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AO JUÍZO DE DIREITO DE UMA DAS VARAS CRIMINAIS DA COMARCA DE MOSSORÓ – ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
Processo n°,
Autora: Helena Andrade
Ré: Marcelo Duarte
MARCELO DUARTE, brasileiro, 29 anos, portador do RG n°..., CPF n°..., residente e domiciliado na Rua... n°..., Bairro..., CEP:.., Mossoró/RN. Neste ato representado por seu advogado infra-assinado, conforme instrumento de procuração em anexo, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, com fulcro no artigo 396-A do Código de Processo Penal, apresentar sua:
CONTESTAÇÃO
Em face da ação penal incondicionada oferecida pelo Ministério Público, pela prática, em tese, do crime de estelionato qualificado pela fraude eletrônica e majorado pela condição de pessoa idosa da vítima Helena Andrade, nos termos do art. 171, §2º-A e §4º, do Código Penal e fatos a seguir expostos.
I – SÍNTESE DOS FATOS
FATOS E CONDUTA
Em síntese, conforme se extrai dos autos, indivíduos não identificados, mediante contato telefônico fraudulento, passaram-se por funcionários da instituição bancária da vítima, informando acerca de supostas “movimentações suspeitas” em sua conta e solicitando a confirmação de dados pessoais e bancários. De posse dessas informações, realizaram transferências indevidas, totalizando o montante de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), para diversas contas.
Apurou-se que parte desses valores foi direcionada à conta bancária do acusado Marcelo Duarte, motivo pelo qual foi instaurada investigação em seu desfavor. Os fatos narrados detalham a obtenção de vantagem ilícita em prejuízo alheio mediante o induzimento em erro, que é o núcleo do crime de Estelionato.
No entanto, em sede de interrogatório, o acusado declarou ter apenas cedido sua conta a terceiros, acreditando tratar-se de operações lícitas, sem conhecimento acerca da origem ilícita dos valores ou de eventual utilização de sua conta para fins criminosos. Então, evidencia-se a ausência de dolo na conduta do acusado, não havendo elementos que demonstrem sua participação consciente no delito narrado na denúncia.
SÍNTESE FÁTICA E TESE CENTRAL DA DEFESA
A contestação reconhece a ocorrência da fraude eletrônica contra a vítima Helena Andrade (72 anos) por terceiros não identificados. O ponto central de divergência com a denúncia reside na conduta do réu:
Versão da Defesa: Marcelo Duarte emprestou sua conta bancária a terceiros, mas acreditava tratar-se de transações lícitas, sem ter ciência da origem ilícita dos valores ou de que estaria intermediando qualquer crime.
Conclusão Jurídica da Defesa: A conduta do acusado foi desprovida de dolo, não havendo participação no delito de Estelionato descrito na denúncia.
II - DAS PRELIMINARES
A) FALTA DE PROVA SUFICIENTE DE AUTORIA E DOLO
No crime de estelionato, como em qualquer outro delito, a ausência de autoria, leva à absolvição do acusado com base no princípio do in dubio pro reo. No caso em exame, não foi apresentada nenhuma prova de autoria que comprovasse a intenção de dolo da parte ré em cometer a fraude contra a vítima Helena Andrade.
Rogério Grego diz que:
“A caracterização do estelionato exige prova firme de que o agente, desde o início, tinha o propósito de enganar a vítima para obter vantagem ilícita. Quando inexistem elementos que comprovem esse propósito, não há falar em condenação.” (Obra: Curso de Direito Penal – Parte Especial, Vol. 3)
A este respeito já julgou o TJ/SP:
DIREITO PENAL. REPRESENTAÇÃO CRIMINAL. PREFEITO MUNICIPAL. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. ARQUIVAMENTO. 1. Caso em Exame Representação criminal instaurada contra o Prefeito de Ihabela, por supostas irregularidades na contratação da Empresa Expresso Fênix sem licitação. A denúncia, enviada por e-mail, não apresentou descrição fática ou suporte probatório suficiente para iniciar investigação criminal. I. Questão em Discussão 2. A questão em discussão consiste em verificar se há elementos mínimos que justifiquem a instauração de investigação criminal contra o Prefeito de lhabela. Il Razões de Decidir 3. A "denúncia" não apresentou indícios mínimos de autoria e materialidade que permitam a deflagração de investigação criminal, conforme entendimento do STJ e STF sobre a necessidade de justa causa para investigações. 4. A Procuradoria Geral de Justiça manifestou-se pelo arquivamento, destacando a ausência de elementos que indiquem a prática de crime pelo Prefeito, sendo a homologação do arquivamento obrigatória. IV. Dispositivo e Tese 5. Pedido de arquivamento homologado. Tese de julgamento: 1. A instauração de investigação criminal requer justa causa, com indícios mínimos de autoria e materialidade. 2. A ausência de tais elementos justifica o arquivamento da representação criminal. Legislação Citada: Constituicão Federal, art. 29,X; Código de Processo Penal art. 18 . Jurisprudência Citada: STJ, HC no 95.91
7/SC, Rel. Min. Nilson Naves , j. 20.08.2009. TJSP. Procedimento Investigatório Criminal (PIC-MP) no XXXXX-86.2016.8.26.0000 ,Rel. Diniz Fernando, j. 08.08,2016. TJSP, Procedimento Investigatório Criminal (PIC-MP) n' XXXXX-29.2020.8.26.0000, Rel. Mario Devienne Ferraz .j. 09.07.2020. TJSP、 Procedimento Investigatorio Criminal (PIC-MP) n" XXXXX 02.2024.8.26.0000 1 Camara de Direito Criminal, Relator Flavio Fenoglio , j em 12.11. 2024
Dessa forma, não há prova mínima de autoria que justifique o prosseguimento da ação penal. O simples fato de valores ilícitos terem transitado na conta do acusado não é suficiente para concluir a participação no golpe.
