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21 Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Sandro Campos Neves Meta da aula Apresentar o perfil do turista de visitação a patrimônio e suas especificidades em relação à gestão e ao planejamento dos atrativos para esse tipo de turismo. Objetivos Ao final desta aula, você deverá ser capaz de: reconhecer o perfil do turista que procura atrativos de visitação a patrimônio; identificar as relações entre turismo, patrimônio, história e autenticidade e sua relação com o perfil do consumidor de turismo de visitação a patrimônio. 1 2 206 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Introdução O chamado turismo de visitação a patrimônio, que para alguns pesquisadores estaria incluído na oferta do turismo cultural, tem algumas especificidades que o diferenciam frente às outras mo- dalidades de turismo similares. Uma delas diz respeito ao perfil do turista, ou perfil do consumidor, que procura esse tipo de atrativo turístico. Sendo um tipo de consumidor que busca estabelecer uma dife- renciação social e até elaborar uma distinção com base nos seus padrões de consumo, o turista que procura atrativos de visitação a patrimônio obrigará também o gestor do turismo, tanto quanto do patrimônio, a se preparar para lidar com essas diferenças em relação ao planejamento realizado. Planejamento especialmente complexo, pois ao mesmo tempo em que lida com um turista de alto padrão social, precisa preparar o patrimônio para atender às necessidades do Estado e, como visto ao longo dessa disciplina, atender à demanda de refazer a ligação que deveria existir entre sociedade e patrimônio. O perfil do turista de visitação a patrimônio O turista de visitação a patrimônio é um tipo específico da tipologia turística. Ele se diferencia de vários outros tipos por uma série de especificidades com relação ao perfil socioeconô- mico e também com relação ao perfil de consumo. Nesta seção, trataremos dessas especificidades para, a seguir, procurar com- preender as formas de gestão e planejamento para esse tipo de turista com base no seu perfil de consumo. De acordo com as tipologias tradicionais de turismo, pode- mos compreender o perfil do consumo a partir de uma curva que vai de um perfil alocêntrico até o perfil psicocêntrico, passando pelo mesocêntrico. Em que pese o fato de que esses perfis já tenham sido discutidos na disciplina Fundamentos do Turismo, Turismo e Patrimônio 207 recordaremos rapidamente para tentar a partir deles definir onde se situa o turismo de visitação a patrimônio. Segundo Schluter (2003), o turista alocêntrico é aquele que orienta suas atividades de consumo turístico para os comporta- mentos coletivos e atividades mais físicas; é comumente o tu- rista de aventura, de sol e praia e outros tipos de turistas que preferem passar seus momentos de lazer praticando atividades mais voltadas para o físico. O turista psicocêntrico é aquele que orienta suas atividades de consumo turístico para comportamen- tos mais individualizados, preferindo realizar atividades de abs- tração mental. Assim, o turista psicocêntrico se orientaria mais para atividades culturais e gastaria comumente o seu tempo de lazer com a fruição mental e mesmo intelectual dos destinos tu- rísticos e seus objetos, voltando-se para a contemplação. Entre esses dois perfis, existe o perfil mesocêntrico, que corresponde- ria ao turista que procura balancear os dois tipos de atividades exercendo um consumo turístico que busque aliar atividades fí- sicas e atividades de fruição mental, bem como comportamentos coletivos e individualizados. A partir dessa tipologia, poderíamos situar o turista de vi- sitação a patrimônio como estando entre o perfil psicocêntrico e o mesocêntrico. E, embora possa às vezes preferir atividades fí- sicas e comportamentos coletivos, esse turista, em geral, orienta suas atividades para a contemplação, para a fruição intelectual e para padrões de consumo mais individualizados. Até esse ponto não seria possível verificar grandes diferenças entre o turista de visitação a patrimônio e o turista chamado de cultural. Embora sejam tipos relativamente parecidos, existem ainda algumas di- ferenças entre eles. O turista cultural, em alguns casos específi- cos, pode dar-se ao luxo de visitar destinos onde terá a oportuni- dade de voltar-se apenas para os atrativos culturais de todos os tipos, sem esgotar rapidamente suas opções, tais como grandes cidades históricas e outras com grande oferta cultural de todos os tipos. Como exemplo, poderíamos citar Paraty-RJ, Recife e Olinda-PE, Salvador-BA etc. 208 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio No caso do turista de visitação a patrimônio e mais especi- ficamente ao patrimônio material, esse sempre terá que conjugar seu interesse principal, a visitação aos museus e memoriais, com outras atratividades presentes no destino escolhido. Essa dife- rença se estabelece com base numa especificidade da oferta pa- trimonial. Não existem, praticamente, destinos onde predomine absolutamente a visitação a patrimônio, excetuando-se grandes cidades históricas, fora das regiões litorâneas e com pouco inves- timento nos atrativos naturais, tais como Ouro Preto-MG. Exce- tuando-se esses casos, a oferta patrimonial de museus e centros culturais é relativamente escassa no Brasil e em grande parte do mundo. Nesse sentido, o turista de visitação a patrimônio, mes- mo que quisesse passar toda a sua viagem apenas visitando mu- seus e outras casas de cultura, não poderia fazê-lo, sem esgotar rapidamente suas opções. Nesse sentido, o turismo de visitação a patrimônio precisa necessariamente dividir sua visitação a pa- trimônio com outras atividades e, mesmo que seu perfil de con- sumo aponte para o perfil psicocêntrico, seu padrão de consumo será necessariamente mais próximo do perfil mesocêntrico. O turista de visitação a patrimônio, por outro lado, se as- semelha ao chamado turista cultural em relação às questões do perfil socioeconômico. Dessa forma, esses dois tipos de turista se identificam por pertencer a estratos sociais médios e altos. Ainda que seja difícil estabelecer cientificamente aquilo que o senso comum