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A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTIFICO

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Unidade 1
A Construção do Conhecimento Científico
Aula 1
As Diferentes Formas de Conhecimento
As diferentes formas de conhecimento
As diferentes formas de
conhecimento
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para
você. Nela, você irá aprender conteúdos importantes para a
sua formação profissional. Vamos assisti-la? 
 
Ponto de Partida
Ponto de Partida
Olá, estudante!
Você já refletiu sobre o que é o conhecimento? Por que e
como sabemos o que sabemos? O que é possível conhecer?
De acordo com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa
Michaelis (2023), o conhecimento pode ser definido como o
ato ou efeito de perceber/compreender por meio da razão
e/ou da experimentação. E o que isso quer dizer? Quer dizer
que tudo o que conhecemos é produto do nosso processo
cognitivo (razão) ou vem daquilo que vivenciamos
(experimentação). Assim, entendemos que o ato de conhecer
é uma construção que se dá ao longo de nossas vidas.
Se o conhecimento é uma construção, ele se dá de
diferentes maneiras e podemos identificar diferentes tipos
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
de construções. Vamos elencar três delas: o senso comum
(também chamado de conhecimento
empírico/popular/vulgar), o conhecimento religioso e o
conhecimento filosófico. A partir disso, vamos refletir sobre a
seguinte situação: Em uma sala de aula, três estudantes são
desafiados pelo professor de Filosofia a responderem a três
questões, que são recorrentes ao longo da história:
1. De onde viemos?
2. Para onde vamos após a morte?
3. Por que estamos aqui?
Cada aluno, a partir da sua visão de mundo, adota uma
postura diferente em relação às respostas. Lucas vê o
mundo a partir do conhecimento religioso; Saulo interpreta
as questões a partir do filosófico e, por fim, o último, Daniel,
por meio do senso comum.
E você, como responderia tais questionamentos? Ao
decorrer da aula você será capaz não apenas de entender
como se dá a construção dos diversos tipos de
conhecimentos, mas também de identificá-los a partir de
suas particularidades. Bons estudos!
Vamos Começar!
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
Vamos Começar!
De onde vem o nosso conhecimento? Esse é um
questionamento que muitas vezes não nos fazemos, mas é
importante para compreendermos as diferentes formas de
interpretação dos fenômenos que nos cercam. Segundo
Aranha e Martins (2003), ao falar sobre conhecimento,
podemos fazer alusão ao ato de conhecer ou a aquilo que é
produto do conhecimento. O ato de conhecer é pertinente à
relação que se dá entre a consciência (aquele que busca
conhecer) e o objeto (aquilo que vai ser conhecido). Por sua
vez, o produto do conhecimento é resultado do ato de
conhecer, sendo entendido como a soma dos saberes
acumulados e recebidos. Esses saberes sofrem influências
sociais, culturais, econômicas, políticas e históricas na sua
constituição.
O ser humano é, por natureza, curioso e investigativo;
sentimos a necessidade de conhecer. Esse conhecimento é
algo dinâmico, ou seja, está em constante movimento e em
constante transformação. A partir disso, é possível
compreender que o conhecimento vem sendo construído ao
longo da história, a partir de diferentes perspectivas,
variando e se transformando de acordo com o tempo
histórico e com as diferentes regiões do planeta. Isso quer
dizer que a interpretação dos fatos e fenômenos que nos
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
cercam também se transformam à medida que a sociedade
se transforma.
Basta percebermos que muitos valores, regras, visões
econômicas, sociais, políticas e culturais vigentes no nosso
país na década de 1930, por exemplo, não são os mesmos
que nos guiam na atualidade. Para compreendermos
melhor, vamos pensar no direito ao voto, que para as
mulheres se concretizou apenas em 1932 de maneira
facultativa. Nas eleições de 1933, as mulheres puderam
votar e ser votadas pela primeira vez, mas foi somente no
ano de 1965 que o voto feminino foi equiparado ao voto dos
homens, se transformando em um dever social (Tosi, 2023).
Atualmente os partidos políticos têm inclusive cotas mínimas
que devem ser reservadas para a candidatura de mulheres
em cada pleito eleitoral.
Essa reflexão é importante, pois nos ajuda a compreender
como as transformações na sociedade influenciam a nossa
visão de mundo, a nossa interpretação da realidade e a
maneira como construímos o nosso conhecimento a respeito
das mais diversas questões, sejam elas sociais, culturais,
econômicas, políticas, etc. Esse processo, como já vimos, é
dinâmico, o que implica dizer que esse conhecimento está
em constante transformação. Existem diferentes formas de
interpretarmos a realidade que nos cerca, de chegarmos às
respostas daquilo que nos inquieta. Desse modo, podemos
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
classificar o conhecimento em diferentes tipos, a depender
do tipo de resposta que damos a um determinado
questionamento.
Siga em Frente...
Siga em Frente...
Senso comum
Há quanto tempo os indivíduos usam ervas medicinais no
tratamento de doenças? Há muitos séculos. Você
provavelmente já ouviu sobre como o chá de boldo ajuda a
melhorar a ressaca ou que, para melhorar o sono, chá de
camomila é “tiro e queda”. E que o açúcar cristal pode ser
utilizado na cicatrização de ferimentos, você sabia? Essas
soluções, que parecem simples e naturais, fazem parte da
construção dos saberes de determinado grupo; compõem a
sua cultura, são transmitidas geração após geração, na
maioria das vezes sem questionamento. É o que chamamos
de sabedoria popular, conhecimento empírico ou senso
comum.
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
Atualmente, há pesquisas científicas que indicam a eficácia
bactericida e cicatrizante do açúcar cristal; outras mostram
como o boldo tem efeito sobre a vesícula biliar e aumenta as
secreções gástricas; encontram-se, ainda, estudos que
revelam as funções calmante, relaxante e ansiolítica
presentes nos compostos da camomila. Mas as questões
citadas anteriormente são de cunho científico e não fazem
parte da construção do senso comum. Na maioria das vezes,
as pessoas apenas conhecem os benefícios do uso das
plantas, por exemplo, algo que é fundamentado na
percepção sensorial e na tradição, limitando-se a
informações sobre o seu uso (Köche, 2011).
Aranha e Martins (2003, p. 60) definem o senso comum
como o “conhecimento adquirido por tradição, herdado dos
antepassados e ao qual acrescentamos os resultados da
experiência vivida na coletividade a que pertencemos”. É,
portanto, um conhecimento adquirido por meio de vivências
construídas no dia a dia e que se dá pela relação e interação
contínua com o meio ambiente e/ou meio social em que
estamos inseridos. Assim, é um corpo de ideias e valores por
meio das quais interpretamos a realidade e buscamos as
respostas para os nossos questionamentos e para as nossas
ações.
O senso comum é um conhecimento que não requer
nenhum tipo de exercício crítico, pois está ligado às vivências
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
pessoais e ao interesse prático; também não envolve
nenhum tipo de verificação experimental para tomar algo
como verdade. Ele é considerado como passivo, ingênuo e
dotado de subjetividade, pois contenta-se com explicações
superficiais e imediatas; mistura-se com crenças e
preconceitos; muitas vezes é permeado por incoerências e
se mostra resistente a mudanças. A revisão e a crítica dos
princípios que norteiam o senso comum, segundo Bunge
(1969, p. 20), ocorrem apenas quando “evidências
espontâneas proporcionam uma correção da interpretação
anterior”.
Mas, atenção! Mesmo sendo consolidado como convicção,
cultura ou tradição, precisamos nos atentar para as
características negativas desse conhecimento, como a
produção de sentenças, injustiças e opiniões
preconceituosas que são produzidas pelo senso comum e
ganham espaço na sociedade. Questões ligadas à xenofobia,
ao racismo, à misoginia, à homofobia, etc., estão assentadas
em crenças infundadas e retrógradas que contribuem para a
perpetuação do ódio e da exclusão ao diferenteVamos assisti-la? 
 
