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Vejo minha mãe alguns metros adiante, parada do outro lado no corredor lateral, confusa, tentando entender de onde vêm os tiros. Ela olha para mim, o rosto pálido, e dá um passo na direção errada. — Não… — minha voz não passa da garganta. Um dos homens se vira com uma rapidez alarmante. O disparo ecoa antes que qualquer um consiga reagir. Minha mãe cai. O som do corpo atingindo o chão se mistura ao barulho dos tiros, mas para mim tudo fica abafado, distante, como se alguém tivesse mergulhado minha cabeça debaixo d’água. Meu pai grita e corre na direção dela, ignorando tudo, e é atingido quase ao mesmo tempo. O impacto o joga de lado, o sangue manchando o terno enquanto ele cai de joelhos ao lado do corpo da mulher que nunca conseguiu proteger. Algo dentro de mim se quebra mais uma vez. Mas não posso parar. Nunca pude. Volto o foco para Lorenzo que está perto de mim. Ele está alguns passos à frente, finalizando um dos atiradores com brutalidade. O homem cai aos pés dele. Lorenzo se vira, o corpo girando no reflexo perfeito de quem sabe exatamente o que está fazendo. — Paola! — grita, e então acerta um deles que estava do outro lado do salão vindo na minha direção. É nesse giro que acontece. Vejo o movimento antes dele. Um homem surge atrás de Lorenzo, a arma subindo num átimo, o olhar fixo nele. Lorenzo está de costas, concentrado em eliminar outra ameaça à minha esquerda. O mundo desacelera. Meu corpo se move antes que minha mente acompanhe. Dou dois passos rápidos e entro na frente dele. Disparo contra o filho da puta, mas ele também atira. E o disparo me atinge em cheio. A dor explode no ombro, violenta, quente, arrancando o ar dos meus pulmões. O impacto me joga para trás, e por um instante não sinto nada além do choque. Depois vem o fogo. Lorenzo se vira no mesmo segundo. Vejo o rosto dele se transformar quando me vê caindo. — Paola! Ele me segura antes que eu atinja o chão por completo, o braço firme ao redor do meu corpo, a outra mão já pressionando o ferimento. O sangue escorre copiosamente, quente e vívido. — Não… — ele rosna, quase sem voz. — Era pra mim… era pra mim…