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CORPO, GÊNERO E SEXUALIDADE PROF. DR. MÁRCIO DE OLIVEIRA Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-reitor: Prof. Me. Ney Stival Diretora de Ensino a Distância: Profa. Ma. Daniela Ferreira Correa PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani/ Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Gabriela de Castro Pereira/ Letícia Toniete Izeppe Bisconcim/ Mariana Tait Romancini Produção Audiovisual: Eudes Wilter Pitta / Heber Acuña Berger/ Leonardo Mateus Gusmão Lopes/ Márcio Alexandre Júnior Lara Gestão da Produção: Kamila Ayumi Costa Yoshimura Fotos: Shutterstock © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Só- crates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande res- ponsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a socie- dade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conheci- mento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivên- cia no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de quali- dade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mer- cado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR UNIDADE 3WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................. 4 CARACTERÍSTICAS CORPORAIS ............................................................................................................................. 5 VIOLÊNCIA SEXUAL NO BRASIL ............................................................................................................................ 10 CORPO: ENTENDENDO ALGUMAS CARACTERÍSTICAS PROF. DR. MÁRCIO DE OLIVEIRA 01 4WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO É fato que o corpo de uma pessoa é diferente do corpo de outra pessoa. Essa diferenciação é o que nos constitui com certa diversidade corporal, ou seja, cada pessoa tem sua especificidade de corpo. É possível que tenhamos características aproximadas do corpo de outra pessoa, mas sempre teremos algo diferente também. Mesmo pensando nos corpos de gêmeos idênticos, é possível perceber diferenças entre os dois, seja no corte do cabelo ou no seu tamanho, na gordura corporal, na disposição dos dentes, etc. Assim, cada composição corporal é única. Além disso, os adereços podem contribuir para essa diferenciação: como tatuagens e piercings, por exemplo. A partir disso, você já parou para pensar que a aparência dos corpos pode ter alguma relação com discriminação ou exclusão? O que os corpos têm a ver com Educação ou escola? Será que uma determinada aparência corporal pode contribuir para que uma pessoa sofra alguma forma de preconceito? Essas indagações devem ser feitas, constantemente, por todas as pessoas. Antes de iniciarmos as discussões deste capítulo, convidamos você a fazer um exercício. Tente buscar na sua memória duas situações: uma em que você já teve uma atitude discriminatória (mesmo que apenas em pensamento); e outra em que você sofreu um ato discriminatório. Possivelmente, várias foram as lembranças que vieram a sua cabeça. Além disso, provavelmente as discriminações que você se recordou têm a ver com a apresentação dos corpos, ou seja, suas características externas. Não podemos pensar que essa prática seja algo normal ou natural. Mas, ao contrário, é construída social e culturalmente. A partir desse cenário, essa unidade apresenta uma discussão, primeiramente, sobre as características corporais. Posteriormente o debate apresentado será acerca da violência sexual no Brasil. Desejamos uma ótima leitura e ótimas reflexões. 5WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA CARACTERÍSTICAS CORPORAIS Em primeiro lugar é necessário conceituarmos o que significa corpo. Será que é apenas um conjunto de músculos, órgãos, massa, hormônios, células? Ou vai muito além disso? Será que o corpo é uma construção fixa? Ou pode ser maleável, mutável, modificável? A representação corporal é universal? Há diferenças entre os corpos de acordo com o lugar e o tempo? Questões dessa natureza contribuem para uma análise mais completa do que significa um corpo. É a partir de um entendimento macro que vamos discorrer em algumas páginas as composições de um corpo, para que seja um embasamento para as discussões de gênero e sexualidade que seguem nas próximas unidades. De acordo com o dicionário Michaelis (2017, s/p), corpo, a partir da visão fisiológica, significa “[...] conjunto de elementos físicos que constitui o organismo do homem ou do animal, formado por cabeça, tronco e membros”. No entanto, nosso corpo deve ser analisado, também, a partir de aspectos sociais, culturais, históricos etc. Nesse sentido, falar de corpo é falar também de subjetividades, considerando os gestos, as expressões, os movimentos, as alterações realizadas, as doenças, os limites, os adereços, enfim, as diferentes composições. Todo esse conjunto deve ser considerado em uma discussão mais completa acerca dessa máquina. Goellner (2010, p. 29) discute que não são apenas “[...] as semelhanças biológicas que definem [o corpo], mas fundamentalmente os significados culturais e sociais que a ele se atribuem”. Dessa forma, discutir o corpo humano apenas a partir de uma dimensão fisiológica ou biológica, é deixar de lado todas as outras características que o compõe. Figura 01 – O corpo é marcado, também, pela cultura. Fonte: Staboli (2010). 6WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Debater o corpo a partir de várias categorias de análise ou várias áreas (História, Biologia, Ciências Sociais, Medicina, Antropologia etc.) é, sem dúvida, uma maneira de olhar entendendo-o como uma relação entre a natureza e a cultura. Consistindo, assim, em uma visão ampla, mais completa, abrangente e compreensiva dos significados e dos inúmeros discursos que rodeiam o corpo humano. Portanto, o corpo é, também, uma construção social, pois lhe são atribuídas diferentes características por meio de diferentes marcas em diversos tempos e espaços, considerando aspectos econômicos, grupos sociais, geracionais, religiosos, étnicos, etc. A fome parece ser algo universal, ou seja, todas as pessoas sentem fome e precisam sacia-la. Tomando a fome como exemplo, é interessante analisarmos que nem mesmo algo posto como natural é desconectado das questões sociais e culturais. Assim, a própria fome é produto de uma cultura, ou seja, ela é saciada por meio de diferentes alimentos em diferentes culturas. Na Austrália, por exemplo, é bastante comum o uso de larvas nas refeições e isso não é muito utilizado no Brasil. Desta forma, são inúmeros os produtos que podem saciar a fome, além de que cada pessoa (ou cada corpo) sente uma necessidade diferente de alimentação. Pessoas que praticam esportes desgastantes, por exemplo, devem ter uma alimentação de acordo com as suas especificidades e necessidades energéticas. Logo, é fundamental percebermos que a fome – assim como outras necessidades de característica natural do corpo – depende, também,que deve ser seguida? Perguntas como essas contribuem para pensarmos um pouco mais sobre o assunto em questão. Desde o nascimento, as pessoas apresentam aspectos da sexualidade, principalmente em relação ao prazer: o toque, o contato, a verbalização, a visualização; todas essas ações têm relação direta com a sexualidade. A partir desse cenário, vamos discutir, nessa unidade, principalmente três questões relacionadas ao tema anunciado: em um primeiro momento vamos debater sobre a diferença entre sexo e sexualidade; posteriormente compreenderemos as diversas orientações sexuais, entendendo que não podemos desprender preconceito contra nenhuma delas; além disso, vamos discutir a importância dos movimentos sociais que buscam a igualdade entre as pessoas, sobretudo os movimentos ligados a assuntos relacionado à sexualidade humana. Mais uma vez convidados aos leitores desse material a deixarem de lado seus preconceitos, pensamentos violentos, atitudes de discriminação. Além disso, essa unidade busca criar um ambiente de discussão saudável, em que nenhuma pessoa é discriminada por conta da vivência da sua sexualidade. 34WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA SEXO X SEXUALIDADE É muito comum associarmos os termos sexo e sexualidade, como se fossem a mesma coisa ou tivessem o mesmo significado. De antemão, destacamos que são conceitos diferentes. Nesta unidade vamos apresentar alguns conceitos acerca dos termos sexo e sexualidade, levando em consideração os estudos científicos que vem sendo produzidos no Brasil e no mundo, por meio de estudiosos renomados da área. Figura 12 – Sexo e sexualidade não são sinônimos. Fonte: Cifoni (2010). Para início de diálogo, é fundamental destacarmos que sexo é a caracterização fisiológica que diferencia macho e fêmea: composto por, principalmente, um conjunto de hormônios e aparelho reprodutor (pênis nos machos e vulva nas fêmeas). Além disso, o sexo pode ser entendido como o coito, ou seja, a relação sexual praticada entre as pessoas. A partir do exposto, vale sabermos, também, que a sexualidade é mais ampla e abrangente do que o sexo. A sexualidade pode ser compreendida como uma energia, como as sensações, o afeto, o desejo, o carinho, as ações, etc. REFLITA A sexualidade interfere diretamente na saúde física e mental das pessoas, pois diz respeito à um conjunto de ações e sentimentos. 35WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA O Ministério da Saúde do Brasil publicou, em 2013, um volume dos Cadernos de Atenção Básica com o título ‘Saúde Sexual e Reprodutiva’, em que ressalta que o “[...[ sexo refere-se a um conjunto de características genotípicas e biológicas” (BRASIL, 2013, p. 17). Logo, o sexo está relacionado a aspectos ligados aos genes, e com relação a características morfológicas e fisiológicas do ser humano. Embora o sexo seja uma das dimensões importantes da sexualidade, esta última é muito mais que atividade sexual e não se limita à genitalidade ou a uma função biológica responsável pela reprodução, coloca Negreiros (2004). Portanto, a sexualidade é uma das dimensões do ser humano, sendo que cada um de nós tem uma identidade sexual que integra o modo de ser de cada um e que é inseparável da nossa humanidade. Desta forma, enfatizamos que o conceito de sexualidade é muito mais amplo que o conceito de sexo. A partir desse cenário, vamos discutir com um pouco mais de ênfase os aspectos ligados à sexualidade, haja vista, esse conceito, além de englobar o sexo propriamente dito, engloba inúmeras outras características dos seres humanos. Lourenço (2002), em sentido amplo, afirma que a sexualidade se expressa no estilo de vida que cada pessoa adota, no modo como se demonstram os afetos, na percepção erotizada dos estímulos sensoriais e também nos papéis de gênero – jeito adotado para vivenciar o feminino ou para vivenciar o masculino, que tem implicações nas relações estabelecidas entre homens e mulheres. O documento do Ministério da Saúde citado anteriormente enfatiza que a sexualidade [...] envolve, além do corpo, os sentimentos, a história de vida, os costumes, as relações afetivas e a cultura. Portanto, é uma dimensão fundamental de todas as etapas da vida de homens e mulheres, presente desde o nascimento até a morte, e abarca aspectos físicos, psicoemocionais e socioculturais (BRASIL, 2013, p. 39). O mesmo documento continua informando que Existe, atualmente, preocupação em não rotular ou estigmatizar comportamentos sexuais em “normais” ou “anormais”. Busca-se discutir os comportamentos e as práticas sexuais sem preconceitos, considerando que são relativos, dependendo da cultura, do contexto histórico, social e de vida da pessoa. Dessa forma, é fundamental valorizar, promover e incentivar o autoconhecimento, que implica buscar conhecer a si próprio, os valores, o modo de ver e viver a vida e as relações com os outros, em tomar contato com os sentimentos, em conhecer o corpo e em identificar as potencialidades e dificuldades/bloqueios de diversas ordens. Da mesma forma, é importante estimular a construção de relacionamentos que contribuam para o crescimento pessoal, que ajudem na superação das dificuldades e fortaleçam a autoestima (BRASIL, 2013, p. 40). Logo, esse conceito mais global – o de sexualidade – envolve muito mais do que as partes do corpo de uma pessoa. Envolve, sobretudo, o contexto histórico, os aspectos sociais e culturais, os relacionamentos, enfim, os comportamentos de alguém. Embora o tema sexualidade seja, ainda, um tabu, é fundamental conhecê-lo profundamente, para que não cometamos equívocos, preconceitos, discriminação, violência contra as pessoas que vivenciam a sexualidade de forma diferenciada da nossa. 36WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 13 – O tabu é um dos responsáveis pela ignorância sobre os temas corpo, gênero e sexualidade. Fonte: Golimix (2017). Os trabalhos de Sigmund Freud, já no início do século XX, são um ponto de partida para o estudo científico da sexualidade humana, se caracterizando como o começo de um caminho teórico e científico na busca da compreensão e da apreensão deste tema. O estudioso descobriu que muitas neuroses e traumas que as pessoas carregam consigo são advindos de conflitos de ordem sexual, estabelecidos nos primeiros anos de vida de uma pessoa. Essas descobertas colocaram a sexualidade bastante relacionada à vida psíquica de uma pessoa, assim fora postulada uma sexualidade infantil. Tais investigações foram muito criticadas pela sociedade puritana da época, por conta de defenderem que a criança era um indivíduo “inocente”. Nesse sentido, a sexualidade humana não tem início apenas na puberdade – como muitos defendem. Mas, na infância. Ou, antes mesmo da concepção, pois é muito comum que a mãe, o pai ou responsável pelo bebê que vai nascer já trace – mentalmente – um caminho a ser percorrido pelo bebê, inclusive em relação às questões da sexualidade. Brasil (2013) ao discutir sobre quando inicia a sexualidade humana, destaca que se inicia antes da concepção e se estende durante a vida toda. O material aponta que Desde a gestação, as interações e a afetividade estabelecida entre os pais e o bebê, assim como com os outros membros da família, são de grande importância para que o bebê se sinta seguro e amado, influenciando seu desenvolvimento saudável e sua constituição como pessoa (BRASIL, 2013, p. 42). Todo esse contato está relacionado à sexualidade e influenciará a vivência do bebê para o resto de sua vida. Desde muito pequena, a criança aprende a obter prazer com a exploração de seu corpo, aspecto importante para o desenvolvimento saudável da sexualidade. Carrara et al (2009, p. 99) explicita que a sexualidade diz respeito “[...] à privacidade e ao bem-estar de cada indivíduo, e sua expressão está constantementesujeita à pressão e à vigilância pública para que seja exercida conforme o que ‘naturalmente’ se espera”. 37WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Quando uma sociedade delimita que há uma forma “normal”, “correta” de sexualidade, essa mesma sociedade está informando que o que não segue essa norma é algo “anormal”, “errado”. Há a necessidade de se tomar cuidado com essa conceituação, pois disso pode resultar o preconceito, a violência, a discriminação. Há tempos, os estudos mais recentes relacionados à sexualidade têm enfatizado que não há “erro” ao vivenciar a sexualidade (exceto em casos de violência sexual), mas há formas diferentes de vivencia-la. Figura 14 – É preciso acabar com o preconceito. Disponível em: . Acesso em: 27 nov. 2017. É fato que nascemos dotados de determinadas capacidades biológicas, mas é fundamental compreender que o resto se constrói e vai se formando ao longo da vida e, portanto, as expressões da sexualidade humana são tão diversas. Carrara et al (2009, p. 99) ainda destacam que [...] é comum, por exemplo, que tomemos como pressuposto a ideia de que quem tem pênis é ‘homem’ e, portanto, deve se sentir ‘masculino’ e se comportar como tal, e quem tem vagina é ‘mulher’, e deve se sentir ‘feminina’ e se comportar como tal. O homem tem que desejar a mulher e a mulher, o homem e somente o homem e a mulher podem se unir em casamento e formar uma família. Isto corresponde ao que é considerado ‘certo’ e ‘normal’ pelo senso comum. Porém, um homem pode se sentir ‘masculino’ e desejar outro homem. Uma mulher pode se sentir ‘feminina’ e desejar outra mulher. Alguém que nasceu com atributos corporais masculinos e foi educado para ‘atuar como homem’ pode se sentir ‘feminino’ (ou vice-versa), a ponto de querer modificar seu corpo tornando-se tão mulher (ou tão homem) quanto quem teve esse gênero atribuído ao nascer. Portanto, utilizando esse conhecimento fundamental, a seguir vamos discutir as orientações sexuais, que, evidentemente, estão relacionadas à sexualidade, embora não se restringem apenas a essa última. 38WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA ORIENTAÇÃO SEXUAL O termo orientação sexual, muitas vezes, é confundido com sexualidade, sexo, gênero, identidade de gênero etc. Ou seja, muitas pessoas ainda desconhecem as particularidades relacionadas à orientação sexual. O não conhecimento, conforme já fora apontado neste livro, pode gerar discriminação, violência, preconceito. Portanto, é fundamental que conheçamos o conceito e suas ramificações para que não cometamos equívocos ao debater sobre o assunto. Salientamos, ainda, que o estudo ora apresentado, pode contribuir para que você, leitor, tenham um entendimento ainda maior sobre os aspectos relacionados à sua sexualidade, incluindo a sua orientação sexual. Carrara et al (2009, p. 102) definem que orientação sexual “[...] refere-se ao sexo que elegemos como objeto de desejo e afeto”. Essa definição é válida, portanto, outros autores expressam que em vez de utilizar a palavra sexo, é mais abrangente utilizarmos a palavra gênero. Então, a orientação sexual, refere-se à atração (ou ausência de atração) pelo gênero ou sexo da outra pessoa. A seguir, com o objetivo de didatizar, vamos apresentar as cinco principais formas de vivenciar a orientação sexual: NOME DEFINIÇÃO ASSEXUALIDADE É a falta de atração sexual a qualquer pessoa de qualquer gênero, ou pequeno ou inexistente interesse nas atividades sexuais humanas. BISSEXUALIDADE É a atração sexual pelo gênero masculino e pelo gêne- ro feminino. HETEROSSEXUALIDADE É a atração sexual pelo gênero oposto ao seu gênero. HOMOSSEXUALIDADE É a atração sexual pelo mesmo gênero que o seu. PANSEXUALIDADE É a atração sexual independente do gênero da outra pessoa. Quadro 06 – Definição das diversas orientações sexuais. Fonte: Elaborado pelo autor (2017). O quadro acima mostra as cinco principais manifestações acerca da orientação sexual. Conforme os estudos sobre sexualidade vão avançando, é possível que outras nomenclaturas possam surgir para definir a orientação sexual humana. Embora exista mais de uma forma de vivenciar a orientação sexual, a nossa sociedade ainda insiste em estabelecer uma única forma como sendo a mais “correta”: a heterossexualidade. Carrara et al (2009, p. 102) destacam que [...] é a heterossexualidade que é compreendida comumente como a orientação sexual correta e esperada, estando na base da ordem social em que meninas e meninos são criadas/os e educadas/os, constituindo-se como uma norma, ou uma heteronorma ou heteronormatividade. REFLITA Embora pareça irrelevante esse apontamento, é fundamental en- tendermos que uma sociedade que busca homogeneizar a orienta- ção sexual, corre o risco de cometer atos violentos contra todas as pessoas que fogem dessa suposta “norma”. 39WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Cotidianamente vemos e ouvimos notícias de que alguém sofreu alguma violência por conta da sua orientação sexual, ou seja, se o indivíduo não faz parte do grupo heterossexual, há pessoas que xingam, batem, estupram, inclusive com um número muito grande de óbitos. A homossexualidade, por exemplo, é constantemente atacada. Há pessoas que, ainda, defendem que ser homossexual é uma doença. Carrara et al (2009, p. 103) enfatizam que Em 1970 as principais associações científicas internacionais deixaram de classificar a homossexualidade como uma doença, um processo que culminou com a retirada do termo “homossexualismo” da lista de doenças mentais, no dia 17 de maio de 1990, pela Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde – OMS. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia instituiu como regra, no dia 22 de março de 1999, que os psicólogos não devem exercer qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem devem colaborar com eventos e serviços que propunham “tratamento” e “cura” da homossexualidade. A posição vigente hoje, do ponto de vista científico e ético, é a de que a vivencia da sexualidade faz parte da identidade da pessoa e deve ser compreendida em sua totalidade. Logo, a ciência já determinou que a homossexualidade (assim como a assexualidade, bissexualidade, pansexualidade) não pode ser vista como doença, são, apenas, comportamentos que fazem parte da vivência sexual de cada ser humano. Embora ainda existam pessoas que encaram as diversas formas de vivenciar a sexualidade como doença, há algum tempo esse entendimento é tido como retrógrado e equivocado por parte de especialistas que estudam acerca da sexualidade. É fundamental compreendermos que cada pessoa vivencia a sua sexualidade de uma maneira diferente e que não existe uma maneira mais “correta” que a outra. Muitas pessoas se perguntam a “causa” da homossexualidade, buscando compreender em que momento da vida uma pessoa “se torna” homossexual. No entanto, dificilmente encontramos alguém que busca a resposta para a “causa” da heterossexualidade. A ciência expõe que não há uma “[...] explicação causal simples para a orientação sexual” (CARRARA et al, 2009, p. 103). Nome do Filme: Orações para Bobby Direção: Russel Mulcahy Local e ano: EUA, 2009 Principais temas a serem debatidos: Homossexualidade, precon- ceito, discriminação em relação à orientação sexual. Sinopse: Mary é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo”. No entanto, Bobby não suporta a pressão e se atira de uma ponte, encerrando sua vida aos 20 anos de idade. Depois desse fato, Mary descobre um diário do garoto e passa a conhecer melhor o mundo dos homossexuais, tornando-se, logo, uma ativistaem prol dos di- retos gays. Este é um filme baseado na história verídica. Um filme intenso, dramático, e que espelha ainda hoje a realidade de muitos jovens no mundo (SANTOS, 2010). 40WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Insistimos que não há motivo para “descobrir” a “causa” da homossexualidade e que a orientação sexual pode estar relacionada a questões sociais, culturais, biológicos etc. Devemos encarar a orientação sexual como um desejo. E, sempre, respeitar as diferenças entre as pessoas. MOVIMENTOS SOCIAIS Os movimentos sociais contribuem – e muito – para que os grupos chamados de “minorias” alcancem ou visibilizem as suas bandeiras a favor de uma cultura do respeito. Muitos são os movimentos sociais que existem atualmente: indígenas, das mulheres, feministas, negros, LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) etc. Figura 15 – Movimentos sociais. Fonte: Mongelle (2014). Cada movimento tem uma luta e uma história que busca o combate à violência, discriminação e preconceito contra esses grupos. É fundamental compreender a história de tais grupos (ou ao menos as suas lutas) para que possamos entender as suas ações. Apresentar a história dos movimentos sociais no mundo é bastante dificultoso e não caberia nas páginas dispensadas a esta unidade. Além disso, discorrer acerca de todos os movimentos sociais no Brasil também é uma tarefa bastante difícil de realizar em poucas páginas, sobretudo pela diversidade de movimentos que nosso país abarca. Portanto, nesse momento, vamos discuti-los em linhas gerais. Não deixando de lado suas especificidades, mas abordando alguns aspectos comuns aos mais variados movimentos sociais. De acordo com Rodrigues (2017, s/p), “[...] os movimentos sociais são os meios de intervenção direta no contexto político que os grupos minoritários possuem”, ou seja, são movimentos de interferência acerca de inúmeros assuntos no aspecto social. Alonso (2009, p. 203) escreve que “[...] a ideia de grupo minoritário e, por conseguinte, o conceito de minoria tem sido debatido e compreendido de maneira diferente por pesquisadores de várias áreas”. 41WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 16 – Embora a população negra seja maior do que a não negra no Brasil, esse grupo é considerado minoria, sobretudo pela violência social que sofrem. Fonte: 90 Sheji (2017). É fundamental compreendermos, então, o que são os grupos minoritários. Carmo (2016, p. 205) explica que [...] minoria pode ser definida a partir de uma particularização de um grupo, já que a maioria se define por um agrupamento generalizado, ou seja, por um processo de generalização baseado na indeterminação de traços, os quais indicam um padrão de suposta normalidade, considerada majoritária em relação ao outro que destoar dele. A vulnerabilidade advém, pois, de pressões desse suposto padrão de normalidade, que pressiona tudo e todos que possam ser considerados diferentes. A partir da autora, e de outros estudiosos da área, a minoria pode ser designada como um grupo de pessoas que ocupam uma posição de não dominância na sociedade em que vivem, além de serem um grupo, geralmente, mais populoso. Para exemplificar: sabemos que no Brasil existem muito mais pessoas de classe social baixa do que pessoas de classe social alta. O chamado grupo minoritário, nesse caso, são os mais pobres, justamente por não ocuparem um posicionamento de dominância social. Geralmente, que toma as decisões do país, quem tem acesso aos mais variados mecanismos sociais, são as pessoas com maior poder aquisitivo. Atualmente, vivemos em uma sociedade bastante diversa e dinâmica, em que uma grande gama de diferenças coexiste diariamente. Rodrigues (2017, s/p) enfatiza que “[...] os indivíduos que integram nossa sociedade possuem necessidades inseridas em realidades diferentes. Essas necessidades precisam ser representadas em nosso contexto político para que sejam atendidas”. 42WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA O mesmo autor ainda acrescenta que “[...] não é sempre que os interesses e necessidades de determinados grupos são supridos devidamente pelo Estado ou pelos nossos representantes políticos” (RODRIGUES, 2017, s/p). Nesse sentido, por meio do conflito de interesses é que os movimentos sociais se tornam uma ferramenta fundamental de intervenção. Rodrigues (2017, s/p) descreve que Os movimentos sociais são característicos de uma sociedade plural, que se constrói em torno do embate político por interesses coletivos e/ou individuais. Assim sendo, a organização de indivíduos em prol de uma causa é uma característica de uma sociedade politicamente ativa. Os grupos que produzem ação em busca da representação política de seus anseios atuam de modo a produzir pressão direta ou indireta no corpo político de um Estado. Para isso, várias formas de ações coletivas são usadas, como a denúncia, as passeatas, marchas etc. Fica evidente que os movimentos sociais buscam demonstrar as necessidades de um grupo social para os governantes (seja nacional, estadual, municipal). É válido ressaltar que dentro dos movimentos persiste uma visão política que está incomodada com as mazelas sociais, buscando sempre a reparação da igualdade social. Funciona dessa forma quase que no mundo todo: pessoas indignadas com tais mazelas sociais (de posses, direitos, atenção, falta de serviços etc.) se unem e organizam os chamados movimentos sociais. No Brasil isso não é diferente. Medeiros (2015) chama a atenção para o fato de que a história do Brasil é marcada por lutas e revoltas populares, desde o século XVI com a Confederação dos Tamoios (1562), passando pela Insurreição Pernambucana (1645), até a Inconfidência Mineira (1789), a Guerra de Canudos (1896), a Revolução Constitucionalista de 1932 e o Impeachment do ex-presidente Fernando Collor em 1992. Assim, os movimentos sociais no Brasil têm uma história “[...] marcada por grandes lutas e embates realizados contra governos autoritários e luta pela liberdade e democracia” (MEDEIROS, 2015, s/p). Figura 17 – Bandeira da Inconfidência Mineira (1789) (um marco dos movimentos sociais). Na bandeira lê-se: “Liberdade, ainda que tardia”. Fonte: Furtado (2012). 43WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Gohn (2008) também escreve acerca dos movimentos sociais destacando-os como ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e expressar suas demandas. A mesma autora enfatiza que Na ação concreta, essas formas [os movimentos sociais] adotam diferentes estratégias que variam da simples denúncia, passando pela pressão direta (mobilizações, marchas, concentrações, passeatas, distúrbios à ordem constituída, atos de desobediência civil, negociações etc.) até as pressões indiretas (GOHN, 2011, p. 335). Portanto, as ações pelos grupos mencionados anteriormente buscam constituir uma sociedade menos desigual, em que todas as pessoas possam usufruir de seus direitos. Os movimentos realizam diagnósticos sobre a realidade social, constroem propostas. Atuando em redes, constroem ações coletivas que agem como resistência à exclusão e lutam pela inclusão social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores da sociedade civil organizada à medida que criam sujeitos sociais para essa atuação em rede. Tanto os movimentos sociais dos anos 1980 como os atuais têm construído representações simbólicas afirmativas por meio de discursos e práticas (GOHN, 2011, p. 336). Fica evidente que os movimentos sociais fazem um estudo acerca da realidade social e buscam reivindicar os direitos que ainda não foram alcançados. Todas essas ações são organizadas por meio de ações previamente definidas, a fim de alcançaros objetivos propostos. No Brasil e em vários outros países da América Latina, no fim da década de 1970 e parte dos anos 1980, ficaram famosos os movimentos sociais populares articulados por grupos de oposição aos regimes militares, especialmente pelos movimentos de base cristãos, sob a inspiração da teologia da libertação. No fim dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, o cenário sociopolítico transformou- se de maneira radical. Inicialmente, houve declínio das manifestações de rua, que conferiam visibilidade aos movimentos populares nas cidades. Alguns analistas diagnosticaram que eles estavam em crise, porque haviam perdido seu alvo e inimigo principal: os regimes militares. Em realidade, as causas da desmobilização são várias. O fato inegável é que os movimentos sociais dos anos 1970/1980, no Brasil, contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas, para a conquista de vários direitos sociais, que foram inscritos em leis na nova Constituição Federal de 1988 (GOHN, 2011, p. 342). Assim, aqui no Brasil, sobretudo a partir da década de 1990, os movimentos sociais ganharam força e vem lutando em busca de seus direitos, com o objetivo de reparar os danos causados pela falta de serviços (como Educação, saúde, assistência social etc.), reconhecimento e visibilidade (que é o caso dos LGBTT, movimento sem-terra, movimento negro etc.), e alcance de seus direitos. Os grupos de mulheres, por exemplo, foram organizados nos anos 1990 em função de sua atuação na política, criando redes de conscientização de seus direitos e frentes de lutas contra as discriminações. O movimento LGBTT também ganhou impulso e as ruas, organizando passeatas, atos de protestos e grandes marchas anuais. Numa sociedade marcada pelo machismo, isso também é uma novidade histórica. O mesmo ocorreu com o movimento negro ou afrodescendente, que deixou de ser predominantemente movimento de manifestações culturais para ser, sobretudo, movimento de construção de identidade e luta contra a discriminação racial. Os jovens também criaram inúmeros movimentos culturais, especialmente na área da música, enfocando temas de protesto, pelo rap, hip hop, etc., explica Gohn (2011). 44WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA NOME DO LIVRO: Movimentos Sociais e Redes de Mobilizações Civis no Brasil Contemporâneo AUTOR: Maria da Glória Gohn ANO DE PUBLICAÇÃO: 2010 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Este livro condensa estudos sobre os movimentos sociais, es- pecialmente no Brasil, ao longo de três décadas. Apresenta um mapa dos movimentos sociais e redes civis que tematizam e redefinem a esfera pública, construindo novos modelos organi- zativos na atualidade. Destaca-se que eles atuam num cenário contraditório, onde políticas, programas e projetos sociais levam, muitas vezes, a um engessamento destas associações, solapado sua autonomia e possível capacidade de inovação, produção de saberes e mudança social (GOHN, 2010). Os grupos de mulheres, por exemplo, foram organizados nos anos 1990 em função de sua atuação na política, criando redes de conscientização de seus direitos e frentes de lutas contra as discriminações. O movimento LGBTT também ganhou impulso e as ruas, organizando passeatas, atos de protestos e grandes marchas anuais. Numa sociedade marcada pelo machismo, isso também é uma novidade histórica. O mesmo ocorreu com o movimento negro ou afrodescendente, que deixou de ser predominantemente movimento de manifestações culturais para ser, sobretudo, movimento de construção de identidade e luta contra a discriminação racial. Os jovens também criaram inúmeros movimentos culturais, especialmente na área da música, enfocando temas de protesto, pelo rap, hip hop, etc., explica Gohn (2011). A partir desse cenário, é importante ressaltarmos, que os movimentos sociais funcionam a partir da mobilização de um grupo de pessoas com o mesmo interesse. Alonso (2009, p. 55) defende que além da solidariedade, é preciso uma rede para que os movimentos sociais se articulem, nas palavras da autora, “[...] a solidariedade não gera ação, se não puder contar com ‘estruturas de mobilização’: recursos formais, como organizações civis, e informais, como redes sociais, que favorecem a organização”. A mesma autora ainda acrescenta que “[...] a mobilização é, então, o processo pelo qual um grupo cria solidariedade e adquire controle coletivo sobre os recursos necessários para sua ação” (ALONSO, 2009, p. 55). Portanto, um grupo que almeja se organizar coletivamente precisa focar nos objetivos e se articular conjuntamente para discuti-los, defende-los, reivindica-los etc. É fato, ainda, que vários autores já escreveram sobre os variados movimentos sociais e, aparentemente, não há um consenso entre o seu conceito. Nessa linha de pensamento, Alonso (2009, p. 81) explica que Com tantas definições disponíveis e raríssimos estudos empíricos de escala efetivamente planetária, as teorias dos movimentos sociais estão também longe do consenso quando tratam de mobilizações “globais”. Seguem ainda indemonstradas as fronteiras entre movimentos nacionais e globais. E promete dar pano para manga a conversa sobre a “novidade” do ativismo “global”, como deu a celeuma sobre velhos e novos movimentos sociais. 45WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A autora explica que o termo “movimentos sociais” está ligado a outros conceitos fundamentais, a exemplo de cultura e globalização, sobretudo pelo fato de a cultura contribuir para a existência – ou não – de movimentos dessa natureza e, além disso, a globalização diz respeito à abrangência desse ativismo conjunto, coloca Alonso (2009). Mais recentemente, o que tem contribuído para a mobilização dos movimentos sociais é a internet. A partir da década de 1990, os usuários dessa nova tecnologia têm se organizado para ações conjuntas por meio dessa ferramenta. Moraes (2000, p. 142) expõe que O ambiente tendencialmente interativo, cooperativo e descentralizado da introduz um componente inesperado e criativo nas lutas sociais da segunda metade dos anos 90. Partidos, sindicatos, organizações não-governamentais e até grupos guerrilheiros, ainda que eventualmente separados por estratégias e táticas de ação, descobrem no ciberespaço possibilidades de difundir suas reivindicações. Destarte, o ciberespaço tem funcionado como lócus para diversificados grupos organizarem suas reivindicações, inclusive combinando atividades de mobilização presencial como passeatas, manifestos, documentos etc. A internet tem, dessa forma, possibilitado a divulgação de inúmeras ideias de grupos minoritários. Moraes (2000, p. 142) escreve que O que se busca é promover a disseminação de ideias e o máximo de intercâmbios. Poder interagir com quem quer apoiar, criticar, sugerir ou contestar. Como também driblar o monopólio de divulgação, permitindo que forças contra hegemônicas se expressem com desenvoltura, enquanto atores sociais empenhados em alcançar a plenitude da cidadania e a justiça social Dessa forma, os mais diversificados assuntos podem ser reivindicados a partir de uma ferramenta que possibilita maior visibilidade. Logo, a comunicação online vem alargando as possibilidades de divulgação de ideias e ações, contribuindo para a união de pessoas que pensam da mesma forma sobre um determinado assunto em comum. Vale ressaltar, então, que as ferramentas da web podem propiciar aos movimentos sociais certa intervenção ágil em assuntos peculiares a um grupo, acentuando-lhes a visibilidade pública por meio de uma ferramenta que abrange inúmeros espaços. Ainda, há outro fator positivo: a constituição de comunidades virtuais por afinidades eletivas, explica Moraes (2000), formando coletivos em rede, sobretudo por meio de aproximações temáticas. Nesse sentido, a internet tem contribuído para o objetivo dos movimentos sociais contemporâneosque é de promover a democratização das relações sociais no interior da sociedade, buscando problematizar os papeis, as normas, as identidades e a forma de interpretar os discursos existentes social e culturalmente. Disso, denota-se que os espaços online têm contribuído para a disseminação de ideias dos mais variados movimentos sociais, sobretudo porque esses movimentos dependem, em grande escala, da comunicação existente na sociedade. Ressaltamos que a internet pode contribuir na divulgação de ideia a partir de e-mails, boletins informativos, abaixo-assinados, redes sociais (facebook, intagram, twitter, etc.). Em relação ao ativismo virtual, Pereira (2011, p. 14) acrescenta que [...] a internet permite uma interação mais descentralizada e a mais baixo custo, os atores que são mais ativos virtualmente são aqueles que já possuem um interesse pelo ativismo político e, por último, aqueles que ficam mais conectados realizando ações políticas virtuais são também os mais ativos nas ações presenciais. 46WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Nesse sentido, as pessoas que desprendem um tempo para se dedicar a uma causa social por meio da internet, geralmente é um indivíduo já engajado na causa e quem consegue colaborar com os movimentos sociais a partir de um custo relativamente pequeno. Figura 18 – A internet contribuindo para os movimentos sociais. Fonte: Toledo (2018). Ainda, é possível compreender que quem é engajado virtualmente, em sua maioria, são pessoas engajadas presencialmente, ou seja, indivíduos que participam de mobilizações, ações, práticas, manifestações juntamente com o grupo que defende a sua causa. Mesmo a ferramenta virtual contribuindo para a organização dos movimentos sociais, é fundamental lembrarmos que nem todo mundo, ainda, tem acesso a essa ferramenta, de modo que ainda é necessário utilizar meios mais tradicionais como, por exemplo, a mídia aberta como a televisão, o rádio, os jornais, etc. Dessa forma, é possível atrelar as novas tecnologias com os mecanismos mais tradicionais, a fim de mobilizar o maior número de pessoas frente a uma determinada causa. UNIDADE 47WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 48 O PAPEL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO SEXUAL .................................................................................................... 49 DOCUMENTOS QUE REGEM QUESTÕES DE CORPO, GÊNERO, SEXUALIDADE NA ESCOLA .......................... 53 EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA PROF. DR. MÁRCIO DE OLIVEIRA 04 48WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Hoje em dia, visivelmente, cresceu o debate em torno dos conteúdos que as escolas devem – ou não – ensinar aos seus alunos. Além disso, outra preocupação é a respeito da formação do corpo docente para encarar os diversos temas que surgem no decorrer das aulas. Assim, alguns questionamentos são fundamentais para discutirmos a prática docente: será que os professores, em sua maioria, sabem lidar com temas relacionados à sexualidade? A escola deve discutir temas considerados tabus? Os professores devem discutir temas tabus a partir de suas concepções pessoais ou a partir da ciência? Tais questionamentos dão um direcionamento para pensarmos a Educação sexual na escola. É fundamental que a instituição escolar seja um lugar de debate em torno dos temas que geram angústia e curiosidade nas crianças. É sabido que as famílias têm papel fundamental na formação das crianças, no entanto, esse papel deve ser complementado com conhecimentos científicos elaborados historicamente. E nessa segunda fase, a escola é primordial para esse trabalho. Ainda ressaltamos que, na escola, por meio de profissionais qualificados, é possível que os alunos entrem em contato com os nomes científicos das partes do corpo (por exemplo, pênis em vez de pipi; e vulva em vez de periquita), além de discutirem sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, buscando o empoderamento desse grupo. Desta forma, a presente unidade apresenta, em um primeiro momento, uma discussão acerca do papel da escola na formação sexual do ser humano. Posteriormente, essa unidade discorrerá sobre os documentos que regem as questões relacionadas ao corpo, ao gênero e à sexualidade nas instituições escolares. 49WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA O PAPEL DA ESCOLA NA FORMAÇÃO SEXUAL É fato que a formação de um indivíduo deve abranger os mais variados assuntos: Educação, Saúde, Política, Sexualidade etc. Este último é visto, ainda, como um tema tabu. No entanto, para vivenciarmos uma boa sexualidade (sexo, afeto, carinho, desejo, cuidados com o corpo etc.), é fundamental termos conhecimento acerca do assunto. Além disso, devemos ressaltar que se uma criança não obtém respostas para suas perguntas em um ambiente responsável (como a escola, por exemplo), geralmente ela buscará respostas com amigos, colegas, conhecidos que podem não possuir o conhecimento necessário para sanar tais dúvidas, inclusive, muitas vezes, esse conhecimento é munido de preconceito, discriminação, informações equívocas etc. Mas, para que a escola saiba lidar com as questões voltadas a gênero e sexualidade, essa instituição também precisa avançar nas discussões de tais assuntos, ao passo que deve respeitar as diferenças e combater todas as formas de violência. Figura 19 – Escola: lugar de conhecimento científico. Fonte: Alho (2016). Aos poucos, as escolas têm avançado nos debates em torno de questões consideradas como tabus. No entanto, é fundamental compreendermos que a escola ainda pode ser um local de discriminação. Louro (2010, p. 57) afirma que: Diferenças, distinções, desigualdades... A escola entende disso. Na verdade, a escola produz isso. Desde seus inícios, a instituição escolar exerceu uma ação distintiva. Ela se incumbiu de separar os sujeitos – tornando aqueles que nela entravam distintos dos outros, os que a ela não tinham acesso. Ela dividiu também, internamente, os que lá estavam, através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento, hierarquização. Portanto, essa instituição ainda precisa aprender muito sobre respeito e combate à violência, iniciando essa atividade junto aos seus profissionais e junto a quem dela faz parte. 50WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 20 – Formação de professores. Fonte: Pedro (2016). Louro (2010, p. 57) ainda acrescenta que a escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna “[...] começou por separar adultos de crianças, católicos e protestantes. Ela também se fez diferente para os ricos e para os pobres e ela imediatamente separou os meninos das meninas”. Toda essa segregação, de certa forma, contribui para a difusão da discriminação e outras formas de violência. Ao passo que a escola acolhe uns e deixa outros de lado, essa divisão pode gerar inúmeros problemas, incluindo o afastamento daquilo que é considerado “diferente” socialmente. Nesse sentido, [...] a escola delimita espaços. Servindo-se de símbolos e códigos, ela afirma o que cada um pode (ou não pode) fazer, ela separa e institui. Informa o “lugar” dos pequenos e dos grandes, dos meninos e das meninas. Através de seis quadros, crucifixos, santas ou esculturas, aponta aqueles/as que deverão ser modelos e permite, também, que os sujeitos se reconheçam (ou não) nesses modelos (LOURO, 2010, p. 58). Destarte, se a escola for deixar em visibilidade algum objeto religioso, por exemplo, é fundamental que deixe objetos de todas as religiões, com o objetivo de abranger as mais variadas crenças. A mesma orientação serve para outras situações, de modoque sejam enaltecidas todas as etnias, as posições econômicas etc. Isso serve para que os alunos se sintam representados no ambiente escolar. REFLITA Embora pareça irrelevante esse apontamento, é fundamental en- tendermos que uma sociedade que busca homogeneizar a orienta- ção sexual, corre o risco de cometer atos violentos contra todas as pessoas que fogem dessa suposta “norma”. 51WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Silva e Neto (2006, p. 186) apontam que “[...] a Educação Sexual de crianças e de jovens sempre existiu, mas se fez mais pela omissão e repressão do que por intermédio de uma educação dialogal, humanista e libertária”. Logo, percebemos que a habilidade em discutir temas relacionados à sexualidade, diversidade sexual e gênero ainda não estão presentes em quase todas as escolas. Figura 21 – A educação sexual ainda é feita por meio de omissão e repressão. Fonte: Lazanski (2012). Por isso, defendemos que os professores e toda a equipe escolar deve participar de uma formação relacionada às questões de corpo, gênero e sexualidade, a fim de conseguirem lidar com os assuntos quando esses aparecem em suas aulas, por exemplo. Nesse sentido, o docente necessita assumir um papel fundamental, o de orientar seus alunos em assuntos (relacionados a corpo, gênero e sexualidade) que vão surgindo à medida que estes vão se desenvolvendo. Para tanto, é preciso que a equipe docente firme uma relação de confiança com os alunos, sem estabelecer nenhum tipo de juízo de valores ou críticas, compreendendo e respeitando as diferentes formas de expressão da sexualidade. A educação sexual nas escolas é fundamental, pois, entre outros fatores, pode auxiliar para que o conhecimento ajude a prevenir doenças, tais como a HIV/AIDS ou ainda a evitar a gravidez precoce, bem como pode fazer com que o sujeito viva a sua sexualidade sem culpa, sem receio, de maneira saudável e prazerosa. Cabe aos profissionais da educação planejar atividades pedagógicas, com materiais adequados, a fim de garantir que seus alunos assimilem os conhecimentos que não ficarão somente no campo das ideias, mas também no campo das ações. Ações estas desenvolvidas inclusive quando tocarem seu corpo, quando perceberem a mudança do mesmo. 52WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA O objetivo da Educação Sexual, desta maneira, não é a transmissão de valores, é algo muito mais amplo, trata-se um processo global, não intencional, que sempre existiu, de maneira consciente ou não, com objetivos evidentes ou não e que assume características variadas, que variam de acordo com a época e as culturas, expõe Werebe (1998). Desta forma, entendemos que a sexualidade faz parte da nossa vida, portanto não pode e não deve ser extinta da vida das pessoas, ao contrário, deve ser valorizada. Sabemos que essa não é uma tarefa fácil, pois ao mesmo tempo é preciso respeitar os valores de cada ser humano (desde que esses valores sejam voltados para a prática do respeito, reconhecimento das diferenças, convivência harmônica etc.), advindos de seus familiares e da sociedade, e ao mesmo tempo é preciso incentivar os questionamentos e reflexões, com o objetivo de que os preconceitos sejam quebrados. Fonseca e Oliveira (2013, p. 12) enfatizam que a partir do momento em que tais preconceitos e tabus forem destruídos “[...] o desenvolvimento afetivo-sexual das pessoas poderá levar a uma vida sexual plena e prazerosa, o que necessita conhecimento”. Daí a importância da escola, enquanto instituição responsável pela mediação do conhecimento, com seus alunos. Tonatto e Sapino (2002, p. 172) defendem que o currículo, adequadamente construído, deve atender “[...] às necessidades dos alunos e professores de compreender a sociedade na qual vivem, favorecendo o consequente desenvolvimento de diversas capacidades, tanto técnicas quanto sociais”, que os auxiliem em sua localização dentro da sociedade como pessoas autônomas, críticas, democráticas e solidárias. As mesmas autoras ainda defendem a necessidade de trabalhar temas ligados às questões de corpo, gênero e sexualidade de maneira interdisciplinar. Nas palavras das estudiosas, a abordagem interdisciplinar pode contribuir para a busca de “[...] resoluções fundadas em raciocínio crítico e conhecimento na problematização dos temas referentes à sexualidade por parte dos adolescentes, de uma forma integrada e não alienada ao contexto em que vivem” (TONATTO; SAPINO, 2002, p. 171). Nome do Filme: Hoje eu quero voltar sozinho Direção: Daniel Ribeiro Local e ano: Brasil, 2014 Principais temas a serem debatidos: Reconhecimento das diferen- ças, homossexualidade, diversidade. Sinopse: Leonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais in- dependente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Gio- vana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonar- do, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo (incluindo questões voltadas a sua sexualidade) (FILMOW, 2014). 53WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Vale enfatizar as ideias de Furlani (2010) quando a estudiosa expõe que a sexualidade é um aspecto intrínseco aos seres humanos, em todas as épocas vivenciadas por eles. A partir disso, “[...] as escolas que não proporcionam a educação sexual a seus alunos e alunas estão educando- os parcialmente” (FURLANI, 2010, p. 68). E essa parcialidade é bastante grave, pois disso cria-se uma educação fragmentada, fragilizada, despedaçada, quebrada. A mesma autora ainda defende que “[...] a educação sexual, em qualquer nível de ensino, deve se caracterizar pela continuidade. Uma continuidade baseada em princípios claros de um processo permanente” (FURLANI, 2010, p. 68). Essa defesa da estudiosa se dá, de acordo com ela, porque ainda existem muitas situações de exclusão social decorrentes de sexismo e homofobia. Desta forma, é fundamental que os docentes tenham, conforme já fora mencionado, formação adequada para esse trabalho de educação sexual. Além disso, a escola, como um todo, precisa estar atenta às suas práticas: Na escola, o currículo, as disciplinas, as normas regimentais, as formas de avaliação, os materiais didáticos, a linguagem, constituem-se em instâncias que refletem e produzem as desigualdades de gênero, de sexo, de raça, etc. e podem incentivar o preconceito, a discriminação, o sexismo (FURLANI, 2010, p. 69). Percebemos, assim, a necessidade de um trabalho contínuo e geral no interior das instituições escolares, de modo que todas as atividades realizadas e os materiais utilizados sejam instrumentos de aprendizado e, nunca, de exclusão, preconceito ou qualquer outra forma de violência. A partir do exposto, vamos, a seguir, apresentar alguns documentos que contribuem nessa luta de uma educação mais igualitária e permeada pela justiça e reconhecimento das diferenças. DOCUMENTOS QUE REGEM QUESTÕES DE CORPO, GÊNERO, SEXUALIDADE NA ESCOLA Embora as questões acerca de corpo, gênero e sexualidade ainda sejam consideradas um tabu em nossa sociedade, há respaldo legal para a discussão nas instituições escolares. Assim, neste momento, vamos discorrer sobre alguns documentos que possibilitam tais discussões, voltando sempre o olhar para o respeito à diversidade, às diferenças e às características humanas, com o objetivo de diminuir todas as formas de violência, seja a discriminação, o preconceito, ou outras. Visando propiciar documentos que aportem o trabalho com a diversidade e suas conjunções, surgiram, então, diversas ações educacionais com a intenção de promover a equidade de gênero, a inclusãosocial e a constituição de uma cidadania para todas as pessoas com o combate às formas de violência. Os documentos oficiais que vêm surgindo encontram respaldo nos seguintes documentos nacionais: 1) Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988); 2) Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº. 9.394/96) (BRASIL, 1996); 3) Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (BRASIL, 1997); 4) Programa Nacional de Direitos Humanos II e III (PNDH II e III) (BRASIL, 2002; 2010); 54WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 5) Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) (BRASIL, 2007a); 6) Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM) (BRASIL, 2005); 7) Programa Brasil Sem Homofobia (PBSH) (BRASIL, 2004), etc. Esses documentos mencionados apontam ideias necessárias para o trabalho sobre toda a diversidade e suas conjunções, incluindo as questões relacionadas a gênero, corpo e sexualidade. A Constituição da República Federativa do Brasil, por exemplo, apresenta em seu artigo terceiro, inciso quarto o seguinte texto: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988, art. 3, grifos nossos). Fica evidente que é função do Estado, e consequentemente de todas as instituições que fazem parte dele, promover o bem de todas as pessoas, de modo a não retratar, manifestar ou expor nenhuma forma de preconceito. Figura 22 – O Estado precisa lutar contra o preconceito. Fonte: Gandra (2017). Logo, tal Constituição busca contribuir para amenizar as formas de violência, como, por exemplo, preconceito, discriminação, brigas, etc. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 9.394/96 – documento oficial que rege a Educação brasileira – apresenta: 55WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extra-escolar; XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. XII - consideração com a diversidade étnico-racial (BRASIL, 1996, arts. 2-3, grifos nossos). O documento apresenta que um dos objetivos da Educação, aqui no Brasil, é alcançar o pleno desenvolvimento dos educandos, e isso só é possível se estes educandos participarem de uma sociedade e de uma escola que não os agridam com preconceitos e discriminações. Embora o documento mencionado utilize a palavra “tolerância” (não acreditamos ser o termo mais adequado para esse documento, haja vista o termo “tolerância” possa traspassar uma ideia de que um sujeito superior deve tolerar o sujeito inferior para a boa convivência. Sugerimos o termo convivência ou reconhecimento às diferenças), há a ideia de que uns não podem desrespeitar os outros. Figura 23 – Parâmetros Curriculares Nacionais. Fonte: MEC (2000). 56WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Os Parâmetros Curriculares Nacionais também apresentam construções necessárias de serem trabalhadas em sala de aula, de modo que amplie a visão sobre os aspectos sociais e culturais tanto do professor como do aluno. Isso fica evidente no seguinte excerto: Por trabalhar com a diversidade humana, comporta uma ampliação de horizontes para o professor [e a professora] e para o aluno [e a aluna], uma abertura para a consciência de que a realidade em que vivem é apenas parte de um mundo complexo, fascinante e desafiador, na qual o elemento universal subjacente e definidor das relações intersociais e interpessoais deve ser a Ética. Propicia, ainda, a percepção de que essa característica sociocultural é expressão de uma pluralidade dinâmica para além das fronteiras do Brasil, a qual tem sido benéfica e estimuladora na definição de valores universais (BRASIL, 1997, p. 19). Com esse documento, é possível analisar que nossa sociedade é pluralista em vários setores (econômico, social, religioso, sexual, étnico) e essa pluralidade precisa ser reconhecida fora, mas principalmente dentro, das instituições escolares. Outro documento que é bastante interessante, e fundamental, de analisar é o Programa Nacional de Direitos Humanos II, que afirma o seguinte: O PNDH II incorpora ações específicas no campo da garantia do direito à educação, à saúde, à previdência e assistência social, ao trabalho, à moradia, a um meio ambiente saudável, à alimentação, à cultura e ao lazer, assim como propostas voltadas para a educação e sensibilização de toda a sociedade brasileira com vistas à construção e consolidação de uma cultura de respeito aos direitos humanos (BRASIL, 2002, s/p). Entendemos que discutir os Direitos Humanos é, necessariamente, relacionar atitudes voltadas ao bem-estar de todas as pessoas, envolvendo os mais diferentes grupos sociais: homens, mulheres, negros, não negros, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais, religiosos, ateus. Uma versão mais recente do PNDH foi criada no ano de 2010, e em sua apresentação, esse documento ressalta que O PNDH-3 incorpora, portanto, resoluções da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos e propostas aprovadas nas mais de 50 conferências nacionais temáticas, promovidas desde 2003 – segurança alimentar, educação, saúde, habitação, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, idosos [e idosas], meio ambiente etc. –, refletindo um amplo debate democrático sobre as políticas públicas dessa área (BRASIL, 2010, p. 11). Nesta versão, o PNDH III também ressalta a necessidade das lutas dos movimentos sociais a fim de atingir um debate junto ao Governo Federal com o propósito de discutir mais fortemente os temas apresentados. Nessa mesma linha, o Plano Nacional em Educação em Direitos Humanos faz apontamentos bastante interessantes em relação à diversidade quando infere que REFLITA Entendemos que discutir os Direitos Humanos é, necessariamen- te, relacionar atitudes voltadas ao bem-estar de todas as pessoas, envolvendo os mais diferentes grupos sociais: homens, mulheres, negros, não negros, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, tra- vestis, transexuais, religiosos, ateus. 57WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA [...] o quadro contemporâneo apresenta uma série de aspectos inquietantes no que se refere às violações de direitos humanos, tanto no campo dos direitos civis e políticos, quanto na esfera dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Além do recrudescimento da violência, tem-se observado o agravamento na degradação da biosfera, a generalização dos conflitos, o crescimento da intolerância étnico-racial, religiosa, cultural, geracional,territorial, físico-individual, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade, de opção política, dentre outras, mesmo em sociedades consideradas historicamente mais tolerantes, como revelam as barreiras e discriminações a imigrantes, refugiados e asilados em todo o mundo. Há, portanto, um claro descompasso entre os indiscutíveis avanços no plano jurídico-institucional e a realidade concreta da efetivação dos direitos (BRASIL, 2007, p. 21). É preciso atentar-se aos grupos mais discriminados social e culturalmente, somente desta maneira nossa sociedade conseguirá atingir um patamar de extinção, ou ao menos diminuição, de preconceitos, discriminações e todas as possibilidades de violência. Ainda é possível destacarmos o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres que faz um enfrentamento interessante em relação às violências sofridas por esse grupo. Esse documento apresenta que a Política Nacional para as Mulheres se orienta pelos seguintes pontos fundamentais: NOME DO LIVRO: Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate con- temporâneo da educação ORGANIZADORAS: Guacira Lopes Louro, Jane Felipe, Silvana Vilo- dre Goellner ANO DE PUBLICAÇÃO: 2010 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Esse livro apresenta que os corpos de meninos e meninas, jovens, homens e mulheres foram – e são – objeto da mais meticulosa atenção não apenas das escolas, mas de muitas pedagogias cul- turais. A publicidade, o cinema, as revistas, a televisão, as acade- mias de ginástica e outros espaços sociais, por vezes, de forma mais sedutora e eficiente do que as escolas, veiculam saberes, transmitem valores e, efetivamente, acabam por “produzir” os sujeitos sociais. A partir de distintos campos disciplinares, este livro analisa a dinâmica e os arranjos postos em ação nas mais diversas instâncias pedagógicas para a constituição do que se considera, atualmente, um corpo “educado”, “saudável”, “decente”, “moderno”, “bonito”. As análises dos estudiosos e estudiosas que participam desta publicação nos falam das posições sociais que, em decorrência de seus corpos, os sujeitos acabam por ocupar em nossa sociedade e, mais do que isso, elas nos permitem exa- minar os jogos de poder que sustentam essas posições (LOURO, FELIPE, GOELLNER, 2010). 58WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Igualdade e respeito à diversidade – Igualdade e respeito à diversidade mulheres e homens são iguais em seus direitos;[...] Equidade – a todas as pessoas deve ser garantida a igualdade de oportunidades [...]; Autonomia das mulheres – o poder de decisão sobre suas vidas e corpos deve ser assegurado às mulheres, assim como as condições de influenciar os acontecimentos em sua comunidade e seu país; Laicidade do Estado – as políticas públicas voltadas para as mulheres devem ser formuladas e implementadas independentemente de princípios religiosos [...]; Universalidade das políticas – as políticas públicas devem garantir, em sua implementação, o acesso aos direitos sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais para todas as mulheres; Justiça social – a redistribuição dos recursos e riquezas produzidas pela sociedade e a busca de superação da desigualdade social, que atinge de maneira significativa às mulheres, devem ser assegurados; Transparência dos atos públicos – o respeito aos princípios da administração pública, tais como legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência, com transparência nos atos públicos e controle social, deve ser garantido; Participação e controle social – o debate e a participação das mulheres na formulação, implementação, avaliação e controle social das políticas públicas devem ser garantidos e ratificados pelo Estado brasileiro (BRASIL, 2005, p. 7-8). Os pontos apresentados são necessários para o combate à violência (social, sexual, doméstica, física, psicológica e outras) que todos os dias um grande número de mulheres sofre em nosso país. Assim, é fundamental estabelecer práticas escolares que considerem esse documento (e todos os apresentados aqui), a fim de discutir com bastante seriedade o assunto. Além dos documentos apresentados, o Programa Brasil Sem Homofobia é, também, um documento que precisa ser amplamente discutido e divulgado, pois apresenta uma política pública específica relacionada à violência contra homossexuais, travestis, lésbicas, transexuais. O material possui como princípios: • A inclusão da perspectiva da não-discriminação por orientação sexual e de promoção dos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais, nas políticas públicas e estratégias do Governo Federal, a serem implantadas (parcial ou integralmente) por seus diferentes Ministérios e Secretarias. • A produção de conhecimento para subsidiar a elaboração, implantação e avaliação das políticas públicas voltadas para o combate à violência e à discriminação por orientação sexual, garantindo que o Governo Brasileiro inclua o recorte de orientação sexual e o segmento GLTB em pesquisas nacionais a serem realizadas por instâncias governamentais da administração pública direta e indireta. • A reafirmação de que a defesa, a garantia e a promoção dos direitos humanos incluem o combate a todas as formas de discriminação e de violência e que, portanto, o combate à homofobia e a promoção dos direitos humanos de homossexuais é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira (BRASIL, 2004, p. 11-12). Logo, é bastante percebido que a inclusão dos assuntos em relação à homofobia é necessária nas escolas, de modo a diminuir os casos de violência contra o público LGBT que também possuem direitos iguais a todas as pessoas que vivem no Brasil. 59WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 24 – Brasil sem Homofobia. Fonte: UGT (2015). Neste sentido, essa visão de reconhecimento das mais variadas diferenças sociais e culturais, que está explícita nas políticas públicas apresentadas, precisa adentrar a escola. Não basta existir as políticas públicas, é preciso que as instituições escolares enxerguem a necessidade de discussão e práticas pedagógicas humanizadoras e coloquem em prática as discussões apresentadas nestes documentos. Ainda, vale ressaltar que no dia 25 de junho de 2014 foi aprovado, no Brasil, o Plano Nacional de Educação (PNE), sob a Lei n. 13.005/2014 que estabelece as metas e estratégias para a década de 2014 a 2024 no que tange à Educação brasileira (BRASIL, 2014). Municípios, Distrito Federal e Estados precisaram adequar seus respectivos Planos a essa Lei maior até o prazo de 24 de junho de 2015. O PNE visa a um conjunto de diretrizes, que ao todo são 10 (dez): Nome do Filme: MILK – A voz da igualdade Direção: Gus Van Sant Local e ano: EUA, 2009 Principais temas a serem debatidos: Reconhecimento das diferen- ças, homossexualidade, diversidade, preconceito. Sinopse: Início dos anos 70. Harvey Milk (Sean Penn) é um nova-ior- quino que, para mudar de vida, decidiu morar com seu namorado Scott (James Franco) em San Francisco, onde abriram uma peque- na loja de revelação fotográfica. Disposto a enfrentar a violência e o preconceito da época, Milk busca direitos iguais e oportunidades para todos, sem discriminação sexual. Com a colaboração de ami- gos e voluntários (não necessariamente homossexuais), Milk entra numa intensa batalha política e consegue ser eleito para o Quadro de Supervisor da cidade de San Francisco em 1977, tornando-se o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importân- cia nos Estados Unidos (ADORO CINEMA, 2009). 60WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA I - erradicação do analfabetismo; II - universalização do atendimento escolar; III - superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação; IV - melhoria da qualidade da educação;V - formação para o trabalho e para a cidadania, com ênfase nos valores morais e éticos em que se fundamenta a sociedade; VI - promoção do princípio da gestão democrática da educação pública; VII - promoção humanística, científica, cultural e tecnológica do País; VIII - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do Produto Interno Bruto - PIB, que assegure atendimento às necessidades de expansão, com padrão de qualidade e equidade; IX - valorização dos(as) profissionais da educação; X - promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade socioambiental (BRASIL, 2014, art. 2, grifos nossos). Esse documento visa, assim, levar para a área da Educação aspectos de respeito e reconhecimento das diferenças, de modo a buscar diminuir os casos de violências, preconceitos, discriminação etc. NOME DO LIVRO: Educação, Saúde, Gênero e Sexualidade: diálo- gos possíveis ORGANIZADORES: Eliane Rose Maio, Márcio de Oliveira, Reginaldo Peixoto ANO DE PUBLICAÇÃO: 2016 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Esse livro apresenta, em sua essência, uma discussão bastante necessária e pertinente a partir de estudos e constatações acerca da alquimia que pode ser realizada entre os campos/saberes da Educação, do Gênero e da Sexualidade. Tais diálogos perpassam pelos aspectos sociais, culturais e políticos, além do corpo, saúde e instituições escolares. Sendo assim, esse livro propõe uma oportunidade para profes- sores, alunos, educadores, profissionais da saúde, atores sociais refletirem sobre vários assuntos que entram [ou deveriam entrar] na ordem do dia: quebra de preconceitos, discriminação e tabus sobre gênero e sexualidade; inclusão da discussão sobre gênero e sexualidade na Educação; saúde pública e a população LGBT; igualdade entre os gêneros; desconstrução de estereótipos; Peda- gogias Queer; formação docente; políticas públicas com foco nas diversidades; pluralidade na Educação escolar (MAIO, OLIVEIRA, PEIXOTO, 2016). 61WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA De acordo com Peres, Oliveira e Maio (2015, p. 16), não basta existir documentos que defendem a não exclusão em relação à diversidade presente no Brasil, “[...] antes de mais nada, o que precisa mudar e se adaptar a essa diversidade é a prática escolar: nas salas de aula, nos corredores, no pátio e em todos os espaços públicos”. É fundamental que a escola possibilite a discussão, então, das marcas identitárias atribuídas aos diferentes sujeitos, para que as discussões sobre exclusão, violência, sexismo, homofobia, discriminação etc. estejam na ordem do dia das mais variadas instituições escolares. Ao reconhecer as marcas identitárias e compreender que ninguém deve ser discriminado por conta de orientação sexual, gordura corpórea, identidade de gênero, preferência religiosa – e tantas outras características que formam o ser humano – a escola estará agregando o reconhecimento das diferenças aos conteúdos oficiais do currículo, de modo que ninguém se sinta inferior ao outro por conta de suas características pessoais. Por fim, discutir corpo, gênero e sexualidade está além do querer, é algo necessário, fundamental, preciso e urgente. Devemos nos lembrar que lidamos com pessoas no interior das instituições escolares e que cada uma dessas pessoas deve se sentir acolhida nesse ambiente. Figura 25 – Direito a vivenciar a sexualidade. Fonte: Adolescência (2017). Além dos conteúdos oficiais, as relações humanas também devem fazer parte desse cotidiano cheio de desafios. E a melhor forma de fazer todos se sentirem bem é respeitando as individualidades, educando as crianças e adolescentes para que se tornem pessoa cada vez mais respeitosas, acolhedoras, críticas e não-violentas. 62WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS 90 SHEJI. Personagem de desenho animado profissional estrangeiro. 2017. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2018. ADORO CINEMA. As Sufragistas. 2015. Disponível em: . Acesso em: 25 nov. 2017. ADORO CINEMA. Milk – a voz da igualdade. 2009. Disponível em: . Acesso em: 24 dez. 2017. ALHO. J. M. Encerramento do ano letivo 2015/2016. 2016. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2018. ALONSO. A. As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate. Lua Nova, São Paulo, n. 76, p. 49-86, 2009. ALVES. L. C. O movimento feminista. s/d. Disponível em: . 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Assim, é possível afirmar que os processos de construção do corpo são marcados mesmo antes de nascermos e influenciam o modo de vida de cada ser humano. Logo, valem, mais uma vez, os escritos de Goellner (2010, p. 28): [...] o corpo é provisório, mutável, suscetível a inúmeras intervenções consoante o desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura, bem como suas leis, seus códigos morais, as representações que cria sobre os corpos, os discursos que sobre ele produz e reproduz. Destarte, os corpos podem – e são – modificados por meio dos hábitos sociais e culturais de cada pessoa. Eles podem ser alterados de acordo com a vontade individual, a pressão conjunta, as necessidades etc. Um corpo que hoje é considerado belo, talvez no passado não fosse categorizado dessa maneira. O tempo modifica a perspectiva corporal. Antigamente, por exemplo, o corpo belo era representado pelo corpo gordo, com saliências à mostra etc. Isso pode ser observado nas pinturas, esculturas e outras obras de arte expostas nos mais variados museus ao redor do mundo. Hoje, pelo contrário, a mídia retrata como corpo perfeito aquele sem gordura, alto, com formas definidas. Tudo isso é social e cultural, sendo modificado a cada época e espaço. 7WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 02 – Modelo de corpo “perfeito” para a sociedade atual. Fonte: Vanegas (2013). Outra discussão que rodeia as questões do corpo na contemporaneidade é a indústria de serviços ofertados. Roupas, cosméticos, adornos, tatuagens, dietas, cirurgias, medicamentos, tudo isso tem sido dedicado às mudanças corporais, de modo a dar um suporte para suas transformações. Esses serviços contribuem para a produção dos corpos diariamente, segundo Goellner (2010). A partir dessa perspectiva, os corpos, então, são mutáveis, modificáveis, sendo que a cada dia presenciamos uma constituição nova/diferente da produção dos corpos. Rosa (2004, p. 17- 18) anuncia o corpo como sendo um possível mensageiro, um “[...] corpo-correio, corpo-recado, querendo falar, comunicar e se relacionar”. É fato que um corpo propaga inúmeras mensagens a partir de como ele está delineado. Sendo assim, é possível afirmar que o corpo também tem uma linguagem e essa linguagem está, a todo momento, evidenciando características diversas. Um corpo pode ser exaltado ou silenciado, a depender do ambiente e do tempo em que se encontra. Escolas, por exemplo, muitas vezes buscam por silenciar e uniformizar os corpos de seus alunos e profissionais. Além disso, um corpo pode ser um outdoor, pois é marcado por inúmeros marcadores. Ainda, é importante ressaltar que existem corpos que lutam por um ideal: como exemplo, um corpo pintado em alguma manifestação de movimentos sociais. Figura 03 – A escola contribui para moldar os corpos. Fonte: Padial (2013). 8WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA REFLITA Todos esses corpos são marcados – e marcadores – por uma cul- tura que o cerca. O seu modo de ser e agir depende dos aspectos sociais e culturais a que foram submetidos. Silva (2001, p. 18) contribui para pensarmos as transformações a que vem sofrendo o corpo com o passar do tempo: [...] a expectativa de corpo moderna se fundamenta no reforço de um sentimento contraditório que se vê explodir na atualidade: dominar o corpo e, ao mesmo tempo, libertá-lo; subjugá-lo e depender dele para sua felicidade; acreditar na superioridade e independência da mente, mas submeter-se aos rituais necessários ao corpo “em forma”. Evidentemente essa relação aparenta ser um jogo de forças antagônicas, paradoxais: aos mesmo tempo em que as pessoas buscam a liberdade, há algo que limita essa liberdade e tende que as pessoas se aprisionem aos ditames de beleza, por exemplo. Analogamente é como se fossem duas forças puxando a ponta de uma corda, cada uma para um lado oposto. Assim, a liberdade de construção do corpo acaba por ser diminuída a partir do momento em que a cultura (a partir de algumas instituições) dita certa ordem a ser seguida. Isso faz com que as pessoas busquem alcançar um corpo que, aparentemente, é inalcançável. Além do mais, todas as formas corporais que fogem à regra imposta social e culturalmente (esse processo geralmente é realizado por instituições que buscam certa hegemonia) são criticadas, apontadas, excluídas, violentadas, inferiorizadas, etc. Essa busca pela hegemonia corporal pode ser considerada a “boa forma” que conhecemos hoje. A busca por esse formato “perfeito” de corpo gera certo processo disciplinador, ao passo que muitas pessoas mudam suas rotinas, suas atividades, seus exercícios, sua alimentação para buscar alcançar esse corpo ideal. Ao ligar a televisão, hoje em dia, facilmente percebemos que há uma cultura ao corpo ideal. Os produtos criados para a modificação do corpo (que já foram citados anteriormente) acabam por diminuir a liberdade do indivíduo. A cobrança é para que as pessoas estejam sempre magras, jovens, malhadas etc. É possível falarmos em um corpo híbrido, em que se misturam aspectos biológicos com os aspectos culturais, ou seja, a herança genética é associada a costumes sociais e culturais que contribuem na modificação dos corpos. Louro (2001) muito bem discute esse hibridismo ao defender que os corpos são significados e modificados constantemente pela cultura, sendo que os indivíduos têm construído seus corpos de maneira a adequá-los aos mais variados critérios impositivos de estética, higiene, moral etc. Sant’Anna (2002, p. 99) contribui para as discussões sobre o corpo quando enfatiza que [...] o fato de que as inúmeras exigências feitas ao corpo, coagindo-o a ser cada vez mais saudável, jovem e um produtor infatigável de prazer, acabam provocando uma vontade crescente de resgatar esse corpo, adulá-lo e protegê-lo, fornecendo- lhe quase a mesma importância e os mesmos cuidados outrora concedidos à alma. No limite, cuidar do corpo significaria, portanto, o melhor meio de cuidar de si mesmo, de afirmar a própria personalidade e de se sentir feliz. 9WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Nome do Filme: Embrace Direção: Taryn Brumfitt Local e ano: Austrália, 2016 Principais temas a serem debatidos: Modificações no corpo para atender à pressão cultura da busca ao corpo “perfeito”. Sinopse: A australiana Taryn Brumfitt sempre sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela foi mãe três vezes e, após cada gravidez, via seu corpo e chorava, odiando aquilo que ela se tornou. Ela, en- tão, decidiu que tentaria se aceitar do jeito que era. E esse foi o pri- meiro passo para seu documentário, Embrace. Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes e do depois de seu corpo. A imagem viralizou, foi compartilhada até por celebridades e virou manchete em revistas e jornais do mundo todo. Ela queria que as mulheres percebessem que podem aceitar seus corpos. Sua principal moti- vação foi a sua filha. Ela não quer que a menina passe pela mesma pressão de odiar o próprio corpo. Depois de sua foto viralizar, Taryn Brumfitt iniciou o Body Image Movement (movimento da imagem corporal) e decidiu seguir seus planos de fazer o Embrace, ume azul de menino?. 2017. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2018. SILVA. A. Ma. O corpo do mundo: algumas reflexões acerca da expectativa de corpo atual. In: GRANDO. J. C. (Org.). A (des)construção do corpo. Blumenau: Edifurb, 2001. p. 11-33. SILVA. R. C. P.; NETO. J. M. Formação de professores e educadores para abordagem da educação sexual na escola: o que mostram as pesquisas. Ciência e Educação, v. 12, n. 2, p. 185-197, 2006. STABOLI. F. O Simbolismo do Corpo na Cultura Indígena. 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 mar. 2018. TOLEDO. M. Pesquisa investiga o uso da internet para fins culturais no Brasil. 2018. Dispónível em: . 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Acesso em: 15 nov. 2017. 68WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS WEREBE. M. J. G. Sexualidade, política e educação. Campinas, SP: Autores Associados, 1998. WORTHINGTON. D. Pioneering Feminist Olympe de Gouges Guillotined. 2015. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2018. XAVIER FILHA. C. E agora, Bernardo?! Corpos infantis, sexualidades e violência contra crianças. In: FERRARI. A. et al (Orgs.). Corpo, Gênero e Sexualidade. Lavras: UFLA, 2014. p. 185-208.do- cumentário sobre o assunto. Ela descobriu que aproximadamente 91% das mulheres odeiam o próprio corpo (FAGGIANI, 2017). Decorre, disso tudo, certa preocupação pelo fato de o indivíduo confundir – ou associar – o seu corpo à sua personalidade. Junto a isso, é muito comum as pessoas relacionar a sua própria felicidade ao seu corpo, como se fossem a mesma coisa. Ainda é fundamental discutir que, com o passar do tempo, os conceitos de “corpo normal” e “corpo anormal” tem se difundido socialmente. Isso é preocupante à medida em que culturalmente, caracterizamos um modelo de corpo como certo e outro como errado. O “corpo normal” é aquele que segue as regras impostas socialmente de cuidado, beleza, higiene, adaptação, modificação etc. Enquanto isso, o corpo taxado como “anormal” é aquele que atravessa fronteiras, foge das imposições, difere do que a maioria social impõe. Conforme apresentado anteriormente, a escola contribui para essa rotulação. Ribeiro (2014, p. 124) destaca que As marcas dos acontecimentos inscrevem-se nos corpos de alunos e alunas, que rompem com padrões, sejam estes de gênero, sexo, raça, geração, entre outros aspectos, construídos e aceitos socialmente. Isso faz com que esses sujeitos passem a carregar a marca da anormalidade em seus corpos. É preciso enfatizarmos que não existem corpos “normais” ou “anormais”, “certos” ou “errados”. O que existem são corpos diferentes, distintos, diversos. E, em hipótese alguma, uma pessoa pode sofrer qualquer preconceito por conta do seu corpo. A mesma autora continua ressaltando que 10WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA [...] as diferenças individuais e as singularidades dos/as alunos/as não são ressaltadas e valorizadas na instituição escolar. Por meio de seu discurso de igualdade e de sua prática pedagógica, a escola homogeniza os sujeitos, inserindo-os na norma estabelecida. Ao instruir e demarcar o que é normal e aceito nesse espaço, a instituição escolar produz classificações e demarcações de anormalidade. Assim, conhecer quem são os anormais torna-se importante para que essa instituição exerça estratégias de poder/saber, as quais operam no sentido de normalizar todos os sujeitos que fogem à norma (RIBEIRO, 2014, p. 174). O perigo, então, está no fato de a escola – e várias outras instituições, a exemplo a mídia, igrejas, famílias etc. – buscar padronizar as diferenças que cada indivíduo carrega consigo. A história mostra que todo movimento de padronização é cruel, violento, desumano. Basta pensarmos no que foi o movimento nazista alemão, ao buscar padronizar costumes, ideologias, etnias, formas de viver. Mediante esse cenário, é fundamental que as instituições que forma a sociedade saibam lidar com as diferenças corporais (e todas as outras), de maneira a não buscar uma padronização, mas a convivência harmoniosa entre a diversidade. Louro (2004) enfatiza que é preciso reiterar e refazer as normas regulatórias, haja vista são invenções sociais, ou seja, não se pode punir pessoas que fogem às normas de construção do corpo, por exemplo. Em vez de padronizar, é preciso problematizar e desestabilizar as “verdades” impostas social s culturalmente. É fundamental que todas as pessoas entendam que há várias formas de viver, existir, se constituir. E esse trabalho deve ser contínuo e político, de modo a englobar todas as esferas sociais. É preciso termos ciência que o estudo sobre o corpo humano deve ser realizado sempre levando em consideração os vários aspectos aqui apresentados, desde os fisiológicos até os sociais e culturais. O corpo é marcado por esses aspectos e, portanto, essa complexidade de características faz parte de sua história e construção. A partir do exposto, fica evidente que os corpos são uma ‘casca’ moldada por meio de aspectos biológicos, e, também, sociais, culturais, políticos. Essa casca pode estar mais vulnerável em certos grupos de pessoas, a exemplo de mulheres, crianças, LGBTT. Pensando nessas características, a seguir, vamos discorrer acerca de um tema bastante complexo e, que ainda hoje, é visto como um tabu: a violência sexual contra crianças e adolescentes. VIOLÊNCIA SEXUAL NO BRASIL É evidente que a violência tem ganhado repercussão nacional nas diversas mídias: televisão, rádio, internet, jornais etc. Existem inúmeras facetas da violência: física, verbal, psicológica, material, para citarmos alguns exemplos. A partir desse cenário, nesse momento vamos discutir uma vertente da violência que vem se tornando demasiadamente realizada e causando repercussão assustadora nos canais de divulgação de informações: a violência sexual. Antes de iniciarmos, é fundamental registrar que uma pessoa que comete a violência sexual não apresenta um estereótipo de violentador sexual, ou seja, não há como saber, sem uma investigação profunda de fatos e ações, que alguém comete esse delito. Portanto, é uma violência bastante difícil de ser diagnosticada. Além disso, existe a violência sexual contra variados grupos, sobretudo os mais vulneráveis: crianças e adolescentes, mulheres, pessoas idosas, pessoas deficientes etc. Aqui, vamos perpassar por todos esses grupos de maneira geral, atentando, principalmente, para dois grupos em específico: crianças e adolescentes e as mulheres. 11WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Em se tratando da violência sexual contra as crianças e os adolescentes, a escola tem um papel fundamental para o combate dessa prática. Pelo fato de a instituição escolar receber esse público por um período longo do dia, é necessário que os professores sejam capacitados para perceber mudanças de comportamentos e dar início a uma investigação (realizada pelo Conselho Tutelar e pela Polícia, por exemplo). A equipe pedagógica de uma escola deve ter ciência de que qualquer suspeita de violência sexual contra crianças e adolescentes deve ser denunciada aos órgãos protetivos. Tais órgãos darão continuidade ao processo. No entanto, vale ressaltar que uma investigação tem início a partir de uma suspeita, por isso essa fase inicial é primordial. O quadro mostra alguns dos canais existentes no Brasil para que sejam realizadas as denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. • CONSELHO TUTELAR • VARA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE • DELEGACIAS DE PROTEÇÃO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE • APLICATIVO VIRTUAL PROTEJA BRASIL • DISQUE 100 Quadro 01 – Algumas maneiras de denunciar uma suspeita de violência sexual contra crianças e adoles- centes. Fonte: o autor. Figura 04 – Disque 100. Fonte: Ministério Público do Paraná (2016). Além disso, uma educação sexual (tema que será amplamente discutido na unidade 04 desse material), a fim de empoderar crianças e adolescentes pode contribuir para que muitos casos de violência sexual deixem de acontecer. Quando uma criança ou um adolescente tem noção dos limites dos seus corpos, é possível conseguir se esquivar de um ato de violência sexual, buscando compartilhar a informação com uma pessoa de confiança. 12WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Xavier Filha (2014, p. 187) enfatiza que uma “[...] significativa parcela de crianças e adolescentes é vulnerabilizada e vitimada por muitas pessoas adultas, tendo, em muitos casos, os corpos usados como objeto de desejo de outrem e, em casos extremos, vindo a óbito”. Essa forma de violência – cruel – é bastante prejudicial às crianças e aos adolescentes (assim como para todas as pessoas que a sofrem). Os danos podem ser irreversíveis e os traumas seguem durante a vida toda. Portanto, a melhor forma de combater é prevenir educando crianças e adolescentes, levando conhecimento acerca do assunto para os responsáveis pelas crianças (incluindo equipe pedagógica) e disseminar a ideia de que é fundamental denunciar todas as suspeitas. O artigo quintodo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que [...] nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais (BRASIL, 1990, art. 5). Portanto, a Lei determina que nenhuma criança ou adolescente pode sofrer quaisquer formas de violência, sendo que o não cumprimento dessa determinação pode se transformar em ação judiciária. O artigo sétimo da mesma Lei destaca que “[...] a criança e o adolescente têm direito a proteção e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência” (BRASIL, 1990, art. 7). Ainda é importante salientar que o artigo décimo primeiro enfatiza que os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes devem receber formação adequada para a detecção de riscos para o desenvolvimento psíquico, o que nos remete ao fato de que em relação à violência sexual, estes profissionais devem estar preparados para atuação no seu ambiente de trabalho, buscando contribuir para o combate a essa forma de violência. Junto ao apresentado, o mesmo documento destaca que “[...] É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” (BRASIL, 1990, art. 18). Portanto, é um trabalho conjunto o zelo pelo desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, de modo que esse desenvolvimento seja realizado sem qualquer violação de seus direitos. Às instituições que tem como foco o atendimento de crianças e adolescentes, cabem a comunicação de qualquer maltrato percebido. A exemplo disso, o ECA estabelece que, por exemplo, “[...] os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de: I - maus- tratos envolvendo seus alunos” (BRASIL, 1990, art. 56). Todos os excertos apresentados anteriormente acerca do ECA assumem a posição de que toda as pessoas, como cidadãs, são socialmente responsabilizadas pelo cuidado com os direitos das crianças e dos adolescentes. Assim, essa sociedade não pode continuar fechando os olhos e os ouvidos para essa violência que tem crescido em número de denúncias. De acordo com o Relatório da Secretaria de Direitos Humanos (Disque 100) do Governo Federal, as denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes tem um número bastante expressivo. Embora esses números não anunciam a totalidade do problema, auxiliam a entendermos a grandiosidade do mesmo, de modo que é preciso mobilização para o combate a essa forma de violência. 13WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA No ano de 2011, o Disque Denúncia (Disque 100) registrou 28.525 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil todo. No ano de 2016, esse número chegou a 15.707 denúncias. Embora aparentemente o número de denúncias diminuiu, não é possível afirmar que os casos também diminuíram. Abaixo apresentamos um quadro com o número de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes do ano 2011 até o ano de 2016, fornecidos pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH). ANO NÚMERO DE DENÚNCIAS PORCENTAGEM QUE REP- RESENTAM AS DENÚN- CIAS 2011 28.525 34,73% 2012 37.726 28,91% 2013 31.895 25,71% 2014 22.840 25% 2015 17.583 21,86% 2016 15.707 20,62% Quadro 2 - número de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. Fonte: Ministérios dos Direitos Humanos (2017). Os dados apresentados acima são uma ideia de quão grande é a problemática da violência sexual contra crianças e adolescentes. Embora o número de denúncias diminuiu, é visível que essa forma de violência precisa de atenção especial. De acordo com os dados apresentados pelo MDH, no ano de 2016, por exemplo, foram realizadas aproximadamente 44 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes por dia. O que representa que são quase duas denúncias dessa natureza por hora. Isso é alarmante. Sobretudo se levarmos em consideração que existem os números de subnotificações, ou seja, os casos que não chegam ao conhecimento das instâncias protetivas. NOME DO LIVRO: Violência sexual contra criança: contributos para a formação docente Autoras: Edyane Silva de Lima; Eliane Rose Maio Ano de publicação: 2014 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Esse livro analisa que debruçar-se sobre o objeto violência sexual envolve situações dolorosas, que deixam marcas imensuráveis, principalmente quando essa é contra crianças, que, em dada circunstância, não conseguem se manifestar. Diante das marcas deixadas, esse fenômeno é inquietante e move a paixão pessoal e profissional das autoras, com vistas a contribuir para minimizar as ardências dessa ferida que abre em muitas vidas. O livro apresenta ampla análise bibliográfica e documental que legislam e balizam o enfrentamento ao fenômeno, bem como as políticas de atendimento e intervenções existentes às crianças vítimas de violência sexual, que também reflete como violência de gênero e posteriores dificuldades de aprendizagem e sofrimentos físicos e psíquicos (LIMA; MAIO, 2014). 14WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA A Childhood Brasil (uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – Oscip) divulga várias publicações voltadas às questões relativas à infância e à adolescência, com o objetivo maior de influenciar a agenda de proteção para esse público. Essa entidade publicou algumas das principais causas da violência sexual contra crianças e adolescentes, enfatizando que essa violência está relacionada com questões sociais, econômicas e culturais e deve ser analisada com cuidado e critério levando em conta as diferentes variáveis para o abuso e a exploração sexual. Além das causas diversas, existem também contextos em que o problema se insere que podem agravá-lo ou dificultar o seu enfrentamento, segundo Childhood Brasil (2017). Portanto, não há como defender que existe uma causa isolada que explica a violência sexual contra crianças e adolescentes, no entanto, há uma série de fatores que podem contribuir para essa explicação. A referida organização ainda enfatiza que a violência sexual contra crianças e adolescentes assusta e está coberta por um manto de tabu e silêncio. Talvez essas duas características em conjunto contribuem para o aumento da violência e gera certa impunidade, pois não há como detectar algo que não se comenta, não se expõe, não se discute o necessário. No site da Childhood Brasil (2017, s/p) é exposto que: Ao mesmo tempo em que é difícil falar do assunto, não se pode atribuir uma causa específica. É comum escutar que a causa é a pobreza, que isso “acontece no Nordeste” ou que é “culpa do pedófilo”. Identificar as diversas origens deste problema é fundamental para poder enfrentá-lo. Portanto, é fundamental ações conjuntas que levem em consideração várias linhas de investigação para que o debate em torno da violência sexual contra crianças e adolescentes seja melhor realizado e contribua para que o seu combate seja mais efetivo. Os fatores indutores da violência sexual contra crianças e adolescentes precisam “[...] ser combinados com grupos sociais e culturais, momentos históricos e características econômicas. Isolado, um fator como a pobreza não deve ser considerado indutor da violência” (CHILDHOOD BRASIL, 2017, s/p). Nome do Filme: Anjos do Sol Direção: Rudi Lagemann Local e ano: Brasil, 2006 Principais temas a serem debatidos: Pedofilia. Violência Sexual contra crianças e adolescentes. Exploração Sexual de crianças e adolescentes. Sinopse: Anjos do Sol tem como foco a exploração sexual comer- cial de crianças e adolescentes, o enredo se passa no interior do Maranhão, onde a personagemMaria (Fernanda Carvalho) com doze anos é vendida pela família para trabalhar como empregada doméstica e ter, portanto, uma vida melhor. Contudo Maria cai nas mãos de um aliciador de menores, que a vende para uma cafetina interessada em comercializar meninas virgens para homens. Após ser vendida para um coronel a meni- na é estuprada por ele e pelo seu filho como forma de “iniciá-lo” sexualmente. Depois desse fato ela é enviada para um prostíbulo num garimpo onde passa a ser estuprada diariamente por diversos homens. 15WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Uma das suas colegas Inês (Bianca Comparato) é assassinada brutalmente por tentar fugir, já Celeste (Mary Sheila) está grávida e não sabe quem é o pai e por fim uma das garotas que fazem parte desse sua nova realidade tem AIDS já que no local não se usa pre- servativos. O diálogo mais triste do filme é quando Maria pergunta para Inês, porque homens fazem isso com ela, se ela não gosta. Enquanto aperta o próprio ventre pois sente dor. É quase um documentário, um retrato real da violência sexual contra crianças e adolescentes, não atoa se diz baseado em fatos reais e tem como fim a prova que uma menina de doze anos, analfabeta e explorada sexualmen- te, não tem outra saída a não ser se prostituir seja no garimpo, no Rio de Janeiro, nas estradas com caminhoneiros. Esse filme de- marca algo relevante de ser destacado que o cafetão da história é também um pedófilo que abusa, se envolve e prostitui menores de idade. Além desses aspectos, já apresentados de violência sexual contra crianças e adolescentes, a violência sexual contra as mulheres no Brasil é um dado muito preocupante. De acordo com o Mapa da Violência do ano de 2015, temos os seguintes números acerca dos tipos de violência sofridos pelas mulheres: Quadro 03 – Tipos de violência contra as mulheres no ano de 2014. Fonte: Ministério Dos Direitos Hu- manos (2017). Esse quadro mostra que a violência sexual aparece como a terceira maior causa de violência atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil no ano de 2014. Foram 23.630 (vinte e três mil, seiscentos e trinta) casos de violência sexual contra as mulheres atendidos pelo órgão de saúde. Além do número que é contabilizado, mais uma vez, chamamos a atenção para o fato de que grande parte dos casos não chegam ao conhecimento das autoridades, o que faz pensarmos que esse número, evidentemente, é muito maior. Assim, é fundamental discutir e estabelecer planos de ações efetivos com o objetivo de combater a violência sexual contra as mulheres, para que nosso país diminua esse quadro doloroso de violação de direitos das mulheres. 16WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Chama a atenção, também, o fato de que entre as vítimas, o número é maior entre as crianças e as adolescentes (esse dado é apresentado no quadro acima). Outro aspecto que deve ser levado em consideração nas ações preventivas e de combate à violência sexual no Brasil. Ressaltamos que a violência sexual ainda vitima milhares de mulheres de todas as idades cotidianamente no Brasil e no mundo. As suas consequências para as vítimas são severas e devastadoras: a violência sexual tem sérios efeitos nas esferas física e mental, as prejudicando tanto a curto como a longo prazo. Entendemos que a violência sexual contra as mulheres é a mais cruel forma de violência depois do feminicídio, porque é a apropriação do corpo da mulher, ou seja, alguém está se apropriando e violentando o que de mais íntimo lhe pertence. Ainda é fundamental ressaltar que muitas vezes, a mulher que sofre esta violência tem vergonha e medo, além de profunda dificuldade de falar sobre a situação, denunciar ou pedir ajuda. Oliveira e Maio (2016, p. 16) enfatizam, acerca da violência (sexual e outras) contra a mulher, que: Os dados relativos à violência contra as mulheres fazem pensar que são emergentes políticas públicas que defendam os Direitos Humanos em suas várias instâncias sociais: famílias, instituições públicas, espaços privados, entre outros. Esses números reveladores de uma flagelação feminina podem e devem mudar, porém isso poderá ser realizado apenas com uma força tarefa unindo poderes governamentais, sociedade civil organizada e todas as pessoas que fazem parte desse país. Portanto, é urgente a necessidade de discussão de violência contra a mulher, buscando estratégias a fim de combater essa prática. Evidentemente que essa luta deve ser de toda a sociedade, sendo realizada com o engajamento de grande parte dos atores sociais, com o objetivo de combater esse sofrimento que atinge inúmeras mulheres todos os dias no Brasil e no mundo. O problema da violência sexual contra as mulheres é estrutural e deve ser combatido não apenas em momentos de intensos debates, como quando surgem casos que chocam pela violência, divulgação e repercussão dos casos, mas, principalmente na raiz da sociedade, no desenvolvimento de cidadãos conscientes em relação à igualdade de gênero. Esse processo de conscientização, evidentemente, deve iniciar em casa e na escola. Se o assunto não é debatido em casa, a escola, então, será a instituição que as crianças terão acesso a esse conhecimento, sobretudo a partir do conhecimento científico. Essa Educação pode formar sujeitos que constroem relações mais igualitárias entre os gêneros. Uma Educação não sexista que educa seres humanos e não meninas ‘princesas’ e meninos ‘machinhos’ é fundamental para enfrentar o problema da violência de gênero. É mais do que necessário educar meninos e meninas para que entendam que ambos têm os mesmos direitos e deveres. Não se pode hierarquizar as relações de gênero. E será sobre essa categoria de análise – GÊNERO – que vamos discutir na sequência. UNIDADE 17WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................ 