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Nikolas Rose COLEÇÃO PSICOLOGIA SOCIAL Coordenadores Pontificia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Sandra London School of Economics and Political Science (LSE) Londres Conselho Denise Jodelet L'École des Hautes en Sciences Sociales Pans Ivana Marková Universidade de Remo Unido Paula Instituto Superior de do Trabalho da Empresa Ana Mana Jacó do Estado do Rio de Regina Helena de Campos Universidade Federal de Gerais Universidade Federal do de (UPRJ) Neuza MF do do (PUCRS) INVENTANDO NOSSOS Camino Universidade da (UFPB) Psicologia social Loucures representações socials Jodelet SELFS Vários autores social na As social modema Robert M Farr Martins Psicologia, poder e subjetividade Representando Angela (org) As de mente Paradigmas em social Ivans Markova Regina Helena de Campos e do Representações A Guareschi (orgs ação social e Helena de Freitas Campos A e Argumentando e Uma Textos em representações Coordenação da tradução: Arthur Arruda Leal Ferreira A e Sandra Michael Os As exclusão Bader Sawaia construtores da informação publicas A outros Dialogo com social do hay Carone Mana Aparecida Bento ) A Identidade em Social social saúde Doe Mary Jane P Spink representações Representações Claude Deschamps e social Serge A da sociedade em Vygotsky Serge Susana das social na a Serge EDITORA social Inventando selfs Rey poder VOZES Nikolas Rose PetrópolisCambridge University 1998 Título original Inventing our Selves Power, and Personhood SUMÁRIO Direitos de publicação em língua portuguesa Brasil: 2011. Editora Vozes Ltda Rua Frei 100 25689-900 Petrópolis, RJ http://www.vozes.com.br Brasil Apresentação à edição brasileira, 7 Todos OS direitos Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, Breve nota sobre a tradução, 9 incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Introdução, 11 Diretor editorial Editoração: Dora Beatriz V. Noronha Frei Antônio Moser Projeto gráfico:Célia Regina de Almeida Capa: Graphit 1 Como fazer a história do self?, 39 Editores Aline dos Santos Carneiro Equipe de tradução Clarice Sá Pereira 2 Uma história crítica da Psicologia, 65 José Maria da Silva Lídio Peretti Fernanda Aranha Marilac Loraine Oleniki Filipe Herkenkoff Carijó 3 A Psicologia como Ciência Social, 98 Gustavo Cruz Ferraz Secretário executivo Karen Strougo João Batista Kreuch Luna Rodrigues 4 A expertise e a techne da Psicologia, 116 Maria Clara de Almeida Mariana Toledo Barbosa Myriam de Carvalho Monteiro 5 A Psicologia como uma tecnologia individualizante, 143 Rita de Souza 6 A Psicologia Social como uma ciência da democracia, 163 ISBN 978-85-326-4219-6 (edição brasileira) ISBN 978-05-216-4607-9 (edição americana) 7 Administrando indivíduos empreendedores, 209 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 8 Agenciando nossos selfs, 234 Nikolas Referências, 275 Inventando nossos selfs : psicologia, poder e subjetividade / Nikolas Rose : coordenação da tradução: Arthur Arruda Leal Petrópolis, RJ Vozes, Índice analítico, 299 (Coleção Psicologia Social) Título original: Inventing our selves psychology. power, and personhood 1. Identidade (Psicologia) 2. Psicologia Filosofia História 3. Self Aspectos sociais 4. Self (Psicologia) 5. Subjetividade I. Título. II. Série. 11-07962 CDD-155.2 Índices para catálogo sistemático: 1. Self Psicologia 155.2 Editado conforme o novo acordo ortográfico. Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.1 COMO FAZER A HISTÓRIA DO SELF? O ser humano não é a base eterna da história e da cultura hu- manas, mas um artefato histórico e cultural. Esta é a mensagem de estudos provenientes de uma série de disciplinas que têm apontado, de diferentes maneiras, a especificidade da nossa con- cepção ocidental e moderna da pessoa. Em tais sociedades, suge- re-se, a pessoa é interpretada como um self, uma entidade natu- ralmente única e discreta, OS limites do corpo contendo, como se por definição, a vida interior da psique, na qual estão inscritas as experiências de uma biografia individual. Mas as sociedades oci- dentais modernas são peculiares em sua interpretação da pessoa como esse lugar natural de crenças e desejos, com capacidades inerentes, como a origem autoevidente de ações e decisões, como um fenômeno estável, que exibe consistência através de diferen- tes contextos e épocas. São também peculiares em fundamentar e justificar seus aparatos de regulação da conduta nessa concep- ção da pessoa. Por exemplo, é em termos dessa noção de self que opera grande parte do nosso sistema criminal legal, com suas noções de responsabilidade e intenção. Nossos sistemas de moralidade são, da mesma forma, historicamente peculiares em sua valorização da autenticidade e em seu emotivismo. Não menos historicamente peculiares são nossas políticas, que co- locam muita ênfase nos direitos individuais, nas escolhas indi- viduais e na liberdade individual. Foi nessas sociedades que a Psicologia nasceu como uma disciplina científica, como um co- nhecimento positivo do indivíduo e como uma maneira particu- lar de dizer a verdade sobre os humanos e de agir sobre eles. Além disso, ou ao menos assim parece, nessas sociedades os seres humanos passaram a entender a si mesmos e a se relacio- nar consigo mesmos como seres "psicológicos" passaram a interrogar e a narrar a si mesmos em termos de uma "vida psico- lógica interior" que guarda OS segredos de sua identidade, a qual eles devem descobrir e realizar, este que é padrão segundo qual se deve julgar uma vida autêntica. 39Como escrever a história desse "regime contemporâneo do ma algumas investigações sociológicas recentes. Mas tais análi- self"? Eu gostaria de sugerir uma abordagem particular deste as- ses pressupõem uma maneira de pensar que é, também ela, pro- sunto, uma abordagem que chamo de "genealogia da subjetiva- duto da história, e que emerge somente no século XIX. Pois é so- Essa expressão é estranha, mas, na minha opinião, impor- mente nesse momento histórico que, em um espaço geográfico li- tante. Sua importância repousa, em parte, no fato de que ela indica mitado e localizado, OS seres humanos passam a ser entendidos que tal empreendimento não é. Por um lado, ele não é uma tenta- como indivíduos que são selfs, cada um equipado com um domí- tiva de escrever a história da sucessão das ideias sobre a nio interior, uma "psicologia" que é estruturada pela interação en- tal como se deu na Filosofia, na literatura, na cultura e assim por tre a experiência biográfica particular e certas leis ou processos diante. Historiadores e filósofos há muito têm se engajado na es- gerais do animal humano. crita de tais narrativas, e não há dúvida de que elas sejam signifi- cativas e instrutivas (p. ex., TAYLOR, 1989; cf. a abordagem di- A genealogia da subjetivação toma essa compreensão indi- ferente de TULLY, 1993). Minha preocupação, entretanto, não é vidualizada, interiorizada, totalizada e psicologizada do que é ser com as "ideias sobre a pessoa", mas com as práticas dentro das humano como campo de um problema histórico, não como a quais as pessoas são entendidas e nas quais se age sobre elas em base para uma narrativa histórica. Uma tal genealogia tenta des- relação a sua criminalidade, sua saúde e doença, suas relações fa- crever uma série de caminhos pelos quais regime moderno do miliares, sua produtividade, seus papéis militares, e assim suces- self emerge não como produto de um processo gradual de escla- sivamente. É ingênuo assumir que, a partir de uma enumeração recimento, no qual OS humanos, amparados pelos esforços da das noções sobre ser humano na cosmologia, na filosofia, na es- ciência, chegariam por fim a reconhecer a sua verdadeira nature- tética ou na literatura, se possa derivar qualquer evidência sobre za, mas sim como uma série de práticas e processos contingen- OS pressupostos que moldam a conduta dos seres humanos em lo- tes, sem dúvida não tão refinados e dignos. Escrever tal genealo- cais e em práticas mundanos (cf. DEAN, 1994). Embora a genealo- gia é procurar outros caminhos que não aqueles nos quais 0 self gia da subjetivação se preocupe com ser humano tal como ele é funciona como um ideal regulatório em tantos aspectos de nossas pensado, ainda assim ela não é uma história das ideias: seu formas contemporâneas de vida não somente em nossas rela- nio de investigação