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Codificação: uma introdução* Paolo Cappellini** O termo “codificação” pode, e foi, empregado em múltiplos campos e com múltiplos significados; não seria de se surpreender visto que indica o processo de atividade que tem como seu produto final um “código”, palavra, por sua vez, intrinsecamente polissêmica e utilizável em uma pluralidade de campos disciplinares, que vão das ciências sociais às humanas e naturais (code de la langue, código fonológico, código semântico; código parental, código dos mitos, código estético, códigos artisticos e literarios; códigos das várias culturas; código genético, códigos da comunicação animal, código icônico, código da percepção, código dos processos neurofisiológicos; código de classe, códigos etnolingüisticos, códigos de comportamento interativo, etc.). O significado que aqui nos interessa se refere ao contexto a partir do qual provavelmente iniciou-se a sua difusão, isto é, o jurídico. Mesmo neste último, todavia, resta em aberto o problema de uma determinação mais rigorosa. De fato, em primeira instância, o vocábulo permite uma definição geral, que permanece, em certo sentido, atemporal e refere-se, para usar as palavras de Max Weber, à “intervenção do imperium, e, especialmente, do imperium do príncipe, na vida jurídica que em todos os lugares contribuiu para a unificação e sistematização do direito, isto é, para a sua “codificação” – e isso aconteceria mais na medida em que o seu poder se configurasse de forma forte e estável”. Nesse sentido, pode-se falar, por exemplo, de codificação e de “códigos” inclusive em relação ao Antigo Oriente Médio para as leis sumérias, babilônicas, assírias, hititas, bíblicas e egípcias (o “código” de Ur-Nammu; o “código” de Lipit-Istar; o “código” de Hammurabi, etc.); mas com notável consciência, freqüentemente ausente entre os próprios juristas, o assirólogo e epigrafista deu-se conta desde o início que aquilo que nós chamamos impropriamente “códigos” são, na realidade, algo muito diverso dos nossos. São compilações de normas, expressas uma ao lado da outra com uma sucessão de argumentos que freqüentemente não tem relação entre si. Uma outra característica dos códigos orientais é que nenhum deles é completo. Faltam matérias inteiras, nem é possivel dizer que as matérias presentes foram tratadas de maneira exaustiva. Ao contrário, às vezes são examinados casos que, alguém assim notou, deviam ser raros. (SAPORETTI, 1998). Como acenávamos, esta consciência, que induz a colocar entre aspas a palavra, permanece, freqüentemente, obscurecida entre os cultores do direito na esteira de dois fenômenos heterogêneos, ainda que concomitantes: por um lado, o peso histórico da tradição romanística, e, de outro, tendências culturais recentes, de ascendência variada, mas que podem ser inscritas nos filões do pensamento jurídico pós-moderno, do debate sobre “decodificação versus recodificação” e sobre globalização, para que nos entendamos, em extrema síntese. No que tange ao primeiro aspecto, assumido o valor paradigmático do ius romanum para toda a experiência jurídica ocidental, especialmente a moderna, não restaria dúvida que – com algumas distinções em relação aos códigos pré-justinianeus Gregoriano, Ermogeniano e Teodosiano (os dois primeiros, em verdade, do séc. III d.C., compilações privadas sem caráter oficial e somente o terceiro, de 438 d.C., publicado pelo imperador Teodósio II, e, portanto, autêntico texto legislativo) – a grande obra legislativa de Justiniano (levada a cabo entre 528 e 542), que, a partir do Renascimento passou a chamar-se Corpus iuris civilis (composta, como se sabe, de quatro obras distintas, os Digesta, o Codex, as Institutiones, as Novellae), teria como escopo totalmente explícito * “Codificazione”, tradução da língua italiana por Ricardo Sontag. ** Professor catedrático de História do Direito Medieval e Moderno na Università degli Studi di Firenze, Itália. 