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Osteoporose Introdução ● A Organização Mundial da Saúde (OMS) define osteoporose como uma doença osteometabólica progressiva caracterizada por baixa densidade mineral óssea (DMO) e deterioração da microestrutura do tecido ósseo. Ambas as alterações resultam em fragilidade óssea e, consequentemente, aumento da suscetibilidade à ocorrência de fraturas Fatores de risco ● Idade avançada; ● Sexo feminino; ● Raça branca; ● Menarca tardia; ● Puberdade tardia nos meninos; ● Menopausa precoce; ● Hipogonadismo não tratado em homens e mulheres (ooforectomia ou orquiectomia bilateral, anorexia nervosa, quimioterapia para câncer de mama, hipopituitarismo e terapias antiandrogênicas para homens com câncer de próstata); ● Baixa DMO; ● Artrite reumatoide; ● Outras causas de osteoporose secundária (diabetes mellitus, doença inflamatória intestinal, hipertireoidismo não tratado, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida e transplante de órgãos); ● História pessoal de fratura por fragilidade; ● História parental de fratura por fragilidade; ● Uso de glicocorticoides (≥ 5mg de prednisona/dia ou outro glicocorticoide em dose equivalente, por pelo menos 3 meses); ● Baixo índice de massa corporal (IMC); ● Sedentarismo; ● Tabagismo ativo; ● Ingestão excessiva de bebidas alcoólicas; ● Imobilização prolongada; ● Sarcopenia; ● Quedas; ● Baixa ingestão dietética de cálcio; e ● Deficiência de vitamina D. Epidemiologia ● Estima-se que o Brasil possua 10 milhões de pessoas com osteoporose. Em 2014, o Ministério da Saúde publicou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, no qual ressalta que há escassez de dados nacionais precisos sobre a prevalência da doença, ocorrência de fraturas e custos que cercam essa comorbidade. Entretanto, esse mesmo protocolo cita dois estudos que avaliaram pacientes com idade superior a 50 anos e que evidenciaram prevalência de osteoporose de 28,8% no sexo feminino e de 19,5% no sexo masculino. ● Anualmente, são registradas cerca de 340.000 fraturas de quadril nos Estados Unidos, sendo que 75% dos casos ocorrem no sexo feminino e 90% na população acima de 65 anos de idade. Fisiopatogenia ● Desde a vida intrauterina, o esqueleto é esculpido pela remoção do osso de um local e deposição em outro, para atingir forma e tamanho, processo denominado modelação óssea. Uma vez atingida a maturidade óssea, a regeneração continua por meio da substituição periódica do osso antigo por um novo na mesma superfície; ou seja, temos aqui um remodelamento ósseo, processo responsável pela renovação de todo o sistema esquelético a cada 10 anos. Para que a qualidade do osso seja preservada, formação e reabsorção ósseas devem ocorrer em harmonia temporal e com equilíbrio quantitativo (balança à esquerda). Quando o processo de reabsorção sobrepõe-se à formação, o resultado será um osso de arquitetura alterada, portanto frágil e propenso à ocorrência de fraturas (balança à direita). O osso possui três tipos celulares principais: ● Osteoclastos – são as células que reabsorvem o osso; ● Osteoblastos – são as células que secretam matriz óssea na “cratera” deixada pelo osteoclasto; e ● Osteócitos – são os “osteoblastos aposentados”. Após terminarem de secretar matriz óssea, parte dos osteoblastos transforma-se em osteócitos e permanece “mergulhada” na matriz óssea recém-secretada. Os osteoblastos e os osteócitos expressam e secretam duas proteínas cujos nomes você deve guardar: ● Ligante do RANK (RANKL) – o pré-osteoclasto possui um receptor chamado RANK (do inglês, receptor activator of nuclear factor kappa-B) e é a ligação do RANKL com o RANK que estimula o