é O das práticas e técnicas, ou do pensamento ções passionais com OS outros, mas em nossos projetos de vida, na medida em que procura ser técnico. nossa maneira de gerenciar indústrias e outras organizações, nos- SOS sistemas de consumo, muitos de nossos gêneros literários e de Da mesma maneira, minha abordagem precisa ser distinta das produção estética é uma espécie de plano "irreal" de tentativas de escrever a história da pessoa enquanto entidade psi- organizado de forma um tanto contingente e aleatória na interse- cológica, das histórias que procuram mostrar como épocas dife- ção de uma gama de histórias diferentes de formas de pensa- rentes produzem humanos com características psicológicas, emo- mento, técnicas de regulação, problemas organizacionais e assim ções, crenças e patologias diferentes. Tal projeto de história da por diante. pessoa é certamente imaginável, e algo próximo dessa aspiração é que delineia um grande número de estudos psicológicos recen- Dimensões da nossa relação com nós mesmos tes, alguns dos quais eu discuto aqui. Essa aspiração também ani- Uma genealogia da subjetivação é uma genealogia daquilo que podemos chamar, de acordo com Michel Foucault, de "nossa 8. Para evitar qualquer confusão, eu gostaria de apontar que termo subjetivação não é usado aqui para sugerir dominação por parte de outros, nem subordinação a um tema de poder estranho a Ele funciona, aqui, não como um termo de "critica" mas como um instrumento para pensamento crítico simplesmente para designar pro- cessos de "constituição" de sujeitos de um certo tipo. Como ficará evidente, meu 9. Faço alusão a uma frase de Michel Maffesoli: "há no coração do real, então, um 'ir- gumento ao longo deste capítulo está vinculado à análise que Michel Foucault reali- real' que é irredutível e cuja ação está longe de ser negligenciável" (MAFFESOLI, zou sobre a subjetivação. 1991: 12). 40 41relação com nós mesmos" 1986b)¹⁰. Seu campo de pelo menos Jacob Burckhardt: histórias da ascensão do indivíduo investigação inclui tipo de atenção que OS humanos têm direcio- como consequência de uma transição social geral da tradição para nado a si mesmos e aos outros em diferentes lugares, espaços e a Modernidade, do feudalismo para capitalismo, da Gemeins- épocas. Colocando de forma mais grandiosa, poder-se-ia dizer chaft para a da solidariedade mecânica para a orgâ- que é uma genealogia da "relação do ser consigo mesmo" e das nica, e assim por diante (BURCKHARDT, [1860] 1990). Essas análi- formas técnicas que ela tem assumido. Isto é, ser humano é ses encaram as mudanças na forma como OS seres humanos en- tipo de criatura cuja ontologia é histórica. E a história do ser huma- tendem e agem sobre si mesmos como resultado de eventos his- no requer, portanto, uma investigação das técnicas intelectuais e tóricos "mais fundamentais" e localizados em outro lugar em re- práticas que vêm compondo OS instrumentos através dos quais gimes de produção, em mudanças tecnológicas, em alterações ser tem se constituído historicamente: é uma questão de analisar nas formas demográficas ou familiares, na "cultura". Sem dúvida, "as problematizações através das quais ser necessariamente se há eventos em cada um desses domínios que são significativos em oferece ao pensamento e as práticas em cujas bases essas pro- relação ao problema da subjetivação. Mas, por mais significativos blematizações se formam" (FOUCAULT, 1985: 11; cf. que sejam, é importante insistir em que tais mudanças não trans- 1992). O foco de tal genealogia não é, portanto, "a história da pes- formam as maneiras de ser humano em virtude de alguma "expe- soa", mas a genealogia das relações que OS seres humanos têm es- riência" que eles produzam. Relações cambiantes de subjetiva- tabelecido com eles mesmos aquelas nas quais vieram a se rela- ção, quero argumentar, não podem ser estabelecidas por deriva- cionar consigo como selfs. Essas relações são construídas e histó- ção ou interpretação de outras formas sociais ou culturais. Assu- ricas, mas não devem ser localizadas numa espécie de domínio mir explícita ou implicitamente que elas possam ser assim deriva- cultural amorfo. Pelo contrário, elas são abordadas pela perspecti- das ou interpretadas é presumir a continuidade dos seres huma- va do "governo" (FOUCAULT, 1991; cf. GORDON & nos como sujeitos da história essencialmente equipados com a ca- MILLER, 1991). Isto é, nossa relação com nós mesmos assumiu pacidade de dar significado a sua experiência (cf. DEAN, 1994). sua forma atual porque tem sido objeto de toda uma variedade de Mas as maneiras como OS humanos "dão sentido à esquemas mais ou menos racionalizados, que têm buscado mol- têm sua própria história. Dispositivos de "produção de sentido" dar nossa maneira de entender e encenar nossa existência como grades de visualização, vocabulário, normas e sistemas de julga- seres humanos em nome de certos objetivos masculinidade, fe- mento não são eles mesmos produzidos pela experiência; eles minilidade, honra, modéstia, propriedade, civilidade, disciplina, produzem experiência (cf. JOYCE, 1994). Essas técnicas intelec- distinção, eficiência, harmonia, satisfação, virtude, prazer a lista tuais não vêm prontas, mas têm que ser inventadas, refinadas e é tão diversa e heterogênea quanto interminável. estabilizadas, para serem disseminadas e implantadas de diferen- Uma das razões para enfatizar esse ponto é distinguir minha tes maneiras em diferentes práticas escolas, famílias, ruas, locais abordagem de uma série de análises recentes que têm, explícita de trabalho, tribunais. Se usamos termo "subjetivação" para de- ou implicitamente, entendido as formas cambiantes da subjetivi- signar todos esses processos e práticas heterogêneas através dos dade ou identidade como consequências de transformações quais seres humanos passam a se relacionar consigo mesmos e ciais e culturais mais amplas como a Modernidade, a Modemi- com outros como sujeitos de um certo tipo, então a subjetivação dade Tardia ou a sociedade de risco (BAUMAN, 1991; tem sua própria história. E a história da subjetivação é mais práti- 1992; GIDDENS, 1991; LASH & FRIEDMAN, 1992). Esse trabalho, ca, mais técnica e menos unificada do que as explicações socioló- é claro, continua uma longa tradição de narrativas, que vem desde gicas admitem. 10. importante entender isso no modo reflexivo, e não no modo se segue, essa expressão sempre designa essa relação, não implicando nenhum self substantivo como objeto da 11. Da comunidade para a sociedade [N.T.]. 42 43Assim, a genealogia da subjetivação foca diretamente nas trabalho, na elevação da autoestima que procuraram tornar es- práticas que localizam OS seres humanos em "regimes de pessoa" ses problemas inteligíveis e, ao mesmo tempo, administráveis¹² específicos. Ela não escreve uma história contínua do self, mas busca explicações para a diversidade de linguagens da "subjetivi- Tecnologias dade" que vem tomando forma caráter, personalidade, identida- de, reputação, honra, cidadão, indivíduo, normal, lunático, paci- Que meios foram inventados para governar 0 ser humano, ente, cliente, marido, mãe, filha e para as normas, técnicas e re- para produzir ou moldar a conduta nas direções desejadas, e como lações de autoridade dentro das quais essas linguagens têm circu- esses programas têm buscado encamar-se em formas técnicas es- lado (nas práticas legais, domésticas, industriais e em outras) de pecíficas? A noção de tecnologia a princípio parece antitética ao modo a agir sobre a conduta das pessoas. Tal investigação pode domínio do ser humano, a ponto de protestos sobre a tecnologiza- proceder ao longo de uma série de trajetórias interligadas. ção inapropriada da humanidade ter sido a base de muitas cas. Entretanto, nossa própria experiência de nós mesmos como certo tipo de pessoas criaturas livres, autorrealizadoras, dotadas Problematizações de poderes pessoais é resultado de uma série de tecnologias Onde, como, e por quem são tornados problemáticos certos humanas, tecnologias que tomam por as maneiras de ser aspectos do ser humano, de acordo com que sistemas de julga- humano. Aqui, termo tecnologia refere-se a qualquer conjunto mento e em relação a que preocupações? Para dar alguns exem- estruturado por uma racionalidade prática governada por uma plos pertinentes, pode-se considerar as formas como a