chama de classe média e alta, se pode fazer essa distinção com relação aos estratos mais baixos em função da diferença de investimento social na ideia de distinção. De acordo com Bourdieu (2007), a distinção pode ser entendida como os investimentos simbólicos que os indivíduos e as coletividades fazem em padrões de consumo, de comportamentos sociais pa- dronizados e incorporados, no sentido de distinguir-se da massa e, ao mesmo tempo, justificar a diferenciação social preexistente e na qual os indivíduos pretenderiam se inserir através dessa dis- tinção social. Assim, ainda que seja problemático falar a respeito da diferença sociocultural em termos de classes baixa, média e Turismo e Patrimônio 209 alta, pela pouca precisão desses conceitos, pode-se falar na ten- tativa de elaboração de padrões de distinção por parte dos cha- mados turistas de visitação a patrimônio. Nesse sentido, pode-se definir o turista de visitação a patri- mônio e o turista cultural como sujeitos sociais que investem na distinção social e na criação de padrões de consumo diferencia- dos baseando-se na diferença de nível de escolaridade entre eles e os estratos mais baixos da população. Os turistas que procuram a visitação a patrimônio cultural e os que pro- curam a visitação a atrativos culturais de maneira geral se distinguem pelo pertencimento a estratos sociais mais elevados, com alto padrão educacional e com padrões de consumo orientados para a distinção econômica e supostamente de entendimento do mundo, que justificaria, em sua visão, a distinção de situação socioeconômica. Esses tipos de turistas teriam em comum o fato de possuírem elevados níveisde ins- trução e um nível de renda relativamente elevado ou um investimento na aparência que os faça assemelhar-se aos estratos considerados mais altos e distintos da sociedade. Algumas características do turista de visitação a patrimônio De acordo com Drummond; Yeoman (2004, p. 54), “o inte- resse em viajar para ver e admirar locais antigos e para apreciar a variedade das culturas não é uma novidade”. Os autores lembram que: Desde 1500 a.C. pudemos perceber no Egito símbolos se- guros do turismo, de viagens por simples curiosidade ou lazer... quando Thutmose, Akhenaton e Ramsés e outras re- nomadas figuras mantiveram o trono, a pirâmide de Djoser em Sakkrah, a esfinge de Guizé, o complexo de pirâmides em Abusir, e as semelhantes, já estavam lá por centenas de anos. Em suas paredes, encontramos mensagens dei- xadas por pessoas que fizeram uma viagem especial para ver aquelas impressionantes testemunhas do poder do seu 210 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio passado. Cada monumento era um local sagrado, assim os visitantes sempre passavam alguns momentos em oração, ainda que sua principal motivação fosse curiosidade ou re- creação desinteressada, não religião (CASSON, 1994, p. 33 apud Drummond; Yeoman, 2004, p. 54). Podemos perceber com este exemplo que a visitação e a viagem em busca da peculiaridade cultural alheia são práticas extremamente antigas, assim como esse interesse é fundador da própria ideia de sociedade e coletividade. Assim, sempre existi- ram pessoas interessadas no conhecimento da cultura do outro, mas a infraestrutura para a realização dessas viagens é o que di- ferenciará fundamentalmente o turismo moderno de massa dos seus tipos anteriores. No entanto, para explicar o interesse turístico pelo Patri- mônio na contemporaneidade, é preciso compreender alguns aspectos dessa demanda que tem relação direta com as modifi- cações sofridas pela sociedade advindas da globalização. O turismo é necessariamente condicionado por uma das principais modificações recentes operadas nas culturas das so- ciedades ocidentais, a globalização. Como fenômeno de acelera- ção de trocas em nível global, sejam elas econômicas ou socio- culturais, a globalização moldou em algum sentido o caráter do turismo contemporâneo. A partir do aumento do fluxo de trocas, gerou-se um duplo movimento: por um lado, as diversas socie- dades são pressionadas a adotar regras e normatizações supra- nacionais no sentido de atender à facilitação da troca. Essas nor- matizações podem ser de ordem econômica, como as monetárias e alfandegárias (tais como as tarifas diferenciadas entre os diver- sos países de importação e exportação de mercadorias, maiores ou menores, a depender dos interesses econômicos dos países mais ricos e poderosos politicamente); e podem ser também de tipos que se orientam no sentido do estabelecimento de padrões de conduta para o atendimento dos negócios globalizados (tais como os padrões internacionais de qualidade na hotelaria, que obrigam os hotéis a se adaptar inclusive culturalmente para aten- Turismo e Patrimônio 211 der ao fluxo de turistas internacionais). É com relação a esse úl- timo tipo de modificações que a atividade turística estabelecerá novos nexos com as sociedades e com os indivíduos. Aspectos sociais Faz parte dos chamados efeitos da globalização um movi- mento de duas vias, por um lado, as coletividades humanas se movimentam no sentido de uma aproximação forçada, que su- postamente causaria uma homogeneização das culturas, tornan- do os povos cada vez mais semelhantes. Por outro lado, e como reflexo do primeiro movimento, existe a resistência cultural e, em alguns casos, a volta às formas de expressão cultural calca- das na diferença, étnica ou não, que em muitos casos havia sido abandonada. Podemos citar, como exemplos desse movimento, o renascimento de vários movimentos de reivindicação indígena na América do Sul desde os anos 70 do século XX. Com relação à homogeneização cultural, diz-se que o aumento do flu- xo de trocas fez necessário que houvesse uma espécie de linguagem comum a ser construída para a utilização no contexto da troca. Assim, estabeleceram-se padrões internacionais para uma série de questões e segmentos. Existem as pretensões de estabelecimento de normas ge- rais para o comércio internacional e a criação de um organismo gestor dessas normas que seria a OMC, Organização Mundial do Comércio. Ao mesmo tempo, existem essas tentativas de normatização internacional da diversidade, mediadas por organizações como