1 versar o antigo pensamento jurídico (ou, melhor dizendo, a parte considerada melhor, já que as fontes utilizadas foram o resultado de um trabalho preliminar de seleção) na forma de um código (no sentido moderno do termo), isto é, de um texto normativo; mas a cultura jurídica tardo-antiga reservava a palavra codex somente às compilações de constituições imperiais, de modo a integrar orgânicamente, do ponto de vista do direito vigente, os antigos iura (como eram chamadas as obras dos juristas do passado) com as novas leges (isto é, as constituições imperiais) no renovado ordenamento que se pretendia construir. (SCHIAVONE, 2003) Naquilo que concerne ao segundo fenômeno, o alargamento da esfera de utilização do termo parece particularmente incentivada, no léxico do atual estudioso do direito positivo, pela atual desconfiança em relação aos maxicódigos, tal qual os conhecemos nos últimos três séculos, e pelo debate sobre o chamado método de codificação à direito constante (que encontra o seu protótipo na atividade da transalpina ‘Commission supérieure de codification’ instituída em 1989), ou seja, em larga medida uma ‘codificação’ não inovativa, mas simplesmente racionalizadora do direito existente (nesse sentido, fala-se em Códigos dos consumidores, dos jornalistas, dos seguros, das profissões jurídicas, dos transportes, dos correios e telecomunicações, etc.); mas também do renovado debate pró ou contra um Código comum europeu (geral ou somente das obrigações e contratos; em princípios ou sob a forma de Restatement anglo-saxão, etc.). Sem dúvida, existem elementos dignos de nota que estas tendências interpretativas colhem, individuando como denominador comum do processo de codificação a “estabilização do instável”, mas estes elementos já haviam induzido a historiografia jurídica mais advertida, sob a sombra de Mario Viora (1967Nt1), a cunhar um termo diferente – o de ‘consolidação’, precisamente - e estes elementos parecem, no geral, muito frágeis para justificar, para além de uma freqüente e inevitável persistência lexical, a utilização “imprópria” do termo como invólucro unitário, fora de uma colocação espaço-temporal bem definida, que enxergue aquilo que para os historiadores do direito é o Código (juntamente com o seu processo de formação, com o processo de ‘codificação’, que não termina necessariamente na sua publicação), bem distinto de tantas outras realidades heterogêneas e profundamente diversas por origem e função: Os tênues elementos associados – que existem – não devem enfraquecer a absoluta tipicidade histórica daquela escolha fundamental da civilização jurídica moderna que pôde se definir completamente entre os séculos XVIII e XIX na Europa continental, escolhida não por esta ou aquela política contingente, mas tão radical a ponto de se colocar como marco fronteiriço na história jurídica ocidental, assinalando um “antes” e um “depois” caracterizados por uma íntima descontinuidade, escolha que permite aos historiadores falar corretamente de “Código símbolo”, “Código mito”, de “forma Código”, de “idéia de Código” (GROSSI, 2004, p. 105). Antes de tudo, então, o Código é típico filho (e dever-se-ia acrescentar ‘revolucionário’) da Modernidade e do seu ‘Absolutismo jurídico’: o Código moderno nasce como experiência alternativa à Ordem jurídica medieval (e do Antigo Regime); como tentativa de instaurar uma unidade geral (contraposta à ‘comum’) no ordenamento jurídico que assinale o definitivo triunfo da loi sobre o droit (segundo a oposição construída por Jean Bodin), do direito positivo (justo por si só) sobre a justiça, e da onipotência do legislador sobre a ‘iurisprudentia’ do jurista. A primeira grande onda de codificações modernas foi gerada por aquilo que pode ser definido como a “aliança” entre Jusnaturalismo e Iluminismo, e encontra o seu cume secularizantedefinitivo, não por acaso, a partir da experiência revolucionária francesa cristalizada por Napoleão, no Code Civil de 1804. A primeira característica comum dos códigos modernos que salta aos olhos é que eles se distinguem de todas as tentativas precedentes de re-escritura ou ‘racionalização’ do direito vigente pelo fato que eles Nt1 1967 é a data da terceira edição da obra. A primeira edição, sem data, foi publicada pela editora Zanichelli em Bologna (PETRONIO, Ugo. Codice: una categoria storiografica da rivedere. Quaderni fiorentini per la storia del pensiero giuridico moderno, n. 13, 1984. p. 45, nota 2). 