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DISTOPIA 
 ARTHUR MARCHETTO
São poucos os que nunca leram ou assistiram a alguma distopia. Além do interesse natural que essas obras despertam, a área teve forte fomento nos últimos anos: diversos lançamentos de sagas infanto-juvenis, como Jogos Vorazes ou Silo; aumento nas vendas de 1984 após a eleição de Trump; adaptações audiovisuais de livros como O Conto da Aia e Fahrenheit 451. Recentemente, aqui no Brasil, tivemos o relançamento de Nós, pela editora Aleph, a primeira distopia moderna escrita por Ievguêni Zamiátin.
Essa temática filosófica, presente principalmente na filosofia, na literatura e no cinema, aparece sempre em conjunto com sua antítese, a utopia. Inseparáveis, elas retratam o apetite humano pela busca de um lugar ideal. Tal paraíso terreno já foi corporificado de diversas maneiras: numa ilha isolada e pura, num passado repleto de abundâncias ou em um futuro revolucionário. No entanto, os bastidores dessa sociedade perfeita comportam a força opressora dos agentes do Estado ou das megacorporações. Naqueles excluídos do espaço da utopia, qualquer discordância é destruída. A individualidade não existe. A arte é proibida.
Como já abordei em uma entrevista realizada com o pesquisador Maurício Wajciekowski (disponível aqui), é possível destacar alguns elementos de dentro desse modelo, como o herói recém-consciente da sua estrutura social e o cenário autoritário como antagonista. Toda a construção é feita para que a miudeza do protagonista em relação ao sistema seja evidenciada e, também por isso, os desfechos sempre são o exílio ou a morte.
Além disso, é interessante destacar a fala do professor Alexander Meireles no minicurso sobre distopias sobre a presença de um sistema racionalista e o papel subversivo do feminino. Sendo a maioria dos protagonistas homens (e dos escritores também), a mulher tem o papel de guardar o sexo – sempre primitivo e irracional. É uma relação muito próxima à das narrativas religiosas que tratam a mulher como sedutora e portadora do pecado.
A ideia principal que fica nessa concepção é que toda utopia traz em si a semente da distopia. Enquanto criação humana, a utopia tem suas falhas expostas nessa espécie de narrativa espelho. Mas é possível fazer uma complementação, seguindo por um caminho como aquele da famosa frase do escritor Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei”.
A ideia principal que fica nessa concepção é que toda utopia traz em si a semente da distopia. Enquanto criação humana, a utopia tem suas falhas expostas nessa espécie de narrativa espelho.
Em uma entrevista para o Observatório da Imprensa (disponível aqui), em 2015, Zygmunt Bauman discorreu sobre ideologias, política e, também, sobre utopia. Quase no fim da entrevista, o jornalista Alberto Dines relembra ao sociólogo que A Utopia, de Thomas More, fará quinhentos anos e pergunta como as revisões desse conceito serão vistas em um momento em que utopias, como a união de países inimigos num conjunto como a Europa, se transformam em distopias. A resposta de Bauman para ele é: “Meu querido Dines, você não acha que esse é o destino de todas as utopias? Utopia é criativa, é uma benção enquanto permanecer utopia. Porque ela guia os sonhos humanos, as ações humanas, lhes dá coragem para agir e coisas do tipo, mas quando dizemos que ela foi cumprida, aí que começa o problema, é aí que se transforma em distopia”.
A fala de Zygmunt Bauman evidencia uma etapa que parece esquecida na concepção de distopia como “antiutopia”. Quando colocamos a utopia como um ponto alcançável e inevitavelmente com falhas, a ideia do sonhar pode se transformar num caminho fadado ao fracasso e aumentar a sensação de desesperança, conformismo.
O que é preciso pensar quando falamos de distopia é que ela nos mostra como, apesar do um instinto de prevalência do cotidiano e do sedentarismo; ainda que queiramos acreditar nas nossas ideias como uma panaceia – um remédio para todos os males -, é preciso continuar no caminho por um futuro melhor, criado pelo diálogo entre todas as (dis)utopias. É preciso continuar caminhando – apesar de tudo.
Distopias: A bota em seu rosto. Para sempre
Entrevista com Maurício Wajciekowski
Distopia pode ser um nome familiar para você, mas se você — como eu — acreditava que distopia era um gênero literário, principalmente daqueles best-sellers para adolescentes, está enganado. Segundo o escritor Maurício Wajciekowski, distopia não é um gênero nas artes e, sim, uma temática recorrente, principalmente na filosofia, na literatura e no cinema.
Tanto como Wojciekowski, conforme grafia original nas primeiras documentações, ou como Wajciekowski, como encontrado em seus livros e no site, Maurício tem mestrado em Literatura Comparada — ramo em que se estuda obras de épocas e autores diferentes — e sua dissertação trata da “Utopia, Distopia e Discurso Totalitário”. Em seu trabalho, Maurício analisou as obras “A República” de Platão e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, notando que a primeira já trazia o discurso utópico, bem antes do termo ter sido cunhado.
Arthur Marchetto — Quais são as raízes do gênero distópico?
