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^ i] síntese universitária 22. SANDRA JATAHY PESAVENTO C /?-.Ív O Brasil Oxitemporâneo Editora da Universidade Universidade Federal do Rio Grande do Sul Segunda Edição o Brasil contemporâneo Universidade Federai do Rk) Grande do Sul Reitor HélgíoTrindade Vice-Reitor Seigio Nícolaiewsky Pró-Reltora de Extensão Ana Maria de Mattos Guimarães EDITORA DA UNIVERSIDADE Diretor Sergius Gonzaga CONSELHO EDITORIAL Dína Celeste Araújo Barberena Homero Dewes Iríon Nolasko Luiz Osvaldo Leite Maria da Glória Bordiní Newton Braga Rosa Renato Paulo Saul Ricardo Schneiders da Silva Rômulo Krafta Rubens M^io Garcia Maciel SergiusGonzaga Editora da Universidade / UFRGS • Av. João Pessoa, 415 • 90040-000 - Porto Alc^, RS Foiic(051)224-8821 • Tclex(51)1055-UFRS.BRc(52)0253- UFRS-BR • Fax(051)227-2295 o Brasil Contemporâneo Sandra Jatahy Pesavento Segunda Edição Editora Ida Universidade Universidade Federal do Rio GraiNíe do Sid Síntese UníVersÍtáría/22 o © de Sandra Jatahy Pesavento I® edição: 1991 Direitos reservados desta edição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul Capa: Carla Luzzatto Ilustração: O universo doscoronéis. InteriordeSãoPaulo,1903.NossoSéculo,Abril Cultural. Editoração: Geraldo F. Huff Revisão: Marli de Jesus Rodrigues dos Santos, Anajara Carbonel Closs e Maria da^GraçaStorti Féres Montagem:RubensRenatoAbreu Administração: Silvia Maria Secrieru Sandra Jatahy Pesavento Profesjsorano Departamento deHistóriadaUFRGS.MestraemHistóriapelaPUCRS. DoutoraemHistóriapelaUSP.Publicações: Repúblicavelhagaúcha: charqueadas, frigoríficos e criadores - RS 1889-1930; História do Rio Grande do Sul; RS: a economiae opoder dos anos 30; RS:agropecuária colonial e industrialização; A Revolução Federalista; A Revolução Farroupilha; História da indústria sul- riograndense; Pecuária e indústria. Formas de realização do capitalismo na socie dade gaúcha no século XIX;Burguesia gaúcha. Dominação de capitale disciplina de trabalho, RS: 1889-1930; Emergência dos subalternos: trabalho livre e ordem burguesa; Cemanos de República; Porto Alegre: espaços e vivências; Borges de Medeiros. P472 Pesavento, Sandra Jatahy O Brasil contemporâneo. 2. ed. / Sandra Jatahy Pesavento.-PortoAlegre: Ed. daUniversidade/UFRGS, 1994. (Síntese Universitária; 22) 1. Brasil - História. 2. Política interna - Brasil. I. Título. CDU 981.56 323 (81) Catalogação na publicação de Zaida Maria Moraes Preussler CBR-10/203 ISBN 85-7025-210-2 A Editora da Universidade/UFRGS agradece à Edel-Empresa de Engenharia o consentimentopara usara edição comemorativaao centenário da Repúblicá brasileira E o regime do privilégio está abolido! A República está proclamada! A unidade da Pátria está salva! Tudo em plena paz. Eis a eterna glória, a glória sem egual, d'este grande povo que assim realisa o solemne e co movente espetáculo, nunca d'antes presenciado, de operar no seu sistema de governo uma pro funda revolução, incruenta, sem effiisão de san gue, immaculada, em meio do mais expontâneo regozijo nacional. Exemplo único em toda a história, este que offe- rece a nossa amada Pátria! (AFederação, Porto Alegre, 16/11/1889.) SUMARIO Brasil, fim do século A QUEDA DE UM IMPÉRIO TROPICAL 9 A implantação da Repdblica ENTRE A CARTOLA E A ESPADA 18 A Repúblicaoligárquica O PROGRESSO DENTRO DA ORDEM 26 A crise dos anos vinte A SOCIEDADE SE AGITA 35 A Revolução de 30 OS ANOS DE TRANSIÇÃO 41 O Estado Novo A DITADURA VERDE-AMARELA 49 Populismo, indústria e inflação ASCENSÃO E QUEDA DE UMA DEMOCRACIA 57 Os militares no poder OS MILAGRES DA GRANDE POTÊNCIA 70 Abertura e transição CAMINHO EM ABERTO 82 BRASIL, FIMDOSÉCULO A QUEDA DE UM IMPÉRIO TROPICAL (.•.) seria difídl pintar com traços pro nunciados e gerais o caráter nacional dos brasileiros, tanto mais diffdl porque eles começam apenas a formar uma na ção, (Maurice Rugendas. Voyagepitto^ resque dans le BrêsiU 1835.) No decorrer do século XIX, o Brasil oferecia um quadro bastante exótico e pitoresco aos viajantes estrangeiros —artis tas, cientistas e escritores - que visitavam o pafs. Do processo de descolonização iniciado no fim do século XVEQ, que propiciara a formação das nações latino-america nas, resultará a montagem de um grande império tropical no Brasil. A fragmentação ocorrida na área de colonização espa nhola, o Brasil ofereceu o espetáculo da unidade territori^ e da adoção de um regime monárquico, unitário e centralizado. A transferência da Corte portuguesa para o Brasil, no iní cio do século, fornecera o aparato institucional de um reino, e a habilidade política da elite colonial ganhara para a causa da independência a figura do jovem príncipe D. Pedro, permitindo que a transição brasileira se desse da forma mais conservadora possível. De pai para filho, mantinha-se a mesma dinastia e o regime monárquico centralizado. Não se quer dizer que a independência não se desse sem traumas ou lutas. Todo o Primerio Reinado e a Regência foram marcados pelos esforços de afirmação da hegemonia do Centro —a Corte, no Rio de Janeiro —sobre as províncias, defrontan- do-se as diretrizes centralizadoras e unitárias do Império com as reivindicações federativas e de descentralização das regiões periféricas. Quando teve infcio o Segundo Reinado, em 1840, com a coroação de um imperador adolescente, aos 15 anos incom pletos, o Centro já conseguira sufocar todos os movimentos provinciais que postulavam maior autonomia e/ou separação. Tinha infcio a pax imperial^ com a supremacia do Rio de Ja neiro sobre o pafs. Os condutores hegemônicos do processo político —os ba rões do café do Vale do Paraíba do Sul —haviam acertado um consenso com os demais membros da elite proprietária de ter ras e de escravos. Legitimava-se a supremacia dos cafeiculto- res, fração agrária mais poderosa da nação, mas compensava-se esta situação de preeminência por acordos intraclasse: o siste ma dual-partidário permitia o revezamento de conservadores e liberais no ministério, acertava-se que os interesses funda mentais a preservar eram aqueles referentes à propriedade (ter ra e escravos) e mantinha-se o povo à margem do processo po lítico, através de um sistema eleitoral censitário que só conce dia o direito de votar e ser votado aos cidadãos com determi nada renda. Estabeleciam-se assim as bases de uma Monarquia agrária e escravista erguida sobre o trabalho dos negros, que exportava para a Europa gêneros tropicais e consumia produtos estrangei ros ingleses e franceses. Moda inglesa e vinhos franceses, dis cursos liberais e chicotes de feitor, igrejas barrocas e cultos africanos, a imagem deste Império colonial, faustoso e miserá vel, dos bacharéis e dos mestiços, haveria de realmente pro porcionar aos europeus sentimentos bastante contraditórios, de fascínio e repúdio, num quadro confuso e intrigante. Se a viajante inglesa Maria Graham, escritora e dese nhista, considerava serem os mulatos mais ativos e industriosos que os outros segmentos da população brasileira, o conde Go- bineau, ministro da França no Rio de Janeiro, registrava que os mestiços^ encontráveis em todas as camadas sociais, não eram nem trabalhadores, nem ativos, nem fecundos... Mas a trajetória do Império brasileiro não se daria apenas pela combinação exótica do cotidiano tropical/mulato com ve lhas heranças européias. Ao longo da segunda metade do sé- 10 culo XIX, o Brasil atravessaria uma série de transformações econômicas, sociais, políticas e culturais que o conduziriam pela senda da modernidade. No decorrer do século XIX, o sistema capitalista, que se constituía em nível mundial, transformava-se no sentido de subverter as condições de produção vigentes no mundo que a ele se integrava. Vencida uma fase de acumulação primitiva, a vitória da fábrica moderna, da produção mecanizada e da aplicação da ciência à tecnologia, impunha redefinições em escala interna cional. Numa primeira fase, este processo em curso implicara a ruptura do chamado "pacto colonial", a extinção dos monopó lios e a liberdade de comércio,controle sobre os subalternos. Estabelecia-se o consenso de que a melhor forma de rea lizar o progresso econômico e garantir a ordem social era atra vés do regime autoritário. Curiosamente, o Estado Novo se apresphtava como o único capaz de realizar a verdadeira de mocracia, através de üm governo forte que moralizaria as ins tituições, livrando-as de seus antigos vícios. 48 o ESTADO NOVO A DITADURA VERDE-AMARELA Com o apoio do Exército, Getúlio Vargas instalou a dita dura no Brasil, sendo saudado entusiasticsimente pelos "cami- sas-verdes" integralistas, que viam na marcha do país para a direita uma solidificação de suas posições. Todavia, suas pre tensões foram frustradas, pois o Estado Novo proclamou de imediato a extinção dos partidos políticos lio Brasil e não in cluiu os "camisas-verdes" na poderosa e burocratizada estrutu ra de poder que se montou. Inconformados, tentaram derrubar o governo recém-instalado na fracassada tentativa integralista de 1938. O Estado Novo implantou no Brasil um antiliberalismo doutrinário, alardeando a falência dos regimes democráticos no mundo, para o que recolhia exemplos da realidade européia, onde os governos de caráter fascista se encontravam em ascen são. A instalação da ditadura representou, pois, a vitória da corrente autoritária enqu2uito forma de viabilizar o desenvol vimento capitalista no Brasil associada a rígidas formas de controle social. O Estado apresentava-se como o "leviatã protetor", que outorgava a legislação social, intervinha e pro tegia, dirigia e coordenava a sociedade, pairando acimá dos grupos sociais. Alijava-se do vocabulário a noção de "classe" e em seu lugar divulgava-se a idéia de povo, identificada com a nação. A nação brasileira era, pois, o conjunto do povo, onde as diferenças sociais eram desconsideradas para ceder lugar às diferenças de etnia e cultura, às quais se somavam as variações geográficas de clima, vegetação, solo e atividades econômicas. O conjunto destas diversidades constituía a nação brasileira, onde com a cooperação de todos se realizaria a aventura do progresso. Substituía-se, pois, a idéia do conflito pela da har- 49 monia social e da conjugação de esforços. O progresso do pafs, por outro lado, era identificado com o desenvolvimento da in dústria e com o conseqüente bem-estar social. Por sua vez, o progresso só poderia ser atingido através da preservação da or dem, o que se viabilizaria com o governo autoritário. O encadeamento destas idéias, desenvolvidas em tomo de uma matriz nacionalista, justificava a ditadura e consagrava a meta do desenvolvimento industrial como o novo caminho para o capitalismo brasileiro. O Estado Novo marca, pois, o mo- méhto em que o mmo da industrialização passa a ser uma meta consciente por parte do governo, assinalando também o entro- samento dos empresários industriais com a elite tecnoburocrá- tica do governo. Enquanto proposta econômica, o modelo getuliano de de senvolvimento que vinha se estruturando ao longo dos anos trinta atinge no Estado Novo uma clara definição: pretendia-se a consolidação de um capitalismo nacional auto-sustentado, tendo a indústria como carro-chefe, o que promoveria a supe ração da estmtural situação de dependência do pafs, interiori zando os centros de decisão. Postulava-se a implantação de ramos dinâmicos e de uma indústria de base, viabilizando-se no pafs a idéia da segurança nacional associada ao crescimento do setor secundário da economia. Embora apoiado em nftidos princfpios de nacionalismo econômico, o modelo getuliano de desenvolvimento não apre sentava ojeriza ao capital estrangeiro. Entendia-se contudo que a sua entrada no pafs e a sua atuação na economia brasileira deviam ser controladas e dirigidas pelo governo. O projeto tinha o apoio da chamada "burguesia nacio nal", entendendo-se nesta categoria o capital que aqui se ge rasse e se reproduzisse. A burguesia industrial brasileira dava apoio à proposta de desenvolvimento govememental e encon trava respaldó junto ao governo no controle da classe operária. O Estado corporativo, que arregimentava desde cima os grupos de interesse econômico para junto do governo, tomava dispen sável a presença dos canais polfticbs de negociação represen tados pelos partidos. Despolitizando a sociedade e intemali- 50 zando a sindicalização da classe produtora atrelada ao Estado, o novo governo apresentava-se como a melhor forma de con duzir o capitalismo brasileiro para novas etapas. A MÁQUINA DOGOVERNO É AMPLIADA Os empresários apoiaram o cooperativismo, porque o mesmo proporcionava uma eficiente forma de controle sobre as classes subalternas (através da legislação trabalhista e da es trutura sindical). Por outro lado, o Estado corporativo abria caminhos de comunicação direta e fácil com os dirigentes do Estado. A burguesia passara a participar dos órgãos técnicos' de planejamento e decisão, ampliando o seu espaço junto ao Estado e reconhecendo na elite tecnoburocrática o seu repre sentante político. As classes médias foram cooptadas pelo inchamento do aparato administrativo, através da ampliação das funções dos serviços públicos e a criação de novos cargos. Parte do opera riado optou pela situação de tutela dos sindicatos oficiais, ven do na legislação social e na Justiça do Trabalho vantagens reais e efetivas em contraposição a um Partido Comunista rele gado à ilegalidade. A instalação do salário mfnimo em 1940 foi um elemento de sedução política importante em tomo do pro letariado urbano, embora na verdade garantisse aos trabalhado res a reprodução de suas condições de existência também a um nível mfnimo. A expansão da máquina do governo foi acompanhada da progressiva hipertrofia do Executivo central. Este fenômeno, que já vinha se desenvolvendo desde 1930, teve condições de melhor realização no Estado Novo, quando foi suprimido o Legislativo. Ao mesmo tempo que haviam sido criados também nos estados institutos e órgãos técnicos, a figura de um inter ventor assegurava a presença e o elo de ligação com o chefe supremo da nação. A proposta autoritária e nacionalista do Estado Novo teve a sua complementação ideológica através da educação e da propaganda. Foram criados o Ministério da Educação e Cultu- 51 ra. dirigido por Gustavo Capanema, e o Departamento de Im prensa