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AULA 4 TECNOLOGIAS, SISTEMAS E MATERIAIS ECOEFICIENTES Profª Marcia Luiza de Carvalho Klingelfus 2 INTRODUÇÃO Nas aulas anteriores, vimos alguns temas e metodologias que envolvem a construção ecológica – ou bastante próxima disso –, com o objetivo de entender como essa visão é possível e necessária, de modo a nos sensibilizar com a perspectiva de que somos também meio ambiente, fazemos parte desse entorno que queremos proteger e preservar; projetar, coordenar e colocar a mão na massa para transformar um panorama de altíssimo impacto ambiental, mas levados pela tecnologia, inovação, criatividade e resiliência, entre outras tantas características que vamos descobrindo com o conhecimento. Nesta aula, vamos conhecer o que diz a resolução brasileira sobre impacto ambiental e como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) prévio aos empreendimentos pode auxiliar na compatibilização dos espaços construídos com o entorno em que se inserem. Veremos outro importante indicador: a pegada ecológica e sua família, como um meio de análise para quantificar esse impacto e traduzi-lo em ações concretas e responsabilidades, inclusive para cálculo de nossa pegada pessoal. Para fechar a aula, abordaremos a norma brasileira ABNT NBR 15575/2013, que fala sobre desempenho nas edificações habitacionais, representando um marco na construção brasileira. TEMA 1 – AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL A avaliação ou estudo de impacto ambiental, EIA, é um procedimento e uma importante ferramenta que nos permite conhecer o efeito de uma atividade, um plano, uma construção ou um programa específico num determinado ambiente, o que nos permitirá adaptar medidas que potencializem qualidades da ação, reduzam ou eliminem o que for negativo, impedindo seu desenvolvimento ou execução, seja pela adoção de medidas adicionais preventivas, corretivas ou compensatórias. O EIA é um instrumento de política nacional amplamente utilizado e obrigatório, sendo um conjunto de estudos e sistemas técnicos que resultam em relatórios, sugestões e procedimentos. Conhecendo essa ferramenta, o empreendedor, particular ou a própria administração, desenvolverá seu projeto e intervenção com maior consciência e responsabilidade ambiental. Para cada local existe um contexto e legislação própria, e normalmente são contratados profissionais qualificados para essa avaliação. Todo município 3 tem suas estratégias para lidar com demandas decorrentes do seu desenvolvimento e deve estabelecer de forma clara resultados e consequências. Na lei brasileira, a definição para impacto ambiental, pela resolução Conama n. 1/1986 é a seguinte: Considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I. a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II. as atividades sociais e econômicas; III. a biota; IV. as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V. a qualidade dos recursos ambientais. Em seu art. 6º, a resolução do Conama define para um EIA os seguintes conteúdos mínimos: I - Diagnóstico ambiental da área de influência do projeto completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto, considerando: a) o meio físico - o subsolo, as águas, o ar e o clima, destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d’água, o regime hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas; b) o meio biológico e os ecossistemas naturais - a fauna e a flora, destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de valor científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de preservação permanente; c) o meio socioeconômico - o uso e ocupação do solo, os usos da água e a sócio economia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização futura desses recursos. II - Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes, discriminando: os impactos positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos ônus e benefícios sociais. III - Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas os equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a eficiência de cada uma delas. IV - Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos positivos e negativos, indicando os fatores e parâmetros a serem considerados. Cada estudo desenvolverá seu próprio roteiro conforme a necessidade. Os resultados desses estudos e todos os demais que se fizerem