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A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO PRÁTICA TRANSVERSAL E TRANSFORMADORA NO ENSINO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS 
1. INTRODUÇÃO 
A crise ambiental contemporânea impõe à sociedade a necessidade urgente de repensar a relação entre o ser humano e a natureza, exigindo uma reestruturação profunda dos saberes escolares e das práticas sociais. Não se trata apenas de uma crise de recursos, mas de civilização. Segundo Leff (2001, p. 191), "a crise ambiental é a crise do nosso tempo", pois o risco ecológico questiona o próprio conhecimento do mundo e a racionalidade econômica vigente, demandando novos paradigmas que integrem cultura e natureza.
Nesse cenário desafiador, a escola assume um papel protagonista na formação de cidadãos conscientes, com a função de não apenas informar sobre ecologia, mas de formar sujeitos críticos e atuantes. A educação deve ultrapassar os muros da escola e promover uma leitura de mundo transformadora. Conforme destaca Reigota (1994), a Educação Ambiental (EA) deve ser entendida como educação política, capaz de preparar os cidadãos para exigir e construir uma sociedade socialmente justa e ecologicamente equilibrada, superando o ativismo ingênuo.
O presente trabalho tem como tema a inserção da Educação Ambiental no currículo de Ciências Biológicas, buscando compreender como essa disciplina pode ser um vetor de transformação. A escolha justifica-se pela necessidade de alinhar o ensino às diretrizes oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que definem o Meio Ambiente como um Tema Transversal indispensável. Segundo Brasil (1998, p. 22), "a questão ambiental impõe-se como uma das exigências para a formação da cidadania", devendo permear todas as disciplinas e não restringir-se a eventos pontuais ou datas comemorativas.
Diante disso, o problema de pesquisa que norteia este estudo consiste em investigar: de que maneira o professor de Ciências Biológicas pode integrar a EA em sua prática pedagógica para superar a abordagem conservacionista tradicional e promover uma consciência social crítica? O objetivo geral é analisar a importância da EA no ensino de Ciências, destacando metodologias que favoreçam a sensibilização e a construção de valores sustentáveis nos discentes.
Para responder a essa inquietação, a metodologia adotada é a pesquisa bibliográfica, de caráter qualitativo e exploratório. Esse método permite o levantamento de referenciais teóricos fundamentais para a compreensão do tema. Para Gil (2002, p. 44), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos, permitindo ao pesquisador um contato direto com tudo o que foi escrito sobre determinado assunto, garantindo assim a sustentação teórica necessária para a análise proposta.
2. DESENVOLVIMENTO
A Educação Ambiental não deve ser tratada como uma disciplina isolada, mas sim como uma prática educativa integrada e permanente. A Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental, em seu Art. 2º, determina que "A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo" (BRASIL, 1999). Portanto, a sua inserção no ensino de Biologia não é optativa, mas um dever legal e ético do educador.
No contexto da prática docente, é fundamental diferenciar ecologia de educação ambiental. Enquanto a primeira é uma ciência biológica, a segunda é um processo pedagógico e social. Reigota (2009) alerta que muitas vezes a EA é reduzida ao ensino de ecologia ou a práticas de "amor à natureza" despolitizadas. Para superar isso, o ensino deve ser contextualizado. Segundo Freire (1996, p. 32), "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção". O professor de Biologia deve, portanto, mediar a construção do saber ambiental a partir da realidade do aluno.
A transversalidade é a estratégia pedagógica chave indicada pelos documentos oficiais. Os PCNs orientam que "a transversalidade diz respeito à possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real (aprender na realidade e da realidade)" (BRASIL, 1998, p. 30). Isso significa que, ao ensinar conteúdos como botânica ou zoologia, o docente deve conectar esses temas aos problemas socioambientais locais, como o desmatamento, a gestão de resíduos e a perda da biodiversidade urbana.
A complexidade dos problemas ambientais exige um diálogo de saberes. Leff (2002) propõe o conceito de "racionalidade ambiental", que busca desconstruir a lógica puramente econômica e instrumental que domina a modernidade. Para o autor, o saber ambiental emerge da articulação entre as ciências naturais e as ciências sociais. Nesse sentido, Jacobi (2003, p. 191) reforça que a educação ambiental deve promover "a cidadania e a sustentabilidade", capacitando o aluno para intervir no mundo de forma responsável.
Em relação às metodologias, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça a necessidade de abordagens ativas. O documento destaca que é preciso "incorporar aos currículos e às propostas pedagógicas a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida humana em escala local, regional e global, preferencialmente de forma transversal e integradora" (BRASIL, 2017, p. 19). Projetos interdisciplinares, hortas escolares, e estudos do meio são exemplos práticos dessa integração. Segundo Araujo et al. (2020), as aulas de campo em ambientes naturais são fundamentais para materializar os conceitos abstratos da biologia, promovendo uma sensibilização que a sala de aula, por si só, muitas vezes não consegue atingir.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, estabelece que "todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo" (BRASIL, 1988). O professor, como agente do Estado e formador de opinião, é peça chave na materialização desse direito constitucional. A escola deve ser, portanto, um espaço de resistência e de construção de novos valores civilizatórios.
A avaliação na Educação Ambiental deve ser contínua e focar na mudança de atitude. Não basta que o aluno memorize o ciclo da água; é preciso que ele compreenda sua responsabilidade no uso desse recurso. Como afirma Gadotti (2000, p. 84), "a educação para o desenvolvimento sustentável não é apenas uma exigência ambiental, mas também uma exigência ética". O ensino de Biologia, enriquecido pela EA, forma não apenas técnicos, mas humanistas comprometidos com a vida em todas as suas formas.
 
3. CONCLUSÃO 
Conclui-se que a Educação Ambiental é indispensável para a formação integral do estudante e para a renovação do ensino de Ciências Biológicas. Retomando a problemática inicial, observa-se que o professor pode e deve integrar a EA em sua prática através da transversalidade e da interdisciplinaridade, conforme preconizam Brasil (1998) e Leff (2002).
Os objetivos do trabalho foram alcançados ao demonstrar que a legislação (Lei 9.795/99) e os teóricos da área (Reigota, Jacobi) oferecem subsídios sólidos para uma prática pedagógica transformadora. A educação, como nos lembra Paulo Freire (1987), "não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo". Assim, a inserção efetiva da dimensão ambiental na escola é o caminho para formar as pessoas que transformarão a realidade de crise atual.
Recomenda-se que a formação continuada de professores priorize metodologias ativas de educação ambiental e que futuros estudos investiguem o impacto de projetos de EA na comunidade do entorno escolar, verificando a efetividade das ações pedagógicas na melhoria da qualidade de vida local.
 
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
ARAUJO, J. M. et al. Educação Ambiental: a importância das aulas decampo em ambientes naturais. Ensino, Saúde e Ambiente, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, 2020.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 28 abr. 1999.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio Ambiente. Brasília: MEC/SEF, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
JACOBI, Pedro. Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, n. 118, p. 189-205, 2003.
LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001.
LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994.
REIGOTA, Marcos. Meio ambiente e representação social. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2009.
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