Prévia do material em texto
CULTURA COMO TRADIÇÃO* Alfredo Bosi texto a seguir resultou da transcrição de uma palestra; por isso, próprias da linguagem 31Professor de Literatura Brasileira USP. "Cultura como Tradição" é um tema que, à primeira vista, parece pró- Autor de: prio óbvio, Evidentemente, quando se pensa em cultura, pensa-se em um História da processo que vem sendo trabalhado há muitos anos, há séculos, e que 0 ser e o tempo na poesia (Editora Cultrix), se recebe e que se Gostaria, inicialmente, de relatar uma expériência pessoal que tem muito a ver com 0 tema, vinte e tantos anos eu era estudante em uma faculdade italiana, na Universidade de Florença. Tinha recebido uma bol- sa para estudar Estética na Faculdade de Letras de Florença e já havia terminado 0 curso de Letras na USP. Florença é uma cidade naturalmente, todos sabem que é grande centro da arte renas- Mas, naquele tempo, pelo menos do ponto de vista do conforto e do que se pode aferir pelos nossos padrões médios, próximos do estilo Florença era uma multo des- Eu morava no sótão de uma casa de seis andares que não tinha A casa servira desde século XVII como albergue de criados, cavalariços dos condes Era uma habitação muito anti- ga, e uma coisa prosaica como, por exemplo, um não existia nessa casa, Assim, quem tivesse um tanto estranho e perturba- dor de tomar banho com dez ou doze quar- teirões e procurar na estação de trem do centro um lugar de banhos pú- que era um pouco penoso, sobretudo no Então decidi que, apesar dos meus proventos serem muito parcos, deviá comprar um chuvelro elétrico, A dona da casa era uma de e via com esses meus Imagine quanta água eu iria gastar... Ela também que a instalação daquela engenhoca, que ela mal danificar 0 seu apartamento. Vamos que águas que corressem do banho inundassem o apartamento! Porque no chão, la- drilhado com muita arte, não havia lugar para escoar as águas, não havia ralo, pois chuveiro não estaya previsto por aqueles que a ca- sa há quatrocentos anos, Vi que precisava tomar alguma providência 32 33cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição Mas que eu poderia fazer? Ela me aconselhou 0 seguinte: que pessoa que exprimia uma lógica de classe bastante eu comprasse uma bacia plástica grande, um bacião, e me colocasse Mas acho que vale a pena 0 que dizia na sua dentro dessa tina para tomar banho, mas lomasse muito cuidado para espontaneidade, no fundo, era isso: A cultura é alguma coisa que a gente não respingar fora, Terminado o banho, eu deveria despejar as águas Porque ela disse: "O senhor tem Então a cultura é alguma pelo telhado do Mas como Iria as adjacências do coisa que a gente como se uma casa, um automóvel, enfim, bacião, ela me deu um saco de serragem, que eu espalhar para um bem, um de consumo, um bem de circulação, alguma coisa que secar o chão, Depois, eu pegaria toda a serragem, amontoaria em um se pode obter, que se pode comprar e, finalmente, ser proprietário E, pano e a poria para secar ao sol (se houvesse) no uma ope- depois, percebi que esse ter cultura, ou seja, esta soma de objetos ração assaz complicada, até um fanático por tomar banho de- rais, também dava direito a certos privilégios, dos hábitos das Seria mais fácil, realmente, palmilhar os dez quarteirões até 0 demais pessoas. Quer dizer, as pessoas que cultura deviam exibir centro. Mas que me chamou a atenção, embora isso tenha acontecido certos comportamentos, e ser poupadas de certas ações, de há 25 anos, que vejo depois, De lato, uma loja de artigos certos trabalhos mais penosos, pesados, que deverlam ser destina- domésticos e adquiri 0 maior bacião que havia uma tina enorme de dos às pessoas que não tinham Realmente, a cultura aparecia plástico. Todo contente, voltei para casa com aquele embrulho muito in- como uma cômodo. No apartamento 0 pacote para a Ela me olhou Essa primeira conclusão nos a situar a cultura com um olhar severo, Senti que fizera alguma coisa errada. Ela me per- na sociedade de classes como uma mercadoria, como algo que se guntou: "Foi senhor que esse bacião da loja até aqui?" Res- obter, ou, então, se recuarmos um pouco até uma sociedade pondi que sim, e ela me disse uma frase que poderia de lema para lista, ou capitalista atrasada, podemos dizer que cultura é também uma esta Ela me olhou com uma mistura de espanto e, talvez, uma coisa que se herda, uma herança. Os dois estão mais ou ponta de desdém, e me disse: "O senhor cultura, mas muito demo- menos que dizia na sua espontânea era isto: a crático." Isto porque eu carregado a pela rua afora. Ela achou cultura é um bem, um bem muito especial, um bem que se aproxima dos que eu, sendo uma pessoa culta, pertencer a um.certo grupo hu- bens de luxo, dos bens supérfluos, e só as pessoas ricas, só os grupos mano que não carregava bacião de plástico na rua. Ela distin- de poder aquisitivo que dispõem de lazer podem fruir desse bem, E mais ainda: a cultura dá à pessoa um uma de diferença. Ela é No momento achei até que ela estava dizendo um con- diferente, alguma coisa como, na sociedade do Antigo Regime, era a tra-senso, que as duas partes da proposição, ou seja, as duas orações aristocracia. Podemos dizer que, depois da Revolução Industrial, a aris- que elà havia emitido, eram contraditórias, criavam quase um paradoxo, A não existe mais, não existe mais a nobreza de sangue, não primeira parte era senhor tem e a segunda era: "mas é existe mais a nobreza de privilégio. Podernos até aceitar isto como um muito democrático." Quer dizer, eu esperaria normalmente que uma fato histórico consumado pela revolução burguesa. Mas a cultura, ou uma se seguisse à que houvesse em yez de um mas, um portanto, um determinada concepção de cultura, acabou a idéia de aristo- logo, que uma conclusão da primeira parte. "O senhor cultura, cracia na sociedade capitalista, só potencialmente A cultura logo deve ser democrático." Mas realmente essa frase que me pareceu serve como divisor de águas: há pessoas que a têm e há pessoas que estranha, tanto que não a esqueci mais, e que tive muita dificuldade de não a vezes, isso parece uma fatalidade, como ser ou não ser discutir naquela hora, mantinha atrás de si séculos de uma ideologia con- nobre, é alguma coisa que vem, é um bem de raiz, é um bem de A servadora, de classes socials muito diferenciadas, de estratos culturais esta visão de cultura eu chamaria de isto é, uma visão que con- também igualmente diversificados. Percebi que eu estava diante de uma sidera a cultura como um conjunto de Ser culto, ter cultura, é ter 35 34cultura brasileira: tradição/contradição cultura como trádição acesso a livros, ter acesso a discos, ter acesso a aparelhos de som temple este quadro, na medida em que eu o considere como um lato, multo requintados, que são caros, exigem A própria como um objeto fora de mim e fora do meu convívio, eu olharei para ele passa a funcionar