linguagem meta mais ou menos consciente. Tecnologias humanas são agre- da constituição e do caráter passa a operar dentro de temas como gados híbridos de saberes, instrumentos, pessoas, sistemas de declínio urbano e degeneração temas articulados por psiquia- julgamento, construções e espaços, sustentados no nível progra- tras, planejadores urbanos e políticos nas últimas décadas do sé- mático por certos pressupostos e objetivos aos seres culo XIX ou as formas como, nos anos 1920 e 1930, vocabulário humanos. Pode-se considerar a escola, a prisão e 0 asilo como do ajustamento e do desajustamento passa a ser usado para pro- exemplos de tecnologias humanas de um tipo específico aquelas blematizar a conduta em lugares tão diversos quanto 0 local de que Foucault chamou de disciplinares e que operam em termos de trabalho, O tribunal e a escola. Colocar O problema dessa maneira é uma estruturação detalhada do espaço, do tempo e das relações ressaltar a primazia do patológico em relação ao normal na genea- entre OS indivíduos, através de procedimentos de observação hie- logia da subjetivação de maneira geral, nossos vocabulários e rárquica e julgamento normalizador, através de tentativas de en- técnicas da pessoa não emergiram dentro do campo de reflexão volver esses julgamentos em procedimentos e julgamentos sobre indivíduo normal, O caráter normal, a personalidade nor- que indivíduo utiliza visando conduzir sua própria conduta mal, a inteligência normal, mas, pelo contrário, a própria noção de normalidade emergiu a partir da preocupação com tipos de con- duta, pensamento e expressão considerados problemáticos ou pe- 12. Sem dúvida, isso é um exagero da situação. É preciso olhar, por um lado, para a rigosos (cf. ROSE, 1985a). Esta é uma questão tanto metodológica forma como as próprias reflexões filosóficas se organizaram em tomo de questões de quanto epistemológica: na genealogia da subjetivação, 0 lugar de patologia basta pensar na imagem da estátua privada de todo input sensorial em fi- lósofos sensacionalistas, tal como Condillac e também para a forma como a Filosofia honra não é ocupado por filósofos refletindo sobre a natureza da é animada por problemas de governo da conduta e articulada com eles (sobre Condil- pessoa, da vontade, da consciência, da moralidade etc. Mas, ao lac, cf. ROSE, 1985a; sobre Locke, cf. TULLY, 1993; sobre Kant, cf. HUNTER, 1994). contrário, pelas práticas cotidianas nas quais a conduta se tornou 13. Argumentos semelhantes sobre a necessidade de se analisar o self como tecnoló- gico foram recentemente propostos em diversos lugares. Cf. esp. a discussão no re- problemática para OS outros ou para si mesmo, e pelos textos e cente livro de Elspeth Probyn (1993). Precisamente o que é designado pelo termo "tec- programas mundanos seja na administração de asilos, no trata- nológico" é em geral menos claro. Como sugiro adiante e no capítulo 8, uma análise das mento médico da mulher, nas formas recomendáveis de cuidar formas tecnológicas de subjetivação precisa se desenvolver em termos da relação entre das crianças, nas novas ideias sobre a administração do local de as tecnologias para o governo da conduta e as técnicas intelectuais, corporais e éticas que estruturam a relação do ser com si mesmo em diferentes momentos e locais. 44 45(FOUCAULT, 1977; cf. MARKUS, 1993, para um exame da forma racterística distintiva das genealogias desse tipo. Elas procuram espacial de tais agregados). Um segundo exemplo de tecnologia distinguir as diferentes pessoas, coisas, dispositivos, associa- móvel e multivalente é O da relação pastoral, uma relação de orien- ções, maneiras de pensar e de julgar que procuram, reivindicam, tação espiritual entre a figura de autoridade e cada membro de seu adquirem autoridade, ou aos quais se outorga autoridade. Essas rebanho, que incorpora técnicas tais como a confissão e a autorre- genealogias mapeiam as diferentes configurações de autoridade velação, a exemplaridade e O discipulado, infundidas na pessoa e subjetividade, bem como OS diversos vetores de força e de con- através de uma variedade de esquemas de autoinspeção, autodes- traforça instalados e possíveis. E elas procuram explorar confiança, autorrevelação, autodeciframento e autocultivo. Tal a variedade de formas pelas quais a autoridade tem sido autoriza- como a disciplina, essa tecnologia pastoral é capaz de se articu- da, sem reduzi-las à intervenção com cobertura do Estado ou a lar em uma gama de formas diferentes na relação do padre processos de empreendimento moral, mas examinando em parti- com O paroquiano, do terapeuta com paciente, do assistente cular as relações entre as capacidades das autoridades e OS regi- social com O cliente e na relação do sujeito "educado" para com mes de verdade. ele mesmo. Não devemos entender as relações de subjetivação disciplinares e pastorais como histórica ou eticamente opostas: OS regimes postos em prática em escolas, asilos e prisões englo- Teleologias bam ambas. Talvez a insistência sobre uma analítica das tecno- logias humanas seja uma das características mais distintivas da Quais são as formas de vida que configuram metas, ideais, ou abordagem que estou advogando. Tal análise não parte da ideia exemplos para essas diferentes práticas de ação sobre pessoas: de que tecnologizar a conduta humana é algo maligno. As tec- personas profissionais exercendo uma vocação com sabedoria e nologias humanas produzem e enquadram seres humanos como imparcialidade; viril guerreiro que persegue uma vida de honra certos tipos de seres cuja existência é simultaneamente possi- através de um risco calculado do corpo; pai responsável que vive bilitada e governada por sua organização no interior de um cam- uma vida de prudência e moderação; trabalhador que aceita seu po tecnológico. fardo com uma docilidade fundamentada na crença da inviolabili- dade da autoridade ou de uma recompensa em uma vida por vir; a boa esposa, cumprindo seus deveres domésticos com eficiência Autoridades silenciosa e autoembotamento; indivíduo empreendedor, esfor- A quem é outorgada ou: quem reivindica a capacidade de çando-se por promover progressos seculares na "qualidade de falar a verdade sobre OS seres humanos, sua natureza e seus pro- vida"; amante apaixonado, habilidoso nas artes do prazer? Quais blemas, e que caracteriza as verdades sobre as pessoas que são são OS códigos de conhecimento que dão apoio a esses ideais? A outorgadas a tais autoridades? Quais são OS aparatos através dos que valorização ética eles estão atados? Contra aqueles que suge- quais essas autoridades são autorizadas universidades, apara- rem que um único modelo de pessoa adquire proeminência numa to legal, igrejas, a política? Até que ponto a autoridade da autori- dada cultura, é importantes enfatizar a heterogeneidade e a espe- dade depende da reivindicação de um conhecimento positivo, de cificidade dos ideais e modelos de subjetividade efetivados em di- sabedoria, virtude, de experiência e julgamento prático, de capa- ferentes práticas, bem como as maneiras pelas quais eles são arti- cidade de resolução de conflitos? Como as autoridades são, elas culados a problemas e soluções específicos que dizem respeito à mesmas, governadas pelos códigos legais, pelo mercado, pelos conduta humana. Creio ser somente a partir dessa perspectiva protocolos da burocracia, por éticas profissionais? E qual é a rela- que se pode identificar a peculiaridade dessas tentativas progra- ção entre as autoridades e aqueles que estão sujeitos a elas: padre máticas de instalar um único modelo de indivíduo como ideal e paroquiano, médico e paciente, patrão e empregado, terapeuta e ético que atravessa uma gama de diferentes lugares e práticas. As cliente? Esse foco sobre a heterogeneidade das autoridades, mais seitas puritanas discutidas por Weber, por exemplo, eram peculia- do que sobre a singularidade do "poder", parece-me ser uma ca- res em sua tentativa de assegurar que o modo de comportamento 46 47individual dado em termos de sobriedade, dever, moderação, casa sustentem objetivos políticos ao invés de se opor a eles¹⁴ e assim por diante, se aplicasse a práticas tão diversas quanto No caso que estamos discutindo aqui, as das pes- prazer do entretenimento popular e trabalho dentro de casa (cf. soas aqueles "indivíduos livres" de quem liberahsmo depende WEBER, [1905] 