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Jorge Broide Emília Estivalet Broide que são as situações sociais críticas? São urgências sociais. Elas convocam a responsabilidade do analista frente ao mal-estar na cultura, frente ao desamparo psíquico e social, frente aos interrogantes que colocam desafios e desacomodações ao pensamento teórico, ao Jorge Broide Emília Estivalet Broide exercício clínico e a práxis psicanalítica. As situações so- ciais críticas colocam em relevo inconsciente no lugar onde as práticas para tratar dos vulneráveis encontra como saída: a burocracia e ensurdecimento frente ao singular do sujeito. Colocar resto em causa, tal é a aposta! A psicanálise em situações sociais críticas A psicanálise em situações sociais críticas metodologia clínica e intervenções 2ª Edição ISBN 978-85-7137-370-9 escuta 9 788571 373709 escutaOs textos aqui reunidos apre- sentam um pequeno panorama da produção de dois psicanalistas que seguem a tradição freudiana de in- quietar-se com a realidade e buscar na experiência clínica a produção da teoria. A cada desafio enfrentado na práxis clínica reinventar a psica- nálise mantendo seu vigor e rigor, no cotidiano dos trabalhos nas ins- tituições, no desenvolvimento das políticas públicas e no intercâmbio com colegas psicanalistas e de ou- A psicanálise em situações sociais críticas: tros campos do saber. Nessa pers- metodologia clínica e intervenções pectiva, escrever a clínica é um ato ético e político. relato de um caso edição ou de uma intervenção tão singular e única permite apresentar tanto a experiência desenvolvida quanto seus impasses, tropeços e avanços, possibilitando que, num segundo tempo daquele vivido na experiên- cia, algo seja transmitido para além da vivência ou de um saber didáti- Abordar as situações sociais crí- ticas é ampliar os limites do dizível da experiência clínica psicanalítica, constituindo tanto um desafio que se impõe quanto uma responsabilidade assumida. Este livro é um convite à troca de ideais, a construção de no- vas abordagens metodológicas, que justifiquem a pertinência da psica- nálise na cultura.Jorge Broide Emília Estivalet Broide Editora Maria Cristina Rios Magalhães Conselho Editorial Prof. Dr. Henrique Figueiredo Carneiro (UNIFOR) Prof. Dr. Paulo Roberto Ceccarelli (PUC-MG) Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho (UFF) Prof. Dr. Luis Cláudio Figueiredo (USP, PUC-SP) Profa. Dra. Elisabeth Roudinesco (École Pratique des Hautes Études, FR) Profa. Dra. Ana Maria Rudge (PUC-RJ) A psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções edição escuta© by Editora Escuta para a edição em língua portuguesa edição: março de 2016 Capa Ana Maria Rios Magalhães, a partir de extrato de 0 pintor, de Picasso Produção editorial Araide Sanches Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B866 A psicanálise em situações sociais críticas : metodologia clínica e intervenções / Jorge Broide, Emília Estivalet Broide. São Paulo : Escuta, Dedicamos este livro a 2015. Thiago e Arthur, 192 p; 14x21 cm Julia e Gabriel Pedro Moreno, Helena e Sofia. ISBN 978-85-7137-370-9 Que cada um a seu modo e no seu tempo, possa 1. Psicanálise - Aspectos sociais. 2. Políticas públicas. 3. Saúde compartilhar conosco as aventuras no mundo coletiva. 4. Economia social I. Broide, Emília Estivalet. II. Título. e do mundo das letras.... CDU 159.964.2:316 CDD 616.8917 Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo CRB 10/1507 Editora Escuta Ltda. Rua Ministro Gastão Mesquita, 132 05012-010 São Paulo, SP Telefax: (11) 3865-8950 / 3862-6241 / 3672-8345 e-mail: escuta@uol.com.br www.editoraescuta.com.brSumário Apresentação 9 Do silêncio à palavra 13 o atendimento em situações sociais críticas: a construção de um método baseado nas ancoragens do sujeito 27 A construção de dispositivos clínicos 39 Notas para um trabalho grupal 51 A tansferência e território: algumas considerações 61 Construção do plano municipal para a população em situação de rua no município de Porto Alegre 79 Psicanálise e políticas públicas. A construção de uma política pública para a juventude em situações sociais críticas no município de Osasco 97 Psicanálise na instituição hospitalar 123 Porosidades clínicas: diálogos entre a Psicanálise e a Saúde Coletiva 135 A transmissão da psicanálise na supervisão clínico-institucional 1478 Sumário A psicanálise na economia solidária: experiência em Catende 163 A economia solidária enquanto opção de vida para 0 Apresentação adolescente cumprindo medida socioeducativa em meio aberto 177 Sobre os autores 187 conjunto de textos aqui reunidos resulta da experiência de trabalho clínico dos autores em distintos âmbitos: consul- tório particular, supervisões a equipes de saúde e da assistência social, e consultorias em instituições públicas, privadas e do terceiro setor. Neles encontram-se, além do relato do desenvol- vimento do trabalho, as problematizações e teorizações prove- nientes do campo desde onde se inserem, sempre pautadas pela escuta psicanalítica. Algumas propostas de intervenção e reflexão estão presentes no relato de mais de um contexto e/ou experiência, pois vão constituindo e dão consistência do desenvolvimento de uma metodologia própria e singular das intervenções nas mais diferentes situações críticas. A busca por dispositivos que permitam uma clínica rigorosa no atendimento psicanalítico nas ruas, com crianças, adolescentes e adultos, nas mais variadas instituições, nas prisões, nos hospitais, na área da assistência social, na justiça, na economia solidária, na universidade etc., é que constitui a marca de cada um dos textos e os enlaça. Entende-se por dispo- sitivo clínico psicanalítico a operação que permite a circulação da palavra e os processos de singularização dos sujeitos. Atender10 Apresentação Apresentação 11 onde a vida está, onde a vida pulsa, tal é a ética que perpassa e Sob essa perspectiva pretendemos fazer avançar nossa conforma nosso trabalho. práxis psicanalítica trazendo ao leitor nossa experiência. Logo, Nesse sentido, a proposta do livro é apresentar algumas visamos contribuir tanto para 0 aprofundamento conceitual experiências desenvolvidas e a sistematização das metodologias da experiência quanto para a transmissão da psicanálise, em de intervenção que foram se constituindo ao longo de vários anos diferentes contextos: da clínica stricto senso ao campo social. de trabalho, onde conceitos foram sendo criados e adensados, ao mesmo tempo em que experimentados e transformados. A clínica se alicerça na articulação da psicanálise com outros saberes, permitindo uma melhor compreensão e uma abordagem transformadora do mundo contemporâneo. É esse mundo que consideramos nosso campo de trabalho, e ele se apresenta através de relações transferenciais complexas e multifacetadas. Tratamos de ver o que as transferências nos diferentes campos nos apresentam, para então tratar de nomear aquilo que ocorre. Este livro é um grande esforço nessa direção, pois pretende sistematizar e elaborar 0 trabalho desenvolvido ao longo de várias décadas. Dessa forma, não estabelecemos uma definição fechada ou uma classificação prematura da clínica instaurada nos diferentes contextos. Talvez, aqui, seja mais válido seguir Freud que, ao apresentar sua metapsicologia no início do texto "As pulsões e seus destinos", convida-nos a pensar que, embora geralmente ouvimos que uma ciência deve ser construída sobre conceitos fundamentais claros e precisos, 0 verdadeiro início da atividade científica consiste, primeiramente, na descrição dos fenômenos, para depois procedermos a sua ordenação e agru- pamento, a partir das correlações evidenciadas. Apenas após exaustiva investigação do campo de fenômenos que estamos abordando, podem-se apreender de forma mais precisa seus conceitos científicos fundamentais e progressivamente modi- ficá-los, de modo que eles se tornem utilizáveis em larga medida e livres de contradição. (p. 17)¹ 1. FREUD, S. (1915). As pulsões e seus destinos. In: Obras incompletas de Freud. Trad. Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.Do silêncio à palavra Jorge Broide Emília Estivalet Broide Desde 1998 foram produzidos no Brasil 19 relatórios contendo mapas e análises sobre a evolução da violência no país. Já no primeiro mapa, a concentração de homicídios na faixa jovem da população estava presente, e isso se repercute até os dias de hoje. relatório de 2012, com a inclusão do quesito raça/cor¹, mostrou uma inquietante tendência estatística, qual seja, contraste da crescente elevação da mortalidade entre os jovens negros frente à diminuição dos homicídios na população jovem branca. A "juvenilização" da mortalidade, portanto, é pobre e negra, moradora das regiões periféricas da cidade (Waiselfisz, 2012). Nesse sentido, as análises do fenômeno dos homicídios entre os jovens no Brasil devem contemplar tanto a problema- tização do incremento da violência e dos homicídios em grupos específicos e gerações questões que merecem a atenção na construção de políticas públicas abrangentes que possam fazer 1. Introduzido no Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, em 2006.14 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 15 frente à situação quanto a dedicação e olhar cuidadoso elaboração do luto nesses contextos, a fim de que um momento ante cada situação específica de vulnerabilidade individual em de concluir possa advir. que uma vida é ceifada, muitas vezes sem possibilidades de encontro foi marcado e organizado pela equipe dez dias elaboração para aqueles próximos das vítimas. após essa supervisão. convite aos adolescentes e às famílias Os equipamentos de Assistência Social, que desenvolvem mobilizou toda a equipe de técnicos da instituição. Além disso, Programas de Prestação de Medidas Socioeducativas em Meio foram convidadas pelo supervisor duas colegas: uma, que Aberto dirigidos aos jovens em conflito com a lei em toda a participou conjuntamente com ele na coordenação do grupo³e Grande São Paulo, vivem essa realidade estatística cotidiana- outra,⁴ que realizou a crônica do encontro, contendo as falas e mente, visto que acolhem em seus atendimentos, majoritaria- o relato da dinâmica grupal. mente, esse público específico. Inquietos diante do incremento, Mesmo que a iniciativa dos técnicos de "dar a alguns no momento atual, das chacinas dirigidas aos jovens usuários cidadãos que compõem as estatísticas" possa parecer uma ação de seus serviços, os técnicos responsáveis pelo atendimento em pequena comparada ao número de envolvidos e à comple- um dos vários equipamentos de uma das cidades da Grande São xidade dessas situações criar espaços de conversa sobre Paulo trouxeram essa situação à tona em um espaço de super- as mortes, constituindo e instituindo a possibilidade para a visão institucional realizada por um psicanalista.² elaboração do luto nesses contextos, a partir dos testemunhos, Essa equipe técnica, em sua supervisão mensal, abordou faz existir os crimes. As breves narrativas, ao serem retiradas 0 homicídio de dois jovens atendidos no programa e debateu da invisibilidade, e do silêncio, são capazes de incitar a reflexão formas de enfrentamento à situação. 0 supervisor da equipe acerca das razões de seu sufocamento, tornando-se, então, uma propôs a realização de um encontro grupal onde estivessem ação política e subjetiva de grande magnitude. presentes as famílias enlutadas e os jovens atendidos pelo Inicia-se 0 grupo com cerca de quarenta pessoas. Um dos programa, com suas famílias. técnicos do equipamento expõe OS objetivos do encontro, escla- A proposta para a realização do grupo visava a criação recendo que o mesmo fora pensado devido à onda de chacinas de um dispositivo de fala para a construção de um espaço de que estavam acontecendo no Estado, envolvendo jovens das elaboração psíquica e homenagem aos mortos, além de servir periferias, mas, principalmente, após a perda de dois adoles- para a criação de estratégias de enfrentamento às fragilidades centes atendidos naquele local. Falou sobre os episódios de decorrentes da extrema violência vivida no bairro. Pensamos violência retratados e noticiados pela mídia e apresentou os que nossa responsabilidade, enquanto analistas, reside no dados estatísticos dos homicídios ocorridos por região no trabalho nessa fenda que se abre, nessa brecha frente à Estado de São Paulo, coletados junto à Secretaria de Segurança urgência da demanda, instalando-se um tempo de compreender, Pública. Em seguida, um dos coordenadores da reunião colocou que promove espaços de conversa sobre as mortes dos jovens a questão temática do encontro: na periferia, constituindo e instituindo a possibilidade de 3. Emília Estivalet 2. Jorge Broide. 4. Roberta Tinoco.16 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 17 que fazer para que vocês não fiquem tão expostos? equipamento da assistência social, buscaram encontrar palavras Estamos aqui para que vocês possam falar sobre isso, sobre a dor, e contornar silenciamento frente ao real da morte. luto (...). Porque se a gente não fala, vira um SOCO que tira nosso Não tem que falar, foi a polícia que matou... Eles matam ar. É importante poder dizer, por mais que seja preciso coragem quem eles querem e fica por assim mesmo. Que Lei é essa? Não para falar sobre tudo isso. Podemos falar, vamos falar também pode ser assim! Esse cara deve ter 0 fim que merece. Caras que para homenagear os mortos. trabalham errado devem morrer também. Meu neto não era Adolescentes e familiares nas cadeiras, bandido, tinha todos os documentos em mãos. Agora vamos ficar inquietos pelo tema e atentos à fala do técnico, que relatava com essa mágoa que a gente vai levar para sempre, não sara como ocorrera assassinato dos dois meninos. nunca. (avô do menino assassinado) Um dos meninos, atendidos por essa equipe, muito A justiça, aqui, compreende a necessidade de nomear comprometido física e psiquicamente, tinha histórico de inter- as situações nas quais homicídios ocorrem, uma vez que 0 nação na Fundação CASA. Estava, certa tarde, vendendo doces registro dos homicídios como "auto de resistência" ou "resis- em sua barraca, quando um policial aproximou-se para "enqua- tência seguida de morte" abole a realização de julgamento, drá-lo". Assustado, 0 menino, incapaz de responder às interro- tornando assim 0 ato violento imoral. Durante a fala dos fami- gações do policial, apanhou. Buscou refúgio em uma farmácia liares enlutados, os adolescentes presentes no grupo foram aos e continuou apanhando, caiu sobre as prateleiras "quebrando poucos se colocando, inicialmente por gestos, até enfim conse- tudo". 0 policial culpou 0 adolescente pelo estrago, mas 0 dono guirem falar. Um dos meninos ficou com os olhos marejados e da farmácia fez um Boletim de Ocorrência responsabilizando recebeu 0 abraço do amigo ao lado. 0 policial pelo ocorrido. Alguns dias após 0 "incidente", esse Após a fala do avô, a mãe do menino morto manifestou- menino foi morto a tiros em uma das avenidas do bairro. -se. Reclamou do tratamento que recebera após a morte de seu 0 segundo caso tem versões diferentes. Segundo a mãe, filho e do descaso que fizeram com a vida dele e com a dor dela. seu filho estava com um amigo indo procurar emprego e, numa Ela transbordava tristeza, mas mantinha a fala forte, buscando abordagem policial, acabou sendo assassinado pela polícia, que encontrar nesse espaço institucional criado, entre 0 íntimo e primeiro o matou com um tiro no rosto, tendo depois atirado público, a potência da palavra, da denúncia. Ansiava por alertar mais duas vezes. Ele foi levado para hospital numa segunda- para que estava acontecendo com os jovens moradores do -feira e morreu na terça. A mãe só foi descobrir corpo do filho bairro, a fim de promover uma elaboração possível, pessoal e na sexta-feira, após percorrer vários hospitais. Na versão dos coletiva. policiais, eles trocaram tiros com dois motoqueiros que há dias Meninos que já passaram pela Fundação já pagaram. Se rondavam por uma mesma avenida e "sem querer" um deles humilharam, apanharam, quando precisavam ser protegidos. acertou um dos adolescentes, sendo que 0 outro adolescente Meu filho levou um tiro com muito ódio no coração. Tenho três fora reconduzido à Fundação CASA, de onde era egresso. filhos, agora dois, me deixou um buraco enorme (...) Não pude ver A mãe, o avô e 0 irmão de dois anos do menino meu filho, só no caixão. 0 delegado e 0 médico fizeram descaso, morto estavam presentes na reunião, e juntamente com as 0 médico deu um atestado de óbito falso e 0 delegado chamou outras famílias e adolescentes atendidos pelos técnicos do meu filho de bandido, falando que vagabundo tem que levar tiro18 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 19 na cara (...) Só porque os meninos erraram, não significa que mulheres e homens escandalosos e danados na França dos precisam sofrer assim. Nunca imaginei um menino cheio de vida, séculos XVII e XVIII. No ensaio, Foucault se propõe a recolher de sonhos, sair de casa procurando serviço e não voltar mais. histórias de vida que não tiveram qualquer notoriedade e que Os seres humanos precisam de mais compaixão. Todo dia jovens foram silenciadas pelo poder. Os únicos rastros da existência sendo assassinados de forma cruel; só podia ser coisa de polícia, desses desafortunados só podem ser acessados hoje, uma vez até os bandidos respeitam mais a gente (....) registrados como pedido de prisão e denúncia. Isso permite sua visibilidade. A respeito do que é verbalizado pela mãe do adolescente, A aposta de Foucault era que essas breves narrativas, ao não há como não lembrar que Zizek (2004) ressalta em seu serem retiradas da invisibilidade e do silêncio, seriam capazes livro Como ler Lacan, referindo-se a um debate televisivo na NBC de emocionar e incitar à reflexão. Seriam os jovens negros sobre destino dos prisioneiros em Guantánamo: da periferia das grandes cidades e/ou os adolescentes "em Um dos estranhos argumentos em prol da aceitabilidade ético- conflito com a lei" novas configurações dos "homens infames" -legal de seu status era que "eles são aqueles que as bombas de Foucault? Ganham notoriedade, existência e inscrição pelos deixaram escapar": como eles eram alvo do bombardeio dos Estados Unidos e por acaso sobreviveram, e como esse bombar- delitos cometidos? Pelos excessos cometidos? Pela violência e deio era parte de uma operação militar legítima, não se pode urgência nos gestos e nas ações? queixar de sua sorte quando aprisionados depois. 