de acordo com essas novas Quem tem um pouco como um crente olha para o fetiche, É a idéia do É cultura e precisa de um aparelho de som grande, vai precisar também de alguma coisa que eu não entendo, não entender nunca, e aliás é até uma sala especial na sua casa, que acontece? A arquitetura começa a muito born que eu não entenda, porque isso dá ao objeto um mistério, um, moldar-se de acordo com essas necessidades específicas, o que é o uma magia, que se distancia de mim e faz com que eu reve- contrário da de Porque a arquitetura da é uma rencie, como alguma colsa que eu não vá nunca alcançar. arquitetura multifuncional, Numa casa pobre, mesmo espaço pode Na sociedade de massas em que nós vivemos isto ocorre a todo vir para comer, para dormir, para enfim, a plurifunção do espa- momento, Não que as pessoas estejam sempre diante de obras de arte, ço, a sua flexibilidade, é própria de uma cultura de pobreza, Mas à medi- elas estão diante de obras da tecnologia, das obras que a multi- dade que se quer Imitar estilo rico de viver, OU que se é efetivamente E lato de as pessoas não participarem da construção desses rico, as funções têm que ficar drasticamente separadas. Existirá 0 espa- abjetos, porque são obra de uma indústria especializada, fato de da cozinha, 0 espaço da sala, 0 espaço da sala de jantar, espaço da se servirem e olharem esses objetos, comprarem, venderem, mas sala de estar, espaço do livro, o espaço do disco; mais, 0 espaço não serem capazes de entender o seu mecanismo interno, é alienante, da televisão, o espaço da conversa E não raro espaço pelo profundamente Isto deveria produzir em nós um certo senti- Os espaços serão multiplicados, diferenciados e não haverá mento de culpabilidade: Vou dar um exemplo: eu estou com um relógio tolerância para convívio das lunções. que me foi dado por uma pessoa que me é muito Esse relógio é Eu acredito que deve estar no subconsciente lingüfstico e social Quando olho para ele sinto, justamente porque estou convicto, dos povos que vieram de uma estratificação colonial, ou então de uma cada vez mais, de que a cultura é participação, sinto um vago sentimento estratificação pré-capitalista (com nobreza e povo muito diferenciados), de Por Porque esse relógio marca não só as horas, os mi- deve estar no subconsciente dessas formações a idéla de que a cultura nutos, dia, 0 mês: entim, não só 0 que os marcam, mas ele tem que ser vista em si, e quem sabe, a de marca as fases da Há uma Lua nele, contra um estrelado, que uma Secretaria da Cultura, um Ministério da Cultura, um Palácio da Cultu- caminha pelo Num certo momento quando é lua nova, ela 0 palácio lugar onde a cultura deve ser vista, apreciada em si, saparece, depois volta по crescente, chega ao esplendor da lua cheia e elogiada, sem que tenha uma relação direta com 0 cotidiano, aliás sem vai minguando novamente, até desaparecer sob 0 Por que dever ter qualquer direta com cotidiano, porque este não é, de com sentiménto de culpa? Eu devia simplesmente oncantado com fato, considerado como cultura. Verifica-se, por esse concelto, que a um objeto; assim, tão rico, um objeto tão belo, um objeto que tem dentro cultura não pode ser democrática: 0 senhor é muito culto, porém muito de si ciência, tanta precisão, tanta técnica, que mistura astronomia com relojoaria. Mas é por isso mesmo que eu sinto algum vexame, por- Pelo conceito as duas instâncias tornam-se exclusivas. que não entendo como é possível, não compreendo como a máquina Se nós queremos, ao contrário, construir uma sociedade democrática, do mundo pode estar dentro de um Imagino que deve haver acho que, nesse particular, devemos repensar a fundo 0 de cul- uma série de engenhos que de sete em sete dias movem aquela lua, e tura destruir em nosso espírito ou, pelo menos, relativizar fortemente o fazem de maneira tão sutil que a Lua, diariamente, percorre uma parte a idéla de que a cultura é uma soma de objetos. Porque os objetos, con- desse Mas é uma coisa que transcende muito 0 meu conhecimento, siderados "em si", os quadros, os livros, as estátuas, ocupam um deter- porque seja uma pessoa formada em Literatura, em Ciências minado lugar no espaço, eles são sempre outro, Por mais que eu con- Humanas, e não tenha um conhecimento científico mais 36 37cultura brasileira: cultura como tradição Imagino que esta seja uma situação típica: milhares de nós, milhões de dos gregos, cuja palavra que mais se aproxima de cultura é paidéia: nós que somos da sociedade de massas, estamos a todo momento aquilo que se ensina à criança. Paidós, pedagogia, pedagogo, lidando com objetos que significam o fruto de uma cultura refinada, de grego de cultura está voltado para a criança, para a alma da criança que séculos, e não Mas colocamos relógio no pulso com a deve ser trabalhada até transformar-se em adulto. É um conceito que nos maior facilidade, olhamos, compramos, vendemos, temos com esses parece mais No caso dos romanos, não. conceito roma- objetos uma relação de uso, de consumo, de provavelmente, no é refere-se a alguma coisa que se trabalha fora de nós, a terra. um dia varnos esquecer esses objetos, vamos perdê-los e somos, por o cultivo do solo do qual saem as formas participiais do passado assim dizer, indignos de usar aquilo que não Este microfone (cultus) e do futuro = aquilo que se vai cultivar), as trés que estou usando, um que nós apertamos, e de repente tudo dimensões (1) (2) culto; (3) cultura, No espírito da língua romana, se ilumina, é um milagre. Não era possível para 0 homem pré-histórico, a cultura está ligada a um trabalho duro, um trabalho de conquista, a um para homem da Idade para o homem da Idade Moderna, para 0 trabalho de vitória sobre a natureza às vezes brutal porque a sua primeira homem até do século XIX, seria um espantosó, e nós realiza- consiste no domínio da Pode-se dizer hoje que se trata de uma mos a todo momento, tudo isso sem a menor comoção, só ficamos Irrita- visão 0 seu "repressiva" da cultura, pela qual as natureza tem que dos quando falta Al telefonamos para reclamar que está ser domada, domesticada; assim como "educação" quer dizer "ato de Parece que é um dever que os outros nos forneçam esse São puxar para 0 que está em balxo", ou seja, lazer um esforço de poucos 08 que podem entender todo 0 que vem dos instintos uma força que produza algo de mais alto, desde as da represa até os da nossa casa e produz para nós Mas qualquer consideração que se faça implica, no fúndo, a idéla o da de trabalho: quer na linha grega, que nos hoje simpática, pois liga Digo que todos esses exemplos ilustram a idéia de que ter cultura é cultura com criança, cultura com pessoa; quer do ponto de vista romano, uma alta soma de objetos da É uma (ou uma em que a cultura é comparada à ação de a terra, depois semear, atilude) que nos no fundo, somos bárbaros no sentido de que depois regar, podar, principalmente