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ESTRUTURAS DE MADEIRA AULA 1 Prof.ª Patricia Fontana 2 CONVERSA INICIAL No Brasil, as regiões que mais se destacam na produção de madeira para a construção civil são a Sul e a Sudeste, o que decorre da produção do pinho- do-paraná, espécie que deixou de ser explorada no início dos anos 2000, por ser uma espécie ameaçada de extinção. A evolução da história do uso da madeira como estrutura no Brasil teve muita influência do engenheiro austríaco Erwin Hauff, que, depois da Primeira Guerra Mundial, mudou-se para o Brasil, onde passou a estudar as espécies de madeira, sendo um dos profissionais que participou dos estudos para publicação da primeira norma sobre estruturas de madeira do país. Outros nomes importantes surgiram ao longo dos anos, como o arquiteto Othelo Lopes Filho e Oswaldo Navarro, em Curitiba, na década de 1970. No período de 1980 a 2007, se destacam os arquitetos Marcos Acayaba, na Região Sudeste, e Severiano Porto, na Região Amazônica, o último também conhecido como arquiteto da floresta. Observamos, então, que nosso país conta com importantes nomes, tanto na arquitetura, quanto na engenharia, que contribuem para o uso inteligente da madeira como estrutura. Apesar de a madeira não ser o material mais utilizado no Brasil como estrutura, conseguimos observar que, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista de disponibilidade de matéria-prima, nosso país apresenta um grande potencial para o crescimento do uso desse material. Por isso, em nosso material estudaremos esse importante material, a fim de contribuir para o crescimento do uso dos sistemas construtivos em madeira. CONTEXTUALIZANDO A madeira consiste em um material utilizado como estrutura desde a pré- história, fazendo parte do desenvolvimento da sociedade e sendo utilizada na construção civil tanto de forma temporária, como em concretos, andaimes, escoramentos, entre outros empregos; como de forma definitiva, por exemplo em pilares e vigas de edificações, lajes, elementos de cobertura, entre outros locais. Por se tratar de um material originado de um ser vivo complexo, as árvores, as madeiras possuem diferentes características, que impactam tanto a concepção arquitetônica quanto o comportamento estrutural, em seu uso. Em nosso conteúdo, abordaremos os conceitos relacionados a esse material, como a anatomia da madeira, as propriedades do material, o 3 comportamento quando solicitados certos esforços, quais os tipos de produtos, ligações, entre outros assuntos relevantes. O conhecimento a ser apresentado permitirá que você compreenda quando usar a madeira como sistema estrutural, assim como quais são as dimensões esperadas para as peças estruturais, informação tal que impacta diretamente a concepção arquitetônica com madeira. TEMA 1 – INTRODUÇÃO AOS TIPOS DE ESTRUTURA EM MADEIRA Atualmente, existem diferentes tipos de sistemas construtivos que utilizam a madeira como material resistente. Para iniciarmos nossa conversa sobre o uso da madeira nessas estruturas, iremos apresentar os principais desses sistemas. Nesse sentido, o sistema construtivo em madeira mais tradicional consiste no uso de vigas e pilares em madeira, onde as peças podem ser roliças ou serradas. Peças roliças são aquelas que apresentam o menor grau de processamento da madeira. Já as madeiras serradas são obtidas mediante processamento mecânico das toras, quando a peça originalmente cilíndrica é transformada em uma ou diversas peças quadradas ou retangulares. Na Erro! Fonte de referência não encontrada. consta uma imagem da Casa Hélio Olga, um exemplo de construção executada com vigas e pilares em madeira serrada. Figura 1 – Casa Hélio Olga Crédito: Ita Construtora. 4 A madeira serrada ou roliça também pode ser utilizada em elementos de cobertura, como no exemplo da Erro! Fonte de referência não encontrada.. Figura 2 – Uso de madeira serrada em cobertura Crédito: Sculpies/Shutterstock. A depender do tipo de sistema de vedação utilizado na construção, podemos classificar os sistemas de estrutura em madeira serrada ou roliça em outros quatro tipos, quais sejam: 1. Sistema de encaixe em montantes, no caso de vedação com uso de tábuas de madeira dispostas horizontalmente. São as popularmente conhecidas casas pré-fabricadas de madeira. Crédito: Supakit Phuangcharoen/Shutterstock. https://www.shutterstock.com/g/sculpies https://www.shutterstock.com/g/072454001 5 2. Log home: construções obtidas por meio da sobreposição de madeiras roliças, formando paredes autoportantes. Crédito: Andy Dean Photography/Shutterstock. 