necessários, considerando a envergadura da atuação e que serão avaliados pelos órgãos ou administração competentes, irão compor o relatório de impacto ambiental (Rima). O especialista Lorenzo (2006) sinaliza que: 4 o EIA deve ser muito específico, estudando o transcendente, não tudo o que pode ser estudado. É necessário abordar os processos de avaliação de uma perspectiva abrangente, e analisar detalhadamente as sinergias geradas, ampliando o horizonte de estudo na medida do necessário. Ao realizar o inventário e a avaliação de impacto, é necessário identificar adequadamente os componentes principais, para que a análise aumente o conhecimento do sistema da forma mais confiável, com o menor número de variáveis possíveis. Todas as medidas devem ser orçadas e adequadamente planejadas no tempo. O Plano de Vigilância deve ser exequível e realista, com indicadores suficientes para permitir o monitoramento de sua execução. Além de contemplar as medidas descritas, medidas adicionais preventivas, corretivas ou compensatórias serão definidas dentro do contexto da intervenção. Medidas comuns podem ser: instalação de equipamentos complementares ou de monitoramento; compensação por meio de plantio e conservação de áreas verdes; ou ainda realização de benfeitorias para a população local. Entretanto, deve-se observar atentamente que determinados impactos podem ser irreversíveis, irremediáveis e não compensadores, obedecendo exclusivamente a interesses específicos políticos ou econômicos. TEMA 2 – PEGADA ECOLÓGICA A pegada ecológica é um indicador ambiental do impacto que determinada comunidade humana – país, região ou cidade – tem no seu entorno, considerando tanto os recursos necessários quanto os resíduos gerados para manter o modelo de produção e consumo da comunidade. É, portanto, uma ferramenta de quantificação ecológica. O conceito foi criado na década de 1990 por Mathis Wackernagel e William Rees, cientistas da University of British Columbia em Vancouver, no Canadá. O cálculo da pegada ecológica leva em consideração os seguintes aspectos. • Para produzir qualquer produto, independentemente do tipo de tecnologia utilizada, é necessário um fluxo de materiais e energia, em última análise, produzidos por sistemas ecológicos. • Sistemas ecológicos são necessários para reabsorver resíduos gerados durante o processo produtivo e a utilização dos produtos finais. • O espaço é ocupado por infraestruturas, habitações, equipamentos etc., reduzindo a superfície dos ecossistemas produtivos. Refere-se ao que é a demanda de recursos naturais de uma economia expressa em termos de espaço: a área necessária para produzir recursos 5 consumidos por umcidadão médio de determinada comunidade humana, bem como a área necessária para absorver resíduos que ela gera, independentemente da localização dessas áreas. Esse indicador é definido segundo seus próprios autores, Rees e Wackernagel (1998), como: a área de território ecologicamente produtivo (lavouras, pastagens, florestas ou ecossistema aquático) necessária para produzir os recursos utilizados e assimilar os resíduos produzidos por uma determinada população com um padrão de vida específico indefinidamente, onde quer que esta área esteja localizada. Se representarmos as demandas humanas com a pegada ecológica, então, essas demandas podem ser comparadas à capacidade biológica (representando suprimentos ecológicos) de uma região ou do mundo. Quando as demandas humanas excedem os suprimentos ecológicos, o capital natural (do qual as gerações atuais e futuras dependem) diminui. Essa situação é chamada de sobrecarga ou déficit ecológico global. A pegada ecológica mede o tamanho da área para sustentar indefinidamente determinada população, com padrões de vida e tecnologias em uso atualmente. Mede então os hectares necessários para produzir o fluxo de matéria e energia, mais uma área de 12% para manter a biodiversidade. A demanda de recursos pelo ser humano (pegada ecológica) em 1961 era cerca de 70% da capacidade de geração da Terra. Na década de 1980, essa demanda atingia o total disponível e em 1999 ultrapassava a disponibilidade planetária. Atualmente, a demanda por recursos ultrapassa em 50% da capacidade natural de regeneração. A demanda humana e os recursos naturais encontram-se distribuídos de maneira desigual pela Terra, pois tais recursos não são consumidos onde são extraídos. A pegada ecológica per capita oferece insights sobre o desempenho dos recursos de cada país, bem como seus riscos e oportunidades. A variação nos níveis de pegada ecológica reflete diferentes estilos de vida e padrões de consumo, entre os quais a quantidade de alimentos, bens e serviços consumidos pela população local; os recursos naturais utilizados; e o dióxido de carbono emitido para fornecer tais bens e serviços. (Global Footprint Network, 2020) 2.1 Biocapacidade A biocapacidade representa a capacidade de os ecossistemas produzirem recursos úteis e absorverem resíduos gerados pelo ser humano. 