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Texto 5 O sujeito universal

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Caonã M.

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42 Ensaio feminista sobre sujeito universal vozes e existências. Os movimentos feministas, suas práticas, Capítulo 3 suas teorias e suas histórias podem nos auxiliar a desvendar O sujeito universal na cultura e essa construção e apontar caminhos para outras formas pos- no pensamento do Ocidente síveis de estabelecer significados para a vida, nosso presente, passado e futuro. Em Ensinando a transgredir (2017), bell hooks fala-nos como é importante para os movimentos feministas insur- gentes apropriarem-se da teoria como forma de resistência. A valorização do pensamento teórico tem construído di- Na narrativa eurocêntrica sobre a história da humanidade, visórias entre o feminismo acadêmico, científico e predo- tudo começa com os gregos. Além de ignorar as civilizações minantemente branco, e os movimentos de mulheres que, que se desenvolveram antes ou ao mesmo tempo, essa his- mesmo fora da academia, entendem muito bem as causas tória também reproduz certas ideias sobre a cultura clássica das opressões que limitam suas potencialidades e restringem que reafirmam o protagonismo europeu. É bastante conhe- seus direitos. Há também nessa distinção uma valorização cida a tese de que, na cultura grega antiga, a invenção do da palavra escrita em detrimento da palavra falada, confir- bárbaro contribuiu sobremaneira para a própria constituição mando o grafocentrismo como mais um problema da cultu- de uma identidade coletiva entre os povos que habitavam a Hélade e suas colônias. Como salientou o historiador francês ra hegemônica no Ocidente. hooks nos fala de uma experiência compartilhada por François Hartog (1999), os gregos olhavam os estrangeiros mulheres de sua geração que, ao se depararem com a teoria como se mirassem um espelho invertido, enumerando como feminista, surpreenderam-se por encontrar ali muito pouco características dos povos considerados bárbaros não apenas que remetesse às suas cotidianas. Contra uma teo- aquilo que eles viam enquanto diferença, como também os ria hermética, fechada para não iniciadas, bell hooks defende atributos indesejados na personalidade e na cultura grega. que reivindiquemos o direito de refletir a partir de nossas O bárbaro passou a ser o exótico, o forasteiro, e foi tomado próprias experiências e de transformar nosso pensamento como sinônimo de selvagem, desprovido de graça e polidez. em teoria da transformação social. A intelectual nos diz que A polarização entre aqueles que pertenciam à Hélade e co- "se criarmos teorias feministas e movimentos feministas que nheciam sua língua e cultura e os que pertenciam a outra falem com essa dor, não teremos dificuldade para construir territorialidade e inscrição cultural, como os persas, por uma luta feminista de resistência com base nas massas. Não exemplo, acabou por assentar a imagem do homem ideal haverá brecha entre a teoria feminista e a prática feminis- como aquele conformado pelas práticas sociais, políticas e ta" (hooks, 2017, p. 104). É nessa teoria que eu também culturais daquela civilização do Ocidente, em oposição às acredito. diversas civilizações orientais com as quais os helenos trava- ram contato. 4344 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 45 Como aquelas sociedades eram fundamentadas em pleno desenvolvimento no Século das Luzes. Estudos histó- princípios patriarcais, na maior parte das poleis, as mulheres ricos como esse são importantes para que possamos desna- eram proibidas de atuar no espaço público e eram respon- turalizar verdades que são afirmadas como inquestionáveis sáveis pela vida doméstica, resultando em uma concepção (Bernal apud Ortiz, 2015). de democracia e, posteriormente, de cidadania muito exclu- O Cristianismo contribuiu para a ampliação da noção dente. Além do impedimento de acesso à participação polí- de universalidade. Como uma religião monoteísta e de ma- tica aos estrangeiros e aos escravizados, também as mulheres triz judaica, sua pregação sustenta a afirmação de que existe tiveram seus direitos políticos suprimidos em