e Propaganda, dirigido pelo jornalista Lourival Fontes, que dividiam entre si os "saberes": ao MEC cabia a educação e a cultura das elites; ao DIP, o controle da informação e de uma cultura popular. Juntos, contudo, articulavam-se na mesma missão: difundir valores, pautar condutas, ajustar os indivíduos ao ideário nacionalista da manutenção da ordem, da construção do progresso e da valorização dos elementos da cultura local. Patrocinando a arte, estimulando as edições, buscava-se produ zir uma cultura nacional e uma postura favorável ao regime através de uma relação pedagógica para com o cidadão. A cen sura da imprensa corroborava estas tarefas. A Hora do Brasil transmitia a voz do presidente para todos os brasileiros, en quanto nas escolas cartilhas e livros didáticos exaltavam a fi gura de Vargas e estimulavam o amor pátrio. A música popular brasileira não escapou dos tentáculos da censura e os compo sitores deviam submeter suas produções a um prévio exame pa ra posterior liberação. Surgiram assim sambas estado-novistas, nos quais o "malandro" era substituído pelo "trabalhador". Da mesma forma, sambas-enredo dos desfiles carnavalescos, que haviam tido grande expansão no pós-30, eram submetidos tam bém à censura prévia e, por imposição do governo, deviam es colher temas nacionais e de cunho patriótico. Os desfiles patrióticos das forças armadas e a comemora ção de datas cívicas nas escolas, com apresentação de corais, desfiles da mocidade e números de ginástica, completavam este quadro de aprimoramento moral e físico da "raça" brasileira. Este quadro de exaltação cívica, de culto às virtudes mo rais e de incentivo a uma produção intelectual dirigida, con trastava com a liberação do jogo nos cassinos e com os re quintadosshows de vedetes. O povo construía o progresso na ordem, e a elite divertia- se na noite... Por outro lado, nos subterrâneos do Estado Novo, os inimigos do regime sofriam torturas e espancamentos. O cunho nacionalista do Estado Novo teria um carro-che fe em matéria econômica: a instalação de uma siderúrgica, im plantando no país uma indústria de base. Todavia, as bases fi- nanceiras e técnicas do pafs eram escassas para que este pro jeto se efetivasse apenas com capitais nacionais. Mesmo que a meta fosse a sua implantação através de uma estatal ou semi- estatal, os recursos locais revelam-se insuficientes. Era preciso, pois, conciliar a necessidade dos capitais estrangeiros com o cunho nacionalista do modelo getuliano. Esta possibilidade era dada pela idéia de que, com uma indústria de base, superar- se-ia a dependência, conseguindo o Brasil, como grande po tência, tomar-se autônomo e perseguir seus ideais nacionais. O capital estrangeiro viria para um ramo indicado pelo govemo, mediante "empréstimo, e o controle de sua aplicação seria feito pelo próprio Estado. " A eclosão da Segunda Guerra Mundial veio proporcionar ao govemo brasileiro uma conjuntura favorável para que ele realizasse seu projeto siderúrgico. Frente aos imperialismos em choque, o Brasil teria condições de barganhar e tirar proveito. Ao manter entendimentos com a Alemanha nazista e mesmo anunciar que o poderoso grupo dos Krupp estava disposto a conceder um empréstimo, o Brasil apressou o govemo norte- americano a se decidir a financiar a construção em Volta Re donda de uma siderúrgica. Em troca, o Brasil cedia uma base aérea no Nordeste para que os norte-americanos pudessem dar continuidade ao seu plano de desembarque na Áftica do Norte e, de lá, partissem para a ofensiva no Sul da Europa. Em 1941, foi fundada a Companhia Siderúrgica Nacional com o empréstimo de 20 milhões de dólares pelos Estados Unidos e mais 25 milhões de dólares investidos pelo govemo brasileiro. Em 1943, os Estados Unidos contribuíam com novo empréstimo. Ajustando no plano militar o seu entrelaçamento econômico com os Estados Unidos, o Brasil entrava na guerra para lutar ao lado dos aliados. A partir de então, estabelecia-se uma situação bizarra: no plano europeu, o Brasil combatia as potências do Eixo em no me do mundo livre, mas no plano intemo vigorava um regime de direita com conotação fascista. A partir de 1943, iniciou-se a redemocratização do pafs, que, se por um lado correspondia aos compromissos de ali- 53 nhamento polftico/econômico externos, por outro vinha ao en contro das reivindicações da sociedade civil que principiava a se agitar. Quebrava-se progressivamente o consenso em tomo do autoritarismo em vários níveis: o fechamento da máquina ad ministrativa fora progressivamente afastando-se ou pelo menos deixando de ser o interlocutor dos grupos econômicos mais re presentativos, como por exemplo os empresários. Não se negava o modelo econômico seguido, nem se postulavam outras metas a serem cumpridas pelo governo. O que estava em pauta era o realinhamento político interno, e as mesmas forças que haviam sustentado o autoritarismo acaba ram por abandoná-lo. Na mesma medida em que a burguesia optou pela rede- mocratização, o restante da sociedade civil a acompanhou neste processo: intelectuais, estudantes e operários em greve conseguiram furar a censura da imprensa e o poderoso DIP, tomando pública sua inconformidade com o regime. Corroborando o avanço do processo de democratização em curso, o "american way of life" infiltrava-se progressiva mente no Brasil e as ligações culturais com os Estados Unidos estreitaram-se: o Brasil mandava Cármen Miranda e o Bando da Lua para a América do Norte e de lá nos chegavam o Pato Donald, o camundongo Mickey e o recém-criado personagem de Disney, o brasileiríssimo Zé Carioca... O envio da Força Expedicionária Brasileira para a Itália, em 1944, e o retomo dos pracinhas, em julho de 1945, vieram solidificar o alinhamento "definitivo" do país junto à liberal- democracia. Todavia, o próprio Vargas preparava-se para a retirada, tutelando a criação de dois partidos que representavam a conti nuidade do sistema: o P2irtido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Sociál Democrático (PSD). Reunindo as diferentes frações da burguesia, as duas agremiações representaram os esforços de permanência no po der dos mesmos gmpos dominantes no Estado Novo, travesti- dos com a capa democrática. A diferença básica que se impu- 54 4 *r r^l 5de suas aspi rações, garantindo a continuidade do domínio das elites. Apoiando-se na idéia nacionalista de que era possível en contrar saídas para a economia brasileira com capitais e recur- 57 sos humanos nacionais, o populismo lidava com a idéia da harmonia social. Ou seja, expurgava da realidade a noção cias- sista do conflito e propugnava pela cooperação harmônica de todos os grupos na perseguição dos fins sociais de progresso e paz social. E)esta forma, o populismo estabeleceu, enquanto es tilo político, uma aliança entre governo, empresários e traba lhadores que visava levar adiante um tipo de projeto para o Brasil. Capitalista, nacionalista e industrializante, o modelo ge- tuliano de desenvolvimento tinha no estilo político de populis mo um poderoso elemento para a consolidação da burguesia enquanto classe e para o atrelamento das classes populares ao Estado, através dos sindicatos, dos "pelegos" e das organi zações político-partidárias do novo estado democrático. Na relação que estabelecia entre o líder populista e as massas, o primeiro lançava mão do carisma e da sua capacida de de distribuir favores, atendendo aos cidadãos. Estes, por sua vez, apesar da diferença social, encontra vam no líder um patamar de igualdade: cidadão como eles no exercício de seus direitos políticos, dependia do seu voto para exercer seus poderes. É pois uma relação paternalista que se estabelece entre quem dá e quem recebe, mas é ao mesmo tem po a relação com o Estado de um lado, enquanto instituição, e os cidadãos, eleitores e contribuintes de outro, reivindicando seus direitos. No cômputo geral da análise, o populismo con tribuiu para solidificar a dominação burguesa e garantir as condições de acumulação de um determinado padrão de desen volvimento. E no decorrer da democracia populista que o processo de constituição do capitalismo no Brasil teve o seu final. Com a instalação de um departamento produtor de bens de produção, houve condição para que a capacidade produtiva crescesse adiaute da demanda. O Brasil atingia assim o patamar almejado pelo modelo getuliano de desenvolvimento, de poder superar as condições de dependência externa, segundo a ótica naciona lista. 58 Mas entre o ideário e a realidade, as relações internacio nais do capital e, internamente, as relações intra e extraclasse, deram novo curso ao processo. Ao longo dos governos populistas, ocorreram oscilações da política econômico-fmanceira e das estratégias de desenvol vimento econômico brasileiro. Tais oscilações revelaram a interveniência de três ordens de fatores: a pressão externa do capital monopolista sobre o Estado brasileiro e a economia capitalista nacional, como um todo; as cisões no interior da burguesia, que de nacional optou progressivamente pela internacionalização; as pressões desde baixo, da sociedade civil, a partir do momento em que a políti ca de massas populista abriu caminho para uma ação efetiva das classes sociais, ameaçando a ordem instituída. A CRISE SE INSTALA Já no governo de Dutra, sob o influxo da coligação PTB/PSD, houve uma oscilação entre uma postura mais nacio nalista e uma tendência de abertura ao capital estrangeiro. Sob o influxo de uma nova Constituição, a consolidação da democracia era a grande meta, mas o PCB, que disputava com o PTB a adesão das massas, teve o seu registro cassado em 1947 e foi novamente relegado à clandestinidade. A ilegalidade do PC e as medidas de liberalização das importações, facilitando a entrada dos produtos industrializa dos norte-americanos, são sem ddvida reorientações que en contram sua lógica no alinhamento do Brasil com os Estados Unidos. No plano político militar, o Brasil alinhava-se junto à nação norte-americana na incipiente Guerra Fria, rompendo re lações com a União Soviética. Complementando este alinha mento, o Brasil sediou, em 1947, a Conferência Interamericana de Manutenção de Paz e Segurança, que finalizou com a assi natura do Tratado de Assistência Recíproca, o qual permitia a interferência dos Estados Unidos nos países da América onde se revelasse uma situação atentatória à manutenção da paz e da segurança no continente. 59 No plano econômico, um passo poderoso para a aproxi mação com os Estados Unidos foi dado pela constituição da Comissão Técnica Mista Brasil-Estados Unidos, conhecida como Missão Abbink, alcunha tirada do nome do representan te norte-americano John Abbink. Os resultados dos trabalhos da Comissão recomendavam que fosse contida a inflação e que o desenvolvimento da indústria petrolífera era indispensável para o crescimento econômico do país. Para atingir tais fins, a Comissão apontava para a compressão salarial como medida antiinflacionária de efeito e o recurso ao capital estrangeiro pa ra suprir a falta, de recursos nacionais para a prospecção do petróleo. A eleição de Getulio Vargas para a presidência da Repú blica, em 3 de outubro de 1950, veio reencaminhar o desen volvimento econômico brasileiro para os rumos do nacionalis mo e da industrialização. Trazido de volta ao Catete "nos braços do povo", o ex-ditador fizera uma série de acordos políticos. Lançado can didato do PTB, tivera o apoio do Partido Social Progressista (PSP) em troca da promessa de apoiar seu líder Ademar de Barros nas próximas eleições presidenciais. O próprio PSD, que tinha candidato próprio (Cristiano Machado), apoiou-se em vários estados. Além do PSD, a UDN apresentou seu candida to à presidência, insistindo novamente no nome do brigadeiro Eduardo Gomes. A composição da aliança política para a vitó ria de Vargas refletiu-se na composição do ministério, sendo as diversas pastas divididas entre o PTB, o PSD e o PSP, caben do até o Ministério da Agricultura para a UDN em retribuição ao apoio que este partido deu a Vargas em Pernambuco... Teo ricamente, com tal composição de forças Getúlio Vargas teria amplo respaldo para governar, retomando as rédeas do nacio nalismo econômico que, segundo ele, fora abandonado em 1945 com Dutra. Tratava-se, contudo, de retomar uma idéia construída e difundida durante os anos de fechamento político, dando-lhe uma feição democrática. Para o povo se voltaram as atenções do novo presidente, apoiado na vigorosa estrutura sindical ligada ao Ministério do Trabalho. 60 Na reafirmação do nacionalismo, empreendeu-se a cam panha "O petróleo é nosso", defendendo o monopólio estatal do petróleo, e foi traçado o plano inicial da Eletrobrás para su prir as deficiências de energia. Paralelamente, Getúlio Vargas adotou o sistema de taxas múltiplas de câmbio, permitindo a existência de uma política protecionista conjugada às necessi dades de importação da economia brasileira. O governo federal controlava a venda de divisas através da licitação seletiva dos dólares. A proposta do nacionalismo econômico, conjugada à necessidade do recurso ao capital estrangeiro para suprir as de ficiências de inversão em setores básicos que dinamizassem a economia, trouxe à baila a questão da remessa de lucros. A de cisão de outorgar ao governo o poder de controlsir as remessas de lucros das companhias estrangeiras entrava em conflito aberto com o capital internacional. A tais questões, todas elas alvos de intensos debates, acrescentaram-se aquelas derivadas diretamente da política de massas. O populismo trouxera para a arena política as camadas populares que, no exercício de sua cidadania, se posicionavam por participação, por empregos e por elevação dos seus pa drões de consumo. Com isso entrava em cena a questão do salário mínimo e de sua elevação, requisitada pelos trabalhado res. Quanto aos industriais, as propostas do Plano Aranha de combate à inflação, acompanhadas da restrição do crédito às indústrias, eram um elemento de discórdia com o governo. A decretação do aumento de 100% do salário mínimo por parte do Ministério do Trabalho veio agravar ainda mais estas re lações. As vantagens da associação com o capital estrangeiro, sempre presentes como uma possibilidade ilimitada de ex pansão, vieram dar força a um processo de cisão no seio daburguesia brasileira, que recuava progressivamente de sua po sição nacionalista. A todos estes problemas econômicos, sociais e políticos veio acrescentar-se a divisão do Exército entre uma ala nacio nalista, que apoiava Getúlio nas suas ações, e uma ala antico munista, que via na aproximação do governo federal com os sindicatos uma alarmante tendência esquerdista. 