osteoclasto a diferenciar-se e a começar o processo de reabsorção óssea. ● Osteoprotegerina (OPG) – quando a OPG liga-se ao RANKL, esse não consegue mais ligar-se ao RANK e ativar o pré-osteoclasto. Portanto, “a osteoprotegerina protege o osso”. Interação entre o RANK, RANKL e a OPG. Osteoblastos e osteócitos expressam e secretam tanto o estímulo (RANKL) quanto o desestímulo (OPG) ao desenvolvimento do osteoclasto. O osteócito produz a esclerostina, uma substância que prejudica a diferenciação dos osteoblastos. Essa produção ocorre de maneira tônica (contínua) para manter a formação óssea sob controle, mas, quando forças mecânicas são aplicadas sobre o osso, os osteócitos param de secretar a esclerostina e a formação óssea fica desinibida. Essa é a principal razão pela qual a atividade física é considerada um fator de proteção contra a perda de massa óssea; pois o exercício gera carga sobre o osso e isso reduz a produção de esclerostina. ● O pico de massa óssea é atingido entre 20 e 30 anos de idade, ou seja, nessa faixa etária os ossos chegam ao seu máximo de qualidade em termos de composição. A partir desse ponto, os ossos trabeculares (como os da coluna vertebral) entram em processo de perda de massa óssea. ● Os ossos longos ou corticais (como o fêmur) têm esse processo acelerado por volta dos 50 anos de idade, coincidindo com a menopausa no sexo feminino. Como você pode visualizar na figura 4, os homens perdem massa óssea a uma taxa constante e gradual; já as mulheres experimentam esse processo de forma acelerada durante a transição menopausal (devido à deprivação estrogênica), para depois evoluírem com uma estabilização na velocidade de perda óssea. ● Desde o nascimento, os homens apresentam DMO superior a das mulheres da mesma faixa etária. Ações do estrogênio no metabolismo ósseo ● Inibe crescimento e multiplicação dos osteoclastos; ● Reduz os níveis de IL-1, IL-6 e RANKL; ● Aumenta os níveis de osteoprotegerina; ● Estimula a atividade e sobrevida dos osteoblastos; e ● Favorece a absorção intestinal do cálcio e sua fixação nos ossos. Portanto, a deprivação estrogênica da menopausa causa um desacoplamento entre os dois processos necessários ao remodelamento ósseo saudável, ou seja, acarreta aumento da reabsorção e inibição da formação ósseas. Etiologia Do ponto de vista etiológico, podemos classificar a osteoporose no sexo feminino de três formas: ● Primária – é a forma mais prevalente e decorre das alterações hormonais características do período da pós-menopausa; ● Senil – decorrente do envelhecimento fisiológico; e ● Secundária – decorrente de alguma doença, condição ou medicação que influenciem negativamente o processo de formação e/ou reabsorções ósseas. No sexo masculino, a classificação etiológica também é subdividida em três categorias: ● Involucional – relacionada ao envelhecimento (característica de homens > 60 anos); ● Idiopática – acomete homens jovens ou adultosclínica da osteoporose são as fraturas por fragilidade, ou seja, rupturas ósseas decorrentes de traumas de mínima a baixa intensidade (como uma queda da própria altura, por exemplo). Os sítios propensos a esse tipo de fratura são os seguintes: ➔ Coluna vertebral (fraturas compressivas); ➔ Quadril; ➔ Punho; ➔ Úmero proximal; ➔ Costelas; e ➔ Pelve. A fratura por fragilidade decorre de um trauma que não causaria fratura em um indivíduo com arquitetura óssea preservada. Fraturas em crânio, coluna cervical, mãos, pés, tornozelos e fraturas por estresse não são consideradas fraturas por fragilidade. ● As fraturas vertebrais são o tipo mais comum e até 70% delas são assintomáticas. ● As fraturas de quadril são observadas em 15% das mulheres