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Capítulos INTRODUÇÃO PARTE 01 1780 INTRODUÇÃO PARTE 02 1787 O rei e mil e duzentos homens 1788 A queda da Bastilha 1789 A traição do monarca 1792 O Terror 1793 INTRODUÇÃO PARTE 01 1780 O considerado marco do início da história contemporânea foi resultado do acúmulo de acontecimentos desfavoráveis para a França. Como o envolvimento do país na guerra de independência dos Estados Unidos, na guerra dos sete anos entre Inglaterra e Prússia, as péssimas colheitas que abalavam a economia agrícola e os altos custos de uma corte luxuosa. Elizabeth d’Argout, nascida em 1770, ouvia sobre as indignações dos pais durante o jantar. O pai, um homem de negócios, discorria sobre como seus funcionários estavam lentos em suas funções e como os impostos estavam absurdos. A mãe, uma dama respeitável, ouvia com atenção tudo o que o homem dizia e falou apenas quando foi requisitada. - Não concorda, Jamilla? - Com certeza, Lemaire! Se me permite contar-lhe, caro marido, hoje mesmo estava escolhendo alguns tecidos no estabelecimento de madame Dominique e ela me disse algo curioso. A duquesa Maya d’Auvergne encomendou dez vestidos para o fim do mês, acredita? Durante essa crise, a maior preocupação da nobreza está atrelada as aparências?! - A senhora tem toda razão. Ainda se trabalhassem como nós, mas nem isso. É incompreensível como podem estar acima de nós. Elizabeth absorveu o que os pais disseram e compreendeu o valor do trabalho e a injustiça imposta por algo ou alguém que ela não conhecia. A garota pensou em sua querida nounou¹ que lhe cuidava desde que ela se conhecia por gente. Pensou em sua querida amiga Ella, cuja o pai trabalhava para o pai de Elizabeth e que segundo ele, era o homem mais confiavel de toda a França. Não lhe parecia correto que os nobres estivessem acima deles, que tanto trabalhavam e tão pouco tinham. Elizabeth, que pouco do mundo conhecia, sabia que odiava esses completos desconhecidos. 1Nounou: babá INTRODUÇÃO PARTE 02 1787 Era uma noite fria quando Benoit caminhava pelos corredores do castelo em direção a sala do rei Luís XVI. O jovem garoto, que havia recentemente se tornado padre - o mais jovem de toda a França – havia sido convocado para a Assembleia dos Notáveis pelo próprio rei. Benoit, era um homem extremamente devoto e conversava com Deus constantemente e agora, enquanto seguia na direção da Assembleia, não era diferente. Em seus pensamentos, diante de Deus, o menino lhe suplicava que o rei tivesse compaixão pelo povo e que tivesse sabedoria em suas atitudes. Ao chegar à sala, Benoit ocupou o seu lugar e esperou. Ele notou a presença de outros três representantes do Clero, também padres, porém com muitos anos a mais que ele. Ouviu-se um ruído estrondoso do lado de fora de uma porta fechada e Benoit soube que o show estava prestes a começar. - Caros companheiros de riqueza, perdoem nosso atraso!! Acreditam que erramos o caminho mais de... cinco vezes? A fala, dificultada pelos risos e pela voz embriagada, foi de Batilde de Orleães, um membro da nobreza, prima do rei. O garoto observou o homem sentado ao trono, coberto de ouro, que ria da situação. Quando enfim o restante dos nobres bêbados encontrara a sala, os Estados (primeiro e segundo) ocuparam seus lugares na reunião. - Declaro a Assembleia dos Notáveis aberta! – disse o anunciante. - Convoquei vocês aqui para discutir sobre a situação do nosso país. Há um tempo, uma grande sombra pousou sobre nós e precisamos trazer novamente a luz para a França. Acredito que saibam sobre o que está ocorrendo nas ruas da cidade. - Sim, soubemos que os plebeus estão com fome, que estão fazendo corpo mole para o trabalho e outras bobagens! – disse um nobre entre outros membros do segundo estado. Nenhum deles aguentaria um único dia vivendo como plebeu, pensou Benoit. - Exatamente. Já que estão cientes disso, podemos discutir de maneira mais aberta. É preciso arrecadar mais impostos. Devido a nossa situação creio que... - Ahh... deixe disso, Luís. Vamos aumentar os impostos dos servos imundos e voltar a beber. – Interrompeu uma das vozes entre o segundo estado, gerando uma série de gargalhadas. -Majestade – Benoit se viu dizendo em meio as risadas – eu creio que não será tão simples assim. Devido a colheita malsucedida, as pessoas não possuem dinheiro para a própria alimentação, é improvável que aceitem o