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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Profa. Érika de Andrade INTRODUÇÃO Direito: conceito Podemos definir DIREITO como o conjunto de normas e regras estabelecidas com o propósito de regular a conduta humana em sociedade. Por meio do Direito também é que surge o conceito de “direitos e deveres”, que dão limites às ações humanas e estabelecem os mecanismos para resolução de conflitos. Assim, determina-se o direito a ser aplicado na sociedade através das leis e dos códigos. Sua principal função é promover a justiça e a equidade, garantindo que todos tenham os mesmos direitos e oportunidades, com tratamento justo e correto. O Direito protege interesses individuais e coletivos. Resumindo: o Direito resguarda, defende, ampara, protege e serve os indivíduos a ele sujeitos, em todos os momentos, regulando as relações das pessoas em sociedade. Assim, onde existe sociedade existe o direito para promover e preservar a paz no convívio social Direito Objetivo x Direito Subjetivo Direito Objetivo: Trata-se do conjunto de normas jurídicas impostas pelo Estado, com caráter geral. O direito objetivo é impessoal e não depende da vontade individual, sendo aplicado a todos de forma igualitária. Ex.: CF/88, Código Civil, CTN, CBT, Código Penal, Código de Defesa do Consumidor, CLT etc. Direito Subjetivo: Corresponde à faculdade que cada indivíduo tem de exigir o cumprimento das normas jurídicas em seu favor com base, todavia, no direito objetivo. O direito subjetivo é pessoal, dando azo à cada um exercer suas vontades e pretensões,. Ex.: exercer o direito de propriedade, o direito à liberdade (expressão, locomoção), direito de ação, direito de contratar, de se divorciar etc. Direito Público x Direito Privado Direito Público: É o ramo jurídico que regula as relações entre o Estado e os cidadãos (particulares), buscando proteger o interesse público e garantir o cumprimento das leis. Abrange, por ex., áreas como o Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Penal, Direito Tributário ou Direito Internacional Público – esses são os principais ramos do direito público. Direito Privado: Diferentemente, o direito privado regula as relações entre particulares (entre os cidadãos, sem intervenção do Estado), como as relações de família ou as relações contratuais, por ex. Abrange áreas como o Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito Internacional Privado ou Direito do Consumidor, os principais ramos do direito privado. 1) Direito Constitucional – regulamenta a lei suprema da nação – CF/88. 2) Direito Administrativo – regulamenta a organização e funcionamento da Administração Pública. 3) Direito Penal – regulamenta crimes e contravenções, determinando sanções. 4) Direito Tributário – regulamenta os tributos e a ordem tributária brasileira. 5) Direito Internacional Público – regulamenta as relações entre os Estados e Organismos Internacionais. 1) Direito Civil – regulamenta a vida civil do indivíduo. 2) Direito Empresarial – regula a prática de atos empresariais. 3) Direito do Trabalho – regula as relações de trabalho entre empregado e empregador. 4) Direito do Consumidor – regula as relações de consumo de bens ou serviços. 5) Direito Internacional Privado – regula problemas particulares ocasionados pelo conflito de leis no espaço (entre o Brasil e outros países). Mas, o que é o Direito Civil? O Direito Civil é um ramo do Direito Privado que trata do conjunto de normas reguladoras dos direitos e obrigações em situações que podem envolver bens, contratos, empresarial, direitos de família, direitos sucessórios etc. De forma geral, o Direito Civil abrange o conjunto de normas previstas pelo Código Civil. No Brasil, o atual Código Civil, em vigor desde 11 de janeiro de 2003 - Lei n.