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DIREITOS HUMANOS Direitos humanos são direitos básicos que devem ser garantidos a todo ser humano independentemente de sua condição. O significado parece simples, mas definir o que são condições mínimas para que qualquer ser humano, em qualquer lugar do planeta, viva de forma digna é uma tarefa complexa, mais ainda se pensarmos que essas condições se modificam ao longo do tempo. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948. Quando falamos de direitos humanos, geralmente nos referimos à Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, que é um marco importante na história dos direitos humanos. No entanto, é fundamental reconhecer que, antes dessa declaração ser escrita, houve um longo caminho na construção de direitos básicos, com interesses que se modificam com o passar do tempo. Para compreendermos o que são os direitos humanos no século XXI, precisamos observar o desenvolvimento das necessidades dos seres humanos ao longo do tempo e as lutas travadas para desenvolver esse conceito. É certo que, se observarmos cada sociedade, desde os primeiros povos, veremos que cada uma teve suas urgências e que, em alguns momentos, foi preciso estabelecer um conjunto de leis, regras ou ideias para garantir o mínimo de dignidade e condições de sobrevivência para todos. Ao longo do tempo, as guerras aconteceram e deixaram alguns grupos mais interessados em garantir sua integridade do que outros. Tecnologias foram sendo criadas e vistas como fundamentais para uma condição digna de vida. Cada época tem suas necessidades básicas, que surgem em um determinado contexto. Exemplo Com o avanço da tecnologia e o crescente acesso à internet, o direito à conectividade digital tem sido cada vez mais considerado essencial. Durante a pandemia da covid-19, a internet se tornou vital para a educação, o trabalho e o acesso a serviços de saúde. Isso mostrou como a conectividade digital é crucial para garantir oportunidades e uma vida digna no contexto atual. À medida que o tempo passa e fatos acontecem, outras dificuldades aparecerão e nos farão repensar o que consideramos essencial para viver. Primeiras declarações de direitos As primeiras referências ao termo direitos humanos datam dos séculos XVII e XVIII, na Europa Ocidental, quando se vivia a chamada crise do absolutismo, ou seja, no momento em que a ideia de um governante soberano com todos os direitos concentrados em suas mãos perdia força (Hunt, 2009). Nos séculos XVII e XVIII, a expressão “direitos humanos” não tinha o mesmo conteúdo político e legal que conhecemos atualmente. Era usada apenas como um contraponto aos direitos divinos. As ideias dos filósofos do Iluminismo — movimento intelectual do século XVIII que questionou os princípios políticos e religiosos da época — inspiraram os liberais a lutarem contra os absolutistas, criando um “Estado de direito”, esse Estado tinha sua organização determinada pelo uso das leis. Esse período também é conhecido como a “era dos direitos” (Bobbio, 1992). Segundo a historiadora Lynn Hunt, foi o Iluminismo que materializou a noção de direitos básicos para todos, principalmente por meio de dois documentos: a Declaração de Independência, dos Estados Unidos, e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, escrita durante a Revolução Francesa. Declaração de independência dos Estados Unidos Esse documento foi resultado da insatisfação dos estadunidenses, naquele momento conhecidos como as Treze Colônias Inglesas da América, com a metrópole Inglaterra. Na época, os colonos viviam com uma relativa independência política e econômica até que foram convocados pela Inglaterra a se envolver numa guerra contra os franceses, a Guerra dos Sete Anos. Mesmo indo à batalha e garantindo a vitória inglesa no conflito, os americanos se viram, ao final da Guerra dos Sete Anos, obrigados a pagar dívidas inglesas e a obedecer a ordens autoritárias da metrópole. Insatisfeitos, os colonos se reuniram e escreveram uma carta ao rei e ao parlamento inglês, na qual declaravam sua fidelidade à Inglaterra, mas reclamavam das medidas adotadas. A carta não teve a resposta esperada e, em 1776, os colonos americanos voltaram a se reunir no Segundo Congresso da Filadélfia, onde redigiram a Declaração de Independência, na qual informavam à metrópole os motivos pelos quais estavam rompendo com a Inglaterra e não fariam mais parte do reino inglês. Declaração de Independência, John Trumbull, 1819. Essa declaração americana anuncia que todos os homens são criados iguais por Deus e que recebem Dele direitos que não lhes deveriam ser retirados: a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Esses direitos são vistos pelos autores do documento como verdades 'autoevidentes', ou seja, direitos natos a todos os seres humanos que, caso não sejam respeitados pelo governo, dão ao povo o direito e o dever de substituir o governante ou mudar as regras da política até que possam ser desfrutados com segurança. A finalidade da declaração de independência dos Estados Unidos não era estabelecer direitos básicos, pois, segundo os redatores, esses direitos são autoevidentes e estariam naturalmente disponíveis em uma nação justa. Em vez disso, o documento argumentava a necessidade de rompimento com a metrópole devido à falta de respeito a esses direitos, criando as bases para a nova nação que iria surgir. A declaração de independência dos Estados Unidos demonstrou as intenções daquele momento, mas ainda não tornava oficiais esses direitos, o que só aconteceu posteriormente, em 1787, quando foi assinada a Constituição dos Estados Unidos. Neste novo documento, nota-se que alguns daqueles direitos autoevidentes não foram respeitados. As leis estadunidenses permitiam que a escravidão permanecesse legal nos Estados Unidos, recusando aos trabalhadores escravizados ao menos dois dos três direitos básicos apresentados na declaração de independência, como a liberdade e a busca pela felicidade. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Foi resultado de um conflito que teve início com a insatisfação do povo com o seu governante. Dessa vez, o descontentamento era dos franceses com o rei absolutista Luís XVI. Após o envolvimento da França para apoiar os americanos na Guerra de Independência dos Estados Unidos, o monarca francês tentou controlar a crise econômica aumentando os impostos cobrados da população, mas manteve as classes privilegiadas isentas de contribuição. Inspirados também pelos valores iluministas, o povo se rebelou e se proclamou, em Assembleia Nacional, para subordinar o rei a uma constituição. Assistindo às movimentações nas ruas e sem conseguir controlar a situação, o rei reconheceu a legitimidade da Assembleia e orientou que os grupos privilegiados também fossem cobrados. Em 1789, com todas as classes reunidas, a Assembleia francesa aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Assembleia Nacional que aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão defendeu que a ignorância, a negligência ou o menosprezo aos direitos dos homens eram a razão da difícil situação em que o povo se encontrava e que, para mudar a situação, era necessário defender de forma solene os direitos considerados naturais, inalienáveis e sagrados do homem. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão também afirma a existência de direitos naturais aos homens. Porém, diferentemente da ideia americana, esses direitos não são evidentes por si só e precisam ser ditos e defendidos. Como podemos observar no primeiro direito da declaração francesa, que afirma que os homens não só nascem, como devem permanecer livres e iguais, ou seja, uma condição inerente ao ser humano e não provisória. Se compararmos a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, encontraremos diferençase direitos fundamentais, uma vez que compreendemos que alguns países elevam em suas constituições tais direitos (e outros de seu interesse) à categoria de direitos fundamentais. Pense na palavra fundamental: ela transforma a concepção de direitos humanos, uma proposição histórica, em direitos fundamentais (que não podem ser abdicados). Vamos então ratificar nossas conceituações sobre o tema, para facilitar ainda mais a nossa compreensão, entenda! Direitos humanos Visam assegurar, no plano internacional e nos respectivos sistemas jurídicos nacionais, as condições mínimas para a sobrevivência das pessoas, tais como o direito ao nascimento com vida e criação até a idade adulta, à integridade física e moral, além de temas como ir e vir, saúde, educação, trabalho, direitos políticos, acesso à justiça e outros temas relevantes para uma vida digna. Abrangem também as medidas de prevenção e reparação das violações ocorridas. Direitos fundamentais Estão assegurados na ordem jurídica interna de cada país e integram o rol de temas entendidos como superiores em categoria aos demais direitos que regula. Se tal país é signatário de documentos jurídicos internacionais que declaram direitos humanos, terá, em seu rol de direitos fundamentais, os mesmos direitos, além, eventualmente, de outros mais explicitados e que reflitam realidades nacionais, nem sempre dimensionadas no macro. Os direitos fundamentais podem refletir realidades de bens e interesses materiais e imateriais. Com tais conceituações, é possível chegarmos à conclusão de que países como o Brasil, por exemplo, têm uma dupla proteção jurídica no tocante aos direitos humanos e que tais expressões não são excludentes, mas sim fortalecedoras de que os sistemas jurídicos internacional e nacional estão afinados, cada qual ao seu modo. Competências, decisões e força coerciva: esses países irão tomar todas as providências para proteger os direitos de uma vida digna para as pessoas. E mais: na esfera internacional, os atores jurídicos são os países e estados membros (no caso dos blocos) e há, portanto, um predomínio da linguagem de direitos humanos mais ampla, com expressões macro indefinidas no detalhamento de como deveriam ser integralmente respeitados os direitos nos espaços políticos e jurídicos dos países. Entrada do Museu do Apartheid em Joanesburgo. É justamente aí que temos um grande problema de execução, pois há situações em que os países não conseguem pôr em prática os direitos humanos consagrados internacionalmente, considerando fatores locais, inclusive de natureza cultural, ligados a tradições e costumes diversos. Casos históricos do Apartheid na África do Sul e a mutilação de partes do órgão sexual feminino da Nigéria são alguns exemplos de tradição de culturas que são consideradas, por princípios, contra os direitos humanos. Já na esfera dos sistemas jurídicos internos dos países, o acesso primário à justiça é das pessoas naturais e jurídicas, normalmente visando esgotar o tema com as normas jurídicas mais próximas, entre particulares e particulares ou mesmo contra o poder público. Nesse espaço, para os países que fazem a diferenciação de direitos fundamentais, busca-se primeiro a proteção a essas normas, evoluindo-se, conforme o caso, instâncias e violações ao espaço de tutela e atuação de organismos internacionais. Exemplo É o caso da Comissão Interamericana de direitos humanos, criada para observar casos de violação. Os procedimentos começam com uma denúncia e podem culminar com sanções econômicas aos países signatários (OEA, 2021). No caso do Brasil, há um ingrediente a mais logo como princípio fundamental de nossa CRFB 88, que é a dignidade da pessoa humana. Essa é mais uma demonstração do Brasil como país. Na Assembleia Constituinte de 1987, o país valorizou a vida humana, assim entendida como o direito ao nascimento, à alimentação, à moradia, ao meio ambiente saudável, à criação dos pais em uma família, ao acesso à educação, ao trabalho, à segurança pública; e o direito de ir e vir, de competir e crescer em igualdade de condições pela propriedade privada, entre outros. Tudo isso deve ser assegurado às pessoas durante todo o seu tempo de vida. Aliás, no caso dos bebês, até antes, pois nosso Código Civil põe a salvo os direitos do nascituro. É possível afirmar que, em termos de documentos jurídicos, o Brasil é um país extremamente protetivo dos direitos humanos, do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e, claro, dos direitos fundamentais, não só na CRFB 88, mas também em sua legislação infraconstitucional. É também comum que os entes federativos do Brasil, isto é, a União, o Distrito Federal, os estados, territórios e municípios tenham em suas estruturas órgãos de tutela dos direitos humanos, como ministérios ou secretarias. Veja alguns exemplos! Município Ministério Secretaria Municipal de Assistência Social e direitos humanos. União Ministério da Mulher, da Família e dos direitos humanos. Estado Secretaria de Justiça, direitos humanos e Desenvolvimento Social. A imagem a seguir reflete certa confusão conceitual não só entre direitos humanos e direitos fundamentais, mas com o sistema jurídico como um todo, pois, se o direito está pautado para as relações das pessoas entre si e com o Estado, todas as áreas deveriam entender que os aspectos inerentes aos direitos humanos necessitariam estar presentes. Exemplo de relação entre os elementos. A existência de órgãos e estruturas públicas quase que exclusivamente dedicadas a proteger e tutelar essa categoria de direitos demonstra o quão longe estamos do equilíbrio e da naturalização de sua aplicação nas relações da vida. Agora que conseguimos decifrar essas questões terminológicas e seus significados, vamos voltar aos direitos humanos, sua classificação e teorias, de modo a compreendermos como, de fato, podemos atuar preventiva e reativamente para a proteção de tais direitos. Isso sem esquecer da percepção do que devemos ou não praticar como profissionais de mercado, pois já vimos que, quando lidamos com pessoas, também lidamos com um ou mais de seus direitos humanos. Considerações sobre a teorização e classificação dos direitos humanos Após tratarmos da terminologia e dos espaços dos direitos humanos e fundamentais, vamos trabalhar com a teorização e classificação dos direitos humanos, pois, dependendo do referencial de partida, a abrangência e aplicação prática deles pode variar muito. É preciso entender que base teórica e critério de classificação vamos seguir para o escopo de nossos objetivos. Partindo de um método mais tradicional, é possível buscar uma linha de raciocínio cronológico, tendo como referência maior a própria teorização e conceituação do direito, partindo da ideia do Jusnaturalismo, que contempla ideias e bens jurídicos em tese sempre presentes na proteção a ser consagrada ao ser humano em sociedade. Tratam-se de princípios atrelados à existência do próprio homem, não necessariamente dependentes da ideia posterior de humanidade, convívio coletivo e pactos sociais diversos. Comentário Historicamente, nas sociedades patriarcais como a nossa, adotamos “homem” para designar humanidade ou o total das pessoas. Teremos que reproduzir alguns desses usos, mas se aproximando da contemporaneidade eles ganham formas mais igualitárias de tratamento. Sem prejuízo dos diversos momentos e correntes do Jusnaturalismo, obviamente ele tem uma sustentação muito favorável à defesa de direitos humanos, considerando sua própria ideia formadora como algo inerente à existência do homem. Se existe o homem, sua vida em existência (principalmente coletiva) depende de standards mínimos para a sua manutenção, ao menos em teorização primária. Seguindo, em dualidade à ordem jurídica do direito natural, encontramos já bem-sedimentada e aceita na doutrina a ordem jurídica do direito positivo, que, apesar de ser apresentada como uma sucessora mais segura – menossuscetível a vontades e divindades potencialmente variadas para a essencialidade de proteção do ser humano originado do divino –, fica à mercê do caráter temporal de sua criação normativa e vigência. O apontamento inicial serve para inserirmos os direitos humanos como conteúdo capaz de estar em espaços e fontes do direito natural e do direito positivo, bastando, para isso, que os alicerces de cada movimento de teorização do direito os reconheçam como tal. Pela ótica do pensamento jusnaturalista e ético, a matriz orientadora da fundamentação dos direitos humanos prevalecentes tem um caráter mais Jusnaturalista ou de Positivismo Jurídico, vamos comparar! Jusnaturalista Matriz orientadora da fundamentação dos direitos humanos prevalecentes. Tem um caráter mais objetivista, pautado nas ideias essenciais e universais, imutáveis ao tempo, espaço e respectiva história. Essa fundamentação tem maior relevância na base mais por sua razão de ser do que por seus efeitos. Positivismo Jurídico Ideias fundamentadas em uma perspectiva mais subjetiva, embora sejam formalmente garantidas pelo sistema, estão ancoradas nas realidades temporais, espaciais e culturais, sem necessariamente refletir algum padrão relacionado à suposta essência divina da criação humana ou algo semelhante. Sendo assim, se em tal tempo e lugar a proteção jurídica ao corpo humano (material e imaterial) for algo extremamente valorizado, ela poderá, sim, figurar como parte integrante do rol dos direitos humanos da referida época e legislação. Tal proteção poderia, em um século seguinte, por exemplo, ser completamente rechaçada pelo ordenamento jurídico de um país, bloco ou mesmo por grandes organizações internacionais. Pensemos no caso de uma família que se dissolve, veja! Caso 1 Um filho homem pode ter direito às posses do pai, e o compromisso de passar a manter toda a família poderia ser um direito. Caso 2 Em uma sociedade como a nossa, em que o direito das mulheres é visto de outra forma e a liberdade ganha um caráter de escolhas, o direito na relação seria aplicado em outro sentido. Dentro de tal realidade, a matriz de natureza mais subjetivista lista a dificuldade de sustentar a existência universal dos direitos humanos, considerando as próprias limitações globais entre povos e países. Parte do conteúdo de direitos humanos que estamos estudando aqui é considerado ato atentatório à dignidade da própria vida em alguns países do Oriente cuja formação e existência político-religiosa tem base no Islã, por exemplo. Malala Yousafzai, ativista paquistanesa ganhadora do Nobel da Paz em 2014. Não confunda! No caso Malala, a negação do direito aos estudos era contestável, inclusive internamente. Ela pleiteia esse direito e recebe uma violência marcante como forma de manter uma tradição que não dialoga com os direitos locais. Os costumes poderiam aceitar a negação de seu direito de estudar, mas um conjunto vinculado à proteção e tutela dos direitos humanos apontaria que seria necessária uma revisão da primeira, e uma completa inaceitação da violência sofrida por ela em consequência de pleitear tal direito. Tal realidade sustenta a tese de que a matriz orientadora dos direitos humanos tem natureza mais subjetivista, sendo que a maior prova disso é o que se coloca em parâmetros e compromissos em documentos internacionais (declarações, cartas, tratados ou convenções), e o mesmo vale para os sistemas jurídicos internos dos países, como vimos há pouco. E que fique claro que não temos aqui o propósito de convencer sobre qual alinhamento matricial é o certo ou errado. A ideia é apresentar as bases e, de certo modo, fazer você perceber que, no modelo dos direitos humanos da atualidade, matrizes mais subjetivas acabam por prevalecer nas democracias ocidentais, ainda que tenhamos um número cada vez maior de direitos assegurados. Tais matrizes vêm sustentando cada vez mais direitos humanos na sociedade contemporânea e, certamente, também dentro do direito positivo, que se pratica principalmente desde a consagração do movimento constitucionalista do século XX e os importantes apontamentos feitos no período após a Segunda Guerra Mundial. Classificação dos direitos humanos: critérios diferenciados e Teoria do Status A classificação de um instituto em qualquer área da ciência pressupõe a eleição de um ou mais critérios que possam isolar quantitativa e qualitativamente partes ou o todo de um elemento já conceituado. Estamos falando sobre os direitos humanos que já tratamos nos itens anteriores. Sabemos já importantes questões terminológicas a seu respeito, juntamente com os chamados direito fundamentais, e conhecemos as matrizes orientadoras de sua origem e sustentação ao longo dos séculos até os dias atuais. Agora, aprenderemos a classificá-los e dividi-los para, na sequência, melhor entendê-los. Antes de iniciarmos, vamos deixar claro que já contamos com alguns modelos e critérios tradicionais de classificação. Podemos classificar os direitos humanos a partir de 3 importantes critérios e planos de identificação. I Plano segundo a Teoria do Status (Georg Jellinek) II Plano de gerações ou momentos III Plano internacional e nacional A seguir, iremos apresentar cada plano de maneira aprofundada, vamos lá! I - Plano segundo a Teoria do Status (Georg Jellinek) Os direitos humanos estariam vinculados e poderiam ser classificados de acordo com a interatividade e proteção jurídica dos indivíduos com o Estado (Poder Público). As 4 possibilidades jurídicas de se invocar direitos fundamentais seriam os status apresentados a seguir, entenda! Passivo Tendo o indivíduo como um sujeito em estado de submissão ao Poder Público e que tem uma série de comportamentos exigidos. Ativo-negativo Tendo o indivíduo o direito de resistir em face do Poder Público, pois existem garantias do não agir estatal. É um critério negativo para o Estado que não pode agir, sob pena de ferir os direitos do indivíduo. Positivo-pretensão Tendo o indivíduo um papel de demandar do Estado uma série de medidas em prol do respeito aos seus direitos. Refere-se à liberdade de agir, muito associada à ideia de pretensão. Ativo-acessibilidade Tendo o indivíduo uma série de possibilidades de integrar a estrutura do Estado, do Poder. Na maioria das vezes, ocorre por atendimento a contratações públicas diversas, ou mesmo pleitos de candidaturas e processos de licitação vinculantes. II – Plano de gerações ou momentos Os direitos humanos são classificados de acordo com a linha temporal e o tipo de direitos protegidos em cada momento de surgimento normativo. Por tal critério de classificação, surgido no final dos anos 1970 e defendido por Karel Vasakos, os direitos são divididos em 3 gerações que veremos melhor a seguir. Primeira Geração (Liberdades dos indivíduos) Aqueles ligados ao exercício de liberdades para cada indivíduo e limitações ao agir do poder público estatal. São os tradicionais direitos civis e políticos, como liberdade, isonomia e acesso à propriedade. O Brasil sempre valorizou muito o direito de propriedade no âmbito de nosso ordenamento jurídico. Durante o século XIX, a regulação do direito e acesso à propriedade imobiliária, a aprovação das chamadas leis abolicionistas e, em especial, a Lei do Ventre Livre (Lei nº 2040, de 1871) revelaram a preponderância da propriedade versus a dignidade da pessoa humana, ao até permitir que os filhos nascidos de pessoas escravizadas à época fossem libertos em dado momento da vida, mas com uma espécie de indenização ao “Sr. Proprietário”. Tal conceito e ideia viriam a ser equilibrados e elevados a conteúdo de Princípio Fundamental da CRFB 88, mais de 100 anos depois. (art. 1º, III da CRFB 88). Segunda Geração (Igualdade social) Aqueles direcionados a possibilitar, de fato e de direito, um sentimento de igualdade de condições de competição. São os direitos ditos sociais, como educação, trabalho, assistência, saúde emoradia, entre outros. O direito fundamental de acesso a um trabalho seguro e saudável é ainda uma importante pauta internacional e nos sistemas internos dos países. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, desenvolve desde 1919 uma atividade crescente na tutela dos interesses das pessoas em atividade laboral – ou seja, de todos nós! Saiba Mais A OIT está disponível nas redes. Ela atua na lógica da proteção, mais uma vez marcada pelo tempo com a mudança nas formas de trabalho e a necessidade de regulação da superioridade do empregador diante do quadro desfavorável do trabalhador. Terceira Geração (Fraternidade) Aqueles destinados ao maior equilíbrio de vida social, tal como a paz pelo bem-estar social, meio ambiente saudável, solidariedade, diversidade, respeito às características étnicas, entre outros. Certamente você já ouviu falar das preocupações mundiais a respeito do meio ambiente em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Seja pelas violações mais ordinárias, como falta de saneamento básico e destinação correta do lixo urbano, rural, residencial ou da produção econômica, o direito ao meio ambiente é um direito constitucionalmente protegido e de todos. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. (Art. 225 da CRFB 88) Ele é tido como coletivo, numa linguagem mais universal, e “difuso”, no Brasil. Segundo as nossas leis, o direito ao meio ambiente pode e deve ser tutelado por qualquer um do povo e, em especial, pela figura do Ministério Público por todos os entes federativos em competência concorrente. Sendo assim, há campo de fiscalização e legislação para todos. Dessa forma, atualmente podemos afirmar que proteger nossa fauna e flora de um modo geral são atitudes que tutelam os direitos fundamentais e despertam discussões ferrenhas no campo social, econômico, político e até jurídico, na esfera nacional e internacional. Em compensação, há poucas décadas o ideal de progresso defendia ocupação, distribuição de terras e abertura de estradas como forma de proteção e de levar o melhor do mundo a todos. III – Plano internacional e nacional Os direitos humanos podem estar mais ou menos protegidos no plano internacional e no plano dos direitos nacionais dos países. Trata-se de um critério que busca identificar, reconhecer e separar, quando for o caso, tutelas diferenciadas de diversos níveis de direitos humanos, no sistema de proteção internacional e nacional desses direitos. Atenção Os critérios ou planos de classificação não são necessariamente excludentes entre si, e visam apenas a uma abordagem temática diferenciada, de acordo com maior ou menor interesse, por um ou outro critério e seus resultados em determinado momento de uma região, país ou bloco de países. As nações ou países não são os únicos atores envolvidos. Setores públicos, privados e terceiro setor devem ser pensados nesse conjunto, sendo “países” uma maneira de se referir a todos. Mais do que decorar teorias e critérios de classificação dos direitos humanos, é importante saber reconhecê-los nas atividades profissionais do cotidiano e em todas as áreas do conhecimento. No plano internacional, tratados e convenções de direitos humanos têm exigido compromisso do Poder Público e de empresas privadas no cumprimento de metas e políticas públicas de medidas sanatórias das desigualdades sociais oriundas da falta de acesso a um ou outro direito, considerando-o como inerente e necessário à condição humana. Direitos humanos X Direitos fundamentais no Brasil Reflexões sobre os direitos humanos Os direitos humanos ocupam um lugar de destaque no cenário internacional e nos sistemas jurídicos de países e blocos de países ao redor do mundo, com especial destaque para os que se enquadram como Estados Democráticos de Direito, que adotam regimes políticos baseados na democracia (representação direta do povo), ainda que de maneiras diferentes, na escolha dos membros dos poderes, em especial legislativo e lideranças dos poderes executivos. Soldados chilenos queimando livros durante a ditadura militar chilena de Pinochet, 1973. Mas como reconhecer as características gerais dos direitos humanos? Como atentar para as especificidades de sua aplicação na diversificada realidade de cada país do mundo global? Regimes ditatoriais, regimes de exceção e outras formas de aristocracia adotam em via de regra o corpo legislativo de interesse do grupo, não da população. Logo, para eles, direitos humanos são desnecessários ou não existem. Podemos considerar uma única idealização, uma única visão dimensional teórica e prática dos direitos humanos? Vamos lá descobrir as respostas a estes questionamentos. O que faz um direito ser um direito humano? Caracterização dos direitos humanos Apesar de contarmos com importantes documentos históricos no âmbito internacional com indicativos importantes a respeito do conteúdo jurídico dos direitos humanos, sabemos que, na prática, a doutrina e os tribunais vêm aplicando muito mais peso às características do que a nominata de direitos propriamente dita. Tal situação ocorre também pelo fato de cada vez mais direitos humanos estarem espalhados em legislações infraconstitucional dos variados ramos do direito. Congresso Nacional do Brasil, Brasília. Se o corpo legislativo não é um código específico encontrado em um vade mecum (um manual específico de leis), como podemos fazer para reconhecê- lo difuso nas leis de um país, ou mais especificamente nas leis brasileiras? Vamos conhecer algumas características do corpo legislativo e, em seguida, acompanhar comentários, conexões e exemplificações de interesse. Universalidade O alcance dos direitos humanos não é excludente de qualquer ser humano por qualquer razão ligada à pessoa humana. Outros fatores locais e normativos podem fazê-los não chegar até o indivíduo, mas sendo possível chegar, toda pessoa humana é agraciada. É talvez uma característica mais desejada do que efetivamente alcançada, considerando a diversidade cultural dos países no mundo. Para além da tradicional divisão entre Oriente e Ocidente, dentro dos próprios continentes do chamado mundo ocidental são encontradas inclusões e exclusões. Temas como alimentação, caça aos animais, trabalhos forçados em sistemas prisionais, pena de morte, legislação do trabalho, seguridade social e educação são tratados de forma bem diferenciada. Veja alguns exemplos! Caça Regulada O direito e a prática da caça no Brasil e nos Estados Unidos da América Contrastes Culturais A diferença entre a cultura de vida nos centros urbanos e no meio rural Observe quanta variação podemos ter. Entendeu a dificuldade da universalidade? Soma-se a isso o maior número de relações sociais virtuais e presenciais entre pessoas e culturas diferentes em razão das atuais tecnologias de comunicação, bem como por consequência das facilidades para se viajar. Essencialidade Corolário da característica anterior, a essencialidade confirma a universalidade e vice-versa. Só é universal pois é essencial à existência e sobrevivência de todo ser humano. Seguindo o comentário e a característica anteriores, resta saber o conteúdo essencial em cada país e sua interpretação jurídica interna de validar ou não o referido conteúdo. Para tal exemplo, podemos apontar a maior ou menor tolerância que os governos têm na execução de políticas públicas em torno da população carcerária e suas famílias. O Massacre do Carandiru, 1992 Certamente você já ouviu a expressão direitos humanos relacionada a temas de tratamento das pessoas apenadas preventivamente ou em caráter reativo (e possivelmente também já ouviu muitas críticas a esse respeito), mas o fato é que a essencialidade é discutível, por mais difícilque possa parecer para cada um de nós, a respeito da visão dos gestores públicos nacionais e internacionais. É também um tema de conflitos constantes entre autoridades de um país e organizações internacionais que realizam estudos e outras atividades relacionadas aos direitos humanos e direitos fundamentais das populações carcerárias. Vamos conhecer o debate sobre o direito ao uso de armas, ouça! 00:00 / 03:48 Imprescritibilidade A regra geral da segurança formal do direito no tempo não atinge os direitos humanos. O bem jurídico tutelado supera o decurso temporal formal. Obviamente, deve ser o titular do direito violado ou ameaçado diligente em sua ação do Poder Judiciário, mas não há que se falar em prescrição. É uma característica de maior segurança jurídica, que pretende evitar que casos de violações de direitos fundamentais fiquem impunes. Como exemplo, temos as notícias sobre abusos da integridade física e moral de pessoas, rotulados de assédios, ou abusos majoritariamente com apelo sexual. A área do entretenimento e o campo das instituições religiosas vivem dramas constantes com situações do gênero. A Lei Maria da Penha seria um direito humano? Segundo o texto da lei, sim, mas segundo a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre ela, não. Ouça e saiba mais sobre a Lei Maria da Penha. 00:00 / 04:28 Inalienabilidade Ao contrário de outros direitos disponíveis, no caso dos direitos humanos a inalienabilidade visa blindar direitos oriundos da própria condição do ser humano, evitando assim que abusos ou negócios provenientes da exploração de mercado e suas leis próprias afetem em especial os direitos das pessoas menos favorecidas socialmente. Antes Foto do Rana Plaza, um prédio de oito pisos que abrigava fábricas de vestuário prestadoras de serviço para grandes marcas e um centro comercial em Savar, Bangladesh, em 2012. O imóvel apresentava rachaduras e corria risco de desabamento. Depois O prédio continuou ocupado, até que em 2013 ocorreu o colapso, deixando cerca de mil trabalhadores mortos. A tragédia inflamou debates sobre direitos humanos e a importância de uma cadeia de produção mais sustentável para a moda. A pressão do capital e de outros possíveis direitos e interesses são históricos na vida humana, em especial nos espaços de maior liberalismo, fruto da contemporaneidade. Ocorre que, com o aumento formal de direitos fundamentais, foi necessário taxar de inalienável o rol de direitos que cada país traz como integrante de sua categoria diferenciada. Casos tradicionais colocados à prova diariamente, como os reiterados usos de pessoas com crescimento físico diferenciado, modelos de pele negra e comércio de órgãos são apenas alguns exemplos da necessidade de proteger a mercantilização de direitos fundamentais, esbarrando sempre nos limites morais das respectivas sociedades. Vamos pensar agora sobre as crenças e os efeitos da intolerência religiosa, acompanhe! 00:00 / 04:22 Irrenunciabilidade Não se pode renunciar elemento ou parte integrante de seu todo, sob pena de esvaziamento do todo. É uma incoerência lógica e jurídica. Visa, em última análise, a evitar uma forma diversa da inalienabilidade negativa. Agora é a vez de pensarmos o direito ao trabalho sob a perspectiva dos direitos humanos. Vamos ouvir! 00:00 / 04:53 Trata-se de característica também presente em grande parte dos sistemas jurídicos dos Estados Democráticos de Direito no mundo ocidental. Visa evitar uma forma diferenciada de mercantilização às avessas e, na maioria das vezes, com base no próprio ordenamento legal. Está normalmente associada ao direito material e ao acesso à justiça pelas pessoas naturais. Inviolabilidade Os ordenamentos jurídicos dos países não podem violar os direitos humanos, mitigando seus valores de forma indireta em normas que possam burlar as proteções legais. Tais direitos são invioláveis. Uma meta a ser atingida: essa é maneira mais honesta e transparente de comentar e exemplificar a característica acima, pois, infelizmente, os direitos fundamentais são diariamente violados pelas pessoas e pelo poder público. Um dos exemplos mais marcantes na atualidade é o direito fundamental à saúde. Refugiados esperam assistência de voluntários em um campo de refugiados na fronteira entre Grécia e Macedônia, 2016. Não é preciso se esforçar muito para constatar uma violação direta ou indireta. O fato é que, apesar de haver trocas de responsabilidade entre os juridicamente responsáveis, percebemos violações constantes há algum tempo. Isso necessita ser revisto, sob risco de termos um sistema eternamente tolerante às violações legais e constitucionais do tema. Refletir a hipótese da venda de órgãos sob a perspectiva dos direitos humanos também é importante, vamos ouvir! 00:00 / 03:12 Historicidade São construções históricas, derivadas de marcos importantes e normalmente associados a eventos com grandes perdas humanas e violações de outros direitos correlatos. A característica geral da historicidade ratifica a percepção a respeito das origens e possível caracterização de novos direitos na linha do tempo e do espaço. A historicidade é um elemento que dificulta a implementação da universalidade dos direitos fundamentais, pois costumes, tradições e outros movimentos fazem parte da vida e não de regras imutáveis. Além disso, não são fruto de uma evolução linear melhor ou pior, mas sim resultados da realidade social. Mulher com a bandeira palestina em frente aos soldados das Forças de Defesa de Israel durante manifestações, 2010. A historicidade vai, portanto, variar bastante nos continentes e realidades de cada país, além de gerar conflitos jurídicos supranacionais, principalmente no mundo atual. É preciso ficarmos atentos para não sermos complacentes e intolerantes com as diferenças, ainda que, na esfera internacional, elas estejam sob o mantra dos direitos fundamentais e humanos. Mas está no meu livro, na minha liberdade de culto, este povo sempre teve direito a esta terra: ouça um debate sobre Israel e Palestina. 00:00 / 02:55 Interdependência Os direitos fundamentais estão interligados, conectados entre si nos importantes documentos jurídicos internacionais e na legislação interna de cada país. A interdependência dos direitos fundamentais é uma importante característica (mais prática do que teórica) e, por isso, falaremos dela. É pela via da interdependência que validamos nossos sistemas jurídicos, principalmente em países como o Brasil, com diferentes espaços de competência legislativa, judiciária e executiva. Tal característica é essencial para uma pretensa harmonização em busca de maiores níveis de eficiência da tutela dos direitos fundamentais. Um assunto relacionado ao direito fundamental é o acesso à justiça dos consumidores, categoria da qual dificilmente escapamos e que cada vez mais se envolve em situações jurídicas de prestação de serviços, compra e venda, restrição de crédito e outras violações, inclusive de seus dados. Os consumidores têm atualmente, à sua disposição, espaços diferenciados de consensualidade no âmbito federal, estadual e municipal. Vejamos o exemplo das opções de um consumidor residente no Rio de Janeiro. Âmbito federal Âmbito estadual Âmbito municipal Agora que você distinguiu as características gerais e específicas dos direitos humanos, está apto a seguir para a contextualização de tais direitos na visão dimensional, na teoria e na prática. Vamos lá! Visão dimensional dos direitos humanos O estudo dos direitos humanos, sua terminologia, teorias, características e classificação ao longo dos séculos é base para a compreensão de como tais direitos são operados dos sistemas jurídicos atuais dos países e também nas possibilidades e limitações no campo de um direito supranacional que possa ser aplicado em relações jurídicas estatais e situações complexas envolvendo pessoas naturais, grandescorporações de atuação transnacional e outros fatos que podem afetar a vida das pessoas em partes diferentes do globo. Dentro da lógica desenvolvida e sedimentada, nos documentos históricos que tratam dos direitos humanos e, no caso do Brasil e de alguns países europeus, na tradição dos direitos fundamentais, tais direitos fundamentais são entendidos como aqueles assegurados na ordem jurídica interna de cada um dos países. Ativistas em favor do voto feminino no Reino Unido, direito ainda tratado de acordo com regras nacionais em muitos países, 1908. Eles integram o rol de temas que um país entende como mais importante em categoria aos demais direitos que regula. Se tal país é signatário de documentos jurídicos internacionais que declaram direitos humanos, é comum ter, em seu rol de direitos fundamentais, os mesmos direitos, além de, eventualmente, outros direitos mais explicitados e que refletem realidades nacionais, nem sempre dimensionadas no macro. É possível reconhecer uma divisão ou classificação em gerações, etapas ou, como tem sido feito ultimamente, em dimensões diferenciadas no tempo e conteúdo. Assim, ao falarmos de como os direitos humanos são atualmente enquadrados pelos Estados de Direito (para além dos importantes referenciais históricos, já reconhecidos baluartes de iluminação global), é no campo dos direitos fundamentais que reconhecemos os efeitos da divisão geracional que pode refletir direitos materiais e instrumentais de acesso à justiça e outros atos de cidadania das pessoas em caráter individual ou coletivo. Portanto, os direitos humanos são valorizados e enquadrados em dimensões ou gerações, seguindo um encadeamento básico que vamos recapitular agora. Direitos de 1ª Geração - Liberdade dos indivíduos São aqueles ligados ao exercício de liberdades para cada indivíduo e a limitações do agir do poder público estatal. São os tradicionais direitos civis e políticos: liberdade, isonomia e acesso à propriedade. Direitos de 2ª Geração - Igualdade social São aqueles direcionados a possibilitar, de fato e de direito, um sentimento de igualdade de condições de competição. São os direitos ditos sociais, como educação, trabalho, assistência, saúde, moradia, entre outros. Direitos de 3ª Geração - Fraternidade São aqueles destinados ao maior equilíbrio de vida social, tais como paz, bem- estar social, meio ambiente saudável, solidariedade, diversidade, respeito às características étnicas, entre outros. Direitos de 4ª Geração - Novos direitos Essa geração, que não é consensual, ligada aos direitos de acesso à informação e comunicação digital em rede, ao regime mais democrático possível, e novos direitos da bioética. Seja como for, segundo Domenico de Masi, em sua ideia de paradigma, vivemos atualmente as transformações mais intensas e rápidas desde o Renascimento, Iluminismo, Revolução Industrial e outros importantes movimentos, em um período que traduz os efeitos da ação e reação da sociedade civil, do mercado e dos poderes estatais em uma espiral intensa e com giros dentro de uma mesma geração. Não são mudanças simplesmente de uma sociedade líquida. Para além da liquidez, há a superação de teses, antíteses, tradições, costumes e outras variáveis de mudança de comportamento. Reflita alguns questionamentos! • Que Estado atenderá aos desejos e às necessidades da geração presente, que vive consideravelmente mais que as duas anteriores? • Que educação será adequada? • A educação será adequada apenas para a visão de mercado ou sob outras premissas sociais mais amplas? Não são questões enceradas, mas servem como fundamentação para defesa de revisitação dos direitos humanos e respectivos direitos fundamentais de maneira mais intensa. Este ponto evidencia uma das razões não para haver unanimidade na ideia de dimensões sequenciais e sem fim, mas sim uma revisitação e criação de novos direitos para novas realidades a serem incorporados ao conjunto da obra. Ocorre que essa visão geracional está muito ligada à noção predominante de período/tempo e a um movimento mais positivista do direito, tendente a regulações mais específicas, o que acaba gerando um “fatiamento” legislativo dos direitos humanos e criando barreiras práticas para sua aplicação. Refugiados venezuelanos buscando acesso a outros países da América Latina, fugindo da crise de segurança e liberdade em seu país de origem, 2018. Quando trabalhamos com a ideia dimensional, estamos pensando em direitos humanos ou fundamentais que podem ser analisados sem separação ou hierarquia nas seguintes dimensões, veja! Se paração das dimensões em relação aos direitos humanos. Não há, como na didática anterior geracional, a ideia de tanta fragmentação integrar uma única realidade dinâmica. Veja, por exemplo, o Direito Fundamental de Acesso à Justiça, previsto no art. 5º, inciso XXXV da CRFB 88, que traz sob o prisma da igualdade a mensagem de que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Entenda melhor cada uma das 3 dimensões. Vamos lá! Individual/Liberal Na medida que tal acesso pode ser realizado por qualquer um do povo, pessoa jurídica de direito privado ou público, interna ou estrangeira. Social Pode ter provocação e resposta de natureza coletiva, atingindo direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos. Fraterna Mundialmente, a Justiça pode se dar cada vez mais por métodos adequados e consensuais de solução ou gestão de conflitos, como mediação, conciliação e justiça restaurativa, por exemplo. É o que chamam de Cultura da Paz, Bem- Estar Social, entre outros. Um importante direito que está ligado a várias dimensões não é limitado ou hermético a um conceito, bem jurídico ou instituto específico; não está isolado em período “A” ou “B” e pode ser referenciado pelos documentos históricos mais antigos do século XIII, da Independência dos Estados Unidos e certamente da Revolução Francesa no século XVIII; e até mesmo estudos e referenciais teóricos mais modernos, como os trabalhos de Cappelletti e Garth do Projeto Florença e seu extrato mais conhecido, a obra Acesso à Justiça (1998). Atualmente, não se trabalha mais na prática com a clássica divisão Geracional e Temporal. Estamos todos em uma ambiência única, na mesma espiral. O que importa é garantir o não retrocesso, assegurando que as pessoas possam exercer seus direitos e que os Estados atuem como defensores tanto de forma preventiva quanto reativa. Sem nenhum passo atrás! A Organização das Nações Unidas e os direitos humanos O escritório das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça, é o segundo maior centro da ONU depois da sede das Nações Unidas, em Nova York. Neste módulo, aprenderemos como está estruturado e como opera o sistema universal de proteção dos direitos humanos, também conhecido como sistema onusiano (Sistema da Organização das Nações Unidas) ou sistema global de proteção dos direitos humanos. O objetivo do módulo é proporcionar a compreensão da arquitetura existente na área da ONU para a proteção dos direitos humanos, notadamente por meio da análise de seus principais instrumentos normativos e da estrutura organizacional especificamente relacionada à proteção de tais direitos. A criação das Nações Unidas e o início da edificação do templo dos direitos humanos A Declaração Universal dos Direitos Humanos é a porta de entrada do templo dos direitos humanos. (Cassin, 1951) Antes do término da Segunda Guerra Mundial, os países aliados já arquitetavam a construção de um novo organismo internacional — que viria substituir a antiga Liga das Nações — que tivesse como um de seus mais importantes objetivos a proteção da vida e a salvaguarda da dignidade humana em uma escala global. É nesse contexto que nasce a Organização das Nações Unidas (ONU), criada por meio da Carta das Nações Unidas (ou Carta de São Francisco), um tratado internacional assinado em São Francisco (EUA), em 26 de junhode 1945, por ocasião da Conferência de Organização Internacional da Nações Unidas. A Carta das Nações Unidas dispôs que uma das principais finalidades da organização é a promoção dos direitos humanos e sua efetivação em nível global, assim como a manutenção da paz e da segurança internacional (arts. 1º; 13.1, b; 55, c; 62, 2; 68 e 76, c). Desse modo, logo após a sua instituição, a ONU passou a desenvolver trabalhos específicos para o alcance de tais objetivos. O primeiro resultado desses esforços foi a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217 A III), em 10 de dezembro de 1948. Não há dúvida de que a DUDH constitui um documento marco na história mundial dos direitos humanos, sendo responsável pela gênese e pelo desenvolvimento da proteção internacional desses direitos, hoje consubstanciada em um ramo específico do direito internacional, denominado e conhecido globalmente como direito internacional dos direitos humanos (DIDH), que visa proteger e promover a dignidade humana em todo o mundo ao consagrar uma série de direitos (universais, indivisíveis e interdependentes) dirigidos a todas as pessoas, sem distinção de qualquer natureza, inclusive de nacionalidade ou do Estado em que o indivíduo se encontre. A DUDH inaugurou uma nova era na história internacional, dando origem à concepção moderna ou contemporânea dos direitos humanos, especialmente por ser um instrumento que transcendeu as fronteiras nacionais, ultrapassando os espaços soberanos em que a precária proteção dos direitos se encontrava confinada até então, dando voz a uma herança cultural de toda a humanidade e alçando a proteção desses direitos ao nível internacional. A brasileira Bertha Lutz na Conferência de São Francisco, nos Estados Unidos, que elaborou a Carta da Organização das Nações Unidas. Seja no plano ideológico, filosófico ou jurídico-normativo, nenhum documento na história da humanidade tem contribuído tanto para a defesa e garantia dos direitos humanos como a DUDH, razão pela qual é sempre importante uma reflexão sobre a sua origem, natureza e seu legado, dentre outros aspectos que envolvem esse notável documento. Nas palavras de René Cassin (1951, p. 277, tradução nossa, grifo nosso), um dos grandes juristas responsáveis pela redação do texto final, a DUDH teve como mérito constituir o “pórtico de entrada do grande templo dos direitos humanos que foi construído a partir dela”. O arcabouço normativo de proteção dos direitos humanos no âmbito da ONU A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948. Com a criação da ONU e, mais especificamente, com a proclamação da DUDH, aos poucos o sistema global de proteção dos direitos humanos foi ganhando forma e contornos cada vez mais específicos. Impulsionados pela ONU, os Estados-membros da organização sucessivamente passaram a adotar uma série de tratados internacionais, juridicamente vinculantes para os Estados, bem como outros instrumentos de caráter não vinculante (por exemplo, resoluções, declarações, regras mínimas, princípios etc.), todos eles voltados genérica ou especificamente para a proteção universal dos direitos humanos. Como fruto dessa atividade, temos atualmente um amplo arcabouço normativo que constitui o corpus juris internacional de proteção dos direitos humanos. Esses textos normativos têm sido aplicados em larga escala para a solução de muitos tipos de conflitos, tanto pelas cortes e tribunais internos dos Estados, como pela Justiça Internacional, composta por cortes, tribunais, comissões e comitês, entre outros órgãos internacionais de proteção dos direitos humanos. Dois tratados de grande importância no âmbito da ONU são o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Sociais, Econômicos e Culturais (PIDSEC), ambos adotados pela Assembleia Geral da ONU em 1966, responsáveis por complementar material e processualmente a DUDH, e que em conjunto com ela receberam o nome de Carta Internacional dos Direitos Humanos. Além desses, vale a pena conhecermos outros instrumentos normativos onusianos, responsáveis por consagrar os direitos humanos para todas as pessoas, independentemente de qualquer fator comumente utilizado para promover a discriminação. São documentos que estabelecem uma proteção genérica (para todos) ou específicas (mulheres, negros, crianças, idosos, pessoas com deficiência etc.) ao redor do globo. Alguns desses importantes instrumentos, juridicamente vinculantes para os Estados-partes são: • Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (1948). • Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951). • Convenção Suplementar sobre Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Escravatura (1956). • Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966). • Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1966). • Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados (1967). • Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) (1979). • Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984). • Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1989). • Convenção sobre os Direitos da Criança (1989). • Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias (1990). • Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1999). • Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Referente à Venda de Crianças, à Prostituição Infantil e à Pornografia Infantil (2000). • Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Relativo ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados (2000). • Protocolo de Prevenção, Supressão e Punição do Tráfico de Pessoas, especialmente Mulheres e Crianças, Complementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (2000). • Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (2002). • Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado (2006). • Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo (2007). • Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Sociais, Econômicos e Culturais (2008). Outras regras que não são juridicamente vinculantes, mas que servem de diretrizes e princípios para a atuação dos Estados-membros da ONU no tocante à proteção dos direitos humanos são: 1955 As Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos (Regras de Mandela). 1985 As Regras Mínimas da ONU para Administração da Justiça da Infância e Juventude (Regras de Beijing). 1990 As Regras Mínimas da ONU para Proteção dos Jovens Privados de Liberdade. 1993 A Declaração e Programa de Ação de Viena. 