aumento dos impostos. - O padre pode ter razão, primo. - Disse Luís Filipe José d'Orleães, o duque de Orleães. - Posso sugerir que o primeiro e segundo estado comecem a pagar impostos. O que acha disso? – Disse o rei depois de muito silencio. Ele olhava fixamente para Benoit. - Acho mais que justo. Talvez, eu possa utilizar parte do dinheiro dos dízimos para os impostos. De certa forma, os plebeus estariam pagando impostos. Houve um silencio absoluto que foi seguido por risadas escandalosas. A assembleia seguiu, os Estados ainda se negavam a pagar impostos e Benoit já imaginava o caos que seu país iria se tornar. O rei e mil e duzentos homens 1788 Elizabeth d’Argout, agora com dezoito anos, estava secretamente ouvindo atras da porta. É claro que sua mãe havia lhe dito, inúmeras vezes, o quanto aquilo não era muito educado e se a mulher visse o que a filha estava futricando, diria que aquelas não eram palavras para uma dama ouvir. Mas se trava do seu país. Do destino de seus queridos amigos e futuros filhos. É claro, a essa altura, Elizabeth já deveria estar casada. Porém, era uma garota difícil, como o pai costumava dizer. Ele a amava mais que qualquer tradição e por isso, a protegeu todas as vezes que um de seus amigos viúvos, tentava cortejá-la. O pai, não precisava de mais dinheiro. Era o maior banqueiro de toda a França e isso, deu a Elizabeth privilégios que garotas comuns não tinham. Tal como, de escolher seu próprio marido. Com a condição de que fosse um nobre. - Quem é você? A voz em questão surgiu atrás da menina. Ela virou e se deparou com um padre, jovem demais para o cargo. Analisando-o melhor, notou a semelhança com seu amigo de infância. Mas não, não poderia ser ele. - Benoit? Oh meu deus, não creio que seja você! - Liza? É você mesma? O que faz aqui? - Eu... Oras, não mentirei para você. Meu pai veio para a reunião e estou à espreita tentando ouvir alguma coisa. Por favor, não diga que estou aqui. Não sabe o desespero que é pensar que o seu destino, o destino de quem ama, está nas mãos de mil e duzentos e um homens desconhecidos. Benoit refletiu sobre o que a amiga disse. Realmente, ele não compreendia essa sensação. Ele estava presente na última assembleia e estaria nessa também. Ele não sabia ao certo se aquilo era assunto para uma dama, mas Liza sempre fora mais astuta que ele próprio. Apesar de não ser uma dama convencional – desde criança, ela nunca foi tão devota ou sequer submissa a outros meninos – ainda era sua amiga e irmã perante Deus. Então, ele fez o que achou correto. - Contar o que? - Ele sorriu para Liza e ela pareceu compreender. Benoit seguiu em direção a sala e teve o cuidado de abrir e fechar a porta de forma disfarçadamente ágil para que a garota não fosse descoberta. O novo anunciante do rei – pois o último, segundo os boatos, morreu de fome a alguns anos – declarou o início da reunião. - Meu povo, trouxe-lhes aqui pois sei das dificuldades enfrentadas por vocês. Saibam, que não desconsidero sua importância para meu reinado e não sei por que Deus castiga-os assim. Eu, seu rei, ordeno que haja uma votação. Cada um dos Estados terá um voto. Que seja feita a vontade de Deus. Isso bastou para que o caos se instala-se. Benoit soube que o rei estava amaldiçoado pelas próprias palavras. Naquele dia, a votação ocorreu e como esperado, os nobres e o clero, continuavam isentos de impostos. O jovem garoto foi o único membro do clero a ser contraa isenção de impostos do primeiro e segundo estado. O duque de Orleães, talvez o homem mais honrado entre o segundo estado, também se opôs. - Essa votação é inútil! É claramente um acordo entre os malditos nobres e a... Deus que me perdoe... a santa igreja! O homem sentado ao trono ordenou que o duque fosse levado e preso pelas suas palavras desgraçadas a ele, que era um escolhido de Deus. Todos sabiam que o duque apodreceria na Bastilha, tal como outros considerados inimigos do rei. Ninguém jamais voltara de lá. Com isso, o rei pensou que amedrontaria a população. Mas, já era tarde. Os homens do reino já estavam com seus pensamentos iluminados e seria impossível que recuassem. Naquele dia, Luís XVI assinou seu nome em uma guilhotina. A queda da Bastilha 1789 Durante aquele ano, a situação da França apenas se agravou. Os franceses continuaram a passar por dificuldades, mas dessa vez, decidiram que iriam protestar. Desde a Reunião dos Estados