várias cidades um único Deus e um só caminho para a salvação da alma. gregas. Dessa maneira, aqueles que deveriam comandar a Os cristãos passaram a reivindicar o posto de povo escolhido pólis eram os homens gregos, que também eram responsá- e a determinar como um de seus pilares a atividade missio- veis por legislar, filosofar, guerrear, organizar a vida pública nária. Esse Deus onipresente, onipotente e onisciente será o e cultural. Embora algumas mulheres tenham rompido com ponto de partida de uma visão de mundo e expressão cultu- esse aparato de dominação, é fortalecida a noção de que elas ral que afirmam que toda a verdade fora revelada na Bíblia e eram exceção à que essa verdade deve sobrepor-se a qualquer outra tentativa Contudo, vale a pena a ressalva de que diversos autores, de explicar a vida, a morte e tudo que ocorre entre um acon- como Jack Goody (2008) - que denuncia o roubo da his- tecimento e outro. tória realizado pelo Ocidente em relação às invenções das Religião, cultura e interesses econômicos aproximaram- civilizações não ocidentais -, têm destacado como essa nar- -se no período da expansão marítima europeia e na insti- rativa de que a razão e o pensamento nascem na Grécia e de- tuição de entrepostos comerciais e colônias europeias na pois se universalizam faz parte de um projeto de poder e de América, na Ásia e na África. A afirmação do Cristianismo afirmação da cultura europeia, mas não tem fundamentação como a religião correta e a violência empenhada para pro- histórica. Martin Bernal afirma que a inspiração dos gregos mover o apagamento das demais crenças e foram no mundo egípcio era, inclusive, bastante reconhecida na alguns dos capítulos mais obscuros da história. Como se não Europa até o século XVIII. Segundo sua análise, foram os fosse pouco, na expansão imperialista do século XIX, mais intelectuais do Iluminismo que apostaram em uma narrativa uma vez a religião foi utilizada como justificativa para os histórica que estabeleceu uma linha de continuidade entre crimes coloniais e a expropriação dos povos e da natureza de a Grécia clássica e a Europa ilustrada, como se a razão e a continentes inteiros. ciência que haviam nascido no mundo antigo alcançassem O pensamento decolonial tem-nos oferecido boas ferramentas para criticar as heranças da colonização euro- 2 A peça de teatro Antigona, de Sófocles (2008), é um bom exemplo peia e também de um neocolonialismo estadunidense da representação cultural acerca do protagonismo das mulheres na nas Américas. Para o intelectual peruano Aníbal Quijano sociedade grega, apesar de todas as restrições.46 Ensaio feminista sobre o sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente (2005), a conquista da América pelos europeus e a sua co- Eu disse-lhe que não era honrável para uma mulher amar lonização deram início a um novo de poder mun- a qualquer um que não fosse o seu marido e que, com dial, baseado na colonialidade. Nesse novo as rela- este mal pairando, ele não poderia ter certeza de que ções sociais passaram a ser mediadas por três características seu filho era realmente seu. Ele respondeu: tens fundamentais: a formação do sistema capitalista de trocas juízo. Vocês franceses amam apenas os seus filhos, mas comerciais em escala mundial; a afirmação da modernidade nós amamos a todos os filhos de nossa tribo.' Comecei a europeia como paradigma do pensamento, da ciência e da rir, vendo que ele filosofava como os cavalos e as mulas (Federici, 2017, p. 222). constituição dos discursos verdadeiros sobre a realidade; e a racialização de povos não brancos. Segundo María Lugones Ainda refletindo sobre essas questões, é bastante proble (2014), a imposição das relações entre homens e mulheres, a mática a própria utilização de conceitos como Ocidente e a partir de concepções de gênero típicas das sociedades euro- mesmo a forma como Europa assume a força de uma ent peias nas Américas, também é uma atribuição desse processo dade. Sobre o assunto, o sociólogo brasileiro Renato Ort histórico. argumenta: Para ilustrar esse último aspecto, podemos citar uma passagem de Caliba e a bruxa (2017), na qual Silvia Federici Primeiro, postula-se a existência de um espaço deno- analisa uma história relatada pela antropóloga Eleanor minado Ocidente [...]