Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

ANA ANG~LICA. ALBANO MORE1IRA. 
O ESPAÇO DO DESENHO: 
A EDUCAÇÃO DO EDUCADOR 
MARIA 1-SAB'EL PRANCJ:SOO 
EcH~ Loyol1 
Rua 1822 n. 347 
04216 - São P'a.u1fo -· S,P 
Caixa Postal 42.835 
04299 - São Paul'o - ,SP 
Tel'. : (011) ·914~1922 
ISBN 8-5 .. 15.- DMS& .. 91 
© 'EDIÇÕES LOVOLA, São Paulo Brasil, 1991 
SUMARIO 
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 
1. O DESENHO DA CRIANÇA 
O desenho é linguagem ......... , . . . . . . . . . . . . . . . . . t 5 
O desenho-linguagem se desenvolve . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 
Do exercício ao símbolo ........ , ... , . . . . . . . . . . . . . 28 
Das relações de continuidade e descontinuidade entre a -
arte da criança e a arte do adulto . . . . . . . . . . . . . . 37 
Do símbolo à regra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 
E o desenho-linguagem se cala . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sl 
Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56 
2. A ESCOLA 
A escola hoje 6 1--A escola maternal e o processo de alfabetização . . . . . . 64 
Os mecanismos de exclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 
A divisão do tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 ';, 
A distribuição do espaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80 
A definição de papéis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 
Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90 
Em busca do desenho 
Desvendando o caminho percorrido ........... . ... . . 
A redescoberta do meu traço e o desenho das crianças 
Uma experiência de trabalho com professoras primárias 
Seis depoimentos de professoras ................... . 
A educação do educador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
Referências bibliográficas ................. . . ..... . . 
._ 
95 
96 
97 
109-
118 
126 
128 
Para 
Eduardo e Letícia 
APRESENTAÇÃO 
Este trabalho nasceu da minha prática como professora 
de educação artística. 
Nasceu das questões que as crianças me colocavam com 
seus desenhos, e que me levaram a buscar na Psicologia refe• 
rências teóricas que me possibilitassem refletir mais profun­
damente sobre elas. 
Nasceu, portanto, de uma prática e se alimentou com a 
reflexão, que me levou a rever a minha prática, a observar 
melhor os desenhos e os relatos de meus alunos. 
Enquanto se desenvolvia em mim a reflexão sobre o ato 
de desenhar, crescia também a minha experiência com o de­
senho. 
O desenvolvimento deste texto procura desvendar o seu 
processo de criação. E contém a esperança de levar à Univer­
sidade um pouco do cotidiano do professor de l.º grau, ten­
tando diminuir assim a separação ·entre a linguagem acadê­
mica e a cotidiana (este trabalho foi apresentado como disser­
tação de mestrado ao Instituto de Psicologia da USP, em junho 
de 1983). 
Para falar do desenho, sent i necessidade de uma lingua­
gem que fosse também plástica, povoada de imagens, relatos, 
analogias . . . 
9 
Das primeiras observações, dos primeiros esboços e daí 
para a busca de um projeto até o desenho final, houve um 
longo caminho percorrido. Nesta caminhada não estive so­
zinha. Em cada etapa tive o privilégio de companhias que 
me deram a ajuda necessária, o apoio preciso. 
A estas pessoas o meu agradecimento: 
Ao meu pai, com quem aprendi que a vida vale ser vivida 
quando se tem um projeto. À minha mãe, que me abriu para 
o prazer da leitura e do devaneio. 
Ao José Carlos, pelo respeito com que acompanhou este 
trabalho, me proporcionando as condições necessárias para que 
ele se desenvolvesse. 
Ao ·or. Lino de Macedo; pela orientação a este trabalho, 
suportando meus momentos de indefinição e incentivando o 
meu esforço em encontrar minha própria Linguagem. 
A Dra. Ana Maria Almeida Carvalho pela confiança, que 
foi o estímulo decisivo para que eu prosseguisse o meu caminho. 
À Clélia Pastorello, a orientadora pedag6gica, que me 
abriu a oportunidade de realmente refletir e praticar o desenho 
dentro do currículo escolar. Ao Marco Antônio da Silva Ra­
mos que dividiu comigo o trabalho com as crianças e as pro­
fessoras, e a reflexão. 
A Maria Lúcia Almeida e Tônia Frochtengarten, compa­
nheiras, leitoras participantes deste trabalho. 
Aos amigos, que colaboraram em diversos momentos, e 
em especial à Geraldina e José Sebastião Witter, Maria Apa­
recida Girardi Soares, Karin Lipovsky, Luciana Marques, René 
Liviano e Glória Rolim. 
Ao Pe. Terra e à Mariazinha Fusari cujo apoio foi deci­
sivo para a publicação. 
Ao Paulo Portella Filho, que acreditou ser possível encon­
trar o suporte compatível com o desenho do meu texto e que 
me ajudou a encontrá-lo. 
10 
à professoras que rabalharam comigo, ,confiando-me us 
depoimentos. 
Aos meus filhos duanlo e Letícia,, e a todos os meus alu~ 
nos, que :mie ,ensiner,am _ste Lx.to . 
. . . , E neate abril de 1'984 um agradec,·me:nto , pecial à 
equipe da ,, cola Municipal de, Iniciação Arti tica, pelo, de­
tenho qu,e estamos, oonsitruindo juntos,, cada dia unindo os 
so1nhos, an e·os e - ceios1, proj,elando nos o esp,aço de cria~ão . . . 
Ana Angélica Alb,ano Moreira 
11 
1. O DESENHO DA CRIANÇA 
O DESENHO ~ LINGUAGEM 
Toda criança desenha. 
Tendo um instrumento que deixe uma marca: a varinha 
na areia, a pedra na terra, o caco de tijolo no cimento, o 
carvão nos muros e calçadas, o lápis, o pincel com tinta no 
papel, a criança brincando vai deixando sua marca, criando 
jogos, contando histórias. 
Desenhando, cria em torno de si um espaço de jogo, silen­
cioso e concentrado ou ruidoso seguido de comentários e can­
ções, mas sempre um espaço de criação. Lúdico. A criança 
desenha para brincar. 
"Desenhar é bom para tirar as idéias da cabeça. Porque 
sempre que a gente tem uma idéia, a gente quer ter ela, brincar 
com ela, ai a gente desenha ela." Observou Eduardo (8 anos). 
O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, 
projetar-se. 
"Bem sabemos que a palavra desenho tem originalmente 
um compromisso com a palavra desígnio. Ambas se identifica­
vam. Na medida em que restabelecermos, efetivamente, os 
vínculos entre as duas palavras ·,estaremos também recuperando 
a capacidade de influir no nosso viver. Assim o desenho se 
aproximará da noção de projeto (pró-jet), de uma espécie de 
lançar-se para frente." 1 
15 
Figura 1 
Desenho - brincadeira de 
casinha: as roupas da noiva 
e do noivo (figs. l,2,3,4 e 5). 
A criança desenhando está afirmando a sua capacidade de 
designar. 
Desenha brinquedos, brinca, com os desenhos. 
B seu o desenho da sua pipa, o risco da amarelinha, o 
castelo de areia, as estradas por onde andam seus carrinhos, 
a planta da sua casinha. 
e desenho a maneira como organiza as pedras e folhas 
ao redor do castelo de areia, ou como organiza as panelinhas, 
os pratos, as colheres na brincadeira de casinha. Entendendo 
por desenho o traço no papel ou em qualquer superfície, mas 
também a maneira como a criança concebe o seu espaço de 
jogo com os materiais de que dispõe. 
16, 
Figura 2 
Observando a brincadeira livre da crianças pode-se notar 
dife~enças individua _s, na maneira de dispor :seus brinquedos no 
espaço. a maneira. de desenh r o : eu espaço 
Entrar no quarto da cria:oça, terminada. a brincaderra, mas 
.aonde ainda estão pre . en~es o.s :seus vestígios, é entrar em con­
'tato, ,com um recorte da história daquela ,criança. S ,a possi~ 
bil dade de conhecer aquela criança. através de uma ,outra linw 
guagem o desenho do seu espaço lúdu:o. As bonecas enta:das 
no chão e os, cardnhos ,enfileirados falam .sobre a criança que 
os arrumou. Contam -obre o seu projeto. 
r1· 
• 1 tt 
1 
Di 
Figura .J 
'" Para melhor conhecermos. a ,criança.j diz Daniel Widlocher 
em 'A in~erpr-etação dos ,de-senhos i.nfantis1
' podemos sem dú 
vida consultar os li.vros ou ouvtr conferências que .nos t:ra-­
gam seu l'\etra:to ,objetivo. Mas tal modo de procederEntão a 
gente está constante e habitualmente treinado, desde o começo, 
a reprimir nossas reações pessoais, emocionais, e a treinar 
nossa mente para aquilo que nós chamamos de objetivo". 1 8 
Dentro de um currículo voltado para a · objetividade, o 
tempo concedido· para a expressão plástica é evidentemente 
sempre menor. 
"Se eu der tempo para artes e música, fico atrasada com 
a programação." Este é um comentário que tenho ouvido com 
freqüência de professoras primárias. 
e interessante notar através desta fala, que para a pro­
fessora, artes e música,. nem ao menos fazem parte da pro­
gramação. 
Nas escolas particulares encontra-se com certa freqüência, 
nos horários, uma hora-aula (50 minutos) para artes por se­
mana. 
Em escolas que esta -atividade é desenvolvida por uma 
pessoa especializada, o hórário geralmente é cumprido. Porém 
nos defrontam·os com um outro problema: estas pessoas encon­
tram cada classe apenas 50 minutos por semana. Como, em 
geral, o número de alunos por classe é bastante grande, o pro­
fessor tem muita dificuldade em desenvolver um trabalho sa­
tisfatório. 
"São quase quarenta crianças por classe e pouco tempo 
de aula. Algumas vezes levo um semestre ou até um ano para 
conhecer todos os alunos. Além disto como o tempo é pouco, 
passo a maior parte· da aula distr.ibuindo e recolhendo material." 
Este comentário de uma professora de artes de uma escola 
primária particular expressa a in~tisfação que tenho encon­
trado nos profissionais da área. 
O pouco tempo de contato com as crianças os impedem 
de estabelecer a ligação necessária, para um trabalho de ex­
pressão realmente profundo. São vistos pelas crianças mais 
como visitantes - com quem têm a .possibilidade de viver 
'16 
·um momento diferente da rotina - e não como um .professor 
ligado ao trabalho diário. Isto só reforça a separação .da ati­
vidade artística do resto do currículo. O pouco contato com 
as crianças muitas vezes angustia o profissional, que se vê 
fadado a uma relação superficial, numa atividade que não 
comporta a superficialidade. 
Quando esta atividade é desenvolvida pela própria profes­
sora da classe, este problema de falta de ligação não existe. 
E as professoras que conseguem trabalhar com as r.rianças, com 
todas as linguagens, mostram-se surpresas com a quantidade 
de novas informações que acabam tendo de seus alunos nas 
atividades plásticas. Porque, desenhando, os alunos conseguem 
mostrar aspectos de sua personaliidade que em outras atividades 
não apareciam. 
"Observando aquele aluno desenhar com tanta concentra­
ção e interesse, passei a me questionar sobre sua a1i.Jude in­
quieta nas outras atividades. Descobri que ainda não -v conhe­
cia o suficiente e procurei observá-lo melhor." 
Esta professora, de urµa primeira série, começava .a ,des­
cobrir a importância desta atividade para seus alunos. 
Contudo, são poucas as professoras primárias que perce­
bem a importância do desenho e portanto, na prática, na-maio­
ria das vezes, o horário de artes nem sempre é cumprido. Em 
geral estão sempre muito preocupadas com "a programa'ião", 
o que apenas é fruto do seu próprio desconhecimento da natu­
reza da atividade artística. 
Nos guias curriculares do Estado também encontramos um 
horário destinado à educação artística. Segundo o que pude 
constatar, da l.ª à 4.ª série do 1.0 grau, com uma professora 
polivalente quase nunca este horário é cumprido. 
"Se eu quiser fazer cumprir o horário do guia curricular 
e desenvolver toda semana uma atividade de educação artís­
tica, minha classe ficará atrasada em relação aos outros pri­
meiros anos. Isto porque a direção quer que todas as classes 
caminhem juntas com a programação e minhas colegas sentem 
como perda de tempo este momento de artes" (depoimento 
de uma professora de 1.ª série de escola estadual). 
77 
Por outro lado foi com prazer que vi surgir uma "greve", 
em uma classe de 2.0 ano de uma escola particular, quando 
a professora, precisando fazer uma entrevista com a psicóloga, 
usou o tempo que seria de aula de artes. Voltando à classe, 
começou a passar a lição de casa, uma vez que o horário pre­
visto para artes já havia terminado. E as crianças se recusa­
ram a copiar a lição porque tinham ficado sem sua aula 
de artes. 
A professora não tinha percebido ainda a importância da 
atividade, mas as crianças tinham. 
Da s.• à 8.ª série encontramos., como matéria obrigatória 
do currículo, a disciplina de educação artística com duas aulas 
por semana. Já no colegial, apenas algumas escolas apresen­
tam em seus horários, durante ~ 1.0 ano e poucas vezes no 
2.º ano, a matéria educação artística com duas aulas por 
semana. A maioria dos colégios de 2.0 grau, simplesmente 
excluem esta matéria que não entra no vestibular. 
No primeiro dia de aula, numa 5.ª série, de uma escola 
particular, um aluno - verificando que em seu material não 
havia cadernos de desenho, mas havia um para rascunho -
perguntou: "Podemos usar o caderno de rascunho também 
para desenhar?" E recebeu como resposta da professora: "Não 
se· preocupe que na 5.4 série vocês não terão tempo para 
desenhar." 