0 argumento A noção de responsabilidade, tão necessária de ser proble- sugere que, seja qual for sua situação é melhor, menos severa, que matizada nos casos dos adolescentes em conflito com a lei, é estar morto. (p. 111) levantada pela mãe e pelo avô do menino morto: este diz que De fato, os prisioneiros ficam numa posição de mortos- 0 neto não era bandido e a mãe argumenta que 0 filho já tinha -vivos. Eles são, portanto, como situa Agamben (2004), Homo passado pela Fundação CASA, e com isso já havia pago 0 que Sacer homens que podem ser mortos impunemente porque, devia. Um delito ou um crime não pode servir como justificativa aos olhos da lei, sua vida não conta mais. Nesse sentido, a apro- para outro. Essa lógica poderia induzir a uma perigosa coerência, ximação dos adolescentes em conflito com a lei que cumprem como mostra tão bem a concepção de banalidade do mal, presente medidas socioeducativas em meio aberto nas periferias dos na obra de Hannah Arendt (1999), a respeito do julgamento de grandes centros urbanos aos prisioneiros de Guantánamo Eichmann em Jerusalém. Nesse livro, a autora lança mão da tese estando "entre duas mortes", ou seja, vivos, mas sob constante de que os carrascos nazistas não eram particularmente maus: ameaça faz pensar a necessidade da passagem daquele que tinham plena consciência do que estavam fazendo, impunham é o portador de memórias (familiares, outros adolescentes, sofrimento e dor às suas vítimas, mas eram capazes de desrespon- técnicos dos equipamentos) à posição de testemunho, a fim sabilização, não sofrendo diante das atrocidades feitas. de que os crimes possam ser reconhecidos como tal e, nessa Ao se colocarem como bons servidores hierárquicos, tendo medida, retirados da invisibilidade. a tarefa de eliminar vidas alheias, tocou-lhes 0 trabalho sujo que Também lembramos aqui 0 relato de Foucault (2003) deveria ser feito e o faziam com esmero e dedicação. A mesma em "A vida dos homens infames", no qual autor realiza uma lógica opera hoje, tanto nas mortes de jovens pobres e negros pesquisa documental das cartas dirigidas ao rei em que havia moradores das periferias dos grandes centros urbanos quanto pedidos de prisão de soldados desertores, monges vagabundos, nos fundamentalismos religiosos.20 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 21 Pensamos que iniciativas como a da equipe técnica de também a cena social, 0 contexto histórico e a realidade Assistência Social em questão rompem com 0 sono dos anjos psíquica, mesclada na realidade factual. e introduz no atendimento a dimensão política no trabalho Felman (2000) indaga: técnico. Para além do atendimento padrão, produziu-se ali um Seria 0 testemunho, portanto, um simples meio de transmissão antes e um depois; dessa forma, ao propiciar-se um espaço da história ou, por vias obscuras, uma forma de cura insuspeita? de fala, de interlocução e elaboração frente às situações de Se a história tem dimensões clínicas, como pode 0 testemunho violência, foi possível contornar 0 impronunciável da morte. A interferir ao mesmo tempo historicamente (politicamente) e clinicamente, de forma pragmática e eficaz? (p. 22; grifo do autor) elaboração do luto, que nesse caso também é coletiva, permite a vida; já a negação, como dizia Freud (1917) em "Luto e melan- Sob essa perspectiva é que 0 ato testemunhal interessa colia", faz com que sujeito se identifique com 0 morto. ao psicanalista, na medida em que a singularidade do sujeito Tal é a função que cumpre, em nosso entender, a atividade emerge diante da dimensão pública dos fatos e aconteci- grupal em contextos marcados pela exclusão social. Possibilita mentos históricos, políticos e econômicos. 0 testemunho se passar do circuito cristalizado e fixado da identificação imagi- diferencia do conteúdo da confissão manifesta. Dessa forma, nária e doentia do inexorável destino à reinvenção do presente. leva-nos a dimensões subjetivas insondáveis. A confissão é Gagnebin (2009), em seu livro Lembrar, escrever, esquecer, deslocada e deve surpreender ao psicanalista pelo que quer amplia o conceito de testemunha para além daquele que dizer e a quem quer dizer. Não segue a lógica daquele que presenciou algum fato. escuta, mas segue os trilhamentos do sujeito que relata a Testemunha também seria aquele que não vai embora, que outro com atribuição de alteridade, com pretensa impar- consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que cialidade, a veracidade de fatos e situações. E, dessa forma, suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história dizendo além e aquém, diz de si. do outro: não por culpabilidade, ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do Os adolescentes presentes falam, as mães se emocionam, sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado assim como os trabalhadores do equipamento, todos visivel- pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar mente envolvidos, perpassados pelas mortes recentes. uma outra história, a inventar 0 presente. (p. 57) É isso mesmo que tá acontecendo, somos perseguidos igual Compartilhamos a ideia de que a política pública deve ser bicho. capaz de se instituir como condição-suporte de singularização Tem que ficar atento com qualquer fita, né? do sujeito, promovendo uma torção do resto à causa. Nesse Me sinto coagido. Tenho visão da coisa (...) não vou nem sentido, isso significa possibilitar que um relato, uma narrativa, mais pro baile. uma experimentação se transforme em teorização viva de um Os cara,⁵ senta pau, até de dia. Eu conhecia e foi à luz do campo, através da criação de espaços de fala, de testemunho. dia, imagina a noite como tá? Os caras estão fazendo tiro ao alvo. que testemunho oferece não é um discurso totalizador, não é um julgamento, é uma prática de linguagem em processo, em oposição à pura teoria; logo, é produção de um ato de fala que excede qualquer formulação enunciativa. 0 testemunho causa 5. Referindo-se aos policiais. estranheza, justamente porque familiar e íntimo; descreve 6. Um dos adolescentes assassinados.22 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 23 Uma mãe falou sobre 0 problema das drogas, levantando Em dois, ou três numa moto, vocês são vítimas fáceis para polêmica. "eles", vocês devem andar menos em grupo, fazer as coisas sozinhos, não andar de moto em dois. Quando é dois, mano, não Porque a juventude acende maconha em qualquer lugar e, pode ser boca dura, fica suave, meu filho já perdeu cinco motos assim, acabam se colocando em risco, ou porque a polícia pode sendo boca dura. (Fala de familiar) passar, ou porque, tendo conhecimento do uso da "maldita droga", mesmo assim se envolvem. Os policiais também acabam Outros familiares deram conselhos aos meninos, dizendo forjando. (...) A polícia está atrás, para eles vai ser só um a menos; como deviam se proteger. Essas estratégias, embora simples, eles não aguentam mais correr atrás, então vão forjar para vão se somando a novas formas de relação e interação entre prender. jovens, seus familiares e a equipe técnica. Também debatem Os meninos se incomodaram com essa fala e silenciam. Um novas maneiras de buscar proteção e cuidado que devem fazer parte da rotina, estratégias que permitam salvar vidas. Depois dos coordenadores intervém: de muitas situações faladas e expostas, tanto pelos familiares Dá para pensar que a droga é consequência, que alguma quanto pelos técnicos e pelos próprios adolescentes, a mãe do coisa leva à droga, algo não está bom, que está pegando? menino assassinado concluiu: "Eles não podem ter nada e Os jovens voltaram a falar de seus medos, angústias e policiais podem tudo". impotência frente ao que denominaram de "guerra". Nesse momento, a coordenação interveio: 0 que a gente faz os outros vê, o que eles fazem ninguém vê Vocês estão dizendo que tem muita maldade e estão usando (...) Se você vai para delegacia denunciar, apanha. a expressão que é uma guerra sem fim. Podemos falar disso? Polícia cheira cocaína e de noite chega querendo matar os E ouve: Se a gente não fala, não pensa sobre a guerra, caras. a gente morre na guerra. que é possível fazer?. Outras falas Mandô eu levantar a mão, já tô correndo. seguem: Você erra uma vez e o cara vai ficar atrás de você te E não vai acabar mesmo. atormentando. Nós não podemos fazer nada. Correr. Começa um burburinho entre eles, seguido pela inter- Não sair mais de casa. venção de um dos coordenadores: "Sabe qual nome disso? Os cara tem poder, eles podem andar armado, pode TORTURA". Todos balançaram a cabeça concordando. Falaram fazer tudo, quem eles querem matar, eles matam. (Falas de que estão numa guerra e que esta não vai acabar tão cedo, vai adolescentes) passar de geração para geração e, cada vez mais, a revolta vai Não vai ter vida própria (Fala de familiar) aumentar: Mais uma conversa se estrutura: Isso gera revolta, a guerra não vai acabar não. Muita revolta gera em nós, nós vamos ter filho e 0 bagulho é loko. Tá dando sono essa conversa aí. (adolescente) Como acabar com isso? Que sono é esse? (um dos coordenadores) Mudar de lugar, vai pra Bahia. (Falas de adolescentes) Desânimo, esses bagulho acontecendo. Dá umaJorge Broide e Emília Estivalet Broide Do silêncio à palavra 25 24 tristeza. Nós estamos na guerra e não temos armamento. 0 sujeito é, antes de tudo, falado pelo Outro para que a ele (adolescente) possa, então, endereçar sua demanda. Para que haja reconhe- Ele (policial) matou meu filho com tiro estourando a cara cimento e a identificação do eu com a imagem, é preciso que dele e já morto recebeu mais dois tiros, por que essa crueldade? haja uma instância simbólica, 0 ideal do eu, responsável pela Esses meninos precisam estar desanimados mesmo. (uma mãe) organização e coerência dessa realidade psíquica, designando Seu filho não merecia isso não. A gente está no mato sem as representações culturais, sociais e os imperativos éticos. cachorro. (adolescente) Nesse sentido, 0 chamamento da equipe à fala dos envolvidos A família do amigo que estava com meu filho no dia que promove uma posição interessante e não a impotência do mataram ele disse que eu podia ir na casa deles se quisesse silêncio sobre as mortes. saber alguma coisa e delegado mandou eu ficar quieta, sem ter Numa guerra tem um monte de gente que quer que vocês contato com outro menino. Ele agora está sendo maltratado, morram, mas nós queremos que vocês vivam e estamos lutando foi preso, está na Fundação CASA, mas deixaram entender que se para isso. Guerra é guerra, quem vacila, dança. Falar da guerra, ele abrir a boca está morto. No dia do velório teve rebelião na falar do que está acontecendo não nos deixa adormecer na unidade que ele está, deve ter a ver com isso. (mãe) guerra, nos fortalece. Soldado que tem sono cai, soldado que não Vai sair e morrer é queima de arquivo. (adolescente) está atento cai. (intervenção de um dos coordenadores) A coordenadora do Programa posicionou-se e, visivelmente 0 grupo encerrou as atividades. Os adolescentes comen- emocionada, expôs sua preocupação a eles e somou-se à indig- taram que foi hora" e terminaram com um lanche reforçado nação. Disse estar preocupada com adolescentes, e também com a equipe, pois muitas vezes eles (da equipe técnica) são e com 0 diálogo com os técnicos; alguns meninos procuraram vistos como aquele pessoal que "passa a mão na cabeça dos os técnicos de referência para conversar, outros devoraram a comida e conversaram entre si. meninos". Concordou com a vivência do "clima de guerra" e disse ser fundamental que possam falar, conversar sobre o que está Pensamos que iniciativas como a dessa equipe rompem acontecendo para que todos se protejam. Cada um a partir de sua com 0 sono dos anjos e introduzem no atendimento a dimensão posição, a fim de que a equipe consiga não ficar colada à vivência política no trabalho técnico. Para além do atendimento-padrão, dos meninos e possa constituir-se como alteridade. produziu-se ali um antes e um depois que, ao propiciar espaço Tal é a função que cumpre, em nosso entender, a atividade de fala e interlocução frente às situações de violência, tornou grupal: possibilitar a passagem do circuito cristalizado e fixado possível contornar 0 impronunciável da morte. da identificação imaginária e doentia do inexorável destino, Quinze dias após essa intervenção, soube-se pela equipe do pavor, à reinvenção do presente. A forma em que a política técnica que a relação entre os profissionais, os adolescentes e pública é desenvolvida e modo em que é trabalhada pelos seus familiares havia se intensificado. Ampliaram-se as ativi- técnicos, na sua relação transferencial com aquele que é objeto dades de conversa sobre a violência que estava acontecendo. A dela, incide sobre a qualidade da imagem deste último e sobre violência, as estratégias de enfrentamento da mesma e futuro as possibilidades de singularização e de entrada em processos dos jovens não eram mais problemas externos à instituição. coletivos em que haja permeabilidade entre os momentos de fato de os adolescentes terem entendido que a equipe de alienação e de separação. trabalho queria que eles vivessem e que podia suportar a escuta26 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide de suas angústias, que aparentemente não podiam ser faladas, bem como a descoberta de que 0 medo e 0 luto eram de cada um e de todos, inclusive da equipe, fez com que se alterassem as atendimento em situações sociais críticas: relações com próprio cumprimento da medida socioeducativa a construção de um método baseado em meio aberto. nas ancoragens do sujeito Referências ABRAMOVAY, M., CASTRO, M.G. Jovens em situação de pobreza, vulnerabilidades Emília Estivalet Broide sociais e violências. Cadernos de Pesquisa, n. 116, p. 143-176, jul. 2002. Jorge Broide AGAMBEN, G. Homo Sacer. poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira, São Paulo: Companhia das Letras, 1999. BROIDE, J. Psicanálise: nas situações sociais críticas violência, juventude e 0 que mantém um sujeito ou grupo vivo? Quais são as periferia em uma abordagem grupal. Curitiba: Juruá Psicologia, 2010. ancoragens desse sujeito com a vida? Se ele está vivo, ancoragens FELMAN, S. Educação e crise ou vicissitudes do ensinar. In: SELIGMANN-SILVA, NESTROVSKY, A. (Orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, existem. É necessário encontrá-las e fazer delas os pontos de 2000. partida e estruturação do trabalho. FOUCAULT, M. A vida dos homens infames. In: Estratégia, poder-saber. Ditos e escritos IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 203-222. Quando 0 atendimento nas situações sociais críticas não FREUD, S. (1917[1915]). Duelo y melancolía. In: Obras completas. 2. ed. Buenos Aires: Amorrortu, 2007. V. XIV. é burocratizado e 0 sujeito fala, deparamo-nos com situações GAGNEBIN, Lembrar, escrever, esquecer. Rio de Janeiro: Editora 34, 2009. transferenciais da maior complexidade. Geralmente 0 que se ZIZEK, S. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. apresenta é a morte ou violência eminente, a multiplicidade WAISELFISZ, J. J. da violência 2012: A cor dos homicídios no Brasil. Rio das situações difusas, caóticas como campo e laços que de Janeiro/Brasília: CEBELA, FLACSO/ SEPPIR/PR, 2012. 0 sujeito habita. 0 técnico facilmente perde 0 rumo diante da quantidade de urgências que se apresentam de modo simul- tâneo em seu trabalho. É comum um sentimento de confusão, desalento e desamparo. Em situações-limite frequentemente ocorrem perguntas do tipo: por que 0 sujeito ou a família não adere ao trabalho? Como essa pessoa ainda está viva? Onde está seu desejo e como fazer com que este seja motor para a transformação e a saída da crise e da situação crônica? Como manejar emergências que são cotidianas? 0 que fazer com a sensação de constante fracasso?Emília Estivalet Broide e Jorge Broide O atendimento em situações sociais críticas 29 28 É assim que nos deparamos com equipes técnicas do Estado 0 que é papel do movimento social, nem podemos atendendo situações extremamente graves, "colocando seu querer do Terceiro Setor 0 que é de competência da Iniciativa próprio corpo" no atendimento, com poucos recursos meto- Privada, e assim sucessivamente. dológicos que deem conta da complexidade dos casos e das É importante, por exemplo, no caso do poder judiciário, situações. Os resultados, muitas vezes, são a desmotivação e a entender a função das suas diversas instâncias. Isso pressupõe constatação do baixo rendimento de seu trabalho, com a conse- trabalho com advogados, promotores, procuradores, quente dificuldade e queixa da pouca adesão dos atendidos às defensores públicos etc. Na saúde, é necessário conhecer em profundidade funcionamento do Sistema Único de Saúde ações propostas. Essas equipes, que enfrentam valorosamente o seu cotidiano (SUS)¹, seus princípios, suas diretrizes, bem como 0 embate dirigido aos excluídos, encontram-se diante do desamparo e atual que este trava com a iniciativa privada e organizações sua prática frequentemente adquire matiz identificatória com sociais de saúde Na área da Assistência Social, temos a população atendida. Nesse sentido, é necessário desenvol- que entender os princípios e 0 processo de implementação do vimento de ações consistentes que não sejam reprodutoras de Sistema Único da Assistência Social (SUAS)³ e esforço para exclusão, e que efetivem alternativas de saída da situação de sofri- superar as práticas anteriormente dependentes, quer seja do mento e vulnerabilidade. Nessa medida, é necessário que se criem assistencialismo ou do clientelismo partidário. metodologias que permitam às equipes técnicas ter instrumental Mas como navegar na periferia? Como encontrar os fios da e apoio para lidar com as situações do dia a dia. vida e se relacionar com as forças vitais do território? Como as Na área da assistência social e da saúde, muitas vezes a equipes técnicas podem interlocutar com as diversas instâncias ação dos técnicos extrapola trabalho com indivíduo, visto institucionais e ao mesmo tempo incorporar o conhecimento que a complexidade psicossocial faz-se presente. Ao longo das vivo dos agentes comunitários de saúde (ACS) e dos Agentes de últimas décadas, a visão do atendimento às populações mais Proteção Social do SUAS? Como possibilitar que cozinheiros(as), pobres e vulneráveis vem se expandindo de maneira significa- faxineiros(as) e auxiliares que compõem as equipes também se tiva. Inicialmente, falava-se muito da importância da atenção tornem educadores? ao indivíduo. Mais tarde, com justa razão, passou-se a falar da A partir das considerações acima estamos propondo uma importância da abordagem familiar. Atualmente, acompanhando metodologia de trabalho baseada nas ancoragens do sujeito. Tal e em sintonia com as constantes transformações sociais, estamos no momento do debate da imprescindível ação em rede no território, que abarca, além do indivíduo e sua família, a inter- 1. O SUS é sistema público de saúde existente no Brasil, e abrange o setorialidade e a participação da comunidade nos programas de atendimento integral, universal e gratuito a todo cidadão. Abrange desde consulta ambulatorial até transplante de órgãos. atendimento e na construção das políticas públicas. 