. Sua concretude seria irrefutá- Leacock: o francês Paul Le Jeune registrou em seu di- vel, material, e não o resultado de uma representação ário impressões de seus encontros com os indígenas da tribo cuja história é perfeitamente possível de se reconstruir. Innu, que viviam onde hoje se localiza o Canadá. Segundo o A Europa, ou seja, o relato que dela se faz, deixa de se padre, os Innus eram desprovidos de noções de propriedade constituir em uma unidade simbólica, imaginada, para privada, autoridade e superioridade masculina, e foram os transformar-se numa realidade conjugada no singular, franceses que cumpriram o importante papel de lhes ensinar jamais no plural. Ela encerraria, em sua personalidade que o homem é o senhor e que, na França, as mulheres não imanente, em sua essência, valores, disposições espiritu- mandam em seus maridos. Os religiosos também comemo- ais, inclinações jurídicas e econômicas radicalmente dis- raram como uma vitória quando finalmente induziram o tintas de todas as outras sociedades (Ortiz, 2015, p. 47). castigo às crianças como uma prática punitiva aceita social- mente. O seguinte trecho, reprodução de um diálogo entre A afirmação da Europa como uma identidade constan Le Jeune e um homem Innu, retirado do diário do é que se confunde com a ideia de uma essência da humani elucidativo sobre como as relações entre os gêneros masculi- de, é o principal problema do universalismo que enconti no e feminino eram muito diferentes entre os franceses e os sua forma mais acabada na filosofia do Iluminismo. As Innus em meados do século XVII: cepções iluministas de liberdade, igualdade, nação, po democracia, progresso, modernidade, entre outras, for48 Ensaio feminista sobre o sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 49 transformadas em verdades inquestionáveis e padrões para rativas monocausais, lineares e unitárias, que afirmavam a toda a humanidade, afirmando a história da Europa como inexorabilidade do processo histórico europeu, da organiza- modelo para o desenvolvimento de todos os povos, todos os ção política em torno do Estado-nação e da necessidade de Estados, todas as culturas. Talvez o caminho para a supera- todo o globo seguir os passos da Europa. ção desse universalismo que aniquila as diferenças e impõe Com os impactos de grandes movimentos sociais e um padrão único para o processo histórico seja o que Ortiz políticos das décadas de 1960, 1970 e 1980, tais como os nos propõe como uma territorialização do pensamento e da movimentos por independência pelos territórios que foram experiência histórica europeia. Isso significaria compreender invadidos por potências imperialistas, movimentos de con- a história daquele continente, situando-a geograficamente, tracultura, movimentos por direitos civis e reivindicações da isto é, entendendo que a história da Europa é uma entre tan- e memória das vítimas de episódios traumáticos como o tas outras histórias ao redor do planeta. Ela não é A história Holocausto, o neocolonialismo e regimes de exceção, a his- da humanidade, ela é UMA história. Precisamos conhecer toriografia transformou-se para dar expressão aos diferentes outras histórias também, não para apagar a história euro- grupos que cobravam seu lugar na História. Esforços foram peia, mas para colocá-la em seu devido lugar. envidados para que fosse ampliada a gama de sujeitos histó- Essa empreitada já está em curso há algumas décadas. ricos e para que histórias até então apagadas chegassem ao Muitos historiadores, cientistas sociais e filósofos têm con- conhecimento da comunidade como um todo. O surgimen- tribuído com suas pesquisas para que concepções deturpadas to da história das mulheres como um campo específico da sejam desmistificadas e para que tenhamos o conhecimento pesquisa historiográfica é, em grande parte, resultado dos efetivo da história de outras civilizações e culturas. O pro- movimentos feministas das décadas de 1960 e 1970, que blema é que, por muitos anos, até mesmo a historiografia denunciavam que a história oficial era narrada apenas sob a contribuiu para a afirmação da pretensa universalidade dos perspectiva masculina. A história das