6 Segundo WWF Brasil, atualmente, a média mundial da Pegada Ecológica é de 2,7 hectares globais por pessoa, enquanto a biocapacidade disponível para cada ser humano é de apenas 1,8 hectare global. Tal situação coloca a população do planeta em grave déficit ecológico, correspondente a 0,9 gha/cap. A humanidade necessita hoje de 1,5 planeta para manter seu padrão de consumo, colocando, com isso, a biocapacidade planetária em grande risco. Projeções para o ano de 2050 apontam que, se continuarmos com este padrão, necessitaremos de mais de dois planetas para mantermos nosso consumo. De acordo com o Relatório Planeta Vivo/WWF 2020, o Brasil tem uma pegada ecológica de entre 2 a 3,5 gha/cap, e países como Estados Unidos e Rússia tem mais do que 5 gha/cap; enquanto grande parte da África e Índia tem menos que 1,6 gha/cap. O recente relatório chama a atenção para a perda de biodiversidade em ritmo acelerado que vem acontecendo no planeta e das graves consequências que já estão começando a acontecer, como extinção de fauna e redução de alimentos. 2.2 Calculando sua pegada ecológica A maneira como vivemos individualmente ou em nossa unidade familiar está diretamente ligada à medida da pegada de nosso país e, portanto, da média mundial. Nossos hábitos relacionados a consumo de água, alimentação, gestão de resíduos, gasto de energias ou de transporte são alguns dos indicadores. É possível fazer o cálculo da pegada individual em calculadores na internet e, assim, começar a fazer algumas comparações e correções na rotina diária. Você pode calcular sua pegada ecológica e refletir sobre os indicadores em: . 2.3 Família da pegada ecológica Para complementar a informação que o cálculo da pegada ecológica nos fornece com relação às nossas ações, podemos calcular também a pegada hídrica e a pegada de carbono. 2.3.1 Pegada de carbono Mede os impactos da humanidade sobre a biosfera, quantificando os efeitos da utilização de recursos sobre o clima. De acordo com a WWF ([S.d.]), “representa a área terrestre necessária para depósito das emissões de gás https://www.footprintnetwork.org/resources/footprint-calculator/ 7 carbônico oriundas da queima de combustíveis fósseis e da produção de cimento”. A pegada mundial de carbono cresceu em importância porque representa uma grande parte da pegada ecológica total, sendo significativamente responsável pela mudança climática. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as emissões de CO2 respondem por 82% do aquecimento global. “Devido ao fato de que geramos emissões gás carbônico em ritmo muito mais rápido do que é possível absorver, existe um acúmulo de gás carbônico na atmosfera e no oceano” (WWF, [S.d.]). É possível – e necessário – reduzir a pegada de carbono e neutralizar as emissões de gás carbônico geradas por nossas atividades. As formas mais evidentes podem ser: diminuir (ou eliminar) o uso de veículos poluentes e utilizar veículos com biocombustíveis e energias limpas; mudar a matriz energética para energias renováveis; evitar o desmatamento e incentivar o reflorestamento; incentivar o uso de mobilidade compartilhada, ciclomobilidade e a caminhada; evitar a queima de lixo, etc. É possível calcular sua pegada de carbono em sites como o disponível em: . 