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MICRO/MACROECONOMIA MATEMÁTICA AULA 1 Prof. Guilherme Augusto Pianezzer 2 CONVERSA INICIAL Inúmeras vezes aprendemos matemática sem uma aplicação direta em temas de interesse comum. A importância de realizar um aprendizado de matemática alinhado com outras áreas de conhecimento é gigante e deve ser expandido além das aplicações clássicas nas áreas correlatas, como física. Nosso estudo tem o objetivo de discutir temas das áreas de microeconomia e macroeconomia com ênfase no aprendizado das ferramentas matemáticas selecionadas. Dessa forma, nosso estudo se destina não só a matemáticos como também a economistas e outros interessados em conhecer a intersecção entre as duas áreas. TEMA 1 – OFERTA E DEMANDA Existem três fatores que estão relacionados: o preço de um produto, a quantidade de pessoas interessadas em adquiri-lo a esse preço e a quantidade de pessoas interessadas em vendê-lo a esse mesmo preço. Sendo uma relação, podemos traçar uma função que relaciona essas variáveis. 1.1 Função A função é uma das principais ferramentas utilizadas na matemática moderna. Afinal, foi desenvolvida inicialmente em 1673 pelo matemático Leibniz, que também desenvolveu o cálculo diferencial e integral em paralelo a Isaac Newton. Embora tenha sofrido diferenças ao longo dos últimos quase 400 anos, nosso entendimento dessa ferramenta hoje é de que, dado 𝑦𝑦 = 𝑓𝑓(𝑥𝑥) uma função relacionando a variável independente 𝑥𝑥 à variável dependente 𝑦𝑦, podemos indicar como os elementos estão relacionados. Tradicionalmente, definimos 𝑓𝑓:𝐴𝐴 → 𝐵𝐵 uma função que possui domínio 𝐴𝐴 e contradomínio 𝐵𝐵 sendo que precisamos definir como os elementos de 𝐴𝐴 são levados (ou transformados) em 𝐵𝐵. Existem diversas formas de representar a regra da função. As quatro mais comuns são a representação algébrica, a representação por tabela, a representação por diagrama e a representação gráfica. O essencial da representação escolhida é deixar claro como as variáveis independentes são transformadas na variável dependente. Entretanto, análises mais aprofundadas, 3 como aquelas implementadas pelo cálculo diferencial e integral, só funcionam adequadamente em alguns tipos de representações. 1.2 Oferta e demanda Crédito: Alejandro Arcardini/Shutterstock. Vejamos como a função pode ser utilizada para representar dois dos principais conceitos em economia: a oferta e a demanda. Para isso, podemos imaginar uma situação hipotética em que determinado produtor deseja vender sua produção de cebola na feira local. Eu, talvez assim como você, estou interessado em comprar cebola semanalmente. Entretanto, dada minha capacidade financeira limitada, a depender do preço que custar o produto na feira, poderei desistir da decisão. Eu, enquanto comprador, em economia, demando o produto. O feirante, enquanto vendedor, oferta o produto. Claro que não trataremos a análise do ponto de vista de um único comprador e um único vendedor. Por isso, vamos imaginar uma quantidade grande de pessoas que vão à feira comprar cebola. Cada um sabe do seu dinheiro e tem para si até quanto está disposto a pagar pelo quilo da cebola. Imagine que, estando 𝑅𝑅$ 1,00 o quilo, 330 clientes compram cebola. Para simplificar, também vamos imaginar que todos os compradores que adquirem cebola na feira comprem exatamente 1 𝑘𝑘𝑘𝑘 do produto, de forma que a opção válida é 1 𝑘𝑘𝑘𝑘 ou nada. Quando o preço da 4 cebola passa a ser de 𝑅𝑅$ 1,50 o quilo, 275 clientes a compram. Essas 55 pessoas que desistiram de comprar cebola, dado o aumento no preço de 50 centavos, estão obedecendo àquilo que é chamado de a lei da demanda. Ao passar o preço da cebola a 𝑅𝑅$ 1,90 o quilo, agora 220 clientes a compram. E com cebola a 𝑅𝑅$ 2,00 o quilo, 210 clientes compram esse produto. Note que a lei da demanda nos mostra que um aumento de preço leva a uma diminuição na demanda, isto é, na quantidade de bens comprados. Isso fica mais claro quando a cebola está custando 𝑅𝑅$ 5,00 o quilo. Agora apenas 50 clientes compram o item. Quando passa a custar 