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O Brasil contemporâneo -- Sandra Jatahy Pesavento -- ( WeLib org )

Livro de história: O Brasil contemporâneo (Sandra Jatahy Pesavento, 2ª ed.). Cobre do fim do Império à abertura democrática, com capítulos sobre implantação da República, República oligárquica, crise dos anos 20, Revolução de 1930, Estado Novo, populismo, militares e transição.

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^ i] síntese
universitária 22.
SANDRA JATAHY
PESAVENTO
C /?-.Ív
O
Brasil
Oxitemporâneo
Editora
da Universidade
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Segunda
Edição
o Brasil
contemporâneo
Universidade
Federai
do Rk) Grande
do Sul
Reitor
HélgíoTrindade
Vice-Reitor
Seigio Nícolaiewsky
Pró-Reltora de Extensão
Ana Maria de Mattos Guimarães
EDITORA DA UNIVERSIDADE
Diretor
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Iríon Nolasko
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Maria da Glória Bordiní
Newton Braga Rosa
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Ricardo Schneiders da Silva
Rômulo Krafta
Rubens M^io Garcia Maciel
SergiusGonzaga
Editora da Universidade / UFRGS • Av. João Pessoa, 415 • 90040-000 - Porto Alc^, RS
Foiic(051)224-8821 • Tclex(51)1055-UFRS.BRc(52)0253- UFRS-BR • Fax(051)227-2295
o Brasil
Contemporâneo
Sandra Jatahy Pesavento
Segunda
Edição
Editora
Ida Universidade
Universidade Federal do Rio GraiNíe do Sid Síntese UníVersÍtáría/22
o
© de Sandra Jatahy Pesavento
I® edição: 1991
Direitos reservados desta edição:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Capa: Carla Luzzatto
Ilustração: O universo doscoronéis. InteriordeSãoPaulo,1903.NossoSéculo,Abril
Cultural.
Editoração: Geraldo F. Huff
Revisão: Marli de Jesus Rodrigues dos Santos, Anajara Carbonel Closs e Maria
da^GraçaStorti Féres
Montagem:RubensRenatoAbreu
Administração: Silvia Maria Secrieru
Sandra Jatahy Pesavento
Profesjsorano Departamento deHistóriadaUFRGS.MestraemHistóriapelaPUCRS.
DoutoraemHistóriapelaUSP.Publicações: Repúblicavelhagaúcha: charqueadas,
frigoríficos e criadores - RS 1889-1930; História do Rio Grande do Sul; RS: a
economiae opoder dos anos 30; RS:agropecuária colonial e industrialização; A
Revolução Federalista; A Revolução Farroupilha; História da indústria sul-
riograndense; Pecuária e indústria. Formas de realização do capitalismo na socie
dade gaúcha no século XIX;Burguesia gaúcha. Dominação de capitale disciplina
de trabalho, RS: 1889-1930; Emergência dos subalternos: trabalho livre e ordem
burguesa; Cemanos de República; Porto Alegre: espaços e vivências; Borges de
Medeiros.
P472 Pesavento, Sandra Jatahy
O Brasil contemporâneo. 2. ed. / Sandra Jatahy
Pesavento.-PortoAlegre: Ed. daUniversidade/UFRGS,
1994.
(Síntese Universitária; 22)
1. Brasil - História. 2. Política interna - Brasil.
I. Título.
CDU 981.56
323 (81)
Catalogação na publicação de Zaida Maria Moraes Preussler CBR-10/203
ISBN 85-7025-210-2
A Editora da Universidade/UFRGS agradece à Edel-Empresa de Engenharia o
consentimentopara usara edição comemorativaao centenário da Repúblicá brasileira
E o regime do privilégio está abolido!
A República está proclamada!
A unidade da Pátria está salva!
Tudo em plena paz.
Eis a eterna glória, a glória sem egual, d'este
grande povo que assim realisa o solemne e co
movente espetáculo, nunca d'antes presenciado,
de operar no seu sistema de governo uma pro
funda revolução, incruenta, sem effiisão de san
gue, immaculada, em meio do mais expontâneo
regozijo nacional.
Exemplo único em toda a história, este que offe-
rece a nossa amada Pátria!
(AFederação, Porto Alegre, 16/11/1889.)
SUMARIO
Brasil, fim do século
A QUEDA DE UM IMPÉRIO TROPICAL 9
A implantação da Repdblica
ENTRE A CARTOLA E A ESPADA 18
A Repúblicaoligárquica
O PROGRESSO DENTRO DA ORDEM 26
A crise dos anos vinte
A SOCIEDADE SE AGITA 35
A Revolução de 30
OS ANOS DE TRANSIÇÃO 41
O Estado Novo
A DITADURA VERDE-AMARELA 49
Populismo, indústria e inflação
ASCENSÃO E QUEDA DE UMA DEMOCRACIA 57
Os militares no poder
OS MILAGRES DA GRANDE POTÊNCIA 70
Abertura e transição
CAMINHO EM ABERTO 82
BRASIL, FIMDOSÉCULO
A QUEDA DE UM IMPÉRIO TROPICAL
(.•.) seria difídl pintar com traços pro
nunciados e gerais o caráter nacional
dos brasileiros, tanto mais diffdl porque
eles começam apenas a formar uma na
ção, (Maurice Rugendas. Voyagepitto^
resque dans le BrêsiU 1835.)
No decorrer do século XIX, o Brasil oferecia um quadro
bastante exótico e pitoresco aos viajantes estrangeiros —artis
tas, cientistas e escritores - que visitavam o pafs.
Do processo de descolonização iniciado no fim do século
XVEQ, que propiciara a formação das nações latino-america
nas, resultará a montagem de um grande império tropical no
Brasil.
A fragmentação ocorrida na área de colonização espa
nhola, o Brasil ofereceu o espetáculo da unidade territori^ e
da adoção de um regime monárquico, unitário e centralizado.
A transferência da Corte portuguesa para o Brasil, no iní
cio do século, fornecera o aparato institucional de um reino, e
a habilidade política da elite colonial ganhara para a causa da
independência a figura do jovem príncipe D. Pedro, permitindo
que a transição brasileira se desse da forma mais conservadora
possível. De pai para filho, mantinha-se a mesma dinastia e o
regime monárquico centralizado.
Não se quer dizer que a independência não se desse sem
traumas ou lutas. Todo o Primerio Reinado e a Regência foram
marcados pelos esforços de afirmação da hegemonia do Centro
—a Corte, no Rio de Janeiro —sobre as províncias, defrontan-
do-se as diretrizes centralizadoras e unitárias do Império com
as reivindicações federativas e de descentralização das regiões
periféricas.
Quando teve infcio o Segundo Reinado, em 1840, com a
coroação de um imperador adolescente, aos 15 anos incom
pletos, o Centro já conseguira sufocar todos os movimentos
provinciais que postulavam maior autonomia e/ou separação.
Tinha infcio a pax imperial^ com a supremacia do Rio de Ja
neiro sobre o pafs.
Os condutores hegemônicos do processo político —os ba
rões do café do Vale do Paraíba do Sul —haviam acertado um
consenso com os demais membros da elite proprietária de ter
ras e de escravos. Legitimava-se a supremacia dos cafeiculto-
res, fração agrária mais poderosa da nação, mas compensava-se
esta situação de preeminência por acordos intraclasse: o siste
ma dual-partidário permitia o revezamento de conservadores
e liberais no ministério, acertava-se que os interesses funda
mentais a preservar eram aqueles referentes à propriedade (ter
ra e escravos) e mantinha-se o povo à margem do processo po
lítico, através de um sistema eleitoral censitário que só conce
dia o direito de votar e ser votado aos cidadãos com determi
nada renda.
Estabeleciam-se assim as bases de uma Monarquia agrária
e escravista erguida sobre o trabalho dos negros, que exportava
para a Europa gêneros tropicais e consumia produtos estrangei
ros ingleses e franceses. Moda inglesa e vinhos franceses, dis
cursos liberais e chicotes de feitor, igrejas barrocas e cultos
africanos, a imagem deste Império colonial, faustoso e miserá
vel, dos bacharéis e dos mestiços, haveria de realmente pro
porcionar aos europeus sentimentos bastante contraditórios, de
fascínio e repúdio, num quadro confuso e intrigante.
Se a viajante inglesa Maria Graham, escritora e dese
nhista, considerava serem os mulatos mais ativos e industriosos
que os outros segmentos da população brasileira, o conde Go-
bineau, ministro da França no Rio de Janeiro, registrava que os
mestiços^ encontráveis em todas as camadas sociais, não eram
nem trabalhadores, nem ativos, nem fecundos...
Mas a trajetória do Império brasileiro não se daria apenas
pela combinação exótica do cotidiano tropical/mulato com ve
lhas heranças européias. Ao longo da segunda metade do sé-
10
culo XIX, o Brasil atravessaria uma série de transformações
econômicas, sociais, políticas e culturais que o conduziriam
pela senda da modernidade.
No decorrer do século XIX, o sistema capitalista, que se
constituía em nível mundial, transformava-se no sentido de
subverter as condições de produção vigentes no mundo que a
ele se integrava.
Vencida uma fase de acumulação primitiva, a vitória da
fábrica moderna, da produção mecanizada e da aplicação da
ciência à tecnologia, impunha redefinições em escala interna
cional.
Numa primeira fase, este processo em curso implicara a
ruptura do chamado "pacto colonial", a extinção dos monopó
lios e a liberdade de comércio,controle sobre os subalternos.
Estabelecia-se o consenso de que a melhor forma de rea
lizar o progresso econômico e garantir a ordem social era atra
vés do regime autoritário. Curiosamente, o Estado Novo se
apresphtava como o único capaz de realizar a verdadeira de
mocracia, através de üm governo forte que moralizaria as ins
tituições, livrando-as de seus antigos vícios.
48
o ESTADO NOVO
A DITADURA VERDE-AMARELA
Com o apoio do Exército, Getúlio Vargas instalou a dita
dura no Brasil, sendo saudado entusiasticsimente pelos "cami-
sas-verdes" integralistas, que viam na marcha do país para a
direita uma solidificação de suas posições. Todavia, suas pre
tensões foram frustradas, pois o Estado Novo proclamou de
imediato a extinção dos partidos políticos lio Brasil e não in
cluiu os "camisas-verdes" na poderosa e burocratizada estrutu
ra de poder que se montou. Inconformados, tentaram derrubar
o governo recém-instalado na fracassada tentativa integralista
de 1938.
O Estado Novo implantou no Brasil um antiliberalismo
doutrinário, alardeando a falência dos regimes democráticos no
mundo, para o que recolhia exemplos da realidade européia,
onde os governos de caráter fascista se encontravam em ascen
são.
A instalação da ditadura representou, pois, a vitória da
corrente autoritária enqu2uito forma de viabilizar o desenvol
vimento capitalista no Brasil associada a rígidas formas de
controle social. O Estado apresentava-se como o "leviatã
protetor", que outorgava a legislação social, intervinha e pro
tegia, dirigia e coordenava a sociedade, pairando acimá dos
grupos sociais. Alijava-se do vocabulário a noção de "classe"
e em seu lugar divulgava-se a idéia de povo, identificada com
a nação. A nação brasileira era, pois, o conjunto do povo, onde
as diferenças sociais eram desconsideradas para ceder lugar às
diferenças de etnia e cultura, às quais se somavam as variações
geográficas de clima, vegetação, solo e atividades econômicas.
O conjunto destas diversidades constituía a nação brasileira,
onde com a cooperação de todos se realizaria a aventura do
progresso. Substituía-se, pois, a idéia do conflito pela da har-
49
monia social e da conjugação de esforços. O progresso do pafs,
por outro lado, era identificado com o desenvolvimento da in
dústria e com o conseqüente bem-estar social. Por sua vez, o
progresso só poderia ser atingido através da preservação da or
dem, o que se viabilizaria com o governo autoritário.
O encadeamento destas idéias, desenvolvidas em tomo de
uma matriz nacionalista, justificava a ditadura e consagrava a
meta do desenvolvimento industrial como o novo caminho para
o capitalismo brasileiro. O Estado Novo marca, pois, o mo-
méhto em que o mmo da industrialização passa a ser uma meta
consciente por parte do governo, assinalando também o entro-
samento dos empresários industriais com a elite tecnoburocrá-
tica do governo.
Enquanto proposta econômica, o modelo getuliano de de
senvolvimento que vinha se estruturando ao longo dos anos
trinta atinge no Estado Novo uma clara definição: pretendia-se
a consolidação de um capitalismo nacional auto-sustentado,
tendo a indústria como carro-chefe, o que promoveria a supe
ração da estmtural situação de dependência do pafs, interiori
zando os centros de decisão. Postulava-se a implantação de
ramos dinâmicos e de uma indústria de base, viabilizando-se
no pafs a idéia da segurança nacional associada ao crescimento
do setor secundário da economia.
Embora apoiado em nftidos princfpios de nacionalismo
econômico, o modelo getuliano de desenvolvimento não apre
sentava ojeriza ao capital estrangeiro. Entendia-se contudo que
a sua entrada no pafs e a sua atuação na economia brasileira
deviam ser controladas e dirigidas pelo governo.
O projeto tinha o apoio da chamada "burguesia nacio
nal", entendendo-se nesta categoria o capital que aqui se ge
rasse e se reproduzisse. A burguesia industrial brasileira dava
apoio à proposta de desenvolvimento govememental e encon
trava respaldó junto ao governo no controle da classe operária.
O Estado corporativo, que arregimentava desde cima os grupos
de interesse econômico para junto do governo, tomava dispen
sável a presença dos canais polfticbs de negociação represen
tados pelos partidos. Despolitizando a sociedade e intemali-
50
zando a sindicalização da classe produtora atrelada ao Estado,
o novo governo apresentava-se como a melhor forma de con
duzir o capitalismo brasileiro para novas etapas.
A MÁQUINA DOGOVERNO É AMPLIADA
Os empresários apoiaram o cooperativismo, porque o
mesmo proporcionava uma eficiente forma de controle sobre as
classes subalternas (através da legislação trabalhista e da es
trutura sindical). Por outro lado, o Estado corporativo abria
caminhos de comunicação direta e fácil com os dirigentes do
Estado. A burguesia passara a participar dos órgãos técnicos'
de planejamento e decisão, ampliando o seu espaço junto ao
Estado e reconhecendo na elite tecnoburocrática o seu repre
sentante político.
