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DIREITOS HUMANOS SUMÁRIO 1. CONCEITO DE DIREITOS HUMANOS .................................................................. 3 2. CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS HUMANOS ................................................ 4 3. SUBESPÉCIES DOS DIREITOS HUMANOS ......................................................... 6 4. O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (DIDH) ..................... 7 4.1. Direitos civis e políticos (primeira dimensão) e direitos econômicos, sociais e culturais (segunda dimensão) ................................................................................................................ 7 4.2. Contexto histórico .......................................................................................................... 10 4.3. Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) ................................................. 11 4.4. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 (PIDCP) ......................... 13 4.5. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (PIDESC) .............................................................................................................................................. 13 5. DIREITO INTERNACIONAL HUMANITÁRIO (DIH) ............................................. 15 6. DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS ................................................ 16 7. OS DIREITOS HUMANOS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE 1988: ONDE ESTÃO? ........................................................................................................ 19 8. PRINCÍPIOS, DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. ........................................... 21 8.1. O princípio da igualdade (isonomia) ............................................................................. 22 8.2. Princípio da legalidade ................................................................................................... 23 8.3. Princípio da liberdade .................................................................................................... 25 9. O ATO DAS DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS TRANSITÓRIAS E A DEFESA, PELO BRASIL, DA CRIAÇÃO E UM TRIBUNAL INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS ................................................................................................................ 27 10. SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS ............................... 28 11. CONDENAÇÕES BRASILEIRAS NO ÂMBITO DA CORTE IDH ....................... 30 12. TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS INTERNALIZADOS NO BRASIL ............................................................................................................... 35 13. CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE ......................................................... 38 14. O MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL) E SUA AGENDA SOCIAL E CIDADÃ .................................................................................................................... 39 1. CONCEITO DE DIREITOS HUMANOS Os direitos humanos constituem ramificação específica de um campo ainda mais abrangente do direito, qual seja, o direito internacional, que, tradicionalmente, em línguas latinas, comporta divisão em direito internacional público e direito internacional privado. Cabe destacar que dentro do espectro dos direitos humanos há, também, especialidades ou divisões que merecem, ab initio, serem mencionadas. São elas: o direito internacional dos direitos humanos (DIDH), o direito internacional humanitário (DIH) e o direito internacional dos refugiados. Acrescente-se que VELANDIA SÁNCHEZ e ALFREDO CASTELLANOS (2019)1 ao analisarem os desdobramentos do direito internacional público destaca as seguintes 1 SANCHEZ, Arcenio Velandia; CASTELLANOS, Luis Alfredo. Las relaciones Internacionales: Manual de Derecho Internacional Público, 2ª Edición, Silepsis: 2019: “1. Derecho de los Tratados. Tal vez una de las principales ramas, ya que ella alimenta gran parte de las demás vertientes del Derecho Internacional Público, en esencia, por tratarse de la principal fuente de éste. El derecho de los Tratados se encarga de regular todo lo ateniente a las convenciones; tiene su mayor asidero en la Convención de Viena de 1969, la cual regula las relaciones entre los Estados y la Convención de Viena de 1986, la cual recoge lo estipulado en la Convención del 69’, y añade regulaciones específicas para los nuevos sujetos del Derecho Internacional Público. / 2. Derecho Internacional de los Derechos Humanos (DIDH). Se encarga de regular la protección y promoción internacional de los derechos humanos, se fundamenta esencialmente en el principio de la dignidad humana, por lo que la mayoría de sus normas son de derecho imperativo o de ius cogens. / 3. Derecho de la Guerra. Esta rama del Derecho, pese a ser una de las más antiguas, solo hasta las conferencias de Paz de la Haya empezó a organizarse de manera formal, su objetivo, es regular la conducción de las hostilidades. Esta rama del Derecho Internacional, se divide en el DIH y el DICA. / 4. Derecho Internacional Humanitario (DIH). Esta rama del derecho se encarga de regular los problemas acaecidos en los conflictos armados internacionales, no internacionales o internacionalizados, estableciendo normas de protección para quienes no hacen parte del conflicto armado o han dejado de serlo. / 5. Derecho Internacional de los Conflictos Armados (DICA). Se encarga de fijar normas mínimas para la conducción de las hostilidades, en cuanto a método y medios de guerra. / 6. Derecho Internacional del Trabajo. Esta rama del Derecho Internacional, pretende la protección y promoción de normas mínimas en el campo del Derecho laboral, sindical y de la seguridad social en el mundo. Su principal organismo internacional es la OIT (Organización Internacional del Trabajo) que fruto de las Naciones Unidas, ha velado por establecer a través de sus múltiples instrumentos, estándares de protección para el trabajador. / 7. Derecho Internacional Ambiental. Esta rama del Derecho Internacional, se encarga de establecer y regular las normas aplicables al medio ambiente, como compromiso de todos los Estados. / 8. Derecho Económico Internacional. Esta rama del Derecho Internacional, se encarga de regular la normatividad ateniente a las relaciones económicas internacionales, así como de su implementación, promoción y desarrollo. / 9. Derecho Antártico. Se encarga de regular todo lo referente al continente Antártico, respecto al derecho que tiene la comunidad internacional en general sobre su uso, exploración y explotación, así como de su preservación. / 10. Derecho Aéreo o Aeronáutico. Se encarga de regular “las actividades comerciales de los Estados en relación con la navegación dentro del espacio aéreo nacional e internacional” (Camargo, 2013. P. 39). Su principal fuente es el Convenio sobre Aviación Civil Internacional de 1944 (Camargo, 2013, p. 39). / 11. Derecho Espacial o Cósmico. Se encarga de regular el espacio ultraterrestre de los Estados. Este Derecho recoge las normas sobre el uso y explotación del espacio, la luna y demás cuerpos celestes. / 12. Derecho del Mar. Regula todo lo referente al espacio marítimo de los Estados (mar territorial, plataforma continental, zona económica exclusiva o mar patrimonial, etc.), así como los espacios marítimos que no hacen parte de ellos (la alta mar y la Zona Internacional). / 13. Derecho Diplomático. Esta rama del Derecho Internacional, se ocupa de todo lo especialidades ou ramificações: (i) direito dos tratados; (ii) direito internacional dos direitos humanos (DIDH); (iii) direito da guerra; (iv) direito internacional humanitário (DIH); (v) direito internacional dos conflitos armados (DICA); (vi) direito internacional do trabalho; (vii) direito internacional ambiental; (viii) direito econômico internacional;define – de forma provisória – o tema da possibilidade da prisão em segunda instância, que para parte da doutrina viola diversas garantias constitucionais, entre elas: presunção de inocência, devido processo legal, contraditório e ampla defesa. Nos trinta anos de CF, a questão que se apresenta para a comunidade jurídica brasileira é a seguinte: em nome do combate à impunidade – questão legítima e de importância fundamental –, estamos vivenciando uma refundação do princípio da legalidade, por meio de decisões tópicas e situacionais e não mais como fundamento de segurança e certeza jurídica? A resposta a essa questão é impossível de ser dada no tempo de elaboração desses comentários...”. 8.3. PRINCÍPIO DA LIBERDADE Liberdade de pensamento36 – Trata-se do direito de opinar sem risco de censura ou punição do agente estatal. É vedado o anonimato, respondendo o indivíduo que causar dano a outro nos termos da lei. Portanto, a liberdade de pensamento não é uma “carta em branco”, é necessário que se respeite a honra e a imagem das pessoas37, a razoabilidade do discurso e que o indivíduo se abstenha de discursos racistas, xenófobos ou que atentem a dignidade da pessoa humana. Esse princípio está intimamente ligado à liberdade de consciência, crença ou culto38. Assim, as pessoas podem ter sua convicção religiosa, política e filosófica sem que sofram represálias por parte do Estado, sendo esse, inclusive, responsável por resguardar este Direito. 36 ASSIS DE ALMEIDA (2018): “A garantia constitucional da liberdade de expressão prevista no artigo 5º, incisos IV e V, é uma das maiores conquistas de qualquer Estado democrático, assim como a liberdade de imprensa prevista no artigo 220 da Constituição Federal. Mas deve ser uma liberdade com transparência, sem medo. Por isso, a própria lei vedou o anonimato, trazendo a exigência, daquele que se expressa, de se identificar. Do ponto de vista histórico, por sua importância como direito humano, a garantia da liberdade de expressão veio sendo associada a uma garantia constitucional, com um dos exemplos mais antigos em termos de Constituição em vigor, que é a dos Estados Unidos da América, desde 1789. No caso norte-americano, essa proteção à liberdade de expressão foi inserida na Primeira Emenda (Amendment I), ratificada em 1791 pelos Estados. Ela impede que o Congresso limite a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Esse conjunto das dez primeiras emendas baseadas na proteção do indivíduo ficou conhecido como Bill of Rights. Com o mundo abalado pela barbárie ocorrida na Segunda Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas promoveu a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 com o intuito de construir um compromisso entre os países baseado em um conjunto de alicerces ideológicos com respeito aos direitos humanos, tendo sido adotadas pelos aliados quatro liberdades fundamentais: liberdade da palavra e da expressão, liberdade de religião, liberdade por necessidades e liberdade de viver sem medo. Por isso a segurança pública também se tornou uma garantia de direitos humanos. Inspirados na DUDH e reafirmando seu propósito, em 1969 os Estados americanos assinaram a Convenção Americana de Direitos Humanos, para consolidar, no quadro das instituições democráticas, um regime de liberdade pessoal e de justiça social fundado no respeito dos direitos essenciais do homem. Sendo assim, a liberdade de expressão deve ser compreendida como um direito e um dever. Um direito, por ser garantia constitucional a capacidade de expressar o pensamento abertamente sem medo, sem ter de esconder a identidade por receio de que haja alguma retaliação. É também um dever, por ter de fazê-lo com identificação, a não ser em casos excepcionais como no uso de canais de denúncia anônimos ou situações de proteção de fonte, porque assim se evita o abuso do próprio direito de liberdade, uma vez que aquele que se expressa assume a autoria do ato e, portanto, também responde por danos causados por suas ações, assegurando também o direito de resposta tão necessário para o equilíbrio da liberdade de expressão.”. 37 O art. 11 da Convenção estabelece, de fato, que toda pessoa tem o direito de proteção da sua honra e reconhecimento da sua dignidade. O Tribunal indicou que o direito à honra "reconhece que toda pessoa tem direito ao respeito desta, proíbe qualquer ataque ilegal contra a honra ou a reputação e impõe aos Estados o dever de fornecer a proteção da lei contra tais ataques. Em termos gerais, este Tribunal indicou que o direito à honra está relacionado à estima e ao valor, enquanto a reputação se refere à opinião de que outros têm de uma pessoa”. [Corte IDH. Caso Lagos del Campo vs. Peru. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 31-8-2017. Tradução livre.] [Resumo oficial.] 38 É constitucional o ensino religioso confessional como disciplina facultativa dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental: “A Constituição Federal garante aos alunos, que expressa e voluntariamente se matriculem, o pleno exercício de seu direito subjetivo ao ensino religioso como Por exemplo, locais de culto são protegidos por liberdade de crença39. Se alguém decide atacar um local de culto, essa pessoa deve ser responsabilizada criminalmente. Noutro exemplo é a questão da convicção filosófica e o alistamento militar, é possível invocar está prerrogativa a fim de cumprir prestação alternativa ao serviço militar obrigatório caso a pessoa sinta sua convicção violada. Caso o indivíduo não preste o serviço militar obrigatório e não cumpra a prestação alternativa (prevista em lei) a sanção aplicada é a suspensão/perda dos direitos políticos. Liberdade de profissão40 – todos são livres para desempenhar o ofício que desejarem. No entanto, esse princípio possui eficácia contida, uma vez que para algumas profissões, tais disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, ministrada de acordo com os princípios de sua confissão religiosa e baseada nos dogmas da fé, inconfundível com outros ramos do conhecimento científico, como história, filosofia ou ciência das religiões. 6. O binômio Laicidade do Estado/Consagração da Liberdade religiosa está presente na medida em que o texto constitucional (a) expressamente garante a voluntariedade da matrícula para o ensino religioso, consagrando, inclusive, o dever do Estado de absoluto respeito aos agnósticos e ateus; (b) implicitamente impede que o poder público crie de modo artificial seu próprio ensino religioso, com um determinado conteúdo estatal para a disciplina, bem como proíbe o favorecimento ou hierarquização de interpretações bíblicas e religiosas de um ou mais grupos em detrimento dos demais." [STF. ADI 4.439, rel. min. Roberto Barroso, red. p/ o ac. min. Alexandre de Moraes, P, j. 27-9-2017, DJE de 21-6-2018.] 39 A liberdade de religião é compatível com o sacrifício de animais em rituais religiosos: "O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou julgamento de recurso extraordinário em que se discute a possibilidade de lei estadual autorizar o sacrifício de animais em rituais de religiões de matriz africana. O relator deu parcial provimento ao recurso para atribuir interpretação conforme à Constituição ao parágrafo único do art. 2º (1) da Lei 11.915/2003 (Código Estadual de Proteção aos Animais do Rio Grande do Sul) com vistas a assentar a constitucionalidade do sacrifício de animais em ritos religiosos de qualquer natureza, vedada a prática de maus-tratos no ritual e condicionado o abate ao consumo da carne. (...) Sob o ângulo material, o tópico envolve a exegese de normas fundamentais, alcançando a conformação do exercício da liberdade religiosa. (...) A laicidade do Estado não permite o menosprezo ou a supressão de rituais, principalmente no tocante a religiões minoritárias ou revestidas de profundo sentido histórico e social, como ocorre com as de matriz africana. No entanto,é inadequado limitar a permissão do sacrifício de animais a esse segmento religioso, como previsto na norma questionada, pois não há distinção substancial entre os cultos a justificar o tratamento desigual. A proteção ao exercício da liberdade deve ser linear, sob pena de ofensa ao princípio da isonomia. É vedado à autoridade estatal distinguir o conteúdo de manifestações religiosas, procedendo à apreciação valorativa de diferentes crenças. Admitir a prática de imolação não significa afastar o amparo aos animais estampado no art. 225 (5) da CF." [STF. RE 494.601, rel. min. Marco Aurélio, julgamento em 9-8-2018, Informativo 910.] 