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Artigo_kelsen_Teoria Pura do Direito e sociologia compreensiva - Artigos - Jus Navigandi

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defender a
instituição da propriedade privada da sua destruição pela ordem jurídica. Não é
difícil compreender por que a ideologia da subjetividade jurídica se liga com o valor
ético da liberdade individual, da personalidade autônoma, quando nesta liberdade
está também incluída sempre a propriedade. Um ordenamento que não reconheça o
homem como personalidade livre neste sentido, ou seja, portanto, um ordenamento
que não garanta o direito subjetivo da propriedade – um tal ordenamento nem
tampouco deve ser considerado como ordem jurídica. (Kelsen, 2000: 190/191).
 O conceito de direito subjetivo, no entanto não é de todo inútil pois pode
servir como um conceito auxiliar, dispensável, mas que pode facilitar a descrição de
certas situações juridicamente relevantes.
 Este conceito de direito subjetivo que apenas é o simples reflexo de um dever
jurídico, isto é, o conceito de um direito reflexo, pode, como conceito auxiliar facilitar
a representação da situação jurídica. É, no entanto, supérfluo do ponto de vista de
uma descrição cientificamente exata da situação jurídica. (Kelsen, 2000: 143).
 Este conceito é especialmente útil na construção de um outro conceito auxiliar
da ciência jurídica, o de personalidade.
 Personalidade Jurídica
 A teoria pura do Direito costuma distinguir os conceitos de "pessoa física" e
"pessoa jurídica", conforme o detentor dos direitos e deveres seja um indivíduo
humano ou uma corporação. O debate travado por Kelsen com tal teoria, novamente,
não nos interessa aqui, mas sim a definição do próprio autor.
 Ora, a premissa fundamental da teoria Pura do Direito é afastar tudo aquilo
que não compõe seu objeto de estudo, e este é uma ordem normativa, ou melhor, a
ordem jurídica. Não pode, portanto, esta teoria definir como pessoa física "o homem,
enquanto sujeito de direitos e deveres" (cf. Kelsen, 2000: 191), nem mesmo a relação
jurídica como uma relação entre homens juridicamente regulamentada.
 Num conhecimento dirigido às normas jurídicas não são tomadas em
consideração – nunca é demais acentuar isso – os indivíduos como tais, mas apenas
as ações e omissões dos mesmos, pela ordem jurídica determinadas, que formam o
conteúdo das normas jurídicas. (Kelsen, 2000: 189).
 Portanto, coerente com seu pensamento, Kelsen define a pessoa em função da
Ordem jurídica:
 A pessoa física ou jurídica que "tem" – como sua portadora – deveres e direitos
subjetivos é estes deveres e direitos subjetivos, é um complexo de deveres jurídicos e
direitos subjetivos cuja unidade é figurativamente expressa no conceito de pessoa. A
pessoa é tão-somente a personificação desta unidade. (Kelsen, 2000: 192).
 Uma pessoa é um conjunto de normas, ou melhor, um subconjunto de normas.
Como a distinção entre pessoa física e jurídica refere-se a ter ou não um homem como
o "suporte" de determinados direitos e deveres, a distinção torna-se irrelevante.
 É na definição de pessoa jurídica que, a meu ver, ganha em importância os
conceitos, que Kelsen denomina de "auxiliares", de direito subjetivo e dever jurídico.
De fato, para descrever o ordenamento eles não são necessários, mas, como a pessoa
jurídica é determinada como um subconjunto de normas que têm em comum o fato
de que incidem sobre a conduta de um mesmo indivíduo ou sobre uma mesma
corporação, torna-se mais simples determinar quais normas constituem esta pessoa
valendo-se de tais conceitos "auxiliares".