2.3.2 Pegada hídrica Mede os impactos que atividades humanas causam na hidrosfera, monitorando fluxos de água reais e ocultos. É um indicador da quantidade de água doce utilizada nos ciclos de vida de bens e produtos e no consumo humano. “A maior parte da pegada hídrica está relacionada aos produtos e serviços que consome e não à quantidade de água de consumo doméstico” (Silva et al., 2013). Devemos prestar atenção e procurar saber qual é a pegada dos produtos que consumimos. Por exemplo, quantos litros de água são necessários para obter um quilo de carne bovina, produzir uma calça jeans ou cultivar um pé de alface. Esse conceito se faz mais evidente a cada dia, face aos racionamentos que temos enfrentado e às evidências em países que vivem racionamentos contínuos por falta de água e chuva. Agora reflita: como a falta de água nos rios impacta todo o bioma que se associa a ele? E a falta de chuva, que consequências tem? O processo progressivo de concentração da população nos sistemas urbanos e a globalização dos fluxos de materiais e energia tornam cada vez 8 mais difícil para a população relacionar o consumo de bens e energia com o impacto que têm no meio ambiente. A pegada ecológica possibilita definir e visualizar a dependência das sociedades humanas do funcionamento dos ecossistemas do planeta a partir de superfícies adequadas para satisfazer determinado nível de consumo. Assim, permite estabelecer a área produtiva real de que determinada comunidade humana está apropriando-se ecologicamente, independentemente de estar fora do seu território, distinguindo também as diferentes funções ecológicas exercidas pelos ecossistemas. TEMA 3 – DESEMPENHO, EFICIÊNCIA E ADEQUAÇÃO AMBIENTAL DO EDIFÍCIO Desempenho tem um significado muito abrangente e vem sendo usado em muitas áreas de conhecimento. Especificamente na construção, é muito importante, relacionando qualidade, tempo e uso, fazendo com que os edifícios possam chegar a patamares ótimos de resposta diante dos objetivos pretendidos e, sobretudo, determinando valores de aceitação e repudiando construções mal planejadas ou construídas.Ainda é um termo muito vinculado à eficiência energética e às qualidades físicas e mecânicas dos sistemas e materiais, mas deve englobar outras temáticas, mais atuais, como uma visão mais integrada sobre sustentabilidade, economia e critérios de habitabilidade. De maneira geral, representa a capacidade da edificação diante das prestações pretendidas, considerando seu contexto construtivo e local. Borges (2008) cita em sua dissertação de mestrado um estudo sobre a evolução do conceito, que uma das melhores definições conhecidas e utilizadas até hoje é de que “a abordagem de desempenho é, primeiramente e acima de tudo, a prática de se pensar em termos de fins e não de meios. A preocupação é com os requisitos que a construção deve atender e não com a prescrição de como esta deve ser construída” (Gibson;1982, p. 4), reafirmando o comprometimento com a resposta da edificação em cumprir seus objetivos. O exemplo da edificação a seguir representa a resposta que qualquer edifício projetado com fim determinado e necessidades claras ante um contexto específico de um clima extremo deve apresentar, pensando em desempenho ou eficiência. Caberá, dentro da expectativa de seu proponente e das habilidades de seu projetista, encontrar sistemas, técnicas e possibilidades para chegar a um resultado ótimo. Nesse caso não foi necessário apenas utilizar arquitetura bioclimática e sistemas complementares de aquecimento, mas também a 9 execução competente e organização de métodos de manutenção efetivos para exposição intensa e prolongada ao frio. É preciso prever, por exemplo, renovação do ar por métodos mecânicos, obtenção de material exterior ou a guarda destes por maiores períodos em espaços adequados, ou ainda material e isolamento correto de toda a instalação para que não se congele. São pequenos exemplos, mas alguns podem passar despercebidos. Para nos auxiliar nas especificações e projeto dos sistemas, na compatibilização e coordenação destes, contamos com normas, entidades reguladoras e métodos de simulação. Figura 1 – Exemplo de residência de alto desempenho em clima frio Crédito: elmar gubisch/Shutterstock. A norma de desempenho para edificações habitacionais, NBR 15575 (2013, p. 4-7), que veremos a seguir, utiliza a seguinte definição: Comportamento em uso de uma edificação e de seus sistemas. [...] A forma de estabelecimento do desempenho é comum e internacionalmente pensada por meio da definição de requisitos (qualitativos), critérios (quantitativos ou premissas) e métodos de avaliação, os quais sempre permitem a mensuração clara do seu cumprimento. Embora esses requisitos, critérios e métodos estejam mais ou menos claros, com profissionais e empresas de qualidade técnica para desenvolver essa gestão, o processo de avaliação e melhora dos