61 No tocante ao setor agroexportador, em 1953 os Estados Unidos, principal comprador db produto, ameaçavam cancelar suas importações de café, alegando os altos preços do produto. Em 1954, a situação era, pois, extremamente conturbada, e os debates se intensificavam, do Congresso às ruas, do Clube Militar aos sindicatos. A UDN, tradicional adversária de Var gas, não poupava criticas ao governo, principalmente através de um seu representante, Carlos Lacerda. Através do jornal Tribuna da Imprensa^ Lacerda lançava violentos ataques ao presidente, o que motivou um dos guarda-costas de Vargas, Gregório Fortunato, a preparar uma emboscada para o jornalis ta. O chamado "incidente da Rua Toneleros" resultou na morte do major da Aeronáutica Rubem Vaz, que acompanhava La cerda, o qual saiu apenas ferido. Transformado o episódio em escândalo nacional, apareceram acusações de conspiração con tra os getulistas. Sentindo-se traído, abandonado e perdendo sucessivamente apoios, Getülio Vargas suicidou-se a 24 de agosto de 1954. O Brasil perdia seu presidente, e o PTB ga nhava um mártir. A ascensão do vice Café Filho (PSD) à presidência da República foi marcada por uma medida de amplas repercussões sobre a economia brasileira: a instrução 113 da Superintendên cia da Moeda e do Crédito (SUMOC) estabeleceu que as em presas associadas ao capital estrangeiro poderiam realizar suas importações do exterior sem cobertura cambial, não tendo que recorrer ao licitamento de dólares. A medida, como se vê, tra zia vantagens inegáveis para as empresas que se associassem, constituindo-se também nuín chamariz para o capital estrangei ro. Procedidas as eleições, foi eleito Juscelino Kubitschek, do PSD, tendo por vice João Goulart, do PTB, com o apoio do PCB.' Na oposição, concorreram Juarez Távora, pela UDN, Ademar de Barros, pelo Partido Social Progressista, e o ex-in- tegralista Plínio Salgado, pelo Partido de Representação Popu lar (PRP). Alarmadas com o risco da esquerdização da política bra sileira, as forças de direita tentaram impedir a posse dos candi- 62 datos eleitos. Seu alvo principal era João Goulart, político que diziam entender-se bem com as esquerdas, com largo trabalho junto aos sindicatos. Entretanto, o general Lott, ministro da Guerra, garantiu a posse do novo presidente, que iniciou a go vernar sob o influxo da proposta de fazer o Brasil progredir "50 anos em 5". No governo JK deu-se a opção pelo desenvolvimento do capitalismo brasileiro de forma associada ao capital estrangei ro. A reformulação do modelo deu-se pela conjunção de várias coordenadas: a necessidade da industria brasileira de evoluir para um maior nível técnico; a dinâmica da reprodução do ca pital em escala internacional, impondo a penetração do capital monopolista; medidas anteriores tomadas pelo governo, como por exemplo a instrução 113 da SUMOC, que privilegiavam a burguesia associada, ao ter acesso a uma tecnologia mais avan çada. Sob o influxo de tais questões, o governo federal organi zou o seu Programa de Metas, baseado na industrialização ace lerada de bens duráveis e semiduráveis, no estímulo ao capital privado, nacional e estrangeiro, na expansão das obras públi cas, materializada na construção da nova capital, em Brasília, no investimento em energia e transportes, etc. O Brasil tinha pressa, a sociedade modemizava-se, era preciso acertar o passo com a história. Para financiar a industrialização acelerada, o governo lançava mão de recursos vários: o confisco cambial, que dava ao setor agroexportador um retorno menor que a taxa do dólar equivalente, canalizando a diferença para o setor secundário; o confisco salarial, que conduzia os aumentos sempre abaixo da inflação; a emissão renovada, para garantir o crédito aos em presários. Entretanto, a exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que o país combatesse a inflação para poder renego ciar a dívida externa e conceder novos empréstimos colocou o governo num impasse. Tentativas de levar adiante um progra ma deflacionário esbarraram no desagrado público, entrando em conflito com o estilo populista de governo. 63 A opção do governo JK foi pela continuidade do Progra ma de Metas e pelo rompimento com o FMI, deixando para os governos seguintes a solução do problema da dívida externa e do combate à inflação. Embora a opção de JK marcasse uma alteração qualitativa do modelo de desenvolvimento capitalista no sentido de sua in ternacionalização, prevalecia ainda o ideário nacionalista. No Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), intelectuais defendiam a superação das barreiras da dependência e aposta vam na capacidade de afirmação nacional através da industria lização. O populismo, agregando governo, trabalhadores, in dustriais e classes médias, mantinha-se em tomo de um ideário que já se revelava em desajuste com as condições concretas de realização do capitalismo no pais. Entretanto, o esforço do desenvolvimentismo gerara a in flação e o esvaziamento do poder aquisitivo dos consumidores urbanos. Na sucessão de JK, um candidato iria se eleger através de uma surpreendente coligação partidária - UDN, PDC, PR, PL, PTN —, além de dissidências dos partidos mais fortes (PTB, PSD, PSP, PRP e PSB), com a adesão das massas populares, das classes médias e, significativamente, com o apoio de gru pos representativos do capital associado e do setor agroexpor- tador. Este último encontrava-se agora a reboque do desenvol vimento industrial, numa posição inversa do posto anterior mente ocupado de eixo de ponta da economia nacional. Jânio Quadros, num estilo personalista e muito próprio, apresentava-se como o anticandidato, acima dos partidos polí ticos, combinando um discurso agressivo com um tipo exótico e atitudes inesperadas. Era um candidato com "cara de povo" que prometia varrer com sua vassoura os desmazelos adminis- trativos e políticos do país, que defendia a iniciativa privada e prometia uma ordem social mais justa. Jânio fez da morali zação nacional o carro-chefe de sua campanha. Derrotando o general Lott, do PTB/PSB, e Ademar de Barros, do PSP, Jânio obteve uma vitória sob o signo da "vas sourinha" moralizante, assumindo em 31 de janeiro dê 1961, 64 juntamente com o seu vice João Goulart, do PTB. As regras eleitorais da época permitiam que o candidato de um partido pudesse ser eleito com um vice de outra agremiação política, resultando, no caso, uma estranha combinação. Jânio herdou do período JK o dilema de combinar a ma nutenção de um alto índice de investimentos no programa de industrialização com medidas de controle à inflação, tais como o congelamento salarial e o fim dos subsídios à importação de certos artigos. No plano externo, proclamou realizar uma polí tica independente entre os blocos. Se, por um lado, condecorou "Che" Guevara com a insígnia da Ordem do Cruzeiro do Sul, por outro, foi no seu governo que o país assinou com os Esta dos Unidos as bases para o acordo sobre a garantia dos inves timentos norte-americanos no Brasil, preparando a posterior Aliança para o Progresso. Na política interna, Jânio notabili zou-se pelo ataque à corrupção, pela prática de governar através de "bilhetinhos" e por atitudes esdrúxulas, como a proibição do biquini nas praias, das rinhas de galo ou do lan- ça-perfume no carnaval... Sua intempestiva renúncia, em agosto de 1961, encerrava um meteórico e contraditório governo. Forças conservadoras civis e militares tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em visita à China Comunista. O Congresso, contudo, negou-se a votar o impeachment de Jango. No Sul, o governador do Rio Grande, Leonel Brizo- la, com o apoio docomandante do UI Exército, articulou o movimento da legalidade, em defesa da posse do vice-presi dente. Ante a ameaça de guerra civil, o problema foi contomã^ do com a aprovação do parlamentarismo. Jango assumia como presidente, mas teria seus poderes cerceados pelo regime par lamentar. Iniciava o último e mais conturbado dos governos presi denciais da democracia populista. Sob o impacto de uma crise econômica e social, com uma inflação crescente e um enorme surto de greves, desencadeou- se uma campanha pela antecipação do plebiscito no qual a nação opinava pela volta ao presidencialismo ou pela manu- 65 Osvaldo Aranha discursando no enterro de Getillio Vargas. E Juscelino Kubits- check e João Goulart a caminho do Palácio do Catete tenção do regime parlamentar. Em janeiro de 1963, o Brasil voltou ao presidencialismo, conferindo maiores poderes a João Goulart. No plano econômico, articulou-se o Plano Trienal, que pretendeu combinar o controle da inflação com investimentos na indústria; eliminar desigualdades regionais e setoriais; pro mover a desconcentração da renda, reduzindo o custo sociaJ do desenvolvimento. Tais propósitos seriam complementados com a implantação de reformas de base, tais como a reforma agrá ria. Todavia, os pré-requisitos para a execução deste plano iriam colidir com vários grupos de interesses na sociedade bra sileira. A incidência de maior tributação sobre os setores mads beneficiados da sociedade e a redução de subsídios, como por exemplo sobre o trigo, iria desagradar ricos e pobres. Medidas conio redução do crédito industrial ou contenção salarial aten tavam contra o capital e o trabalho; o corte nos gastos públicos despopularizava os planos de ação do governo; e a questão da dfvida externa esbarrava na intransigência do FMI pela neces sidade de combater a infiação para conceder novos emprésti mos. A reforma agrária feria fundo os interesses dos latifundiá rios, que se sentiam mais ameaçados frente ao extrapolar da política de massas para o campo. A formação de Ligas Campo nesas no Nordeste começava a pôr em xeque o secular domínio, do latifúndio. Nas cidades, o aprofundamento da política de- massas ameaçava a essência do próprio populismo, que era a tutela e a manipulação dos interesses populares. A burguesia e também as classes médias viam com temor o aprofundamento das tendências de esquerda, que extrapolavam do movimento operário para outras instâncias da sociedade civil. A política e a sociedade brasileira radicalizaram-se com o surgimento de grupos também de direita, alguns com o apoio externo dos Es tados Unidos, que viam com apreensão os rumos da política brasileira. A radicalização atingiu também as Forças Armadas, com a sucessão de incidentes de quebra de hierarquia e disci plina no interior da corporação, tais como o levante dos sar gentos e o dos fuzileiros navais. 67 Comício de 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro Na medida em que as classes dominantes se afastavam do governo, este passou a voltar-se cada vez mais para a base de apoio que lhe restava: os sindicatos e os movimentos popula res, com o apoio dos grupos de esquerda. Estavam dadas as condições para a articulação de um golpe militar com o apoio de setores significativos da socieda de civil. O governo João Goulart herdara contradições dos gover nos precedentes: o avanço do capital monopolista e as exigên cias de maior nível técnico comprometiam o nacionalismo econômico; a burguesia nacional cindira-se e via-se ameaçada pela política de massas que se radicalizava; os proprietáriosde terra alarmavam-se com a iminência das reformas de base; e a classe média tinha receio do avanço comunista. Conter a in flação e continuar garantindo o ritmo de desenvolvimento in dustrial revelava-se difícil. Verificava-se um desèquilíbrioentre produção e consumo: o crescimento do parque industrial levara ao inchamento do proletariado urbano, mas a incapacidade de consumo das massas, devido a baixos salários, aumentava os níveis de tensão social e fazia crescer suas reivindicações polí ticas. Com respaldo externo dos Estados Unidos, a conspiração militar tramada no seio da Escola Superior de Guerra teve o aval de parte da sociedade civil. O comício de 13 de março, no qual o presidente anunciou a implantação das reformas de base, precipitou o golpe. A 31 de março de 1964, tinha fim a democracia populista e com ela encerrava-se o projeto nacionalista do desenvol\d^^ mento industrial brasileiro. 