1976). Em nosso próprio tempo, a economia, na no que tange a sua legitimidade e funcionalidade políticas assu forma de um modelo de racionalidade econômica e de escolha ra- mem uma importância especial. Talvez possamos dizer que cional, assim como a Psicologia, na forma de um modelo de indi- campo estratégico geral de todos OS programas de governo que se víduo psicológico, têm sido a base de tentativas similares de uni- consideram liberais tem sido definido pelo seguinte problema ficação da conduta de vida em torno de um único modelo do que como governar indivíduos livres de forma tal que eles exerçam sua seja a subjetividade apropriada. Mas a unificação da subjetiva- liberdade da maneira apropriada? ção deve ser vista como um objetivo de programas ou como um pressuposto de certos estilos de pensamento, não governo dos outros e governo de si como uma característica das culturas humanas. Cada uma dessas direções de investigação é inspirada, em larga medida, pelos escritos de Michel Foucault. Em particular, claro, elas surgem das sugestões de Foucault em relação à genea- Estratégias logia da arte do governo em que governo é em ge- Como esses procedimentos que visam à regulação das capa- ral, como englobando todos programas e estratégias mais ou cidades das pessoas se unem a objetivos morais, sociais ou políti- menos racionalizados para "a condução da conduta" e de sua COS mais amplos, que dizem respeito às características desejáveis concepção de que se refere à emergência de e indesejáveis da população, da força de trabalho, da família, da racionalidades políticas, ou mentalidades de governo, em que sociedade? De particular importância aqui são as divisões e as re- governo passa a ser uma questão de administração calculada das lações estabelecidas entre as modalidades do governo da conduta questões de cada um e de todos de maneira a alcançar certos obje- às quais se outorga um status político e aquelas modalidades pro- tivos desejáveis (FOUCAULT, 1991; cf. a discussão sobre a noção movidas através de autoridades e aparatos considerados não polí- de governo em GORDON, 1991). Governo, aqui, não indica uma ticos sejam eles O conhecimento técnico dos experts, 0 conheci- teoria, mas uma certa perspectiva a partir da qual se pode tornar mento judicial do tribunal, conhecimento organizacional dos ge- inteligível a diversidade de tentativas feitas por diferentes tipos de rentes ou conhecimento "natural" da família ou da mãe. Típica autoridades para agir sobre as ações dos outros, buscando atingir das racionalidades de governo que se consideram "liberais" é a objetivos como prosperidade nacional, harmonia, virtude, produ- delimitação simultânea da esfera do político por referência ao di- tividade, ordem social, disciplina, emancipação, autorrealização e reito de outros domínios mercado, a sociedade civil, a família, assim por diante... Essa perspectiva também direciona nossa sendo esses OS três mais comumente empregados -, bem como a atenção para a maneira frequente como as estratégias de condu- invenção de uma gama de técnicas que pretendem agir sobre es- ção da conduta operam através de tentativas de moldar que Fou- cault chama de "tecnologias do self"" "mecanismos de autodire- ses eventos sem violar sua autonomia. É por essa razão que OS sa- beres e as formas de expertise que dizem respeito às característi- cas internas dos domínios a serem governados assumem especial 14. Não se trata, é claro, de sugerir que o conhecimento e a expertise não desempe- importância em estratégias e programas liberais de governo, pois nham um papel crucial em regimes não liberais de governo da conduta basta pensar no papel dos médicos e administradores nos programas de exterminação em massa da que se pretende não é "dominá-los" através do governo, e sim Alemanha nazista, ou no papel dos trabalhadores partidários nas relações pastorais de conhecê-los, compreendê-los e tratá-los de tal maneira que OS estados do Leste Europeu antes de sua "democratização", ou ainda no papel da ex- eventos dentro deles a produtividade e as condições de comér- pertise de planejamento em regimes centralizados de planejamento como a Gosplan cio, as atividades das associações civis, as maneiras de criar crian- na ex-URSS. No entanto, as relações entre as formas de conhecimento e as práticas designadas como políticas, de um lado, e aquelas que alegam uma ação não política ças e de organizar as relações conjugais e finanças dentro de sobre seus objetos, de outro, foram diferentes em cada caso. 48 49ção", para a maneira como OS indivíduos experenciam, entendem. pastoral e, mais tarde, às práticas educacionais, médicas e psico- julgam e conduzem si mesmos (FOUCAULT, 1986a, 1986b, 1988). lógicas 1986b:11). As tecnologias do self assumem a forma de uma elaboração de técnicas para condução da relação de cada um consigo a visão que venho esboçando deriva em gran- por exemplo, ao exigir que cada um se relacione consigo mesmo de parte da maneira como Foucault pensa essas questões. No en- de maneira epistemológica (conheça a si mesmo), despótica (con- tanto eu gostaria de desenvolver seus argumentos em vários as- trole a si mesmo), ou de outras maneiras (cuide de si mesmo). Elas pectos. Primeiro, como tive a oportunidade de mostrar em outro são incorporadas em práticas técnicas específicas (confissão, es- texto, a noção de "técnicas do self" pode ser um pouco enganosa. crita de diários, grupos de discussão, O programa dos doze passos O self não constitui um objeto trans-histórico das técnicas de se dos alcoólicos anônimos). E são sempre praticadas sob a autorida- tornar humano, mas apenas uma maneira pela qual OS humanos de, real ou imaginária, tanto de algum sistema de verdade quanto têm sido levados a entender a si mesmos e se relacionar consigo de algum indivíduo autoritário, seja ele teológico e pastoral, psico- mesmos (HADOT, 1992). Em práticas diferentes, essas relações, lógico e terapêutico, ou disciplinar e tutelar. que são moldadas em termos de individualidade, caráter, consti- Uma série de questões surge a partir dessas tuição, reputação, personalidade e assim por diante, não consti- A primeira concerne à questão da própria ética. Em seus últi- tuem nem diferentes versões do self, nem partes de uma noção maior de self. Além disso, a relevância central da sexualidade e do mos escritos, Foucault utilizou a noção de "ética" como uma de- signação geral para suas investigações sobre a genealogia da nos- desejo na nossa relação com nós mesmos introspecção, autoex- sa atual forma de "preocupação" com self (FOUCAULT, 1979b, ploração, autossatisfação deve permanecer uma questão aberta 1986a, 1986b; cf. MINSON, 1993). As práticas éticas, para Foucault, à investigação histórica. Em outro lugar, sugeri que 0 próprio self não pertencem ao domínio da moralidade, na medida em que se tornou um objeto de valorização, um regime de subjetivação em sistemas morais são, em geral, esquemas universais de proibição que desejo foi libertado de sua dependência em relação à lei de e interdição tu não farás isto, tu não farás aquilo sendo muito uma sexualidade interior, tendo sido transformado em uma série frequentemente articulados a um código mais ou menos formali- de paixões pela descoberta e pela realização da identidade do pró- zado. A ética, por outro lado, refere-se ao domínio dos conselhos prio self (ROSE, 1990). práticos específicos sobre como cada um deve se preocupar con- Além disso, defendo ser necessário estender a análise da rela- sigo mesmo, fazer de si mesmo um objeto de solicitude e atenção, ção entre governo e subjetivação para além do campo da ética, se conduzir a si mesmo nos diversos aspectos de sua existência coti- por ética entendermos todos aqueles estilos de relação com self diana. Foucault argumenta que períodos culturais distintos dife- que são estruturados pela divisão entre verdade e falsidade, entre rem quanto ao peso que suas práticas de regulação da conduta CO- permitido e proibido. É preciso examinar, também, governo locam sobre as injunções morais codificadas e OS repertórios práti- dessas relações ao longo de alguns outros eixos. COS de aconselhamento ético. Entretanto, é possível empreender uma genealogia de nosso regime ético contemporâneo que, como Um desses eixos conceme à tentativa de inculcar uma certa Foucault sugeriu, encoraja OS seres