2. As Organizações Sociais de Saúde (OSS) fazem parte de um modelo de Para tal construção de redes é preciso 0 conhecimento parceria adotado pelo governo do Estado de São Paulo, no qual organizações dos papéis do Estado, do Terceiro Setor, da Sociedade Civil e da sem fins lucrativos podem se habilitar para gerenciar hospitais e unidades de saúde. Iniciativa Privada. Sem estes não poderemos criar a sinergia e a 3. O Sistema Único de Assistência Social (SUAS), criado em 2005, define as necessária responsabilização de cada um desses atores sociais bases e diretrizes da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), de em suas especificidades. Ou seja, não podemos demandar 2004.30 Emília Estivalet Broide e Jorge Broide 31 O atendimento em situações sociais críticas metodologia, no nosso entender, possibilita ampliar 0 raio de sujeitos. A primeira forma de interação é a psicossocial, que se ação das intervenções a partir do sujeito na particular relação dá no laço de alguém com seu grupo familiar e seu entorno mais do técnico que escuta, não devendo ser considerada um próximo. A segunda é a sociodinâmica, que é a relação desse modelo pré-definido. grupo entre si. A terceira inclui todas as transferências insti- tucionais. Por fim, os autores se referem às transferências no território; todas se apresentam no mesmo instante, matizadas As ancoragens de distintas formas. Assim, a metodologia baseada nas ancoragens implica o "Ancoragens" não é um conceito propriamente dito, mas exercício de pensar um caso clínico, sob 0 vértice de um projeto um termo que nos permite estruturar uma metodologia de terapêutico singular que inclua no atendimento as pessoas, as trabalho baseada na escuta qualificada e na consideração da instituições, e recursos sociais e simbólicos a que sujeito relação transferencial estabelecida entre 0 técnico e a pessoa tem acesso. As visitas domiciliares, visitas às instituições que ele atende. Leva em consideração 0 compromisso ético e locais, as caminhadas pelo bairro como partes integrantes do 0 rigor clínico. Esse atendimento adquire uma especificidade atendimento, não como rotinas burocráticas, mas elementos em relação ao trabalho realizado no consultório, pois é neces- de verdadeiro engajamento da equipe no caso. Dessa forma, é sário operar na urgência social dominada pelo desamparo, maior a possibilidade de construir alternativas de atendimento pela violência, pelo caos e, muitas vezes, pela morte iminente. em casos complexos. Podemos dizer que esta metodologia de trabalho busca sempre, Sabemos que, em muitos casos, 0 retorno para a família seja onde for, por meio de uma escuta clínica, os fios que não é a melhor opção para sua vida, embora seja uma proposta amarram sujeito à vida. É a escuta que nos permite mapear lançada como primeira alternativa em um atendimento. Sob a estes fios que se embrenham pelo território físico e psíquico. perspectiva metodológica baseada nas ancoragens do sujeito, Vamos puxá-los, amarrá-los, articulá-los na rede do desejo apoio para saída de sua situação de crise pode ser 0 contato através de atendimentos na comunidade, na instituição, na com um vizinho, um amigo, namorado, namorada, inclusive família, e com 0 nosso atendido. algum animal que tenha para 0 sujeito um papel afetivo. No Aqui nos guiamos por uma metodologia freudiana, pois atendimento às pessoas em situação de rua é muito comum esta escuta se dá na transferência, tratando de abrir caminho cão ser depositário dos afetos e do companheirismo. Nesse ao desejo de vida, à elaboração do conflito através da associação sentido, para que possamos encontrar as ancoragens significa- livre em um espaço vazio no qual a teoria vai se construindo tivas à vida do chamado usuário, aquele a quem atendemos, é e descontruindo. Tal como Freud foi colocando à prova suas necessária a escuta qualificada da sua história. construções teóricas diante dos fenômenos clínicos, dos sonhos, Nesse contexto, nossa contribuição como psicanalistas é dos sintomas. transmitir àqueles que trabalham no campo social técnicos, Somos ainda guiados pelas contribuições do pensamento gestores, equipes de apoio, agentes comunitários, cozinheiros, de Pichon-Rivière e Bleger no que se refere ao trabalho do faxineiros, enfim, todos que estão em contato com a população analista e das equipes de atendimento. Para eles, é importante atendida a sustentação de uma ética na escuta dos sujeitos. que tenhamos 0 olhar para os diferentes níveis de interação dos Não a tutela, a disciplina, a obediência ao procedimento32 Emília Estivalet Broide e Jorge Broide O atendimento em situações sociais críticas 33 burocrático do atendimento, mas a análise e a escuta atenta ao "amarrado à vida", pois, como já dissemos, muitas vezes não sujeito em seu sofrimento e/ou sintoma. Sabemos que, quando são OS membros da família que servem de apoio ao sujeito. sujeito sabe que é escutado, ele fala, e quando fala nos traz, Possibilitar que, a partir da escuta qualificada, sejam apreen- parafraseando Nelson Rodrigues, "a vida como ela é", que didos elementos indicativos de qual é 0 desejo desse sujeito, significa, nesses casos, 0 contato com a morte, 0 desamparo, a seu sonho, sua habilidade, e como isso constitui um projeto violência e 0 desespero. de vida para ele. Possibilitar que as ancoragens, mesmo que muitas vezes nos pareçam frágeis, possam se constituir como suportes, As ancoragens e plano individual de atendimento testemunhas e acompanhantes do sujeito, em um trabalho conectado com a equipe técnica. No campo da assistência social, especialmente no atendi- Para tanto, um elemento-chave para 0 desenvolvimento mento aos adolescentes em conflito com a lei em cumprimento do trabalho é a valorização da escuta das equipes profissionais. de medidas socioeducativas em meio aberto, desde a instauração Esta passa pela capacitação contínua dos profissionais das do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (lei 12.594), áreas de assistência e da saúde que trabalham com situações as equipes têm a obrigação de entregar ao Poder Judiciário um de vulnerabilidade, e pela criação de espaços de interlocução Plano Individual de Atendimento (PIA), em 15 dias. das situações vividas e atendidas cotidianamente. Esse instrumento engloba um conjunto de propostas de A escuta deve ser realizada por todos membros das intervenção articuladas entre si, para um sujeito individual equipes e não somente pelos técnicos. Como a cozinheira, ou um coletivo (grupo de pessoas ou famílias). Nesse sentido, a faxineira, 0 atendente administrativo, veem 0 menino ou possibilita uma abordagem mais ampla de situações complexas, menina? Como ele/a se vincula nos grupos, nas atividades uma vez que adolescente chega ao serviço de medidas culturais, no esporte? Para tanto, deve haver um técnico, ou geralmente muito vinculado ao tráfico ou a outras formas de dupla, que seja referência do adolescente e que possa articular infração, e profundamente ligado ao território em que vive. as atividades das quais ele participa na instituição à escuta 0 PIA propicia a ação coordenada e integrada das diversas singular do jovem. Dessa forma, buscar, na medida do possível, instâncias de uma instituição. Importa ainda salientar que ele as figuras que constituem pontos de ancoragem em cada caso. não é criado pelo técnico ou equipe que acompanha 0 sujeito É a família? Namorada, namorado? Vive no bairro? Onde vive? atendido, mas construído conjuntamente com seu(s) usuário(s). Enfim, é necessário que encontremos quem de fato deseja que São pressupostos da metodologia das ancoragens para a este adolescente viva! Essas pessoas devem ser buscadas na construção do PIA: comunidade, na escola, até em outras cidades, para que sejam Constituir-se num projeto de vida, onde 0 adolescente se parceiros na construção, testemunhas e avalistas do PIA. encontre consigo e com sua história, incluindo a elaboração Igualmente importante sinalizar que, para que essa metodo- da infração cometida. logia de atendimento seja implantada, é necessária uma mudança Estruturar-se na escuta do sujeito, tornando possível significativa do fluxo de trabalho. Os técnicos encontram-se, entender quais são os elementos significativos que 0 mantém na maioria das vezes, atolados em relatórios, reuniões e emEmília Estivalet Broide e Jorge Broide 34 atendimento em situações sociais críticas 35 atividades que fazem pouco sentido nos casos atendidos e que que se apresentam na transferência, de forma muitas vezes são decorrentes da defesa que tem de ser erguida diante da confusa e dispersa. Esse aspecto da relação transferencial complexidade e da miséria com a qual devem lidar. torna difícil uma clareza mínima no trabalho, 0 que implica Também no caso da população que vive nas ruas, um uma séria dificuldade na construção de um PIA. As ancoragens Projeto Individual de Atendimento baseado nas ancoragens se apresentam de forma difusa, 0 que impede uma priorização do sujeito se faz necessário. Os casos atendidos pelas equipes daquelas que sejam mais consistentes e potentes no aten- geralmente se apresentam de forma caótica, acrescidos pelo dimento. Esta é a razão pela qual sugerimos a escolha de no fato de que essa população, seja de crianças, adolescentes ou máximo três delas em cada um dos âmbitos ou redes transfe- adultos, tem muitas vezes, em virtude da magnitude das perdas renciais de atendimento. sofridas, uma alteração da noção do tempo e do espaço. Conforme ilustrado na Figura 1, são quatro os níveis de É muito comum que tempo seja marcado pelas perdas abordagem do método PIA: psicossocial, sociodinâmico, insti- radicais que sofreram, e 0 espaço vá se condensando em deter- tucional e comunitário. minado local onde se dá a sobrevivência imediata e no qual podem satisfazer suas inúmeras necessidades e desejos que Figura 1 Proposta metodológica: Plano Individual de Atendimento PIA incluem os laços, a alimentação, a aprendizagem etc. ABORDAGEM DO ATENDIMENTO Aqui, também, a escuta das ancoragens é 0 que dirige a clínica. E elas certamente existem, mas estão espalhadas e fragmentadas no território. Para que alguém se mantenha vivo Psicossocial Sociodinâmico Institucional Comunitário nas ruas, são necessárias muitas alianças. A estruturação de um PIA de atendimento passa pelo mesmo processo que 0 caso dos adolescentes em conflito com a lei. Pode-se pensar, por exemplo, na inclusão de um comer- ciante que dá abrigo, de um técnico que tem ou teve uma história de atendimento importante, da igreja, do padre, do pastor, da família, além das instituições de atendimento que, articulados, possam proporcionar um salto qualitativo na vida SUJEITO DINÂMICA CIDADE do sujeito. Sabemos também que, para a construção do PIA, FAMILIA GRUPAL Institucional Comunidade outros setores da sociedade civil, bem como outras secretarias pontos de ancoragem municipais ou de Estado, deverão ser acionados. ancoragem Intervenções: Uma proposta de sistematização do atendimento 1. 1. 1. 1. 2. 2. 2. Um dos aspectos que mais chama a atenção nos atendi- 2. mentos nas situações sociais críticas é a quantidade de dados 3. 3. 3. 3.Emília Estivalet Broide e Jorge Broide atendimento em situações sociais críticas 37 36 No âmbito Psicossocial, interessa-nos compreender a possam ser articuladas com um desejo do usuário, como por relação do sujeito ou coletivo com OS seus pontos que ancoragem. exemplo: esporte ou cultura? Isso pressupõe que esse primeiro momento do atendimento é 0 Portanto, para que a equipe consiga construir 0 projeto que definirá os restantes. A proposta de desenvolver no máximo para sujeito, ela precisa mergulhar na vida do atendido, em três intervenções por âmbito de atendimento visa buscar uma relação com as suas ancoragens, de sua instituição e do terri- sistematização que leve a equipe a pensar com profundidade tório onde trabalha. A construção de um PIA significa impli- sobre quais são os reais pontos de apoio do sujeito que trazem cação. Nesse sentido, a abertura ao novo é marca do trabalho. sentido à sua vida. Ali onde se imaginava uma situação sem saída, vislumbrar A construção da intervenção com os usuários requer a portas de emergência, ou ainda, no lugar das certezas, 0 compreensão de quem é o sujeito com qual estamos lidando, exercício das possibilidades. Esse trabalho, portanto, exige o que permitirá a realização de um diagnóstico inicial com que profissionais, equipes, usuários e instituição suportem vislumbre da potencialidade do trabalho. as angústias envolvidas na criação de estratégias de enfren- No quesito Sociodinâmico, abordamos as relações fami- tamento das vulnerabilidades a partir da negociação e da liares e as relações grupais que esse sujeito ou coletivo esta- criatividade. belece. Identificadas as ancoragens, interrogamos acerca de quais ações serão desencadeadas. A intervenção será grupal? 0 contato será com cada integrante da família ou em conjunto? Definir três ações, cujos pontos de ancoragem sejam levados a dialogar, e orquestrar essas ações para constituírem redes e possibilidades articuladas entre os vários atores que compõem a vida do sujeito não é tarefa simples, mas de suma importância, pois elas devem ser muito bem pensadas e sele- cionadas dentre várias possibilidades. No nível Institucional temos que definir quais são as intervenções possíveis no âmbito do programa de assistência direta. Quais são os recursos da instituição? Existem cursos? Há diferentes formas de atendimento ao sujeito e suas ancoragens? 0 número três novamente é importante. Por que temos apenas uma possibilidade, ou duas? Isso não seria um importante sintoma de que faltam recursos à instituição? E, se temos várias possibilidades a oferecer, qual seria a mais pertinente? Finalmente, no âmbito Comunitário, quais as possíveis relações entre os sujeitos e a comunidade? Alguma das anco- ragens conseguiu uma possibilidade de trabalho? Devemos falar com a escola? Existem possibilidades na comunidade queA construção de dispositivos clínicos Jorge Broide Introdução Nossas referências na psicanálise são fundamentalmente Freud, Lacan, Pichon-Rivière e muitos de seus continuadores. Temos a clareza de que saber psicanalítico não é suficiente para dar conta da complexidade da vida contemporânea e de nosso campo de trabalho. Nossa prática no atendimento em situações sociais críticas tem nos trazido inúmeras indagações e nos levado à interação com outros profissionais e saberes de diferentes campos. Da filosofia, temos tomado as contri- buições do materialismo histórico e dialético através de Marx e seguidores, além de Foucault, Deleuze, Agamben, Badiou, Zizek e Bauman. Das ciências sociais e da economia temos como referências Octavio Paul Singer e Emir Sader, entre outros. Na antropologia temos dialogado com autores que têm realizado uma rica etnografia da cidade. No caso da geografia, são fundamentais para nós as contribuições de Milton Santos e, na arquitetura, as de Paulo Mendes da Rocha, no que se refere à sua visão sobre a cidade.40 Jorge Broide A construção de dispositivos clínicos 41 Muitas das questões que a nossa práxis nos tem apresen- qualquer lugar". Para ele, enquanto a filosofia busca 0 vazio no tado remetem-nos a dois textos de Badiou. No primeiro, "Pensar ser, a psicanálise a procura no sujeito que irrompe do incons- el acontecimento" (2011), refere-se ao papel do filósofo e, no ciente, do desejo, e que atravessa 0 discurso consciente através segundo, ao trabalho do filósofo e do psicanalista. Para ele, o da cadeia do significante em movimentos pautados por outra filósofo opera sobre acontecimentos e relações onde não há lógica, que foge da previsão da reta e do círculo e leva 0 sujeito ao passagem possível, onde não há conexão e articulação entre os novo, onde se defronta com 0 seu desejo e com a questão ética de fatos. Seu papel é tentar conectar aquilo que não é articulável, comprometer-se ou não com 0 mesmo. Ele diz: "o limite compar- operar naquilo que não existe, na comunicação entre duas tilhado entre psicanálise e filosofia é 0 desenlace, a localização lógicas que não se falam. Para exemplificar, ele cita, entre outras, do vazio no não relacionado de toda relação, então, a respeito a história do grego Arquimedes. Este havia participado da resis- da categoria subjetiva desse nexo, permitam-me dizer que seu tência aos romanos na ocupação da Grécia, mas era muito respei- nome, inesperado, é: (p. 271, tradução nossa). tado pelos ocupantes como matemático. 0 general romano deseja Nossa experiência é que a criação desse espaço vazio então conhecê-lo e manda um soldado buscá-lo. Este o encontra que se abre ao sujeito do inconsciente, e que 0 leva à injunção na praia escrevendo na areia e elaborando um problema mate- ética onde pode ou não comprometer-se com seu desejo, mático. 0 soldado ordena-lhe que pare imediatamente de fazer o dá-se através da construção de dispositivos que podem ser que está fazendo e acompanhe para ver o general. Arquimedes tanto aquele montado no consultório particular como aqueles diz ao soldado que espere terminar problema matemático. Os criados em diferentes situações e que sejam condizentes ao dois insistem, cada um em seu discurso, até que soldado mata atendimento de diferentes demandas sociais. 0 que se mantém Arquimedes. encontro entre esses dois homens expressa dois em todos os dispositivos é a busca do espaço vazio que se abre ao sujeito de desejo através do inconsciente e da transferência. discursos com lógicas diferentes. É impensável para o soldado que seu general não seja atendido no instante, como também é impensável para Conceituando dispositivos Arquimedes deixar 0 seu problema incompleto para atender o general. Para Badiou, é nesse espaço que entra trabalho do filósofo e pensamos que é também nesse espaço sem pensa- Foucault conceitua 0 dispositivo como algo que sintetiza mento e sem palavras, em situações de conflitos inicialmente diferentes saberes para responder a uma urgência social. Fanlo inabordáveis, que 0 psicanalista entra, articulando real e (2011) nos traz uma síntese sobre 0 conceito. Segundo ele, 0 imaginário com 0 simbólico. Deparamo-nos com várias dispositivo é: situações como essas em nosso trabalho. (...) uma relação ou rede de saber/poder na qual se inscrevem a No segundo texto, "Filosofia y psicoanálisis" (2013), escola, quartel, convento, hospital, prisão, fábrica, e não cada um deles de forma separada. Um dispositivo seria então uma relação Badiou trata diretamente da relação entre filosofia e psicaná- entre diferentes componentes ou elementos institucionais que lise. Aborda que aproxima esses dois saberes e conclui que também incluiria os discursos, instalações arquitetônicas, decisões ambos trabalham com 0 mesmo objeto, de maneiras distintas: regulamentares, leis, medidas administrativas e enunciados cientí- esse objeto é vazio, que ele chama de "essência do lugar, de ficos, filosóficos, morais, e/ou filantrópicos que circulam dentro de dita relação; especificamente, Foucault esclarece que dispositivo42 Jorge Broide A construção de dispositivos clínicos 43 mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos". (p. 2; estes rompem, através do que ele chama de profanação, essa tradução nossa) tentativa constante de adequação e controle. Ainda segundo Fanlo, Deleuze nos apresenta os disposi- Assim, para ele, são dispositivos que constituem as tivos como "uma máquina de fazer ver e fazer falar", que traz subjetividades. 0 mundo contemporâneo, por consequência, novas facetas e relações até então inexistentes ou encobertas, traz-nos novos dispositivos que geram novas subjetividades. A como fachos de luzes, iluminam 0 que até então não era visto vida hoje em dia é muito diferente daquela que existia antes dos ou não se apresentava. Essa máquina "funciona acoplada a telefones celulares, do automóvel ou do avião. Esses disposi- determinados regimes históricos de enunciação e visibilidade. tivos mudaram e construíram novos laços e subjetividades entre Esses regimes distribuem 0 visível e 0 invisível, 0 enunciável e os homens, tanto no sentido do controle (sagrado) quanto das 0 não enunciável ao nascer ou desaparecer objeto que, de tal possibilidades do surgimento do sujeito do desejo (profano). forma, não existe fora deles" (p. 4; tradução nossa). Entendemos, também com Deleuze (1996), que cada Para Agamben, ainda segundo Fanlo, um dispositivo é dispositivo diferente capta uma subjetividade distinta. 