Somando o número de horas dedicadas ao desenho, ao 
longo do processo de escolarização, podemos perceber como é 
pequeno o tempo que a escola lhe dedica (isto se avaliarmos 
apenas do ponto de vista do número de horas, sem entrarmos 
em discussão sobre a maneira como estas horas são usadas na 
prática, o que demandaria um outro estudo). O que pode­
·mos perceber, é que a análise da distribuição do tempo, traz 
sem dúvida, uma informação sobre a importância que a escola 
dá à expressão artística. 
Este é um ponto que não passa desapercebido para o aluno 
que tem cinco aulas de português por semana contra uma aula 
de artes. Fica claro onde está a força da escola! 
'18 
. . . Cad!a matéria está destinada a ser cuidadosamente 
arruma.da em sua. gavetinha'" uma para gramática, O·Utta para 
geografra etc .• 1e ,cada gaveta não s,e comunica oom as outras. 
Elas. se abrem, uma de ,cada v,e2 na hora certa ( ... ) Algumas 
guardam ,coi as de malor valor. a e cola .Primária. por exem:­
plo., uma das. maiores riquezas que se pode arrumar numa 
gaveta é a ortografia. Segundo o domínio •que se tenha dela 
é que se poderá prosseguir ROs estudos. Outras gavetas são 
meno6 cons,ider,adas. Pouco, importa. à. ,es4;ofa que s,e tenha uma 
gav . ta repleta de bo __ músic__ ou de belos desenho •,,. 11 
O pouoo tempo dedicado à'S artes conta com o a.po,io da 
maio-ria. dos pais que assim. se sent•em seguros. da força da 
escola .. 
Se formos mais f oodo nesta questão veremos, que ,o te.mpo 
destinado à expres5ão artística é urn tempo destinado a si. pró­
prio. t o te.mpo , que o suj,eito e apossa do ·material para 
dizer de si e do seu mundo. Para falar do ,que Ih.e diz res­
p ito., para dar forma a seu pensamento e sentimentos,. Este 
é um te:mpo que há muito a vida urbana engoliu ... 
l~~IMô 
OrA 
ct..P,,RA 
QUE sua. r' 
AS 1111-1 ~ r:; I 
,.,_ . 
. ' 
(~ l 
- 11".I 
' 1 
t __ ., 
~ 
A DISTRIBUIÇÃO DO ESPAÇO 
A arte, enquanto discurso incontrolável, inquieta e repro­
põe. A criança traz consigo esta inquietação, este "estranha­
mento" que é o ser da poesia. Precisa então de espaço onde 
possa dar vazão à sua criatividade, com lápis, tinta, madeira 
ou o que estiver à sua disposição. 
A escola precisa então disciplinar e controlar esta inquie­
tação, que a arte contemporânea, justamente, se propõe a 
recuperar. 
Procede então a distribuição dos sujeitos no espaço. 
"A criança de 6 anos é 'parafusada' numa cadeira dura 
para estudar palavrório durante horas e horas. 
Será por acaso que a criança em desenvolvimento, esta 
força da natureza, essa exploradora, é mantida imóvel, petri­
ficada, confinada, reduzida à contemplação das paredes, en­
quanto o sol brilha lá fora, obrigada a prender a bexiga e os 
intestinos 6 horas por dia, exceto alguns minutos de recreio 
durante 7 anos ou mais? 
80 
Haverá maneira melhor de aprender a submissão?Isso 
penetra por músculos, sentidos, tripas, nervos e neurônios ... 
Trata-se de uma verdadeira lição de totalítarismo. A posição 
Kcntada é reconhecidamente nefasta para a postura e para a 
circulação, e no entanto eis o nosso homem ocidental com pro­
hlemas de coluna, as veias esclerosadas, os pulmões retraídos, 
hemorróidas e nádegas achatadas. . . Faz um século que vemos 
os crianças arrastando os pés embaixo das carteiras, entortando 
o corpo e pulando como rãs quando a sineta bate {sem falar 
nos 20% de escoliose). Esse tipo de manifestação é atribuído 
à turbulência infantil: nunca à imobilidade insuportável im­
posta às crianças - a culpa é sempre da própria vítima. Não, 
não é um acaso. E um plano. Um plano desconhecido para 
os que o cumprem. Trata-se de domar. Domesticar fisica­
mente essa máquina fantástica de desejos e prazeres que é a 
criança." 16 
Carteiras enfileiradas, com espaço mínimo para o gesto 
amplo que é o desenho da criança pequena. Então o desenho 
se encolhe, e se esconde nas margens, nos rascunhos, até desa­
parecer por completo, sem deixar vestígios. 
Em algumas escolas, a sala de artes existe separada da 
sala de aula, para deixar bem claro para a criança que o 
espaço de criação está bem apartado do espaço da informação. 
Nestes últimos anos trabalhei em salas de artes: banhei­
ros adaptados, porões, barracões separados do corpo da esçola, 
"o quarto dos fundos", o depósito. Mas também encontrei 
espaços grandes e reluzentes, que precisavam continuar limpos 
e reluzentes mesmo que passassem por ali num mesmo dia mais 
de 200 crianças trabalhando. 
Após o primeiro dia de trabalho num destes espaços esi» 
cialmente projetados para aulas. de artes, recebi da diretoria 
da escola a seguinte proposta: "Quando a senhora for traba­
lhar com estes materiais rústicos (no caso argila), a -senhora 
poderia trabalhar no porão." 
E assim que a escola vai mostrando para a criança que 
os momentos de maior expansão devem ficar bem escondidos, 
até serem esquecidos por completo ou expresso~ nos riscos 
81 
das carteiras, e puedes mas gri.tadas ao som da campa·mha, 
nas lutas, d.e corr-edor. 
A isa~a de au a es.paço sagrado ,da mfonnaçao,J deve pe.r .. 
maneeer silenciosa e limpai e as ativ'dades mais rú lica , deven1 
ocupar outtos esp,a.ço.s .. 
Não estou abso ·utamente co.ntra a exi tência d, _ , alas espe­
ciais p,ara artes~ 0 1 atelier bem equipado JJara a atividade plás­
tica é tão importante pa,ra um bom trabalho como o labora­
tório de ci~ncias ou a quadra de esportes~ 11 tanto mais neces~ 
sãrio quanto maior for a idade da criança e o ·trabalho da. 
escola for' se tomando mais especializado Pois nos primeiros 
anos escolare-s.,. me parece que a sala de aula dev·eda estar equi .. 
pada- para. conter as diversas po:ssibilidades de e perimentaçio 
com materiais os mais, variados1 um.a vez que, nesta fase o 
aprendizado se faz de forma g,lloba 1. -
o entanto ,. ,o que tenho podido constatar. é que io1 es:paço 
,que a escola destina à sala d:e artes é qua,se sem.pre um lugar 
,à parte. Enquanto os labo,ratórios são equipados com mate­
riais ,especialmente oonst:ruídos para este fim e uas salas f azero 
parte do corpo do prédio efi,colar, a maior parte das ssJas de 
artes são equipadas com. os refugps de móv Js 1e. f'ieam geral 
mente ,escondidas ou. separ.ad.as do p11éclio principal. Isto - real­
men.te, não me impediu de apreciar os pou.cos ateliers. 'bem. 
montados em escolas preocupadag em fámecer .aos alunos o 
ambie.nte adequado a cada atividade. S,ão~ no entanto,. raras .. 
São exceções que apenas oonfirmam a regra .. 
82 
A DEFINIÇÃO DE PAPtIS 
"O que é no fundo um sistema de ensino, senão uma 
ritualização da palavra, senão uma fixação de papéis para os 
sujeitos falantes, senão a constituição de um grupo doutrinário 
mais ou menos difuso, senão uma distribuição do discurso 
com seus poderes e saberes?" 11 
Defrontamo-nos com mais um mecanjsmo de exclusão, 
que é a rígida definição de papéis: o aluno cala, escuta, obe­
dece e é julgado, e o professor sabe, ordena, anota a pune. 
E este professor que sabe, que decide e julga é o adulto 
que já perdeu a confiança na sua capacidade de desenhar. 
Acompanhando o processo de trabalho de. uma moça numa 
aula de desenho, que começou com o sempre: "eu não sei 
desenhar" - desacreditando de sua capacidade de se expres­
sar, esperando do professor um modelo para copiar - pude­
mos ver surgir o seu desenho, depois de alguns meses. Quando 
foi capaz de descobrir o seu traço, a sua visão, comentou: "a 
gente não perde o desenho, eles é que tiram da gente!" 
Eles, os adultos, que um dia foram crianças que sabiam 
criar a sua pipa, rabiscar sua amarelinha, construir seus bar­
cos de papel. Eles, os adultos, professores que reproduzem 
na escola as relações de poder da sociedade ein que vivem. 
83 
Sua r-elação com o alunos e:stá p~nneada por esta relação de 
domima.ção. São, dominados~ dominam. ão criam e, portanto, 
mão1 ,estimulam a criação .. Não desenham copiam e levam os 
alunos . à. cópia. 
'A dominaçao vive da passi 'idade e não da luta.'' 
A dominação forma gente subm1ss,a~ ,,1rq,ue não pensa ,ou 
pensa segu11:do uma realidade que não é a sua realidade' . ª 
A uniiformida.de que ~:ncontramos em de enhos de cri.an.­
ças de uma mesma dasse ,é a tradução desta relação, autori­
tária.. Todo- temos na l,embrança,. a casinhas~ os coelhos e 
outfiOS, modelos que são repetidos incansavelmente por todas 
.as, crianças numa sala de aula; sejam ,estes. desenhos ,copiados_ 
da ]!ou· a. ,ou mimeogTafado.s pelas professoras para as crianças 
coloririem.. E ninguém pe.roebe que estas são atividades ·pura­
ment-e mecânicas,,, que .nada ,con.tribuem para o desenvolvi­
mento das crianças. 
A. ,arte ,se define justamente pela. diversidade, por propor 
ilgo que é peswal e único. Quando · e aceita esta. premissa 
temos que· descartar toda atividade que tenha como ponto 
de partida a uniformidade. 
use é ,ensinado as crianças co·larem pedaços de algodão, 
para rep.resentar a li de carneiros desenhado5 por professores,, 
o resultado, pode agradar ao professor e as ,crianças podem 
te:r recebido algum fr-eino em trabalhos manuais, mas este tipo 
de atividade de forma alguma contribui para ,o desenvolvi-
:mento destas cri nç:as .. '' 20 · 
l.owenfeld em '"Desenvolvimento da Capacidade cr·ado­
ra " f,ala a. respeito da influência dos livfos p.ara color0ír na. 
estereotipia do des:enho das crianças. P,enso hoje . que os livros 
em. si não têm o poder d.e estereotipar o desenho,. Se admi­
timos. que estereotipia sintoma .d .sub.m'ssão, ao desenho de 
outro, um hvroJ. em s1 1, não ter1a o, poder de subjugar .. Porém. 
o 'Valor qu,e o adulto confere ao livro, e a maneira como est ' 
adulto estabelece a sua relaçã.o com a criança é ,que faz com 
,que o Uvro se ·~orne tão atraente, a pooto de que ela abandone 
84: 
'· .,_ 
· Siete 
siete pójo,os 
' 
' ., .-. r 
' : • ❖ 
•,\ . . \ -. ,. 
~:'·\ .... , .,_ ',', ~ 
' . ' • ' 1\ •. , , • , ..,. ,1;~ 1-· .. ·.-( ... ,:·~,, J~--, ; 
, . .. ' ··•· . • 
' .\, 
,• fft-f 
' t··,• ~•·•: 
.Fig. 1. Efecto que los libros para colorear producen en la expresl6n 
creadora. (Doe/ora Irene Russell, Research Bulletin, The Eastern Arts 
A.ssociation, vol. 3, n." 1. 1952.) - a) Antes de conocer los libros de 
figuras; b) I/ustrac:ión para colorear que el nilio debi6 copiar; e) EI 
nino, después de los übros de i/ustraciones para colorear, ha perdido 
su sensibilidad. 21 
85 
o •seu desenho e adote o do livr,o. · ã.o é o livro, que influen­
daj mas, o adulto. 
Se na relação com a ,criança ,o adulto é o que abe e 
julga, então o :seu de nbo, ,é •O· certo e à criança ó r,esta eo-­
piá.-lo. Porem é apenas neste tipo de rel.aiã.o que tenho per­
cebido aoonteoer a esrereobpia. 
Pude acompanhar trabalhos,, em que adultos ,e craanças de­
senhando juntos,, cada um conserva .. a o eu prióprio, traço. 
e te · ,caso , os adultos não se ap,resentavam c-0mo modelos. 
O poder do adulto :sobrea criança. s · faz sentir também 
ao .nível da _ ualidad do p nsajpento. Qualidade aqui ent, n~ 
dida dentro, do modelo pi,agetiano ,como um modo particular de 
estruturar o pen.samenio .. 
4-, 
" 
rii ,_ 
. . - -
,_, .. 
,. ·t.t· 
;- . 
• ~111!!!1~ .... _ .. -
----~- .-~, 
- .. . .. ~~-::.":..-::-!!' ... • !!! 
86 
O adulto é o que domina o discurso lógico e a criança 
não está em condições de pensamento para entrar na ordem 
deste discurso. Ela pensa concretamente, por imagens e o seu 
desenho é sempre concreto, nunca abstrato. Os " desenhos pe­
dagógicos" - usados por alguns professores em aula - assim 
como muitos dos desenhos encontrados nos livros didáticos, 
são bastante simplificados, e atendem a uma idéia abstrata do 
objeto. Para o adulto eles são compreensíveis, mas não para 
a criança que muitas vezes copia sem entender. E assim o 
desenho vai perdendo em significação para a criança. 