Ponto de Chegada
Ponto de Chegada
Olá, estudante!
Para desenvolver a competência desta Unidade, que é
“compreender os diversos tipos de conhecimentos,
identificando suas particularidades e aplicações no mundo
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
real, evidenciando suas consequências práticas e implicações
nas tomadas de decisão e, a partir dessa reflexão, conhecer
a epistemologia do conhecimento científico e suas
perspectivas”, você deverá primeiramente conhecer os
conceitos fundamentais de: senso comum, conhecimento
religioso, conhecimento filosófico e conhecimento científico.
O senso comum é um tipo de conhecimento que não se
preocupa em questionar as verdades instituídas, aquilo que
é apresentado previamente como verdadeiro e é transmitido
de geração para geração. O conhecimento religioso ou
teológico é dogmático, ou seja, não é passível de
questionamentos. É proveniente da iluminação divina e
aquilo que vem de Deus ou de uma divindade não deve ser
questionado.
O conhecimento filosófico é aquele que não aceita uma
verdade previamente instituída; ele faz questionamentos e
reflexões a respeito dos fatos, daquilo que está em questão.
É um questionamento fundamentando, buscando
estabelecer relações entre aquilo que está sendo analisado e
as correntes filosóficas existentes.
Por sua vez, o conhecimento científico tem sua origem a
partir da evolução do modo de produção capitalista. Era
preciso um conhecimento que explicasse como incrementar
o desenvolvimento das forças produtivas, e isso não era
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
encontrado no senso comum, nem na religião, nem na
filosofia. Assim, a ciência determina seu objeto específico de
investigação e cria um método confiável pelo qual estabelece
o controle desse conhecimento. Os métodos rigorosos
possibilitam estabelecer um conhecimento sistemático,
preciso, causal e objetivo que permite a descoberta de
relações universais entre os fenômenos, a previsão de
acontecimentos e a ação sobre a natureza de maneira mais
segura.
É preciso se atentar para o fato de que, ao falar em ciência,
não é feita referência apenas àquele tipo de ciência cuja
imagem muitas vezes nos é passada pelo senso comum;
aquela feita em laboratórios, pelas ciências exatas e naturais.
As ciências humanas também precisam ser incluídas nesse
campo científico, pois também produzem um conhecimento
sistematizado e confiável, pautado em elementos que
buscam a verdade para o entendimento dos fatos e
fenômenos. Elas se consolidaram a partir da evolução do
modo de produção capitalista, a partir da racionalização dos
campos social, político, econômico e cultural da vida
humana.
Em um primeiro momento, as ciências humanas tomaram
como base as ciências naturais para o desenvolvimento das
suas perspectivas teóricas, entendendo que era possível
analisar os fatos e fenômenos sociais com a mesma
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
objetividade e distanciamento com que são analisadas as
questões naturais. Com o desenvolvimento das teorias e a
transformação da sociedade, surgiram outras teorias que
contestaram esse olhar, entendendo que não era possível
analisar com tanta objetividade e distanciamento os
fenômenos sociais que apresentam características tão
subjetivas e particulares, e que muitas vezes não são
passíveis de previsibilidade no seu processo de
experimentação.
Assim, essas questões são fundamentais para que se
compreenda a estruturação do pensamento moderno e
contemporâneo, para que se compreenda a maneira como a
sociedade se estruturou ao longo dos anos e quais foram as
influências, as visões de mundo que atuaram nessas
transformações. Essas questões estão presentes também na
nossa atualidade e são importantes para a compreensão e
análise de aspectos que permeiam a nossa realidade.
Reflita
A partir disso, reflita sobre os seguintes questionamentos:
A racionalização pela qual o mundo moderno passou e que ainda hoje
vivemos de fato é utilizada para a transformação da sociedade a partir
de uma perspectiva positiva ou o desenvolvimento da ciência também
pode ser usado de uma forma que pode ser considerado
destrutivo/prejudicial?
Os diferentes tipos de conhecimento (senso comum, conhecimento
religioso, conhecimento filosófico e conhecimento científico) se
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
relacionam de alguma forma ou eles se estruturam e se desenvolvem
de maneira independente?
É Hora de Praticar!
É Hora de Praticar!
O conflito entre Israel e Palestina não é algo novo nem
recente; ele existe há muito tempo e tem nuances políticas,
históricas, sociais, religiosas. Olhando de uma perspectiva
histórica, é possível entender que esse conflito começou na
década de 1940, quando o Reino Unido criou um “lar
nacional” para os judeus na região da Palestina (entre o rio
Jordão e o Mar Mediterrâneo) após a Segunda Guerra
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Mundial. Tal situação desagradou os muçulmanos e, desde
então, nunca houve um acordo de paz.
A tensão entre esses dois povos vem se intensificando ao
longo dos anos e parece estar longe de ser resolvido. Para
compreender melhor as questões que estão envolvidas
nesse confronto, leia o texto: “O conflito entre Israel e
Palestina”, de Taís Lima Vieira, Paulo da Silva Cardoso e
Laura de Almeida Schefer.
Após a leitura do artigo, responda aos seguintes
questionamentos:
De que forma o conflito entre judeus e muçulmanos
pode ser interpretado por meio do conhecimento
religioso?
De que maneira o conhecimento científico nos auxilia a
compreender as questões envolvidas no confronto?
Bons estudos!
Reflita
Que tal voltar no conteúdo estudado e retomar os pontos
principais que podem ajudá-lo a responder os
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/445/305
https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/445/305
questionamentos levantados? Este é um momento em que
você poderá exercitar o que aprendeu!
Resolução do Estudo de Caso
As diferentes questões que envolvem o nosso cotidiano
podem ser interpretadas por diferentes visões de mundo, a
partir de diferentes conhecimentos. Isso serve para
inúmeras situações com que nos deparamos. As diferentes
formas de conhecer nos auxiliam no nosso cotidiano; em
uma conversa informal; no nosso trabalho, no qual
precisamos estar informados e atentos; ou quando
professamos alguma fé, momento em que seguimos
determinada doutrina.
Ao interpretar o conflito entre judeus e muçulmanos pela
ótica religiosa, é necessário compreender que os judeus
enxergam a região como a Terra Prometida, conforme
descrito no Antigo Testamento. Assim, esse povo tem um
sentimento de pertença ligado àquela região. Por outro lado,
o território também é considerado sagrado pelos
muçulmanos, que ocuparam a Palestina (o território foi
renomeado pelo Império Romano ainda na Antiguidade) por
volta do século VII d. C. e lá permaneceram até a dominação
turca no século XIV.
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Por outro lado, olhando de uma perspectiva social,
econômica e política, existem outros fatores que estão
ligados a essa disputa territorial, que vem desde a Primeira
Guerra Mundial, quando os britânicos assumiram o controle
do local. Após a Segunda Guerra Mundial e depois do
Holocausto, aumentou a pressão pelo estabelecimento de
um Estado judeu. O plano original previa a partilha do
território controlado pelos britânicos entre judeus e
palestinos.
A disputa é por território e soberania. Israel reivindica a
soberania sobre Israel inteira, e afirma, após ocupar
Jerusalém Oriental, que a cidade é sua capital “eterna e
indivisível”. Os palestinos querem Jerusalém Oriental como
sua capital. Existem assentamentos ilegais no território
palestino e refugiados palestinos em território israelense.
Existem também interesses militares envolvidos nos
conflitos.
Para se aprofundar no assunto, você pode ouvir o episódio:
Israel X Palestina: a história do conflito, do podcast O
Assunto, publicado no dia 13 de outubro de 2023.
Assimile
Vamos olhar para uma linhado tempo pensando na
transformação da sociedade da Idade Média para a Idade
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Moderna e a construção do conhecimento nesse período.
Fonte: elaborada pela autora.
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena
Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. São Paulo:
Moderna, 2003.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social:
teoria, método e criatividade. 26ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
VIEIRA, Tais Lima; CARDOSO, Paulo da Silva; SCHEFER, Laura
de Almeida. O conflito entre Israel e Palestina. Revista Vianna
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Sapiens, Juiz de Fora, v. 9, n. 2, p. 334-357, 21 dez. 2018.
Disponível em:
https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/445/3
05. Acesso em: 19 out. 2023.
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/445/305
https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/445/305(Gallo, 2016).
Conhecimento religioso
Se você professa alguma fé, é possível que você já tenha
ouvido dizer que a fé é um mistério, é uma dádiva. Nosso
intuito aqui é refletir sobre como esse conhecimento se
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
constrói, e não sobre uma crença especificamente. Dessa
forma, o conhecimento religioso (ou teológico) pode se
enriquecer do conhecimento empírico, especialmente das
tradições culturais e religiosas cultivadas ao longo do tempo.
Por exemplo, na preservação dos mitos gregos de que os
deuses reinavam nos céus, apropriada pelas religiões
politeístas.
A religião pode ser considerada uma forma de explicar a
relação dos indivíduos com a natureza, com os
acontecimentos cotidianos e o sentido da vida, ou seja, é
uma visão de mundo que tem respostas próprias para as
questões que nos cercam. Assim, existe a crença de que
tudo à nossa volta acontece pela vontade de
energias/entidades superiores/sobrenaturais (Aranha;
Martins, 2003). Podemos compreender então que a fé
religiosa é a responsável por sustentar o conhecimento
religioso.  
É fato que existem diferentes crenças religiosas ao redor do
mundo. Isto posto, compreendemos que as diferentes
crenças possuem os seus próprios elementos, rituais,
códigos de conduta que os regem; por exemplo: o
cristianismo, o judaísmo, as religiões de matriz africana, etc.
Por outro lado, o que elas têm em comum é que são
centradas na fé, se baseiam em verdades reveladas por Deus
ou pelas divindades que cultuam. Por isso, as religiões são
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
consideradas dogmáticas, por se basearem em verdades,
fundamentos que não podem ser discutidos ou contestados
(Gallo, 2016).
Esse tipo de conhecimento requer um elemento-chave para
alcançá-lo, ao menos da forma como defenderam diversos
pensadores da Idade Média, como Santo Agostinho, que é a
iluminação religiosa como método para conhecer a verdade
ou a Deus. Assim, suas evidências não são verificadas, não
há preocupação com a racionalização e nem necessidade de
comprovação para que algo seja aceito como verdade,
muitas vezes como verdade absoluta. Por ser valorativo, o
conhecimento religioso também pode ser carregado de
preconceitos e noções pré-estabelecidas sobre diversas
questões; por isso, devemos nos atentar a tais quesitos.
Conhecimento filosófico
“Só sei que nada sei!” Essa talvez seja a frase mais conhecida
do filósofo grego Sócrates, que viveu entre 470 e 399 a.C.
Mas há quem diga que a frase de Sócrates não foi
exatamente essa, criando toda uma discussão a respeito do
assunto. Fato é que a frase nos leva a um dos pilares da
Filosofia: o pensamento crítico e reflexivo. Pensar de uma
maneira crítica e reflexiva nos permite interpretar a
realidade em que estamos inseridos, buscando por
respostas que não estão prontas, que não se configuram
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
como verdades absolutas. Assim, permite-nos buscar
possíveis relações de causa e efeito entre os fenômenos e, a
partir de escolhas mais racionais, ressignificar a realidade
em que estamos inseridos. Portanto, podemos compreender
que a Filosofia e o conhecimento filosófico se estruturam a
partir da razão (Aranha; Martins, 2003).
O conhecimento filosófico é amplo, abarcando diversos
posicionamentos ao longo da história da filosofia,
especialmente o empírico e o racionalista. Vamos nos
aprofundar no empirismo e no racionalismo na próxima
aula, mas, basicamente, os filósofos empiristas entendiam
que nossos conhecimentos vinham da experiência, de tudo
aquilo que vivemos. Já os racionalistas defendiam que temos
ideias inatas, nascemos com elas, portanto, adquirimos
conhecimento por meio da razão. Esse embate
epistemológico persistiu até a Idade Média e até mesmo
atualmente. Há diferentes olhares e diferentes
interpretações a respeito de um mesmo fenômeno (Gallo,
2016).
Assim como o senso comum e o conhecimento religioso, o
conhecimento filosófico se constituiu como uma visão de
mundo a respeito de tudo o que nos cerca, estando
fundamentado na lógica, na argumentação, na construção e
na definição de conceitos. “Os conceitos não estão prontos e
acabados, mas estão sempre sendo criados e recriados,
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
dependendo dos problemas enfrentados a cada momento”
(Gallo, 2016, p. 13). Desse modo, a filosofia é de suma
importância para nós, uma vez que nos auxilia na
compreensão da nossa existência, na reflexão sobre nossos
valores e posicionamentos frente às mais diversas situações.
Podemos entender que, em muitos momentos, a filosofia
mantém com o conhecimento religioso ou com o senso
comum uma relação conflituosa, uma vez que ela vai
questionar as respostas prontas e as verdades absolutas por
eles apresentadas. Por outro lado, o conhecimento filosófico
apresenta maior afinidade com perspectivas mais abertas de
conhecimento, como o científico, por exemplo, em que o
questionamento e a correção são possíveis. Assim, é possível
entender que o conhecimento filosófico possui uma relação
de absorção com o conhecimento científico, contribuindo
para o fornecimento de um tratamento conceitual adequado
e o levantamento de problemas sobre a realidade.
Vamos Exercitar?
Vamos Exercitar?
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Você se lembra dos três alunos que foram questionados pelo
professor de Filosofia sobre três pontos específicos? Agora
que já compreendemos as características do senso comum,
do conhecimento religioso e do conhecimento filosófico, é
hora de pensar como esses alunos podem ter respondido
aos seguintes questionamentos:  
1. De onde viemos?
2. Para onde vamos após a morte?
3. Por que estamos aqui?
Cada aluno, a partir da sua visão de mundo, adotou uma
postura diferente em relação às respostas. Lucas, que vê o
mundo a partir do conhecimento religioso ligado ao
cristianismo, atribuiu nossa origem à criação divina,
entendendo que o nosso maior propósito no mundo é servir
a Deus; também respondeu que, após a morte, vamos para o
paraíso ou o inferno, dependendo de como agimos durante
nossas vidas. Saulo interpreta as questões a partir do ponto
de vista filosófico; assim, ele levantou outros
questionamentos, por exemplo, sobre os conceitos de morte
e vida, o conceito de origem e evolução, para refletir sobre
as questões propostas.
Por fim, Daniel, por meio do senso comum, respondeu que
depende do contexto. Um indiano, provavelmente,
responderia com base em suas crenças culturais regionais,
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
manifestando explicações de caráter hinduísta. Nesse
sentido, como foi explicado no texto, o conhecimento
popular absorve aspectos de outros conhecimentos que são
incorporados fortemente pela cultura.
Saiba mais
Saiba mais
1. Para conhecer mais sobre os diferentes tipos de
conhecimento e a relação de constituição entre eles, leia
o artigo “Ciência, senso comum e revoluções científicas:
ressonâncias e paradoxos”, de Marivalde Moacir
Francelin.
FRANCELIN, Marivalde Moacir. Ciência, senso comum e
revoluções científicas: ressonâncias e paradoxos. Ciência
da Informação, Brasília, v. 33, n. 3, p. 26-34, dez. 2004.
2. Vamos falar de fé e respeito? Você sabia que o número
de denúncias de intolerância religiosa no Brasil
aumentou 106% em apenas um ano? Embora a liberdade
religiosa seja assegurada pela Constituição, os números
apontam para a necessidade de uma mudança cultural;
para isso, é necessário muito diálogo. Como podemos
trabalhar a favor da liberdade religiosa?
Para se aprofundar nessas questões, ouça o episódio
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://www.scielo.br/j/ci/a/ZmhGpGCb8DnzGYmRBfGWNLy/abstract/?lang=pt#
https://www.scielo.br/j/ci/a/ZmhGpGCb8DnzGYmRBfGWNLy/abstract/?lang=pt#
“Jesus e Exu: Diálogos possíveis” do podcast Mamilos.
Nesse episódio, há dois convidados. Um deles é Claudia
Alexandre, mestre e doutora em Ciências da Religião; ela
também é egbomi de Oxum e pesquisadora do carnaval
e das religiosidades de matriz africana. O outro é
Leandro Rodrigues, pastor e teólogo, presidente da
Igreja Habitar, Líder doColegiado de Pastores e do
Conselho Eclesiástico.
3. Saber mais a respeito do conhecimento filosófico é
fundamental para conseguirmos refletir a respeito de
questões pertinentes ao nosso cotidiano. Vamos
adentrar nesse caminho lendo o capítulo a seguir, do
livro: Filosofia: Textos Fundamentais Comentados. Bons
estudos!
BAKER, Ann. O que é filosofia? In: BONJOUR, Laurence;
BAKER, Ann. Filosofia: Textos fundamentais comentados.
2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. cap. 1. p. 21-39.  
 