º 10.406/2002, contém 2.046 artigos. O antigo Código Civil, de 1916, era inspiração do Código Francês, enquanto que o atual se inspirou no Código Alemão. a. Fala, em sua PARTE GERAL, do direito das Pessoas, dos Bens e Fatos Jurídicos. b. Na PARTE ESPECIAL, trata do Direito das Obrigações, Direito de Empresa, Direito das Coisas, Direito de Família e do Direito das Sucessões. Temos duas leis fundamentais, a Constituição Federal de 1988, que é a lei suprema do país, e o Código Civil, conhecido como Civil Law (sistema romano- germânico), a estrutura jurídica oficialmente adotada no Brasil. O sistema romano-germânico ou Civil Law é o sistema jurídico mais disseminado no mundo, baseado no Direito Romano. Diferencia-se dos outros direitos em seu respeito pelo valor individual. Em diversos países de tradição romano- germânica o direito é organizado em códigos, cujos exemplos principais são os Códigos Civis francês, espanhol, alemão, italiano e português. É típico deste sistema o caráter escrito do direito. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS CONSAGRADOS PELO CC/2002 PRINCÍPIO BOA-FÉ OBJETIVA O Princípio da Eticidade ou Boa-fé traz a ideia de que os negócios jurídicos estabelecidos entre as partes devem ser tratados com honestidade, sinceridade, lisura e lealdade, conforme os padrões estabelecidos na sociedade (controle das condutas humanas). A Boa-fé quer dizer sem qualquer intenção escondida ou sem intenção de enganar, para que desta forma não haja prejuízo para qualquer das partes. Ex.: “Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.” PRINCÍPIO DA SOCIABILIDADE OU SOCIALIDADE Este princípio impõe que os direitos e valores coletivos devem sempre prevalecer sobre os direitos e valores individuais (o objetivo é social), respeitando os direitos fundamentais da pessoa humana na sociedade. Ex.: “Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato.” PRINCÍPIO DA OPERABILIDADE Este princípio impõe soluções viáveis, operáveis e sem grandes dificuldades na aplicação do direito, a fim de torná-lo mais prático. A regra tem que ser aplicada de modo simples. Ex.: “Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização.” PRINCÍPIO DA EQUIDADE Este princípio impõe o uso do bom senso, a justiça do caso particular mediante a adaptação da lei ao caso concreto (o julgamento por equidade). Ex.: “Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio.” Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB (Decreto-Lei n.º 4.657/1942) Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB A LINDB possui 30 artigos que trazem em seu conteúdo regras quanto a vigência das leis (arts. 1.º e 2.º); regras sobre a aplicação da lei no tempo e no espaço (arts. 3.º a 6.º); o estudo do “conflito de leis no espaço” (questões de Direito Internacional Privado – arts. 7.º a 19) e, por fim, normas de interpretação, segurança jurídica e gestão pública (Direito Administrativo – arts. 20 a 30). Art. 1.º Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país 45 (quarenta e cinco) dias depois de oficialmente publicada. Três fases da lei – elaboração, promulgação e publicação Vigência da lei no tempo (vacatio legis): as leis brasileiras, exceto disposição em contrário, começam a vigorar, via de regra, 45 (quarenta e cinco) dias após oficialmente publicadas no Diário Oficial (DOU, DOE, DOM ou DO). Não importa que a data final seja um feriado ou final de semana. Mas, no geral, as próprias leis trazem, em seu texto, o prazo inicial de sua vigência. Ex.: Lei n.º 10.406/2002, que instituiu o Código Civil Brasileiro. O Art. 2.044 dessa lei diz: “este Código entrará em vigor 1 (um) ano após a sua publicação”. Veja-se que a publicação é de “10/01/2002”. Assim, o atual Código Civilpassou a vigorar em 11/01/2003 (um sábado), portanto, em um outro momento, e não 45 dias depois de publicado no DOU. Outros exemplos de prazo inicial de vigência da lei: “na data de sua publicação” = comum para leis de caráter urgente, ou leis que só alteram pequenas coisas; recentemente temos o exemplo da Lei n.