Como em geral este adulto já perdeu seu próprio de­
senho, o "desenho pedagógico" se apresenta como um recurso, 
é para ele mera cópia. Fecha-se assim uma cadeia de dese­
nhos sem significados. Desenhos que não são expressão de 
quem desenha e portanto não são nada, pois que arte é sem­
pre "linguagem carregada de significado."'' 
" Aqui e mais do que em qualquer outra parte, é neces­
sário acautelar-se contra a tentação que cresce toda vez que 
um novo ramo de ensino é introduzido: a educação artística 
deve ser, antes de tudo, a educação desta espontaneidade esté­
tica e ·dessa capacidade de criação das quais a criança pe­
quena já manifesta a presença, ela não pode, menos ainda 
que todas as outras formas de educação, contentar-se com a 
transmissão e aceitação de urna verdade e de um ideal já ela­
borados : a beleza como a verdade não recriam senão o sujeito 
que as conquista ." zs · 
O poder do adulto se faz sentir ainda pela maneira como 
aprecia os desenhos infantis. As crianças são extremamente 
vulneráveis aos comentários dos adultos, especialmente quando 
sabemos que o d.esenho expressa a criança inteira. 
Augusto Rodrigues diz que "julgar que o desenho de uma 
criança possa ser melhor que o da outra é tão inconseqüente 
quanto julgar a qualidade da alegria ou d~ felicidade de duas 
crianças que brincam." 2 • , 
"Sempre fui uma menina frustrada na escola, pois minha 
professora nunca elogiava um desenho meu. O mais bonito 
87 
era sempre o da Carmem Silva Figueira Gomes ou então o 
do Mário Sergio de Souza. Parrece bobagem dizer o nome e o 
sobrenome, mas . . . acontece que os trabalhos deles ou de 
outras Carmens e outros Mários eram exibidos para todos sendo 
Irisados os nomes dos artistas. Puxa, eu sempre quis me cha­
mar Carmem Silva Figueira Gomes . . . 
Um belo dia, porém, houve na classe um concurso de 
desenho. Seria sobre a árvore, pois seria comemorada a data. 
Fiquei sem dormir noites e na véspera do concurso minha mãe 
J ez o desenho para mim ... 
Puxa vida/. Ficou lindo, e eu ganhei. Mas agora seí por­
que eu não senti nenhum prazer quando minha professora 
levantou meu trabalho e disse: - 'Olhem o trabalho. m{Jis 
lindo, a vencedora foi a Soraya Alexandra Ribeiro'. Eu adorei 
ver a cara de raiva da Carmem, mas Jíquei triste pois a ven-
. cedora foi na realidade Maria Helena Ribeiro. 
Como minha idade era pouca custou para eu entender que 
a per/ eição não é mais importante do que a realização. 
Então, hoie, eu fico feliz em percetrer que · as minhas 
crianças conseguem criar (sem ,a famosa 'mão de gato') e cres­
cer sempre de um desenho para outro. 
Meu valor de beleza é que mudou!" 
O depoimento desta professora mostra como se sente a 
criança que vê seu desenho jwlgado por padrões exteriores a 
ela mesma. Infelizmente, apesar de ser uma reminiscência, 
permanece bastante atual. Exposições com premiações ainda 
acontecem hoje nas escolas e são bastante freqüentes: 
Não se trata, em absoluto, de fazer com que os adultos 
deixem de lado sua experiência e o seu conhecimento, ma.s 
que os usem para compreender o estágio em que a criança se 
encontra e poder ajudá-la no seu crescimento. ' 
Augusto Rodrigues conta a seguinte experiência: "Uma 
criança estava pintando com tinta branca sobre papel branco. 
E a professora perguntou: '- O que eu faço?' - ' Não faça 
nada, observe. Você sà.b.e por que ele está ·pintando com tinta 
branca no papel branco?' - 'Não.' - 'Então espere e o~serve·.' 
88 
Ela observou e disse que ele já tinha gasto um pote de 
tinta branca, ·só estava lambuzando. Eu comentei que seria 
bom ela observar mais, pois talvez houvesse alguma razão 
para isto. A criança continuava, já estava em um pote e meio 
quando me aproximei dela, me abaixei e .fiquei a seu nfvel 
- o que é sempre bom. Quando ~e abaixei, a incidência 
da luz era ou.tra e havia no branco sobreposto ao branco, 
r~levos e toda uma paisagem, casas, árvores, tudo feito só 
com uma tinta: branco. Havia um elemento que a profes­
sora não tomou conhecimento: a luz, a incidência da luz." •5 
A professora tinha esquecido de perceber a pers~tiva da 
criança, a sua visão para poder partilhar cotn ela aquele mo­
mento de criação. 
A tarefa do professor é, portanto, "especialmente difícil 
porque se não deve exercer a autoridade de modo que subju­
gue, também precisa apresentar justamente aquela dose de 
autoridade que compete à pessoa adulta e entendida perante 
a criança". 26 
t importante em primeiro lugar conhecer profundamente 
as crianças. Não apenas o conhecimento que se pode adquirir 
nos livros, mas se dispor a observar atentamente suas crianças. 
I! importante também estar consciente do seu poder, pois é 
através dele que divide o tempo e distribui os espaços. E; 
então, começar a se perguntar do porquê de tão pouco tempo 
e tão pouco espaç para a atividade de desenhar. E se inda­
gar ainda, onde está o seu próprio desenho: em que tempo 
e espaço ele se perdeu . 
E sair à sua procura. 
I! um primeiro passo para romper a cadeia de alienação: 
é dominado, domina, não cria, não leva à criação ... 
Recuperar o próprio desenho é restabelecer o compromisso 
que est11 palavra tem originalmente com a pala:vra desígnio. 
I! como propôs Artigas, "uma maneira de recuperarmos a capa­
cidade de influir no nosso viver, num certo sentido já assi­
nala un.1 encaminhamento no plano da liberdade''. 21 
89 
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 
1 . ERICKSON, E. - Citado por _. . Smith o.m HA ,criativid.ade 
pinturas das · R, as e &u .arti ta •~1 p. 13. Re,dna Ar.te, n~0 3· 
19182. 
2 . N6cleo Expe:rimentall de Atividades Sócio Culturais - Uma erpe­
r,iê:ncia em educaçao,. p. 25 ;e alvador. 191.82. 
J . WINNI -OTI- D, w·. - A criança. e o KU mundo. IJ!, 212 ·z •. 11 ed., 
.Zahar, Rio de Janeiro 1971. 
4 ,, FURTH, H - .Piaget· na sala tle aula, p. 2[. orcnse, Rio de 
.Janeiro, 1972. 
S . FOUC UL T, M. - El or:den tiel discurso, p. 11 . Tu~ucts, Bar .. 
ceio _a, 1980. 
6 . FOU AULT. M. ....... l or-den Jel Ji º a,so,, p. 4.i.l. T11sque , .Bar­
ceio a, 1'980. 
7, PIAG , J. - uA educação, art"' tica e a. psico{ogia da criança", 
Revista de l'eda,go,gia, n,0 1.0 ~mestre; 1966. 
8 . BARTHES,. R. - Aula. p. 129 Cultrix , S o Paulo,. 19·80. 
9. f'OUCAULT, M. - El orden a~l discurso, p,. 12, Tusque -, Bar­
ce!ona,, 1980. 
f 01 • G DO'fT[, M. - Educação e pode·, : Introdução à peda,gogia 
,d'o conflit'o, p. 53,, Cortez, Sao P.au o 1980. 
u . A , DR.ADE e. D .. - - uA educação do ser poiti.eo,"', Jle:v 'Sta. drte 
e: Educaçao,. 11.0 Jl:5 outubro 197'4. 
12 . .FOUC ULT, M. - Vigiar e p·unlr;. p. 136, V0zes1, Petrópolis, Rio 
de 1 aneiro,. 1.9,77. 
13 . RA Z, M. · ,, - A ir1t,~rpreta1'io' d~ , conlw d fadas~ p . 24 
AcJiiamé. a·o de Janeiro. 19:31. 
J. • HARPER B.,, CBCCO . , ·C~. DUVEI~ M,,, OLIVEIRA R. -
,Cuidado, Elcola'!, p. 64. Brasiiicm.s.e São1 Paulo, lt80. 
15. .HARPiE!lt,, B.;t CECCO . ·, C. OU EIRA, M·. OLIVEIRA,, ll. -
1C11Jdadoj, Esrola!, 1'· 65, Brasiliense:, São, Paulo. 19.81. 
1•6 • ROCHBFOR.T, C. - ''Les, cnfan:ts d·1abord" ,, Orasset, Pari , l 976 
- ,cit o par .B. HARP'BR.C.. CE.CCON, M. OUVE.IRA. R. 
10:filV'ElltA - Cuitlad:O:t Esco.&f, p. 47; BruU:insc,. São Pauto •. 
1980. -
11·. ROUil:AU.UT , M. - El orden dtrl di:6c rso., p. JB .• Tusquets. Bu­
,ce.lona 1'980. 
90 
18 e 19. GADOTII, M. - Educação e poder: Introdução à peda­
gogia do conflito, p. 32, Cortez, São Paulo, 1980. 
20 . BREARLEY, M. - The teaching of young children, p. 50, Scho­
ckcn Books, New York, 1975. 
21 . LOWENFELD, V . ....,.. Desarrollo de la capacidad creadora, p. 19, 
Kapelu:i:, Buenos Aires, 1961. 
22 . POUND, E. - ABC da literatura, p. 32, Cultrix, São Paulo, 
1978. 
23. PIAGET, J. - "A educação artística e a psicologia da criança", 
Revista de Pedagogia, n.0 XXX, 1.0 semestre, 1966. 
24. RODRIGUES, A. - "Ao resto, o resto", publicado pela Esco­
linha de Arte do Brasil, setembro, 1964. 
25 . RODRIGUES, A. (Org.) - E$colinha de Arte do Brasil, M.E.C.­
•lnep, Brasília, 1980. 
26. JUNG, C. G. - O desenvolvimento da personalidade, p. 60, 
Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, 1981. 
27. ARTIGAS, V. - Texto da aula inaugural pronunciada na Facul­
dade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo 
em 1-3-67. 
91 
	Captura de tela 2026-02-14 192436
	Captura de tela 2026-02-14 192449
	Captura de tela 2026-02-14 192516
	Captura de tela 2026-02-14 192530
	Captura de tela 2026-02-14 192542
	Captura de tela 2026-02-14 192559
	Captura de tela 2026-02-14 192614
	Captura de tela 2026-02-14 192636
	Captura de tela 2026-02-14 192652
	Captura de tela 2026-02-14 192714
	Captura de tela 2026-02-14 192737
	Captura de tela 2026-02-14 192758
	Captura de tela 2026-02-14 192816
	Captura de tela 2026-02-14 192846
	Captura de tela 2026-02-14 192909
	Captura de tela 2026-02-14 192925
	Captura de tela 2026-02-14 192949
	Captura de tela 2026-02-14 193005
	Captura de tela 2026-02-14 193041
	Captura de tela 2026-02-14 193113
	Captura de tela 2026-02-14 193141
	Captura de tela 2026-02-14 193158
	Captura de tela 2026-02-14 193220
	Captura de tela 2026-02-14 193236
	Captura de tela 2026-02-14 193250
	Captura de tela 2026-02-14 193443
	Captura de tela 2026-02-14 193502
	Captura de tela 2026-02-14 193517
	Captura de tela 2026-02-14 193534
	Captura de tela 2026-02-14 193551
	Captura de tela 2026-02-14 193603
	Captura de tela 2026-02-14 193615
	Captura de tela 2026-02-14 193636
	Captura de tela 2026-02-14 193649
	Captura de tela 2026-02-14 193708
	Captura de tela 2026-02-14 193729
	Captura de tela 2026-02-14 193743
	Captura de tela 2026-02-14 193758
	Captura de tela 2026-02-14 193819
	Captura de tela 2026-02-14 193836
	Captura de tela 2026-02-14 193855
	Captura de tela 2026-02-14 193910
	Captura de tela 2026-02-14 193924
	Captura de tela 2026-02-14 193940
	Captura de tela 2026-02-14 194003
	Captura de tela 2026-02-14 194020
	Captura de tela 2026-02-14 194035
	Captura de tela 2026-02-14 194054
	Captura de tela 2026-02-14 194109
	Captura de tela 2026-02-14 194126
	Captura de tela 2026-02-14 194141
	Captura de tela 2026-02-14 194200
	Captura de tela 2026-02-14 194214
	Captura de tela 2026-02-14 194228
	Captura de tela 2026-02-14 194327
	Captura de tela 2026-02-14 194349
	Captura de tela 2026-02-14 194405
	Captura de tela 2026-02-14 194424
	Captura de tela 2026-02-14 194447
	Captura de tela 2026-02-14 194706
	Captura de tela 2026-02-14 194726
	Captura de tela 2026-02-14 194746
	Captura de tela 2026-02-14 194808
	Captura de tela 2026-02-14 194825
	Captura de tela 2026-02-14 194838
	Captura de tela 2026-02-14 194855
	Captura de tela 2026-02-14 194907
	Captura de tela 2026-02-14 194920
	Captura de tela 2026-02-14 194937
	Captura de tela 2026-02-14 194952
	Captura de tela 2026-02-14 195007
	Captura de tela 2026-02-14 195030
	Captura de tela 2026-02-14 195046
	Captura de tela 2026-02-14 195058
	Captura de tela 2026-02-14 195112
	Captura de tela 2026-02-14 195129
	Captura de tela 2026-02-14 195158
	Captura de tela 2026-02-14 195220
	Captura de tela 2026-02-14 195235
	Captura de tela 2026-02-14 195255
	Captura de tela 2026-02-14 195313
	Captura de tela 2026-02-14 195327
	Captura de tela 2026-02-14 195341
	Captura de tela 2026-02-14 195400é insufi 
e1ente e perigoso· Para melho,r conhecer a ,criança é preciso 
-saber ouvr-la e saber falar-lhe/' 2 
18 
1111 
º -_(jo.ª 
--- ' . ' J ,' j .- - J ,• ) 
• ..., -..J ·•.~ • J 
,. 