40 ASSIS DE ALMEIDA (2018): “Após séculos de opressão política durante os tempos feudais, o constitucionalismo do século XVIII estabeleceu a regra da liberdade de exercício profissional, ou simplesmente liberdade profissional. A concepção, aqui, é que não pode o poder político impor ou vedar, arbitrariamente, o exercício de determinada atividade profissional. No Brasil, conforme consolidada jurisprudência do STF, a regra é a da liberdade do exercício profissional, que poderá ser condicionado apenas excepcionalmente, quando algum interesse social exigir o controle mais efetivo de determinada profissão. Não havendo interesse social para tanto, a regra é da plena liberdade profissional. Nesse sentido, conforme jurisprudência infrasselecionada, a atividade de músico não pode ser submetida a controle de órgão de classe, visto que se trata de expressão da liberdade artística; a profissão de jornalista não demandará formação profissional específica, posto que vinculada à liberdade de expressão e de informação, necessária também à própria democracia. A liberdade de exercício profissional, portanto, será a regra a ser aplicada. No caso das novas profissões, que vêm surgindo recentemente ligadas ou favorecidas pelo uso de meios de TI – Tecnologia da Informação (aplicativos, softwares de compartilhamento, etc.), é esse vetor de interpretação que deverá ser como a de advogado, ele sofre restrições. Para que se advogue, por exemplo, é necessário que o candidato seja aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil e possua curso superior completo em bacharelado em Direito41. 9. O ATO DAS DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS TRANSITÓRIAS E A DEFESA, PELO BRASIL, DA CRIAÇÃO E UM TRIBUNAL INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS Consta no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que integra a Constituição da República de 1988, o interesse do Brasil em propugnar pela criação de um tribunal internacional dos direitos humanos, veja-se: “Art. 7º. O Brasil propugnará pela formação de um tribunal internacional dos direitos humanos”. Coerente a previsão do ADCT, uma vez que, posteriormente, a CF/88 consagraria a dignidade da pessoa humana como fundamento da República (art. 1º, III, CF/88) e a prevalência dos direitos humanos como um princípio constitucional regente das relações externas do país (art. 4º, II, CF/8842). adotado, salvo a hipótese de se compreender que o interesse social demande a regulamentação desse setor (a exemplo do que se discute com os motoristas de automóveis que exercem tal atividade profissional mediante o uso de aplicativos eletrônicos).”. 41 O art. 5º, XIII, da Constituição da República é norma de aplicação imediata e eficácia contida que pode ser restringida pela legislação infraconstitucional. Inexistindo lei regulamentando o exercício da atividade profissional dos substituídos, é livre o seu exercício (MI 6.113 AgR, rel. min. Cármen Lúcia, j. 22.05.2014, P, DJE 13.06.2014). 42 MAZZUOLI (2018): “prevalência dos direitos humanos é, talvez, o princípio das relações internacionais da Constituição que mais destaque ganhou nos últimos tempos, notadamente diante da participação cada vez mais ativa do Brasil em tratados ou organismos internacionais de direitos humanos, bem assim em razão da crescente aplicação dos instrumentos internacionais de direitos humanos pelos órgãos internos do Estado (em especial, pelo Poder Judiciário). Tais instrumentos são produto do direito internacional público e contribuem, em nível global, para a uniformização da proteção dos direitos humanos ao redor do mundo, não obstante demandem a participação formal (ratificação) pelos Estados. Certo é que a abertura constitucional ao tema “direitos humanos” representou a passagem do Estado (autoritário) fundado na regra ex parte principis para aquele calcado na democracia ex parte populi, deixando antever a aceitação pelo Brasil da abertura à ordem internacional pairante sobre o Estado (cf. BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 117; e LAFER, Celso. A internacionalização dos direitos humanos: Constituição, racismo e relações internacionais. Barueri: Manole, 2005, p. 14). Na arena internacional essa abertura já se fazia sentir desde o final da Segunda Guerra Mundial, momento a partir do qual, sob os auspícios das Nações Unidas, concluíram-se as mais importantes declarações e os mais significativos tratados de direitos humanos atualmente em vigor, todos formando o corpus juris internacional de proteção desses direitos (cf. MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. 11ª ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 759-765). Ademais, a prevalência dos direitos humanos, para além de princípio norteador da política externa brasileira, tornou-se baliza interpretativa de decisões propriamente internas, notadamente relativas aos conflitos entre leis internas ou entre tratados e normas domésticas. Nesse sentido, nada de diverso existe na aplicação do princípio em apreço relativamente ao conhecido princípio pro homine, podendo-se até Esse interesse do país manifestado em seu ADCT deu azo, em 1992, à assinatura e ratificação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica) de 1969 que, entre suas disposições, estabelece a criação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), com o objetivo de investigar e julgar, respectivamente, violações de direitos humanos pelos Estados signatários do tratado. 10. SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS Estudaremos, agora, o sistema interamericano de Direitos Humanos. O sistema interamericano de Direitos Humanos possui duas bases jurídicas fundamentais: a Carta da OEA, de 1948, e a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica), de 1969. Cada documento deu origem a um órgão próprio. A Carta da OEA originou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), com sede em Washington, nos Estados Unidos. A Comissão não estava originalmente na Carta da OEA que, criada em 1959, começou a operar em 1960. Sete membros são eleitos para mandato de quatro anos, com possibilidade de reeleição, ao órgão de monitoramento. O acesso à CIDH é aberto aos indivíduos, aos grupos de indivíduos e às ONGs (Organizações Não Governamentais) que atuem na área. Além disso, a Carta da OEA é complementada pela Declaração Americana sobre Direitos e Deveres dos Homens de 1948. A Convenção Americana de Direitos Humanos, que versa sobre direitos civis e políticos e vincula 25 dos 35 membros da OEA, criou uma Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), com sete juízes que exercem o cargo a título pessoal, com mandato de seis anos, permitida uma reeleição. mesmo inferir tratar-se de uma só coisa. O princípio da prevalência dos direitos humanos – inaugurado no direito brasileiro pelo Texto de 1988 e sem similar nos textos constitucionais anteriores – extrapola, portanto, o plano da regência das relações internacionais para, atualmente, e com o apoio da jurisprudência dos tribunais superiores, ganhar aplicação cada vez maior no Brasil para auxiliar na resolução de assuntos estritamente domésticos.”. O quórum para deliberaçõesé de cinco juízes e as decisões são tomadas por maioria simples. O Brasil aderiu à Convenção em 1992, com declaração interpretativa aos artigos 43 e 48. O país aceita a cláusula facultativa de jurisdição43 contenciosa da Corte desde 2002. À Convenção Americana de Direitos Humanos há o Protocolo de San Salvador, assinado em 1998 e em vigor desde 1999, que dispõe sobre direitos econômicos, sociais e culturais. A Corte IDH pode condenar um Estado mesmo em dissonância com decisões de seus tribunais superiores. As suas sentenças equivalem a títulos executivos judiciais e, portanto, não precisam de homologação. No Brasil, a execução se dá na Justiça Federal. A Corte possui competência ratione materiae e competência consultiva. A competência ratione materiae da Corte IDH recai sobre os Direitos Humanos contidos na Convenção Americana de Direitos Humanos e no Protocolo de San Salvador de 1998. Já a competência consultiva da Corte IDH versa sobre a emissão de pareceres relativos à interpretação da Convenção e outros tratados relacionados à proteção dos Direitos Humanos. Ela é bastante ampla. Qualquer Estado-membro da OEA, parte ou não na Convenção, pode solicitar pareceres. A Corte pode emitir pareceres sobre compatibilidade entre as leis internas dos Estados membros e os instrumentos internacionais. 43 Vale lembrar que, à luz da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o termo “jurisdição” possui maior abrangência do que o território do Estado-membro. Nesse sentido: “A jurisdição dos Estados, em relação à proteção dos direitos humanos estabelecidos na Convenção Americana, não se limita ao seu território. O termo “jurisdição” previsto na Convenção Americana é mais amplo que o território de um Estado e inclui situações além de seus limites territoriais. Os Estados devem respeitar e garantir os direitos de todas as pessoas sujeitas à sua jurisdição, mesmo que não estejam dentro de seu território. d. O exercício da jurisdição de acordo com o art. 1 (1) da Convenção Americana fora do território de um Estado é uma situação excepcional que deve ser examinada restritivamente em cada caso específico. e. O conceito de jurisdição, nos termos do art. 1 (1) da Convenção Americana, engloba qualquer situação em que um Estado exerce autoridade ou controle efetivos sobre um indivíduo ou indivíduos, dentro ou fora de seu território. [Corte IDH. OC 23/2017, Parecer consultivo sobre meio ambiente e direitos humanos, de 15-11-2017, solicitado pela República da Colômbia. Tradução livre.] [Inteiro teor.]”. 11. CONDENAÇÕES BRASILEIRAS NO ÂMBITO DA CORTE IDH Os nove casos, cuja condenação do Brasil prevaleceu, foram os seguintes, em ordem cronológica: Caso Ximenes Lopes vs. Brasil (2006); Caso Escher e outros vs. Brasil (2009); Caso Garibaldi vs. Brasil (2009); Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil (2010); Caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016); Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil (2017); Caso Povo Indígena Xucuru e seus membros vs. Brasil (2018); Caso Herzog e outros vs. Brasil (2018); e Caso dos Empregados da Fábrica de Fogos de Santo Antônio de Jesus vs. Brasil (2020). Alguns desses casos merecem atenção especial. O Caso Ximenes Lopes vs. Brasil (2006)44 foi o primeiro em que a Corte IDH se pronunciou sobre a violação dos direitos de uma pessoa portadora de deficiência mental. Em Garibaldi vs. Brasil (2009)45, a Corte entendeu que as disposições internacionais de proteção dos direitos humanos devem ser respeitadas pelos Estados independentemente de sua estrutura federal ou unitária. 44 “A Convenção Americana, por sua vez, reconhece expressamente o direito à integridade pessoal, bem jurídico cuja proteção encerra a finalidade principal da proibição imperativa da tortura e penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Este Tribunal considerou de maneira constante em sua jurisprudência que essa proibição pertence hoje ao domínio do ius cogens. O direito à integridade pessoal não pode ser suspenso em circunstância alguma. (...) 132. A Corte considera que as precárias condições de funcionamento da Casa de Repouso Guararapes, tanto as condições gerais do lugar quanto o atendimento médico, se distanciavam de forma significativa das adequadas à prestação de um tratamento de saúde digno, particularmente em razão de que afetavam pessoas de grande vulnerabilidade por sua deficiência mental, e eram per se incompatíveis com uma proteção adequada da integridade pessoal e da vida. (...) 137. A Corte já salientou que da obrigação geral de garantia dos direitos à vida e à integridade física nascem deveres especiais de proteção e prevenção, os quais, neste caso, se traduzem em deveres de cuidar e de regular.”. 45 “146. No que concerne à denominada “cláusula federal” estabelecida no art. 28 da Convenção Americana, em ocasiões anteriores a Corte teve a oportunidade de referir-se ao alcance das obrigações internacionais de direitos humanos dos Estados federais. Recentemente, no Caso Escher e outros, o Tribunal aduziu que, em sua competência contenciosa, tem estabelecido claramente que, “segundo jurisprudência centenária e que não variou até agora, um Estado não pode alegar sua estrutura federal para deixar de cumprir uma obrigação internacional”. (...) Dessa maneira, a Corte considera que os Estados-Partes devem assegurar o respeito e a garantia de todos os direitos reconhecidos na Convenção Americana a todas as pessoas sob sua jurisdição, sem limitação nem exceção alguma com base na referida organização interna. O sistema normativo e as práticas das entidades que formam um estado federal Parte da Convenção devem conformar-se com a mesma. (...) 148. Por outra parte e finalmente, a Corte considera, como o fez no Caso Escher e outros, que o arrazoado sobre a eventual inobservância das obrigações emanadas do art. 28 da Convenção deve referir-se a um fato com um valor suficiente para ser considerado como um verdadeiro descumprimento. No presente caso, a manifestação do Estado em uma reunião de trabalho sobre as dificuldades na comunicação com uma entidade componente do Estado Federal não significa, nem carrega por si mesma, um descumprimento a essa norma.”. No Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil (2010)46, assim como posteriormente no Caso Amrhein e outros vs. Costa Rica (2018)47, a Corte IDH concluiu que os Estados possuem o dever de adequar o Direito interno à Convenção Americana de 1969 por eles assinada, veja-se: Ainda no Caso Gomes Lund (2010), a Corte aduziu que o Poder Judiciário possui o dever de exercer controle de convencionalidade ex officio48. O Caso dos Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs Brasil (2017) foi o primeiro caso contencioso perante a Corte IDH substancialmente relacionado o inciso 1 do art. 6. Nele consignou-se que a escravidão moderna tem como característica o exercício de qualquer um dos atributos relacionados ao direito de propriedade sobre uma pessoa.49 46 “180. Com base nas considerações acima, a Corte Interamericana conclui que, devido à interpretação e à aplicação conferidas à Lei de Anistia, a qual carece de efeitos jurídicos a respeito de graves violações de direitos humanos, nos termos antes indicados (particularmente, par. 171 a 175 supra), o Brasil descumpriu sua obrigação de adequar seu Direito interno à Convenção, contida em seu art. 2, em relação aos arts. 8.1, 25 e 1.1 do mesmo tratado.”. 47 A esse respeito, este Tribunal estabeleceu que o art. 2 (...) da Convenção prevê o dever geral de Estados-Partes de adaptar sua legislação interna às disposições dessa norma para garantir os direitos nela consagrados. Esse dever implica a adoção de medidas em duas direções. Por um lado, a supressão das regras e práticas de qualquer natureza que impliquem violação às garantias previstas na Convenção. Por outro lado, a edição de normas e o desenvolvimento depráticas conducentes à aplicação efetiva de tais garantias.”. 48 “176. Este Tribunal estabeleceu em sua jurisprudência que é consciente de que as autoridades internas estão sujeitas ao império da lei e, por esse motivo, estão obrigadas a aplicar as disposições vigentes no ordenamento jurídico. No entanto, quando um Estado é Parte de um tratado internacional, como a Convenção Americana, todos os seus órgãos, inclusive seus juízes, também estão submetidos àquele, o que os obriga a zelar para que os efeitos das disposições da Convenção não se vejam enfraquecidos pela aplicação de normas contrárias a seu objeto e finalidade, e que desde o início carecem de efeitos jurídicos. O Poder Judiciário, nesse sentido, está internacionalmente obrigado a exercer um “controle de convencionalidade” ex officio entre as normas internas e a Convenção Americana, evidentemente no marco de suas respectivas competências e das regulamentações processuais correspondentes. Nessa tarefa, o Poder Judiciário deve levar em conta não somente o tratado, mas também a interpretação que a ele conferiu a Corte Interamericana, intérprete última da Convenção Americana.”