69 os MILITARES NO PODER OS MILAGRES DA GRANDE POTÊNCIA A revolução de 1964 inaugurou no país um período auto ritário de governo. Com a fuga do presidente João Goulart para o Uruguai, assumiu o controle do país uma Junta Militar com posta pelos ministros das três Armas. Como primeira medida, o Ato Institucional n- 1 concedeu ao Executivo o direito de cassar mandatos e suprimir direitos políticos por até dez anos de pessoas consideradas subversivas e corruptas. O AI-1 previa ainda a decretação do estado de sí tio sem aprovação parlamentar e marcava as eleições presiden ciais diretas para outubro de 1965. Indiretamente, pelo Con gresso já depurado pelos expurgos, foi eleito o novo presidente da República, general Humberto de Alencar Castelo Branco. Iniciava-se o primeiro governo militar, sob o influxo do combate ao comunismo e do expurgo dos suspeitos ao regime, reforçando a hipertrofia do Executivo central, agora dominado pelos militares. No plano econômico, retomavam-se os rumos do desenvolvimento através da internacionalização da econo mia e do impulso à iniciativa privada. A renegociação da dívida externa e a obtenção de novos empréstimos passavam pelo controle da inflação, conforme exigência dos credores internacionais. A redução dos índices inflacionários seria dada através do arrocho salarial, e o ali nhamento com os Estados Unidos seria selado com renovados empréstimos ao governo brasileiro, através da Aliança para o Progresso, ao mesmo tempo que seria reescalonada a dívida externa, sçgundo aprovação do FMI. Para incentivar as expor tações, a moeda brasileira foi desvalorizada em 300% em face do dólar. O fortalecimento da "linha dura" do Exército junto ao governo determinou a prorrogação do mandato de Castelo 70 Branco em nome da .necessidade de garantir a ordem política e social e dar continuidade ao desenvolvimento econômico con substanciado no Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG). Em 27 de outubro de 1965, foi decretado o AI-2, que extinguiu os partidos políticos no país. Em decorrência deste processo, as forças de oposição às ações do novo governo for maram o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) a 26 de novembro de 1965. O situacionismo congregou-se na Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que nas eleições para a Câ mara e o Senado Federal, em 1966, obteve a maioria das cadei ras. Na seqüência dos atos que redefiniram os rumos do auto ritarismo, o governo baixou, em 5 de dezembro de 1966, o AI- 3, estabelecendo eleições indiretas para o governo dos estados e, no final do ano, encaminhou ao Congresso um projeto de Constituição no qual se previa eleições indiretas para presi dente e governadores, a instituição de um tribunal militar para julgamento de civis, a possibilidade de ampliação do estado de sítio para fazer frente às situações atentatórias à ordem política e social e o direito de exploração dos minérios brasileiros pelas companhias que se organizassem no país, o que dava entrada ao capital estrangeiro neste setor da economia. Com a recusa do MDB em participar das eleições indiretas para a presidên cia, o candidato da ARENA, general Artur da Costa e Silva, foi eleito pelo Congresso enj 3 de outubro de 1966. Apresentando-se como um meio termo entre a linha dura e a posição de Castelo Branco, que pretenderia uma lenta libe ralização do regime. Costa e Silva principiou a governar sob intensa pressão do Congresso Nacional e em meio a movi mentos da sociedade civil, através de estudantes, intelectuais, membros do clero e sindicatos. A nova Constituição, promulgada pelo Congressoem 24 de janeiro de 1967, tomou-se alvo das críticas de ambos os partidos, que propunham eleições diretas para a presidência e discordavam da prática seguida pelo governo federal de expe dir decretos-leis sem negociação com os parlamentares. Cons- 71 titui-se a Frente Ampla, organização multipartidária que tomou a iniciativa de fazer a oposição sistemáticaao regime. Padres e guerrilheiros, operários e estudantes, artistas e intelectuais em protesto, somados a políticos que contesta vam o regime, formavam o "clima brasileiro" do agitado ano de 1968. A contestação explodia por toda parte e o seu alvo principal era o autoritarismo. Greves e passeatas acabavam em tumulto e violência e a repressão baixava sobre os insurgentes. Atentados terroristas de esquerda e de direita promoviam a in tranqüilidade no país. A 13 de dezembro de 1968, o governo reagiu com o Ato Institucional n- 5 e o Ato Complementar n- 28, que decretou o recesso do Congresso e ampliou os podeies do governo sobre a nação. O AI-5 dava poderes ao governo de decretar o recesso do parlamento toda vez que se fizesse necessário, podendo le gislar sobre todas as matérias na ausência daquele. Além disso, o Executivo podia intervir nos estados, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão, decretar estado de sítio, suspen der garantias e direitos em geral, impedir o exercício de fun ções, demitir, aposentar e remover ftincionários, confiscar os bens de todos que haviam enriquecido de forma ilícita, suspen der o direito de habeas corpus, etc. No campo econômico, o governo Costa e Silva iria her dar as diretrizes traçadas pelo PAEG. Reduziu os gastos públi cos, cortando programas de investimentos, apertou o crédito e arrochou os salários. Considerando que o Brasil ingressava na estagnação pela continuidade de uma política deflacionária se guida pelo PAEG, os setores empresariais passaram a reivindi car a retomada do desenvolvimento econômico. Com o Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED), houve a retomada daquela preocupação expansionista. Am pliando o crédito, tabelando os juros e controlando os preços, o governo iiliciava uma nova fase que obteve resultados no crescimento econômico puxado pela indústria. Tais medidas foram complementadas pela eliminação das barreiras para a importação de tecnologia e pelas facilidades de crédito criadas para a compra de bens de consumo duráveis produzidos. Ao 72 boom industrial seguiu-se o da construção, através da utiliza ção dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), criado pós-64 para o Banco Nacional de Habitação (BNH). Na política cambial, o governo manteve minidesvalori- zações da moeda nacional com o fito de amparar as exporta ções. Com os recursos da recém-criada Obrigações Reajustá- veis do Tesouro Nacional (ORTN), e de um dinâmico sistema de open market^ o governo retomou os investimentos. O capi talismo brasileiro na sua fase do desenvolvimento revelava apoiar-se sobre o tripé estado-grandes empresas nacionais-ca- pital multinacional. Um Executivo dotado de instrumentos poderosos no con trole da sociedade civil e a retomada do desenvolvimento eco nômico foram o legado do general Costa e Silva a seu suces sor. Em agosto de 1969, doente, o presidente teve de ser subs tituído por uma Junta Militar, que outorgou à nação um novo texto constitucional, no qual se previam eleições diretas para os governos estaduais em 1974. O vice-presidente civil de Costa e Silva, Pedro Aleixo, foi considerado impedido para assumir a presidência, uma vez que se declarara contra o AI-5. As Forças Armadas optaram pelo nome do general Emílio Garrastazu Médici, que foi eleito por um Congresso recém-reaberto, depurado pelos expurgos. Os anos setenta se inauguraram sob a inspiração do mila gre. Os canais de comunicação divulgavam mensagens de eu foria e confiança: "Ninguém segura este país", "Pra frente. Brasil", "Brasil: ame-o ou deixe-o" e à força de canções, es- ~ timulava-se o coração dos brasileiros para ficar "verde-amare- lo-branco-azul-anil"... A vitória do Brasil na Copa do Mundo forjava a idéia de um "Brasil grande". A economia brasileira encontrava-se em fase de desen volvimento acelerado. O capital estrangeiro encontrava boas condições para ampliar suas atividades, a indústria nacional era estimulada e apoiada pelo Conselho de Desenvolvimento In dustrial (CDI) e pelo Fundo de Modernização e Reorganização Industorial. Fortelacia-se o setor estatal, que passou a controlar 73 setores chaves da economia onde a rentabilidade se configura va baixa para o setor privado ou onde se demandavam maiores investimentos. Petrobrás, Siderbrás e Companhia do Vale do Rio Doce eram algumas das empresas que controlavam setores básicos da economia, às quais se acrescentavam iniciativas mais ambiciosas no terreno da energia, como o Tratado de Itai- pu, assinado com o Paraguai e destinado a construir no rio Pa raguai, na fronteira entre os dois pafses, a maior hidrelétrica do mundo. Investindo em setores de ponta, o governo passou a apostar em pólos petroquímicos. Na área bancária, o governo controlava investimentos através de estabelecimentos oficiais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, (BNDE), enquanto que canalizava recursos do FGTS para o BNH solucionar o problema habitacional brasileiro. Com uma proposta de integração nacional, o governo empreendeu a construção da rodovia Transamazônica, ambicioso projeto que visava também fixar na região colonos vindos de outras áreas onde não possuíam terras. Através de uma política de desvalorização da moeda, in centivos fiscais e creditícios, o governo estimulou as exporta ções. Com as divisas entradas, o governo garantiu a aquisição de máquinas para a indústria. Este era, indiscutivelmente, o setor de ponta do milagre brasileiro e todos os seus ramos se encontravam em expansão; bens de consumo duráveis, como eletrodomésticos e automóveis, eram adquiridos pelas classes médias mediante sistema de vendas a crédito; o surto de cons trução estimulava avanços do ramo dos bens intermediários, como aço e cimento, e o surto geral de expansão consumia os frutos da indústria de bens de produção, como máquinas e equipamentos; supermercados e shopping centers forçavam o consumo dos bens não-duráveis, numa nova estratégia de mar keting. No mercado financeiro, a expansão econômica refletia-se na especulação das bolsas de valores. Pontes, estradas, viadutos e estádios de futebol remode lavam a fisionomia do país do milagre. Com relação ao capital estrangeiro, o governo autorizava a entrada de grandes com- 74 plexos industriais np pafs, desde que se destinassem a aumen tar as exportações brasileiras. Contrastando com o programa econômico, permanecia a censura da imprensa e as limitações impostas à ação do Legis lativo. A esquerda optava pela luta armada e promovia assaltos a bancos, seqüestros de diplomatas e embaixadores estrangei ros. Atividades de guerrilha ocorriam nas cidades e nos cam pos. O governo, por sua vez, reagia através da poderosa má quina da repressão, com prisões e torturas. Alterando as dispo sições da Constituição, o governo determinou que nas eleições de 1974 permanecessem as eleições indiretas para governado res e vice-govemadores. O milagre baseava-se nas metas prioritárias de exportar e promover o desenvolvimento acelerado da indústria, mesmo às custas do também acelerado endividamento externo. ABERTURA LENTA E GRADUAL O encerramento do governo Médici, em 15 de março de 1974, deu-se em meio à crise internacional do petróleo e assi nalou o esgotamento da era do milagre. Ante a crise que se es boçava, o MDB alertava contra a desigual distribuição de ren da e a especulação financeira desenfreada, que não criava ri queza, mas dava a falsa idéia de euforia econômica. Na sua opção pelas exportações, o governo descuidava do abasteci mento do mercado interno e a nação precisava agora importar gêneros de subsistência. Na sucessão de Médici, a ascensão ao poder do general Ernesto Geisel marcou o retomo do grupo "castelista"à presi dência da República e o fim da intransigente "linha dura". No plano político, a palavra de ordem seria "distensão" e a formação de uma "abertura lenta e gradual", enquanto que, no plano econômico, o espírito do milagre cedia lugar a uma preocupação de corrigir os rumos do desenvolvimento, adap tando o pafs à crise internacional de energia. Em meio a alterações de rota e combinação de medidas democráticas com atos arbitrários, a sociedade civil voltou a se agitar, anunciando o fim do período militar. 75 o Prcxiuto Interno Bruto (PIB) continuava crescendo e as exportações diversificavam-se cada vez mais. A infiação não podia ser controlada na medida do desejado e o endivida mento externo crescia, com a diferença de que o Brasil dimi nuíra a sua dependência dos Estados Unidos, diversificando o leque de seus credores externos. A criação em 1974 do m Plano Nacional de Desenvol vimento (PND) buscou atingir a auto-suficiência do pafs em insumos básicos e bens de capital. Os acordos nucleares com a Alemanha visavam à instalação de indústrias atômicas no pafs e, na sua meta de possibilitar à nação maiores fontes internas substitutivas de energia importada, o governo abriu a explora ção do petróleo às empresas estrangeiras, mediante contratos de risco com a Petrobrás. Ao mesmo tempo em que tomava tais medidas no plano econômico, o governo seguia uma tortuosa rota política, ten tando garantir o encaminhamento da redemocratização sem perder as rédeas do processo. Assim, o crescimento do MDB nas eleições parlamentares de 1974 precisava ser controlado. Para tanto, o governo fechou o Congresso para realizar a re forma do Judiciário, pela qual se pretendia assegurar o controle da ARENA no processo político: mantinham-se as eleições in diretas para governador e vice, criava-se a figura do "senador biônico", também escolhido indiretamente, e se estabelecia que o quórum para a aprovação de medidas no Legislativo passava a ser de maioria absoluta. Paralelamente, a Lei Falcão limitava o acesso dos candidatos à televisão e ao rádio, reduzindo a sua participação à mostragem de uma foto com pequeno currículo. Apesar de tais medidas, o MDB continuou crescendo e nas eleições parlamentares de 1978 obteve vitórias significati vas. Usando o AI-5, o governo definia que era preciso defen der o regime em épocas de crise através das "salvaguardas constitucionais". O ano de 1978, porém, seria definitivo nos rumos da abertura. No fórum da Gazeta Mercantil, os empresários brasi leiros passaram a criticar os efeitos estatizantes do n PND, 76 bem como a centralização excessiva do poder decisório nas mãos do Executivo. Por trás destas acusações, revelava-se que a burocracia civil-militar que controlava o poder afastava-se progressivamente das bases reais do poder burguês no Brasil. O empresariado se considerava à margem do processo político e condenava os rumos do processo econômico como nocivos à livre iniciativa. Enquanto os setores mais tradicionais (Paulo Maluf, Papa Jr.) denunciavam os efeitos danosos da estatiza- ção, setores mais modernos, ligados a ramos básicos da eco nomia nacional, como Antonio Ermfrio de Moraes, passaram a incorporar novos temas à sua crítica: exigiam redemocratj^za- ção, eliminação de desigualdades sociais, política salarial mais justa. Mais uma vez a burguesia acertava o passo com a histó ria, indo ao encontro das transformações em curso e das rei vindicações da sociedade civil. Condenando o autoritarismo e apostando na redemocratização, assegurava seu espaço no reordenamento institucional do país. Eclodiam os movimentos sociais de contestação, partindo dos estudantes, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), dos sindicatos, dos intelectuais, dos artistas. As greves no ABC paulista faziam emergir lideranças novas, como o meta lúrgico Luís Inácio da Silva, o Lula. O encaminhamento da sucessão de Geisel deu-se pela in dicação do general João Batista Figueiredo, que enfrentou a fraca e malsucedida concorrência (jo general Euler Bentes Monteiro, indicado pela oposição. ^ Em 15 de março de 1979, Geisel passaria o governo para o general Figueiredo, deixando como herança o fim da tortura política aos presos e a extinção do AI-5, em 1- de janeiro de 1979. Sob o signo da abertura, o controvertido presidente Fi gueiredo encaminharia as medidas complementares para a re democratização. Ainda no fim do governo Geisel, o abrandamento da Lei de Segurança Nacional permitira a libertação de presos políti