 Poderíamos dizer que, se uma ordem normativa é um conjunto de normas
vinculadas por um fundamento de validade comum, ou melhor o mesmo ponto
inicial da série imputativa, uma pessoa jurídica é um conjunto de normas vinculadas
por incidirem sobre uma mesma conduta, ou melhor, por compartilharem o mesmo
ponto terminal na série imputativa. (37)
 Não seria possível, entretanto, determinar a pessoa jurídica como um conjunto
de normas que incidem sobre um mesmo elemento, já que direitos subjetivos são
normas que incidem sobre o comportamento dos outros, constituindo um dever para
estes e sendo um reflexo de dever referente à pessoa em questão. O dever jurídico é
reflexo de uma norma ou dever ser, e, por sua vez, o direito subjetivo é reflexo de tal
reflexo. Não seria possível, sequer, desprezar o direito subjetivo sob o argumento de
que faz parecer haver duas normas onde, de fato só há uma porque, no estudo da
relação jurídica importa conhecer a pessoa jurídica e, se deixar de lado o direito
subjetivo na esperança de que se apresentará como dever jurídico de uma outra
pessoa, corremos o risco de essa outra pessoa não fazer parte da relação, de modo
que o referido direito (a norma) seja desprezada.
 Assim como o direito subjetivo não é um interesse – protegido pelo Direito –,
mas a proteção jurídica de um interesse, assim também a pessoa física não é o
indivíduo que tem direitos e deveres mas uma unidade de deveres e direitos que tem
por conteúdo a conduta de um indivíduo. (...) O que em ambos os casos – tanto o da
pessoa física como o da pessoa jurídica – realmente existe são deveres jurídicos e
direitos subjetivos tendo por conteúdo a conduta humana e que formam uma
unidade. Pessoa jurídica (pessoa em sentido jurídico) é a unidade de um complexo de
deveres e direitos subjetivos. Como estes deveres jurídicos e direitos subjetivos são
estatuídos por normas jurídicas – melhor: são normas jurídicas –, o problema da
pessoa é, em última análise, o problema de um complexo de normas. A questão é a
de saber qual é, num caso e no outro, o fator que produz essa unidade. (Kelsen, 2000:
193/194).
 Não há, na descrição do Direito realizada pela teoria pura, indivíduos
concretos, fatos sociais ou quaisquer outros fatores que não seja conteúdos de sentido
normativos. A pessoa jurídica é um complexo de normas, não um indivíduo ou uma
instituição social. As normas que compõe uma pessoa jurídica tem por vínculo não
um mesmo fundamento de validade, mas a referência à conduta de um mesmo
indivíduo ou corporação.
 A unidade de deveres e direitos subjetivos, quer dizer, a unidade das normas
jurídicas em questão, que forma uma pessoa física resulta do fato de ser a conduta de
um e o mesmo indivíduo que constitui o conteúdo desses deveres e direitos, do fato
de ser a conduta de um e o mesmo indivíduo a que é determinada através destas
normas jurídicas. A chamada pessoa física não é, portanto, um indivíduo, mas a
unidade personificada das normas jurídicas que obrigam e conferem poderes a um e
mesmo indivíduo, mas a unidade personificada das normas jurídicas que obrigam e
conferem poderes a um e mesmo indivíduo. Não é uma realidade natural, mas uma
construção jurídica criada pela ciência do Direito, um conceito auxiliar na descrição
de fatos juridicamente relevantes. Neste sentido, a chamada pessoa física é uma
pessoa jurídica (juristiche person). (Kelsen, 2000: 194).
 Cumpre esclarecer o que seria, portanto, uma corporação. Kelsen afirma que
tradicionalmente se entende a corporação como uma comunidade de indivíduos a
que a ordem jurídica estabelece direitos e deveres. A personificação desta
comunidade costuma ser definida como pessoa jurídica, em contraposição à pessoa
física. Este entendimento não é cabível para a teoria Pura do Direito, uma vez que
direitos e deveres só o são da conduta humana, e não de entidades personificadas.
"Como os deveres e direitos apenas podem ter por conteúdo a conduta humana, a
ordem jurídica pode conferir direitos somente a indivíduos". (Kelsen, 2000: 196).
 Quando se diz que determinada corporação tem um "direito" ou um "dever",
diz-se de fato que um indivíduo determinado pela mesma corporação tem tal dever.
Para compreender esta situação convém ter em mente o que, precisamente é esta
corporação. Ela não é um