2010 As Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e Medidas não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras (Regras de Bangkok). A estrutura organizacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da ONU Palácio das Nações, escritório das Nações Unidas em Genebra (Suíça). Ao lado da proteção de caráter normativo, que se dá por meio dos tratados internacionais e por textos de outra natureza, conforme elencados anteriormente, o sistema global de proteção dos direitos humanos conta ainda com órgãos e mecanismos internacionais de proteção e monitoramento dos direitos humanos, responsáveis pela aplicação e efetivação das normas internacionais relativas a esses direitose por prestar auxílio aos Estados no tocante ao fomento e efetivação dos direitos humanos em seus respectivos territórios. A ONU possui órgãos próprios e também relações de apoio administrativo e técnico com vários órgãos criados pelos diversos tratados internacionais elaborados sob seu patrocínio, voltados à proteção dos direitos humanos. Esse conjunto de mecanismos de proteção geridos tanto pelos próprios órgãos onusianos quanto por aqueles previstos nos tratados também integra o denominado sistema global de direitos humanos. O que une tais órgãos é a atuação da ONU, quer diretamente, por meio daqueles da própria organização; ou indiretamente, mediante a atuação de organismos independentes, previstos em tratados elaborados sob seu patrocínio e que recebem apoio técnico e administrativo da organização. Vamos conferir quais são os principais. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) é o principal órgão da ONU encarregado de promover e proteger os direitos humanos. Foi criado pela Resolução nº 48/141 da Assembleia Geral da ONU, de 1993, a partir de recomendação da Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de Viena, ocorrida no mesmo ano. … [a] função precípua do OHCHR é promover e proteger os direitos humanos no mundo e liderar os esforços das Nações Unidas nesse sentido, conferindo também maior relevância política ao tratamento do tema (...) inclui, entre suas competências específicas, o apoio aos demais órgãos da ONU envolvidos com a matéria, abrangendo a coordenação das atividades que desenvolvem e o esforço para que todas as áreas das Nações Unidas incluam considerações relativas à proteção da dignidade humana no tratamento dos temas de sua competência. (Portela, 2017, p. 914) Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio das Nações, em Genebra (Suíça). Outro importante órgão da ONU é o Conselho de Direitos Humanos, criado em 2006, por meio da Resolução nº 60/251 da Assembleia Geral da ONU. O Conselho substituiu a antiga Comissão de Direitos Humanos (1946-2006), que havia sido criada pelo Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC). Sua principal função é promover o respeito universal aos direitos humanos por meio da supervisão do cumprimento dos compromissos internacionais celebrados pelos entes estatais na matéria. É composto por 47 Estados- membros, escolhidos por votação secreta da Assembleia Geral da ONU, para um mandato de três anos. Tem competência para promover e fiscalizar a observância da proteção de direitos humanos pelos Estados da ONU e fazer, atualmente, a gestão do Sistema de Procedimentos Especiais e do Mecanismo da Revisão Periódica Universal (RPU), instrumentos pelos quais fiscaliza o cumprimento e a proteção dos direitos humanos por parte dos Estados- membros da ONU. Sala usada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em Nova York (EUA). Os Relatores Especiais de Direitos Humanos também são órgãos onusianos de proteção dos direitos humanos. A partir da criação dos procedimentos especiais pelas Resoluções nº 1235 (procedimento público) e nº 1503 (procedimento confidencial) do Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC), especialmente em razão do primeiro, surgiu a necessidade de nomeação de órgãos de averiguação de violações de direitos humanos, cuja abrangência pode ser geográfica (por país) ou temática. Tais órgãos podem ser unipessoais ou coletivos e a denominação é variada, isto é, nos casos unipessoais, há o uso da expressão “relator especial” ou ainda “especialista independente”; no caso dos órgãos colegiados, utiliza-se a expressão “grupo de trabalho”. Conforme explica André de Carvalho Ramos (2021), o trabalho desses órgãos “consiste em realizar visitas aos países, em missões de coleta de dados (fact- finding missions), bem como em agir diante de violações de direitos humanos solicitando (não podem exigir) atenção do Estado infrator sobre os casos. Seus relatórios não vinculam, apenas contêm recomendações, que são enviadas aos Estados e também ao Conselho de Direitos Humanos e Assembleia Geral da ONU”. Por fim, importante também mencionar os comitês criados por tratados internacionais de âmbito universal, que têm como principal atribuição monitorar o cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados dentro do sistema global ao aderirem ou ratificarem determinado tratado. Estão voltados, portanto, para assegurar a observância das normas convencionais, seja de um único tratado ou de uma restrita série de acordos específicos. Sra. Navanethem Pillay, alta comissária para os Direitos Humanos, no Dia da Eliminação da Discriminação Racial de 2010. São exemplos desses comitês: o Comitê de Direitos Humanos; o Comitê de Direitos Sociais, Econômicos e Culturais; o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial; o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher; o Comitê contra a Tortura; o Comitê para os Direitos da Criança; o Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; e o Comitê contra Desaparecimentos Forçados. Esses comitês geralmente podem ter a sua competência reconhecida pelos Estados para analisar petições de indivíduos que lhes serão dirigidas noticiando violações de direitos humanos. Em termos conclusivos, podemos afirmar que, no âmbito da ONU, existe atualmente um sofisticado sistema de proteção dos direitos humanos em nível universal voltado para todas as pessoas pelo simples fato de serem humanas, sem discriminação de qualquer natureza. Sistemas regionais de proteção de direitos humanos Sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa na antiga Casa da Europa em Estrasburgo em 1967. Paralelamente à ONU, outras organizações internacionais regionais começaram a surgir após o término da Segunda Guerra Mundial, tais como a Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1948; o Conselho da Europa (CE), em 1949; e, um pouco mais tarde, a Organização da Unidade Africana (OUA), de 1963, que teve como sucessora a União Africana (UA), em 2002. Na área dessas organizações também surgiram e passaram e ser desenvolvidos sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, com vistas a complementar a proteção global desses direitos, anteriormente instituída pela ONU. Na atualidade coexistem, em uma relação de complementariedade, o sistema global e os sistemas regionais de proteção dos direitos humanos. Atualmente, existem três sistemas que se encontram estruturados em diferentes continentes: Sistema europeu O sistema europeu de proteção dos direitos humanos, arquitetado no âmbito do Conselho da Europa (CE). Sistema interamericano O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, arquitetado no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). Sistema africano O sistema africano de proteção dos direitos humanos, arquitetado no âmbito da União Africana (UA). Apesar da existência de alguns documentos voltados à proteção dos direitos humanos no plano regional árabe-islâmico, não é possível afirmar, na atualidade, a existência de um sistema árabe-islâmico de proteção dos direitos humanos, o que ainda é uma grande aspiração. Nesse contexto, é possível destacar a existência de alguns poucos instrumentos: (i) a Declaração Universal Islâmica de Direitos Humanos, de 1981; (ii) a Declaração dos Direitos Humanos do Cairo ou Declaração dos Direitos Humanos do Islã, adotada em 1990 pela Organização para a Cooperação Islâmica (OCI); e (iii) a Carta Árabe dos Direitos do Homem, adotada pelo Conselho da Liga dos Estados Árabes, em 1994 e atualizada em 2004. Vale destacar também que os direitos humanos para os povos árabes geralmente se apresentam como um poder derivado de um poder divino, o que acaba por produzir situações complexas e violadoras de direitos humanos para determinados segmentos sociais, como mulheres e crianças. Por sua vez, no continente asiático não existe até o presente momento qualquer documento relevantesobre a proteção dos direitos humanos e sequer uma expectativa de conclusão de uma convenção regional ou sub-regional de direitos humanos. Antes de passarmos à análise específica de cada um dos sistemas regionais, é necessário esclarecer que eles atuam paralela e complementarmente ao sistema global. Portanto, esses sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos não se excluem, ao contrário, se completam. A finalidade do sistema global é atuar de forma ampla em todos os Estados soberanos, ao passo que os sistemas regionais têm uma atuação complementar àquele, buscando aperfeiçoar e fortalecer as determinações dos moldes gerais, bem como tratar das especificidades relativas aos direitos humanos em cada âmbito regional. Rhona K. M. Smith (2014, p. 87), ao apontar algumas vantagens dos sistemas regionais, destaca que, “na medida em que um número menor de Estados está envolvido, o consenso político se torna mais facilitado, seja com relação aos textos convencionais, seja quanto aos mecanismos de monitoramento. Muitas regiões são ainda relativamente homogêneas, com respeito à cultura, à língua e às tradições, o que oferece vantagens”. O sistema regional europeu de proteção dos direitos humanos O sistema europeu de proteção dos direitos humanos é atualmente o mais desenvolvido dos sistemas regionais. Foi o primeiro efetivamente instalado, fato que se deu em 4 de novembro de 1950, com a adoção da Convenção Europeia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais ou simplesmente Convenção Europeia de Direitos Humanos (CEDH). A Convenção foi elaborada no âmbito do Conselho da Europa, órgão criado em 5 de maio de 1949, com o objetivo de unificar a Europa. O arcabouço normativo A CEDH é o tratado-regente do sistema europeu, que entrou em vigor internacional em 3 de setembro de 1953, e continua a ser o mais expressivo catálogo europeu de direitos humanos. Logo em seu art. 1º, estabelece a obrigação geral de os Estados-partes respeitarem os direitos humanos. A principal finalidade da CEDH é disciplinar as diretrizes referentes à proteção dos direitos da pessoa humana e garantir os instrumentos para sua aplicação. Ela também institucionaliza um compromisso dos Estados europeus em cumprir efetivamente as normas protetivas nela previstas, não adotando quaisquer concepções contrárias em seus respectivos ordenamentos jurídicos internos. Edifício do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em Estrasburgo, na França. A CEDH também determina a submissão dos países europeus ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), órgão criado para atuar jurisdicionalmente caso haja o desrespeito às normas impostas pela Convenção, julgando e condenando os Estados violadores de suas disposições e de outras normas integrantes do sistema europeu de proteção. A CEDH é estruturada basicamente em três partes. A primeira (arts. 2º a 18) regulamenta os direitos e as liberdades fundamentais de natureza civil e política, que se baseiam no direito à vida, na proibição da tortura, na proibição da escravidão e do trabalho forçado, na garantia da liberdade, da segurança, da vida privada e familiar, do processo judicial equitativo e nas liberdades de expressão, pensamento, consciência e religião, na liberdade de reunião e de associação, na proibição da discriminação, entre outros. A segunda parte do texto (arts. 19 a 51) diz respeito à estrutura interna e funcionamento da Corte EDH, órgão responsável por julgar os casos de violação de direitos humanos consagrados e positivados pela Convenção. Por fim, a terceira parte (arts. 52 a 59) estabelece disposições gerais, tais como a assinatura e ratificação, as reservas, a denúncia e a aplicação territorial. Além do texto principal da CEDH, vários outros instrumentos normativos foram criados para a consagração desses direitos no continente europeu, com destaque para os protocolos relativos à Convenção, que ampliaram o rol dos direitos protegidos. A seguir, estão destacados os protocolos mais importantes: • Protocolo nº 1 (1952), que dispôs sobre o direito de propriedade; o Protocolo nº 2 (1993), que trata do direito à educação. • Protocolo nº 4 (1963), que cuida da liberdade de locomoção. • Protocolo nº 6 (1983), que dispôs sobre a abolição da pena de morte em tempo de paz. • Protocolo nº 7 (1984), que estabeleceu o direito de apelar em questões de natureza criminal, o direito a uma justa compensação por erro judiciário e o direito à igualdade entre os cônjuges. • Protocolo nº 12 (2000), que prevê o direito à não discriminação. • Protocolo nº 13 (2002), que trata da abolição da pena de morte em tempo de guerra. Junto à CEDH e aos seus protocolos, o sistema europeu conta atualmente com mais de 185 instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, todos adotados pelo Conselho da Europa. Dentre eles, merecem destaque a Convenção Europeia para a Prevenção da Tortura e de Tratamentos Desumanos e Degradantes (1987), a Carta Europeia para as Línguas Regionais ou de Minorias (1992) e a Convenção para a Proteção de Minorias Nacionais (1995). Os órgãos componentes do sistema Salão da Corte Europeia de Direitos Humanos. De início, com a finalidade de monitorar os direitos previstos na CEDH e desenvolver métodos eficazes na produção de resultados protetivos dos direitos consagrados, a própria Convenção estabeleceu três órgãos distintos, cada um com competências específicas previamente instituídas: a Comissão Europeia de Direitos Humanos, a Corte Europeia de Direitos Humanos e o Comitê de Ministros do Conselho da Europa. Enquanto um dos órgãos inicialmente criados pela CEDH, a Comissão tinha uma competência política e “semijudicial”. Sua função era analisar as queixas ou comunicações apresentadas pelos Estados-membros do sistema europeu e também pelos indivíduos (ONGs ou grupos de indivíduos), acerca de uma violação da Convenção, buscando resolver o problema de uma maneira mais informal e conciliatória, privilegiando-se a busca pela solução rápida. A Comissão realizava uma espécie de juízo de admissibilidade das petições protocoladas, atuando como mecanismo de filtragem para decidir quais petições seriam consideradas admissíveis. Também atuava propondo aos litigantes a solução pacífica dos conflitos e também aplicando medidas protetivas de caráter preliminar. Caso restassem infrutíferas as tentativas de conciliação e solução dos litígios, à Comissão cabia submeter o caso à Corte. Um dos órgãos mais importantes criados pela CEDH foi a Corte, instituída em 20 de abril de 1959, com função jurisdicional. A sua principal tarefa era a aplicação das premissas da Convenção ao julgar os casos que lhe eram submetidos e a cominação de eventuais sanções aos países violadores dos direitos protegidos, realizando assim o juízo de mérito dos casos. Ao logo do tempo, contudo, o sistema europeu passou por vários processos de aperfeiçoamento, concretizados por diversos protocolos (tratados modificativos e complementares à CEDH). Em razão do Protocolo nº 11 (1998), profundas alterações foram realizadas no âmbito do sistema, dentre elas a extinção da Comissão e da Corte inicialmente criadas (que atuavam em tempo parcial) e a criação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), agora único e permanente, com competência obrigatória para a realização dos juízos de admissibilidade e de mérito dos casos de violações de direitos humanos que lhe são submetidos. Nesse contexto, vale ressaltarmos que o sistema europeu também se destaca por ser o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite o acesso direto de indivíduos, ONGs e grupos de indivíduos ao TEDH (jus standi), a fim de que possam, por meio do exercício do direito de petição (CEDH, art. 34), exigir uma reparação devido à violação de direitos por um Estado-parte na CEDH. Essa alteração ocorreu por meio do Protocolo nº11; antes dele, somente Estados e a extinta Comissão eram legitimados para provocar a Corte. Com sede em Estrasburgo, o TEDH é regulado pela CEDH e tem competência contenciosa para se pronunciar sobre todas as questões relativas à interpretação e à aplicação da Convenção (arts. 32 a 46). Pode receber petições de qualquer pessoa singular, ONG ou grupo de particulares que se considerem vítimas de violação dos direitos previstos na Convenção pelos Estados-partes (art. 34) e também pode apreciar denúncias feitas por um Estado-parte sobre a violação de tais direitos por outro Estado-parte (art. 33). Contudo, para que o Tribunal possa conhecer as questões que lhe são submetidas, condições de admissibilidade devem estar presentes, dentre elas, o esgotamento dos recursos internos (art. 35). Além da competência contenciosa, o TEDH tem também uma competência consultiva, segundo a qual, por solicitação do Comitê de Ministros, formula pareceres e opiniões consultivas sobre questões jurídicas relativas à interpretação da CEDH e de seus protocolos (arts. 47 e 48). O TEDH é composto por um número de juízes equivalente ao número de Estados-partes da CEDH (art. 20). Todos eles exercem suas funções a título individual — com independência e não como representantes de seus Estados de origem — e devem gozar da mais alta reputação moral, bem como reunir as condições requeridas para o exercício de altas funções judiciais ou ser jurisconsultos de reconhecida competência (art. 21). Os juízes são eleitos, por maioria de votos expressos, pela Assembleia Parlamentar, com base em uma lista de três candidatos indicados por cada Estado-parte da CEDH (art. 22), para um período de nove anos, não sendo reelegíveis (art. 23). Quanto à sua estrutura interna de funcionamento, o TEDH atua por meio de um Tribunal Singular, comitês, seções e Tribunal Pleno (art. 26). As decisões, quando proferidas pelo Tribunal Pleno, são definitivas (art. 44) e têm força vinculante para os Estados condenados, que devem cumprir integralmente as condenações fixadas nas sentenças proferidas (art. 46). O sistema regional interamericano de proteção dos direitos humanos O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos está arquitetado no âmbito da OEA, uma organização de vocação regional, criada pela Carta da Organização dos Estados Americanos (ou Carta da OEA), aprovada na IX Conferência Internacional Pan-Americana, realizada em Bogotá, em 1948. Pode-se afirmar que tal sistema foi “inaugurado” formalmente por esse tratado, que destacou em seu preâmbulo a necessidade de contemplar um sistema capaz de garantir o respeito aos direitos humanos no continente americano. Edifício da sede da União Pan-Americana em Washington em 1943. Na mesma Conferência em que foi adotada a Carta da OEA, os Estados americanos também proclamaram a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948), que foi o primeiro instrumento regional americano específico sobre direitos humanos. O arcabouço normativo A Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (CADH), também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, é o tratado-regente do sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. Foi adotada na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, ocorrida em San José, Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, e entrou em vigor internacional em 18 de julho de 1978. Trata-se do texto de direitos humanos mais importante e expressivo das Américas, tornando-se um dos pilares da proteção dos direitos humanos, ao consagrar direitos políticos e civis, bem como os relacionados à integridade pessoal, à liberdade e à proteção judicial. Em seu art. 1º, estabelece a obrigação geral de os Estados-partes respeitarem os direitos e as liberdades nela reconhecidos e garantirem seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação de qualquer natureza. Além de prever um amplo rol de direitos civis e políticos, a principal finalidade da CADH é estabelecer as diretrizes referentes à proteção dos direitos da pessoa humana, garantindo importantes mecanismos para sua aplicação. Ela também institucionaliza um compromisso dos Estados-partes em cumprir efetivamente as normas protetivas nela previstas, não adotando quaisquer concepções contrárias em seus respectivos ordenamentos jurídicos internos. A CADH é estruturada basicamente em três partes. A primeira (arts. 1º a 32) regulamenta os direitos e as liberdades fundamentais de natureza civil e política, que se baseiam no direito à vida, à integridade pessoal, na proibição da escravidão e da servidão, no direito à liberdade pessoal, nas garantias judiciais, na proteção da honra e da dignidade, na liberdade de consciência e de religião, na liberdade de pensamento e de expressão, no direito à nacionalidade, na proteção da família, nos direitos políticos e de personalidade, entre outros. A segunda parte (arts. 33 a 73) diz respeito à estrutura interna e funcionamento dos órgãos de proteção dos direitos humanos componentes do sistema. Por fim, a terceira parte (arts. 74 a 82) trata das disposições transitórias, abordando tópicos como assinatura, ratificação, reserva, emenda, protocolo e denúncia à Convenção, bem como disposições gerais sobre a Comissão e a Corte. O Brasil aderiu à CADH em 25 de setembro de 1992, mediante o depósito da carta de adesão junto à Secretaria Geral da OEA, momento em que entrou em vigor no plano internacional para o Estado brasileiro. No plano interno, o Congresso Nacional aprovou a Convenção por meio do Decreto Legislativo nº 27, de 26 de maio de 1992, mas somente entrou em vigor no plano doméstico brasileiro em 6 de novembro de 1992, com a promulgação do Decreto nº 678, pelo presidente da República, momento em que passou a integrar o direito brasileiro, conforme a prática brasileira de internalização dos tratados. Além da Carta OEA, da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, o sistema interamericano conta ainda com diversos outros instrumentos (tratados e declarações) que compõem o corpus juris interamericano. Dentre os principais instrumentos juridicamente vinculantes podemos citar os seguintes: • Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). • Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, conhecido como Protocolo de San Salvador (1988). • Protocolo à Convenção Americana sobre Direitos Humanos referente à Abolição da Pena de Morte (1990). • Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará (1994). • Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas (1994). • Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência (1999). • Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância (2013). • Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância (2013). • Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos das Pessoas Idosas (2015). Dentre os instrumentos que não possuem força jurídica vinculante para os Estados, podemos destacar a Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão (2000), a Carta Democrática Interamericana (2001), e a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2016). Os órgãos componentes do sistema Sede da Corte Interamericana de Direitos Humanos, na cidade de San Jose, na Costa Rica. Visando garantir a promoção, fiscalização e efetiva proteção dos direitos humanos previstos na CADH e nos demais instrumentos normativos do sistema interamericano, foram instituídos dois importantes órgãos: a Comissão Interamericana de DireitosHumanos (CIDH) e a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), previstos no art. 33 da CADH e disciplinados especialmente em outros dispositivos da Convenção. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos Edifício da sede da União Pan-Americana em Washington, nos EUA. A Comissão é um órgão criado inicialmente pela OEA para “promover o respeito e a defesa dos direitos humanos e servir como órgão consultivo da Organização” sobre a matéria (Carta da OEA, art. 106 e CADH, art. 41). Por determinação da norma prevista na Carta da OEA, a CADH regulamentou a Comissão, dispondo sobre a sua organização, suas funções, sua competência e seu procedimento em seus arts. 34 a 51 (salvo disposição em contrário, os artigos citados a seguir estão previstos na CADH). Além dessas previsões, a Comissão conta também com um estatuto e um regulamento. Situada em Washington D.C. (EUA), a Comissão realiza pelo menos dois períodos ordinários de sessões por ano, no lapso determinado previamente, bem como tantas sessões extraordinárias quantas considerem necessárias. É composta por sete membros, denominados comissários ou comissionados, que devem ser pessoas de alta autoridade moral e de reconhecido saber em matéria de direitos humanos (art. 34). Esses membros são eleitos a título pessoal (não como representantes dos seus Estados de origem), pela Assembleia Geral da OEA, de uma lista de candidatos propostos pelos governos dos Estados-membros, sendo que cada governo pode propor até três candidatos, nacionais do Estado que os propuser ou de qualquer outro Estado- membro da OEA. Quando for proposta uma lista de três candidatos, pelo menos um deles deverá ser de Estado diferente do proponente (CADH, art. 36). No tocante ao mandato de seus membros, eles serão eleitos por quatro anos e só poderão ser reeleitos uma única vez, não podendo fazer parte da Comissão mais de um comissário de um mesmo Estado (art. 37). A CADH criou um sistema de petições individuais e de comunicações interestatais, possibilitando à Comissão o recebimento de denúncias ou queixas contendo alegações de violações de direitos humanos protegidos pela Convenção e por outros instrumentos normativos do Sistema interamericano de proteção dos direitos humanos (SIDH). O procedimento de petição individual é considerado de adesão obrigatória para os Estados que aderem ou ratificam a CADH (art. 44). Por outro lado, o procedimento de comunicação interestatal (entre Estados) é estabelecido pela própria Convenção como facultativo (art. 45). Para que um procedimento de petição individual contendo uma denúncia ou queixa de violação dos direitos humanos previstos na CADH possa ser iniciado junto à Comissão, devem estar presentes algumas condições de admissibilidade, conforme o estabelecido pelo art. 46 da Convenção. Em suma, são elas: (i) o esgotamento dos recursos internos (local remedies rule); (ii) a ausência do decurso do prazo de 6 meses, contados do esgotamento dos recursos internos, para a apresentação da petição; (iii) ausência de litispendência internacional; (iv) ausência de coisa julgada internacional; e (v) identificação do peticionário. A Comissão já apreciou diversos casos envolvendo várias espécies de violação de direitos humanos pelo Estado brasileiro, sendo que um deles resultou em uma recomendação ao país para elaboração de uma lei voltada à prevenção e ao combate à violência doméstica, que resultou na edição da Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha. A Corte Interamericana de Direitos Humanos O segundo órgão de proteção dos direitos humanos do SIDH é a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), uma instituição judicial autônoma que é um órgão da CADH. Sua criação decorre diretamente do art. 33, “b”, da Convenção. A Corte IDH tem sua principal disciplina jurídica na CADH, que estabeleceu a sua organização, suas competências, funções, seus procedimentos e suas disposições comuns nos arts. 52 a 73. Assim como a Comissão, além da regulação prevista na Convenção, a Corte também conta com normas regulamentadoras em seu estatuto e regulamento. Em 22 de maio 1979, durante o VII Período Extraordinário de Sessões da Assembleia Geral da OEA, os Estados-partes na CADH elegeram os membros que, por sua capacidade pessoal, seriam os primeiros juízes a compor a Corte. A sua primeira reunião foi realizada em 29 e 30 de junho de 1979, na sede da OEA, em Washington. Atualmente a sede da Corte está situada em San José, capital da Costa Rica. De acordo com o art. 1º do seu estatuto, a Corte “é uma instituição judiciária autônoma cujo objetivo é a aplicação e a interpretação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos”, exercendo suas funções em conformidade com as disposições da Convenção e do seu Estatuto. Trata-se, portanto, de um tribunal “com o propósito primordial de resolver os casos que lhe são apresentados por supostas violações aos direitos humanos protegidos pela Convenção Americana” (Guerra, 2015, p. 166). Em relação ao seu funcionamento, de acordo com o art. 22.1 do seu estatuto, a Corte pode realizar sessões ordinárias e extraordinárias (pois não é um tribunal permanente como o TEDH), sendo que os períodos ordinários de sessões serão determinados regularmente pela própria Corte (art. 22.2) e os períodos extraordinários de sessões serão convocados pelo presidente ou por solicitação da maioria dos juízes (art. 22.3). Conforme estabelece o art. 11 de seu regulamento, a Corte realizará os períodos ordinários de sessões que se fizerem necessários durante o ano para o pleno exercício de suas funções, nas datas que tiver fixado em sua sessão ordinária imediatamente anterior. No tocante à sua composição, conforme dispõe o art. 52.1 da CADH, a Corte IDH é composta de sete juízes, nacionais dos Estados membros da OEA, eleitos a título pessoal, que devem ser pessoas de alta autoridade moral e de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, reunindo as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais, ou do Estado que os propuser como candidatos. Seus juízes são eleitos por um período de seis anos e só poderão ser reeleitos uma vez (art. 54.1). A eleição ocorre por meio de votação secreta e pelo voto da maioria absoluta dos Estados-partes da Convenção, na Assembleia Geral da OEA, de uma lista de candidatos propostos pelos mesmos Estados (CADH, art. 53.1). Cada governo pode propor até três candidatos, nacionais do Estado que os propuser ou de qualquer outro Estado membro da OEA. Quando for proposta uma lista de três candidatos, pelo menos um deles deverá ser nacional de Estado diferente do proponente (CADH, art. 53.2). Não deve haver dois juízes da mesma nacionalidade compondo a Corte simultaneamente (CADH, art. 52.2). De acordo com a CADH, a Corte IDH pode exercer uma função consultiva (art. 64), segundo a qual emite pareceres ou opiniões em resposta às consultas que lhe são dirigidas pelos Estados, bem como uma função contenciosa (arts. 61, 62 e 63), de acordo com a qual analisa e julga os casos de violações de direitos humanos que lhe são submetidos. A competência contenciosa da Corte não é automática, mas precisa ser reconhecida expressamente pelo Estado-parte da CADH. Assim, para que a Corte possa exercer sua jurisdição contenciosa sobre determinado Estado, no momento da adesão ou ratificação (ou em qualquer outro momento), o ente estatal deve declarar expressamente que reconhece como obrigatória, de pleno direito e sem convenção especial a competência da Corte em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação da Convenção (CADH, art. 62.1). No Brasil, esse reconhecimento foi aprovado pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 89, de 3 de dezembro de 1998. Por meio de nota transmitida ao secretário-geral da OEA no dia 10 de dezembro de 1998, o Brasil reconheceuimportantes. Vamos conferi-las! Declaração americana Apontou para a existência de alguns direitos básicos para defender um outro propósito, a independência. Documento no qual um comitê, representando as Treze Colônias, localizadas na América do Norte, foi nomeado pelo Congresso para redigir a declaração. Declaração francesa Listou e defendeu os direitos considerados essenciais. Documento legal escrito por uma Assembleia reconhecida pelo Estado e que se tornou a base da Constituição aprovada posteriormente, repercutindo em direitos legais que tiveram atuação real. As duas declarações alimentaram o início do debate sobre os direitos humanos e serviram de exemplo durante todo o século XIX para a criação de novos regimes políticos, incentivando os processos de independência das colônias americanas, criando um novo mundo. Declaração Universal de Direitos Humanos No século XX, os valores do mundo se transformaram mais uma vez, não por meio de processos revolucionários, mas por duas conhecidas guerras que se iniciaram na Europa, envolveram países de todos os continentes e deixaram um rastro de barbárie e mortes. Vamos acompanhar como as duas guerras mundiais influenciaram a criação dos direitos humanos como existem atualmente e como isso culminou na criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Primeira Guerra Mundial Em janeiro de 1919, pouco depois de seu término, as nações vitoriosas se reuniram na Conferência de Paz de Paris e assinaram o Tratado de Versalhes, que criou a Liga das Nações, uma organização internacional destinada a promover a paz e prevenir futuros conflitos, com foco na cooperação e na resolução pacífica de disputas. Segunda Guerra Mundial Apesar dos esforços da Liga das Nações, poucos anos depois, um novo conflito de proporções ainda maiores viria acontecer, a Segunda Guerra Mundial. O mundo se chocou ao viver o horror do uso de novas tecnologias de guerra, de campos de concentração e de extermínio em massa, pelos dois lados do conflito, que só terminou em setembro de 1945. No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os países vitoriosos se reuniram e assinaram acordos para restabelecer a paz mundial. Entre essas decisões, criou-se a Organização das Nações Unidas (ONU), uma organização internacional neutra destinada a substituir a Liga das Nações. Estados membros das Nações Unidas no final de 1945: em azul claro, os membros fundadores; em azul escuro, os protetorados e territórios dos membros fundadores; em cinza, estados não membros. A Carta das Nações Unidas, produzida e assinada em São Francisco, nos Estados Unidos, no mesmo ano, define os objetivos da ONU como um pacto entre as nações para mediar ações e decisões coletivas. Seu propósito é "preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra" e reafirmar a "fé nos direitos fundamentais do homem e no valor da pessoa humana; na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas". Além disso, o documento visa manter a justiça, promovendo: • Respeito • Liberdade • Progresso social • Melhores condições de vida Para alcançar esses objetivos, três anos depois, em 1948, a ONU elaborou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Assembleia Geral da ONU desejava que essa declaração fosse um ideal comum a ser buscado por todos os povos e nações, anunciando trinta artigos que compreendem direitos como a proteção e segurança pessoal, a abominação à escravatura ou servidão, à tortura, ao reconhecimento de todos os indivíduos como seres jurídicos, ao casamento e ao fim dele, ao trabalho e ao repouso, entre outros. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tornou-se extremamente importante na busca pelos direitos básicos, pois não foi um documento regional, como as declarações americana e francesa, mas um tratado internacional. Ela trabalhou e ainda atua para que esses direitos estejam mais próximos de todos os seres humanos. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, são reconhecidos como direitos inalienáveis: Liberdade Justiça Paz A Declaração Universal dos Direitos Humanos introduz um conceito importante que envolve todos os seres humanos em um patamar de igualdade: a ideia de que fazemos parte de uma mesma família, a família humana. Essa ideia afirma que não há diferença entre os seres humanos, pois todos os indivíduos são parentes e têm a mesma origem. Isso traz um sentimento de afeto, reforçando que devemos respeitar o próximo e ter empatia por ele. A Declaração das Nações Unidas de 1948 é o maior documento legal de direitos humanos produzido. Para chegar a todos os seres humanos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos se tornou o texto mais traduzido no mundo. Devido à sua ampla tradução para vários idiomas e ao grande esforço de circulação, a declaração foi e continua sendo analisada e estudada intensivamente por juristas de todas as nacionalidades. Universalidade A primeira característica dos direitos humanos é que eles são universais. Isso significa que devem estar disponíveis para todos os membros da família humana igualmente, sem restrições para ninguém. Se alguém não puder gozar de algum desses direitos, todos os demais membros da família humana estão ameaçados, pois esses direitos não estão em pleno funcionamento. Portanto, não é permitido que algum direito seja aplicado apenas a uma pessoa ou grupo. Exemplo Vamos pensar no direito à liberdade: se em algum lugar do mundo for permitido que um ser humano seja submetido a condições de trabalho escravo, isso significa que todos os outros seres humanos correm o mesmo risco. Se vale para um, vale para todos. Interdependência Um direito complementa o outro, a existência de um direito está condicionada à existência de todos os demais. Nenhum direito é mais importante do que os outros, pois eles se apoiam, como em um castelo de cartas. Se um for ameaçado, todo o conjunto pode ruir. Exemplo Se alguém estiver passando fome, ou seja, se tiver seu direito à alimentação adequada ameaçado, essa pessoa pode não conseguir exercer seu direito à liberdade. Nada mais lhe interessará, e todos os seus esforços estarão focados em alimentar-se, levando-a a aceitar qualquer condição imposta. Sua liberdade dependerá do acesso à alimentação. Assim, podemos dizer que um direito só funciona se todos os outros também funcionarem. Indivisibilidade Não pode haver uma divisão dos direitos humanos em categorias. É preciso entendê-los e respeitá-los como um todo, reconhecendo que os direitos individuais, políticos, sociais e econômicos interagem e não podem ser separados. Exemplo Nos primeiros anos da República no Brasil, no final do século XIX e início do século XX, novos direitos políticos foram criados, permitindo que alguns homens votassem e escolhessem seus governantes. No entanto, não foram criadas condições para que o direito individual fosse respeitado, e esses eleitores eram ameaçados pela prática de manipulação eleitoral, conhecida como voto de cabresto, para que o voto fosse dado a um candidato específico. Isso demonstra que o direito político e o direito individual não estão divididos e separados; um direito não existe sem o outro. Não é possível que uma nação mova esforços para garantir alguns direitos humanos da sua população sem garantir todos, pois esses direitos não estão separados. Ao acompanhar a trajetória dos direitos humanos, entendemos que seus objetivos e suas características foram construídas ao longo do tempo. Vamos conferi-la! Primeira geraçãoSegunda geraçãoTerceira geração Representada pelas declarações americana e francesa do século XVIII, o foco principal era a conquista da liberdade individual. Essas declarações buscaram rejeitar o controle dos Estados absolutistas e limitar os poderes autoritários que interferiam diretamente no livre arbítrio das decisões individuais. A questão dos direitos demanda atualização constante e esforço contínuo pora jurisdição e a competência obrigatória da Corte IDH, conforme disposto no Decreto nº 4.463, de 8 de novembro de 2002. Acerca da legitimidade para provocar a Corte IDH, de acordo com o art. 61 da CADH, somente os Estados-partes (que tenham também reconhecido a jurisdição da Corte) e a Comissão têm o direito de submeter casos para sua apreciação e julgamento. Contrariamente ao que ocorre no âmbito do sistema europeu, no SIDH os indivíduos dependem da Comissão ou de outro Estado (actio popularis) para que suas vindicações possam chegar à Corte IDH, pois até o presente momento lhe é vedado o direito de ação internacional (jus standi). As sentenças proferidas pela Corte IDH são de cumprimento obrigatório por parte dos Estados-partes na CADH em todo caso em que forem partes, conforme disposto no art. 68.1 da CADH. O art. 67 da CADH determina que a sentença é definitiva e inapelável, sendo que no caso de divergência sobre o sentido ou alcance da decisão, a Corte deverá interpretá-la, a pedido de qualquer das partes. Desde o ano de 2006, a Corte IDH já julgou dez casos envolvendo o Brasil, sendo que apenas em um deles o país não foi condenado. São eles: Caso Ximenes Lopes versus Brasil (2006); Caso Nogueira de Carvalho e outros versus Brasil (2006); Caso Escher e outros versus Brasil (2009); Caso Garibaldi versus Brasil (2009); Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) versus Brasil (2010); Caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde versus Brasil (2016); Caso Cosme Rosa Genoveva, Evando de Oliveira e outros (“Favela Nova Brasília”) versus Brasil (2017); Caso do Povo Indígena Xucuru e seus membros versus Brasil (2018); Caso Herzog e outros versus Brasil (2018); e Caso Empregados da Fábrica de Fogos de Santo Antônio de Jesus e seus familiares versus Brasil (2020). Além dos casos já julgados, até o presente momento outros três casos envolvendo o país encontram-se pendentes de julgamento. São eles: Caso Barbosa de Souza e outros versus Brasil (2019), Caso Barbosa de Souza e outros versus Brasil (2020) e Caso Tavares Pereira e outros versus Brasil (2021). A execução forçada das decisões da Corte IDH, em sentido próprio, não existe. Os casos de não cumprimento dessas decisões por parte de um Estado condenado podem ser levados ao conhecimento da Assembleia Geral da OEA por meio de um relatório anual. Desse modo, é ativado um shaming mechanism (mecanismo da vergonha), visando motivar o Estado envolvido à execução da decisão. O sistema regional africano de proteção dos direitos humanos Cúpula do 50º aniversário da União Africana em Adis Abeba, Etiópia. O sistema regional africano de proteção dos direitos humanos está estruturado no âmbito da União Africana (UA) e nasceu somente em 1981, com a adoção da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP), também conhecida como Carta de Banjul. A Carta foi aprovada na Conferência Ministerial da então Organização da Unidade Africana (atualmente denominada União Africana), em Banjul, Gâmbia, entrou em vigor internacional em 1986, e constitui-se o tratado-regente do referido sistema. Em uma escala de desenvolvimento, o sistema europeu é o mais desenvolvido e o sistema interamericano se encontra em uma posição intermediária. Já o sistema africano é ainda incipiente e se encontra em processo de construção, evolução e amadurecimento. O arcabouço normativo A CADHP está estruturada em três partes. A primeira (arts. 1º a 29) elenca os direitos e os deveres dos cidadãos, contemplando-se, inclusive, além dos direitos de 1ª e 2ª geração, também os direitos de 3ª geração, tais como o direito ao meio ambiente sadio, ao desenvolvimento e à paz. A segunda parte (arts. 30 a 63) estabelece as medidas de salvaguarda da Carta, dispondo sobre a composição e a organização da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (Comissão ADHP), sobre o processo perante a Comissão, além dos princípios aplicáveis. Por fim, a última parte (arts. 64 a 68) fixa disposições diversas, tais como a entrada em vigor da Carta e o processo para emenda ou revisão do texto. Vários outros instrumentos integram o arcabouço normativo do sistema africano de direitos humanos, tais como a Convenção da UA que Regula Aspectos Específicos dos Problemas dos Refugiados na África (1969), a Carta Africana dos Direitos e Bem-Estar da Criança (1990), o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e Dos Povos sobre os Direitos das Mulheres na África (2003), a Carta Africana para a Democracia, Eleições e Governação (2011) e o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos das Pessoas Idosas na África (2018). Há, ainda, outras disposições não dotadas de força vinculante, como princípios e diretrizes. Além da CADHP e dos instrumentos regionais mencionados, os Estados africanos também aderiram e ratificaram a maioria dos instrumentos normativos de proteção dos direitos humanos do sistema global (ONU). Os órgãos componentes do sistema Diferentemente dos sistemas europeu e interamericano, que inicialmente estabeleceram dois órgãos de proteção dos direitos humanos (uma Comissão e uma Corte), a CADHP criou apenas a Comissão ADHP. Foi somente em 2004, quando entrou em vigor o Protocolo à Carta ADHP, adotado em 1998, que surgiu a Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (Corte ADHP). Por isso, costuma-se dizer que o sistema africano se desenvolveu em duas etapas. A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos À semelhança da extinta Comissão EDH e da Comissão IDH, a função da Comissão ADHP, em funcionamento desde 1987, é promover os direitos humanos e dos povos e assegurar sua respectiva proteção no continente africano. Ressalta-se que esse foi o primeiro e único órgão de proteção dos direitos humanos criado pela Carta ADHP (art. 30). A Comissão é composta por onze membros, que devem ser escolhidos entre personalidades africanas que gozem da mais alta consideração, conhecidas pela sua alta moralidade, sua integridade e sua imparcialidade, e que possuam competência em matéria dos direitos humanos e dos povos (art. 31). São eleitos, a título individual (para uma atuação com independência), por escrutínio secreto pela Conferência dos Chefes de Estado e de Governo, de uma lista de pessoas apresentadas para esse efeito pelos Estados-partes na Carta ADHP (art. 33). Os membros da Comissão são eleitos para um mandato de seis anos, sendo renovável (art. 36). A Comissão ADHP exerce sua função de proteção dos direitos humanos mediante aceitação (i) de petições individuais, que lhe são enviadas por indivíduos ou ONGs, denunciando violações de direitos previstos na Carta ADHP, bem como (ii) de comunicações estatais, feitas pelos Estados-partes da Carta, nas quais igualmente denunciam tais violações. A Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos A Corte ADHP foi criada pelo Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (art. 1º), adotado em 10 de junho de 1998, por ocasião da 34ª Sessão Ordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da Organização de Unidade Africana (atual União Africana), reunida em Ouagadougou, no Burkina Faso. O Protocolo entrou em vigor internacional em 25 de janeiro de 2004 e a Corte foi oficialmente inaugurada em 2006, tendo a sua sede permanente em Arusha, República Unida da Tanzânia. Conforme dispõe o próprio preâmbulo do Protocolo, a criação da Corte ADHP tem como finalidade o fortalecimento da proteção dos direitos humanos e dos povos consagrados na Carta ADHP, visando conferir maior eficácia à atuação da Comissão. A Corte é composta por onze juízes, que devem ser nacionais dos Estados- membros da UA. São eleitos por sua capacidade individual e devem ter elevada reputação moral e reconhecida competência em matéria de direitos humanos e dos povos, não podendo haver dois juízes nacionais do mesmo Estado (Protocolo, art. 11). Os juízes são eleitos para ummandato de seis anos e podem ser reeleitos uma única vez (Protocolo, art. 15.1). Podem submeter casos à Corte ADHP: (i) a Comissão ADHP; (ii) o Estado- parte que submeteu o caso perante a Comissão; (iii) o Estado-parte contra o qual o caso na Comissão foi submetido; e, (iv) as organizações africanas intergovernamentais (Protocolo, art. 5.1). O Protocolo também prevê que a Corte “poderá conferir a relevantes organizações não governamentais com status de observadora perante a Comissão e a indivíduos a prerrogativa de submeter-lhe casos diretamente, de acordo com o art. 34 (6) do Protocolo” (art. 5.3). Esse dispositivo convencional revela a previsão de acesso direto de indivíduos e ONGs à Corte ADHP (jus standi), ainda que tal fato esteja condicionado ao aceite do Estado, conforme prevê o art. 34.6 do Protocolo. Tal como ocorre com a Corte IDH, a Corte ADHP tem uma competência consultiva e também contenciosa. Competência consultiva No exercício de sua competência consultiva, a pedido de um Estado-membro da União Africana, da própria UA, de um de seus organismos ou de uma organização africana reconhecida pela UA, a Corte ADHP pode emitir pareceres ou opiniões consultivas sobre a interpretação da Carta ADHP ou de outro instrumento de direitos humanos (Protocolo, art. 4º). Competência contenciosa No tocante à sua competência contenciosa, a Corte ADHP tem competência por todos os casos e litígios que lhe forem apresentados relativos à interpretação e aplicação da Carta ADHP, do Protocolo sobre o estabelecimento da Corte e de outros instrumentos de direitos humanos que tenham sido ratificados pelos Estados envolvidos (Protocolo, art. 3º). As decisões da Corte ADHP são vinculativas para os Estados-partes envolvidos no litígio, que estão obrigados a garantir a execução da decisão em seus respetivos territórios (Protocolo, art. 30). O monitoramento da execução de uma decisão é responsabilidade de um Conselho de Ministros (Protocolo, art. 29.2). A execução forçada das decisões da Corte em sentido próprio não existe. Os casos de não cumprimento dessas decisões por parte de um Estado podem ser levados ao conhecimento da Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo em um relatório anual. Desse modo, deve ser ativado um shaming mechanism (mecanismo da vergonha), visando motivar o Estado envolvido à execução da decisão. Em 2008, foi adotado o Protocolo Relativo aos Estatutos do Tribunal Africano de Justiça e dos Direitos Humanos, mediante o qual se faz uma fusão do Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos e do Tribunal de Justiça da União Africana (este último, criado pelo Protocolo do Tribunal de Justiça da União Africana, adotado pela Conferência da União em Maputo, Moçambique, em 2003). O Tribunal Penal Internacional e o direito penal internacional Fala, mestre! O palestrante aborda a importância da atuação dos operadores do direito, destacando tanto a busca por satisfação pessoal e reconhecimento quanto a responsabilidade social e democrática. Enfatiza que o direito molda a civilização e influencia nas relações sociais e institucionais, promovendo avanços e protegendo a diversidade. Ressalta a importância da interpretação jurídica em estabelecer novos costumes e direitos, bem como a missão de deixar um legado positivo para as futuras gerações. Artilharia Real durante o treinamento em Ellesmere, na Inglaterra, em agosto de 1943. A história da humanidade é marcada por incontáveis guerras através dos séculos, sendo esse um de seus aspectos mais sombrios. Como é de conhecimento geral, o mundo já presenciou duas grandes guerras mundiais, sendo que a Segunda Guerra constituiu o mais sangrento e brutal conflito armado já ocorrido. Milhões de vidas foram ceifadas, tanto combatentes como civis. O número exato nunca saberemos. Além dessas guerras de abrangência mundial, inúmeros conflitos armados já ocorreram internamente a muitos países ao redor do globo. Tristemente, as guerras civis também têm sido frequentes na história humana, deixando por vezes um rastro de atrocidades e violações da vida e da dignidade humana. Judeus holandeses no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. É nesse contexto que surge a conhecida expressão genocídio, aqui entendido como o extermínio em massa de pessoas ou, mais tecnicamente, como uma ação coordenada para exterminar uma nação, um povo ou um grupo étnico. A história humana é marcada por genocídios, tais como os que ocorreram na Circássia (1864 a 1867), na Armênia (1915 a 1922), no Holocausto (1939 a 1945), no Camboja (1975 a 1979), em Ruanda (1994) e na antiga Iugoslávia (1995), que conjuntamente a muitos outros, vitimaram milhões de pessoas. Como uma reação a esse triste quadro, alguns países e, posteriormente, toda a sociedade internacional estabeleceram um conjunto de normas jurídicas destinadas à punição dos responsáveis pelos horrendos crimes cometidos, bem como criaram órgãos específicos para realizar o julgamento e aplicação das penas impostas. Surge assim o direito internacional penal (DIP), entendido como um ramo do direito ou das ciências jurídicas que se ocupa de assuntos criminais em uma esfera global, mediante o estabelecimento de normas jurídicas voltadas à tipificação de condutas que configuram graves crimes que atingem a consciência da humanidade. Essas normas criam e regulamentam a jurisdição e a competência para o julgamento e a aplicação de sanções penais por órgãos internacionais de natureza penal, vinculados à justiça internacional, tal como reconhecida pela sociedade internacional. Nas palavras de Kai Ambos (2005, p. 1), trata-se do “conjunto de todas as normas de direito internacional que estabelecem consequências jurídico-penais”. Ex-oficiais nazistas no banco dos réus no Julgamento de Nurembergs, entre 1945 e 1948. Adjacente ao conjunto de normas voltado à punição de indivíduos responsáveis por genocídios e massacres em larga escala, tribunais penais também passaram a ser instituídos com o objetivo específico de julgar os crimes cometidos nesse cenário. A título de exemplo, citamos o Tribunal de Nuremberg, o Tribunal Militar Internacional de Tóquio e os Tribunais Penais para Ruanda e para a ex-Iugoslávia. Esses tribunais, conhecidos como tribunais de exceção ou tribunais ad hoc, sempre foram muito criticados, especialmente por serem constituídos em caráter temporário ou excepcional, após a ocorrência dos fatos (e não ex post facto). Outra crítica preponderante se deve à sua composição por juízes que, em tese, não teriam a imparcialidade necessária para o julgamento, uma vez que não são previamente investidos de jurisdição de acordo com leis estabelecidas, ofendendo-se com isso o princípio do juiz natural, consagrado no direito internacional e no âmbito do direito interno dos Estados. É nesse cenário que a sociedade internacional viu a necessidade de criar um Tribunal Penal Internacional de caráter permanente e com competência legalmente instituída para o julgamento dos graves e bárbaros crimes que atentam contra a consciência coletiva de toda