Maurício W. — Seria, na realidade, não um gênero, mas sim uma temática, um tema recorrente dentro da filosofia e da literatura. No geral, a teoria literária considera que o gênero teria suas raízes em A Utopia, de Thomas Morus e as raízes seriam ligadas à própria condição humana de penúria e tristeza que sempre espera um lugar, ou um futuro, de alegria e fartura (as religiões trabalham com esse desejo através da ideia de paraíso ou de uma vida após a morte de justiça e felicidade).
No entanto, a ideia utópica — o lugar que não existe por ser perfeito — aparece muito nos contos de fadas medievais. Neles, é comum encontrar a história do jovem que sai de casa e encontra um lugar fantástico, onde há aventuras e riquezas. Nas epopeias medievais do homem comum, há a saída de um ‘topos’ — um lugar conhecido — para um novo ‘topos’ desconhecido que, no imaginário popular, seria uma utopia. Os imigrantes europeus, que se espalharam pelas Américas, acreditavam na “Cocanha”, que seria um lugar mítico onde haveria belezas naturais e abundância de alimentos.
A ideia da utopia pode ter, basicamente, dois caminhos: o passado e o futuro. No passado, temos o mundo mítico e romântico de uma era medieval de abundância e alegria e, indo mais longe, na questão mítica-religiosa, o paraíso bíblico seria uma utopia do caminho passado.
Em relação ao caminho do futuro, temos toda uma série de utopias, como a ilha de Palas, do romance A Ilha, do Aldous Huxley e, indo mais longe, teríamos como grande precursor, A República, de Platão, em que é descrito, detalhadamente, como seria uma cidade-estado perfeita. O termo utopia não aparece em Platão, mas a ideia de um lugar perfeito está lá, descrito com bastantes detalhes.
Metrópolis (1927) é dirigido por Fritz Lang e trata-se de uma distopia futurista.
AM — Como você definiria Distopia e Utopia e a relação entre os dois conceitos?
MW — Simplificando muito, diria que a utopia está ligada a uma ideia de mundo muito melhor do que o atual e a distopia é a utopia que não deu certo. É claro que isso depende do ponto de vista. Para os ditadores desses mundos distópicos, a distopia está apenas nos olhos dos outros… Temos um exemplo no mundo real: ditadores como Stalin e Hitler pensavam que estavam reformando o mundo e, aos olhos deles, estavam construindo uma utopia — mesmo que fosse necessário usar, como cimento, uma pilha de cadáveres.
AM — Pode-se dizer que há elementos recorrentes nas obras distópicas?
MW — Sim, há vários: O herói deslocado que, geralmente, está completamente encaixado na sociedade e toma consciência. O cenário autoritário e opressor, que é o antagonista. As instituiçõese agentes do cenário opressor, que estão ligados a uma tecnologia, geralmente, cerebral e totalitária. Por último, os ajudantes do protagonista, que são os personagens que o auxiliam na luta contra a opressão.
AM — As obras obedecem alguma estrutura como, por exemplo, “A Jornada do Herói”?
MW — Em relação à essa estrutura narrativa, temos a introdução, onde o protagonista está vivenciando esse mundo. Geralmente, essa primeira parte é bastante descritiva, pois é nesse momento que o cenário é apresentado ao leitor/espectador. Num segundo momento, temos a tomada de consciência, que é quando o protagonista percebe que o mundo a sua volta lhe nega sua individualidade e, em geral, descobre que não está sozinho. Assim, encontra forças para lutar contra o sistema. Em seguida, começa a luta. Por último, a vitória, ou o exílio, ou a morte do protagonista.
Dentro da Jornada do Herói, o tema da distopia tem muito a ver com o mito da caverna de Platão. Nesse mito, o indivíduo toma a consciência de estar vivendo em um mundo falso, um simulacro. Com essa descoberta, ele sai da caverna e encontra a realidade que “está lá fora”. Esse indivíduo que descobre a verdadeira realidade pode retornar e, ou ajudar os outros “iludidos” a descobrir a realidade, ou ser destruído por esses mesmos “iludidos”.
[O herói] é o sujeito que questiona a terrível realidade em que vive. Ao descobrir que estava preso a um mundo ilusório e totalitário, ele se revolta e tenta escapar de seu destino. Ele não quer mais ser uma “célula do corpo social”, ou “apenas mais um número”, ele quer ser um indivíduo.
AM — Quem é o protagonista e o antagonista na temática?
MW — Em geral, o protagonista é aquele personagem que luta contra um mundo opressor. Ele é o sujeito que questiona a terrível realidade em que vive. Ao descobrir que estava preso a um mundo ilusório e totalitário, ele se revolta e tenta escapar de seu destino. Ele não quer mais ser uma “célula do corpo social”, ou “apenas mais um número”, ele quer ser um indivíduo. Essa tomada de consciência transforma o homem comum, totalmente preso a sua sociedade, em um questionador, em um herói. O antagonista, em geral, é o próprio sistema opressivo e seus agentes
A distopia de Ray Bradbury. Fahrenheit #451, foi adaptada para o cinema em 1966
AM — Como as relações de poder — governos, sociedade — se apresentam nessas obras? Qual a importância delas?
