seres vivos têm dinâmicas que extrapolam o campo das determinações biológicas ou naturais, sendo, por isso, autopoiéticos, isto é, têm a capacidade de se desenvolverem para além do campo das necessidades e imposições naturais. A intencionalidade ou a autopoiese biológica demonstra que ela se apresenta em diferentes graus e capacidades nos mais diferentes seres vivos. Os autores se aproximam da noção de que a natureza, em suas manifestações biológicas, apresenta diferentes formas de inteligência ou de intencionalidade. NA PRÁTICA Realize uma pesquisa em jornais, revistas e documentários, procurando informações a respeito das conquistas feministas desde o final do século XIX até hoje. Com base no existencialismo e no feminismo de Simone de Beauvoir, investigue as transformações em torno da concepção de mulher no passado, e como os movimentos feministas têm reivindicado direitos. Elabore um texto empregando conceitos existencialistas – como liberdade, escolha e Ser para fundamentar sua abordagem. Depois de elaborar seu texto, debata com os colegas sobre as reflexões formuladas e discuta quais conclusões podemos obter sobre as conquistas políticas e sociais das mulheres. FINALIZANDO Investigamos nesta aula temas relacionados às correntes filosóficas fenomenologia e existencialismo. No Tema 1, estudamos a origem da fenomenologia com Husserl, que procurou fornecer rigor e cientificidade no que diz respeito ao estudo ontológico, ou seja, sobre o Ser. Vimos que Husserl desenvolveu conceitos importantes para a compreensão do Ser, como o método da redução fenomenológica (ou eidética), epoché, noesis e noema, consciência intencional e visada intencional ou intencionalidade. Todos esses conceitos 17 fundamentam a noção de que a consciência é sempre consciência de algo, originando a fenomenologia de Husserl. No Tema 2, abordamos a fenomenologia desenvolvida pelo filósofo alemão Martin Heidegger. Sua teoria está alicerçada no que definiu como Dasein (Ser-aí), elemento que está manifesto entre o velar e o desvelar do ser no mundo. Vimos que Heidegger se diferencia de Husserl por considerar que a intencionalidade não está somente presente na consciência, mas também nos objetos e em toda a realidade. No Tema 3, apresentamos o existencialismo de Sartre e de Simone de Beauvoir. Ambos os pensadores negam o conceito de natureza humana, e demonstram o que compreendem como condição humana, ou seja, a liberdade, fazer escolhas e projetar a consciência ou ser na história (realidade). Beauvoir aplicou o existencialismo ao feminismo, de modo que contribuiu com os movimentos feministas da década de 1960 na Europa. A fenomenologia da percepção desenvolvida por Maurice Merleau-Ponty foi apresentada no Tema 4. Estudamos que o pensador criticou as interpretações de Husserl e Heidegger, pois estes atribuíram à intencionalidade com ênfase na consciência apenas, esquecendo-se das percepções corporais. A noção de intencionalidade presente na fenomenologia de Merleau-Ponty envolve a combinação entre corpo e mente, sendo ambos inseparáveis. O pensador francês procurou ainda demonstrar que a noção de ser não envolve apenas a mente, mas a relação de reciprocidade entre as faculdades sensoriais e as mentais. O Tema 5 trouxe a fenomenologia aplicada à biologia estudada pelos intelectuais Maturana e Varela, que juntos desenvolveram o conceito de autopoiese, que procura demonstrar que os seres vivos possuem intencionalidade. 18 REFERÊNCIAS BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. I. HEIDEGGER, M. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2011. HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1995. Parte I. HUSSERL, E. A filosofia como ciência de rigor. Coimbra: Atlântida, 1965. HUSSERL, E. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. São Paulo: Ideias & Letras, 2006. HUSSERL, E. Meditações cartesianas: introdução à fenomenologia. São Paulo: Madras, 2001. MATURANA, H.; VARELLA, F. A árvore do conhecimento: a base biológica do entendimento humano. Campinas: Psy II, 1995. MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo, Perspectiva, 2005. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1999. SARTRE, J.-P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1987. SARTRE, J.-P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1999.