mulheres contribuiu valores europeus. O surgimento da História como uma para que muitas pessoas e suas histórias pudessem finalmen- disciplina nos moldes que conhecemos hoje aconteceu no te ser conhecidas e respeitadas. século XIX, em território europeu. Além da preocupação Mas vamos voltar um pouquinho no tempo para in- dos historiadores em pesquisar criticamente e a partir de vestigar melhor como essa imagem de um sujeito universal métodos rígidos os acontecimentos do passado, a escrita da projetou-se na produção literária e quais teriam sido algu- História naquele período foi muito marcada por dois pro- mas de suas consequências. No século XIX, a efervescência cessos históricos centrais para os países europeus: o forta- de projetos para a nação tornou perceptível a importância lecimento dos Estados-nacionais e a expansão imperialista. da proposição de uma língua nacional e da defesa de que Naquele cenário, a historiografia não em sua totalidade, os falantes de uma comunidade também eram capazes de mas em sua maioria contribuiu para a construção de nar- 3 Para este debate, ver Araújo (2019).50 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 51 constituir uma comunidade de leitores. Não somente foram o contrário. Embora seja inegável que, em muitos países e estimuladas as letras que contribuíssem para a formação do culturas, o feminino tenha sido associado à vida privada e cidadão e de valores como o patriotismo, como fora tam- ao trabalho doméstico de manutenção da vida e cuidado bém incentivada a produção de literatura, a fim de forjar dos vulneráveis, ainda assim, uma quantidade expressiva de um cânone nacional. Aqui é que reside nossa principal ques- mulheres rompeu essa discriminação de gênero e ocupou tão: embora muitas mulheres tenham-se empenhado em espaços públicos, lançando-se em tarefas e ofícios que até se expressar em obras históricas, obras literárias, poesias e então. eram destinados exclusivamente aos homens. A his- romances, elas foram invisibilizadas e excluídas em diver- tória tem-nos apresentado um número significativo de mu- SOS níveis. Primeiramente, por meio do veto à publicação lheres que foram líderes e participantes de eventos históricos de textos, comentários, resenhas, poesias e literatura escritos responsáveis por grandes transformações sociais, e ajudado por mulheres. Muitas tiveram seus trabalhos recusados não a compreender como viviam as mulheres que resistiam ao pela qualidade do material avaliado, mas pelo simples fato patriarcado. Essas pesquisas também nos têm revelado a de serem mulheres. Isso levou grandes autoras a adotarem produção intelectual de mulheres que foram esquecidas de nomes masculinos, como foi o caso de Mary Ann Evans, nossas histórias. Mas o apagamento de seus nomes e de seu escritora britânica que viveu no século XIX e adotou o pseu- trabalho foi um gesto tão violento que muitas pesquisadoras dônimo George Elliot. e pesquisadores têm encontrado enorme dificuldade em ras- Por muitos anos, nós mulheres fomos convencidas de trear essas escritoras e encontrar vestígios que nos informem que o motivo para uma história tão centrada nas ações e melhor sobre suas histórias de vida e luta contra um merca- criações masculinas, bem como para a ausência de nomes do editorial brutalmente excludente. femininos na maioria das listas de historiadores, filósofos e Heloisa Buarque de Hollanda, Lucia Nascimento escritores clássicos, não era outro, senão o fato de que, por Araújo e sua equipe de pesquisadores realizaram uma gran- causa da dominação patriarcal e da clausura no ambiente do- de investigação em torno das mulheres que escreveram sobre méstico às quais as mulheres foram submetidas por séculos literatura e artes de 1860 a 1991. O resultado dessa pesquisa simplesmente não havia em nosso passado mulheres que foi a publicação do livro/dicionário brasileiras, em efetivamente tivessem contribuído para a transformação so- 1993.4 No volume, as autoras apresentam-nos quase trezen- cial como personagens destacadas nos eventos históricos, ou tas páginas em verbetes sobre mulheres brasileiras que se de- mesmo que tenham conseguido dedicar suas vidas a desen- dicaram à crítica e ao ensaísmo sobre as artes