Gerais, ocorreram furtos e ataques a grandes fazendas em busca de alimento, mas também era um aviso. Um aviso para que o monarca no poder, cuida-se de sua coroa enquanto podia. Elizabeth sabia disso pois ouvia o pai falando sobre o assunto desde a reunião. Estava indignado com a decisão do rei, estava com grande medo por seus amigos fazendeiros e receoso pois, quanto tempo levaria para que passassem a assaltar comércios? A mãe, como sempre, ouvia e concordava com as falas do marido. A jovem não sabia como a mãe poderia não ter uma opinião sobre o assunto. Ela tinha, e se a expressasse poderia soar mais voraz que a do próprio pai. Liza, como era chamada pelos mais próximos, sabia como iria tomar uma decisão como um homem, sem que a mãe a repreenda. Faria com que a ideia parecesse ser do pai. - Esses nobres com seus títulos estúpidos! Eu poderia construir dez castelos como os que eles vivem e tudo isso com o suor do meu trabalho! E ainda assim, sou tratado como ser inferior. Bando de bêbados infelizes!! - Concordo plenamente, papai. - Elizabeth! - sussurrou a mãe em tom de aviso. - Deixe que seu pai fale e aguarde ser requisitada. Esse é o comportamento correto para uma... - Já chega Jamilla!! Deixe minha filha falar! Eu não requisitei que você dissesse algo, portanto, cale-se. A senhorita d’Argout recolheu sua mágoa e críticas para dentro de si e Elizabeth se sentiu mal pela mãe. O pai nunca falava dessa forma com ela. - Bem, papai, eu creio que o que está acontecendo seja bom. - Como pode crer em algo assim? -Talvez, essas revoltas causem algum impacto para o rei e sua corte. E se as pessoas estão desesperadas o suficiente para isso, quem sabe não estejam dispostas a realizar um ato mais simbólico. O homem coçou a barba enquanto ouvia sua filha falar. As ideias ainda estavam embaraçosas em sua cabeça. - Como assim, Liza? Era sua hora. A garota fingiu ter uma lembrança imediata de algo que o pai dissera ao longo de suas muitas falas naquela noite. - Oh, esqueça, papai. Seria mesmo uma ideia muito boba. Acabei de me lembrar de que o senhor contou sobre onde o Duque de Orleans foi aprisionado. Como as pessoas teriam coragem de se declarar contra a decisão do rei, se todos seriam jogados a Bastilha? Elizabeth observou por um tempo, as engrenagens do homem funcionando e... - É isso!! - Lemaire disse em meio a risadas – Vamos invadir a Bastilha! A jovem foi levantada e puxada pelo pai para um abraço. O homem a rodopiou no ar e lhe arrancou gargalhadas. Ela havia conseguido. Infiltrara sua ideia a cabeça do homem mais influente de toda a França. Elizabeth não sabia, mas havia dado início ao processo revolucionário mais influente de todo o mundo. Em 14 de julho de 1789 aconteceu a queda da Bastilha. Como resultado, ocorreu o surgimento de uma Assembleia Constituinte formada por pessoas do terceiro estado. Essa assembleia aboliu costumes feudais e fez diversas reformas econômicas. A partir dali passou a existir a chamada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão onde garante as liberdades individuais, direito a propriedade privada e direito de resistir a tirania e a opressão. Alguns anos mais tarde, em 1791, o pai de Liza chega em casa com uma notícia. Ele e outros membros da Assembleia aprovaram a primeira constituição já vista na França. Era uma série de regras sob as quais o rei deveria governar. Dentre elas havia o chamado voto censitário. - Todos nós poderemos votar! - Jura, papai? Até mesmo eu? - Perguntou ela, cheia de esperança. - Oras, não seja boba Liza. Somente homens com renda terão direito a voto, assim como deve ser. Política não é assunto para você, minha garotinha. Não se preocupe, eu cuidarei de tudo. Afinal, anos atras, eu tive a brilhante ideia que acabaria com toda aquela injustiça. Uma mulher nunca seria tão radical. Confie em mim, meu amor, está segura longe desses assuntos difíceis e chatos. Elizabeth ficou extremamente chateada com o pai. A ideia era dela. Era injusto que homens tão ignorantes levariam todo o crédito por uma ideia vinda de uma mulher. Ali, ela entendeu que se quisesse entrar para a história, aquilo não bastava. A traição do monarca 1792 Benoit, perambulava pela noite fria em busca de respostas. Ele notara que o surgimento de uma monarquia constitucional não agradava em nada o homem que usava coroa e o garoto temia o que aquilo poderia significar para a França. Enquanto