. 49 “A partir do desenvolvimento do conceito de escravidão no Direito Internacional e da proibição estabelecida no art. 6 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, a Corte observa que este conceito evoluiu e já não se limita à propriedade sobre a pessoa. A esse respeito, a Corte considera que os dois elementos fundamentais para definir uma situação como escravidão são: i) o estado ou condição de um indivíduo; e ii) o exercício de algum dos atributos do direito de propriedade, isto é, que o escravizador exerça poder ou controle sobre a pessoa escravizada ao ponto de anular a personalidade da vítima. As características de cada um desses elementos são entendidas de acordo com os critérios ou fatores identificados a seguir. 270. O primeiro elemento (estado ou condição) se refere tanto à situação de jure como de facto, isto é, não é essencial a existência de um documento formal ou de uma norma jurídica para a caracterização desse fenômeno, como no caso da escravidão chattel ou tradicional. 271. Com respeito ao elemento de “propriedade”, este deve ser entendido no fenômeno de escravidão como “posse”, isto é, a demonstração de controle de uma pessoa sobre outra. Portanto, “no momento de determinar o nível de controle requerido para considerar um ato como escravidão, (…) poder-se-ia equipará-lo à perda da própria vontade ou a uma diminuição considerável da autonomia pessoal”. Nesse sentido, o chamado “exercício de atributos da propriedade” deve ser entendido nos dias atuais como o controle exercido sobre uma pessoa que lhe restrinja ou prive No Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil, a Corte IDH vislumbrou algumas características dos atos de violência sexual, que se configura com ações de natureza sexual cometidas contra outrem sem o seu consentimento, implicando, ou não, contato físico, bem como que o crime de estupro constitui uma forma de tortura.50 Ainda, neste caso, a Corte listou alguns deveres do Estado em caso de violência sexual contra a mulher, tais quais: o colhimento de depoimento da vítima em local cômodo, seguro, privado e confiável; o registro deste depoimento de maneira adequada; prestação de atendimento médico, psicológico, sanitário; possibilitar a indicação do estuprador pela vítima; a garantia da escorreita cadeia de custódia; se o caso, oferecimento de assistência jurídica gratuita; entre outros51. significativamente de sua liberdade individual, com intenção de exploração mediante o uso, a gestão, o benefício, a transferência ou o despojamento de uma pessoa. Em geral, esse exercício se apoiará e será obtido através de meios tais como a violência, fraude e/ou coação.”. 50 “246. Seguindo a linha da jurisprudência internacional, e levando em conta o disposto na Convenção de Belém do Pará, a Corte considerou que a violência sexual se configura com ações de natureza sexual que se cometem contra uma pessoa sem seu consentimento, que, além de compreender a invasão física do corpo humano, podem incluir atos que não impliquem penetração ou, inclusive, contato físico algum. 247. Do mesmo modo, seguindo o critério jurisprudencial e normativo que impera tanto no Direito Penal Internacional como no Direito Penal Comparado, o Tribunal considera que o estupro não implica necessariamente uma relação sexual sem consentimento, por via vaginal, como se considerou tradicionalmente. Por estupro também se devem entender atos de penetração vaginal ou anal, sem consentimento da vítima, mediante a utilização de outras partes do corpo do agressor ou objetos, bem como a penetração bucal com o membro viril. (...) 249. Além disso, é necessário salientar que a ausência de sinais físicos não implica que não tenham ocorrido maus-tratos, já que é frequente que esses atos de violência contra as pessoas não deixem marcas ou cicatrizes permanentes. O mesmo se aplica aos casos de violência sexual e estupro, cuja ocorrência não necessariamente se verá refletida num exame médico. (...) 251. O Tribunal ressaltou que todo uso da força que não seja estritamente necessário pelo próprio comportamento da pessoa detida constitui um atentado à dignidade humana, em violação do art. 5 da Convenção Americana. No presente caso, o Estado reconheceu que L.R.J., C.S.S. e J.F.C. foram violadas [sexualmente] por agentes públicos, o que constituiu uma violação de seu direito à integridade pessoal (art. 5.1 da Convenção Americana). [...] 252. A jurisprudência da Corte também determinou em numerosos casos que o estupro é uma forma de tortura.”. 51 “em casos de violência contra a mulher, os Estados têm, além das obrigações genéricas estabelecidas nos arts. 8 e 25 da Convenção Americana, obrigações específicas constantes do tratado interamericano específico, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará). 244. No art. 7.b, essa Convenção obriga de maneira específica os Estados-Partes a utilizar a devida diligência para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher. (...) 254. Em casos de violência contra a mulher, certos instrumentos internacionais são úteis para precisar e dar conteúdo à obrigação estatal reforçada de investigá-los com a devida diligência. Entre outros aspectos, numa investigação penal por violência sexual é necessário que: i) a vítima preste depoimento em ambiente cômodo e seguro, que lhe ofereça privacidade e confiança; ii) o depoimento da vítima seja registrado de forma tal que se evite ou limite a necessidade de sua repetição; iii) seja prestado atendimento médico, sanitário e psicológico à vítima, tanto de emergência como de forma continuada, caso seja necessário, mediante um protocolo de atendimento, cujo objetivo seja reduzir as consequências da violação; iv) se realize imediatamente um exame médico e psicológico completo e detalhado, por pessoal idôneo e capacitado, se possível do sexo que a vítima indique, oferecendo-lhe que seja acompanhada por alguém de sua confiança, caso o deseje; v) se documentem e coordenem os atos investigativos e se use diligentemente a prova, retirando amostras suficientes, realizando estudos para determinar a possível autoria do ato, assegurando outras provas, como a roupa Fixou-se, também, os deveres do Estado em caso de investigação de delitos cometidos por policiais.52 Ato seguinte, em Caso Povo Indígena Xucuru e seus membros vs. Brasil (2018), a Corte entendeu, em Sentença de 5/8/2018, que os povos indígenas possuem propriedade sobre as terras por eles ocupadas tradicionalmente.53 da vítima, investigando de forma imediata o lugar dos fatos e garantindo a correta cadeia de custódia; vi) se ofereça acesso a assistência jurídica gratuita à vítima durante todas as etapas do processo; e vii) se preste atendimento médico, sanitário e psicológico à vítima, tantode emergência como de forma continuada, caso seja solicitado, mediante um protocolo de atendimento, cujo objetivo seja reduzir as consequências da violação. Também em casos de supostos atos de violência contra a mulher, a investigação penal deve incluir uma perspectiva de gênero e ser realizada por funcionários capacitados em casos similares e em atendimento de vítimas de discriminação e violência por motivo de gênero.”. 52 “187. A esse respeito, a Corte considera que o elemento essencial de uma investigação penal sobre uma morte decorrente de intervenção policial é a garantia de que o órgão investigador seja independente dos funcionários envolvidos no incidente. Essa independência implica a ausência de relação institucional ou hierárquica, bem como sua independência na prática. Nesse sentido, nas hipóteses de supostos crimes graves em que prima facie apareçam como possíveis acusados membros da polícia, a investigação deve ser atribuída a um órgão independente e diferente da força policial envolvida no incidente, como uma autoridade judicial ou o Ministério Público, assistido por pessoal policial, técnicos em criminalística e pessoal administrativo, alheios ao órgão de segurança a que pertençam o possível acusado ou acusados. 188. O Tribunal Europeu de Direitos Humanos estabeleceu diversas circunstâncias nas quais a independência dos investigadores pode ser afetada no caso de morte decorrente de intervenção estatal. Entre elas, a Corte destaca as seguintes hipóteses: i) os mesmos policiais investigadores são suspeitos em potencial; ii) são colegas dos acusados; iii) mantêm relação hierárquica com os acusados; ou iv) a conduta dos órgãos investigadores indica falta de independência, como a falha em adotar determinadas medidas fundamentais para elucidar o caso e, oportunamente, punir os responsáveis; v) um peso excessivo concedido à versão dos acusados; vi) a omissão de não explorar determinadas linhas de investigação que eram claramente necessárias; ou vii) inércia excessiva. 189. O acima exposto não significa que o órgão investigador deva ser absolutamente independente, mas que deve ser “suficientemente independente das pessoas ou estruturas cuja responsabilidade esteja sendo atribuída” no caso concreto. A determinação do grau de independência se faz à luz de todas as circunstâncias do caso.”. 53 “117. (...) o Tribunal recorda sua jurisprudência a respeito da propriedade comunitária das terras indígenas, segundo a qual se dispõe inter alia que: 1) a posse tradicional dos indígenas sobre suas terras tem efeitos equivalentes aos do título de pleno domínio concedido pelo Estado; 2) a posse tradicional confere aos indígenas o direito de exigir o reconhecimento oficial de propriedade e seu registro; 3) os membros dos povos indígenas que, por causas alheias a sua vontade, tenham saído ou perdido a posse de suas terras tradicionais mantêm o direito de propriedade sobre elas, apesar da falta de título legal, salvo quando as terras tenham sido legitimamente transferidas a terceiros de boa-fé; 4) o Estado deve delimitar, demarcar e conceder título coletivo das terras aos membros das comunidades indígenas; 5) os membros dos povos indígenas que involuntariamente tenham perdido a posse de suas terras, e estas tenham sido trasladadas legitimamente a terceiros de boa-fé, têm o direito de recuperá- las ou a obter outras terras de igual extensão e qualidade; 6) o Estado deve garantir a propriedade efetiva dos povos indígenas e abster-se de realizar atos que possam levar a que os agentes do próprio Estado, ou terceiros que ajam com sua aquiescência ou sua tolerância, afetem a existência, o valor, o uso ou o gozo de seu território; 7) o Estado deve garantir o direito dos povos indígenas de controlar efetivamente seu território, e dele ser proprietários, sem nenhum tipo de interferência externa de terceiros; e 8) o Estado deve garantir o direito dos povos indígenas ao controle e uso de seu território e recursos naturais. Com relação ao exposto, a Corte afirmou que não se trata de um privilégio de usar a terra, o qual pode ser cassado pelo Estado ou superado por direitos à propriedade de terceiros, mas um direito dos integrantes de povos indígenas e tribais de obter a titulação de seu território, a fim de garantir o uso e gozo permanente dessa terra.”. Por fim, no Caso Herzog e outros vs. Brasil (2018), a Corte afirmou, em Sentença de 15/3/2018, que os crimes de tortura e lesa-humanidade são imprescritíveis, por força de jus cogens e do costume internacional54. Importante esclarecer que a jurisprudência do Supremo Tribunal se orienta no mesmo sentido da jurisprudência da Corte IDH, formulada no caso Herzog, e entende que, em se tratando de crimes de lesa-humanidade, estes são imprescritíveis55. 54 “Levando em consideração que o Estado reconheceu sua responsabilidade pela detenção arbitrária, tortura e assassinato de Vladimir Herzog, a controvérsia existe unicamente com respeito à possibilidade de indiciamento dos responsáveis e da aplicação da figura de crimes contra a humanidade em 1975 e figuras como a Lei de Anistia brasileira, a prescrição, princípio do ne bis in idem, coisa julgada. Nesse sentido, a Corte considerou necessário analisar, primeiramente, se os fatos constituíam um crime contra a humanidade (...). Para isso, recorreu a diversas fontes de Direito Internacional e Direito Comparado, que a permitiram identificar que, no momento dos fatos relevantes do caso (25 de outubro de 1975), a proibição da tortura e dos crimes de lesa-humanidade haviam alcançado o status de normas imperativas de Direito Internacional (jus cogens). A Corte também entendeu que, naquele momento, a imprescritibilidade dos crimes mencionados era uma norma consuetudinária firmemente estabelecida. Em outras palavras, ambas eram normas vinculantes para o Estado brasileiro no momento dos fatos, independentemente da configuração de sua legislação interna. (...). A tortura e morte de Vladimir Herzog não foram um acidente, mas a consequência de uma máquina de repressão extremamente organizada e estruturada para agir dessa forma e eliminar fisicamente qualquer oposição democrática ou partidária ao regime ditatorial, utilizando-se de práticas e técnicas documentadas, aprovadas e monitoradas detalhadamente por altos comandos do Exército e do Poder Executivo. Portanto, a Corte determinou que os fatos cometidos contra Vladimir Herzog devam ser considerados como crime de lesa-humanidade, tal qual é definido pelo Direito Internacional desde, pelo menos, 1945. (...) Por isso, concluiu que o Estado não pode invocar: (i) prescrição; (ii) o princípio ne bis in idem; (iii) leis de anistia; assim como (iv) qualquer disposição análoga ou excludente de responsabilidade similar, para eximir- se de seu dever de investigar e punir os responsáveis.”. 55 1. Conforme pacífica jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, “a satisfação da exigência concernente à dupla punibilidade constitui requisito essencial ao deferimento do pedido extradicional”(...). 3. A circunstância de o Estado requerente ter qualificado os delitos imputados ao extraditando como de lesa-humanidade não afasta a sua prescrição, porquanto (a) o Brasil não subscreveu a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a Humanidade, nem aderiu a ela; e (b) apenas lei interna pode dispor sobre prescritibilidade ou imprescritibilidade da pretensão estatal de punir (cf. ADPF 153, rel. min. Eros Grau, voto do min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, DJE de 6-8-2010). 4. O indeferimento da extradição com base nesses fundamentos não ofende o art. 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (Decreto 7.030/2009), uma vez que não se trata, no presente caso, de invocação de limitações de direito interno para justificar o inadimplemento do tratado de extradição firmado entre o Brasil e a Argentina, mas sim de simples incidência de limitação veiculada pelo próprio tratado,o qual veda a concessão da extradição “quando a ação ou a pena já estiver prescrita, segundo as leis do Estado requerente ou requerido” (art. III, c). [STF. Ext 1.362, rel. min. Edson Fachin, red. p/ o ac. min. Teori Zavascki, P, j. 9- 11-2016, DJE de 27-8-2018.] No mesmo sentido: STF. Ext 1.327 AgR, rel. min. Marco Aurélio, 1ª T, j. 27-6-2017, DJE de 1º-9-2017. 12. TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS INTERNALIZADOS NO BRASIL Nos termos da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, compete privativamente ao Presidente da República manter relações com Estados estrangeiros e acreditar seus representantes diplomáticos, bem como celebrar tratados, convenções e atos internacionais (estes sujeitos a referendo do Congresso Nacional)56. Alguns desses tratados versam sobre direitos humanos e, por ser matéria tão sensível, teriam eles status diferenciado no ordenamento jurídico? É sabido que tratados, em geral, possuem hierarquia equivalente às de leis infraconstitucionais (leis ordinárias, leis complementares). Com o advento da CF/88, contudo, a situação se modificou. Sobretudo após a Emenda Constitucional n.