3. Sistema de estrutura pilar-viga e vedação em alvenaria, em que o sistema estrutural principal é composto por peças serradas ou roliças e as vedações, executadas em alvenaria e/ou vidro. Crédito: Sheila Say/Shutterstock. https://www.shutterstock.com/g/AndyDeanPhotography https://www.shutterstock.com/g/sheilasay 6 4. Sistema de estrutura com tábuas de madeira dispostas na vertical e mata- junta. Com a evolução da indústria, surgiram outros sistemas construtivos que utilizam a madeira como estrutura, como é o caso do wood frame e da madeira engenheirada. O wood frame consiste em um sistema construtivo industrializado composto por peças de madeira maciça serrada com fechamento em chapas do tipo placa de vertente orientada (oriented strand board – OSB), chapas de madeira compensada, outras chapas de madeira ou cimento. As peças de madeira serrada que compõem o sistema apresentam pequenas dimensões em seção transversal (até 7,5 cm), o que confere leveza ao sistema. Figura 3 – Exemplo de construção em wood frame Crédito: Ungvar/Shutterstock. A madeira engenheirada consiste em um produto da madeira obtido de tecnologia e industrialização. Este termo, madeira engenheirada, abrange uma variedade de produtos da madeira utilizados na construção civil, por exemplo, o compensado e o OSB. No processo de produção da madeira engenheirada, a madeira bruta é beneficiada, resultando dela um subproduto (lâminas, lamelas, lascas etc.) que, posteriormente, é colado, para formar novas peças. https://www.shutterstock.com/g/ungvar 7 Quando falamos no uso de madeira para estrutura, as madeiras engenheiradas mais conhecidas são a madeira lamelada colada (MLC), cross laminated timber (CLT) – em português, madeira lamelada colada cruzada (MLCC) – e madeira laminada colada (laminated veneer lumber – LVL). A MLC ou glued laminated timber (glulam) é um produto de madeira engenheirada, para uso estrutural, utilizado nas funções de pilares, vigas e treliças. É obtido da colagem de lamelas de madeira (tábuas com espessuras variando entre 20 mm e 40 mm). Figura 4 – Estrutura em madeira com uso de pilar e vigas em MLC Crédito: Jarama/Shutterstock. MLCC ou CLT é um produto de madeira engenheirada, para uso estrutural, utilizado nas funções de lajes, paredes e coberturas. A MLCC também é obtida da colagem de lamelas; no entanto, para esse produto, as lamelas são coladas cruzadas. https://www.shutterstock.com/g/Jarama 8 Figura 5 – Prédio executado com paredes e lajes em CLT Crédito: Laurello/Shutterstock. A LVL é fabricada com lâminas de madeira, ou seja, folheados da madeira que são secos, previamente, para posteriormente serem colados e prensados. Um exemplo de LVL pode ser consultado em: . Acesso em: 12 jun. 2024 (Dias, 2019). As madeiras engenheiradas possuem como principais vantagens a possibilidade de se produzir peças com a mínima quantidade de defeitos e peças com maiores dimensões do que as peças serradas, que possuem limitação de dimensão de acordo com o tipo de árvore utilizada. Após ter um primeiro contato com a nomenclaturados principais sistemas construtivos em madeira, vamos conhecer um pouco mais sobre as madeiras utilizadas no Brasil, suas propriedades e principais características, para, posteriormente, voltar a falar com detalhes sobre cada um dos sistemas citados neste tópico. TEMA 2 – VANTAGENS E DESVANTAGENS DO USO DA MADEIRA Para começarmos a pensar no uso da madeira nas construções, é necessário conhecer as características positivas e negativas desse material, a fim de se avaliar a melhor forma de aplicação desse sistema. Essas https://www.shutterstock.com/g/laurello 9 características serão abordadas brevemente neste tópico para, na sequência, estudarmos as propriedades biológicas e físicas da madeira, complementando o conhecimento aqui apresentado. 2.1 Características positivas das madeiras Nos itens que se seguem, são apresentadas as principais características positivas do uso da madeira como material para a estrutura de uma edificação: • Trata-se de material que proporciona um bom conforto acústico e térmico às edificações. • Há estudos que comprovam que morar, trabalhar ou estudar em uma edificação construída em madeira torna a vida mais saudável. • É um material que apresenta boa resistência mecânica tanto à tração quanto à compressão, o que permite um bom comportamento tanto no uso como pilares como no uso como vigas (peças com esforço preponderante de flexão). • Existe uma facilidade de trabalho, dada a reduzida dureza em face da resistência. • Alcança-se uma