podar. Se a gente delxa os usamos os bens mas não conseguimos pensá-los, No entanto, cultura é galhos, a planta não dá fica uma coisa selvagem espinhosa, por vida pensada. projeto de cultura que que vingasse numa isso é preciso podar, cortar para sobrarem só os troncos e algumas sociedade democrática é aquele que desloca conceito de cultura e varas mestras de onde vão sair as tolhas, as os Mas tanto mesmo o conceito de tradição. Em vez de tratar a cultura como uma um conceito quanto outro trazem em si a idéia de um processo: a cultu- soma de coisas coisas de consumo, pensar a ra é sempre um resultado que se conquista. Eu devo trabalher os meus cultura como de um trabalho. Deslocar a idéia de mercadoria a ser pensamentos para, éventualmente, escrever, Isso é cultura, fato de eu exibida para a idéia de trabalho a ser Acho que é essa a comprar um tivro isso acontece não o ler, mas o projeto que eu diria recuperador: uma concepção que res- comprá-lo para e poder olhá-lo e segurá-lo nas mãos, ou então de ter o mercantil, exibido e alienante que a cultura assumiu e um disco, ter um quadro, tudo aquilo que objetiva a cultura, não tem vem assumindo na sociedade de classes, nenhum sentido para esta concepção, que de ergótica, A cultura um processo. A palavra cultura traz em si uma raiz usando 0 étimo ergon (grego), que quer ação trabalho. Concepção vem do verbo colo, que significava "cultivar a No caso de ergótica da cultura: a cultura como ação e considero isso Roma, como se de uma civilização de raízes agrárias, os termos fundamental porque desfaz primelro conceito, que era, que se referiam à cultura intelectual avançada ficaram ligados alnda a conceito da dona da casa que me excessivamente democrático toda uma metaforização, a todo um da terra. Diferentemente para ter cultura. Se a cultura é uma soma de objetos que as pessoas têm 38 39cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição herdam, as pessoas ricas a têm e as pessoas pobres não a A nós podemos uma boa bibliografia e ler estes livros, E depois de cultura dos pobres seria um nada, eles precisariam obter aqueles bens vamos passar para outra ciência, ou outra atividade, e aquilo fica para serem cultos, 0 que é oposto à idéia de trabalho, porque, nesta, como uma matéria Porque nós supusemos que conhecer ecologia à cultura: não se trata mais de um problema de classe, era possuir livros. Mas não é verdade. A como qual- 0 ser humano será se ele trabalhar; e é a partir do trabalho que se quer outra ciência, é um conjunto de obras dos homens. Nós temos que formará a cultura, É o processo e não a aquisição objeto final que inte- ser Se nós opérários do conhecimento ecológico, toda ressa, aquela tradição cultural que existe há tantos anos e que formou esta Acredito que essa visão ergótica e processual de cultura nos pode ciência, será por nós e a construiremos como uma nova ciên- ajudar muito, Em primeiro lugar, do ponto de vista ideológico, passamos a Veja 0 que aconteceu na cidade onde eu moro: vivo numa cidade dar importância aos momentos do processo produtivo. É a produção (en- próxima de São Paulo, que pertence à metrópole, à Grande São Paulo, quanto arte) que forma 0 homem e não consumo dos símbolos, uma cidade que se chama Essa cidade, como todas as outras da que, naturalmente, parte do processo, mas não enquanto um abso- periferia de São Paulo e também da do Rio de Janeiro, está terri- E em segundo lugar, de um ponto de vista educacional mais univer- velmente ameaçada pela poluição, pela destruição da natureza, pela sal, em vez de pensarmos em vender mercadorias pensare- invasão de fábricas altamente E que as fábricas querem mos em estudar e realizar obras. Obra significa exatamente trabalho, exatamente Isso. que desejam os Ficar perto do centro, enquanto processo e enquanto Uma casa está em obras; ter- perto do Rio, de São Paulo, e à beira da estrada, porque alé mais minada, é uma De opus dériva 0 verbo operar; de operar, operário. fácil levar produtos e também chegam mais os operários Obra é que 0 operário faz. assim, dos laços e rompemos os que moram nas Por isso, as cidades que se comuni- de uma concepção estática e burguesa de cultura, E começa- cam com eixo, com Grande Rio ou a São Paulo, estão amea- mos a relletir sobre idélas que podem trazer profundas, çadas pela mais poluição. Mas que fazer? principalmente para a educação. As pessoas que moram na periferia já fugiram da cidade grande, Vou dar alguns exemplos para particularizar essas idélas, procu- muitas delas querendo evitar a poluição, e foram no quintal da metró- rando mostrar a vocês como é que entendo a "aquisição do pole. Então elas começam a e para lutar é preciso trabalhar, é pre- São exemplos simples, e multos déles Elas começam a ver, por exemplo, que uma das caracte- de minha experiência. fundamentais das cidades periféricas é que elas não têm nenhu- Hoje se fala em ecologia. Ecologia, uma de origem ma de zoneamento. E por que não existe de zoneamento? cida- grega que quer dizer "conhecimento da própria casa", Porque eco vem dão vai à Prefeitura e percebe que 0 prefeito não quer fazer uma de de Oikos, o mundo é a nossa casa, a ecologia é a clência que Pois, com a ele estaria Impedido de instalar fábricas estuda a nossa casa, É uma coisa muito simples no fundo, no entanto tão onde os industrials seus amigos querem. Mas ele também deseja importante pelo que a gente vê de devastação da natureza, Como é que se adquire uma cultura ecológica? Existem centenas de livros sobre ecologia, existem livros desde 0 curso primário universidade, desde conselhos práticos até uma ciência extremamente complexa que une a que se relata em é a multo sintetizada do luta biologia com a geografia e com outras ciências Existe na ver- que envolveu a comunidade de durante todo ano de Apesar dos reveses problema acabou sendo sentido, e, ao que parece, as autoridades munici- dade uma ciência chamada Ecologia. Agora, quem é que tem cultura pais e estaduais estão elaborando projetos de "racionalização do uso do solo", É a pessoa que esses livros? Esses livros podem ser lidos, Vamos esperar, 40 41cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição se instalem, porque rendem impostos, Por isso, ele e os fazendo é cultura: eles estão vinculando intimamente duas instâncias vereadores seus aliados e clientes irão sabotar sistematicamente aquele diversas que parecem até disparatadas: as leis do Estado e grupo de cidadãos impertinentes chamados do pro- mento do melo Eles fazem união produzem gresso, que estão cobrando ele não quer Se não houver militantes assim, ecologia vão ficar na Mais tarde, os cidadãos apréndem que precisam falar também estante e vão continuar Você pode comprar cinco com autoridades estaduais e bater às portas do dos metros encadernados de ecologia exibi-los na sua casa: "Veja, eu Negócios uma pessoa multo que não gosto muito de