As classes médias foram cooptadas pelo inchamento do
aparato administrativo, através da ampliação das funções dos
serviços públicos e a criação de novos cargos. Parte do opera
riado optou pela situação de tutela dos sindicatos oficiais, ven
do na legislação social e na Justiça do Trabalho vantagens
reais e efetivas em contraposição a um Partido Comunista rele
gado à ilegalidade. A instalação do salário mfnimo em 1940 foi
um elemento de sedução política importante em tomo do pro
letariado urbano, embora na verdade garantisse aos trabalhado
res a reprodução de suas condições de existência também a um
nível mfnimo.
A expansão da máquina do governo foi acompanhada da
progressiva hipertrofia do Executivo central. Este fenômeno,
que já vinha se desenvolvendo desde 1930, teve condições de
melhor realização no Estado Novo, quando foi suprimido o
Legislativo. Ao mesmo tempo que haviam sido criados também
nos estados institutos e órgãos técnicos, a figura de um inter
ventor assegurava a presença e o elo de ligação com o chefe
supremo da nação.
A proposta autoritária e nacionalista do Estado Novo teve
a sua complementação ideológica através da educação e da
propaganda. Foram criados o Ministério da Educação e Cultu-
51
ra. dirigido por Gustavo Capanema, e o Departamento de Im
prensa e Propaganda, dirigido pelo jornalista Lourival Fontes,
que dividiam entre si os "saberes": ao MEC cabia a educação
e a cultura das elites; ao DIP, o controle da informação e de
uma cultura popular. Juntos, contudo, articulavam-se na mesma
missão: difundir valores, pautar condutas, ajustar os indivíduos
ao ideário nacionalista da manutenção da ordem, da construção
do progresso e da valorização dos elementos da cultura local.
Patrocinando a arte, estimulando as edições, buscava-se produ
zir uma cultura nacional e uma postura favorável ao regime
através de uma relação pedagógica para com o cidadão. A cen
sura da imprensa corroborava estas tarefas. A Hora do Brasil
transmitia a voz do presidente para todos os brasileiros, en
quanto nas escolas cartilhas e livros didáticos exaltavam a fi
gura de Vargas e estimulavam o amor pátrio. A música popular
brasileira não escapou dos tentáculos da censura e os compo
sitores deviam submeter suas produções a um prévio exame pa
ra posterior liberação. Surgiram assim sambas estado-novistas,
nos quais o "malandro" era substituído pelo "trabalhador". Da
mesma forma, sambas-enredo dos desfiles carnavalescos, que
haviam tido grande expansão no pós-30, eram submetidos tam
bém à censura prévia e, por imposição do governo, deviam es
colher temas nacionais e de cunho patriótico.
Os desfiles patrióticos das forças armadas e a comemora
ção de datas cívicas nas escolas, com apresentação de corais,
desfiles da mocidade e números de ginástica, completavam este
quadro de aprimoramento moral e físico da "raça" brasileira.
Este quadro de exaltação cívica, de culto às virtudes mo
rais e de incentivo a uma produção intelectual dirigida, con
trastava com a liberação do jogo nos cassinos e com os re
quintadosshows de vedetes.
O povo construía o progresso na ordem, e a elite divertia-
se na noite... Por outro lado, nos subterrâneos do Estado Novo,
os inimigos do regime sofriam torturas e espancamentos.
O cunho nacionalista do Estado Novo teria um carro-che
fe em matéria econômica: a instalação de uma siderúrgica, im
plantando no país uma indústria de base. Todavia, as bases fi-
nanceiras e técnicas do pafs eram escassas para que este pro
jeto se efetivasse apenas com capitais nacionais. Mesmo que a
meta fosse a sua implantação através de uma estatal ou semi-
estatal, os recursos locais revelam-se insuficientes. Era preciso,
pois, conciliar a necessidade dos capitais estrangeiros com o
cunho nacionalista do modelo getuliano. Esta possibilidade era
dada pela idéia de que, com uma indústria de base, superar-
se-ia a dependência, conseguindo o Brasil, como grande po
tência, tomar-se autônomo e perseguir seus ideais nacionais. O
capital estrangeiro viria para um ramo indicado pelo govemo,
mediante "empréstimo, e o controle de sua aplicação seria feito
pelo próprio Estado. "
A eclosão da Segunda Guerra Mundial veio proporcionar
ao govemo brasileiro uma conjuntura favorável para que ele
realizasse seu projeto siderúrgico. Frente aos imperialismos em
choque, o Brasil teria condições de barganhar e tirar proveito.
Ao manter entendimentos com a Alemanha nazista e mesmo
anunciar que o poderoso grupo dos Krupp estava disposto a
conceder um empréstimo, o Brasil apressou o govemo norte-
americano a se decidir a financiar a construção em Volta Re
donda de uma siderúrgica. Em troca, o Brasil cedia uma base
aérea no Nordeste para que os norte-americanos pudessem dar
continuidade ao seu plano de desembarque na Áftica do Norte
e, de lá, partissem para a ofensiva no Sul da Europa.
Em 1941, foi fundada a Companhia Siderúrgica Nacional
com o empréstimo de 20 milhões de dólares pelos Estados
Unidos e mais 25 milhões de dólares investidos pelo govemo
brasileiro. Em 1943, os Estados Unidos contribuíam com novo
empréstimo. Ajustando no plano militar o seu entrelaçamento
econômico com os Estados Unidos, o Brasil entrava na guerra
para lutar ao lado dos aliados.
A partir de então, estabelecia-se uma situação bizarra: no
plano europeu, o Brasil combatia as potências do Eixo em no
me do mundo livre, mas no plano intemo vigorava um regime
de direita com conotação fascista.
A partir de 1943, iniciou-se a redemocratização do pafs,
que, se por um lado correspondia aos compromissos de ali-
53
nhamento polftico/econômico externos, por outro vinha ao en
contro das reivindicações da sociedade civil que principiava a
se agitar.
Quebrava-se progressivamente o consenso em tomo do
autoritarismo em vários níveis: o fechamento da máquina ad
ministrativa fora progressivamente afastando-se ou pelo menos
deixando de ser o interlocutor dos grupos econômicos mais re
presentativos, como por exemplo os empresários.
Não se negava o modelo econômico seguido, nem se
postulavam outras metas a serem cumpridas pelo governo. O
que estava em pauta era o realinhamento político interno, e as
mesmas forças que haviam sustentado o autoritarismo acaba
ram por abandoná-lo.
Na mesma medida em que a burguesia optou pela rede-
mocratização, o restante da sociedade civil a acompanhou
neste processo: intelectuais, estudantes e operários em greve
conseguiram furar a censura da imprensa e o poderoso DIP,
tomando pública sua inconformidade com o regime.
Corroborando o avanço do processo de democratização
em curso, o "american way of life" infiltrava-se progressiva
mente no Brasil e as ligações culturais com os Estados Unidos
estreitaram-se: o Brasil mandava Cármen Miranda e o Bando
da Lua para a América do Norte e de lá nos chegavam o Pato
Donald, o camundongo Mickey e o recém-criado personagem
de Disney, o brasileiríssimo Zé Carioca...
O envio da Força Expedicionária Brasileira para a Itália,
em 1944, e o retomo dos pracinhas, em julho de 1945, vieram
solidificar o alinhamento "definitivo" do país junto à liberal-
democracia.
Todavia, o próprio Vargas preparava-se para a retirada,
tutelando a criação de dois partidos que representavam a conti
nuidade do sistema: o P2irtido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o
Partido Sociál Democrático (PSD).
Reunindo as diferentes frações da burguesia, as duas
agremiações representaram os esforços de permanência no po
der dos mesmos gmpos dominantes no Estado Novo, travesti-
dos com a capa democrática. A diferença básica que se impu-
54
4 *r
r^l
5de suas aspi
rações, garantindo a continuidade do domínio das elites.
Apoiando-se na idéia nacionalista de que era possível en
contrar saídas para a economia brasileira com capitais e recur-
57
sos humanos nacionais, o populismo lidava com a idéia da
harmonia social. Ou seja, expurgava da realidade a noção cias-
sista do conflito e propugnava pela cooperação harmônica de
todos os grupos na perseguição dos fins sociais de progresso e
paz social. E)esta forma, o populismo estabeleceu, enquanto es
tilo político, uma aliança entre governo, empresários e traba
lhadores que visava levar adiante um tipo de projeto para o
Brasil. Capitalista, nacionalista e industrializante, o modelo ge-
tuliano de desenvolvimento tinha no estilo político de populis
mo um poderoso elemento para a consolidação da burguesia
enquanto classe e para o atrelamento das classes populares ao
Estado, através dos sindicatos, dos "pelegos" e das organi
zações político-partidárias do novo estado democrático.
Na relação que estabelecia entre o líder populista e as
massas, o primeiro lançava mão do carisma e da sua capacida
de de distribuir favores, atendendo aos cidadãos.
Estes, por sua vez, apesar da diferença social, encontra
vam no líder um patamar de igualdade: cidadão como eles no
exercício de seus direitos políticos, dependia do seu voto para
exercer seus poderes. É pois uma relação paternalista que se
estabelece entre quem dá e quem recebe, mas é ao mesmo tem
po a relação com o Estado de um lado, enquanto instituição, e
os cidadãos, eleitores e contribuintes de outro, reivindicando
seus direitos. No cômputo geral da análise, o populismo con
tribuiu para solidificar a dominação burguesa e garantir as
condições de acumulação de um determinado padrão de desen
volvimento.
E no decorrer da democracia populista que o processo de
constituição do capitalismo no Brasil teve o seu final. Com a
instalação de um departamento produtor de bens de produção,
houve condição para que a capacidade produtiva crescesse
adiaute da demanda. O Brasil atingia assim o patamar almejado
pelo modelo getuliano de desenvolvimento, de poder superar
as condições de dependência externa, segundo a ótica naciona
lista.
58
Mas entre o ideário e a realidade, as relações internacio
nais do capital e, internamente, as relações intra e extraclasse,
deram novo curso ao processo.
Ao longo dos governos populistas, ocorreram oscilações
da política econômico-fmanceira e das estratégias de desenvol
vimento econômico brasileiro.
Tais oscilações revelaram a interveniência de três ordens
de fatores: a pressão externa do capital monopolista sobre o
Estado brasileiro e a economia capitalista nacional, como um
todo; as cisões no interior da burguesia, que de nacional optou
progressivamente pela internacionalização; as pressões desde
baixo, da sociedade civil, a partir do momento em que a políti
ca de massas populista abriu caminho para uma ação efetiva
das classes sociais, ameaçando a ordem instituída.
A CRISE SE INSTALA
Já no governo de Dutra, sob o influxo da coligação
PTB/PSD, houve uma oscilação entre uma postura mais nacio
nalista e uma tendência de abertura ao capital estrangeiro.
Sob o influxo de uma nova Constituição, a consolidação
da democracia era a grande meta, mas o PCB, que disputava
com o PTB a adesão das massas, teve o seu registro cassado
em 1947 e foi novamente relegado à clandestinidade.
A ilegalidade do PC e as medidas de liberalização das
importações, facilitando a entrada dos produtos industrializa
dos norte-americanos, são sem ddvida reorientações que en
contram sua lógica no alinhamento do Brasil com os Estados
Unidos.
No plano político militar, o Brasil alinhava-se junto à
nação norte-americana na incipiente Guerra Fria, rompendo re
lações com a União Soviética. Complementando este alinha
mento, o Brasil sediou, em 1947, a Conferência Interamericana
de Manutenção de Paz e Segurança, que finalizou com a assi
natura do Tratado de Assistência Recíproca, o qual permitia a
interferência dos Estados Unidos nos países da América onde
se revelasse uma situação atentatória à manutenção da paz e da
segurança no continente.
59
No plano econômico, um passo poderoso para a aproxi
mação com os Estados Unidos foi dado pela constituição da
Comissão Técnica Mista Brasil-Estados Unidos, conhecida
como Missão Abbink, alcunha tirada do nome do representan
te norte-americano John Abbink. Os resultados dos trabalhos
da Comissão recomendavam que fosse contida a inflação e que
o desenvolvimento da indústria petrolífera era indispensável
para o crescimento econômico do país. Para atingir tais fins, a
Comissão apontava para a compressão salarial como medida
antiinflacionária de efeito e o recurso ao capital estrangeiro pa
ra suprir a falta, de recursos nacionais para a prospecção do
petróleo.
A eleição de Getulio Vargas para a presidência da Repú
blica, em 3 de outubro de 1950, veio reencaminhar o desen
volvimento econômico brasileiro para os rumos do nacionalis
mo e da industrialização.
Trazido de volta ao Catete "nos braços do povo", o
ex-ditador fizera uma série de acordos políticos. Lançado can
didato do PTB, tivera o apoio do Partido Social Progressista
(PSP) em troca da promessa de apoiar seu líder Ademar de
Barros nas próximas eleições presidenciais. O próprio PSD,
que tinha candidato próprio (Cristiano Machado), apoiou-se em
vários estados. Além do PSD, a UDN apresentou seu candida
to à presidência, insistindo novamente no nome do brigadeiro
Eduardo Gomes. A composição da aliança política para a vitó
ria de Vargas refletiu-se na composição do ministério, sendo as
diversas pastas divididas entre o PTB, o PSD e o PSP, caben
do até o Ministério da Agricultura para a UDN em retribuição
ao apoio que este partido deu a Vargas em Pernambuco... Teo
ricamente, com tal composição de forças Getúlio Vargas teria
amplo respaldo para governar, retomando as rédeas do nacio
nalismo econômico que, segundo ele, fora abandonado em
1945 com Dutra. Tratava-se, contudo, de retomar uma idéia
construída e difundida durante os anos de fechamento político,
dando-lhe uma feição democrática. Para o povo se voltaram as
atenções do novo presidente, apoiado na vigorosa estrutura
sindical ligada ao Ministério do Trabalho.
60
Na reafirmação do nacionalismo, empreendeu-se a cam
panha "O petróleo é nosso", defendendo o monopólio estatal
do petróleo, e foi traçado o plano inicial da Eletrobrás para su
prir as deficiências de energia. Paralelamente, Getúlio Vargas
adotou o sistema de taxas múltiplas de câmbio, permitindo a
existência de uma política protecionista conjugada às necessi
dades de importação da economia brasileira. O governo federal
controlava a venda de divisas através da licitação seletiva dos
dólares. A proposta do nacionalismo econômico, conjugada à
necessidade do recurso ao capital estrangeiro para suprir as de
ficiências de inversão em setores básicos que dinamizassem a
economia, trouxe à baila a questão da remessa de lucros. A de
cisão de outorgar ao governo o poder de controlsir as remessas
de lucros das companhias estrangeiras entrava em conflito
aberto com o capital internacional.
