A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
15 pág.
FARIA e ATTIE Contradições Limitações e possibilidades

Pré-visualização | Página 7 de 8

por ele introduzidos continuamente, configurando-se com isso uma subsunção inversa,
de uma base sobre uma forma, similarmente ao caso da economia camponesa. Essas coerções,
naturalmente, cerceiam a lógica econômica solidária, pois obrigam a conviver com
tensionamentos e a conceder em seus princípios. Se fossem adotados sem restrição os princípios
que regem as Organizações Solidárias de Produção, estas terminariam por descaracterizar o que
há de específico no solidarismo econômico (GAIGER, 2005).
No Brasil, a maioria das Organizações Solidárias de Produção se constitui sobre uma
realidade bastante dura de escassez de recursos tecnológicos, materiais e financeiros, baixa
qualificação profissional dos trabalhadores e ausência de estruturas institucionais capazes de
garantir níveis mínimos de sustentabilidade. Além disso, um problema mais complexo e de difícil
solução permeia esta questão. Vive-se hoje em uma cultura do consumo, na qual ter se tornou
mais importante do que ser, em que “a ambição tem se mostrado mais forte do que o altruísmo e
o individualismo têm vencido a responsabilidade comunitária” (GAVRON, 2000, p.11). Sendo
assim, analisando-se o contexto em que se encontram as Organizações Solidárias de Produção
percebe-se uma infinidade de contradições.
O kibbutz Hatzerim vem demonstrando que Organizações Solidárias de Produção
baseadas na cooperação, participação e solidariedade podem ser possíveis e viáveis. Entretanto,
estas possuem uma particularidade cultural muito importante que são os princípios de vida
comunitária de todo o movimento dos kibbutzim. Mesmo que tais princípios sejam interiorizados
pelos sujeitos da ação que fazem parte das Organizações Solidárias de Produção, isto não é
suficiente, pois os mesmos vivem imersos em uma sociedade amplamente dominada pelo poder
do capital e precisam, a todo tempo, se relacionar com esta sociedade. Os membros de Hatzerim
optaram por manter seus laços de cooperação e solidariedade dentro do kibbutz. Entretanto, a
empresa Netafim é orientada pelos mesmos princípios que regem toda a economia de mercado:
competição, individualismo e dominação. Esta foi a solução encontrada para conservar os valores
da comunidade e ao mesmo tempo sobreviver em meio a sociedade capitalista.
Paralelamente a isto, devido a suas limitações de recursos, as Organizações Solidárias de
Produção no Brasil possuem uma forte tendência a se concentrarem em setores da economia
rejeitados pelo capital justamente por serem considerados pouco lucrativos. São geralmente
empreendimentos que requerem bastante esforço humano e pouca tecnologia como, por exemplo,
as cooperativas de catadores de lixo, de artesanato ou de costura. Tais setores apresentam baixa
rentabilidade fazendo com que as Organizações Solidárias de Produção tenham grande
dificuldade em se desenvolver e se tornar auto-sustentáveis a médio e longo prazo.
De forma similar, este problema também vem sendo enfrentado pelo movimento dos
kibbutzim uma vez que a maioria deles concentra suas atividades econômicas em atividades
agropecuárias que não são suficientes para propiciar-lhes condições razoáveis de sobrevivência e
autonomia. Hatzerim constitui uma das exceções por possuir uma indústria próspera e de alto
nível produtivo e tecnológico. Isto demonstra a importância do investimento em educação e
capacitação dos sujeitos envolvidos.
Esta questão, contudo, se torna bastante complexa à medida que a maioria dos sujeitos
envolvidos nas Organizações Solidárias de Produção está lutando por necessidades básicas como
alimentação e moradia, não sobrando recursos, portanto para investir em sua formação
profissional. Resolver esta questão é um ponto chave para o desenvolvimento dessas iniciativas.
O Governo Federal criou em 2003 a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) que
raquellirax
Resaltar
raquellirax
Resaltar
raquellirax
Resaltar
raquellirax
Resaltar
14
tem por objetivo viabilizar e coordenar as atividades de apoio a estes empreendimentos. Além
disso, 18 universidades de todo o país têm desenvolvido projetos atrelados à Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP). Entretanto, isto ainda não é suficiente, seja
porque, em certa medida, tais iniciativas são assistencialistas, seja porque existem há pouco
tempo e não acumularam experiência prática e nem teórica, seja por não atuarem em uma grande
área de abrangência.