- ~ I o-
' • 
rll 
&Ili!/' 
F$g,Uta 4 
19 
( . - ~ , -. 
• 1 p 
~ o~ 
e") .• 
Para melhor conhecer a criança é preciso aprender a vê-la. 
Observá-la enquanto brinca: o brilho dos olhos, a mudança de 
expressão do rosto, a movimentação do corpo. Estar atento à 
maneira como desenha o seu espaço, aprender a ler a maneira 
como escreve a sua história. 
" O que é preciso considerar diante de uma criança que 
desenha é aquilo que ela pretende fazer: contar-nos uma histó­
ria e nada menor que uma história, mas devemos também 
reconhecer, nesta intenção, os múltiplos caminhos de que ela 
se serve para exprimir aos outros a marcha dos seus desejos, 
de seus conflitos e receios." 3 
Porque o desenho é para a criança uma linguagem como 
o gesto ou a fala. 
A criança desenha para falar e poder registrar a sua fala. 
Para escrever. 
O desenho é sua primeira escrita. 
Para deixar sua marca, antes de aprender a escrever a 
criança se serve do desenho. 
"O desenho fala, chega mesmo a ser uma espécie de escri­
tura, uma caligrafia", dizia Mário de Andrade.• 
A criança desenha para falar de seus medos, suas desco­
bertas, suas alegrias e tristezas. 
"Antes o desenho estava super triste, agora está mais ale­
gre", comenta Letícia aos 7 anos ao terminar uma série de 
desenhos. 
Neste lançar-se para frente que é o desenhar, existe a pos­
sibilidade de ver-se e rever-se: antes. "o desenho" estava super­
triste. Existe nesté projetar-se um movimento de dentro para 
fora e de fora para dentro. A criança, mesmo sem ter uma 
compreensão intelectual do processo, está modificando e sendo 
modificada pelo desenhar. 
A Dra. Nise da Silveira, trabalhando no Hospital do En­
genho de Dentro, com doentes mentais num atelier de pintura, 
observou a qualidade terapêutica do ato de pintar, não apenas 
como possibilidade de se conhecer o mundo interno do paciente, 
mas que os atos de desenhar e pintar em si mesmos são tera­
pêuticos. 
20 
o 
21 
Desenho escritura·: bilhete de Du para avisar . ana (deitada 
na cama que ele estava 'batendo ,à sua porta. 
:2:2 
Desenho - escritura: lista de presentes de Natal de crianç~ 
não-alfabetizada. 
23 
"Quando abri o setor de pintura em 1946, minha intenção 
era encontrar caminho de acesso ao mundo interior do psicó­
tico, visto que com ele as comunicações verbais apresenta­
vam-se tão difíceis e deixavam sempre o médico do outro )ado 
do muro. O espantoso foi a verificação de que o ato de pintar 
podia adquirir por si mesmo qualidades terapêuticas. No rela­
tório anual em 1948 referente à seção de terapêutica ocupa­
cional, escrevi: 'Nossa observação cada vez mais confirma que 
a pintura não só proporciona esclarecimento para os processos 
patológicos, mas constitui igualmente verdadeiro agente terapêu­
tico'. Era uma constatação empírica que continuou a ser con­
firmada nos anos subseqüentes." • 
"A experiência também nos demonstra que a pintura pode 
ser utilizada pelo doente como um verdadeiro instrumento para 
reorganizar a ordem interna e ao mesmo tempo reconstruir a 
realidade." 0 
Se a criança desenha para contar sua história, encontramos 
também a criança que não desenha para não contar. 
Nestes anos de trabalho com crianças, encontrei aquelas 
que apresentavam um desenvolvimento da linguagem verbal 
compatível com a idade (5 anos) e que o desenho não passava 
de garatujas, que corresponderiam, no nível do desenho, ao 
balbucio. Pela observação, pude constatar nestas crianças uma 
dificuldade ao nível emocional e que na medida em que foi 
sendo superada o desenho apareceu: primeiro a figura humana, 
depois a casa e aí sem parar as figuras foram se construindo. 
O que se pode perceber é que no ato de desenhar, pen­
samento e sentimento estão juntos. Pois também é possível 
constatar que as crianças, com algum comprometimento a nível 
intelectual, apresentam acentuado comprometimento no desenho. 
"Charlotte Doyle fala de 'um período de concentração' no 
processo criativo; período em que o ato e o pensamento fun­
dem-se numa única entidade; período em que o criador se 
liberta da repressão e do medo; um período de uma resposta 
intensa e liberada. ( ... ) Um objeto de arte é o produto do 
24 
j' .. 
\'' -
.-· 
25 
fazerJ! formar ou construir que sintetiza em s1 ~espostas percep-­
tivmh, ,afetivas e ,cognitivas tanto• em relação, aos materiais 
quan'k) objet,os~ A arte contr.ibui para a formulaçao da. expe­
rienaa ao colocá-la sob forma ordenada. ' ' 
O desenho como possibilidade de brin.car~ ,o desenho, como 
possibilidade de falar, marca o desenvolvimento, da infância, 
porém em cada estág10, o de~o assume wn ,caráter próprio. 
Estes estágios definem maneira. de desenhar que são has,. 
tante similares em t,odas as crianças , apesar das diferenças indi­
viduais de tem.peramento e sensibilidade. Esta manerra de de­
senhar próp,ria de cada idade varia, inclusive~ muito pouco de 
cultura para cultura. Fayga. O:strower em ncriaüvidade e Pro-­
cessas de Criaçao" comen·ta: Comparem« os trabalhos 1nfan~ 
tis em e:xposições internacionais , · . ão bastante uniforme , as 
pinturas de uma. mesma f.aixa etária, embora procedentes de 
p,.aíses. div·erso ~, e de dive.rsa. ,estrutura social, paíse oc1den ais,. 
orientais ,, industrializados, agrícolas altamente desenvolvidos . 
subdesenvolvidos ,Q, que muda. naturalmente; :sã.ai os ,objetos 
significativo que. compõem o ambiente vivencial. da criança, ,e 
a ca:racterizaçao,, ou seja a funçao ,e a importância ,cultural em 
que a criança ve.m a conhecer estes objetos. u 
Para p• aget " ,Q, sujeito 1ep1stemológi,co ,é o mesmo, em todas 
as c.ulturas."' 9 
2& 
O DESENHO-LINGUAGEM SE DESENVOLVE 
Podemos acompanhar as etapas do desenvolvimento do 
desenho através das mesmas etapas descritas por Piaget, em 
"A Formação do Símbolo na Criança",: o exercício, o símbolo 
e a regra. Apesar de Piaget ter descrito as etapas do jogo e 
em separado, citando os estudos de· Luquet, as etapas do de­
senho, tomei a liberdade de, neste trabalho, acompanhar o 
desenho através do desenvolvimento do jogo. Isto se deve ao 
fato de que, nestes anos de trabalho junto à criança, obser­
vando-a desenhar, pude constatar que as mesmas etapas do jogo 
se sucedem no desenho, pois o desenho é também uma forma 
de jogo. 
27 
DO EXERClCIO AO SfMBOLO 
A criança pequena desenha pelo prazer do gesto, pelo 
prazer de produzir uma marca. ~ um jogo de exercício que 
a criança repete muitas vezes para certificar-se do seu domínio 
sobre aquele movimento. 
O registro deste movimento é um rabisco incompreensível 
para o adulto: é a garatuja. Que se inicia longitudinal e de­
sordenada até adquirir certo ritmo. 
Aos poucos este exercício vai assumindo outras formas. A 
criança está no período sensório motor e sua forma de interagir 
com o mundo é conquistando novas estruturas de movimento. 
Seu desenho, nesta fase, não tem compromisso com represen­
tação de qualquer espécie. A criança poderá até nomear seu 
desenho se o adulto insistir em saber o que é, contudo para 
ela é apenas movimento. t a conquista do controle da mão, 
giz, lápis, pincel (tato, preensão, textura, instrumento). ~ o 
prazer do gesto deixando sua marca. 
,f 
28 
) 
t o, Jo,go de exercício ,caracterizado por Piaget: ''certos 
jogos não1 pos uem qualquer· técnica particular: simples e er­
cícios põem, em ação um ,conjunto variado, de condut-as mas 
sem modificar a r,es.p cti as e rutura.sJ tal ,como se: apresen­
tam. no estado de adaptaçao atual. Logo somente a função 
difer,encia ,estes J01 os, que exere,itam tais estruturas por assim 
di~er no vazio sem outra finalidade que o próprio praz-er do 
funcio:namento,. Por exemplo, o su1eito pula um riacho pelo 
simples prazer' de altar e voilta ao ponto ,de partida para reco­
meçar etc., e ecuta os mesmos, movimentos quese saltasse por 
nece sidade de p,as~ar para a ,outra ma.rg1em, mas, f:á~Io por mera0 
divertimento e não por necessidade ou pa:r,a aprender uma :nova 
conduta' . lt 
Este desenho-e ercído nao conhece ou não :se intere a 
pela cor,. A co:r apa ce por acaso e não por necessidad _, ,é 
a ,cor que est,ava pro ima da criança enquan~o desenhava. 
29 
E a. garatuja. ·. ai e modificando,. ,conqui tando novos mo­
vi:ment-os, que de longitudinais vão se arriedondando,, t.otnan­
do-se circulares., se 1enovelamdo . se espiralando,. -m seguida, 
esta espiral.-novdo começa a 1e destacar e surg:em os círculos 
soltos, ·" as bolinhas11•• 
30 
(tQO& 
.de) 
G 
,.,, . -
- . · - _.,.. 
- 1 ..... 
' . 
o 
Registro .a descrição ,de uma professora de maternal .a res .. 
pe~to dos, desenhos d seus aluoo nesta fase: ''Minhali crfan .. 
ças,, a maiorw:1 estão, na J,ase elas ,des,enho,· de formas fechadas 
nomeando-os: olha ,a bolai a bolinha', e: às vezes até. dizem 
que é .um carro um b.arco et,c. ,Una de·se·nham oper,tando o 
lápis no papel, o:ut1:os não apertam tanto. Uns ''tlm todo o cui .. 
dado' para realizar as atividades outrios não,. Alguns se ,expan:­
dem mesht() par,ece q,ue colocam ludo de si no papel,, outros 
faz-em um trabalho mais 'formal • parece que com um certo 
receio. • 
A conquista dos, círcu·ios ma,l'\ca uma etapa bastante impor­
tante ié o, esboço de uma representação., Esboço. porque ainda 
ãQ ,acidentais muitas ve~s., po ém mar--ca geralmente o início 
de uma necessidade de nomear os desenhos. 
31 
A garatuja assume, em seguida, um novo aspecto. Começa 
a adquirir o caráter de jogo simbólico. A criança desenha 
então para dizer algo, para contar de si mesma, para fazer 
de conta. g o início da representação. 
g ainda garatuja mas começa a ganhar nomes e a se dife­
renciar no espaço do papel. 
,, 
• • . ' J 
32 
) 
I ' 
' ) 
) 
~ ,,~ ~:)' 
i' 
Estes nomes variam sempre: o que era um elefante, dali 
a instantes pode ser um carro; contudo está sempre presente 
a intenção de dizer algo. Agora já podemos considerar o de­
senho como linguagem. 
I! um jogo simbólico: o vínculo entre significante e signi­
ficado permanece totalmente subjetivo. 
Trabalhando com professoras de crianças de 1 ano e 6 
meses a 4 anos, recebi várias vezes esta observação: "Minhas 
crianças não desenham nada!" Levando-as a observar o que 
era aquele "nada", pudemos che.gar a pensar o quanto signifi­
cava passar de um rabisco longitudinal a um rabisco circular 
e dali para os rabiscos nomeados. 
Foi importante levá-las a perceber as diferenças indivi­
duais que já apareciam nas garatujas: crianças que ocupavam 
a folha toda, as que escolhiam apenas um cantinho do papel, 
as que riscavam com força e os rabiscos fracos dos que pega­
vam no lápis com cuidado. Vimos como já era possível reco­
nhecer cada criança por sua maneira de garatujar e que nurpa 
mesma classe havia crianças em vários estágios da garatuja. 
Procuramos fazer uma analogia, com as professoras de crian­
ças maiores, que reconhecem a letra de cada aluno e perguntar 
se seriam capazes de reconhecer os alunos pelas garatujas. Esta 
reflexão levou-as a observar mais atentamente aquilo que a 
princípio era nada. Depois de algum tempo já estavam mais 
sensíveis à evolução dos rabiscos e mais disponíveis para per­
ceber diferenças entre as garatujas de crianças de uma mesma 
classe. 
Mais tarde me surpreendi, em reuniões de pais, com pro­
fessoras " lendo" com os pais os desenhos de seus filhos e uma 
delas revelou seu espanto: "- Mas eles nem percebiam a im­
portância da Raquel estar fazendo bolinhas!" 
Outra professora percebeu que os seus alunos, tendo de­
senhado cada um na capa de seu caderno, não só reconhe­
ciam os seus próprios cadernos pela garatuja desenhada na 
capa, como também os dos colegas. 
O contato com a obra de Rhoda Kellog "The Psychology 
of Childrens'Art", onde a autora documenta diferentes garatu-
34 
"Dançarina ouvindo órgão numa catedral gótica" , Juan Miró, 
1945 - óleo sobre tela (195cm x 130cm) coleção particular, 
in PENROSE, R. - Miró, p. 106, Verbo, Lisboa, 1972. 