 
Referências
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788536323633/pageid/18
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena
Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. São Paulo:
Moderna, 2003.
BUNGE, Mario. La investigación científica. Barcelona:
Colección Convivium, Ariel, 1969.
CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à filosofia. São Paulo:
Ática, 2014.
GALLO, Silvio. Filosofia: experiência do pensamento. 2ª ed.
São Paulo: Scipione, 2016.
KÖCHE, José Carlos. Fundamentos de Metodologia Científica:
teoria da ciência e iniciação à pesquisa. Petrópolis: Vozes,
2011.
MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São
Paulo: Melhoramentos, 2023. Disponível em:
https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/. Acesso
em: 8 out. 2023.
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/
TOSI, Marcela. Voto feminino: a história do voto das
mulheres. 2023. Disponível em:
https://www.politize.com.br/conquista-do-direito-ao-voto-
feminino/. Acesso em: 10 out. 2023.
Aula 2
A Racionalização do Conhecimento no Mundo Moderno
A racionalização do conhecimento no mundo moderno
A racionalização do
conhecimento no mundo
moderno
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://www.politize.com.br/conquista-do-direito-ao-voto-feminino/
https://www.politize.com.br/conquista-do-direito-ao-voto-feminino/
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para
você. Nela, você irá aprender conteúdos importantes para a
sua formação profissional. Vamos assisti-la? 
 
Ponto de Partida
Ponto de Partida
Olá, estudante!
A transição da Idade Média para a Idade Moderna foi um
período marcado por muitos conflitos e profundas
transformações sociais. As Revoluções Burguesas (Revolução
Industrial e Revolução Francesa) e o Iluminismo
impulsionaram essas transformações, que nos influenciam
até os dias atuais. Mas você pode estar se perguntando: por
que estamos falando sobre as Revoluções Burguesas em
uma disciplina de Pensamento Científico? A resposta é
simples: para compreendermos a constituição do
pensamento científico e as novas formas de interpretação da
vida humana, precisamos olhar para esse processo que
ocasiona mudanças econômicas, sociais, políticas e até
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
mesmo culturais na sociedade ocidental. Assim, vamos
buscar responder aos seguintes questionamentos:
1. Quais fatores impactaram de maneira decisiva a
transição da Idade Média para a Idade Moderna?
2. Quais foram as mudanças decorrentes dessa transição?
3. Como a maneira de interpretar o mundo se modificou?
Com o desenvolvimento da aula, você será capaz de
entender a transição do pensamento que vigorava na Idade
Média para o pensamento Moderno, a oposição entre o
pensamento racionalista e o pensamento empirista e como
as Ciências Humanas foram ganhando espaço na sociedade
e na interpretação dos fenômenos. É hora de aprofundar
nossos conhecimentos! Bons estudos!
Vamos Começar!
Vamos Começar!
A transição da Idade Média para a Idade Moderna marcou
também a mudança do modo de produção feudal para o
capitalista. Foram diversos os fatores que determinaram a
Disciplina
PENSAMENTO CIENTÍFICO
queda do feudalismo e a ascensão do capitalismo; vamos
observar alguns deles no Quadro 1 a seguir:
QUEDA DO FEUDALISMO ASCENSÃO DO CAPITALISMO
Renascimento (séc. XIV – XVI):
movimento cultural que trouxe
a valorização da razão, da
educação e a busca do
conhecimento.
Reforma protestante: contesta
os valores da Igreja Católica, que
perde poder.
Exploração do trabalho:
múltiplos impostos pagos pela
população que passava fome e
sofria com as guerras e
mudanças climáticas.
Êxodo rural: as pessoas
migraram dos campos para as
cidades buscando melhores
condições de vida.
 
Crescimento comercial e urbano:
expansão das rotas comerciais e
crescimento das cidades;
desenvolvimento de uma economia
monetária.
Surgimento do trabalho
assalariado: no sistema feudal, o
trabalho era servil.
Surgimento e ascensão da
burguesia: pequenos comerciantes
que foram adquirindo poder
econômico.
Revoluções Burguesas: Revolução
Industrial e Revolução Francesa.
Iluminismo.
 