humanos a relacionarem-se relação consigo mesmo através de transformações nas "mentali- com eles mesmos como sujeitos dotados de "sexualidade" e a dades", ou daquilo que podemos chamar de "técnicas intelec- nhecer a si mesmos" através de uma hermenêutica do self; a ex- tuais" leitura, memorização, escrita, habilidade numérica e plorar, descobrir, revelar e viver à luz dos desejos que compõem assim por diante (cf., para alguns exemplos fortes, EISENSTEIN, sua verdade. Tal genealogia viria a perturbar a aparência que re- 1979; GOODY & WATT, 1963). No curso do século XIX, por vestiu tal regime, porque ela explora a maneira como determina- exemplo, vê-se, na Europa e nos Estados Unidos, desenvolvi- das práticas espirituais encontradas nas éticas da Grécia, de mento de uma multidão de projetos visando à transformação do Roma e do cristianismo primitivo foram incorporadas ao poder intelecto a serviço de objetivos específicos, cada um dos quais procurando conduzir a uma relação particular com self através 50 51da implementação de certas capacidades de leitura, escrita e 1967, 1977; cf. tb. SMITH, 1992, para a história da noção de "inibi- cálculo. Um exemplo é a maneira pela qual, nas últimas décadas ção" e de sua relação com a preocupação vitoriana com a manifes- do século XIX, educadores republicanos promoveram a alfabeti- tação externa da imperturbabilidade e do autodomínio através do zação numérica nos Estados Unidos, em particular das capacida- exercício do controle sobre corpo). Uma relação análoga com des numéricas facilitadas pela decimalização, de forma a gerar, corpo, embora substantivamente diferente, foi elemento-chave na naqueles assim equipados, um tipo particular de relação com automodelagem de uma certa persona estética na Europa do sé- self e com mundo. Um self numericamente alfabetizado seria culo XIX, incorporada numa certa maneira de se vestir, mas tam- um self calculador, que estabeleceria uma relação prudente com bém no cultivo de técnicas corporais tais como a natação, as quais futuro, com orçamento, com comércio, com a política e com pretendiam produzir e exibir uma relação particular com natural a conduta da vida em geral (CLINE-COHEN, 1982: 148-149; cf. (SPRAWSON, 1992). Teóricos da questão do gênero começam a ROSE, 1991). analisar as maneiras como a performance adequada da identidade Um segundo eixo diz respeito às corporalidades ou técnicas sexual esteve historicamente ligada à inculca de certas técnicas corporais. Evidentemente, antropólogos e outros estudiosos têm do corpo (BROWN, 1989; BUTLER, 1990; BORDO, 1993). As ma- investigado em detalhe a formação cultural dos corpos do com- neiras de se postar, andar, correr, manter a cabeça erguida e posi- portamento, da expressão da emoção etc. como eles diferem de cionar membros não são apenas culturalmente relativas ou ad- cultura para cultura e dentro de cada cultura entre gêneros, faixas quiridas através da socialização do gênero; elas são regimes do etárias, grupos de status, e assim por diante. Marcel Mauss forne- corpo que procuram subjetivar em termos de uma certa verdade ce relato clássico sobre as maneiras como corpo, enquanto ins- de gênero, inscrevendo uma relação particular com self num re- trumento técnico, é organizado de forma diferente em culturas di- gime corporal: regime que é prescrito, racionalizado e ensinado ferentes são diferentes as maneiras de andar, sentar, cavar, mar- em manuais de aconselhamento, etiqueta e bons modos, além de char (MAUSS, 1979a; cf. BOURDIEU, 1977). Entretanto, a genealo- ser infundido tanto por sanções quanto pela sedução (cf. estu- gia da subjetivação não está preocupada com a relatividade cultu- dos reunidos em BREMER & ROODENBURG, 1991). ral das capacidades corporais em si e por si, mas com as maneiras Esses comentários procuram indicar algo da heterogeneidade pelas quais diferentes regimes corporais foram inventados e im- das ligações entre governo dos outros e governo de si. É impor- plantados em tentativas racionalizadas de produzir uma relação tante acentuar dois outros aspectos dessa heterogeneidade. O pri- particular com self e com OS outros. Norbert Elias deu muitos meiro diz respeito à diversidade de modos pelos quais uma relação exemplos fortes de como códigos explícitos de conduta corporal consigo mesmo é inculcada. Existe uma tentação de acentuar os bons modos, etiqueta e automonitoramento das funções e ações elementos de autodomínio e as restrições sobre OS desejos e ins- corporais eram inculcados nos indivíduos ocupando diferentes tintos em que estão implicados muitos regimes de subjetivação posições dentro do aparato da corte de Luís XIV, em meados do a injunção de controlar ou civilizar uma natureza interior excessi- século XVIII (ELIAS, 1983; cf. ELIAS, 1978; OSBORNE, 1996). A va. Certamente, esse tema comparece em muitos debates do sé- disciplina do corpo do indivíduo patológico tanto na prisão quanto culo XIX sobre a ética e caráter, tanto para as classes regentes no asilo do século XIX não envolveu apenas sua organização em quanto para as respeitáveis classes trabalhadoras um paradoxal um regime externo de vigilância hierárquica e de julgamento nor- "despotismo do self" no coração da doutrina liberal da liberda- malizador, sua união através de regimes moleculares que gover- de do sujeito (retiro essa formulação de 1996; cf. navam movimento tanto na dimensão temporal quanto na espa- VALVERDE, 1991). Entretanto, existem muitos outros modos pe- cial: ele também buscava impor uma relação interna entre indi- los quais essa relação consigo mesmo pode ser estabelecida e, víduos patológicos e seus corpos relação na qual comporta- mesmo dentro do exercício de domínio de si, há uma variedade de mento corporal podia tanto manifestar quanto manter um controle configurações através das quais pode-se ser encorajado a dominar disciplinar que a pessoa exercia sobre si mesma (FOUCAULT, a si mesmo (cf. SEDGWICK, 1993). Dominar a própria vontade em 52 53nome do caráter, através da inculca de hábitos e rituais de abne- rogeneidade deve ser tida como mais comum do que a homoge- gação, prudência e previsão, por exemplo, é diferente de dominar neidade consideremos, por exemplo, as diferentes configura- OS proprios desejos ao trazer suas raízes à consciência através de ções da subjetividade no aparato legal em qualquer dado momen- hermenêuticas reflexivas que visam libertar-se das consequências to, a diferença entre as noções de status e reputação, tal como autodestrutivas da repressão, da projeção e da identificação. apareciam em procedimentos civis no século XIX e, finalmente, a Além disso, a própria forma da relação pode variar. Ela pode elaboração simultânea de uma nova relação com infrator en- ser uma relação de conhecimento, como na injunção de conhecer quanto uma personalidade patológica nos tribunais criminais e no a mesmo que, para Foucault, começa na confissão cristã e vai sistema prisional (cf. PASQUINO, 1991). até as técnicas psicoterápicas contemporâneas: aqui, OS códigos Nosso próprio presente parece marcado por um certo nivela- de conhecimento são inevitavelmente fomecidos não pela pura in- mento dessas diferenças, de modo que as pressuposições concer- trospecção, mas pela tradução da introspecção pessoal em um nentes aos seres humanos em diferentes práticas compartilham cabulário particular de sentimentos, crenças, paixões, desejos, um traço familiar humanos com selfs dotados de autonomia, valores ou que quer que seja uma tradução que ocorre de acor- possibilidade de escolha e autorresponsabilidade, equipados com do com um código explicativo particular, derivado de alguma fon- aspirações psicológicas à autossatisfação, real ou potencialmente te de autoridade. Ou então, a relação pode ser de preocupação e dirigindo suas vidas como uma espécie de empreendimento de si. solicitude, como nos projetos para cuidado de si através da ação Mas esse é precisamente ponto de partida de uma investigação sobre corpo, qual deve ser educado, protegido, salvaguardado genealógica. De que maneira esse regime do self foi articulado, por regimes de dieta, minimização do estresse e autoestima. Da sob que condições, e em relação a que demandas e formas de au- mesma forma, a relação com a autoridade pode variar. Considere- toridade? Sem dúvida, temos visto uma proliferação de experts da mos, por