35 
jas de uma mesma fase, mostrando as diferenças individuais 
pela maneira como a criança dispõe os traços no papel, foi 
decisivo para que este grupo de professoras pudesse apreciar 
melhor os desenhos de seus alunos. 
O desenho-jogo simbólico vai se modificando conquistan­
do novas formas. Vão aparecendo figuras fechadas, com ins­
crições dentro e fora. Começam a surgir os primeiros bonecos, 
quase girinos. 
Não existe qualquer organização destas figuras no espaço 
e a cor que até então era indiferenciada começa agora a se 
destacar, apesar de ser totalmente arbitrária. 
As figuras ganham cores diferentes e as formas são as 
mais variadas. São aviões, casas, barcos, bonecos, sóis, todo 
um universo simbólico a se transformar continuamente. Nesta 
fase de jogo simbólico a criança se expressa por analogia. Esta 
analogia aliada à liberdade do gesto gráfico é o que o artista 
contemporâneo luta por reconquistar. 
Podemos comparar os desenhos desta fase à produção de 
artistas como Paul Klee, Miró, Picasso. Quanto ao resultado 
são bastante semelhantes. 
Picasso chegou mesmo a afirmar, que no início desenhava 
como Rafael, mas que precisoUI de toda uma existência para 
aprender a desenhar como as crianças. 
Cabe aqui, porém, como um parênteses, uma reflexão a 
respeito das relações de continuidade e descontinuidade entre 
a arte da criança e a arte do adulto. 
36 
DAS RELA ·• ôE _ D I ON INUIDADE 
E DESCO TIN ID,ADE ENTRE A ARTE 
DA RI ÇA _. A ARTE DO AD , TO 
A int ir za, a certeza, a densidade do momento de cria1çio 
,estao pre-sentes no adulto que c:ria ,e na criança que brinca. 
:2 visív,el a concentração o, corpo inteiro pl'lesente · no .ato, de 
brincar de uma ,criança. I! a · ensação de estar inteiro no que 
está reaUzando o qu,e une o arti ta à criança.. A criança brinca 
porque não pode,r1a viver de outra forma. P,o,r i:sto desenha, 
por isto cria: poniue brinca. 
Ilo, Krugli artista. e ,professor, conta que ,quando preci:s,a 
desenv,olv _ r , om um. grupo de adulto uma proposta de criação 
diz .apenas: f Brinquem. "' 
Pois que o car,á~er lúdroo ,está sempre presente na verda­
deira criação,. 
O pintor' Henri Ma:tis-e ,escreveu que ,r ao arf,sta é indi.s 
,pensável a coragem de v1er· a vida intell'a ,orno no tempo. m 
que e ,era criançaJ pois a perda dessa ,e nd1ção nos. priva. da 
possibilidade de uma. maneira de expfessão ,otiginal, isto, ,é, 
pessoal ' ., 11 
O músico Egberto Gismonti, ao escrever sobre a cnaçao 
do disco "Solo" diz: "a linguagem literária é muito limitada 
quando comparada aos sentimentos, sobretudo àqueles que vive­
mos no momento da criação. Felizmente considerei minha in­
capacidade de escrever sobre um dos momentos mais felizes, 
densos e criativos que já consegui expressar através da mú­
sica". 12 
~ importante, porém, observar que para falar do momento 
de criação da música, a linguagem literária é insuficiente a 
um músico, uma vez que só o escritor, o artista da palavra, 
é capaz do que Roland Barthes chamou "a trapaça salutar da 
língua que permite ouvir a língua no esplendor de uma revo­
lução permanente de linguagem: a literatura". 13 
Portanto seja através da pintura, da música ou da pala­
vra, o artista adulto, no momento da criação está próximo da 
criança, na qualidade do envolvimento que vivem. Pois o ato 
de criar é um estado de envolvimento onde a dor e o prazer 
estão juntos. No momento de criação os conflitos não estão 
ausentes. Criar é o ato de juntar, de conviver com os confli­
tos e expressá-los. 
"Criar é tão difícil ou tão fácil como viver. E é do mes­
mo modo necessário." 14 
Porém, se o artista e a criança estão próximos quanto, à 
qualidade do momento de criação, e algumas vezes também 
quanto ao produto se pensarmos em K.lee, Miró, ou Picasso, 
estão também distantes pois "enquanto fenômeno expressivo, 
a criação tem implicações diferentes para a criançae para o 
adulto. Nas crianças, o criar - que está em todo seu viver 
e agir - é uma tomada de contato com o mundo, em que a 
criança muda principalmente a si mesma. Ainda que afete o 
ambiente, ela não o faz intencionalmente, pois tudo o que a 
criança faz, o faz em função da necessidade do seu próprio 
crescimento, da busca de se realizar. O adulto criativo altera 
o mundo que o cerca, o mundo físico e psíquico, em suas ati­
vidades produtivas ele sempre acrescenta algo em termos de 
informação e sobretudo em termos de formação. Nessa atuação 
consciente e intencional, ele pode -até transformar os referen-
38 
ciais da cultura em que se baseiam as ordenações que faz e aos 
quais se reportam os significados: de sua ação". ' G 
"A criança constrói para si mesma a realidade da socie­
dade; o artista constrói novas realidades para a sociedade." rn 
~ portanto, diferente a maneira como o adulto e a criança 
se acercam da idéia, pois este acercamento é fruto das estrutu­
ras mentais do sujeito. 
Na criança a analogia é o seu único modo de pensar o 
mundo, no adulto é busca da linguagem poética. 
Quando a filha de Paulo Freire, aos 4 anos, lhe fala sobre 
seu amiguinho que tem "cabelos macios como espuma do 
mar", 11 ou quando o aluno de A. Stern diz: "Eu quero uma 
cor-montanha", não existe a intenção de fazer poesia. A criança 
nesta idade pensa poeticamente. 1.• 
"Será preciso um certo tempo até que a criança consiga 
distinguir significado e significante. Antes a criança pensa que 
as palavras - como nas teorias prímitivas de linguagem -
emanam das coisas e que estas são as verdadeiras matrizes da 
linguagem." 19 
Para a criança o desenho interessa enquanto processo, é 
o ato de brincar desenhando, como expressou um menino: "o 
desenho me interessa enquanto estou desenhando. Depois que 
fica pronto ele fica parado". 
Observando a série de touros de Picasso podemos perce­
ber, que se o desenho IX lembra o traço de uma criança, po­
rém o seu processo para chegar a este traço só foi possível a 
partir das estruturas mentais de um adulto. 
Jean Celestin, artesão e litógrafo, que trabalhava com Pi­
casso, descreve - num texto de Hélene Parmelin, para a 
revista Correio da Unesco - ano 9, n.º 2, pág. 33 - o pro­
cesso de Picasso como o touro: "Ele terminou onde devia 
começar. Mas Picasso procurava o .seu touro. E para chegar 
ao touro de um único traço passou por todos aqueles touros. 
E quando se vê esse traço único não se pode imaginar o tra­
balho que o artista teve." 2º 
39 
"Touro" - Pablo Picasso, Dezembro 1945, Janeiro 1946. 
Onze estágios da mesma litogravura (28,9cm x 41cm), co­
leção Bernard Picasso, Paris, in PARMELIN, H. - "As Me­
tamorfoses de um touro", p. 33, O Correio da Unesco, n.º 2, 
fev. 1981. 
40 
• • • • 1e d t dUtffltH'O 
I 
l • ! 
1 
41 
"A genialidade é a infância reconquistada .à vontade." 21 
Matisse no mesmo texto em que afirma a necessidade de 
se olhar a vida inteira com olhos de criança diz também que 
"o criador autêntico não é somente um ser dotado, é um ho­
mem que soube ordenar visando um determinado fim todo um 
conjunto de atividades no qual resulta a obra de arte". 22 
Marcelo Nitsche em seu trabalho "Alegres Saudações", 
assim como na "Garatuja" da Praça da Sé, procura retornar 
o traço descompromissado feito pela criança. Porém, o faz sem­
pre a partir de um projeto e para discutir uma idéia estética. 
J! nesse sentido que Fayga Ostrower fala que o adulto 
criativo altera o mundo que o cerca. 
Falando sobre a "Garatuja", Marcelo Nitsche diz: " O pro­
jeto foi produzido com o auxílio de engenheiros e arquitetos. 
Eu utilizei, avaUando a cor cinza-concreto da praça, uma cor 
primária, a amarela, que tem mais luz, servindo de contraponto. 
A partir de um simples gesto, nasceu algo que tem a ver com 
a cidade. Sem uma idéia, um projeto, um pressuposto não 
consigo criar nada. Ou melhor, não dá para criar. Em 'Alegres 
Saudações' quis mostrar que a pincelada não é algo impensado, 
mas que é uma coisa elaborad.a. Quis explodir a pintura e 
evidenciar a pincelada num contexto próprio, mostrar seu valor 
plástico." ia 
O gesto da criança, recriado a partir do repertório do 
adulto, para levar à discussão estética. Para o artista contem• 
porâneo a reconquista da garatuja é uma maneira de repensar, 
de rediscutir as relações da arte com a vida, uma maneira 
enfim, de resgatar o universo poético do jogo simbólico. Pa,a 
esta discussão ele precisa das estruturas mentais próprias do 
pensamento formal. Porém pretender que a criança permaneça 
na garatuja, em função de preservar a espontaneidade do seu 
gesto, é impedi-la de crescer. 
Em "O desenho infantil" Florence de Meredieu coloca: 
"O rabisco tende a desaparecer certamente da produção infan­
til. Podemos nos indagar sobre as razões desse desaparecimen­
to. Os diferentes autores observam que quando ele persiste é 
42 
"Laranja Califórnia", Marcello Nitsche, 1983. Tinta Duco au­
tomotiva sobre PVC (100cm x 50cm). Coleção do artista. 
Foto: René Liviano, 1983. 
43 
ou a , título de detalhe e ornamento (cabeleira, nuvem; fuma­
ça etc.) ou em conseqüência de uma regressão cuja causa é 
um acesso de cansaço momentâneo ou um distúrbio psíquico. 
Portanto, ele só pode subsistir a título de anomalia ou integrado 
à figuração. Não se lhe atribui nenhum valor em si mesmo. 
Neste caso pais e educadores exercem função repressiva. Fica 
assim ignorado e rejeitado o valor gestual e dinâmico desse tipo 
de grafismo, que a arte contemporânea tende a reencontrar. Essa 
desgestualização é um eco daquela rejeição do corpo praticada 
pelo Ocidente. Como encenação do corpo que se exprime, e se 
solta no gesto, o rabisco possui valor dinâmico. Portanto, não 
pensamos como certos autores para os quais a criança está vol­
tada unicamente para a figuração, que muitas vezes não passa 
de justificação e disfarce para o prazer que ela sente em mane­
jar formas, cores, materiais." 2• 
Concordo com Meredieu acerca do papel repressivo dos 
adultos, este assunto será tratado mais adiante. Porém, não 
posso aceitar a defesa da garatuja como ela o faz, porque acre­
dito · que o desenho como expressão do pensamento tende a 
conquistar novas formas com o crescimento da criança. ~ lin­
guagem que precisa conquistar um vocabulário cada vez mais 
amplo, sem contudo perder a intensidade e a certeza do seu 
traço. 
44 
1 >O S1MBOLO A REGRA 
O desenho que começa a se estruturar como linguagem, 
u>m seus bonecos-flores-girinos-sóis, representa um salto quali­
lntivo a nível de pensamento. Agora já se pode fa.lar em pen-
1mmento pré-operacional. · 
45 
"A diferença essencial entre uma criança no período sen­
sório-motor e uma no subperíodo pré-operacional de operações 
concretas é que a primeira está relativamente restrita a inte­
rações diretas com o ambiente, enquanto a última é capaz de 
manipular símbolos que representam o ambiente." 2• 
" O olho, que no começo segue a mão, passa a guiá-la." 2
• 
Em termos do desenho as formas são agora mais estrutu­
radas, porém a oor ainda é arbitrária e a ocupação do espaço 
ainda não obedece nenhuma regra. 
A regra é a conquista da fase seguinte. De jogo simbó­
lico o desenho passa então a jogo regulado. 
Existe agora um compromisso com o real. 
O uso da cor procura semelhança com a cor real do objeto 
representado e o espaço se estrutura dentro i:le regras claras: 
o que é céu e o que é terra tem lugares definidos. 
Há uma busca crescente dle que o objeto desenhado se 
assemelhe ao objeto real. 
"Comecei a perceber nos meus alunos uma preocupação 
muito grande quanto a retratar fielmente o observado: a forma, 
a proporção das figuras. Um exemplo disso foi quando fiz 
um calendário de ;unho, coloquei um varal de bandeirinhas e 
a lua no canto. As crianças, indignadas, me perguntavam se 
era bandeirinha também• iá que a lua estava muito próxima 
para ser lua. 
Foi aí que me veio a idéia de que a coerência com o 'visto' 
estava muito presente no momento da classe.Dentro disso, os trabalhos que mais despertavam elogios 
dos alunos eram os que se mostravam mais fidedignos. Onde 
a figura humana, por exemplo, aparecia bem diferenciada e 
caracterizada. Apareceu também uma tentativa da utilização da 
régua durante o desenho. O que pode talvez estar relacionado 
com a preocupação em retratar fielmente o visto e vivido. 