Quadro 1 | Fatores determinantes na queda do feudalismo e
ascensão do capitalismo. Fonte: elaborado pela autora.
Esses são apenas alguns dos fatores envolvidos nesse
movimento de transição, e é importante lembrar que o
processo foi gradual e aconteceu em momentos diferentes
nas diferentes regiões do planeta. Vamos olhar de maneira
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
mais específica para as Revoluções Burguesas, começando
pela Revolução Industrial (1760-1840), que teve início na
Inglaterra. O sistema de produção que era
predominantemente agrário e artesanal passou para a
manufatura e a maquinaria, o que aumentou a eficácia da
produção e reduziu os custos. Consequentemente, surgiram
grandes indústrias e o trabalho em massa; o relógio é que
passou a ditar o ritmo e o tempo do trabalho. Assim,
podemos entender que a Revolução Industrial modifica as
relações no modo de produção da sociedade (Giddens,
2005).
A queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, uma fortaleza
que era símbolo da monarquia e do autoritarismo da época,
marca o início da Revolução Francesa. A população,
insatisfeita com as condições sociais, econômicas e com o
regime monárquico, e impulsionada pela burguesia que
detinha o poder econômico, mas não o político, fez a
Revolução. É importante ressaltar que os ideais iluministas
influenciaram de maneira decisiva o movimento
revolucionário. De maneira geral, a proposta era a
universalização dos direitos e liberdades individuais, e a
abolição da monarquia absolutista. Dessa forma, a
Revolução Francesa modifica as relações políticas e sociais
que eram praticadas na sociedade (Fuini, 2022).
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Nesse processo, a perspectiva iluminista é fundamental, com
suas ideias transformadoras do entendimento da sociedade.
Na Idade Média, a Igreja Católica exerceu forte influência no
âmbito político, participando das decisões; no âmbito
econômico, recebendo parte dos impostos arrecadados; e
no âmbito social, determinando as regras de conduta moral.
Assim, a maneira de interpretar o mundo era teocêntrica, ou
seja, Deus estava no centro de todas as explicações e de
todo o conhecimento disponível e permitido na sociedade
(Giddens, 2005).
O pensamento iluminista mudou essa maneira de
entendimento, valorizando a razão, o questionamento, a
investigação e a experiência como formas para obter
conhecimento. Ocorreu então um deslocamento do
teocentrismo para o antropocentrismo, em que o ser
humano se encontra no centro das explicações e da busca
pelo conhecimento. Os privilégios da nobreza e do clero
passaram a ser questionados, a Igreja Católica foi alvo de
profundas críticas pela maneira como se posicionava na
sociedade e houve a defesa da liberdade política e
econômica e da igualdade de todos perante as leis. O século
XVIII ficou conhecido como Século das Luzes devido a tais
mudanças (Gallo, 2016).
 
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Siga em Frente...
Siga em Frente...
Diferentes pensamentos na
modernidade
Agora que já conhecemos a conjuntura em que se deu a
transição da Idade Média para a Idade Moderna, podemos
avançar e compreender que, no contexto de tais
transformações. surgiram também diferentes olhares,
diferentes maneiras de interpretar o conhecimento. Além
das revoluções de cunho social, econômico e político, a
sociedade passava também por uma revolução científica,em
que se buscavam novas formas de conhecer. Surge então a
questão do método para os diversos teóricos, que
“centralizava as atenções não apenas no conhecimento do
ser (metafísica), mas sobretudo no problema do
conhecimento” (Aranha; Martins, 2003, p. 130).
Nesse sentido, vamos refletir a respeito dos teóricos
racionalistas e empiristas. Antes de nos aprofundarmos,
precisamos compreender que o intuito de todos eles era
interpretar os fenômenos que os cercavam, buscando
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
compreender como adquirimos conhecimento e postulando
teorias para compreender a realidade.
O pensamento racionalista
O racionalismo é uma abordagem filosófica que enfatiza o
papel da razão e do pensamento lógico na aquisição de
conhecimento. Os teóricos racionalistas argumentam que
existem verdades que podem ser conhecidas
independentemente da experiência sensorial. Assim, a
origem do conhecimento está na razão e no fato de termos
ideias inatas, ou seja, que já nascem com o ser humano. Sob
essa ótica, os conhecimentos matemáticos são certos,
seguros, incontestáveis e não mudam; portanto, podem
servir de base para a solidez epistemológica (Aranha;
Martins; 2003).
“Penso, logo existo!” Essa é a famosa máxima de René
Descartes (1596-1650), que é considerado o pai da filosofia
moderna. Descartes buscou encontrar respostas verdadeiras
que não pudessem ser postas em dúvida, por isso criou o
método cartesiano. O autor conciliou um aspecto importante
para o desenvolvimento de suas obras e do seu método, o
chamado ceticismo metodológico. O ceticismo metodológico
é a posição que nos permite duvidar de certas conjecturas
ou hipóteses que não foram submetidas à prova. Essa
posição é basicamente uma dúvida razoável, nunca absoluta,
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
na falta de boas evidências. Em resumo, essa é a posição que
norteia toda a atividade científica ainda hoje (Gallo, 2016).
Ao desenvolver um método que permita o acesso ao
conhecimento verdadeiro, Descartes cria quatro regras para
o seu uso:
1. Só considerar verdadeiro aquilo que for claro, evidente e
distinto por si.
2. Fazer uma análise minuciosa daquilo que nos causa
dúvidas.
3. Síntese.
4. Revisão.
Assim, buscam-se encontrar as certezas, chegar à verdade.
Descartes se contrapõe aos empiristas, pois, na sua
perspectiva, todos nós estamos sujeitos, de algum modo e
em algum momento, a sermos enganados pelos sentidos.
Conclui-se, então, que, se os sentidos nos enganarem uma
única vez que seja, já seria motivo suficiente para não
fundamentar a verdade sobre eles.
O pensamento empirista
O conhecimento empírico pressupõe que os fenômenos
podem ser conhecidos com base na observação e nas
experiências sensíveis do sujeito. Parte-se do entendimento
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
de que aquilo que a experiência nos mostra repetidas vezes
nos dá a confiança de que continuará sempre se repetindo;
ou seja, os resultados colhidos serão sempre os mesmos. A
partir desse entendimento, uma demonstração de que não
existem ideias inatas, tampouco princípios morais inatos, se
dá pela existência de uma pluralidade significativa de
culturas, costumes e valores diferentes.
John Locke (1632-1704) é considerado o fundador do
empirismo moderno, entendendo que o nosso
conhecimento se dá por meio dos nossos sentidos. Ele
criticou a doutrina de que temos ideias inatas, pois, se fosse
assim, as crianças já as teriam. O seu entendimento é o de
que possuímos capacidades inatas como o raciocínio e a
percepção, que são fundamentais para a explicação da
compreensão humana (Gallo, 2016).
Dessa forma, Locke entendia a mente humana como uma
“tábula rasa” (folha em branco) no nascimento, que vai
sendo preenchida com o conhecimento que é adquirido por
meio da observação e das experiências sensoriais de cada
um. Ele se sentiu desafiado a descobrir o que podemos
conhecer e acabou concluindo que podemos conhecer
aquilo que os nossos sentidos nos permitem, pois, se algo
nunca foi visto, nem ouvido, nem cheirado, e assim por
diante, esse algo não nos é, e nem poderá ser conhecido
(Aranha; Martins, 2003).
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Ciências Naturais e Ciências
Humanas
A partir do que estudamos até aqui, conseguimos perceber
como a modernidade trouxe um aspecto de racionalização
para a vida humana. No âmbito econômico, ela se
materializou na consolidação do capitalismo nas técnicas
racionais de contabilidade e de administração, e na forma de
trabalho livre assalariado. No quesito político, houve a
substituição da autoridade centralizada medieval pelo
Estado Moderno. A racionalização cultural fundamentou o
desencantamento do mundo, ou seja, o mundo moderno só
poderia ser entendido pela razão e pela ciência, sem
necessitar de mitos, temores e superstições (Giddens, 2005).
Foi nesse contexto que as Ciências Humanas emergiram,
frutos desse processo histórico, com o intuito de explicar e
compreender essa nova ordem social. As ideias de
progresso, racionalismo e domínio do homem sobre a
natureza exerceram forte influência sobre a mentalidade da
época. O conhecimento científico também ganha corpo e se
expande a partir da evolução do modo de produção
capitalista, já que não havia mais a limitação imposta pela
igreja em relação àquilo que era ou não permitido conhecer.
Diante de tal cenário, as Ciências Naturais, que já estavam
estabelecidas e tinham prestígio e reconhecimento na
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
sociedade, eram consideradas o único meio possível para se
chegar ao conhecimento, sendo seu método de análise dos
fatos e fenômenos o único válido, “devendo, portanto, ser
estendido a todos os campos da indagação e atividade
humanas” (Aranha; Martins, 2003, p. 140). De maneira geral,
é possível admitir que as Ciências Naturais se concentram
em observações pertinentes ao mundo físico e natural, se
apoiando em experimentos controlados e observações
quantitativas.
As Ciências Humanas, ao emergirem no século XIX,
precisavam ganhar espaço e prestígio, mostrando que
também poderiam produzir conhecimentos confiáveis assim
como os produzidos pelas Ciências da Natureza. As
humanidades centram seus estudos na sociedade, na
cultura, no comportamento humano, na linguagem, na
história, na psicologia e em muitos outros aspectos que
estejam relacionados à experiência humana. Assim, as
observações podem ser de cunho qualitativo (mas não
excluindo as de cunho quantitativo); e as análises, mais
subjetivas.
Entretanto, num primeiro momento, até a sua consolidação,
as Ciências Humanas se valeram dos métodos e das técnicas
de pesquisa das Ciências Naturais para a realização das
primeiras pesquisas. Com o tempo, esse cenário foi se
modificando e novos métodos e técnicas, pertinentes a cada
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área específica foram sendo desenvolvidos. Mas essa é uma
conversa para outro momento!
Vamos Exercitar?
Vamos Exercitar?
Você se lembra dos nossos questionamentos iniciais? Agora
que já compreendemos a conjuntura de ascensão da
Modernidade e seus desdobramentos, é hora de responder:
 