2 não pretendem, justamente, consolidar, ordenar, melhorar (em uma palavra, “reformar”) ou desenvolver sob o signo da continuidade o direito pré-existente (como foi o caso, por exemplo, das Ordonnances francesas – de Luís XIV e do seu ministro Colbert sobre o processo civil (1667), penal (1670), comercial (1673), da navegação (1681); e depois de Luís XV e do chanceler d’Aguesseau, sobre doações (1731), testamentos (1735) e fideicomissos (1747) – ou das Reformationen alemãs do séc. XVI); mas têm, mais do que isso, o escopo de preparar uma replanificação completa de toda sociedade mediante um reordenamento integral de todo o sistema normativo (WIEACKER). Então, a partir dos elementos recolhidos, estamos agora diante da tarefa, não mais totalmente inatíngivel, de delinear os caracteres ‘próprios’ do fenômeno codificatório moderno que, em extrema e consciente paradoxal concisão, poderia literalmente definir-se como a primeira (e certamente mais fortunada e louvada em relação às ‘(des)venturas’ da sucessiva aplicação no campo econômico) emersão da idéia de modelo, de planificação no campo jurídico. E, como os seus ulteriores “traços historicamente caracterizantes” (fonte unitária garantidora da unidade da entidade-Estado; fonte completa sem ‘lacunas’, portanto; fonte exclusiva) assinalam, o campo jurídico da idéia de Código será ulteriormente especificado, sublinhando o seu valor constitucional; retomando sugestões de vários autores, não seria arriscado, de fato, afirmar, diante da mutabilidade e fragilidade dos ditados constitucionais (mais ou menos ‘flexíveis’) do início do século XIX, que o Código (civil, com o reforço de tutela constituído pelo penal) representa a verdadeira, ‘granítica’, Constituição do Estado da burguesia em ascensão. O Code Napoleon (o principal ‘modelo’ neste contexto histórico), então, como “Constitution civile de la France”: O Code Napoleon é uma Constituição civil (- ‘burguesa’) porque não é – não somente e não exclusivamente – um código (com letra minúscula) de direito civil (isto é, ‘privado’), mas, ainda, e fundamentalmente, um Código (com letra maiúscula) da sociedade civil, com o escopo, exatamente, de estruturar esta sociedade, de revelá-la a si mesma, de organizá-la e consolidá-la definitivamente (GAUDEMET). Se quiséssemos sintetizar em uma fórmula simplificada, mas não traidora, quase em um slogan, o sentido deste processo histórico, poderíamos, talvez, exprimi-lo assim: o Código (e a codificação) como experiência de auto-revelação (planificada pelo alto) da nova sociedade civil a si mesma. Um processo que a sociedade européia, jogando com o caráter de ‘modelo’ exportável (a própria palavra italiana ‘modelar-se’, no sentido de conformar-se a um modelo, como tivemos ocasião de mostrar, traz a sua origem primeira da referência à função de modelo exercida pelo Código Napoleão) assumido pelo Código moderno (pelo menos nas versões ‘produtivas’ de muitas imitações do Code civil, primeiro, e do tardio BGB alemão de 1900, depois), aplicou progressivamente a si mesma, para depois contribuir largamente (ainda que freqüentemente de maneira nada indolor) a ‘mundializar’. Bibliografia ECO, Umberto. Codice. In: Enciclopedia Einaudi ,vol. III. Torino: Einaudi, 1978. p. 243- 281. SAPORETTI, C. Antiche Leggi . I “Codici”del Vicino Oriente Antico. Milano, 1998. SCHIAVONE, Aldo (a cura di). Diritto privato romano. Un profilo storico. Torino, 2003. UNGARI, Paolo. Per la storia dell’idea di codice. Quaderni fiorentini per la storia del pensiero giuridico moderno, 1, 1972. p. 207-227. 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