exemplo, algumas das cambiantes configurações de au- conduta humana ao longo dos últimos cem anos: economistas, toridade no governo da loucura e da saúde mental: a relação de gerentes, contadores, advogados, conselheiros, terapeutas, médi- domínio que era exercida entre médico do asilo e a pessoa louca COS, antropólogos, cientistas políticos, peritos em políticas sociais, na medicina moral do final do século XVIII; a relação de disciplina e assim por diante. Mas eu diria que a "unificação" dos regimes de e autoridade institucional que vigorava entre médico de asilo do subjetivação em termos do self tem muito a ver com surgimento século XIX e 0 interno; a relação pedagógica que vigorava entre OS de uma forma particular de experts positivos do ser humano higienistas mentais da primeira metade do século XX e aqueles aqueles das disciplinas psi, com sua "generosidade" Por "genero- sobre OS quais buscavam agir: pais e filhos, alunos e professores, sidade" quero dizer que, a visões tradicionais da trabalhadores e gerentes, generais e soldados; a relação de sedu- exclusividade do conhecimento profissional, as disciplinas psi têm ção, conversão e exemplaridade que vigora hoje entre psicotera- sido felizes, até mesmo ansiosas, por "entregar-se" por em- peuta e cliente. prestar seus vocabulários, explicações e formas de julgamento Como fica evidente a partir da discussão precedente, embora a outros grupos profissionais e por implantá-los em seus clientes as relações consigo mesmo inculcadas em qualquer momento his- (ROSE, 1992b; cf. este volume, cap. 4). As disciplinas psi, em parte tórico possam se assemelhar entre si de várias maneiras a noção como consequência da sua heterogeneidade e da falta de um pa- vitoriana de caráter, por exemplo, foi amplamente difundida atra- radigma único, têm adquirido uma peculiar capacidade de pene- vés de muitas práticas diferentes cabe à investigação empírica tração em relação a práticas para a condução da conduta. Elas têm podido não só fornecer toda uma variedade de modelos de sujeito, mapear a topografia da subjetivação. Não é uma questão, portan- como também prover receitas praticáveis de ação em relação ao to, de narrar uma história geral da ideia de pessoa ou de self, mas governo de pessoas por profissionais em diferentes locais. Sua po- de rastrear as formas técnicas assumidas pela relação consigo tência tem sido ainda mais intensificada por sua habilidade em su- mesmo em várias práticas legais, militares, industriais, familia- plementar essas qualidades praticáveis com uma legitimidade de- res, econômicas. E, mesmo no interior de qualquer prática, a hete- rivada de sua pretensão de dizer a verdade sobre OS seres huma- 54 55nos. As disciplinas psi se disseminaram rapidamente através de Enquanto esses mesmos intelectuais vitorianos estavam proble- sua pronta tradutibilidade para programas de reforma dos meca- matizando toda sorte de aspectos da vida social em termos de ca- nismos de autodireção dos indivíduos, seja na clínica, na sala de ráter moral, de ameaças para caráter, de fraqueza de e aula, no consultório, na coluna de aconselhamento das revistas ou da necessidade de se promover 0 caráter bom, afirmando que as nos programas confessionais de televisão. É claramente verdade virtudes de caráter independência, que as disciplinas psi não gozam de um respeito público particu- autocontrole, autoaperfeiçoamento deveriam larmente alto, e que seus praticantes são frequentemente alvos de ser inculcados nos outros através de ações positivas do Estado e pilhéria. Mas não devemos nos deixar enganar por isso acabou do estadista, eles faziam de si mesmos sujeitos de um trabalho éti- por impossível conceber a subjetividade, experienciar a CO relacionado a este, mas bem diferente (COLLINI, 1979: 29-32). subjetividade própria ou de outrem, ou governar a si ou a outros De forma semelhante, ao longo do século XVII vê-se a emergência sem as disciplinas psi. de programas bastante novos para a reforma da autoridade secular dentro do funcionarismo público, do aparato do governo colonial e Retornemos à questão da diversidade dos regimes de subjeti- das organizações da indústria e da política, nas quais a persona do vação. Uma outra dimensão da heterogeneidade surge do fato de funcionário público, do burocrata, do governador colonial se tor- que as maneiras de governar outros estão ligadas não somente nam alvos de todo um novo regime ético de desinteresse. justi- à subjetivação do governado, mas também à subjetivação daque- ça, respeito pelas regras, distinção entre 0 desempenho do tra- les que governam a conduta. Assim, Foucault afirma que, para balho e as paixões privadas, e assim por diante (WEBER, 1978; gregos, a problematização do sexo entre homens era ligada à exi- cf. HUNTER, 1993a, 1993b, 1993c; 1993; DU GAY, 1995; gência de que aquele que viesse a exercer autoridade sobre outros OSBORNE, 1994). E, evidentemente, muitos daqueles que estavam deveria primeiro ser capaz de exercer domínio sobre suas próprias paixões e apetites pois somente aquele que não fosse escravo de sujeitos ao governo dessas autoridades funcionários nativos nas si mesmo teria competência para exercer autoridade sobre OS ou- colônias, donas de casa das classes respeitáveis, pais, professores tros (FOUCAULT, 1988; MINSON, 1993: 20-21). Peter Brown cha- de escolas, trabalhadores, governantas eram, eles mesmos, cha- ma atenção para o trabalho exigido de um jovem das classes privi- mados a desempenhar seus papéis na fabricação de pessoas e a legiadas no Império Romano do século II, que era aconselhado a inculcar nelas uma determinada relação consigo mesmas. remover de si mesmo todos OS aspectos de "suavidade" e "femini- A partir dessa perspectiva, não é mais surpresa que seres lidade" em sua andadura, no ritmo de sua fala, em seu autocon- humanos com frequência se encontrem resistindo às formas de trole de forma a manifestar-se como capaz de exercer autoridade subjetividade que eles são levados a adotar. A resistência se por sobre outros (BROWN, 1989: 11). Gerhard Oestreich sugere que 0 isso se entende oposição a um regime particular de condução da ressurgimento da ética estoica na Europa dos séculos XVII e XVIII conduta não requer nenhuma teoria da ação. Ela não exige ne- foi uma resposta à crítica à autoridade, considerada ossificada e nhuma explicação das forças inerentes a cada ser humano: amor à corrupta: virtudes como amor, confiança, reputação, liberdade, busca pelo aumento dos próprios poderes ou capacida- poderes espirituais, respeito pela justiça etc., tornaram-se OS meios des, luta pela emancipação forças que, conflitantes com a civili- pelos quais as autoridades passaram a se renovar zação e a disciplina, seriam anteriores às suas demandas. Não pre- 1982: 87). Stephan Collini descreveu as novas maneiras pelas quais cisamos de uma teoria da ação para explicar a resistência, assim as classes intelectuais vitorianas passaram a problematizar a como não precisamos de uma epistemologia que dê conta da pro- mesmas em termos de qualidades como imperturbabilidade e al- dução dos efeitos de verdade. Os seres humanos não são sujei- truísmo: interrogavam-se em termos de uma ansiedade constante tos unificados de um regime coerente de governo que produz pes- sobre a vontade e a sua fraqueza, e encontravam, em certas for- soas da forma como sonha. Pelo contrário, eles vivem suas vidas mas de trabalho social e filantrópico, um antídoto para 0 auto- num movimento constante, que atravessa diferentes práticas, as questionamento (COLLINI, 1991; discutido em 1996) quais OS subjetivam de maneiras diferentes. Dentro dessas dife- 57rentes práticas, as pessoas são tratadas e entendidas como seres práticas que pressupõem OS seres humanos como sujeitos de humanos de diferentes tipos. As técnicas que permitem a alguém dado. Deste campo complexo e disputado de oposições, alianças e relacionar-se consigo mesmo enquanto um sujeito dotado de ca- disparidades de regimes de subjetivação, surgem acusações de pacidades únicas, merecedoras de respeito, vão de encontro a desumanidade, críticas, exigências de programas alter- práticas de relação consigo mesmo enquanto um alvo da nativos, bem como a invenção de novos regimes de subjetivação. na, do dever e da docilidade. A exigência humanista de que cada Se escolhemos designar algumas dimensões