MW — As relações de poder são sempre de cima para baixo. A sociedade tem uma aparência de algo completamente organizado, onde todos ou são felizes ou são obrigados a sê-lo através da alienação — pelo uso de drogas ou pela censura total, tudo é manipulado para tornar o indivíduo dócil e “encaixado no sistema”. Qualquer dissidência é sumariamente destruída, seja através da tortura, seja através da morte. O indivíduo não existe, pois cada pessoa é apenas uma célula do corpo social. Os pensamentos têm que ser iguais e o governo é quem dita as regras que devem ser seguidas. Há apenas uma única ideologia que deve ser seguida sem questionamentos. A importância disso tudo é tão grande que o sistema, o cenário, torna-se o grande antagonista, o monstro a ser enfrentando pelo herói.
O tema da distopia nos mostra que o fantasma do totalitarismo, seja de esquerda ou de direita, está sempre presente. Mostra que todo totalitarismo é a negação da individualidade, que o totalitarismo é alienante e opressor.
AM — Como a distopia se desenvolveu ao longo dos anos?
MW — Recentemente veio uma onda de textos literários voltados, principalmente, para o público jovem. Jogos vorazes, ao meu ver, é o mais famoso, mas há outros que ainda não tive a oportunidade de ler. Eu acredito que tenha se tornado mais democrático. Se os livros mais famosos são mais cerebrais, com um tratamento filosófico do tema, os atuais têm mais ação, chamando a atenção do público mais jovem.
O interessante é que não é nada incomum um jovem ler Jogos vorazes ou Feios, por exemplo, e acabar descobrindo todos os livros que inspiraram essas obras.
Ainda assim, acredito que o tema tem muito a ser trabalhado ainda, pois, mesmo que os clichês permaneçam os mesmos, há sempre algo novo. O tema da viagem do tempo, por exemplo, é muito usado, mas nem por isso deixa de nos surpreender. Escritores bons nascem a cada dia e sempre haverá alguns que vão se deixar seduzir pelo tema.
Nós, escrito por Evgueny Zamiatin na década de 1920, é o primeiro romance distópico. A primeira cópia brasileira do livro veio da tradução francesa, sob o título Muralha Verde. Recentemente, a Aleph lançou uma nova edição do romance — que não era editado desde 2006.
AM — Você acredita que essa temática é importante ainda nos dias de hoje?
MW — A temática se mostra importante por, em boa parte do ocidente, vivermos em democracias. O tema da distopia nos mostra que o fantasma do totalitarismo, seja de esquerda ou de direita, está sempre presente. Mostra que todo totalitarismo é a negação da individualidade, que o totalitarismo é alienante e opressor.
AM — Como você pode explicar a ascensão do gênero na literatura infanto-juvenil?
MW — A ascensão do tema na literatura infanto-juvenil tem muito a ver com a própria adolescência, período em que a criança deixa de ser criança, mas não é ainda um adulto. Sendo um ser “híbrido”, o adolescente, que agora assume uma nova moral, acaba se confrontando com o status quo e começa a questionar a realidade que herdou daqueles que vieram antes. Em geral, acaba se vendo nos protagonistas desses romances distópicos, pois ele também se sente “traído” pela sociedade, se sente preso a algo que ele não escolheu e que lhe foi imposto. O adolescente quer mudanças, quer justiça, e nessas obras ele encontra alguém que, como ele, está insatisfeito. Nessas obras, como na vida, o sujeito vive em uma distopia, mas deseja a utopia.
AM — Quais obras podem ser usadas para se aprofundar na temática?
MW — No meu caso, trabalhei com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e A República, de Platão, fazendo uma comparação entre as duas obras. Outras distopias famosas são Fahreinheit 451, de Ray Bradbury, que tem como pano de fundo uma sociedade imbecilizada em que livros são queimados e leitores são terroristas; Nós ou A muralha verde, de Evgueny Zamiatin, que descreve uma sociedade de casas transparentes, onde cada passo do indivíduo é controlado pelo Estado, incluindo, aí, o desejo sexual; 1984, de George Orwell, que se passa em uma Inglaterra futurista em que todos são vigiados, o tempo inteiro, pela figura do “Big Brother”, levando uma vida totalmente sem liberdade e com um censura tão forte que é capaz de reescrever a própria história. Em quadrinhos, temos V de Vingança, de Alan Moore, obra muito interessante e que, como a maioria das citadas acima, teve versão cinematográfica.
AM — Para encerrar…
MW — A imagem mais forte da destruição do individualismo nas distopias está em 1984: “o futuro é uma bota pisando em um rosto humano”. Autoritarismo, na figura do fascismo e do comunismo reais, é a negação total da individualidade, é a tentativa de transformar o homem em máquina e, parafraseando Chaplin, no discurso final de seu filme O Grande Ditador, nós não devemos ser máquinas, devemos ser homens; devemos lutar pela liberdade, não pelo totalitarismo.
Entrevista realizada em 2014.
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