º 45/2004 (denominada “Reforma do Poder Judiciário”). Ela introduziu, dentre outros dispositivos, o § 3º no art. 5º da CF/88, pelo qual “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. Desse modo, verifica-se que o status no ordenamento jurídicos dos tratados que versem sobre direitos humanos é diferenciado. Aqueles aprovados mediante a regra “2235” (em dois turnos de votação, nas duas Casas do Congresso Nacional, com quórum de aprovação qualificada de 3/5 dos respectivos membros) terão status equivalente ao de emenda constitucional e, portanto, comporão o bloco constitucional brasileiro, ao lado das demais Emendas Constitucionais e da CF/88. A questão remanescente é: e aqueles tratados de direitos humanos aprovados antes da EC 45/2004 ou internalizados em o procedimento qualificado descrito no art. 5º, § 3º, da CF/88? Referida questão foi objeto do Recurso Extraordinário 466.343/SP (julgamento conjunto dos HCs n.ºs 87.585 e 92.566), de relatoria do Min. CEZAR PELUSO, Tribunal Pleno, julgado em 03 de dezembro de 2008.57 56 CF/88: Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: [...] VII - manter relações com Estados estrangeiros e acreditar seus representantes diplomáticos; VIII - celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional. 57 “PRISÃO CIVIL. Depósito. Depositário infiel. Alienação fiduciária. Decretação da medida coercitiva. Inadmissibilidade absoluta. Insubsistência da previsão constitucional e das normas subalternas. No julgado em destaque discutia-se a possibilidade (ou não) de decretação da prisão civil do depositário infiel. O Supremo Tribunal Federal, antecipe-se, concluiu pela impossibilidade da prisão, a teor do que dispunha o Pacto de San José da Costa Rica em seu art. 7º, § 7º, da CF/88. No momento do julgamento, quatro correntes doutrinárias opostas conflitavam-se. A primeira, representada por CELSO DUVIVIER DE ALBUQUERQUE, apregoava a natureza supraconstitucional dos tratados e convenções em matéria de direitos humanos. A segunda, protagonizada por CANÇADO TRINDADE, atribuía caráter constitucional a esses diplomas internacionais. A terceira, representada por XAVIER DE ALBUQUERQUE, aduzia que esses tratados possuiriam, também, status equivalente ao de lei ordinária. A quarta – e última –, adotada em diversas Constituições mundo afora, tais quais a Constituição da Alemanha (art. 25), a Constituição da França (art. 55) e a Constituição da Grécia (art. 28), asseverava que a interpretação a ser dada é aquela que confere caráter supralegal aos tratados e convenções sobre direitos humanos. A quarta tese, que atribui a característica de supralegalidade aos tratados e convenções de direitos humanos, foi a que prevaleceu na Corte Constitucional brasileira. A corrente pugna pelo argumento de que os tratados sobre direitos humanos seriam infraconstitucionais, porém, diante de seu caráter especial em relação aos demais atos normativos internacionais, também seriam dotados de um atributo de supralegalidade.58 Conclui-se, portanto, que (a) os tratados em geral possuem status equivalente ao das leis infraconstitucionais (leis ordinárias e complementares), (b) os tratados de direitos humanos aprovados em procedimento idêntico ao de emenda constitucional (em dois Interpretação do art. 5º, inc. LXVII e §§ 1º, 2º e 3º, da CF, à luz do art. 7º, § 7º, da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica). Recurso improvido. Julgamento conjunto do RE n.º 349.703 e dos HCs n.º 87.585 e n.º 92.556. É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade do depósito.”. 58 Para Cézar Peluso: “Os tratados sobre direitos humanos não poderiam afrontar a supremacia da Constituição, mas teriam lugar reservado no ordenamento jurídico. Equipará-los à legislação ordinária seria subestimar o seu valor especial no contexto do sistema de proteção dos direitos da pessoa humana. Entendo que, desde a adesão do Brasil, sem qualquer reserva, ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 11) e à Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa Rica (art. 7º, § 7º), ambos no ano de 1992, não há mais base legal para prisão civil do depositário infiel, pois o caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar específico no ordenamento jurídico, estando abaixo da Constituição, porém acima da legislação interna. O status normativo supralegal dos tratados internacionais de direitos humanos subscritos pelo Brasil, dessa forma, torna inaplicável a legislação infraconstitucional com ele conflitante, seja ela anterior ou posterior ao ato de adesão. Assim ocorreu com o art. 1.287 do Código Civil de 1916 e com o Decreto-Lei n.º 911/69, assim como em relação ao art. 652 do Novo Código Civil (Lei n.º 10.406/2002).”. turnos de votação, nas duas Casas do Congresso Nacional, por 3/5 dos respectivos membros) possuem status equivale ao de emenda constitucional e, portanto, compõem o bloco constitucional brasileiro ao lado da CF/88 e das Emendas Constitucionais, (c) os demais tratados de direitos humanos aprovados de maneira comum (distinta daquela prevista no art. 5º, § 3º, da CF/88) possuem status supralegal, situando-se acima das leis infraconstitucionais, mas abaixo do bloco constitucional brasileiro. Hierarquia dos tratados no Direito brasileiro: aplicação da pirâmide de Kelsen Tratados de direitos humanos aprovados conforme a regra "2235": status equivalente ao de Emenda Constitucional Tratados de direitos humanos aprovados de maneira diferente daquela consagrada no art. 5º, § 3º, da CF/88: status supra legal (abaixo do bloco constitucional; acima das leis infraconstitucionais). Demais tratados internalizados que versem sobre matéria diferente da de direitos humanos: status equivalente ao de lei infraconstitucional (leis ordinárias ou complementares) 13. CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE O controle de convencionalidade surge, no Brasil, com a promulgação da Emenda Constitucional n.º 45 de 2004. A partir de então, a CF/88 deixa de ser o único paradigma de controle das normas de direito interno. Assim, as normas internas devem respeitar as convenções internacionais sobre Direitos Humanos. O controle de convencionalidade (que é parecido com o controle de constitucionalidade) pode ocorrer de duas maneiras distintas, é o que denominados de controle de convencionalidade concentrado e de controle de convencionalidade difuso59. O controle de convencionalidadeconcentrado ocorre no Supremo Tribunal Federal. Ele tem como paradigmas os tratados de Direitos Humanos incorporados, internamente, pelo rito qualificado do artigo 5º, § 3º, da CF/88. Logo, o STF só pode realizar o controle de convencionalidade concentrado de leis e atos normativos internos quando o paradigma tiver status equivalente ao de Emenda Constitucional e, portanto, integre o bloco constitucional brasileiro. O STF, por vezes, pronunciou-se nesse sentido60. 59 Os Estados possuem o dever de adequar o direito interno à Convenção Americana. Nesse sentido: 259. A esse respeito, este Tribunal estabeleceu que o art. 2 (...) da Convenção prevê o dever geral de Estados-Partes de adaptar sua legislação interna às disposições dessa norma para garantir os direitos nela consagrados. Esse dever implica a adoção de medidas em duas direções. Por um lado, a supressão das regras e práticas de qualquer natureza que impliquem violação às garantias previstas na Convenção. Por outro lado, a edição de normas e o desenvolvimento de práticas conducentes à aplicação efetiva de tais garantias. [Corte IDH. Caso Amrhein e outros vs. Costa Rica. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 25-4-2018.] [Resumo oficial.] 180. Com base nas considerações acima, a Corte Interamericana conclui que, devido à interpretação e à aplicação conferidas à Lei de Anistia, a qual carece de efeitos jurídicos a respeito de graves violações de direitos humanos, nos termos antes indicados (particularmente, par. 171 a 175 supra), o Brasil descumpriu sua obrigação de adequar seu Direito interno à Convenção, contida em seu art. 2, em relação aos arts. 8.1, 25 e 1.1 do mesmo tratado. [Corte IDH. Caso Gomes Lund e outros vs. Brasil. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 24-11-2010.] [Resumo oficial.] 60 Senhor Presidente, a questão da natureza do Pacto de São José da Costa Rica surge, na verdade, porque a convenção trata de direitos humanos. Se tratasse de outros temas, penso que não haveria dúvida a respeito da sua natureza equivalente à lei ordinária, e há afirmação do Supremo Tribunal Federal (STF), desde muito tempo, nesse sentido. A questão surgiu com a Emenda 45, que veio a conferir certas características especiais às convenções sobre direitos humanos. Essa convenção foi anterior à Emenda 45, por isso que se gerou debate. Mas, mesmo que seja considerada, como reza a jurisprudência do Supremo, uma norma de hierarquia supralegal (e não constitucional), penso que o controle – que se poderia encartar no sistema de controle da convencionalidade – deve ser exercido para aferir a compatibilidade da relação entre uma norma supralegal e uma norma legal. E o exercício desse controle só pode ser da competência do STF. De modo que não vejo nenhuma dificuldade em exercer esse controle de convencionalidade no caso concreto. [STF. ADI 5.240, rel. min. Luiz Fux, voto do min. Teori Zavascki, P, j. 20-8-2015, DJE de 1º-2-2016.] Vale sublinhar, nesse passo, que, a partir do momento em que o Brasil adere a um tratado ou a uma convenção internacional, sobretudo àqueles que dizem respeito aos direitos humanos, a União assume as obrigações neles pactuadas, sujeitando- O controle de convencionalidade difuso pode ocorrer tanto no Supremo Tribunal Federal quanto em qualquer órgão do Poder Judiciário (Tribunais Superiores, Tribunais Regionais Federais, Tribunais Regionais do Trabalho, Tribunais de Justiça dos Estados da Federação, Tribunais Militares e juízes federais, do trabalho e de direito). Ele tem como paradigma todos os tratados internacionais de Direitos Humanos, sejam eles incorporados, ou não, pelo rito contido no artigo 5º, § 3º, da CF/88. Logo, o controle de convencionalidade difuso das leis e atos normativos internos pode acontecer com paradigmas que possuam status supralegal (ou, a depender do tratado, constitucional). A diferença principal entre o controle de convencionalidade concentrado e o controle de convencionalidade difuso diz respeito à eficácia da decisão judicial que reconhecer (ou não) a não convencionalidade de uma lei ou ato normativo interno. No caso do controle de convencionalidade concentrado, a decisão judicial terá eficácia erga omnes e, assim sendo, será oponível contra todos. Já no caso do controle de convencionalidade difuso, a decisão judicial terá eficácia inter partes e, dessa maneira, produzirá efeitos somente entre as partes do litígio analisado pelo órgão do Poder Judiciário responsável pela decisão. 14. O MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL) E SUA AGENDA SOCIAL E CIDADÃ No último capítulo desta apostila, estudaremos a agenda social e cidadã do Mercado Comum do Sul, composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A Venezuela, que também é parte do bloco está, na atualidade, suspensa. Já a Bolívia, que ainda não é parte, encontra-se se, inclusive, à supervisão dos órgãos internacionais de controle, porquanto somente ela possui personalidade jurídica no plano externo. (...) A própria possibilidade de federalização de violações aos direitos fundamentais, introduzida em nosso ordenamento jurídico pela Emenda Constitucional 45/2004, tem como escopo evitar a impunidade no combate às ofensas mais graves a esses valores, ao mesmo tempo em que reafirma o primado da dignidade humana como um dos pilares da República. (...) existe todo um complexo normativo de índole interna e internacional, que exige a pronta ação do Judiciário para recompor a ordem jurídica violada, em especial para fazer valer os direitos fundamentais - de eficácia plena e aplicabilidade imediata - daqueles que se encontram, temporariamente, repita-se, sob a custódia do Estado. A hipótese aqui examinada não cuida, insisto, de implementação direta, pelo Judiciário, de políticas públicas, amparadas em normas programáticas, supostamente abrigadas na Carta Magna, em alegada ofensa ao princípio da reserva do possível. Ao revés, trata-se do cumprimento da obrigação mais elementar deste Poder, que é justamente a de dar concreção aos direitos fundamentais, abrigados em normas constitucionais, ordinárias, regulamentares e internacionais. [STF. RE 592.581, rel. min. Ricardo Lewandowski, P, j. 13-8-2015, DJE de 1º-2-2016, Tema 220.] em vias de tornar-se parte, basta que os parlamentos nacionais boliviano e brasileiro ratifiquem o acordo sobre sua entrada na união aduaneira imperfeita61. O MERCOSUL62, criado pelo Tratado de Assunção, entre os quatro sócios originais supracitados, possui vasta agenda em temas de cidadania e sociais. O principal tema de cidadania e, por extensão, em matéria social, a ser citado é o Parlamento do Mercosul (Parlasul)63. 61 “A República Bolivariana da Venezuela se encontra suspensa de todos os direitos e obrigações inerentes à sua condição de Estado Parte do MERCOSUL, em conformidade com o disposto no segundo parágrafo do artigo 5° do Protocolo de Ushuaia. O Estado Plurinacional da Bolívia atualmente se encontra em processo de adesão.” (https://www.mercosur.int/pt-br/quem-somos/em-poucas- palavras/). 62 “O Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) é um processo de integração regional conformado inicialmente pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai ao qual recentemente incorporaram-se a Venezuela* e a Bolívia, esta última em processo de adesão. Os idiomas oficiais do Mercosul são o espanhol e o português. A versão oficial dos documentos de trabalho será a do idioma do país sede de cada reunião. Desde 2006, através da Decisão CMC N° 35/06, foi incorporado o Guarani como um dos idiomas do bloco. O MERCOSUL é um processo aberto e dinâmico. Desde sua criação teve – como objetivo principal propiciar um espaço comum que gerasse oportunidades comerciais e de investimentos mediante a integração competitiva das economias nacionais ao mercado internacional. Como resultado, concluiu múltiplos acordos com países ou grupos de países, outorgando-lhes, em alguns casos, status de EstadosAssociados –é a situação dos países sul-americanos–. Eles participam de atividades e reuniões do bloco e contam com preferências comerciais com os Estados Partes. O MERCOSUL também tem assinado acordos de tipo comercial, político ou de cooperação com um diverso número de nações e organismos nos cinco continentes.” (https://www.mercosur.int/pt-br/quem- somos/em-poucas-palavras/). 