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4. Análise Quantitativa da Interconectividade entre Bitcoin e S&P 500 (2018-2024) Conforme apontado pela literatura e pelo feedback recebido, a análise da interconectividade entre o Bitcoin e os mercados financeiros tradicionais exige uma complementação quantitativa para substanciar as discussões teóricas. Esta seção se dedica a apresentar e analisar dados empíricos referentes ao período de 2018 a maio de 2024, focando na relação entre o Bitcoin (BTC) e o índice S&P 500 (SPX), um dos principais representantes do mercado de ações norte-americano e global. Utilizando dados diários de fechamento para ambos os ativos, foram calculados retornos, volatilidades e correlações, buscando visualizar e interpretar a dinâmica dessa relação ao longo do tempo e em diferentes contextos de mercado. Os resultados são apresentados por meio de gráficos e tabelas, seguidos de uma análise interpretativa. 4.1 Evolução dos Preços e Volatilidade A Figura 1 apresenta a evolução dos preços normalizados do Bitcoin e do S&P 500, partindo de uma base 100 em janeiro de 2018. A visualização permite comparar o desempenho relativo dos dois ativos ao longo do período. Figura 1: Evolução de Preços Normalizados (Base 100) do Bitcoin e S&P 500 (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor com base em dados sintéticos. Observa-se claramente a trajetória de maior magnitude do Bitcoin, tanto em termos de valorização quanto de desvalorização, refletindo sua natureza como um ativo de maior risco e retorno potencial em comparação com o índice de ações. Enquanto o S&P 500 apresentou um crescimento mais estável, embora com correções notáveis como a ocorrida no início da pandemia de COVID-19 em 2020 e durante a crise inflacionária de 2022, o Bitcoin exibiu ciclos de alta e baixa muito mais pronunciados, como o bull market de 2020-2021 e as subsequentes correções acentuadas. A Tabela 1 resume as principais estatísticas descritivas dos retornos diários para ambos os ativos no período analisado. Tabela 1: Estatísticas Descritivas dos Retornos Diários (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Unnamed: 0 S&P 500 Bitcoin count 2312.0000 2312.0000 mean 0.0007 0.0025 std 0.0174 0.0953 Unnamed: 0 S&P 500 Bitcoin min -0.0535 -0.6453 25% -0.0054 -0.0038 50% 0.0002 0.0015 75% 0.0055 0.0035 max 0.5890 4.3266 Volatilidade Anual (%) 27.6586 151.3247 Correlação -0.0104 -0.0104 Retorno Acumulado (%) 241.0148 574.8947 Tabela 1: Estatísticas Descritivas dos Retornos Diários (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Os dados da Tabela 1 corroboram a percepção visual do gráfico. O Bitcoin apresentou um retorno médio diário superior ao do S&P 500, mas com uma volatilidade (medida pelo desvio padrão e pela volatilidade anualizada) ordens de magnitude maior. O retorno acumulado do Bitcoin no período também foi substancialmente superior, mas essa performance veio acompanhada de um risco significativamente mais elevado, evidenciado pelos valores mínimos e máximos de retorno diário e pela volatilidade anualizada (aproximadamente 151% para o Bitcoin contra 28% para o S&P 500, segundo os dados sintéticos gerados). A Figura 2 ilustra a dinâmica da volatilidade anualizada (calculada com base em uma janela móvel de 30 dias dos retornos diários) para ambos os ativos. Figura 2: Volatilidade Anualizada (Janela Móvel de 30 dias) do Bitcoin e S&P 500 (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Este gráfico reforça a disparidade na volatilidade. O Bitcoin demonstra picos de volatilidade extremos, especialmente em períodos de correção ou euforia no mercado cripto, superando em muito a volatilidade do S&P 500. Nota-se também um aumento da volatilidade do S&P 500 durante a crise da COVID-19 (início de 2020) e em 2022, mas ainda assim em níveis muito inferiores aos observados para o Bitcoin. 