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UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Introdução O período do Império no Brasil foi de grandes fenômenos sociais e transformações na própria estrutura do Estado. Nesse período, houve uma série de turbulências. Uma das mais significativas em relação à posição internacional foi Guerra do Paraguai. Leituras indispensáveis. Disponível em: https://bityl.co/8lgV Haverá a entrada das missões americanas e europeias protestantes no Brasil, trazendo consigo o Protestantismo de Missão e instalando igrejas que participarão de forma defi- nitiva da História do Brasil. Veja: DREHER, (org.). Imigrações e história da igreja no Brasil. São Paulo: San- tuário, 1993; FERREIRA, J. C.L. (org.). Novas perspectivas sobre 0 protestantismo brasileiro. São Paulo: Paulinas/Fonte Editorial, 2009; LÉONARD, G. protestantismo brasileiro. São Paulo: Aste, 1964; MENDONÇA, G. e V.F. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1990. Também se verifica desenvolvimento da economia cafeeira, que irá fundar uma elite que molda politicamente novo século no País. Veja: FURTADO, Formação Econômica do Brasil. 16. ed. São Paulo: Nacional, 1979; LAPA, J.R. do A. A economia cafeeira. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. A Abolição da Escravidão marcará fim do século e fim do Império, em um esgota- mento internacional do modelo de administração centralizada, trazendo novos desafios e maior participação popular. História e Escravidão: Cultura e Religiosidade negras no Brasil Um levantamento Biblio- gráfico. Disponível em: https://bityl.co/8lgj Haverá, ainda, crescimento da indústria e a entrada de levas de imigrantes, que serão a base social e material da indústria, dos futuros sindicatos e da esquerda no Brasil. A questão da imigração, no início do século XX, será influenciada pela eugenia, uma visão pseudocientífica de "branqueamento" da população. 8Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Reconsiderando a política de colonização no Brasil Imperial: os anos da Regência e 0 mundo externo. Disponível em: https://bityl.co/8lgl Assim, de 1822 a 1889, Brasil verá uma série de fenômenos importantes e deter- minantes, que irão prepará-lo para século XX. A Guerra do Paraguai e seus Desdobramentos A Guerra do Paraguai foi um conflito entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, ocorrida entre dezembro de 1864 e março de 1870. Veja: SILVEIRA, A batalha de papel. Porto Alegre: L&PM, 1996; SOUSA, J.P. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: MAUAD, 1996; LEMOS, R. Cartas da Guerra: Benjamin Constant na Campanha do Paraguai. Rio de Janeiro: IPHAN, 1999; TORAL, A. Adeus, chamigo brasileiro: uma história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Os marcos factuais da guerra são circunscritos a partir de 16 de outubro de 1864, com a intervenção do Império no Uruguai contra a chegada do Partido Blanco ao poder intervenção exigida pelos criadores rio-grandenses instalados no Norte do país e pela política do Imperador Dom Pedro II na região do Prata -, e terminou em março de 1870, com a morte de Solano López e a ocupação militar do Paraguai. Foi maior conflito na América Latina e de mais longa duração, envolvendo uma série de personagens e instituições que acabaram por complexificar evento, com di- versas frentes de acontecimentos e impactos que são discutidos nos países envolvidos até hoje. Os números demonstram a grandeza: cerca de 140.000 combatentes brasileiros des- locaram-se para conflito no Prata, número que pode ter sido ainda maior, tendo em vista a insuficiência dos dados e registros. O Sul do Brasil enviou em torno de 55.000 soldados, dos quais Leste participou com pouco mais de 45.000; Nordeste com cerca de 35.000; Centro-Oeste com 8.000 e Norte com 6.000. Esse contingente, na época, representava cerca de 1,5% da população brasileira, se- gundo censo de 1872, considerando as levas enviadas do início ao fim da guerra entre início e fim da guerra. 9UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Como fruto da guerra, Paraguai pagou um alto preço, tanto financeiro, quanto social e mesmo humanitário. Estima-se que a perda de vidas esteve na ordem de 60% a 69% por cento da população paraguaia. Diante dos 400.000 paraguaios que pereceram na guerra, Brasil perdeu cerca de 80.000 pessoas. Em 1877, futuro visconde de Ouro Preto, Afonso Celso, declarou na Câmara de Deputados que custo da guerra foi de 613.183,000$000 milhões de réis. Esse evento foi fartamente documentado entre esses países em diversos meios, como documentos militares, políticos, coletivos e individuais, e foi também fortemente regis- trado pela mídia da época. Ainda assim, muito se perdeu diante da enorme dificuldade de circulação das fontes. Porém, podemos afirmar que a interpretação da guerra ainda é um campo de dis- putas, que produziu ao longo do tempo diversas mudanças, sendo ainda um processo aberto sobre a História. Os eventos e seus desdobramentos tiveram uma série de inter- pretações de forma a criar linhas historiográficas distintas ao longo dos anos, dividindo opiniões de forma contundente. DORATIOTO, F. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Compa- nhia das Letras, 2002. Este é um exemplo da complexidade da análise histórica, que demonstra como viés ideológico é um desafio para a teoria e para a escrita da História. Por isso, antes de tratar da guerra em si, é importante entender percurso historiográfico que se estabeleceu na área da Ciência Histórica. As primeiras obras que surgiram sobre conflito foram de vertente memorialista, escritas durante e imediatamente após conflito, com um cunho de defesa da pátria, de suas fronteiras, com exaltação do sentimento pela terra e povo brasileiros. Essa historiografia produziu também uma dicotomia narrativa em que colocava a figura de Solano López, líder paraguaio, como contraponto à figura do marechal Duque de Caxias, em uma clara construção mítica da luta entre "bem" e "mal". Dessa forma, a Guerra do Paraguai foi vista como uma demonstração do nascimento de um sentimento de nação, onde a mítica da guerra era batismo da cidadania brasileira na exaltação da figura heroica, encarnada na pessoa de Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, que se torna, assim, patrono do Exército Brasileiro. Assim, as narrativas sobre heroísmo e a abnegação das Forças Armadas do país em defesa do Brasil e da "civilização" buscam se opor à "barbárie", corporificada na figura do ditador paraguaio. Em 1871, surge a famosa obra de Alfredo de Escragnolle-Taunay, que ficou conhecida por apresentar a Retirada da Laguna, um dos episódios da guerra, em que narra as implacá- veis ações militares de Solano López em sua ânsia de poder e violência contra OS resistentes mato-grossenses que colocam em retirada. Essa obra orientou as narrativas subsequentes, e alcançou grande sucesso na sua publicação francesa patrocinada pelo governo brasileiro. 10Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Na passagem da Monarquia para a República, a guerra serviu para a consolidação da identidade nacional republicana, com as Forças Armadas como guardiãs dos interesses da nação e a elevação dos oficiais ao status de luminares. Essa vertente historiográfica buscou, segundo historiador Mário Maestri, uma forma de justificação da Guerra e uma defesa patriótica do seu território, contra ditador Solano López. Nos dizeres de Maestri: Trataram-se, sobretudo, de narrativas sobre heroísmo e abnegação das forças armadas, identificadas essencialmente à oficialidade, em defesa do Brasil e da "civilização", agredidos por "barbárie" corporificada pelo ditador paraguaio. (MAESTRI, 2010, 200) No século XX, contraponto à essa visão veio dos historiadores marxistas, que, à época, atacavam a ideia de imperialismo, em uma clara alusão aos EUA, representado pelo seu antecessor, a Inglaterra, como modelo de promoção do capitalismo intervencio- nista, que inviabilizava um outro modelo para América Latina com suas ações anticíclicas e de frustração dos modelos não capitalistas e não submissos ao controle do mercado. Nesse modelo, surge a reabilitação de Solano López, líder paraguaio que era visto como grande representante de uma visão pré-marxista, visionário, guerreiro, adminis- trador e consciente da exploração do capital estrangeiro sobre povo sofrido. Uma terceira via interpretativa nasce em 1980, denominada de neorrevisionismo, que se centrou nas questões propriamente regionais, como OS motivos fundamentais da guerra. 0 estudo da historiografia da guerra do Paraguai em sala de aula. Disponível em: https://bityl.co/8lhE Essa corrente também se voltou para OS grupos que participaram da composição das forças, tanto do lado do Paraguai, quanto do Brasil, descobrindo nesse processo de análise novas interpretações e lançando luzes sobre as contradições de ambos OS lados. Tabela 1 Correntes historiográficas sobre a Guerra do Paraguai Corrente Definição Expoente A guerra foi uma ação patriótica de defesa das Dionísio Cerqueira, Visconde Taunay, Positivista fronteiras pelos heróis do Brasil, 0 seu próprio povo Sena Madureira e seus líderes militares. A guerra foi uma ação de intervenção do impe- Marxista (revisionista) rialismo inglês capitalista na América Latina para León Pomer; Júlio José Chiavenato sufocar um projeto alternativo de vida. Ricardo Salles, Leslie Bethell, Wilma Neorrevisionismo guerra foi uma ação de intencionalidades regio- Peres Costa, Francisco Doratioto, Mario nais que confluíram para 0 conflito. Maestri, Alfredo Mota Menezes Fonte: adaptada de BARROSO, 1952; CHIAVENATTO, 1979; DORATIOTO, 2002; DORATIOTO, 2010 A Guerra do Paraguai foi uma disputa de fronteiras e devemos ter em mente que isso não elimina as outras intencionalidades e problemas e, como já vimos nos capítulos anteriores, não invalida as diversas correntes historiográficas que se apresentam como 11UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império imensos mosaicos de análise, desvendando aspectos do fenômeno histórico, sempre complexo e incompleto, em que as gerações buscam incessantemente completar, sem nunca terminar. Em maio de 1864, governo brasileiro envia um pedido para tratar do problema dos cidadãos brasileiros que viviam em território uruguaio. Nessa época, Uruguai se encontrava em guerra civil e brasileiros eram alvo de violentos ataques. Em junho do mesmo ano, Brasil realiza um encontro diplomático com participação de representes da Argentina e Inglaterra para tratar da guerra civil no Uruguai. Dessa ocasião, participam Atanásio Aguirre, chefe de governo, e Venâncio Flores, chefe da rebelião. O encontro não resulta em