Outra característica pr~sente foi a seqüência de cenas. Onde 
um desenho tinha vários momentos, ordenados temporalmente 
46 
-" _., 
-- ··~ -
• --♦ 
47 
(ex .. : o menino, levantando ~omando, b·anho- tomarulo café, .brin~ 
candof ~ - (depoimento de p:role,ssora d.e 1. ª sér e), 
Vemos , portanto,, .que as re.presentações. da_ crianças nesta 
idade~. ' ·apresentam uma_ ,que~ a -no, aqalóg1co e uma bu ca em 
direção ,a um maior rearsmo'''. 27 Perde o cará.ter mágico mu~ 
taote do jogo simbólico para assumir regras convenções de­
.fundas. 
Parece que perdeu em fantasia porque ganhou em estr~ 
tmaçio. Isto porrque na fase do jogo, simbó,lico a fantasia se 
expr-essa.va pelo des,compliomis:so com o real, e se manifestava 
48 
mais~ao nível da linguagem plástica: a arbitrariedade da cor, 
a simultaneidade na representação espaço-temporal. Agora a 
fantasia se manifesta ao nível da idéia representada: são heróis, 
fadas, princesas encantadas, viagens intergaláticas, porém den­
tro de convenções visuais preestabelecidas, buscando uma linea­
ridade espaço-temporal. 
e um jogo regulado e também um jogo de construção. 
Podemos observar agora claramente o caráter lúdico e o caráter 
de escritura descritos anteriormente. A criança nesta fase se 
diverte criando personagens e situações diferentes, construindo 
histórias. 
Precisamos, aqui, tomar o cuidado para não cairmos nas 
armadilhas dos mitos modernos de criatividade e julgar como 
empobrecimento esta estruturação. 
É próprio do pensamento operacional concreto o compro­
misso com o real. Querer da criança, nesta fase, a arbitrarie­
dade da cor é não compreender o estágio em que se encontra. 
I! ainda julgar a produção infantil a partir de padrões estéti­
cos adultos. 
49 
A ab.g,tra.ção,, a cor arbitrária e, des nho como analogia só, 
ttemos teencontrar na adoles,cencia . com o início do pensa'"" 
mento formal. O adolesce.nle pode então lidar 1ntenc1onalmente 
,cam a cor arbitrária, buscar ,analogias caminhando então para, · 
uma nova conquista na linguagem plásti . a. 
SEl2t:SINHO , 
.IIA6 Q :UE MEN,1NO 
C/21A'Tli""O I 
• 
SABE; voe,.. souec. Re:.AL.. ... · 1 
M'E-N~ se. E)(.PR:e:SSAR ! 
E COLORIU DO J'EJ TO Q~E, ' 
voei. cau~e: .' is.sei, -e:.: MUi·r:o 
.4RTl9TICO _ I 
Eu ADOAEt 1:s:-rAie, AR­
y;~ QUI!: Voc@:. PIMT-OU 
' -
t>E V!:AME:l!.HO ~ EJ.STE 
I 
· ,ôf.U AMAREL01 I 
• 
lvxA l A rr 'd;NIE N..fõ, 
FOl .et/lM TER PERIHOO 
1
1 
1 
o J.ÁP1s VUD'E E a 
AZVi. I . . 
1 
1,: O DESENHO .. LINGUAGEM SE CALA 
S toda criança des~nha, a. m.aiorJ.a desta . c.rianças quando 
tresce diz: ' Eu niio sei desenhar . ... "' e também nao cria mais. 
t1istódas, endurece seu corpo e não canta mais. 
Os desenhos aviões-pássar,os estrelas, os desenhos-his:tórias 
"cam esquecidos ,como esquecidos ficam os velhos brinquedos .. 
Daniel Widloclter diz que i se ias desenhos das crianças 
são, objeto, da nossa cunosid.ade é por-que não existem de e­
nhos de adultos. O adu1to ,quando não ,é um artista não de­
senha. O desenho~ ,d,a mesm.a forma qu . os ,jogos,. é uma ati~ 
vidade qu.e en elbece ,com o passar dos mos e revela um tipo, 
,tl,e conduta pr-õpria da ,crian,ça". 2 ' 
.ao veJo que a perda do de enho esteja apenas ligada a.o 
ntnadurechnento,. ão, ej'o co,mo natural do desenvolvimento 
a atrofia de uma linguagem tão viva ,como é o, d:esenno, p·.ara 
n ,criança. 
Muito, d pressa o, desenh~f.a.la. se cala., e do desenho--cer­
Lcza se passa à certeza de não saber desenhar. I! muito oom.urn. 
ouvirmos: cr.ianças de menos de 10 anos dizerem ,que não sa­
be,m desenhar. 
51 
Em poucos anos, o que era uma certeza, algo tão inques­
tionável como correr ou jogar bola, parece algo inacessível 
próprio apenas de artistas. 
Certa vez, respondendo a uma criança de 4 anos, que mu­
seu é um lugar onde se guarda desenhos, ouvi esta pergunta: 
"Os meus também estão lá?" 
Para a criança um lugar que guarda desenhos, natural­
mente deve conter também os seus que são tantos e que fazem 
parte do seu dia como qualquer outra atividade. 
Para a criança que desenha porque brinca, porque está 
viva, não há possibilidade de compreender, que exista um lugar 
para guardar desenhos de algumas pessoas que desenham, para 
serem vistos por outras que não desenham. 
Este fato nos coloca diante do ponto de partida, para 
prosseguirmos na reflexão acerca do desaparecimento do dese­
nho, que é a dicotomia vivida em nossa sociedade entre arte 
e vida, entre trabalho e lazer, entre natureza e cultura. 
" Nas sociedades tradicionais, a questão do meio ambiente 
não tem sentido, na medida em que o homem e o seu espaço 
vital estão ajustados um ao outro por uma milenar familiari­
zação. Os objetos são os produtos imediatos do trabalho hu­
mano, as ferramentas prolongam os membros do corpo, os 
modos de habitação integram-se em espaços naturais, os com­
portamentos culturais modulam-se de acordo com um código 
ancestral de gestos, as modificações de uma para outra geração 
fazem-se mediante retificações infinitesimais. Pode-se dizer que 
o homem vive num meio estável. coerente e unívoco, que con­
serva todas as aparências de um meio natural. Num tal uni­
verso tradicionalista, onde o modo de produção artesanal su­
bordina quase naturalmente os objetos às necessidades e as 
formas às funções, a questão do valor estético não tem porque 
ser c9locada." •• 
Neste tipo de sociedade as festas sazonais e as da tradi­
ção envolviam toda a comunidade, com jogos, músicas, danças 
e toda sorte de manifestações expressivas que tinham em geral 
um forte cunho religioso, cujo simbolismo era consoante ao 
espírito da época. 
52 
Dentro de uma manifestação coletiva, cada cidadão, tinha 
oportunidade de encontrar sua forma de participação. 
Em "História Social da Criança e da Família Phl]ippe­
Ariés descreve estas manifestações, apontando para o fato de 
que adultos e crianças participavam lado a lado nas mesmas 
atividades: tocando, dançando ou jogando. 
Podemos notar ainda hoje, a persistência destes compor­
tamentos nas pequenas cidades agrícolas afastadas dos grandes 
centros urbanos, onde a divisão do trabalho ainda não se faz 
sentir, e as cidades conservam ainda o seu caráter comunitário. 
Nota-se aí o sentimento religioso como elemento catalisador 
das manifestações expressivas da população. 
Nas festas religiosas destas cidades, podemos observar 
como cada habitante de qualquer idade consegue participar 
individualmente dentro de um evento que é coletivo: seja orna­
mentando a fachada de sua casa, enfeitando as ruas, preparando 
os alimentos relativos à data, seja participando nas músicas e 
danças . 
. O calendário é dividido por festas, q1,1e marcam as eta­
pas do trabalho - o tempo de plantar, o tempo de colher 
- permeadas pelo forte simbolismo religioso, algumas vezes 
associadas ao santo do mês, em outras ao padroeiro da cidade. 
E com o a_dvento, da indústria, com a subordinação da 
produção ao lucro, que o problema do trabalho oposto ao 
Jazer começa a surgir. O trabalhador agora não tem ligação 
direta com o produto do seu trabalho e para se divertir con­
some a produção de uma indústria especialmente montada para 
este fim. · 
"O surgimento da feiúra em massa, conseqüência da pro­
dução em série, do predomínio da rentabilidade,- do fato das 
populações terem sido arrancadas dos antigos equilíbrios e mo­
dos de existência toma-se característica da vida. A beleza refu­
gia-se nos museus, espaços que lhe são reservados, torna-se 
assunto dos profissionais de arte e de estetas sem critérios defi­
nidos, é consumida em lugares fechados e horários fixos." 30 
53 
A arte é separada • da vida e nãomais manifestação da 
vida. 
O homem comum perde a possibilídade de criar suas .pró­
prias manifestações e passa a consumir a manifestação alheia. 
"A concentração exclusiva do talento artístico em alguns 
indivíduos e o seu aniquilamento nas grandes massas - que 
resulta desta concentração - é um efeito da divisão do tra­
balho. Se mesmo em certas condições sociais, cada um pu­
desse vir a ser um pintor excelente, isto não impediria que 
cada um fosse também~um pintor original." ª1 
A sociedade que condicionou o homem à sua capacidade 
de produzir para consumir deixou um espaço reservado e à 
parte para o artista. Um privilégio para a criação, mas tam­
bém uma forma de exclusão. 
O homem comum fica sem a possibilidade de criar seu 
próprio projeto, de lançar-se para frente. Perde seu desenho, 
fica sem col'\,lorno. ~ massa que consome produção massi­
ficada. 
A sociedade industrial, qúe afasta o homem dê suas ma­
nifestações expressivas e reserva para a arte um lugar sepa­
rado do cotidiano, separa também o lugar destinado à infância. 
Se nas sociedades · antigas crianças e adultos participavam 
dos mesmos jogos é porque nestas sociedades não havia o que 
Ariés chamou "o sentimento da infância". . ' 
Assim que era desmamada a criança tornava-se compa-
nheira natural do adulto. ~ste comportamento persiste a~da 
hoje nas classes populares,~onde crianças bem pequenas traba­
lham e participam da vida dos adultos em todos os momentos. 
"A sociedade antiga concentrava um número máximo de 
gêneros de vida num mínimo de espaço, e aceitava - quando 
não procurava - a aproximação barroca das condições sociais 
distantes. A nova sociedade, ao contrário, assegura a cada gê­
nero de vida um espaço reservado; cujas características domi­
nantes devem ser respeitadas: cada pessoa deve parecer com 
54 
um modelo convencional, com um tipo ideal, nunca se afas­
tando dele, sob pena de excomunhão". 82 
Os jogos que eram expressão da comunidade ficaram 
reservados apenas às crianças, assim como os contos de fadas 
não nasceram como literatura infantil. 
Uma sociedade que se expressava de forma conjunta passa 
então a se dividir, e cada segmento social passa a ter sua forma 
característica de expressão. 
Muitos jogos e brincadeiras hoje chamados infantis tive­
ram em outro tempo um significado religioso ou mítico como 
expressão das pessoas da época - sendo vividas nas festas reli­
giosas ou sazonais - nas quais :adultos e crianças se mistura­
vam. "Com o tempo a brincadeira se libertou de seu simbo­
lismo religioso e perdeu seu caráter comunitário, tornando-se 
ao mesmo tempo profana e individual. Nesse processo, ela foi 
ficando cada vez mais reservada âs crianças, cujo repertório 
de brincadeiras surge então como repositório de manifestações 
coletivas abandonadas pela sociedade dos adultos e dessacra­
lizadas." ss 
Se nesta sociedade o adulto perdeu suas possibilidades de 
expressão, os jogos assim como o desenho passam a ser consi­
derados manifestações infantis. 
Com o aparecimento do sentimento da infância surge 
também a necessidade de educá-la. A escola surge assim da 
necessidade de separar e educar a criança. 
A escola sofreu transformações ao longo dos anos, porém, 
sempre, em cada momento de sua história, teve o papel de pre­
parar a criança para a vida em sociedade, sendo, portanto, 
reprodutora de seus valores e ideais. 
"A escola não é uma estrutura eterna funcionando da 
mesma forma sob qualquer regime: é moldada sempre pelo 
todo de que participa." 3' 
A escola foi criada, portanto, para separar o adulto e a 
criança, foi criada pelo adulto para ensinar à criança conside­
rada entãQ um menor. 
55 
Não cabe ,aqui analisar mais detalhadamente ,t:omo a escol.a 
em cada é_poc,a criou s,eus mecanismos para ajustar a : criança 
aos ideais de seu tempo., 
,o objetivo de. t,e trabalho é analisar a e, cola que temos 
hoje e a ,criança qae en,oontramos nes:ta escola, porque ,entre o, 
desenho certeza ,e a ce:rteza, de não saber desenhar está 'D~-pro­
cesso de ,esco,lariza,ção. 
REFER!NCIAS B.l'BLIOGRAFICAS 
J . ARTIQAS.t V .. - Texto da au1a inau,:urat pronu:o,ciada n,a Pac11J. 
dade de Arquitetura e Urbanismo da Univers·dadc (D Sio ,Paolo­
em 1-3-67. -
2 . WIDLOCHERt D. - A ,.,,,e,.pretaçao dos desenhos ,nfrmtls~ p. 1'3,, 
Vozes, Petrópot · sJJ Rio de Jane:iro, 1971. 
3 . WIDLOCHER, D. ,_ A inte,pr la.çiio dos d1s1nho1 infan.fisp·, p. 1 19,, 
V me :1 P,et:rópolis, Rio de Janeiro, 1971,. · 
4 . ANDRADE M - UOo Desenhol,, ,Correio Brasili,meJ Brasília, 
16 .. 12-t 967. 
S. SILVEIRA. , ., - Imagens 4o inconsciente, p. 112 Alhamb "ª, Rio 
de Janeiro, 1981 . 
,6. SILVE.lltA, '1 ' . - lmag,en , do, incons iente, ,P• 136,, Alhambra,, Rio 
de Janeiro,, 1981 . 