º 15.189, de 06/08/2025, que instituiu o “Dia do Axé Music”; “120 dias após a publicação oficial“ = Lei n.º 13.467/2017 – “Lei da Reforma Trabalhista”, que alterou alguns artigos da CLT (Decreto- Lei n.º 5.452, de 1943). Art. 1.º (...) §3.º Se, antes de entrar a lei em vigor, ocorrer nova publicação de seu texto, destinada a correção, o prazo deste artigo e dos parágrafos anteriores começará a correr da nova publicação. §4.º As correções a texto de lei já em vigor consideram-se lei nova”. Art. 2.º Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue. Iniciada a vigência de uma lei, essa terá vigor até que uma outra lei (nova) a modifique ou a revogue = “princípio da continuidade”. Art. 2.º (...) §1.º A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. 1. AB-ROGAÇÃO (revogação “total” da lei) 2. DERROGAÇÃO (revogação “parcial” da lei) Ex.: Lei n.º 10.406/2002, que instituiu o Código Civil Brasileiro. O Art. 2.045 deixa claro que o novo Código Civil revoga a Lei n.º 3.071, de 1916 (Código Civil antigo) e a 1.ª parte do Código Comercial, Lei n.º 556, de 1850 = AB- ROGAÇÃO (revogação “total”). Ex.: Lei n.º 13.467/2017, a “Lei da Reforma Trabalhista” que alterou alguns artigos da CLT (Decreto-Lei n.º 5.452, de 1943) = DERROGAÇÃO (revogação “parcial”). Art. 2.º (...) §3.º Salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência. Trata-se do fenômeno da REPRISTINAÇÃO, que restabelece a vigência de uma lei revogada pela revogação da lei que a tinha revogado. No Brasil a repristinação é vedada no “modo automático”, ou seja, só se dará por dispositivo expresso na norma! Art. 3.º Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. O ordenamento jurídico brasileiro assenta-se basicamente nas leis; por isso, não há como dizer que a lei foi descumprida “por não se conhecê-la” = princípio da obrigatoriedade da norma: 1. a norma jurídica dirige-se à todos os cidadãos sem qualquer distinção, tendo eficácia erga omnes (normas de direito objetivo) 2. a norma jurídica é um imperativo, impondo deveres e condutas para os membros da sociedade A estrutura do ordenamento jurídico brasileiro é graduada, ou seja, obedece a uma hierarquia de leis, na qual todas as normas abaixo da Constituição da República Federativa do Brasil devem ser com ela compatíveis, conforme demonstra de forma ilustrativa a pirâmide de HANS KELSEN, jurista e filósofo austríaco: Mas, e quando a lei for omissa (lacuna da lei)? Art. 4.º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. ▪ Analogia: aqui NÃO HÁ NORMA PREVISTA PARA O CASO CONCRETO. Por isso, aplicam-se à questão dispositivos legais relativos à “casos análogos”, ante a ausência de lei que regule a situação levada ao Poder Judiciário. Outro uso da analogia se dá ao comparar o caso em questão com um outro, igual ou parecido, para decidi-lo. ▪ Ex.: o Decreto-Lei n.º 2.681, de 1912, usado antes do CC/02, previa a responsabilidade civil objetiva das estradas de ferro por danos causados a passageiros e a bagagens. ▪ Por não existir lei específica à época, esse decreto era usado para todos os tipos de contrato que envolviam “transporte terrestre” (bondes, ônibus, caminhões, veículos etc.). ▪ Assim foi até o advento do Código Civil de 2002, que finalmente trouxe uma legislação específica sobre contrato de transporte de pessoas e coisas (arts. 730 à 756 CC.), não havendo mais necessidade de se recorrer à analogia da lei das estradas de ferro. ▪ Costume: são ATOS REITERADOS DURANTE CERTO PERÍODO DE TEMPO (repetição tem que ser uniforme, geral, espontânea, contínua e moral), falando sobre um assunto sempre da mesma maneira. ▪ Ex.: a validade do cheque pré-datado, tanto que a jurisprudência há muito reconheceu o dever de indenizar quando ele era depositado antes do prazo (v. Súmula 370 STJ). ▪ Ex.: No Brasil, o jogo do bicho é também um costume “contra legem”, pois apesar de ser prática ilegal, é aceita e ainda muito comum. ▪ Princípios Gerais de Direito: eles estão espalhados pelas normas de Direito Objetivo. ▪ Exs: na CF/88, o art. 37 da CF/88 fala dos princípios da administração pública (LIMPE); seu art. 5.