excelente relação entre resistência e peso próprio. • Por ser um material que possui renovação natural, a madeira propicia um desenvolvimento sustentável. • Facilita-se a execução de ligações. • Facilita-se também o transporte, por a madeira apresentar peso próprio reduzido, quando comparado a outros materiais usados nas estruturas, como o aço e o concreto. • Consiste em material com boa durabilidade, se adequadamente aplicado e tendo-se cuidado com sua manutenção. • Pode ser utilizada nas construções com um papel estético e decorativo. Podemos destacar, ainda, que, por se tratar de um sistema construtivo pré-fabricado, ou seja, de um sistema em que as peças são produzidas fora do canteiro de obras, ela apresenta qualidades como agilidade e rapidez na montagem, assim como confere limpeza ao canteiro de obras. 10 2.2 Características negativas das madeiras A madeira, como material da construção civil, também apresenta algumas características negativas, que inclusive influenciam no uso reduzido desse material como estrutura, tais como: • Por ser um material natural, ela exibe alta variação nas suas propriedades. • É um material que sofre com os efeitos da umidade, podendo haver uma degradação das suas propriedades e o surgimento de tensões internas não desejadas. • Quando desprotegida, apresenta grande vulnerabilidade a agentes agressivos como incidência solar, chuvas, organismos xilófagos (fungos, bactérias e insetos perfuradores). • Possui como características a heterogeneidade e a anisotropia (propriedades físicas diferentes, conforme as diferentes direções). • É um material combustível, apesar de ter uma queima muito lenta. Veremos, ainda, que parte dessas características negativas podem ser controladas por intermédio do uso de produtos industrializados da madeira, adequada caracterização físico-mecânica do material, tratamento de preservação, adequados cuidados de detalhamento dos projetos, entre outras ações. TEMA 3 – PROPRIEDADES BIOLÓGICAS DA MADEIRA A madeira é um material obtido de um organismo vivo, que são as árvores. Dessa forma, torna-se necessário conhecer as estruturas das árvores, do ponto de vista da constituição biológica, para melhor compreender como a madeira da construção civil é produzida e como deve ser aplicada nas edificações. Como pode ser visto na Erro! Fonte de referência não encontrada.6, uma árvore é composta por raiz, tronco ou caule e copa. A sua parte principal usada para a produção das peças estruturais utilizadas na construção civil é o tronco. 11 Figura 6 – Estrutura de uma árvore Crédito: Jefferson Schnaider. Transversalmente, o tronco de uma árvore é composto pelas camadas que podem ser vistas na Erro! Fonte de referência não encontrada.7 e que são descritas a seguir. Figura 7 – Seção transversal de um tronco Crédito: Magnon Almeida. • Casca externa: protege o lenho. 12 • Casca interna (floema ou líber): parte da casca que tem como função conduzir as substâncias nutritivas (seiva elaborada). • Câmbio: conhecido como usina da árvore, consiste em uma camada de células situadas entre o lenho e a casca interna. É a partir dessa camada que o tronco cresce em espessura, produzindo um novo lenho, para dentro. • Alburno: formado por camadas mais novas da planta, é o local por onde ocorre o transporte da seiva bruta das raízes para as folhas. Normalmente é uma região mais clara da madeira, mais leve e suscetível ao ataque de pragas. • Cerne: junto com o alburno, compõem o que é chamado de lenho, que consiste na seção útil do tronco de uma árvore para a construção civil. O cerne é a camada mais interna do lenho e costuma apresentar uma cor mais escura, por ser formado por células mortas e ter uma maior impregnação de lignina, resina, tanino, óleos e corante. Tem como única função a sustentação do tronco. O cerne apresenta uma durabilidade natural maior que a do alburno, devido à presença de extrativos tóxicos aos organismos degradadores da madeira. • Medula: parte mais interna da madeira, constituída por um tecido macio, normalmente mais escuro que o cerne, tem diâmetro variável de 1 mm a 2 cm. No caso do uso da madeira para a construção civil, a presença da medula em uma peça se trata de um defeito, uma vez que essa região da madeira caracteriza-se por baixas resistências mecânicas e baixa durabilidade. Considerando a composição apresentada, temos que as madeiras usadas na construção civil devem ser tiradas, preferencialmente, do cerne, que é a parte mais durável do tronco de uma árvore. Saiba mais Você pode dar continuidade aos estudos sobre a anatomia da madeira com a leitura da publicação A estrutura anatômica da madeira e princípios para a sua identificação, disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2024 (Coradin; Camargos, 2002). 