resultados muitas vezes não é simples. Então, os critérios-chave para medição do desempenho (KPIs) na construção civil, que envolvem processos e otimização, devem ser pensados para melhorar produtividade, qualidade, capacidade e planos de futuro, como tempo, capital humano, custos e satisfação. Vale lembrar que o foco está na 10 adequação ambiental, no baixo impacto ambiental e na qualidade de vida; portanto, utilizemos o termo desempenho para conseguir o melhor resultado possível dentro dessa visão mais abrangente. TEMA 4 – ABNT NBR 15575/2013: EDIFICAÇÕES HABITACIONAIS – DESEMPENHO A norma de desempenho para edificações habitacionais, ABNT/NBR 15.575, vigente desde 2013, é um marco na regulamentação da construção no Brasil e na atuação dos profissionais da área, sejam projetistas, fabricantes ou construtores. Estabelece relação com todo o processo sistêmico que estamos estudando, tendo como ponto de partida a própria interatividade que impõe com dezenas de outras normas e documentos específicos (citados nas páginas 4 a 6 da norma, parte 1), deixando clara a retroalimentação entre eles; está dividida em seis partes: • NBR 15575-1: Requisitos gerai. • NBR 15575-2: Requisitos para sistemas estruturais. • NBR 15575-3: Requisitos para sistemas de pisos. • NBR 15575-4: Requisitos para sistemas de vedações verticais internas e externas. • NBR 15575-5: Requisitos para sistemas de coberturas. • NBR 15575-6: Requisitos para sistemas hidrossanitários. 4.1 Estrutura da norma A estrutura se estabelece a partir de requisitos, critérios e métodos de avaliação, relacionando situações internas e externas de segurança, habitabilidade e sustentabilidade, estabelecendo valores mínimos aceitáveis com relação ao desempenho da edificação e, para alguns pontos, indicando também standards médios e superiores (CTE, 2020). Os critérios e requisitos são estabelecidos com base na seguinte estrutura de exigências dos usuários. • Segurança: estrutural; ao fogo; de uso e operação. • Habitabilidade: estanqueidade; desempenho térmico, acústico e lumínico; saúde, higiene e qualidade do ar; funcionalidade e acessibilidade; conforto tátil, visual e antropodinâmico. 11 • Sustentabilidade: durabilidade; manutenibilidade; adequação ambiental. Quanto à exposição (interna e externa) considera os agentes mecânicos, térmicos, químicos, biológicos, eletromagnéticos etc. Essa norma também especifica a importância e a responsabilidade de cada um dos intervenientes nas diferentes etapas da edificação, estabelecendo aos projetistas e desenhadores “especificar materiais, produtos e processos que atendam as especificações mínimas da norma”; aos construtores e incorporadores “identificar os riscos previsíveis na época do projeto e se necessário providenciar os estudos técnicos provendo das informações necessárias, e também elaborar o manual de uso e manutenção da edificação.” Aos fornecedores, entregar o correto material ou elemento de acordo à normativa vigente e também as comprovações dessas características, se for o caso. E ao usuário, realizar manutenção indicada nos manuais e normas, sem descaracterizar sistemas construtivos realizados em conformidade (CTE, 2020). 4.2 Métodos de avaliação de desempenho Em toda ferramenta de análise é fundamental indicar sistemas que demonstrem resultados, tanto qualitativamente como quantitativamente para assegurar confiabilidade do processo. Essa norma indica métodos de avaliação e desempenho dos sistemas ou processos para comprovação, como ensaios de laboratório, comprovações de campo, simulações e análises de projetos para cada um dos critérios e requisitos. O processo de avaliação é sistemático, com métodos consistentes para interpretação objetiva dos resultados, os quais podem orientar a realização do projeto e as melhoras necessárias no processo (CTE, 2020) 4.2.1 Desempenho estrutural De acordo com a ABNT NBR 8681, os estados-limites de uma estrutura estabelecem condições a partir das quais a estrutura apresenta desempenho inadequado às finalidades da construção (NBR 15575, p. 14). O documento fornecido ao proprietário pelo construtor deve informar valores limites de cada estrutura, objetivando evitar perigos futuros. “As estruturas devem ser projetadas, construídas e montadas de forma a atender aos requisitos 12 estabelecidos na ABNT NBR 15575-2” (NBR 15575, p.14). O método de avaliação estabelecido é a análise do projeto estrutural. 