desses conflitos um se decifre em termos da autenticidade de suas próprias ações por resistência, isso é por si mesmo uma perspectiva: exige que vai de encontro à exigência política e institucional de que, em exerçamos um julgamento. É infrutífero reclamar que tal perspec- madas de decisão ocorridas em contextos organizacionais, se aja tiva não deixa lugar para a elaboração de uma crítica ética e para a de acordo com uma responsabilidade coletiva, mesmo quando se avaliação das posições éticas. A história de todas as tentativas de é pessoalmente contra a decisão em questão. A exigência ética de fundamentar uma ética que não recorrem a algum fundamento que soframos em silêncio e encontremos uma maneira de "ir le- transcendental é bastante clara elas não podem pôr fim aos con- vando" é problemática, se olharmos da perspectiva de uma ética flitos sobre OS regimes da pessoa, mas simplesmente ocupar mais passional que obriga a pessoa a se descobrir em termos de um uma posição dentro do campo de debate (MacINTYRE, 1981). cabulário particular de emoções e Assim, a existência de contestação, conflito e oposição em Dobras na alma práticas que conduzem a conduta das pessoas não é surpresa nem Mas OS tipos de fenômeno que venho discutindo não são de requer nenhum apelo às qualidades próprias da ação humana. ex- interesse precisamente porque nos produzem como seres huma- ceto no sentido mínimo de que ser humano como tudo 0 mais nos com um certo tipo de subjetividade? Esta é certamente a visão excede todas as tentativas de pensá-lo: embora 0 ser humano seja de muitos dos que têm investigado essas questões, desde Norbert necessariamente pensado, ele não existe em forma de pensamen- to¹⁵. Assim, em todo e qualquer lugar, OS humanos transformam Elias até OS teóricos feministas contemporâneos que buscam a Psicanálise para fundamentar uma análise das maneiras como programas elaborados para uma finalidade em programas a servi- certas prática do self são inscritas no corpo e na alma do sujeito de outras finalidades. Por exemplo, psicólogos, reformadores generificado (p. ex., BUTLER, 1993; PROBYN, 1993). Para alguns da administração, sindicatos e trabalhadores têm transformado 0 esse caminho não parece problemático. Elias, por exemplo, não vocabulário da Psicologia Humanista em uma crítica das práticas duvidava de que OS seres humanos fossem criaturas habitadas por de gerência baseadas num entendimento psicofisiológico ou dis- uma psicodinâmica psicanalítica, nem de que ela fornecesse a ciplinar das pessoas. Reformadores das práticas de bem-estar e da base material para a inscrição da civilidade na alma do sujeito so- medicina têm se voltado, nas duas últimas décadas, para a ideia cial (ELIAS, 1978). Já afirmei que tal visão é paradoxal, uma vez de que OS seres humanos são sujeitos de direitos, opondo-se às que requer que adotemos uma verdade histórica recente sobre 0 ser humano esculpida no final do século XIX como a base uni- 15. Não defenderei essa ideia aqui; apenas afirmarei que somente OS racionalistas versal de investigação da historicidade do ser humano. Para ou- OS crentes em Deus imaginam que a "realidade" exista nas formas discursivas acessi- tros, tal escolha é necessária quando se quer evitar representar veis ao Esta não é uma questão a ser conduzida por um apelo aos velhos ser humano como um objeto meramente passivo e interminavel- debates sobre a distinção entre conhecimento dos mundos "natural" e "social" tra- ta-se apenas de aceitar que este deve ser 0 caso, a menos que se acredite em algum mente moldado pelos processos históricos, quando se quer dar poder transcendental que tenha moldado 0 pensamento humano de forma tal a fazê lo conta da ação e da resistência, e quando se quer buscar um lugar homólogo àquilo sobre que ele pensa. Tampouco se trata de repetir 0 velho para se posicionar a fim de avaliar um regime de subjetividade em ma da epistemologia, que postula uma inefável divisão entre 0 pensamento e 0 seu relação a outro (para um exemplo desse argumento, cf. FRASER, objeto para então espantar-se a respeito de como um pode "representar" 0 outro Pelo contrário, talvez devêssemos dizer que 0 pensamento constitui 0 real, mas não en- 1989). Tenho sugerido que nenhuma teoria desse tipo é necessária quanto "realização" do pensamento. 58 59para dar conta do conflito e da discussão, e que estável solo ético de subjetivação têm sobre OS seres humanos em termos de tal do- fornecido por qualquer teoria da natureza dos seres humanos é ilu- bramento. Dobras incorporam sem totalizar, internalizam sem sório. Não temos escolha a não ser entrar em um debate que não unificar; de maneira descontínua, tecem-se na forma de pregas, pode ser concluído pela demonstração de que ser humano. em produzindo superficies, espaços, fluxos e relações. sua natureza, é essencial e universalmente um sujeito de direitos. de liberdade, de autonomia ou que quer que seja. É en- No interior de uma genealogia da subjetivação, aquilo que é tão, escrever uma genealogia da subjetivação sem uma metapsi- dobrado é qualquer coisa que pode adquirir autoridade: injunções, conselhos, técnicas, pequenos hábitos de pensamento e emoção, cologia? Eu penso que sim. uma gama de rotinas e normas de como ser humano OS instru- Tal genealogia, eu sugiro, requer apenas uma concepção mentos através dos quais ser constitui a si mesmo em diferentes nima, fraca, ou rala do material humano sobre 0 qual a história es- práticas e relações. Essas dobras são parcialmente estabilizadas, a creve (cf. PATTON, 1994). Não estamos preocupados aqui com a ponto de OS seres humanos passarem a imaginar a si mesmos construção histórica ou social da pessoa nem com a narração do como sujeitos de uma biografia, utilizar certas "artes de memória" nascimento da autoidentidade moderna. Nossa ao de forma a tornar essa biografia estável, empregar certos vocabu- invés disso, é com a diversidade de estratégias e táticas de subje- lários e explicações para torná-la inteligível a eles mesmos. Isso tivação que, em diversas práticas e em diferentes têm indica a necessidade de estender OS limites da metáfora da dobra. aparecido e sido aplicadas em relação a diferentes classificações e Pois as linhas dessas dobras não atravessam um domínio que diferenciações de pessoas. O ser humano, aqui, não é uma entida- incide com OS limites carnais da epiderme humana. O ser humano de com uma história, mas O alvo de uma multiplicidade de tipos de é localizado e instituído através de um regime de dispositivos, trabalho; ele é mais como uma latitude ou uma longitude na qual olhares e técnicas que se estendem para além dos limites da car diferentes vetores de diferentes velocidades se A ne. A memória da própria biografia não é uma capacidade psicoló- "interioridade", que tantos se sentem compelidos a gica simples, mas é organizada através de rituais em que se con- não é a de um sistema psicológico, mas a de uma superfície des- tam histórias e sustentada por artefatos tais como álbuns de foto- contínua, um tipo de dobramento da exterioridade. grafia. Os regimes de burocracia não são meros procedimentos Tomo livremente a noção de dobra do trabalho de Gilles Deleu- éticos dobrados para dentro da alma, eles ocupam uma matriz de ze (DELEUZE, 1998, 1990a, 1992a; cf. PROBYN, 1993: A escritórios, arquivos, máquinas de escrever, hábitos de pontuali- concepção de dobra ou prega sugere uma maneira pela qual pode- dade, repertórios de conversação, técnicas de notação. Os regi- mos pensar uma internalidade sendo trazida à existência no ser mes de paixão não são meras dobras afetivas na alma, eles são efe- humano sem postular uma interioridade prévia e, assim, sem nos tivados em espaços isolados ou valorizados através de sensualiza- atermos a uma versão particular da lei dessa interioridade cuja his- dos jogos envolvendo camas, cortinas e sedas, rotinas nas quais tória estamos buscando diagnosticar e perturbar. A dobra indica se veste e se despe, dispositivos estetizados que proveem músi- uma relação sem um interior essencial, na qual aquilo que está ca e luz, regimes de divisão do tempo, e assim por diante (cf. "dentro" é somente uma dobradura de um exterior. Estamos fami- RANUM, 1989). O ser dobrado não é uma questão de corpos, mas liarizados com a ideia de que OS aspectos do corpo que comumen- de cenas conjugadas. te