A tais questões, todas elas alvos de intensos debates,
acrescentaram-se aquelas derivadas diretamente da política de
massas. O populismo trouxera para a arena política as camadas
populares que, no exercício de sua cidadania, se posicionavam
por participação, por empregos e por elevação dos seus pa
drões de consumo. Com isso entrava em cena a questão do
salário mínimo e de sua elevação, requisitada pelos trabalhado
res. Quanto aos industriais, as propostas do Plano Aranha de
combate à inflação, acompanhadas da restrição do crédito às
indústrias, eram um elemento de discórdia com o governo. A
decretação do aumento de 100% do salário mínimo por parte
do Ministério do Trabalho veio agravar ainda mais estas re
lações. As vantagens da associação com o capital estrangeiro,
sempre presentes como uma possibilidade ilimitada de ex
pansão, vieram dar força a um processo de cisão no seio daburguesia brasileira, que recuava progressivamente de sua po
sição nacionalista.
A todos estes problemas econômicos, sociais e políticos
veio acrescentar-se a divisão do Exército entre uma ala nacio
nalista, que apoiava Getúlio nas suas ações, e uma ala antico
munista, que via na aproximação do governo federal com os
sindicatos uma alarmante tendência esquerdista.
61
No tocante ao setor agroexportador, em 1953 os Estados
Unidos, principal comprador db produto, ameaçavam cancelar
suas importações de café, alegando os altos preços do produto.
Em 1954, a situação era, pois, extremamente conturbada,
e os debates se intensificavam, do Congresso às ruas, do Clube
Militar aos sindicatos. A UDN, tradicional adversária de Var
gas, não poupava criticas ao governo, principalmente através
de um seu representante, Carlos Lacerda. Através do jornal
Tribuna da Imprensa^ Lacerda lançava violentos ataques ao
presidente, o que motivou um dos guarda-costas de Vargas,
Gregório Fortunato, a preparar uma emboscada para o jornalis
ta. O chamado "incidente da Rua Toneleros" resultou na morte
do major da Aeronáutica Rubem Vaz, que acompanhava La
cerda, o qual saiu apenas ferido. Transformado o episódio em
escândalo nacional, apareceram acusações de conspiração con
tra os getulistas. Sentindo-se traído, abandonado e perdendo
sucessivamente apoios, Getülio Vargas suicidou-se a 24 de
agosto de 1954. O Brasil perdia seu presidente, e o PTB ga
nhava um mártir.
A ascensão do vice Café Filho (PSD) à presidência da
República foi marcada por uma medida de amplas repercussões
sobre a economia brasileira: a instrução 113 da Superintendên
cia da Moeda e do Crédito (SUMOC) estabeleceu que as em
presas associadas ao capital estrangeiro poderiam realizar suas
importações do exterior sem cobertura cambial, não tendo que
recorrer ao licitamento de dólares. A medida, como se vê, tra
zia vantagens inegáveis para as empresas que se associassem,
constituindo-se também nuín chamariz para o capital estrangei
ro.
Procedidas as eleições, foi eleito Juscelino Kubitschek,
do PSD, tendo por vice João Goulart, do PTB, com o apoio do
PCB.' Na oposição, concorreram Juarez Távora, pela UDN,
Ademar de Barros, pelo Partido Social Progressista, e o ex-in-
tegralista Plínio Salgado, pelo Partido de Representação Popu
lar (PRP).
Alarmadas com o risco da esquerdização da política bra
sileira, as forças de direita tentaram impedir a posse dos candi-
62
datos eleitos. Seu alvo principal era João Goulart, político que
diziam entender-se bem com as esquerdas, com largo trabalho
junto aos sindicatos. Entretanto, o general Lott, ministro da
Guerra, garantiu a posse do novo presidente, que iniciou a go
vernar sob o influxo da proposta de fazer o Brasil progredir
"50 anos em 5".
No governo JK deu-se a opção pelo desenvolvimento do
capitalismo brasileiro de forma associada ao capital estrangei
ro. A reformulação do modelo deu-se pela conjunção de várias
coordenadas: a necessidade da industria brasileira de evoluir
para um maior nível técnico; a dinâmica da reprodução do ca
pital em escala internacional, impondo a penetração do capital
monopolista; medidas anteriores tomadas pelo governo, como
por exemplo a instrução 113 da SUMOC, que privilegiavam a
burguesia associada, ao ter acesso a uma tecnologia mais avan
çada. Sob o influxo de tais questões, o governo federal organi
zou o seu Programa de Metas, baseado na industrialização ace
lerada de bens duráveis e semiduráveis, no estímulo ao capital
privado, nacional e estrangeiro, na expansão das obras públi
cas, materializada na construção da nova capital, em Brasília,
no investimento em energia e transportes, etc.
O Brasil tinha pressa, a sociedade modemizava-se, era
preciso acertar o passo com a história.
Para financiar a industrialização acelerada, o governo
lançava mão de recursos vários: o confisco cambial, que dava
ao setor agroexportador um retorno menor que a taxa do dólar
equivalente, canalizando a diferença para o setor secundário; o
confisco salarial, que conduzia os aumentos sempre abaixo da
inflação; a emissão renovada, para garantir o crédito aos em
presários.
Entretanto, a exigência do Fundo Monetário Internacional
(FMI) de que o país combatesse a inflação para poder renego
ciar a dívida externa e conceder novos empréstimos colocou o
governo num impasse. Tentativas de levar adiante um progra
ma deflacionário esbarraram no desagrado público, entrando
em conflito com o estilo populista de governo.
63
A opção do governo JK foi pela continuidade do Progra
ma de Metas e pelo rompimento com o FMI, deixando para os
governos seguintes a solução do problema da dívida externa e
do combate à inflação.
Embora a opção de JK marcasse uma alteração qualitativa
do modelo de desenvolvimento capitalista no sentido de sua in
ternacionalização, prevalecia ainda o ideário nacionalista. No
Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), intelectuais
defendiam a superação das barreiras da dependência e aposta
vam na capacidade de afirmação nacional através da industria
lização. O populismo, agregando governo, trabalhadores, in
dustriais e classes médias, mantinha-se em tomo de um ideário
que já se revelava em desajuste com as condições concretas de
realização do capitalismo no pais.
Entretanto, o esforço do desenvolvimentismo gerara a in
flação e o esvaziamento do poder aquisitivo dos consumidores
urbanos.
Na sucessão de JK, um candidato iria se eleger através de
uma surpreendente coligação partidária - UDN, PDC, PR, PL,
PTN —, além de dissidências dos partidos mais fortes (PTB,
PSD, PSP, PRP e PSB), com a adesão das massas populares,
das classes médias e, significativamente, com o apoio de gru
pos representativos do capital associado e do setor agroexpor-
tador. Este último encontrava-se agora a reboque do desenvol
vimento industrial, numa posição inversa do posto anterior
mente ocupado de eixo de ponta da economia nacional.
Jânio Quadros, num estilo personalista e muito próprio,
apresentava-se como o anticandidato, acima dos partidos polí
ticos, combinando um discurso agressivo com um tipo exótico
e atitudes inesperadas. Era um candidato com "cara de povo"
que prometia varrer com sua vassoura os desmazelos adminis-
trativos e políticos do país, que defendia a iniciativa privada e
prometia uma ordem social mais justa. Jânio fez da morali
zação nacional o carro-chefe de sua campanha.
Derrotando o general Lott, do PTB/PSB, e Ademar de
Barros, do PSP, Jânio obteve uma vitória sob o signo da "vas
sourinha" moralizante, assumindo em 31 de janeiro dê 1961,
64
juntamente com o seu vice João Goulart, do PTB. As regras
eleitorais da época permitiam que o candidato de um partido
pudesse ser eleito com um vice de outra agremiação política,
resultando, no caso, uma estranha combinação.
Jânio herdou do período JK o dilema de combinar a ma
nutenção de um alto índice de investimentos no programa de
industrialização com medidas de controle à inflação, tais como
o congelamento salarial e o fim dos subsídios à importação de
certos artigos. No plano externo, proclamou realizar uma polí
tica independente entre os blocos. Se, por um lado, condecorou
"Che" Guevara com a insígnia da Ordem do Cruzeiro do Sul,
por outro, foi no seu governo que o país assinou com os Esta
dos Unidos as bases para o acordo sobre a garantia dos inves
timentos norte-americanos no Brasil, preparando a posterior
Aliança para o Progresso. Na política interna, Jânio notabili
zou-se pelo ataque à corrupção, pela prática de governar
através de "bilhetinhos" e por atitudes esdrúxulas, como a
proibição do biquini nas praias, das rinhas de galo ou do lan-
ça-perfume no carnaval...
Sua intempestiva renúncia, em agosto de 1961, encerrava
um meteórico e contraditório governo. Forças conservadoras
civis e militares tentaram impedir a posse do vice-presidente
João Goulart, que se encontrava em visita à China Comunista.
O Congresso, contudo, negou-se a votar o impeachment
de Jango. No Sul, o governador do Rio Grande, Leonel Brizo-
la, com o apoio docomandante do UI Exército, articulou o
movimento da legalidade, em defesa da posse do vice-presi
dente. Ante a ameaça de guerra civil, o problema foi contomã^
do com a aprovação do parlamentarismo. Jango assumia como
presidente, mas teria seus poderes cerceados pelo regime par
lamentar.
Iniciava o último e mais conturbado dos governos presi
denciais da democracia populista.
Sob o impacto de uma crise econômica e social, com uma
inflação crescente e um enorme surto de greves, desencadeou-
se uma campanha pela antecipação do plebiscito no qual a
nação opinava pela volta ao presidencialismo ou pela manu-
65
Osvaldo Aranha discursando no enterro de Getillio Vargas. E Juscelino Kubits-
check e João Goulart a caminho do Palácio do Catete
tenção do regime parlamentar. Em janeiro de 1963, o Brasil
voltou ao presidencialismo, conferindo maiores poderes a João
Goulart.
No plano econômico, articulou-se o Plano Trienal, que
pretendeu combinar o controle da inflação com investimentos
na indústria; eliminar desigualdades regionais e setoriais; pro
mover a desconcentração da renda, reduzindo o custo sociaJ do
desenvolvimento. Tais propósitos seriam complementados com
a implantação de reformas de base, tais como a reforma agrá
ria. Todavia, os pré-requisitos para a execução deste plano
iriam colidir com vários grupos de interesses na sociedade bra
sileira. A incidência de maior tributação sobre os setores mads
beneficiados da sociedade e a redução de subsídios, como por
exemplo sobre o trigo, iria desagradar ricos e pobres. Medidas
conio redução do crédito industrial ou contenção salarial aten
tavam contra o capital e o trabalho; o corte nos gastos públicos
despopularizava os planos de ação do governo; e a questão da
dfvida externa esbarrava na intransigência do FMI pela neces
sidade de combater a infiação para conceder novos emprésti
mos. A reforma agrária feria fundo os interesses dos latifundiá
rios, que se sentiam mais ameaçados frente ao extrapolar da
política de massas para o campo. A formação de Ligas Campo
nesas no Nordeste começava a pôr em xeque o secular domínio,
do latifúndio. Nas cidades, o aprofundamento da política de-
massas ameaçava a essência do próprio populismo, que era a
tutela e a manipulação dos interesses populares. A burguesia e
também as classes médias viam com temor o aprofundamento
das tendências de esquerda, que extrapolavam do movimento
operário para outras instâncias da sociedade civil. A política e
a sociedade brasileira radicalizaram-se com o surgimento de
grupos também de direita, alguns com o apoio externo dos Es
tados Unidos, que viam com apreensão os rumos da política
brasileira. A radicalização atingiu também as Forças Armadas,
com a sucessão de incidentes de quebra de hierarquia e disci
plina no interior da corporação, tais como o levante dos sar
gentos e o dos fuzileiros navais.
67
Comício de 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro
Na medida em que as classes dominantes se afastavam do
governo, este passou a voltar-se cada vez mais para a base de
apoio que lhe restava: os sindicatos e os movimentos popula
res, com o apoio dos grupos de esquerda.
Estavam dadas as condições para a articulação de um
golpe militar com o apoio de setores significativos da socieda
de civil.
O governo João Goulart herdara contradições dos gover
nos precedentes: o avanço do capital monopolista e as exigên
cias de maior nível técnico comprometiam o nacionalismo
econômico; a burguesia nacional cindira-se e via-se ameaçada
pela política de massas que se radicalizava; os proprietáriosde
terra alarmavam-se com a iminência das reformas de base; e a
classe média tinha receio do avanço comunista. Conter a in
flação e continuar garantindo o ritmo de desenvolvimento in
dustrial revelava-se difícil. Verificava-se um desèquilíbrioentre
produção e consumo: o crescimento do parque industrial levara
ao inchamento do proletariado urbano, mas a incapacidade de
consumo das massas, devido a baixos salários, aumentava os
níveis de tensão social e fazia crescer suas reivindicações polí
ticas.
Com respaldo externo dos Estados Unidos, a conspiração
militar tramada no seio da Escola Superior de Guerra teve o
aval de parte da sociedade civil.
O comício de 13 de março, no qual o presidente anunciou
a implantação das reformas de base, precipitou o golpe.
A 31 de março de 1964, tinha fim a democracia populista
e com ela encerrava-se o projeto nacionalista do desenvol\d^^
mento industrial brasileiro.
69
os MILITARES NO PODER
OS MILAGRES DA GRANDE POTÊNCIA
A revolução de 1964 inaugurou no país um período auto
ritário de governo. Com a fuga do presidente João Goulart para
o Uruguai, assumiu o controle do país uma Junta Militar com
posta pelos ministros das três Armas.
Como primeira medida, o Ato Institucional n- 1 concedeu
ao Executivo o direito de cassar mandatos e suprimir direitos
políticos por até dez anos de pessoas consideradas subversivas
e corruptas. O AI-1 previa ainda a decretação do estado de sí
tio sem aprovação parlamentar e marcava as eleições presiden
ciais diretas para outubro de 1965. Indiretamente, pelo Con
gresso já depurado pelos expurgos, foi eleito o novo presidente
da República, general Humberto de Alencar Castelo Branco.
Iniciava-se o primeiro governo militar, sob o influxo do
combate ao comunismo e do expurgo dos suspeitos ao regime,
reforçando a hipertrofia do Executivo central, agora dominado
pelos militares. No plano econômico, retomavam-se os rumos
do desenvolvimento através da internacionalização da econo
mia e do impulso à iniciativa privada.
