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Artigo_kelsen_Teoria Pura do Direito e sociologia compreensiva - Artigos - Jus Navigandi

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conjunto de indivíduos, unidos por um fim em comum, ela
é algo criado por alguns indivíduos. Mais precisamente, uma corporação é um
conjunto de regras de conduta postas por determinados indivíduos. Estas regras, no
caso de esta corporação ser parte de um estado são consideradas válidas por estarem
de conformidade (segundo os princípios estático e dinâmico) com determinadas
normas estatais, em geral, o código civil. A corporação é, portanto, um ordenamento
normativo particular, dentro de uma ordem normativa mais ampla.
 Quando dois ou mais indivíduos querem perseguir em comum, por qualquer
motivo, certos fins econômicos, políticos, religiosos, humanitários ou outros, dentro
do domínio de validade de uma ordem jurídica estadual, formam uma comunidade
na medida em que subordinam a sua conduta cooperante endereçada à realização
destes fins, em conformidade com a ordem estadual, a uma ordem normativa
particular que regula esta conduta, e, assim, constitui a comunidade. (Kelsen, 2000:
196).
 A corporação, enquanto ordem normativa, é sujeito de direitos e deveres, ou
seja, é pessoa jurídica. Ora, se definirmos ordem normativa como conjunto de normas
e pessoa jurídica da mesma forma, isto nada mais seria que uma tautologia. Convém,
portanto, esclarecer a diferença entre uma corporação (ordem normativa) e uma
pessoa jurídica, além de explicitar em que medida aquela pode ser sujeito de direitos
e deveres.
 Definiu-se, anteriormente, o que seria uma Constituição em sentido material: o
conjunto de normas que regulamenta a produção de normas. Uma corporação é um
conjunto de normas, ou ordenamento normativo, dotado de Constituição em sentido
material, normas gerais, normas individuais e sanções, tal como o ordenamento
jurídico (38). Diferencia-se deste, porém, porque decorre dele sua validade.
Poderíamos, portanto, fazendo uma analogia com os conceitos de norma superior e
inferior, designar a corporação como um ordenamento normativo inferior. De um
modo mais preciso, a corporação é uma ordem normativa e não uma pessoa jurídica
porque o vínculo das normas que a compõe estão no início da série imputativa (se
pressupusermos sua constituição), enquanto que a pessoa jurídica é um conjunto de
normas vinculadas por um mesmo termo final na série imputativa, ou seja, por
incidirem sobre a mesma conduta humana.
 Isto posto, como aceitar que uma ordem normativa seja sujeito de direitos e
deveres? Na medida em que a ordem normativa em questão deriva sua validade de
uma ordem normativa superior (a ordem jurídica), pode esta determinar certa forma
ou conteúdo para as normas e para a constituição da ordem inferior. Também pode a
ordem jurídica determinar sanções para o caso de normas postas em desacordo,
lembrando que o indivíduo cuja conduta pode evitar a sanção não é necessariamente
o mesmo que "responderá" por tal conduta. Em geral, a ordem jurídica estabelece
sanções à corporação quando atribui a ela os atos cometidos por determinados
indivíduos. Esta atribuição é feita por considerar-se tal indivíduo como um órgão da
corporação, ou melhor, aquela conduta específica como conduta deste órgão, o que
ficará melhor explicitado quando, adiante, tratar-se da teoria da organicidade.
 A pessoa jurídica ficou definida como um conjunto de normas que incidem
sobre a conduta de um mesmo indivíduo ou corporação, ou melhor, um conjunto de
deveres jurídicos e direitos subjetivos. Neste sentido não há qualquer diferença
essencial entre a pessoa jurídica e a chamada pessoa física, sendo ambas tratadas aqui
como pessoas jurídicas.
 Organicidade
 No linguajar cotidiano, bem como em textos científicos, encontramos com
facilidade a atribuição de certas ações a corporações ou, em geral, "comunidades de
indivíduos" (especialmente ao Estado). No entanto, "há aí uma ficção, pois não é a
comunidade, mas um indivíduo humano, quem exerce a função." (Kelsen, 2000: 142).