4.2.2 Segurança contra incêndio • Dificultar princípio do incêndio, ou seja, aplicar critérios de prevenção e eliminar riscos. Proteger contra descargas atmosféricas, contra riscos de ignição nas instalações elétricas e contra riscos de vazamentos nas instalações de gás. O método de avaliação estabelecido é a análise do projeto de prevenção de incêndios ou inspeção em protótipo. • Facilitar fuga em situação de incêndio por rotas de saída atendendo norma específica. O método de avaliação é a análise do projeto de prevenção de incêndios ou inspeção em protótipo. • Dificultar inflamaçãogeneralizada evitando propagação das chamas com a utilização de materiais apropriados. O método de avaliação é por inspeção em protótipo ou ensaio de material. • Dificultar propagação do incêndio para unidades contíguas, mantendo distâncias de isolamento, utilizando portas corta-fogo, assegurando estanqueidade e isolamento conforme NBR 14432. O método de avaliação é a análise do projeto ou inspeção em protótipo. • Manter estabilidade da estrutura em incêndios. O método de avaliação é a análise do projeto estrutural para atendimento de normas específicas. • Dispor de sistemas para extinção e sinalização – placas orientativas, iluminação e equipamentos – correta para casos de incêndio. O método de avaliação é a análise do projeto ou inspeção em protótipo. 4.2.3 Segurança no uso e na ocupação O projeto deve assegurar segurança aos usuários na utilização do edifício minimizando riscos de acidentes e evitando ocorrência de ferimentos. O método de avaliação é a análise do projeto ou inspeção em protótipo. 4.2.4 Estanqueidade Devem ser garantidas fontes de umidade externas – chuva, umidade do solo e do lençol freático – e internas utilizadas na operação e manutenção do imóvel. O método de avaliação é a análise do projeto e métodos de ensaio. 13 4.2.5 Desempenho térmico Considerar a norma de NBR 15220-3, que estabelece estratégias segundo zonas climáticas brasileiras, e procedimentos normativos para atender aos requisitos e critérios para sistemas de vedação e coberturas, ou simulação computacional (com o programa EnergyPlus) ou ainda pela medição com caráter informativo. A norma indica como conseguir dados sobre materiais e suas propriedades térmicas e estabelece também valores máximos e mínimos para temperaturas interiores no verão e inverno. Também fornece uma série de outros parâmetros que devem ser considerados na análise. 4.2.6 Desempenho acústico Está relacionado aos ruídos externos (vedações externas) e entre áreas comuns e privativas (pisos e vedações verticais), e aos ruídos de impacto, que devem atender aos requisitos da NBR 15575-3, 4 e 5. O método de avaliação é a análise do projeto e métodos de ensaio. 4.2.7 Desempenho lumínico Trata das condições de iluminação natural e iluminação artificial nos ambientes, apresentando níveis mínimos de iluminância natural e fator de luz diurna e recomendações para simulações, como método de avaliação (ler norma p. 24-25). Os valores para iluminação natural podem ser medidos no local para comprovação, apresentando níveis mínimos de iluminamento geral para iluminação artificial. 4.2.8 Durabilidade e manutenibilidade Ainda que a norma estabeleça como exigência econômica do usuário, deve-se entender a durabilidade como característica sustentável, pois evitará manutenções e novas construções no futuro. A durabilidade é o tempo que determinado elemento ou conjunto de elementos mantém sua função; esse tempo chama-se vida útil. Será afetado pelas ações externas físicas, de uso e manutenção, das próprias características do material etc. A norma estabelece valores mínimos para determinados sistemas do edifício: estrutura, pisos internos, vedações, cobertura, hidrossanitário. 14 A avaliação da durabilidade poderá ser por cumprimento das exigências normativas específicas, por comprovação dos elementos e componentes do sistema, por análise de campo ou de resultados obtidos. A manutenibilidade diz respeito à capacidade de manutenção e inspeções do edifício e dos sistemas, e da facilidade em realizar tais atividades. 4.2.9 Saúde, higiene e qualidade do ar As condições de saúde estão relacionadas aos micro-organismos e poluentes no interior do ambiente e aos sistemas utilizados na construção. Os métodos de avaliação são por ensaio. 