º ainda traz inúmeros princípios gerais constitucionais que norteiam situações na prática (dignidade da pessoa humana; contraditório e ampla defesa; igualdade; direito à vida; direito à liberdade; devido processo legal etc.); o CC/02 traz princípios do Direito Civil (boa-fé objetiva; equidade; socialidade; operabilidade). OBS.: além da analogia, costumes e princípios gerais de direito, na omissão da lei o juiz também lança mão de doutrina e jurisprudência. Art. 6.º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada”. No Direito Civil a regra é a da IRRETROATIVIDADE DA LEI, garantindo segurança jurídica e estabilidade das relações sociais e jurídicas: uma lei nova geralmente não se aplica à fatos ocorridos antes de sua vigência, não podendo retroagir para modificar o passado. Assim, para o Direito Civil, a lei produzirá efeitos apenas para “atos futuros”, e a base é a garantia constitucional do art. 5.º, XXXVI da CF/88: Art. 5.º da CF/88: (...) XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. No entanto, esta regra NÃO É ABSOLUTA no direito, existindo exceções, por ex., para o Direito Penal, quando a lei nova “mais favorável” pode retroagir para beneficiar o réu (art. 5.º, XL da CF/88); ou para o Direito Tributário, onde a lei tributária pode retroagir quando for mais benéfica ao contribuinte (art. 106 CTN). Art. 6.º (...) §1.º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. §2.º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa exercer, como aqueles cujo começo do exercício tenha termo pré-fixo, ou condição pré- estabelecida inalterável, a arbítrio de outrem. §3.º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso. ❖ Ato Jurídico Perfeito: é o ato que já está pronto e acabado, que cumpriu todos os requisitos exigidos pela norma jurídica (art. 104 CC.), que já gerou seus efeitos, tornando-se imutável por leis posteriores. Ainda que uma lei nova surja, deverão ser preservados os negócios jurídicos praticados sob a vigência da lei antiga! ❖ Ex.: contrato de compra e venda de imóvel (art. 481 ss. CC.), feito antes da edição de nova lei que altere suas regras. ❖ Direito Adquirido: é aquele direito (benefício ou situação legal) que já se incorporou ao patrimônio jurídico da pessoa ou à sua personalidade, de modo que nem lei nova ou fato posterior podem alterar a situação jurídica já consolidada! ❖ Ex.: se você já preencheu todos os requisitos para se aposentar (mesmo que ainda não tenha solicitado o benefício), e vem uma “lei nova” alterando as regras da aposentadoria, como seu direito à se aposentar já foi adquirido por você, o pedido de aposentadoria poderá ser feito nas condições vigentes no momento em que se cumpriu esses requisitos (lei antiga). ❖ Coisa Julgada: de extrema importância para a segurança jurídica, é o comando imutável de uma decisão judicial (sentença, acórdão), que não poderá mais ser mudado ou rediscutido, ainda que em grau de recurso. Ou seja, a coisa julgada impede que as partes fiquem eternamente rediscutindo asmesmas questões judiciais. ❖ Esse instituto será estudado mais a fundo nos próximos semestres, na disciplina Direito Processual Civil. Slide 1 Slide 2 Slide 3 Slide 4 Slide 5 Slide 6 Slide 7 Slide 8 Slide 9 Slide 10 Slide 11 Slide 12 Slide 13 Slide 14 Slide 15 Slide 16 Slide 17 Slide 18 Slide 19 Slide 20 Slide 21 Slide 22 Slide 23 Slide 24 Slide 25 Slide 26 Slide 27 Slide 28 Slide 29 Slide 30 Slide 31 Slide 32 Slide 33 Slide 34 Slide 35 Slide 36 Slide 37 Slide 38 Slide 39 Slide 40 Slide 41 Slide 42 Slide 43 Slide 44 Slide 45 Slide 46 Slide 47 Slide 48 Slide 49 Slide 50 Slide 51