13 Crédito: Ministério do Meio Ambiente. TEMA 4 – COMPOSIÇÃO E PROPRIEDADES FÍSICAS DA MADEIRA A madeira é um material que possui propriedades físicas muito particulares devido a sua estrutura anatômica, que resulta em um desempenho desigual de peças provenientes de espécies diferentes ou diversamente localizadas na mesma tora. Além da diferença de características físicas entre as espécies, há outros fatores que influenciam nessas propriedades, como o solo e o clima da região de origem da árvore, a fisiologia da árvore, a anatomia do tecido lenhoso e a variação da composição química. A madeira é conhecida como um material duplo compósito com fibras, uma vez que o lenho do tronco é composto por pequenos tubos (fibras) colados entre si por lignina (matriz), e cada um desses pequenos tubos é composto por microfibras de celulose (fibras) coladas entre si por uma mistura de hemicelulose e lignina (matriz). A madeira apresenta, portanto, com isso, uma variação de comportamento de acordo com a direção de crescimento das fibras. Na Figura 8 que segue são apresentadas imagens da composição das madeiras de duas classes de árvores (coníferas e folhosas). 14 Figura 8 – Anatomia de uma conífera e de uma folhosa Crédito: Magnon Almeida. Por conta dessa característica anatômica, aspropriedades da madeira variam de acordo com três eixos perpendiculares entre si: radial (transversal radial aos anéis de crescimento), longitudinal ou axial (longitudinal ao caule, no sentido das fibras) e tangencial (transversal tangencial aos anéis de crescimento). Essas direções podem ser vistas nos desenhos da Erro! Fonte de referência não encontrada.. Materiais que apresentam diferentes comportamentos em cada uma dessas direções são chamados de anisotrópicos. Figura 9 – Direções principais da madeira Crédito: Magnon Almeida. Na madeira, a diferença de propriedades na direção radial e tangencial é menor se comparada com a direção longitudinal. Por isso, é comum que as propriedades da madeira sejam apresentadas apenas na direção longitudinal (fibras principais) e na direção perpendicular às mesmas fibras. 15 A seguir, falaremos sobre as principais propriedades físicas da madeira e como elas variam de acordo com as direções principais. 4.1 Umidade A madeira é um material higroscópico, ou seja, aquele que tem capacidade de reagir às condições termo-higrométricas ambientais, procurando sempre manter um teor de equilíbrio. Isso significa dizer que as trocas de umidade com o ambiente são permanentes. Essa característica contribui para o surgimento de defeitos, na madeira, devido às alterações das dimensões das peças quando se busca o equilíbrio da umidade da madeira com a do ambiente. Para compreender a umidade da madeira é preciso saber o conceito de grau de umidade, que é expressa pela relação entre o peso de água e o peso da madeira anidra. Na madeira, a água apresenta-se de duas formas: como água livre contida nas cavidades das células e como água impregnada nas paredes das células. A água livre é rapidamente perdida após o corte da árvore e a água de impregnação é perdida mais lentamente. A quantidade de água eliminada dependerá da umidade do ambiente, uma vez que a madeira apresenta a característica de higroscopia, que consiste no equilíbrio da umidade da madeira em função da umidade e temperatura do ambiente em que ela se encontra. De acordo com o teor de umidade, a madeira pode ser classificada da forma como se apresenta na Tabela 1. Tabela 1 – Classificação da madeira, segundo o teor de umidade Classificação Teor de umidade Verde > 30% Semisseca > 23% Seca 18-23% Seca ao ar 13-18% Dissecada 0-13% Completamente seca (anidra) 0% Para as madeiras brasileiras, o ponto de saturação das fibras, que consiste no teor de umidade correspondente ao mínimo de água livre e ao máximo de água de impregnação, é de aproximadamente 25%. A perda de água até esse ponto acontece sem que surjam efeitos de variação dimensional das madeiras e, portanto, sem a ocorrência de defeitos. Para entendimento sobre a umidade de equilíbrio da madeira, a norma ABNT NBR 7190 apresenta uma tabela que indica o valor do teor de umidade da 16 madeira de acordo com a umidade relativa do ambiente, a qual é transposta a seguir. Tabela 2 – Classes de umidade Com as informações apresentadas na Tabela 2, é possível compreender que, para qualquer combinação de