acima dos 80 anos de idade e em 5% dos homens na mesma faixa etária. ● A incidência de fraturas aumenta com o avançar da idade para todos os sítios e estima-se que, considerando-se a população acima de 50 anos, 46% das mulheres e 22% dos homens sofrerão alguma fratura por fragilidade ao longo da vida. ● Tanto as fraturas de quadril quanto as fraturas de coluna associam-se a aumento da mortalidade, limitações à deambulação, depressão, perda de independência e dor crônica. Justamente por isso, são os sítios avaliados pela densitometria óssea. Diagnóstico Densitometria óssea ● O exame padronizado para a avaliação da DMO e o diagnóstico da osteoporose é a absorciometria de dupla emissão de raios-x (DXA), mais conhecida como densitometria óssea. Devemos solicitar esse exame para: Parâmetros da densitometria óssea O instrumento que realiza a DXA consiste em um arco em C com uma fonte de raios X abaixo do paciente e um detector acima deste. A DXA mede o conteúdo mineral ósseo (em gramas) e a área óssea (em centímetros quadrados), para então calcular a DMO. Os locais avaliados são a coluna (de L1 a L4), o fêmur total e o colo do fêmur. Em algumas situações excepcionais, o terço distal do rádio poderá ser avaliado, por exemplo, quando o paciente tiver um peso acima do suportado pelo aparelho ou quando houver suspeita de hiperparatireoidismo. Para cada sítio avaliado, o laudo nos fornecerá três informações: ● DMO em g/cm2 ; ● T-score (variabilidade entre a DMO do paciente e a DMO média de indivíduos jovens que já alcançaram o pico de massa óssea); ● Z-score (variabilidade entre a DMO do paciente e a DMO média de uma população pareada, ou seja, uma população com a mesma idade, etnia e sexo do paciente). Pontos de corte adotados pela OMS na interpretação da DXA: Quanto menor a DMO, maior o risco relativo de fratura. Nisso reside a utilidade do método: traduzir o risco de fratura (principal complicação da osteoporose) em números. A cada redução de 1 desvio-padrão (DP) na DMO, o risco de fratura aumenta de 2 a 3 vezes. ● Devemos considerar o pior T-score entre os sítios avaliados para o diagnóstico final do laudo densitométrico. Ou seja, se o pior T-score for -2.2, o paciente possui baixa massa óssea (osteopenia). Caso o pior T-score seja de -2.7, o paciente receberá o diagnóstico de osteoporose, independentemente de qual sítio seja o mais afetado. ● OBS.: segundo a OMS, só podemos realizar o diagnóstico densitométrico de osteoporose em mulheres na pós-menopausa e homens > 50 anos. OBS.: Caso seja necessário avaliar a DMO de uma criança ou adolescente, devemos utilizar o Z-score, pois os adultos jovens que compõem a base de dados do T-score já atingiram o pico de massa óssea. Portanto, não seria uma comparação justa para as crianças e os adolescentes, já que ainda se encontram em processo de desenvolvimento e maturação ósseos. Quanto aos adultos jovens, seus calores T- score e Z-score, teoricamente, devem ser semelhantes. Afinal, essa é a população padrão para o cálculo do T-score. ● O Z-score não se presta ao diagnóstico de osteoporose, mas indica se o indivíduo encontra-se com uma DMO compatível com sua faixa etária: Caso o indivíduo osteoporótico (T-score ≤ -2,5) apresente Z-score ≤ - 2.0, devemos suspeitar que se trata de um caso de osteoporose secundária. Afinal, a osteoporose primária caracteriza-se pela compatibilidade entre a DMO do indivíduo e a DMO normal para sua faixa etária. Avaliação do risco de fraturas A maioria das fraturas (em termos absolutos) acontece em pessoas sem osteoporose. ● Afinal, além de a osteopenia e a DMO normal serem mais prevalentes que a osteoporose, as mulheres mais jovens possuem