no período volver seus talentos como autoras de obras de historiografia, citado. É um trabalho impressionante em vários aspectos. de filosofia ou de literatura, exceto raríssimas A pesquisa de muitas mulheres e também de alguns As autoras reconhecem que esse esforço não era inédito, uma vez que, homens -, desde fins da década de 1960, tem-nos mostrado em 1899, Inês Sabino Maia publicou Mulheres ilustres do Brasil, a fim de retirar as mulheres brasileiras da "barbárie do esquecimento" (Hollanda e Araújo, 1993, p. 13). Ver também Muzart (2004).52 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 53 Primeiramente, pela possibilidade de conhecermos tantas ao ensaio Um teto todo seu (2014). O convite recebido pela intelectuais que participaram ativamente do debate cultural. Sr.a Woolf tornara explícito o tema da conferência: as mu- Também por percebermos, com mais clareza, que o proces- lheres e a ficção. Diante de um tópico tão abrangente e que de exclusão patriarcal não se esgota na caracterização das poderia ser abordado por diferentes prismas, a autora do cé- atribuições de cada gênero e na imposição da reclusão femi- lebre romance Mrs. Dalloway decidiu interrogar-se sobre as nina, mas se amplia e se consolida na produção de esque- possibilidades reais para que uma mulher pudesse dedicar-se cimento. Por fim, mas não menos importante, as autoras à ficção como um ofício. nos oferecem um panorama de trabalhos que as antecede- A personagem de seu ensaio ficcional, Mary Benton, ram, produzidos no final do oitocentos e ao longo do sécu- chega à conclusão inicial de que, para tal, uma mulher não lo XX, nos quais as mulheres se empenharam em manter poderia contar com menos do que uma renda fixa anual que a memória do trabalho intelectual feminino, produzindo garantisse o seu sustento e um teto todo seu. Ela assevera antologias, dicionários, catálogos, perfis, galerias, entre ou- que a liberdade intelectual depende de coisas materiais: boa tros, com o objetivo de apresentar as "mulheres ilustres", as alimentação, roupas para se proteger no inverno, condições escritoras brasileiras, as "mulheres célebres e notáveis", as de manter boa saúde e, de preferência, uma casa, um espaço, intelectuais etc. Buarque de Hollanda e Nascimento Araújo onde essa mulher pudesse dedicar-se à leitura, à reflexão, à (1993, p. 15) nos dizem: escrita e à reescrita. Considerando as oportunidades disponíveis para as mu- Pode-se perceber, nestas obras pioneiras da prática crí- lheres em seu país desde alguns séculos, Woolf chega à con- tica feminina, o eixo central da preocupação com a ló- clusão de que as mulheres sempre foram condenadas a viver gica do na construção da série literária, em situações de pobreza, seja porque pertenciam ao estrato marcando uma tendência, de claro acento político, em menos abastado da sociedade ou pela impossibilidade de denunciar e tentar romper com a estigmatização da pre- sença feminina na literatura. dispor de suas heranças. Ademais, viviam assoberbadas com o trabalho não remunerado de gerar e criar filhos e, muitas A escritora inglesa Virginia Woolf foi convidada para vezes, também se ocupavam de sua instrução -, cuidar das proferir duas palestras no ano de 1928, uma na Arts Society, casas, cozinhar, coser e tantas outras tarefas que as deixavam do Newnham College, e outra para a ODTAA,5 do Girton completamente exauridas no final do dia e sem tempo ou College ambas eram escolas apenas para mulheres na condições para dedicarem-se a atividades rentáveis. Universidade de Cambridge. A extensão dos artigos moti- Comparando com as oportunidades de um homem vou sua ampliação e subsequente publicação, dando origem que tenha vivido em uma mesma comunidade e no mesmo período, a autora conclui que as mulheres nunca tiveram 5 Abreviação de "One Dammed Thing After Another", em tradução a chance mais remota de escrever prosa. Em seu exercício livre, "Uma Coisa Maldita Atrás da Outra".54 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 55 ficcional, ela imagina se Shakespeare, grande nome da litera- por isso, ali se concentrasse a maneira correta de represen- tura inglesa, tivesse uma dotada de semelhante talento tação da vida e do mundo. Seguindo