4.2.10 Funcionalidade e acessibilidade São requisitos como altura de pé direito, medidas para realizar as atividades necessárias em cada ambiente, acesso universal, possibilidades de ampliação da unidade habitacional, sendo possível avaliar em projeto. 4.2.11 Conforto tátil e antropodinâmico São as características que fazem os espaços confortáveis aos usuários e, ainda que de difícil uniformidade devido a especificidade de cada projeto, algumas delas são exigidas, a exemplo de dispositivos e acessórios para usuários com necessidades especiais, a não apresentação de irregularidades prejudiciais ao bom andamento das atividades, equipamentos que não ofereçam perigo e demais elementos que devem seguir normas mais específicas. 4.2.12 Adequação ambiental • Projeto e implantação de empreendimentos realizados para minimizar alterações no ambiente considerando riscos que podem provocar impactos. • Seleção e consumo de materiais mediante exploração e consumo racionalizados privilegiando o menor impacto ambiental, comprovação de origem dos materiais, gestão de resíduos no canteiro de obras e levar em conta o ciclo de vida de materiais, componentes e equipamentos utilizados. 15 • Consumo de água e deposição de esgotos no uso e na ocupação da habitação, considerando a destinação das águas servidas e a reutilização da água atendendo a parâmetros de qualidade para usos não potáveis. • Consumo de energia no uso e ocupação da habitação privilegiando soluções que minimizem o consumo de energia e também para aparelhos e equipamentos utilizados durante a execução da obra. Em cada uma das demais cinco partes – Sistemas Estruturais, Sistemas de Pisos, Sistemas de Vedações Verticais internas e externas, Sistemas de Coberturas e Sistemas Hidrossanitários – a norma detalha critérios, requisitos, desempenho e métodos de avaliação com estrutura similar à essa primeira parte, incluindo tabelas de valores, características mais específicas dos sistemas e níveis de desempenho; indicando normas específicas a seguir para cada tópico, desenhos de detalhes etc.; em anexo a outros documentos explicativos e complementares de informação. Acredita-se num salto de qualidade nas edificações habitacionais, sobretudo nas habitações sociais. Recomenda-se um estudo mais aprofundado dessa norma e de outras citadas no texto para assegurar seu cumprimento e saber quais informações exigir dos fabricantes ou quais condições mínimas o edifício deve apresentar. Concluímos que o roteiro para as intervenções de desenho é muito parecido nas diversas metodologias e literaturas. Mesmo que a ênfase da aplicação seja distinta, o objetivo inicial e final é a satisfação do usuário no curto, médio e longo prazos. Nesse caminho, cabe a nós, projetistas, executores, planejadores e gestores de obras estabelecer a essência e a forma como será conduzido o processo. TEMA 5 – EFICIÊNCIA ENERGÉTICA Uma classificação de desempenho energético obrigatória ajuda, e muito, para que toda iniciativa habitacional do país tenha um mesmo padrão de qualidade, alcançando a população cujas necessidades sociais são bem maiores que as econômicas. Vamos ver como funciona na União Europeia. 16 5.1 Diretiva europeia de desempenho energético dos edifícios (EPBD) Presente na Europa, desde 2007, dando ênfase na energia, com a normativa europeia, pela Diretiva Europeia de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que foi complementada em 2018 face às novas expectativas mundiais em torno da mudança climática. Impõe que novos edifícios e reformas dos existentes, adaptem-se a um padrão de qualidade no médio e longo prazos, aumentando o desempenho do edifício com estratégias para diminuir necessidade energética, aumento da eficiência construtiva e das instalações e aparelhos utilizados, uso de energias renováveis etc. O objetivo é chegar à descarbonização dos edifícios até 2050. A União Europeia está empenhada em desenvolver um sistema energético sustentável, concorrencial e descarbonizado até 2050. Para alcançar esse objetivo, Estados-membros e investidoresprecisam de medidas destinadas a atingir o objetivo de longo prazo, relativo às emissões de gases com efeito de estufa e a descarbonizar o parque imobiliário que é responsável por cerca de 36% de todas as emissões de CO2 na UE, até 2050 (Diretiva UE, 2018, p. 844). Estabelecendo então como prioridade medidas neste sentido, tendo em conta que