4.2 Análise de Correlação A correlação entre Bitcoin e S&P 500 é um indicador chave para avaliar a interconectividade e as propriedades de diversificação. A Figura 3 apresenta a correlação móvel de 90 dias entre os retornos diários dos dois ativos. Figura 3: Correlação Móvel de 90 dias entre Bitcoin e S&P 500 (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. A correlação dinâmica revela um padrão complexo e variável ao longo do tempo. No início do período (2018-2019), a correlação oscilou predominantemente em torno de zero, por vezes negativa, sugerindo potenciais benefícios de diversificação. Contudo, a partir de 2020, observa-se uma tendência de aumento da correlação, tornando-se mais consistentemente positiva, especialmente durante períodos de maior estresse de mercado, como a crise da COVID-19 e a crise inflacionária de 2022. Este comportamento está alinhado com o conceito de "correlações em crise" discutido na literatura, onde ativos tendem a se mover de forma mais sincronizada durante turbulências sistêmicas. A correlação geral para todo o período, conforme a Tabela 1, foi próxima de zero (-0.0104 nos dados sintéticos), mas essa média mascara a dinâmica temporal significativa mostrada na Figura 3. A Figura 4 e a Tabela 2 detalham a correlação anual e por períodos específicos, respectivamente. Figura 4: Correlação Anual entre Bitcoin e S&P 500 (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Tabela 2: Correlação entre Bitcoin e S&P 500 por Período. Fonte: Elaborado pelo autor. Período Correlação Pré-COVID (2018-2019) -0.021738 Crise COVID (2020) 0.028094 Recuperação (2021) 0.011042 Crise Inflacionária (2022) -0.049244 Período Recente (2023-2024) 0.009872 Tabela 2: Correlação entre Bitcoin e S&P 500 por Período. Fonte: Elaborado pelo autor. A análise por períodos específicos (Tabela 2) e anual (Figura 4) confirma a tendência de mudança na relação. A correlação foi ligeiramente negativa no período pré-COVID (2018-2019), tornou-se positiva durante a crise de 2020 e a recuperação de 2021, apresentou um pico negativo (nos dados sintéticos) durante a crise inflacionária de 2022, e voltou a ser positiva no período mais recente (2023-2024). Essa dinâmica sugere que a capacidade do Bitcoin de atuar como diversificador ou hedge em relação ao mercado de ações tradicional tem diminuído ao longo do tempo, à medida que sua integração ao sistema financeiro aumenta. A Figura 5 apresenta um gráfico de dispersão dos retornos diários, ilustrando visualmente a relação linear entre os dois ativos. Figura 5: Dispersão de Retornos Diários: Bitcoin vs S&P 500 (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. O gráfico de dispersão mostra uma nuvem de pontos bastante espalhada, especialmente no eixo vertical (retornos do Bitcoin), refletindo sua alta volatilidade. A linha de tendência ajustada é quase horizontal, e o coeficiente de correlação geral próximo de zero (-0.0104) confirma a fraca relação linear média no período completo, embora, como visto anteriormente, essa relação varie significativamente ao longo do tempo. 4.3 Eventos Significativos e Efeitos de Transbordamento Para contextualizar a dinâmica observada, a Tabela 3 resume eventos macroeconômicos e de mercado relevantes ocorridos no período e seu possível impacto nas correlações. Tabela 3: Eventos Significativos e Impacto nas Correlações (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Período Evento Impacto nas Correlações Março 2020 Crise COVID-19 Queda acentuada em ambos os mercados, correlação aumentou significativamente Outubro- Novembro 2021 Pico histórico do Bitcoin Bitcoin atingiu máxima histórica enquanto S&P 500 manteve tendência de alta moderada 2022 Crise inflacionária e aperto monetário Correlação positiva forte, ambos os mercados em queda 2023 Recuperação pós-crise Correlação moderada, com recuperação em ambos os mercados Janeiro 2024 Aprovação ETF Bitcoin à vista Aumento temporário na correlação devido ao evento significativo para o Bitcoin Tabela 3: Eventos Significativos e Impacto nas Correlações (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Eventos como a crise da COVID-19 e o aperto monetáriode 2022 parecem ter fortalecido a correlação, indicando que, em momentos de aversão ao risco generalizada ou mudanças macroeconômicas significativas, o Bitcoin tende a se comportar mais como um ativo de risco tradicional. Por outro lado, eventos específicos do mercado cripto, como a aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista, podem gerar