A renegociação da dívida externa e a obtenção de novos
empréstimos passavam pelo controle da inflação, conforme
exigência dos credores internacionais. A redução dos índices
inflacionários seria dada através do arrocho salarial, e o ali
nhamento com os Estados Unidos seria selado com renovados
empréstimos ao governo brasileiro, através da Aliança para o
Progresso, ao mesmo tempo que seria reescalonada a dívida
externa, sçgundo aprovação do FMI. Para incentivar as expor
tações, a moeda brasileira foi desvalorizada em 300% em face
do dólar.
O fortalecimento da "linha dura" do Exército junto ao
governo determinou a prorrogação do mandato de Castelo
70
Branco em nome da .necessidade de garantir a ordem política e
social e dar continuidade ao desenvolvimento econômico con
substanciado no Plano de Ação Econômica do Governo
(PAEG).
Em 27 de outubro de 1965, foi decretado o AI-2, que
extinguiu os partidos políticos no país. Em decorrência deste
processo, as forças de oposição às ações do novo governo for
maram o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) a 26 de
novembro de 1965. O situacionismo congregou-se na Aliança
Renovadora Nacional (ARENA), que nas eleições para a Câ
mara e o Senado Federal, em 1966, obteve a maioria das cadei
ras.
Na seqüência dos atos que redefiniram os rumos do auto
ritarismo, o governo baixou, em 5 de dezembro de 1966, o AI-
3, estabelecendo eleições indiretas para o governo dos estados
e, no final do ano, encaminhou ao Congresso um projeto de
Constituição no qual se previa eleições indiretas para presi
dente e governadores, a instituição de um tribunal militar para
julgamento de civis, a possibilidade de ampliação do estado de
sítio para fazer frente às situações atentatórias à ordem política
e social e o direito de exploração dos minérios brasileiros pelas
companhias que se organizassem no país, o que dava entrada
ao capital estrangeiro neste setor da economia. Com a recusa
do MDB em participar das eleições indiretas para a presidên
cia, o candidato da ARENA, general Artur da Costa e Silva,
foi eleito pelo Congresso enj 3 de outubro de 1966.
Apresentando-se como um meio termo entre a linha dura
e a posição de Castelo Branco, que pretenderia uma lenta libe
ralização do regime. Costa e Silva principiou a governar sob
intensa pressão do Congresso Nacional e em meio a movi
mentos da sociedade civil, através de estudantes, intelectuais,
membros do clero e sindicatos.
A nova Constituição, promulgada pelo Congressoem 24
de janeiro de 1967, tomou-se alvo das críticas de ambos os
partidos, que propunham eleições diretas para a presidência e
discordavam da prática seguida pelo governo federal de expe
dir decretos-leis sem negociação com os parlamentares. Cons-
71
titui-se a Frente Ampla, organização multipartidária que tomou
a iniciativa de fazer a oposição sistemáticaao regime.
Padres e guerrilheiros, operários e estudantes, artistas
e intelectuais em protesto, somados a políticos que contesta
vam o regime, formavam o "clima brasileiro" do agitado ano
de 1968. A contestação explodia por toda parte e o seu alvo
principal era o autoritarismo. Greves e passeatas acabavam em
tumulto e violência e a repressão baixava sobre os insurgentes.
Atentados terroristas de esquerda e de direita promoviam a in
tranqüilidade no país.
A 13 de dezembro de 1968, o governo reagiu com o Ato
Institucional n- 5 e o Ato Complementar n- 28, que decretou o
recesso do Congresso e ampliou os podeies do governo sobre a
nação. O AI-5 dava poderes ao governo de decretar o recesso
do parlamento toda vez que se fizesse necessário, podendo le
gislar sobre todas as matérias na ausência daquele. Além disso,
o Executivo podia intervir nos estados, suspender os direitos
políticos de qualquer cidadão, decretar estado de sítio, suspen
der garantias e direitos em geral, impedir o exercício de fun
ções, demitir, aposentar e remover ftincionários, confiscar os
bens de todos que haviam enriquecido de forma ilícita, suspen
der o direito de habeas corpus, etc.
No campo econômico, o governo Costa e Silva iria her
dar as diretrizes traçadas pelo PAEG. Reduziu os gastos públi
cos, cortando programas de investimentos, apertou o crédito e
arrochou os salários. Considerando que o Brasil ingressava na
estagnação pela continuidade de uma política deflacionária se
guida pelo PAEG, os setores empresariais passaram a reivindi
car a retomada do desenvolvimento econômico.
Com o Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED),
houve a retomada daquela preocupação expansionista. Am
pliando o crédito, tabelando os juros e controlando os preços,
o governo iiliciava uma nova fase que obteve resultados no
crescimento econômico puxado pela indústria. Tais medidas
foram complementadas pela eliminação das barreiras para a
importação de tecnologia e pelas facilidades de crédito criadas
para a compra de bens de consumo duráveis produzidos. Ao
72
boom industrial seguiu-se o da construção, através da utiliza
ção dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS), criado pós-64 para o Banco Nacional de Habitação
(BNH). Na política cambial, o governo manteve minidesvalori-
zações da moeda nacional com o fito de amparar as exporta
ções. Com os recursos da recém-criada Obrigações Reajustá-
veis do Tesouro Nacional (ORTN), e de um dinâmico sistema
de open market^ o governo retomou os investimentos. O capi
talismo brasileiro na sua fase do desenvolvimento revelava
apoiar-se sobre o tripé estado-grandes empresas nacionais-ca-
pital multinacional.
Um Executivo dotado de instrumentos poderosos no con
trole da sociedade civil e a retomada do desenvolvimento eco
nômico foram o legado do general Costa e Silva a seu suces
sor. Em agosto de 1969, doente, o presidente teve de ser subs
tituído por uma Junta Militar, que outorgou à nação um novo
texto constitucional, no qual se previam eleições diretas para
os governos estaduais em 1974.
O vice-presidente civil de Costa e Silva, Pedro Aleixo,
foi considerado impedido para assumir a presidência, uma vez
que se declarara contra o AI-5. As Forças Armadas optaram
pelo nome do general Emílio Garrastazu Médici, que foi eleito
por um Congresso recém-reaberto, depurado pelos expurgos.
Os anos setenta se inauguraram sob a inspiração do mila
gre. Os canais de comunicação divulgavam mensagens de eu
foria e confiança: "Ninguém segura este país", "Pra frente.
Brasil", "Brasil: ame-o ou deixe-o" e à força de canções, es- ~
timulava-se o coração dos brasileiros para ficar "verde-amare-
lo-branco-azul-anil"... A vitória do Brasil na Copa do Mundo
forjava a idéia de um "Brasil grande".
A economia brasileira encontrava-se em fase de desen
volvimento acelerado. O capital estrangeiro encontrava boas
condições para ampliar suas atividades, a indústria nacional era
estimulada e apoiada pelo Conselho de Desenvolvimento In
dustrial (CDI) e pelo Fundo de Modernização e Reorganização
Industorial. Fortelacia-se o setor estatal, que passou a controlar
73
setores chaves da economia onde a rentabilidade se configura
va baixa para o setor privado ou onde se demandavam maiores
investimentos. Petrobrás, Siderbrás e Companhia do Vale do
Rio Doce eram algumas das empresas que controlavam setores
básicos da economia, às quais se acrescentavam iniciativas
mais ambiciosas no terreno da energia, como o Tratado de Itai-
pu, assinado com o Paraguai e destinado a construir no rio Pa
raguai, na fronteira entre os dois pafses, a maior hidrelétrica do
mundo. Investindo em setores de ponta, o governo passou a
apostar em pólos petroquímicos. Na área bancária, o governo
controlava investimentos através de estabelecimentos oficiais,
como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico,
(BNDE), enquanto que canalizava recursos do FGTS para o
BNH solucionar o problema habitacional brasileiro. Com uma
proposta de integração nacional, o governo empreendeu a
construção da rodovia Transamazônica, ambicioso projeto que
visava também fixar na região colonos vindos de outras áreas
onde não possuíam terras.
Através de uma política de desvalorização da moeda, in
centivos fiscais e creditícios, o governo estimulou as exporta
ções. Com as divisas entradas, o governo garantiu a aquisição
de máquinas para a indústria. Este era, indiscutivelmente, o
setor de ponta do milagre brasileiro e todos os seus ramos se
encontravam em expansão; bens de consumo duráveis, como
eletrodomésticos e automóveis, eram adquiridos pelas classes
médias mediante sistema de vendas a crédito; o surto de cons
trução estimulava avanços do ramo dos bens intermediários,
como aço e cimento, e o surto geral de expansão consumia os
frutos da indústria de bens de produção, como máquinas e
equipamentos; supermercados e shopping centers forçavam o
consumo dos bens não-duráveis, numa nova estratégia de mar
keting.
No mercado financeiro, a expansão econômica refletia-se
na especulação das bolsas de valores.
Pontes, estradas, viadutos e estádios de futebol remode
lavam a fisionomia do país do milagre. Com relação ao capital
estrangeiro, o governo autorizava a entrada de grandes com-
74
plexos industriais np pafs, desde que se destinassem a aumen
tar as exportações brasileiras.
Contrastando com o programa econômico, permanecia a
censura da imprensa e as limitações impostas à ação do Legis
lativo. A esquerda optava pela luta armada e promovia assaltos
a bancos, seqüestros de diplomatas e embaixadores estrangei
ros. Atividades de guerrilha ocorriam nas cidades e nos cam
pos. O governo, por sua vez, reagia através da poderosa má
quina da repressão, com prisões e torturas. Alterando as dispo
sições da Constituição, o governo determinou que nas eleições
de 1974 permanecessem as eleições indiretas para governado
res e vice-govemadores.
O milagre baseava-se nas metas prioritárias de exportar e
promover o desenvolvimento acelerado da indústria, mesmo às
custas do também acelerado endividamento externo.
ABERTURA LENTA E GRADUAL
O encerramento do governo Médici, em 15 de março de
1974, deu-se em meio à crise internacional do petróleo e assi
nalou o esgotamento da era do milagre. Ante a crise que se es
boçava, o MDB alertava contra a desigual distribuição de ren
da e a especulação financeira desenfreada, que não criava ri
queza, mas dava a falsa idéia de euforia econômica. Na sua
opção pelas exportações, o governo descuidava do abasteci
mento do mercado interno e a nação precisava agora importar
gêneros de subsistência.
Na sucessão de Médici, a ascensão ao poder do general
Ernesto Geisel marcou o retomo do grupo "castelista"à presi
dência da República e o fim da intransigente "linha dura".
No plano político, a palavra de ordem seria "distensão" e
a formação de uma "abertura lenta e gradual", enquanto que,
no plano econômico, o espírito do milagre cedia lugar a uma
preocupação de corrigir os rumos do desenvolvimento, adap
tando o pafs à crise internacional de energia.
Em meio a alterações de rota e combinação de medidas
democráticas com atos arbitrários, a sociedade civil voltou a se
agitar, anunciando o fim do período militar.
75
o Prcxiuto Interno Bruto (PIB) continuava crescendo e
as exportações diversificavam-se cada vez mais. A infiação
não podia ser controlada na medida do desejado e o endivida
mento externo crescia, com a diferença de que o Brasil dimi
nuíra a sua dependência dos Estados Unidos, diversificando
o leque de seus credores externos.
A criação em 1974 do m Plano Nacional de Desenvol
vimento (PND) buscou atingir a auto-suficiência do pafs em
insumos básicos e bens de capital. Os acordos nucleares com a
Alemanha visavam à instalação de indústrias atômicas no pafs
e, na sua meta de possibilitar à nação maiores fontes internas
substitutivas de energia importada, o governo abriu a explora
ção do petróleo às empresas estrangeiras, mediante contratos
de risco com a Petrobrás.
Ao mesmo tempo em que tomava tais medidas no plano
econômico, o governo seguia uma tortuosa rota política, ten
tando garantir o encaminhamento da redemocratização sem
perder as rédeas do processo. Assim, o crescimento do MDB
nas eleições parlamentares de 1974 precisava ser controlado.
Para tanto, o governo fechou o Congresso para realizar a re
forma do Judiciário, pela qual se pretendia assegurar o controle
da ARENA no processo político: mantinham-se as eleições in
diretas para governador e vice, criava-se a figura do "senador
biônico", também escolhido indiretamente, e se estabelecia que
o quórum para a aprovação de medidas no Legislativo passava
a ser de maioria absoluta. Paralelamente, a Lei Falcão limitava
o acesso dos candidatos à televisão e ao rádio, reduzindo a sua
participação à mostragem de uma foto com pequeno currículo.
Apesar de tais medidas, o MDB continuou crescendo e
nas eleições parlamentares de 1978 obteve vitórias significati
vas.
Usando o AI-5, o governo definia que era preciso defen
der o regime em épocas de crise através das "salvaguardas
constitucionais".
O ano de 1978, porém, seria definitivo nos rumos da
abertura. No fórum da Gazeta Mercantil, os empresários brasi
leiros passaram a criticar os efeitos estatizantes do n PND,
76
bem como a centralização excessiva do poder decisório nas
mãos do Executivo. Por trás destas acusações, revelava-se que
a burocracia civil-militar que controlava o poder afastava-se
progressivamente das bases reais do poder burguês no Brasil.
O empresariado se considerava à margem do processo político
e condenava os rumos do processo econômico como nocivos à
livre iniciativa. Enquanto os setores mais tradicionais (Paulo
Maluf, Papa Jr.) denunciavam os efeitos danosos da estatiza-
ção, setores mais modernos, ligados a ramos básicos da eco
nomia nacional, como Antonio Ermfrio de Moraes, passaram a
incorporar novos temas à sua crítica: exigiam redemocratj^za-
ção, eliminação de desigualdades sociais, política salarial mais
justa.
Mais uma vez a burguesia acertava o passo com a histó
ria, indo ao encontro das transformações em curso e das rei
vindicações da sociedade civil. Condenando o autoritarismo e
apostando na redemocratização, assegurava seu espaço no
reordenamento institucional do país.
Eclodiam os movimentos sociais de contestação, partindo
dos estudantes, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
dos sindicatos, dos intelectuais, dos artistas. As greves no
ABC paulista faziam emergir lideranças novas, como o meta
lúrgico Luís Inácio da Silva, o Lula.
O encaminhamento da sucessão de Geisel deu-se pela in
dicação do general João Batista Figueiredo, que enfrentou a
fraca e malsucedida concorrência (jo general Euler Bentes
Monteiro, indicado pela oposição. ^
Em 15 de março de 1979, Geisel passaria o governo para
o general Figueiredo, deixando como herança o fim da tortura
política aos presos e a extinção do AI-5, em 1- de janeiro de
1979.