essa lógica, as demais para a dramaturgia. Teria ela se tornado o maior nome do expressões culturais seriam cópias do original, em diferentes Renascimento inglês no século XVI e um dos maiores auto- graus de aproximação e afastamento ou mesmo de comple- res em língua inglesa de todos os tempos? E Woolf continua ta inadequação em relação ao padrão estabelecido. É assim sua provocação: seria possível medir o sucesso de grandes que a cultura de matriz europeia nos é apresentada: como autores cujas obras são consideradas clássicas na literatura o parâmetro universal. A forma como os autores europeus universal apenas tendo como critério o talento, como se este constroem seus personagens, tecem suas tramas e represen- fosse um dom inato? tam o mundo é admitida como o modelo a ser seguido, caso Talvez um primeiro incômodo surja no próprio enfren- alguém almeje o reconhecimento de seu trabalho como uma tamento da expressão literatura universal, pois, afinal, quem obra de literatura. são os autores e as obras que gozam de tal legitimidade? Via Além desse traço etnocêntrico, há na construção discur- de regra, aquilo que é anunciado e comercializado como li- siva sobre a existência de uma literatura universal que deve teratura universal consiste em um catálogo composto majo- ser de conhecimento de todos para a formação do sujeito e ritariamente por obras de escritores homens, em sua maioria do cidadão - o silenciamento sobre a exclusão feminina por europeus - ou descendentes de europeus nas Américas, prin- meio de uma manobra de gênero já consolidada pela noção cipalmente nos Estados Unidos e pertencentes à tradição enraizada socialmente de que o homem das letras é um ho- cultural e religiosa A própria Virginia Woolf mem. Portanto, nenhum leitor ou nenhuma leitora surpre- é uma das poucas mulheres presentes em algumas listas que ende-se quando descobre que o autor de um grande clássico elencam os maiores escritores do século XX. É a única mu- da literatura como Moby Dick é um homem - neste caso, o lher cujo livro foi analisado pelo crítico da literatura Erich escritor estadunidense Herman Melville. Mas é possível que Auerbach no famoso Mimesis (2004). Uma exceção à regra. surja alguma comoção na revelação de que uma história tão Não por acaso, "A meia marrom", capítulo no qual Auerbach quanto comovente, como Frankenstein, é de autoria analisa Ao farol, livro de Woolf, é o último de um percurso de Shelley, MARY Shelley, escritora inglesa e filha de Mary que começa com a Odisseia, quase como uma sugestão de Wollstonecraft, pioneira na luta feminista na Inglaterra. que, com o início do século XX, as mulheres finalmente Woolf nos fala desse "acúmulo de vida sem registro", adentravam o cânone da literatura universal. seja nas biografias, nas historiografias ou na literatura, na O que nos preocupa é que, nos dias de hoje, inúme- qual a autora via as mulheres sempre rondando os protago- ros setores da sociedade ainda são ensinados e estimulados a nistas masculinos. consumir literatura e cultura em geral como se existisse uma manifestação cultural que nos servisse como norma, e que, Pois todos os jantares foram preparados; os pratos e os copos, lavados; as crianças enviadas para a escola e sol-56 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 57 tas no mundo. Disso tudo, nada permaneceu. Tudo se Apesar da beleza e da profundidade das palavras de desvaneceu. Nem as biografias nem a história têm algo a Virginia Woolf, é certo que alguém poderia questionar dizer sobre isso (Woolf, 2014, p. 128). quantos autores hoje reconhecidos viveram vidas miseráveis, quantos conviveram com doenças que abreviaram sua ju- Contudo, sua palavra não é pessimista. Ao contrário, ela ventude, entre outros tantos que tinham a mente atormen- convocou as mulheres que eram sua audiência nas palestras tada por perseguições políticas. Alguns podem até mesmo proferidas em 1928, bem como as mulheres que viriam a ser considerar a conjunção entre um teto todo seu e as quinhen- leitoras de Um teto todo seu, no início do seu século ou quase tas libras por ano uma condição burguesa para a produção um século depois, para que juntas pudessem superar a longa de literatura. E deve ser mesmo. O