a humanidade. Ademais, seria até mesmo falacioso falar-se na proteção internacional dos direitos humanos (global e regional), sem a contrapartida da instituição da responsabilidade criminal dos indivíduos no plano internacional (Mazzuoli, 2019). O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional e a criação do Tribunal Penal Internacional (TPI) O TPI foi criado pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, um tratado internacional adotado pela Conferência das Nações Unidas de Plenipotenciários para o estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional, em 17 de julho de 1998. Entrou em vigor em 1° de julho de 2002, conforme estabelecido em seu art. 126, e somente os Estados que expressaram formalmente o seu consentimento são obrigados a se submeter às previsões do TPI. Edifício do Tribunal Penal Internacional, em Haia, naHolanda. O Brasil é um dos Estados-partes do referido tratado, submetendo-se à jurisdição do TPI. O estatuto foi aprovado pelo Congresso Nacional, por meio do Decreto Legislativo nº 112, de 6 de junho de 2002. Posteriormente, foi ratificado pelo país por meio do depósito do instrumento de ratificação em 14 de junho de 2002, passando a integrar o ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto nº 4.388, de 25 de setembro de 2002. Além da ratificação do estatuto, que foi suficiente para caracterizar a submissão do Estado brasileiro à jurisdição do TPI, visando reforçar o reconhecimento do Tribunal, a Emenda Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004, incluiu o § 4º ao art. 5º da CRFB, que assim dispôs: “O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão”. O Estatuto de Roma do TPI é composto por 128 artigos que abrangem um preâmbulo e 13 partes assim divididas: I. Criação do Tribunal II. Competência, admissibilidade e direito aplicável III. Princípios gerais de direito penal IV. Composição e administração do Tribunal V. Inquérito e procedimento criminal VI. O julgamento VII. As penas VIII. Recurso e revisão IX. Cooperação internacional e auxílio judiciário X. Execução da pena XI. Assembleia dos Estados-partes XII. Financiamento XIII. Cláusulas finais Principais aspectos do Tribunal Penal Internacional Instalado oficialmente em 11 de março de 2003, em Haia, na Holanda, o TPI foi criado (Estatuto, art. 1º) mediante o reconhecimento pelos Estados de que “milhões de crianças, homens e mulheres têm sido vítimas de atrocidades inimagináveis que chocam profundamente a consciência da humanidade”, e que “os crimes de maior gravidade, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto, não devem ficar impunes e que a sua repressão deve ser efetivamente assegurada através da adoção de medidas em nível nacional e do reforço da cooperação internacional”, conforme dispõe o Preâmbulo do Estatuto. O Tribunal, que é independente e tem personalidade jurídica internacional (Estatuto, art. 4.1), é “uma instituição permanente, com jurisdição sobre as pessoas responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance internacional (...) e será complementar às jurisdições penais nacionais” (Estatuto, art. 1º), sendo que a competência e o funcionamento do Tribunal são regidos pelo seu Estatuto constitutivo. Precisamos destacar, portanto, que a sua atuação é subsidiária, pois de acordo com o próprio Estatuto, atua “complementarmente” à jurisdição dos Estados soberanos, não visando substituir esta última. Atenção É importante salientarmos que o TPI julga indivíduos (pessoas físicas) pelo cometimento dos crimes de sua competência, diferentemente das demais cortes internacionais de direitos humanos, competentes para julgar Estados por violações de direitos humanos. Competência Os crimes de competência do TPI, que são imprescritíveis (Estatuto, art. 29), estão previstos no art. 5º do Estatuto, sendo eles: o crime de genocídio, os crimes contra a humanidade, os crimes de guerra, e o crime de agressão. Crime de genocídio De acordo com o Estatuto, o genocídio é entendido como qualquer ato praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, o que compreende segundo o art. 6º: • Homicídio de membros do grupo. • Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo. • Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial. • Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo. • Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo. Crimes contra a humanidade Imagem do genocídio armênio perpetrado pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. O Estatuto compreende qualquer ato cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque. Compreende-se especificamente os vários atos descritos no art. 7º do Estatuto, 15 ao todo, pelos quais pode ser cometido um crime contra a humanidade. Dentre eles, destacam-se: • Homicídio. • Extermínio. • Escravidão. • Deportação ou transferência forçada de uma população. • Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais de direito internacional. • Tortura. • Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável. • Desaparecimento forçado de pessoas. • Crime de apartheid. Conforme afirma Valerio Mazzuoli (2019), a “expressão ‘crimes contra a humanidade’ geralmente conota quaisquer atrocidades e violações de direitos humanos perpetrados no planeta em larga escala, para cuja punição é possível aplicar-se o princípio da jurisdição universal”. Crimes de guerra Também conhecidos como crimes contra as leis e costumes aplicáveis em conflitos armados, “são fruto de uma longa evolução do direito internacional humanitário, desde o século passado, tendo sido impulsionado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, ganhando foros de juridicidade com as quatro Convenções de Genebra, de 12 de agosto de 1949, e com as bases teóricas do direito costumeiro de guerra” (Mazzuoli, 2019). Assinatura da primeira Convenção de Genebra em 1864, retratada por Charles Édouard Armand-Dumaresq. Conforme dispõe o Estatuto, os crimes de guerra são entendidos como graves violações às Convenções de Genebra, consistentes nos atos enumerados no art. 8.2(a) do Estatuto, dirigidos contra pessoas ou bens protegidos nos termos. Destacam-se as Convenções de Genebra que estabelecem o direito internacional humanitário, isto é, o direito aplicável na guerra – jus in bello, notadamente para a proteção dos direitos humanos. Ainda conforme estabelece o art. 8.2(b) do Estatuto, também são considerados crimes de guerra “outras violações graves das leis e costumes aplicáveis em conflitos armados internacionais no âmbito do direito internacional”, conforme os atos enumerados no referido dispositivo convencional. O Estatuto determina que, no caso de conflitos armados que não sejam de índole internacional, também são considerados crimes de guerra as graves violações do artigo 3º comum às quatro Convenções de Genebra, consistentes nos atos descritos no art. 8.2(c) do Estatuto, cometidos contra pessoas que não participem diretamente nas hostilidades, incluindo os membros das forças armadas que tenham deposto armas e os que tenham ficado impedidos de continuar a combater devido à doença, lesão, prisão ou a qualquer outro motivo, assim como outras graves violações das leis e costumes aplicáveis aos conflitos armados que não têm caráter internacional, no quadro do direito internacional, conforme os atos enumerados no art. 8.2(e) do Estatuto. Crime de agressão Inicialmente, não havia no Estatuto de Roma uma definição do que seria o crime de agressão. Previa-se somente que o Tribunal poderia exercer a sua competência em relação a tal crime desde que, nos termos dos arts. 121 e 123 do Estatuto, fosse aprovada uma disposição definindo o crime em questão — obrigatoriamente compatível com as disposições pertinentes da Carta das Nações Unidas (art. 5.2) — e que se enunciassem as condições em que o Tribunal teria competência relativamente a esse crime. A definição do crime foi adotada por meio da emenda do Estatuto de Roma do TPI, na primeira Conferência de Revisão do Estatuto em Kampala, Uganda, em 2010, de modo que o crime de agressão foi definido como “o uso de força armada por um Estado contra a soberania, integridade ou independência de outro Estado”. Em 15 de dezembro de 2017, a Assembleia dos Estados-partes adotou, por consenso, uma resolução sobre a ativação da jurisdição do Tribunal sobre o crime de agressão a partirde 17 de julho de 2018. Composição e funcionamento No tocante à sua composição, o TPI é composto pelos seguintes órgãos: a Presidência, responsável pela administração do Tribunal; uma Seção de Recursos, uma Seção de Julgamento em Primeira Instância e uma Seção de Instrução; o Gabinete do Procurador; e a Secretaria (Estatuto, art. 34). Nos termos do Estatuto, o TPI é uma pessoa jurídica de Direito Internacional que tem a capacidade necessária para o desempenho de suas funções e de seus objetivos no território de qualquer Estado-parte e, por acordo especial, no território de qualquer outro Estado, conforme o disposto no próprio Estatuto (art. 4º). O TPI é composto atualmente por 18 juízes, eleitos pela Assembleia dos Estados-partes no Estatuto. Seus membros devem ser pessoas de elevada idoneidade moral, imparcialidade e integridade, que reúnam os requisitos para o exercício das mais altas funções judiciais nos seus respectivos países, e têm mandatos de nove anos não renováveis (Estatuto, art. 36). No âmbito de suas atividades, garantem julgamentos justos e proferem suas sentenças, emitem mandados de prisão ou intimações para o comparecimento perante o Tribunal, autorizam as vítimas a participar dos julgamentos e ordenam medidas de proteção às testemunhas, dentre outras atividades. Também elegem, entre si, o presidente do Tribunal e dois vice-presidentes. O Tribunal possui três divisões judiciais, que julgam as matérias em diferentes fases do processo: prejulgamento, julgamento e recursos. Em suma, os juízes de prejulgamento (geralmente três juízes por caso) decidem se há evidências suficientes para um caso ir a julgamento e, em caso afirmativo, confirmam as acusações e submetem o caso para julgamento. Os juízes de julgamento (geralmente três juízes por caso) conduzem julgamentos justos, decidindo se há evidências suficientes para provar, além de qualquer dúvida razoável, que o acusado é culpado da acusação e, em caso afirmativo, os julgam pronunciado a sentença em público, momento no qual emitem ordens de reparação às vítimas, incluindo a restituição, a compensação e a reabilitação. Por fim, os juízes de recursos (cinco juízes) apreciam os recursos apresentados pelas partes, podendo confirmar, reverter ou alterar uma decisão sobre a culpa ou inocência, ou sobre a sentença e, se necessário, solicitam um novo julgamento perante uma Câmara de Julgamento diferente. Reconhecimento dos povos indígenas e do multiculturalismo A Constituição de 1988 inovou ao trazer um capítulo próprio acerca da proteção dos povos indígenas. Nos arts. 231 e 232 do texto constitucional brasileiro, encontramos os dispositivos que conferem essa proteção diferenciada. Aqui, precisamos nos recordar de que, historicamente, o Estado Brasileiro negou reconhecimento aos povos indígenas. De fato, na história do Brasil, os índios foram sujeitos a reiterados casos de genocídio, além da constante tentativa de apagamento de sua cultura e sua religiosidade. Esse projeto político operou por diversas razões. Interesses econômicos De um lado, por interesses econômicos — especialmente relacionados à apropriação das terras indígenas. Interesses sociais De outro, por interesses sociais, políticos e culturais diversos, que buscaram negar humanidade e o respeito a essa parcela da população. A pretexto de “integrar” os índios à sociedade brasileira, buscou-se o apagamento dos traços característicos desses grupos — desde sua religiosidade, passando por sua linguagem e seus costumes. Ainda hoje encontramos em diferentes cursos e manuais jurídicos referências depreciativas aos indígenas — tratados como incivilizados, ingênuos ou menos capazes do que os não indígenas. Nisso repousa, então, a inovação do texto constitucional brasileiro. Ao dedicar um capítulo ao tratamento dos indígenas em suas especificidades, a Constituição Federal passou a reconhecer a condição do indígena não só como sujeito de direito universal, mas também como sujeito de direitos específicos. Atenção Em outras palavras, aos indígenas são garantidos todos os direitos previstos no texto constitucional, tanto quanto os direitos específicos que a condição de povos indígenas exige. Nesse aspecto, a Constituição incorporou a ideia de reconhecimento do multiculturalismo, ou seja, da ideia de que determinadas sociedades (e cada vez mais outras delas) são compostas por diferentes grupos étnicos que partilham modos de vida, cultura e saberes diferenciados. Em uma sociedade multicultural, então, não basta assegurar a todos os mesmos direitos (igualdade formal). É necessário assegurar também o direito à diferença, conferindo a cada grupo o tratamento jurídico compatível com suas particularidades. Em nossa análise, vamos verificar como esse grupo vem sendo percebido e tratado pelo Poder Judiciário. Tradicionalmente, referimo-nos ao Poder Judiciário como um fórum importante de efetivação dos direitos de grupos vulneráveis, porque, diferentemente de outros poderes, o Judiciário não estaria sujeito às reações da política majoritária. Juízes são independentes e, por isso, podem decidir contra a vontade da maioria, protegendo direitos e minorias. No entanto, nem sempre é assim: juízes e juízas também são pessoas inseridas na sociedade, de modo que, se a sociedade é marcada por desigualdades estruturais (como racismo, machismo e etarismo), juízes e juízas também estão sujeitos a reproduzir essas desigualdades, por vezes perpetuando discriminações. Ainda assim, muitas vezes a Justiça é capaz de exercer seu papel fundamental de avançar nos direitos dos grupos vulneráveis. Direitos assegurados aos indígenas Vamos conhecer, agora, os direitos assegurados aos indígenas no texto constitucional brasileiro, sob a perspectiva do direito à diferença e ao reconhecimento. Já no art. 231, no caput da Constituição, são reconhecidos direitos em favor dos povos indígenas, os quais podemos classificar em dois grupos. Em primeiro lugar Vêm os direitos relacionados ao reconhecimento de sua cultura, de seus modos de vida e de seus saberes (reconhecimento étnico-cultural). É do que trata o dispositivo ao afirmar que: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, art. 231). Em segundo lugar O dispositivo reconhece o direito dos povos indígenas “sobre as terras que tradicionalmente ocupam” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, art. 231). Em uma primeira leitura, poderíamos concluir que o direito à terra se trata de um direito puramente econômico — o direito de propriedade sobre as terras. E, de fato, o art. 231 e seus parágrafos 1º, 2º e 3º versam sobre aspectos eminentemente econômicos relacionados às terras indígenas. É necessário, no entanto, tecermos algumas distinções. Primeiro, as terras indígenas integram o conjunto de bens da União, conforme dispõe o art. 20, inciso XI, da Constituição. São os indígenas, contudo, que detêm a posse permanente dessas terras, nos termos do art. 231, podendo usufruir de suas riquezas com exclusividade. Mais que isso: a exploração de recursos hídricos pelo Estado — por exemplo, para construir uma hidrelétrica — não só depende de um processo mais difícil, exigindo a autorização do Congresso Nacional, como também da oitiva das comunidades indígenas. No entanto, precisamos lembrar que a terra, para povos indígenas (e para povos quilombolas, de que a Constituição trata em outros momentos) não tem um significado puramente econômico, apesar de também ser fonte de subsistência. A terra também tem um sentido existencial: há uma conexão intrínseca entre a comunidade e sua identidade e a terra que ela habita. Isso significa que, para os povos indígenas, a terra consubstancia múltiplos direitos. São eles: 1º – Direito à dignidade humana como direito ao reconhecimento Na medida em que a dignidade da pessoa humana exige o reconhecimento e a proteção de valores comunitáriosde povos indígenas, a terra — como integrante desses valores comunitários — exsurge (ergue-se) como um direito digno de tutela. 2º – Direito à moradia A terra indígena também é o local onde os povos indígenas vivem e reproduzem seus saberes e sua cultura. 3º – Direito à identidade coletiva A terra indígena não só é condição para a reprodução desses povos, mas também um elo que une os diferentes indivíduos integrantes desses grupos. Isso significa que, retirados de suas terras, diversos povos indígenas poderiam desaparecer em seu vínculo coletivo — cada indivíduo buscando sua subsistência em uma parte da geografia do Brasil, levando, assim, à extinção da própria coletividade protegida pela Constituição. É por essa razão que a própria Constituição dispõe, no art. 231, parágrafo 4º, que as terras indígenas são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos que repousam sobre elas são imprescritíveis. Em outros termos, os povos indígenas, que possuem direito de posse e de usufruto sobre suas terras, não podem vendê-las a outras coletividades ou a outros indivíduos. Do contrário, seria possível facilmente desvirtuar o direito previsto na Constituição, já que a pressão econômica exercida por elites locais sobre as comunidades indígenas (muitas vezes, pobres) levaria a que todas as terras demarcadas fossem rapidamente vendidas. Assim, a proteção que a própria Constituição tentou estabelecer seria esvaziada. Portanto, para os povos indígenas, a terra não tem sentido eminentemente econômico, e sim existencial. Ainda que essa afirmação não seja totalmente precisa — ou seja, que haja indivíduos ou mesmo grupos de indígenas que vislumbram um caráter eminentemente econômico em suas terras —, o fato é que a tutela constitucional do direito à terra de povos indígenas reveste-se dessa característica existencial. Tal caráter existencial das terras indígenas fica ainda mais claro se repararmos o que afirma o parágrafo 5º do art. 231 da Constituição. O dispositivo veda que grupos indígenas sejam removidos de suas terras, salvo na hipótese de catástrofe ou epidemia. Mesmo no caso de interesse da soberania do país, a remoção só pode ser temporária e depende sempre de deliberação do Congresso Nacional. Estamos falando aqui, de fato, de proteção aos povos indígenas em sua integralidade — como coletividade, cuja identidade é forjada tanto por seus usos e costumes quanto por sua terra. Terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas Historicamente, a maior parte (senão toda) das terras brasileiras foi ocupada por indígenas, expulsos delas desde o processo de colonização portuguesa. No entanto, esta não pareceu ser a reivindicação dos movimentos dos povos indígenas abarcada pela constituinte. O que se pretendeu, de fato, foi tutelar os povos indígenas que havia em 1988 e que viam suas terras sujeitas a constantes investidas advindas do Estado e de particulares. Ainda assim, foi necessário que o Supremo Tribunal Federal definisse os parâmetros para o reconhecimento do direito a tais terras. Foi o que ocorreu no caso Raposa Serra do Sol (Petição nº 3.388), em que o Tribunal estabeleceu que a definição de “terras tradicionalmente ocupadas” pelos indígenas tem como marco temporal a promulgação da Constituição, ou seja, 5 de outubro de 1988. Isso significa que eventuais aldeamentos indígenas que já não existiam à data de promulgação da Constituição não mais teriam reconhecidos direitos às terras que, no passado, ocupavam. Assim, são terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas aquelas que, em 1988, eram ocupadas por povos indígenas. As terras que apenas no passado foram ocupadas por indígenas, mas que não mais o eram em 1988, não são resguardadas pelo art. 231 da Constituição. Exemplo O que acontece no caso de, por exemplo, um aldeamento indígena haver sido violentamente expulso de suas terras alguns anos antes da promulgação da Constituição? Imagine um caso de esbulho possessório ocorrido antes da promulgação da Constituição, ou seja, a situação em que um terceiro impede que indígenas exerçam a posse sobre suas terras, muitas vezes mediante violência ou grave ameaça. Seria possível negar o direito desses povos indevidamente expulsos, mas que seguiam disputando a posse dessas terras, pelo simples fato de terem sido impedidos de exercer sua posse sobre aquelas terras em 5 de outubro de 1988? A resposta é negativa. Para o Supremo Tribunal Federal, estes casos — o chamado “esbulho renitente” — são uma exceção à exigência de que os povos indígenas ocupassem as terras à data da Constituição de 1988. Como consequência da proteção constitucional às terras indígenas, a Constituição prevê, no parágrafo 6º do art. 231, que serão considerados nulos e extintos todos os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse dessas terras. Em outros termos, se um terceiro, não indígena, possuía determinado título que lhe reconhecesse direitos sobre terras que, em realidade, são tradicionalmente ocupadas por pessoas indígenas, esse título seria imediatamente anulado e extinto, em favor dos povos ocupantes da terra. O Supremo Tribunal Federal decidiu nesse sentido, por exemplo, na Ação Originária nº 312, em que declarou a nulidade de título de propriedade que tinha como objeto imóveis localizados na Reserva Indígena Caramuru- Catarina Paraguassu — terras tradicionalmente ocupadas pelo grupo indígena Pataxó Hã-hã-hãe. Atenção Assim, a Constituição de 1988 reconhece o direito à terra dos povos indígenas como forma de assegurar a proteção a esse grupo étnico-racial sob uma perspectiva eminentemente existencial e econômica. O direito à terra para povos indígenas é uma proteção à sua identidade coletiva, ao seu direito à moradia, à sua dignidade humana. Essas terras são definidas de acordo com o dia 5 de outubro de 1988: os povos que ocupavam terras naquela data tiveram seu direito assegurado pela Constituição, mas também aqueles povos que se encontrassem em disputa sobre terras — judicializada ou não — teriam seus direitos reconhecidos. Ficaram de fora tão somente aquelas coletividades indígenas que, muito antes da Constituição de 1988, haviam deixado de ocupar as terras ou mesmo aquelas que haviam desaparecido ao longo dos anos. Proteção de direitos de povos indígenas Diversas particularidades que conformam o direito às terras de povos indígenas não estão textualmente previstas na Constituição. De fato, nenhuma lei é capaz de antecipar todas as controvérsias interpretativas que pode gerar. Disso resulta a importância do Supremo Tribunal Federal, que, ao dar contornos específicos aos direitos previstos na Constituição, pode assegurar em maior ou em menor grau a proteção desses grupos vulneráveis. É por isso que não basta a mera previsão textual de direitos para que eles sejam assegurados. Direitos fundamentais também exigem a existência de organizações e procedimentos capazes de protegê-los tanto de ofício quanto mediante provocação dos interessados. Em outras palavras, como os povos indígenas poderão se proteger diante de violações ou ameaças de violações a seus direitos? Aqui repousa, então, a importância de irmos além do art. 231 da Constituição. Não muito além: é o art. 232 que traz importante previsão quanto à organização e procedimentos de proteção de direitos de povos indígenas. Nos termos desse dispositivo, é garantido aos indígenas, a suas comunidades e a suas organizações a legitimidade para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses. O dispositivo prevê, assim, que os povos indígenas não precisam constituir-se na forma de Pessoas Jurídicas específicas para que possam ajuizar uma ação judicial em defesa de seus interesses. Essa previsão é importante, porque, por terem seus próprios modos de vida, formas e organização, muitas vezes, os povos indígenas não vão estruturar sua ação coletiva da mesma forma que os não indígenas. Exemplo Enquantooutras coletividades, por exemplo, podem formar associações civis como forma de atender a determinados interesses em comum, povos indígenas não possuem esse costume nem estão sujeitos a essa exigência. Uma relevante discussão surge a partir dessa previsão. Apesar de não trazer grandes controvérsias nas instâncias judiciais de primeiro grau, o dispositivo pode gerar certas dúvidas com relação aos casos trazidos diretamente ao Supremo Tribunal Federal. Em especial, surge a pergunta: se forem sujeitados a atos violadores de seus direitos (previstos na Constituição), os povos indígenas poderão ajuizar ações de controle de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal? A dúvida surge, porque o ajuizamento de ações de controle de constitucionalidade é limitado aos legitimados previstos no art. 103 da Constituição Federal. Em uma primeira leitura, os povos indígenas não estão previstos nessa lista de legitimados ativos. A questão foi solucionada pelo Supremo Tribunal Federal em 2020, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 709 (ADPF nº 709). A ADPF foi ajuizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) diante da inércia do Poder Executivo Federal no combate à pandemia da Covid-19 em comunidades indígenas. Afinal, a pandemia gerou impacto desproporcional sobre esses grupos, causando níveis altíssimos de mortes sem uma resposta adequada do governo federal. Porém, a primeira pergunta que o Supremo precisava responder era: poderia a APIB, uma articulação que não era constituída como Pessoa Jurídica, ajuizar a ação de controle de constitucionalidade? A resposta foi positiva. No entendimento do Supremo Tribunal Federal, o conceito de “entidade de classe” também abarca as organizações de movimentos sociais. No caso específico dos indígenas, em relação aos quais a Carta Magna dispensa a constituição de Pessoa Jurídica específica (art. 232), o relator, ministro Luis Roberto Barroso, entendeu que: “Não se pode pretender que tais povos [indígenas] se organizem do mesmo modo que nos organizamos. Assegurar o respeito a seus costumes e [a suas] instituições significa respeitar os meios pelos quais articulam a sua representação à luz da sua cultura.” BRASIL, 2020 Portanto, o Supremo Tribunal Federal não só conferiu certos contornos aos direitos fundamentais de povos indígenas ao longo dos anos como também reconheceu a possibilidade de que tais povos acessem a jurisdição constitucional, o que permitirá, com o decorrer do tempo, que novos casos de violações possam ser levados e solucionados por essa instância do Poder Judiciário. O direito à terra dos povos indígenas: propriedade ou identidade? Questões de gênero abarcadas na Constituição Já vimos que grupos vulneráveis receberam especial atenção da Constituição Federal. Isso se deve a diversos fatores. Um dos principais tem relação com a própria origem da Constituição brasileira. A Carta de 1988 foi elaborada no contexto