Sob o signo da abertura, o controvertido presidente Fi
gueiredo encaminharia as medidas complementares para a re
democratização.
Ainda no fim do governo Geisel, o abrandamento da Lei
de Segurança Nacional permitira a libertação de presos políti
cos, processo que seria complementado no governo Figueiredo
77
Rodovia Transamazonica
com a aprovação, em ãgosto de 1979, da Lei da Anistia e com
o indulto de Natal, no fim do mesmo ano, com a libertação de
mais presos políticos. A anistia não seria nem tão ampla nem
tão irrestrita, mas permitiu a volta ao país de velhos políticos
do pré-64, como Leonel Brizola, Miguel Arraes e Luís Carlos
Prestes, assim como elementos mais novos da fase da guerri
lha, como Fernando Gabeira.
Em novembro de 1979, o Congresso aprovava a reforma
partidária, extinguindo o bipartidarismo no Brasil, que se ex
pressava através da ARENA e do MDB.
DIRETAS JÁ
A década de 80 se iniciaria com a formação de novos
partidos: o velho MDB dividiu-se, enquanto que da ARENA
surgia o Partido Democrático Social (PDS) como a grande for
ça governista. Formou-se o maior partido de oposição ao go
verno, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro
(PMDB). Ivete Vargas conseguiu para si a sigla do velho PTB,
e Leonel Brizola criou o Partido Democrático Trabalhista
(PDT). Com o apoio das forças sindicais e das comunidades
eclesiais de base. Lula criava o Partido dos Trabalhadores
(PT). Um pequeno partido de centro, o Partido Popular (PP),
surgia comandado por Tancredo Neves.
No fim do ano de 1980, o Congresso aprovava uma
emenda constitucioned que determinava eleições diretas para o
governo dos estados. Em 1982, quando se realizaram 2^pri-
meiras eleições diretas para os estados, o PP já fora absorvidb
pelo PMDB e as oposições alcançavam a vitória no governo de
importantes estados, como por exemplo José Richa (PMDB) no
Paraná, Franco Montoro (PMDB) em São Paulo, Leonel Bri
zola (PDT) no Rio de Janeiro, Tancredo Neves (PMDB) em
Minas gerais. O PDS, contudo, garantiu a maioria dos gover
nos dos estados.
Em 1983, sob a liderança do deputado federal Ulysses
Guimarães, do PMDB, iniciou-se o movimento das "Diretas
já", visando à sucessão presidencial do general Figueiredo e
79
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S,
19
84
que foi granjeando o ^apoio de todas as forças de oposição ao
regime. O deputado federal Dante de Oliveira enviou ao Con
gresso uma emenda propondo "Diretas já para presidente''. Em
meio a comícios e caminhadas pelas diretas que agitaram o
país, a proposta foi rejeitada no Congresso pela maioria parla
mentar de pedessistas.
O impasse seria, pois, decidido via eleição indireta no
Congresso, através do choque de dois nomes. Enquanto a
maioria do PDS fechou em tomo do nome de Paulo Maluf co
mo o candidato do partido à sucessão do general Figueiredo,
um grupo retirou-se da agremiação govemista, formando o
Partido da Frente Liberal (PFL), que aderiu à candidatura de
Tancredo Neves proposta pela oposição. Umanovaarticulação
se montou, aceitando a figura de José Samey, ex-político do
PDS, para vice de Tancredo.
A chapa oposicionista encabeçada por Tancredo Neves
apresentava a intenção de levar adiante a transição democráti
ca, via eleições indiretas, em face da derrota no Congresso da
proposta das "Diretas já".
Em janeiro de 1985, o Congresso Nacional deu a vitória
a Tancredo Neves e José Samey.
Findava o govemo Figueiredo e o período militar no Bra
sil, mas a chamada Nova República se iniciaria de forma inu
sitada. O repentino intemamento por doença do presidente
eleito, na véspera de sua posse, seguido de sua morte, fez com
que o vice José Samey assumisse a presidência da República.
81
ABERTURA E TRANSIÇÃO
CAMINHOEM ABERTO
Intensa mobilização da sociedade civil, sucessão de pla
nos dè governo para controlar a inflação, greves renovadas,
avanços e recuos de coligações partidárias para o governo dos
estados e escândalos financeiros são dados objetivos da reali
dade brasileira contemporânea, que demonstram quão difícil
tem sido (re)construir a democracia no Brasil.
Ex-líder da ARENA e do PDS, político maranhense de
velha geração, a inclusão do nome de José Sarney na chapa de
Tancredo Neves marcava uma estratégia eleitoral para garantir
a adesão de elementos mais conservadores à candidatura da
oposição: guindado ao poder, teve de enfrentar duras tarefas,
nem todas resolvidas satisfatoriamente.
A primeira delas dizia respeito à redemocratização do
país, conduzindo a nação pelos caminhos da abertura. Esta foi,
a rigor, a empreitada que se cumpriu, mal ou bem, tendo em
vista terem sido abolidas as leis de exceção. A mobilização da
sociedade civil, que já se dera no final dos anos setenta, am
pliou-se na nova década, e os movimentos populares, de clas
ses, profissionais e de grupos de interesse cresceram de forma
vertiginosa.
Entidades sindicais de orientação diversa como a Central
Única dos Trabalhadores (CUT) ou a Central Geral dos Tra
balhadores (CGT) agitaram o debate político e as ruas das
principais cidades brasileiras.
Uma sucessão jamais vista de greves abarcou um grande
número de categorias profissionais: operários, bancários, pro
fessores, médicos-residentes, fiincion&ios de fundações e em
presas estatais, etc.
Nos centros urbanos, movidos pela insatisfação econômi
ca e pelo agravamento das condições de vida, parte das cama
das pobres invadiram conjuntos residenciais. No campo,* os
82
colonos sem terras organizaram-se, cada vez mais, pondo em
discussão a estrutura fundiária do pafs.
A preservação do meio ambiente, bandeira dos movi
mentos ecológicos, levantou a sua voz em protestos pacíficos
contra a destruição da natureza levada a efeito pelos ditos re
sultados do "progresso". Associações comunitárias, agremia
ções de donas de casa "sinetaços" de professores públicos,
greves de professores universitários, movimentos negros e de
outras chamadas "minorias" compuseram um quadro de rein-
vindicações e protestos.
Apesar destes conflitos, o regime democrático não sofreu
um retrocesso no seu processo de instalação.
O Brasil (re)experimentava a democracia e esta se manti
nha viva.
A par desse ponto favorável, que representou, significati
vamente, um ganho para a sociedade brasileira em seu con
junto, o governo Sarney teve a sua popularidade duramente
atingida em face dos acertos políticos levados a efeito para ga
rantir a sua base de sustentação, conjugados a uma séria crise
econômica que levou a inflação a níveis, até então, não expe
rimentados pelo país.
Denúncias de corrupção de parlamentares e acordos tidos
como espúrios, conjugaram-se a formas arcaicas de clientelis-
mo político que lembravam velhas práticas do tempo dos coro
néis.
Embora houvesse um consenso quase que nacional em
torno da permanência do mandato presidencial em quatro anos,.
Sarney conseguiu passar no Congresso a aprovação dos cinco
anos.
Assustando os conservadores com a ameaça da vitória de
um candidato esquerdista, caso houvesse eleições presidenciais
em 1988, Sarney conseguiu um ano a mais de mandato graças
à manipulação de um bloco parlamentar alcunhado de "Cen-
trão".
O espírito deste grupo congressista pode ser apreciado na
frase de um de seus elementos, que sintetiza a norma do proce
der político adotada: "É dando que se recebe".
83
o PMDB obteve espetacular vitória em novembro de
1986, quando o partido fez a maioria absoluta dos governado
res e obteve também a maioria no Congresso. Em cima do cli
ma de euforia obtido com o ingresso do país na senda da
abertura, após longos anos de autoritarismo e beneficiado pelo
sucesso do plano, conjugado com a sua política de congela
mento dos preços, o PMDB atingiu o seu clímax, como o gran
de partido que conduziria o Brasil na sua fase de transição de
mocrática.
Todavia, durante os cinco anos de mandato de Samey, o
PMDB manteve coiii o presidente uma curiosa composição, de
apoio e de repúdio, sem que ficasse bem definido diante da
opinião pública se o presidente era realmente do PMDB e se
este partido governista apoiava, ou não, o presidente.
Uma fração do PMDB retirou-se do partido e formou no
va agremiação partidária, o Partido Social Democrático Brasi
leiro (PSDB), marcando uma racha progressista frente a uma
atitude dita como fisiológica e governista. O PSDB, contudo,
não conseguiu mobilizar grande público, mas alinhou-se junto
a outras agremiações oposicionistas na disputa para as eleições
municipais de 1988.
O PT, o PDT, o PSB e o PSDB, erigindo-se em porta-
vozes das reivindicações populares, defrontaram-se com os
candidatos do PMDB, PDS e PFL para a conquista das prefei
turas. Significativamente, a vitória em capitais importantes,
como São Paulo, Santos e Porto Alegre, coube a candidatos do
PT.
No ano seguinte, como resposta final à decepção popular
com a Nova República, foram para o segundo turno das elei
ções presidenciais os candidatos mais contundentes em suas
críticas ao governo Sarney: Luís Inácio da Silva (Lula) pelo
PT e FernancJó Collor de Mello, pelo novíssimo Partido da Re
novação Nacional (PRN).
Finalmente, do ponto de vista econômico, os sucessivos
planos de combate à inflação revelaram-se inócuos. Tanto o
Plano Cruzado, quanto o Plano Bresser e, por fim, o Plano
Maílson iniciaram com resultados positivos, mas depois nau-
84
í,
fragaram, sem que a inflação fosse contida, atingindo a cifra
assustadora de 80%, ao mês, no fim do governo Samey. Desta
forma, a situação econômica deteriorou-se dramaticamente:
baixas taxas de investimentos, insuficiente crescimento, ausên
cia de novos capitais externos, déficit público vertiginoso, df-
vida externa ampliada por juros letais, descalabro de várias
estatais, etc.
A violência urbana aumentou, faceta trágica da lumpeni-
zação crescente das camadas populares.
As eleições de 1989 representaram um reativar das espe
ranças: cumprir-se-ia, finalmente, a promessa de redemocrati-
zação definitiva do pafs, fazendo a nação acertar o seu passo
com a história?
Já no primeiro turno revelou-se a derrocada dos candi
datos dos grandes partidos: Ulysses Guimarães, do PMDB;
Aureliano Chaves, do PFL; Mário Covas, do PSDB, e Paulo
Maluf do PDS. Nem mesmo o favorito de meses antes, Leonel
Brizola, do PDT, escapou do naufrágio.
No segundo turno, defrontaram-se candidatos que afir
mavam estar totalmente descompromissados com o governo
Samey. Lula, do PT, Ifder sindical, metalúrgico, surgido para a
política no fim dos anos setenta nos conflitos do ABC paulista,
agrupou em torno do seu nome todos os segmentos da esquerda
e de centro-esquerda. Fernando Collor, homem público de
Alagoas e de família tradicional no campo da política, com
discurso neoliberal e modemizante, teve o apoio dos grupos de
centro-direita e de direita, além dos setores populares atraídos
pelo seu discurso contra o Estado, representado pela figura do
*'marajá", o funcionário público de alto sálario.
Por estreita margem de votos, Collor de Mello venceu as
eleições, tornando-se o primeiro presidente eleito pelo voto di
reto, após vinte e nove anos de vida política nacional.
Pleito' histórico, que deixa um caminho em aberto, as
eleições de 1989 reuniram nas umas, lado a lado, pais e filhos
a depositarem o seu primeiro voto para presidente.
86
síntese imiversitária
A série Síntese Universitária apresenta de forma clara
e acessível ao público universitário os grandes temas
da Ciência, da História, da Cultura e da Arte.
1. Cenas médicas: pequena introdução à historia da medicIna/Moacyr Sclíar
2. Nossos adolescentes/Ronald Pagnoncellí de Souza (2.ed.)
3. Segunda guerra mundial: história e relações Internacionais (1931-45)/Pauio G.
Fagundes Vizentini (S.ed.)
4. História e literatura/Fiávio Loureiro Chaves (2.ed)
5. Cultura brasileira: das origensa 1808/Luiz Roberto Lopez (2.ed.)
6. Cinema brasileiro: idéias e imagens /Carlos Diegues
7. O nazismo: breve história ilustrada/Voltaire Schilling (2.ed.)
8. Biologia, cultura e evolução/Franciscx) M. Salzano (2.ed.)
9. Um repórter na América Latina. Caderno de notas/Eric Nepomuceno
10. Evolução social e econômica do Brasil/Nelson Werneck Sodré (2.ed.)
11. A descoberta da América, que ainda não houve/Eduardo Galeano (2.ed.)
12. Cultura brasileira: de 1808 ao pré-modemIsmo/Luiz Roberto Lopez
13. O romance na América Latina/Márcia Hoppe Navarro
14. Guerra do Vietname: descolonização e revolução/Paulo G. Fagundes
Vizentini (2.ed.)
15. O anarquismo: promessas de liberdade/Luiz Pilia Vares (2.ed.)
16. A legalidade: último levante gaúcho /Joaquim Felizardo (S.ed.)
17. A inconfidência mineira/Luiz Roberto Lopez
18. A república: uma revisão histórica/Nelson Wernek Sodré
19. Israel x Palestina: as raízes do ódio/Jurandir Soares (2.ed.)
20. O romance modernista: tradição literária e contexto histórico/J.H. Dacanal.
L. A. Fischer, H. Weber
21. Da guerra fria à crise (1945-1990/Paulo G. Fagundes Vizentini(2.ed.)
22. O Brasil contemporâneo/Sandra Jatahy Pesavento (2.ed.)
23. Temas de astronomia moderna/Luiz Augusto L. da Silva
24. Oriente Médio: de Maomé à Guerra do Goifo/Jurandir Soares
25. O liberalismo/Francisco de Araújo Santos
26. O socialismo/J. Luiz Marques
27/28. Do Terceiro Reich ao novo nazismo/Luiz Roberto Lopez
29. Empresa aberta: uma abordagem liberal/Francisco de Araújo Santos
30. O fim da União Soviética: da Perestroika à desintegração/Tau Golin
31. O escravo gaúcho: resistência e trabalho/Mário Maestri
32. O marxismo: passado e presente/J. Luiz Marques
33. História contemporânea da América Latina (1900-30)/Cláudia Wasserman
34. História contemporânea da América Latina (1930-60)/Helen Osório
35. História contemporânea da América Latina (1960-90)/Cesar Augusto Barcellos
Guazzelli
36. Literatura e identidade naclonal/Zilá Bemd
37. A.Guerra Civil de 1893/Sérgio da Costa Franco
38. Antropologia e tropicalismo/Bina Maltz, Jerônimo Teixeira e Sérgio Ferreira
IMPRESSÃO
ESCOLA PROFISSIONAL
LA SALLE
Gráfico^^^íO^^^ditora
FONE: (051) 472-5899
CANOAS - RS
1994
Composiçâro:
Sulianí —Edítogràfia Ltda.
o Brasil contemporâneo.