III – DO MÉRITO
A) DESCONHECIMENTO DA ORIGEM ILÍCITA DOS VALORES
Não há qualquer elemento apresentado nos autos, que comprove que o acusado tenha concorrido intencionalmente para a prática de fraude contra a vítima. O próprio denunciado, em interrogatório, afirmou ter emprestado sua conta bancária a terceiros em troca de uma pequena comissão, sem ter conhecimento que era uma conduta criminosa.
Para a configuração do crime de estelionato, exige-se dolo específico, ou seja, a intenção de obter vantagem ilícita em prejuízo alheio, mediante ardil. A mera negligência ou imprudência em permitir o uso da conta não caracteriza o tipo penal do art. 171 do Código Penal.
B) AUSÊNCIA DE VÍNCULO OU CONLUIO COM A FRAUDE
A defesa sustenta a inexistência de vínculo ou conluio entre o acusado e os reais autores da fraude, afastando qualquer hipótese de concurso de pessoas, conforme dispõe o art. 29 e 30 do Código Penal. Defendendo que sua participação (cessão da conta) não estava ligada ao ardil que induziu a vítima ao erro. Desse modo, pela alegação do desconhecimento da ilicitude, afasta o dolo e o liame subjetivo necessário para o concurso de agentes no Estelionato formulada pelo Ministério Público.
C) VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA
A contestação alega a violação ao princípio da presunção de inocência, que está presente no artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal que dispõe ‘ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.” Esse princípio impõe que a dúvida sempre favoreça o réu, cabendo ao Ministério Público o ônus de demonstrar a materialidade e autoria do delito. Ausentes provas, impõe-se o reconhecimento da insuficiência probatória e, ademais, a absolvição do réu, nos termos do art. 386, inciso VII, CPP.
III - DO PEDIDO
Diante do exposto, a Defesa requer a Vossa Excelência:
1. Que os pedidos do Requerente sejam julgados TOTALMENTE IMPROCEDENTES, nos termos da presente contestação.
2. O recebimento da presente contestação e a análise dos fundamentos jurídicos apresentados.
3. Produção de PROVA TESTEMUNHAL E PERICIAL, para comprovar a autoria da participação no crime.
4. A ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA do denunciado MARCELO DUARTE do crime de Estelionato Qualificado e Majorado (Art. 171, § 2º-A, § 4º, do CP), por manifesta ausência de dolo no cometimento do núcleo do tipo (Art. 397, III, do CPP).
5. O reconhecimento da VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA, sendo improcedente a denúncia, diante da inexistência de provas concretas de autoria na conduta imputadaao acusado.
A contestação está bem fundamentada na ausência de dolo e na falta de prova de autoria do Estelionato, opondo a versão do réu ("emprestou a conta sem saber da origem ilícita") à tese do conluio do Ministério Público. Caso a absolvição sumária não seja deferida, o ônus da prova de que Marcelo Duarte agiu com o dolo de Estelionato recairá sobre o órgão ministerial durante a instrução processual.
Por fim, a parte Ré manifesta desde já seu interesse em participar de eventual audiência de instrução e julgamento, com intuito de sustentar oralmente seus argumentos, garantindo a ampla defesa e o contraditório
Nestes termos,
pede e espera deferimento.
Mossoró/RN, 10 de novembro de 2025
ADVOGADO
OAB n°
Anexos:
1. Procuração ad judicia