ecologia! A minha paixão é a ecologia, eu louco pela entende nada de ecologia, mas que afinal está e recebé bem os cida- natureza, não derrubo uma Mas aquele conhecimento todo dãos numa sala cheia de poltronas e almofadas, Os militantes, embora já será um conhecimento que John Dewey chamava de "inerte". Uma escolados, se sentem meio coagidos dentro causa da pompa e da expressão multo "A escola costuma transmitir Iner- com que são recebidos, mas depois saem com as mãos tes quer que não agem. Ora, isto cultura? nós pensa- 0 Secretário não pensou no assunto, mas promete pensar; na ríamos que sim, que a cultura são aqueles Mas a cultura não são ele não quer "mexer com 03 Val ver, estes poderão esses objetos, a cultura é 0 trabalho felto pelas pessoas que querem na próxima disputa à candidatura de governador do realmente conhecer por dentro os ou da Natureza ou do costuma ser presidente do diretório municipal partido, e ele val agora caso, as duas coisas acabam ficando juntas. contrariar prefeito por causa desse grupo de importunos? Outro exemplo: quando fala em "cultura popular", parece que Depois, esses mesmos cidadãos se põem a percorrer todos órgãos nós estamos no coração da tradição. Muitas pessoas pensaram que ou técnicos e consultivos do Estado (Sabesp, Cetesb, Consema...) e come- fazer uma palestra sobre "O professor Bosi var fazer uma pales- çam a profundamente de administração e, ao tempo, tra sobre como Que será que ele vai "Ele vão sabendo quais são as que de quais as que falar sobre provavelmente, cultura popular", porque não existe vão aprender leis e portarias, e vão com os deputados nenhuma cultura tão arraigadamente tradicional quanto a cultura popular, de todos os Em seis meses eles estão peritos em e A palavra em antigo significa "discurso do pove", "sabedo- adquirem um conhecimento político tema, mas começam também 8 ria do povo", "conhecimento do povo": e cultura popular são pala- perceber com grande espanto que as pessoas mais mais vras Nós usamos a palavra inglesa, mas se técnicas, não sentem os problemas específicos tanto quanto Ou dizer "conhecimento que 0 povo tem", conhecimento popular no sentido 08 entendem cientificamente, não costumam lazer conexão entre os seus objetivo, estarfamos dizendo a mesma colsa, que saber conhecimentos e a ação vice-versa, os políticos não lazem Este é um problema importante agora, Há de cultura, ministé- nenhuma conexão com Eles começam a perceber nos de cultura, palácios de cultura; enfim, Estado, como aparelho de absurdo do mundo, o que já é alguma coisa, As colsas do mundo buro- Estado, pensa em Existe a Fundação Pró-Memória, uma crático estão desvinculadas, tem nada com ninguém (ou tem, Fundação que trabalha justamente na restauração de obras antigas, na prefere não dizer que tern), cada um está postado atrás do seu sua Existem coisas a serem conservadas, não só objetos potencialmente irritado com as pessoas que vão incomodar o "dolce como também cerimônias, cultos, festas, músicas, Isso é cultura farniente" das repartições, Uma bela lição, Mas não é para desesperar, popular. Se alguém me "O quê que o Estado deve fazer Em geral, quando começamos a entender mais fundamente as com a cultura popular? Oh! Que grave que Estado coisas ficamos desesperados, a política é uma arte que pratica a fazer com essa cultura que está al, deteriorada, corrompida pelas virtude da Os militantes percebem afinal que o que eles estão comunicações de massa? que fazer com isso?" primeiro pensamen- 42 43cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição to que me ocorre é drástico: não fazer nada! "Por favor, não mexa com e sempre às turras com os Quando se que não é da sua A primeira idéia que me seria esta: um impasse, a Câmara de São Paulo decretava a expulsão-dos jesultas. Estado é uma estrutura tão diferente, tão heterogênea, tão exterior à Escorraçados da Vila de São Paulo de Piratininga, foco das bandeiras, cultura popular que realmente o melhor é não forçar indesejados. eles lam para os aldeamentos Um se chamava aldeamento dos meu em folciore é professor Oswaldo que Pinheiros, que hoje é o bairro de Pinheiros, em São Outros eram vive em há multo tempo afastado da rotina Ele me Embu, Cotia e São Miguel São cidades que estão em torno de ensinou, e eu acredito, porque os exemplos que me deu fóram pro- São Paulo ainda hoje, algumas delas eram aldeamentos onde bantes: a cultura popular não morre, não necessita de injeções aqui, inje- se conserva aqui e ainda, uma pracinha, uma igrejinha colonial anterior ções lá, Se ela for, de popular, enquanto existir povo ela não vai mor- ao Barroco. Os estavam domesticando os não quero rer. Cultura popular é a cultura que 0 povo faz no seu cotidiano e nas dizer que eles queriam a liberdade absoluta dos nativos: eles eram uma condições em que ele a pode fazer, para que, ou era escravizado pelo bandelrante e As pessoas, preocupadas com as instituições em si mesmas, se do para as fazendas de açúcar, para os engenhos da Bahia, ou ficava queixam: "Ah! Na minha terra, no interior, havia certas féstas de rua, mas aldeado com os jesultas. E formaram-se núcleos de cultura que, agora está morrendo, que vamos fazer?" Mas Xidieh não se com tempo, se transformaram em núcleos de cultura caipira. A impressiona com a mudança das aparências porque sabe da continuida- chamada cultura paulista, mais tradicional remonta tempo, de do processo no dia-a-dia. Vivendo a experiência popular até 0 fundo, Mas voltemos à de São João para a qual fui convidado; era uma to: a candombiés, foi à umbanda, estreitou relações amigas com mães- festa de catolicismo Uma testa de catolicismo é uma de-santo, conseguiu até pedidos na umbanda, e fez com eles uma sem padre, porque os padres perfencem a uma faixa do catolicismo culto; análise sociológica. Em suma, ele me ensinou a não me preo- evidentemente, são pessoas que estudam, são homens que a cupar em "conservar a cultura popular", em si mesma, mas em conservar uma determinada cultura letrada. Embora se aproximem do povo Entenda-se: importante, 0 fundamental aqui, são os agentes eles não participam diretamente do que seria catolicismo rústico que Se sistema social é democrático, se povo vive em condi- a Igreja incorpora, sempre que pode. Mas alguma coisa fica muito reni- ções digamos. de sobrevivência, ele próprio saberá gerir tente, Eu percebi nesta festa de São João que não havia Havia um essas condições para que a sua cultura seja conservada, Não pela cultu- capelão, Lá pelas dez da nolte 0 capelão apareceu, Ele não era padre, ra em si, mas enquanto expressão de comunidade, de grupos, de era um leigo e não tinha recebido a menor educação formal. Eu Não faz sentido querer absolutizar como tam- perguntei: "O senhor agora começar as rezas?" Eu pensava que ele pouco é salutar absolutizar 05 objetos da chamada "alta fosse puxar rezas de Igreja, mas ele disse: "Ah! São