pensamos como fazendo parte dessa interioridade 0 trato di- Podemos contrapor tal espacialização do ser humano à narra- gestivo, OS pulmões não são mais do que uma invaginação de um tiva empreendida por sociólogos e filósofos da Modernidade e da lado de fora. Isso não OS impede de serem investidos de afetos e Pós-modernidade. Em outras palavras, precisamos tornar ser valores, tanto pessoais quanto culturais, em termos de uma ima- humano inteligível em termos de agenciamentos (desenvolvo esse gem corporal, aparentemente imutável, que é tida como a norma argumento no cap. 8). Por agenciamentos refiro-me à localização e para nossa percepção dos e limites da nossa corporali- à conexão de rotinas, hábitos e técnicas dentro de domínios espe- dade. Talvez, então, possamos pensar sobre 0 poder que OS modos cíficos de ação e valor: bibliotecas e salas de estudo, quartos e ca- 60 61sas de banho, tribunais e salas de aula, consultórios e galerias de cipação das psicociências na genealogia desse regime, assim museu, mercados e lojas de departamento. Os cinco volumes da como as relações que, nas classificações que têm sido entalhadas História da vida privada, organizados por Phillipe Ariès e George no interior do seu volume, elas constroem entre um e OS muitos, Duby, fornecem uma riqueza de exemplos de maneiras como no- interno e externo, todo e a parte. Assim, uma genealogia da vas capacidades humanas, tais como estilos de escrita ou a contribuição da Psicologia para nosso regime do self se conecta, sexualidade, dependem de formas específicas de organização de forma lateral, com todos OS movimentos políticos espacial do habitat humano, mas também dão origem a elas neos que têm desafiado a categoria da identidade a identidade (VEYNE, 1987; DUBY, 1988; CHARTIER, 1989; 1990; da mulher, a identidade da raça, a identidade da classe (cf., em PROST & 1991). Entretanto, no que tange à instituição particular, HARAWAY, 1991; RILEY, 1988). Descontando-se as dos regimes de subjetivação, não há nada de especial no que veio frívolas celebrações da festividade da "diferen- a ser designado pela expressão "vida privada" é tanto na fábrica ça", tais questionamentos são motivados, em parte, pela crença quanto na cozinha, tanto no exército quanto na sala de estudo. de que OS valores do self e da identidade não são tanto recursos tanto no escritório quanto no quarto que se tem exigido do sujeito para O pensamento crítico quanto obstáculos para tal pensamen- moderno que identifique sua subjetividade. À aparente linearida- to. A política da identidade, mesmo quando não associada a proje- de, unidirecionalidade e irreversibilidade do tempo, podemos con- tos bárbaros para a "purificação" da diferença, é atormentada por trapor a multiplicidade dos lugares, dos planos e das práticas. Em fragmentações internas nas quais OS sujeitos supostamente unifi- cada um desses agenciamentos ativam-se repertórios de conduta cados como mulheres, como negros, como inválidos, como lou- que não estão limitados pela fronteira da pele humana nem são COS recusam a reconhecer-se pelo nome que lhes é oferecido. Por carregados de forma estável no interior de um indivíduo: eles são essa fragmentação e por essas recusas, temos sido forçados a re- antes teias de tensão que, atravessando espaço, conferem capa- conhecer que as identidades nacionais, raciais, sexuais, de gêne- cidades e poderes aos seres humanos, capturando-os em híbridos ro e de classe têm, historicamente, sido criadas tipicamente por agenciamentos de conhecimentos, instrumentos, vocabulários, aqueles que nos identificam a serviço da problematização, da re- sistemas de julgamento e dispositivos técnicos. É dessa forma que gulação, do policiamento, da reforma, do aperfeiçoamento, do de- a genealogia da subjetivação deve pensar ser humano como um senvolvimento ou mesmo da eliminação daqueles assim identifi- tipo de maquinação, um híbrido de carne, artefato, conhecimento, cados. Evidentemente, tais identidades têm sido com frequência paixão e técnica. abraçadas por aqueles por elas identificados e voltadas contra regimes que as criaram. Mas declarar "eu sou aquele nome": mu- lher, homossexual, proletário, afro-americano ou mesmo homem, Conclusão branco, civilizado, responsável, masculino não é nenhuma re- É característico do nosso regime atual do self que reflitamos e presentação de um estado interno e espiritual, mas uma ajamos sobre diversos domínios, práticas e agenciamentos em resposta a uma certa história de identificação e aos seus ambí- termos de uma "personalidade" unificada, de uma "identidade" a guos legado e dádivas. ser revelada, descoberta e trabalhada em cada um desses. Essa É verdade que não podemos analisar presente por referência maquinação do self em termos de uma identidade precisa ser re- aos pecados que repousam em suas genealogias. Os vocabulários conhecida como um regime de subjetivação de origem recente. Nos capítulos que se seguem, eu defendo que as disciplinas psi que utilizamos para pensar a nós mesmos vêm da nossa história, têm papel fundamental em nosso regime contemporâneo de sub- mas nem sempre carregam as marcas de seu nascimento: a histo- jetivação e em sua unificação sob signo do self. Assim, uma his- ricidade dos conceitos é por demais contingente, móvel, oportu- tória crítica das disciplinas psi teria por objeto 0 nosso regime do nista e inovadora para isto. As estratégias políticas motivadas pe- self contemporâneo, bem como a sua identidade junto com to- los ideais de identidade foram, sem dúvida, tão frequentemente dos OS juízos e juízes que OS têm povoado. Ela descreveria a parti- permeadas por nobres valores humanistas e por seus compromis- SOS com a liberdade individual quanto por uma vontade de domi- 62 63nar ou purificar em nome da identidade. Talvez seja hora de tentar 2 contabilizar OS custos, e não somente as bênçãos, de nossos proje- UMA HISTÓRIA CRÍTICA DA PSICOLOGIA tos de identidade. E um elemento pequeno, porém da contagem desses custos está na identificação das contribui- ções feitas a tal regime de subjetivação pela Psicologia, enquanto discurso, que por uns cento e cinquenta anos nos tem contado às vezes em ordens brutais, às vezes em dissertações às vezes em sedutores e confortantes sussurros a verdade sobre Como se faz a história da Psicologia? Gostaria de propor uma nós mesmos. abordagem particular para essa questão, uma história crítica das relações entre psicológico, governamental e subjetivo. Uma história crítica é aquela que nos ajuda a pensar sobre nossa natu- reza e nossos limites, sobre as condições sob as quais aquilo que tomamos como verdade e realidade foi estabelecido. A história crítica perturba e fragmenta, revela a fragilidade daquilo que pare- ce sólido, a contingência daquilo que parecia necessário, as raízes mundanas e cotidianas daquilo que se pretende nobre e grandio- Ela nos permite pensar contra presente, no sentido de explo- rar seus horizontes e suas condições de possibilidade. Seu objeti- não é predeterminar julgamento, mas torná-lo possível. A Psicologia e suas histórias As ciências psicológicas a Psicologia, a Psiquiatria e as ou- tras disciplinas que se autodesignam com prefixo "psi" certa- mente não são destituídas de uma consciência histórica. Muitos tomos de peso contam a história do longo desenvolvimento do es- tudo científico do funcionamento psicológico, tanto normal quan- to patológico. Quase todos OS livros-texto de Psiquiatria e Psicolo- gia parecem obrigados a incluir uma revisão ou um capítulo histó- rico, mesmo que despropositado, dos tópicos em discussão. Esses textos nos contam repetidamente a história do desenvolvimento das ciências psicológicas em termos similares: elas têm um longo passado, mas uma história curta. Um longo passado: uma tradição contínua da especulação sobre a natureza, as vicissitudes e as pa- tologias da alma humana, tão extensa quanto próprio intelecto humano. Uma história curta: abandono da metafísica, da espe- culação, ou a redução médica e fisiológica, que só ocorreu com desenvolvimento do "método experimental" no século XIX. É ten- tador descartar essas histórias por sua ingenuidade epistemológi- ca, ou enxergar interesses próprios naqueles que escrevem a his- tória das ciências da mente. Cada uma dessas acusações pode 65 64

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