Afirmar que uma certa empresa realizou determinada obra, ou cometeu determinado
delito é uma figura de linguagem. Determinados indivíduos que trabalhavam em
uma dada situação cometeram tais atos.
 Quando deixamos de lado a personificação, por assim dizer, animística da
corporação, assumimos uma postura que permite descrever de forma mais precisa as
situações nas quais uma certa conduta humana é atribuída a uma entidade, ou
melhor, a uma ordem social.
 Retomemos, portanto, a definição de comunidade, aqui ,sinônimo de
corporação:
 A comunidade consiste na ordem normativa que regula a conduta de uma
pluralidade de indivíduos. Diz-se, na verdade que a Ordem constitui a comunidade.
Mas ordem e comunidade não são dois objetos distintos. Uma comunidade de
indivíduos, quer dizer, aquilo que a estes indivíduos é comum, consiste apenas nesta
ordem que regula a sua conduta. (Kelsen, 2000: 168).
 Se atribuímos determinados atos humanos a determinadas ordens normativas
é, basicamente, porque o tomamos como determinado por esta mesma ordem. Se
dizemos que a empresa A construiu uma ponte, ou que despediu determinados
funcionários, ou mesmo que superfaturou uma obra e desviou recursos
governamentais, afirmamos de fato que certos indivíduos humanos, agindo de
conformidade com a ordem em questão, ou agindo como órgãos dessa ordem,
realizaram tais atos.
 Atribuir à comunidade um ato de conduta humana não significa
absolutamente nada mais que referir esse ato à ordem que constitui a comunidade,
concebê-lo como um ato que a ordem normativa autoriza (no sentido mais amplo da
palavra). (Kelsen, 2000: 168).
 Uma ordem normativa (uma comunidade) pode estabelecer que determinados
atos, inclusive de produção de normas, poderão ser realizados por determinados
indivíduos de uma forma dada e vedar esses mesmos atos a todos os demais, ou seja,
uma comunidade pode funcionar segundo o princípio da divisão do trabalho. (39)
 A ação humana, ou função, determinada pela ordem normativa pode ser
entendida como ação ou função e um órgão da mesma ordem e, portanto, a ação feita
em conformidade com ela será atribuível à comunidade. O indivíduo pode ser
caracterizado como órgão apenas na medida em que sua ação seja determinada pela
ordem. De qualquer forma, importa distinguir o indivíduo em si de sus ações
realizadas segundo o sentido posto pela ordem normativa, ou realizadas em
desconformidade com tal sentido.
 Como já se acentuou acima, estes indivíduos não pertencem como tais, mas
apenas com as suas ações e omissões reguladas pelo estatuto, à comunidade
constituída pelo estatuto e designada como corporação. Somente uma ação ou
omissão regulada no estatuto pode ser atribuída à corporação. Com efeito, na
atribuição de um ato de conduta humana à corporação nada mais se exprime senão a
referência deste ato à ordem normativa que o determina e constitui a comunidade
que, através desta atribuição, é personificada. (Kelsen, 2000: 197)
 Diz-se de uma comunidade ou corporação que é organizada. "As
comunidades que têm ‘órgãos’ chamam-se comunidades ‘organizadas’; e por
comunidades organizadas entendem-se aquelas que têm órgãos funcionando
segundo o princípio da divisão do trabalho". (Kelsen, 2000: 171).
 O conceito de órgão e o de comunidade organizada servem para facilitar a
descrição do Direito (40). Não são, também, conceitos rigorosamente necessários, mas
úteis para identificar com celeridade quando uma ação é atribuível a uma ordem
normativa.
 Os conceitos personalísticos "sujeito jurídico" e "órgão jurídico" não são
conceitos necessários para a descrição do Direito. São simplesmente conceitos
auxiliares que, como o conceito de direito reflexo, facilitam a exposição. (Kelsen,
2000: 189).
 A utilidade de saber quando é possível tal atribuição reside na análise