a Unesco. Em relação ao turismo, o estabelecimento dessas normas supranacionais, citadas na seção anterior, aparecerá fundamen- talmente na OMT, Organização Mundial do Turismo, organizado- ra de normatizações internacionais de turismo, tais como padrões internacionais de qualidade de serviços, de empreendimentos, de destinos e de várias outras instâncias do chamado mercado de turismo. Essas normatizações, embora possam parecer à primei- 212 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio ra vista meras normatizações comerciais, suscitarão uma série de modificações culturais. Serão elas, por exemplo, as mantenedoras de normas e padrões que usualmente consideram que a maneira local e específica de receber e prestar uma série de serviços não é adequada à demanda internacional por serviços turísticos e serão elas também as principais defensoras da capacitação e qualifica- ção da mão de obra e dos produtos turísticos locais. Nesse sentido, acabam sendo as operadoras de profun- das modificações sociais nas comunidades locais. Essas modi- ficações, que vão ao encontro de estabelecimento de padrões internacionais, são operadoras de importantes modificações cul- turais, pois trazem padrões diferentes daqueles da cultura local e que tendem a prevalecer sobre os padrões locais, agredindo intensamente a cultura local. A título de exemplo, podemos citar casos com os de Cancún, no México (Figura 21.1), ou do Com- plexo Hoteleiro da Costa do Sauípe no Brasil, onde os padrões locais, pouco aceitos pelo turismo internacional do ponto de vis- ta da qualidade do serviço, são substituídos por padrões “inter- nacionais”. Isso ocasiona sérios prejuízos para a população local, que vão desde a substituição da mão de obra local por mão de obra importada de outros centros, tida como mais qualificada, até a marginalização da população local em guetos, por consi- derar que sua simples visão pelo turista poderia ocasionar uma queda na qualidade da experiência turística. Turismo e Patrimônio 213 Figura 21.1: Praia de Cancún. Neste balneário, os “padrões internacionais de qualidade” se sobrepõem a desejos e necessidades da comunidade local. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Imagebysafa2.jpg O outro movimento ocasionado pela globalização poderia ser traduzido como o retorno à diferença. Sentindo-se excluídas do movimento de integração e passando a perceber a valoriza- ção de sua diferença cultural ao mesmo tempo como único ins- trumento de reivindicação e como índice de valoração positiva nas relações com outros povos, várias comunidades humanas optam por restabelecer diferenciações sociais anteriormente abandonadas ou sobrepujadas, tais como as diferenciações étni- cas num movimento de reivindicação de inclusão na nova ordem mundial. Tais movimentos, como vimos, podem ser percebidos na atuação recente de povos indígenas ou de grupos afro, que restabelecem a questão étnico-racial como importante em seus movimentos de reivindicação e através dessa diferença se valo- rizam no jogo político. Ao mesmo tempo, e por outro lado, esses grupos geralmen- te encontram, no mercado turístico, a oportunidade de uma ativi- dade de subsistência que substitua as formas anteriores, baseadas na exploração do meio ambiente, notadamente na caça,pesca, coleta e agricultura e, simultaneamente, escapar das condições precárias de sua inserção no mercado de mão de obra comum das atividades industriais e comerciais fora do contexto do turismo. 214 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio De toda forma, o turismo aparecerá relacionando-se a di- versos movimentos de reivindicação de diferenciação cultural, como os movimentos indígenas ou quilombolas no Brasil, procu- rando justamente nessa diferença a perspectiva do atrativo turís- tico que pode motivar a visitação (Figura 21.2). Assim, o turismo novamente aparece como fenômeno que adquire seus contornos em função das e em relação com as mudanças no contexto social e da expressão individual. Figura 21.2: Os movimentos de reivindicação política baseados na diferença cultural são, em parte, reação ao processo de globalização e frequentemente se associam ao turismo, visto como fonte de desenvolvimento local. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Two_Pataxo_indians_ (Bras%C3%ADlia,_04_April_2006).jpeg É a partir desse movimento, consequência da globalização, que se poderá compreender melhor o perfil do turista de visita- ção a patrimônio. Para analisar esse perfil, devemos passar ago- ra a alguns dados sobre ele produzidos. A visitação mais comum a patrimônio pode ser vista como executiva, composta por grupos e excursões sociais com o obje- tivo de realizar essa visitação, tais como grupos escolares ou fa- miliares. A maioria das estatísticas aponta para o fato de que são grupos de pessoas distribuídas de maneira relativamente igual, com porcentagens menores nas faixas de 16 a 24 e de mais de 55 anos (BLACK, 2004, p. 104). Para o autor, com base nesses dados, pode-se deduzir que potencialmente cerca de 33% dos visitantes Turismo e Patrimônio 215 a patrimônio estão abaixo dos 16 anos, tornando possível que acima de 60% das viagens incluam crianças no grupo, em visitas com a família ou em viagens educacionais e organizadas. Nesse sentido, embora no caso brasileiro se possa perce- ber grande número de excursões formadas por pessoas de ter- ceira idade interessadas na visitação a patrimônio, percebe-se que grande parte de seu potencial para esse turismo encontra-se nas faixas etárias mais jovens. Esse fato tem relação direta com a questão de nível socioeconômico. Como visto em relação à distinção, o patrimônio é espaço de estabelecimento de padrões de consumo voltados para a educação e demonstração de uma diferenciação cultural que justifique a diferenciação socioeconô- mica. Assim, as crianças das famílias com maior poder aquisitivo serão, através de passeios com a família ou escolares, expostas desde muito jovens à visitação e contemplação do patrimônio como estratégia educacional de investimento na distinção das classes privilegiadas. Esse aspecto aparece nas estatísticas sobre patrimônio e é uma característica importante da demanda sobre o turismo de visitação a patrimônio. A maior parte das visitas a patrimônio é feita por grupos organizados em excursão social ou familiar. Pode-se presumir, com base em algumas estatísticas, que potencialmente 60% dos consumidores de visitação a patrimônio são crianças situadas nas faixas etárias abaixo dos 16 anos. Aspectos geográficos Com relação a alguns outros aspectos, podemos ainda avançar na definição do perfil do consumidor de turismo de visi- tação a patrimônio, destacando os fatores geográficos. Com base nos estudos de Black (2004), sobre os aspectos do perfil do turis- ta, o autor demonstra que a maior parte dos turistas que buscam a visitação a patrimônio reside a até 30 minutos de distância ou são aqueles considerados visitantes de acordo com a definição da OMT, ou seja, que permanecem menos de 24 horas no local. 