rezas que eu apren- pude entender essas mais a fundo, por dentro, quando, di com meu pal que também era capelão em Sorocaba, que aprendeu na mesma de periferia em que vivo, fui a uma festa de São João com meu avô que também era capelão em Araçariguama, no século em um bairro caipira. Há álguns bairros calpiras em redor de São Paulo, Então percebi que capelão era uma função religiosa leiga que tinha por Não pensem que para conhecer um bairro caipira seja preciso tomar um finalidade puxar as orações. Começou com algumas orações cristãs tra- voar até Araçatuba, ou até 0 Paraná. A cultura calpira mais Ave-Maria, Pai-Nosso, e chegou a hora em que ele rezou uma arcaica não está longe da cidade de São É um que já oração que hoje se reza pouco, a Salve Rainha, uma pração antiga, bem estudado e que se explica: ao redor da vila de São Paulo jesultas E quando ele começou a rezar eu fiquei estarrecido, vi aqueles iam refugiar-se dos seus majores uns delinqüentes também caipiras de pé no chão, todos bem alterados com uma dose de pinga, conhecidos pelo nome de "bandeirantes", os quais queriam aprisionar os gente que eu conhecia como pedreiros nas construções daquele bairro 44 45cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição de classe média, que estava invadindo os terrenos da velha cultura calpi- incumbida de levar santo até as águas estava com as mãos estendi- ra, Eu conhecia aquelas pessoas como empregadas domésticas, pedrei- das, as mãos espalmadas, mas vazias, E assim foi até a beira do ros e ajudantes de A impressão que se tinha que eles não tinham Ela se debruçou sobre regato, banhou as mãos vazias, levantou-se, cultura mais nenhuma e, quando muito, ouviam de pilha. Porque sempre cantando uma série de hinos de procissões muito antigos. Depois ouviam rádio de pilha, a cultura deles era a cultura de massa. voltaram, Só depois de eu perguntar é que me disseram que haviam ouviam rádios de pilha, gostavam de Roberto E por que eles não roubado o São João da capela. Mas Isso não quer dizer nada, porque a direito de ouvir rádio de pilha e gostar de Roberto Carlos? Mas cultura popular não é ela não com coisas, mas com signifi- eu pensava que só E não era. Quando 0 capelão começou a cados, e os significados estão dentro do espírito, Tanto ela lida com 0 cantar a Salve Rainha, eu ele rezava em não só reza- significado que se lavou o santo sem Uma lavagem metalísica, va como E cantava de uma maneira muito bela. Porque a letra mas que no entanto foi feita com o mesmo fervor e os mesmos cantos, era em latim, mas a música era um samba rural paulista, um samba rural nada se alterou. Digamos então que algum antropólogo, estudio- muito entoado. Depois da Salve Rainha, ele começou uma ladainha so de artés populares, vá flagrar esse momento e grave aquela melo- também em latim. A ladainha de Nossa Senhora é muito longa e, natural- dia, que era realmente de uma grande beleza, de descantes finais, mente, feita de invocações. Algumas muito belas: rosa mística, lorre emotivos, subidas e descidas de voz, como só realmente um improvisa- de em latim: rosa mistica, turris eburnea, E povo responde: "ora dor é capaz de ou digamos que alguém dotado de gosto plástico pro nobis", cantava e uma senhora negra à frente de mais ou fotografar todos aqueles movimentos, a lavagem do santo sem menos umas trinta pessoas, Todos cantavam, todos cantavam em latim, santo; ou que algum cineasta surrealista dissesse: "Vamos ver como é A senhora à entoando diferentemente. conforme a invocação, que se lava um santo feito de Tudo isso viria para nós aqui, e eu Quando se dizia, por exemplo, "torre de ela levantava os braços: poderia até museu de arte em São Paulo, numa noite de tédio: "torre E eram evoluções muito solenes, muito belas, uma pa- "Vamos a esse fenômeno de cultura popular". Eu acho que seria ra cada E foi assim que eu assisti a esse de catoli- no mínimo, uma profanação, ou um ato de consumo, a gente cismo rústico, Não era candomblé, não era macumba, não era um culto iria ver aquelas coisas, não la significar nada, Porque a cultura se cons- paulista, pelo menos até pouco tempo, não trói fazendo; para eles, a festa era cheia de sentido, Não que a gente conhecia essas formas Ele conhecia sobretudo caloli- impedido por uma barreira de classe social de ver as mas cismo rústico, que herdou dos portugueses e, de alguma maneira, simpli- é um ver multo diferente do participar. É um ver que não apreende certos adaptado pelos Eu estava diante de um autên- significados de Mas às vezes pode acontecer uma fusão, e extraordinário de como tradição e cultura como obra, porque Vou dar outro Na de que é aquilo era trabalhado e vivenciado, naturalmente de cíclica, em próxima de São Paulo, no dia três de malo, há a festa de Santa Cruz, uma toda de São João, Mas meu espanto naquela noite parecia que das festas mais tradicionais, mais antigas, mais raras do brasilel- não acabar tão cedo porque, depois disto, eles foram lavar o santo, ro. É no dia três de maio, porque antigamente se pensava dia Havia um arroio, um regato no fundo do loteamento, eu nunca repa- do descobrimento do Brasil, e nesta aldeia de Carapiculba há uma rado, era riozinho deles, Este regato servia para a lavagem do santo; no que anos e anos faz a festa de Santa Cruz. Eu relativamente caso, São João, Eles foram em procissão e eu fui atrás. que a pessoa perto e assistir sempre a essa Eles plantam uma cruz na pracinha, que é uma pracinha do século XVI, depois, alguns tocadores de viola e de um instrumento muito estranho que parece uma zabumba Variante de Turris tocam junto com uma viola rústica, E dançam, que me impressionava é 46 47cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição que dançar deles parecia um dançar de um dançar que não jinga querer, entrando em cheio, com toda a sua inconsciência; e como os com 0 corpo. do qual denvou caboclo o índio tupi, arrasta pés, não jinga com 0 corpo, só os pés fazem Nesta seus agéntes eram também povo (as alunas mulatas), produzia-se um festa de Santa Cruz, eles se aproximam da cruz, lazem uma reverência e outro perfil, diferenciado e, no entanto, ainda tradicional, da festa de Santa Cruz, voltam, se aproximam e voltam, três ou quatro vezes, E cantam alguma colsa eu não entender nenhuma palavra, Mas volto ao que me dizia mestre Xidleh: a cultura popular é embora provavelmente losse em E como hoje existem assim A cultura popular estava e uma dades de com cursos de os professores mandam os forma, também sua, o samba urbano de origem que deu à cerimônia uma outra seus alunos fazerem pesquisas, Se têm que fazer uma de vão Mas não é só o traço hierático, solene, que faz parte da cultura para porque há a do dia 3. Mas, nessa última eu A cultura popular é também jocosa, gosta de Na cidade um certo desprazer de ver ônibus e ônibus parados, ônibus turísticos praiana de São mestre Xidieh colheu uma