𝑅𝑅$ 10,00 o quilo, agora temos apenas cinco clientes comprando cebola: esses realmente precisam e estão dispostos a pagar esse preço pelo produto. Perceba que a relação entre a quantidade demandada e o preço é uma função que pode, inicialmente, ser traçada por meio de uma representação por tabela. A Tabela 1 representa a função demanda. Tabela 1 - Demanda para a cebola Tabela de Demanda Preço da Cebola Quantidade de cebolas demandada 𝑅𝑅$ 1,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 330 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,50/𝑘𝑘𝑘𝑘 275 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,90/𝑘𝑘𝑘𝑘 220 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 2,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 210 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 5,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 50 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 5 𝑘𝑘𝑘𝑘 Fonte: Pianezzer, 2023. Uma análise similar pode ser realizada para extrair a lei da oferta. Nesse caso, imaginar uma feira com a quantidade de feirantes ofertando cebola pode ser um pouco complicado, então podemos imaginar as pessoas que decidem plantar cebola sabendo que o produto será vendido a um dado preço na feira. Suponha que o preço da cebola seja de 𝑅𝑅$ 10,00 por quilo. Nesse caso, uma boa quantidade de pessoas decide produzir cebola, digamos 300 produtores, visualizando um lucro grande. Quando o preço da cebola passa a ser de 𝑅𝑅$ 5,00 por quilo, menos produtores decidem investir nessa produção. Assim, a quantidade de produtores nesse mercado passa a ser 280, por exemplo, nesse dado preço, visto que a maioria deles continua vendo essa atividade como algo lucrativo. Quando o preço passa a ser de 𝑅𝑅$ 2,00 por quilo, temos um total de 250 produtores, mas quando o preço passa a ser de 𝑅𝑅$ 1,50 por quilo, a 5 quantidade de produtores de cebola passa a ser de 50. A lei da oferta tem um caráter inverso à lei da demanda: quando o preço de um produto aumenta, aumenta também a quantidade de produtos ofertados. Finalmente, quando o preço passa a ser 𝑅𝑅$ 1,00 o quilo, apenas cinco produtores decidem produzir o bem. A relação entre quantidade ofertada e preço também é uma função que tem uma de suas representações dada pela Tabela 2, indicando a função oferta. Tabela 2 - Oferta para a cebola Tabela de Oferta Preço da Cebola Quantidade de cebolas ofertada 𝑅𝑅$ 1,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 10 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,50/𝑘𝑘𝑘𝑘 20 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,90/𝑘𝑘𝑘𝑘 220 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 2,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 250 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 5,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 320 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 380 𝑘𝑘𝑘𝑘 Fonte: Pianezzer, 2023. 1.3 Gráfico de oferta e demanda Sendo a oferta e a demanda funções do preço, podemos tentar realizar, também, a sua representação gráfica. Nesse caso, escolhi colocar no eixo das abscissas a informação sobre a quantidade de consumidores/produtores, enquanto no eixo das ordenadas a informação sobre o preço. Portanto, do ponto de vista da matemática, estamos traçando a função demanda ou a função oferta em termos do preço, de forma que a quantidade ofertada/demandada é a variável independente e o preço é a variável dependente. Embora isso não pareça usual, análises posteriores indicarão por que realizamos essa escolha. O Gráfico 1 indica a representação gráfica da função demanda e da função oferta. Note que os pontos em roxo no gráfico representam os valores ofertados de cebola a um dado preço, enquanto os pontos em verde representam os valores demandados de cebola a um dado preço. Observe que existe um ponto em laranja, que representa o ponto em que a cebola é vendida a 𝑅𝑅$ 1,90 o quilo e possui 220 𝑘𝑘𝑘𝑘, tanto de oferta como de demanda. Esse é conhecido como ponto de equilíbrio do sistema. 