da redemocratização, marcado pela efervescência de diversos movimentos sociais preocupados com o avanço nas pautas de promoção da igualdade e dos direitos humanos. Movimentos como os de povos indígenas e de negros, entre tantos outros, fizeram-se diretamente presentes na Assembleia Constituinte, ou indiretamente, por meio da pressão social que marcou o processo de elaboração da Constituição. É natural, portanto, que o movimento feminista também encontrasse eco em suas pautas, muitas das quais foram expressamente adotadas pelo texto expresso da Carta Magna. Assim, para listarmos os exemplos mais evidentes, são previstos na Constituição: • O combate à discriminação de gênero - art. 3º, inciso IV • A igualdade de gênero - art. 5º, inciso I • A proibição de discriminação de gênero no mercado de trabalho - art. 7º inciso XXX No entanto, como vimos no caso dos indígenas, não basta a previsão textual de direitos para que eles sejam assegurados ou mesmo para que saibamos de antemão o que significam os dispositivos constitucionais. É apenas a partir da interpretação que conferimos sentido ao texto constitucional, transformando texto em norma. Essa transformação, enfim, permite-nos identificar os comandos constitucionais e verificar as violações à Constituição. Nesse processo, novamente o Supremo Tribunal Federal é um agente muito importante. Tipos de discriminação Fala, mestre! Uma mulher compartilha sua experiência profissional na Petrobras, onde ocupou cargos gerenciais e de diretoria, incluindo a presidência. Ela expressa tristeza e preocupação pelo fato de que, mesmo após ela ter sido pioneira em várias dessas posições, nenhuma outra mulher a sucedeu nesses cargos. Ela menciona que desde os anos 1980 e 1990, quando iniciou em funções técnicas importantes, mas de pouca atuação empresarial, até hoje, o cenário de liderança feminina na empresa não progrediu significativamente. Um dos mais importantes casos julgados pelo Supremo Tribunal Federal em matéria de gênero foi a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1.946 (ADI nº 1.946), julgada em 2003. O caso não parecia, a princípio, ter qualquer relação com o tema da discriminação de gênero. O que se questionava ali era o estabelecimento de um teto de benefícios do regime geral de Previdência Social estabelecido pela Emenda Constitucional nº 20/1998. De acordo com as alterações trazidas pela emenda, os benefícios advindos desse regime previdenciário seriam limitados a R$1.200,00, de modo que caberia, a princípio, aos empregadores arcar com os valores excedentes desse teto. Mais uma vez, o texto nada dizia sobre homens e mulheres. Ocorre que, ao julgar a ADI nº 1.946, o Supremo Tribunal Federal identificou o risco de se produzir, com aquela norma, uma verdadeira discriminação indireta. Do ponto de vista jurídico, a discriminação consiste na negação de direitos a coletividades historicamente marginalizadas. Essa discriminação pode ocorrer de duas formas: Discriminação direta Quando uma lei expressamente prejudica pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência ou outros grupos vulneráveis. Discriminação indireta Quando uma lei ou uma prática não nega expressamente direitos a um grupo, mas, aplicada de fato, acaba produzindo efeitos semelhantes aos que produziria se discriminasse expressamente. Foi exatamente isso que o Supremo Tribunal Federal entendeu que aconteceria quando da aplicação do art. 14 da Emenda Constitucional nº 20/1998 à licença-maternidade. A lógica, antevista pelo STF, é bastante clara: caso o empregador fosse obrigado a arcar com todo valor que exceda R$1.200,00, inclusive da licença- maternidade, um incentivo à discriminação de gênero no mercado de trabalho seria criado. Afinal, para qualquer função cuja remuneração excedesse o teto, o custo do empregador com relação a uma trabalhadora seria potencialmente superior ao de trabalhadores homens. Consequentemente, essa nova norma constitucional iria de encontro ao objetivo de promoção da igualdade de gênero no mercado de trabalho. Por essa razão, o STF excluiu da aplicação do mencionado dispositivo o benefício da licença-maternidade, que deixou de estar sujeito ao teto geral. Veja que nada na Constituição afirmava expressamente que o teto de benefícios previdenciários não poderia atingir a licença-maternidade. Porém, por meio de uma interpretação sistemática, teleológica (argumentativa) e com a aplicação do princípio da unidade da Constituição, o Supremo Tribunal Federal deu concretude à proteção constitucional às mulheres como grupo vulnerável ainda sujeito à intensa discriminação no mercado de trabalho e em outros espaços. Papel do Supremo Tribunal Federal na questão do aborto A discussão sobre gênero se desenvolveu no STF para abarcar cada vez mais debates. Um dos mais relevantes e que se seguiu à ADI nº 1.946/2003 ocorreu na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 (ADPF nº 54). Neste caso, discutia-sea constitucionalidade da criminalização do aborto (arts. 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal) no caso dofeto anencéfalo. A discussão sobre o aborto desse tipo de feto tinha relevância na perspectiva do gênero, porque, a pretexto de se proteger uma vida absolutamente inviável, centenas de mulheres eram forçadas a se submeter à grave dor psicológica de manter uma gestação sem frutos por até nove meses. Para além da dor psicológica, médicos e médicas também se viam sujeitos a graves riscos jurídicos por realizarem a interrupção da gestação, na medida em que pairava insegurança jurídica acerca da caracterização do aborto. Assim, ao ponderar a inexistência de vida no caso do feto anencéfalo e a liberdade sexual e reprodutiva da mulher, bem como seu direito à saúde e à autodeterminação, o Supremo Tribunal Federal entendeu que os artigos do Código Penal que criminalizam o aborto não foram recepcionados pela Constituição de 1988 em relação à interrupção desse tipo de feto. O STF não decidiu que a criminalização do aborto é inconstitucional, e sim que a criminalização do aborto do feto anencéfalo o é, por impor restrições significativas aos direitos da mulher, sem gerar qualquer benefício possível para o feto. Em termos mais amplos, a questão do aborto foi levada ao STF em dois casos que já são paradigmáticos. 1. O primeiro consistiu em uma ação individual — um Habeas Corpus (HC nº 124.306) — julgada pela 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal. Nesse caso, a turma entendeu que a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação não poderia ser equiparada ao aborto, tendo em vista o direito à autonomia da mulher e o impacto desproporcional da criminalização sobre as mulheres mais pobres. Como se tratava de caso individual e julgado por turma (e não pelo Plenário) do STF, o entendimento trazido no Habeas Corpus não significou que o Supremo, como instituição, reconheceu a inconstitucionalidade da criminalização do aborto. 2. O segundo caso foi a análise da compatibilidade entre o crime de aborto e a Constituição, feita pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF nº 442, cuja relatora é a ministra Rosa Weber. Nessa arguição, questiona-se a recepção dos arts. 124 e 126 do Código Penal, tendo em vista a tutela constitucional: • À dignidade da pessoa humana • À cidadania. • À não discriminação. • À inviolabilidade da vida. • À liberdade. • À igualdade. • À proibição de tortura ou de tratamento desumano ou degradante. • À saúde e ao planejamento familiar das mulheres. • Aos direitos sexuais e reprodutivos. Até o final de 2020 o caso não havia sido julgado. É certo que caberia ao STF analisar se a legislação editada em 1940 ainda é adequada à proteção dos bens jurídicos constitucionais fundamentais, ou se ela revela uma incompatibilidade, total ou parcial, com o novo ordenamento constitucional brasileiro. Direitos das pessoas trans De 2010 a 2020, os debates que envolvem questões de gênero ampliaram-se para além das discussões sobre igualdade entre homens e mulheres. Nesse período, verificamos, no Brasil e no mundo, o fortalecimento de movimentos sociais voltados à proteção de minorias de gênero que, historicamente, foram marginalizadas, e cujas identidades foram até mesmo tratadas como enfermidades. Falamos, aqui, especialmente das questões que envolvem pessoas transexuais, transgêneros e travestis (pessoas trans). Dentro desse grupo estão: Homens transexuais Identificados no nascimento como se fossem mulheres. Mulheres transexuais Identificadas no nascimento como se fossem homens. Travestis, não binários e agêneros Outros grupos que não se identificam nem como homens nem como mulheres. E o que o direito tem a ver com isso? Ora, pessoas trans foram historicamente relegadas à margem da sociedade, e a elas foram fechadas as portas do mercado de trabalho, do acesso a direitos básicos e do tratamento respeitoso, em uma sociedade marcada por discriminações e intolerância. Apenas em 2018 a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais, dando um importante passo para compreendermos a necessidade de proteção desses grupos sociais. Considerando o compromisso igualitário da Constituição Federal, o reconhecimento do tratamento discriminatório conferido pela sociedade brasileira às pessoas trans exige a atuação das instâncias jurídicas e políticas com o objetivo de resguardar seus direitos. Nesse sentido, dois casos importantes avançaram na pauta da proteção de direitos de pessoas trans no Supremo Tribunal Federal. A ADI nº 4.275, ajuizada em 2009 e julgada apenas em 2018, voltava-se contra o disposto no art. 58 da Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/1973), que estabelece parâmetros para a alteração do prenome. Para todas as pessoas, o direito ao próprio nome é um dos primeiros passos para o reconhecimento de sua identidade. Pessoas cisgênero não enfrentam, em geral, maiores problemas com relação a esse aspecto de sua identidade. Existem duas exceções: Grave constrangimento Quando o prenome causa grave constrangimento à pessoa. Apelido público notório Quando a pessoa adota, ao longo de sua vida, um apelido público notório, pelo qual, por vezes, é mais conhecida do que por seu prenome real. Nesses dois casos, a legislação e a jurisprudência sempre admitiram a alteração do prenome. Exemplo Foi o que aconteceu, por exemplo, com a apresentadora Xuxa e com o político Lula. No entanto, mesmo os tribunais brasileiros sempre tiveram grande resistência a autorizar a alteração do nome de pessoas transexuais pelo chamado nome social. Disso resulta o fato de que, para pessoas trans, o nome registral sempre tenha sido uma lembrança constante do não reconhecimento pelo Estado e pela sociedade de suas identidades e de sua dignidade. O sofrimento psicológico de serem identificadas, em todos os documentos públicos, por um nome que não condiz com sua identidade, com sua aparência e com seu gênero foi, então, um dos principais motivadores para o ajuizamento da mencionada ADI nº 4.275. Com fundamento nesse fato, o STF estabeleceu, no julgamento da referida ADI, o direito das pessoas trans a alterarem não só seu nome como também seu sexo no registro público, independentemente da realização de cirurgias e mesmo do ajuizamento de ação judicial. Em outros termos, a partir do julgado do STF, as pessoas trans tiveram reconhecido seu direito de buscar, administrativamente — ou seja, diretamente junto ao cartório competente de Registro Civil de Pessoas Naturais —, a mudança de seu nome e sexo, para que fosse compatível com sua identidade de gênero. Ao passo que pessoas trans começaram a obter maior visibilidade social, também tornou-se mais exposta a discriminação sofrida por elas — ora uma discriminação que se produz no campo da negação de acesso a espaços, ora uma discriminação que se converte até mesmo em casos de homicídio que afetam desproporcionalmente essa população. Para lidar com isso, o STF julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26 (ADO nº 26). Nesta, argumentou-se que a Constituição de 1988 impunha o dever do legislador no sentido de criminalizar não apenas o racismo como também toda forma de discriminação, nos termos do art. 5º, incisos XLI e XLII, da Constituição Federal. No entanto, mais de 30 anos depois da promulgação do texto constitucional, jamais avançaram os projetos de lei tendentes a criminalizar as chamadas: Homofobia Discriminação contra pessoas homossexuais. Bifobia Discriminação contra pessoas bissexuais. Transfobia Discriminação contra pessoas trans. Assim, sustentou-se perante o Supremo Tribunal Federal que essa omissão legislativa violaria o dever de legislar imposto pela Constituição, cabendo ao Supremo suprir tal omissão até que sobreviesse a legislação criminalizadora. De fato, o STF acolheu os argumentos apresentados na ADO,afirmando que, até que sobrevenha a legislação especificamente voltada para a homotransfobia, deve-se considerar tais manifestações como expressões de racismo, compreendido em sua dimensão social. Isso significa que, nos termos da decisão do Supremo nessa ADO, as práticas de racismo criminalizadas pela Lei nº 7.716/1989 também englobam as discriminações de gênero voltadas contra pessoas trans. Discriminação e desigualdade de gênero Antes de concluirmos a análise da abordagem do Supremo Tribunal Federal com relação a questões de gênero, não podemos deixar de tratar de outro conjunto de casos que recebeu a análise da Corte. A visibilidade de pessoas trans gerou reações acaloradas em grupos conservadores e em grupos avessos à garantia de igualdade em favor de tais minorias sociais. Então, esses grupos organizaram-se nacionalmente, buscando aprovar diversas leis que tinham por objetivo combater o discurso inclusivo e igualitário de pessoas trans no campo do ensino. Em outras palavras, tanto no âmbito nacional quanto nos âmbitos municipal e estadual, foram apresentados projetos de lei que pretendiam excluir do debate escolar as questões relativas à discriminação e à desigualdade de gênero. Em alguns casos, esses projetos foram aprovados e converteram-se em leis, que, por sua vez, foram impugnadas no STF. Assim, na ADPF nº 457, o Supremo entendeu que leis desse tipo, as quais buscam impedir o debate sobre gênero nas escolas — essencial para a formação de novas gerações capazes de respeitar a diferença e o outro — violam à Constituição sob duas perspectivas: Competência legislativa sobre currículo escolar Não cabe aos Estados e municípios editar normas gerais sobre o currículo escolar — e a ação versava sobre lei municipal. Vedação à censura A Constituição veda a imposição do silêncio e a censura, especialmente quando esse silêncio vai de encontro ao necessário combate a toda forma de discriminação, estabelecido no art. 3º, inciso IV, da Carta Magna. Com isso, vimos como são diversas as questões de gênero trazidas ao Supremo: desde casos envolvendo a discriminação de gênero no mercado de trabalho, a (in)constitucionalidade do crime de aborto até a proteção dos direitos de pessoas trans. São muitos os temas nos quais o Supremo Tribunal Federal atua, tomando decisões — todas, até então, em favor da proteção dos grupos vulneráveis: mulheres (transgênero e cisgênero) e pessoas trans. Mais uma vez percebemos como a atuação do STF é capaz de conferir maior especificidade e densidade normativa ao texto constitucional, assegurando o objetivo constitucional de inclusão, de promoção da igualdade e de combate à discriminação. Direito à identidade de pessoas transexuais, transgêneros e travestis Conceito de idoso Vamos voltar nossa atenção para um terceiro grupo vulnerável que, por vezes, é negligenciado em seu tratamento jurídico e constitucional: as pessoas idosas. Sabemos que, no Brasil, tornar-se idoso é um direito que a realidade social, muitas vezes, transforma em privilégio: a população brasileira jovem e negra, por exemplo, é atingida por altíssimos níveis de violência e letalidade, impedindo-lhe um envelhecimento saudável e o gozo da vida na chamada terceira idade. O fato é, sem prejuízo disso, que as pessoas idosas estão sujeitas a uma forma específica de vulnerabilidade social: muitas vezes, são acometidas por problemas de saúde diretamente relacionados à idade, mas também por doenças psicológicas que as afetam desproporcionalmente. Fora do campo da saúde, a pessoa idosa também encontra dificuldades ora para ser incluída no mercado de trabalho, quando assim deseja, ora para gozar de seu direito à vida em um momento precioso que coroa toda uma existência ao longo de décadas. É nessa linha que o texto constitucional brasileiro buscou conferir amparo aos idosos, o que se realiza não só por meio de direitos específicos como também de políticas públicas especificamente voltadas para essa população. Fora do campo da saúde, a pessoa idosa também encontra dificuldades ora para ser incluída no mercado de trabalho, quando assim deseja, ora para gozar de seu direito à vida em um momento precioso que coroa toda uma existência ao longo de décadas. É nessa linha que o texto constitucional brasileiro buscou conferir amparo aos idosos, o que se realiza não só por meio de direitos específicos como também de políticas públicas especificamente voltadas para essa população. Antes de analisarmos tais dispositivos, precisamos, no entanto, definir quem se qualifica juridicamente como idoso. O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) considera idosa toda pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. Diante do envelhecimento da população brasileira, diversos projetos de lei foram apresentados ao longo dos anos com o objetivo de alterar a idade a partir da qual se considera idosa uma pessoa. Mais especificamente, há quem defenda a alteração do parâmetro: dos atuais 60 (sessenta) anos para 65 (sessenta e cinco) anos. Até que advenha uma alteração legislativa, no entanto, precisaremos atentar ao Estatuto do Idoso vigente. Perceba, a este respeito, como estamos, aqui, diante de uma situação na qual a Constituição nos apresenta um conceito jurídico indeterminado, que depende da atuação legislativa para sua concretização. Assim, poderíamos considerar como idosos pessoas acima de 80, de 70 ou de 60 anos, e todas essas alternativas poderiam estar corretas. Como a própria Constituição não nos dá a resposta, o legislador acaba, então, definindo o recorte aplicável nos limites do que é permitido pelo conceito. Atenção Aqui, surge um ponto importante: uma lei não poderia definir como idoso, por exemplo, os maiores de 30 anos, porque sabemos, com segurança, que pessoas com mais de 30 anos não são idosas. Da mesma forma, a lei não poderia restringir o conceito de idoso às pessoas acima de 100 anos. Afinal, pouquíssimos brasileiros chegam a essa idade, e implementar uma classificação desse tipo esvaziaria o princípio constitucional da proteção da pessoa idosa. Contudo, o legislador goza, sim, de discricionariedade para definir, nos limites semânticos da palavra “idoso” o recorte que seja adequado à proteção constitucional e aos objetivos da Carta Magna. Constituição e tutela à pessoa idosa O idoso é sujeito de direito e goza dos mesmos direitos fundamentais que as demais pessoas. O Estatuto do Idoso teve a preocupação de prever essa proteção a esse grupo social: Art. 2º O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. LEI Nº 10.741, 2003 Feito esse esclarecimento, passamos à análise do texto constitucional. Um primeiro direito assegurado à pessoa idosa está previsto no art. 203, inciso V, da Constituição. Trata-se da garantia de um salário-mínimo de benefício mensal à pessoa idosa que não possua meios de prover a própria manutenção nem tenha família que possa provê-lo. Esse benefício, denominado “benefício de prestação continuada”, foi regulado pela Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742/1993), que o limitou a pessoas idosas com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais. Mais uma vez, diante do silêncio do texto constitucional, é razoável que a legislação estabeleça determinado parâmetro para definir quem é a pessoa idosa tutelada pelo benefício. Já no capítulo voltado especificamente para a família, a criança, o adolescente e o idoso, a Constituição consagrou, em seu art. 230, o dever do Estado, da família e da sociedade de amparar as pessoas idosas: Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurandosua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 Trata-se, aqui, de um dispositivo que reflete o que o ministro Carlos Ayres Britto do Supremo Tribunal Federal denominou “constitucionalismo fraternal”, que exige a efetivação de uma solidariedade social em favor da pessoa idosa. Igualmente, o art. 230, em seu parágrafo 2º, estabelece o direito dos maiores de 65 anos à gratuidade dos transportes coletivos urbanos. Apesar da previsão constitucional expressa, a matéria chegou a ser levada ao Supremo Tribunal Federal em ação que impugnava o art. 39 do Estatuto do Idoso, que reproduzia este dispositivo. No entendimento do STF, diante da garantia de gratuidade inserida na Constituição, não se poderia falar em violação pela legislação que reitera o texto constitucional. Dado o reconhecimento do direito dos idosos pelo Supremo Tribunal Federal, vale conferir o julgado na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.768 (ADI nº 3.768): AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 39 DA LEI N. 10.741, DE 1º DE OUTUBRO DE 2003 (ESTATUTO DO IDOSO), QUE ASSEGURA GRATUIDADE DOS TRANSPORTES PÚBLICOS URBANOS E SEMIURBANOS AOS QUE TÊM MAIS DE 65 (SESSENTA E CINCO) ANOS. DIREITO CONSTITUCIONAL. NORMA CONSTITUCIONAL DE EFICÁCIA PLENA E APLICABILIDADE IMEDIATA. NORMA LEGAL QUE REPETE A NORMA CONSTITUCIONAL GARANTIDORA DO DIREITO. IMPROCEDÊNCIA DA AÇÃO. 1. O art. 39 da Lei n. 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) apenas repete o que dispõe o § 2º do art. 230 da Constituição do Brasil. A norma constitucional é de eficácia plena e aplicabilidade imediata, pelo que não há eiva de invalidade jurídica na norma legal que repete os seus termos e determina que se concretize o quanto constitucionalmente disposto. 2. Ação direta de inconstitucionalidade julgada improcedente ADI Nº 3.768, 2007 Direito preferencial de recebimento de precatórios Outro importante direito assegurado pela Constituição à pessoa idosa diz respeito à preferência no recebimento de precatórios. A Constituição Federal, em seu art. 100, estabeleceu um mecanismo próprio de pagamento das condenações pecuniárias contra a Fazenda Pública, buscando assegurar impessoalidade na satisfação a credores. Diferentemente do que acontece com um indivíduo que perde em uma ação judicial, a Fazenda Pública não deve pagar as condenações judiciais imediatamente. Esse pagamento é feito pelo mecanismo do precatório: a dívida é inscrita no orçamento das entidades de direito público até 1º de julho, para que seja realizado o pagamento até o final do exercício seguinte, na ordem cronológica de apresentação dos precatórios. Isso significa que o prazo para pagamento de condenações judiciais pela Fazenda Pública nunca será inferior a aproximadamente seis meses. Na prática, porém, diversos entes públicos reiteradamente descumprem o dever de pagar seus precatórios, mesmo quando já há muito está esgotado o prazo de pagamento. Em razão disso, diversas emendas à Constituição foram editadas, de forma a reduzir tais dívidas e facilitar o pagamento pelos entes. É nesse contexto de “calote” dos precatórios que surge um tratamento diferenciado e privilegiado em favor da pessoa idosa. Nos termos do art. 100, parágrafo 2º, da Constituição, os créditos de natureza alimentícia inscritos em precatório serão pagos com preferência, caso seus titulares tenham 60 (sessenta) anos de idade ou mais: Art. 100. § 2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam portadores de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na forma da lei, serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor equivalente ao triplo fixado em lei para os fins do disposto no § 3º deste artigo, admitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será pago na ordem cronológica de apresentação do precatório. CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 Essa previsão tem um objetivo específico que vai além da vulnerabilidade da pessoa idosa. O texto constitucional concluiu que, sem esse tratamento diferenciado, seria possível que diversas pessoas idosas jamais recebessem o pagamento das condenações judiciais promovidas em seu favor ou mesmo que, recebendo após anos, não pudessem gozar dessas condenações. Papel do Supremo Tribunal Federal na proteção à pessoa idosa É interessante notarmos que, diferentemente do que ocorre com os povos indígenas e com as minorias de gênero, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ainda é escassa em matéria de proteção à pessoa idosa. Isso ocorre principalmente pelo fato de que a Constituição não previu amplos direitos em favor desse grupo, o que reduz o parâmetro de controle de atos do Poder Público. Além disso, no sistema jurisdicional brasileiro, a proteção da pessoa idosa depende, em larga medida, da implementação de políticas públicas no campo da saúde, do emprego, do lazer, da moradia e do mercado de trabalho, cuja implementação e desenho recaem com muito mais peso sobre: Poder Legislativo Define seus objetivos, suas fontes de financiamento e seus parâmetros gerais. Poder Executivo Efetivamente implementa as medidas concretas necessárias ao atingimento das finalidades constitucionais. Isso não significa que os desafios da proteção da pessoa idosa estejam superados. Longe disso, há muito que se avançar nesse sentido. O Supremo Tribunal Federal pode, eventualmente, ser chamado a avaliar omissões e violações aos direitos desse grupo. Hoje, no entanto, a tutela da pessoa idosa ocorre especialmente fora do debate da jurisdição constitucional, evidenciando para nós, estudiosos do Direito, como os direitos fundamentais dependem, em geral, da atuação de outros agentes externos ao sistema de Justiça. A proteção do idoso como dever da família e do Estado: entre solidariedade e políticas públicassua manutenção. Afinal, apesar da intenção de estabelecer direitos básicos, nenhuma das três declarações mencionadas teve valor constitucional, ou seja, nenhuma foi incorporada à legislação para garantir direitos universais ou prevenir retrocessos. Exemplo Logo após a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a França retornou ao regime monárquico, e após a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o mundo continuou a testemunhar conflitos armados, genocídios e regimes ditatoriais. Entendemos que esses direitos não são garantias, e, sim, um trabalho em progresso. Por isso, precisamos estar sempre vigilantes para não retrocedermos em nenhuma conquista. Construção teórica dos direitos humanos Ao acompanhar a trajetória dos direitos humanos, entendemos que eles são frutos de um processo histórico que combinou ideias, pensamentos e necessidades