63 “No ano 2005 foi criado o Parlamento do MERCOSUL (PARLASUL) que substituiu a Comissão Parlamentária Conjunta. Trata-se de um órgão unicameral e de representação cidadã que incorpora a perspectiva parlamentar ao processo de integração. A composição inicial do Parlamento foi de 18 parlamentares por país, designados pelos Congressos Nacionais de cada país. O Acordo Político de 2009 estabelece normas para que os Estados Parte sejam representados, a partir das eleições diretas, de acordo com o critério demográfico. A partir das eleições diretas, o órgão terá a seguinte composição: Argentina terá 43 parlamentares, Brasil 75, Paraguai 18 Uruguai 18, e Venezuela 33. É estabelecido que para o ano 2020 todos os membros do PARLASUL sejam eleitos de forma direta. Os Parlamentares do Paraguai são eleitos diretamente para o PARLASUL desde 2007. Em 2015, na Argentina também serão eleitos diretamente. Os representantes do Brasil, Uruguai e Venezuela ainda são eleitos indiretamente entre seus legisladores nacionais. O acordo prevê o caso de que um novo Estado Parte adira ao MERCOSUL. Esse Estado contará com o número de cadeiras correspondentes de conformidade com as especificações previstas no respectivo acordo. Em julho de 2015, com a decisão que posiciona a Bolívia como membro em processo de adesão ao MERCOSUL, esse país passa a integrar o PARLASUL com direito a voz e participação, sem direito a voto. No momento em que se completar sua adesão plena, passará a contar com 18 parlamentares no órgão. O PARLASUL tem um regulamento interno que prevê dez sessões plenárias por ano, na sede em Montevidéu, ou, se solicitado, no território de qualquer Estado Parte. O PARLASUL tem dez comissões permanentes para o exercício legislativo em temáticas específicas. As comissões, compostas por 14 parlamentares cada, exercem a função de apreciação da matéria legislativa relacionada com a temática à qual estão vinculadas. A instância de maior representação do PARLASUL é a Sessão Plenária, na qual são decididos os atos formais apoiados na legitimidade que define a competência legislativa desse órgão.” (https://www.mercosur.int/pt-br/quem-somos/parlasul/). Criado em 2005, sediado em Montevidéu, de caráter consultivo e não deliberativo, unicameral e autônomo, com reuniões mensais e bancadas nacionais, o Parlasul substituiu Comissão Parlamentar Conjunta do MERCOSUL (CPC, 1994-2006). Possui as seguintes funções: elaborar relatório anual sobre situação dos Direitos Humanos nos membros; propor normas ao CMC; fomentar instrumentos de democracia representativa e participativa; emitir declarações, recomendações e informes sobre processo de integração. Sobre a representação e proporcionalidade das bancadas até 2010, havia 18 parlamentares por país. Desde 2011, Brasil conta com 37, Argentina com 26 e Paraguai e Uruguai com 18 cada. Uma vez que haja eleições diretas em todos os países (ainda não regulamentadas no Brasil), o Brasil terá 75; a Argentina, 43; a Venezuela, 32; o Paraguai e o Uruguai, 18 cada. Com o objetivo de manter a democracia nos países do bloco, vigora, no Mercosul, desde 1998, a chamada “Cláusula Democrática”64, oriunda do Protocolo de Ushuaia daquele ano. 64 CANÇADO TRINDADE (2021): “A formalização de uma cláusula democrática contou com amplo apoio entre os Estados membros. A Argentina favorecia a institucionalização do mecanismo até o limite que parecesse razoável aos demais Estados membros do MERCOSUL, sem sistemas intervencionistas. O governo uruguaio também apoiou um texto que permitisse a realização de gestões, sem automatismos convocatórios, diante de circunstâncias que ameaçassem a democracia. O Paraguai ressaltou, nesses entendimentos, que os acontecimentos no país haviam mostrado que o MERCOSUL já deixara de ser um agrupamento apenas econômico, e se tornara também político. Na visão do governo paraguaio, já existia um compromisso democrático entre os membros do MERCOSUL. [...] Além do Protocolo de Ushuaia, o MERCOSUL adotou, em 2005, outro tratado que vincula democracia e integração: o Protocolo de Assunção sobre o Compromisso com a Promoção e a Proteção dos Direitos Humanos. Na prática, ele replica o mecanismo de Ushuaia para casos de violações “graves e sistemáticas” dos direitos humanos em situações de crise institucional ou durante a vigência de estados de exceção previstos nas leis constitucionais. Embora esteja em vigor desde 2010, inclusive para o Brasil, esse instrumento nunca foi aplicado. O Protocolo de Ushuaia II84, adotado em Montevidéu (2011), e subscrito por dez países (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), não entrou em vigor internacional – e nada indica que entrará. Para isso, são necessárias quatro ratificações de Estados membros do MERCOSUL (artigo 11). Até o momento, dentre todos os signatários, apenas a Venezuela depositou o instrumento de ratificação. O Senado do Paraguai rejeitou o texto, por ampla maioria (28 votos de 32 presentes), em outubro de 2012. Naquele país, as críticas ao tratado enfatizam a sua inconstitucionalidade – ele atentaria contra a soberania paraguaia. Os dispositivos de Ushuaia II de fato são mais descritivos e intrusivos. Enquanto Ushuaia I só se refere a “ruptura da ordem democrática”, o novo instrumento descreve outras duas hipóteses de aplicação (artigo 1º): violação da ordem constitucional e qualquer situação que ponha em risco o legítimo exercício do poder e a vigência dos valores e princípios democráticos. Mas a principal característica do Protocolo é o elevado grau de coerção das sanções previstas. No rol disposto no artigo 6º, incluem-se medidas que necessariamente envolveriam o emprego de forças de segurança, quando não das forças armadas. São atos que podem impor severas restrições ao Estado afetado: fechamento total de fronteiras terrestres, suspensão dos tráfegos aéreo e marítimo, suspensão das comunicações e do fornecimento de energia e de abastecimento. Ushuaia II mais se aproximaria do modelo africano de cláusula democrática. Além de ser mais descritivo quanto às situações que motivariam a sua aplicação, o Protocolo atribui ao Conselho do Mercado Comum, no artigo 6º, Em caso de ruptura da ordem democrática, prevê-se a suspensão de processos de integração, após consultas prévias – embora requeira consenso dos demais membros. A cláusula fora aplicada ao Paraguai entre 2012 e 2013, após o impeachment de Lugo, e à Venezuela, em 2017, após usurpação da Assembleia Nacional pela ANC. Além das medidas de Ushuaia, há previsão para fechamento total ou parcial de fronteiras; suspensão de comércio, comunicações, energia, serviços e abastecimento; e suspensão de outras organizações internacionais, essas oriundas do Protocolo de Ushuaia II, que ainda não está em vigor. competências semelhantes às do Conselho de Paz e de Segurança da União Africana quando examina “mudanças inconstitucionais de governo”.(ix) direito antártico; (x) direito aéreo ou aeronáutico; (xi) direito espacial ou cósmico; (xii) direito do mar; (xiii) direito diplomático; (xiv) direito consular; e (xv) direito penal internacional. Desse modo, os direitos humanos são uma invenção humana em construção e desconstrução, dotada de racionalidade e que prima pela dignidade humana, buscando evitar a barbárie e os flagelos e se contrapor aos regimes autoritários, de modo a conferir proteção às pessoas cujos direitos humanos foram violados ou estão em vias de violação2. 2. CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS HUMANOS O jurista alemão Robert Alexy identificou cinco características essenciais dos Direitos Humanos. São elas: universalidade, direitos morais, direitos preferenciais, direitos fundamentais e direitos abstratos. Segundo AMARAL (2012), a universalidade3 diz respeito aos destinatários desses direitos, quais sejam, os seres humanos, em primeiro plano, e os grupos e comunidades que ostentem o poder de os titularizar. referente a la representación exterior de los Estados. / 14. Derecho Consular. Se encarga de todo lo ateniente a la institución consular, esto es la representación de un Estado en el extranjero a través de los consulados. / 15. Derecho Penal Internacional. Esta rama del Derecho Internacional Público, se encarga de la investigación y juzgamiento de todas aquellas personas que han cometido crímenes condenados por la comunidad internacional a través del Estatuto de la Corte Penal Internacional (CPI). 2 Para ALEXANDRE DE MORAES (2021): “Os direitos humanos fundamentais, em sua concepção atualmente conhecida, surgiram como produto da fusão de várias fontes, desde tradições arraigadas nas diversas civilizações, até a conjugação dos pensamentos filosófico-jurídicos, das ideias surgidas com o cristianismo e com o direito natural. Essas ideias encontravam um ponto fundamental em comum, a necessidade de limitação e controle dos abusos de poder do próprio Estado e de suas autoridades constituídas e a consagração dos princípios básicos da igualdade e da legalidade como regentes do Estado moderno e contemporâneo. Assim, a noção de direitos fundamentais é mais antiga que o surgimento da ideia de constitucionalismo, que tão somente consagrou a necessidade de insculpir um rol mínimo de direitos humanos em um documento escrito, derivado diretamente da soberana vontade popular.”. 3 AMARAL (2012): “1. A universalidade. Os direitos do homem são universais em relação aos seus titulares e destinatários. Os seres humanos são os únicos sujeitos com capacidade para exercê-los. Creio, diversamente de Alexy, que faltam razões plausíveis para não se atribuir aos grupos e comunidades a titularidade dos direitos humanos.”. Para o autor, o caráter de direitos morais4 é vislumbrado, eis que a validade dos direitos humanos independe de legislação positivada. Para o autor, “a norma vale, no plano moral, quando é suscetível de ser justificada racionalmente perante todos aqueles que a aceitam”. E arremata: “os direitos do homem são direitos morais sempre que puderem ser justificados em face dos indivíduos que os acolhem”. Ato seguinte, são direitos preferenciais5 porque a garantia e a efetividade dos direitos humanos conferem legitimidade e validade a todo o ordenamento jurídico, bem por isso “os direitos morais importam o direito à proteção por parte do ordenamento jurídico”. São direitos fundamentais6 por abrangerem interesses e necessidades inerentes aos indivíduos. Para Alexy, “os interesses e carências são fundamentais quando sua violação ou não satisfação provocar a morte ou grave sofrimento dos indivíduos ou quando afetar o núcleo essencial da autonomia”. Finalmente, são direitos abstratos7 e, por isso, demandam limitação para que possuam aplicabilidade em casos concretos. É dizer, deve-se ponderar os direitos em conflito, se houver, com a finalidade de efetivar esses direitos e propiciar sua aplicabilidade plena. Os direitos humanos são, portanto, direitos universais, morais, preferenciais, fundamentais e abstratos. 4 AMARAL (2012): “2. Os direitos morais. Alexy declara que a validade dos direitos morais independe da positivação efetuada pela norma jurídica. É necessário, simplesmente, que se verifique a validade moral da norma que os consagram. A norma vale, no plano moral, quando é suscetível de ser justificada racionalmente perante todos aqueles que a aceitam. Os direitos do homem são direitos morais sempre que puderem ser justificados em face dos indivíduos que os acolhem.”. 5 AMARAL (2012): “3. Os direitos preferenciais. Os direitos morais importam o direito à proteção por parte do ordenamento jurídico. Há, nesse sentido, um direito moral que postula sejam os direitos humanos reconhecidos e tutelados pelas normas legais. A garantia e eficácia dos direitos humanos têm o mérito de conferir legitimidade à ordem legal vigente. Esta circunstância assinala a posição de prioridade que os direitos humanos ocupam no quadro das normas jurídicas existentes.”. 6 AMARAL (2012): “4. Os direitos fundamentais. Os direitos do homem abrangem interesses e carências essenciais aos seres humanos. Estes interesses e carências precisam ser de tal sorte que o seu respeito possa ser fundamentado pelo direito. A fundamentabilidade explica a prioridade que desfrutam diante dos demais direitos contemplados pela ordem jurídica. Alexy ressalta que os interesses e carências são fundamentais quando sua violação ou não satisfação provocar a morte ou grave sofrimento dos indivíduos ou quando afetar o núcleo essencial da autonomia. Pertencem a esta categoria os direitos liberais clássicos bem como os direitos sociais que asseguram as condições mínimas de existência.”. 7 AMARAL (2012): “Os direitos abstratos. Os direitos do homem, por terem natureza abstrata, requerem algum tipo de limitação para que sejam aplicados aos casos concretos. Este fato pressupõe a ponderação entre os direitos em conflito, sugerindo a necessidade de se criar instâncias autorizadas a realizar ponderações juridicamente obrigatórias. O Estado, nesse contexto, é necessário não apenas como instância de concretização, mas, também, como instância apta a tomar decisões que efetivem os direitos humanos.”. As características dos direitos humanos na forma como apontadas pelo jurista e jusfilósofo alemão Robert Alexy. 3. SUBESPÉCIES DOS DIREITOS HUMANOS Os Direitos Humanos possuem três subespécies: o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH), o Direito Internacional Humanitário (DIH) e o Direito dos Refugiados. O Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) em sentido estrito (strictu sensu) é aquela ramificação aplicável à proteção dos direitos humanos em condições normais. O Direito Internacional Humanitário (DIH), é a subespécie aplicável em situações de conflitos armados. Ele possui quatro vertentes: Direito de Genebra, que protege não combatentes; Direito de Haia, que regula meios e métodos; Direito de Nova Iorque, que define a aplicação de normas do Direito Internacional dos Direitos Humanos em tempos de guerra; e Direito de Roma, que define as penas e as responsabilidades. O Direito dos Refugiados, por fim, cuida da proteção de pessoas em situações especiais de perseguição. Universalidade Direitos morais Direitos preferenciais Direitos fundamentais Direitos abstratos Principais segmentos dos Direitos Humanos 4. O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (DIDH) O Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) prioriza, sobretudo, os direitos fundamentais da pessoa humana, no âmbito internacional. É aplicável em tempos de paz. A origem do DIDH remonta à promulgação da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945. Por consequência, aqui se inicia a sistematização do DIDH. Considera-se que, nessa época, os Direitos Humanos saíram do domínio reservado aos Estados, já que a proteçãodos Direitos Humanos era, até então, feita quase que exclusivamente por meio de documentos normativos estatais. 4.1. DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS (PRIMEIRA DIMENSÃO) E DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS (SEGUNDA DIMENSÃO) Nesse contexto, os direitos civis e políticos, outrora denominados Direitos Humanos de primeira geração, exigem abstenção do Estado, pois têm como paradigma o Estado Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) Direito Internacional Humanitário (DIH) Direito dos Refugiados Liberal. Eles são os direitos de liberdade8, tais quais o direito à vida9, o direito à dignidade, o direito à liberdade de expressão, o direito à liberdade de associação, enfim. Exemplos 8 51. O art. 7 da Convenção apresenta regulamentações de dois tipos, bem diferenciadas entre si: uma geral e outra específica. A geral se encontra no primeiro parágrafo: “[t]oda pessoa tem o direito à liberdade e à segurança pessoais”. A específica é composta por uma série de garantias que protegem o direito a não ser privado da liberdade ilegalmente (art. 7.2) ou arbitrariamente (art. 7.3), a conhecer as razões da detenção e as acusações formuladas contra o detido (art. 7.4), ao controle judicial da privação da liberdade e à razoabilidade do prazo da prisão preventiva (art. 7.5), a impugnar a legalidade da detenção (art. 7.6) e a não ser detido por dívidas (art. 7.7). 52. Em sentido amplo, a liberdade seria a capacidade de fazer e não fazer tudo o que seja licitamente permitido. Em outras palavras, constitui o direito de toda pessoa de organizar, de acordo com a lei, sua vida individual e social conforme suas próprias opções e convicções. A segurança, por sua vez, seria a ausência de perturbações que restrinjam ou limitem a liberdade além do razoável. A liberdade, definida assim, é um direito humano básico, próprio dos atributos da pessoa, que se projeta em toda a Convenção Americana. Com efeito, do Preâmbulo se infere o propósito dos Estados Americanos de consolidar “um regime de liberdade pessoal e de justiça social, fundado no respeito dos direitos essenciais do homem”, e o reconhecimento de que “só pode ser realizado o ideal do ser humano livre, isento de temor e da miséria, se forem criadas condições que permitam a cada pessoa gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos”. Dessa forma, cada um dos direitos humanos protege um aspecto da liberdade do indivíduo. 53. No que tange ao art. 7 da Convenção, este protege exclusivamente o direito à liberdade física e abrange os comportamentos corporais que pressupõem a presença física do titular do direito e que se expressam normalmente no movimento físico. A segurança também deve entender-se como a proteção contra toda interferência ilegal ou arbitrária da liberdade física. No entanto, esse direito pode ser exercido de múltiplas formas e o que a Convenção Americana regulamenta são os limites ou restrições que o Estado pode impor. É desse modo que se explica que o art. 7.1 consagre em termos gerais o direito à liberdade e à segurança, e os demais parágrafos se encarreguem das diversas garantias que devem ser observadas no momento de privar alguém de sua liberdade. Desse modo também se explica que a forma pela qual a legislação interna afeta o direito à liberdade é notadamente negativa, quando permite que se prive ou restrinja a liberdade. A liberdade, portanto, será sempre a regra, e a limitação ou restrição sempre a exceção. 54. Finalmente, a Corte ressalta que qualquer violação dos parágrafos 2 a 7 do art. 7 da Convenção implicará necessariamente a violação do art. 7.1 desse Tratado, uma vez que a falta de respeito às garantias da pessoa privada da liberdade redunda, em suma, na falta de proteção do próprio direito à liberdade dessa pessoa. [Corte IDH. Caso Chaparro Álvarez e Lapo Iñiguez vs. Equador. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 21-11-2007.] [Ficha técnica.] 129. Neste caso, os fatos afetaram o direito à liberdade pessoal de María Macarena Gelman, posto que, adicionalmente ao fato de que a criança nasceu em cativeiro, sua retenção física por parte de agentes estatais, sem o consentimento de seus pais, implicou a violação de sua liberdade, nos termos mais amplos do art. 7.1 da Convenção. Esse direito implica a possibilidade de todo ser humano de se autodeterminar e escolher livremente as opções e circunstâncias que dão sentido à sua existência. No caso de crianças, ainda que sejam sujeitos titulares de direitos humanos, eles exercem seus direitos de maneira progressiva na medida em que desenvolvem um maior nível de autonomia pessoal, uma vez que, em sua primeira infância, atuam neste sentido por condução de seus familiares. Consequentemente, a separação de uma criança de seus familiares implica, necessariamente, um comprometimento do exercício de sua liberdade. [Corte IDH. Caso Gelman vs. Uruguai. Mérito e reparações. Sentença de 24-2-2011.] [Resumo oficial.] 9 A fertilização in vitro não viola o direito à vida, previsto no art. 4.1 da Convenção Americana de Direitos Humanos. Nesse sentido: “264. A Corte utilizou os diversos métodos de interpretação, os quais levaram a resultados coincidentes no sentido de que o embrião não pode ser entendido como pessoa para efeitos do art. 4.1 da Convenção Americana. Além disso, depois de uma análise das bases científicas disponíveis, a Corte concluiu que a “concepção”, no sentido do art. 4.1, ocorre a partir do momento em que o embrião se implanta no útero, razão pela qual antes desse evento não procederia a aplicação do art. 4 da Convenção. Além disso, é possível concluir das palavras “em geral” que a proteção do direito à vida em conformidade com essa disposição não é absoluta, mas é gradual e incremental segundo seu desenvolvimento, em razão de que não constitui um dever absoluto e incondicional, mas implica entender a procedência de exceções à regra geral. [Corte IDH. Caso Artavia Murillo e outros (Fecundação in vitro) vs. Costa Rica. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 28-11-2012.] [Resumo oficial.] normativos internos anteriores a 1945 10 sobre o tema são: a) a Magna Carta de 1215; b) a Declaração de Direitos, firmada na Inglaterra, em 1689 (Bill of Rights); c) a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América de 1776; d) a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, produzida na França, no contexto da Revolução Francesa, em 1789; e) a Constituição Francesa de 1791 e de 1793, respectivamente. De outro lado, os direitos econômicos, sociais e culturais, outrora denominados Direitos Humanos de segunda geração, exigem prestações positivas do Estado, pois têm como paradigma o Estado Social. Eles são os direitos de igualdade, tais quais o direito à educação11, à saúde12 e à previdência. Exemplos normativos internos anteriores a 1945 sobre o tema são: a) a Constituição Mexicana de 1917; e b) a Constituição de Weimar de 1919. 10 REZEK (2021): “Até a fundação das Nações Unidas, em 1945, não era seguro afirmar que houvesse, em direito internacional público, preocupação consciente e organizada sobre o tema dos direitos humanos. De longa data alguns tratados avulsos cuidaram, incidentalmente, de proteger certas minorias dentro do contexto da sucessão de Estados. Usava-se, por igual, do termo intervenção humanitária para conceituar, sobretudo ao longo do século XIX, as incursões militares que determinadas potências entendiam de empreender em território alheio, à vista de tumultos internos, e a pretexto de proteger a vida e o patrimônio de seus nacionais que ali se encontrassem.”. 11 Cabe mencionar que o direito à creche, como extensão do direito à educação, pode ser vislumbrado em diversas decisões nacionais e internacionais. Nesse sentido, o decidido pelo Tribunal Constitucional da Alemanha em BVerfG, 1 BvF 2/13 (2015): “O Parlamento alemão não tem o poder legislativo de promulgardisposições sobre o subsídio assistencial que fornece recursos para os pais que ficam em casa. O auxílio-creche, como previsto nas disposições agora nulas, foi concedido a um pai que não mais se qualificava para o benefício mensal dos pais e optou por cuidar de uma criança em casa em vez de enviá-lo para uma creche administrada pelo governo. O subsídio totalizava €150 ao mês por criança entre 15 a 36 meses de idade. O subsídio parental equivale a 67% da renda média dos pais antes do nascimento e é pago pelos primeiros 14 meses de vida da criança. O Tribunal afirmou que a obrigação constitucional de garantir os direitos básicos dos cidadãos não continha requisitos adicionais que tornem necessária a promulgação do subsídio assistencial necessário para estabelecer condições de vida equivalentes. As creches administradas publicamente estão abertas a todas as crianças e os pais têm o direito legalmente exequível de reivindicar um lugar neles para seus filhos. Se os pais voluntariamente optarem por renunciar a esse direito, observou o Tribunal, não aciona uma obrigação legal por parte do Governo Federal para compensá-los por essa decisão.”. 12 O art. 26 da Convenção Americana também protege o direito à saúde: 106. No que se refere ao direito à saúde protegido pelo art. 26 da Convenção Americana, a Corte observa que a redação do dispositivo indica que se trata do direito decorrente das normas econômicas, sociais e sobre educação, ciência e cultura contidas na Carta da OEA. (...) 118. (...) O Tribunal especificou que a obrigação geral se traduz no dever do Estado de assegurar o acesso das pessoas aos serviços essenciais de saúde, garantir uma prestação médica de qualidade e eficaz, assim como promover melhorias nas condições de saúde da população. 119. Em primeiro lugar, a consecução da referida obrigação começa com o dever de regular, razão pela qual a Corte indicou que os Estados são responsáveis por regular em caráter permanente a prestação de serviços (tanto público como privados) e a execução de programas nacionais relativos à prestação de serviços de qualidade. 120. Em segundo lugar, levando em consideração a Observação Geral n. 14 do Comitê DESC, este Tribunal referiu-se a uma série de elementos essenciais e inter-relacionados, que devem ser preenchidos em questões de saúde. A saber: disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade. [Corte IDH. Caso Poblete Vilches e outros vs. Chile. Mérito, reparações e custas. Sentença de 8-3-2018. Tradução livre.] [Resumo oficial.] As diferenças entre os Direitos Humanos de primeira dimensão (direitos civis e políticos) e os Direitos Humanos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) 4.2. CONTEXTO HISTÓRICO Atualmente, não se deve segmentar os Direitos Humanos em gerações. Hoje, os Direitos Humanos são indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes, como prevê, em especial, a Declaração de Viena de 1993. Antes de 1945, normas internacionais de proteção aos direitos humanos cuidavam, sobretudo, da proibição da escravidão, e foram produzidas ainda no século XIX (a exemplo dos Tratados Desiguais firmados entre Brasil e Inglaterra no contexto da Independência). Ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1917), essas normas de Direitos Humanos passam a cuidar, sobretudo, da proteção de minorias. Cria-se, então, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e uma legislação trabalhista internacional. Todavia, a sistematização dessas normas internacional, frisa-se, somente ocorreu em 1945. Não havia, até então, normas que protegessem de maneira ampla e geral qualquer pessoa humana. A Carta da ONU13 foi, portanto, o primeiro documento internacional que previu a proteção geral dos seres humanos. 13 REZEK (2021): “A Carta de São Francisco, no dizer de Pierre Dupuy, fez dos direitos humanos um dos axiomas da nova organização, conferindo-lhes idealmente uma estatura constitucional no ordenamento do direito das gentes. Três anos mais tarde, em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Direitos civis e políticos (primeira dimensão de Direitos Humanos) •Primeira dimensão •Demandam abstenção do Estado •Paradigma do Estado Liberal •Decorrem, principalmente, do direito à liberdade Direitos econômicos, sociais e culturais (segunda dimensão de Direitos Humanos) •Segunda dimensão •Demandam prestação positiva do Estado •Paradigma do Estado Social •Decorrem, principalmente, do direito à igualdade Apesar de ter sido marco fundamental, as normas previstas na Carta da ONU sobre Direitos Humanos são vagas e genéricas. São normas programáticas – normas que não impõem obrigações precisas imediatas; apenas estabelecem as bases para uma regulamentação futura. Não há especificação sobre quais Direitos Humanos devem ser promovidos. Ela não criou qualquer mecanismo de monitoramento para fiscalizar o cumprimento dos Direitos Humanos. Essa vagueza foi proposital, reflexo da ordem política bipolar que já se delineava. Os Estados Unidos da América desejavam inserir direitos civis e políticos (Direitos Humanos de primeira dimensão, como visto anteriormente); já a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), desejava inserir direitos econômicos, sociais e culturais (Direitos Humanos de segunda dimensão, como visto anteriormente). Em 1946, o ECOSOC (Conselho Econômico e Social, um dos órgãos da Organização das Nações Unidas), criou a Comissão de Direitos Humanos da ONU, que funcionou entre 1946 e 2006 e contava com 53 membros eleitos pelo próprio ECOSOC. Quando criada, tinha competência para produzir estudos, formular recomendações e preparar projetos de tratados no campo dos Direitos Humanos. Não tinha, originariamente, competência para investigar violações de Direitos Humanos, porque a Carta da ONU era interpretada no sentido de vedar essa competência. Com base nos trabalhos dessa Comissão, foram elaborados a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 (DUDH), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 (PIDCP) e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (PIDESC). 4.3. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (DUDH) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (DUDH) dispõe sobre direitos civis e políticos (artigos 4 ao 21) e sore direitos econômicos, sociais e culturais (artigos 22 ao 28). Geral aclama a Declaração Universal dos Direitos do Homem, texto que exprime de modo amplo — e um tanto precoce — as normas substantivas pertinentes ao tema, e no qual as convenções supervenientes encontrariam seu princípio e sua inspiração. A Declaração Universal dos Direitos do Homem não é um tratado, e por isso seus dispositivos não constituem exatamente uma obrigação jurídica para cada um dos Estados representados na Assembleia Geral quando, sem qualquer voto contrário, adotou-se o respectivo texto sob a forma de uma resolução da Assembleia. Por mais de uma vez, ante gestões externas fundadas no zelo pelos direitos humanos, certos países reagiram lembrando a natureza não convencional da Declaração.”. Do ponto de vista formal, não tem natureza jurídica vinculante, mas apenas força moral. Isso deve-se, mais uma vez, ao impasse entre os blocos capitalista e comunista. O objetivo era servir de base para um documento futuro juridicamente vinculante. Posteriormente, muitos de seus dispositivos se tornaram materialmente vinculantes, ou seja, algumas normas se tornaram convencionais, como o direito à vida, previsto no PIDCP; outras se tornaram costumeira, como é o caso da proibição da tortura; outra se tornaram jus cogens, como é o caso da proibição da escravidão; outras não vingaram o caráter de norma, remanescendo soft law, como é o caso do direito ao asilo14. Nesse sentido, os trabalhos da Comissão de Direitos Humanos da ONU continuaram, a fim de produzir documento juridicamente vinculante. Em função do mesmo impasse entrecapitalistas e socialistas, contudo, a Comissão decidiu, em 1951, elaborar dois pactos, em lugar de apenas um15. 14 Interpretação quanto ao direito de asilo protegido pelo art. 22.7 da Convenção Americana: O direito humano sobre o qual a Corte centrou seu trabalho interpretativo foi o “direito ao asilo” (...) No entanto, dado que o termo asilo constitui um conceito ambíguo tanto no Direito nacional como no internacional, neles expressando significados distintos, a Corte foi chamada a interpretar se o art. 22.7 da Convenção e o art. XXVII da Declaração abrangeriam um direito humano a diversas modalidades de asilo, isto é, asilo territorial, estatuto do refugiado, e asilo diplomático, ou, ao contrário, o direito de asilo nos referidos instrumentos está circunscrito a uma ou várias das referidas figuras. (...) Em conclusão, a Corte interpretou que o asilo diplomático não se encontra protegido à luz do art. 22.7 da Convenção Americana ou pelo art. XXVII da Declaração Americana. Dessa forma, o direito de buscar e receber asilo no âmbito do sistema interamericano caracteriza-se como um direito humano de buscar e receber proteção internacional no território estrangeiro (...) Finalmente, a Corte considerou pertinente pronunciar-se sobre o argumento de que o asilo diplomático constitui um costume regional e pontuou que o elemento da opinio juris necessário para determinar uma norma consuetudinária não se encontrava presente, apesar do costume dos Estados de outorgar o asilo diplomático em certas situações ou de conceder algum tipo de proteção no âmbito de suas embaixadas. [Corte IDH. OC- 25/2008. Opinião consultiva sobre a instituição do asilo e seu reconhecimento como direito humano no sistema interamericano de proteção solicitada pela República do Equador, proferida em 30-5-2018. Tradução livre.] [Inteiro teor.] 15 CARVALHO RAMOS (2020): A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 1948 foi elaborada pela extinta Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas para ser uma etapa anterior à elaboração de um “tratado internacional de direitos humanos”. O objetivo da Comissão era criar um marco normativo vinculante logo após a edição da DUDH. Porém, a Guerra Fria impediu a concretização desse objetivo e somente em 1966 (quase vinte anos depois da DUDH) foram aprovados dois Pactos Internacionais: o dos Direitos Civis e Políticos e o dos Direitos Sociais Econômicos e Culturais. Na época, a doutrina consagrou o termo “Carta Internacional de Direitos Humanos” (International Bill of Rights), fazendo homenagem às chamadas Bill of Rights do Direito Constitucional e que compreende o seguinte conjunto de diplomas internacionais: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 1948; (ii) o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966; (iii) Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966. O uso do termo “Carta Internacional de Direitos Humanos” também implicava o reconhecimento de que os dois Pactos não poderiam ser interpretados desconectados da DUDH, o que deu sistematicidade à proteção dos direitos humanos internacionais. Outra consequência da “Carta Internacional dos Direitos Humanos” foi a reafirmação do objetivo da ONU de proteger os direitos humanos, já previsto na Carta de São Francisco, mas frustrado pela Guerra Fria e pelo antagonismo entre Estados Unidos e União Soviética, dois membros extremamente influentes daquela organização. Desde a adoção dos dois Pactos, a ONU tem estimulado a adoção de vários tratados de direitos humanos em temas diversos, Nasceu, então, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966, em vigor a partir de 1966 (PIDCP), e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (PIDESC), em vigor desde 1976. O Brasil aderiu a ambos os pactos no ano de 1992. É possível que um país seja parte de somente um dos pactos, como é o caso dos Estados Unidos, que é apenas parte do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 (PIDCP). 