0 "qualquer coisa que tenha, de algum modo, a capacidade de material inconsciente que surge no atendimento individual capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar controlar em nosso consultório particular não é exatamente igual àquele e assegurar gestos, condutas, opiniões e discursos dos seres que emerge em um grupo, em determinada instituição pública, viventes" de modo tal que "não somente as prisões, mani- privada ou na rua. 0 que afirmamos, no entanto, é que em todas cômios, o panóptico, as escolas, a confissão, a fábrica, as disci- essas situações há um sujeito do inconsciente que fala e quer plinas, mas também a lapiseira, a escritura, cigarro, 0 telefone falar e que se apresenta à nossa escuta através da transferência. celular, os computadores, e por que não a própria linguagem" Portanto, para cada situação temos um determinado disposi- seriam dispositivos, porém não em si mesmos, senão enquanto tivo, e cada dispositivo traz emergentes e significantes espe- conformam ou fazem parte de uma rede de saber/poder. "Um cíficos. Nós, psicanalistas, somos especialistas no dispositivo dispositivo não é senão um mecanismo que produz distintas construído por Freud, que é 0 consultório, mas aqui pensamos posições de sujeitos, precisamente por essa disposição em que não é isso que caracteriza intrinsecamente a psicanálise. rede: um indivíduo pode ser lugar de múltiplos processos de 0 que a caracteriza, a nosso ver, é uma determinada escuta do subjetivação" (p. 5; tradução nossa). inconsciente que se dá na transferência, em um determinado Agamben (2010) entende que o sujeito se constitui dispositivo, na busca do espaço vazio de que nos diz Badiou, e somente no dispositivo que, de alguma maneira, é a própria que permite 0 surgimento do sujeito do desejo. cultura, e os processos e objetos que ela constrói. Ele traz a origem etimológica e histórica do termo, que surge com a constituição da Igreja a partir do controle e ordenação da vida Freud e o grupo enquanto dispositivo de alienação ou na terra, dentro da visão do que seria 0 sagrado. A essa visão transformação: massa, grupo e sujeito ele contrapõe os dispositivos libertários, que são da ordem da profanação do sagrado, que tratam de colocar 0 sujeito dentro A leitura dos textos sociais de Freud nos abre 0 caminho de uma ordem. Para ele, portanto, os dispositivos servem tanto para a compreensão do que entendemos como massa, como para dominar os homens como também para libertá-los quando grupo, e a questão do sujeito nessa relação.Jorge Broide A construção de dispositivos clínicos 45 44 Em "Totem e tabu", Freud nos traz a questão da organi- Em "Psicologia das massas e análise do ego", Freud nos zação social pautada pela Horda Primitiva. 0 chefe da horda, o apresenta a força da hipnose no movimento de massas. A macho mais forte, é 0 beneficiário de todo 0 gozo. Tem o poder hipnose, neste caso, a transferência com 0 líder, está calcada sobre todas as mulheres e bens produzidos pelo grupo. Sua na experiência infantil familiar. 0 líder do exército, da igreja, substituição ocorria sempre através de um crime que era uma ou de outras instituições convoca infantil do sujeito na repetição. Surge um macho mais jovem e mais forte que mata relação transferencial, fazendo com que mesmo idealize e o antigo chefe da horda e, com isso, se apropria do poder do o siga para sentir-se amado e protegido. Para tanto, necessita gozo. Em certo momento, os irmãos realizam um pacto que ser massa, ser desejo do grande Outro. A transferência com possibilita que a repetição não ocorra. Todos devem fazer uma o líder está ancorada, portanto, no resto que está clivado no renúncia a uma parte importante do gozo, onde todos e novo sujeito e constitui 0 infantil, 0 gozo, 0 mal-estar. 0 líder ocupa 0 chefe têm seus poderes limitados. É assim que surge a Lei, lugar paterno que promete a resolução do desamparo através como diz Lacan, com a função de ordenar 0 gozo. A Lei surge, de um ego puro prazer que goza sem limites e que surge messiânico na transferência de massa, onde 0 sujeito se aliena portanto, da supressão de uma parte regredida do sujeito que deseja a realização total e imediata de seu desejo. Para que isso e se entrega. Freud contrapõe nesse texto também a massa ocorra, é necessária a constituição de um resto, bem como de infantilizada àquela que se organiza para as grandes transfor- mações da humanidade, tal como a que estruturou uma nova uma clivagem que se expressa no Totem, no Banquete Totêmico. vida através da Revolução Francesa. 0 banquete totêmico é, portanto, a forma de realização do gozo No final da vida, Freud (1939) escreve um de seus mais proibido na constituição da lei e da clivagem a que todos devem belos textos, "Moisés e monoteísmo". Apresenta Moisés como submeter-se. Assim, com Freud, dizemos que, para que se crie um general de altíssimo nível, da corte do Faraó Akhenaton, que a Lei, é necessária uma clivagem do gozo, 0 que constitui um havia instituído 0 deus único, Rá, deus do sol. Com isso, ele resto que, como sabemos, pulsa, faz parte do Inconsciente. destitui a casta dos sacerdotes, mas estes fazem uma contra- Em "O mal-estar da civilização", Freud, seguindo mesmo ofensiva e o matam. A Moisés, leal a Akhenaton, só resta a morte raciocínio, coloca que 0 ser humano deve renunciar à realização ou a fuga. Ele faz então um pacto com os hebreus para saírem imediata de seu desejo para que seja possível a vida na cultura do Egito, com a condição de que se convertam a um deus único, ou civilização. princípio do prazer deve ser transformado em não mais Rá, e sim um passo além, um deus sem forma, pura princípio da realidade ou, dizendo de outra forma, o processo palavra, puro pensamento. Para sair da adoração da imagem é primário dever ser transformado, pelo trabalho humano de necessário, portanto, uma renúncia a satisfação imediata. elaboração, em processo secundário. É a renúncia do puro Novamente, é o trabalho do princípio da realidade e processo prazer que constitui 0 humano. É daí que, segundo ele, secundário. resto, segundo Freud, apresenta-se no texto de novamente a Lei, 0 reconhecimento do outro, a arte, ou seja, duas formas: no bezerro de ouro e no assassinato do próprio a possibilidade da transformação da natureza, o trabalho que Moisés, causado pelo mal-estar, ódio, conflito, que havia ficado constitui o humano. Novamente, temos um resto, clivado do no resto clivado para que fosse possível 0 enorme avanço inte- sujeito, que permanece pulsando no Inconsciente e que surge lectual que significava 0 deus único e 0 pensamento abstrato. em nosso cotidiano e em todos os laços enquanto mal-estar. Novamente, temos uma luta entre uma massa indiferenciada eJorge Broide A construção de dispositivos clínicos 47 46 um grupo que constrói uma nova possibilidade humana com operam em espelho. 0 que trabalha em espelho, sob nosso ponto pensamento abstrato: a civilização judaico/cristã. de vista, são os restos, que formam 0 Imaginário, em conflito com Nosso trabalho de psicanalistas e analistas institucionais, o Simbólico, diante do Real, e que constituem massa na transfe- como dizíamos antes, é apostar na vida operando naquilo rência grupal e com 0 coordenador. que é resto/massa para que 0 sujeito e grupo ganhem uma hegemonia cada vez maior. Nos grupos e instituições, muitas vezes essa alternância apresenta-se de forma muito rápida, A construção de dispositivos no campo de trabalho quase simultânea: de um lado, resto que emerge enquanto bezerro de ouro, mal-estar, violência, gozo desenfreado, a Pensamos que qualquer dispositivo dentro ou fora de tentativa da supressão da Lei e, de outro, desejo de mudança, nosso consultório particular surge a partir de uma cuidadosa a saída da alienação, o surgimento do sujeito no grupo, na escuta já na transferência da demanda da urgência tarefa. pessoal ou social pela qual fomos chamados. No caso das É importante neste momento uma referência a Marx. Este instituições e da política pública, esse primeiro momento de coloca que o homem se torna homem quando pode transformar trabalho muitas vezes pressupõe inúmeras conversas com os a natureza junto com outro. É isso que entendemos enquanto responsáveis pela ONG que nos procura, ou, no caso do governo, trabalho, e fica claro que, para que haja o trabalho, sempre do secretário municipal, estadual ou membro do governo haverá resto, clivado e negado, que causa mal-estar e que federal e sua equipe mais próxima. se apresenta enquanto luta de classes e mais valia no modo de É fundamental que ali se estabeleça uma relação de mútua produção capitalista. sentido do trabalho é a possibilidade confiança, onde seja possível a construção conjunta da tarefa e de transformar mundo de forma coletiva, e Pichon-Rivière dos dispositivos iniciais para operá-la. Nosso princípio é que (1986) já tinha isso claro quando formulou conceito de tarefa. estes devem sempre contemplar a circulação da palavra, de uma Um grupo, uma instituição, só possui um sentido se tiver uma forma ou outra, por toda a instituição. Isso ocorre no trabalho tarefa coletiva para a transformação social que permita que direto com diferentes setores, ou então na maneira como as sujeito humano avance em sua luta contra o desamparo e contra conclusões do trabalho direto serão implementadas nos dife- 0 gozo de um em detrimento da vida dos outros. rentes grupos, setores e interfaces institucionais. Por conseguinte, é a partir dos textos de Freud que Aqui, para nós, é central o conceito de tarefa desenvolvido podemos entender que, para a construção da cultura e do por Enrique Pichon-Rivière. Nossa concepção é que líder é trabalho, sempre há um resto. Nos grupos e nas instituições sempre a tarefa, ou seja, é ela que nos chama a essa urgência resto surge com diferentes nomes e em várias formas, sempre na social, que dá o sentido à instituição, que estrutura a construção transferência. Podemos dizer que a pré-tarefa que se contrapõe do dispositivo com a previsão de um determinado número de à tarefa, conforme colocada por Pichon, é aquilo que surge do horas colocadas no projeto, que nos indica 0 tipo de equipe resto. É também que Bleger nos mostra como a interação necessária, e inclusive nos permite a formulação de um deter- sincrética e a simbiose nos grupos, famílias e casais. É ainda na minado preço que deve ser, em grande parte, formulado em mesma direção que Bion formula supostos básicos e 0 grupo conjunto com a instituição, no âmbito da relação transferencial de trabalho. Há ainda a crítica de Lacan, quando diz que estesJorge Broide A construção de dispositivos clínicos 49 48 estabelecida com quem nos contrata. Assim, é a tarefa que dá Podemos dizer aqui, portanto, que nossa experiência tem uma identidade ao nosso trabalho e aos que dele participam. sido a de construir diferentes dispositivos nas mais variadas Grande parte das vezes esses dispositivos são grupais, situações. Esse conceito nos move de uma posição em relação mas podem também ser individuais, ou mesmo um trabalho à psicanálise, que é mais centrada somente no trabalho indivi- de escuta através de uma caminhada pelas ruas em contatos dual de consultório particular, para outra, preocupada com a pontuais com os atores do território estudado. Isso nos levou construção de diferentes settings que possibilitem emergir inclusive à criação daquilo que denominamos "escuta territo- sujeito de desejo. rial", que consiste na construção coletiva de mapas das relações afetivas, culturais, econômicas, políticas, formais e informais, dos diferentes poderes lícitos e ilícitos que constituem 0 efetivo Referências laço social no território. Essa metodologia tem-se mostrado muito eficaz para desenvolvimento da clínica nas populações AGAMBEN, G. O que é um dispositivo. In: que é o contemporâneo. Chapecó: mais excluídas, para a construção de políticas públicas e as mais Argos, 2010. variadas ações de diferentes setores no território da cidade. BADIOU, A. Pensar el acontecimento. In: Filosofia y actualidad. Buenos Aires: Amorrortu, 2011. A abordagem que utilizamos se dá caso a caso, e é a partir Filosofia y In: Condiciones. Buenos Aires: Siglo da escuta de cada situação que são construídos os diferentes Veintiuno, 2013. Disponível em: dispositivos, sempre articulados à tarefa do trabalho. No Alain-Badiou-Condiciones-1992> caso das capacitações e supervisões, nossa tarefa tem sido a DELEUZE, G. que é um dispositivo. In: mistério de Ariana, Lisboa: Vega, 1996. p. 83-96. de possibilitar uma compreensão efetiva de como a transfe- FANLO, L. G. ¿Qué es un dispositivo?: Foucault, Deleuze, Agamben. A Parte rência e 0 inconsciente operam no atendimento direto. Não se Rei, 74. Revista de Filosofia, 2011. Disponível em:Notas para um trabalho grupal Jorge Broide Emília Estivale Broide No trabalho institucional, principalmente nas áreas social e da saúde, tornou-se "lugar comum" que os mais diferentes profissionais façam grupos. Contudo, levantamos a questão: as estratégias de intervenção são pensadas a partir da escuta das demandas, ou dispositivo grupal é instituído para atender um maior número de pessoas, a fim de cumprir as metas da instituição? Criam-se grupos baseados em patologias (obesos mórbidos, hipertensos, mulheres no climatério etc.) ou em situação de vulnerabilidade social (beneficiários do Programa Bolsa-Família, adolescentes em conflito com a lei etc.), muitas vezes ignorando- -se as demandas específicas dos sujeitos em questão. Tais fatos geram um grande mal-estar no desenvolvimento do trabalho com grupos nas instituições. Em primeiro lugar, pelo fato de o dispositivo grupal ser utilizado de forma pouco criteriosa, que torna os grupos burocratizados e os técnicos que os coordenam meros difusores das ordens e das propostas institucionais. Em segundo, agrupar indivíduos, identifican- do-os por patologia ou condição social, não é suficiente para promover a implicação no dispositivo proposto. Geralmente,Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Notas para um trabalho grupal 53 52 nessas situações, edificadas sobre uma ilusão intersubjetiva coordenador deve se permitir ser suporte daquilo que baseada nas identificações imaginárias, criam-se mais obstá- os integrantes do grupo lhe adjudicam, e operar a partir dessas culos ao trabalho grupal do que um rico e profundo trabalho múltiplas transferências operar na dialética entre real da dos indivíduos no coletivo. transferência e a ficção do dispositivo criado para a realização Nos grupos, o que está em questão é trabalho centrado da tarefa. Isso determina a direção do trabalho grupal. A direção em uma tarefa comum que pode ser o ensino, a supervisão, do trabalho da de grupo implica uma importante sofrimento psíquico, um projeto institucional etc. mas há disponibilidade para a escuta do outro, vetorizada pela trans- que estar presente a trama coletiva e a possibilidade de fazer ferência entrecruzada dos diversos participantes. Sob essa emergir a dramática de cada um no espaço compartilhado. perspectiva, um dos grandes obstáculos ao trabalho grupal é a Segundo Pichon-Rivière (2005), 0 grupo se caracteriza por ser: pregnância da identificação imaginária entre os participantes, (...) um conjunto restrito de pessoas que, ligadas por constantes seja por via de uma idealização narcísica do grupo, seja pela de tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação impotência coletivizada. interna, se propõe de forma explícita ou implícita, a uma tarefa a A fala de cada um no grupo emerge do entrecruzamento qual constitui sua finalidade, interatuando através de complexos entre a horizontalidade do grupo, a verticalidade da história mecanismos de assunção e adjudicação de papéis. (p. 172) pessoal e a transversalidade das relações conscientes e Nesse sentido, faz-se necessário pensar 0 trabalho grupal inconscientes presentes na dinâmica grupal. É neste sentido enquanto instrumento clínico. Sob essa perspectiva, desenvol- que se pode pensar 0 funcionamento dos grupos como uma vemos uma metodologia propondo duas funções operativas: banda de Moebius, que, conforme explica Lacan (1961-1962), a função do coordenador e a dos cronistas, a partir de três põe em questão a posição do sujeito no jogo intersubjetivo, a formulações: 1. Tarefa e pré-tarefa, 2. Contrato e enquadre, e 3. partir da torção que instaura um corte: ora efeito de massa Pré-grupo e pós-grupo. (via identificações), ora efeito de abertura à singularidade. A delicadeza na coordenação implica pôr em operação a possi- bilidade do advir da singularidade do sujeito, convocar às grupo enquanto instrumento clínico múltiplas versões. de intervenção em psicanálise Muito mais do que falar, 0 coordenador de grupos deve acolher os diferentes tempos que se presentificam nos grupos. coordenador Segundo Jasiner (2007), deve sustentar uma pergunta e colocá-la a trabalhar. 0 coordenador de grupos trabalha, por Coordenar um grupo não é tarefa fácil. Não existem meio de assinalamentos e interpretações, a elaboração dos manuais e propostas de técnicas para coordenar grupos que obstáculos presentes no grupo e que impedem a realização da deem conta do acontecer grupal. 0 coordenador se faz na tarefa a que o grupo se propõe. coordenação de grupos. Ou seja, não é uma função que se pode Para Lacan (1958), quando a interpretação recai sobre ocupar previamente. Mesmo que a instituição designe alguns a neutralidade benevolente e 0 "querer 0 bem do outro", esta técnicos como coordenadores de grupo, esta função se forja nada tem a ver com a direção da cura. A direção da cura é no no fazer grupal. sentido do desejo. 