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GUIA DE ESTUDO Biologia do Desenvolvimento 5. DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO COMPARADO Profa. Dra. Patricia Cristina Vizzotto | Curso de Ciências Biológicas - UFSCar | Versão 2025 PÁGINA 1 5. DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO COMPARADO - 5.1. Moluscos e Nematódeos Como vimos anteriormente, os metazoários apresentam padrões de desenvolvimento. O cladograma que se segue foi construido com base nesses padrões. O estudo mais específico do desenvolvimento embrionário de alguns desses grupos de metazoários será o foco dos tópicos que se seguem. Moluscos e nematódeos (reaçados no cladograma com um circulo vermelho) serão os primeiros grupos a serem abordados. Moluscos Os moluscos são organismos-modelo na biologia do desenvolvimento. A maioria deles apresenta ovos isolécitos, clivagem holoblástica espiral e especificação predominantemente autônoma. Foi visto que na clivagem holoblástica espiral, os blastômeros sofrem clivagem obliqua ao eixo animal vegetativo, formando um arranjo espiral dos blastômeros. Os blastômeros originados dessa forma, se organizam não uns sobre os outros, mas nas linhas entre as células e por tocarem entre si em mais lugares do que em embriões clivados radialmente, assumem uma adesão mais estável (semelhante a bolhas de sabão adjacentes). Nesse tipo de clivagem, ocorrem menos divisões antes da gastrulação, possibilitando sugerir o destino de cada célula. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 2 Blástulas produzidas por clivagem espiral normalmente possuem blastocele muito pequena ou ausente e são chamadas esterioblástulas. Em moluscos, principalmente gastrópodes (caramujos), as duas primeiras clivagens são quase meridionais, produzindo quatro macrômeros (A, B, C e D), conforme podemos ver na figura que se segue, numa visão do polo animal (A) e numa visão lateral (B). Depois, a cada clivagem sucessiva, cada um dos macrômeros forma um micrômero no polo animal e o quarteto de micrômeros é deslocado para a direita ou esquerda de seu macrômero irmão. Assim, sucessivamente, as clivagens vão ocorrendo. Dessa maneira foi possível investigar as linhagens celulares nesses animais. Veja a clivagem espiral em moluscos na próxima figura. Na micrografia confocal de fluorescência (A), veja os microtúbulos em tons de vermelho, o RNA em verde e o DNA em amarelo. Veja a progressão das clivagens do caramujo Llyanassa (B, C e D). O blastômero D é o maior. A clivagem é dextra, ou seja, os micrômeros vão se formando e se posicionando acima uns dos outros através de um deslocamento para a direita de seus macrômeros. No desenvolvimento normal, o primeiro quarteto de blastômeros forma estruturas da cabeça e o segundo quarteto forma o estatocisto (um órgão de equilíbrio) e a concha. Esses destinos são especificados pela compartimentalização do citoplasma e por indução. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 3 Observe atentamente a figura abaixo. A origem do enrolamento do caracol pode ser reconhecida pela orientação do fuso mitótico logo no início das clivagens. Foi observado que em caramujos Lymnaea, a direção da abertura na espiral da concha é controlada por fatores citoplasmáticos do ovócito através de um único par de genes. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 4 Acasalamentos mostraram que existe um alelo D “dextrogiro” (direita), selvagem, que é dominante em relação ao alelo d “sinistrogiro” (esquerda). No entanto, a direção da clivagem não é determinada pelo genótipo do embrião, mas pelo genótipo da mãe do caramujo, ou seja, ocorre regulação de efeito materno na clivagem. Observe o quadro a seguir. Um indivíduo Dd irá se espiralar tanto para a direita quanto para a esquerda dependendo do genoma de sua mãe. Veja que caramujo fêmea do tipo DD pode produzir somente herdeiros de espiral dextrogiro (direita) e caramujo fêmea dd pode produzir somente herdeiros de espiral sinistra (esquerda), mesmo quando o genótipo dos herdeiros é Dd. Parece que essa condição ocorre porque uma proteína chamada Nodal ativa genes no lado direito dos embriões com enrolamento destro e no lado esquerdo de embriões com enrolamento sinistro, observe a figura a seguir (B). Assim, ocorrem alterações no citoesqueleto logo nas primeiras clivagens e é desencadeado o enrolamento para a direita ou esquerda (A). Em caramujos, essa condição é importante tanto para o indivíduo quanto para a população. Observe em C, na figura, que PO é a localização do poro de respiração e GO das gônadas. Nesses organismos, esquerdos cruzam melhor com esquerdos e direitos com direitos devido ao posicionamento da genitália que se encaixa melhor fisicamente. Além disso, a mandíbula de certas serpentes evoluíram para comer mais facilmente caramujos com enrolamento para a direita. Não sabemos o quanto essa adaptação afetou a evolução dos caramujos. Fonte: Gilbert, 2003 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 5 O mapa detalhado do destino das células de molusco tem avançado nos últimos anos com o uso de corantes fluorescentes que são observados durante a embriogênese. Observe, na figura abaixo, embriões de 2, 3, 4 dias e na fase larval, através de diversos ângulos de observação. Através desses estudos, foi construído o mapa de destino generalizado do embrião de caramujo (A). Os macrômeros produzem a maior parte do endoderma (amarelo), enquanto os micrômeros apicais geram o ectoderma (azul). Séries de blastômeros específicos dão origem ao ectomesoderma e endomesoderma (tons de vermelho). Algumas técnicas mais atuais permitem, inclusive, acompanhar a progressão da formação e acúmulo de RNAms específicos em alguns blastômeros. Nas imagens que se seguem, o RNAm (preto), se localiza especificamente em alguns macrômeros. O DNA (azul), mostra a multiplicação das células. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 6 Em algumas espécies de moluscos, de especificação celular autônoma, determinantes morfogenéticos estão localizados em regiões específicas do ovócito. Fatores de transcrição são compartimentalizados em blastômeros iniciais, formando muitas vezes uma estrutura única chamada lóbulo polar. Veja, na figura abaixo, que o lóbulo polar é uma estrutura anucleada formada pelo extravasamento de citoplasma formando um bulbo antes da primeira clivagem. No molusco bivalve da figura, após algumas clivagens, o conjunto de blastômeros D recebeu o conteúdo do lóbulo polar. Na próxima figura, é possível acompanhar a formação inicial em outra espécie de molusco, onde, através de várias clivagens iniciais, o blastômero D recebe a “bolha de citoplasma”, que possui importantes determinantes morfogenéticos para o desenvolvimento normal, ou seja, para um adequado ritmo e orientação das clivagens e especificação de eixos corporais. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 7 Em moluscos bivalvos Unio (um tipo de mexilhão), o micrômero 2d recebe a maior quantidade de citoplasma e produz a maioria das estruturas larvais e uma glândula produtora de uma grande concha. Suas larvas (gloquídio), que são sedentárias mas vivem em uma ambiente de correnteza, evoluíram através de uma estratégia: possuem pelos sensitivos que acionam válvulas para que a concha se feche quando tocadas pelas barbatanas ou brânquias dos peixes, e assim, “pegam uma carona” no peixe e podem se dispersar a favor da correnteza. Em algumas espécies, inclusive, é formada uma bolsa de ninhada e as ondulações do manto mimetizam a forma e o nado de um peixe. Veja a figura. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert, 2003 PÁGINA 8 Podemos concluir que a alteração do padrão de clivagem pode levar a adaptação. Portanto, uma nova estrutura pode evoluir a partir de mudanças hereditáriasa progressão da epibolia das células do blastoderma sobre o vitelo. As células profundas do blastoderma movem-se para fora, intercalando com as células da superfície do embrião. Esse movimento causa um achatamento da “cúpula” de células do blastoderma. Depois que o blastoderma cobriu cerca de metade da célula vitelina, um espessamento chamado anel germinativo progride ao longo da margem das células profundas. Observe em B, na figura, em verde. O anel germinativo é composto por uma camada interna, o hipoblasto (que se tornará endoderma e mesoderma) e uma camada superficial, o epiblasto, que se tornará (ectoderma). Assim, conforme o blastoderma faz epibolia ao redor do vitelo, ocorre a internalização do hipoblasto. Forma-se, então, o escudo embrionário, por células do epiblasto e do hipoblasto que se intercalam na região do futuro lado dorsal do embrião. O escudo embrionário nos peixes é o equivalente ao lábio dorsal do blastóporo nos anfíbios, uma vez que é o organizador do eixo embrionário. Através desses movimentos é estabelecido o eixo dorsoventral do embrião. O escudo embrionário forma a placa pré-cordal e a notocorda, que de maneira semelhante aos anfíbios, ou seja, através dos mesmos fatores de transcrição, induzem outros tecidos. Acompanhe esses movimentos observando a próxima figura. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 68 Na sequência de desenvolvimento do peixe-zebra, vemos que, por mecanismos diferentes, o ovo de anfíbio e de peixe atingem o mesmo estado. Eles se tornam multicelulares, sofrem gastrulação e posicionam suas camadas germinativas de modo que ectoderma fique no exterior, endoderma no interior e mesoderma entre eles e assim, tem condições de iniciar a formação do tubo neural, vertebras e demais órgãos do embrião. Tanto o escudo embrionário de peixe como o lábio dorsal do blastóporo de anfíbio secretam antagonistas de BMPs. Como o organizador de anfíbio, o escudo recebe suas capacidades sendo induzido por β-catenina e por células que expressam fatores parácrinos relacionados com Nodal. Na figura que se segue podemos comparar o ovo de peixe, menor, e de anfíbio, maior. O grupo dos peixes é muito diverso. Após a organogênese, muitos passam por estágios larvais, onde inicialmente se nutrem de vitelo e assim que a boca se forma, passam a se alimentar no ambiente externo, até originar a forma juvenil. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GILBERT, S.; BARRESI, M. J. F. - Biologia do Desenvolvimento. 11ª. Ed., Porto Alegre: Artmed, 2019. 916p. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019no padrão de desenvolvimento. Com relação a gastrulação e organogênese, de modo geral, nos moluscos, a esterioblástula é relativamente pequena e o destino de suas células é determinado pela série D de macrômeros. Acompanhe o desenvolvimento da gastrulação através das imagens abaixo. A gastrulação é realizada por uma combinação de processos incluindo a invaginação do endoderma para formar o intestino primitivo e epibolia dos micrômeros do capuz animal, que se multiplicam e crescem sobre os macrômeros do polo vegetal. Ao final, os micrômeros cobrem por inteiro o embrião, deixando uma pequena fenda no blastóporo, no polo vegetal. As células que rodeiam o blastóporo formarão a boca. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 9 Então, começam a se desenvolver os órgãos do embrião (organogênese) até formar a larva. Geralmente as larvas são livres, mas terminam seu desenvolvimento sobre um substrato, formando a concha e transformando-se em jovens que posteriormente poderão se reproduzir. Nematódeos O nematódeo mais estudado do ponto de vista da biologia do desenvolvimento é o Caenorhabditis elegans (C. elegans). É um organismo-modelo moderno que une biologia do desenvolvimento e genética molecular. É um nematódeo de solo que tem um pequeno número de células com linhagens invariantes, ou seja, cada linhagem dá origem ao mesmo número e tipos de células. Eles tem também a vantagem de possuir um pequeno genoma. Isso permitiu que fosse possível identificar cada gene envolvido no seu desenvolvimento e rastrear a linhagem de cada uma de suas células, conforme indicado na figura a seguir. Também é facilmente cruzado e mantido, tem um ciclo de vida curto, tem uma cutícula transparente que permite visualizar os movimentos celulares e é fácil de ser manipulado geneticamente. A maioria dos indivíduos C. elegans é hermafrodita, produzindo tanto espermatozoides quanto óvulos e a fertilização ocorre em um único indivíduo adulto. Fonte: Gilbert, 2003 PÁGINA 10 Veja na figura que se segue, principalmente no detalhe (B), que os óvulos vão amadurecendo conforme passam pelo oviduto e tornam-se fertilizados quando rolam através da espermateca, que contém espermatozoides maduros. A partir daí o ovo fertilizado inicia as primeiras divisões e é expelido pela vulva. C. elegans apresenta ovos isolécitos e clivagem holoblástica rotacional. Apresenta tanto o modo autônomo quanto condicional de especificação celular. Observe atentamente a figura que se segue. Veja que o eixo anteroposterior é determinado antes da primeira clivagem (A). Parece que essa determinação ocorre pela posição de entrada do espermatozoide, que desencadeia a movimentação do citoplasma (pontos na figura, A). O eixo dorsoventral é determinado durante a segunda divisão mitótica e o eixo esquerda-direita não é visto antes do estágio de 12 células. As primeiras divisões são assimétricas, uma ocorre equatorialmente e a outra meridionalmente, conforme é possível observar na figura (principalmente em G). Em E, veja que a primeira clivagem produz uma célula fundadora anterior (AB) e uma célula-tronco posterior (P1). Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 11 Observe a próxima figura. AB produz descendentes diferenciados enquanto P1 produz outra célula fundadora (EMS) e uma célula-tronco (P2). A partir daí, esse padrão se repete e a série P finalmente formará as células germinativas. A determinação da linhagem P1 parece ser autônoma, sendo os destinos celulares determinados por fatores citoplasmáticos. Veja a localização de determinantes citoplasmáticos de células germinativas (amarelo). Já as células derivadas de AB precisam de sinais de P1 para se desenvolver normalmente. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Wolpert, 2000 PÁGINA 12 Nas imagens que se seguem, observe a segregação dos grânulos citoplasmáticos na região posterior do animal (em verde, na sequência de cima) e a divisão celular (sequência de imagens de baixo, com a marcação dos núcleos em azul). Ao final, os grânulos P encontram-se somente na célula que dá origem aos gametas. Observe a próxima figura. A gastrulação de C. elegans se inicia no estágio de 26 células e progride (A). Praticamente ao final da gastrulação (C), já se pode ver as posições das células. Uma característica interessante da gastrulação de C. elegans é a fusão celular, formando células sinciciais que formarão a hipoderme, vulva, útero e faringe (região pontilhada, em B). Fonte: Gilbert, 2003 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 13 A próxima figura mostra a sequencia de desenvolvimento do nematódeo C. Elegans, o rastreamento de suas células, suas linhagens e estruturas que originarão. Seu desenvolvimento é muito rápido e resulta num organismo com 959 células somáticas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GILBERT, S. F. - Biologia do Desenvolvimento. Funpec Editora, Ribeirão Preto, 5ª.ed. 2003. 994p. GILBERT, S.; BARRESI, M. J. F. - Biologia do Desenvolvimento. 11ª. Ed., Porto Alegre: Artmed, 2019. 916p. WOLPERT, L. - Princípios de Biologia do Desenvolvimento. Artes Médicas Sul, Porto Alegre, 2000. 484p. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 14 - 5.2. Artrópodes A mosca-da-fruta, Drosophila melanogaster, é considerada o organismo-modelo pluricelular mais estudado na biologia do desenvolvimento e representa os artrópodes, especialmente insetos. Observe a posição dos artrópodes no cladograma (reaçada com um circulo vermelho). As razões para ser um organismo tão estudado se deve tanto às facilidades relacionadas às próprias moscas, como condições de vida, resistência, facilidade de manejo, entre outros, e também em relação às pessoas que as estudaram, pois trabalharam muito em cooperação, de modo que as informações aumentaram rapidamente. Contudo, os embriões se mostraram complexos e após as descobertas da biologia molecular, seu estudo aprimorou-se, fazendo a ligação entre a embriologia e a biologia molecular. Drosophila apresenta ovos centrolécitos, ou seja, a massa de vitelo se localiza no centro do ovo e, consequentemente, apresenta clivagem meroblástica superficial. A clivagem citoplasmática só ocorre depois de muitas divisões nucleares no centro do ovo, sem que ocorra a divisão do citoplasma. Depois, os núcleos migram para a periferia do ovo onde não há vitelo e são cercados pelo citoplasma. Em seguida é formado o blastoderma sincicial. Observe a sequencia de clivagem e formação do blastoderma em embriões de Drosophila na figura a seguir. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 15 Nas micrografias, a cromatina dos núcleos está marcada, mostrando as divisões nucleares iniciais até o estabelecimento do blastoderma. A especificação das células embrionárias iniciais ocorrem por determinantes citoplasmáticos armazenados no ovócito. As membranas celulares não se formam antes do 13º. ciclo de divisão. Enquanto isso, os núcleos compartilham o citoplasma comum e esse material pode se difundir por todo o embrião. Os núcleos de embriões de Drosophila no estágio sincicial são totipotentes e podem dar origem a qualquer tipo celular. Os determinantes citoplasmáticos influenciam a diferenciação celular. Na próxima figura vemos as divisões nucleares em embriões de Drosophila, em menor e maior aumento (A e B, respectivamente). O DNA foi marcado em laranja. Em C, veja os núcleos em interfase apresentados em verde e filamentos de actina em vermelho. Em D, observe os núcleos em anáfase dividindo-se na periferia do ovo. Cada núcleo rodeado por sua ilha de citoplasma é chamado enérgide. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 16 Com a formação do blastoderma ocorre a celuralização. Na próxima figura observe a progressão do processo de formação do blastoderma (A), onde os microtúbulosestão corados em verde, os microfilamentos em azul e os núcleos em vermelho. Em C é possivel acompanhar a representação desse processo, através das modificações no citoesqueleto e da ingressão das membranas celulares entre os núcleos em cerca de 1 hora. Em B, o embrião foi tratado com uma substância que impediu a formação dos microtúbulos e, consequentemente, não ocorreu a formação do blastoderma. O primeiro passo na organização do desenvolvimento de um embrião é a formação dos eixos corpóreos: eixos anteroposterior, direitoesquerdo e dorsoventral. Em Drosophila, a especificação dos tipos celulares ao longo do eixo anteroposterior é realizada por meio de interações de componentes dentro dessa única célula multinucleada, antes do estabelecimento do blastoderma. A medida que o eixo anteroposterior se estabelece, os outros eixos também são estabelecidos. O citoplasma do ovo de Drosophila não é uniforme. Ele contém gradientes de morfógenos que ditam o destino celular ao longo do eixo anteroposterior do ovo. Durante o estabelecimento do blastoderma sincicial, os núcleos na parte anterior são expostos a fatores determinantes que não estão presentes na parte posterior e vice-versa. É a interação entre os núcleos e diferentes quantidades desses fatores determinantes, também chamados de morfógenos, que especificam os destinos celulares. As diferenças no citoplasma devem-se a gradientes de RNAms que são secretados no interior do óvulo pelas células foliculares, quando ainda estão na câmara do ovo materna, antes da fertilização. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 17 Observe, na figura abaixo, a especificação do eixo anteroposterior durante a ovogênese. Em A, o ovócito (amarelo) na câmara do ovo (cinza). Note, em B, C e D que dois centros organizadores iniciam a síntese proteica, movimentos citoplasmáticos e, consequentemente, o controle do desenvolvimento através de um centro formador da região anterior e outro da região posterior, culminando, em E e F, em diferenças na constituição do citoplasma do ovócito nessas regiões. O polo posterior recebe um citoplasma característico, chamado plasma polar, que contém os determinantes para produzir as células germinativas. Em Drosophila melanogaster, na hora da fertilização, o espermatozoide entra no óvulo que já está ativo. Ele foi ativado minutos antes da fertilização. Foi formado um local específico, chamado micrópilo, no que será a futura região dorsal anterior do embrião, por onde apenas um espermatozoide vai conseguir passar. Portanto, quando o espermatozoide fecunda o óvulo, os eixos corporais já foram estabelecidos. Após a fertilização, os núcleos do embrião permanecem inativos até a celuralização do blastoderma, ou seja, até aproximadamente o 13º. ciclo. Enquanto isso, o desenvolvimento inicial é dirigido por RNAms maternos, portanto, através de mensagens maternas. Os genes que dão origem a esses RNAms são chamados genes de efeito materno. Em seguida ocorre a transição materno-zigótica, em que os RNAms maternos são degradados e o controle entregue ao genoma do embrião. O plano geral do corpo da Drosophila é o mesmo no embrião, na larva e no adulto, cada qual tendo um terminal da cabeça (anterior) e um da cauda (posterior) Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 18 distintos, entre os quais estão unidades repetitivas segmentares conforme podemos ver na figura da larva e do animal adulto, a seguir. Como vimos, os mecanismos genéticos responsáveis pela padronização do corpo de Drosophila começam a agir nos óvulos, onde são formados centros organizadores, ou sinalizadores. Observe a figura abaixo. O mRNA envolvido na especificação da região anterior do embrião, que finalmente formará a região da cabeça, é transcrito de um gene chamado bicoid (A). Após a fertilização do ovo (B), o mRNA bicoid é traduzido em uma proteína morfógena (um fator de transcrição) chamada Bicoid. Essa proteina ativa (ou reprime) certos outros genes. Os produtos desses genes ativam outros, em cascata, causando a produção de um gradiente de morfógenos anteroposterior. A especificação celular ocorre através de gradientes de morfógenos, determinados até certo limiar específico. Neste caso, elevadas concentrações de Bicoid produzirão estruturas anteriores, da cabeça; um pouco menos Bicoid indicará às células para formar a mandíbula; moderada concentração, tórax; e ausência de Bicoid, abdome. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 19 Portanto, a principal proteína especificada a partir de RNAm materno que regula a produção de estruturas anteriores é Bicoid, enquanto Nanos, outra proteína regula a formação da parte posterior do embrião. Observe a primeira parte do esquema abaixo. Após a fertilização, na segunda parte do esquema, essas duas proteínas formarão gradientes ao longo do corpo, enquanto os núcleos se dividem. Na terceira parte do esquema, veja que a proporção dessas proteínas fornecerão informações aos núcleos e ativarão a transcrição de genes que especificam as identidades segmentares da larva e da mosca adulta. Observe a próxima figura. Note que também outros dois RNAms maternos, hunchback e caudal, inicialmente distribuídos igualmente pelo citoplasma (A), regulam a formação das regiões anteriores e posteriores respectivamente, através de inibição traducional em gradientes. Em B, vemos que Bicoid (em vermelho) impede a tradução de caudal (em preto) e Nanos (em azul) reprime hunchback (em verde). As células responderão apenas a gradientes de concentração desses morfógenos acima de um determinado nível. O resultado é a interação dessas proteínas na criação de gradientes de proteínas maternas que irão ativar os genes zigóticos, ativando assim uma rede de sinalizações. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 20 Assim como bicoid, muitos outros genes maternos controlam a formação inicial do embrião de Drosophila. Na próxima figura veja um embrião selvagem e um mutante bicoid, que não produz o morfógeno e desenvolveu-se sem cabeça (D). Da mesma forma, aqueles que não produzirem Nanos não terão a parte posterior. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 21 Muitos estudos de mutantes foram feitos e outros genes de efeito materno que estabelecem o eixo anteroposterior do embrião de Drosophila foram identificados, conforme se pode ver na tabela abaixo. Além dos morfógenos anterior e posterior, existe um terceiro grupo de genes, cujas proteínas geram as extremidades não segmentadas do eixo anteroposterior, sendo ácron na cabeça e telson na cauda. Assim, quando ocorre a celuralização, o cenário está montado para a ativação dos genes zigóticos. Os genes do desenvolvimento dos vertebrados e de muitos outros animais são semelhantes àqueles da Drosophila. Observe na próxima figura a sequencia de expressão dos genes zigóticos na Drosophila. Os primeiros genes zigóticos a se expressarem são: - Genes gap, primeiros a serem ativados e dividem o embrião em regiões, como cabeça, tórax e abdome. - Genes pair-rule, dividem essas regiões em segmentos. - Genes de polaridade segmentar, organizam as estruturas, da posição anterior para a posterior, no interior de cada segmento. - Genes homeóticos, regulam a expressão de outros genes específicos, assegurando que eles sejam ativos apenas nos segmentos apropriados. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 22 Os genes zigóticos (genes gap) regulados por fatores maternos são expressos em certos domínios largos, parcialmente sobrepostos. As diferentes concentrações das proteínas dos genes gap causam a transcrição dos genes pair-rule que dividem o embrião em unidades periódicas fornecendo um padrão de listas verticais perpendiculares ao eixo anteroposterior. Observe na figura os padrões de expressão do RNA mensageirode genes pair-rule no blastodema de Drosophila. Os RNAms e produtos protéicos de pair-rule dividem o embrião em subunidades de largura segmentar, estabelecendo a periodicidade do embrião, num padrão de listras. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 23 Parece ser nesse momento que ocorre a transição da especificação (tipo vago de comprometimento) para a diferenciação (comprometimento irreversível) celular. O embrião sincicial dá lugar a interações entre as células. Essa transição é mediada pelos genes de segmentação (gap, pair-rule e polaridade de segmento). São formados os segmentos e parassegmentos do corpo de Drosophila. Observe a próxima figura. As linhas claras são os segmentos e as linhas em tons azulados, os parasegmentos, que conectam os segmentos. Em A, veja o embrião normal e em B, o mutante para um gene de segmentação. Parassegmentos, no embrião, são regiões de comunicação entre as células de um segmento e outro. Observando a próxima figura, veja os segmentos e parasegmentos do embrião de Drosophila, sendo que Ma (mandibular), Mx (maxilar) e Lb (labial) são segmentos da cabeça; T1 a T3, segmentos toráxicos; e A1 a A8, segmentos abdominais. Os parasegmentos são numerados e consistem no compartilhamento da região posterior de um segmento com a região anterior do segmento subsequente. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 24 Os genes de polaridade segmentar (anteriormente citados) codificam proteínas (como Hedgehog e Wingless) constituintes da via de sinalização. Considere a via de sinalização abaixo. Apenas uma fila de células, em cada parassegmento, pode expressar cada uma dessas proteínas (Hedgehog e Wingless). Esse fato gera compartimentalização dos segmentos do corpo. A manutenção desses padrões de compartimentalização é regulada por interação recíproca entre células vizinhas. Depois das fronteiras segmentares serem estabelecidas, proteínas dos genes gap, pair-rule e de polaridade segmentar interagem para regular outra classe de genes, os genes homeóticos chamados também de genes Hox. Portanto, os segmentos são idênticos no início do desenvolvimento, mas, depois, a ativação de diferentes combinações gênicas induz cada um desses segmentos a formar estruturas diferentes. Os genes homeóticos (genes Hox/homeobox) são genes mestre que codificam fatores de transcrição que especificam a identidade de cada segmento. Regulam a expressão de outros genes específicos, assegurando que eles sejam ativos apenas nos segmentos apropriados. A homeobox é uma sequência de DNA conservada, com cerca de 180 pares de bases, que especificam o eixo anteroposterior do corpo em Drosophila e em muitas outras espécies. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 25 Essa sequência codifica o homeodomínio de 60 aminoácidos que farão parte de proteínas (fatores de transcrição) que reconhecem regiões específicas do DNA de modo a regular a expressão gênica. Os genes são organizados na mesma ordem (no DNA) de sua expressão transcricional no corpo (Princípio da Colinearidade). Observe a figura abaixo. Veja na figura acima, que existem duas regiões do cromossomo 3 da Drosophila que contêm os genes homeóticos: o complexo Antennapedia e o complexo Bithorax (A). A região do cromossomo contendo tanto o complexo Antennapedia como o complexo Bithorax é frequentemente referida como o complexo homeótico (Hom- C). Os genes do complexo Antennapedia especificam identidades de cabeça e tórax, e os genes do complexo Bithorax são responsáveis pelas identidades características do terceiro segmento toraxico e de segmentos abdominais. Mutações nos genes homeóticos são capazes de transformar as características de um segmento em outro. Observe a próxima figura. Em A, asas da Drosophila selvagem que surgem do segundo segmento toráxico, e em B, a mosca com quatro asas resultante de mutações em genes homeóticos que transformaram o terceiro segmento toráxico em outro segundo segmento. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 26 Como são responsáveis pela especificação das partes do corpo, mutações nos genes homeóticos levam a fenótipos bizarros. A figura abaixo realça a cabeça da Drosophila selvagem (A) e cabeça de uma mosca mutante com pernas no lugar das antenas (B). Os genes homeóticos são muito conservados. Existe homologia entre os genes homeóticos da mosca-da-fruta e de muitas outras espécies. Em mamíferos, por exemplo, esses genes controlam a subdivisão do embrião durante o desenvolvimento ao longo do eixo anteroposterior. Enquanto na mosca eles estão presentes num único cromossomo, no camundongo, são mantidas cópias desses genes em pelo menos quatro cromossomos. Observe a próxima figura. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 27 As áreas em cores representam as homologias e as partes do corpo nas quais se expressam. As áreas em branco representam homologias difíceis de identificar. A segmentação do corpo ocorre em diversos filos. Animais que possuem o corpo segmentado são chamados de metamerizados. Os genes homeóticos controlam a especialização dos segmentos no início do desenvolvimento nesses filos. O cladograma abaixo representa a história evolutiva dos genes homeóticos, que envolve seu surgimento, conservação entre os grupos, modificações, duplicações e o aumento da sua complexidade. Fonte: Hickman e cols, 2018 Fonte: Ridley, 2006 PÁGINA 28 Em Drosophila melanogaster, o estabelecimento do eixo dorsoventral está relacionado a expressão do gene dorsal. A proteína Dorsal é um fator de transcrição que ativa genes que dão origem ao ventre. Veja o mapa de destino das células da mosca, na figura abaixo. Essa proteína sinaliza o primeiro evento morfogenético da gastrulação de Drosophila. A primeira imagem (A) é da mosca selvagem e as outras duas de um mutante para Dorsal (indicada em vermelho). As células contendo a quantidade mais elevada de Dorsal nos seus núcleos invaginam para dentro do corpo e formam o mesoderma (em vermelho). Assim, a parte mais ventral forma mesoderma e as partes mais dorsais formam ectoderma (em azul). A figura abaixo apresenta a sequencia da invaginação de células mesodérmicas observada após a marcação dos núcleos que formarão mesoderme. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 29 A próxima figura representa a sequencia da gastrulação da mosca da fruta. As imagens indicam o sulco ventral se formando (A), a invaginação do intestino e formação do sulco cefálico (B), formação das células polares que darão origem às células germinativas (C) e a formação dos segmentos da larva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GILBERT, S.; BARRESI, M. J. F. - Biologia do Desenvolvimento. 11ª. Ed., Porto Alegre: Artmed, 2019. 916p. HICKMAN, C.P.Jr.; ROBERTS, L.S.; KEEN, S.L.; EISENHOUR, D.J.; LARSON, A.; l’ANSON H. – Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 16ª. Ed. 2016. 937p. RIDLEY, M. – Evolução. Artmed, Porto Alegre, 3ª.ed. 2006. 752p. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 30 - 5.3. Equinodermos e tunicados Acompanhe o cladograma abaixo. Já foi estudado o desenvolvimento de alguns grupos classificados como protostômios. Nesse tópico se inicia o estudo dos deuterostômios, com enfase principal no desenvolvimento dos equinodermos e tunicados, que são invertebrados deuterostômios. Equinodermos Observe o cladograma a seguir. Veja que nos protostômios, com o desenvolvimento do embrião, o blastóporo se torna a boca. Já nos deuterostômios, o blastóporo se tornará o anus. O ouriço-do-mar e a bolacha-do-mar, por exemplo, pertencem ao grupo dos equinodermos. Note também que os cefalocordados, representados pelo anfioxo,os urocordados, representados pelos tunicados, e os vertebrados compõem o grupo dos cordados. Todos esses grupos seguem o padrão de desenvolvimento deuterostômio. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 31 Os ouriços-do-mar têm sido organismos excepcionalmente importantes para a biologia do desenvolvimento. Várias descobertas importantes foram feitas através do estudo desses organismos, como, por exemplo, a demonstração do desenvolvimento condicional, onde ao se separar os blastômeros do embrião, cada um deles formou um indivíduo completo, conforme foi visto anteriormente. Mas hoje se sabe que os destinos das células de ouriço-do-mar são determinadas tanto pelo modo de especificação autônoma quanto condicional. Veja na figura abaixo, do ciclo de vida completo do ouriço, as diversas fases do seu desenvolvimento indireto, começando com o óvulo fertilizado, as clivagens, a formação da blástula, da gástrula, a organogênese, o estágio larval, a metamorfose e a formação do organismo adulto. Os equinodermos são organismos marinhos que apresentam ovos isolécitos e clivagem holoblástica radial. Como os ovos têm pouco vitelo, os blastômeros se formam por clivagem completa (os sulcos de clivagem se estendem por todo o ovo) e as células inicialmente se organizam radialmente em torno do eixo animal vegetativo. Os blastômeros formados têm tamanhos praticamente iguais. Veja na figura que se segue, que no ouriço-do-mar, a primeira e segunda clivagem são meridionais e perpendiculares entre si. A terceira é equatorial, perpendicular aos dois primeiros planos de clivagem. Fonte: Hickman e cols, 2018 PÁGINA 32 A quarta, no entanto, é diferente. As quatro células da camada animal dividem-se meridionalmente e simetricamente em oito blastômeros com o mesmo volume, chamados mesômeros e a camada vegetal sofre clivagem equatorial assimétrica produzindo quatro células maiores (macrômeros) e quatro menores (micrômeros). À medida que a clivagem progride, o embrião de 16 células se cliva e os mesômeros dividem-se formando duas camadas de células an1 e an2, uma sobre a outra. Os macrômeros se dividem formando uma camada de oito células abaixo de an2 (veg1 e veg2). Os micrômeros também se dividem, mas, de forma desigual, formando quatro micrômeros maiores e quatro menores. Os menores se dividem mais uma vez e depois não se dividem mais até o estágio larval. Assim, as clivagens vão ocorrendo até que o embrião de 120 células forma a blástula, ou seja, as células formam uma esfera oca envolvendo a cavidade central, chamada blastocele. Nas micrografias de embriões de ouriço-do-mar que se seguem, veja as clivagens em embriões até a formação da blástula. Na blástula, note a futura placa vegetal como um espessamento de células. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 33 No estágio de blástula, cada célula fica em contato com um fluido rico em proteínas no interior da blastocele e com a camada hialina no exterior. Existem junções que unem os blastômeros e conforme as células continuam a se dividir, a blástula se expande. Isso ocorre devido a adesão entre as células e à camada hialina, bem como ao influxo de água que aumenta a blastocele. Veja na figura abaixo, a blástula precoce (A), a blástula tardia (B) e as junções entre as células da blastula na ponta da seta (C). As células tornam-se especificadas e cada célula se torna ciliada externamente (veja as imagens a seguir). Forma-se a placa vegetal e é secretada uma enzima de eclosão no hemisfério animal, que rompe o envelope de fertilização. A blástula ciliada eclode. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert, 2003 PÁGINA 34 O mapa de destino das células do ouriço-do-mar (esquema abaixo) foi desenhado seguindo o destino de cada célula individual, injetadas com corantes fluorescentes. Através dele veja que an1 e an2 (azul), formarão ectoderma. Veg1 e veg2 formarão mesênquima secundário, que originará o sistema digestório. Os grandes micrômeros desempenham um papel importante na especificação celular. Inicialmente esses micrômeros são especificados de forma autônoma, pois herdam determinantes maternos depositados no polo vegetal do ovo. São determinados a formar células mesenquimais esqueletogênicas. Migram para determinadas posições e são capazes de produzir fatores parácrinos e justácrinos que especificam condicionalmente o destino de seus vizinhos. Os pequenos micrômeros formarão as células germinativas. Fonte: Gilbert, 2003 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 35 A gastrulação começa logo após a eclosão da blástula, através da ingressão do mesênquima esqueletogênico. Os grandes micrômeros passam por uma transição epitélio-mesenquimal. Nesse processo, os grandes micromeros mudam de forma, perdem sua adesão e separam-se do epitélio para entrar na blastocele como células mesenquimais esqueletogênicas, conforme se vê na figura abaixo (A). Observe também a evolução do processo (B, C e D), a migração das células esqueletogenicas (verde), o rompimento da camada de laminina (rosa) e os núcleos (azul). Em E e F, observe a micrografia eletrônica de varredura em menor e maior aumento. Na próxima imagem, em A, veja o posicionamento das células mesenquimais esqueletogênicas (verde). Elas irão formar o esqueleto de carbonato de cálcio do animal. As células esqueletogênicas parecem se acumular em locais com grande concentração de β-catenina (vermelho). Essas células começam a emitir filopódios, que são estruturas longas e finas que se conectam e desconectam da parede da gástrula. Observe o corte transversal e longitudinal do ouriço (C), onde se vê a marcação de genes (azul) que se expressam em locais específicos, em receptores onde os micrômeros se reúnem. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 36 Finalmente as células mesenquimais se organizam e se fundem em cabos sinciciais que formam eixos de espículas de carbonato de cálcio, como hastes esqueletogênicas da larva, como se vê na figura abaixo, em menor e maior aumento. Ocorre também a invaginação do arquêntero. Observe a próxima figura. Após as células mesenquimais esqueletogênicas (vermelho) deixarem a região vegetal do embrião, células da placa vegetal já estão especificadas em mesênquima não esqueletogênico (rosa). Essa parte da placa vegetal forma uma invaginação para dentro da blastocele. A região invaginada chama-se arquêntero e sua abertura no polo vegetal é chamada blastóporo, que marcará a posição do ânus. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 37 O mesênquima não esqueletogênico formará as células de pigmento, a musculatura ao redor do intestino e contribuirá para a formação das bolsas celômicas. Células endodérmicas derivadas dos macrômeros, adjacentes ao mesênquima não esqueletogênico, tornam-se o intestino anterior (amarelo). A próxima camada endodérmica forma o intestino médio e a última o intestino posterior. Durante a extensão final do arquêntero, as células proliferam, deslizam umas sobre as outras e se reorganizam estreitando e alongando o tecido num processo chamado extensão convergente. Observe na figura abaixo a gastrulação inicial e tardia. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 38 São estendidos filopódios que se ligam a superfície interna da gástrula e puxam anteriormente o arquêntero. Ao final, o arquêntero encontra a parede interna da gástrula e se forma a boca. Na figura que se segue, podemos ver a sequencia completa da gastrulação do ouriço- do-mar com o decorrer do tempo até a formação da larva pluteus, em cerca de 24 horas após a fecundação. Note, em especial, o inicio da gastrulação, em 9 hs; a formação do blastóporo, em 11h e meia; o alongamentodo arquêntero; e finalmente a formação da larva, com suas hastes esqueléticas, boca e ânus. Observe também que apesar da simetria pentarradial dos equinodermos adultos, a larva pluteus possui simetria bilateral, assim como todos os cordados. A larva tem vida livre, mas precisa encontrar um substrato para se fixar. Quase todo o corpo do ouriço-do-mar adulto vem do saco celômico esquerdo do arquêntero da larva pluteus. Ocorre, então, a metamorfose. A larva pluteus se instala no fundo do mar e uma estrutura chamada rudimento imaginal, que tem simetria pentarradial, emerge da larva. Observe a figura a seguir. A larva degenera e o rudimento imaginal se torna uma miniatura do ouriço-do-mar, que crescerá e formará o animal adulto. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 39 Veja as fases de desenvolvimento do ouriço-do-mar. Desenvolvimento planctônico de Mespilia globulus . ( A ) membrana de fertilização que envolve o oócito 20 minutos após a mistura do oócito com o esperma; ( B ) 1ª clivagem mostrando blastômero de duas células e zigoto sofrendo instigação precoce da segunda clivagem (0,5 horas após a fertilização (hpf); ( C) blastômero de quatro células (1-2 hpf); ( D ) blastômero de 16 células (1–2 hpf); ( E ) blástula (3 hpf); ( F ) cílios se formaram e a blástula agora nada ativamente (18 hpf); ( G ) estágio prismático (20 hpf); ( H ) estágio de equinoplúteo de dois braços (25 hpf); ( I ) estágio de equinopluteus de quatro braços com células Isochrysis ingeridas vistas no estômago (3 dias após a fertilização (dpf); ( J ) equinopluteus de seis braços (11 dpf); ( K,L ) equinopluteus de oito braços 16 e 22 dpf; ( M ) formação de rudimento (22 dpf);( N – P ) 1, 2 e 49 dias após o assentamento. Escala AO = 100 µm, P = 1 mm. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Craggs et al, 2019 PÁGINA 40 Observe com cuidado a figura abaixo. Ela representa a anatomia do ouriço-do-mar adulto. Podemos destacar boca, intestino, ânus, anel nervoso, Lanterna de Aristóteles, gônada, entre outros. Além dos equinodermos, vários grupos de invertebrados seguem o padrão de desenvolvimento deuterostômio. Cordados Os animais que pertencem ao filo Chordata (cord = notocorda), apresentam cinco características principais em comum que se fazem notar em alguma fase no embrião, embora possam desaparecer posteriormente: . Tubo nervoso na região dorsal; . Notocorda localizada ventralmente ao tubo neural (característica que dá o nome ao grupo); . Fendas faríngeas na porção anterior ao tubo digestivo; . Cauda pós-anal; . Endóstilo (glândula que secreta muco em alguns grupos e em vertebrados forma a tireóide) Observe a figura que se segue evidenciando cada uma dessas estruturas no corpo do anfioxo. Fonte: Hickman e cols, 2018 PÁGINA 41 Devido às suas características os cordados são subdivididos em três grupos: . Urochordata ou Tunicata – ao qual pertence a ascídia, um animal marinho que tem notocorda apenas na fase larval. Observe na figura abaixo, a larva (A), com a notocorda evidenciada (azul) ventralmente ao cordão nervoso. Depois que a ascídia se fixa num substrato e forma o animal adulto (A e B), a notocorda desaparece. . Cephalochordata – representado pelo anfioxo (C), também um animal marinho. Neste a notocorda persiste por toda vida promovendo a sustentação do corpo. . Vertebrata - ao qual, como o nome diz, pertencem os vertebrados. Nestes animais a notocorda se forma no embrião, mas posteriormente é substituída por vertebras, ainda na fase embrionária. Anfioxos Os anfioxos não apresentam esqueleto (vértebras, costelas e crânio) como os vertebrados, conforme vemos na figura que se segue (B). A notocorda é bem desenvolvida persistindo por toda a vida. Não apresentam cérebro verdadeiro e sim um cordão nervoso na região dorsal do corpo. O sistema muscular é constituído de segmentos