216 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Esse aspecto traz à tona algumas questões do planejamento dos atrativos patrimoniais. Pode-se concluir que, se esses turistas permanecem menos de 24 horas, eles não consumirão produtos ligados à hotelaria e hospedagem; por outro lado, terão grandes necessidades com relação a serviços de alimentação e outros ti- pos de oferta de lazer, como bares, por exemplo. Esses turistas também demandarão grande infraestrutura dos museus e casas patrimoniais. Essa estrutura se relaciona principalmente às faci- lidades locais tais como banheiros, estacionamentos, serviços de alimentação e de atividades de lazer, que comumente não são en- contradas em número satisfatório nos atrativos patrimoniais. Bastante relevantes também com relação ao planejamen- to dos atrativos de visitação a patrimônio são as características apontadas por Laws (2004, p. 81) com relação à motivação para a visitação. Para o autor, as motivações relativas à visitação a patrimônio podem ser divididas em três núcleos principais: aprendizagem formal;• curiosidade, aprendizagem informal; • entretenimento, prazer.• Esses aspectos que caracterizam o turista de visitação a patrimônio são fundamentais para se definir o planejamento dos atrativos, questão que será mais longamente discutida nas aulas a seguir. As estratégias para a gestão do patrimônio pen- sadas a partir desses três aspectos da motivação dos turistas podem ser diversas. A interpretação do patrimônio, a apresentação local, os guias treinados e a ênfase na autenticidade histórica da narrativa são aspectos fundamentais a serem trabalhados no caso da mo- tivação relacionada à aprendizagem formal. Essa é, como visto, a principal demanda de visitação a patrimônio, sendo composta por grupos escolares e de excursão. Essa demanda poderia ser definida, com base na tipologia turística, como de turistas psi- cocêntricos, voltada para a fruição e criação de uma relação in- telectual com o patrimônio. No entanto, precisa ser pensada em conexão com as outras motivações, pois o patrimônio é alvo de Turismo e Patrimônio 217 diversos tipos de demanda com características diferenciadas que precisam ser trabalhadas. Podemos verificar o exemplo no caso de grandes centros históricos brasileiros, como o de Olinda-PE, onde há visitação de turistas interessados na cultura, no apren- dizado ou apenas em diversão e lazer no carnaval local. Todos esses perfis de turista têm demandas específicas a ser atendidas pela atividade turística. Em relação ao segundo tipo de motivação, a de apren- dizagem informal ou visita motivada pela curiosidade, a inter- pretação continuará sendo importante, mas será fundamental o desenvolvimento de outras atrações e atividades. Esse segundo perfil de motivação vai de encontro ao padrão turístico definido como mesocêntrico, já visto, que também procurará por outras atividades. Manter o interesse e satisfazer esse tipo de consumi- dor é fundamental para o sucesso do atrativo patrimonial, pois ele é um dos tipos que, apesar de não ser o principal, será fun- damental para a manutenção financeira do espaço para o aten- dimento de seus objetivos educacionais, muitas vezes objetivos principais para o patrimônio. No terceiro tipo de motivação, a viagem de entretenimento e lazer, tipo mais raro em relação ao turismo de visitação a patri- mônio, ainda mais em países com pouca tradição nesse tipo de turismo como o Brasil, tornam-se importantes outros aspectos do planejamento do atrativo. No caso dessa motivação, os planeja- dores do atrativo de patrimônio precisarão perceber as conexões que ele estabelece com o restante dos atrativos do destino. O tipo de turista que visita o patrimônio em busca de lazer encontra-se mais próximo do perfil alocêntrico, o turista voltado para ativida- des físicas e de lazer ativo. Nesse sentido, ele terá demandas que os atrativos patrimoniais não estão acostumados a contemplar, como a realização de atividades de envolvimento mais físico com o atrativo. Assim, faz-se necessárioum grande investimento no desenvolvimento do local para maximizar as oportunidades co- merciais, tais como investimento em lanchonetes e outros tipos de estabelecimentos comerciais de lazer no próprio atrativo ou 218 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio em suas imediações; investimento em ambientação e estratégias de dinamização da visita que não a mantenham apenas no plano da fruição intelectual, mas que possibilitem outras formas de in- teração com o patrimônio. No entanto, o turismo de visitação a patrimônio muito ra- ramente conta com a possibilidade de trabalhar apenas com um desses perfis de turista, como visto, bastante diferenciados. As- sim, para o adequado planejamento dos atrativos do turismo de patrimônio, é necessário que haja pesquisa que procure estimar o tipo majoritário de consumidor, com base nos padrões de con- sumo desejados pelos visitantes e que se faça uma priorização com base em algum dos perfis de visitantes. No caso brasileiro, como a quase totalidade do patrimônio pertence ao Estado, sua função principal tem sido percebida como educacional e o inves- timento tem sido feito no perfil de turista que procura aprendi- zagem formal e informal. A partir dessa priorização e contando com a pequeníssima quantidade de dinheiro à disposição para o investimento