0 analista paga com palavras, com sua pessoa54 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Notas para um trabalho grupal 55 e com seu ser; lugar do analista é da falta-a-ser. 0 analista e escrever sobre 0 que ecoou dos depoimentos advindos do é livre em sua tática, momento e número de interpretações, grupo, passa a ser intérprete, via escuta-escrita. desde que esta esteja ligada a uma estratégia, e esta vinculada 0 cronista deverá, após a reunião do grupo (no pós- à transferência, mas da qual analista não é dono, visto que 0 -grupo), expor para 0 coordenador e demais integrantes analisante lhe atribui significado, ou seja, a pessoa do analista da equipe suas impressões sobre 0 acontecer grupal. Num serve de suporte da fantasia que 0 analisante coloca. segundo momento, ao digitar e enviar ao coordenador e ao Embora Lacan esteja abordando a função do analista na outro cronista (caso 0 grupo tenha dois) esse relato, uma nova direção da cura, podemos tomar seus ensinamentos como elaboração é feita. Essa crônica serve de elemento disparador importantes elementos para pensar a função de coordenação. da conversa entre coordenador e cronistas em mais um dispo- No trabalho grupal, o central não é a pessoa do coordenador: sitivo de elaboração do material grupal no pré-grupo (reunião esta é uma função onde pode ou não estar em questão a cura de cronistas e coordenadores antes do novo grupo). dos sujeitos, caso a tarefa seja 0 trabalho analítico. A elaboração em relação à função do cronista é, de certa forma, um legado de Pichon-Rivière em sua concepção de cronista observador em grupos operativos. Para ele, 0 observador deveria recolher todo 0 material verbal e não verbal, com 0 0 cronista, esse que escuta para escrever, vive de se expor nas objetivo de realimentar 0 coordenador facilitando a utilização palavras ora candentes, ora insípidas que escolhe. Dispor-se a essa das suas técnicas de condução (Pichon-Rivière, 2005). Já 0 tarefa é um desafio constante, mas irrecusável. Nosso desejo pela cronista, diferentemente do observador, em nossa concepção, questão da escrita está à flor da pele, e precisa estar, para suportar adquire maior fluidez e desprendimento em sua tarefa, pois não desafios de um novo lugar em construção, um outro espaço de almeja a objetividade compreendida como impossível. De circulação da palavra - e de desejos. (Miranda et al., 2006) igual maneira, compreende a dificuldade grupal ou pré-tarefa No senso comum, 0 cronista é aquele que escreve uma pichoniana não como um obstáculo a ser vencido, mas como narrativa do cotidiano, baseado em suas impressões e visão. próprio à dinâmica grupal. A função que propomos para 0 cronista no trabalho psicana- É importante salientar que a crônica não é somente 0 relato lítico com grupos é a de instaurar a escuta clínica nos grupos de um momento vivencial do grupo, também pressupondo a como aporte metodológico que entrelaça a escuta à escrita, elaboração teórica dos temas e das questões levantadas. Nesse colocando em relevo a palavra. 0 cronista tem a tarefa de sentido, é necessário visitar e revisitar autores, pôr em debate escrever de maneira absolutamente livre 0 que ocorre no e tensão diferentes campos do saber tanto do percurso dos dispositivo grupal, através de uma narrativa pautada por sua cronistas quanto das referências advindas a partir da escuta própria transferência. dos grupos. Portanto, a singularidade de cada cronista compõe A escuta do cronista não se destina a uma intervenção um mosaico testemunhal rico e desbravador que constitui 0 direta, falada no grupo, mas sua intervenção, ou seja, sua acontecer grupal. escrita, pauta as etapas posteriores de elaboração do material Cada crônica deverá ser analisada pelo cronista e pelo grupal e servirá de eixo e motor de análise e das sucessivas coordenador. Nela deverão ser encontrados os principais indi- hipóteses dos movimentos grupais. Ao acolher 0 que ouviu cadores (significantes) que emergiram no processo grupal.Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Notas para um trabalho grupal 57 56 Portanto, é a partir da crônica que realizamos as sucessivas que devem estar sempre claros para todos os integrantes do elaborações que vão constituindo nossas hipóteses de trabalho grupo, mas, por outro lado, é atravessada por elementos que e, quando for caso, novos dispositivos de intervenção. não se dão a ver logo de início. Esses indicadores-significantes servem para o estabe- Quando se erguem obstáculos diante da tarefa, estamos lecimento de categorias de análise do material clínico e para diante do que Pichon-Rivière denominou de pré-tarefa. A verificar a consistência destas. É necessário investigar se são pré-tarefa inclui tudo aquilo que obstaculiza a execução da suficientemente profundas e abrangentes, permitindo gene- tarefa. A tarefa do coordenador é fazer com que a tarefa grupal ralizações sobre material clínico: realização de hipóteses volte a ser 0 motor do trabalho, da mesma forma como Freud e a análise de material clínico na busca de generalizações fez da transferência, inicialmente obstáculo à cura, seu motor. 0 grupo, então, pode se deparar com 0 novo, encontrar-se diante consistentes. do vazio, do espaço sublimatório e da criação. 0 inconcebível como obstáculo mas real, deixa de paralisar 0 grupo, e Alguns pressupostos do trabalho grupal seus integrantes podem sair da repetição infinita e infrutífera de sua impotência. Tarefa e pré-tarefa contrato ou enquadre A tarefa de um grupo se constitui como verdadeiro líder, ou direção, do trabalho grupal. A tarefa é a razão do grupo. 0 espaço grupal mobiliza fortemente as instituições. Isso é central. Sabe-se que líder em uma instituição não é simples fato de alguém estar ou não no grupo já é um elemento seu presidente ou diretor, mas sim a tarefa à qual a instituição desencadeante de inúmeras suposições e fantasias. Quando se se propõe. coordenador de grupos também é liderado por faz um grupo em uma praça, por exemplo, todos ao redor se ela. Quando isso não ocorre, ou seja, quando coordenador, mobilizam no "vou ou não vou?", ou "do que estão falando?". diretor ou presidente encarna o líder, conforme Freud nos Aqui está a importância daquilo que chamamos enquadre apontou em "Psicologia das massas e análise do ego" (1921), e contrato. 0 enquadre ou contrato deve ser claro, pressupondo encontramo-nos diante do líder de massas, com os efeitos de a explicitação da tarefa a ser realizada e incluindo: motivo sugestão propostos a partir da regressão dos participantes à da existência do grupo, dias da semana, horários e tempo de identificação imaginária em espelho entre todos e com líder duração de cada grupo, bem como todo trabalho e o funcio- máximo. Também sabemos, pela própria história da psicaná- namento da equipe. E ainda: 0 papel de cada integrante da lise, dos efeitos devastadores nas instituições psicanalíticas da equipe, a forma de registro do material grupal, o que será feito transferência com o líder e das análises com analista que se com 0 registro do material grupal, e a vinculação institucional coloca no lugar de mestre. do coordenador e dos cronistas. A constituição da tarefa é atravessada por aspectos Mas, como se sabe, no trabalho para a construção de algo conscientes e inconscientes. Por um lado, a tarefa tem uma existe um sem número de relações presentes, muitas delas dimensão explícita: os motivos objetivos do trabalho grupal, claras e manifestas e outras não necessariamente explícitasJorge Broide e Emília Estivalet Broide Notas para um trabalho grupal 59 58 ou conscientes, mas que se podem revelar nas entrelinhas, Posteriormente, são levantadas as primeiras hipóteses clínicas. nas inflexões do enunciado. Estas últimas emergem no grupo Depois do pós-grupo, o cronista deverá escrever sua crônica e através do latente, do sintoma, do sonho, do conflito etc. enviá-la aos demais integrantes da equipe. contrato ou enquadre grupal pode fornecer a possibilidade A leitura de todos esses registros produzidos pelos da constituição de um lugar onde se faça presente 0 até então cronistas funciona como experiência de alteridade, com a silenciado; pode ser momento e a oportunidade para que os função de reordenar OS significantes, propondo um rearranjo segredos e as artimanhas institucionais comecem a se enunciar. na cadeia associativa e uma reelaboração do conteúdo. Após Os emergentes que surgem no grupo, através da fala a escrita da crônica, 0 ato de ler causa um estranhamento e dos seus componentes, expressam as relações existentes nos produz reflexões, visto que as cenas e relatos do grupal geram sujeitos, no próprio grupo, nas instituições e na comunidade. múltiplos sentidos e diferentes lógicas. Podemos, portanto, pensar grupo como um espaço poroso que reproduz conflito entre o Outro que exige do sujeito a submissão e sacrifício, e o sujeito que busca seu desejo Referências através da interação caleidoscópica das mútuas transferências que mobilizam seu inconsciente. FREUD, S. (1921). Psicologia das massas e análise do ego. In: Edição Standard É na possibilidade da elaboração da pré-tarefa, dos Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1990. V. XVIII. sintomas que emergem através de conflitos, impossibilidades, JASINER, G. Coordinando grupos. Buenos Aires: Lugar, 2007. cisões, recusas preconceituosas, falsas aceitações ou uma LACAN, J. (1958). A direção da cura e princípios de seu poder. In: Escritos. impostura na tarefa, que se encontra a integração verdadeira Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. do sujeito na tarefa ou no trabalho. É na medida em que este (1961-1962). O seminário. Livro IX. A identificação. Trad. Ivan Correia encontra seu desejo que o projeto passa ou não a fazer sentido. e Marcos Bagno. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. Esse é grupo enquanto espaço de trabalho/tarefa construído MIRANDA, A. B. de et al. Cronista: um lugar em construção: a escuta inscrita e escrita em uma Correio Appoa, Porto Alegre, 2006. Disponível em: pela tessitura da associação livre, da palavra. Acesso em: 22 jun. 2013. Pré- e Pós-grupo PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Na metodologia de trabalho que propomos nas institui- ções, se a equipe é constituída por vários coordenadores e cronistas, reunimo-nos antes e após a realização de cada grupo. Chamamos de pré-grupo a reunião cujo objetivo é cons- tituir uma grupalidade da equipe de coordenação e cronistas. Após a realização do trabalho institucional, reunimo-nos no pós-grupo. Nesse momento, buscamos refletir sobre acon- tecido no grupo, a partir do relato do cronista. Inicialmente, o coordenador escuta os impactos e efeitos da escuta do cronista.A transferência e território: algumas considerações Jorge Broide Introdução A proposta deste texto é refletir sobre algumas manifes- tações transferenciais que se apresentam no trabalho do psica- nalista em diferentes situações sociais críticas. Essa clínica se dá geralmente fora do consultório, e muitas vezes se encontra encravada nas periferias da cidade. Em consequência, é impor- tante avançarmos na compreensão de como se estruturam os laços sociais no território e a influência que possuem na cons- tituição do sujeito. É a partir desse entendimento que temos buscado e interagido com diferentes saberes que abordam, de forma contemporânea e criativa, a vida das grandes cidades.¹ 1. É a partir da prática de trabalho na cidade que Emilia Estivalet Broide e eu desenvolvemos o conceito e a metodologia do que chamamos Escuta Esta consiste em um método de pesquisa do território que inclui entrevistas individuais e grupais, nas ruas, no comércio, residências, espaços culturais, entre outros, e engloba a compreensão do cotidiano local e das diferentes manifestações sociais que ali ocorrem. ImplicaJorge Broide A transferência e o território: algumas considerações 63 62 Para abordarmos a questão, apresentaremos duas Algumas considerações sobre o território vinhetas de casos trazidos em supervisões a uma equipe das periferias das cidades de uma organização não governamental que trabalha com adolescentes em conflito com a lei, cumprindo medidas processo de globalização socioeducativas em meio aberto. Na cidade de São Paulo, todo trabalho com esses adolescentes é realizado por orga- Não é possível entender 0 que ocorre nas periferias das nizações não governamentais, conveniadas com a prefeitura, grandes cidades brasileiras sem abordarmos 0 processo de no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Os globalização. Por essa razão, faremos um rápido percurso adolescentes são encaminhados pelo Poder Judiciário. É a histórico, sem a pretensão de uma análise mais aprofundada esse mesmo poder que as ONGs devem responder através do tema, visto que isto fugiria do escopo deste texto e exigiria dos Planos Individuais de Atendimento e relatórios que um espaço muito mais amplo e aprofundado. podem liberá-los, aumentar tempo das medidas ou solicitar 0 processo de globalização não é algo recente: surge com nova internação para os atendidos. As equipes desenvolvem trabalho coletivo e com a produção da riqueza. Na verdade, está inúmeras atividades que vão do atendimento aos adoles- atrelado ao desenvolvimento da civilização e determinou, em centes e às famílias ao encaminhamento e acompanhamento grande parte, a relação do Homem com território. Como diz dos meninos e meninas na precária rede local (escola, saúde Bauman (1999), 0 ser humano, tanto na luta pela sobrevivência etc.), em oficinas profissionalizantes e em outras instituições. através da caça e da agricultura de subsistência, como depois, Pensamos que esses adolescentes, por estarem fortemente enquanto dono dos meios de produção, sempre esteve direta- enraizados no tecido social, são importantes porta-vozes do mente ligado ao seu entorno. Mesmo numa relação de conflito, território e dos processos de exclusão (certamente não os como a da escravidão e a do trabalho assalariado, o proprietário únicos) das periferias das grandes cidades brasileiras. Sendo da terra necessariamente tinha, em função do espaço comparti- assim, as considerações que seguem abaixo visam contribuir lhado, uma relação direta com a população que trabalhava em para o entendimento das relações entre sujeito e cidade e de suas terras e arredores. Esses laços foram se complexificando como estas se expressam no processo transferencial que se dá à medida que 0 fluxo econômico adquiriu maior mobilidade e em diferentes âmbitos do atendimento. concentração de capital. Mais tarde, com processo da industrialização, pequeno e médio empresário possuía uma relação com a população local, ainda que muito diferente da anterior, pois já havia maior compreender como vivem, moram e trabalham as pessoas que circulam mobilidade tanto do capital como do trabalho. Quando capital em um dado espaço geográfico. Esse conhecimento articula-se à escuta se transnacionaliza, foco de decisão se distancia do território psicanalítica que abre o caminho para uma reflexão sobre a vida do sujeito, o que inclui sua história, sua visão de presente e futuro e seus laços mais e o Estado nacional começa a perder soberania, visto que os profundos com a comunidade. Logo, a pluralidade do universo social entra recursos mobilizados por algumas empresas transnacionais em cena em cada entrevista realizada com as diferentes pessoas que transitam no espaço público e privado, incluindo-se, dessa forma, a história são maiores que o orçamento de vários países. compromisso do sujeito à narrativa sobre o território. da empresa é cada vez maior com lucro dos acionistas, em64 Jorge Broide A transferência e o território: algumas considerações 65 uma relação geralmente anônima, através da bolsa de valores. tênis; é a possibilidade de sentir-se reconhecido enquanto bairro, a cidade, e 0 Estado nacional ficam cada vez mais sujeito. É estar no mundo, é ser alguém. É sair da invisibilidade. distantes. ápice desse processo é 0 capitalismo financeiro. Aquele que usa o tênis está tomado pelo imaginário da marca; Este não tem vínculo algum com território; migra pelo botão usá-la, para si, equivale a ser alguém, a ser sujeito. Assim, do computador de um país a outro, em diferentes pontos do quando um adolescente rouba um tênis, está tentando sair de planeta em frações de segundo. o grande capital já não tem uma experiência que o toma por inteiro: a da invisibilidade. ideia de quem vive e como se vive no território local. É essa relação com produtos que, segundo Milton Esse processo, no dizer de Sader e Gentile (1995), é Santos, fragmenta o território e a relação entre as pessoas. acompanhado da retirada do Estado dos setores essenciais que era conhecido não é mais reconhecido, e a força do da sociedade. Nos últimos anos, 0 neoliberalismo, criado a produto, que imaginariamente traz a possibilidade de ser partir das teorias de Hayek, é implementado inicialmente sujeito, afeta laço social. Esse processo, no entanto, não é pelos governos de de Thatcher no Reino Unido e de Reagan uniforme: é pleno de contradições. Por um lado, 0 território nos Estados Unidos e, em seguida, espalha-se pelo mundo. Ao encontra-se fragmentado e, por outro, estabelece como defesa chamado Estado mínimo só cabe fazer 0 que a iniciativa privada espaço da afetividade e da contiguidade, que é onde se dá a não pode, ou seja, aquilo que não dá lucro. solidariedade, 0 trabalho comunitário, a contrarrede, a rede Milton Santos (1996), através da geografia humana, formada pelo morador, pelas políticas públicas, pelas ONGs, mostra-nos os efeitos desse processo histórico. Coloca como pela produção cultural realizada nas brechas da cultura da essas relações fazem com que 0 planeta se estruture por meio globalização. Poderíamos chamar da experiência de encontro de pontos de concentração econômica nos países centrais, local, onde está presente 0 sujeito, a alteridade, 0 reconheci- articulados entre si em rede que penetram 0 território local mento do outro. ao criarem um mercado para seus produtos. Essa inserção Podemos dizer também que 0 processo de globalização do poder global no local gera, segundo ele, a fragmentação estabelece novas modalidades de laço social que se expandem do território e descaracteriza a comunicação em favor da e alteram significativamente as relações locais. 0 trabalho, no informação. entanto, não se constitui somente naquilo que vemos. Em cada Para Fontenelle (2002), os produtos mudaram o seu produto humano, em cada mercadoria, como nos diz Marx ao caráter. São agora uma experiência. Comer um hambúrguer é falar do fetichismo da mercadoria, estão presentes e encobertas uma experiência de inclusão através de uma marca. Estar no as relações de produção, as relações sociais. Um produto, McDonald's é estar na estética do mundo globalizado, é sentir o portanto, traz dentro de si relações humanas entre diferentes gosto globalizado, é a experiência da inclusão propiciada pelos sujeitos em distintas culturas. Um telefone celular contém países centrais com suas marcas. Quantas vezes já não ouvimos matérias-primas, processos produtivos e tecnológicos de dife- um pai falar orgulhoso que levou filho no McDonald's? Em seu rentes situações e países. São as relações entre os petroleiros imaginário, comer 0 hambúrguer é transmitir a experiência de em alto-mar, que por sua vez interagem com os ribeirinhos paternidade ao filho. A função paterna fica mediada pela marca. transformados em operários na Zona Industrial de Manaus, Assim, usar um tênis Nike não significa simplesmente ter um com todos os fornecedores, com aqueles que comercializam66 Jorge Broide A transferência e o território: algumas considerações 67 telefone no shopping etc. São sujeitos e grupos que vão inte- processo de globalização e ragindo entre si até o produto final que, por sua vez, entrarão território das periferias brasileiras em uma nova cadeia de relações sociais, com novos grupos de 0 impacto do processo de globalização é muito forte no sujeitos. melhor exemplo disso é um artigo de capa da revista cotidiano do território da periferia. Ele agudiza a situação de inglesa The Economist que mostra como o telefone celular muda pobreza na medida em que desregulamenta as relações de toda a vida no território, estabelecendo novas relações. A matéria trabalho, diminui a possibilidade de qualificação profissional exemplifica o pescador na África que agora, ao aproximar-se da e empurra a população para 0 trabalho informal. 