1. Quais fatores impactaram de maneira decisiva a
transição da Idade Média para a Idade Moderna?
2. Quais foram as mudanças decorrentes dessa transição?
3. Como a maneira de interpretar o mundo se modificou?
Para respondermos de maneira correta a todas as questões,
precisamos nos lembrar de todo o contexto econômico,
social e político que envolveu tais questões. A transição da
Idade Média para Idade Moderna marcou também a queda
do sistema feudal e a ascensão do sistema capitalista. É
importante nos lembrarmos das Revoluções Burguesas
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(Revolução Industrial e Revolução Francesa) influenciadas
pelos ideais iluministas.
Esses ideais trouxeram uma nova maneira de interpretar o
mundo, deslocando a perspectiva teocêntrica para a
perspectiva antropocêntrica. Elas proporcionaram uma
racionalização dos conhecimentos, deixando de lado
explicações atreladas a questões supersticiosas e
fantasiosas. As mudanças foram profundas em todosos
setores da sociedade, desde a maneira como o trabalho
passou a ser organizado, nas relações entre patrões
empregados, nas relações políticas, culturais, etc.
Saiba mais
Saiba mais
1. Vamos aprofundar nosso conhecimento a respeito da
consolidação do capitalismo como sistema econômico e
social vigente. Essa compreensão é importante para que
possamos entender a estruturação da sociedade a partir
de então. Para isso, assista ao filme Tempos Modernos,
um clássico de Charles Chaplin que retrata a vida urbana
nos Estados Unidos nos anos 1930. O filme retrata a vida
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na sociedade industrial, criticando a alienação do
operário nesse meio de produção, a modernidade e o
capitalismo crescente.
2. Compreender sobre os teóricos racionalistas e
empiristas é fundamental para, posteriormente entender
a organização e o desenvolvimento da ciência. Para isso,
saiba mais sobre o tema a partir das leituras a seguir.
- LOURENÇO, Vitor Hugo. René Descartes e o cogito. In:
LOURENÇO, Vitor Hugo. Construção do pensamento
filosófico na modernidade. Curitiba: Intersaberes, 2019.
Cap. 3. p. 108-114.
- LOURENÇO, Vitor Hugo. John Locke e Ensaio sobre o
entendimento humano. In: LOURENÇO, Vitor Hugo.
Construção do pensamento filosófico na modernidade.
Curitiba: Intersaberes, 2019. Cap. 4. p. 145-150.
3. A Igreja Católica, principalmente durante a Idade Média,
exerceu forte influência na sociedade ocidental. Ela
determinava inclusive aquilo que poderia ou não ser
conhecido pelas pessoas, pois, assim, ela poderia manter
o seu domínio. Para se aprofundar nesse assunto, assista
ao filme O nome da eosa, roteiro de Andrew Birkin e
Gérard Brach. O filme mostra a história do monge
franciscano William de Baskerville (Sean Connery) e Adso
von Melk (Christian Slater), que chegam a um mosteiro
no norte da Itália em 1327. Eles vão participar de um
conclave que vai decidir se a Igreja vai doar parte de suas
riquezas, mas a história muda quando uma série de
assassinatos começa a acontecer e William decide
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https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/193177/pdf/0?code=vuDFK8a1gxn3on26qzCXIi1dBsnWlnaXDhbnKfqsj/xajzxEny/g53m4N3ENsHEtuQGgdTaRuU62ONFBTt9A1g==
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/193177/pdf/0?code=vuDFK8a1gxn3on26qzCXIi1dBsnWlnaXDhbnKfqsj/xajzxEny/g53m4N3ENsHEtuQGgdTaRuU62ONFBTt9A1g==
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investigá-los, contrariando os coordenadores do
mosteiro.
 
 
Referências
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena
Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. São Paulo:
Moderna, 2003.
BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século
XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Editora Brasiliense,
2004.
CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à filosofia. São Paulo:
Ática, 2014
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
FUINI, Pedro. Queda da Bastilha. Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,
2022. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/34302. Acesso
em: 12 out. 2023.
GALLO, Silvio. Filosofia: experiência do pensamento. 2ª ed.
São Paulo: Scipione, 2016.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed,
2005.
Aula 3
A Epistemologia do Conhecimento Científico
A epistemologia do conhecimento científico
A epistemologia do
conhecimento científico
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https://www.fflch.usp.br/34302
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você. Nela, você irá aprender conteúdos importantes para a
sua formação profissional. Vamos assisti-la? 
 