de muitos momentos e grupos. Atualmente, rejeitamos a ideia de um rei com todo o poder concentrado em suas mãos e de uma sociedade que define nosso lugar social desde o nascimento, sem chances de definirmos nossas próprias vidas. No entanto, nem sempre foi assim. Para que direitos como a limitação de poder e o princípio de igualdade se efetivassem como tratados ou leis, foi necessário construir uma grande argumentação teórica baseada em tradicionais correntes jurídicas filosóficas. Os direitos humanos podem ser justificados por, pelo menos, três correntes filosóficas: jusnaturalista, positivista e moral. Vamos analisar essas correntes e compreender suas argumentações e críticas! Jusnaturalismo Para a corrente jusnaturalista, o direito é visto como algo intrínseco e natural ao ser humano, funcionando antes mesmo de ser legalizado pelas constituições ou pelo Estado. Na Antiguidade, os direitos jusnaturalistas foram interpretados como direitos de origem divina. Posteriormente, na Modernidade, passaram a ser entendidos pelo uso da razão humana e vistos como direitos naturais. Segundo essa corrente, os direitos existem porque haveria uma demanda natural da sociedade por certos princípios. Eles são uma consequência natural da organização dos homens e mulheres, existindo independentemente de qualquer constituição ou diploma legal. Exemplo Os jusnaturalistas acreditavam que, se as pessoas têm naturalmente a ideia de que tirar a vida de outro ser humano é um ato injusto, seria desnecessário uma lei para impedir que as pessoas se matem. O uso do argumento jusnaturalista para defender os direitos humanos sofre uma crítica: acompanhando o desenvolvimento histórico, entende-se que os direitos humanos não são pré-existentes ou uma necessidade natural da vida em sociedade. Como nos mostra a história, os direitos humanos são fruto da evolução, da necessidade e do entendimento de um grupo. Na crítica ao fundamento jusnaturalista, podemos ressaltar o questionamento feito pela professora Lynn Hunt sobre a natureza “autoevidente”, definida pela Declaração de Independência dos Estados Unidos: se esses são direitos tão óbvios, por que precisam ser reafirmados de tempos em tempos?" Positivismo A corrente jurídica do positivismo entende que os direitos não são elementos naturais em uma sociedade. Eles seriam o resultado de discussões e entendimentos do Estado, que decide pela oficialização e legalização de certas normas. Segundo essa corrente, o direito só existe por determinação legal. Ou seja, os direitos humanos só passam a existir quando são institucionalizados e recebem reconhecimento em forma de lei, seja em constituições ou em tratados internacionais. Para os positivistas, não existem direitos como ideias abstratas. Os direitos humanos são apenas o que a lei determina que são direitos humanos. Se estão representados apenas por declarações, segundo a perspectiva positivista, eles não existem e ninguém tem a obrigação de segui-los. A crítica a essa corrente jurídica aponta que essa interpretação literal do que é um direito enfraquece a proteção dos direitos humanos. A corrente positivista deixa de fora uma série de direitos importantes, que são reconhecidos pela comunidade ou que ainda estão sendo discutidos, antes de serem inscritos em alguma legislação. Considerar apenas o que está previsto em lei implica numa redução de direitos. Moralismo A corrente moralista, assim como a jusnaturalista, defende que os direitos são normas que não precisam ser oficializadas em leis e constituições para terem validade. Sua importância está diretamente relacionada às necessidades e valores da sociedade em que estão inseridos. No entanto, diferentemente do jusnaturalismo, o direito moral não surge naturalmente na sociedade; ele se baseia nos valores morais e éticos específicos de um determinado grupo. Exemplo Não há uma lei que obrigue as pessoas a respeitar uma fila que tenha se formado. Ninguém será preso por furar uma fila. Em algumas culturas, essa regra é muito importante, e uma pessoa que se ausenta da fila por algum motivo pode retornar e ter seu lugar garantido. Em outros grupos, passar à frente de uma pessoa desatenta não é um grande problema e pode até ser considerado normal. A crítica a essa corrente aponta para uma limitação que põe em risco os direitos, pois, se cada sociedade possui seu próprio conjunto de valores e entendimento moral, vários direitos humanos diferentes seriam reivindicados ao redor do mundo. Isso enfraqueceria o conjunto de direitos humanos como um direito universal. Neste vídeo, falaremos sobre as correntes jusnaturalista, positivista e moralista, que influenciaram profundamente o desenvolvimento dos direitos humanos ao longo da história. Apesar das diferenças evidentes, as teorias jusnaturalista, positivista e moralista não se contradizem nem disputam entre si; elas se complementam e colaboram para que os direitos humanos tenham uma sustentação e atuação mais fortes na sociedade. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e os demais tratados da ONU são declarações de intenção, ou seja, não são leis válidas por si só. Eles estão baseados nas teorias moral e jusnatural e precisam do esforço e das estruturas legais dos países inscritos nas Nações Unidas para que se positivem, ou seja, que se tornem leis e, de fato, possam ser acessados com mais efetividade por todos. Sem o entendimento jusnatural, sem uma base moral e sem os esforços das Nações Unidas, os defensores desses direitos não teriam argumentos no debate para conseguir valor legal em todos os lugares do mundo e, assim, alcançar toda a família humana. Reflexão Se os direitos humanos fossem somente de natureza jusnatural, sem apoio moral, ou seja, se não estivessem de acordo com os valores da sociedade, não haveria um entendimento da sua urgência e eles não teriam aplicação prática. Da mesma forma, se os direitos humanos não tivessem uma argumentação baseada nos valores morais da sociedade, dificilmente eles se transformariam em discussões e, posteriormente, em leis, e não seriam positivados. O direito defendido pelo artigo 5º da Declaração de 1945, que diz que “ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”. Pela doutrina jusnatural, ninguém deveria ser submetido à tortura, pois isso é um direito autoevidente; é um entendimento natural que isso não deve acontecer. No entanto, se o ato não for ilegal naquela nação, ou se aquele valor não estiver inscrito na moral daquela sociedade, corre-se o risco de que se ignore o senso comum e a tortura, de fato, aconteça. Para entender a complexidade dessas correntes, podemos pensar nas discussões do tribunal de Nuremberg, uma corte internacional formada ao final da Segunda Guerra Mundial para julgar os oficiais de alta patente do regime nazista alemão pela acusação de crimes contra a humanidade. Prisioneiros em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Vista do banco dos réus no tribunal de Nuremberg, 1945. Na ocasião, a defesados militares nazistas foi montada sob o argumento de que seus atos eram legais dentro do sistema de leis alemãs vigente no momento das ações. Ou seja, quando os crimes foram cometidos, nos locais em que foram cometidos, eles não infringiram nenhuma lei. Nesta argumentação, pela teoria jusnaturalista, deve-se descartar o argumento da legalidade e condenar os atos como crimes, por se tratar de atitudes que deveriam ser naturalmente rejeitadas por todos. Por outro lado, a corrente positivista alega legitimidade dos atos dentro do sistema legal da nação onde ocorreram. Essa ideologia ficou abalada e foi amplamente questionada por ter dado respaldo legal a ações dessa natureza, legitimando atuações com indiferença aos valores éticos. As políticas dos regimes fascistas, além do debate sobre a legalidade, foram um marco para as discussões sobre violação de direitos e a sobre a responsabilidade da comunidade internacional diante dessas violações. A filósofa alemã e judia Hannah Arendt produziu reflexões importantes sobre o tema, visto que, até a primeira metade do século XX, apesar dos debates políticos e teóricos sobre direitos universais, parecia que todo o esforço político e filosófico não havia produzido efeitos práticos na sociedade. Hannah Arendt. Analisando os acontecimentos da época, Arendt, cujos estudos foram escritos na metade do século XX, propôs que ocorreu uma ruptura nos direitos humanos não apenas devido aos regimes totalitários de direita e esquerda, incluindo o stalinista na União Soviética, mas também devido às políticas imperialistas praticadas. Naquele período, alguns países impuseram políticas racistas de exploração e domínio sobre povos africanos e asiáticos. Se, após anos de debate sobre o assunto, o mundo vivenciou tais políticas bárbaras de desrespeito à vida, era necessário refletir e criar novas condições para uma reconstrução dos direitos universais. Segundo a filósofa, reconstruir esses direitos envolve dar atenção aos homens e mulheres que perderam seu lugar na sociedade e na política, seja por serem minorias ou por terem sido obrigados a deixar seu local de origem, tornando- se apátridas ou refugiados. Este foi o problema crucial que se intensificou no período entre guerras. Após a dissolução dos impérios ao final da Primeira Guerra Mundial, grupos como armênios, húngaros e romenos perderam sua nacionalidade, tornando-se apátridas. Outros grupos foram forçados a fugir e buscar refúgio em países estrangeiros, como milhares de judeus alemães que escaparam das políticas antissemitas do regime nazista – incluindo a própria Hannah Arendt e seus familiares. Houve também aqueles perseguidos por suas escolhas religiosas, orientação afetiva ou convicções políticas, como anarquistas e comunistas. Uma menina judia refugiada em Xangai, com suas amigas chinesas, durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um significativo deslocamento geográfico pela Europa. Ao fugir de seus lares, muitos tornaram-se imigrantes em outros países, perdendo a proteção legal de seus Estados. Para Arendt, o grupo dos apátridas foi o que teve a situação mais angustiante e o que mais precisava de atenção, pois, além de terem perdido seus direitos, eles não eram reconhecidos como iguais perante a lei, já que a lei nem existia mais para eles. O apátrida, ao ser expulso de sua comunidade, se vê isolado e privado de sua humanidade. Após a Segunda Guerra Mundial, com tantas pessoas sem a proteção de um Estado, surge a necessidade de uma política internacional que garanta o respeito aos direitos dessas pessoas, independentemente de sua situação. A ideia central de Hannah Arendt para a reconstrução dos direitos humanos é que o primeiro direito a ser defendido deve ser o direito a ter direitos. Em lugares do mundo onde indivíduos não têm acesso a nenhum direito, ou onde até mesmo lhes é negado o direito de participar dos debates políticos, eles estão excluídos desse sistema internacional. Segundo Arendt, seria necessário garantir que todos os homens e mulheres, sem condições ou exceções, obtenham proteção jurídica na mesma medida que todos os demais. O indivíduo deveria ser reconhecido como cidadão do mundo ou, como foi dito na declaração da ONU, membro da família humana, sem distinção entre nativo e estrangeiro. Esta nova situação, na qual a humanidade assumiu antes um papel atribuído à natureza, ou à história, significaria nesse contexto que o direito a ter direito, ou o direito de cada indivíduo a pertencer à humanidade deveria ser garantido pela própria humanidade. (Arendt, 2004, p. 332) Se o indivíduo precisa ter direitos acima do Estado, ele também necessita de um Estado para transformar o princípio dos direitos humanos em lei na sociedade em que vive. Os direitos humanos são conquistas progressivas que devem ser continuamente defendidas, fundamentadas em argumentos bem construídos, teoria sólida e ações positivas. Ao observarmos as rupturas sofridas, entendemos que seu estabelecimento não é definitivo e precisa ser questionado e redefinido de tempos em tempos. O ano de 1948 marcou um ponto crucial na história dos direitos humanos: as Nações Unidas proclamaram sua Declaração Universal dos Direitos Humanos, propondo que esses direitos estivessem à disposição de todas as pessoas da família humana. Esta declaração pretendia servir como base para garantir direitos em todos os lugares do mundo. No entanto, não foi denominada uma declaração internacional, mas autointitulada de declaração universal. A escolha do nome refletia a ideia de que esses direitos deveriam transcender fronteiras nacionais e afirmava que pertencem a todos, sem condições ou exceções. Ao ponderar sobre essa universalidade, surgiu o inevitável questionamento: seria possível criar um direito básico que atendesse a todas as demandas, independentemente de gênero, religião, nacionalidade ou qualquer outra característica pessoal? Os direitos humanos deveriam ou poderiam ser universais? A ideia de um recurso legal básico disponível para o mundo inteiro parecia ideal e irrecusável. Se os direitos são vistos como benefícios, não haveria razão para serem rejeitados por alguém, mas, apesar das boas intenções, a ideia não foi unanimemente aceita. Há anos, a questão vinha sendo discutida e a universalidade desses direitos vinha sendo contestada, principalmente pelos países não europeus. Eles não concordavam que essa declaração atendesse a todas as culturas, pois percebiam fortes tendências eurocêntricas nos princípios ocidentais que a sustentavam. Argumentavam que a proposta impunha uma visão unilateral que deveria ser acolhida por todos, sem considerar as diversas culturas, demandas sociais e religiões que existem em diferentes partes do globo. Esses países apontavam que a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi moldada a partir de perspectivas ocidentais e cristãs, deixando de lado outras formas de organização política e crenças religiosas. A contestação enfatizava a necessidade de reconhecer a diversidade cultural e social global, questionando se seria possível uma única declaração de direitos humanos abarcar todas as particularidades culturais e sociais do mundo. Críticas ao universalismo Para os críticos da universalidade dos direitos humanos, a ideia de criar um conjunto de direitos básicos capazes de atender a todos pode parecer soberba, considerando que foi elaborado por um grupo específico, e não por todas as nações. A partir dessa perspectiva, surge a preocupação de que existe um grupo que presume entender sozinho as necessidades globais e pode decidir unilateralmente o que é necessário para garantir uma vida digna, sem consultar aqueles que serão afetados por esses direitos. Isso reforça a ideia de hierarquia e desigualdade, sugerindo que um grupo ou cultura possa tutelar o mundo em detrimento de outros. Além disso, surge a crítica de que uma declaração universal dosdireitos humanos pode ser vista como um instrumento de prática imperialista, onde políticas de um grupo são impostas sobre outros. Segundo Hannah Arendt, as políticas imperialistas da Europa no final do século XIX romperam com os Direitos Humanos no passado, contribuindo para os grandes conflitos do século XX. A universalidade torna-se um objetivo contraditório: busca garantir direitos universais enquanto potencialmente contribui para sua própria ruptura. Respondendo à acusação de ser uma declaração imperialista imposta ao mundo, os defensores do caráter universal da Declaração Universal dos Direitos Humanos argumentam que, desde sua elaboração, diversos países de todos os continentes e culturas variadas aderiram voluntariamente ao documento. Assim, a legitimidade do caráter universal da declaração mostrou- se naturalmente, à medida que os países se empenham em adaptar suas constituições a esses valores. No entanto, é importante lembrar que a declaração de 1948 é um produto histórico, moldado pelas necessidades de sua época e pela sociedade que a produziu. Está em constante evolução e adaptação, nunca sendo finalizada, sempre aberta a melhorias. Multiculturalismo É uma corrente que contesta a visão universalista e amplia as possibilidades de inclusão dos direitos humanos em todo o mundo. Um dos principais defensores dessa corrente é o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que, apesar de português, critica a visão eurocêntrica da Declaração Universal dos Direitos Humanos e busca discutir as diferenças culturais globais para contribuir com uma declaração mais pluralista. Boaventura de Sousa Santos argumenta que é natural que todas as culturas vejam seus próprios princípios como os mais corretos, algo que deveria ser respeitado pelos outros ou não seriam cultivados. Ele ressalta que os ocidentais são frequentemente os únicos a transcender esses limites, buscando expandir e impor seus valores ao restante do mundo. Ao adotar a ideia de universalidade dos direitos humanos, há o risco de impor normas locais a todos, o que poderia ser amenizado ao aceitar e valorizar as diferenças culturais como fundamentais. Caso contrário, a declaração poderia inflamar conflitos entre civilizações. No entanto, também há a igualmente arriscada armadilha de relativizar ao extremo todas as atitudes em nome dos valores locais, sem questionamento crítico. Como lidar com sociedades que, por exemplo, permitem o mutilamento genital de meninas e mulheres em nome da cultura? Reconhecer as imperfeições e os limites culturais é fundamental para a construção de direitos humanos multiculturais. Para Santos, o multiculturalismo representa o equilíbrio entre a competência global e a legitimidade local, ou seja, entre o que deve ser um denominador comum universal e o respeito às características de cada comunidade. Antes de tudo, é crucial estabelecer um conjunto de direitos que promova a igualdade, ao mesmo tempo em que respeite as diversas diferenças culturais das comunidades. [...] temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades. (Santos, 2003, p. 56) Devemos reconhecer as diferenças entre os seres humanos, mas essa diversidade não deve resultar em desigualdade ou hierarquias que classifiquem pessoas como superiores ou inferiores, determinando quem deve comandar, quem deve obedecer, quem deve ser respeitado e quem deve se submeter. Diversidade cultural É fundamental buscar, através do diálogo intercultural, atitudes que possam ser adotadas em diversos grupos ou praticadas de formas diferentes, mas que tenham o mesmo objetivo de não inferiorizar o outro. Nunca se deve assumir que uma cultura ou grupo seja mais correto que outro, buscando sempre uma relação entre diferença e igualdade. Exemplo O tratamento de homens e mulheres na sociedade, que, apesar das diferenças, não deve haver desigualdade. As doutrinas cristã e judaica, que oferecem visões religiosas distintas, mas que não devem gerar hierarquias ou disputas entre seus praticantes. As culturas são dinâmicas e igualdade não é sinônimo de uniformidade. Por exemplo, estadunidenses, brasileiros e argentinos, apesar de originários do mesmo continente, possuem características distintas que devem ser entendidas separadamente, a fim de não gerar falsas generalizações. Dentro do grupo dos islâmicos, por exemplo, existem diferentes correntes como xiitas e sunitas, cujas ideias podem ser semelhantes em alguns aspectos e radicalmente diferentes em outros. Todas as diferenças devem ser aceitas, desde que nenhum valor inferiorize ou ameace o outro. A aceitação das diferenças é crucial para garantir que os direitos humanos sejam efetivamente atendidos. Porque, em cada sociedade, a interpretação de um direito pode variar, e princípios que vão contra práticas locais podem resultar no descumprimento contínuo desses direitos, mesmo que sejam formalmente reconhecidos como lei. Sem o apoio da comunidade, um direito pode perder sua eficácia. Os direitos humanos estão em constante debate e evolução, e as Nações Unidas desempenham um papel crucial ao mediar interesses globais e promover debates para reorganizar os direitos universais. Apesar das críticas existentes, é importante reconhecer o esforço da Declaração Universal dos Direitos Humanos e de tantos outros tratados e documentos redigidos pela ONU. Esses documentos são fundamentais para mobilizar um debate global que visa fortalecer os sistemas jurídicos dos países, buscando uma condição confortável para todos, mesmo que algumas posições sejam questionáveis. A sociedade deve continuar aprendendo a tratar todas as pessoas com igualdade e a compreender as diversas nuances da família humana. Se em um primeiro momento as declarações de direitos essenciais preocuparam-se com a garantia da liberdade e da igualdade, no século XX, outro conceito passou a ser considerado fundamental: o respeito à dignidade da pessoa humana. O primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, assinada em 1948, afirma: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. O Brasil, como membro da ONU e comprometido com a garantia dos direitos humanos, positivou essa ideia na Constituição de 1988, que está em vigor. No primeiro artigo de nossa Carta Magna, registra-se que a República Federativa do Brasil tem como fundamentos: Soberania Cidadania Dignidade da pessoa humana Além do primeiro artigo da Constituição de 1988, a importância da dignidade é tratada em outros trechos de nossa Carta Magna. Exemplo No artigo 170, consta que toda ação econômica tem como finalidade garantir uma existência digna. Já o artigo 230 define que é dever da família, da sociedade e do Estado defender a dignidade das pessoas idosas. Conceito de dignidade da pessoa humana Refere-se às condições mínimas necessárias para que alguém viva uma vida justa, em circunstâncias adequadas e sem depreciação. Este é um valor absoluto que regula todos os objetivos humanos, pois nada é mais crucial do que assegurar as condições vitais para a sobrevivência neste mundo. É uma noção incomensurável e insubstituível, que não pode ser equiparada a nenhum outro valor. A dignidade humana não pode ser substituída por nada, sendo um valor que não pode ser mensurado de forma quantitativa ou qualitativa. Não há uma definição legal única que determine essas condições, pois elas variam entre culturas e sociedades. Para entendermos melhor, vamos conferir os exemplos: Pessoa árabe e praticante do islamismo A dignidade pode estar amparada na possibilidade de constituir uma família e de criar seus filhos dentro dos princípios da sua religião. Pessoa europeia e ateia A dignidade pode estar completamentebaseada nas conquistas financeiras e na possibilidade de desenvolvimento da sua carreira ou do seu negócio. Todos os grupos e culturas nutrem valores básicos que formam seu conceito de dignidade humana. Nas sociedades ocidentais, essas condições de dignidade estão refletidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, que foi escrita por representantes da cultura ocidental. Embora proponha valores universais, ela não necessariamente reflete as condições de dignidade humana em todas as culturas do mundo. Segundo o sociólogo Boaventura de Souza Santos, para que os direitos humanos sejam verdadeiramente multiculturais e alcancem o maior número de pessoas, é fundamental reconhecer que cada cultura possui sua própria concepção de dignidade humana. Nem todas essas concepções serão contempladas nos termos da declaração das Nações Unidas. Dado que algumas concepções de dignidade humana podem ser opostas ou contraditórias, uma solução para alcançar um melhor consenso seria buscar atender ao maior número possível de pessoas. Isso implica adotar uma visão mais inclusiva da dignidade humana, que possa ser aceita dentro das particularidades das diversas culturas. Dentro de uma mesma cultura pode haver correntes divergentes, algumas mais conservadoras e outras mais progressistas. Por exemplo, nos regimes políticos ocidentais, existem tanto regimes democráticos quanto autoritários. Nesse contexto, o diálogo é sempre essencial, pois nenhuma concepção de direitos humanos conseguirá agradar a todas. Transformações no conceito de direitos humanos Assim como os direitos humanos são um conceito construído a partir das demandas históricas que se modificam na medida em que novos acontecimentos surgem, a noção de dignidade da pessoa humana de cada grupo e de cada época também é mutável. Uma significativa transformação desse conceito aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, quando houve a chamada “virada kantiana”, que enfatizou a dignidade humana como um fim em si mesma, rejeitando qualquer forma de coisificação e instrumentalização dos indivíduos. A dignidade da pessoa humana passou a ser considerada um fim para a humanidade e não um meio para a construção do mundo. Atualmente, a responsabilidade de construir uma sociedade agradável não recai apenas sobre os indivíduos, mas sobre a sociedade e suas instituições, que devem ser estruturadas de modo a permitir que as pessoas vivam em plenitude, seguras e felizes. Estruturação dos direitos universais No momento em que se inverte a lógica e se assume que é a sociedade que deve acolher as pessoas, e não o contrário, surge a carta de direitos humanos universais das Nações Unidas. A partir desse ponto, segundo o professor Fernando Quintana (1999), podemos separar os esforços da ONU com os Direitos Humanos Universais em três fases de composição: Primeira faseSegunda faseTerceira fase Período burocrático da definição dos direitos humanos. Para assegurar o sucesso dessa declaração e o acesso aos direitos fundamentais para toda a “família humana”, foi necessário comprometer os países a assumirem tratados e construírem um sistema capaz de efetivá-los. Desde 1966 até hoje, foram assinados nove tratados que devem ser observados e implementados pelos países membros, abordando questões como tortura, imigração, direitos das crianças, pessoas com deficiência, discriminação racial e de gênero, entre outros. Além disso, constituiu-se uma estrutura chamada Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos, composto por órgãos como os comitês regionais, tais como: • Sistema Interamericano de Direitos Humanos • Sistema Europeu de Direitos Humanos • Sistema Africano de Direitos Humanos Esses sistemas regionais acompanham diretamente os países integrantes e se responsabilizam pelos demais países que não fazem parte de nenhum comitê regional, não ficando estes excluídos de acionar os direitos internacionais. Os comitês regionais têm o papel de proteger indivíduos de países que não possuem estruturas similares. Assim, eles devem estender sua ajuda a países e cidadãos que necessitam de acolhimento e proteção, seguindo o princípio de que, antes de pertencer a um país, o indivíduo é parte da família humana. Na primeira metade do século XX, a Segunda Guerra Mundial foi crucial para que a Europa Ocidental e a América do Norte começassem a considerar os direitos humanos como os entendemos hoje. No entanto, o Brasil, sem participação direta no conflito e com uma história, sociedade e problemas sociais distintos, seguiu um caminho diferente na construção e garantia desses direitos. Participamos do esforço inicial das Nações Unidas, mas nossos trabalhos foram interrompidos por 21 anos. Somente no final da década de 1980, com o fim da ditadura militar, conseguimos incorporá-los à nossa Constituição de 1988. Manifestações reivindicando eleições diretas para a presidência da República, no Plenário da Câmara dos Deputados, em abril de 1984. Nossa adesão tardia aos direitos humanos indica que ainda estamos em processo de desenvolvê-los. Considerando a situação atual do país e da população brasileira, é evidente que ainda enfrentaremos muitos desafios para consolidá-los. Diante dessa constatação, surgem muitas questões que devem ser levantadas, como: • Conseguiremos superar nosso passado de atraso? • Em qual estado nos encontramos e quais são nossas perspectivas? • Como desenvolver leis que tenham por princípio que todas as pessoas são iguais em um país de extrema desigualdade? Formação política e social O Brasil é um país consideravelmente jovem e em pleno desenvolvimento político. Da nossa trajetória histórica, costumávamos conhecer e contar apenas uma parte, a partir da chegada dos europeus neste território, no ano de 1500. Desembarque de Cabral em Porto Seguro, Oscar Pereira da Silva, 1904. O ano de 1500 foi marcante para os povos que habitavam esta terra, pois logo após o primeiro contato dos nativos com os portugueses, os interesses europeus passaram a dominar a dinâmica local e se sobrepusessem às necessidades dos povos indígenas. A partir daquele momento, houve silenciamento e uma brutal transformação cultural, política e social. Por bastante tempo, fomos colônia de Portugal. Inicialmente, houve pouco interesse da metrópole em explorar nosso território. As primeiras políticas implementadas aqui tiveram o objetivo de ocupar as terras para que não fossem tomadas por franceses e holandeses. A intensa produção de açúcar era sustentada por uma estrutura na qual uma pequena elite administrava os engenhos, utilizando amplamente mão-de-obra de indígenas e africanos escravizados, que trabalhavam arduamente. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, a população aumentou, mas a sociedade continuou dividida entre uma pequena elite enriquecida e trabalhadores escravizados que suavam nas minas. Pintura retratando a lavra do ouro em Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, 1825. Em 1822, o Brasil se tornou oficialmente independente de Portugal, porém grande parte da estrutura colonial permaneceu intacta. Ao contrário de outros países, o presidencialismo não substituiu a monarquia, e o trabalho escravo não foi interrompido. O governo imperial retardou a abolição da escravidão até quando não foi mais possível, tornando o Brasil o último país a assinar a abolição da escravatura. A partir da Lei Áurea, os escravizados foram libertos, mas não foram implementadas políticas para assisti-los. Abandonados pelo poder público, enfrentaram inúmeras dificuldades para sobreviver. Lei Áurea, 1888. Ao contrário de outros países, o presidencialismo não substituiu a monarquia, e o trabalho escravo não foi interrompido. O governo imperial retardou a abolição da escravidão até quando não foi mais possível, tornando o Brasil o último país a assinar a abolição da escravatura. A partir da Lei Áurea, aprovada em 12 de maio de 1888, os escravizadosforam libertos, mas não foram implementadas políticas para assisti-los. Abandonados pelo poder público, enfrentaram inúmeras dificuldades para sobreviver. Um ano depois da abolição, em 1889, foi proclamada a República no Brasil. Nos primeiros anos, a participação política se manteve limitada a uma pequena parcela da sociedade. Somente ao longo do tempo que conseguimos conquistar a ampliação dos direitos políticos para todos. Nas primeiras décadas desse regime, mulheres, indígenas e analfabetos não podiam votar para eleger um representante e tampouco se candidatar para lutar pelos seus direitos. A República brasileira é considerada um regime político bastante frágil. Ao longo dos anos, enfrentamos processos de impeachment e passamos por dois longos períodos de ditadura, nos quais o Congresso Nacional foi fechado, a Constituição perdeu sua autoridade legal e uma série de direitos do povo foi suspensa. Foi somente em 1988, ao final do regime militar, que conquistamos uma nova Constituição que garante amplos direitos para o povo, vigente até os dias atuais. Devido à extensa proteção de direitos que oferece, essa Constituição ficou conhecida como Constituição Cidadã. Constituição de 1988 A Constituição de 1988 é a oitava Constituição escrita no nosso país, um número considerado muito alto. Alguns países, como os Estados Unidos, usam a mesma Constituição desde o início de sua formação jurídica, ou precisaram passar por poucas renovações. A necessidade de múltiplas reescritas em nosso país reflete nossa instabilidade política e a inadequação de nosso conjunto de leis no passado para garantir direitos universais e atender às demandas sociais. Sessão parlamentar que instituiu a atual Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. A atual Constituição foi redigida para superar as restrições aos direitos durante o regime militar, restaurar a democracia e promover a redução da desigualdade social e o combate à corrupção. Sua elaboração foi um processo de mais de um ano e meio, conduzido por deputados e senadores eleitos democraticamente em 1986. É crucial notar que, dos mais de 500 congressistas envolvidos, menos de 30 eram mulheres, nenhuma delas ocupando uma cadeira no Senado Federal, destacando a significativa desigualdade de gênero na representação legislativa no Brasil. Essa Carta Magna consagra os princípios fundamentais do Brasil, como: • Liberdade de expressão • Igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres • Separação de poderes para evitar a concentração de autoridade, típica de regimes absolutistas Além disso, garante uma série de direitos sociais, incluindo acesso permanente a: • Educação • Trabalho • Saúde • Lazer Além de ampliar os direitos dos brasileiros, a Constituição de 1988 também se compromete com os direitos em nível universal. Logo nos primeiros artigos, estabelece que o Brasil deve primar pelo predomínio dos direitos humanos nas relações internacionais. O compromisso nacional inclui participação em tribunais internacionais que discutem tais direitos, e determina que a Defensoria Pública tem a função de promover e defender os direitos humanos em todo o país. Embora tenhamos uma Constituição escrita de forma democrática que prevê muitos direitos sociais para o povo, ela por si só não é suficiente para garantir uma vida digna aos brasileiros. As determinações constitucionais estabelecem princípios que devem ser implementados no país, mas isso requer a formulação de políticas e medidas específicas para que se tornem efetivas. Para que a nossa Constituição não passe a ser um mero documento de intenção, os poderes Executivo e Legislativo devem colaborar mutuamente. Exemplo Não basta a Constituição determinar acesso gratuito à saúde; é essencial que o poder Executivo desenvolva uma estrutura de hospitais e serviços médicos para garantir esses direitos a todos, transformando as disposições constitucionais em realidade prática. Fala, mestre! O vídeo aborda a importância dos tratados de direitos humanos no Brasil, que foram elevados ao nível de dispositivos constitucionais, tornando seus retrocessos inadmissíveis. Além disso, destaca a trajetória de protagonismo do Brasil na agenda internacional de direitos humanos, enfatizando sua participação histórica em conferências e negociações internacionais. O vídeo também ressalta a relevância do multilateralismo na política externa brasileira, exemplificando com o papel do Brasil na negociação do direito do mar. Por fim, aborda o impacto dos costumes no direito internacional, evidenciando práticas como a concessão de asilo diplomático na América Latina. Brasil na proteção dos direitos humanos O Brasil foi um dos países fundadores das Nações Unidas em 1945. Apesar de contribuir para a elaboração da Declaração Universal de Direitos Humanos, no início da década de 1960, o país interrompeu a consolidação desses direitos durante duas décadas de regime militar, que suspendeu a Constituição e muitos direitos civis e políticos. Atualmente, com os direitos restabelecidos, retomamos o processo de consolidação dos direitos humanos e fazemos parte do Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos e do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Estes sistemas visam garantir a efetivação dos direitos humanos em nível regional e oferecer suporte aos cidadãos de países que não recebem assistência adequada do Estado. Bandeiras da ONU, do Brasil e dos objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU, na Casa das Nações Unidas no Brasil. O Brasil possui compromisso ratificado com oito tratados internacionais da ONU: 1. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 2. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos 3. Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial 4. Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher 5. Convenção contra a Tortura 6. Convenção sobre os Direitos da Criança 7. Convenção para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados 8. Convenção sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência Nos últimos anos, o Brasil tem se destacado pela sua participação ativa nas Nações Unidas. Além de ratificar tratados internacionais, acompanhamos de perto a agenda de debates e tivemos a honra de integrar o Conselho de Segurança da ONU em algumas ocasiões. Atualmente, mantemos uma participação permanente na Assembleia Geral. Em 2011, a então presidenta Dilma Rousseff fez história ao ser a primeira mulher a abrir os debates dessa reunião. Brasil na proteção dos direitos humanos Neste vídeo, falaremos sobre a atuação do Brasil no cenário internacional sob a perspectiva dos direitos humanos, considerando os inúmeros desafios enfrentados pelo país. Aplicações e desafios dos direitos humanos no Brasil A Constituição e as políticas públicas são as principais ferramentas para aplicar os direitos humanos dentro de uma nação. Se essas estruturas não estiverem sendo suficientes para garantir os direitos básicos e a dignidade da pessoa humana, qualquer pessoa ou organização pode e deve cobrar do governo a fiscalização e a implementação desses direitos. Vamos entender como ocorre esse processo! O Estado não atende Quando um Estado não atende aos seus cidadãos, ainda temos a possibilidade de acionar os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos. No caso do Brasil, podemos recorrer ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Acionamento dos órgãos competentes Ao serem acionados, os órgãos competentes irão investigar e podem condenar o país por violação dos direitos humanos. Essas condenações ocorrem quando se identifica que os direitos foram gravemente descumpridos e que somente uma decisão judicial ou uma indenização não seriam suficientes para reparar o problema. Pressão sobre o Estado Quando uma sentença internacional é proferida,seu objetivo é pressionar o Estado a debater o problema, revisar os sistemas que estejam provocando essas violações e desenvolver leis e políticas públicas que evitem novas violações dos direitos humanos. Em nossa história, o Brasil foi condenado oito vezes pela Corte Interamericana. Uma dessas condenações foi no caso conhecido como Maria da Penha. Em 1983, Maria da Penha sofreu uma tentativa de homicídio por parte de seu marido, e o processo que deveria condená-lo foi tão extenso e inconclusivo que passaram-se 15 anos sem que o culpado fosse preso. Maria da Penha, a sobrevivente que dá nome à lei de combate à violência doméstica no Brasil. O caso foi levado à Comissão Interamericana que, em 2001, quase 20 anos depois, responsabilizou o Estado brasileiro por negligência, omissão e tolerância à violência contra as mulheres. O caso repercutiu na nossa sociedade e, atualmente, temos uma lei com o nome da vítima, cujo objetivo é estipular punição adequada e coibir a violência contra as mulheres. Em nossa sociedade, é comum vermos pessoas relativizando o uso dos Direitos Humanos e desacreditando sua importância. Isso prova que vivemos em um Estado de constante violação dos direitos humanos, onde o desrespeito por direitos básicos é comum e pouco se faz para garantir a dignidade da pessoa humana. No cenário atual do país, ainda é necessário reforçar as instituições democráticas, promover muitos debates, criar políticas públicas e buscar a conscientização popular para que esse conjunto de direitos seja respeitado, permitindo que nossa comunidade viva com mais dignidade e menos desigualdade. Expressões jurídicas e seu contexto na realidade social Uma das grandes preocupações dos estudiosos da aplicação do direito é justamente a terminologia (estudo dos termos, das palavras e seu sentido) utilizada ao longo do tempo nos mais diversos documentos jurídicos, tais como leis, códigos, decretos, constituições, entre outros. Uma não rara incompatibilidade entre discursos políticos e jurídicos, espécies normativas e o direito que acaba sendo aplicado nem sempre é percebida pela sociedade civil e pelos atores da operação do direito. Comentário O senso comum crê que os termos do direito são incompreensíveis e entendidos quase como um código secreto. Ambos os lados precisam se esforçar, pois têm muito a contribuir entre si. Não estamos falando necessariamente da falta de conhecimento técnico das pessoas não letradas nas ciências jurídicas, mas sim de muitas inconsistências terminológicas criadas e/ou perpetuadas por fontes de reprodução de conteúdo “não muito científicas”, por assim dizer (sem metodologia aplicada às teorias e práticas da área do direito e suas relações com o restante do mundo). Sim, o mundo jurídico tem seu próprio vocabulário escrito e falado, criado nem sempre à imagem e semelhança da melhor técnica. Pior do que não conhecer o vocabulário técnico, algo normal em qualquer área, é não conhecê-lo e, por ouvir dizer, passar a acreditar que ele significa algo que não tem sentido. Não conhecer o vocabulário técnico também se agrava, em tese, com a realidade espacial do momento mais globalizado do mundo, com possibilidades de trocas intensas, principalmente nas comunicações, que incentiva ideias de maior amplitude de aplicação de normas jurídicas; ou com traduções menos científicas ainda, potencialmente universais, que acabam sofrendo resistência quando aplicadas em determinado território, povo e em realidades cultural e economicamente distintas. E ainda mais se o desafio for tratar de direitos humanos, que são entendidos como aplicáveis a todos os seres humanos. Vamos adentrar agora esse campo para conhecermos as divergências terminológicas, teorias e classificações dos direitos humanos que impactam as relações cotidianas, seja qual for a sua área de atuação profissional ou interesse pessoal. Em outras palavras, foi criado um conceito chamado pós-verdade, que pensa nossa sociedade. Segundo esse conceito, passamos a crer menos no exercício racional. Tendo em vista a fácil legitimidade de qualquer troca de pensamento nas redes de comunicação, passa a ser desnecessária a reflexão científica. Assim, se você acredita em algo e busca aquilo que reforça o seu olhar – independentemente do grau de absurdo –, isso é suficiente para que a crença se torne verdade. Veja um exemplo! 01 Verdade e exercício racional 02 Pós-verdade e reforço da crença Direitos humanos ou direitos fundamentais: qual o começo e qual o nosso referencial? Os direitos humanos normalmente aparecem no mundo ao largo da história em momentos sequenciais de grandes tragédias humanas e ou humanitárias. O ser humano, sim, ele mesmo que é tão protegido e regulado pelo direito protagoniza, não raro, atos e fatos sociais que mancham a linha cronológica de sua própria existência. Seja por valores e interesses materiais normalmente ligados ao direito de propriedade ou exploração comercial, incluindo dominação de povos e territórios, conceitos e ideologias de cunho filosófico ou religioso e até mesmo biológicos, a história relata um número exaustivo de ações de humanos contra humanos. Não são casos de disputas ou rixas individuais por culpa ou dolo dos protagonistas da cena em si, mas, sim, batalhas orquestradas e executadas com propósitos coletivos, normalmente associados a liderança de um povo, estado ou coletivo menor que intenta impor suas ideias a força para os demais; ou castiga, quando percebe que não conseguiu seu objetivo primário. Aqui estão algumas atrocidades lidadas na sociedade com naturalidade. Acompanhe! Tirania do rei Leopoldo II da Bélgica, na África Bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki Holocausto judaico Massacre de Armênios Para evitar lágrimas, queremos apenas que você perceba que fala-se em direitos humanos quando os sujeitos percebem o que suas ideias e verdades são capazes de fazer com o outro. Negar ou justificar qualquer tipo de massacre faz com que você esteja reproduzindo exatamente as ideias que nos levaram a tais massacres. Pense nisso! Vamos continuar. Comentário Podemos conceber algumas ideias do Jusnaturalismo mais clássico que assimilava direitos ou ideias de princípios da natureza e do cosmos como sendo parte integrante também do ser humano. Com divergências e segmentações diversas, os antigos filósofos foram pioneiros em agregar essas ideias de direitos e características. Cícero foi um desses filósofos, um dos grandes nomes de Roma. Segundo ele, o homem deve seguir a natureza, e então perceber como funciona a característica individual de cada grupo. A ideia de mudança social, por exemplo, é algo visto com estranheza. Quem nasce para ser filósofo será filósofo, e ir contra sua natureza por qualquer interesse fará com que seu percurso seja antinatural. O mesmo vale para a justiça. Estamos aqui falando de um período que se estende de quatro a cinco séculos antes de Cristo e que encontra um importante marco temporal de nossa contagem histórica com a chegada do conceito de dignidade de cada uma das pessoas, baseando-se no judaísmo e na filosofia cristã, sem prejuízo do que a força religiosa da Igreja Católica iria proporcionar na Idade Média nos séculos seguintes. Se olharmos para o período do século X até a chegada ao entorno contemporâneo, perceberemos claramente a produção de legislações que procuraram proteger melhor os direitos inicialmente individuais (e depois coletivos) dos seres humanos. (MELLO, 2021) Fato é que, partindo do Jusnaturalismo, na poeira dos séculos, a fé, a filosofia cristã e o direito travariam intensos debates e batalhas para atuar em direitos naturais, dignidade pessoal, liberdades individuais, propriedades e no contato e atuação com a população indígena e com os negros como pessoas escravizadas. Em outras palavras, ao longo do tempo tivemos uma oscilação entre a defesa da dominação do outro, justificada de formas diversas,e a obrigação moral de protegê-lo. Já imaginou o conflito? Para não irmos muito além, podemos aqui apontar duas atuações em especial veja! Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, Benedito, Calixto, 1927. Jesuítas e a atuação da Companhia de Jesus A ordem Jesuíta tinha a missão de catequizar e cuidar dos índios, mas foi acusada de exploração, escravidão e legitimação da escravidão. Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravizados. O jantar. Passatempos depois do jantar, Jean-Baptiste Debret, 1830. Escravidão da população negra e a Lei do Ventre Livre O ordenamento jurídico no texto da lei fala em proteção da pessoa humana, mas continua permitindo a escravização da população negra como um todo. Eleanor Roosevelt segurando pôster da Declaração Universal dos direitos humanos,1949. Após a Segunda Guerra Mundial, foi criada a Declaração Universal dos direitos humanos em 1948, um marco universal do tema que ilumina, desde então, as reformas legislativas e a busca de um norte referencial para o comportamento humano social, ainda que com diferenciados níveis de aceitabilidade e aplicabilidade prática. Caso queira, leia a declaração na íntegra e a use para acompanhar o material daqui em diante. Conheça alguns dos documentos mais importantes para a evolução desse pensamento. 1888 Declarações de León 1215 Magna Carta Inglesa 1628 Petição de Direitos 1649 Habeas Corpus Act 1659 Toleration Act 1689 Bill of Rights 1776 Declaração de Independência dos Estados Unidos da América 1787 Constituição dos Estados Unidos da América 1789 Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão 1791 Declaração de Direitos 1864 Convenção de Genebra 1888 Lei Áurea do Brasil 1919 Convenção da Liga das Nações 1948 Declaração Universal dos direitos humanos 1963 Carta Encíclica do Papa João XXIII Essa é só uma amostra da variedade geográfica e temporal das declarações que podem ser encontradas ao longo da história defendendo interesses que passam ao longo dos séculos e são encorpados ou associados a uma ideia maior dos direitos humanos. Muitos dos documentos mencionados, bem como diversos acontecimentos contemporâneos a eles, ocorreram, principalmente, como resposta a tragédias ou grandes violações históricas dos direitos das pessoas. Não podemos esquecer que nem sempre “todos eram iguais perante a lei”, mesmo nos territórios atuais de importantes países e lideranças mundiais. Reside aí, talvez, a primeira e maior violação contra o ser humano, que afeta a própria ideia de um standard (padrão ou modelo) mínimo refletido em alguns países como o Brasil, no Princípio Fundamental da Dignidade da Pessoa Humana (CRFB 88, art. 1º, III). Não podemos esquecer que antigamente os costumes e tradições influenciavam o comportamento humano e os limites da atuação dos poderes, em maior medida do que o direito formal dos chamados Estados, uma realidade que nem sempre foi a mesma que vemos hoje em dia. Tradição inventada Aliás, o tema dos costumes e tradições é muito bem-tratado na obra A Invenção das Tradições (HOBSBAWN, 2012), quando o autor busca explicar o conceito de tradição inventada e sua diferenciação dos costumes, sendo mais um indicativo da dificuldade de termos, na prática, um rol hermético ou mais unificado de direitos humanos universais. Nosso hábito de voltar muito no tempo para explicar uma sociedade é uma invenção. Os processos que se aportam no passado são de interesse de um grupo em afirmar que nós pertencemos a ele. Por isso, no Brasil vivemos com a ideia de ter um passado tão europeu. Nesse sentido, para além dos exemplos e documentos históricos citados e apresentados acima, os direitos humanos no século XX, principalmente desde o Pós-Guerra de 1945 até a chegada aos nosso dias, estão consolidados como direitos que visam assegurar, no plano internacional e nos respectivos sistemas jurídicos nacionais, as condições mínimas para a sobrevivência das pessoas. Como exemplos, podemos citar o direito ao nascimento com vida e criação até a idade adulta, à integridade física e moral, além de temas como ir e vir, saúde, educação, trabalho, direitos políticos, acesso à justiça e outros temas relevantes para uma vida digna. Abrangem também as medidas de prevenção e reparação das violações ocorridas. Vida digna não tem relação com “finanças”, mas, sim, com acesso e com impedir que as pessoas não tenham condições de dignidade humana. A memória da guerra e da violência do seu entorno é mais importante e trabalha problemas mais próximos do que uma tradição histórica, que serve, de fato, para legitimar e naturalizar violências. Publicação das Consolidação das Leis do Trabalho no Diário Oficial, 1943. A própria evolução da legislação e justiça do trabalho no Brasil é um exemplo claro de como um documento jurídico interno protege direitos humanos. O maior expoente foi, sem dúvida, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pelo Decreto nº 5452 de 1º de maio de 1943. Ela reuniu esforços criando uma legislação trabalhista antes espalhada em legislações diversas, e as demais legislações trabalhistas são referenciadas e aparecem na mesma CLT. A CLT está disponível no site da Casa Civil do Governo Federal. Você percebeu que alcançamos o nosso conceito contemporâneo de direitos humanos? Os direitos humanos na contemporaneidade são direitos que visam assegurar os direitos humanos no plano internacional e nos respectivos sistemas jurídicos nacionais. Abrangem também as medidas de prevenção e reparação das violações ocorridas. Terminologia dos direitos fundamentais Quando discutimos a terminologia dos direitos fundamentais, a sensação é de que estamos tratando de coisas muito parecidas até aqui, não é? Então por que falarmos ora direitos humanos, ora direitos fundamentais? E mais: o que os profissionais atualmente precisam conhecer sobre cada um deles em suas respectivas áreas de atuação? Pois todos nós somos afetados em nossas atividades pelas proteções jurídicas e sanções possíveis de violações dos tais direitos humanos e dos direitos fundamentais. Recibo de venda da escrava nagô Francisca a Maria Antônia Teixeira, 1848. Vejamos agora que nem sempre basta um documento jurídico ter uma expressão técnica para garantir ações e resultados esperados. A Constituição Imperial do Brasil, de 1824 ( encontrada na íntegra no site da Casa Civil), continha no seu Título 8º, ao final do texto constitucional, uma série de artigos destinados aos direitos fundamentais entendidos como essenciais à época, incluindo o direito à propriedade, utilizado também para o tráfico e escravização de pessoas de origem africana, principalmente nas atividades econômicas de então, como bem sabemos. Não será difícil você perceber o ponto de conexão entre as duas expressões. Partindo, inclusive de um conceito mais jurídico, é possível ver no detalhe como a conexão ocorre. Os direitos fundamentais são conceituados como direitos subjetivos, assentes no direito objetivo, positivados no texto constitucional, ou não, com aplicação nas relações das pessoas com o Estado ou na sociedade. (MORAES, 2000) Repare que, quando conceituamos os direitos fundamentais na contemporaneidade, destacamos que os países os regulam nos sistemas jurídicos nacionais, isto é, em suas Constituições, Códigos e Leis diversas. E quando o fazem, buscam diferenciar ainda mais os direitos humanos (ou parte deles) como direitos que estariam acima de outros direitos nacionalmente protegidos. É uma maneira de dar maior destaque e normalmente aferir medidas de proteção e sanção diferenciadas. É o caso do Brasil, inclusive, que traz na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB 88), em seus arts. 5º a 17, o Título chamado Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Ulysses Guimarães segurando uma cópia da Constituição de 1988. Ora, já começamos a entender um pouco melhor a terminologia de direitos humanos