0 conceito costa, liga para três diferentes compradores para saber qual lhe de periferia pode e deve ser utilizado também nas regiões paga o melhor preço pelo peixe. E é neste, evidentemente, que ele centrais da cidade. Trata-se, aqui, de definir esse espaço urbano atraca seu barco. mesmo ocorre com pedreiro na periferia enquanto um lugar sem acesso aos bens sociais e aos ganhos da das grandes metrópoles, que vende seu trabalho através do cultura, pois um condomínio fechado com toda a infraestrutura telefone celular para alguém em outro lado da cidade. nas regiões periféricas da cidade, certamente é um território Assim, em um trabalho para a construção de algo, existe central e não periférico. um sem número de relações presentes, mas que não são explí- A retirada do Estado da vida das periferias no processo citas ou conscientes. Elas emergem no grupo através do latente do neoliberalismo teve consequências brutais. A ausência do e do manifesto, através do sintoma, do sonho, do conflito etc. É trabalho formal, associada à penetração do tráfico de drogas e necessário colocá-las o máximo possível em palavras, no grupo outras atividades ilícitas no território, faz com que se vá consti- no qual se propõe a realização da tarefa. tuindo uma porosidade cada vez maior entre o mundo formal e informal, entre o lícito e 0 ilícito. Como verificaram Vera Telles Nosso trabalho, enquanto psicanalistas, encontra-se ancorado aí, no compromisso com esse sujeito que fala, que está e Daniel Hirata (2007), trabalhador da TV a cabo faz um gato cindido e alienado no tênis Nike e no hambúrguer. Temos que (ligação clandestina) para obter uma renda extra; a dona de entender tênis e hambúrguer como as imagens de sonhos casa vende CD pirata, ou seja, cada um "se vira" como pode. para onde são deslocados, condensados e figurados, através de Nos territórios mais conflagrados, dominados pelo tráfico de objetos cotidianos e atuais, o conflito e 0 desejo daquilo que drogas, a população ou adere ou encontra-se porta a porta com ainda não pode ser dito. 0 mesmo, vivendo uma grande tensão em relação ao destino dos Tudo isso nos leva a algumas perguntas: Qual 0 efeito da filhos e às cenas de violência que se dão no cotidiano. retirada do Estado do território no processo de implantação Vale aqui um exemplo para ilustrarmos que estamos do neoliberalismo? Como isso interfere no cotidiano da vida considerando a porosidade entre o lícito e 0 ilícito. Em um das pessoas que moram nas periferias? Como se dá a luta de bairro residencial, universitário e central da cidade de São que nos fala Milton Santos entre a fragmentação e domínio Paulo, há um farol ao lado de um Banco Itaú Personnalité, do território pelos pontos articulados em rede pelos países onde uma mãe, acompanhada de dois filhos (um de aproxima- centrais e sua contraposição pela afetividade e pela contigui- damente 11 anos e outra aparentando 13 anos), vende panos dade? Como se constitui sujeito nesse território? de prato. Ao passar quase todos os dias, às vezes mais de uma68 Jorge Broide A transferência e o território: algumas considerações 69 vez pelo local, em virtude de ser próximo à minha residência, regiões distantes e das regiões centrais da cidade. No primeiro ficava intrigado com os três. Ao abordar 0 menino, que estava caso, deparamo-nos com uma ausência de recursos e redes sem chapéu no farol em um dia de muito sol, começamos a sociais em que a população ainda, em algumas situações, passa conversar. Relata que a família mora na periferia da cidade, fome e não tem acesso a transporte, escola, saúde, segurança, ele estuda, a irmã também. pai é o senhor que cuida do esta- moradia digna etc. As regiões centrais da cidade, por outro cionamento dos carros junto à porta do banco. Ele veste um lado, permitem um trânsito entre a miséria absoluta e o equi- avental do Itaú. Os panos são guardados no estacionamento que pamento público ou privado com a circulação do dinheiro -, tem convênio com banco, a vinte metros do farol. A situação, que a região pobre e periférica certamente não tem. 0 menino pelo menos em parte, se desvela. Os membros da família e a menina consumidores de crack no centro da cidade, que se trabalham juntos. configura também como um território de profunda exclusão e Esse é um bom exemplo de porosidade no território. violência, estão ali porque há uma centralidade, tanto no acesso Podemos observar que existem aqui diferentes superposições. ao tipo de droga, como também nas equipes da Secretaria 0 pai está inserido na legalidade bancária, e dali observa e Municipal de Saúde e da Assistência que os estão atendendo cuida da esposa e dos filhos, que estão expostos a uma situação na rua. de alta vulnerabilidade no farol. Ao mesmo tempo, os filhos No caso da periferia distante do centro físico da cidade, a estão na ilegalidade do trabalho infantil, expostos aos perigos e ausência do Estado se radicaliza ainda mais e 0 contato direto violência da rua, e possivelmente 0 banco não sabe que aquele com Estado se dá principalmente através da polícia, sendo que cuida dos carros de seus clientes configura uma situação alguns ainda, de uma forma ilegal, por meio da corrupção do ilegal e possui outra fonte de geração de renda ali mesmo, a tráfico de drogas, da venda de proteção, ou mesmo dos grupos partir de seu trabalho formal. 0 pessoal do estacionamento de extermínio presentes também no centro da cidade. A ao lado, solidariamente, também comete uma ilegalidade diferença entre as regiões centrais e as periféricas longínquas ao oferecer abrigo e guardar o material vendido no farol. Os do centro físico da cidade é que existem menos superposições patrões, possivelmente, assim como os funcionários do banco, de circuitos, menos diferenças nas últimas. Essa é a razão pela não devem saber do fato. Os pais, diferentemente do que qual a família vem de tão longe, onde tudo é igual. Há pouca ocorre em muitas outras situações de abandono, estão juntos tessitura no território. com os filhos, atentos a tudo que ocorre no entorno. Temos na mesma cena fragmentação e exposição a uma situação de desamparo e, como nos diz Milton Santos, uma rede de afeti- Pensar a psicanálise no território: algumas reflexões vidade e contiguidade, entre a família e os trabalhadores do estacionamento. Com o tempo, no entanto, o pai saiu do banco Uma das questões que incidem fortemente no trabalho e agora também vende panos de prato com a família, a menina direto no território hoje é 0 tráfico de drogas e crime orga- engravidou. As feições de todos são cada vez mais duras. nizado como um todo. Quanto ao domínio do território pelo Ainda no que se refere ao trânsito no território, é impor- tráfico, no caso de São Paulo mais especialmente 0 Primeiro tante abordar a diferença que existe entre periférico das Comando da Capital (PCC), este é exatamente proporcional àJorge Broide A transferência e o território: algumas considerações 71 70 ausência do Estado. Quanto menor a presença deste, maior a de dentro das prisões. Na ausência de um Poder de Estado influência do PCC. Como dizer a um adolescente que 0 estudo que regule as relações dentro do território é a essa "justiça" em uma escola frequentemente incapaz de representar um que, muitas vezes, a população desamparada recorre como conhecimento que permita a operação em seu mundo e que única e última alternativa contra 0 abuso e a violência. São os trabalho com parco salário são melhores do que tráfico de debates e a lei do tráfico que muitas vezes fazem com que caia drogas, a venda de produtos ilegais, ou roubo? o índice de violência no território, para que os negócios não É importante ressaltar que essas atividades ilícitas não sejam prejudicados pela ação da polícia e para a obtenção do trazem somente um maior ganho em dinheiro. Trazem que apoio da população. Essa "ordem" vai constituindo regras de um adolescente mais quer: a adrenalina e a saída da invisibi- convivência e obtendo, junto com 0 trabalho cultural (música, lidade. tráfico tem regras rígidas, reconhece um trabalho roupas, gestos, gírias), aval ou conivência da população bem feito e o saber dos adolescentes, até oferecendo um plano em função de ser a única força organizada presente no terri- de carreira. Permite 0 acesso aos produtos emblemáticos da tório. Cada vez mais, os "irmãos" são chamados para resolver globalização como marcas de grife, armas e dinheiro na mão, conflitos familiares, de vizinhança, segurança etc. 0 das que significam acesso à sexualidade, ao status e ao respeito crianças" e outras festas passam a ser organizados pelos dos pares, além de capturarem 0 jovem no imaginário da "irmãos" com brinquedos, churrascos e música para toda a potência. Na verdade, tráfico de drogas é, talvez, a empresa comunidade. que gera a maior mais-valia no mundo contemporâneo, com Freud nos apresenta em seus textos "Totem e tabu" regras mais rígidas e punições mais severas, entre as quais (1913), "Psicologia das massas e análise do ego" (1921) e tortura e morte. mal-estar na civilização" (1930), entre outros, que no início Essa modalidade de vida, que sustenta mercado do da humanidade, na horda primitiva, pai poderoso possuía ilícito, significa importantes ganhos financeiros para os grupos monopólio do gozo. A lei surge quando os irmãos quebram que dominam tais atividades. Estes, no dizer de Feltran (2008), esse modelo social, matam 0 pai e fazem um acordo entre si. são conscientes da importância dos valores éticos e estéticos e Nenhum deles poderá ocupar 0 lugar do pai. É isso que gera se lançam com grande eficácia a uma disputa pela hegemonia um código e uma ética permitindo a mútua convivência. Com cultural do território, como podemos observar nos costumes e isso, são necessárias várias renúncias pressupondo uma orga- na gíria que fazem a apologia do tráfico. Essas atividades estão nização social que, nos termos atuais, seria a Lei e 0 Estado. São fortemente arraigadas no território e abarcam cada vez mais exatamente essas renúncias em nome do coletivo que causam espaços, levando aos habitantes 0 trânsito pela porosidade 0 mal-estar na civilização e que estão 0 tempo todo presentes entre 0 lícito e 0 ilícito. enquanto sintomas e ambiguidades nos vínculos e nas relações É cada vez mais comum nas periferias das cidades esta- sociais. belecimento, pelo tráfico de drogas, de tribunais informais A violência sem limite no território fragmentado da (os chamados "debates"), onde os "juízes" são membros do periferia tem como uma das consequências a manutenção PCC. Há inclusive a possibilidade de "recurso" dos julgamentos do sujeito em alerta máximo. Nos territórios da exclusão, as em alguns casos. 0 "tribunal" superior geralmente opera relações pautadas pelo medo e pelo desamparo conduzirão72 Jorge Broide A transferência e território: algumas considerações 73 os vínculos familiares. A vida dos jovens no território torna-se ame, e quem, ao mesmo tempo, ela respeite, e cujo amor tema uma corrida de obstáculos. Eles passam por várias situações-li- perder. Por outro lado, aquele que se propõe à função paterna mite, mas a qualquer momento podem tropeçar no obstáculo e deve realizar um extraordinário esforço para exercê-la diante cair. Os acontecimentos destrutivos podem ocorrer a qualquer de tantas dificuldades concretas. que surge como alterna- instante. Um conflito, a polícia, uma infração legal, um boato, tiva à queda do pai e a das instituições é o traficante, o delin- pode derrubar esse adolescente. A corrida de obstáculos faz quente com sua força aparente, ou as igrejas messiânicas que com que ele nunca saiba quando e como cairá diante da irrupção prometem o alívio imediato da dor e do desamparo. São esses daquilo que é familiar e desconhecido, que pode surgir de uma grupos que crescem nas periferias de maneira assustadora e forma surpreendente e destrutiva. É a constante presença do lideram, de forma perversa, 0 território. Possuem uma clara sinistro, 0 Unheimlich, como nos coloca Freud (1919). Assim, estrutura vertical de horda primitiva. 0 poder do chefe não tem medo e 0 desamparo dominam a cena da periferia. Quanto maior limites na violência e na sexualidade. Este passa a fazer parte a pressão, maiores são 0 esgotamento psíquico e a dificuldade do modelo identificatório que é introjetado pela criança e pelo do pensamento e da construção de um projeto de vida. jovem. Muitas vezes, 0 conflito interno nesses jovens entre as Como já dissemos em situação anterior (Broide, 2008), figuras identificatórias familiares e instituições não tem força esse processo gera uma forte tendência à supressão da palavra. suficiente diante desse homem poderoso do crime organizado Isso ocorre em função da ausência de redes sociais e familiares, que oferece vida (e a morte) fácil. 0 jovem submetido à pressão que implica a quebra da cadeia simbólica. No caso da periferia, social circula entre esses dois modelos. É a porosidade entre essas redes não foram construídas, ou, então, foram destruídas esses dois mundos que agora gera a combinatória desses pela violência dos fatos que excedem a capacidade de processa- processos em seu inconsciente. mento do aparelho psíquico. Tais fatos funcionam como raios geradores de curtos-circuitos, queimam os caminhos internos e transformam-se em compulsão à repetição. A queda do pai Trabalhando na transferência e operando no território na corrida de obstáculos pode dar-se pelo alcoolismo, pela drogadição, pela passividade, pela morte, pelo desemprego etc. Traremos agora os dois exemplos que citamos anterior- A mãe, que conhece muito bem território em que vive, também mente. Ambos surgem do trabalho de supervisão a uma equipe sempre está em sobressaltos, atenta a se filhos estão entrando responsável pelo atendimento de 120 adolescentes em conflito em alguma situação de ilegalidade e violência, ou, então, com a lei, que cumprem medidas socioeducativas em meio derrotada, expõe os filhos a essas condições, como medida de aberto numa das regiões mais periféricas da cidade de São sobrevivência, e passa a trafegar nas diferentes esferas do lícito Paulo. Geralmente, dispositivo que utilizamos nesse tipo de e do ilícito. As relações familiares vão ficando cada vez mais supervisão inclui também 0 estudo de conceitos fundamentais duras e tensas e tendem à ruptura. Na verdade, elas expressam da psicanálise trabalhados a partir da experiência pessoal e o território, sendo permeadas por suas características. profissional dos diferentes membros da equipe, incluindo-se Nas condições de grande pressão social, como a que ocorre pessoal de limpeza, da administração e da cozinha. nas periferias, é difícil a criança encontrar quem a proteja e a74 Jorge Broide A transferência e território: algumas considerações 75 Primeiro exemplo SUS. A transferência constituída a partir e através das relações existentes no território tende a fazer com que os serviços de Um dia deparamo-nos com a seguinte situação: seria atendimento se percam em sua tão difícil tarefa, que é 0 atendi- caso de festejar o aniversário de um dos meninos no "baile da mento nas situações sociais críticas. Tem sido bastante comum laje"? Perguntamos: "Mas como assim? baile da laje não é encontrarmos equipes que já tomam como natural pedir a controlado pelos traficantes e os meninos não estão cumprindo proteção ao PCC para a execução de seu trabalho em campo. medida socioeducativa por tráfico?". Eles confirmam. Pedimos Não estamos dizendo aqui que é necessário confrontar 0 tráfico, que falem mais sobre isso. Explicam que baile é realizado o que de fato colocaria em risco a nossa segurança. Uma coisa em um prédio que foi construído como equipamento social é pedir proteção ao traficante, e outra é dizer a ele que temos pela prefeitura há muitos anos. Foi abandonado pelo poder que atender as pessoas, sejam elas quais forem, inclusive, se público e apropriado pelos traficantes. prédio possui um for necessário, os membros da família desse mesmo traficante. salão, onde é realizado baile, e salas menores, onde algumas Outro aspecto é que, quando adolescente chega ao ONGs realizam um trabalho com as mães da comunidade. Para serviço de atendimento, é praticamente impossível que não o baile da laje, sexta e sábado à noite, a segurança é feita por estabeleça uma relação transferencial com o técnico enquanto policiais militares. Temos, portanto, no mesmo local 0 Estado representante do juiz, do promotor, da polícia, membro do (Assistência Social, Poder Judiciário, Polícia etc.) que financia PCC e da sociedade em geral, com 0 qual se relaciona, está trabalho com os adolescentes em conflito com a lei, o Terceiro em conflito e faz parte de sua história. Quando 0 técnico não Setor com o trabalho das organizações não governamentais consegue perceber essa situação, aceita sem saber que nele (ONGs), policiais corruptos, e 0 tráfico de drogas que controla é depositado na transferência e fica incapacitado de realizar a território, dá as regras e negocia, permitindo ou não as ativi- sua tarefa. À medida que a equipe de trabalho pode ter acesso dades que ali serão realizadas. aos conceitos psicanalíticos de transferência, repetição e escuta Vale analisar aqui alguns aspectos. A ausência de uma Lei etc., ela pode deixar de ocupar o lugar do juiz, do policial, do que ordene gozo (como diz Lacan) no território naturaliza promotor, do membro do PCC e passa a poder falar sobre como a violência e a indiscriminação entre Estado, Terceiro Setor e adolescente estabelece 0 laço com esses representantes da crime organizado, imprimindo a marca de que tudo é a mesma sociedade, de sua história e da experiência de exclusão e de coisa. 0 adolescente relaciona-se com 0 serviço de atendi- conflito. 0 cumprimento da medida pode deixar de ser algo mento a partir dessa forte experiência introjetada e compar- formal e burocrático para assumir 0 seu verdadeiro sentido, que tilhada por todos que atendem em função da transferência é a possibilidade de reflexão e a tentativa de alternativas ao que e pela experiência da equipe de viver no mesmo território. 