quase 50% da energia final consumida na UE é utilizada para fins de aquecimento e arrefecimento, e que 80% desta é utilizada em edifícios, a concretização dos objetivos em matéria de clima e energia está associada aos esforços da União Europeia para renovar seu parque imobiliário. Nesse sentido, a diretiva segue com orientações gerais, como aproveitar momentos de necessidade de reformas nos edifícios para melhorar o desempenho destes e outras, como: • garantir isolamento perfeito evitando pontes térmicas; • remover amianto e outras substâncias nocivas; • incluir todos os sistemas e instalações técnicas; • promover incentivos por parte da administração; • propor soluções baseadas na natureza, inclusive no espaço urbano; • promover investigação e experimentação de novas soluções; • exigir transparência dos sistemas de certificações, bem como de documentação que comprove a eficiência desejada; • possibilitar mecanismos autorreguladores para cada divisão ou setor; 17 • fazer com que edifícios possam contribuir com medidas de descarbonização geral, bem como permitir carga de veículos elétricos (incentivo à eletromobilidade); • usar energias renováveis • incentivar sistemas de alta capacidade para redes de comunicações que permitam tecnologias inteligentes nos edifícios; • realizar inspeções que garantam o desempenho contínuo dos sistemas. 5.2 Certificado energético A EPBD estabeleceu em 2007 o Certificado Energético, que avalia a eficiência energética de um edifício em escala de mais a menos energético. Esse documento também fornece ao proprietário informações do imóvel sobre a situação de suas instalações e como pode melhorar. Este selo, além de dar suporte sobre o desenvolvimento das construções mais eficientes, valoriza o imóvel e informa ao público em geral sobre a relação com o conforto e a saúde. Também possibilita alguns benefícios econômicos, como acesso a financiamentos e redução de impostos. Figura 2 – Selo de classificação energética do edifício Crédito: gguy/Shutterstock. No Brasil, no âmbito do desempenho energético, temos o Plano Nacional de Energia – PNE 2030, que “tem como objetivo o planejamento de longo prazo do setor energético do país, orientando tendências e balizando as alternativas de expansão desse segmento nas próximas décadas”. E, mais recente, temos o Plano Nacional de Eficiência Energética (PNEf), cuja uma meta de redução de 18 consumo de energia é de 10%. O Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), coordenado pelo Inmetro, certifica produtos e edificações e criou a Etiqueta PBE Edifica para avaliar construções em seu desempenho energético. O Selo Procel, existente no mercado e estabelecido em novembro de 2014, é um instrumento de adesão voluntária que tem por objetivo principal identificar as edificações que apresentem as melhores classificações de eficiência energética em uma dada categoria, motivando o mercado consumidor a adquirir e utilizar imóveis mais eficientes. Este é um setor de extrema importância no mercado de energia elétrica, representando cerca de 50% do consumo de eletricidade do País. Para obter o Selo Procel Edificações, recomenda-se que a edificação seja concebida de forma eficiente desde a etapa de projeto, ocasião em que é possível obter melhores resultados com menores investimentos, podendo chegar a 50% de economia. (Procel, [S.d.]) Figura 3 – Etiqueta PBE Edifica (para projetos) Fonte: PBE Edifica, [S.d.]. 19 Figura 4 – Selo Procel para edificação Fonte: Procel, [S.d.]. 20 REFERÊNCIAS ABNT. Associação Brasileira De Normas Técnicas. NBR 15.575: Edificações Habitacionais – Desempenho, partes 1 a 6. Rio de Janeiro, 2013. ALMOND, R. E. A.; GROOTEN, M.; PETERSEN, T. Índice Planeta Vivo 2020 – Reversão da curva de perda de biodiversidade. WWF, Gland, Suíça. 2020. CAU BR. Guia para arquitetos na aplicação da norma de desempenho ABNT NBR 15575. Disponível em: Acesso em: 26 fev. 2021. CONAMA. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução n. 1, de 23 de janeiro de 1986. Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. publicada no DOU, de 17 de fevereiro de 1986, Seção 1, p. 2548-2549. CTE. Centro de Tecnologia de Edificações. O conceito de desempenho da NBR 15575 e reflexões sobre desempenho no contexto atual. 2020. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2021. 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