6 Gráfico 1 - Curva de demanda e curva de oferta Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). TEMA 2 – EXCEDENTE E ESCASSEZ DE PRODUÇÃO O gráfico de uma função não serve apenas para realizar uma simples observação dofenômeno estudado, mas nos ajuda a compreender o que acontece dada uma mudança no cenário econômico estudado. 2.1 Deslocamento da curva de demanda Quem é da área de matemática está habituado a realizar análises de gráficos envolvendo operações como derivações ou integrações para extrair informações além daquelas que conseguimos observar em uma primeira lida rápida no gráfico. Entretanto, em economia, também realizamos outra análise mais simples intitulada análise do deslocamento da curva que nos permite 7 comparar o que há de diferença entre duas curvas distintas para um mesmo produto. Voltemos ao caso da cebola. Vimos que a um dado preço existe uma quantidade de compradores para esse produto. Vamos observar novamente a Tabela 1 agora atualizada após uma modificação, tornando-se a Tabela 3. Tabela 3 - Quantidade de cebolas demandada após modificação Tabela de Demanda Preço da Cebola Quantidade de cebolas demandada Quantidade de cebolas demandada após modificação 𝑅𝑅$ 1,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 330 𝑘𝑘𝑘𝑘 530 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,50/𝑘𝑘𝑘𝑘 275 𝑘𝑘𝑘𝑘 475 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,90/𝑘𝑘𝑘𝑘 220 𝑘𝑘𝑘𝑘 420 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 2,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 210 𝑘𝑘𝑘𝑘 410 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 5,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 50 𝑘𝑘𝑘𝑘 250 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 5 𝑘𝑘𝑘𝑘 205 𝑘𝑘𝑘𝑘 Fonte: Pianezzer, 2023. O que poderia causar essa modificação? Isto é, o que faria mais pessoas comprarem cebola a um dado preço do que antes? Depende. • Imagine que uma pesquisa científica tenha chegado à conclusão, agora definitiva, de que consumir 1 𝑘𝑘𝑘𝑘 de cebola por semana aumenta sua expectativa de vida em 30 anos. É evidente que mais pessoas buscariam consumir esse bem, especialmente aquelas que são conectadas a pesquisas científicas e preocupadas com sua qualidade de vida. Nesse caso, a cebola custando 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 que gerava uma demanda de cinco consumidores, agora passa a gerar, pelo mesmo preço, uma demanda de 205 consumidores. O que mudou nesse cenário foi a expectativa das pessoas. • Imagine que, devido à introdução lenta de comida saudável na alimentação da população brasileira, aos poucos o brasileiro mudou seu gosto para passar a comer comida temperada com produtos naturais, percebendo paulatinamente a importância da cebola na alimentação. Nesse caso, o que mudou nesse cenário foi o gosto das pessoas. • Imagine que, dada a situação do país, a renda das comunidades aumentou. Assim, de forma geral, as pessoas têm mais dinheiro disponível para gastar em diversas coisas, inclusive para comprar cebola 8 mesmo que o preço dela não esteja tão barato. O que ocorreu nesse cenário foi uma mudança na renda das pessoas. • Finalmente, suponha que o hábito da população brasileira seja temperar seus alimentos ou com cebola ou com alho, nunca com os dois e sempre com apenas um. Nesse caso, quando o preço do alho sobe consideravelmente, a opção dessas pessoas é comprar cebola e vice- versa. Alho e cebola são considerados bens relacionados e o que mudou nesse cenário foi o preço de bens relacionados. Note que o Gráfico 2 mostra o deslocamento da curva de demanda causado por um desses quatro fatores. Em verde, observamos a curva de demanda original, enquanto em roxo está a curva de demanda atualizada após seu deslocamento. Perceba que os valores são ilustrativos e o aumento de 200 pessoas dado um preço qualquer só foi criado com o intuito de ter um gráfico de fácil visualização. Gráfico 2 - Deslocamento da curva de demanda Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). 