no patrimônio, a visitação aos atrativos patrimo- niais no Brasil ainda é um setor extremamente subaproveitado em relação à sua potencialidade, não sendo capaz de atender a outros perfis de consumo. Assim, a análise do perfil do consumidor do turismo de visitação a patrimônio é fundamental para o adequado planeja- mento do atrativo e também para ser capaz de perceber as estra- tégias comerciais mais adequadas para o investimento em cada tipo de perfil de público. Turismo e Patrimônio 219 Atividade Atende ao Objetivo 1 1. Leia o texto: A Igreja e Convento de São Francisco de Assis e Ordem Terceira em Salvador (BA) e a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência em Ouro Preto (MG) estão entre os monumentos esco- lhidos como parte das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo. O anúncio foi feito ao Jornal MG Turismo em Portugal. Ao todo, construções históricas em 16 países concorreram ao título. “Com certeza a eleição de dois monumentos brasileiros entre as sete maravilhas portuguesas do mundo é mais um diferencial que o nosso País, dono de uma riqueza natural e cultural enorme, ofe- rece ao turista português”, comemorou Jeanine Pires, presiden- te da Embratur. O Ministério do Turismo, por meio da Embratur, investe na promoção internacional do Brasil como destino cul- tural, com vasto patrimônio histórico reconhecido pela Unesco. Para isto, mantém um site específico sobre o nicho, disponível em português, inglês, espanhol, italiano e francês. (Fonte: http://www.braziltour.com/heritage) “Cerca de 30% dos turistas portugueses que fazem viagens de longa distância vêm ao Brasil, não raro pela segunda ou terceira vez. Por isso, é fundamental oferecer novas opções para que eles voltem sempre ao País”, concluiu a presidente da Embratur. (Fonte: http://www.mgturismo.com.br) Relacione as características do consumidor de turismo de visita- ção a patrimônio vistas nesta aula ao perfil do turista português que visita o Brasil (ver tabela a seguir). Para essa atividade, supo- nha que o perfil do turista que visita o Rio de Janeiro é semelhan- te ao perfil geral do turista português que visita o Brasil. Relate quais são suas semelhanças. Com base nessa comparação, os turistas portugueses podem ser considerados adequados ao per- fil de turista de visitação ao patrimônio? 220 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Tabela 21.1: Perfil do turista português que visita o Rio (suponha que o perfil se aplica ao turista português que visita o Brasil em geral) Sexo Transporte utilizado para chegar ao Rio Frequência da visita ao Rio 64% homens 36% mulheres 97% via aérea 3% via marítima 68% vieram ao Rio pela primeira vez 32% já vieram ao Rio pelo menos 1 vez Grau de instrução Forma de hospedagem Intenção de voltar ao Rio 30% nível fundamental 45% nível médio 25% nível superior 55% hotéis 25% apartamentos de temporada 20% casa de amigos pretendem voltar — 92% não pretendem — 8% Motivo da viagem Portão de entrada no Brasil Permanência média no Rio 62% lazer 20% visitar familiares 10% negócios 8% congressos e convenções 55% Rio de Janeiro 34% São Paulo 11% Recife 3 a 5 dias — 47% 6 a 10 dias — 40% mais de 10 dias — 13% Razões da escolha do Rio Pontos positivos Outras cidades visitadas durante a permanência no Brasil 40% atrativos naturais 30% preço competitivo 20% atrativos culturais 10% mesma língua 32% limpeza da cidade 24% qualidade dos serviços turísticos 18% alegria da população 16% estrutura de apoio nas praias 10% comércio 30% Búzios 19% Paraty 15% Porto de Galinhas 13% São Paulo 10% Fortaleza 6% Maceió 5% Petrópolis 2% Manaus Organização da viagem Pontos negativos Hábito de viajar 60% por conta própria 40% através de uma agência de viagens 32% segurança pública 20% população de rua 15% desconhecimento da cultura portuguesa por parte da população 13% táxis 12% comércio ambulante 6% guias de turismo 2% comunicação com a família — 55% com amigos — 20% sozinho — 25% Procedência dos turistas Gasto médio por dia (USD) 37% Porto e arredores 29% Lisboa e arredores 16% Coimbra e arredores 10% Algarve e arredores 8% Minho e arredores até 80,00 — 23% entre 90,00/150,00 — 47% mais de 160,00 — 30% Fonte: http://www.univercidade.br/uc/cursos/graduacao/tur/pesquisas_ipetur/pesq_turportugues.htm Turismo e Patrimônio 221 ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ Resposta Comentada Apenas 40% dos turistas portugueses, segundo a pesquisa, viajam em pacotes organizados. Esse tipo de viagem é o tipo apontado como preferencial para os turistas de visitação a patrimônio. No entanto, a maioria dos turistas portugueses viaja por conta própria – 60%. De acordo com a pesquisa, 62% viajam a lazer, perspectiva que não combina com o perfil do turista de visitação a patrimônio. Nesse caso, deve-se entender que a pesquisa diferencia lazer e visitação ao pa- trimônio, assim o turista de lazer seria aquele que procura atrativos como praias, natureza e esportes, de acordo com essa pesquisa. Apenas 20% dos turistas portugueses afirmam viajar para o Rio de Janeiro por causa dos atrativos culturais, enquanto quase 40% afir- mam viajar por causa dos atrativos naturais. A conclusão a que se pode chegar aponta para o fato de que, embo- ra o perfil do turista português não seja majoritariamente próximo dos turistas de visitação a patrimônio, podem-se identificar alguns aspectos dessa demanda entre os portugueses. No entanto, a con- clusão final é a de que os turistas portugueses não se aproximam do perfil do turista de visitação a patrimônio. O consumidor de atrativos de visitação a patrimônio e a autenticidade Longa discussão tem sido travada contemporaneamente com relação ao perfil do turista e às interações que cada perfil tem com a questão da autenticidade da experiência de conheci- mento da cultura. Sendo o patrimônio visto aqui como uma das possibilidades de estabilização e simbolização das culturas locais para as quais o turista se volta emsua procura pela cultura dife- rente, essa discussão é fundamental para pensarmos o turismo de visitação a patrimônio. 