caminhava olhando as estrelas, pensou se seu Deus lhe responderia naquela noite. Foi então que ele avistou o rei, num canto escondido do castelo, próximo a uma carruagem. Benoit se aproximou para ouvir a conversa. - Ninguém pode saber que estou partindo para Áustria, ouviu? Se alguém se quer desconfiar, eu mando-lhe para guilhotina. - Dizia o monarca para um de seus servos. Benoit não podia acreditar. Correu dali imediatamente para avisar quem quer que pudesse impedir aquele absurdo. Aquilo era alta traição. Se fosse pego, o rei seria morto e o jovem sabia disso. Mas aquela informação descoberta por ele não poderia ser coincidência. Era a resposta de seu Deus para as suas orações. Por isso, quando bateu à porta do senhor Lemaire d'Argoubet tarde da noite, o menino não hesitou em lhe contar os detalhes de tudo o que sabia. O pai de Elizabeth, quando soube, convocou toda a assembleia e pôs todos os seus homens atrás da carruagem de Luís. O rei foi encontrado e foi arrastado novamente para seu castelo. Lá, em sua sala, diante de todos, ele negou as acusações. - Mas que absurdo!! Eu sou um rei! Não posso viajar? Devo- lhes satisfação de cada passo meu? Não posso fazer uso de minha própria carruagem sem que un taré² se meta em minha vida? 2un taré: um louco. O monarca não sabia que fora Benoit que o denunciara. Lemaire tomou os devidos cuidados para que isso não acontecesse. Ainda com as alegações do rei, a assembleia passou a considerá-lo perigoso e foi decretado que ficaria preso por tempo indeterminado. No dia seguinte, com todos os membros reunidos, pela primeira vez a assembleia esteve completamente dividida. Os chamados Jacobinos (que sempre estavam à esquerda do rei) queriam que o homem fosse mandado a guilhotina. Os Girondinos (que sempre estavam à direita do rei) acreditavam que a morte do monarca iria desestabilizar completamente a economia francesa. - Cidadãos, trair a causa do povo e nossa própria consciência, abandonar a pátria a todas as desordens que a lentidão desse processo deve excitar, eis o único perigo que devemos temer. Está na hora de ultrapassarmos o obstáculo fatal que nos prende há tanto tempo no início de nossa carreira. Assim, sem dúvida, marcharemos juntos para o objetivo comum da felicidade pública. Assim, as paixões odiosas, que brandam muito frequentementeneste santuário da liberdade, darão lugar ao amor pelo bem público, à santa emulação dos amigos da pátria. Todos os projetos dos inimigos da ordem pública serão vexados. - disse Robespierre, um membro dos Jacobinos, a favor da execução do rei. O pai de Elizabeth, um homem de renda admirável, - herdada do próprio pai - permanecia do lado direito. O duque d'Orleães, – libertado durante a queda da Bastilha - permaneceu ao lado esquerdo, apoiando a degolação de seu parente. Benoit não fazia ideia de onde ou qual lado deveria defender. Em seu coração, sabia qual lado escolher. O rei iria abandonar a sua própria nação, era obviamente preciso que houvesse uma punição. Mas, tendo em vista que os outros membros do clero permaneceram ao lado direito do trono, ele não teria outra escolha. Graças aos Girondinos, o rei permaneceu vivo inicialmente. Mas, após o surgimento da Aliança Internacional Antirrevolucionária entre Prússia e Áustria, o decreto de sua morte ficou obvio. A França lutou bravamente em uma guerra em favor a revolução e saiu vitoriosa. Em comemoração, o monarca francês foi mandado para a guilhotina, como Benoit previa. A partir de então, foi proclamada pela primeira vez em toda a França, uma República. Os primeiros a estar no controle, eram os Girondinos. Eles tomaram o poder e fortaleceram a propagação de suas ideias no reino da França. Infelizmente para a alta burguesia, nem todos estavam contentes com a revolução. Ocorriam perseguições aos que fossem contrários a política Girondina e por isso, muitos trabalhadores se opunham à república. Naquele período, tanto Elizabeth quanto Benoit viam um homem chamado Robespierre fazendo inúmeros discursos públicos contra os burgueses e indicando ao povo uma outra alternativa. A república Jacobina. Aquele homem, que falara com tanto fervor durante o julgamento do rei, era visto como uma chama em meio a escuridão que há tanto tempo assombrava os trabalhadores. - O que está acontecendo? - Perguntou Benoit a um de seus fiéis. Ele observava um grande tumulto na praça. Um mar de pessoas