Ponto de Partida
Ponto de Partida
Olá, estudante!
Vamos caminhar para a compreensão da consolidação do
conhecimento científico como aquele utilizado para explicar
a organização da sociedade após as Revoluções Burguesas. A
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
ciência, assim como os demais tipos de conhecimento (senso
comum, religioso e filosófico) busca chegar à verdade por
meio da investigação daqueles aspectos que mereçam ser
compreendidos ou interpretados. Dessa forma, o
conhecimento científico tem como objeto de estudo os
fenômenos naturais e os sociais, olhando para as
particularidades de cada um e tendo teorias específicas para
explicá-los. E por que essa divisão é necessária? Devido ao
fato de que cada objeto de estudo requer uma forma
específica de abordagem e interpretação.
A partir disso, pensemos na seguinte situação: em uma aula
de Metodologia Científica, a professora está explicando para
os alunos o conceito de teoria e lhes apresenta duas
vertentes teóricas no campo das ciências humanas: o
Positivismo e o Funcionalismo. Ao finalizar, a professora
solicita que os alunos elaborem um quadro resumo com a
definição de teoria e com as principais características de
cada uma das vertentes teóricas e seu principal
representante. Para isso, é necessária a compreensão de
todos esses elementos. Bons estudos!
Vamos Começar!
Vamos Começar!
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
O que é teoria?
Provavelmente você já ouviu falar em teoria, e você precisa
saber que o termo pode ter diferentes conotações
dependendo do contexto em que é utilizado. “A palavra
teoria tem origem no verbo grego theorein cujo significado é
‘ver’. A associação entre ‘ver’ e ‘saber’ é uma das bases da
ciência ocidental” (Minayo, 2013. p. 16). A palavra teoria pode
ser utilizada para se referir a uma crença ou uma ideia, sob
outra perspectiva; popularmente, é um termo usado em
sentido oposto à prática. Pense na carga teórica e na carga
prática de um curso, por exemplo. Ou ainda pode se referir a
um componente do conhecimento científico que requer um
método próprio (Trentini, 1987). Vamos nos ater a essa
última perspectiva de teoria, que é a utilizada para o
desenvolvimento de pesquisas, na busca por respostas e por
novos conhecimentos.
De acordo com Severino (2013, p. 90), a teoria pode ser
definida como um “conjunto de concepções
sistematicamente organizadas; síntese geral que se propõe a
explicar um conjunto de fatos cujos subconjuntos foram
explicados pelas leis”. E o que isso quer dizer? A teoria é um
conjunto de princípios, ideias, ou conceitos que busca
explicar algo em específico. É construída a partir de
observações, experimentos e análises sistemáticas de dados.
Pode ser utilizada para prever resultados de experimentos
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ou observações futuras, além de fornecer um entendimento
mais profundo de como o mundo funciona (Trentini, 1987;
Severino, 2013).
No contexto científico, uma teoria é um modelo ou um
conjunto de princípios que descreve fatos e fenômenos,
sejam eles naturais ou sociais. É importante ressaltar que a
teoria não é algo que fica estagnado, que não se modifica.
Trata-se de uma explicação concebida e estruturada a partir
de evidências disponíveis no momento do seu
desenvolvimento. Ela pode ser modificada, aprimorada ou
revista à medida que novas evidências surjam ou sejam
descobertas. A revisão contínua de uma teoria é
fundamental para o avanço do conhecimento em todas as
áreas do saber (Koche, 2011; Severino, 2013).
Dessa forma, compreendemos que são as teorias que
iluminam as nossas práticas; elas esclarecem a realidade
para que possamos apreender o seu funcionamento (Demo,
1992). Ampliam a nossa visão de mundo a respeito daquilo
que estamos estudando ou analisando, permitindo que
tenhamos mais clareza a respeito daquilo que está em
questão. Teorias são explicações da realidade, são as lentes
por meio das quais olhamos para o contexto em que
estamos inseridos, permitindo a ressignificação das nossas
próprias concepções.
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Perspectivas teóricas nas ciências
humanas
Você se lembra de que falamos que o conhecimento
científico tem como objeto de estudo os fenômenos naturais
e os sociais? A partir disso, podemos entender que existem
diversas teorias em diversos contextos,como em disciplinas
acadêmicas, nas ciências naturais, ciências humanas/sociais,
matemática, filosofia e em outras áreas do conhecimento
humano. Cada campo tem suas próprias definições e
critérios específicos para o desenvolvimento e liberdade de
teorias. Assim, as teorias têm implicações práticas e podem
ser usadas para resolver problemas do mundo real,
desenvolver tecnologias, formular políticas públicas e muito
mais.
A partir disso, vamos pensar inicialmente nas ciências
naturais e nas ciências sociais. As ciências naturais são
ramos da ciência que estudam a natureza e seus aspectos
mais gerais e fundamentais; as leis e regras naturais que
regem o mundo. As ciências sociais são ramos da ciência que
estudam os aspectos sociais do mundo humano, a vida
social de indivíduos e grupos humanos (Minayo, 2013). As
ideias de progresso, racionalismo e domínio do homem
sobre a natureza exerceram forte influência sobre a
mentalidade do século XIX, impulsionando o
desenvolvimento da ciência e de novas formas de conhecer.
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Dessa forma, as ciências sociais se desenvolveram nessa
época, quando a racionalidade das ciências naturais e de seu
método havia obtido o reconhecimento necessário para
substituir a religião na explicação da origem, do
desenvolvimento e da finalidade do mundo. Assim, com o
advento da Modernidade e as profundas transformações
pelas quais a sociedade passou, fez-se necessário uma nova
forma de conhecimento que fosse capaz de explicar
tamanhas transformações. É nesse contexto que surgem as
ciências humanas e sociais e suas teorias.
Siga em Frente...
Siga em Frente...
O positivismo
Pensar a sociedade e seus arranjos não é uma tarefa fácil,
principalmente frente à efervescência em que ela se
encontrava no período de ascensão e consolidação do
capitalismo como sistema econômico vigente. Ainda assim, o
francês Auguste Comte (1798-1857) se dedicou a essa
missão, ficando conhecido como o “Pai da Sociologia”. Comte
buscou explicar e entender os fenômenos sociais a partir da
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
nova ordem em que se encontravam, tomando como base
as perspectivas de análise das ciências naturais (Aranha;
Martins, 2003).
Para compreendermos a teoria positivista, precisamos
recordar o processo de transformação da sociedade
moderna e dos modos de produção. Antes do advento da
máquina a vapor, a energia utilizada para a realização das
tarefas era a energia humana, animal ou natural (vento e
água). As mudanças ocasionadas pela Revolução Industrial
foram cruciais, o que levou à concepção do cientificismo,
entendimento em que “a ciência é considerada o único
conhecimento possível e o método das ciências da natureza
o único válido, devendo, portanto, ser entendido a todos os
campos da indagação e atividade humanas” (Aranha,
Martins, 2003, p. 140).
Assim, o Positivismo derivou do cientificismo, isto é, da
capacidade da razão humana em conhecer a realidade e
traduzi-la sob a forma de leis naturais. O intuito dessas
novas concepções era desvendar as recentes formas de
organização e relações que vinham se transformando à
medida que a sociedade também se transformava. Dessa
forma, a partir das influências de sua época, Comte define a
sociologia como uma física social, mas toma os modelos da
biologia para explicar a sociedade como um organismo
coletivo. Sob esta ótica, a sociedade humana é regulada por
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leis naturais que atingem o funcionamento da vida social,
econômica, política e cultural.
De acordo com Gallo (2016), a teoria positivista teve grande
influência nos teóricos dos séculos XIX e XX. Comte, ao
examinar o desenvolvimento da inteligência humana,
descreveu um princípio básico ao qual denominou como a
“lei dos três estados”. Segundo ele, o espírito humano teria
passado por três estados diferentes de desenvolvimento em
sua relação com o mundo. São eles: estado teológico, estado
metafísico e estado positivo. Sob tal visão, os seres humanos
passam por esses estágios, do menos desenvolvido (quando
crianças) até ao mais desenvolvido (já adultos) ao longo da
vida. A passagem de um estado para outro se daria de forma
lenta, gradual e segura. No Quadro 1 a seguir, podemos
observar as características de cada estágio.
ESTADO TEOLÓGICO ESTADO
METAFÍSICO
ESTADO POSITIVO
Explicação dos
fenômenos como
resultado de forças
divinas e
sobrenaturais.
Explicações ingênuas e
infantis.
Predomínio da
mitologia e da teologia
Estágio mais
evoluído que o
anterior.
As forças
sobrenaturais são
substituídas por
forças abstratas.
Predomínio da
Filosofia como
Estágio mais evoluído
da humanidade.
Os fatos e fenômenos
são explicados
racionalmente, pela
causalidade.
Predomínio da Ciência
como explicação do
mundo.
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como explicações do
mundo.
explicação do
mundo.
Quadro 1 | Estágios de desenvolvimento do pensamento de
acordo com Auguste Comte. Fonte: elaborado pela autora.
O funcionalismo
No final do século XIX, a Sociologia ainda estava se firmando
como ciência e buscava pelo seu objeto de estudo de forma
clara e objetiva. Os primeiros passos haviam sido dados com
Auguste Comte; ele propôs que os conceitos metafísicos
fossem excluídos das explicações da nova ciência. Mas não
foi Comte o responsável por levar a Sociologia ao patamar de
disciplina científica reconhecida e respeitada na sociedade,
obtendo inclusive uma cadeira na Universidade de Bordeaux
em 1887. Esse papel coube ao francês Émile Durkheim
(Moisés, 2022).
Émile Durkheim (1858-1917) foi um sociólogo, psicólogo
social e filósofo francês. Seu legado está relacionado à
consolidação da Sociologia como uma disciplina científica e à
formação de uma escola de pensamento: o Funcionalismo.
Dessa forma, ele buscou a cientificidade no estudo das
humanidades, esteve empenhado em criar regras para a
criação do método sociológico e atribuir status de saber
científico à sociologia. Influenciado pelo Positivismo,
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
Durkheim parte da objetividade para a construção do seu
método e do estabelecimento do seu objeto de estudos: os
fatos sociais (Aranha; Martins, 2003; Moisés, 2022).
O teórico francês, ao observar o contexto europeu do século
XIX, concluiu que as instituições sociais se encontravam
enfraquecidas e que havia muito questionamento em torno
delas. Os valores tradicionais que vinham da Idade Média
estavam dando lugar a novos valores e novas tradições. Com
tantas mudanças, muitas pessoas passaram a viver em
condições miseráveis; estavam desempregadas, doentes e
marginalizadas. Durkheim entendeu que, em uma sociedade
integrada e funcionando de maneira orgânica, essas pessoas
não poderiam ser ignoradas, porque toda a sociedade
sofreria as consequências. Dessa forma, Durkheim buscou
regularidades e “leis” que pudessem ser encontradas na
sociedade (Durkheim, 2007).
Partindo de tais questões, no processo de sistematização da
sociologia, Durkheim toma conceitos pertencentes à
medicina e à biologia para explicar a sociedade e seu
funcionamento. Sob tal perspectiva, a sociedade deveria ser
vista como um organismo vivo, um corpo social, em que são
percebidos fenômenos normais e outros patológicos (como
se fossem uma doença) que poderiam prejudicar a vida
coletiva. Daí vem o nome da Sociologia Durkheiminiana
conhecida como Sociologia Funcionalista. Para que a
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
sociedade “funcione” corretamente, é necessário que todas
as suas instituições, as normas sociais e integração entre os
indivíduos também estejam funcionando; caso contrário, a
sociedade estrará em estado de anomia, ficará “doente”
(Durkheim, 2007).
Para conseguir realizar tais análises, o pesquisador deve
adotar uma postura neutra, imparcial e objetiva dos
fenômenos sociais, sem se perder em questões vindas da
subjetividade. Assim, Durkheim desenvolve seu objeto de
estudo: os fatos sociais. Era necessário identificar algo que
pudesse ser visto com regularidade na sociedade, a partir de
suas características exteriores e pensandona sua influência
no comportamento social. Os fatos sociais são, portanto,
coisas. “A coisa se opõe à ideia, como o que se conhece
exteriormente ao que se conhece interiormente. É coisa todo
objeto de conhecimento que não é naturalmente
compenetrável à inteligência” (Durkheim, 1998 apud Aranha;
Martins, 2003, p. 210).
 Sendo assim, o fato social é qualquer fenômeno presente na
sociedade que pode ser observado como um objeto, uma
coisa. São “maneiras de agir, de pensar e de sentir,
exteriores ao indivíduo, e que são dotados de um poder de
coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele”
(Durkheim, 2007, p. 3-4). E o que isso quer dizer? Que os
seres humanos, inseridos em uma sociedade ou em um
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
grupo social, não agem, pensam ou sentem de maneira
autônoma. Existe uma força maior, vinda da sociedade, que
o faz pensar em conjunção com os demais. Os fatos sociais
têm três características: são gerais, exteriores e coercitivos.
Vamos ver a explicação de cada uma dessas características
no Quadro 2:
FATO SOCIAL
Geral Externo Coercitivo
Independe da
manifestação
individual, comum
a todos os
membros de um
grupo.
 
Independe da vontade
e existência do
indivíduo. Antes de
seu nascimento, o fato
social já existia e,
mesmo após sua
morte, continuará
existindo.
Exercem pressão social
sobre os indivíduos.
Essa pressão pode ser
espontânea, moral ou
legal, e sua existência é
prova da existência do
fato social.
Quadro 2 | Características do fato social. Fonte: elaborado
pela autora.
Vamos Exercitar?
Vamos Exercitar?
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Agora é hora de retomarmos nossos questionamentos
iniciais. Compreendemos o que é teoria, as bases do
Positivismo e do Funcionalismo como perspectivas que nos
auxiliam a interpretar os fenômenos que nos cercam.
 Vamos elaborar um quadro resumo com a definição de
teoria e com as principais características de cada uma das
vertentes teóricas e seu principal representante.
Figura 1 | Resumo das vertentes teóricas. Fonte: elaborado
pela autora.
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1. Você sabia que o lema da nossa bandeira, “Ordem e
Progresso”, é de origem positivista e deriva de uma frase
de Auguste Comte? O Positivismo não é apenas uma
teoria fundada em meados do século XIX e que não tem
mais aplicação em nossos dias atuais. Muitas pesquisas
de cunho quantitativa tomam como base a teoria
positivista. Ela também tem influência na formação e
estruturação da nossa educação nacional. Para saber
mais sobre o assunto, leia o artigo indicado a seguir.
OLIVEIRA, Claudemir Gonçalves de. A matriz positivista
na educação brasileira: uma análise das portas de
entrada no período republicano. Diálogos Acadêmicos,
s/l., v.1, n.1, out./jan. 2010.
2. As teorias sociológicas nos auxiliam a olhar para muitas
questões que nos cercam em nosso cotidiano e nós, na
maioria das vezes, não refletimos sobre elas. Elas
influenciam também outras teorias e outros autores. O
conceito de “fato social” de Émile Durkheim, por
exemplo, tem influência em alguns ramos da
Antropologia, os quais também servem para pensarmos
nossa vida em sociedade. Assim, leia o artigo a seguir
para se aprofundar sobre o conceito de fatos sociais e
como eles estão presentes no nosso cotidiano.
OLIVEIRA, Bárbara Magalhães Aguiar de. A corrupção
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https://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20170627110812.pdf
https://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20170627110812.pdf
https://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20170627110812.pdf
https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/article/view/3150/1939
como fato social: reciprocidade e trocas. Revista três
pontos, Belo Horizonte, v.8, n. 1, mar. 2011.
 