222 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio A questão da autenticidade sempre foi fundamental para a interseção turismo/cultura na qual se encontra a visitação a pa- trimônio. No modelo que deu origem, de certa forma, ao turismo moderno, o Grand Tour, o conhecimento da cultura “do outro” como forma de educar os jovens sempre suscitou a questão da autenticidade das narrativas, objetos e fatos históricos conheci- dos pelo viajante. Essa é a questão que continua a intrigar quan- do se fala em turismo de visitação a patrimônio. A questão da autenticidade foi alvo de numerosas discus- sões acadêmicas ao longo da história, e contemporaneamente essas discussões aparecem com relação às narrativas históricas apresentadas no turismo que buscam a cultura como objeto e objetivo de seu conhecimento na viagem. Desde o início das experiências do turismo de massa, pode- mos perceber as tensões entre o conhecimento obtido das cultu- ras na viagem e uma pretensa “verdade histórica” buscada pelos turistas e viajantes diversos. No decurso dessa procura, tentou- se traçar distinções entre turista e viajante de diversos tipos que destacavam as diferenças entre uns e outros no tocante à capaci- dade de conhecer corretamente a veracidade histórica dos fatos narrados e vividos baseando-se num conhecimento previamente construído sobre os lugares visitados. A partir dessa discussão, o discurso da autenticidade foi cada vez mais reforçado, e os turistas e visitantes passam cada vez mais a procurar a “originalidade” e a “verdade histórica” durante suas visitas. Essa originalidade foi buscada principalmente no aspecto não familiar, onde se procurou fazê-lo coincidir com o autêntico, com o original, com o realmente diferente do ponto de vista cultural (BURNETT, 2004). Os primeiros turistas consumidores de cultura e de locais de patrimônio tenderam a sucumbir ao encantamento da narra- tiva local, aceitando com certa facilidade as versões mais fanta- siosas sobre a realidade local. A partir dessa característica, que poderia ser justificada a partir do interesse em ver confirmadas as expectativas in loco, os agentes de turismo e de patrimônio fariam tudo ao seu alcance para garantir que esse desejo fosse atendido (BURNETT, 2004, p. 43). Turismo e Patrimônio 223 No final do século XX e início do século XXI, a questão que parece se firmar como fundamental para esse debate tem sido mesmo a do papel do turista e as discussões sobre sua capaci- dade de compreender e reconhecer como autênticas ou não as experiências vividas a partir da viagem. Nesse campo, é notável a contribuição de três autores para se chegar à discussão atual sobre a autenticidade: Boorstein (1964), McCannel (1976) e Co- hen (1988) (BURNETT, 2004). Boorstein procurou ressaltar ao longo de seu trabalho que os turistas estariam propensos a aceitar com extrema facilidade um falso senso de realidade. O autor reforçou um dos mais pe- jorativos estereótipos do turista, vinculando-o à imagem de tolo, capaz de aceitar qualquer fantasia local sobre a história como verdadeira desde que vivenciada in loco e de preferência conta- da pelo nativo. Boorstein reforçou, então, a visão do turista como ingênuo, facilmente ludibriável e ludibriado por sagazes aprovei- tadores locais, vinculados ou não à atividade turística, vende- dores de fantasias históricas sem qualquer fundamento. Para a teorização de Boorstein, essa credulidade do turista se devia ao desconhecimento e à ignorância, traduzindo-se em incapacidade de contestar, com base em seus parcos conhecimentos, as ver- sões locais sobre a história por mais fantasiosas e infundadas que essas pudessem ser. McCannel (1976), por outro lado, procurou reforçar que, na realidade, a credulidade do turista se devia a outros fatores, poden- do ele ser enxergado como vítima desavisada de uma tendência da atividade turística de apresentar encenações como verdades sobre o passado e sobre a cultura local. Para o autor, os turistas não seriam ingênuos, sendo antes peregrinos numa busca pela autenticidade para vivenciar e se deleitar com a história local vista sob a perspectiva de dentro. Segundo ele, essa busca seria moti- vada pela alienação da vida industrial moderna em que os turistas estariam alienados de experiências autênticas de realidade. McCannel (idem) considera que essa busca do autêntico é frustrada pelos agentes do turismo e do patrimônio na medida em que esses captaram a demanda pelo diferente e a possibili- 224 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio dade de apresentação estereotipada e simulada dessas realida- des para o atendimento da demanda. Isso quer dizer que, para o autor, as realidades apresentadas pelo turismo como vivências autênticas da cultura e história são, na verdade, simulações cui- dadosamente orquestradas no sentido de atender a essas expec- tativas encenando uma realidade “segura e limpa” da cultura local adequada à apresentação turística. Após essa discussão apresentada pelos autores, Erik Co- hen (1988) traz nova contribuição ao campo que permite pensar com maior adequação a realidade da autenticidade no campo do turismo e do patrimônio. Para Cohen, o conceito de autenticida- de não está fechado, não é um conceito construído como crista- lização ou percepção científica da realidade histórica tal como aconteceu. Cohen demonstra, na verdade, que o conceito de au- tenticidade está aberto às diversas interpretações, sendo contex- tual e relativo. A autenticidade aparecerá, nessa discussão, como um conceito e uma realidade que podem ser vistos de maneiras diversas por cada uma das culturas locais e a partir da percepção de cada um dos turistas, agentes de turismo e residentes locais. Assim, para Cohen, “é possível qualquer objeto, evento ou experiência tornar-se autêntico, com arranjo cuidadoso e comu- nicação” (COHEN apud BURNETT, 2004, p. 44). Ainda que essa experiência de autenticidade possa ser aplicável a qualquer ob- jeto, ela não pode ser facilmente simulada, pois a autenticida- de sob determinados pontos de vista encontrará sua sustenta- ção nas comunidades mantenedoras de determinado costume, tradição ou memória cristalizada e simbolizada em objetos. No entanto, o que Cohen procurou mostrar é que, de acordo com a consideração que fazem os turistas e agentes de turismo so- bre