Há cem anos, a República brasileira
apresentou-se como o regime
da modernidade e que faria o país
acertar o passo com a história.
Sandra Jatahy Pesavento faz uma síntese
e traça um perfil da vida política
e social do Brasil contemporâneo.
Analisa as relações de trabalho,
as articulações políticas, o liberalismo,
a Revolução de 30, o Estado Novo.
"Havia no ar uma promessa de democracia"
Depois temos o populismo, a ditadura
dos militares e os nossos dias.
Passado um século de implantação
do novo regime, a Autora nos leva
a repensar a trajetória e a remontar
criticamente as vicissitudes
da realização dos ideais de 1889.
o
síntese
universitária
Editora
da Universidade
Universidade Federal doRio Grande doSul I5g,sj 85-7025-210-2desembocando no processo de
independência das colônias latino-americanas. Num segundo
momento, a exigência para a expansão capitalista traduziu-se
na eliminação do trabalho servil.
Seja para ampliar o mercado consumidor em nível mun
dial, seja para uniformizar os custos de produção em escala
internacional, uma vez que o uso de escravos era "mais bara
to" que o emprego de trabalhadores assalariados, desencadeou-
se uma campanha contra a escravidão. A Inglaterra, nação pio
neira do desenvolvimento capitalista, liderou a condenação do
tráfico negreiro no mundo.
Ora, o Brasil imperial, nação onde a Inglaterra possuía
sólidos interesses econômicos, mantinha-se escravista e pos
suía vultosos capitais aplicados no tráfico. Combinando pres
sões diplomáticas com uma atitude agressiva contra os navios
negreiros, a Inglaterra forçou o Brasil a extinguir o tráfico em
1850, através da Lei Eusébio de Queiroz.
A IMIGRAÇÃO E A EXPANSÃODACAFEICULTURA
Estava criado o problema da mão-de-obra para os produ
tores brasileiros, expressando-se na imediata alta do preço dos
escravos e na sua progressiva escassez no mercado. A situação
11
se apresentava tanto mais grave quanto mais se atenta para o
fato de que, nesta época, se encontrava em expansão uma nova
área cafeicultora —o oeste paulista. O Brasil era na época o
principal fornecedor de café, dominando monopolisticamente o
mercado através da produção em massa de um artigo que, pelo
seu baixo preço, afastava os concorrentes e ampliava o seu
consumo junto às classes trabalhadoras européias.
Desta forma, na segunda metade do século XDC, o prin
cipal problema que se apresentava para os exportadores brasi
leiros era encontrar uma mão-de-obra abundsinte e barata que
garantisse as condições de expansão da cafeicultura, ameaçada
com a cessação do tráfico.
Tentativas de encontrar fontes internas de suprimento de
mão-de-obra não deram certo. O tráfico interprovincial, que
reorientava a venda de escravos das diferentes regiões do pafs
para a zona cafeicultora, não preencheu as necessidades da la
voura em expansão. Também a possibilidade de utilizar na ca
feicultura mão-de-obra da população branca livre que existia
no pafs esbarrava no entrave criado pela própria sociedade es
cravista: apesar de pobres, indivíduos livres e brancos recusa-
vam-se a realizar tarefas de negros escravos...
A solução encontrada para a "crise de braços" que se
abatia sobre o Brasil foi a vinda de trabalhadores livres estran
geiros para a lavoura do café. A entrada renovada de imigran
tes, primeiro às custas dos fazendeiros paulistas e após sub
vencionada pelo governo da provjhcia de São Paulo, garantiu a
continuidade da expansão cafeicultora. A partir da segunda
metade do século XDC, principalmente os italianos, mas tam
bém os alemães, os espanhóis e os portugueses, se tomaram a
força de trabalho preferencial nas lavouras do oeste paulista.
Na verdade, não se constituíram de imediato em trabalhadores
assalariados, vigorando outras formas de pagamento não mo
netárias, tais como o direito à moradia ou ao cultivo da terra
para subsistências das famílias. Todavia, a entrada de homens
livres, substituindo progressivamente os escravos, foi um ele
mento nuclear no processo de transformação vivendado pelo
pafs. Abandonando o trabalho escravo, agora mercadoria es-
12
cassa e rara, o fazendeiro do café não apenas resolveu proble
mas imediatos e prementes — substitui a mão-de-obra servil
pela livre —, mas potencializou as suas condições de acumula
ção. Na medida em que o governo iniciou a subsidiar a vinda
de imigrantes, o custo da mão-de-obra passou a ser mínimo pa
ra o proprietário de terras. Não mais tendo de desembolsar an
tecipadamente o dinheiro para a aquisição de mão-de-obra,
como no sistema escravista, o fazendeiro pagava após a reali
zação do trabalho e, mesmo assim, muitas vezes com pouco
desembolso de salário monetário, conforme já se disse. O custo
de reposição da força-trabalho ficava agora por conta do pró
prio trabalhador, que deveria prover a sua subsistência. Tais
fatores, associados aos bons preços do café no mercado inter
nacional e à produtividade diferencial de terras do oeste pau
lista, liberaram para o fazendeiro um capital em dinheiro dis
ponível para ser reaplicado na própria unidade produtiva, atra
vés de recursos técnicos ou para diversificação de seus negó
cios. Desta forma, o complexo cafeeiro se encontra associado a
um movimento global de renovação da infra-estrutura material
do país, à expansão do setor bancário e creditício, à urbaniza
ção, ao surgimento de indústrias. Por outro lado, tratando-se
de trabalhadores livres, a rotação de mão-de-obra fazenda-fa-
zenda e campo-cidade era também intensa, com o que progres
sivamente se constituiu um mercado de trabalho livre no país,
com um contigente populacional que desempenhava uma ampla
gama de atividades.
Os patrocinadores da imigração foram os representantes
de uma verdadeira burguesia agrária, sediada em São Paulo e
que se colocava no epicentro das grandes transformações do
país. Todavia, se a vinda dos imigrantes solucionava o proble
ma dos cafeicultores, e particularmente dos paulistas, fração
responsável por um produto em expansão, não correspondia às
necessidades dos demais proprietários de terra que não se
achavam ligados ao maior produto de exportação brasileira.
Nesse sentido, os chamados "imigrantistas" posiciona-
vam-se com muita cautela em relação ao movimento abolicio
nista que se processava paralelamente no país. Os promotores
13
das leis abolicionistas foram os próprios fazendeiros escravis
tas que, convencidos paulatinamente de que o regime servil
estava com seus dias contados e não dispondo do "élan" cafei-
cultor para promover a vinda dos imigrantes, optaram pela es
tratégia de uma emancipação progressiva. Ou seja, era preciso
prolongar ao máximo o sistema escravista e garantir ao senhor
de escravos o controle sobre os cativos que se libertassem.
Desta forma, as leis abolicionistas, que na verdade protelavam
ao máximo uma solução final, foram complementadas com uma
série de dispositivos instrumentais-legais, como os códigos de
posturas dos municípios, que regulavam o acesso dos libertos
ao mercado de trabalho, estabelecendo mecanismos de vigilân
cia sobre a sua conduta.
Abolicionistas foram também as camadas médias urbanas
emergentes, descompromissadas em termos objetivos com o re
gime ^rvil, mas que, sob o influxo de um sentimentalismo
humanitário, foram responsáveis pela formação de uma cons
ciência nacional favorável à emancipação dos escravos.
Todo este processo, que teve o seu núcleo fundamental
de ação na zona cafeicultora paulista, foi acompanhada pela di
fusão de novos valores e concepções. Na transição do sistema
escravista para aquele baseado na força de trabalho livre, pro-
pagava-se a ideologia do progresso, da mobilidade social e da
riqueza. O trabalho braçal não era mais encarado como ativi
dade pertinente aos negros e como tal degredado pelo estigma
da escravidão. Era agora visto como enobrecedor, construtor
da riqueza e associado ao progresso. Proclamava-se o princípio
de solidariedade entre as classes, tão caro à sociedade burgue
sa, afirmando que os honièns são iguais perante a lei, mas
ocultando a evidência de que são desiguais frente à distribui
ção da rique2:a. Neste contexto, os conceitos de progresso e ci
vilização, ligados à nova moral do trabalho, ajustados aos inte
resses do capital emergente, foram associados, de maneira ine
quívoca, à idéia da República. O endosso da causa republicana
pelos fazendeiros do oeste paulista implicava, na realidade, a
sujeição da máquinado Estado e dos mecanismos decisórios do
poder e docontrole social àqueles que representaV2im o.eixo de
14
ponta da economia brasileira e da acumulação nacional. Ideo
logicamente, a proposta republicana apresentava-se como a
forma política que melhor levaria adiante o conjunto das trans
formações ocorridas nos "novos tempos".
A República encarnava o regime político que n^lhores
condições teria parareeláborar as relações de dominação-su-
bordinação e para instaurar uma ordem jurídico-institucional
legitimadora daquelas transformações.
Por outro lado, a idéia de uma República federativa, tal
como era proposta pelos cafeicultores, correspondia às preten
sões de maior autonomia das províncias e de um melhor
encaminhamento dos problemas das economias regionais, que
se sentiam prejudicadas com o centralismo monárquico.
Na crise do regime monárquico —desgaste político-parti-
dário e incapacidade de resolver institucionalmente os proble
mas econômicos do país —a idéia da República federativa sur
giu associada à da "democracia", identificada como "sobera
nia popular". A noção, é claro trazia consigo a conotação
burguesa do termo, ou seja, o "povo", cuja soberania devia ser
respeitada pelo governo, era identificado com os proprietários.
A noção, contudo, exercia atração sobre as camadas não pri
vilegiadas da sociedade, em especial as camadas médias uiba-
nas emergentes. Estes grupos, surgidos também no bojo das
transformações econômico-sociais ocorridas no país em função
da dinâmica do complexo cafeicultor, não se viam representa
dos politicamente na monarquia.
Mostraram-se pois cativado^ pelo conteúdo "democráti
co" da proposta republicana, que lhes abria a chance de parti
cipação política. Além disso, como a visão da República vinha
associada a um conteúdo inequivocamente progressista, o novo
regime acenava com oportunidades de emprego e possibilida
des de melhoria das condições de vida.
A idéia da República seria empolgada também por um
grupo de pressão que surgia na sociedade brasileira: o Exérci
to. Nesta instituição vinha-se desenvolvendo, após a Guerra do
Paraguai, terminada em 1870, a formação de um "espírito de
corpo", que foi essencial para sua revalorização perante seus
15
pu fitn
fÜÊmm llvi*
mo»( Jaisiuo innT
,e administradores competentes) quanto à
capacidade política de governar (a elite dirigente dos políticos,
filiados ao partido do governo). Embora houvesse diferenças
de interpretação dos preceitos comtistas, na prática conflufram
as perspectivas dos republicanos gaúchos, liderados por Júlio
de Castilhos, e as da oficialidade positivista: seu ideal de Re
pública era voltado para uma estrutura de poder centralizada e
autoritária.
Esta tensão esteve presente nos anos imediatos ao golpe
militar de 15 de novembro que pusera fim à Monarquia.
A premência de rearticular as relações externas do país,
notadamente as financeiras, e o temor de uma contra-ofensiva
monárquica tomavam a questão de constitucionalização ur
gente. Era preciso, pois, que se legitimasse o novo regime,
com o que ganhava força a corrente da República liberal-de-
mocrática, que propunha a convocação da Constituinte.
Tendo os militares assumido provisoriamente o governo
do país, na pessoa de Deodoro da Fonseca, identificavam-se
com a proposição de que deveria ser prorrogado o regime de
exceção, até que se consolidasse o novo regime, tomando-se
irreversível.
Ete 15 de novembro de 1889 a 24 de fevereiro de 1891,
manteve-se o Govemo Provisório, que agiu através de decre-
tos-leis e tomou as primeiras medidas administrativas e políti
cas para a instalação da República.
Na verdade, processava-se no país uma rearticulação do
sistema de dominação. Reconhecia-se serem os militares essen
ciais para a consolidação do regime, mas a ordem que se ins
taurara era essencialn^nte civil. Assim, quando se instalam
20
os trabalhos da Constituinte, a partir de 1891, e tiveram inicio
os debates sobre a organização político-administrativa a ser
implantada (centralismo x federalismo), consagraram-se vito
riosas as propostas da oligarquia agrária pela República liberal.
OS REPUBLICANOS GAÚCHOS
Na Constituinte, os militares conseguiam fazer passar a
escolha indireta, pelo Congresso, do primeiro presidente cons
titucional do Brasil (manteve-se Deodoro) e a aprovação do
artigo 6-, mediante o qual se estabelecia que o Executivo ben-
tral poderia intervir nos estados sempre que nestes se manifes
tasse uma agitação contrária aos interresses da União. Em
contrapartida, os grupos agrários obtiveram a aprovação de
princípios que beneficiaram os grandes estados, num sentido
federativo: às unidades da federação foi permitido contrair em
préstimos externos, constituir forças militares, organizar uma
justiça estadual e uma cartilha constitucional própria. A repre
sentação na Câmara de Deputados de cada estado dava-se pro
porcionalmente ao número de habitantes, o que configurava a
presença dos "grandes eleitores" no Congresso Nacional, que
acabariam por controlar a política econômico-financeira e o
processo político eleitoral no país. Quanto à distribuição das
rendas, competia à União a fixação dos impostos de importa
ção e o do selo, cabendo aos estados recolher a tributação so
bre a exportação, os bens móveis, indústrias e profissões. Re-
velava-se, portanto, a preeminência dos estados mais ricos,
apoiados na economia agroexportadora, como o paulista.