série de histórias do parados naquela pracinha tão gravador em punho, ficavam tempo em que Jesus andava por este mundo, histórias que povo conta, querendo entrevistar aqueles caboclos, fazendo as perguntas mais esta- relatos que se entroncam em narrativas da Idade Média e dos chamados "O governo não ajuda senhor?", "O senhor não acha que "Evangelhos anônimos que falam sobre as andanças de essa está em decadência porque governo não tem dado verbas?" Jesus, de Nossa Senhora, dos e que, evidentemente, não se Eles olhavam e não sabiam que Mas eu achei curioso por- encontram nos quatro textos canônicos de Marcos, Mateus, João e que até do maior mal, que são as faculdades de turismo, pode sair algum Lucas, A Igreja deixou correr os "Evangelhos mas não cano- Essas moças que laziam curso eram pessoas simples, eram nizou nenhum, já que era impossível controlar as suas pessoas pela cor, havia moças mulatas que esta- Xidieh transcreve no livro Narrativas pias algumas vam fazendo esses elas ficaram realmente apaixonadas, dessas históricas contadas pelos caiçaras de São Sebastião e que esqueciam um pouco aquilo que a professora mandara perguntar e reinventam casos da tradição apócrifa. Muitas delas têm por herói, ou queriam entrar na dança, A dança de Santa Cruz é multo solene, só para homens, depois daquelas evoluções eles se retiram e acaba. Há um anti-heról, a São Pedro que, segundo a visão popular, era dado a momento, porém, antes de a dança se extinguir, em que eles uma espertezas, 0 espertinho dos Mas as astúcias malogradas espécle de cordão e dão a volta na praça. Nesse éxato momento os de São Pedro é que dão um fundo cômico às narrativas. Essa é a alegria assistentes podem entrar, são convidados a entrar na dança, E eu do calpira, ver o esperto sair logrado ao se deparar com alguém mais bem para aquela fusão de raças e culturas que estava acontecendo na esperto do que Eu contar uma dessas histórias para dar uma idéla do que é esse tésouro da cultura minha Enquanto os caipiras mantinham corpo duro faziam ges- tos solenes, só moviam os pés, as mulatas da faculdade São Pedro ficava muito aborrecido com a mania de Jesus fazer gingavam e rebolavam. Claramente, estavam sentindo a dança de jejum. E ficar sempre em casa pobre, onde a gente recebe pouco Santa Cruz como um samba mesmo, Elas transformaram aquilo num Ele vivia resmungando dizendo: "Quem não pode não se esta- samba, e todos dançaram juntos, eles cumprindo a sua devoção, sem Que mania é essa de andar pelas ruas... A gente fica com olhar para os lados, naquele ritual e elas se requebrando, se andando tempo todo, Se ao menos a gente fosse nas casas dos movimentando para todos traduzindo para seu ritmo a festa de Santa Vejam só a complexidade do processo! A cultura de massas, no caso, a subcultura das escolas de turismo, estava, sem a Oswaldo Xidleh Narrativas plas populares, São Paulo, USP Instituto de 48 49cultura cultura como tradição ricos..." Jesus a queixa de Pedro e disse: bem, Pedro, vamos muito perigosa, uma relação muito cheia de É bom acautelar- hoje à casa de um rico. Quem sabe se a gente consegue passar se e afinal, não pedir pousada em casa de rico, E há muitas Então, bateram à porta de um homem rico. Eram os três: Jesus, Pedro e outras histórias. Na prática da cultura popular, rente ao cotidiano, existe seu irmão, André. rico abriu a porta e pensou: "Vou pregar uma peça uma sabedoria que, muitas vezes, se traduz em formas Pode nesses vagabundos que que ficam pedindo esmola em vez de traduzir-se em historietas ou provérbios que são, não raro, contra- trabalhar," E disse balxinho para o seu criado: "Ponha esses numa cama grande, Durante a noite cada um val levar uma sova, só que não Engana-se quem pensa, partindo de uma visão genérica cultura vão saber quem é que deu a sova, e serão capazes até de se acusarem popular, que esta seja muito homogênea que diga sempre as mesmas uns aos outros." E como São Pedro nessa hora andava pela casa procu- Comecei a fazer uma pesquisa de provérbios quando escrevi um rando comida, nada percebeu. Mas no final da noite, quando eles foram sobre alguns contos de Consultei um excelente dormir, dono da casa disse novamente para criado: "Othe, para trabalho pela Professora Martha Steinberg sobre provérbios ingleses aquele que se deltar na beirada da cama, um doce, mas só para comparados com Embora al se confirme de aquele que está na beirada da São Pedro E naturalmente que a sabedona popular se reproduza em formas semelhantes em toda na hora de escolher o seu lugar na cama, disse para Jesus e para André: parte do mundo, a pesquisadora constatou um fato novo: os provérbios "Eu ficar na beirada, não me outro lugar, só na ingleses são muito parecidos com os provérbios brasileiros, mas diferen- da". E assim ficou ele na beirada. Durante a noite 0 criado e deu uma ciados dos Tudo que a prática popular norte- valente de uma tunda que estava na beirada, conforme dono americana tenha criado próprias, modos de ser peculiares, ao tinha mandado, E São Pedro ficou agoniado, sem poder dizer passo que ingleses e (no caso, conserva- Levantou-se e ficou andando pela casa, quando ouviu patrão ram a fonte comum, que é a vida medieval. Acho que vale a lestar "Agora está na hora de você dar uma recompensa para aquele que ficar essa no São Pedro correu lá e disse a Jesus: não me acos- turnel na beirada, não é meu Essa cama é murto esquisita, eu Outra coisa que eu há provérbios contraditórios no con- quero ficar no meio". Jesus aceitou e Pedro no meio. Passou algum teúdo e na Por exemplo: "Ajuda-te e Deus te que quer tempo, empregado e deu outra surra memorável naquele que esta- dizer esse provérbio? Que não se deve esperar tudo de Deus, é preciso va no meio, São Pedro disse: "Eu não tenho sorte mesmo, vai ver que trabalhar, ajudar-se para conseguir alguma coisa. É um ditado esse não é o Levantou-se e a terceira recomendação: Quem quer ser ajudado pelo Alto deve fazer algum não "O presente mesmo é para aquele que está no para este é 0 sempre esperando milagre. Mas outro provérbio que diz oposto: bom presente". Então ele foi André que estava no cantinho "Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo Ou seja, de disse: "André, vai para melo que eu quero ficar no E recebeu que adianta levantar muito cedo se 0 dia é de azar? Mais vale quem Deus a terceira sova. De manhã cedo Jesus agradeceu a boa pousada que ajuda. E ainda há outro que diz: "Deus ajuda quem cedo madruga". Afinal, eles recebido, a cama tão còmoda, e foram embora. a quem é que Deus ajuda? que trata de di- versas. Há a experiência daquele que levantou cedinho para plantar, pois "Então Pedro, você acha que é bom ficar em casa de rico?" E Pedro res- "Não bom, não, A gente pode estar no canto, no ou na beirada que apanha sempre". Essa história, além da narrativa e da graça que tem, traz todo problema da relação de