umidade relativa e temperatura, existirá um teor de umidade da madeira pelo qual a difusão de umidade até o interior da madeira é compensada pelas trocas com o ambiente externo. Então, a umidade de equilíbrio da madeira depende unicamente das condições do ambiente (temperatura e umidade relativa), mas nunca do tipo de madeira. Já a amplitude das variações dimensionais depende do tipo de madeira. Além de existir uma diferença de variação dimensional entre os tipos de madeira, por conta da estrutura anatômica da madeira, que é um material anisotrópico, como já comentado anteriormente, existem também diferenças nas deformações de uma mesma peça, de acordo com a direção. Logo, a variação dimensional de uma peça de madeira pode ser de retração ou de inchamento. De ensaios, é possível verificar que a retração tangencial é entre 1,5 e 3,5 vezes maior que a radial, a depender do tipo de madeira, como pode ser observado na Figura 10 que segue. 17 Figura 10 – Diagramas de retração e inchamento de 3 espécies vegetais, em função do grau de umidade, em que: a é a vista isométrica da madeira, mostrando as três direções principais; e b, o diagrama de retração ou inchamento linear para diferentes madeiras, sendo 1 o carvalho-brasileiro; 2 o eucalipto e 3 o pinho-brasileiro Por conta dessa variação da deformação em cada uma das direções, as madeiras são suscetíveis ao surgimento de fendas e outros defeitos, como perda das juntas, folga nas conexões, rachas na pintura e delaminação. Figura 11 – Defeitos na madeira devido às diferenças dimensionais influenciadas pela umidade Crédito: Jefferson Schnaider. 18 Caso uma mesma peça ou elemento estrutural seja instalado na construção com uma umidade variável ao longo de sua seção, podem surgir, ainda, deformações que afetem o comportamento estrutural do elemento, como no exemplo da Erro! Fonte de referência não encontrada.. Figura 12 – Deformações em treliça devido às variações dimensionais em uma mesma seção Apesar da possibilidade de surgimento dos problemas comentados anteriormente, é possível mitigar e até mesmo eliminar esses defeitos se tomados os devidos cuidados quando do uso da madeira como estrutura, quais sejam: • Para evitar a retração depois da instalação de uma peça estrutural, a madeira deve estar seca até um teor de umidade que esteja em equilíbrio com as condições de umidade relativa e temperatura do ambiente aonde a peça vai se localizar. Em resumo, devem ser instaladas peças de madeira com teores de umidade compatíveis com o ambiente. Isso pode ser obtido com a secagem controlada em estufas ou com o armazenamento temporário da peça no futuro ambiente de emprego, desde que o tipo de madeira permita a secagem ao ar. • Para madeiras que apresentem tendência de grandes deformações ou em ambientes que apresentem grandes variações de umidade, pode ser feito o uso de óleos e resinas impermeabilizantes. Vale destacar que o controle da umidade é importante não só por conta das variações dimensionais citadas, mas também porque uma madeira com baixa umidade facilita a aderência dos acabamentos e reduz a proliferação de 19 fungos. É importante destacar ainda que a umidade apresenta grande influência na densidade da madeira, sendo que madeiras mais secas são mais leves. 4.2 Peso específico Peso específico é a relação entre o peso e o volume (densidade). É um reflexo fiel da quantidade de matéria lenhosa por unidade de volume. Em geral, madeiras pesadas são mais resistentes, elásticas e duras que as leves. Porém, em paralelo a essas vantagens, são de mais difícil trabalhabilidade e apresentam maior variabilidade. A norma ABNT NBR 7190, que aborda os critérios de dimensionamento das estruturas com uso de madeira, recomenda que, para os cálculos e para a classificação da madeira, seja utilizada a densidade aparente, aquela determinada para uma umidade padrão de referência de 12%. No Brasil, existem madeiras com diferentes densidades, sendo observadas madeiras com densidades entre 400 kg/m³ e 1.100 kg/m³. O peso específico é uma importante propriedade da madeira, uma vez que serve de referência para a sua classificação, determina a sua utilização na construção civil e define o peso próprio do elemento. 