que não invalida, nem opressão materializada em apagamento. E que as poetas e mesmo diminui, a força e a pertinência da crítica de Woolf. romancistas que não o puderam ser forneçam-nos sua força Todavia se, para escrever literatura, uma mulher precisa e inspiração para a transformação dessa realidade. de um teto todo seu e as quinhentas libras por ano, o que di- zer de Quarto de despejo (2014), livro que Carolina Maria de Mas acredito que essa poeta que nunca escreveu uma Jesus escreveu entre 1955 e 1960, época na qual residia na linha e foi enterrada no cruzamento ainda está viva. Ela favela do Canindé, em São Paulo? A escritora vivia em um está viva em você e em mim, e em muitas outras mulhe- barraco com seus três filhos, que ela sustentava com o seu res que não estão aqui esta noite, porque estão lavando trabalho como catadora de papel. Entre o cuidado com os fi- a louça ou colocando os filhos na cama. Mas ela está lhos, a dura lida nas ruas, a árdua tarefa de colocar na panela viva, pois os grandes poetas nunca morrem; são presen- ças duradouras, precisam apenas de uma oportunidade a pouca comida que conseguia comprar junto com as sobras para andar entre nós em carne e osso. Essa oportunida- que catava aqui e ali, preparando uma refeição para quatro, de, acredito, está agora ao alcance de vocês. Pois acredito enquanto zuniam confusões na favela, estendiam-se as ho- que se vivermos por mais um século estou falando da ras de desespero e o horizonte parecia se fechar, Carolina de vida comum que é a vida real, não das vidinhas isoladas Jesus procurava, nas brechas da miséria e da fome, a inspi- que levamos como indivíduos e tivermos quinhentas ração para escrever os seus diários. Neles, ela registrava sua libras por ano e um espaço próprio; se cultivarmos o luta, mas que ela sabia que era também a luta de muitas hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente pessoas, e, por isso, estava decidida a publicá-los, contar ao o que pensamos; [...] então a oportunidade surgirá e a mundo como era a vida na favela e viver de literatura ou poeta morta que era de Shakespeare encarnará no ao menos comprar um par de sapatos decentes para Vera corpo que tantas vezes ela sacrificou. [...] ela virá se tra- Eunice, já que a menininha não gostava de andar balharmos por ela, e que esse trabalho, seja na pobreza, O barraco da favela não era um teto todo seu, ele era o seja na obscuridade, vale a pena (Woolf, 2014, p. 159). quarto de despejo: era a materialização da pobreza, do des-58 Ensaio feminista sobre sujeito universal sujeito universal na cultura e no pensamento do Ocidente 59 caso, da precariedade. Carolina chamou assim o lugar onde tuação das mulheres do chamado Terceiro Mundo é tal que, morava porque era assim que ela se sentia, como alguém que "se vocês não se encontram no labirinto que (nós) estamos, a qualquer momento poderia perder tudo, perder as paredes, é muito difícil lhes explicar as horas do dia que não possuí- o teto, o chão, a vida. Essa vida escapava e era perseguida dia mos" (Anzaldúa, 2019a, p. 88). após dia, pois, se havia sabão e manteiga na segunda, nada O limite da escrita é o próprio limite da sobrevivência. garantia que ela teria o que dar de comer aos seus filhos na Em meio a tantos perigos, por que eu deveria escrever? O terça. Isso porque a renda que Carolina de Jesus conseguia que eu teria para falar de alguma utilidade? E se trocarmos conquistar com o seu trabalho catando papel pelas ruas de essas perguntas por: "por que eles têm tanto medo de que eu São Paulo não eram as quinhentas libras por ano, e sua cabe- escreva a ponto de me silenciar desta forma?" ou "o que eu ça jamais estava em paz: era um vender o almoço para com- posso dizer que seja capaz de gerar tamanho prar a janta de endoidecer gente sã. Mas a literatura estava É certo que o que uma mulher realmente quer dizer não vai lá, fazendo-lhe companhia. A escritora teria dito certa vez agradar a todos. E é exatamente aí que reside o caráter revo- que, quando não tinha nada para comer, ao invés de xingar, lucionário dessa escrita. ela escrevia. O que é necessário para uma mulher escrever Para além de todos esses desafios, a escrita em si nos literatura? Minha