9 2.2 Deslocamento da curva de oferta De forma similar, podemos comparar curvas de ofertas distintas para um mesmo produto para concluir quais são os fatores que realizam o deslocamento dessa curva. Para isso, vejamos a Tabela 2 atualizada na forma da Tabela 4 após um deslocamento da curva de oferta. Tabela 4 - Quantidade de cebolas ofertada após modificação Tabela de Oferta Preço da Cebola Quantidade de cebolas ofertada Quantidade de cebolas ofertada após modificação 𝑅𝑅$ 1,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 10 𝑘𝑘𝑘𝑘 210 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,50/𝑘𝑘𝑘𝑘 20 𝑘𝑘𝑘𝑘 220 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 1,90/𝑘𝑘𝑘𝑘 220 𝑘𝑘𝑘𝑘 420 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 2,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 250 𝑘𝑘𝑘𝑘 450 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 5,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 320 𝑘𝑘𝑘𝑘 520 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 380 𝑘𝑘𝑘𝑘 580 𝑘𝑘𝑘𝑘 Fonte: Pianezzer, 2023. Note que o Gráfico 3 indica o deslocamento da curva de oferta do problema. Em verde, os valores ofertados antes do deslocamento, enquanto em roxo, os valores ofertados após o deslocamento. 10 Gráfico 3 - Deslocamento da curva de oferta Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). Em economia dizemos aqui que houve um aumento de oferta, enquanto no caso anterior um aumento na demanda. Se você tiver interesse em se aprofundar no tema, é interessante fazer uma leitura adequada de um livro específico em economia para evitar cair em redundância, o que não cabe discutir nesta abordagem. O que faria mais pessoas produzirem mais cebola a um mesmo preço? • Imagine que você saiba que a cebola costuma ser consumida de forma mais frequente em época de frio intenso, mas sabe que o inverno deste ano não será tão rigoroso quanto os anteriores. Como você espera que não haverá demanda suficiente para sua produção de cebola posteriormente, decide vendê-la antes da hora para garantir sua renda. O 11 que houve aqui também foi uma mudança na expectativa: se o preço da cebola aumentará futuramente, vende-se a cebola depois e vice-versa. • Imagine que uma nova tecnologia para produzir cebola chegue ao mercado. Assim, ao adquiri-la, seu custo de produção cai consideravelmente. Dessa forma, a atividade de produzir cebola se torna mais rentável e os produtores ficam mais competitivos tendo flexibilidade para vender quantidades maiores de cebola a um preço dado. O que houve nesse cenário foi uma mudança na tecnologia. • Finalmente, a produção de cebolas depende de insumos. Aqui se incluem sementes de cebola, mão de obra, adubos e outros itens que podemos imaginar na produção desse bem. De forma similar à nova tecnologia, uma redução no preço dos insumos gera um deslocamento da curva de oferta. 2.3 Excedente e escassez Vimos que o preço com que a quantidade demandada e a quantidade ofertada são iguais é considerado o preço de equilíbrio. Entretanto, ao conhecermos a curva de oferta e de demanda de determinado produto, nem sempre observamos na realidade o preço de equilíbrio em prática. Dessa forma, a depender do preço atual, acima ou abaixo do preço de equilíbrio, pode ocorrer uma das duas situações econômicas: excedente ou escassez de produtos. Veja, novamente, o Gráfico 1 em que o quilo da cebola comercializada a 𝑅𝑅$ 1,90/𝑘𝑘𝑘𝑘 representa o preço de equilíbrio. O que aconteceria se a cebola fosse comercializada a 𝑅𝑅$ 5,00/𝑘𝑘𝑘𝑘? Ao consultar a tabela de oferta, observaríamos um total de 320 produtores vendendo cebola. Ao consultar a tabela de demanda, observaríamos um total de 50 consumidores comprando cebola. Perceba que a diferença, dada por 320 − 50 = 270, representa a quantidade de cebola excedente ofertada no mercado e pode ser observada diretamente do Gráfico 1, agora reinterpretado na forma do Gráfico 4. 