4.3 Deterioração da madeira A madeira é um material sujeito à biodeterioração por conta da sua origem natural, sendo que a suscetibilidade à tal deterioração depende da espécie e das características anatômicas. Segundo apresentado por Castro e Guimarães (2018), deterioração é a “[...] mudança destrutiva das propriedades de um material não vivo causada por uma gama de agentes químicos, físicos, mecânicos e bióticos. Contrasta diretamentecom a doença.” Dentre os tipos de deterioração às quais a madeira está sujeita, cita-se o ataque de fungos, cupins, moluscos e crustáceos marinhos, a podridão, a descoloração e os desgastes mecânicos. No estudo das madeiras, observa-se que algumas espécies de madeira são mais resistentes do que outras. A vulnerabilidade da madeira depende de fatores como a camada do tronco de onde foi extraída a madeira, a espécie da madeira e as condições ambientais. Apesar de existirem espécies de madeiras mais suscetíveis a ataques biológicos, atualmente existem diversos tipos de tratamentos químicos que podem ser empregados para melhorar a sua 20 durabilidade. Esse tema merece grande atenção pois há madeiras que não possuem capacidade de absorção de tratamentos químicos (pinturas ou impregnantes), por apresentarem baixa permeabilidade. Por isso, conhecer os tipos de madeiras e as recomendações de uso é essencial para a garantia do bom desempenho e durabilidade de uma estrutura em madeira. No tópico seguinte serão abordadas informações sobre os tipos de madeira utilizadas na construção civil. Há que se destacar, ainda, que o adequado detalhamento dos projetos arquitetônicos e de estruturas é essencial para proteção das peças de madeira dos ataques biológicos, principalmente quando falamos sobre os efeitos do sol e da umidade, de vital importância para a garantia da durabilidade da estrutura. Dentre os detalhes importantes a serem avaliados durante a etapa de projeto, ressalta-se a proteção da madeira contra a chuva e os raios solares, com o uso de beirais, revestimentos, entre outros materiais, a garantia do rápido escoamento das águas, a facilidade da secagem de peças que possam eventualmente umedecer e a criação de pequenos colchões de ar, entre as peças, que garantam a secagem delas, com emprego de espaçadores, como no exemplo da Figura 13. Figura 13 – Exemplo de espaçador entre peças de estrutura de madeira Em resumo, a escolha da espécie, a observância da necessidade ou não de tratamento químico e a adoção de detalhes construtivos de proteção da 21 madeira, compatíveis com o ambiente de aplicação das peças, são ações que permitem garantir uma elevada durabilidade para as construções em madeira. 4.4 Desempenho da madeira ao fogo Popularmente há um mito de que a madeira é um material de baixo desempenho ao fogo por, erroneamente, se acreditar que a madeira apresenta uma queima acelerada. Apesar de a madeira ser um material combustível, quando exposta à chama, após alguns minutos, ocorre a formação de uma camada mais externa à carbonizada, que cria um isolante térmico que retém o calor e auxilia na contenção de um incêndio. A madeira é um material natural que pega fogo, espontaneamente, por volta de 250 °C a 300 °C, e que apresenta uma velocidade de combustão de 0,4 a 0,8 mm/min (valor esse que dependerá da umidade e densidade da madeira aplicada). A 275 °C o fogo é superficial e já se forma a camada externa carbonizada, que é dura e frágil, mas com baixa condutividade térmica, protegendo o centro da peça. Por isso, podemos dizer que, em uma construção com estrutura em madeira, o que ocorre é uma redução da seção resistente e não a perda das propriedades mecânicas. Dessa forma, no incêndio de uma estrutura em madeira a capacidade portante é facilmente mantida durante o período necessário, se as peças tiverem sido adequadamente dimensionadas, sendo que esse tipo de sistema construtivo apresentará um desempenho superior se comparado ao de outros materiais estruturais como o aço e o concreto. Vale lembrar que, se a relação superfície/volume das peças aumenta, a combustão se inicia mais rapidamente e as chamas se propagam mais facilmente. Por isso, o adequado dimensionamento da estrutura, aliado a um projeto de detalhamento, proteção e acabamento, são essenciais para a garantia da segurança de uma edificação em madeira, em caso de incêndio. No mercado já existem materiais retardantes de ignição do fogo e que reduzem a velocidade de propagação das chamas na superfície. Nas estruturas de madeira ainda podem ser utilizados revestimentos protetores, com a função de se limitar a combustão. 