18 IDENTIDADE DE GÊNERO ........................................................................................................................................ 19 FEMINISMOS ........................................................................................................................................................... 25 GÊNERO: UMA CATEGORIA NECESSÁRIA DE ANÁLISE INTRODUÇÃO PROF. DR. MÁRCIO DE OLIVEIRA 02 18WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Gênero é uma palavra que, sobretudo a partir do ano de 2014 no Brasil, tem causado certo pânico moral nas pessoas. Naquela época estava em discussão o Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2014) e grupos conservadores – com ligação a diversas denominações religiosas conservadoras – realizaram inúmeros movimentos no país a fim de não permitir a discussão de gênero nos estabelecimentos de ensino. Inúmeros políticos, na ocasião, aceitaram as explicações de que as discussões de gênero acabariam com as famílias, com o casamento heterossexual, com a infância das crianças etc. Essa aceitação e repercussão agravou, ainda mais, o pânico moral relacionado às questões de gênero. Mas, o que significa gênero? Qual o papel da escola em relação às discussões de gênero? Qual a necessidade de discutir gênero? Será que as pessoas têm conhecimento suficiente para essa discussão? Do que as pessoas têm medo em relação ao tema? Questionamentos como esses por ora apresentados são uma dimensão da necessidade de discutir acerca das questões sobre gênero. É fundamental que tenhamos conhecimento sobre determinada área antes de discuti-la. Buscando propor um conjunto de conhecimentos acerca do tema, nessa unidade vamos discutir, em um primeiro momento, acerca da identidade de gênero. Posteriormente, as discussões versarão sobre aspectos ligadosao feminismo, que é uma vertente que busca a equidade entre homens e mulheres na sociedade. Para dar sequência nos estudos, solicitamos, que você, caro aluno, deixe de lado, em primeiro lugar, os preconceitos aprendidos em relação à mulher, por exemplo. Desejamos ótimos estudos. 19WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA IDENTIDADE DE GÊNERO Ao discutir qualquer aspecto relacionado às questões de gênero, em primeiro lugar, é preciso compreender a realidade a qual as pessoas estão inseridas. Esse é o primeiro passo para buscar conhecimento sobre a identidade de gênero, por exemplo. Cotidianamente, nos deparamos com pessoas das mais variadas características: algumas se assemelham às nossas, outras não. Ou seja, a pluralidade do ser humano é imensa e diz respeito, dentre outras coisas, à posição política, à orientação sexual, à identidade de gênero, à classe social, à denominação religiosa etc. Figura 05 – Pessoas diferentes. Fonte: Voinau (2017). Portanto, é imprescindível entendermos que cada pessoa é única, com características diversas e todas elas devem ser reconhecidas e respeitadas socialmente. Assim, cada um de nós é uma pessoa única, que, porém, pode apresentar características comuns a toda a humanidade. Tais características nos identificam com alguns e nos tornam diferentes de outros. Portanto, as questões relacionadas a gênero não foram “inventadas” recentemente, mas nominadas, estão com maior visibilidade à medida em que são estudadas. É fundamental compreender essa perspectiva para não cair no erro de disseminar a ideia de que os estudiosos de gênero estão inventando identidades. Mas, todas as identidades estudadas e analisadas já fazem parte do cotidiano social. 20WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Relembre da sua formação pessoal: desde criança você foi ensinado a agir e a ter uma determinada aparência, de acordo com o seu sexo biológico. Muito possivelmente, a sua mãe pode ter realizado o exame de ultrassonografia, e seu sexo foi revelado antes mesmo de você nascer (lembramos que isso não se aplica a todas as pessoas, no entanto, há uma parcela grande da sociedade que participa desse ritual). Se não aconteceu essa revelação com o exame mencionado, foi no seu parto. Crescemos sendo ensinados que homens agem de determinada forma e mulheres agem de outra, porque “é da sua natureza”, e costumamos realmente observar isso socialmente. No entanto, os estudos de gênero defendem, e nós concordamos, que o gênero (agir de determinada forma – masculina ou feminina) é algo aprendido e construído socialmente. Desde muito cedo, os responsáveis por um bebê ensinam maneiras de agir diferenciadas para meninos e meninas. Por exemplo, aos meninos é ensinado que deve gostar da cor azul, enquanto que para as meninas é ensinado que devem ter apreço pela cor rosa. Cientificamente, não há uma explicação para essa determinação. Ainda existem, social e culturalmente, brinquedos marcados como sendo de meninos: carrinho, bola, pipa etc.; e brinquedos ‘inclinados’ para as meninas: boneca, panelinha, cozinha em miniatura etc. Figura 06 – Social e culturalmente, a cor azul é ligada aos meninos e a cor rosa é ligada às meninas. Fonte: Sepúlveda (2017). Esses adereços direcionados a um ou a outro gênero acabam por moldar o comportamento das pessoas. Assim, as crianças são direcionadas a determinados papeis sociais e assim o fazem até a vida adulta e idosa. Muitas vezes, infelizmente, sem questionar. Os estudiosos de gênero não defendem a obrigatoriedade de meninos brincarem de boneca ou meninas brincarem de carrinho. Porém, a defesa é de que se um menino prefere brincar de boneca, por exemplo, ele não pode ser discriminado por essa atitude. A mesma coisa serve para as meninas. Nesse sentido, a defesa maior está na liberdade de escolha de meninos e meninas optarem por utilizar determinada cor e brincarem com determinados brinquedos. Para facilitar o entendimento do conceito de gênero, vamos destacar as ideias de autores renomados em relação ao tema. Aqui no Brasil, os estudos acerca de gênero têm crescido a cada ano que passa. Enquanto algumas pessoas julgam que esse conceito não é necessário de ser discutido, outras julgam que é fundamental discutir, sobretudo para que cada um tenha conhecimento sobre a sua formação por completo. 21WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Meyer (2010, p. 16) explica que [...] o conceito de gênero passa a englobar todas as formas de construção social, cultural e linguística implicadas com os processos que diferenciam mulheres e homens, incluindo aqueles processos que produzem seus corpos, distinguindo- os e separando-os como corpos dotados de sexo, gênero e sexualidade. Portanto, o conceito de gênero tem o objetivo de distinguir as diferenças sociais e culturais do homem e da mulher, de modo a enfatizar as suas características, buscando ressaltar que há a necessidade de que a sociedade atinja a igualdade entre os gêneros, afirmando que tanto o homem como a mulher podem experimentar situações diversas daquelas impostas socialmente, sem sofrer discriminação ou rejeição. Meyer (2010, p. 16) ainda aponta que o gênero [...] aponta para a noção de que, ao longo da vida, através das mais diversas instituições e práticas sociais, nos constituímos como homens e mulheres, num processo que não é linear, progressivo ou harmônico e que também nunca está finalizado ou completo. A partir disso, fica evidente que as várias instituições as quais nos relacionamos contribuem para a formação de gênero, de forma positiva ou negativa. Isso porque determinadas instituições podem fornecer conhecimentos científicos em relação ao tema; e outras podem condenar as diversas faces da vivência de gênero. Louro (2001) explica que o conceito de gênero procura de contrapor à ideia de uma essência (masculina ou feminina) natural, universal e imutável, enfatizando processos de construção ou formação histórica, linguística e socialmente determinadas. É fundamental sabermos que a identidade de gênero é formada constantemente, diariamente, no decorrer da vida de uma pessoa. Essa identidade pode ser modificada, porém, ninguém pode obrigar uma pessoa a fazê-lo. Além disso, a experiência de masculino e feminino em determinado lugar pode ser bem diferente da experiência de outro lugar. Jesus (2012, p. 08) enfatiza que Mulheres de países nórdicos têm características que, para nossa cultura, são tidas como masculinas. Ser masculino no Brasil é diferente do que é ser masculino no Japão ou mesmo na Argentina. Há culturas para as quais não é o órgão genital que define o sexo. Ser masculino ou feminino, homem ou mulher, é uma questão de gênero. Logo, o conceito básico para entendermos homens e mulheres é o de gênero. A partir disso, é fundamental compreendermos que as questões relacionadas a gênero não são biológicas, mas sociais, culturais, políticas. Sexo, nesse sentido, é biológico, enquanto gênero é social, construído pelas diferentes culturas. “E o gênero vai além do sexo: O que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos ou a conformação genital, mas a autopercepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente” (JESUS, 2012, p. 08). REFLITA As pessoas vão formando as suas características ao longo de toda a vida, e com os aspectos relacionados a gênero, isso não é dife- rente. 22WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Louro (2001, p. 09) enfatiza que “[...] as muitas formas de fazer-se mulher ou homem, as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente”. A partir disso, a autora infere que compreender as questões ligadas a gênero exige uma compreensão do social, do cultural.Ainda de acordo com a autora, “[...] a inscrição dos gêneros – feminino ou masculino – nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura” (LOURO, 2001, p. 11). Mais uma vez, é importante ressaltar que os aspectos culturais são fundamentais na construção e desconstrução do gênero. Essa construção e desconstrução é, portanto, composta e definida pelas relações sociais, sendo que tais identidades são “[...] moldadas pelas redes de poder de uma sociedade” (LOURO, 2001, p. 11). Disso, destacamos que o conceito de gênero também acentua que, como as pessoas nascem e vivem em tempos e lugares diferentes, há muitas formas diversas de vivenciar a masculinidade e a feminilidade. Uma explicação interessante sobre identidade de gênero consiste em que esse conceito é a maneira como alguém se sente e se apresenta para si e para as demais pessoas como masculino ou feminino, ou ainda pode ser uma mistura de ambos ou nenhum dos dois. Figura 07 – Algumas possibilidades de construção de gênero. Fonte: Villegas (2014). Vale ressaltar que a identidade de gênero independe do sexo biológico (fêmea ou macho) ou da orientação sexual (orientação do desejo: homossexual, heterossexual, bissexual, assexual). Portanto, a identidade de gênero é a forma como as pessoas se reconhecem e desejam que os outros as reconheçam. Isso inclui a maneira como cada um age (jeito de ser), a maneira como se veste, anda, fala (o linguajar que utilizam), se vestem. No ano de 2013, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH, 2013) lançou, no Brasil, em parceria com a UNAIDS, uma cartilha intitulada ‘Nascidos livres e iguais – orientação sexual e identidade de gênero no regime internacional de direitos humanos’. Esse material teve uma repercussão positiva ao passo que buscou orientar as pessoas acerca do respeito em relação à orientação sexual e identidade de gênero. 23WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA De acordo com o documento citado, os Estados devem proteger as pessoas da violência homofóbica e transfóbica; prevenir o tratamento cruel direcionado às pessoas LGBTT; revogar leis que criminalizam a homossexualidade; proibir a discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero; proteger a liberdade de expressão e reunião pacífica de pessoas LGBTT. A seguir, reproduzimos as recomendações desse material: Figura 08 – propostas de ações em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Fonte: United Na- tions Human Rights (2013). 24WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA O material Nascidos livres e iguais – orientação sexual e identidade de gênero no regime internacional de direitos humanos não propõe a criação de novas leis, necessariamente; mas o respeito à orientação sexual e diversidade de gênero. Nas palavras do documento: [...] a proteção de pessoas LGBT contra violência e discriminação não requer a criação de um conjunto de direitos específicos, ou o estabelecimento de novos padrões internacionais de direitos humanos. Apesar do complexo e acalorado debate político sobre igualdade de pessoas LGBT nas Nações Unidas, do ponto de vista legal a questão é simples. As obrigações que os Estados têm de proteger as pessoas LGBT de violações de seus direitos humanos já estão bem estabelecidas e são obrigatórias para todos os Estados membros das Nações Unidas (CNDH, 2013, p. 63). Assim, é uma cartilha fundamental para os Estados, de modo que sigam a orientação de respeitar a diversidade das pessoas, buscando sempre uma cultura de paz. A seguir, um quadro expondo as duas principais identidades de gênero que conhecemos: NOME DEFINIÇÃO CISGÊNERO É o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”. TRANSGÊNERO É o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica com um gênero diferente daquele que corresponde ao seu gênero atribuído no momento do nascimento. Quadro 04 – Diferença entre cisgênero e transgênero. Fonte: Elaborado pelo autor (2017). A partir do quadro, é interessante pensarmos que no âmbito dos estudos relacionados ao gênero das pessoas, o cisgênero é a oposição do transgênero, pois este último se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído quando nasceu. Para ficar um pouco mais evidente o conceito, vamos a um exemplo: uma pessoa que nasce com o órgão sexual masculino, se expressa socialmente conforme dita o papel de gênero masculino e se reconhece como um homem (identidade de gênero), é considerado um homem cisgênero. Para compreender melhor a definição de cisgênero, devemos analisar a origem etimológica deste termo: cis significa “do mesmo lado” ou “ao lado de”, em latim. Ou seja, este prefixo faz referência a concordância da identidade de gênero do indivíduo com a sua configuração hormonal e genital de nascença. Para entendermos melhor o conceito de transgênero, vamos a um exemplo: uma pessoa que mesmo nascendo com um pênis não se identifica com o gênero masculino, mas com um diferente daquele que é convencionalmente associado às pessoas com este tipo de sexo biológico. É importante ressaltar que A transgeneridade não é uma doença ou distúrbio psicológico, mas apenas mais uma característica de uma pessoa, uma maneira de a pessoa se sentir bem consigo mesma. 25WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA FEMINISMOS É fato que as lutas feministas (assim como as suas posições teóricas, materiais publicados, reivindicações) foram e são fundamentais para o avanço das pautas relacionadas ao direito das mulheres, das pessoas LGBTT, das discussões acerca de gênero e identidade etc. No entanto, é preciso entendermos o que é o movimento feminista (ou os movimentos feministas). Será que existe apenas um movimento feminista unificado? Ou existem vários? Ondem iniciaram as discussões sobre os feminismos? Questões como essas precisam ser refletidas, embora não haja consenso. No entanto, suas respostas contribuem para pensarmos e dialogarmos sobre esse movimento tão importante para o avanço das lutas sociais no Brasil e no mundo. Wallerstein (2004, s/p) propõe que a palavra feminismo implique pluralidade: “Feminismo é uma palavra no plural. Algumas pessoas falam em feminismos, gosto disto. Por outro lado, defendo que seja da dinâmica do feminismo essa pluralidade de perspectivas”. Embora consideremos importante a proposta da autora, temos preferência pelo termo ‘feminismos’ no plural, para marcar discursivamente nossa diferença em relação à representação corrente de feminismo como um movimento ou uma teoria uniforme. Ou ainda, optamos por utilizarmos, em alguns momentos, lutas/movimentos feministas. Assim, destacamos que há inúmeras vertentes para os movimentos feministas, ou seja, não há uma uniformidade, mas uma diversidade dentro desses movimentos que são organizados por pessoas diferentes, portanto apresentam características diferenciadas. Há autores que enfatizam que os movimentos feministas são datados a partir da Revolução Francesa, ou seja, do fim do século XVIII; outros autores remontam essa história bem antes disso. Pelo fato de a maioria dos materiais analisados abordarem as lutas feministas a partir da Revolução Francesa, esse será o marco utilizado aqui. NOME DO LIVRO: O Segundo Sexo AUTORA: Simone de Beauvoir ANO DE PUBLICAÇÃO: 1949 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Esse livro é uma das obras mais celebradas e importantes para o movimento feminista. O pensamento de Beauvoir analisa a situa- ção da mulher na sociedade (BEAUVOIR, 1980). A premissa do livro é a de que a mulher não é o “segundo sexo” ou o “outro” por razões naturais e imutáveis, mas sim por uma série de processos sociais, culturais e históricos que criaram esta situ- ação. Toda a sua argumentação gira emtorno do questionamento da existência do chamado “eterno feminino”, visto pela sociedade como algo intrínseco a qualquer mulher e que as prenderia a uma gama restrita de características e, principalmente, limitações (BE- AUVOIR, 1980). 26WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA É bastante comum, ao buscarmos materiais sobre os movimentos feministas, encontrarmos essas lutas separadas por “ondas”, ou seja, essas ‘ondas’ são organizadas para didatizar o entendimento acerca do tema. Vale lembrar que nem todos os autores estão em consenso com esse termo, portanto, ele será utilizado entre aspas nesse texto. Considera-se que as primeiras manifestações feministas surgiram no fim do século XVIII. Porém, para algumas feministas, como Dominique Fougeyrollas-Schwebel, o feminismo só vai se configurar como movimento de luta a partir de meados do século XX, quando as mulheres se reconhecem como oprimidas dentro de um sistema patriarcal, segundo Hirata (2009). As teorias do patriarcado, segundo Christine Delphy, em Hirata (2009), ganham novo sentido com a “segunda onda” do feminismo, nos anos 1970. O patriarcado pode ser entendido, a partir desse momento, como a formação social em que os homens detêm o poder. A dominação masculina estaria atrelada à subordinação e sujeição da mulher. De antemão, vale destacar que os movimentos feministas não buscam inverter esse papel, ou seja, não é objetivo que as mulheres (ou as características femininas) passem a ser consideradas superiores às características masculinas. No entanto, as lutas feministas buscam igualar tais características, de modo que a opressão sofrida por mulheres seja combatida. Marques (2015) ressalta que a feminista Olympe de Gouges (1748–1793) militou ativamente na Revolução Francesa, tendo um papel fundamental. Em 1793, a militante do movimento foi guilhotinada na capital da França, em Paris. De acordo com a autora, “[...] a condenação deveu-se ao fato de ela ter se oposto aos conhecidos revolucionários Robespierre e Marat, que a consideraram mulher ‘desnaturada’ e ‘perigosa demais’” (MARQUES, 2015, p. 07). Ao ser conduzida à morte, Gouges teria afirmado: “A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna”. Figura 09 – Olympe de Gouges. Fonte: Worthington (2015). REFLITA Essa análise contribui para pensarmos que as lutas feministas bus- cam, dentre outras pautas, discutir a hierarquia entre os gêneros, sendo que naquele momento os homens eram considerados su- periores às mulheres, ou seja, as características masculinas eram vistas como sendo melhores do que as características femininas. 27WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Fica evidente que as mulheres que se opunham à opressão sofrida, eram castigadas e eliminadas da sociedade. O que aconteceu com Gouges na França aconteceu milhares de vezes em inúmeros lugares. Gouges defendia a igualdade de direitos, quando as leis eram voltadas para os cidadãos homens. Ressaltamos que até o século XIX pouco se legislava para as mulheres. Assim, as mulheres reivindicavam a cidadania, expõe Marques (2015). Outra feminista francesa que merece destaque é Medeleine Pelletier (1874–1939), que defendia o discurso de as mulheres se vestirem e se comportarem como homens para serem respeitadas: utilizando calças (o que era proibido na época na França), buscando o porte físico masculino e tendo posse de revólveres. Essas defesas a favor da mulher fizeram com que Pelletier fosse internada em uma clínica de Psiquiatria e falecido em 1939 na referida clínica, indica Marques (2015). Nesse mesmo contexto, Costa (2013) destaca que as lutas feministas, enquanto movimento social, são movimentos essencialmente modernos, surgem no contexto das ideias iluministas e das propostas transformadoras da Revolução Francesa e da Americana e se espalha, em um primeiro momento, em torno da demanda por direitos sociais e políticos. Nesse seu alvorecer, mobilizou mulheres de muitos países da Europa, dos Estados Unidos e, posteriormente, de alguns países da América Latina, tendo seu auge na luta sufragista. A mesma autora ainda enfatiza que Após um pequeno período de relativa desmobilização, o feminismo ressurge no contexto dos movimentos contestatórios dos anos 1960, a exemplo do movimento estudantil na França, das lutas pacifistas contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos e do movimento hippie internacional que causou uma verdadeira revolução nos costumes. Ressurge em torno da afirmação de que o “pessoal é político”, pensado não apenas como uma bandeira de luta mobilizadora, mas como um questionamento profundo dos parâmetros conceituais do político. Vai, portanto, romper com os limites do conceito de político, até então identificado pela teoria política com o âmbito da esfera pública e das relações sociais que aí acontecem. Isto é, no campo da política que é entendida aqui como o uso limitado do poder social (COSTA, 2013, p. 02). Assim, já no século XX, os movimentos feministas buscam dar sequência a essa luta em busca de igualdade entre homens e mulheres, sobretudo a partir de um campo fundamental para as mudanças sociais: o campo político. Desse modo, o papel social da mulher ganha notoriedade nos discursos feministas, de modo que a mulher precisa compreender que ela não deve ser enquadrada apenas como ‘cuidadora do lar’, participante somente do ambiente privado, dentro de casa, doméstico, como meras reprodutoras e cuidadoras dos filhos. Em se tratando de Brasil, as lutas feministas têm destaque a partir do árduo trabalho de muitas personagens. Costa (2013, p. 03) destaca que merece atenção “[...] a criação do Partido Republicano Feminista, pela baiana Leolinda Daltro, com o objetivo de mobilizar as mulheres na luta pelo sufrágio”, e além disso, a criação da “[...] Associação Feminista, de cunho anarquista, com forte influência nas greves operárias de 1918 em São Paulo. As duas organizações foram muito ativas e chegaram a mobilizar um número significativo de mulheres”. Costa (2013) também faz referência aos movimentos em prol do voto feminino. Nas palavras da autora: A partir dos anos 1920 a luta sufragista se amplia, em muitos países latinoamericanos, sob a condução das mulheres de classe alta e média, que através de uma ação direta junto aos aparelhos legislativos, logo conquistam o direito ao voto. Assim foi no Equador, em 1929, o primeiro país da região a estabelecer o voto feminino; No Brasil, Uruguai e Cuba no início dos anos 1930; e na Argentina e Chile, logo após o final da Segunda Guerra mundial. As mulheres do México, Peru e Colômbia só vão conquistar o voto na década de 1950. 28WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Nome do Filme: As sufragistas Direção: Sarah Gavron Local e ano: Reino Unido, 2015 Principais temas a serem debatidos: Movimento feminista e hierar- quia entre os gêneros. Sinopse: Desde a primeira cena, este drama mostra a que veio: en- quanto personagens masculinos bradam contra o direito de voto das mulheres, uma personagem feminina joga uma pedra contra uma vitrine, gritando pelo direito de votar. Homens contra mulhe- res, voto contra não voto – está armado o contexto histórico e polí- tico que interessa à diretora Sarah Gavron e à roteirista Abi Morgan. ‘As Sufragistas’ adota um ponto de partida interessante ao escolher como protagonista Maud Watts (Carey Mulligan), uma mulher sem formação política. Esta lavadeira, acostumada à opressão mascu- lina, nunca questionou o sistema, mas aos poucos descobre seus direitos como cidadã. O roteiro acompanha o despertar político de Maud rumo à libertação das regras sociais do início do século XX. Outro acerto encontra-se no uso da restrição ao voto como sím- bolo de opressão. Ao invés de se prender ao direito de votar em si, a práticaeleitoral é utilizada como metáfora da desigualdade entre os sexos. O verdadeiro tema do filme é a luta pela igualdade, pela defesa das minorias e pela eliminação dos dogmas machis- tas impostos pelo cristianismo. Fala-se pouco sobre o voto em si: o verdadeiro gesto político do roteiro é colocar o dedo em feridas morais que existem até hoje. Em pleno 2017, pode ser absurda a ideia de mulheres serem impe- didas de votar, mas a proibição era considerada tão “natural” quan- to são consideradas naturais atualmente as limitações de direitos aos gays e transexuais, por exemplo, e como já foram considera- das naturais, pouco tempo atrás, a segregação racial, a escravidão e outras formas de privilégio da elite branca. Apesar de ser um fil- me de época, As Sufragistas torna-se relevante por sua triste atua- lidade (ADORO CINEMA, 2015). Portanto, o início do século XX foi marcado por lutas feministas que buscavam a representatividade do voto, ou seja, almejavam o direito de também poderem expressar suas opiniões às entidades políticas. Especificamente no Brasil, Marques (2015) afirma que no ano de 1919, Bertha Luzt (1894-1976) assumiu a liderança do movimento sufragista no país com a criação da Liga para Emancipação Intelectual da Mulher, que em 1922 cedeu lugar à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. 29WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 10 – Bertha Lutz. Fonte: Lutz (2012). Marques (2015, p. 11) destaca que Lutz gozou de uma condição privilegiada para um a mulher de seu tempo, “[...] quando estudou em Paris, Bertha teve contato com as sufragistas francesas. Ao retornar ao Brasil, em 1918, passou a organizar as bases do movimento feminista brasileiro”. Essa personagem, então, tem grande representatividade nas lutas feministas brasileiras. No Brasil, apenas na Constituição de 1934 é que se tem a mudança do alistamento eleitoral e voto, que passam a ser obrigatórios para homens e mulheres. “Todavia, só para as mulheres na condição de exercerem funções públicas e possuir remuneração, salvo as sanções que a lei determinasse. No texto da lei, já não se escrevia ‘cidadãos’, e sim ‘homens e mulheres’” (MARQUES, 2015, p. 11). A “segunda onda” dos movimentos feministas foi denominada como feminismo da diferença e é datada entre as décadas de 1960 e 1970. As mulheres, principalmente na Europa e EUA, tiveram suas vidas modificadas devido à guerra, pois as estruturas culturais foram abaladas. Nesse período, os homens foram à guerra e as mulheres assumiram o papel de mantenedoras do lar. A guerra provocou uma mudança social, uma vez que muitas tiveram de trabalhar para garantir o sustento da família, explica Marques (2015). A “terceira onda” dos movimentos feministas iniciada na década de 1990 volta suas forças na principalmente na luta contra a violência praticada contra a mulher, seja ela física ou psicológica, segundo Alves (s/d). 30WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Apesar da conquista de Leis que punem os agressores sejam eles de dentro ou fora de casa, a cultura machista impregnada na sociedade ainda faz com que essa violência persista e tenha um número bastante considerável de vítimas. O grande alvo das feministas são os países em desenvolvimento e os países muçulmanos e africanos, em que as mulheres vivem à sombra dos homens ou sofrem com mutilações impostas em rituais religiosos ou sociais. Uma das características da terceira onda é a necessidade de se entender que existem diferenças de gêneros e elas devem ser respeitadas, aponta Alves (s/d). Hoje, os movimentos feministas ainda buscam desconstruir socialmente a ideia de que os homens são superiores às mulheres, lutando com o objetivo da igualdade entre os gêneros e enfrentamento da violência a qual milhares de mulheres são submetidas todos os dias em nosso país. Figura 11 – Movimento feminista no Brasil. Fonte: Centro Feminista (2013). Muitas das conquistas das mulheres se devem, assim, aos movimentos feministas, que enfrentaram as barreiras sociais de sua época, a fim de contribuir para a igualdades dos gêneros, conseguindo diminuir as violências praticadas contra as mulheres. Por ser um processo histórico e não uma fatalidade biológica, a hierarquia entre os gêneros pode então ser combatida em todas as áreas. A partir dessa constatação as frentes de luta dos movimentos feministas não param de se multiplicar, coloca Betoni (s/d). No quadro a seguir, enfatizamos algumas das principais bandeiras defendidas pelos movimentos feministas: 31WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Quadro 05 – Principais bandeiras dos movimentos feministas. Fonte: o autor. Dentro dos movimentos feministas, alguns grupos também se organizam a partir das suas reivindicações e experiências específicas, a exemplo das mulheres negras, das mulheres trans e das lésbicas. Em todas as suas representações diversas, o objetivo comum das feministas é o empoderamento da mulher e o fim do machismo como um todo, desde as esferas políticas até os meios de comunicação (BETONI, s/d). Em suma, os movimentos feministas lutam contra toda e qualquer forma de opressão e violência a que estão submetidas as mulheres. Oliveira e Maio (2016, p. 16) destacam que: Os dados relativos à violência contra as mulheres fazem pensar que são emergentes políticas públicas que defendam os Direitos Humanos em suas várias instâncias sociais: famílias, instituições públicas, espaços privados, entre outros. Esses números reveladores de uma flagelação feminina podem e devem mudar, porém isso poderá ser realizado apenas com uma força tarefa unindo poderes governamentais, sociedade civil organizada e todas as pessoas que fazem parte desse país. É preciso fechar a mente, mas nunca os olhos, para o machismo, o preconceito, a discriminação, e toda forma de violência. Portanto, é fundamental uma força tarefa, a partir da união dos vários poderes, a fim de diminuir as violências praticadas contra as mulheres. Logo, além das Leis, o trabalho político e social também é obrigatório no combate à violência contra as mulheres. Há duas Leis em específico, no Brasil, que são voltadas às violên- cias praticadas contra as mulheres: • Lei Maria da Penha (Lei nº. 11.340/2006); • Lei do Feminicídio (Lei nº. 13.104/2015). UNIDADE 32WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 33 SEXO X SEXUALIDADE ............................................................................................................................................ 34 ORIENTAÇÃO SEXUAL ............................................................................................................................................. 38 MOVIMENTOS SOCIAIS ......................................................................................................................................... 40 SEXUALIDADE: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL PROF. DR. MÁRCIO DE OLIVEIRA 03 33WWW.UNINGA.BR CO RP O, G ÊN ER O E SE XU AL ID AD E | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO A sexualidade é algo ainda visto como tabu por uma grande parcela da sociedade. No entanto, é preciso termos em mente que discutir sexualidade não é debater apenas questões voltadas ao sexo (coito), mas muitas outras vertentes que dizem respeito ao ser humano. Conforme já fora mencionado algumas vezes neste livro, as pessoas são formadas por inúmeras características, e a sexualidade é uma dessas características. Cabem, assim, alguns questionamentos a fim de buscar propor concepções científicas para a elaboração dessa unidade: o que é sexualidade? É possível obrigar uma pessoa a mudar a sua sexualidade? Existe uma orientação sexual