12 Gráfico 4 - Excedente e escassez de produção Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). De forma equivalente, quando o preço está abaixo do preço de equilíbrio observamos uma escassez de produção. Poucas pessoas têm interesse de vender, mas muitas têm o interesse em comprar. Quando o preço está na faixa de 𝑅𝑅$ 1,00/𝑘𝑘𝑘𝑘, observamos 10 pessoas interessadas em vender contra 330 interessadas em comprar. Logo, a escassez da produção é de 330 − 10 = 320 𝑘𝑘𝑘𝑘 de cebola. TEMA 3 – CONTROLE DE PREÇOS Alinhar economia com matemática nos permite verificar que o estudo gráficodo preço de equilíbrio de determinado bem interfere, por exemplo, no efeito causado por determinadas medidas públicas. Nesse caso, vejamos o que 13 ocorre quando existe uma coerção externa para determinar certo preço de um bem. 3.1 Congelando preços Na história mundial existem diversos episódios de congelamento de preço. Configuram ações governamentais com vistas a estipular um preço, geralmente máximo, para determinado bem. Podemos citar o que ocorreu na Revolução Francesa, quando estipularam a Lei do Preço Máximo congelando o preço de produtos básicos; o que ocorreu nos Estados Unidos, quando o presidente Richard Nixon congelou preços e salários por 90 dias; o que ocorreu em 2013, quando Cristina Kirchner congelou o preço de combustíveis; ou ainda o que ocorreu no Brasil quando, em fevereiro de 1986, os preços foram congelados por quase um ano. Para compreendermos os efeitos de uma política desse tipo, podemos recorrer aos gráficos de oferta e demanda e ao preço de equilíbrio discutidos na seção anterior. Para isso, vamos considerar, de forma hipotética, o mercado de aluguéis brasileiro no centro de uma grande cidade. Para simplificar a análise, devemos imaginar que todos os imóveis para locação são homogêneos, isto é, não possuem grande diferenciação de um para o outro e as quantidades demandada e ofertada são apresentadas na Tabela 5. Tabela 5 - Oferta e demanda de imóveis Quantidade de imóveis Preço do aluguel Quantidade Demandada Quantidade Ofertada 𝑅𝑅$ 3.000,00 2.100 3.900 𝑅𝑅$ 2.750,00 2.300 3.700 𝑅𝑅$ 2.500,00 2.500 3.500 𝑅𝑅$ 2.250,00 2.700 3.300 𝑅𝑅$ 2.000,00 2.900 3.100 𝑅𝑅$ 1.750,00 3.100 2.900 𝑅𝑅$ 1.500,00 3.300 2.700 𝑅𝑅$ 1.250,00 3.500 2.500 𝑅𝑅$ 1.000,00 3.700 2.300 𝑅𝑅$ 750,00 3.900 2.100 Fonte: Pianezzer, 2023. Note que o mercado imobiliário brasileiro também segue tanto a lei da oferta quanto a lei da demanda. Quando o preço desse bem aumenta, menos 14 pessoas estão dispostas a morar nesse imóvel só que mais pessoas estão interessadas em disponibilizar para locação sua residência. Gráfico 5 - Preço de equilíbrio no mercado imobiliário Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). Sem interferência governamental, percebemos que esse mercado tende a um preço de equilíbrio, determinado pela intersecção das curvas, em laranja, no Gráfico 5. Note que quando o aluguel está na faixa de 𝑅𝑅$ 1.875,00 percebemos a mesma quantidade de demanda e oferta: 3.000 inquilinos. 3.2 Teto de preço O que acontece quando colocamos um teto de preços (por exemplo, congelamos o preço) de determinado bem? Vamos imaginar que a política atual decide fixar um valor máximo de aluguel em 𝑅𝑅$ 1.500,00 buscando que cada indivíduo possa encontrar um lugar para morar por um preço adequado. Nesse 15 caso, existe um controle governamental. Perceba, no Gráfico 6, o que ocorre nesse caso. Gráfico 6 - Escassez gerada pelo teto de preços Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em infogram.com). Dado o teto de preços fixado em 𝑅𝑅$ 1.500,00, não haverá imóvel sendo locado por mais desse valor. Entretanto, os donos desses imóveis não são obrigados a locá-los no preço estipulado pelo governo. Dessa forma, a leitura do Gráfico 6 indica que apenas 2.700 imóveis estarão à disposição para serem locados, contra 3.300 inquilinos que pagariam até esse valor para morar lá. Perceba que a medida que o governo impôs gerou uma escassez no mercado, dada, nesse caso, por: 3.300 − 2.700 = 600 unidades. 