4.4. PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS DE 1966 (PIDCP) O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 (PIDCP) é composto, majoritariamente, por normas de aplicabilidade imediata, que criam obrigações negativas (de abstenção). Exemplo é o direito à vida. Contava, originariamente, com órgão de monitoramento, o Comitê de Direitos Humanos. Esse Comitê fiscalizava apenas o cumprimento do PIDCIP. Ele não se confunde com o Conselho de Direitos Humanos da ONU, no qual os membros são representantes dos Estados que fazem parte da ONU. Ao PIDCP, convencionou-se o Protocolo Facultativo I, de 1966 e em vigor de desde 1976, que trata da possibilidade de envio de petições individuais; e o Protocolo Facultativo II, de 1989, que proíbe a pena de morte, em vigor desde 1991. O Brasil faz parte de ambos os Protocolos. 4.5. PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS DE 1966 (PIDESC) formando o chamado sistema global de direitos humanos (também chamado sistema universal ou onusiano). Atualmente o sistema global é complexo e não se limita à Carta Internacional de Direitos Humanos, sendo composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos, como a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, a Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e Membros de suas Famílias. O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (PIDESC) é composto por normas não autoaplicáveis. Elas não possuem aplicação imediata. São normas de aplicação progressiva, a exemplo do direito à educação. Originalmente, não contava com órgão de monitoramento. Contudo, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU foi criado em 1985, com competência para analisar relatórios fornecidos pelos Estados que dele participam. Ao PIDESC, convencionou-se o Protocolo Adicional de 2009, em vigor desde 2013, do qual o Brasil não é parte. A junção da DUDH (1948) com o PIDCP (1966) e o PIDESC (1966) forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. Veremos, adiante, as duas últimas subespécies dos Direitos Humanos (DIH e Direito Internacional dos Refugiados)16. 16 CARVALHO RAMOS (2020): “Os dois últimos ramos são lex specialis em relação ao DIDH, que é lex generalis, e aplicável subsidiariamente a todas as situações, na ausência de previsão específica. Além da relação de especialidade, há também uma relação de identidade e convergência. O art. 3º comum às quatro Convenções de Genebra sobre Direito Internacional Humanitário (ver abaixo) converge com a proteção de direitos humanos básicos, como o direito à vida e integridade física em tempo de paz. No mesmo sentido, há garantias fundamentais que foram adotadas nos dois Protocolos Adicionais de 1977 às Convenções de Genebra (Protocolo I, art. 75, e Protocolo II, arts. 4º a 6º). Por sua vez, o Direito Internacional dos Refugiados possui diversos pontos convergentes aos do Direito Internacional dos Direitos Humanos, como é o caso do princípio da proibição da devolução (ou proibição do rechaço – non-refoulement), que consta da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 (art. 33) e simultaneamente da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura (art. 3) e da Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 22.8 e 9), sem contar o dever dos Estados de tratar com dignidade o solicitante do refúgio, o que é espelho do dever internacional de proteger os direitos humanos (previsto na Carta da ONU). Também é constatada uma relação de complementaridade. Tanto o DIH quanto o DIR não excluem a aplicaçãogeral das normas protetivas do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Por exemplo, a Declaração e Programa de Ação da Conferência Mundial de Direitos Humanos de Viena (1993) defendeu a adoção de medidas internacionais efetivas para garantir e fiscalizar o cumprimento das normas de direitos humanos relativamente a povos sujeitos à ocupação estrangeira, devendo ser garantida uma proteção jurídica efetiva contra a violação dos Direitos Humanos desses povos, em conformidade com as normas de Direitos Humanos e com a Convenção de Genebra relativa à proteção de Civis em Tempo de Guerra (Convenção IV), de 12 de agosto de 1949, e outras normas aplicáveis de direito humanitário. Também a relação de complementaridade é notada no uso do DIDH para suprir eventuais insuficiências dos demais, uma vez que somente no DIDH é que existem sistemas de acesso das vítimas a órgãos judiciais e quase judiciais internacionais (o que não ocorre no DIR ou no DIH). Há ainda uma relação de influência recíproca. De início, o Direito Internacional dos Refugiados está ancorado no direito de todos, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, de procurar e obter, noutros países, asilo contra as perseguições de que sejam alvo, bem como o direito de regressar ao seu próprio país. Além disso, as violações graves dos direitos humanos, nomeadamente em casos de conflito armado, são um dos fatores que conduzem à criação de refugiados. Finalmente, as origens históricas também possuem raízes comuns. O mais antigo desses ramos é o DIH, voltado inicialmente à disciplina dos meios e métodos utilizados na guerra, mas que logo foi influenciado pela consolidação do DIDH, após a edição da Carta da Organização das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Direito Internacional dos Refugiados também possui diplomas e órgãos anteriores à Carta da ONU, mas seu Documentos que compõem a Carta Internacional dos Direitos Humanos 5. DIREITO INTERNACIONAL HUMANITÁRIO (DIH) O Direito Internacional Humanitário (DIH) antigamente era estudado em Direito dos Conflitos Armados, que se preocupava com o estudo do jus in bello (direito na guerra) e do jus ad bellum (direito à guerra). Trata-se de um conjunto de normas dotadas de caráter humanitário, aplicáveis em tempo de guerra. Elas visam a minimizar o impacto humanitário dos conflitos armados (legais ou ilegais). Divide-se em: Direito de Genebra, que protege não combatentes; Direito de Haia, que regula meios e métodos; Direito de Nova Iorque, que define a aplicação de normas do Direito Internacional dos Direitos Humanos em tempos de guerra; e Direito de Roma, que define as penas e as responsabilidades. Merecem destaque as quatro Convenções de Genebra de 1949 sobre a matéria, que se destinam a conferir proteção de feridos e doentes em conflito; os princípios consolidados durante a Conferência de Paz da Haia de 1919, que buscam limitar os recursos disponíveis aos combatentes, para que não se excedam desproporcionalmente durante os conflitos; a continuidade da aplicação da Carta Internacional dos Direitos Humanos mesmo quando em conflitos armados; e o Estatuto de Roma de 1998, que cria o Tribunal Penal Internacional, com competência para punir indivíduos que perpetrem crimes de guerra, de lesa-humanidade17, de genocídio ou de agressão. crescimento foi sistematizado após a Declaração Universal consagrar o direito ao asilo em seu artigo XIV.”. 17 Os Estados possuem o dever de punir perpetradores de crimes de lesa-humanidade. Nesse sentido, a jurisprudência da Corte IDH, no Caso Almonacid Areliano e outros vs. Chile. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença datada de 26/9/2006: “A obrigação, estabelecida pelo Direito Internacional, de julgar e, se forem declarados culpados, punir os perpetradores de determinados crimes internacionais, entre os quais se encontram os crimes de lesa-humanidade, desprende-se da obrigação de garantia consagrada no art. 1.1 da Convenção Americana. Essa DUDH PIDCP PIDESC Carta internacional dos direitos humanos 6. DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS O direito internacional dos refugiados, por sua vez, é o ramo dos direitos humanos que busca conferir proteção às pessoas que deixaram – compulsoriamente – seus Estados de origem, deslocando-se para outras nações. Note-se que tais pessoas se distinguem dos migrantes18 lato sensu, porquanto, neste caso, pressupõe-se a existência de um elemento voluntarista, enquanto que, para os refugiados, a compulsoriedade é a regra. Considera-se refugiado aquele que deixou seu país de origem em razão de fundado temor de perseguição por motivos raciais, confessionais, sociais ou políticos19. Ressalte-se que, obrigação implica o dever dos Estados-Partes de organizar todo o aparato governamental e, em geral, todas as estruturas através das quais se manifesta o exercício do poder público, de maneira tal que sejam capazes de assegurar juridicamente o livre e pleno exercício dos direitos humanos. Como consequência dessa obrigação, os Estados devem prevenir, investigar e punir toda violação aos direitos reconhecidos pela Convenção e procurar, ademais, o restabelecimento, caso seja possível, do direito violado e, em todo caso, a reparação dos danos produzidos pela violação dos direitos humanos. Se o aparato do Estado atua de modo que tal violação fique impune e não se restabeleça à vítima, na medida do possível, a plenitude de seus direitos, é possível afirmar que foi descumprido, em relação às pessoas sujeitas à sua jurisdição, o dever de garantir o livre e pleno exercício de seus direitos. 111. Os crimes de lesa-humanidade produzem a violação de uma série de direitos inderrogáveis reconhecidos na Convenção Americana, que não podem ficar impunes. Em reiteradas oportunidades, o Tribunal indicou que o Estado tem o dever de evitar e combater a impunidade, o que a Corte definiu como “a falta, em seu conjunto, de investigação, persecução, captura, julgamento e condenação dos responsáveis por violações dos direitos protegidos pela Convenção Americana”. Ademais, a Corte determinou que a investigação deve ser realizada por todos os meios legais disponíveis e orientada à determinação da verdade e à investigação, persecução, captura, julgamento e castigo de todos os responsáveis intelectuais e materiais dos fatos, especialmente quando agentes estatais estão ou possam estar envolvidos. A esse respeito, este Tribunal indicou que não podem ser considerados efetivos aqueles recursos que, pelas condições gerais do país ou inclusive pelas circunstâncias particulares de um caso específico, resultem ilusórios. (...) 114. Em face das considerações anteriores, a Corte avalia que os Estados não podem se eximir do dever de investigar, identificar e punir os responsáveis pelos crimes de lesa-humanidade aplicando leis de anistia ou outro tipo de normativa interna. Consequentemente, não se pode conceder anistia aos crimes de lesa-humanidade.”. 18 Destaque-se que o status migratório de uma pessoa não pode ser transmitido para os filhos: 156. Em face do exposto, e considerando o direito à nacionalidade dos filhos de migrantes da República Dominicana de acordo com o dispositivo constitucional pertinente e princípios internacionais de proteção aos migrantes, o Tribunal considera que: (a) O status migratório de uma pessoa não pode ser uma condição para a concessão de nacionalidade pelo Estado, porque o status migratório não pode jamais servir de justificativa para privar uma pessoa do direito à nacionalidade ou ao gozo e exercício de seus direitos; (b) O status migratório de uma pessoa não é transmitido aos filhos, e (c) O nascimento da pessoa no território é o único fato que precisa ser comprovado para a aquisição da nacionalidade, caso a pessoa não tenha direito a outra nacionalidade que não a do Estado onde nasceu. [Corte IDH. Caso das meninas Yean e Bosico vs. República Dominicana.Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 8-9-2005. Tradução livre.] [Ficha Técnica.] 19 Indeferimento do pedido de fechamento temporário da fronteira Brasil-Venezeula: (...) afirmar-se que a ampliação do conceito de refugiado gera, ao Estado, um dever de proteção humanitária e, lado oposto, uma justa expectativa naqueles que ingressam ou estão em vias de ingressar no território brasileiro, para que sua condição seja reconhecida como tal, ou ao menos que possa ser submetida à avaliação dos órgãos competentes. (...) mesmo quando não enquadrados em hipótese válida de incidência das normas internacionais de proteção de refugiados, imigrantes irregulares com frequência são pessoas em situação de vulnerabilidade que fazem jus à proteção geral conferida pelos instrumentos basilares de proteção dos direitos humanos, aplicáveis a toda e qualquer situação de fluxo migratório irregular. É o que insta a Declaração de São José sobre Refugiados e Pessoas Deslocadas, pela Lei de Migração (Lei n.º 13.445/2017), esse conceito foi ampliado em âmbito interno, abarcando, também, aqueles que deixaram seus Estados em razão de graves e generalizadas violações de direitos humanos. Os dois principais documentos na matéria, em âmbito internacional, são: 1) o Estatuto dos Refugiados de 1951; e 2) a Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia de 1961. Ambos tratados assinados e ratificados pelo Brasil. Apátrida, por sua vez, importante tornar claro, é o indivíduo que não possui pátria e, portanto, encontra óbices quase que intransponíveis para o exercício dos direitos humanos e das garantias fundamentais20. As três divisões dos Direitos Humanos: Direitos Internacional dos Direitos Humanos (DIDH), Direito Internacional Humanitário (DIH) e Direito Internacional dos Refugiados de 1994: “Décima. Reafirmar que tanto os refugiados como as pessoas que migram por outras razões, incluindo razões econômicas, são titulares de direitos humanos que devem ser respeitados em qualquer momento, circunstância ou lugar. Esses direitos inalienáveis devem ser respeitados antes, durante e depois do seu êxodo ou do regresso aos seus lares, devendo ser-lhes proporcionado o necessário para garantir o seu bem-estar e dignidade humana.” (...) INDEFIRO, pois, os pedidos de fechamento temporário da fronteira com a Venezuela e de limitação do ingresso de refugiados venezuelanos no Brasil. [STF. ACO 3.121 TP, rel. min. Rosa Weber, dec. monocrática, j. 6-8-2018, DJE de 8-8-2018.] 20 O Estado tem o dever de evitar o status de apátrida: 261. Além disso, se o Estado não pode ter certeza de que uma criança nascida em seu território pode adquirir a nacionalidade de outro Estado, por exemplo, a nacionalidade de um pai por ius sanguinis, esse Estado tem a obrigação de lhe conceder nacionalidade (ex lege, automaticamente), para evitar status de apátrida ao nascer, conforme o art. 20.2 da Convenção Americana. Essa obrigação também se aplica à hipótese de que os pais não podem (devido à existência de obstáculos de fato) registrar os seus filhos no Estado da sua nacionalidade. [Corte IDH. Caso dos Dominicanos e Haitianos expulsos vs. República Dominicana. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 28-8-2014. Tradução livre.] Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) Carta Internacional dos Direitos Humanos (DUDH, PIDCP e PIDESC) Confere direitos inerentes à condição de ser humano, dada a universalidade que caracteriza a vertente Direito Internacional Humanitário (DIH) Convenções de Genebra; regras de Haia; Carta Internacional dos Direitos Humanos; e Estatuto de Roma. Busca conferir proteção aos feridos e combatentes e limitar o poder bélico destes, apregoando a razoabilidade. Ademais, pune praticamentes dos crimes previstos no Estatuto de Roma. Direito dos refugiados Estatuto dos Refugiados e Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia Busa conferir proteção àqueles que deixaram, compulsoriamente, seus Estados de origem e àqueles que não têm pátria 7. OS DIREITOS HUMANOS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE 1988: ONDE ESTÃO? Quando positivados dentro de uma ordem jurídica de um país, os direitos humanos geralmente recebem nomenclatura distinta. No caso brasileiro, convencionou-se denominar de “direitos fundamentais” os direitos humanos. São todos aqueles compreendidos entre os artigos 5º a 17 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88). Podemos citar os seguintes direitos: vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade (art. 5º, “caput” e incisos, CF/8821); educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados (art. 6º, “caput” e parágrafo único, CF/8822); direitos do trabalho (art. 7º, “caput” e incisos, CF/8823); livre associação profissional ou sindical (art. 8º, “caput” e incisos, CF/8824); direito de greve (art. 9º da CF/8825); direito à nacionalidade e à naturalização (art. 12 da CF/8826); direito de votar e ser votado (arts. 1427 a 16 da CF/88); direito à existência 21 Constituição da República de 1988 - Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes. 22 Constituição da República de 1988 – Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Parágrafo único. Todo brasileiro em situação de vulnerabilidade social terá direito a uma renda básica familiar, garantida pelo poder público em programa permanente de transferência de renda, cujas normas e requisitos de acesso serão determinados em lei, observada a legislação fiscal e orçamentária. 