cos, processo que seria complementado no governo Figueiredo 77 Rodovia Transamazonica com a aprovação, em ãgosto de 1979, da Lei da Anistia e com o indulto de Natal, no fim do mesmo ano, com a libertação de mais presos políticos. A anistia não seria nem tão ampla nem tão irrestrita, mas permitiu a volta ao país de velhos políticos do pré-64, como Leonel Brizola, Miguel Arraes e Luís Carlos Prestes, assim como elementos mais novos da fase da guerri lha, como Fernando Gabeira. Em novembro de 1979, o Congresso aprovava a reforma partidária, extinguindo o bipartidarismo no Brasil, que se ex pressava através da ARENA e do MDB. DIRETAS JÁ A década de 80 se iniciaria com a formação de novos partidos: o velho MDB dividiu-se, enquanto que da ARENA surgia o Partido Democrático Social (PDS) como a grande for ça governista. Formou-se o maior partido de oposição ao go verno, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Ivete Vargas conseguiu para si a sigla do velho PTB, e Leonel Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Com o apoio das forças sindicais e das comunidades eclesiais de base. Lula criava o Partido dos Trabalhadores (PT). Um pequeno partido de centro, o Partido Popular (PP), surgia comandado por Tancredo Neves. No fim do ano de 1980, o Congresso aprovava uma emenda constitucioned que determinava eleições diretas para o governo dos estados. Em 1982, quando se realizaram 2^pri- meiras eleições diretas para os estados, o PP já fora absorvidb pelo PMDB e as oposições alcançavam a vitória no governo de importantes estados, como por exemplo José Richa (PMDB) no Paraná, Franco Montoro (PMDB) em São Paulo, Leonel Bri zola (PDT) no Rio de Janeiro, Tancredo Neves (PMDB) em Minas gerais. O PDS, contudo, garantiu a maioria dos gover nos dos estados. Em 1983, sob a liderança do deputado federal Ulysses Guimarães, do PMDB, iniciou-se o movimento das "Diretas já", visando à sucessão presidencial do general Figueiredo e 79 D ÍR ET nS iR > r C om íc io pe la s el ei çõ es di re ta s pa ra pr es id en te do B ra si l. Pe lo ta s, R S, 19 84 que foi granjeando o ^apoio de todas as forças de oposição ao regime. O deputado federal Dante de Oliveira enviou ao Con gresso uma emenda propondo "Diretas já para presidente''. Em meio a comícios e caminhadas pelas diretas que agitaram o país, a proposta foi rejeitada no Congresso pela maioria parla mentar de pedessistas. O impasse seria, pois, decidido via eleição indireta no Congresso, através do choque de dois nomes. Enquanto a maioria do PDS fechou em tomo do nome de Paulo Maluf co mo o candidato do partido à sucessão do general Figueiredo, um grupo retirou-se da agremiação govemista, formando o Partido da Frente Liberal (PFL), que aderiu à candidatura de Tancredo Neves proposta pela oposição. Umanovaarticulação se montou, aceitando a figura de José Samey, ex-político do PDS, para vice de Tancredo. A chapa oposicionista encabeçada por Tancredo Neves apresentava a intenção de levar adiante a transição democráti ca, via eleições indiretas, em face da derrota no Congresso da proposta das "Diretas já". Em janeiro de 1985, o Congresso Nacional deu a vitória a Tancredo Neves e José Samey. Findava o govemo Figueiredo e o período militar no Bra sil, mas a chamada Nova República se iniciaria de forma inu sitada. O repentino intemamento por doença do presidente eleito, na véspera de sua posse, seguido de sua morte, fez com que o vice José Samey assumisse a presidência da República. 81 ABERTURA E TRANSIÇÃO CAMINHOEM ABERTO Intensa mobilização da sociedade civil, sucessão de pla nos dè governo para controlar a inflação, greves renovadas, avanços e recuos de coligações partidárias para o governo dos estados e escândalos financeiros são dados objetivos da reali dade brasileira contemporânea, que demonstram quão difícil tem sido (re)construir a democracia no Brasil. Ex-líder da ARENA e do PDS, político maranhense de velha geração, a inclusão do nome de José Sarney na chapa de Tancredo Neves marcava uma estratégia eleitoral para garantir a adesão de elementos mais conservadores à candidatura da oposição: guindado ao poder, teve de enfrentar duras tarefas, nem todas resolvidas satisfatoriamente. A primeira delas dizia respeito à redemocratização do país, conduzindo a nação pelos caminhos da abertura. Esta foi, a rigor, a empreitada que se cumpriu, mal ou bem, tendo em vista terem sido abolidas as leis de exceção. A mobilização da sociedade civil, que já se dera no final dos anos setenta, am pliou-se na nova década, e os movimentos populares, de clas ses, profissionais e de grupos de interesse cresceram de forma vertiginosa. Entidades sindicais de orientação diversa como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) ou a Central Geral dos Tra balhadores (CGT) agitaram o debate político e as ruas das principais cidades brasileiras. Uma sucessão jamais vista de greves abarcou um grande número de categorias profissionais: operários, bancários, pro fessores, médicos-residentes, fiincion&ios de fundações e em presas estatais, etc. Nos centros urbanos, movidos pela insatisfação econômi ca e pelo agravamento das condições de vida, parte das cama das pobres invadiram conjuntos residenciais. No campo,* os 82 colonos sem terras organizaram-se, cada vez mais, pondo em discussão a estrutura fundiária do pafs. A preservação do meio ambiente, bandeira dos movi mentos ecológicos, levantou a sua voz em protestos pacíficos contra a destruição da natureza levada a efeito pelos ditos re sultados do "progresso". Associações comunitárias, agremia ções de donas de casa "sinetaços" de professores públicos, greves de professores universitários, movimentos negros e de outras chamadas "minorias" compuseram um quadro de rein- vindicações e protestos. Apesar destes conflitos, o regime democrático não sofreu um retrocesso no seu processo de instalação. O Brasil (re)experimentava a democracia e esta se manti nha viva. A par desse ponto favorável, que representou, significati vamente, um ganho para a sociedade brasileira em seu con junto, o governo Sarney teve a sua popularidade duramente atingida em face dos acertos políticos levados a efeito para ga rantir a sua base de sustentação, conjugados a uma séria crise econômica que levou a inflação a níveis, até então, não expe rimentados pelo país. Denúncias de corrupção de parlamentares e acordos tidos como espúrios, conjugaram-se a formas arcaicas de clientelis- mo político que lembravam velhas práticas do tempo dos coro néis. Embora houvesse um consenso quase que nacional em torno da permanência do mandato presidencial em quatro anos,. Sarney conseguiu passar no Congresso a aprovação dos cinco anos. Assustando os conservadores com a ameaça da vitória de um candidato esquerdista, caso houvesse eleições presidenciais em 1988, Sarney conseguiu um ano a mais de mandato graças à manipulação de um bloco parlamentar alcunhado de "Cen- trão". O espírito deste grupo congressista pode ser apreciado na frase de um de seus elementos, que sintetiza a norma do proce der político adotada: "É dando que se recebe". 83 o PMDB obteve espetacular vitória em novembro de 1986, quando o partido fez a maioria absoluta dos governado res e obteve também a maioria no Congresso. Em cima do cli ma de euforia obtido com o ingresso do país na senda da abertura, após longos anos de autoritarismo e beneficiado pelo sucesso do plano, conjugado com a sua política de congela mento dos preços, o PMDB atingiu o seu clímax, como o gran de partido que conduziria o Brasil na sua fase de transição de mocrática. Todavia, durante os cinco anos de mandato de Samey, o PMDB manteve coiii o presidente uma curiosa composição, de apoio e de repúdio, sem que ficasse bem definido diante da opinião pública se o presidente era realmente do PMDB e se este partido governista apoiava, ou não, o presidente. Uma fração do PMDB retirou-se do partido e formou no va agremiação partidária, o Partido Social Democrático Brasi leiro (PSDB), marcando uma racha progressista frente a uma atitude dita como fisiológica e governista. O PSDB, contudo, não conseguiu mobilizar grande público, mas alinhou-se junto a outras agremiações oposicionistas na disputa para as eleições municipais de 1988. O PT, o PDT, o PSB e o PSDB, erigindo-se em porta- vozes das reivindicações populares, defrontaram-se com os candidatos do PMDB, PDS e PFL para a conquista das prefei turas. Significativamente, a vitória em capitais importantes, como São Paulo, Santos e Porto Alegre, coube a candidatos do PT. No ano seguinte, como resposta final à decepção popular com a Nova República, foram para o segundo turno das elei ções presidenciais os candidatos mais contundentes em suas críticas ao governo Sarney: Luís Inácio da Silva (Lula) pelo PT e FernancJó Collor de Mello, pelo novíssimo Partido da Re novação Nacional (PRN). Finalmente, do ponto de vista econômico, os sucessivos planos de combate à inflação revelaram-se inócuos. Tanto o Plano Cruzado, quanto o Plano Bresser e, por fim, o Plano Maílson iniciaram com resultados positivos, mas depois nau- 84 í, fragaram, sem que a inflação fosse contida, atingindo a cifra assustadora de 80%, ao mês, no fim do governo Samey. Desta forma, a situação econômica deteriorou-se dramaticamente: baixas taxas de investimentos, insuficiente crescimento, ausên cia de novos capitais externos, déficit público vertiginoso, df- vida externa ampliada por juros letais, descalabro de várias estatais, etc. A violência urbana aumentou, faceta trágica da lumpeni- zação crescente das camadas populares. As eleições de 1989 representaram um reativar das espe ranças: cumprir-se-ia, finalmente, a promessa de redemocrati- zação definitiva do pafs, fazendo a nação acertar o seu passo com a história? Já no primeiro turno revelou-se a derrocada dos candi datos dos grandes partidos: Ulysses Guimarães, do PMDB; Aureliano Chaves, do PFL; Mário Covas, do PSDB, e Paulo Maluf do PDS. Nem mesmo o favorito de meses antes, Leonel Brizola, do PDT, escapou do naufrágio. No segundo turno, defrontaram-se candidatos que afir mavam estar totalmente descompromissados com o governo Samey. Lula, do PT, Ifder sindical, metalúrgico, surgido para a política no fim dos anos setenta nos conflitos do ABC paulista, agrupou em torno do seu nome todos os segmentos da esquerda e de centro-esquerda. Fernando Collor, homem público de Alagoas e de família tradicional no campo da política, com discurso neoliberal e modemizante, teve o apoio dos grupos de centro-direita e de direita, além dos setores populares atraídos pelo seu discurso contra o Estado, representado pela figura do *'marajá", o funcionário público de alto sálario. Por estreita margem de votos, Collor de Mello venceu as eleições, tornando-se o primeiro presidente eleito pelo voto di reto, após vinte e nove anos de vida política nacional. Pleito' histórico, que deixa um caminho em aberto, as eleições de 1989 reuniram nas umas, lado a lado, pais e filhos a depositarem o seu primeiro voto para presidente. 86 síntese imiversitária A série Síntese Universitária apresenta de forma clara e acessível ao público universitário os grandes temas da Ciência, da História, da Cultura e da Arte. 1. Cenas médicas: pequena introdução à historia da medicIna/Moacyr Sclíar 2. Nossos adolescentes/Ronald Pagnoncellí de Souza (2.ed.) 3. Segunda guerra mundial: história e relações Internacionais (1931-45)/Pauio G. Fagundes Vizentini (S.ed.) 4. História e literatura/Fiávio Loureiro Chaves (2.ed) 5. Cultura brasileira: das origensa 1808/Luiz Roberto Lopez (2.ed.) 6. Cinema brasileiro: idéias e imagens /Carlos Diegues 7. O nazismo: breve história ilustrada/Voltaire Schilling (2.ed.) 8. Biologia, cultura e evolução/Franciscx) M. Salzano (2.ed.) 9. Um repórter na América Latina. Caderno de notas/Eric Nepomuceno 10. Evolução social e econômica do Brasil/Nelson Werneck Sodré (2.ed.) 11. A descoberta da América, que ainda não houve/Eduardo Galeano (2.ed.) 12. Cultura brasileira: de 1808 ao pré-modemIsmo/Luiz Roberto Lopez 13. O romance na América Latina/Márcia Hoppe Navarro 14. Guerra do Vietname: descolonização e revolução/Paulo G. Fagundes Vizentini (2.ed.) 15. O anarquismo: promessas de liberdade/Luiz Pilia Vares (2.ed.) 16. A legalidade: último levante gaúcho /Joaquim Felizardo (S.ed.) 17. A inconfidência mineira/Luiz Roberto Lopez 18. A república: uma revisão histórica/Nelson Wernek Sodré 19. Israel x Palestina: as raízes do ódio/Jurandir Soares (2.ed.) 20. O romance modernista: tradição literária e contexto histórico/J.H. Dacanal. L. A. Fischer, H. Weber 21. Da guerra fria à crise (1945-1990/Paulo G. Fagundes Vizentini(2.ed.) 22. O Brasil contemporâneo/Sandra Jatahy Pesavento (2.ed.) 23. Temas de astronomia moderna/Luiz Augusto L. da Silva 24. Oriente Médio: de Maomé à Guerra do Goifo/Jurandir Soares 25. O liberalismo/Francisco de Araújo Santos 26. O socialismo/J. Luiz Marques 27/28. Do Terceiro Reich ao novo nazismo/Luiz Roberto Lopez 29. Empresa aberta: uma abordagem liberal/Francisco de Araújo Santos 30. O fim da União Soviética: da Perestroika à desintegração/Tau Golin 31. O escravo gaúcho: resistência e trabalho/Mário Maestri 32. O marxismo: passado e presente/J. Luiz Marques 33. História contemporânea da América Latina (1900-30)/Cláudia Wasserman 34. História contemporânea da América Latina (1930-60)/Helen Osório 35. História contemporânea da América Latina (1960-90)/Cesar Augusto Barcellos Guazzelli 36. Literatura e identidade naclonal/Zilá Bemd 37. A.Guerra Civil de 1893/Sérgio da Costa Franco 38. Antropologia e tropicalismo/Bina Maltz, Jerônimo Teixeira e Sérgio Ferreira IMPRESSÃO ESCOLA PROFISSIONAL LA SALLE Gráfico^^^íO^^^ditora FONE: (051) 472-5899 CANOAS - RS 1994 Composiçâro: Sulianí —Edítogràfia Ltda. o Brasil contemporâneo. Há cem anos, a República brasileira apresentou-se como o regime da modernidade e que faria o país acertar o passo com a história. Sandra Jatahy Pesavento faz uma síntese e traça um perfil da vida política e social do Brasil contemporâneo. Analisa as relações de trabalho, as articulações políticas, o liberalismo, a Revolução de 30, o Estado Novo. "Havia no ar uma promessa de democracia" Depois temos o populismo, a ditadura dos militares e os nossos dias. Passado um século de implantação do novo regime, a Autora