22 TEMA 5 – MADEIRAS UTILIZADAS NAS ESTRUTURAS As árvores são classificadas em coníferas e folhosas. As coníferas, também conhecidas como resinosas, são árvores que não produzem frutos e que possuem folhas em forma de agulhas. Elas apresentam crescimento rápido (até 2 cm por ano, em diâmetro), densidade inferior à das folhosas, costumam possuir baixa retração e inchamento limitado e facilidade de aplicação de tratamento de preservação. Popularmente, as coníferas são chamadas de madeiras macias, se caracterizando por serem madeiras de fácil trabalhabilidade com ferramentas e máquinas e apresentando, usualmente, um lenho de madeira branca. Segundo apresentado por Gonzaga (2006), existem apenas uma família e uma outra espécie de coníferas nativas do Brasil: Podocarpaceae, com três espécies conhecidas popularmente como pinheirinho, pinho-bravo ou pinheiro-do-mato, que não apresentam expressão econômica; e Araucaria angustifolia, o pinho-do- paraná ou araucária, que hoje é bastante escassa e com proibição de corte. As árvores coníferas com impacto econômico de produção no Brasil são de reflorestamentos, se destacando Pinus (P. elliottii, P. taeda e P. caribaea var. hondurensis). As folhosas ou dicotiledôneas são as chamadas madeiras duras e que dominam as florestas brasileiras. As popularmente conhecidas madeiras de lei são dessa classe. São árvores compostas por folhas achatadas e largas, não resinosas, de crescimento lento, maior densidade e dificuldade de trabalho, retração e inchamento maiores, assim como maior durabilidade natural. Como exemplos temos a maioria das madeiras nativas do país, como peroba, ipê, aroeira e carvalho. O eucalipto também faz parte dessa classe, sendo uma árvore de reflorestamento e não originária do Brasil. 23 Figura 14 – Exemplos de uma folhosa, à esquerda, e de uma árvore conífera, à direita Crédito: Magnon Almeida. As madeiras das coníferas e dicotiledôneas se distinguem principalmente pela estrutura celular e não pela resistência, sendo observadas madeiras com boa resistência nas duas classes. A norma ABNT NBR 7190, que aborda as estruturas de madeira, apresenta as resistências para diferentes classes de resistência tanto para as coníferas quanto para as madeiras de folhosas. 24 Tabela 3 – Classes de resistência definidas em ensaios de peças estruturais TROCANDO IDEIAS Para aumentarmos nosso conhecimento sobre os tipos de madeira utilizadas na construção civil, faça uma pesquisa sobre o emprego desse material, na sua região. Para isso, entre em contato com alguma madeireira ou empresa de construção de edificações em madeira da sua cidade para se informar sobre as madeiras mais utilizadas, na região, para construção civil. Após realizada a sua pesquisa, compartilhe no fórum qual foi a resposta obtida, informando também qual a cidade onde foi feita a consulta. NA PRÁTICA Na construção civil do Brasil são utilizadas tanto madeiras advindas de florestas nativas quanto de reflorestamento. Para escolha do tipo de madeira a ser usado, devemos avaliar diversos aspectos. Então, avaliaremos como, na prática, deve ser feita a escolha desse tipo de madeira. Primeiro, deve-se ter um entendimento sobre os tipos de sistemas construtivos disponíveis na região de implantação da obra. Para os sistemas industrializados, o que é o caso do wood frame e das madeiras engenheiradas, a madeira utilizada é proveniente de florestas de reflorestamento. No Brasil, a madeira mais utilizada tanto para o wood frame quanto para as madeiras engenheiradas é o pinus, sendo observado o uso do eucalipto para as madeiras engenheiradasde alguns poucos fabricantes. Quando falamos no uso de madeira serrada ou roliça, abre-se um leque de possibilidades de tipos de madeira, que variam de acordo com a região do país. Então, percebemos que as madeiras nativas terão um uso associado às 25 construções de pilar e viga, seja com madeiras serradas, seja com roliças. Nesses casos, é preciso ir para a segunda análise, que consiste em definir quais serão as características esperadas da madeira de acordo com o local de aplicação. Nesse momento, devem ser avaliados quais são os agentes de degradação: fungos, insetos, incidência de sol e chuvas; e compreendidas a umidade relativa do ambiente e a variação de umidade existentes na região, para se estudar a eventual necessidade de uso de madeiras que possuam menor variação dimensional. As madeiras nativas são as que apresentam maior densidade e, por isso, são menos propícias a receber ataques de pragas. Por outro lado, exigem maior cuidado na pesquisa sobre a sua procedência. Deve ser definido ainda qual o impacto estético da madeira, para se avaliar informações sobre cor, dimensões e formatos. Com essas informações coletadas, pode ser feito o estudo das alternativas de madeiras disponíveis nos fabricantes da região. Existem diversas publicações que abordam informações gerais sobre os tipos