23 Constituição da República de 1988 - Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social. 24 Constituição da República de 1988 - Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte. 25 Constituição da República de 1988 - Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. § 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. § 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. 26 Constituição da República de 1988 - Art. 12. São brasileiros: I - natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil; c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; I - naturalizados: a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. 27 Constituição da República de 1988 - Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto,com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante. de partidos políticos e representativos (art. 17 da CF/8828). Vale mencionar, ainda, o direito à participação nos progressos científicos, tecnológicos e em processos de inovação (arts. 218 e ss., da CF/8829) e ao meio ambiente (art. 225 e ss., da CF/8830). Pode-se afirmar, portanto, que os direitos humanos de primeira dimensão, na CF/88, quais sejam, os direitos civis e políticos, situam-se em seus arts. 5º e 12 a 17. Por sua vez, os direitos sociais, econômicos e culturais, que são os de segunda dimensão, encontram-se nos arts. 6º e 7º. Por fim, os direitos difusos e, consequentemente, de terceira dimensão, estão previstos, entre outros, nos artigos 218 e 225, da CF/88. Cabe lembrar que, conquanto o art. 5º, “caput”, da CF/88, mencione que é garantido “aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, ocorreu mutação constitucional deste artigo, para estender sua aplicação aos turistas (estrangeiros não residentes no país) e aos brasileiros situados alhures. As três dimensões de direitos humanos internalizadas e verificadas na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Principais artigos em que se encontram, sem prejuízo dos demais. 28 Constituição da República de 1988 – Art. 17. É livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, resguardados a soberania nacional, o regime democrático, o pluripartidarismo, os direitos fundamentais da pessoa humana e observados os seguintes preceitos: 29 Constituição da República de 1988 - Art. 218. O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa, a capacitação científica e tecnológica e a inovação. 30 Constituição da República de 1988 - Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Primeira dimensão: direitos civis e políticos Artigos 5º e 12 a 17 da CF/88 Segunda dimensão: direitos econômicos, sociais e culturais Artigos 6º e 7º da CF/88 Terceira dimensão: direitos difusos Artigos 218 e 225 da CF/88 8. PRINCÍPIOS, DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Tripé igualdade-legalidade-liberdade. Teoria geral dos direitos e garantias fundamentais em breves comentários. O artigo 5º, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88), é o artigo mais extenso da Carta Magna. Ele possui diversos incisos que trazem as garantias e direitos de 1º dimensão e impõem uma postura negativa do Estado. Trata, principalmente, dos direitos relativos à vida, à igualdade, à liberdade, à propriedade e à segurança. São direitos inalienáveis e indisponíveis, ou seja, o indivíduo não pode optar por usufruir ou não; a maioria dos direitos previstos neste artigo é de caráter autoaplicável ou de aplicação imediata, ou seja, normas de eficácia plena, com aplicação imediata e sem a necessidade de norma regulamentadora para serem exercidas, ou normas de eficácia contida, no caso em que a aplicação é imediata, mas poderá comportar restrições por norma regulamentadora. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” – A lei deve tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. A regra é a igualdade perante a lei, porem é possível a criação de critérios diferenciados ou discriminatórios para certos grupos, observando a razoabilidade e os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição. Não há, no ordenamento jurídico brasileiro, direitos absolutos31. Em caso de choque entre os direitos, cabe a avaliação do caso em concreto. Nenhum direito é absoluto e nenhum direito se sobrepõe a outro; o órgão julgador deve avaliar o caso em concreto e decidir como conciliá-los. É possível haver restrições, mas nunca a supressão total de um direito pelo outro. Exemplo destacado é o conflito entre o direito à vida e a pena de morte em caso de guerra. 31 “Os direitos e garantias individuais não têm caráter absoluto. Não há, no sistema constitucional brasileiro, direitos ou garantias que se revistam de caráter absoluto, mesmo porque razões de relevante interesse público ou exigências derivadas do princípio de convivência das liberdades legitimam, ainda que excepcionalmente, a adoção, por parte dos órgãos estatais, de medidas restritivas das prerrogativas individuais ou coletivas, desde que respeitados os termos estabelecidos pela própria Constituição. O estatuto constitucional das liberdades públicas, ao delinear o regime jurídico a que estas estão sujeitas – e considerado o substrato ético que as informa –, permite que sobre elas incidam limitações de ordem jurídica, destinadas, de um lado, a proteger a integridade do interesse social e, de outro, a assegurar a coexistência harmoniosa das liberdades, pois nenhum direito ou garantia pode ser exercido em detrimento da ordem pública ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros” (MS 23.452, Pleno, rel. min. Celso de Mello, j. 16.09.1999). O rol de direitos fundamentais não é exaustivo. Logo, não excluem outros direitos decorrentes do regime ou princípios adotados, ou dos tratados internacionais nos quais o país seja parte. Aliás, tratados de Direitos Humanos, aprovados em rito de Emenda à Constituição (art. 5º, § 3º, CF/88), serão equivalentes a esta. Os direitos fundamentais são cláusula pétrea. Não podem ser suprimidos, ou seja, os direitos fundamentais não podem ser abolidos, por exemplo: não se pode uma Emenda à Constituição abolir o inciso XXXVI da CF/88 (segurança jurídica) alegando qualquer fundamento para tanto. Trata-se de direito que não pode ser retirado do ordenamento jurídico, justamente por ser cláusula pétrea. 8.1. O PRINCÍPIO DA IGUALDADE (ISONOMIA) Pelo princípio da igualdade (isonomia), homens e mulheres são iguais perante a lei, no sentido de reconhecimento formal32. Contudo, a realidade se expressa de forma diferente, exigindo que este princípio seja relativizado, visando a garantir a igualdade material, que visa à consecução do objetivo de igualdade, mas permite que certas discriminações sejam aplicadas aos grupos que não detêm a igualdade no plano concreto, material. 32 ALEXANDRE DE MORAES (2018): “A igualdade de homens e mulheres no que se refere a exercício de direitos e cumprimento de obrigações é válida para todos os âmbitos da esfera privada e da esfera pública. A igualdade em tela fundamentou o surgimento de normas jurídicas que sem a existência dessa igualdade não seriam possíveis. A título de exemplo, a lei de guarda compartilhada (Lei 13.058/2014), que estabelece direitos e obrigações análogos no que tange à guarda dos filhos, bem como a Lei 12.015/2009, que modifica os arts. 213, 216-A e 217-A do Código Penal, substituindo os “crimes contra os costumes” pelos “crimes contra a dignidade sexual” e tornando homens e mulheres vítimas em potencial do crime de estupro. Na legislação anterior só a mulher poderia ser vítima do crime de estupro. A partir de 1988 a mulher foi transformada em um sujeito de Direito pleno no ordenamento jurídico brasileiro. Em consonância com diversos instrumentos jurídicos internacionais (citados no item “Legislação correlata”) o Brasil estabelece a Lei 11.340/2006, Lei Maria da Penha, que visa coibir “a violência doméstica e familiar contra a mulher”. Mais recentemente (Lei 13.104/2015), o artigo 121 do Código Penal foi alterado com a inclusão do crime de feminicídio, definido como um qualificador do homicídio quando praticado “contra a mulher por condições de sexo feminino”. Nos debates finais para aprovação desse novo tipo penal foi retirado otermo “gênero feminino”, substituído por “sexo feminino”. A questão da identidade de gênero foi incorporada de forma definitiva ao ordenamento jurídico brasileiro. Após a decisão do STF, de 1o de março de 2018, a Ação Declaratória de Inconstitucionalidade 4.275 decidiu, por maioria de votos, que a alteração de nome e gênero no registro civil independe de procedimento cirúrgico de transgenitalização e de autorização judicial. Isso significa dizer que, a partir do ano de 2018, a decisão a respeito da identidade de gênero de determinada pessoa é uma decisão de foro íntimo, cabendo à pessoa decidir e ao Estado acatar referida decisão. Em outras palavras, cabe a cada um de nós a escolha se deseja ser identificado como homem ou mulher na vida em sociedade.”. Por exemplo, é razoável que a mulher, devido à sua condição na sociedade, disponha de prerrogativas e direitos, o que não afronta o princípio da igualdade e permite à mulher aproximar-se materialmente do conceito formal em lei. Trata-se, portanto, de discriminação positiva. Mesma situação pode ser verificada em grupos socialmente desfavorecidos no plano material, a exemplo dos afrodescendentes e pessoas portadores de deficiência (PCD). Nesses casos, a lei permite que sejam reservadas vagas em concurso público, situação que não afasta o princípio da isonomia ou da igualdade33. Idêntica situação, de promoção da igualdade material, pode ser verificada nos casos das ações afirmativas promovidas pelo Estado34. 8.2. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE O princípio da legalidade é essencial para o Estado Democrático de Direito35. Corolário da ideia de que todos são livres para fazer tudo o que a lei não proíba; apenas a lei pode 33 Funções públicas e o direito de acesso em condições de igualdade: 200. O direito a ter acesso às funções públicas em condições gerais de igualdade protege o acesso a uma forma direta de participação na elaboração, implementação, desenvolvimento e execução das diretrizes políticas estatais através de funções públicas. Entende-se que estas condições gerais de igualdade se referem tanto ao acesso à função pública, por meio de eleição popular, como por nomeação ou designação. [Corte IDH. Caso Yatama vs. Nicarágua. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 23-6-2005.] 34 Constitucionalidade de ações afirmativas do Estado: 21. As ações afirmativas em geral e a reserva de vagas para ingresso no serviço público em particular são políticas públicas voltadas para a efetivação do direito à igualdade. A igualdade constitui um direito fundamental e integra o conteúdo essencial da ideia de democracia. Da dignidade humana resulta que todas as pessoas são fins em si mesmas, possuem o mesmo valor e merecem, por essa razão, igual respeito e consideração. A igualdade veda a hierarquização dos indivíduos e as desequiparações infundadas, mas impõe a neutralização das injustiças históricas, econômicas e sociais, bem como o respeito à diferença. No mundo contemporâneo, a igualdade se expressa particularmente em três dimensões: a igualdade formal, que funciona como proteção contra a existência de privilégios e tratamentos discriminatórios; a igualdade material, que corresponde às demandas por redistribuição de poder, riqueza e bem-estar social; e a igualdade como reconhecimento, significando o respeito devido às minorias, sua identidade e suas diferenças, sejam raciais, religiosas, sexuais ou quaisquer outras. A igualdade efetiva requer igualdade perante a lei, redistribuição e reconhecimento. [STF. ADC 41, rel. min. Roberto Barroso, P, j. 8-6-2017, DJE de 17-8-2017.] 35 ASSIS DE ALMEIDA (2018): “No Estado Absoluto, o fundamento da criação das normas jurídicas era um poder transcendental (Deus e posteriormente a própria razão). A relação entre governantes e governados era pautada pelo dever de obediência dos súditos em relação ao soberano. Com o advento da Revolução Francesa (1789), que marca o início do Direito Moderno, a baliza para produção de normas passa a ser o próprio Direito. Um sistema autopoiético – que cria a si próprio –, na definição de Niklas Luhmann. O Estado de Direito tem como um de seus principais fundamentos o princípio da legalidade. Nesse sentido, estabelece o artigo 5 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789): “Tudo que não é vedado pela lei não pode estar impedido e ninguém pode ser constrangido a fazer o que a lei não ordena.” A CF de 1988 institui o Brasil como uma República Federativa e um Estado Democrático de Direito; patente o vínculo existente entre Democracia e Direito. A produção determinar as situações positivas e negativas na conduta dos agentes. Não dispondo sobre o tema, é permitido ao agente praticar o ato sem que o Estado o puna por algo que não é permitido. As diferenças entre o princípio da legalidade do art. 5º e o princípio da legalidade do art. 37, ambos da CF/88 – O princípio da legalidade citado no artigo 37, da CF/88, representada no mnemônico LIMPE (legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência) aplica-se à administração pública, neste caso, esta deve respeitar e agir apenas na forma que a lei exigir, não dispondo do tema. Não é permitido à administração atuar deliberadamente, essa deve seguir o que a lei define e apenas o que a lei disser, abstendo-se de atuar quando não previsto em lei. legislativa deve seguir parâmetros democráticos. Na época contemporânea o princípio da legalidade não só limita o poder soberano do Estado e assegura o poder autônomo de cidadãos e cidadãs, mas também exerce um poder regulamentador que preconiza realizações para o Estado e deveres para a comunidade política como um todo. A CF de 1988, tendo como terceiro fundamento a dignidade da pessoa humana, indica o objetivo maior do princípio da legalidade, vale dizer: a proteção e a promoção da dignidade da pessoa humana. O princípio da legalidade é de fundamental importância para a segurança jurídica. Funcionando a lei como verdadeiro cânone das relações jurídicas, é preciso esclarecer qual a natureza normativa de algumas decisões. Por exemplo, aquelas advindas das agências reguladoras. Esse foi um dos desafios enfrentados pelo Poder Judiciário brasileiro nos trinta anos da CF 1988. Um desafio perverso que o Brasil enfrenta, no trigésimo ano da CF 1988, foi a decretação da intervenção federal no Rio de Janeiro (a primeira intervenção federal a ser decretada na história da CF 1988). A violência urbana na cidade do Rio de Janeiro desafia o princípio da legalidade, pois transforma o exercício da violência em instrumento de coação ilegal e ilegítimo para a prática de condutas tanto do Estado como da cidadania em geral. Observe-se nesse aspecto o papel desempenhado por grupos de traficantes e pelas milícias armadas. A Emenda Constitucional 45/2004, conhecida como Emenda da Reforma do Judiciário, estabeleceu verdadeira “natureza normativa” para duas manifestações do Supremo Tribunal Federal: as súmulas vinculantes e as teses de repercussão geral. O caótico estado do sistema prisional pátrio ensejou a elaboração da Súmula Vinculante 57, e a questão do nepotismo, algumas teses de repercussão geral. A EC 45/2004 também estabeleceu o direito à “(...) duração razoável do processo”. Importa considerar que, de acordo com pesquisas da extinta Secretaria da Reforma do Judiciário, um processo no Brasil dura, em média, dez a quinze anos. No âmbito do Direito Penal, a estrita observância da presunção de inocência com a decretação da prisão só após o trânsito em julgado da decisão prolatada pela última instância recursal, segundo alguns (principalmente operadores do Direito da Operação Lava Jato) pode inviabilizar a persecução penal. A votação do habeas corpus preventivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 4 de abril de 2018, faz erodir a segurança jurídica, uma vez que a decisão de um caso individual (de notória repercussão midiática tanto nacional como internacionalmente)