 
Referências
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena
Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. São Paulo:
Moderna, 2003.
DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico e educativo. 3ª
ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1992.
DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. São
Paulo: Martins Fontes, 2007.
GALLO, Silvio. Filosofia: experiência do pensamento. 2ª ed.
São Paulo: Scipione, 2016.
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PENSAMENTO CIENTÍFICO
https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/article/view/3150/1939
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed,
2005.
KOCHE, José Carlos. Fundamentos da Metodologia Científica:
teoria da ciência e iniciação científica. Petrópolis: Vozes,
2011.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social:
teoria, método e criatividade. 26ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
MOISÉS, Pedro Callari Trivino. Émile Durkheim. In:
Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de
São Paulo, Departamento de Antropologia, 2022. Disponível
em: https://ea.fflch.usp.br/autor/emile-durkheim. Acesso em:
26 dez. 2023.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho
científico. São Paulo: Cortez, 2013.
TRENTINI, Mercedes. Relação entre teoria, pesquisa e
prática. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo,
n. 21, v. 2, p. 135-143, ago. 1987.
Aula 4
Perspectivas Teóricas nas Ciências Humanas
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https://ea.fflch.usp.br/autor/emile-durkheim
Perspectivas teóricas nas ciências humanas
Perspectivas teóricas nas
ciências humanas
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para
você. Nela, você irá aprender conteúdos importantes para a
sua formação profissional. Vamos assisti-la? 
 