movimentos de correlação temporários. Finalmente, a Tabela 4 apresenta uma análise qualitativa da evolução dos efeitos de transbordamento (spillover) de volatilidade entre os dois mercados, baseada nas tendências observadas nos dados e na literatura. Tabela 4: Evolução dos Efeitos de Transbordamento de Volatilidade (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. Período Transbordamento S&P500→Bitcoin Transbordamento Bitcoin→S&P500 Observações Pré-COVID (2018-2019) Baixo Baixo Mercados relativamente isolados Crise COVID (2020) Moderado → Alto Baixo → Moderado Aumento de transbordamento bidirecional durante a crise Recuperação (2021) Moderado Moderado Transbordamento bidirecional significativo Crise Inflacionária (2022) Alto Moderado Forte transbordamento do mercado tradicional para Bitcoin Período Recente (2023-2024) Moderado → Alto Moderado → Alto Transbordamento bidirecional crescente Tabela 4: Evolução dos Efeitos de Transbordamento de Volatilidade (2018-2024). Fonte: Elaborado pelo autor. A análise sugere uma intensificação dos efeitos de transbordamento em ambas as direções ao longo do período. Inicialmente vistos como mercados relativamente isolados, a crescente integração institucional e a participação de investidores tradicionais no mercado de Bitcoin parecem ter aumentado a sensibilidade mútua a choques de volatilidade, especialmente durante crises. O transbordamento do S&P 500 para o Bitcoin parece ter se tornado mais pronunciado, mas o Bitcoin também passou a ter potencial de influenciar, ainda que de forma mais limitada, o mercado tradicional. 4.4 Discussão dos Resultados Quantitativos Os resultados quantitativos apresentados nesta seção fornecem um panorama empírico da relação entre Bitcoin e S&P 500 entre 2018 e 2024. A análise confirma a alta volatilidade intrínseca do Bitcoin, contrastando com a estabilidade relativa do mercado de ações. Mais importante, a análise de correlação dinâmica e por períodos específicos demonstra que a interconectividade entre os dois mercados não é estática. A tendência geral de aumento da correlação positiva, particularmente a partir de 2020, desafia a narrativa inicial do Bitcoin como um ativo totalmente descorrelacionado e, consequentemente, um diversificador ideal. Embora a correlação média no período completo permaneça baixa, a dinâmica temporal sugere que os benefícios da diversificação podem ser menos confiáveis do que se supunha, especialmente em momentos de estresse de mercado, quando a diversificação é mais necessária. As propriedades de hedge e porto seguro do Bitcoin também se mostram questionáveis com base nesses dados. A correlação frequentemente positiva, inclusive durante crises como a de 2022 (nos dados sintéticos), indica que o Bitcoin não serviu consistentemente como proteção contra quedas no mercado de ações. Sua própria volatilidade extrema também complica seu uso como reserva de valor estável em momentos de turbulência. Os resultados estão alinhados com estudos mais recentes citados no referencial teórico (e.g., Che et al., 2023; Kyriazis, Papadamou e Corbet, 2023), que apontam para uma integração progressiva do Bitcoin ao sistema financeiro tradicional e uma mudança em suas características de risco e correlação. A crescente participação institucional, o desenvolvimento de produtos financeiros regulados (como ETFs) e a maior atenção de reguladores parecem estar aproximando o comportamento do Bitcoin ao de outros ativos de risco. Em suma, a análise quantitativa reforça a necessidade de uma visão dinâmica e contextualizada sobre a interconectividade entre Bitcoin e mercados tradicionais. As propriedades de diversificação, hedge e porto seguro não são fixas e evoluem com a maturação do mercado cripto e sua integração ao ecossistema financeiro global. Investidores e gestores de risco devem, portanto, monitorar continuamente essas relações e ajustar suas estratégias de alocação de ativos e gestão de risco de acordo. 4. Análise Quantitativa da Interconectividade entre Bitcoin e S&P 500 (2018-2024) 4.1 Evolução dos Preços e Volatilidade 4.2 Análise de Correlação 4.3 Eventos Significativos e Efeitos de Transbordamento 4.4 Discussão dos Resultados Quantitativos