de madeira usados na construção civil, sendo apresentadas duas delas a seguir: 1. Madeira: uso sustentável na construção civil, de Geraldo José Zenid (2009); 2. Catálogo de madeiras brasileiras para a construção civil, de coordenação de Augusto Rabelo Nahuz (2013). A seguir, citam-se algumas das principais madeiras utilizadas nas estruturas e suas características. • Angelim-vermelho (Dinizia excelsa Ducke, Leguminosae): cheiro desagradável e gosto imperceptível, densidade alta, de 1.090 kg/m³, dura ao corte, com alta resistência ao ataque de organismos xilófagos (fungos e insetos) e impermeabilidade às soluções preservativas. • Cambará (Qualea spp., Vochysiaceae): cerne bege-claro levemente rosado a avermelhado; brilho moderado; cheiro e gosto imperceptíveis; baixa resistência ao ataque de organismos xilófagos. Essa madeira deve ser bem protegida da água, para evitar apodrecimento. • Massaranduba (Manilkara elata): não possui odor e nem gosto característicos e tem textura fina, brilho moderado, de marrom-escuro a marrom-amarelado-claro, secagem rápida quando no forno ou ao ar livre. 26 • Cumaru (Dipteryx odorata): não tem odor e nem gosto característicos, é marrom-amarelado, tem alta resistência ao ataque de organismos xilófagos e densidade alta, de 1.070 kg/m³, com secagem lenta ao ar livre. • Garapa (Apuleia leiocarpa (J. Vogel) J. F. Macbr, Leguminosae): cerne e alburno distintos pela cor, cerne que varia do bege-amarelado ao castanho-amarelado; superfície lustrosa e lisa ao tato; cheiro e gosto imperceptíveis; cerne com resistência moderada ao ataque de fungos apodrecedores e alta resistência ao cupim-de-madeira-seca, sendo recomendado que a madeira seja bem protegida da água para evitar apodrecimento. • Ipê (Tabebuia): não tem odor ou gosto característicos, sendo amarelo, verde-oliva e, às vezes, marrom, com densidade alta, de 1.100 kg/m³, sendo dura e exigindo ferramentas específicas para trabalho, com secagem rápida tanto no forno quanto ao ar livre. • Itaúba (Mezilaurus itauba (Meisn) Taub ex: Mez., Lauraceae): cerne amarelo-esverdeado quando recém-serrado, tornando-se castanho- esverdeado-escuro, com cheiro agradável, alta resistência ao ataque de organismos xilófagos (fungos apodrecedores, cupins e xilófagos marinhos) e baixa permeabilidade às soluções preservantes. • Jatobá (Hymenae courbaril): sem odor ou gosto característicos, cor marrom-escura a clara, densidade de 960 kg/m³ a 15% de umidade, secagem rápida, resistência média a alta ao ataque de organismos xilófagos. • Sucupira (Bowdichia nitida): não tem odor ou gosto característicos, tom marrom-escuro a acinzentado, é madeira moderadamente difícil de ser trabalhada, com densidade de 940 kg/m³, secagem ao ar moderadamente difícil e defeitos como rachaduras e empenamentos. No país, existem outras diversas espécies de árvores que resultam em madeiras aplicáveis na construção civil, como peroba-rosa, angico-preto, eucalipto, taipá, cedrinho, jacareúba, tatajuba, cedro, angico-branco, aroeira, entre tantas outras. Como um comentário complementar geral, podemos dizer que as madeiras mais escuras costumam ser mais duráveis e as mais claras estão mais sujeitas à proliferação de fungos, causando manchas e apodrecimento. Por isso, é importante conhecer as propriedades da madeira, a fim de se escolher um 27 material que apresente adequados durabilidade, segurança e desempenho na edificação. FINALIZANDO No presente material, abordamos informações sobre as propriedades das madeiras e os tipos de sistemas construtivos disponíveis no nosso país. Nos próximos capítulos, analisaremos detalhes de cada um dos sistemas construtivos citados, apresentando informações sobre as formas de vinculação dos elementos estruturais, os tipos de sistemas estruturais em madeira e as recomendações de pré-dimensionamento e concepção. 28 REFERÊNCIAS CASTRO, V. G. de; GUIMARÃES, P. P. (Org.). Deterioração e preservação da madeira. Mossoró: EdUfersa, 2018. 213 p. CORADIN, V. T. R.; CAMARGOS, J. A. A. A estrutura anatômica da madeira e princípios para a sua identificação. Brasília: LPF, 2002. DIAS, A. Carpinteria fecha parceria com empresa de vigas LVL. Carpinteria, 15 jan. 2019. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2024. GONZAGA, A. L. Madeira: uso e conservação. Brasília: Iphan; Monumenta, 2006. 246 p. (Cadernos Técnicos, v. 6). NAHUZ, A. R. Catálogo de madeiras brasileiras para a construção civil. São Paulo: IPT, 2013. ZENID, G. J. Madeira: uso sustentável na construção civil. 2. ed. São Paulo: IPT, 2009. 99 p. (IPT Publicação 3.010).