A posição dos republicanos gaúchos merece uma nota à
parte: se postulavam uma República autoritária, a sua defesa
do centralismo e unitarismo de mando se referia apenas ao âm
bito local. Na articulação entre os estados e a União, a posição
dos gaúchos era de defesa de um federalismo extremado, em
propostas orçamentárias que previam uma maior arrecadação
para os estados e impediam uma tributação cumulativa (União
e estados). Portanto, o republicanismo dos ativos e radicais
21
castilhistas do Rio Grande combinava a defesa de uma postura
autoritária de governo em nfvel federal e estadual com um fe
deralismo amplo que regulamentasse as relações entre as uni
dades regionais e a região. No contexto interno do estado, ad-
vogava-se o centralismo de mando, tal como ele se exerceu no
Rio Grande ao longo dos 40 anos de República Velha.
O regime republicano iniciou-se sob o signo da inflação e
da instabilidade política.
Para atender às necessidades gerais de uma economia que
transitava para o assalariamento, o novo governo deu início a
uma política emissionista conhecida como Encilhamento. A
ampliação do meio circulante, conjugada a um sistema de cré
dito amplo e fácil para as iniciativas que surgissem, proporcio
nou uma febre especulativa no mercado de ações e uma proli
feração de novas empresas. Por outro lado, o aumento do pa-
pel-moeda em circulação incidiu sobre o valor externo da moe
da brasileira, ocasionando uma baixa de câmbio.
Paralelamente, para fazer frente às necessidades fiscais
do governo, determinou-se a cobrança de uma taxa-ouro sobre
as mercadorias importadas, ao mesmo tempo que se elevavam
as taxas de importação. Tais medidas beneficiaram o café,
tanto por corresponder às suas necessidades de recursos finan
ceiros em face do assalariamento que se impunha, quanto pela
desvalorização da moeda, que beneficiava os exportadores,
dando-lhes internamente um retorno em mil-réis compensados
pelas suas vendas. Lucrava também com tais medidas a nas
cente burguesia industrial, que via no encarecimento dos pro
dutos importados e no crédito fácil a possibilidade de expandir
seus negócios e abastecer o mercado interno. O surto industrial
dos primeiros anos de República não deve ser, porém, supe
restimado. O maior número de estabelecimentos não pode ser
c^fundidO| com o aumento da capacidade*produtiva. Com a
baixa do câmbio, o período se revelou pouco favorável à im
portação de tecnologia e proliferaram as pequenas empresas,
que operavam com instrumentos.de trabalho simples, com cá-
rater artesanal.
22
ri:
»
Si-
¥
Favorecidos pela política encilhamentista foram ainda os
setores representativos do capital financeiro e as companhias
ferroviárias e de navegação. Afetados negativamente pela in
flação que acompanhou o período estiveram os consumidores
urbanos e os grupos econômicos voltados para o abastecimento
do mercado interno.
A política econômico-financeira dos primeiros tempos da
República foi, portanto, alvo de controvérsia na sociedade bra
sileira, conforme os interesses afetados.
Paralelamente a este detalhe, verificou-se uma instabili
dade política intensa, marcada por disputas entre os ministros e
atritos entre Deodoro e a Assembléia, conflitos estes que aca
baram com o pedido de demissão do primeiro-ministro repu
blicano e a dissolução do Congresso por Deodoro, seguidos de
sua renúncia à presidência.
Com a queda de Deodoro, no próprio ano de 1891, as
sumiu a presidência o vice Floriano Peixoto, também militar e
com grande prestígio junto à oficialidade jacobina do Exército.
j n.
Revolução Federalista. Trincheiras em Bagê, RS
Reabrindo o Congresso, a principal tarefa de Floriano na
presidência foi consolidar o regime republicano: enfrentou os
levantes de militares deodoristas, inconformados com a sua
queda, combateu a Revolta da Armada, levada a efeito pela
Marinha e com um nftido sentido contra-revolucionário, e lutou
contra a Revolução Federalista, eclodida no Rio Grande do Sul
em 1893.
A Revolução Federalista, célebre pela cruel prática da
degola, foi um movimento contra o governo de Júlio de Casti-
Ihos no Rio Grande do Sul, levado a efeito por membros do
antigo Partido Liberal que governava a província por ocasião
da queda da Monarquia. Liderados por Gaspar Silveira Klar-
tins, arregimentaram-se a partir de 1892, no Partido Federalista
Brasileiro, fundado em Bagé, e no ano seguinte os alcunhados
de "maragatos" iniciaram um movimento de rebelião contra os
republicanos.
Identificado com a postura republicana, Castilhos contou
com o apoio de Floriano e do Exército brasileiro na sua luta
contra os maragatos, que, por sua vez, foram auxiliados pelos
integrantes da Revolta da Armada que eclodira no Rio de Ja
neiro. Desta forma, dois incidentes revolucionários localizados
juntaram-se para combater Castilhos e Floriano, sendo portanto
identificado nacionalmente como movimentos anti-republicanos.
A vitória das forças de apoio ao novo regime consolidou
a República no Brasil, mas enfraqueceu o Exército.
Com a derrota da Armada e dos maragatos no Sul, a Re--
pública estava salva e o Exército havia cumprido o seu papel
de guardião das instituições. Esgotado, mas vitorioso na luta, o
Exército brasileiro perdia terreno na política. Cedia suas fun
ções dirigentes para o grupo civil que representava o setor
econômico mais rico do país e em ascensão: os fazendeiros
paulistas do café.
Empossado em 15 de novembro de 1894, o novo presi
dente da República, Prudente de Morais —cafeicultor de São
Paulo —, ultimaria o processo de pacificação do país. A cartola
vencera a espada.
25
A REPÚBLICA OLIGÂRQUICA
O PROGRESSO DENTRO DA ORDEM
O período coberto pela chamada Republica Velha, que se
estendeu de 1889 até a Revolução de 30, corresponde a uma
Tase de afirmação do capitalismo no Brasil. Ao longo dessas
décadas, o país evoluiu do agrarismo para a consolidação de
uma ordem urbàno-industrial, a sociedade diversificou-se, o
Estado se tomou mais complexo. Todavia, a constatação de
tais transformações não invalida o fator fundamental de que a
economia agroexportadora capitalista do café fosse o setor de
ponta do desenvolvimento capitalista brasileiro e que este pro
cesso se desse sob a dominação do capital mercantil. Nesta fa
se, a indústria não era dominante no processo de acumulação e
o seu desenvolvimento se dava sob um duplo condicionamento:
da dominação externa do capital monopolista e da subordi
nação interna ao setor agroexportador.
O Brasil detinha o monopólio mundial do fornecimento
do capital, situação proporcionada pela produção em massa, a
baixo custo e a baixo preço, de um produto cujo consumo se
encontrava em expansão no mundo na segunda metade do sé
culo XIX. Responsável pela maioria da entrada de divisas no
país, o café fornecera o lastro para as importações brasileiras.
A lucratividade da cafeicultura promovera a expansão desor
denada das plantações, num ritmo que veio revelar os primei
ros sintomas de superprodução em 1897: os estoques começa
ram a se avolumar e o preço caiu. A produção brasileira come
çara a superar o consumo mundial, pois o produto, apesar de
seT consup^ido tanto pela burguesia quanto pelas classes traba
lhadoras, tinha elasticidade reduzida.
Enquanto durou a política emissionista do Encilhamento,
a desvalorização externa da moeda reduziu os efeitos da queda
do preço, dando ao cafeicultor um maior retorno em mil-réis.
26
Quando, porém, a pahir de 1898, no governo de Campos Sa
les, teve início a política de saneamento das finanças brasilei
ras, a situação se alterou. Os grupos financeiros internacionais
estavam a exigir o combate à inflação como pré-requisito para
a renegociação dos empréstimos externos brasileiros e, a partir
do momento em que medidas deflacionárias passaram a valori
zar o mil-réis, o problema de superprodução passou a se reve
lar com força.
Em 1906, os presidentes dos três maiores estados cafei-
cultores da época —São Paulo, Rio de Jeineiro e Minas Gerais
—reuniram-se no Convênio de Taubaté e realizaram a priirieira
operação valorizadora do café: mediante a realização de um
empréstimo externo com a casa bancária inglesa dos Roths-
child, obter-se-iam os recursos para a compra e estocagem do
café excedente às necessidades do mercado, sendo colocada
para venda só a quantidade que pudesse ser comprada a bom
preço. A iniciativa, levada a efeito pelos estados sem o auxílio
da União, estabelecia uma contração artificial da oferta e na
realidade não eliminava a superprodução, antes a estimulava.
O resultado prático de tal medida foi que ocorreu um sempre
renovado aumento da produção sem correspondente aumento
do consumo. A estocagem se fazia cada vez maior, tal como a
necessidade de recorrer ao capital estrangeiro. Com a eclosão
da Primeira Guerra Mundial e o refluxo do capital internacio
nal, houve a necessidade do governo federal auxiliá-los na sua
tarefa de compra e estocagem do produto. A segunda operação
valorizadora teve a característica de uma medida emergenciàlv
dadas as condições conturbadas da época. Com o fim de guer
ra, a situação tendeu a se agravar. Como o Brasil conseguira
garantir um bom preço do artigo no mercado internacional, este
fato induziu a entrada de concorrentes no mercado, tais como a
Colômbia. Por outro lado, a recessão do pós-guerra fez com
que alguns compradores se retraíssem, como por exemplo os
Estados Unidos, grandes consumidores do café brasileiro. Esta
conjuntura desencadeou uma ofensiva dos cafeicultores sobre a
nação, que resultou na terceira operação valorizadora do café,
em 1921-22. A defesa do produto principiara a ser feita em
27
termos nacionais e com características de permanência. Os in
teresses do café passavam a ser considerados como interesses
do Brasil. Em 1921, o governo federal emitiu e comprou o café
excedente e, no ano seguinte, conseguiu com casas bancárias
estrangeiras recursos para dar continuidade a esta política.
ACUMULAÇÃO DECAPITAL E INDUSTRIALIZAÇÃO
Com a imposição da terceira operação valorizadora, os
cafeicultores haviam atingido o ponto máximo de sua hege
monia sobre^ a nação, conseguindo legitimar sua supremacia
junto aos demais grupos econômicos.
Na verdade, a instalação da República previa um delica
do consenso entre os grupos detentores de capital do país, que
se dividiam em clivagens regionais e setoriais. De uma certa
forma, persistiam os pressupostos básicos do consenso entre os
membros da classe dominante que advinha dos tempos do
Império: havia um acordo tácito a respeito da defesa da pro
priedade, fosse ela agrária ou se constituísse nas outras formas
de existência do capital (industrial, comercial ou financeiro);
mantinha-se o povo à margem do processo político e permitia-
se a circulação do poder no interior da classe dominante. Estes
eram os interesses fundamentais, sobre os quais havia con
cordância.
Todavia, com a diversificação econômico-social que se
processava, as outras formas de capital não-agrário se impu
nham com seus problemas e interesses específicos, os quais
precisavam ser contemplados no interior da aliança hegemôni
ca que colocava os interesses dos cafeicultores como predomi
nantes. Tratava-se, pois, de compatibilizar os interesses do se
tor agroexportador, eixo de ponta da economia nacional, com
os interesses do capital não-agrário, como por exemplo a
indústria.
A indústria nascera no centro econômico do país associa
da à economia agroexportadora capitalista do café. Nas demais
regiões brasileiras, seu surgimento se deveu a outros circuitos
de acumulação do capital, tal como no Rio Grande do Sul, on-
28
de o setor secuiídário gerou-se na mesma época daquele do
complexo cafeicultor, mas apoiado na acumulação de capital
advinda da comercialização dos gêneros da agropecuária colo
nial imigrante.
A indústria que surge no centro econômico do país, aco
plada ao café, é, contudo, aquela que se apóia numa base qua
litativa e quantitativamente diferente das demais e que assume
uma posição privilegiada. Trata-se de uma indústria que surge
apoiada no maior circuito de acumulação de capital comercial
no país, usuíhiindo ainda as disponibilidades do capital agrá
rio, que nela investe de forma direta, através do mesmo agente
social, ou indireta, via sistema bancário e creditfcio. Da mesma
forma, a indústria do centro econômico do país disporá da me
lhor infra-estrutura da nação em termos de portos, vias férreas,
bem como de fornecimento de energia. Aproveitar-se-á também
do mais amplo mercado de força-trabalho livre do país, pro
porcionado pela imigração estrangeira destinada à cafeicultura,
assim como de um mercado consumidor de amplas proporções.
Os primeiros empresários — comerciantes, cafeicultores
ou burgueses-imigrantes que já traziam algum recurso para
aplicar da sua terra de origem —montaram seus estabelecimen
tos que, com tecnologia simples ou mais elaborada, adquirida
do exterior, destinavam-se a fabricar os bens assalariados de
consumo parauma sociedade que rapidamente crescia e urba-
nizava-se.
Aproveitaram-se dos efeitos de políticas econômicas que
nem sempre foram empreendidas em seu nome, mas que nníesmo
assim os beneficiariam. Assim, as necessidades fiscais do go
verno, elevando os impostos de importação ou as exigências da
cafeicultura pela emissão, favoreceram a colocação no mercado
interno brasileiro dos produtos aqui fabricados. Não se quer
dizer que os empresários não tenham tido participação ou voz
nas decisões da política econômico-financeira. Pelo contrário,
é por demais conhecida a sua posição e a sua luta pela ele
vação das tarifas alfandegárias para impedir a entrada dos pro
dutos estrangeiros. Entretanto, o que deve ser lembrado é que
seus interesses deveriam ser negociados no interior de uma
29
aliança hegemônica entre os setores detentores do capital e que
havia limites impostos ao desenvolvimento industrial em face
da posição dominante do café. Por exemplo, agrários e não-
agrários, ou setores de economia voltados para a exportação e
setores voltados para o abastecimento do mercado interno di
vergiam quanto à política de emissão, que ocasionava a perda
de poder aquisitivo do consumidor nacional, lesivo à indústria,
ou quanto ao protecionismo que, segundo o setor exportador,
poderia determinar represálias dos compradores internacionais.
Havia, jainda questões tais como a idéia de que o país ti
nha uma "vocação agrária" e que a indústria era responsável
pela elevação do custo de vida, com a sua persistente campa
nha em prol da elevação das tarifas alfandegárias, obrigando o
consumidor nacional a comprar produtos caros e de qualidade
inferior.
Todavia, apesar de tais pontos de atrito, o que prevaleceu
ao longo da República Velha foi a acomodação entre os inte
resses de agrários e industriais, solidificados por mecanismos
de interpenetração e diversificação de capitais e reforçados às
vezes por casamentos vantajosos entre as famílias...