1 . SMJTH.t N. - ""A. criatiridadc nas, pin 1l\lr,_ d;as ,crianças, e dos 
,ard las'''.., p., 13" Revisl'a Ade:., D~º 3,, 19,82. 
B. OSTR.O R, F. - · Criatividad e proc~S5W ,de criaçio,, p. ! 127, 
Imago. Rio de Janeiro,, 1977., 
9. PIAGETt J. - O estrulu.ra/Jsmv, p., 53, Difel,. Sao Paulo. · 1'978. 
10. PIAGET, J . •-. A fo,,maçlio ,do JímboJo na , rian,a, p. 144!11 2.• ·éd. 
Zah , lRio de Jaqc,i_r,o, '197S~ 
1 t . MA TISSE, H. - ':é pteclso ,olhar a 'Yida iateir_ com , olhos ·de 
ccia:nç "\ p. 731. Re'Vi8la' Brariliira de' Estudos Peda,g;6i,iooi. o o 
132, out./ dez. 1973. 
12 . GISMONífI, · . - Solo MI-OD ON. 979. 
13 . BARTHES .R. - A.ula, p. 16t ultri " São Paulo, 1980. 
14 . OSTROW , R, F. - Criatividade e processos ,de, criaçã'oJ; ,p,. ,i 166, 
lma,goi Rio de J a:neiro, 197 7. 
56 
15. OSTROWER, F. - Criati11idade e processos de criação, p. 130, 
Imago, Rio de Janeiro, 1977. 
16. SMITH, N. - "A criatividade nas pinturas das crianças e dos 
artistas", p. 13, Revista A.rte, n.0 3, 1982. 
17. FREIRE, P . - Aula inaugural da Semana de Arte e Ensino, 
USP, 1980. 
18. STERN, A. - "Entre Educateurs", p. 24, Delachaux et Niestlé, 
1967, em F ., Meredieu, O desenho infantil, p. 16, Cultríx, São 
Paulo, 1979. 
19 . MEREDIEU, F. - O desenho infantil, p. 16, Cultrix, São Paulo, 
1979. 
20. PARMELIN, H. - "As metamorfoses de um touro", p. 33. O 
Correio da Une.sco, n.o 2, fev., 1981 
21. SMITH, N. - "A criatividade nas pinturas das criançás e dos 
artistas", p. 13, Revista A.rte, n.0 3, 1982. 
22 . MA TISSE, H . - "e. preciso olhar a vida inteira com olhos de 
criança", p. 737, Revista Brasi'leira de Estudos Pedagógicos, n.0 
132, out./dez., 1973. 
23. ALMEIDA, M . - "Um veterano artista de vanganda", entrevista 
com Marcello Nitsche, Folha de S. Paulo, 29-11-1981. 
24. MEREDIEU, F. - O desenho infantil, p. 38, Cultrix, São Paulo, 
1979. 
25 . PHILLIPS, J. - Origens do intelecto : a teoria de Plaget, p. 57, 
Nacional/EDUSP, São Paulo, 1971. 
26. MEREDIEU, F . - O duenho infantil, p. 28, Cultríx, São Paulo, 
1979. 
27. BREARLEY, M. - The teaching of young cllildren, p. 38, Scho­
chen Books, New York, 1975. 
28 . WIDLOCHER, D. - lnterprl!tação dos desenhos infantis, p. 8, 
Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro; 1971. 
29 e 30 . PORCHER, L. - Educo~ão artística: luxo ou necessidade, 
p. 26, Summus, São Paulo, 1982. 
31. MARX, K. e ENGELS, F. - .Sobre litt!ratura t artt!, p. 29, Glo­
bal, São Paulo, 1979. 
32. ARmS, P. - Hist6ria social da criança e da familia , p. 279, 
Zahar, Rio de Janeiro, 1978. 
33. ARI~S. P. - Hist6ria social da criança e da familia, p. 89, 
Zahar, Rio de Janeiro, 1978. 
34 . SNYDERS, G. - "Escola, classe e luta de elas.ses", p. 35, Moraes, 
Lisboa, 1977. 
57 
Z. A ESCOlJAt 
A ESCOLA, HOJE 
O quintal e a rua eram os espaços que as crianças ocupa­
vam nos períodos em que não estavam na escola. Para as 
crianças menores de 7 anos era o seu espaço de aprendizado 
social, rivalizando mais tarde com a escola. As famílias, em 
geral numerosas, permitiam o convívio entre crianças de várias 
idades: primos, irmãos e vizinhos constituíam o primeiro grupo 
social da criança nesta época. À escola ficava apenas o papel 
de alfabetizar e depois introduzir a criança nas diferentes ·áreas 
de ensino.A psicologia reconhece na brincadeira livre das crianças 
um importante papel no aprendizado das primeiras regras so­
ciais, assim como no domínio das noções de tempo e espaço 
entre outras. Como também reconhece na brincadeira a pos­
!sibilidade da criança lidar com os afelos e as angústias e assim 
desenvolver sua personalidade através das suas experiências lú­
dicas. Eric Erickson diz que "A brincadeira infantil é a forma 
infantil da habilidade humana para lidar com a experiência 
através de situações modelares e para dominar a realidade atra­
vés da experimentação e do planejamento."' 
61 
A brincadeira ocupa um lugar destacado tanto nos traba­
,uos que se preocupam com o desenvolvimento cognitivo como 
também nos trabalhos de origem psicanalítica. 
"No brinquedo assistimos ai uma linguagem. sincrética, sem 
compartimentos, sem separações. Na fluência de qualidades in­
finitas de movimentos, onde a maior ou menor intensidade se 
alternam em ritmos naturais, sentimos confirmada a idéia de 
'que dentro do universo lúdico infantil se encontra toda a 
sabedoria da natureza humana pronta para um desabrochar 
contínuo' ." • 
Subir em árvores, empinar pipa, jogar amarelinha, pião, 
bolinha de gude, brincar de roda, de casinha ou de médico, 
favorecem o desenvolvimento afetivo e cognitivo ao mesmo 
tempo que ajudam a criança a conhecer e dominar seu corpo 
e conviver com as relações sociais. 
A rua e o quintal eram do total domínio das crianças 
que, sem precisarem da interferência dos adultos, criavam suas 
primeiras experiências de vida. 
Hoje, o trânsito tomou conta das ruas, e os edifícios 
ocuparam o terreno dos quintais. A complexidade crescente da 
vida urbana não permite que as crianças transitem livremente, 
com segurança pelas ruas. As famílias restringiram o número 
de seus filhos, a cidade cresceu, as distâncias aumentaram. 
Para conviver com outras crianças, a criança de hoje, com 
alguma sorte, pode contar com o play-ground dos prédios 
(quando existem e estão aparelhados para atendê-las) ou com 
a • disponibilidade dos pais para levá-las às casas distantes de 
outras crianças. 
As cidades cresceram e não incluíram as crianças no seu 
c.:rescimento. E a criança hoje, morando numa cidade grande, 
não tem espaço para sua brincadeira. 
Ao mesmo tempo que a cidade cresceu, e a família dimi• 
nuiu, a complexidade da vida .atual exigiu novas respostas a 
seus habitantes. A mulher precisou responder a esta nova estru• 
tura com a sua profissionalização, e a tarefa de cuidar das 
crianças pequenas passou a ser um problema social, e não 
mais individual. 
62 
As escolas maternais surgem então para atender ·li:: esta 
tarefa que antes era apenas da responsabilidade das famílias 
e também pa.ra preencher o espaço vazio deixado pela ausência 
 âmbito das rela­
ções da criança com adultos e outras crianças e para amplia­
rem também o âmbito das brincadeiras." 3 
Fica assim ressaltada a importância da escola maternal 
como espaço de amplíação das vivências das crianças pequenas. 
Do ponto de vista teórico, é clara a importância da escola 
maternal na ampliação do repertório de experiências afetivas, 
e na criação de atividades lúdicas que desafiem o pensamento 
da criança no sentido de pesquisar e descobrir o meio que a 
cerca. 
A escola ocupa assim o espaço do quintal e da rua, com 
a vantagem de ter pesso11l preparado para acolher e desafiar 
as brincadeiras, podendo promover o desenvolvimento de for­
ma mais adequada. 
A escola assim compreendida, como o espaço de jogo da 
criança, onde sua fala e seu desenho tenham o acolhimento 
do adulto e a troca com a fala e o desenho de outras crianças. 
Porém, é exatamente a entrada para a escola que marca 
a i:uptura no desenho das crianças. 
Por que, se o desenho é também uma forma de jogo para 
a criança, e se a escola maternal surgiu para proporcionar o 
espaço lúdico perdido com o crescimento urbano? 
Porque esta escola maternal que acaba de ser descrita, 
existe apenas nos estudos sobre a e.dança e no desejo dos que 
realizam estes estudos. Pois a escola maternal que encontra­
mos hoje, salvo raríssimas exceções, não corresponde à visão 
do teórico, mas ao desejo dos pais. E o desejo dos pais está 
66 
permeado pela ideologia dominante em nossa sociedade. Este 
desejo está expresso na procura de escolas fortes. Escola forte 
que traduz um desejo de força, de poder. Escola forte enten­
dida como a escola que promove o mais rapidamente a alfa­
betização que é socialmente compreendida como signo de 
sucesso. 
Se coloco todo o peso da determinação da programação 
escolar, no desejo dos pais, pretendo com a palavra pais, mos­
trar o peso da sociedade; procuro assim enfatizar a pressão 
exterior à própria escola. Porque penso, que, são realmente 
os valores da sociedade que determinam os destinos da escola, 
com muito maior força do que os estudos de psicologia. 
O que tenho observado, é que a escola forte é medida 
pela quantidade de material mimeografado contendo exercícios 
repetitivos e mecânicos, que atestem a quantidade de horas que 
a criança passou sentada executando-os, e que levados para 
casa garanta aos pais que rapidamente a criança estará lendo e 
escrevendo. 
A escola maternal, como possibilidade deampliação da 
brincadeira, fica para os livros e teses sobre escolas maternais. 
Se a criança anos atrás, brincava até entrar no primário 
aos 7 anos para a alfabetização, o esperado é que a criança 
hoje tivesse também o direito à brincadeira, tendo mudado 
apenas do espaço livre, para o espaço especializado. 
Porém, se a idade de ingresso na escola adiantou, adian­
tou também a expectativa com a alfabetização. 
Existe hoje, uma grande expectativa com a alfabetização 
precoce, revelando assim o desejo de que a criança entre mais 
cedo dentro do universo adulto, desprezando o seu próprio 
universo, perdendo seu próprio contorno. 
Parece que esta tendência das escolas maternais, em cor­
responder a uma demanda da sociedade, faz com que as esco­
las, na verdade, caminhem em direção oposta à Psicologia do 
Desenvolvimento, que tem trazido informações acerca do fun­
cionamento da mente infantil. 
66 
Hans Furth reflete sobr,e este problema em. ,r Piaget na. 
Sala de Aulau: u ma esoola que dê prioridade ,à leitura não, 
pode dar simultaoeamen~e prioridade ao pensamento. Tem de 
scolher uma. ou outta eoisa. Httoricam nte tem optado p la 
leitura. Sem dúvida, outrora podia"'se supor tacitamente 1que o 
racio .íniai de uma criança pas~ara por um desenvolvimenro, 
apropria.do antes d ela entrar na escola e que condnuar1a a 
se desenvolver fora dela. Talvez es·tes p11es,_ upostos nio tossem 
destituídos de base. o passado,, a educação era privilégio de 
uma dass _ especial., e sái gradualmenle pa u aos bábit.o: de 
uma burguesia. situada num meio físico e sociat relati amente 
estáv,el e. que de, m,an,eir,a ger.al,, proporcionava condições par.a 
um desenvohrim nto intelectual espontâneo.. Hojie, porem DO 
que . peita a uma grande pa:rc~la da populaçio ses, p,r-essu 
postos são irr,efovantes+ { ... ), 'o o ensino nao só, afeta o 1:nte­
lecto de maneira adviersa deixando de nutri-lo como , o qu.e é 
ainda. mais grave, desdenha forças mo,tivacionais presentes em 
qualquer crlança de 5 ou 6 anos. Se deixar ,de lado a força 
intelectualJ já , " um desperdício,t pior ainda é negUg:e.nciar ou 
rejeitar a .motivação construtiva que faz parte da. personalida,de 
• · f- · ·1 • ' 1n ,ant11 ,. 
A procura. peta '''escola forte ' , portanto, parece oon:t:er um 
paradoxo. Se concordamos com F'urth, que a prioridade dada 
à lei tu:ra, no·, primetros anos impUca uma r,eduç.ão do desen-
olvim _ nto intefo 'tual, a for,ça d ta esicob reside no enfraque­
cim·ento do ,,duno. Revela apenas que a força. da escofa está 
:na. força do adulto sobr , ,a criança; e p,r,ei sa som,ente a relação 
de poder do adulto sob e a crtança. 
A dança qu dei d= d,ese.nba·r ao entrar na es,cola, 
po·r,que de" a de brincat apena d,esnuda 1e ta relaçao de poder. 
Porque a criança está deixando1 uma :forma de e pressão que 
.~ sua, pa1·a ,:,eg:ui um padrã.o escolar imposto 
O que tem aconteado, é que a escola iniciou sua tarefa 
com cnanças: menor,es porém n.ão se 1equipou p,ara proporcio­
nar às crianças,, a e p,an ão n~ces:sária ao s u sU1gio de de­
senvolvimento.· ,e a alfabetização se apr . nta como uma. saída 
viâv,el para ocu.par .a:s crianfr8S e: atisfazer 10S pais .. 