3.3 Ineficiência Em economia, compreendemos que um recurso está distribuído de forma eficiente quando não podemos melhorar a situação de alguém sem impor custo a alguém. Note que, se não houvesse o teto de preços, a situação econômica 16 estaria melhor no sentido de que quem gostaria de alugar seu imóvel conseguiria um inquilino. Afinal, no preço de equilíbrio temos 3.000 imóveis alugados contra 2.700 alugados sob intervenção governamental. Além disso, a ineficiência na gestão de recursos impacta na baixa qualidade dos produtos ofertados. Se existe um teto de preços para os produtos ofertados, os vendedores não têm incentivo para melhorar o seu produto, dado que não poderão repassar esse preço ao consumidor final. Por fim, o teto de preços também incentiva a formação de mercados negros, isto é, a realização da atividade bloqueada de forma informal. 3.4 Piso para preços Assim como o governo pode estabelecer um teto para o preço, também pode estabelecer um piso, isto é, um preço mínimo pelo qual um produto pode ser comercializado. Mesmo não sendo a regra geral, esse tipo de ação busca favorecer, por exemplo, pequenos agricultores que não podem ter sua renda prejudicada devido aos efeitos da economia. Você é capaz de mostrar que um piso para preços gera um excedente de produto no mercado e, economicamente, também gera ineficiência. Isso porque ocasiona desperdício de recursos, que não são comercializados ou porque ocasiona uma qualidade elevada quando não solicitada (que poderia reduzir o preço do bem). Além disso, um piso para os preços também pode ocasionar o surgimento de um mercado paralelo. TEMA 4 – INTERVENÇÃO NOS MERCADOS As medidas econômicas governamentais não se resumem apenas a definir um teto ou um piso para o preço de determinado produto. O governo também pode estabelecer cotas, isto é, quantidades mínimas ou máximas de produto que podem ser comercializadas. 4.1 Uso de cotas na proteção ambiental Políticas de prevenção ambiental são, em economia, cotas aplicadas a determinada atividade comercial. Podemos citar o limite imposto pelo governo ao desmatamento da Amazônia ou as políticas de defeso para alguns peixes: épocas do ano em que os pescadores são proibidos de pescar essas espécies a fim de preservá-la para a posteridade. 17 Suponha que o comércio de robalo, um peixe típico do sul do país, tenha sua oferta e demanda dada em função do seu preço, de acordo com os dados da Tabela 6. Tabela 6 - Oferta e demanda do robalo Quantidade de robalo (em toneladas por ano) Preço do Robalo/𝑘𝑘𝑘𝑘 Demandada Ofertada 𝑅𝑅$ 50 6 15 𝑅𝑅$ 40 7 13 𝑅𝑅$ 30 8 11 𝑅𝑅$ 20 9 9 𝑅𝑅$ 10 10 7 Fonte: Pianezzer, 2023. Para manter a preservação dos peixes, o governo decide colocar uma cota de sete toneladas de robalo que poderão ser pescados ao longo do ano. Ao atingir essa meta, inicia-se o período de defeso pelo resto do ano. Vejamos o efeito dessa cota observando o Gráfico 7 de oferta e demanda desse peixe. Como você já se acostumou, representei no gráfico a função demanda em verde e a função oferta em roxo, sendo o ponto em laranja o preço de equilíbrio de 𝑅𝑅$ 20,00 em que são comercializadas nove toneladas por ano de robalo. Entretanto, dada a cota de comércio máximo de sete toneladas, o que acontecerá nesse cenário? Ainda no Gráfico 7, marquei com uma linha vermelha a formação de uma cunha. Nesse nível de sete toneladas por ano, o preço pago pelos consumidores sobe para 𝑅𝑅$ 40,00/𝑘𝑘𝑘𝑘, entretanto o preço de oferta é de apenas 𝑅𝑅$ 20,00/𝑘𝑘𝑘𝑘. A diferença nesse preço, 40,00 − 20,00 = 20,00, acaba para os pescadores, que vendem o peixe mais caro do que precisam. 18 Gráfico 7 - Oferta e demanda de robalo Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). TEMA 5 – IMPOSTO SELETIVO Quando o governo decide aplicar um imposto seletivo ou sobre a venda ou sobre a compra de determinado bem, consegue realizar um efeito parecido ao período de defeso dos robalos. Entretanto, a receita extra arrecadada sai das mãos dos pescadores e vai para a mão do governo. 5.1 Imposto sobre a venda Vamos supor um caso similar ao que ocorreu no comércio de robalo, mas, em vez de imaginar a existência de uma cota com vistas ao defeso do peixe, o governo decide estabelecer um imposto unilateral aplicado, porexemplo, apenas aos pescadores. Suponha a existência de um imposto de 30 reais para cada quilo de robalo comercializado: valor exagerado só para facilitar nossa visualização. O efeito dessa política faz com que a curva de oferta se desloque para cima, conforme apresentado no Gráfico 8. 