0 os adolescentes vivem e são vividos. pensar aniversário no "baile da laje" é 0 emergente que nos permite analisar como o serviço de atendimento vai sendo Segundo exemplo tomado por essa naturalização. Temos observado essa confusão e naturalização na relação A equipe técnica observou, em determinado dia, um sério com o território e com a população atendida em diferentes aumento da tensão entre os jovens, que começaram a abordar trabalhos em várias regiões do país no âmbito do SUAS e do conflitos vividos entre alguns deles no período de internaçãoJorge Broide A transferência e território: algumas considerações 77 76 na Fundação CASA. Isso ocorria na rua, na frente dessa insti- que essa pessoa pode falar, colocar palavras nessas e em outras tuição. Os técnicos, corretamente, assumiram a posição de experiências que descrevemos aqui. Colocar palavras é nomear mediadores e convidaram os jovens para conversarem em uma conflitos, expressar dificuldades e desejos, é sentir a dor da sala. 0 clima era tenso, com um dos técnicos no ambiente e perda e se deparar com 0 desamparo. É também encontrar 0 outro fora. A conversa e acordo a que chegaram foram intei- próprio talento, viver 0 encontro criativo com 0 outro, é a possi- ramente pautados pela ética do e não pela da instituição bilidade da arte, do conhecimento, da subsistência econômica e de cumprimento de medida. Vemos aqui como, de forma sutil, da construção de um projeto de vida. porém contundente, as regras do território começam a entrar A nossa função, portanto, é investir no que Milton Santos na instituição, fazendo com que a mesma se descaracterize e (2000) denomina afetividade e contiguidade. Isso pode ocorrer fique indiscriminada em função da relação transferencial que através da circulação da palavra que cria a tessitura do terri- adolescente estabelece com os técnicos e com a instituição. tório. Falar da dor é diferente de drogar-se; falar do medo é Se a equipe de trabalho não estiver muito atenta e não possuir diferente de matar ou agredir; falar da pobreza é diferente um espaço adequado de reflexão sobre a experiência cotidiana de roubar; falar da relação com a justiça ou com 0 PCC é que de atendimento, facilmente começa a se repetir ali a mistura do permite pensamento transformador. A palavra, tal como baile da laje, com a ONG, com 0 Estado e a clandestinidade da agulha e linha, tece 0 encontro entre as pessoas e permite a polícia. As leis do território vão buscando hegemonia em todo construção de caminhos alternativos. o espaço vazio. É nessa esteira que, a nosso ver, devem ser desenvolvidas as políticas públicas e os trabalhos das mais diferentes orga- nizações que têm por objetivo uma transformação social: a Conclusão criação das redes na área da saúde, da assistência, da cultura, da habitação, esportes, geração de renda etc. Esses espaços devem território da periferia expressa o processo perverso da ser também redes de circulação da palavra. 0 psicanalista pode globalização e se reproduz através da transferência que se dá ter aqui um papel fundamental na elaboração dos conflitos que no atendimento direto, na escola, na assistência social e na ação surgem nas interfaces das redes, no atendimento clínico, na comunitária. Nossa função nesse caso é buscar a construção de sugestão e no debate dos mais diferentes dispositivos para a dispositivos clínicos que constituam a possibilidade de sujeito circulação da palavra. Nossa experiência é que sempre há um encontrar 0 seu próprio desejo. Isso é possível na medida em lugar e que podemos nos colocar em uma boa posição de escuta. E sujeito fala. Seja quem for e seja onde for. 2. Grande parte dos adolescentes atendidos nessas instituições tem como modelo e ideal PCC. Ainda que eles só possam pertencer ao "Comando" Referências depois dos 18 anos de idade, seus laços já são em grande parte pautados pela lei dos "irmãos". Primeiro Comando da Capital tem poder de imprimir as regras de conduta dentro das prisões e dos equipamentos das BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas: Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. unidades de internação da Fundação CASA.Jorge Broide 78 BROIDE, J. A rua enquanto instituição das populações marginalizadas: uma abordagem psicanalítica através de grupo operativo. 1993. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clinica), Pontificia Universidade Católica de Campinas Unicamp, Campinas, 1993. Construção do plano municipal para Psicanálise nas situações sociais Juventude e a população em situação de rua no Periferia: em uma abordagem grupal. Curitiba: Juruá Psicologia, 2008. FELTRAN, G. de S. legítimo em disputa: as fronteiras do "mundo do crime" município de Porto Alegre nas periferias de São Paulo. Dilemas. Revista de Conflitos e Controle Social, Rio de Janeiro, n. 93-126. 2008. FONTENELLE, A. nome da marca. McDonald's, Fetichismo e Cultura Descartável. São Paulo: Boitempo, 2002. FREUD, S. (1913). Totem y tabu. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, Jorge Broide 1985. V. XVII. (1919). Lo ominoso. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, Emília Estivalet Broide 1985. V. XVII. (1921). Psicologia de las masas y analisis del In: Obras Buenos Aires: Amorrortu, 1985. V. XVIII. (1930). El mal estar en la cultura. In: Obras Completas. Buenos Aires: Introdução Amorrortu, 1985. V. XXI. LACAN, J. (1955-1956). seminário. Livro 3. As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 0 presente artigo busca apresentar o trabalho de consul- (1962-1963) Livro 10. A angústia: Rio de Janeiro: Jorge toria realizado na Fundação da Assistência Social e Cidadania Zahar, 2005. SADER, E., GENTILE, P. (Orgs.). Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e de Porto Alegre de abril a dezembro de 2011, para estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. construção do Plano Municipal da Política para a População SANTOS, M. retorno do território: In: SANTOS, M. et al. Território, em Situação de Rua da cidade. Divide-se em três partes. globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec/Anpur, 1996. Na primeira, relatamos trabalho de construção do Plano Território e sociedade. Entrevista com Milton Santos. São Paulo: Municipal. Na segunda, apresentamos em maior detalhe um Fundação Perseu Abramo, 2000. TELLES, V.S., HIRATA, D. Cidades e práticas urbanas: nas fronteiras incertas dos grupos realizados, com população em situação de rua, em entre ilegal, informal e o ilicito. Trabalho apresentado no 31° Encontro Anual um texto que denominamos "Ato e nomeação: produção do da ANPOCS 22 a 26 de outubro de 2007. Caxambu. Disponível em: . Acesso em: 02 jan. 2014. ZIZEK, S. Mirando al sesgo. Una introducción a Jacques Lacan a través de la e que temos utilizado em vários outros trabalhos, muitos dos cultura popular. Buenos Aires: Paidós, 2002. quais presentes neste livro. 1. No organograma da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, a FASC cumpre papel de Secretaria Municipal.80 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 81 Construção do plano municipal Envolver os vários atores também propiciava debater as nuanças e ambiguidades próprias às políticas públicas, uma vez O contexto que a expulsão e recolhimento das pessoas nas ruas, em nome da ordem e segurança urbana e citadina, andam a pari passu Inicialmente fomos contatados pela FASC para a capa- com as ações de proteção social, num movimento ambíguo e citação dos 120 técnicos responsáveis pelo atendimento à pendular de justificação e/ou contraponto. Nesse sentido, nosso população em situação de rua na cidade, que trabalhavam nos objetivo na consultoria não era apenas esgotar os diversos nove Centros de Referência Especializados de Assistência Social aspectos do tema, mas também trazer à tona as contradições do Sistema Único de Assistência Social (CREAS) no Município. e fazer incidir o discurso psicanalítico como operador, a fim de Ao longo das conversas iniciais com o Presidente da onde possibilitar a circulação discursiva. pudemos realizar uma escuta mais acurada das demandas Não se tratava, então, de criar uma gestão da população de da Secretaria, propusemos à instituição que se realizasse um rua e construir um plano completo, protocolizado. Interessava, trabalho mais amplo, ou seja, que a capacitação dos técnicos no trabalho analítico, resgatar especificidades, vozes, tempos incluísse a construção do Plano Municipal da Política para a e cadência, a partir da escuta das vivências singulares dos População em Situação de Rua. sujeitos imersos e implicados nessa realidade, quer fossem A proposta foi aceita, tendo resultado no primeiro Plano os sujeitos que vivem nas/das ruas, quer fossem os gestores e para População em Situação de Rua realizado no país. Esse executores das políticas de assistência social da cidade. trabalho contou também com a participação de mais três psicó- logas³ e um estagiário de psicologia⁴, convidados a lançarem-se nesse desafio. A população de rua e as políticas públicas Para a realização da consultoria, propusemos ao gestor e aos diretores da Fundação a criação de diferentes dispositivos Como fenômeno universalizado, mensurável e previsível que permitissem a circulação da palavra nos diversos âmbitos, em suas regularidades, é possível dizer que a população de dentro e fora da instituição, relacionados ao campo de trabalho. rua emergiu como questão pública relevante, como fenômeno Esses espaços foram propostos a fim de possibilitar a circu- lação e articulação dos diversos discursos sobre a situação das coletivo, espécie de acontecimento discursivo e urbano, por volta dos anos 1990, quando se iniciaram as primeiras pessoas que vivem nas ruas da cidade, de forma que gestores, trabalhadores da assistência, atores envolvidos da sociedade contagens e interesse em saber quem eram essas pessoas. Nessa época, a miséria nas ruas deixou de ser vista civil e os próprios moradores de rua pudessem falar e serem escutados na construção de uma política pública para a área. simplesmente como "preguiça" ou "vagabundagem" e foi sendo entendida como consequência do adensamento urbano, do desemprego, da falta de moradia, do crescimento da pobreza, tornando-se, nas últimas décadas, objeto-alvo das políticas 2. Kevin Krieger. 3. Anamaria Brasil de Miranda, Cláudia Odiléia Muller e Josiane Novelli Vieira. públicas. Foi nessa época também que a população em situação 4. Denis Saffer. de rua passou a encontrar formas de organização e proteção e82 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 83 começou a organizar-se enquanto movimento social através de de aquecimento da equipe de trabalho, antes do primeiro inúmeras ONGs de defesa de direitos da população em situação grupo, e terminavam no aeroporto ao redor das 19h, quando de rua (De Lucca, 2007). Até então, os trabalhos realizados fazíamos outra reunião, que chamamos de pós-grupo, para a eram de cunho meramente religioso e, salvo importantes primeira elaboração dos emergentes grupais, logo antes de exceções, realizados de maneira improvisada, o que resultava embarcarmos novamente para São Paulo. Ao longo da semana cada vez mais exclusão social. elaborávamos, a partir dos textos das crônicas, os principais Em 23 de dezembro de 2009, a Presidência da República emergentes grupais. assinou o Decreto 7.053, que instituiu a Política Nacional para A seguir faremos uma descrição dos diferentes a População em Situação de Rua e seu Comitê Intersetorial dispositivos. de Acompanhamento e Monitoramento da mesma. 0 Decreto instituiu a obrigatoriedade da construção dos Planos para a Grupo com OS gestores População em Situação de Rua e Comitês Intersetoriais nos municípios, Estados e na Federação. A cidade de Porto Alegre foi Participaram desse grupo 0 Secretário e sua equipe de diretores dos diferentes programas para a população de rua e a primeira a construir seu Plano, com a formalização do a Diretora Técnica da FASC, num total de cerca de dez pessoas. A tarefa desse grupo era fazer um acompanhamento direto dos trabalhos desenvolvidos na semana anterior e traçar Metodologia diretrizes, pensando situações e alternativas para a gestão imediata dos programas de atendimento, situações de urgência, Dispositivos construídos para e para a formulação do Plano. Tinha a duração de duas horas. a formulação do Plano Municipal Era também espaço para a discussão e implementação de decisões políticas que envolviam a intersetorialidade quando, Todos os dispositivos utilizados nessa consultoria foram por exemplo, era necessário contato do Presidente da FASC grupais. A tarefa geral era a construção do Plano Municipal, com o Secretário da Saúde, da Habitação, com Prefeito etc. Ali porém cada um dos grupos tinha uma tarefa específica, que iam sendo construídas as diretrizes gerais do trabalho e seu relataremos a seguir. A maior parte dos grupos era coordenada acompanhamento detalhado. por nós, em dupla, e tinham as psicólogas e o estagiário, que A construção de um dispositivo com 0 mais alto escalão moravam em Porto Alegre, como cronistas. As crônicas eram da gestão é sempre um espaço estratégico para a circulação escritas à mão, transcritas, e enviadas a todos os membros da da palavra, e nosso trabalho se constituía em elaborar com 0 equipe ao longo da semana. Utilizávamos também fotos, o que grupo a capacidade de escuta de todos os conflitos que surgem chamamos de crônicas fotográficas. através das mais distintas situações, sejam elas latentes ou Durante 11 meses viajamos semanalmente a Porto manifestas, ao longo da construção do Plano. 0 espaço de elabo- Alegre, sempre no mesmo dia da semana. Os trabalhos se ração com o mais alto nível da gestão é imprescindível em um iniciavam um pouco antes das 10h, logo após nossa chegada, trabalho como este, já que a palavra de toda a instituição deve com 0 que denominamos pré-grupo, uma reunião rápida circular por ali também. Nesse sentido, nossa equipe também84 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 85 foi porta-voz dos mais diferentes níveis e hierarquias da FASC e sobre material apresentado. Ao final, os apresentadores falam da população em situação de rua da cidade. novamente de suas impressões e reflexões acerca das contribui- É importante colocar aqui modo como trabalhamos ções do restante do grupo. Os psicanalistas coordenam 0 debate a questão do sigilo. Trazíamos para esse grupo os princi- e realizam a supervisão. pais emergentes, porta-vozes e significantes da semana Os dois grupos com os técnicos trouxeram de maneira anterior, sem que ninguém fosse citado nominalmente ou que muito clara as dificuldades de várias ordens do trabalho. pudesse ser identificado. 0 conteúdo era sempre apresen- Tratou-se do atendimento direto, do papel dos abrigos e tado enquanto material grupal. Esse acordo, que fez parte do albergues e seus impasses na acolhida à população, dos pontos enquadre geral do trabalho, sempre foi explicitado a todos os críticos das interfaces dentro da FASC e da FASC com outras grupos envolvidos. Secretarias, tais como as da Saúde, Educação, Habitação, Segurança e Trabalho. Grupo com técnicos Nossa abordagem abrangia os vários aspectos transferen- ciais, desde a intoxicação psíquica até uma sofisticada escuta que Envolveram aproximadamente 120 participantes entre se expressava, num primeiro momento, em queixas, desânimo, técnicos dos CREAS, alguns abrigos e outras Secretarias com críticas exacerbadas, descompromisso, ativismo no atendi- interface com a população de rua, como as de Saúde, Educação mento, ao mesmo tempo em que emergia enorme criatividade, e Justiça. Esse grupo tinha por tarefa a capacitação das dedicação e talento para 0 trabalho com a população em situação equipes. Foi dividido em dois grupos de sessenta pessoas, cada de rua. Todo esse material emergia na supervisão e possibilitava qual coordenado por um dos psicanalistas e dois cronistas. uma importante elaboração sobre 0 campo de trabalho e os Tinham noventa minutos de duração e eram divididos em dois pontos críticos a serem abordados no Plano Municipal. momentos. No primeiro, trabalhávamos conteúdos teóricos que incluíam textos psicanalíticos a respeito da escuta, transfe- Grupo com OS atores sociais envolvidos no trabalho com rência, e do trabalho grupal e institucional. Foram trabalhados a população em situação de rua de Porto Alegre também textos que traziam uma visão interdisciplinar e que tratavam da geografia urbana, da antropologia e da história da Numa periodicidade mensal, participaram Presidente da população de rua no Brasil, entre outros. FASC e seus diretores, as diferentes ONGs que trabalhavam com No segundo momento havia a supervisão de casos. As tema na cidade e que representavam movimento social, e diferentes equipes se candidatavam e se preparavam para a membros das outras Secretarias envolvidas com a questão, num apresentação na semana seguinte. Em nossa metodologia, os total de aproximadamente trinta pessoas. casos devem ser expostos em não mais que vinte minutos. Esse grupo tinha por tarefa escutar diferentes atores É importante que, na apresentação, as equipes tratem de sociais da cidade que desenvolviam ou deveriam desenvolver formular uma questão, 0 que já pressupõe uma reflexão preli- trabalhos com a população em situação de rua. Sua duração minar. Logo após, os apresentadores aguardam silenciosamente era de noventa minutos. Ali foram relatadas, debatidas e elabo- os diversos comentários, hipóteses e contribuições do grupo. radas questões sobre andamento do plano, conflitos entre as Objetivamos sempre que não haja perguntas, e sim questões ONGs e entre as ONGs e a FASC, bem como realizadas algumas86 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 87 das articulações políticas necessárias à ação no presente e no Os diferentes momentos de construção do plano futuro. A coordenação do grupo era realizada pelo secretário e nós tínhamos a função de apoiá-lo nos momentos em que se A partir do quinto mês de trabalho começamos a sistema- davam interrupções na comunicação em função de determi- tizar 0 material de todo 0 processo para a redação e construção nados conflitos ou dificuldades na escuta. do Plano. Trabalhamos três diferentes versões debatidas em profundidade no grupo dos gestores, onde foram acrescidas Grupo com moradores de rua as diferentes contribuições preparadas pelas diretorias da FASC. Quando esse grupo entendeu que havia encontrado uma grupo era formado por pessoas em situação de rua primeira versão consistente do Plano, iniciamos 0 debate com indicadas por diferentes ONGs ou equipamentos da Prefeitura os outros grupos envolvidos no processo. Se havíamos partido envolvidos na construção do Plano. Sua duração era de noventa do pressuposto que todos eram pesquisadores, seria funda- minutos e tinha por tarefa pesquisar a vida na rua e trazer mental que os grupos pudessem reconhecer suas contribuições para esse espaço de elaboração suas próprias histórias e ao trabalho, assim como fazer críticas e sugestões. andamento do trabalho enquanto pesquisadores. Sugerimos, Essa versão foi apresentada e debatida nos grupos dos e a FASC, através do secretário, aceitou que os membros do técnicos, da população de rua e dos atores sociais da cidade. grupo fossem considerados "pesquisadores sociais" e que, para Incluímos todas as sugestões e alterações que nos pareceram esse trabalho, recebessem uma bolsa de um dos programas pertinentes e as reapresentamos aos diferentes grupos. Com da prefeitura. Os membros do grupo solicitaram também que isso, 0 Plano foi aprovado por todos que até então haviam tivessem crachás com fotos para que pudessem identificar-se participado ativamente do seu processo de construção. Com nas ruas e nas diferentes instituições da cidade. essa versão, 0 secretário da FASC apresentou Plano ao seu grupo funcionava durante três semanas do mês, e na gabinete com a presença do prefeito⁵ e de todo o secretariado. quarta semana participava também do dispositivo com os 0 trabalho foi aprovado com muitos elogios. Dessa forma, além diferentes atores envolvidos no trabalho com a população de da aprovação do Plano em si, foi possível a construção da arti- rua. A temática do grupo girava em torno da história de vida culação política em torno do mesmo para que fosse possível a dos participantes, antes e depois de sua ida para as ruas, e do necessária intersetorialidade entre as diferentes secretarias, sem que iam descobrindo enquanto pesquisadores sociais. 