Ponto de Partida
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Ponto de Partida
Olá, estudante!
Já compreendemos a consolidação do conhecimento
científico como uma nova forma para explicar a organização
da sociedade ocidental após as Revoluções Burguesas. É
hora de olharmos para diferentes perspectivas teóricas de
análise da sociedade que emergiram nesse período e que
ainda são utilizadas para interpretarmos a realidade em que
estamos inseridos e para pensarmos o desenvolvimento de
pesquisas científicas. A compreensão das bases teóricas é
fundamental; veremos que nenhuma pesquisa pode ser
desenvolvida sem uma boa fundamentação teórica.
Nesse sentido, vamos refletir sobre a seguinte situação:
como tarefa para a conclusão de uma disciplina, a aluna
Luana precisa realizar uma pesquisa de campo. Ela escolheu
observar as crianças do seu bairro que utilizam a quadra
poliesportiva no período da tarde e perceber como elas se
relacionam no desenvolvimento das atividades. Luana está
em dúvida sobre qual perspectiva teórica deve utilizar para
desenvolver sua pesquisa, o Estruturalismo ou o
Materialismo Histórico-Dialético. Diante dessa dúvida, ela
retoma suas anotações com os principais pontos de cada
teoria para poder entender qual delas a ajudará desenvolver
de maneira mais eficiente a pesquisa.
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No decorrer desta aula, nossa tarefa é observar os pontos
principais de cada uma dessas teorias a fim de conseguir
compreender a maneira como cada uma delas propõe a
análise da sociedade. Bons estudos!
Vamos Começar!
Vamos Começar!
Para conseguirmos compreender a aplicação do
Materialismo Histórico-Dialético e do Estruturalismo no
desenvolvimento de pesquisas e na análise dos fenômenos,
precisamos recordar alguns pontos que dizem respeito à
consolidação das ciências humanas. A transformação da
sociedade é uma questão que ainda atinge muitos teóricos;
isso é algo que é constante em nossa sociedade, pois
vivemos em um processo dinâmico, que se encontra
constantemente em movimento, em transformação. Foi
assim também que ocorreu no processo de transição para a
Idade Moderna e posteriormente para a Contemporânea.
Muitas teorias foram desenvolvidas com o intuito de explicar
as questões sociais, culturais, relações de poder, relações
econômicas e políticas que vinham se rearranjando e que
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atingem diretamente a vida em sociedade. Num primeiro
momento, as ciências humanas e sociais se valeram dos
mesmos métodos e técnicas utilizados nas ciênciasnaturais
para a investigação das questões anteriormente descritas.
Podemos destacar o Positivismo de Auguste Comte e o
Funcionalismo de Émile Durkheim, que buscaram responder
a diversos questionamentos e resolver os problemas sociais
iminentes.
Nesse sentido, podemos admitir que
os objetivos da teoria consistem em descrever, explicar,
predizer e controlar fenômenos. Uma teoria descreve um
fenômeno, quando ela diz em que consiste o fenômeno.
Quando uma teoria delineia o “porquê” da ocorrência do
fenômeno e porque ocorre com certa regularidade, esta
teoria explica o fenômeno. A função preditiva de uma
teoria é a potencialidade que a teoria tem de prever as
condições sob as quais o fenômeno ocorre (Trentini,
1987, p. 138). 
Dessa forma, no campo das ciências da natureza o critério
da cientificidade é atendido a partir de dois pontos: a
dedução racional e a verificação experimental. Isso quer
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dizer que o conhecimento científico é comprovado quando é
passível de repetição ou há a previsibilidade do seu
acontecimento em determinadas condições. Esses
pressupostos começaram a ser questionados por muitos
teóricos na contemporaneidade, pois, como seria possível
adotar tais critérios pautados em tamanha objetividade para
pensar os fenômenos sociais? (Minayo, 2007).
A partir de tais questionamentos é que surgem outras
perspectivas teóricas, outras formas de análise e
interpretação da sociedade e de todos os fenômenos e
questões que a ela são intrínsecos. Precisamos compreender
que “cada modalidade de conhecimento pressupõe um tipo
de relação entre sujeito e objeto e, dependentemente dessa
relação, temos conclusões diferentes (Severino, 2013, p. 94).
Portanto, precisamos compreender que não existe uma
teoria melhor do que a outra. Assim como não existe um
conhecimento melhor do que o outro. Existem perspectivas
diferentes, olhares diferentes e que são mais adequados a
depender do contexto em que se encontram. Tendo isso em
mente, vamos conhecer o Materialismo Histórico-Dialético e
o Estruturalismo.
Siga em Frente...
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Siga em Frente...
Materialismo Histórico-Dialético
As Revoluções Burguesas influenciaram fortemente o
desenvolvimento de teorias que buscaram desvendar e
descrever as questões sociais. Não foi diferente com o
Materialismo Histórico-Dialético. Karl Marx (1818-1883),
criador da teoria que vamos conhecer, foi historiador,
filósofo, sociólogo e economista alemão de grande
relevância para a compreensão das questões sociais. É
importante ressaltar que não vamos entrar na alternativa
proposta por Marx ao sistema capitalista, o sistema
socialista. Esse não é o nosso foco e levaríamos um tempo
para compreender e desmistificar os pré-conceitos que
existem acerca do assunto. Entretanto, é relevante a
compreensão de que toda pesquisa pautada no método
marxista, invariavelmente, apresenta uma crítica ao sistema
capitalista e aos seus desdobramentos.
O avanço do sistema industrial, a intensificação dos conflitos
trabalhistas e consequentemente o aprofundamento das
diferenças entre as classes sociais são questões que levaram
Marx a olhar de uma maneira crítica para o sistema
capitalista. Para ele, a divisão do trabalho seria a origem das
classes e das desigualdades sociais. As classes sociais, no
olhar marxista, são duas: a burguesia (classe dominante e
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detentora dos meios de produção) e o proletariado (classe
dominada e que precisa vender a sua força de trabalho para
garantir a sua subsistência). Os interesses dessas duas
classes não são passíveis de conciliação; assim, a luta, a
disputa entre essas classes sociais é inevitável. O motor da
história, o que faz a história se movimentar e a sociedade se
modificar, é a luta entre essas classes sociais (Marx, 2004).
As classes sociais e o conflito decorrente delas não tiveram
sua origem na modernidade com a ascensão e consolidação
do capitalismo; essas diferenças sempre existiram nas
diferentes formas de organizações sociais. O que a
sociedade capitalista fez foi simplificar e aprofundar o
antagonismo entre essas classes.
Nas primeiras épocas históricas, verificamos, quase por
toda parte, uma completa divisão da sociedade em
classes distintas, uma escala graduada de condições
sociais. Na Roma antiga encontramos patrícios,
cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média, senhores,
vassalos, mestres, companheiros, servos; e, em cada uma
destas classes, gradações especiais. A sociedade
burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade
feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Não fez
senão substituir novas classes, novas condições de
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opressão, novas formas de luta às que existiram no
passado (Marx; Engels, 1980, p. 8-9).
A compreensão desse aspecto é fundamental para
entendermos a construção do Materialismo Histórico-
Dialético. Logo, as mudanças históricas que resultam dos
conflitos entre as classes sociais e os fenômenos sociais são
resultados da ação dos seres humanos em contextos
históricos e sociais específicos. Essas questões estão
interligadas e se influenciam mutuamente, criando o
movimento e a transformação da história e das sociedades.
Olhando para essas questões Marx vai discutir a sociedade a
partir das condições materiais de existência.
E o que são as condições materiais de existência? É tudo
aquilo que os seres humanos produzem para a sua
sobrevivência; elas dizem respeito à interação dos seres
humanos na natureza e dos meios de que dispõem para
suprir suas necessidades. Portanto, o trabalho e as relações
que se dão a partir dele são elementos fundamentais nesse
contexto. A classe social a qual cada indivíduo pertence é
marcada pela posição por ele ocupada no processo
produtivo. É por meio do trabalho que os seres humanos
transformam a natureza e (re)produzem a sua existência.
Dessa maneira, a sociedade é entendida como um todo
integrado (Marx, 2004).
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No tocante à Dialética, Marx tem influência do filósofo Georg
Wilhelm Hegel (1770-1831). A dialética hegeliana defendia
que os fatos (ideias) continham em si um fenômeno
intrínseco, o que proporcionava seu movimento de antítese
(negação) e síntese (nova ideia). Marx critica esse olhar ao
entender que não se parte da ideia para se fazer a história;
deve-se partir daquilo que é material. Para ele, os filósofos
se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras,
mas era necessário transformá-lo (Marx, 2004; Marx, 2011).
A essência deste método consiste na ideia de que as
sociedades se transformam à medida que os seres humanos
alteram seu modo de (re)produzir. O estudo da sociedade
começa quando se toma consciência de que o modo de
produção da vida material condiciona o desenvolvimento da
vida social, política e intelectual em geral. Assim,
compreende-se que os modos de produção da vida material
constituem os elementos que condicionam o
desenvolvimento de outras esferas sociais, como a política e
intelectual, por exemplo.
A originalidade de Marx foi relacionar a economia com a
ideologia, ou seja, estabelecer conexões entre modos de
produção, dominação e consciência de classe. Marx
pretendia compreender os problemas sociais do século XIX a
partir de um novo método, o qual fosse capaz de analisar a
complexidade das relações humanas. O foco da análise está
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nas relações de produção, que, segundo o autor, constituem
a base das relações humanas e das contradições sociais.
O Estruturalismo
Quando falamos em ciências humanas e sociais não,
estamos nos referindo somente à Sociologia como um
campo científico; estamos nos referindo a uma série de
outros campos do conhecimento, como: antropologia,
história, direito, psicologia, sociologia, filosofia, ciência
política, economia, serviço social, comunicação, artes,
teologia, etc. A Antropologia, enquanto ciência, desenvolve
estudos e pesquisas nas mais diversas áreas, quais sejam:
históricas, culturais, biológicas,físicas, psicológicas,
linguísticas e sociais (Oliveira; Melo; Araújo, 2018).
Partindo da perspectiva de que o objeto de estudo da
Antropologia é complexo e multifacetado, entendemos que
não há uma única forma de abordar os fenômenos que lhe
são pertinentes. Dessa forma, existem diferentes
perspectivas teóricas na Antropologia para pensar tais
questões, como o Estruturalismo, o evolucionismo ou o
funcionalismo. Essa é uma questão pertinente às diversas
áreas do conhecimento; na Psicologia, por exemplo,
podemos citar a psicanálise, a analítica, ou a humanista. No
Direito, temos o jusnaturalismo, o positivismo. Vamos focar
no Estruturalismo como uma corrente da Antropologia.
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O Estruturalismo é uma abordagem teórica e metodológica
que surgiu nas ciências humanas no início do século XX,
especialmente na linguística e na antropologia. Esta corrente
de pensamento buscou analisar e interpretar características
culturais e sociais de diferentes povos, enfatizando a
importância das estruturas básicas que moldam e sustentam
essas características. Ela se propôs a pensar o indivíduo
como um ser que produz cultura, ritos e manifestações
diversas. O pensamento estruturalista se desenvolveu de
forma paralela ao funcionalista, e ambas as teorias
concordaram ao desenvolver uma visão sincrônica e
globalizante do fenômeno cultural (Marconi; Presotto, 2022;
Oliveira; Melo; Araújo, 2018).
O principal representante do Estruturalismo foi Claude Lévi-
Strauss (1908-2009), o qual estudou amplamente os mitos
em diferentes sociedades, buscando encontrar elementos
que se repetiam em todas elas, a fim de encontrar uma
estrutura comum. Dessa maneira, o antropólogo procurou
entender as particularidades de cada cultura e fazer relação
com a universalidade. Lévi- Strauss elabora alguns modelos a
fim de compreender a estrutura. Segundo ele, para merecer
o nome de estrutura, os modelos devem, exclusivamente,
satisfazer a quatro condições:
Em primeiro lugar, uma estrutura oferece o caráter de
sistema. Ela consiste em elementos tais que uma
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modificação qualquer de um deles acarreta uma
modificação em todos os outros. Em segundo lugar, todo
modelo pertence a um grupo de transformações, cada
uma das quais corresponde a um modelo da mesma
família, de modo que o conjunto destas transformações
constitui um grupo de modelos. Em terceiro lugar, as
propriedades indicadas acima permitem prever de que
modo reagirá o modelo, em caso de modificação de um
de seus elementos. En m, o modelo deve ser construído
de tal modo que seu funcionamento possa explicar todos
os fatos observados (Lévi-Strauss, 1967 apud Marconi;
Presotto, 2022, p. 316).
O Estruturalismo busca entender as estruturas implícitas às
bases, em vez de se concentrar nas experiências individuais
ou nos elementos componentes de forma isolada. Isso
significa que os estruturalistas buscam identificar padrões,
relações e regularidades que organizam o mundo. Como
exemplo, é possível citar o tabu do incesto, que consiste na
proibição de relações sexuais ou de casamento entre
indivíduos que são considerados parentes. Esse é um
fundamento da vida social, visto que as famílias não podem
se fechar nelas mesmas, independentemente da forma
como esses grupos interpretam ou organizam o seu conceito
de família ou parentesco.
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As pesquisas pautadas no Estruturalismo buscam a relação
em termos relacionais dos fenômenos. Dessa forma, a
abordagem compreende que o conhecimento do todo leva
ao conhecimento das partes (visão globalizante), utiliza-se de
modelos na análise cultural e, a partir disso, desenvolve uma
compreensão ampla dessa realidade (Marconi; Presotto,
2022).
Vamos Exercitar?
Vamos Exercitar?
Agora que compreendemos o Materialismo Histórico-
Dialético e o Estruturalismo, vamos retomar a nossa situação
inicial. A aluna Luana precisa realizar uma pesquisa de
campo para a conclusão de uma das suas disciplinas de
graduação. Ela escolheu observar as crianças do seu bairro
que utilizam a quadra poliesportiva no período da tarde e
perceber como elas se relacionam no desenvolvimento das
atividades. Qual teoria a auxiliará de maneira mais eficaz
para tanto?
A primeira coisa a entender é que não existe uma teoria
melhor do que a outra; todas elas expressam uma visão de
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mundo, um modo de interpretar, de compreender o objeto
em questão ou o fenômeno estudado. Outra questão
importante a ser ressaltada é que, quando um pesquisador
adota uma teoria para o desenvolvimento da sua pesquisa,
ele está dizendo para o seu leitor que partilha daquela visão
de mundo, que ele enxerga os fatos e fenômenos a partir
daquele olhar. As teorias são lentes que utilizamos para
vislumbrar com mais clareza aquilo que estamos analisando.
A partir disso, Luana precisa compreender as bases tanto do
Materialismo Histórico-Dialético como do Estruturalismo
para poder perceber qual das duas teorias a auxiliará a olhar
de maneira mais clara para aquilo que ela pretende
apreender ao observar os alunos na quadra poliesportiva.
Ela precisa identificar também qual das perspectivas condiz
com a maneira com que ela interpreta a realidade.
Saiba mais
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1. Karl Marx sem dúvidas é um dos pensadores mais
controversos do século XIX. Com ideias para além do seu
tempo, ele revolucionou as concepções políticas,
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econômicas, sociais e culturais até então estabelecidas.
Mas existem muitos pré-conceitos acerca da obra de
Marx, conceitos difundidos pelo senso comum,
apresentados como verdades, mas sem fundamentação.
A publicação online da revista Cult conta com uma série
de textos explicativos da teoria marxista e textos que
ligam essa teoria a nossa realidade. Vamos aprofundar
os conhecimentos a respeito desse tema,
desmistificando os contrassensos que permeiam a teoria
e o autor.
2. Conhecer os pensadores que desenvolveram as teorias é
uma ferramenta importante para compreender o
contexto em que eles se desenvolveram e partir de aí
perceber os fatores que influenciaram seus escritos.
Você sabia que o antropólogo Claude Lévi-Strauss fez
pesquisas no Mato Grosso e na Amazônia e escreveu um
dos mais importantes livros de não ficção do século
passado sobre o seu tempo aqui no nosso país? Para se
aprofundar no assunto, leia a reportagem: “Saiba quem
foi Claude Lévi-Strauss”, do G1 Globo.
 
 
 
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https://revistacult.uol.com.br/home/tag/karl-marx/
https://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1364819-5603,00-SAIBA+QUEM+FOI+CLAUDE+LEVISTRAUSS.html
https://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1364819-5603,00-SAIBA+QUEM+FOI+CLAUDE+LEVISTRAUSS.html
 
Referências
Referências
MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zélia Maria
Neves. Antropologia: uma introdução. 8ª ed. São Paulo: Atlas,
2022.
MARX, Karl. Grundisse: manuscritos econômicos de 1857-
1858: esboço da crítica da econômica política. Rio de Janeiro:
Ed. UFRJ, 2011.
MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo:
Boitempo, 2004.
MARX, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto Comunista. São
Paulo: Nova Stella, 1980.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social:
teoria, método e criatividade. 26ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
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OLIVEIRA, Carolina Bessa Ferreira de; MELO, Débora Sinflorio
Silva; ARAÚJO, Sandro Alves de. Fundamentos de Sociologia e
Antropologia. Porto Alegre: SAGAH, 2018.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho
científico. São Paulo: Cortez, 2013.
TRENTINI, Mercedes. Relação entre teoria, pesquisa e
prática. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo,
n. 21, v. 2, p. 135-143, ago. 1987.
Aula 5
A Construção do Conhecimento Científico
Videoaula de Encerramento
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você. Nela, você irá aprender conteúdos importantes para a
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