19 Gráfico 8 - Imposto seletivo na oferta de robalo Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). Perceba o que ocorreu nesse cenário. Em um primeiro momento, a imposição de um imposto deslocou a curva de oferta, em roxo, para cima. Agora, os comerciantes aceitam vender menos peixe a um dado preço, pois precisam pagar o imposto. Como a curva de demanda não mudou, gerou-se um novo preço de equilíbrio, nesse caso dado por 𝑅𝑅$ 40,00/𝑘𝑘𝑘𝑘. Entretanto, se não houvesse imposto, alguns pescadores aceitariam vender peixe por 𝑅𝑅$ 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘, mas não o fazem. Note que se formou uma cunha, equivalente ao problema anterior. Nesse caso, a quantidade de robalo acabou fixada em sete toneladas por ano, reproduzindo o efeito da época de defeso dos animais, mas a receita extra obtida não acabou na mão dos pescadores: tornou-se uma receita governamental. Marquei com o retângulo em vermelho o tamanho da arrecadação realizada por essa política: é representada pela área da figura. Claro que podemos usar integração, quando generalizarmos esses conceitos, mas observe que nesse caso basta multiplicar (7 − 0 toneladas). (40 − 10) = 210.000 reais. 20 5.2 Imposto sobre a compra Vejamos o que ocorre quando quem paga o imposto é o comprador de determinado bem. Embora nesse cenário do robalo seja muito difícil cobrar imposto de um comprador, podemos usar esse exemplo para verificar as consequências desse tipo de ação. Para isso, vamos supor que o governo imponha um imposto de 10 reais no preço do robalo/kg. Em um primeiro momento, isso faz com que a curva de oferta se desloque para baixo, como apontado no Gráfico 9. Gera-se um novo preço de equilíbrio: de 𝑅𝑅$ 20,00/𝑘𝑘𝑘𝑘 chegamos a 𝑅𝑅$ 15,00/𝑘𝑘𝑘𝑘. Só que, sem a presença de imposto, existem compradores que estariam interessados em comprar o robalo, mesmo havendo vendedores disponíveis. Ao observar a cunha nesse cenário, temos 25,00 − 15,00 = 10,00/𝑘𝑘𝑘𝑘. A área também pode ser utilizada para calcular a quantidade arrecadada pelo governo: (8 − 0 toneladas)(25 − 15) = 80.000 reais. Gráfico 9 - Imposto seletivo na demanda de robalo Fonte: Pianezzer, 2023. (Desenvolvido em Infogram.com). 21 NA PRÁTICA Considere que o preço de salmão é estabelecido pelos dados de oferta e demanda compilados na tabela a seguir: Quantidade de salmão (em toneladas por ano) Preço do salmão/𝑘𝑘𝑘𝑘 Demandada Ofertada 𝑅𝑅$ 122 0 140 𝑅𝑅$ 120 20 140 𝑅𝑅$ 118 40 140 𝑅𝑅$ 116 60 140 𝑅𝑅$ 114 80 140 𝑅𝑅$ 112 100 140 𝑅𝑅$ 110 120 140 𝑅𝑅$ 108 140 80 𝑅𝑅$ 106 160 60 𝑅𝑅$ 104 180 20 Para preservar a quantidade de salmão no mundo, o governo decide aplicar um imposto seletivo sobre a venda de 𝑅𝑅$ 2,00/𝑘𝑘𝑘𝑘. Explique os efeitos dessa política, representando o gráfico da função, a formação da cunha e o imposto arrecadado. FINALIZANDO Nesta abordagem, conseguimos discutir sobre uma ferramenta matemática comum: funções, que permitiu analisar o comportamento de curvas de oferta e de demanda. Nos próximos conteúdos, vamos compreender como o uso de derivadas também permite realizar uma análise sobre a diferença entre duas curvas de oferta ou demanda quaisquer. Para isso estudaremos o conceito econômico de elasticidade. 22 REFERÊNCIAS ARAUJO, J. P. Economia matemática, aplicações e história. Lisboa: Actual, 2022. GUJARATTI, D. PORTER, D. C. Econometria básica. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2011. KRUGMAN, P. Microeconomia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. KRUGMAN, P. Macroeconomia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. SANTOS, l. R. A. Introdução à econometria. Curitiba: Intersaberes, 2019. SILVA, C. R. L. Economia e mercados: introdução à economia. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. WATSON, M. W.; STOCK, J. H. Econometria. São Paulo: Pearson, 2004.