0 grupo a qual não é possível a realização de qualquer política pública. era também um espaço de elaboração acerca da relação com construiu-se 0 Comitê Intersetorial álcool e outras drogas, relações afetivas e suas rupturas e a de Acompanhamento e Monitoramento da População em modalidade mais profunda da organização da vida nas ruas Situação de Rua da Cidade de Porto Alegre, conforme Decreto da cidade. Além disso, a partir de suas experiências, tinham 0 7053, de 23 de dezembro de 2009, da Presidência da República, importante papel de validar ou não muitas das propostas que que instituiu a política pública para a população em situação de estavam sendo elaboradas para 0 Plano, no que se refere ao tipo de abrigos, albergues, moradias, trabalho, relação como movimento social etc. (A evolução desse grupo será relatada em detalhes a seguir). 5. José Fortunati.Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 88 89 rua. 0 lançamento desse Comitê foi realizado no Salão Nobre presença do psicanalista. Ou seja, para que haja ato psicanalítico da Prefeitura, onde 0 Prefeito assinou 0 decreto municipal tem que ter havido um psicanalista. A expressão verbal tem que que formalizava e dava legalidade jurídica ao trabalho e ao ter havido indica que ato somente é enunciável num só depois, Comitê Municipal, com a presença de diversos secretários, do por isso não dependendo da vontade do psicanalista, muito movimento social, das ONGs envolvidas no tema e líderes dos menos daquele que transforma seu mal-estar em demanda, moradores de rua (alguns dos que participavam do grupo, no fazendo um pedido de análise ou de consultoria. âmbito da construção do Plano) e da imprensa. O tempo do ato é 0 instante, sempre fugidio, em que, pela No encerramento do trabalho, no mês de dezembro de transferência, estabelece-se um antes e um depois que produz 2011, 0 Plano foi lançado para a cidade em evento que contou no sujeito e arriscamos aqui a dizer também na instituição novamente com a presença de vários secretários, do prefeito, a possibilidade de novas significações. Nesse sentido, só do ex-prefeito, de todos os trabalhadores envolvidos em sua podemos falar e problematizar a experiência desenvolvida a construção e dos diferentes movimentos de adultos em situação partir de suas consequências, dos efeitos produzidos em cada de rua da cidade. sujeito em particular e na instituição. Como pensar a possibilidade do ato analítico, então, em um grupo de moradores de rua, quando estamos diante da vida Exemplo detalhando grupo da população nua (segundo conceito de Agamben), do sujeito subsumido, em situação de rua plasmado na figura do usuário da assistência? Como escutar a urgência, a premência das pessoas sob viadutos, pontes, em Ato e nomeação: produção do ato e ética discursiva praças, com tuberculose, HIV, sífilis, fome, miséria, depressão, psicose, loucura ou drogadicção? Nessas situações, a crueza da realidade factual invade e desafia a escuta do psicanalista Compor e nomear a origem equivale a destituí-la afirman- do-a, contando-a, fazendo existir que apenas insistia frente ao que é próprio do sujeito nos meandros da exclusão e e atraía. Não se elimina com isso não lugar da origem, do desamparo social. que continua sendo a ancoragem de toda a história. (Le Como não cair na tentação do bem? Como contribuir para Poulichet, 1996, p. 69) a construção de uma política pública para a cidade sem a ilusão Até aqui relatamos a construção do Plano Municipal para da eliminação do conflito? Como manter a tensão necessária a População em Situação de Rua na Cidade de Porto Alegre. para que algo do sujeito compareça na escuta que fazemos na Agora, pretendemos problematizar a experiência desenvolvida consultoria para a implantação da política pública? em um dos dispositivos criados nessa intervenção, isto é, a Por vezes, os dispositivos coletivos criados funcionam realização do grupo com os moradores de rua, colocando em como uma espécie de condição-suporte do resgate da enun- questão o ato psicanalítico. ciação do desejo, mas em outras podem agir de forma a inibir a 0 ato psicanalítico não é uma ideia, não é um artifício necessária recusa à submissão às normas e procedimentos de teórico. É operação, é corte, e tem lugar no plano transferencial uma assistência que busca garantir os mínimos sociais. Como da práxis analítica no consultório, nas políticas públicas de superar esses limites sem cair na defesa militante do gestor, e saúde e assistência social, ou demais espaços marcados pela tampouco na dos moradores de rua?90 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 91 Os sujeitos da cidade. Mas a pesquisa adquiria uma faceta que ia além da pura observação do cotidiano: implicava levantar hipóteses, Um grupo de moradores de rua toma a palavra. Foram sondar, investigar, ir além do conhecido, transformar 0 ouvido, indicados e/ou escolhidos por frequentadores de abrigos, escutado; recolher restos, vestígios, e falar sobre isso. Não se albergues e de entidades ligadas ao movimento das popula- tratava de uma reclamação, especulação ou curiosidade sobre ções de rua para tomarem parte na construção do plano para a a vida do colega de infortúnio, mas de uma investigação das população adulta de rua de Porto Alegre. questões cotidianas, trabalhadas em detalhe, buscando tornar Escutamo-los. Nossa proposta era ouvi-los, dar às legíveis e construir legitimidade às questões trazidas. Tinha como suas vivências, seus cotidianos, à vida e à sobrevida nas ruas compromisso a presença semanal e a disponibilidade para a fala, da cidade. Estávamos atentos para que a dura materialidade problematização, interrogação e inquietação. Esse trabalho foi da vida não promovesse em suas falas pura descarga, desabafo, remunerado, por meio de uma bolsa de pesquisa, repassada pela exortação dos demônios, ou uma teatralização da violência Fundação da Assistência Social diretamente a eles. Apresentaram vivida, das conquistas e/ou perdas experienciadas. Nossa documentos, recebiam os proventos no Banco do Brasil. aposta era que 0 convite à participação no grupo conferisse No primeiro dia do encontro grupal, quando lhes apre- lugar à fala movida por inquietações, pela livre associação, e sentamos a proposta de trabalho e combinamos suas disponi- assim pudesse promover a abertura à realidade psíquica para a bilidades e interesse, houve a nossa primeira surpresa: todos elaboração de algum aspecto do vivido, que pudesse ao mesmo estavam arrumados para a ocasião, uns de terno e gravata, tempo ter valor singular, bem como estar presente no grupal e outros com trajes esportivos, nem de longe dando indícios de na política pública da pólis. se constituírem como "povo da rua". Se que propiciou primeiro encontro foi fato de terem Estou me sentindo muito importante, dissera um deles, em comum a vida, a sobrevida, a subsistência, cotidiano nas impregnado de medicação e álcool, com um nítido problema ruas da cidade, do abrigo e do albergue, os parques, os viadutos e neurológico que fazia sua língua romper os lábios em contínuo as praças, essa insígnia seria motor e não a finalidade do grupo. movimento de idas e vindas. Disse que fazia questão de se apre- Assim como os pais dão um nome ao filho, lançando-o sentar bem para que as pessoas 0 vissem de outro jeito. na cultura antes mesmo de este nascer: assim como se dá Outra surpresa, que depois viria a se repetir em quase nome ao trabalho escrito, nossa proposta conferia tal empuxe. todos os grupos, era a tensão e a agitação, 0 bate-boca presente Nomeamos grupo de "Grupo de Pesquisadores Sociais". em todos os grupos. A mínima diferença de ideias provocava Nomear, dizer, é um ato, e 0 ato é um fato significante. ato de confronto e embate de pontos de vista. Cenas de violência verbal, nomeação vincula significante a um acontecimento. A palavra ataques, xingamentos vividos por eles nas ruas se reproduziam serve de agente, buscando produzir um terceiro que valide a na situação grupal e situavam uma borda que tocava muitas vezes pertença de cada um, que crie um enigma a ser decifrado pelo limite do discurso. grupo descolando 0 real da realidade, 0 outro e alteridade, a 0 tempo cronológico, medido pela quantidade de anos na queixa da angústia. rua, era usado como insígnia, medalhas acumuladas em uma A pesquisa social era caracterizada pela observação atenta farda esfarrapada. do ambiente em que viviam: abrigos, albergues, praças e ruas Carina indaga: Há quanto tempo tu tá na rua?Jorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 93 92 Colega: Eu tô há dois anos, mas eu sei como as coisas No crachá pediam que tivesse a foto e 0 nome do projeto: funcionam. "Pesquisador social do projeto de construção do plano para a Carina: Dois anos e já chega se achando... tu não sabe é de população adulta em situação de rua". A foto? Para que saibam nada! Eu tô há cinco! que sou eu mesmo, diz Walter. Faço questão de me apresentar Outro colega: E eu que desde os sete anos tô nessa vida, já bem!. Do nome próprio, a imagem (a foto de cada um) e uma vi de tudo! função instituinte (a de pesquisador social). Colega Erni: Tenho 35 anos de rua. Somos chamados de Solução foi 0 apelido dado a um dos integrantes do grupo, drogados, viciados, somos expurgados. Vai trabalhar vagabundo! pois sempre que falava dizia: Prá isso aí a solução é... e explicava Então me dá um emprego! Não temos cultura, teatro, cinema. Só que deveria ser feito para eliminar os problemas levantados. DVD pirata. que a gente vai fazer na rua? Só pensar besteira! Solução também diz que 0 crachá é importante quando vão falar Alguém convida pra beber, aí nem vou para 0 albergue, fico na com outros moradores de rua: Prá eles saberem que a gente tá rua. Procuro me manter limpo para não apanhar. Cada um quer fazendo esse trabalho, não é só perguntar por perguntar, a gente mudar a sua história de dor e sofrimento! quer melhorar a situação deles. Uma das psicólogas de nossa equipe falou dos "mora- Diz Solução: Comecei a pesquisar com pessoal que está dores" de rua interrogando: onde moram suas dores? ao meu redor, como quem uma conversa, mas na verdade a Pensamos que a operação que cabe ao psicanalista nesses intenção é entrevistar as pessoas sem que elas percebam. Tenho contextos é criar, através da instalação de um intervalo, de começado às 18hs, quando 0 pessoal começa a chegar abrigo, uma hiância, uma pulsação de tempo, ou seja, outro tempo e fico até a última hora e também no banho. onde traço singular possa falar no espaço coletivo, destra- Nesse momento percebemos que a incidência da mando os lugares instituídos. Abrir outros tempos ao sujeito, nomeação do grupo foi apropriada por cada um de uma forma cadenciar tempo, fazer fluir do cronológico tempo de rua muito singular. A acolhida que cada um deles fez da função para lógico das lembranças, da memória, da história, para a nomeada propiciou abrir-se a novas possibilidades de relação construção de um presente e futuro possíveis. Essa hiância busca desgarrar 0 real da realidade, permi- com a rua, de inscrição na rua e, arriscamos dizer, conferiu tindo ao sujeito passar do lugar de objeto alienado ao Outro, certa travessia: de morador de rua a pesquisador social. Surge da relação que o morador estabelece com o seu tempo na/de então outro pedido: 0 material do pesquisador. Que material? rua para a relação a um "objeto a" que falta e que pode operar Pastinha, caneta e bloco para anotar. como causa de desejo e não mais como ordenador sintomático. Logo surge no grupo o pedido que tivessem um crachá. grupal Diz Walter: Outro dia fui à reunião do orçamento participativo e queria falar, mas uma coisa é falar como morador de rua, outra é Por meio da nomeação dos pesquisadores sociais grupo falar como pesquisador social. Qual a diferença? Total! 0 respeito, trouxe à baila a entrada de elementos novos. A partir do ato a dignidade. Vão dar ouvidos ao que eu falar! Como morador de nominativo como intervenção, pôde-se perceber que a trama rua eu não sou ninguém, como pesquisador eu tenho como dizer do drama vivido encontra possibilidade de ser recomposta. que vejo e que sinto. Nessa experiência, eles se relançaram a outro recomeço, umJorge Broide e Emília Estivalet Broide Construção do plano municipal para a população em situação de rua... 95 94 novo começo, um novo desejo, uma nova versão da origem: de Concluindo morador de rua a pesquisador social, uma travessia, mantendo a rua como elemento significante, mas subvertendo uma Durante nove meses homens e mulheres dedicaram- lógica cristalizada onde o significante complementar remetia à -se a investigar, falar com outros sobre a vida nas ruas; dar exclusão, ao isolamento e à vitimização. depoimentos sobre 0 que ocorria nas esquinas, nos becos e 0 ato possibilita ao eu uma nova organização do sintoma nos abrigos; pesquisar lugares de comida, pontos de chegada e da história ao enlaçar o significante primordial a um conjunto de pessoas oriundas dos presídios, do interior do Estado e de de outros significantes, modificando significações cristalizadas outras cidades; arriscar prognósticos; sugerir ações; e coleti- e lugares sintomáticos gozosos. vizar mágoas e esperanças. Aí se estabeleceu a posteriori, um Entendemos que grupo não é um todo homogêneo, antes e um depois, uma travessia: de morador de rua a pesqui- tampouco a soma de seus integrantes. Partimos do pressu- sador social. 0 ato é solitário, é de cada um, mas é transmissível posto de que há na situação grupal algo que escapa a toda e partilhável, testemunhável. A solidão do ato não se confunde e qualquer significação, escapa à inteligibilidade, produz com 0 isolamento daquele que o transpassa. furo. Há estranhezas, sem-sentidos que surpreendem, desor- 0 novo que se produz diz respeito a uma nova inscrição ganizam, interrogam e podem questionar racionalidades no campo social que ato coloca. Ser morador de rua, ele pode instituídas, no sentido dado por Fernandez (2002), possibili- contar esse traço entre outros. 0 sujeito pode reconhecer que tando surgir tanto o traço, ou seja, singular de cada sujeito esse traço é um dos que o representa, mas sua identidade não no grupo, ao mesmo tempo em que se apresenta uma trama está colada, cristalizada a um único significante. tecida de significados e significações, produções discursivas, Assim Aline, hoje com 27 anos, moradora de rua desde mitos e utopias, relativas ao coletivo, conforme 0 entender os sete, no dia 21 de dezembro de 2011, na cerimônia de de Jasiner (2007). No grupo, as vozes e corpos dos que o entrega do plano para o prefeito e conjunto de secretários integram tramam-se em múltiplas histórias, múltiplos dramas, da cidade, trouxe suas filhas e seu companheiro para evento. instaurando-se uma série de ritmos, laços, inscrições singu- Queria mostrar a eles no que tinha trabalhado no período. Ao lares, deslocamentos e identificações movediças. despedir-se de mim disse: Muito obrigado, D. Emília, eu queria Ao mesmo tempo, as diferenças discursivas no grupo, tendo agradecer à senhora e ao seu Jorge, sabe, não sou mais uma os outros semelhantes como suporte para a narrativa de cada moradora de rua, sou pesquisadora social, disso eu não vou me história em particular, é terreno de elaboração subjetiva. Tais esquecer. Tchau! É isso, a meu ver, que possibilita resgate questões lançam analista no trabalho de busca dos interro- do valor da fala de cada sujeito que vive na rua e pode fazer a gantes que insistem e que não cessam de se inscrever. Aqueles política pública, ou seja, uma marca que possibilita um começo, sem sentidos, sem significação, na repetição vão oferecendo um novo começo. indícios de interpretação. Logo, não estamos na perspectiva Cada trabalho pressupõe um dispositivo único, construído da intersubjetividade, mas daquilo que no grupo existe como através de uma escuta cuidadosa do gestor que nos contrata. alteridade. Essa escuta já se dá na transferência e pressupõe uma relação de confiança que permita uma construção conjunta da tarefa e da forma de operação.96 Jorge Broide e Emília Estivalet Broide No caso aqui relatado foi possível construir um Plano Municipal verdadeiramente participativo através do sujeito de desejo que fala de sua relação mais profunda consigo mesmo no Psicanálise e políticas públicas. grupo a que está vinculado, com a instituição, e acima de tudo A construção de uma política pública com a cidade, na relação com a população atendida. Foi isso que possibilitou a inclusão de diferentes saberes no para a juventude em situações sociais Plano, constituídos por uma profunda implicação no trabalho. críticas no município de Osasco Todos os dispositivos grupais foram manejados a partir de asso- ciação livre, de transferência e da abordagem dos distintos emer- gentes, porta-vozes e significantes que se expressavam a partir Jorge Broide do trabalho de cada um com a população de rua e com a rua. Essa nos parece ser uma importante contribuição da psica- nálise para a construção de políticas públicas. Participaram da construção coletiva do Plano, aproximadamente duzentas pessoas de diversos escalões e distintas inserções, entre elas a população em situação de rua, os técnicos responsáveis por seu Introdução atendimento e os gestores da FASC, incluindo seu secretário, 0 Secretariado Municipal e o Prefeito. Em sua maioria, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade vivem na periferia de centros urbanos, com sérias dificuldades econômicas e falta de qualificação profis- Referências sional, num contexto de desemprego ou de trabalho informal. Esse território é pautado por uma presença precária do Estado, DE LUCCA, D. A rua em movimento: experiências urbanas e jogos sociais em 0 que traz por consequência a ausência da lei, a baixa qualidade torno da população de rua. 2007, 241 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia dos serviços, 0 abuso do poder da polícia e a hegemonia das Social), Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de regras do tráfico de drogas. É um espaço conflagrado conti- São Paulo USP, São Paulo, 2007. FERNANDEZ, A.M. El campo grupal. Notas para una genealogia. Buenos Aires: nuamente, expondo os jovens ao risco diante do imprevisto e Nueva Visión, 2002. do descontrole da violência expressa em sua própria casa, nas JASINER, G. Coordinando grupos: una lógica para los pequeños grupos. Buenos ruas, e nas instituições em geral. Sobreviver exige um enorme Aires: Lugar Editorial, 2007. esforço psíquico, pois vivem entre sucessivas perdas e rupturas LE POULICHET, S. tempo na psicanálise. Trad. Lucy Guimarães. Rio de nos âmbitos da família, da exclusão na escola, da dificuldade de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. sobrevivência econômica e dos obstáculos ao acesso aos bens MIRANDA, A.B et al. Cronista. Um lugar em construção: a escuta inscrita e escrita em uma função. Correio da APPOA, Porto Alegre, n. 206, 38-46, culturais, sendo frequentemente obrigados a direcionar todos outubro de 2011. seus esforços para sua subsistência imediata. RIVIERE, E.P., QUIROGA, A.P. Del psicoanálisis a la psicologia social. Buenos Outro fator relevante que impede a construção de uma Aires: Nueva Visión, 1986. vida sustentável é que muitos desses adolescentes e jovens