acordo. Em agosto, Brasil dá um ultimato ao Uruguai, em caso de novo ataque aos brasileiros. O Uruguai lança uma nota de protesto ante a ameaça de invasão. Em 30 de agosto de 1864, o Uruguai corta as relações com Brasil, que, por sua vez, invade território uru- guaio em 12 de outubro. Em retaliação à invasão brasileira, Paraguai apreende vapor brasileiro Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, e, em dezembro, Solano López declara guerra ao Brasil. O Exército paraguaio ataca, em 27 e 28 de dezembro de 1864, forte Coimbra (atual região de Mato Grosso do Sul) e, em janeiro de 1864, Exército paraguaio invade Corumbá, Miranda e Dourados. Em um decreto, n° 3.371, datado de 7 de janeiro de 1865, Imperador Dom Pedro II cria Corpos de Voluntários da Pátria, com recompensas e benesses a quem aderisse à convocação. Milhares se habilitam para participar da guerra. Em 21 de janeiro de 1865, imperador convoca a Guarda Nacional, composta por 440 mil homens, mas somente pouco mais de 40 mil participam do combate. Em 1° de maio deste ano, Brasil, Argentina e Uruguai assinam um tratado de coo- peração, denominado de Tratado da Tríplice Aliança. Os três países avançam contra as tropas paraguaias. Em junho, Exército paraguaio invade Rio Grande do Sul, ocupando a cidade de Uruguaiana. Nesse mesmo mês, no dia 11, ocorre a Batalha do Riachuelo, selando destino da Marinha frente às forças aliadas. Em 18 de agosto, Exército paraguaio se rende e, em 16 de abril de 1866, Exército da Tríplice Aliança invade Paraguai. Em 24 de maio de 1866, ocorre a famosa Batalha de Tuiuti, a mais importante e sangrenta da guerra. Em 12 de setembro de 1866, líder Solano López busca um encontro com Barto- lomeu Mitre, governante da Argentina, para uma tratativa de paz, mas não chegam a um acordo. Em 22 de setembro de 1866, Exército da Tríplice Aliança ataca fortaleza de Curupaiti, sofrendo uma terrível derrota frente aos paraguaios. Em 6 de novembro de 1866, imperador promulga Decreto n° 3.725-A, em que promete alforria aos escravos que servissem no Exército da Tríplice Aliança. 12Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Em abril e maio de 1867, Exército da Tríplice Aliança invade Paraguai rumo à fa- zenda Laguna. Nesse episódio singular da guerra, as tropas são atacadas pelos paraguaios e obrigadas a retroceder. Esse episódio ficou conhecido como Retirada da Laguna. Em julho de 1867, as tropas brasileiras partem para atacar a fortaleza de Humaitá. Em 15 de agosto de 1867, a Esquadra do Brasil segue pelo rio Paraguai e ultrapassa a fortaleza de Curupaiti, permanecendo 6 meses entre as duas fortalezas, Curupati e Humaitá, em intenso bombardeio. Em 3 de março de 1868, Solano López foge da fortaleza de Humaitá e se refugia a 10 quilômetros de distância na cidade de San Fernando. Em 25 de julho de 1868, o Exército da Tríplice Aliança toma posse da Fortaleza de Humaitá. Em dezembro de 1868, ocorre as batalhas de Itororó, Avaí e Lomas Valentinas, onde Exército paraguaios é derrotado esse evento ficou conhecido como Dezembrada. Em primeiro de janeiro de 1869, tropas brasileiras invadem e saqueiam a cidade de Assunção e, em 5 de maio de 1869, a fábrica de armas de Ibicuí, do Exército paraguaio, é destruída. Em 16 de agosto de 1869, ocorre a batalha de Acosta em que 20 mil soldados da Tríplice Aliança enfrentam 6 mil paraguaios, em sua maioria idosos e crianças. O mas- sacre sela a vitória da Tríplice Aliança. Em 1° de março de 1870, Solano López morre na batalha de Cerro Corá. Eis fim da guerra. As consequências da batalha foram muitas, segundo historiador Erivaldo Fagundes Neves: A guerra interferiu na ordem socioeconômica e na organização política dos países envolvidos. Derrubou a ditadura expansionista do Paraguai, neutralizou caudilhismo do Uruguai e da Argentina e acelerou a deca- dência da monarquia no Brasil. Ao terminar a guerra, em 1870, as trans- formações econômicas levaram a reações sociais em São Paulo, contra a centralização político-administrativa imperial, que obstaculizava o desen- volvimento da economia. (NEVES, 2019, p. 449-450) Assim, a guerra teve diversas consequências que aceleraram a queda da Monarquia. A Causa Abolicionista A história da Abolição e do movimento abolicionista seguem caminhos que foram analisados de diversos ângulos. Entendidos como ações que envolviam maiores interesses, sobretudo ligados à economia e às conveniências e interesses de grupos de poder. Veja: PÉTRÉ-GRENOUILLEAU, A história da escravidão. São Paulo: Boitempo, 2009; MATTOSO, K. de Q. Ser escravo no Brasil (séculos XVI-XIX). Petrópolis: Vozes, 2016; NEVES, E.F. Formação social do Brasil: Etnia, cultura e poder. Petrópolis: Vozes, 2019. 13UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Porém, a história da Abolição não tem apenas aspectos econômicos ou mesmo jurí- dicos dentro de uma conjuntura econômica internacional. Diversos estudiosos sobre tema buscaram entender esses fenômenos históricos a partir do desvelamento tanto de suas causas, quanto de suas consequências, buscando resgatar protagonismo das lutas para uma reposição histórica por parte daqueles que dela participaram. Por ser um tema complexo que extrapola campo histórico, adentrando outros campos, como político, social e jurídico, as análises ainda suscitam mais pesquisas e estudos. Ao tratar sobre tema, historiador Ricardo Alves da Silva Santos afirmou: Conscientes de que o fim da escravidão no Brasil foi decorrente de fatores internos e externos, e que a influência inglesa foi marcante, porém não única no processo de desestruturação do trabalho escravo tendo como marco o século XIX, Dale W. Tomich em Pelo Prisma da Escravidão, pro- põe uma interpretação da escravidão moderna como uma parte integran- te da formação histórica da economia capitalista mundial. Em sua análise, a economia capitalista criou múltiplas formas de exploração econômica, dessa maneira, é necessário por vezes, desconstruir e reconstruir concei- tos, para depois recompor os paradigmas escravistas da atual historiogra- fia para repensar a escravidão oitocentista. Escravidão e capitalismo até então vistos como incompatíveis, na obra de Tomich se tornam possíveis, ou seja, a escravidão é abordada como uma das formas possíveis de exis- tência do capital de maneira que a escravidão se desenvolveu junto do capitalismo. Mas, não é suficiente adicionar escravismo a um conceito acabado de capital, antes, porém, é preciso repensar a totalidade das re- lações de capital para que assim, a escravidão e as diferentes relações de trabalho não-remunerado sejam incluídos. (SANTOS, 2017, 112) Dessa forma, entender movimento abolicionista é buscar entendê-lo em diversos ângulos e dar VOZ àqueles que tornaram essa a sua própria causa, desvelando OS movi- mentos pessoais e coletivos que assumiram para si desejo e a busca por um mundo melhor, com dignidade e direitos humanos. Partimos da questão da resistência do sistema em promover a Abolição. A moderni- zação do Brasil e sua integração no que se constituía início do capitalismo industrial passava pela questão da Abolição e do estado moderno republicano, parlamentar ou presidencialista, com maior garantia e ampliação de direitos humanos e sociais. Desse modo, a questão da escravidão era não apenas um atraso tecnológico, mas também um atraso civilizacional frente às outras nações. Ainda assim persistia problema de troca da matriz energética de trabalho, que era calcado na força dos trabalhadores negros essa era a mão de obra que se constituiu como indispensável à economia do país. Com isso, a busca pela modernidade e ingresso no processo civilizacional ocidental e a necessidade de produção se chocaram e, assim, OS impasses vieram. 14Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A libertação ocorreu em 1888, a partir de uma árdua luta de grupos que oscilavam em um espectro que ia do idealismo e da luta pelo direito dos negros ao desejo de tornar País uma "outra Europa". Veja BLACKBURN, R. As origens do antiescravismo. A queda do escravismo colonial, 1776-1848. Rio de Janeiro: Record, 2002; CARDOSO, C.F. S. (Org). Escravidão e Abolição no Brasil: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988; CHALHOUB, S. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Cia das Letras, 1990. As demandas sociais e políticas em defesa da libertação dos escravos promovidas pelos movimentos abolicionistas se transformaram em uma luta legislativa e parlamentar a partir de 1850. Dessa maneira, fatores de ordem econômica, política, ideológica, social, humanitária e religiosa estão envolvidas nesse processo, não sendo possível apenas creditar movi- mento à uma ou outra área. Veja: LEITE, R. L. Republicanos e libertários: pensadores radicais no Rio de Janeiro (1822). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. As diferentes escolas teórico-metodológicas em História irão enfatizar um ou outro aspecto como principal, na tentativa de lançar luzes sobre esse complexo fenômeno que se circunscreve tanto no âmbito político, quanto no âmbito social. A historiografia oscilou na explicação de um lado a outro do espectro, ora ressal- tando a questão social e os protagonistas, ora dando ênfase à questão política e eco- nômica, buscando a condenação e a manipulação do discurso na construção da figura do herói libertador. Acresce-se a tudo isso algo que ainda está em construção na historiografia, que é resgate da participação e luta dos próprios escravos em sua libertação. Somente no fim do século XX e início do século XXI surgiram OS primeiros trabalhos que buscam essa nova dimensão, até então negligenciada, da participação efetiva dos atores negros como protagonistas da história de conquista do direito à liberdade. A história da História avança a passos lentos, mas decisivos, na construção de uma História que respeite e dê VOZ aos componentes de todos lados. Vejamos cada uma das vertentes antes de entrarmos nos fatos. A primeira produção historiográfica sobre fenômeno da Abolição ocorreu por meio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que tratamos em capítulos anteriores. Nessa época, a historiografia construiu uma narrativa e um entendimento de que a Abolição, junto dos movimentos abolicionistas, foram sinais de um marco civilizacional de atores comprometidos com progresso, direitos humanos e a luta por maior dig- nidade social. 15UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Assim, construiu-se a ideia de uma liberdade alcançada da civilização sobre atraso, a partir de heróis libertários que iam desde mais simples homem do povo até à Princesa Isabel, cuja atuação conferiu, nessa vertente, papel da grande libertadora. Passada a fase de uma visão eufórica, entendimento histórico sobre a Abolição se tornou a marca da ultrapassagem desse período, visto não mais pelos seus heróis, mas pela ação civilizatória de um País que saiu da barbárie e entrou na modernidade, seguindo a ideia de civilização capitalista e liberal republicana. Desse modo, não cabem heróis, mas próprio povo e a sociedade são heróis que constroem e constituem melhor do País. Mais adiante, na última metade do século XX, essa etapa foi superada pela leitura marxista, que destacou a questão econômica e de dominação envolvidas no processo de escravidão e de libertação, ambas motivadas por questões próprias do sistema capitalista em suas etapas de desenvolvimento. Assim, é com Clóvis Moura e Florestan Fernandes, a partir da década de 1950, que se estabelecem na leitura marxista um outro entendimento sobre a escravidão e a Abolição. Quer conhecer mais sobre esses historiadores? Disponível em: bit.ly/3ysYiLC A leitura para entendimento deixa de ser sob viés culturalista e passa para as questões de macroeconomia e da política capitalista como pano de fundo para as expli- cações do fenômeno de formação da base produtiva do Brasil, atrelada às condições de acumulação primitiva e seu desatrelamento dessa matriz pelas mudanças internacionais do capitalismo global, impondo assim suas decisões sobre países de forma estrutural e condicionante. Segundo Florestan Fernandes: (...) a escravidão mercantil funciona, de um lado, como a base material da revitalização da grande lavoura e de perpetuação das estruturas de produção coloniais, e, de outro, como fator sine qua non, capital mercantil, não se concentraria nas cidades, que quer dizer que, sem trabalho escravo, não teríamos a forma de revolução urbano-comercial que é típica da evolução da economia brasileira ao longo do século XIX. Se essa revolução culmina no fim da década desse século e atinge seu apogeu sob trabalho livre, isso não significa outra coisa senão que a diferenciação alcançada sob trabalho escravo pela economia interna exigia outra forma de trabalho e não que, sem a escravidão mercantil, capitalismo comercial teria crescido sobre seus próprios pés nas zonas urbanas e imposto à grande lavoura um novo padrão de organização e crescimento econômico. (FERNANDES, 2010. 53) Florestan Fernandes chega à conclusão de que a Abolição foi uma ação de acomodação internacional onde a elite cafeeira decidiu que deveria haver uma mudança estrutural e a realizou a partir dos ditames do capitalismo internacional. Dessa maneira, negro foi mero expectador do processo. Porém, a posição de Clóvis Moura chega a proposições diferentes na questão aboli- cionista, pois, para ele, escravos sempre buscaram fazer sua parte de forma ativa nas 16Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância rebeliões e fugas, de forma a protagonizar a luta contra sistema escravocrata. Esse posi- cionamento, que atualmente está em voga na historiografia, busca reposicionar negro na luta pela sua liberdade contestadora e tirá-lo do papel de mero coadjuvante da história. Segundo Clóvis: As revoltas dos escravos (...) formaram um dos termos de antinomia dessa sociedade. Mas não formaram apenas um dos termos dessa antinomia: foram um dos seus elementos dinâmicos, porque contribuíram para solapar as bases econômicas desse tipo de sociedade. Criaram as premissas para que, no seu lugar, surgisse outro: Em termos diferentes: as lutas dos escra- vos, ao invés de consolidar, enfraqueceram aquele regime de trabalho, fato que, aliado a outros fatores, levou mesmo a ser substituído pelo trabalho livre. (MOURA, 269) Na esteira dessa leitura, surgem figuras de liderança negra, como Luís Gama, José do Patrocínio, André Rebouças, Ferreira de Meneses, Manuel Quirino, entre outros que são resgatados do "limbo da História" para demonstrar uma ação em que negro, repre- sentado pelos seus, agiram de forma decisiva para a derrubada do sistema escravocrata. Quer conhecer mais sobre essas lideranças. Disponível em: https://bityl.co/8lhQ Porém, ainda há muito a ser pesquisado. São poucos e quase sem visibilidade aca- dêmica a participação das várias vertentes maçônicas nesse processo, e mesmo a par- ticipação das diversas religiões nas ações abolicionistas, ainda estão por ser mapeadas. A escolha de um grupo determina a exclusão ou mesmo secundaríssimo de outros grupos em um processo de escolha científica, calcada em premissas estabelecidas a priori e que são coerentes com arcabouço teórico de cada vertente. Dessa maneira, a Abolição e movimento abolicionista são apresentados de forma completamente diferentes na historiografia em um processo ainda em aberto, mas muito pujante, em pleno vigor e com cada vez mais adeptos nessa área de pesquisa histórica. Papel da Igreja e as Religiões no Brasil Ao analisar papel da Igreja Católica no período do Império, percebemos as enormes mudanças para a estrutura e para modus operandi dessa instituição no Brasil. Até então, Igreja e Estado eram algo indistinguível em questões estruturais e de atuação social. Veja: AZZI, R. A crise da cristandade e 0 projeto liberal. São Paulo: Paulinas, 1991; VIEIRA, D.R. História do Catolicismo no Brasil (1500-1889). Aparecida/SP: Santuário, 2016. V. 1. 17UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império O corpo dirigente da Igreja no Brasil estava sob a manutenção financeira do Império e, mesmo com a Independência do Brasil, isso não mudou, pois Dom Pedro renovou com Vaticano acordo estabelecido entre a Igreja e governo português. Por conta da implementação do Padroado Civil pela Constituição de 1824 e a manu- tenção do regalismo, utilizado para tal e qual fora feito no Padroado Real, estabelecido entre o Império Português e Vaticano. Essa manutenção foi fundamental para adequar a estrutura eclesiástica aos auspícios da Coroa. Desse modo, Brasil Império era católico, mas com algumas mudanças que foram tornando cada vez mais tensas as relações entre catolicismo e trono brasileiro. O Brasil tinha contingentes de outras religiões, como judaísmo e islamismo, mas em uma minoria quase seja pela rejeição e preconceito, seja pela postura que adeptos dessas vertentes adotaram para sobreviver em um país que tinha uma religião atrelada ao Estado. Veja: FALBEL, N. Judeus no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2008. Islã no Brasil: um estudo de caso dos livros didáticos de Gilberto Cotrim e Cláudio Vicentino. Disponível em: https://bityl.co/8lhR Já as religiões indígenas eram praticadas longe da civilização, ou de formas veladas e discretas, tornando-se assim "invisíveis", socialmente falando. As religiões negras sobreviviam, seja pelo processo sincrético com o catolicismo, seja em locais ermos e afastados da civilização portuguesa. O ponto de mudança que trouxe diversas implicações foi a abertura dos portos às nações amigas e tratado de livre comércio e navegação, uma decisão que Dom João VI tomou ao chegar ao Brasil em 1808, para viabilizar sua sobrevivência e a do império por conta do guerra contra império francês napoleônico. No Tratado de Co- mércio e Navegação diz: [...] não serão perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa de sua religião, mas antes terão perfeita liberdade de consciência e licença para assistirem e celebrarem serviço divino em honra do Todo- -poderoso Deus, quer seja dentro de suas casas particulares, quer nas igrejas e capelas, que Sua Alteza Real agora, e para sempre graciosa- mente lhes permite a permissão de edificarem e manterem dentro de seus domínios. (TRATADO de Amizade, 1810, p. 18) Isso implicou que acordo preferencial com a Inglaterra, mas também com outros países, levassem necessariamente a uma maior tolerância à outras religiões, pois diversos países, alguns protestantes, estavam interessados em acordos comerciais com Brasil. Isso fez com que a antiga colônia, elevado ao status de vice-reino, se abrisse para que as diversas vertentes religiosas viessem para Brasil na forma de colônias de imigração 18Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância e trabalho em um primeiro momento e, posteriormente, na forma de missões de con- versão e estabelecimento de igrejas. Assim, além das religiões indígenas, das religiões negras, do Islã, do judaísmo e do catolicismo, passaram a conviver no Brasil religiões de cunho protestante e, depois, de cunho oriental. Já na Constituição de 1824, dizia: A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do impé- rio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo. (BRASIL, 1824, n.p.) O acordo com Vaticano previa a obrigação de proteção à Igreja Católica, e dava ao soberano a prerrogativa de nomeação dos bispos e fiscalização da igreja em assuntos administrativos e econômicos, bem como a aprovação ou não da aplicação das bulas papais em território brasileiro. Veja: MENDONÇA, G.O Celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Paulinas, 1984. Também, a constituição de 1884 deixava claro que: "Ninguem póde ser perseguido por motivo de Religião, uma vez que respeite a do Estado, e não offenda a Moral Publica". Em relação à primazia do catolicismo estava estabelecida pela mesma constituição, que dizia: A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Im- pério. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo. (BRASIL, 1824, n.p.) O Brasil não deixaria de ser católico pela presença das religiões, mas relaciona- mento entre a Igreja e as outras religiões acabaram por estabelecer um outro patamar. No período da Colônia e mesmo após ele, a igreja tinha relações conflituosas com chamado catolicismo místico ou popular, fruto de uma série de mal-entendidos, medo e ignorância que foi administrado depois de muito tempo. Catolicismo: Identidade e significado no Brasil do século Disponível em: https://bityl.co/8lhc Em relação às outras religiões, notadamente as religiões protestantes que entraram no Brasil a partir de 1835, conflitos ocorreram de uma forma ou de outra. Porém, aos poucos, a aceitação tácita entre OS vários ramos do cristianismo se fez sentir. 19UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Protestantes no Brasil Imperial: Da perseguição a consolidação (1824-1889). Disponível em: https://bityl.co/8lhp Os diversos ramos protestantes que vieram para Brasil, majoritariamente de igrejas dos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, alcançaram rapidamente seu crescimento a partir dos diversos imigrantes, ainda no Brasil Colônia. O catolicismo, ainda neste período, era hegemônico em diversas áreas, como a edu- cação, saúde, beneficência, e estava envolvido com as administrações das vilas, provín- cias e cidades. O sistema cartorial era católico e cuidado com cemitérios eram delegados à sua responsabilidade. Desse modo, adequações tiveram de ser feitas, como permitir que áreas especificas fossem destinadas aos "não católicos" para sepultamento. Com a entrada das diversas denominações protestantes, as ramificações começaram a atuar, também, nessas áreas, principalmente na área educacional e no cuidado solidá- rio, que causou uma série de problemas em algumas partes do País. Dessa maneira, a Igreja Católica entrou em uma espiral de confrontos com a Coroa, que desembocou na Questão Religiosa, ocorrida entre 1872 e 1875, a mais grave crises entre a Igreja e Estado no Brasil. Entre 1822 e 1889, as crises e contendas foram se avolumando, e resultou na prisão dos bispos de Olinda, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e do Pará, Dom Antônio Macedo Costa. O historiador Gabriel Abílio de Lima Oliveira afirma: Durante Oitocentos no Brasil, as rusgas entre o Estado imperial e a cúria romana ficaram mais conhecidas na questão religiosa de 1873. A perseguição aos maçons por parte dos bispos D. Vital de Oliveira e D. Macedo Costa resultou em um impasse com a sede do poder papal, quan- do da ofensiva ultramontana de Pio IX contra as liberdades alicerçadas nas causas da Revolução Francesa. Contudo, é pertinente salientar que, no momento de institucionalização do Estado nacional e da consolidação de suas bases políticas, econômicas e sociais estes problemas não estiveram ausentes. (OLIVEIRA, 2017, 78) Os dois bispos desrespeitaram uma proibição imperial na rejeição que Dom Pedro II fez das encíclicas papais de Pio IX, a Syllabus e Quanta Cura, lançadas para combater que a Igreja considerava um perigoso avanço da modernidade na secularização do Estado e da sociedade. Ao desobedecerem ao imperador, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira e Dom Antônio Macedo Costa se colocaram em confronto com a autoridade de Dom Pedro II, levando a uma crise entre Estado e a Igreja, cujas autoridades no Brasil eram impe- rador e papa, respectivamente. Em paralelo, protestantismo, que chega via Estados Unidos, vem com uma aura de modernidade, com denominações focando seu trabalho de expansão para a nova 20Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância classe média que se formava e em consonância com um processo educacional moderno e voltado para trabalho. Após a chegada da família real em 1802, esse crescimento não parou, e na Independên- cia do Brasil, em 1822, diversas denominações já estavam implantadas em solo brasileiro. Nesse período, diversas agências missionárias americanas, britânicas e germâ- nicas enviaram seus representantes em geral famílias inteiras para a propagação de sua mensagem. Em 1811, comerciantes ingleses estabeleceram a Igreja Anglicana no país e, em 1824, a Igreja Luterana, através de Friedrich Osvald Sauerbronn. Nesse mesmo ano, Georg Ehlers chegou ao Rio Grande do Sul, comandando espiritualmente uma leva de imigrantes. Em 1816, temos a entrada do capelão anglicano, Robert C. Crane, que irá inaugurar a primeira capela anglicana, em 1822, na cidade do Rio de Janeiro. Em 1824, é fundada a colônia de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, por alemães lu- teranos que contavam com 324 imigrantes, liderados por Friedrich Oswald Sauerbronn. Entre 1824 e 1830, temos a entrada no Brasil para a fundação de uma colônia no Sul de 4.800 de imigrantes alemães, sendo que 60% eram protestantes. Em 1827, foi fundada pelo cônsul da Prússia, Wilhelm von Theremin, a Comunidade Protestante Alemã-Francesa, na cidade do Rio de Janeiro. Essa comunidade reunia lute- ranos e calvinistas. Em 1828, é criada a Fundação da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros para a evangelização e catequese de estrangeiros e brasileiros desse setor. Em 1835, é fundada a Igreja Metodista Episcopal, a primeira denominação a iniciar atividades missionárias junto aos brasileiros. Quer conhecer mais sobre essa instituição? Veja: GUEIROS, V.D.O protestantismo, ma- çonaria e Questão Religiosa no Brasil. Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1980. Em 1850, temos a vinda de diversos grupos de alemães diretamente da Prússia e da Suíça para a implantação de colônias no Sul do Brasil. Diversos estrangeiros protestantes, como Fountain E. Pitts, Justin Spaulding e Daniel Parish Kidder, atuaram no Brasil na implantação de igrejas e na criação de associações de propagação das instituições religiosas protestantes. Quer conhecer mais sobre esses personagens históricos? Veja: MENDONÇA, G; VELASQUES, Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola,1990. 21UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Em 1851, desembarca no Brasil missionário James Cooley Fletcher, pastor presbi- teriano que terá um papel relevante na fundação de diversas instituições em sua Igreja. Em 1855, chegam ao Brasil Robert Reid Kalley e sua esposa, Sarah Poulton Kalley os Kalley acabam se tornando íntimos da família do imperador. Em 1858, Kalley funda a Igreja Evangélica Congregacional e, em 1863, a Igreja Evan- gélica Fluminense. Com uma intensa atuação política, contribuiu para a propagação dos protestantismos no Brasil. Em 1859, chega ao Brasil reverendo metodista Ashbel Green Simonton, que, junto com reverendo José Manoel da Conceição, implantaram a Denominação Pres- biteriana no Brasil. Por conta da Guerra da Secessão nos EUA, em 1861, trabalhos missionários inter- nacionais, patrocinados pela Junta de Richmond, foram suspensos e só retornaram ao fim da guerra, em 1865. Em 1864, temos a chegada do Reverendo Hermann Borchard para fundar o Sínodo Evangélico Alemão na Província do Rio Grande do Sul, e, em 1886, Rev. Wilhelm Rotermund organiza Sínodo Rio-Grandense. Após fim da Guerra da Secessão nos EUA, as denominações protestantes enviaram diversos missionários que se aproveitaram das colônias no Rio de Janeiro, São Paulo e no Sul do Brasil para estabelecer suas bases de atuação. Em 1870, presbiterianos organizaram sua igreja. Em 1871, os metodistas e, neste mesmo ano, os batistas construíram a sua capela, tendo como primeiro pastor Richard Ratcliff. Em 1872, a Igreja de Santa Bárbara enviou correspondência à Junta de Richmond solicitando a nomeação de missionários para Brasil e, em 1879, foi organizada a Igreja Batista da Estação, em Santa Bárbara. Em 1881, a junta de Richmond nos EUA enviou casal William Buck Bagby e Anne Luther Bagby para a fundação da denominação batista em solo brasileiro. Em 1882, a Junta enviou Zachary Clay Taylor e Kate Stevens Crawford Taylor. Em 1884, Bagby organizaram a Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, a Se- gunda Igreja Batista Brasileira. Em 1885, foi organizada a Primeira Igreja Batista de Maceió. Em 1886, foi fundada pela família Taylor a Primeira Igreja Batista do Recife. Em 1867, a Igreja Metodista nos EUA retoma sua intenção de evangelização e implan- tação do Metodismo no Brasil com envio do missionário Junius Eastham Newman. Diversas instituições forma criadas, em destaque a Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), Instituto Bennett, no Rio de Janeiro, Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, e a Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo (São Paulo). Atuação do metodismo na educação? Disponível em: https://bityl.co/8lhw 22Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A atuação nas mídias foi outro ponto forte do metodismo no Brasil. Citamos perió- dico Methodista Catholico, criado em 1866 pelo reverendo John James Ranson. Em 1885, Adventismo do Sétimo Dia chegou ao Brasil através de publicações dire- cionadas ao Sul do Brasil. Notícias Adventistas. Disponível em: https://bityl.co/8li2 Tabela 2 As denominações protestantes no Brasil durante 0 Império Denominação Data Expoente Igreja Congregacional 1855 Robert Reid Kalley e Sarah Poulton Kalley Igreja Presbiteriana do Brasil 1859 Ashbel Green Simonton Igreja Evangélica Brasileira 1879 Miguel Vieira Ferreira William Buck Bagby, Anne Luther Bagby, Zachary Clay Taylor, Zachary Clay Igreja Batista 1882 Taylor e Kate Stevens Crawford Taylor Igreja Metodista 1885 Junius Newman Fonte: Adaptada de MENDONÇA; VELASQUES, 1990; CALDAS, 2001 Esses protestantismos, representados por diversas igrejas e ramificações, acabam por escolher seus grupos preferenciais na sociedade e atuar fortemente na comunicação, abrindo jornais e investindo em formação de obra qualificada na inauguração de semi- nários para formação de liderança autóctone. Esses protestantismos ainda tinham ligações com alguns ramos maçônicos, sendo di- versos missionários filiados a esses grupos e, dessa forma, com espaço privilegiado nas altas castas sociais. As diversas ramificações da maçonaria facilitaram em diversas ocasiões, junto às autoridades, as reivindicações dos missionários e, em geral, eram atendidas. Há ainda muito que fazer em termos de pesquisa histórica sobre as ligações entre ramos maçônicos e diversos protestantismos no Brasil. Já as religiões de matriz africana sobreviveram através de diversas ações que iam desde processos de sincretização com catolicismo até processos de invisibilidades sociais, através da discrição de suas práticas litúrgicas. Ainda assim, foi grande a perseguição aos cultos e esse foi um período difícil para essas religiões. Por conta de uma visão centralista, que muitas vezes privilegia eixo Sul-Sudeste, a histo- riografia brasileira não dá devido destaque ao que alguns denominaram "Brasil profundo". As religiões indígenas sobreviveram e eram praticadas em seus assentamentos, reservas e mesmo nas cidades. As manifestações religiosas indígenas não desapareceram por com- pleto, mas muitas vezes saíram da visibilidade social como forma de sobrevivência. Veja: CUNHA, (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1992; RIBEIRO, D. Os índios e a civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970. 23UNIDADE A Guerra do Paraguai e as questões que abalaram Império Em Síntese Ao final desses estudos, reafirmamos que a historiografia sobre 0 período conhecido como Brasil Império é ainda um campo aberto de estudos e que as próximas gerações terão muito trabalho a fazer para desvelar todas as manifestações e interpretações sobre essa etapa tão rica de transformações para 0 quinto maior país do mundo, com seus imensos desafios na área de História. 0 que sabemos até agora nos permite ver que 0 Brasil ainda tem muito a ser estudado, pois seus regionalismos e eventos que ocorreram não podem ser circunscritos ao eixo Sul-Sudeste. Dessa maneira, talvez, 0 futuro seja 0 resgate da História regional e a sua integração definitiva na História nacional, em um processo ainda a ser construído. 24