pergunta é um pouco diferente: o que é aparece como uma questão quase ontológica: se escrever é necessário para o que uma mulher escreve ser considerado produzir o eu, buscar sua exterioridade, alcançar seu âma- literatura? Quais são as condições de possibilidade para que go, como é possível para uma mulher de cor escrever se, na o livro escrito por uma mulher favelada seja considerado sociedade à qual ela pertence, o seu eu é, na verdade, enten- literatura? dido como o outro não como alteridade, diferença; mas Gloria Anzaldúa, em "Falando em línguas: uma carta como ausência, incompletude. A escrita torna-se um ato de para as mulheres escritoras do terceiro mundo", também valentia, de confrontação da norma e de conciliação com reflete sobre a quase impossibilidade de uma mulher escre- nós mesmas. Porque, quando descobrimos em nós que esse ver. Não desejadas nesse círculo, sentem psicologicamente o outro é um eu, a vida passa a ter novo sentido, e a e a es- peso da exclusão. Ao desencorajamento simbólico soma-se o crita transformam-se em nossas armas para mudar o mundo. peso do cotidiano de mulheres que vivem o dia para garantir Anzaldúa proclama que "não existe separação entre a o pão de sua família, em comunidades carentes, em países vida e a escrita" e nos exorta a escrever como dá: "esqueça empobrecidos pelo colonialismo e o imperialismo. Tudo o quarto só para si escreva na cozinha, tranque-se no ba- afasta a escrita. A falta de tempo, a falta de lugar, a falta de nheiro. Escreva no ônibus ou na fila da previdência social, acesso à educação formal, as tarefas domésticas, a falta de no trabalho ou durante as refeições, entre o dormir e o acor- estímulo. Anzaldúa sabe bem que os desafios são muitos. dar. Eu escrevo sentada no vaso" (Anzaldúa, 2019a, p. 90). Citando Luisah Teish, ela sensivelmente sublinha que a si- Eu leio, faço anotações, preparo aulas, corrijo trabalhos em-60 Ensaio feminista sobre sujeito universal balada nos trilhos da Supervia. Não é fácil. Na verdade, é Capítulo 4 exaustivo. Exige o dobro de concentração, resulta em um trabalho fragmentado e muito se perde entre a leitura que Quem pode ser sujeito? foi realizada no trem lotado, a inspiração que surgiu e preci- sa ser registrada e a impossibilidade de acessar o lápis na mo- chila, que está presa entre as pernas. Talvez Virginia Woolf ficasse escandalizada com essas condições de trabalho. Ela não poderia ter ideia do que mulheres do chamado Terceiro Os feminismos têm colocado em pauta a questão sobre Mundo, mulheres pobres, mulheres de cor, mulheres que quem pode tornar-se sujeito em nossa sociedade. Enquanto desafiam o binarismo sexual têm enfrentado para se fazer manifestações antissexistas, que combatem qualquer tipo ouvir. E nem em suas projeções mais otimistas o que não de desigualdade gerada pela construção social dos gêneros, era lá o seu forte poderia antecipar como suas vozes têm os movimentos feministas, desde o seu princípio, colocam reverberado cada vez mais alto. em disputa a pretensa universalidade do sujeito. Ao anali- sar processos sociais de segregação das mulheres em algumas tarefas e espaços e sua invisibilidade política em sociedades patriarcais, os feminismos descortinam como os homens adquiriram privilégios ao longo dos processos históricos e como esses privilégios são mantidos na forma de autoridade e no exercício da subordinação. Simone de Beauvoir foi pioneira na análise das relações desiguais entre mulheres e homens. Em segundo sexo, cuja primeira edição data de 1949, ela denunciou que as mulhe- res têm sido tratadas como inferiores aos homens e que al- gumas das justificativas utilizadas para tal injustiça seriam de ordem biológica e psicológica, como a fragilidade do sexo e sua inconstância sentimental, entre outras afirmações tão fic- tícias quanto absurdas. Em sua análise, Beauvoir nos explica que, nas sociedades patriarcais, os homens brancos exercem o papel de Sujeito, como o ser absoluto, e as mulheres além dos homens negros são consideradas o Outro. Esse Outro não seria caracterizado apenas pela alteridade, pela diferen- ça, esse Outro seria, sobretudo, ausência. Segundo a filósofa 61

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