Ao longo da República Velha, alternaram-se fases em
que a política econômico-financeira apoiou-se na emissão, às
instâncias do setor agroexportador, e fases em que se proces
sou o saneamento da moeda brasileira, por exigências dos cre
dores externos. No caso do café, viu-se que o mesmo conse
guia expandir-se sempre, com a compra dos estoques financia
da ou pelas emissões ou pelos empréstimos externos. Quanto à
indústria, verifica-se que^ conforme as oscilações da política
econômico-financeira, alternaram-se surtos de crescimento in
dustrial com surtos de aumento de produtividade. Assim, no
período do Encilhamento ou da Primeira Guerra Mundial, com
a emissão e a desvalorização da moeda, proliferaram as peque
nas empresas, amparadas pelo crédito fácil e pelas dificuldades
de importar, mas que usavam precária tecnologia. Nos períodos
em que ocorreu deflação e melhoria das condições de câmbio,
como por exemplo na etapa que se iniciou com a ascensão de
Campos Sales (1898) até a Primeira Guerra Mundial ou no
30
inil
Uri
:7t«
Fiação de Tecidos Pelotense, RS. E Pinheiro Machado e correligionários no Rio
Grande do Sul
pós-guerra, com a pofítica de saneamento financeiro iniciada
com Artur Bernardes (1923), facilitou-se a entrada no pais de
tecnologia importada, com o que as empresas investiram na re
novação de sua capacidade produtiva. A rigor, não se trata de
fases alternadas de favorecimento ou desfavorecimento para a
indústria, mas de surtos diferenciados de um desenvolvimento
industrial. Inclusive, pode-se constatar, no cómputo geral, a
presença de certas empresas maiores que cresceram sempre,
investindo em tecnologia mesmo naqueles momentos desfa
voráveis, quando a sua importação se revelava difícil, e que li
deraram um processo de concentração empresarial nas fases de
deflação, absorvendo as pequenas unidades.
Fora a barganha setorial intraclasse dominante, apresen-
tavam-se ainda clivagens regionais, mediante as quais configu-
ravam-se divergências quanto aos rumos da política econômi-
co-financeira em nível nacional. Estados voltados para o abas
tecimento do mercado interno brasileiro tinham suas oligar
quias agrárias interessadas na estabilização cambial e na pre
servação do poder aquisitivo do consumidor nacional.
Defendiam, portanto, a ortodoxia financeira, e seu apoio
à aprovação de medidas em nível federal que contrariassem
seus interesses teria de ser barganhado mediante a satisfação
de outros interesses regionais.
Tratava-se, pois, de um delicado acerto, mas mediado pe
las práticas políticeis vigentes na Velha República. A base des
te acerto ou da coalizão dominante de classes principiara, co
mo já se viu, pela Constituição de 1891, que estabelecia a so
berania dos grandes estados eleitores e o voto a descoberto,
sem justiça eleitoral autônoma. No nível dos municípios, este
processo era garantido pelos coronéis. O coronelismo, estrutu
ra de mandonismo local, assentava-se no poder dos proprietá
rios de terra que mantinham os subalternos sob controle, arre
gimentando votos e "fazendo eleições^. Após a realização das
eleições no nível dos municípios, através da tutela coronelísti-
ca, realizava-se a "degola" dos nomes que poderiam ter passa
do, "apesar" dos coronéis. Este mecanismo de censura eleito
ral pós-eleição acontecia duas vezes: uma no âmbito estadual,
32
na Assembléia de Representantes, e outra no plano federal,
através de uma comissão montada no Senado para este fim,
chamada "Verificação de Poderes". Nesta comissão pontifica
va o senador gaúcho Pinheiro Machado, que controlava os pe
quenos estados do Nordeste, barganhando votos para o situa-
cionismo. O resultado final do processo era compor um Con
gresso "afinado" com a presidência e com a política dos
"grandes eleitores", que articulavam a aprovação dos seus in
teresses com os pequenos estados através do atendimento a
suas questões regionais. O coroamento de tal estrutura de po
der e mecanismo político de ação dava-se por ocasião das
eleições para o Executivo central, quando o presidente da
República apresentava à nação o seu candidato —o "delfim do
regime" —que concorria sozinho.
1
Porto de Santos, por onde passava dois terços das exportações do café
Tais práticas do liberalismo político das elites eram com
plementadas pelos princípios do liberalismo econômico, enten
dido não apenas como liberdade de iniciativa, mas, principal
mente, pela não-intervenção do Estado no merado de trabalho.
Pressupunha-se a privatização das relações entre o capital e o
trabalho, sendo as questões entre patrões e empregados resol
vidas no nível das próprias empresas.
Competia ao Estado, zelando pela ordem, intervir quando
fosse necessário, por solicitação dos empresários, nas ocasiões
em que não fosse possível controlar o conflito. A defesa de tal
postura pressupõe, da parte das classes dominantes, a idéia de
que era possível controlar o conflito. Os empresários contraba
lançavam sua ação coercitiva, no nível das empresas, com prá
ticas assistenciais, tais como a construção de escolas e vilas
operárias junto às fábricas ou o estabelecimento de caixas de
socorros. Numa fase em que inexistiam a legislação social e a
intervenção do Estado no mercado de trabalho, tais práticas
eram recebidas como vantagens para os operários e constituíam
um chamariz para atrair trabalhadores para esta ou aquela em
presa. Todavia, o conteúdo assistencial da prática patronal não
foi suficiente para atenuar as duras condições de trabalho, os
maus tratos impostos pela disciplina da fábrica, os baixos salá
rios e as longas jornadas, motivos principais das greves
freqüentes que eclodiam na Primeira República.
As greves recrudesceram particularmente a partir da Pri
meira Guerra Mundial, quando aumentou a carestia, afetando o
já precário padrão de vida das classes subalternas. A intensifi
cação do movimento operário levou parte da classe dominante
nacional a repensar a prática da não-intervenção no mercado
de trabalho. No Congresso Nacional, partiu da bancada paulis
ta a proposta de uma legislação social. Sintomaticamente, esta
iniciativavinha apoiada por aquela unidade da federação que
concentrava o maior parque industrial do país e onde a questão
social se apresentava de forma mais alarmante.
Se os trabalhadores do campo se encontravam sob a sóli
da tutela dos coronéis, na cidade os trabalhadores das fábricas
ameaçavam a ordem e o progresso da República burguesa.
34
A CRISE DOS ANOS VINTE
A SOCIEDADE SE AGITA
No decorrer da década de vinte, desestruturava-se pro
gressivamente o sistema sobre o qual repousavam as estruturas
da República Velha. O padrão de desenvolvimento capitalista
baseado na agroexportação de um sproposta política
que reorientou o republicanismo gaúcho.
Até então o Rio Grande estabelecera um modus vivendi
com o governo central. Como grande eleitor da República, com
uma grande e disciplinada bancada no Congresso e com as ma
nobras de Pinheiro Machado, o Rio Grande estabelecera uma
aliança com os políticos de São Paulo e Minas mediante a qual
abdicava da aspiração de concorrer à presidência da República
e apoiava no Legislativo Central as pretensões da política café-
38
ttJlKGlRfM S
IBELLQ-^
HS
PHRRH
com-leite em troca do atendimento das questões regionais e da
nâo-aplicação do artigo 6- no Estado. O Rio Grande do Sul
apresentava uma divisão política interna desde a instalação da
República, o que o tomava vulnerável às intervenções federais.
Em 1889, por ocasião do golpe militar, os liberais que se en
contravam no poder no Rio Grande do Sul cederam o poder
para os republicanos, grupo minoritário e extremamente ativo
que, através de alianças e mecanismos de coerção, implantou
um política de exclusão sistemática da oposição no poder. En
quanto ao longo da República Velha a oposição maragato-li-
bertadora congregava parte da oligarquia agrária gaúcha, a ou
tra parte dos agrários reunia-se a representantes do capital in
dustrial, comercial e financeiro no seio do Partido Republica
no, ampliando sua cooptação para as classes médias urbanas e
setores do colonato colonial. Esta divisão política interna en
fraquecia as pretensões políticas do Estado e somente no go-
vemo de Getúlio Vargas, a partir de 1928, é que se viabilizou
a participação política interna,com a formação da FrenteÚnica
Gaúcha. A unificação política, engendrada pela segunda gera
ção republicana, possibilitou ao Rio Grande do Sul aspirar à
presidência da República e articular-se com as oligarquias dis
sidentes numa campanha nacional contra o regime.
A derrota nas urnas, ante a persistência da fraude, que
sempre dava vitória ao situacionismo, motivou a articulação
revolucionária, que teve como estopim o assassinato de João
Pessoa, líder político paraibano e candidato à vice-presidência
pela chapa derrotada.
A 3 de outubro de 1930, eclodia a Revolução de 30,
pondo fim à República Velha no Brasil.
40
A REVOLUÇÃO DE 30
OS ANOS DE TRANSIÇÃO
A Revolução de 30 deu-se, portanto, em meio ao esgo
tamento de um padrão de desenvolvimento capitalista baseado
na agroexportação de um só produto. Tinha fim a hegemonia
dos interesses cafeicultores sobre a nação, bem como desarti
culava-se o sistema político do liberalismo excludente.
O grupo que empolgou o poder no imediato pós-30 era
constituído por membros dos setores agropecuários não-ex-
portadores em associação com militares da oficialidade tenen-
tista. Embora parte da oligarquia gaúcha que apoiara Vargas
tivesse a expectativa de que, com a Revolução, os rio-granden-
ses passassem a ocupar a antiga posição dos paulistas no con
trole da política nacional, a gama dos problemas nacionais a
resolver extrapolava em muito as meras pretensões regionais.
Ante a falência da cafeicultura como sustentáculo do pa
drão de acumulação nacional, tratava-se antes de mais nada de
garantir a continuidade do desenvolvimento capitalista brasilei
ro através de novos padrões. Ligado a esta questão, encontra
va-se o problema de garantir as condições de dominação sobre
as classes subalternas, incorporando reivindicações proletárias,
desarticulando o movimento operário e garantindo a ordem so
cial. Tais questões —emergenciais e prioritárias —achavam-se
ligadas ao problema de dar uma nova base de legitimidade ao
Estado, ampliando-o enquanto participação dos diferentes se
tores sociais.
Paralelamente e ao mesmo tempo imbricados com tais
questões nacionais, achavam-se os interesses regionais e seto
riais das várias frações da burguesia brasileira. Da mesma for
ma, havia alianças com o Exército e expectativas das camadas
médias urbanas, sem contar a necessidade de incorporação, de
forma tutelada, da massa popular das cidades.
41
A revolução de 30 constituiu-se em mais uma etapa da
revolução burguesa que se desenvolvia no país, construindo
progressivamente um modo capitalista de produção e solidifi
cando as estruturas políticas e administrativas de constituição
do poder burguês no Brasil.
Quanto ao primeiro problema a enfrentar —as possíveis
saídas para o desenvolvimento capitalista brasileiro que não a
agroexportação —o governo passou a atuar através de medidas
até certo ponto emergenciais. A cafeicultura, por exemplo,
precisava ser atendida e o governo tanto recorreu à emissão e
desvalorização da moeda, para atenuar a baixa do preço do ar
tigo no mercado internacional, quanto passou a comprar, quei
mar ou jogar no mar o café excedente. Outras medidas comple-
mentares foram tomadas, tais como a proibição de plantio de
novos pés de café e o pagamento pelo governo de 50% do dé
bito dos cafeicultores aos bancos, indenizando os credores com
apólices federais.
Paralelamente a tais medidas, que tiveram o efeito de sal
var o café da crise, mas transferiram para a nação o custo da
política econômica através da inflação, o governo empenhou-se
na diversificação da economia brasileira.
Esta proposta visava, por um lado, diversificar a pauta
das exportações brasileiras, suprindo o recuo da posição ocu
pado pelo café nas vendas internacionais. Com isso, entrariam
divisas e a nação restabeleceria o equilíbrio da sua balança
comercial. Por outro lado, a diversificação da economia possi
bilitaria a integração do mercado interno brasileiro e o conse
qüente recuo das importações, com notória economia de divi
sas, uma vez que as diferentes regiões trocariam entre si pro
dutos que antes adquiriam do mercado externo. Por último, ca
be registrar que tal política ia ao encontro dos interesses das
diferences economias regionais, tanto as voltadas para o abas
tecimento do mercado interno quanto as voltadas para a ex
portação. Quanto às trocas internacionais, inaugurou-se uma
sistemática de intercâmbio produto-próduto, sem mediação de
divisas, como por exemplo o comércio com a Itália e Alema
nha, alcunhada de "política da lira e do marco compensado".
42
o resultado prático das várias medidas levadas a efeito
pelo governo para encontrar saídas para o desenvolvimento ca
pitalista brasileiro foi tomar a indústria o novo setor de ponta
da economia brasileira.
O desenvolvimento industrial p(5s-30 é resultado de um
crescimento progressivo do setor desde as últimas décadas do
século passado, ao que se conjugaram os efeitos da crise de 29,
quando as perturbações no mercado internacional estimularam
a substituição interna das importações. A tais fatores devem ser
acrescentadas a ação do Estado e a pressão dos próprios em
presários. „
No decorrer da década de trinta, a dinâmica da acumula
ção do capital passou do setor agrário para o industrial, mas
a indústria ainda se apoiava na produção de bens duráveis e
semiduráveis. As bases técnicas e financeiras eram ainda insu
ficientes para que se instalasse um setor de bens de produ
ção, fazendo o desenvolvimento industrial brasileiro atingir no
vos patamares.
No que toca ao segundo problema emergencial que se
apresentava aos novos detentores do poder no pós-30 —o esta
belecimento de novas formas de controle social —, procedeu-se
à intervenção direta do Estado no mercado de trabalho, através
da legislação social e da sindicalização das classes produtoras
atreladas ao governo. O sentido básico da nova política social
correspondia tanto à necessidade de assegurar as condições de
dominação sobre a classe trabalhadora, contendo o conflito,
quanto de garantir as condições de reposição da força-trabâlho,
estabelecendo condições mínimas para o operariado. Por outro
lado, não estavam ausentes das iniciativas trabalhistas as pró
prias necessidades econômicas do governo, identificando-se no
fundo previdenciário instalado a constituição de uma reserva
para o financiamento de setores prioritários como a indústria
de base.
Ambas as questões —uma saída para o capitalismo e no
vas formas decontrole social —estavam relacionadas com a re
definição do Estado brasileiro.
43
De uma certa forma, o Estado p

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