nos leva a repensar a trajetória e a remontar criticamente as vicissitudes da realização dos ideais de 1889. o síntese universitária Editora da Universidade Universidade Federal doRio Grande doSul I5g,sj 85-7025-210-2desembocando no processo de independência das colônias latino-americanas. Num segundo momento, a exigência para a expansão capitalista traduziu-se na eliminação do trabalho servil. Seja para ampliar o mercado consumidor em nível mun dial, seja para uniformizar os custos de produção em escala internacional, uma vez que o uso de escravos era "mais bara to" que o emprego de trabalhadores assalariados, desencadeou- se uma campanha contra a escravidão. A Inglaterra, nação pio neira do desenvolvimento capitalista, liderou a condenação do tráfico negreiro no mundo. Ora, o Brasil imperial, nação onde a Inglaterra possuía sólidos interesses econômicos, mantinha-se escravista e pos suía vultosos capitais aplicados no tráfico. Combinando pres sões diplomáticas com uma atitude agressiva contra os navios negreiros, a Inglaterra forçou o Brasil a extinguir o tráfico em 1850, através da Lei Eusébio de Queiroz. A IMIGRAÇÃO E A EXPANSÃODACAFEICULTURA Estava criado o problema da mão-de-obra para os produ tores brasileiros, expressando-se na imediata alta do preço dos escravos e na sua progressiva escassez no mercado. A situação 11 se apresentava tanto mais grave quanto mais se atenta para o fato de que, nesta época, se encontrava em expansão uma nova área cafeicultora —o oeste paulista. O Brasil era na época o principal fornecedor de café, dominando monopolisticamente o mercado através da produção em massa de um artigo que, pelo seu baixo preço, afastava os concorrentes e ampliava o seu consumo junto às classes trabalhadoras européias. Desta forma, na segunda metade do século XDC, o prin cipal problema que se apresentava para os exportadores brasi leiros era encontrar uma mão-de-obra abundsinte e barata que garantisse as condições de expansão da cafeicultura, ameaçada com a cessação do tráfico. Tentativas de encontrar fontes internas de suprimento de mão-de-obra não deram certo. O tráfico interprovincial, que reorientava a venda de escravos das diferentes regiões do pafs para a zona cafeicultora, não preencheu as necessidades da la voura em expansão. Também a possibilidade de utilizar na ca feicultura mão-de-obra da população branca livre que existia no pafs esbarrava no entrave criado pela própria sociedade es cravista: apesar de pobres, indivíduos livres e brancos recusa- vam-se a realizar tarefas de negros escravos... A solução encontrada para a "crise de braços" que se abatia sobre o Brasil foi a vinda de trabalhadores livres estran geiros para a lavoura do café. A entrada renovada de imigran tes, primeiro às custas dos fazendeiros paulistas e após sub vencionada pelo governo da provjhcia de São Paulo, garantiu a continuidade da expansão cafeicultora. A partir da segunda metade do século XDC, principalmente os italianos, mas tam bém os alemães, os espanhóis e os portugueses, se tomaram a força de trabalho preferencial nas lavouras do oeste paulista. Na verdade, não se constituíram de imediato em trabalhadores assalariados, vigorando outras formas de pagamento não mo netárias, tais como o direito à moradia ou ao cultivo da terra para subsistências das famílias. Todavia, a entrada de homens livres, substituindo progressivamente os escravos, foi um ele mento nuclear no processo de transformação vivendado pelo pafs. Abandonando o trabalho escravo, agora mercadoria es- 12 cassa e rara, o fazendeiro do café não apenas resolveu proble mas imediatos e prementes — substitui a mão-de-obra servil pela livre —, mas potencializou as suas condições de acumula ção. Na medida em que o governo iniciou a subsidiar a vinda de imigrantes, o custo da mão-de-obra passou a ser mínimo pa ra o proprietário de terras. Não mais tendo de desembolsar an tecipadamente o dinheiro para a aquisição de mão-de-obra, como no sistema escravista, o fazendeiro pagava após a reali zação do trabalho e, mesmo assim, muitas vezes com pouco desembolso de salário monetário, conforme já se disse. O custo de reposição da força-trabalho ficava agora por conta do pró prio trabalhador, que deveria prover a sua subsistência. Tais fatores, associados aos bons preços do café no mercado inter nacional e à produtividade diferencial de terras do oeste pau lista, liberaram para o fazendeiro um capital em dinheiro dis ponível para ser reaplicado na própria unidade produtiva, atra vés de recursos técnicos ou para diversificação de seus negó cios. Desta forma, o complexo cafeeiro se encontra associado a um movimento global de renovação da infra-estrutura material do país, à expansão do setor bancário e creditício, à urbaniza ção, ao surgimento de indústrias. Por outro lado, tratando-se de trabalhadores livres, a rotação de mão-de-obra fazenda-fa- zenda e campo-cidade era também intensa, com o que progres sivamente se constituiu um mercado de trabalho livre no país, com um contigente populacional que desempenhava uma ampla gama de atividades. Os patrocinadores da imigração foram os representantes de uma verdadeira burguesia agrária, sediada em São Paulo e que se colocava no epicentro das grandes transformações do país. Todavia, se a vinda dos imigrantes solucionava o proble ma dos cafeicultores, e particularmente dos paulistas, fração responsável por um produto em expansão, não correspondia às necessidades dos demais proprietários de terra que não se achavam ligados ao maior produto de exportação brasileira. Nesse sentido, os chamados "imigrantistas" posiciona- vam-se com muita cautela em relação ao movimento abolicio nista que se processava paralelamente no país. Os promotores 13 das leis abolicionistas foram os próprios fazendeiros escravis tas que, convencidos paulatinamente de que o regime servil estava com seus dias contados e não dispondo do "élan" cafei- cultor para promover a vinda dos imigrantes, optaram pela es tratégia de uma emancipação progressiva. Ou seja, era preciso prolongar ao máximo o sistema escravista e garantir ao senhor de escravos o controle sobre os cativos que se libertassem. Desta forma, as leis abolicionistas, que na verdade protelavam ao máximo uma solução final, foram complementadas com uma série de dispositivos instrumentais-legais, como os códigos de posturas dos municípios, que regulavam o acesso dos libertos ao mercado de trabalho, estabelecendo mecanismos de vigilân cia sobre a sua conduta. Abolicionistas foram também as camadas médias urbanas emergentes, descompromissadas em termos objetivos com o re gime ^rvil, mas que, sob o influxo de um sentimentalismo humanitário, foram responsáveis pela formação de uma cons ciência nacional favorável à emancipação dos escravos. Todo este processo, que teve o seu núcleo fundamental de ação na zona cafeicultora paulista, foi acompanhada pela di fusão de novos valores e concepções. Na transição do sistema escravista para aquele baseado na força de trabalho livre, pro- pagava-se a ideologia do progresso, da mobilidade social e da riqueza. O trabalho braçal não era mais encarado como ativi dade pertinente aos negros e como tal degredado pelo estigma da escravidão. Era agora visto como enobrecedor, construtor da riqueza e associado ao progresso. Proclamava-se o princípio de solidariedade entre as classes, tão caro à sociedade burgue sa, afirmando que os honièns são iguais perante a lei, mas ocultando a evidência de que são desiguais frente à distribui ção da rique2:a. Neste contexto, os conceitos de progresso e ci vilização, ligados à nova moral do trabalho, ajustados aos inte resses do capital emergente, foram associados, de maneira ine quívoca, à idéia da República. O endosso da causa republicana pelos fazendeiros do oeste paulista implicava, na realidade, a sujeição da máquinado Estado e dos mecanismos decisórios do poder e docontrole social àqueles que representaV2im o.eixo de 14 ponta da economia brasileira e da acumulação nacional. Ideo logicamente, a proposta republicana apresentava-se como a forma política que melhor levaria adiante o conjunto das trans formações ocorridas nos "novos tempos". A República encarnava o regime político que n^lhores condições teria parareeláborar as relações de dominação-su- bordinação e para instaurar uma ordem jurídico-institucional legitimadora daquelas transformações. Por outro lado, a idéia de uma República federativa, tal como era proposta pelos cafeicultores, correspondia às preten sões de maior autonomia das províncias e de um melhor encaminhamento dos problemas das economias regionais, que se sentiam prejudicadas com o centralismo monárquico. Na crise do regime monárquico —desgaste político-parti- dário e incapacidade de resolver institucionalmente os proble mas econômicos do país —a idéia da República federativa sur giu associada à da "democracia", identificada como "sobera nia popular". A noção, é claro trazia consigo a conotação burguesa do termo, ou seja, o "povo", cuja soberania devia ser respeitada pelo governo, era identificado com os proprietários. A noção, contudo, exercia atração sobre as camadas não pri vilegiadas da sociedade, em especial as camadas médias uiba- nas emergentes. Estes grupos, surgidos também no bojo das transformações econômico-sociais ocorridas no país em função da dinâmica do complexo cafeicultor, não se viam representa dos politicamente na monarquia. Mostraram-se pois cativado^ pelo conteúdo "democráti co" da proposta republicana, que lhes abria a chance de parti cipação política. Além disso, como a visão da República vinha associada a um conteúdo inequivocamente progressista, o novo regime acenava com oportunidades de emprego e possibilida des de melhoria das condições de vida. A idéia da República seria empolgada também por um grupo de pressão que surgia na sociedade brasileira: o Exérci to. Nesta instituição vinha-se desenvolvendo, após a Guerra do Paraguai, terminada em 1870, a formação de um "espírito de corpo", que foi essencial para sua revalorização perante seus 15 pu fitn fÜÊmm llvi* mo»( Jaisiuo innT ,e administradores competentes) quanto à capacidade política de governar (a elite dirigente dos políticos, filiados ao partido do governo). Embora houvesse diferenças de interpretação dos preceitos comtistas, na prática conflufram as perspectivas dos republicanos gaúchos, liderados por Júlio de Castilhos, e as da oficialidade positivista: seu ideal de Re pública era voltado para uma estrutura de poder centralizada e autoritária. Esta tensão esteve presente nos anos imediatos ao golpe militar de 15 de novembro que pusera fim à Monarquia. A premência de rearticular as relações externas do país, notadamente as financeiras, e o temor de uma contra-ofensiva monárquica tomavam a questão de constitucionalização ur gente. Era preciso, pois, que se legitimasse o novo regime, com o que ganhava força a corrente da República liberal-de- mocrática, que propunha a convocação da Constituinte. Tendo os militares assumido provisoriamente o governo do país, na pessoa de Deodoro da Fonseca, identificavam-se com a proposição de que deveria ser prorrogado o regime de exceção, até que se consolidasse o novo regime, tomando-se irreversível. Ete 15 de novembro de 1889 a 24 de fevereiro de 1891, manteve-se o Govemo Provisório, que agiu através de decre- tos-leis e tomou as primeiras medidas administrativas e políti cas para a instalação da República. Na verdade, processava-se no país uma rearticulação do sistema de dominação. Reconhecia-se serem os militares essen ciais para a consolidação do regime, mas a ordem que se ins taurara era essencialn^nte civil. Assim, quando se instalam 20 os trabalhos da Constituinte, a partir de 1891, e tiveram inicio os debates sobre a organização político-administrativa a ser implantada (centralismo x federalismo), consagraram-se vito riosas as propostas da oligarquia agrária pela República liberal. OS REPUBLICANOS GAÚCHOS Na Constituinte, os militares conseguiam fazer passar a escolha indireta, pelo Congresso, do primeiro presidente cons titucional do Brasil (manteve-se Deodoro) e a aprovação do artigo 6-, mediante o qual se estabelecia que o Executivo ben- tral poderia intervir nos estados sempre que nestes se manifes tasse uma agitação contrária aos interresses da União. Em contrapartida, os grupos agrários obtiveram a aprovação de princípios que beneficiaram os grandes estados, num sentido federativo: às unidades da federação foi permitido contrair em préstimos externos, constituir forças militares, organizar uma justiça estadual e uma cartilha constitucional própria. A repre sentação na Câmara de Deputados de cada estado dava-se pro porcionalmente ao número de habitantes, o que configurava a presença dos "grandes eleitores" no Congresso Nacional, que acabariam por controlar a política econômico-financeira e o processo político eleitoral no país. Quanto à distribuição das rendas, competia à União a fixação dos impostos de importa ção e o do selo, cabendo aos estados recolher a tributação so bre a exportação, os bens móveis, indústrias e profissões. Re- velava-se, portanto, a preeminência dos estados mais ricos, apoiados na economia agroexportadora, como o paulista. A posição dos republicanos gaúchos merece uma nota à parte: se postulavam uma República autoritária, a sua defesa do centralismo e unitarismo de mando se referia apenas ao âm bito local. Na articulação entre os estados e a União, a posição dos gaúchos era de defesa de um federalismo extremado, em propostas orçamentárias que previam uma maior arrecadação para os estados e impediam uma tributação cumulativa (União e estados). Portanto, o republicanismo dos ativos e radicais 21 castilhistas do Rio Grande combinava a defesa de uma postura autoritária de governo em nfvel federal e estadual com um fe deralismo amplo que regulamentasse as relações entre as uni dades regionais e a região. No contexto interno do estado, ad- vogava-se o centralismo de mando, tal como ele se exerceu no Rio Grande ao longo dos 40 anos de República Velha. O regime republicano iniciou-se sob o signo da inflação e da instabilidade política. Para atender às necessidades gerais de uma economia que transitava para o assalariamento, o novo governo deu início a uma política emissionista conhecida como Encilhamento. A ampliação do meio circulante, conjugada a um sistema de cré dito amplo e fácil para as iniciativas que surgissem, proporcio nou uma febre especulativa no mercado de ações e uma proli feração de novas empresas. Por outro lado, o aumento do pa- pel-moeda em circulação incidiu sobre o valor externo da moe da brasileira, ocasionando uma baixa de câmbio. Paralelamente, para fazer frente às necessidades fiscais do governo, determinou-se a cobrança de uma taxa-ouro sobre as mercadorias importadas, ao mesmo tempo que se elevavam as taxas de importação. Tais medidas beneficiaram o café, tanto por corresponder às suas necessidades de recursos finan ceiros em face do assalariamento que se impunha, quanto pela desvalorização da moeda, que beneficiava os exportadores, dando-lhes internamente um retorno em mil-réis compensados pelas suas vendas. Lucrava também com tais medidas a nas cente burguesia industrial, que via no encarecimento dos pro dutos importados e no crédito fácil a possibilidade de expandir seus negócios e abastecer o mercado interno. O surto industrial dos primeiros anos de República não deve ser, porém, supe restimado. O maior número de estabelecimentos não pode ser c^fundidO| com o aumento da capacidade*produtiva. Com a baixa do câmbio, o período se revelou pouco favorável à im portação de tecnologia e proliferaram as pequenas empresas, que operavam com instrumentos.de trabalho simples, com cá- rater artesanal. 