classes, povo sabe que a relação com rico é Martha Steinberg: 1001 provérbios em São Paulo, Ática, 50 51cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição sabe que a hora antes do sol é boa, e que assim lazendo, tudo val dar 0 fio da meada que estou tentando desembaraçar aqui. Pois Deus ajuda quem cedo madruga. Quando vierem as chuvas, Uma última instância a ser chamada é a realidade da memória, estará semeado e tudo Mas há aquele outro que sabe que, Falar em cultura como tradição sem falar em memória é não tocar no na hora da colheita, podem vir as a seca, o incêndio, a queda nervo do assunto, do Então que adiantou ter madrugado para semear? Mais vale A memória é o centro vivo da tradição, é pressuposto de cultura quem Deus ajuda... Existe na sabedoria popular a presença dos contra- no sentido de trabalho produzido, acumulado e refeito através da História, ditórios, das coisas reversíveis e das coisas perecíveis. A tendência mais Para Platão a memória é Aprender é lembrar, lembrar é aprender. forte, porém, reside na alta que têm as coisas de voltar, Sabe-se que Platão acreditava na reencarnação, afetado como estava Porque nada definitivo na cultura do povo. Este é um dos pela filosofia pitagórica e, por certas tradições religiosas orientais recorrentes da literatura de cordel, o velho que reaparece, tudo que persistentes na Grécia clássica, A teoria do aprendizado de Piatão pres- "morreu" continua e até pode voltar. Xidien crê que povo, no fundo, não supõe a existência de outras vidas anteriores à vida presente. Quem se só não se dá bem com a do inferno para sempre, como tende a com agudeza e profundidade, desoculta que estava coberto na acreditar na Uma cultura quanto enraizadamente ar- própria que os psicanalistas chamariam de "fazer anamnese", caico-popular, tanto mais a aceitar, ainda que não explicitamente, termo, aliás, já usado por Platão no Mênon e em outros diálogos. Para a possibilidade da Quantos "católicos" Brasil (e até psicanalista ortodoxo a memória não recua além da infância; para Platão comunistas de carteirinha) vão à sessão espírita ou ao terreiro na espe- as lembranças remontam a épocas distantes, a um momento em que a raça de se comunicarem com os seus mortos! 0 povo teria horror à pudera contemplar as verdades ideais e eternas. Todas as almas da morte definitiva, da condenação As pessoas fizeram mal, mas têm sede de saber e já a tinham nas vidas pregressas. Acontece que não foi por Há sempre algum modo de resgatar pecador, se não deuses, em sua sabedoria, não se agradavam de ver que se des- nesta, ao menos outra se um copo d'água para a alma sedenta e sôfrega antes de ela lazer um correlato temporal da reversibilidade é a concepção da sacrifício, ao menos sacrifício da conhecimento exige a puri- existência, Todo ano se planta, todo ano se colhe, Vem a chuva, vem a ficação da As almas deveriam esperar um tanto para que 0 A cultura de massas, quando quer imitar a força das práticas desejo se interiorizasse e se espiritualizasse dentro delas; só assim, populares, procura, mas nem sempre consegue, apanhar o seu desejo se transformaria em conhecimento, pois entre um e outro ocorreria de Promove grandes eventos para os quais vão milhares tempo necessário à A água oferecida pelos deuses era tirada de pessoas, que deliram, gritam, suam, mas depois vão para casa, de um rio chamado Lethe, rio do Se as almas, arrastadas acabou-se a festa, Falta, então, aquela perspectiva de a festa voltar, no pela sede do desejo sem freio, bebessem a água do Lethe, sem a pausa tempo próprio, que é tão grata à cultura Mas quando do ao invés de aprender, cairiam na letargia, que é um estado essa existe, tudo se funde, como no Quando a de sonolência, de embrutecimento, de Voltariam aos seus cultura de massas alcançar reproduzir fenômeno da reversibilidade, ela de brutos e, saciadas e entorpecidas multo rapidamente, seriam estará a meio caminho do sentimento 0 ciclo é a figura da vida de dar salto que leva ao conhecimento através da memó- que não se apaga para sempre com a ria. Mas aquelas almas que esperassem e não tragassem a água do Lethe alcançariam não-esquecimento, o des-ocultamento, a Todas essas idéias são opostas à concepção de cultura como a-letheia, a alétheia. Quem sofreia o desejo que, saciado, leva ao mercadoria finita e descartável, exterior à vida Cultura pecimento, consegue chegar à que é lembrança pura, memória como processo, cultura como trabalho, cultura como ato-no-tempo: este é libertadora, Porque 0 esquecimento nos prende ao peso de um presente 52 53cultura tradiçãolcontradição tradição sem dimensões, quando é causado pela violência dos sentidos e pelo Nessa linha de memóna, um trabalho de Ecléa que dá um agrilhoamento da Ai daqueles que esquecem! As socieda- bastante diferente à nossa Psicologia Social. Trata-se de uma en- des que se esquecem do seu passado, mesmo do seu passado recente, trevista com velhos que viveram sua infância em São Todos vagarão e errarão estupidamente sem encontrar a porta de saída que é com mais de 70 anos de idade, reconstroem, cada um do seu ponto de sobre 0 vista, a da cidade, Nós ficamos 0 que livros nem Segundo Platão, a memória é caminho para a república perfeita. sempre Por exemplo, Revolução de 32. Recentemente ouvimos Tudo 0 que Platão escreve tem uma preparar o cidadão, edu- muitos debates sobre 0 significado, Vocês devem lembrar-se de que para construir a Pólis, a república E a república perleita houve, algum tempo atrás, chamado João Batista Figueire- é de homens que têm memória, homens que procuraram a do, de um general, Euclides Figueiredo, paulista, que lutou na Revo- verdade lembrando, Evidentemente, para nós isso é uma lição. Recente- Constitucionalista. Em São Paulo, esse movimento é uma espécie mente, eu que estudar a história da Nicarágua, nesta luta que todos mitologia escolar. Muitos dos membros da Academia nós, todas as pessoas minimamente decentes têm que endossar, que é de Letras, quase septuagenários, lutaram em 32 é luta pela sobrevivência da Nicarágua diante do imperialismo norte-ameri- um marco para as classes de São Paulo, que cano. Recentemente, tendo que escrever alguma coisa sobre a Nicará- se sentiram marginalizadas pela Revolução de 30. De resto, os que é um nervo exposto da América Latina, doendo, como todo progressistas de São Paulo sempre se dividiram diante da inter- nervo exposto, fui ver a argumentação dos inimigos da Nicarágua, dos pretação do movimento, porque, de um lado, a Revolução de 30 havia que estão dominando a política norte-americana, É uma argumentação sido efetivamente um passo à frente se comparada com a velha Repúbli- absolutamente brutal, absolutamente porque eles dizem que ca oligárquica, e as medidas tomadas entre 30 e 34 foram efetivamente a Nicarágua vai seguir destino de Cuba, e os EUA não podem suportar Getúlio era um estadista de grande visão