,6'1 
Despreza assim a linguagem natural da criança que se 
expressa através do desenho e do jogo e procura equipá-la com 
uma linguagem ensinada. Porém, enquanto aprende a dominar 
um novo código, a criança vai sendo dominada. 
Não se leva em conta o seu discurso, a sua fala. Trata-se 
aqui de amestrar, de controlar. 
"Toda sociedade controla, seleciona, organiza e redistribui 
por um certo número de procedimentos a produção do discurso 
com o objetivo de amestrar seu evento aleatório." 6 
A mecânica da alfabetização implica que a criança aban­
done a sua escrita e adote uma escrita aprendida, convencional. 
Não me coloco absolutamente contra o aprendizado do 
código verbal. O que pretendo é chamar atenção para um fato, 
que a alfabetização precoce apenas antecipa, mas que se pro­
longa durante todo o processo de escolarização: é a super­
valorização de um ensino verbal , calcado em atividades inte­
lectuais e abstratas, ~m detrimento da descoberta, do jogo, da 
criação e da pesquisa. 
O tempo destinado à alfabetização se antepõe ao tempo 
do jogo, numa época em que o jogo é a necessidade funda­
mental da faixa etária. Portanto, ao antecipar o problema, o 
problema se agrava. 
"Que outra civilização, em aparência, respeitou o discurso 
mais do que a nossa? Onde ele foi mais honrado? Onde, ao 
que parece, libertou-se mais radicalmente de suas coações e se 
universalizou? Ora, parece-me que sob esta aparente vene­
ração do discurso esconde-se uma espécie de temor. Tudo se 
passa como se as proibições, os bloqueios, os limiares e os 
limites tenham sido dispostos de maneira que sua riqueza seja 
organizada conforme modelos que evitem o que é incontrolável, 
tudo se passa como se tenhamos querido apagar até as marcas 
de sua erupção nos jogos de pensamento e da língua. 
Há sem dúvida em nossa sociedade e imagino que em 
todas as outras, mas de acordo com um perfil e com escansões 
diferentes, uma profunda logofobia, uma espécie de temor surdo 
contra esses acontecimentos, contra o surgimento de todos esses 
68 
enuncia.do~ ,co,ntra tudo qu . · od haver nele.s d 10 1. nto, 
de desconti.nuo de ,questionador; de desordem e também de 
perigo contnt esse grand.e: repicar incessante e desordenado do 
discurso 6 
O que tenho observado no, inído da atfabetização, quando 
pressionada no, tem,po e pela mecânica que .a faz repetir formas 
sempre iguais, ,é que a criança rompe com o seu desenho. Acon.­
tec.e realmente uma quebra, um corte e a ,criança pára de de­
senhar·, estacionando nesta fase . Se pedir.mos a um adulto que 
desenhe algo,, seu. des,enho ser,á ,o, d se:nho de uma criança. nesta 
fase e no entanto eu pensame·nt,o n:ã.o, é mais operacional con­
crieto mas formal, se obed cermos ,a um.a termino'logia pia­
geti.ana. 
·-'.· o :sett tra.90 1 que. er.a expressão ,do seu > nsamento dei a 
de sê•lo para. se tornar alheio a le. 
O importante é notar que 10 . pr,oce so de divisão ins alado 
em nossa sociedade que separa emoç. o e pensamento. lazer ,e 
trabalho, arte e vida_. e que conseqüentemente a ese-0la 11epru­
d.uz1. está. começando cada vez mais cedo. Pois a escol.a mater­
nal que nasceu de uma 11eces5idade de se pre ervar um ,espaço 
de j,0,go, s transformou ro::atarnent no &eu op0rsto. 
P'i.aget, em um artigo intitulado " A 1educação artística e a 
p i,colagia da cdimç.a ~ , ,aponta para o fato, de que a _ riança 
pe,quena pareça melhor dotada do qu,e as mai,ories, no, que ,s·. 
refere à exp,re s~o p,lásôca, gestual e musical;: e ,que quando 
se estuda o desenvoi imento cognitivo~ nota se uma voluçao 
contínua,. nquanto que,. no d.eseu ,lviroento artí Uco, tem se a 
in1pre são de um retaroamentai. · , Pi.aget comenta: ·•O qu1e 
acontece é ap nas um aspecto particular deste íenômeno geral 
que, de .graçadament caracteriza o.s, sistemas tradi iornâi , d , 
educaçã.o. Do ponto, de vista int.electual a escola imp·6e) mu·to 
freqüentem,ente, conhecimentos todos elabo:rados_, em lugar de 
estimufar a sua bu.scat) ma. pouco · nota i to, p rque o alun.,o, 
que iepele simplesmente o que o fi2eram aprender parece apre­
sentar rendimento positivo sem que se suspeite de tudo agudo 
qu1e ele po6. ui de e ,pontânoo, e d curiosidade fecunda . Pelo1 
contrário, no domínio artístico em qu nada v,em · ubstituir d.e 
ordinário tudo aquilo que a pre são adulta arnsc.a a destruir 
~o 
para sempre é muito evidente q_ue o problema uma vez apre­
sentado, comprometa com efeito, todo o nosso sistema de en­
sino." r 
A alfabetização nos apresenta então, o problema sobre 
dois aspectos: o primeiro, que é a aparente substituição de 
wn código por outro - do visual para o verbal - , e o se­
gundo, que é a maneira como o processo de alfabetização 
ocorre. 
Para analisarmos o primeiro ponto é necessário que faça­
mos uma rápida consideração acerca da natureza do signover­
bal e do signo visual. 
Quando a criança desenha. escreve o mundo à sua ma­
neira. Sendo o signo visual mais amplo, porque mais aberto, 
a criança pode (como já foi dito anteriormente), na fase do 
pensamento pré-operacional, representar um cavalo azul atra­
vés de um desenho e dali a instantes transformá-lo num avião 
e depois aquele mesmo desenho poderá ser um elefante. Po­
rém a palavra cavalo representará .sempre e apenas cavalo. 
' 
Percebemos também que o signo visual corresponde mais 
à maneira como a criança se expressa nesta fase, pois que seu 
pensamento é essencialmente povoado por imagens. Seu pen­
samento é plástico porque é concreto. Vemos isto claramente 
expresso em desenhos que nos dão uma visão simultânea dos 
acontecimentos, que não estão divididos linearmente no tempo. 
h a visão do pensamento poético. Já o signo verbal implica 
a capacidade de analisar e ordenar necessariamente segundo 
uma seqüência lógico-linear. Exclui a simultaneidade, instaura 
a linearidade. 
Barthes mostrou como a líingua é opressiva: " A lingua­
gem é uma legislação, a língua o seu código. Não vemos o 
poder que reside na língua porque esquecemos que toda a 
língua é uma classificação e toda classificação é opressiva. 
Jackobson mostrou que um idioma se define menos pelo que 
ele permite dizer do que por aquilo que ele obriga a dizer."• 
Neste sentido o signo verbal é em sí mesmo mais restri­
tivo, porque é altamente codificado. 
71 
Porém o problema não reside apenas no código em si, mas 
na maneira como é ensinado. E entramos assim na segunda 
questão a ser considerada. 
A contribuição de Paulo Freire em relação à alfabetização 
é da maior importância para esclarecermos este problema, pois 
que nos aponta para a necessidade da alfabetização ser o ins­
trumento para se dar a palavra ao educando. 
Dizer a sua palavra é em última análise a possi~ilidade 
de se apropriar do código verbal, para com ele criar a sua 
própria fala . 
Porque se o signo verbal traz consigo a opressão da lín­
gua, toda a história da literatura e da poesia estão ao nosso 
alcance, para nos mostrar a possibilidade de se romper com o 
código e se ouvir a palavra do sujeito falante. 
Portanto se a alfabetização se torna opressiva, é pela ma­
neira como ela ocorre, pois ao invés de ser a descoberta, a con­
quista da própria palavra, ela, como tem sido praticada em 
nossas escolas, é instrumento de dominação, onde a criança 
abandona a sua própria palavra e adota a do educador. 
"O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas 
ou os sistemas de dominação, mas aquilo para que, aquilo 
porque se luta, o poder de que se busca apoderar."• 
A perda do desenho pela criança, aparentemente vista 
como a substituição de um código por outro, revela apenas a 
maneira como íl criança é vista pela escola. Desnuda a ideo­
logia que permeia a nossa escola, uma escola colonizadora que 
"forma gente submissa, obediemte ao autoritarismo do colo­
nizador". 10 
Encaro, portanto, a ruptura e a estereotipia do desenho 
nesta fase, como sinal de submissão. 
A criança perdt a confiança no seu desenho porque per­
deu a confiança na sua palavra. 
A escola preenche- todo o tempo com a fala do adulto, 
que a criança escuta, e precisa devolver com a visão do adulto, 
abdicando da sua. E quando o adulto se cala, ele, o adulto, se 
72 
ausenta e não tem quem acolha a palavra da criança. Então 
a criança percebe que a escola é o espaço da fala do adulto 
e que para ela resta a cópia e o silêncio. 
A escola não dá atenção à maneira como a criança vê as 
coisas; antes, imprime na criança a maneira adulta e lógica de 
ver o mundo. 
Carlos Drummond de Andrade, num texto para a revista 
Arte e Educação, se pergunta: " Por que motivo as crianças, 
de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? 
Será a poesia um estado de infância relacionado com a neces­
sidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreo­
cupação com os mandamentos práticos do viver, estado de pu­
reza da mente em .suma? ( . . . ) Mas se o adulto, na maioria 
dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na 
escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o 
elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai 
fenecendo à proporção que o estudo sistemático se desenvolve, 
até desaparecer no homem feito e preparado supostamente para 
a vida? - Receio que sim. A escola enche o menino de 
matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, 
fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da lin­
guagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende 
em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento dó 
mundo." 11 
O problema da perda do ato de desenhar, portanto, é 
apenas um reflexo de um problema geral de falta de expressão 
dentro da escola. 
Nos primeiros anos escolares, o problema parece estar 
centrado na prioridade dada à alfabetização, porque ocupa todo 
o tempo da criança na escola. Porém nos anos seguintes o 
problema se agrava, e o desenho acaba ficando espremido nas 
sobras do tempo. 
'13 
OS MECANISMOS D E LUSÃO 
Observando a mameira como os currículos. se estruturam 
pod .mos ver que ,a escola dispõe de mecanismos cada vez mais 
, ·ompUcados para ,e cluir ,e Justüicar a e cJ.u- ão do de nho. 
A art ,eclama o hom,em inteiro e o processo e-scolar 
fragmenta. dividindo em compartimentos geográficos - matemá­
ticos~ histó·ricos, 01tográ:ficcL., den.tfficos 1e artístico . 
Dividindo, a escola drcunscre e o probl ma da. e pressão 
para a hora da aula de ar ,es ,com :isto não enfrenta. o p,r-o-
blema ·mai r da fal a de e pressão dentro do currkuto. 
E muillo importante , ,que a criança possa. na aula de .artes 
utilizar a linguagem plástica para diz r o qu ~' pen a e ente 
a respeito de si do mundo. Porém, é importante que tam • 
'bém po sa fazê-lo oa aulas de estudos sociai .; ciências, por 
tuguês matemática... Não será a matemática também ·um.a 
linguagem que expre- sa as relações de tamanho, quantidade 
volume etc? 
A medida que a escola tomar corn:a, pnmeira tarefa,, 
dar a paJavr.a à. ,criança - para 1que ela el.abo.re e expresse 
:seus pensamentos e sentim~ntos através da diferentes língua 
gens -, para levá-la à pr,odu.çao do eon.hecimento no _entido majs, 
ampl.o do term.o -; o problema da expr-essão deixa1á de o upar 
,ap na os espec.Htlistas d art , ma- erá o esforç-0 conjunto 
de toda a e cola. 
74 
A DIV]SÃO , O TEMPO 
Além de fragmentar o conhecimento 1em compartimentos 
estanques~ a escola privilegia claramente .algumas áreas em 
deitrimento de outras. O·. horários . e.ntão, sã.o organizados, para 
,que o aluno per,ceba quais ,os momentos mais valorizados .. 
Em.·. · 'Vigiar e Puni· -'" Foucau1t nos -, o-stra -ue .. ,,o horár"o . _ . _r , _ _ .11 _ _ m _ _ _ _ q _ _ 1 _ 
é uma velha herança, AI ,com.unidades monásticas haviam sem 
dúvida sug~rido o seu. modelo festrito. Ele · ,e difundiria rapi .. 
dam.ente. Seus fr,es ,grandes p,.r, oess · s ~ estabelecer a · en~ 
suras, obngar a ocupações de.tenninadas,, regulamentar: i0s ciclos 
de repetição, - muito ,cedo foram enco,ntrados nos, colé,gios, nas 
-oficinas, ,e nos ho pitais . ·2 
Com o,s borário:s trata~s,e de dividir o t ·mpo para que este 
seja empregado de maneira •que não se perca a força de escola 
para que o máximo de informação ,seja passada para O· a[uno 
durante o, período , soolar. 
Com a divisão do t.empo, fica claro que todas as matérias 
q,ue cuidem de desenvolver o pensamento lógico~ .a. objetivi­
dade,. tem. empre um número de horas maio do que as maté­
rias ,que envolvam também. o ,aspecto afedvoJ o ,emocional. 
Todo o sistema. escolar está mon·ta.do para q_ue despreze­
mos a nossa experi,ência afetiva, f especialmente nas ciência , 
naturais quando um proiessor mostra um cristat .as. meninas 
parti ula:rmen'te t ndem dizer~ ·~oh que bonito cristal! J e 
75 
então o . professor diz: 'Nós não estamos aqui para admir!lr a 
beleza "Cio cristal, mas para analisar sua elitrutura.'

Mais conteúdos dessa disciplina