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TROTAMUNDOS, R.O concerto europeu e sua crise (1815-1918): do congresso de viena à santa aliança e à quádrupla aliança, 2012.
Com a ascensão e queda do Império Napoleônico, as estruturas do Antigo Regime foram abaladas e ordenamento geopolítico que dali restou não correspondia à ordem tradicional. Desta forma, de setembro de 1814 a junho de 1815, as grandes potências do big four (Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria) reuniram-se no Congresso de Viena buscando reconstruir a velha ordem européia e redesenhar o mapa político europeu.
A escolha da cidade de Viena representava o perfil conservador do congresso, dada a dupla aversão da monarquia danubiana ao liberalismo e ao nacionalismo. Obviamente, apenas os representantes do big four tomaram decisões fundamentais. As principais figuras do encontro foram: pela Áustria, o príncipe Klemens Wenzel Von Metternich; pela Prússia, o chanceler Karl August Von Hardenberg e o diplomata Wilhelm Von Humboldt; pela Inglaterra, o secretário do Foreign Office Robert Stewart, então Visconde de Castlereagh; e pela Rússia, o próprio czar Alexandre I.
Inicialmente, os representantes das quatro potências vitoriosas sobre as forças revolucionárias esperavam excluir a França de participar nas negociações mais sérias, mas o ministro francês Talleyrand, conseguiu incluir-se nesses conselhos desde as primeiras semanas de negociações. Durante os encontros, o representante do rei Luís XVIII tentou limitar o efeito da derrota, apresentando a França como uma vítima da revolução.
O congresso nunca teve uma sessão plenária de fato: as sessões eram informais entre as grandes potências. A maioria das delegações (Espanha, Portugal, Suécia e dos estados alemães) pouco tinha que fazer, pelo que o anfitrião, Francisco II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, oferecia entretenimento para as manter ocupadas. Isto levou a um comentário famoso: le Congrès ne marche pas; il danse (o Congresso não anda; ele dança).
A Rússia era, no momento, o estado mais poderoso em uma Europa arruinada pela guerra. O país não sofrera com a ocupação napoleônica e o poder do czar não chegou a ser posto à prova. Com seu poder político e social, reinando em uma sociedade arcaica em que a burguesia é praticamente inexistente, Alexandre I assumiu a liderança da reação.
No outro extremo, a França representava o país vencido. No entanto, seu representante foi gradativamente desenvolvendo uma maior capacidade de manobra ao incitar desacordos entre as quatro potências, principalmente na questão da Polônia e da Saxônia.
A França, desejosa em impedir o fortalecimento russo e prussiano e aproveitando a oposição que lhes faziam austríacos e ingleses assinou, em janeiro de 1815, um acordo secreto com Áustria e Inglaterra. Este acordo definia ajuda militar mútua se qualquer dos signatários fosse ameaçado por uma ou várias potências, bem como proibia que os membros assinassem tratados de paz com os inimigos.
Outro ponto fundamental nas negociações do Congresso foram os assuntos alemães. Não era interessante para nenhum dos participantes que se promovesse a unificação. Ao contrário, em um esforço de reação, as lideranças consideravam conveniente manter o fracionamento feudal da Alemanha.
No decorrer dos trabalhos, os membros do Congresso foram surpreendidos pela noticia de que Napoleão regressara à França e reassumira o poder (Governo dos Cem Dias). Em Paris, Napoleão encontrou o tratado secreto de janeiro de 1815 e o fez chegar imediatamente a Alexandre I. Embora a traição ficasse comprovada e os ânimos se acirrassem, a idéia de que havia um inimigo comum projetou-se como prioridade. Após a derrota de Napoleão em Waterloo (Bélgica), em 18 de junho de 1815, foi estabelecida a segunda restauração dos Bourbons na França.
Dentre os princípios gerais propostos, impôs-se o de legitimidade, sugerido por Talleyrand e defendido por ingleses e austríacos: cada país deveria voltar a ter os limites de antes de 1789. Essa busca do equilíbrio acabou favorecendo a França.
O mapa da Europa e das colônias mudou bastante. 
Em suma: A Inglaterra garantiu sua supremacia nos mares, graças à anexação de pontos estratégicos no Mediterrâneo, no caminho das Índias e nas Antilhas. A Bélgica, dominada pela França, foi ligada à Holanda para evitar uma ação francesa sobre o porto belga de Antuérpia. A Rússia recebeu parte da Polônia, a Finlândia e a Bessarábia (região da atual Moldávia). À Prússia coube grande parte da região do Reno, na Alemanha. A Áustria recebeu a Lombardia e Veneza, além da supremacia política sobre a Itália.
De maneira geral, as decisões do congresso desagradaram as nações subjugadas ao serem utilizadas como moedas de troca entre as potências que as ocupavam. A Alemanha e a Itália continuaram divididas; a Polônia sob o jugo de povos vizinhos; os cristãos dos Balcãs foram submetidos pelos turcos muçulmanos; os belgas, pelo rei da Holanda. Contra essa Europa dos príncipes, ergueram-se os movimentos liberais e nacionalistas.
Um dos principais objetivos de Metternich e de outros corifeus da reação era fazer do acordo de Viena um baluarte permanente do status quo. Com esse fim em vista, criaram a Quádrupla Aliança da Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia como um instrumento para manter o acordo intacto. Em 1818 a França foi admitida na combinação, convertendo-a destarte numa Quíntupla Aliança que, durante alguns anos, funcionou como uma espécie de Liga das Nações encarregada de fazer cumprir o sistema de Metternich. Também é muitas vezes denominada “Concerto Europeu“, uma vez que os seus membros se comprometiam a cooperar na supressão de quaisquer distúrbios decorrentes de tentativas dos povos para depor os seus governos “legítimos” ou mudar as fronteiras internacionais. No espírito dos liberais e nacionalistas da época, a Quíntupla Aliança era muitas vezes confundida com outra combinação também nascida do acordo de Viena, a chamada Santa Aliança, um produto do idealismo sentimental do czar Alexandre I. O fato é que a Santa Aliança nunca passou de uma série de votos piedosos. A verdadeira arma garantidora do triunfo da reação não foi ela, mas o Concerto Europeu ou Quíntupla Aliança.
O big four passou a sustentar o poder do rei Luís XVIII na França. O comando da ocupação este a cargo do comandante inglês Wellington. Com isso, os ingleses conseguiram assumir uma posição de destaque no equilíbrio europeu. Entretanto, foi Metternich quem exerceu um papel preponderante na Aliança, utilizando-a em proveito da Áustria, reprimindo o nacionalismo alemão e as insurreições na Itália e na Espanha. Por esse motivo, alguns autores como Edward McNall Burns o chamam de Sistema de Metternich.
O Congresso de Viena, quadro de Jean-Baptiste Isabey (1819)
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