se juntara ao redor de um banco e lá, ele avistou Robespierre subir ao mesmo. - Seu companheiro Marat foi assassinado pela aristocrata Marie-Anne Charlotte de Corday d'Armont. Pobre coitado. Esses infiéis pensam que podem fazer o que quiserem com qualquer um. - Que o gládio da lei caia, que seus assassinos, que seus cúmplices, que todos os conspiradores pereçam. Que o sangue deles seja derramado para satisfazer a alma do mártir da liberdade. Nós o exigimos em nome da dignidade nacional ultrajada. - Dizia o homem do alto do banco. Benoit ouviu o que aquele estranho dizia e pela primeira vez em muito tempo, teve esperança. Por isso, quando em 1793 a revolta de vendéia estabeleceu a república Jacobina, o padre avistou Robespierre recebendo vivas da população e lhe deu um grande sorriso. O Terror 1793 Liza, agora com vinte e três anos, sem marido e sem filhos, observava com pesar, as mudanças ocorridas em seu país. De certo, era um grande passo em direção a uma mudança desde que Robespierre assumiu o país. Ele havia decretado o voto universal, a reforma agraria, a abolição da escravidão nas colônias e vários direitos trabalhistas. Nenhum deles incluía alguma mudança para mulheres. Ao longo daquele ano, ela ouviu diversos discursos daquele homem. Discursos sobre igualdade, sobre fraternidade e sobre liberdade. Ela se perguntava se algum dia, aquilo seria assunto para uma dama ou sobre as damas. Ela não compreendia por que aquilo não cabia a ela. Elizabeth era poliglota, bordava, pintava, lia e escrevia muito bem. Ainda assim, ouvia reclamações da mãe sobre como era uma vergonha para a família pois ainda não havia se casado. A jovem queria mudar o mundo, não tinha tempo para um marido. Além disso, sua amiga Ella havia lhe contado horrores de seu casamento. O homem nunca a chamava pelo nome, não lhe dirigia qualquer palavra que não fosse para lhe dar ordens e a impedia de todos os hobbies que preenchiam o coração da amiga. Isso não aconteceria com ela. Nunca. Jamais. Ela preferia estar morta a ser tratada de tal forma por quem quer que fosse. Mais tarde, naquele mesmo ano, Elizabeth esperava seu pai voltar para a casa como todos os dias. O homem estava atrasado. Ele nunca se atrasara sequer um dia de sua vida. - Ele já vai voltar. - Dizia sua mãe. Naquela noite, Liza recebeu a notícia mais dolorosa de toda a sua vida. O informante da família trouxe a informação e se fosse qualquer outro, ela duvidaria. Seu pai havia sido morto pelos Jacobinos, acusado de conspiração conta a pátria. Ela gritou, chorou e desabou em prantos diante do informante. Ele comunicou que ela e sua mãe seriam perseguidas pelo fato de que eram burguesas e possuíam laços com um homem considerado perigoso. As duas mulheres se apressaram em sair da cidade, mas não tiveram sucesso. Elizabeth d'Argoubet e Jamilla d'Argoubet foram assassinadas na guilhotina em praça pública, acusadas de conspiração. Benoit, um homem devoto, caminhava pelas ruas sangrentas da França sem acreditar no que via. Aquele homem, o homem por quem ele teve esperança, havia o traído da maneira mais cruel. As ruas eram tingidas de vermelho sangue e aqueles que não morriam de fome, eram mortos na guilhotina. Morta. Elizabeth estava morta e a mando daquela república. A república que era contra a tirania havia assassinado sua amiga de infância. Naquela noite, Benoit entrou no salão de convenção determinado. Ele enfrentaria Robespierre e o amaldiçoaria pelos seus atos. Ele teria feito isso se não fosse a figura ao lado de Dalton – um antigo jacobino, antes da era do terror. Era mesmo Lemaire d'Argoubet? Não era possível! Ele foi morto não havia uma semana. Robespierre também se assustou ao notar a silhueta de um homem dado como morto, ao lado de seu, agora, inimigo declarado. Os discursos ocorreram e era notável quem sairia vitorioso daquela situação. Robespierre havia perdido muito apoio popular e Dalton de aproveitara disso. Ele e o pai de Liza discursaram e juntos, mais tarde, trouxeram novamente a república Girondina para a França. Novamente, os interesses burgueses voltaram a ser atendidos e Benoit, ainda confuso, se perguntava como tudo aquilo era possível. Ele viveu seus últimos anos em paz quando em 1799, no dia conhecido como 18 de Brumário, um homem chamado Napoleão tomou dos girondinos, o poder. Benoit, deslocado e amedrontado por tudo o que passara, tirou a própria vida.