a autenticidade, esta é vinculada à experiência de alteridade radical, de diferenciação drástica com sua própria cultura, de modo que o autêntico nesse sentido não se confunde com o real, nem com “a verdade histórica dos fatos”. Assim, para Cohen, a autenticidade poderia ser corretamente simulada de forma a propiciar uma experiência de realidade histórica a partir de sua Turismo e Patrimônio 225 inserção em comunidades e sua vinculação com comunidades, mas fundamentalmente pela percepção do turista, “do outro” so- bre a autenticidade das experiências e objetos. Para Cohen, finalmente a autenticidade é construída, é ob- jeto de uma negociação entre os diversos atores envolvidos em que a experiência do real é negociada pelas percepções de cada um sobre o que ela deveria ser. Podemos concluir que a autenticidade é um conceito va- riável de acordo com o contexto. Aquilo que é autêntico o é em relação a algum contexto; assim, a cultura, a identidade, a repre- sentação destas e a apresentação turística que delas se faz são autênticas na medida de sua inserção na realidade cultural de grupos, na medida do sentido e da significação atribuída a cada uma das tradições exibidas pelo turismo, e não em relação à sua antiguidade ou pouca modificação ao longo do tempo. Hobsbawm e Ranger (2002) já demonstraram em A inven- ção das tradições que tradições culturaisconsideradas autênticas por sua antiguidade que remontaria a tempos quase imemoriais são, na verdade, recentes. Os autores demonstram isso a partir do exemplo do chá das 17h na Inglaterra, tradição importada, na verdade, do contexto de colonização da Índia, de onde os in- gleses importaram não apenas o chá como toda a ritualística de seu consumo. Ainda assim, essa tradição é atualmente cultivada e reverenciada como autenticamente inglesa em função de sua pretensa antiguidade e também dos investimentos simbólicos nela realizados, tais como a distinção social atribuída aos sujei- tos que tomam o chá das 17h, que seriam os de origem nobre ou ao menos teriam “costumes requintados”. Assim, a conclusão que o debate sobre autenticidade pode apresentar em relação ao perfil do consumidor de turismo de visitação ao patrimônio dirá respeito às expectativas e moti- vações desse turista. Pode-se concluir que os turistas consumidores de passeios e atrativos de visitação a patrimônio são pessoas que buscam necessariamente a experiência de autenticidade histórica e cul- 226 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio tural em suas visitas. Esses turistas procuram vivenciar situações de descobrimento da história “real e verídica” em suas visitas a um patrimônio. Assim, para a gestão dos atrativos, é fundamen- tal conhecer essa perspectiva e encontrar formas de demonstrar aos turistas a autenticidade que tanto procuram. No entanto, é preciso levar em consideração alguns aspec- tos dessa discussão levantados por Boorstein, McCannel e Cohen. Pode-se concluir, com base nos autores, que os turistas estão bas- tante propensos a aceitar com boa vontade as narrativas locais, por mais fantasiosas que essas possam ser em relação ao conhe- cimento que se tem da história. No entanto, não se deve concluir a partir disso que os turistas podem e devem ser facilmente lu- dibriados com versões sabidamente enganosas da história local, mas é necessário reconhecer que o turista está aberto e especial- mente interessado no encantamento. A partir dessa característica, é necessário saber que contar a história “verdadeira”, tal como a conhecemos até o momento, não é suficiente; é preciso encantar o turista com essa história. É imprescindível que o atrativo patri- monial conte a história de forma fantástica, utilizando, para isso, técnicas como a ambientação de base histórica, fazendo uso de atrativos cênicos, teatrais e de outras formas de tornar a história “real” mais encantadora. Pode-se também lançar mão da interpre- tação do patrimônio, como forma de apelar a outras dimensões do conhecimento na viagem que não apenas intelectual. Outro aspecto importante que a questão da autenticidade traz à gestão dos atrativos de patrimônio é o fato de que a auten- ticidade é negociada e contextual e que as tradições são sempre inventadas mais antigamente ou mais recentemente. Assim, a au- tenticidade, como categoria social, é atribuída por determinados sujeitos sociais que ocupam posições sociais de onde é possível julgá-las, portanto é contextual, depende de quem, quando e onde julga e é também negociada, na medida em que esses sujeitos podem ou não ser contestados. Essa perspectiva precisa ser de- monstrada ao turista, comunicada a ele para construir o entendi- mento de que o autêntico não está apenas na realidade da alteri- Turismo e Patrimônio 227 dade cultural mais radical, da diferença cultural mais exótica, mas que pode também ser encontrado na experiência de proximidade cultural e que a autenticidade reside basicamente na vivência co- tidiana, nos objetos cujo sentido é construído e negociado cole- tivamente. Obviamente que a demonstração dessa perspectiva demanda um esforço da gestão do patrimônio, pois reencantar o cotidiano seria uma das atividades mais complexas que podem ser demandadas da gestão cultural. Seria preciso tornar atrativo, de forma criativa, o cotidiano, mostrar o encantamento existente nos aspectos mais singelos e autorreferentes da cultural local. Se- ria preciso tornar esses aspectos atrativos ao visitante do patrimô- nio de forma que seja possível a ele conectar-se não apenas com os aspectos grandiosos e monumentais do legado cultural local, mas também com seu presente e seus aspectos mais rotineiros da narrativa sobre o passado, todos eles igualmente interessantes para o visitante, esteja ele motivado por educação ou lazer. Conclusão Após a apresentação de alguns aspectos do perfil do con- sumidor de turistas de visitação a patrimônio, pudemos concluir alguns aspectos fundamentais. A compreensão do perfil do turista é fundamental para o planejamento dos atrativos de visitação ao patrimônio, seja para compreender seu público e suas demandas ou para ser capaz de procurar e atender a novas demandas. Pôde- se perceber que a partir das motivações de cada tipo de turista que visita o patrimônio existem demandas específicas que precisam ser atendidas. Também foi possível compreender que, com rela- ção à questão da autenticidade, existem características do perfil de consumidor que devem ser levadas em consideração. A busca pela autenticidade, a necessidade do encantamento e a necessida- de de uma apresentação adequada da questão da autenticidade são fundamentais para a gestão dos atrativos patrimoniais. 