e, naqueles anos, E que a Nicarágua é antidemocrática por causa do Sandinismo e apoiado ou estimulado pelos tenentes, mudara a face do Estado brasilei- por causa das relações com a São esses os argumentos que De outro lado, havia a "revolução" constitucionalista, que reclamava correm e que a opinião pública norte-americana às vezes E uma lei liberal e rejeitava centralismo de 30; era simpático esse lado estudar a história da Fui fazer 0 quê? Um ato de memória, de liberal, embora viesse manipulado pelas classes ricas de São Paulo que de desocultamento. Está o quê? Que norte-americanos tinham sido apeadas do poder, e que se uniam em um movimento armado invadiram a Nicarágua, desde século passado, quarenta vezes! E que contra Tudo isso era contraditório, era dramático, era em meados do século passado, um pirata norte-americano chamado Em Memória e sociedade há depoimentos de velhos que participa- Walker com marinheiros norte-americanos e pre- ram de Um dos entrevistados trabalhava no Instituto do Café, de onde sidente, e ele próprio se eriglu em presidente da República da Nicarágua. salu o primeiro grupo de combate. A revolução armada pelo Instituto do Ele, flibusteiro, pirata norte-americano. seu primeiro foi restabelecer Café exatamente porque eram latifundiários (ou bacharéis, seus filhos) a escravidão na Nicarágua que já tinha sido abolida antes de Então que se sentiram prejudiçados pelos Foram as oligarquías agrá- a gente pergunta: Existia URSS em 1850? Existiam os sandinistas em rias que custearam 0 do movimento, E esse entrevistado era um 1850? Existia o perigo cubano em 1850? Então por que invadiram a alto funcionário do Instituto, Quando ele rememora levanta-se, Nicarágua em 1850? Os argumentos agora são hipócritas, porque 0 desejo é realmente 0 de dominar a América Central. A história como desocultamento é um Deve-se estudar História para 5 Bosi, Memória e sociedade. Lembranças de São presente e para prevenir-se, se possível, no futuro. 1979, 54 55cultura brasileira: tradição/contradição cultura como tradição ignora ou esquece que está falando com a entrevistadora: "Eu, Abel, digo existiu para ela, porque para os elementos mais populares essa à posteridade que vi a primeira morte de 32, na Praça da República..." e palavra não existiu, Ficou com Vargas até 54, até o Então ela põe-se a contar, ato por ato, o que ocorreu nas trincheiras e que foi a chora e diz: "Foi Brigadeiro Eduardo Gornes que 0 grandeza de 32. Toda a história É um documento vivo, realmente e agora vão matar 0 Oswaldo Aranha," As pessoas mais simples nunca único, porque a testemunha se com 0 cerne da (sua) e acreditaram no suicídio, elas que foram que 0 mataram. embora se póssa dizer profundamente ideológico, nem por isso deixa de Até o pobre Brigadeiro, uma pessoa tão proba e tão foi ser autêntico, por ela, Depois, entrevistou uma empregada filha de Eu acho importante cruzamento; quem for estudar 32 tem que ler escravos, chamada Esta preta, hoje cega, é Vê o futu- o depoimento do Apesar de toda a carga estava Como os cegos da tragédia grega aos se arrancavam os olhos empenhando a sua classe, a sua pessoa, lutou numa trincheira, para que vissem a trabalho dela hoje é ver o sofreu na aquelas lufas. E depoimento da Risoleta também é Trabalhou durante meio século como criada em casa de paulistas de 400 extremamente porque ela estava de fora da classe dela, mas anos que fizeram a Revolução de "Meus patrões eram favoráveis a também dentro porque ela trabalhava, dava 0 seu suor para que aqueles 32, Meu patrão, era contra Getúlio, Eu era getulista, mas não quatrocentões de São Paulo pudessem levar a vida que levavam. Ela podia falar nada". E continua: "Eu licava quieta. E ainda tinha que fazer era filha de escravos, neta de escravos, e isso tudo em 32 ainda tinha cómida para os soldados". Um dia começou a campanha: "Dê ouro para muita força, bem de São Paulo", uma campanha intensa, Ainda hoje há velhos que último que posso dar é o seguinte: no ano passado usam uma aliança com a inscrição "Dei ouro para São Ficou qua- eu tive a oportunidade de falar sobre educação e constituições, LI as se que uma expressão unitária: "ouro-para-o-bem-de-São-Paulo", "tudo- constituições todas e 0 que tratam de E qual não foi a minha E toda vez que ela falava ouro, falava para surpresa ao verificar que a constituição de 34 era mais progressista que bem de São Paulo: "Era tempo do ouro para 0 bem de São Paulo. Minha a de 46! A carta de 34, feita por députados eleitos para isso, foi uma da Junqueira, latifundiários de os primeiros constituição democrática para a época, E lendo os seus artigos grandes barões do café de São Paulo... Os Junqueira, de olho azul, se educação verifiquel que, por exemplo, na questão do ensino público, foi casavam entre si, uma série de deformações... Um dia minha patroa uma constituição muito Nela se diz, pela primeira vez, que o estava num canto juntando ouro para 0 bem de São Ela colocava ensino primário devia ser gratuito, um ensino universal. Era a proposta do brochinhos, colocava os braceletes, colocava os os brincos, ficou ensino E ainda, para ensino secundário e univer- um monte de ouro para bem de São eu vi um brochinho sitário, devia haver à Quer dizer, era uma consti- quenininho, achei que era uma coisinha de nada, Então cheguei p'ra ela e tuição que já pensava na evolução da sociedade de massas, e perguntei: brochinho que a senhora está colocando nesse monte, Estado deveria estar atento para prover as necessidades dessas mes- será que a senhora não podia me dar, porque um dia eu não poder mas massas por uma educação A de 46, tão louvada, como a mais trabalhar e, se eu ficasse doente, teria pelo menos um brochinho constituição da redemocratização, só é do ponto de vista para vender. E a respondeu: disso! É tudo para mas do ponto de vista da participação do Estado na democracia não 0 é, bem de São Risoleta ficou triste, se recolheu e chegou à porque é ela quem inaugura esta figura chamada "ensino público pago", conclusão de que não podia ficar daquele Não que ela não quisesse Explicitamente diz que os alunos que podem, devem pagar a universida- bem de São Paulo, mas ela não podia ficar daquele lado, naquela clas- de, 0 que dá campo, evidentemente, para uma série de interpretações. se social. Até da vida ela votou em Getúlio Vargas. 0 Estado Novo Isso até a constituição de 67/69, a praticamente outorgada, que 56 57cultura tradição/contradição tivemos, que propõe concessão de de estudo e abre caminho para a privatização do ensino. Agora, não 6 bom lembrar? Não é bom voltar a pensar nas anteriores? Assim, a memória de que falava Platão é um acesso à verdade e um acesso à democracia. Exatamente contrário do que aquela senhora dizla: "O senhor cultura, mas é muito Oxalá ela pudesse ter dito: "O senhor tem cultura, CULTURA COMO RUPTURA por é muito José Américo Motta Pessanha 58 59