22 ri: » Si- ¥ Favorecidos pela política encilhamentista foram ainda os setores representativos do capital financeiro e as companhias ferroviárias e de navegação. Afetados negativamente pela in flação que acompanhou o período estiveram os consumidores urbanos e os grupos econômicos voltados para o abastecimento do mercado interno. A política econômico-financeira dos primeiros tempos da República foi, portanto, alvo de controvérsia na sociedade bra sileira, conforme os interesses afetados. Paralelamente a este detalhe, verificou-se uma instabili dade política intensa, marcada por disputas entre os ministros e atritos entre Deodoro e a Assembléia, conflitos estes que aca baram com o pedido de demissão do primeiro-ministro repu blicano e a dissolução do Congresso por Deodoro, seguidos de sua renúncia à presidência. Com a queda de Deodoro, no próprio ano de 1891, as sumiu a presidência o vice Floriano Peixoto, também militar e com grande prestígio junto à oficialidade jacobina do Exército. j n. Revolução Federalista. Trincheiras em Bagê, RS Reabrindo o Congresso, a principal tarefa de Floriano na presidência foi consolidar o regime republicano: enfrentou os levantes de militares deodoristas, inconformados com a sua queda, combateu a Revolta da Armada, levada a efeito pela Marinha e com um nftido sentido contra-revolucionário, e lutou contra a Revolução Federalista, eclodida no Rio Grande do Sul em 1893. A Revolução Federalista, célebre pela cruel prática da degola, foi um movimento contra o governo de Júlio de Casti- Ihos no Rio Grande do Sul, levado a efeito por membros do antigo Partido Liberal que governava a província por ocasião da queda da Monarquia. Liderados por Gaspar Silveira Klar- tins, arregimentaram-se a partir de 1892, no Partido Federalista Brasileiro, fundado em Bagé, e no ano seguinte os alcunhados de "maragatos" iniciaram um movimento de rebelião contra os republicanos. Identificado com a postura republicana, Castilhos contou com o apoio de Floriano e do Exército brasileiro na sua luta contra os maragatos, que, por sua vez, foram auxiliados pelos integrantes da Revolta da Armada que eclodira no Rio de Ja neiro. Desta forma, dois incidentes revolucionários localizados juntaram-se para combater Castilhos e Floriano, sendo portanto identificado nacionalmente como movimentos anti-republicanos. A vitória das forças de apoio ao novo regime consolidou a República no Brasil, mas enfraqueceu o Exército. Com a derrota da Armada e dos maragatos no Sul, a Re-- pública estava salva e o Exército havia cumprido o seu papel de guardião das instituições. Esgotado, mas vitorioso na luta, o Exército brasileiro perdia terreno na política. Cedia suas fun ções dirigentes para o grupo civil que representava o setor econômico mais rico do país e em ascensão: os fazendeiros paulistas do café. Empossado em 15 de novembro de 1894, o novo presi dente da República, Prudente de Morais —cafeicultor de São Paulo —, ultimaria o processo de pacificação do país. A cartola vencera a espada. 25 A REPÚBLICA OLIGÂRQUICA O PROGRESSO DENTRO DA ORDEM O período coberto pela chamada Republica Velha, que se estendeu de 1889 até a Revolução de 30, corresponde a uma Tase de afirmação do capitalismo no Brasil. Ao longo dessas décadas, o país evoluiu do agrarismo para a consolidação de uma ordem urbàno-industrial, a sociedade diversificou-se, o Estado se tomou mais complexo. Todavia, a constatação de tais transformações não invalida o fator fundamental de que a economia agroexportadora capitalista do café fosse o setor de ponta do desenvolvimento capitalista brasileiro e que este pro cesso se desse sob a dominação do capital mercantil. Nesta fa se, a indústria não era dominante no processo de acumulação e o seu desenvolvimento se dava sob um duplo condicionamento: da dominação externa do capital monopolista e da subordi nação interna ao setor agroexportador. O Brasil detinha o monopólio mundial do fornecimento do capital, situação proporcionada pela produção em massa, a baixo custo e a baixo preço, de um produto cujo consumo se encontrava em expansão no mundo na segunda metade do sé culo XIX. Responsável pela maioria da entrada de divisas no país, o café fornecera o lastro para as importações brasileiras. A lucratividade da cafeicultura promovera a expansão desor denada das plantações, num ritmo que veio revelar os primei ros sintomas de superprodução em 1897: os estoques começa ram a se avolumar e o preço caiu. A produção brasileira come çara a superar o consumo mundial, pois o produto, apesar de seT consup^ido tanto pela burguesia quanto pelas classes traba lhadoras, tinha elasticidade reduzida. Enquanto durou a política emissionista do Encilhamento, a desvalorização externa da moeda reduziu os efeitos da queda do preço, dando ao cafeicultor um maior retorno em mil-réis. 26 Quando, porém, a pahir de 1898, no governo de Campos Sa les, teve início a política de saneamento das finanças brasilei ras, a situação se alterou. Os grupos financeiros internacionais estavam a exigir o combate à inflação como pré-requisito para a renegociação dos empréstimos externos brasileiros e, a partir do momento em que medidas deflacionárias passaram a valori zar o mil-réis, o problema de superprodução passou a se reve lar com força. Em 1906, os presidentes dos três maiores estados cafei- cultores da época —São Paulo, Rio de Jeineiro e Minas Gerais —reuniram-se no Convênio de Taubaté e realizaram a priirieira operação valorizadora do café: mediante a realização de um empréstimo externo com a casa bancária inglesa dos Roths- child, obter-se-iam os recursos para a compra e estocagem do café excedente às necessidades do mercado, sendo colocada para venda só a quantidade que pudesse ser comprada a bom preço. A iniciativa, levada a efeito pelos estados sem o auxílio da União, estabelecia uma contração artificial da oferta e na realidade não eliminava a superprodução, antes a estimulava. O resultado prático de tal medida foi que ocorreu um sempre renovado aumento da produção sem correspondente aumento do consumo. A estocagem se fazia cada vez maior, tal como a necessidade de recorrer ao capital estrangeiro. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e o refluxo do capital internacio nal, houve a necessidade do governo federal auxiliá-los na sua tarefa de compra e estocagem do produto. A segunda operação valorizadora teve a característica de uma medida emergenciàlv dadas as condições conturbadas da época. Com o fim de guer ra, a situação tendeu a se agravar. Como o Brasil conseguira garantir um bom preço do artigo no mercado internacional, este fato induziu a entrada de concorrentes no mercado, tais como a Colômbia. Por outro lado, a recessão do pós-guerra fez com que alguns compradores se retraíssem, como por exemplo os Estados Unidos, grandes consumidores do café brasileiro. Esta conjuntura desencadeou uma ofensiva dos cafeicultores sobre a nação, que resultou na terceira operação valorizadora do café, em 1921-22. A defesa do produto principiara a ser feita em 27 termos nacionais e com características de permanência. Os in teresses do café passavam a ser considerados como interesses do Brasil. Em 1921, o governo federal emitiu e comprou o café excedente e, no ano seguinte, conseguiu com casas bancárias estrangeiras recursos para dar continuidade a esta política. ACUMULAÇÃO DECAPITAL E INDUSTRIALIZAÇÃO Com a imposição da terceira operação valorizadora, os cafeicultores haviam atingido o ponto máximo de sua hege monia sobre^ a nação, conseguindo legitimar sua supremacia junto aos demais grupos econômicos. Na verdade, a instalação da República previa um delica do consenso entre os grupos detentores de capital do país, que se dividiam em clivagens regionais e setoriais. De uma certa forma, persistiam os pressupostos básicos do consenso entre os membros da classe dominante que advinha dos tempos do Império: havia um acordo tácito a respeito da defesa da pro priedade, fosse ela agrária ou se constituísse nas outras formas de existência do capital (industrial, comercial ou financeiro); mantinha-se o povo à margem do processo político e permitia- se a circulação do poder no interior da classe dominante. Estes eram os interesses fundamentais, sobre os quais havia con cordância. Todavia, com a diversificação econômico-social que se processava, as outras formas de capital não-agrário se impu nham com seus problemas e interesses específicos, os quais precisavam ser contemplados no interior da aliança hegemôni ca que colocava os interesses dos cafeicultores como predomi nantes. Tratava-se, pois, de compatibilizar os interesses do se tor agroexportador, eixo de ponta da economia nacional, com os interesses do capital não-agrário, como por exemplo a indústria. A indústria nascera no centro econômico do país associa da à economia agroexportadora capitalista do café. Nas demais regiões brasileiras, seu surgimento se deveu a outros circuitos de acumulação do capital, tal como no Rio Grande do Sul, on- 28 de o setor secuiídário gerou-se na mesma época daquele do complexo cafeicultor, mas apoiado na acumulação de capital advinda da comercialização dos gêneros da agropecuária colo nial imigrante. A indústria que surge no centro econômico do país, aco plada ao café, é, contudo, aquela que se apóia numa base qua litativa e quantitativamente diferente das demais e que assume uma posição privilegiada. Trata-se de uma indústria que surge apoiada no maior circuito de acumulação de capital comercial no país, usuíhiindo ainda as disponibilidades do capital agrá rio, que nela investe de forma direta, através do mesmo agente social, ou indireta, via sistema bancário e creditfcio. Da mesma forma, a indústria do centro econômico do país disporá da me lhor infra-estrutura da nação em termos de portos, vias férreas, bem como de fornecimento de energia. Aproveitar-se-á também do mais amplo mercado de força-trabalho livre do país, pro porcionado pela imigração estrangeira destinada à cafeicultura, assim como de um mercado consumidor de amplas proporções. Os primeiros empresários — comerciantes, cafeicultores ou burgueses-imigrantes que já traziam algum recurso para aplicar da sua terra de origem —montaram seus estabelecimen tos que, com tecnologia simples ou mais elaborada, adquirida do exterior, destinavam-se a fabricar os bens assalariados de consumo parauma sociedade que rapidamente crescia e urba- nizava-se. Aproveitaram-se dos efeitos de políticas econômicas que nem sempre foram empreendidas em seu nome, mas que nníesmo assim os beneficiariam. Assim, as necessidades fiscais do go verno, elevando os impostos de importação ou as exigências da cafeicultura pela emissão, favoreceram a colocação no mercado interno brasileiro dos produtos aqui fabricados. Não se quer dizer que os empresários não tenham tido participação ou voz nas decisões da política econômico-financeira. Pelo contrário, é por demais conhecida a sua posição e a sua luta pela ele vação das tarifas alfandegárias para impedir a entrada dos pro dutos estrangeiros. Entretanto, o que deve ser lembrado é que seus interesses deveriam ser negociados no interior de uma 29 aliança hegemônica entre os setores detentores do capital e que havia limites impostos ao desenvolvimento industrial em face da posição dominante do café. Por exemplo, agrários e não- agrários, ou setores de economia voltados para a exportação e setores voltados para o abastecimento do mercado interno di vergiam quanto à política de emissão, que ocasionava a perda de poder aquisitivo do consumidor nacional, lesivo à indústria, ou quanto ao protecionismo que, segundo o setor exportador, poderia determinar represálias dos compradores internacionais. Havia, jainda questões tais como a idéia de que o país ti nha uma "vocação agrária" e que a indústria era responsável pela elevação do custo de vida, com a sua persistente campa nha em prol da elevação das tarifas alfandegárias, obrigando o consumidor nacional a comprar produtos caros e de qualidade inferior. Todavia, apesar de tais pontos de atrito, o que prevaleceu ao longo da República Velha foi a acomodação entre os inte resses de agrários e industriais, solidificados por mecanismos de interpenetração e diversificação de capitais e reforçados às vezes por casamentos vantajosos entre as famílias... Ao longo da República Velha, alternaram-se fases em que a política econômico-financeira apoiou-se na emissão, às instâncias do setor agroexportador, e fases em que se proces sou o saneamento da moeda brasileira, por exigências dos cre dores externos. No caso do café, viu-se que o mesmo conse guia expandir-se sempre, com a compra dos estoques financia da ou pelas emissões ou pelos empréstimos externos. Quanto à indústria, verifica-se que^ conforme as oscilações da política