um estilo de vida mais ativo que as idosas, portanto estão mais expostas ao risco de traumas de maneira geral. Observando o gráfico 1 e sua legenda, esse conceito ficará sedimentado na sua memória: ● Esse fato trouxe a percepção de que a DMO, isoladamente, não é uma ferramenta suficiente para avaliar o risco de fratura dos indivíduos. Para resolver esse problema, a OMS criou o FRAX®. Trata-se de uma ferramenta que leva em conta o valor da DMO e a presença dos fatores de risco clínicos para o desenvolvimento de fraturas. ● Em suma, o objetivo do FRAX® é identificar os pacientes que, a despeito de ainda não estarem na categoria de “osteoporose”, possuem elevado risco de evoluir com fratura. ● Diagnosticar osteoporose é importante, entretanto mais importante que isso é prevenirmos as fraturas por fragilidade. Apesar de o risco relativo desse desfecho ser maior na categoria “osteoporose”, o risco absoluto é maior na categoria “baixa massa óssea”. ● Ou seja, todos os pacientes osteoporóticos deverão ser tratados, mas o FRAX® diz-nos que pacientes fora da categoria “osteoporose” também deverão ser tratados. ● Tem mais… o campo onde inserimos o valor da DMO é de preenchimento opcional, ou seja, podemos calcular o FRAX® mesmo que o paciente não tenha realizado a DXA. No tópico a seguir, vou ensiná-lo como a ferramenta deve ser utilizada, com e sem o valor da DMO. Critérios diagnósticos de osteoporose: Investigação etiológica Investigação de causas secundárias ● Sempre que um paciente tiver o diagnóstico de osteoporose, devemos avaliar a possibilidade de que o quadro se deve a alguma doença subjacente. Há exames básicos que devem ser solicitados de praxe e há exames mais específicos que só deverão ser solicitados mediante o surgimento de alguma hipótese diagnóstica sugerida pelo exame clínico. ● Caso o diagnóstico de osteoporose tenha sido feito pela ocorrência de uma fratura por fragilidade, devemos solicitar uma DXA para monitorizar a resposta terapêutica. Investigação radiológica ● Considerando que apenas 30% das fraturas vertebrais são sintomáticas, devemos pesquisar ativamente a existência de fratura vertebral oculta em determinados grupos. A avaliação imagiológica da coluna está indicada quando o T-score é 4 cm; ➔ Fratura vertebral anterior autorrelatada, mas não documentada; e ➔ Terapia com glicocorticoide com ≥ 5 mg de prednisona (ou equivalente) ao dia por ≥ 3 meses ● Essa pesquisa poderá ser realizada por meio de duas metodologias: ➔ Radiografia de coluna convencional; e ➔ Avaliação de fratura vertebral (VFA) – técnica que utiliza o próprio exame de DXA para avaliar o formato das vértebras; ou seja, em uma mesma ocasião, o paciente será submetido à DXA para a avaliação da DMO e à VFA para a pesquisa de fratura oculta.Podemos classificar as fraturas vertebrais quanto ao formato e ao grau de deformidade. Quanto ao formato, a fratura pode ser em cunha, bicôncava ou por esmagamento. Quanto ao grau de deformidade, pode ser grau 1 (perda de 20 a 25% da altura), grau 2 (perda de 25 a 40% da altura) e grau 3 (perda de altura > 40%). Tratamento não medicamentoso A abordagem não medicamentosa do paciente com osteoporose consiste justamente em tentar neutralizar, ou ao menos amenizar, os fatores passíveis de modificação. Podemos elencar as seguintes providências nesse sentido: ● Prevenção de quedas; ● Abandono do tabagismo e do abuso alcoólico; e ● Consumo dietético adequado de cálcio e vitamina D. Tratamento medicamentoso ● Diminuir a reabsorção óssea ou estimular a formação óssea; Anti Reabsortivos Bisfosfonatos Denosumabe SERMs Terapia hormonal da menopausa Anabólicos Teriparatida ou abaloparatida Romosozumabe