de massas musculares. O sistema circulatório é constituído por bulbos pulsáteis situados no trajeto dos vasos sanguíneos. Devido as suas características, ele é considerado um dos elos evolutivos de conexão entre invertebrados e vertebrados. Fonte: Hickman e cols, 2018 Fonte: Hickman e cols, 2018 PÁGINA 42 Tunicados Assim como os anfioxos, os tunicados, representados pelas ascídias, são cordados primitivos. Embora não tenham vértebras, a larva tem notocorda e um cordão nervoso dorsal. Quando adulto, essas estruturas degeneram e é secretada uma túnica de celulose que envolve o animal. Os tunicados apresentam clivagem holoblástica bilateral e a especificação da maioria dos blastômeros é autônoma. Nos tunicados, as diferentes regiões do citoplasma, de forma natural, apresentam pigmentação distinta, de modo que os destinos das células podem ser facilmente visualizados, facilitando seu estudo. Observe a figura que se segue. No mapa de destino das células do embrião de tunicado, as regiões em azul formarão ectoderma, em amarelo endoderma e em vermelho mesoderma. Na clivagem holoblástica bilateral, a primeira clivagem separa o embrião no que será seu lado direito e esquerdo. Em seguida, cada clivagem sucessiva se orienta segundo um plano de simetria bilateral, ou seja, o meio embrião formado do lado direito é a metade espelhada da metade do embrião do lado direito. Fonte: Hickman e cols, 2018 PÁGINA 43 Observe a figura abaixo. O ovo de tunicado não fertilizado, apresenta citoplasma cinza localizado no centro, envolvido por uma camada contendo inclusões lipídicas amarelas (A). Tunicados têm especificação predominantemente autônoma, cada célula vai adquirir um tipo de citoplasma que determinará seu destino. Após a entrada do espermatozoide, o citoplasma claro (interno) e amarelo (cortical) contraem-se no hemisfério vegetal (B e C). Á medida que o prónucleo masculino migra do polo vegetal para o equador da célula, as inclusões lipídicas migram com ele, formando o crescente amarelo (D). Observe a figura que se segue. Podemos ver, em A, a progressão no desenvolvimento de tunicado, através da evidente diferença de coloração natural do citoplasma adquirido pelas células. Em B, os presuntivos destinos das regiões citoplasmáticas. Em C, diferentes tipos de tecidos da larva foram coloridos artificialmente, mostrando o destino das células do embrião. Em D, uma versão linear do mapa de destinos de cada uma de suas células. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 44 A especificação autônoma em tunicados foi uma das primeiras observações no campo da embriologia experimental. No entanto, quando o embrião de 8 células é separado em lado direito e esquerdo, ambas as especificações, autônoma e condicional são vistas. A especificação autônoma é observada no endoderma intestinal, mesoderma muscular e ectoderma da pele. A especificação condicional (por indução) é vista na formação das células do cérebro, da notocorda, do coração e do mesênquima. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CRAGGS, J., GUEST, J., BULLING, M. ET AL. Ex situ co culturing of the sea urchin, Mespilia globulus and the coral Acropora millepora enhances early post-settlement survivorship. Sci Rep 9, 12984, 2019. https://doi.org/10.1038/s41598-019-49447-9 GILBERT, S.F. - Biologia do Desenvolvimento. Funpec Editora, Ribeirão Preto, 5ª.ed. 2003. 994p. GILBERT, S.; BARRESI, M. J. F. - Biologia do Desenvolvimento. 11ª. Ed., Porto Alegre: Artmed, 2019. 916p. HICKMAN, C.P.Jr.; ROBERTS, L.S.; KEEN, S.L.; EISENHOUR, D.J.; LARSON, A.; l’ANSON H. – Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 16ª. Ed. 2016. 937p. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 45 - 5.4. Anfíbios e peixes Observe o cladograma abaixo. Nesse item inicia-se o estudo dos vertebrados, com foco primeiramente em anfíbios e em seguida no grupo dos peixes. Apesar das grandes diferençasna morfologia adulta, o padrão de desenvolvimento inicial em vertebrados é semelhante, sendo que a formação do tubo nervoso dorsal e das vertebras marca significativamente o desenvolvimento deste grupo. Observe o cladograma abaixo. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 46 Entre os vertebrados, peixes e anfíbios podem ser mais facilmente estudados. Em ambos os casos, centenas de ovos são colocados externamente e fertilizados simultaneamente. Além disso, esses animais empregam muitos dos mesmos processos e genes usados por outros vertebrados para gerar eixos e órgãos do corpo. Anfíbios Embriões de anfíbios, em especial rãs e salamandras, dominaram o campo da embriologia experimental por muito tempo, principalmente através do estudo de transplantes. Seu estudo apresentou algumas dificuldades no início das pesquisas em genética do desenvolvimento, mas atualmente, com técnicas moleculares mais modernas, os pesquisadores retornaram ao estudo desses embriões e conseguiram integrar suas análises moleculares com achados experimentais anteriores. Observe os estágios do ciclo de vida dos anfíbios na figura abaixo. Será analisado com detalhes cada um desses estágios e como as pesquisas nesses animais têm avançado atualmente. Observe a figura que se segue. O grupo dos anfíbios é diverso, mas a maioria deles se acasala por amplexo, o abraço nupcial, onde ocorre o estímulo em que a fêmea libera os ovócitos para que ocorra a fertilização externa pelos espermatozoides (A). Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 47 Durante o amplexo uma ninhada de ovos é liberada e fecundada (B). Em seguida começa a clivagem (C), a formação da blástula (D), a gástrula inicial com a formação do blastóporo (E), o início da formação do tubo neural (F) e a formação do girino, antes da eclosão (G). Após a eclosão, o girino maduro (H) pode se locomover livremente e se alimentar independentemente. Após eclodir, o girino cresce e inicia o processo de metamorfose, no qual perderá a cauda e formará os quatro membros característicos dos tetrápodes. Portanto, o desenvolvimento dos anfíbios (rã Xenopus laevis) é indireto, passando por um estágio larval. Os anfíbios apresentam ovos mesolécitos, clivagem holoblástica radial desigual e especificação celular predominantemente condicional. Observe abaixo as características do ovo não fertilizado de anfíbio. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 Fonte: Wolpert, 2000 PÁGINA 48 Mesmo antes da fertilização, o ovo de rã tem polaridade. O polo animal é pigmentado e o polo vegetal encontra-se repleto de vitelo amarelo. Assim, como o vitelo denso se localiza na região vegetal, certas proteínas e RNAms também já estão localizadas em regiões específicas do ovo antes da fecundação. Veja na figura abaixo, na primeira imagem da sequência, que a fertilização pode ocorrer em qualquer lugar do hemisfério animal do ovo. O ponto de entrada do espermatozoide é importante porque vai determinar a polaridade dorsoventral do embrião, ou seja, onde o espermatozóide entra, será o lado ventral do embrião, enquanto a região 180º oposta marcará o lado dorsal. O espermatozoide entra no ovo com o núcleo e o centríolo, que organiza os microtúbulos do ovo, separando o citoplasma cortical (externo) do citoplasma interno rico em vitelo. Ocorre, então, a rotação cortical de 30o (segunda imagem da sequencia acima). Observe a figura que se segue. Na Rotação cortical, os microtúbulos se organizam em trilhas de microtúbulos paralelos, permitindo que o citoplasma cortical gire cerca de 30º em relação ao citoplasma interno (A, B e C). Esse movimento faz com que se forme uma região de citoplasma interno de cor cinza, chamada crescente cinzento ou cinza, que é onde a gastrulação começará. Portanto, a gastrulação começa no lado oposto ao de entrada do espermatozoide e dá origem a região dorsal do embrião, iniciando o estabelecimento dos eixos embrionários. Fonte: Wolpert, 2000 PÁGINA 49 Na clivagem holoblástica radial, em ovos mesolécitos, a velocidade de formação da linha de clivagem é menor no pólo vegetativo devido a grande quantidade de vitelo. Formam-se blastômeros pequenos chamados micrômeros no pólo animal e blastômeros grandes, os macrômeros, no pólo vegetativo. Observe a figura que se segue. Na clivagem, o primeiro e segundo sulco atravessam meridionalmente o zigoto e são perpendiculares entre si. Enquanto o primeiro sulco ainda ocorre no pólo vegetal, o segundo já começou no pólo animal. Devido ao vitelo localizado no polo vegetal, o terceiro sulco de clivagem, que é equatorial, é deslocado em direção ao polo animal e não ocorre exatamente no equador do ovo. A clivagem radial continua e no estágio de 128 células, a blástula está formada. A blastocele forma-se, também deslocada, para o pólo animal. Nos anfíbios, em geral, as células do hemisfério animal darão origem ao ectoderma, as células vegetais ao endoderma e as células que se localizarão abaixo da blastocele, ao mesoderma. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 50 Normalmente os genes zigóticos não são ativados logo no início das clivagens e uma pré-condição para a gastrulação é a ativação do genoma zigótico A blástula passa por alguns eventos que desencadeiam o início da gastrulação, como relação cromatina/citoplasma, aquisição da interfase no ciclo celular, desmetilação de nucleossomos e promotores, modificações na adesão celular. Esses eventos fazem com que ocorra modificação da cromatina e ativação de genes. O conjunto desses eventos é chamado transição da blástula média – MBT. O estudo das gastrulação de anfíbios é uma das áreas mais antigas e ao mesmo tempo mais recentes da embriologia experimental. Novas técnicas de imagem ao vivo estão dando uma nova apreciação das complexidades desses movimentos. Enquanto a clivagem e a gastrulação ocorrem, a determinação progressiva dos eixos dos anfíbios e especificação das camadas germinativas também acontecem. Durante a gastrulação, a blástula sofrerá transformações e precisará: - Trazer para dentro do embrião as áreas destinadas a formar órgãos endodérmicos; - Envolver o embrião com células capazes de formar o ectoderma; - Colocar as células mesodérmicas nas posições apropriadas entre o ectoderma e o endoderma. Portanto durante a gastrulação ocorre grande movimentação de células. Observe a figura que se segue. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 51 Os principais movimentos que ocorrem durante a gastrulação em anfíbios são: - Invaginação das células em garrafa e rotação vegetal; - Involução no lábio do blastóporo; - Extensão convergente do mesoderma dorsal; - Epibolia do futuro ectoderma. Observe na figura a invaginação das células em garrafa e rotação vegetal (B e C). Os movimentos de gastrulação são iniciados no futuro lado dorsal do embrião, o lado oposto a entrada do espermatozóide. Células em garrafa (chamadas assim devido ao seu formato semelhante a uma garrafa) invaginam na zona marginal involuente (IMZ), que é a região onde os hemisférios vegetal e animal se encontram. Se forma o blastóporo e se inicia a formação do arquêntero (C). Rearranjos das células internas impulsionam outras células e a blastocele, ocorrendo então a rotação vegetal (C). A blastocele impede o contato prematuro das células vegetais e células animais, formando o capuz animal, impedindo induções prematuras. As células começam a involução no blastóporo, até que se forma o lábio dorsal do blastóporo. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 52 Células que formarão a placa pré-cordal passam para o interior do embrião através do lábio dorsal do blastóporo, o que desencadeia a ativação de genes que controlarãoa formação da cabeça. Observe a figura abaixo. Primeiro entram essas células (rosa) que formarão estruturas da cabeça, através do blastóporo. Próximo a essas estão as células do cordomesoderma (vermelho), que formarão a notocorda. Com esses movimentos, as células que constituem o lábio do blastóporo mudam constantemente, entrando no interior do embrião. Observe na próxima figura o processo de formação do blastóporo, a formação do lábio dorsal, lábios laterais, do lábio ventral do e a formação de um tampão de vitelo, que no final também será internalizado. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 53 No que se refere aos movimentos de extensão convergente do mesoderma dorsal, ocorre que, quando células da zona marginal involuente (IMZ) profundas atingem o lábio do blastóporo, começa a ocorrer uma extensão convergente ao longo do eixo mediolateral para formar uma camada mesodérmica longa e estreita. O fluxo mesodérmico continua a migrar para o polo animal, formando o teto do arquêntero, sendo o responsável pela internalização do mesoderma. A coesão das células parece dirigir essa extensão convergente. A nova cavidade que se forma, o arquêntero, vai deslocando a blastocele para o lado oposto ao lábio dorsal. Ocorre também a epibolia do futuro ectoderma. Observe a próxima figura. Enquanto os demais movimentos citados ocorrem, as células do capuz animal e as da zona marginal não involutiva (NIMZ), em azul na figura, expandem-se por epibolia, por fora, para cobrir todo o embrião. Essas formarão o ectoderma de superfície. A especificação dos eixos e camadas germinativas em anfíbios vai ocorrendo de forma progressiva. Indução é o processo pelo qual uma região embrionária interage com uma segunda região para influenciar a sua diferenciação ou comportamento. As primeiras células mesodérmicas a migrar sobre o lábio dorsal do blastóporo induzirão o ectoderma acima delas a produzir estruturas do sistema nervoso. Esse processo é chamado indução embrionária primária e é uma das principais formas pela qual um embrião de vertebrado se organiza. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 54 Por esse motivo, os primeiros pesquisadores que explicaram este processo, chamaram o lábio dorsal do blastóporo de organizador primário. Os estudos que desencadearam o conhecimento que se refere a esse tema conferiram o premio Nobel a Spemann, pesquisador que desenvolveu um experimento relativo a equivalência nuclear. Observe a figura abaixo. No experimento, Spemann amarrou um ovo fertilizado de salamandra de forma que o núcleo ficou restrito a uma metade do embrião. A clivagem ocorreu em um dos lados do embrião até o estágio de 8 células, mas no estágio de 16 células, um núcleo conseguiu entrar do outro lado do embrião. O laço foi apertado ainda mais para separar as duas metades e por fim cada lado se tornou um embrião completo, portanto, se formaram dois embriões normais a partir de um único zigoto. As experimentações continuaram e notou-se que dependendo da localização onde o laço era colocado no ovo, havia interferência na formação do embrião. Observe a figura que se segue. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 55 Se o ovo fosse dividido de forma que as duas metades recebessem parte do crescente cinza, se originavam dois embriões normais. Mas, se o ovo fosse dividido de forma que uma das metades não recebesse os componentes do crescente cinza, então apenas uma metade, a que recebeu o citoplasma com crescente cinza, se desenvolvia. Assim, concluiu-se que algo da região do crescente cinzento era essencial para o desenvolvimento adequado. Spemann também conduziu experimentos com transplantes em salamandras de pigmentação diferente. Observe o esquema do experimento, logo abaixo. Durante a gastrulação, primeiro na gástrula inicial(A), ele transplantou o tecido que originaria o futuro ectoderma neural para a região que formaria epiderme em outro embrião. O resultado foi a formação de epiderme de pigmentação diferente no embrião transplantado, mostrando que as células dependiam das células vizinhas. Depois ele fez a mesma coisa na gástrula tardia, com o desenvolvimento mais avançado (B). E o resultado foi diferente. Neste caso se formou tecido neural, levando-o a concluir que no segundo caso, as células já estavam determinadas e, portanto, não eram mais dependentes das células vizinhas. Esses foram experimentos que abriram portas para estudos sobre especificação e determinação celular. Spemann fez essas analises com tecidos de diversos locais do embrião e observou que diferentemente de outros tecidos da gástrula inicial, que se desenvolveram de acordo com sua nova localização, o lábio dorsal do blastóporo doado nunca se tornava epiderme ventral. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 56 Observe a figura abaixo. O transplante da região do lábio dorsal do blastóporo formava sempre a região dorsal, induzindo a formação das demais estruturas, resultando em um embrião secundário ligado ao primeiro. Concluiu-se então que o lábio do blastóporo é a única região com diferenciação autônoma, já na gástrula inicial. Portanto, essa região inicia uma série de eventos indutivos sequenciais. Assim, em 1938, Spemann se referiu às células do lábio dorsal do blastóporo como o organizador primário. Em resumo: - As células do crescente cinzento formam o lábio dorsal do blastóporo, onde iniciam os movimentos de gastrulação; - Enormes mudanças na potencialidade celular ocorrem com os movimentos de gastrulação; - O lábio dorsal do blastóporo caracteriza-se como organizador primário, pois induz o desenvolvimento de outras células no embrião; - Após a indução primaria, num processo sequencial, células diferenciadas atuam como indutoras para células indiferenciadas, formando assim as 3 camadas germinativas e em seguida os tecidos e órgãos do embrião. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 57 Atualmente, estudos sobre os mecanismos moleculares de indução, foram desenvolvidos e estão de acordo com os experimentos do passado. Foi construído um modelo que demonstra que a especificação das células de anfíbios, começa com um conjunto de RNAms que estão ancorados no córtex vegetal. Observe a figura abaixo. O RNAm vegT é traduzido logo após a fecundação no fator de transcrição VegT e este se distribui pelas células vegetais durante a clivagem. VegT ativa genes fundamentais para que o destino das células vegetais seja se tornar endoderma (amarelo). VegT ativa também um conjunto de genes iniciais que codifica fatores parácrinos Nodal, que instruem as células acima deles a se tornarem mesodérmicas (vermelho). Cria-se um circuito de autoalimentação positivo com outro conjunto de fatores de transcrição (Eomesodermin) que é fundamental para a manutenção do mesoderma. Outra proteína (Vg1) é necessária para ativar genes no mesoderma dorsal. Assim, no estágio de blástula tardia, os folhetos germinativos estão sendo especificados. Observe a figura que se segue. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 58 A expressão de um gene do tipo Nodal no mesoderma do lado esquerdo do embrião de Xenopus é crucial na formação do eixo esquerdo-direito. Se tal expressão for invertida, ou seja, se esse gene se expressar no lado direito, a posição de formação do coração e enrolamento do intestino no girino pode ser invertida, como vemos na figura. Portanto, os eixos anteroposterior, dorsoventral e esquerdo-direito são especificados por eventos desencadeados na fertilização, mas não concluídos até a gastrulação. Em estudos envolvendo os mecanismos moleculares da indução, foi observado que na fertilização, o fator de transcrição β-catenina ativado na região do ovo oposta ao ponto de entrada do espermatozoide, especificará esta regiãoe irá desencadear a indução da expressão de genes que controlam a gastrulação e consequentemente o estabelecimento dos eixos progressivamente. A formação de um dos eixos está ligada a formação dos demais. Observe a figura que se segue. Experimentos feitos pelo grupo de Nieuwkoop (década de 1970 e 80) levaram a conclusão de que as células vegetais dorsais podem induzir as células do polo animal a se tornarem tecido mesodérmico dorsal. Chamaram essas células de centro de Nieuwkoop. Esse local é formado pela acumulação de β-catenina (o mesmo responsável por especificar blastômeros no ouriço-do-mar). Sua depleção experimental resulta na falta de estruturas dorsais, enquanto a injeção de β-catenina exógena no lado ventral de um embrião causa a produção de um eixo secundário. Muitas outras proteínas foram identificadas e estão envolvidas num processo complexo de especificação celular. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 59 Observe a próxima figura. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 60 O resultado desse processo complexo é a estabilização ou não de β-catenina e a especificação diferencial de células da região dorsal e ventral por repressão ou ativação de genes. As proteínas Siamois e Twin colaboram com outros fatores de transcrição, Nodal e Vg1, para ativar genes que codificam inibidores de proteínas morfogenéticas ósseas, BMPs. BMPs são fatores de transcrição que ventralizam o embrião de anfíbio. Observe o modelo abaixo. Noggin está ligado a fomação da notocorda, Chordin está relacionado a formação do tubo neural. Esses, dentre outros, são importantes proteínas do organizador da região do lábio dorsal do blastóporo influenciadas pela ação da β-catenina. Esses organizadores inibem a ação de BMPs. Onde estiver reprimido se originará a região dorsal. Sucessivamente, esse processo desencadeia uma cascata de sinalizações. O resultado é o estabelecimento de gradientes de diferentes morfógenos, desencadeando a neurulação e especificação do eixo antero-posterior. Observe o esquema abaixo. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 61 Observe a próxima figura. A interação de todos esses componentes leva a expressão regional de genes Hox, que especificam as regiões do tubo neural. A partir daí começará a se formar o sistema nervoso do animal. A neurulação é uma parte da organogênese nos embriões vertebrados onde ocorre o processo de formação do tubo neural, que posteriormente originará o sistema nervoso. Observe a próxima figura. De maneira geral, o desenvolvimento do tubo neural (rosa) e das cristas neurais (lilás) ocorre a partir do ectoderma da placa neural. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Hickman e cols, 2019 PÁGINA 62 Durante a fase de nêurula, ocorre o desenvolvimento do sistema nervoso. Observe a figura abaixo. Na secção transversal (B), vemos que a notocorda e somitos se formam a partir da mesoderme (vermelho). Por indução da notocorda, a ectoderme subjacente a ela se espessa e forma a placa neural. Em seguida, aparecem as pregas neurais que acabam se fundindo na parte superior (dorsal) do embrião, constituindo o tubo neural. O tubo neural formará o encéfalo na parte anterior e a medula na parte posterior. A figura abaixo de corte transversal do embrião de anfíbio, evidencia suas estruturas se formando durante a fase de neurula. Podemos ver a notocorda (vermelho), o tubo neural (azul escuro), a epiderme (azul claro), a mesoderme (rosa), a endoderme (amarelo) e o lumem do arquentero que formara o intestino. Fonte: Wolpert, 2000 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 63 O próximo estágio do desenvolvimento de anfíbio, é a fase de botão caudal, ou seja, quando se forma a cauda da larva. Os eixos estão bem estabelecidos, estruturas da cabeça com órgãos sensoriais e arcos branquiais se formam. Os somitos estão posicionados de cada lado da notocorda. Observe a figura abaixo. Após a fase de botão caudal, se completa a formação do girino, que eclode, passa a se alimentar no ambiente externo e realiza metamorfose para formar o indivíduo adulto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GILBERT, S.; BARRESI, M. J. F. - Biologia do Desenvolvimento. 11ª. Ed., Porto Alegre: Artmed, 2018. 916p. HICKMAN, C.P.Jr.; ROBERTS, L.S.; KEEN, S.L.; EISENHOUR, D.J.; LARSON, A.; l’ANSON H. – Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 16ª. Ed. 2016. 937p. WOLPERT, L. - Princípios de Biologia do Desenvolvimento. Artes Médicas Sul, Porto Alegre, 2000. 484p. Fonte: Wolpert, 2000 Foto: arquivo pessoal Patricia Vizzotto PÁGINA 64 Peixes O peixe-zebra tem sido amplamente estudado em relação ao desenvolvimento de vertebrados por diveros motivos: origina grandes ninhadas, se reproduz o ano todo, é facilmente mantido, tem embriões transparentes que se desenvolvem rapidamente fora do corpo da mãe e os mutantes são prontamente identificados. Além disso, o peixe-zebra foi o primeiro vertebrado a ser estudado por rastreio de mutagênese intensivo, sendo importante como modelo de estudo de malformações humanas. Observe o esquema abaixo. Nesse experimento, o peixe parental macho é submetido a um mutagênico químico que causa alterações no DNA de suas células germinativas. Em seguida, é cruzado com uma fêmea selvagem. Se a mutação for dominante em relação ao alelo normal, ela já será expressa na primeira geração, em F1. Mas se for recessiva, os peixes da F2, portadores do alelo mutante, são acasalados e geram uma prole com aproximadamente 25% de fenótipo mutante recessivo, exibindo a malformação. Dessa forma se pode estudar como as mutações são expressas. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 PÁGINA 65 Os peixes, além das aves e répteis, geralmente apresentam ovos telolécitos e clivagem meroblástica discoidal. Devido a grande massa de vitelo que o citoplasma ocupa, a clivagem é limitada a um pequeno e fino disco de citoplasma sem vitelo, localizado no polo animal, o blastodisco. No início, a clivagem ocorre no blastodisco, todos os planos de clivagem são meridionais e todos os blastômeros posicionam-se em um mesmo plano. Os blastômeros não se separam do vitelo e originam uma única camada de células chamada blastoderme (a). É a partir da blastoderme que se originarão os folhetos germinativos do embrião de peixe. Observe a figura. No blastoderma, inicialmente todas as células mantêm alguma conexão aberta entre si e com a célula vitelina subjacente, que é chamada York. Mais tarde, as células mais centrais sofrem clivagens equatoriais de maneira que as superiores se tornam separadas das inferiores pela membrana celular. As inferiores continuam mantendo contato com a massa vitelínica. Os embriões de peixes, como muitos outros, passam por uma transição de blástula média, quando a transcrição de genes zigóticos começa. Neste momento, três populações de células podem ser distinguidas. Observe essas camadas na figura que se segue. Fonte: Gilbert e Barresi , 2019 PÁGINA 66 1. Camada sincicial vitelina ou “york sincicial layer” (YSL). Essa camada não contribuirá com núcleos para o embrião propriamente dito, mas será importante para dirigir a gastrulação. Os núcleos sinciciais se moverão sob o blastoderma, na YSL interna (iYSL) e YSL externa (eYSL). 2. Camada envolvente ou “enveloping layer” (EVL), constituída de células mais superficiais do blastoderma, formando uma cobertura protetora para o embrião. 3. Células profundas do blastoderma, que darão origem ao embrião propriamente dito. Durante a gastrulação, as camadas do blastoderma do peixe-zebra sofrem epibolia. Observe a figura abaixo. Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 Fonte: Gilbert e Barresi, 2019 1 1 2 3 PÁGINA 67 Ocorre primeiramente