228 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Atividade Final Atende ao Objetivo 2 A reportagem a seguir mostra a criação de um roteiro turístico no litoral do estado da Bahia que tem como principal atrativo a cultura indígena e que procura despertar o interesse turístico a partir da ideia de autenticidade dessas culturas. Com base na reportagem, compare o conceito de autenticidade e as definições apresentadas nesta aula. A Rota das Aldeias convida o turista a embarcar numa viagem pela história brasileira e cultura indígena. Publicado por Equipe EcoViagem (7 de julho de 2009). Fonte: MTur: http://www.turismo.gov.br/salao/noticias/detalhes_noticias /200906104.html Porto Seguro — Beleza natural aliada à cultura indígena, com vivências com as tribos, faz da Rota das Aldeias uma viagem única e especial. A Rota das Aldeias convida o turista a embarcar numa via- gem pela história brasileira e pela cultura indígena. Ela é realizada na Costa do Descobrimento, nos municípios de Porto Seguro, de Santa Cruz Cabrália e nos distritos de Arraial d’Ajuda, Trancoso e Caraíva, num percurso de aproximadamente 100 quilômetros. Turismo e Patrimônio 229 O tempo de viagem varia de quatro a cinco dias, a depen- der da disponibilidade do visitante. As boas-vindas serão dadas pelos índios Pataxós. Os visitantes terão a oportu- nidade de escutar as histórias e lendas regionais contadas pelos anciãos, participar dos tradicionais rituais tribais, de- gustar os pratos típicos da culinária e aprender na prática as técnicas do artesanato. A ideia é propiciar ao turista uma vivência próxima, com imer- são na cultura indígena, com palestras interativas e caminha- das interpretativas. Um dos pontos altos do roteiro é o Awê, ritual de confraternização e agradecimento à mãe natureza. Ainda fazem parte da programação banho de rio e demons- trações de armadilhas usadas na caça, esportes típicos. A Rota das Aldeias passa pela Reserva da Jaqueira, Aldeia Coroa Vermelha, Aldeia Velha, Aldeia Imbiriba e a Aldeia de Barra Velha, conhecida como Aldeia Mãe. Todos esses locais são naturais, autênticos. Eles não foram montados para o roteiro. Cada aldeia ou reserva pode ser visitada individual- mente com tempo de permanência a critério do visitante. ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ___________________________________________________________ ________________________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ Resposta Comentada A autenticidade discutida na reportagem diz respeito à suposta não fabricação dos lugares para a comercialização em roteiros turísti- cos. Nesse contexto, o conceito de autenticidade será entendido como o natural, como aparece na própria reportagem, como aquilo que não foi modificado. Foi discutido, ao longo da aula, que o conceito de autêntico não se confunde com o natural, nem com aquilo que não foi modificado. Na verdade, esse conceito partirá sempre do principio de que o cultural é sempre modificado. Assim, se o autêntico fosse visto como aquilo que não muda, não haveria autenticidade na cultura. Percebemos em nossa discussão que o autêntico é aquilo que é validado pelo grupo e pela cultura local. 230 Aula 21 • Perfil do consumidor em turismo de visitação a patrimônio Dessa forma, o autêntico no texto está visto como o não fabricado para o turista e o que não procura enganar o turista. Por outro lado, do ponto de vista conceitual, o autêntico é visto como o socialmente construído, como o consenso cultural derivado de tradições, costu- mes e valores dos grupos sociais, e não como tradições suposta- mente imemoriais que seriam apresentadas para o turismo, pois, por mais antigas que sejam as tradições, elas estão em constante modificação e o que se apresenta hoje não é mais o costume tradi- cional como era apresentado quando foi criado. Resumo O turista de visitação a patrimônio é um modelo específico da ti- pologia turística. Ele se diferencia de vários outros tipos por uma série de especificidades com relação ao perfil socioeconômico e também com relação ao perfil de consumo. O perfil do turista de visitação a patrimônio estaria, de acordo com a teoria, entre o psi- cocêntrico e o mesocêntrico, ou seja, entre um perfil que prioriza as atividades de fruição intelectual e um perfil que prioriza as ati- vidades físicas ao ar livre. Pode-se definir o turista de visitação a patrimônio e o turista cultural como sujeitos sociais que investem na distinção social e na criação de padrões de consumo diferen- ciados baseando-se na diferença de nível educacional entre eles e os estratos mais baixos da população. A maior parte das visitas a patrimônio é feita por grupos orga- nizados em excursão social ou por familiares. Pode-se presumir, com base em algumas estatísticas, que, potencialmente, 60% dos consumidores de visitação a patrimônio são crianças situadas nas faixas etárias abaixo dos 16 anos. As motivações relativas à visita- ção a patrimônio podem ser divididas em três núcleos principais: aprendizagem formal; curiosidade, aprendizagem informal; e en- tretenimento, prazer. Para o adequado planejamento dos atrativos do turismo de patri- mônio, é necessário que haja uma pesquisa que procure estimar o tipo majoritário de consumidor, com base nos padrões de con- sumo desejados pelos visitantes e que se faça uma priorização com base em algum dos perfis de visitantes. Turismo e Patrimônio 231 Os turistas consumidores de passeios e atrativos de visitação a patrimônio são pessoas que buscam necessariamente a expe- riência de autenticidade histórica e cultural em suas visitas. Para a gestão dos atrativos, é fundamental conhecer essa perspectiva e encontrar formas de demonstrar aos turistas a autenticidade que tanto procuram.