De qualquer forma, como alertava Marx, uma sociedade nunca se coloca problemas que
ainda não está apta a resolver. Assim, acredita-se que apesar das inúmeras dificuldades e
contradições apresentadas por este tipo de organização, a vivência de uma experiência coletiva
em um momento de desintegração social conduzida pela crise do emprego e pela dificuldade da
sociedade civil e do Estado em prover as necessidades básicas dos cidadãos, as Organizações
Solidárias de Produção permitem que os trabalhadores reorganizem e resignifiquem suas vidas.
Se o desemprego conduz a uma perda, um mundo que se desintegra, também faz nascer uma
busca ativa que reorganiza a subjetividade, restabelecendo a sua presença do trabalhador no
espaço coletivo. Quando isso acontece, a vivência pode se transformar em experiência e o ser
vitimizado pode sair da passividade individualizante em que foi colocado e passar para a
condição de ser ativo, mesmo com todas as limitações da sua condição pessoal e do meio social
em que vive.
Referências Bibliográficas
ARRUDA, M. Globalização e Sociedade Civil: repensando o cooperativismo no contexto da
Cidadania Ativa. Rio de Janeiro: PACS, 1996.
BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. & PASQUINO, G. Dicionário de Política. Brasília:
Universidade de Brasília, 1986.
CRUZ, Antônio. O Mar e a Terra da Economia Solidária. Leituras Cotidianas. n.181, jun. 2005.
DUPAS, G. Economia global e exclusão social. 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
EID, F., GALLO, A. & PIMENTEL, A. Desemprego, Exclusão e Desafios para o
Desenvolvimento da Economia Solidária no Brasil. Revista ABET.São Paulo, v. 1, n.1,
2001.
FARIA, José Henrique de. Economia Política do Poder. Curitiba: Juruá, 2004. 3 Volumes.
_____. Comissões de Fábrica: poder e trabalho nas unidades produtivas. Curitiba: Criar, 1987.
_____. Organizações Solidárias de Produção, Organizações Coletivistas de Trabalho e
Autogestão: formas de resistência ou alternativas de trabalho? Curitiba: UFPR, 2006.
(Working Paper).
_____. Consciência Crítica com Ciência Idealista: paradoxos da redução sociológica na
fenomenologia de Guerreiro Ramos. Salvador: X Colóquio Internacional Sobre Poder Local,
2006.
GAIGER, L. I. Significados e Tendências da Economia Solidária. In: Sindicalismo e Economia
Solidária: reflexões sobre o projeto da CUT. São Paulo: CUT, 1999. p.32-41.
________. Sentidos e Experiências da Economia Solidária no Brasil. Porto Alegre: Ed. UFRGS,
2004.
________. A Economia Solidária diante do Modo de Produção Capitalista. Leituras Cotidianas.
n.127, jan. 2005.
GAVRON, D. The Kibbutz. Awakening from Utopia. England: Rowman & Littlefield, 2000.
GRZYBONSKI, C. Desemprego Estrutural e Possibilidades de Saída. In: ANTEAG, Empresa
Social e Globalização. São Paulo: Anteag, 2001. p.24-32.
raquellirax
Resaltar
raquellirax
Resaltar
raquellirax
Resaltar
15
GUILLERM , A. & Bourdet, Y. Autogestão: uma mudança radical. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
GUTIERREZ, L. G. Autogestão, participação e salário. Revista de Administração. São Paulo,
vol. 26, n.º 4. p. 14-23, out./dez. 1991.
_________. Da Autogestão à Economia Social: a concepção de uma nova empresa. Revista de
Administração. São Paulo, v. 33, jan-mar, 1998. p. 68-73.
LIMA, Ana Luiza Machado de Codes. O Fenômeno da Economia Solidária: reflexões em um
campo de estudo controverso. In Encontro Nacional de Pós-Graduação em Administração,
29, 2005, Brasília. Anais. Campinas: ENANPAD, 2001. 1 CD-ROM.
LISBOA, Armando de Melo. Economia Solidária e