econômico-financeira, alternaram-se surtos de crescimento in dustrial com surtos de aumento de produtividade. Assim, no período do Encilhamento ou da Primeira Guerra Mundial, com a emissão e a desvalorização da moeda, proliferaram as peque nas empresas, amparadas pelo crédito fácil e pelas dificuldades de importar, mas que usavam precária tecnologia. Nos períodos em que ocorreu deflação e melhoria das condições de câmbio, como por exemplo na etapa que se iniciou com a ascensão de Campos Sales (1898) até a Primeira Guerra Mundial ou no 30 inil Uri :7t« Fiação de Tecidos Pelotense, RS. E Pinheiro Machado e correligionários no Rio Grande do Sul pós-guerra, com a pofítica de saneamento financeiro iniciada com Artur Bernardes (1923), facilitou-se a entrada no pais de tecnologia importada, com o que as empresas investiram na re novação de sua capacidade produtiva. A rigor, não se trata de fases alternadas de favorecimento ou desfavorecimento para a indústria, mas de surtos diferenciados de um desenvolvimento industrial. Inclusive, pode-se constatar, no cómputo geral, a presença de certas empresas maiores que cresceram sempre, investindo em tecnologia mesmo naqueles momentos desfa voráveis, quando a sua importação se revelava difícil, e que li deraram um processo de concentração empresarial nas fases de deflação, absorvendo as pequenas unidades. Fora a barganha setorial intraclasse dominante, apresen- tavam-se ainda clivagens regionais, mediante as quais configu- ravam-se divergências quanto aos rumos da política econômi- co-financeira em nível nacional. Estados voltados para o abas tecimento do mercado interno brasileiro tinham suas oligar quias agrárias interessadas na estabilização cambial e na pre servação do poder aquisitivo do consumidor nacional. Defendiam, portanto, a ortodoxia financeira, e seu apoio à aprovação de medidas em nível federal que contrariassem seus interesses teria de ser barganhado mediante a satisfação de outros interesses regionais. Tratava-se, pois, de um delicado acerto, mas mediado pe las práticas políticeis vigentes na Velha República. A base des te acerto ou da coalizão dominante de classes principiara, co mo já se viu, pela Constituição de 1891, que estabelecia a so berania dos grandes estados eleitores e o voto a descoberto, sem justiça eleitoral autônoma. No nível dos municípios, este processo era garantido pelos coronéis. O coronelismo, estrutu ra de mandonismo local, assentava-se no poder dos proprietá rios de terra que mantinham os subalternos sob controle, arre gimentando votos e "fazendo eleições^. Após a realização das eleições no nível dos municípios, através da tutela coronelísti- ca, realizava-se a "degola" dos nomes que poderiam ter passa do, "apesar" dos coronéis. Este mecanismo de censura eleito ral pós-eleição acontecia duas vezes: uma no âmbito estadual, 32 na Assembléia de Representantes, e outra no plano federal, através de uma comissão montada no Senado para este fim, chamada "Verificação de Poderes". Nesta comissão pontifica va o senador gaúcho Pinheiro Machado, que controlava os pe quenos estados do Nordeste, barganhando votos para o situa- cionismo. O resultado final do processo era compor um Con gresso "afinado" com a presidência e com a política dos "grandes eleitores", que articulavam a aprovação dos seus in teresses com os pequenos estados através do atendimento a suas questões regionais. O coroamento de tal estrutura de po der e mecanismo político de ação dava-se por ocasião das eleições para o Executivo central, quando o presidente da República apresentava à nação o seu candidato —o "delfim do regime" —que concorria sozinho. 1 Porto de Santos, por onde passava dois terços das exportações do café Tais práticas do liberalismo político das elites eram com plementadas pelos princípios do liberalismo econômico, enten dido não apenas como liberdade de iniciativa, mas, principal mente, pela não-intervenção do Estado no merado de trabalho. Pressupunha-se a privatização das relações entre o capital e o trabalho, sendo as questões entre patrões e empregados resol vidas no nível das próprias empresas. Competia ao Estado, zelando pela ordem, intervir quando fosse necessário, por solicitação dos empresários, nas ocasiões em que não fosse possível controlar o conflito. A defesa de tal postura pressupõe, da parte das classes dominantes, a idéia de que era possível controlar o conflito. Os empresários contraba lançavam sua ação coercitiva, no nível das empresas, com prá ticas assistenciais, tais como a construção de escolas e vilas operárias junto às fábricas ou o estabelecimento de caixas de socorros. Numa fase em que inexistiam a legislação social e a intervenção do Estado no mercado de trabalho, tais práticas eram recebidas como vantagens para os operários e constituíam um chamariz para atrair trabalhadores para esta ou aquela em presa. Todavia, o conteúdo assistencial da prática patronal não foi suficiente para atenuar as duras condições de trabalho, os maus tratos impostos pela disciplina da fábrica, os baixos salá rios e as longas jornadas, motivos principais das greves freqüentes que eclodiam na Primeira República. As greves recrudesceram particularmente a partir da Pri meira Guerra Mundial, quando aumentou a carestia, afetando o já precário padrão de vida das classes subalternas. A intensifi cação do movimento operário levou parte da classe dominante nacional a repensar a prática da não-intervenção no mercado de trabalho. No Congresso Nacional, partiu da bancada paulis ta a proposta de uma legislação social. Sintomaticamente, esta iniciativavinha apoiada por aquela unidade da federação que concentrava o maior parque industrial do país e onde a questão social se apresentava de forma mais alarmante. Se os trabalhadores do campo se encontravam sob a sóli da tutela dos coronéis, na cidade os trabalhadores das fábricas ameaçavam a ordem e o progresso da República burguesa. 34 A CRISE DOS ANOS VINTE A SOCIEDADE SE AGITA No decorrer da década de vinte, desestruturava-se pro gressivamente o sistema sobre o qual repousavam as estruturas da República Velha. O padrão de desenvolvimento capitalista baseado na agroexportação de um sproposta política que reorientou o republicanismo gaúcho. Até então o Rio Grande estabelecera um modus vivendi com o governo central. Como grande eleitor da República, com uma grande e disciplinada bancada no Congresso e com as ma nobras de Pinheiro Machado, o Rio Grande estabelecera uma aliança com os políticos de São Paulo e Minas mediante a qual abdicava da aspiração de concorrer à presidência da República e apoiava no Legislativo Central as pretensões da política café- 38 ttJlKGlRfM S IBELLQ-^ HS PHRRH com-leite em troca do atendimento das questões regionais e da nâo-aplicação do artigo 6- no Estado. O Rio Grande do Sul apresentava uma divisão política interna desde a instalação da República, o que o tomava vulnerável às intervenções federais. Em 1889, por ocasião do golpe militar, os liberais que se en contravam no poder no Rio Grande do Sul cederam o poder para os republicanos, grupo minoritário e extremamente ativo que, através de alianças e mecanismos de coerção, implantou um política de exclusão sistemática da oposição no poder. En quanto ao longo da República Velha a oposição maragato-li- bertadora congregava parte da oligarquia agrária gaúcha, a ou tra parte dos agrários reunia-se a representantes do capital in dustrial, comercial e financeiro no seio do Partido Republica no, ampliando sua cooptação para as classes médias urbanas e setores do colonato colonial. Esta divisão política interna en fraquecia as pretensões políticas do Estado e somente no go- vemo de Getúlio Vargas, a partir de 1928, é que se viabilizou a participação política interna,com a formação da FrenteÚnica Gaúcha. A unificação política, engendrada pela segunda gera ção republicana, possibilitou ao Rio Grande do Sul aspirar à presidência da República e articular-se com as oligarquias dis sidentes numa campanha nacional contra o regime. A derrota nas urnas, ante a persistência da fraude, que sempre dava vitória ao situacionismo, motivou a articulação revolucionária, que teve como estopim o assassinato de João Pessoa, líder político paraibano e candidato à vice-presidência pela chapa derrotada. A 3 de outubro de 1930, eclodia a Revolução de 30, pondo fim à República Velha no Brasil. 40 A REVOLUÇÃO DE 30 OS ANOS DE TRANSIÇÃO A Revolução de 30 deu-se, portanto, em meio ao esgo tamento de um padrão de desenvolvimento capitalista baseado na agroexportação de um só produto. Tinha fim a hegemonia dos interesses cafeicultores sobre a nação, bem como desarti culava-se o sistema político do liberalismo excludente. O grupo que empolgou o poder no imediato pós-30 era constituído por membros dos setores agropecuários não-ex- portadores em associação com militares da oficialidade tenen- tista. Embora parte da oligarquia gaúcha que apoiara Vargas tivesse a expectativa de que, com a Revolução, os rio-granden- ses passassem a ocupar a antiga posição dos paulistas no con trole da política nacional, a gama dos problemas nacionais a resolver extrapolava em muito as meras pretensões regionais. Ante a falência da cafeicultura como sustentáculo do pa drão de acumulação nacional, tratava-se antes de mais nada de garantir a continuidade do desenvolvimento capitalista brasilei ro através de novos padrões. Ligado a esta questão, encontra va-se o problema de garantir as condições de dominação sobre as classes subalternas, incorporando reivindicações proletárias, desarticulando o movimento operário e garantindo a ordem so cial. Tais questões —emergenciais e prioritárias —achavam-se ligadas ao problema de dar uma nova base de legitimidade ao Estado, ampliando-o enquanto participação dos diferentes se tores sociais. Paralelamente e ao mesmo tempo imbricados com tais questões nacionais, achavam-se os interesses regionais e seto riais das várias frações da burguesia brasileira. Da mesma for ma, havia alianças com o Exército e expectativas das camadas médias urbanas, sem contar a necessidade de incorporação, de forma tutelada, da massa popular das cidades. 41 A revolução de 30 constituiu-se em mais uma etapa da revolução burguesa que se desenvolvia no país, construindo progressivamente um modo capitalista de produção e solidifi cando as estruturas políticas e administrativas de constituição do poder burguês no Brasil. Quanto ao primeiro problema a enfrentar —as possíveis saídas para o desenvolvimento capitalista brasileiro que não a agroexportação —o governo passou a atuar através de medidas até certo ponto emergenciais. A cafeicultura, por exemplo, precisava ser atendida e o governo tanto recorreu à emissão e desvalorização da moeda, para atenuar a baixa do preço do ar tigo no mercado internacional, quanto passou a comprar, quei mar ou jogar no mar o café excedente. Outras medidas comple- mentares foram tomadas, tais como a proibição de plantio de novos pés de café e o pagamento pelo governo de 50% do dé bito dos cafeicultores aos bancos, indenizando os credores com apólices federais. Paralelamente a tais medidas, que tiveram o efeito de sal var o café da crise, mas transferiram para a nação o custo da política econômica através da inflação, o governo empenhou-se na diversificação da economia brasileira. Esta proposta visava, por um lado, diversificar a pauta das exportações brasileiras, suprindo o recuo da posição ocu pado pelo café nas vendas internacionais. Com isso, entrariam divisas e a nação restabeleceria o equilíbrio da sua balança comercial. Por outro lado, a diversificação da economia possi bilitaria a integração do mercado interno brasileiro e o conse qüente recuo das importações, com notória economia de divi sas, uma vez que as diferentes regiões trocariam entre si pro dutos que antes adquiriam do mercado externo. Por último, ca be registrar que tal política ia ao encontro dos interesses das diferences economias regionais, tanto as voltadas para o abas tecimento do mercado interno quanto as voltadas para a ex portação. Quanto às trocas internacionais, inaugurou-se uma sistemática de intercâmbio produto-próduto, sem mediação de divisas, como por exemplo o comércio com a Itália e Alema nha, alcunhada de "política da lira e do marco compensado". 42 o resultado prático das várias medidas levadas a efeito pelo governo para encontrar saídas para o desenvolvimento ca pitalista brasileiro foi tomar a indústria o novo setor de ponta da economia brasileira. O desenvolvimento industrial p(5s-30 é resultado de um crescimento progressivo do setor desde as últimas décadas do século passado, ao que se conjugaram os efeitos da crise de 29, quando as perturbações no mercado internacional estimularam a substituição interna das importações. A tais fatores devem ser acrescentadas a ação do Estado e a pressão dos próprios em presários. „ No decorrer da década de trinta, a dinâmica da acumula ção do capital passou do setor agrário para o industrial, mas a indústria ainda se apoiava na produção de bens duráveis e semiduráveis. As bases técnicas e financeiras eram ainda insu ficientes para que se instalasse um setor de bens de produ ção, fazendo o desenvolvimento industrial brasileiro atingir no vos patamares. No que toca ao segundo problema emergencial que se apresentava aos novos detentores do poder no pós-30 —o esta belecimento de novas formas de controle social —, procedeu-se à intervenção direta do Estado no mercado de trabalho, através da legislação social e da sindicalização das classes produtoras atreladas ao governo. O sentido básico da nova política social correspondia tanto à necessidade de assegurar as condições de dominação sobre a classe trabalhadora, contendo o conflito, quanto de garantir as condições de reposição da força-trabâlho, estabelecendo condições mínimas para o operariado. Por outro lado, não estavam ausentes das iniciativas trabalhistas as pró prias necessidades econômicas do governo, identificando-se no fundo previdenciário instalado a constituição de uma reserva para o financiamento de setores prioritários como a indústria de base. Ambas as questões —uma saída para o capitalismo e no vas formas decontrole social —estavam relacionadas com a re definição do Estado brasileiro. 43 De uma certa forma, o Estado p