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DIREITOS HUMANOS 
 
 
 
Direitos humanos são direitos básicos que devem ser garantidos a todo ser humano 
independentemente de sua condição. O significado parece simples, mas definir o que 
são condições mínimas para que qualquer ser humano, em qualquer lugar do planeta, 
viva de forma digna é uma tarefa complexa, mais ainda se pensarmos que essas 
condições se modificam ao longo do tempo. 
 
Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948. 
Quando falamos de direitos humanos, geralmente nos referimos à Declaração Universal 
dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, 
que é um marco importante na história dos direitos humanos. 
 
No entanto, é fundamental reconhecer que, antes dessa declaração ser escrita, houve um 
longo caminho na construção de direitos básicos, com interesses que se modificam com 
o passar do tempo. 
 
Para compreendermos o que são os direitos humanos no século XXI, precisamos 
observar o desenvolvimento das necessidades dos seres humanos ao longo do tempo e 
as lutas travadas para desenvolver esse conceito. 
É certo que, se observarmos cada sociedade, desde os primeiros povos, veremos que 
cada uma teve suas urgências e que, em alguns momentos, foi preciso estabelecer um 
conjunto de leis, regras ou ideias para garantir o mínimo de dignidade e condições de 
sobrevivência para todos. 
Ao longo do tempo, as guerras aconteceram e deixaram alguns grupos mais interessados 
em garantir sua integridade do que outros. Tecnologias foram sendo criadas e vistas 
como fundamentais para uma condição digna de vida. 
Cada época tem suas necessidades básicas, que surgem em um determinado contexto. 
Exemplo 
Com o avanço da tecnologia e o crescente acesso à internet, o direito à conectividade 
digital tem sido cada vez mais considerado essencial. Durante a pandemia da covid-19, 
a internet se tornou vital para a educação, o trabalho e o acesso a serviços de saúde. Isso 
mostrou como a conectividade digital é crucial para garantir oportunidades e uma vida 
digna no contexto atual. 
À medida que o tempo passa e fatos acontecem, outras dificuldades aparecerão e nos 
farão repensar o que consideramos essencial para viver. 
Primeiras declarações de direitos 
As primeiras referências ao termo direitos humanos datam dos séculos XVII e XVIII, na 
Europa Ocidental, quando se vivia a chamada crise do absolutismo, ou seja, no 
momento em que a ideia de um governante soberano com todos os direitos concentrados 
em suas mãos perdia força (Hunt, 2009). 
Nos séculos XVII e XVIII, a expressão “direitos humanos” não tinha o mesmo 
conteúdo político e legal que conhecemos atualmente. Era usada apenas como um 
contraponto aos direitos divinos. 
As ideias dos filósofos do Iluminismo — movimento intelectual do século XVIII que 
questionou os princípios políticos e religiosos da época — inspiraram os liberais a 
lutarem contra os absolutistas, criando um “Estado de direito”, esse Estado tinha sua 
organização determinada pelo uso das leis. Esse período também é conhecido como a 
“era dos direitos” (Bobbio, 1992). 
Segundo a historiadora Lynn Hunt, foi o Iluminismo que materializou a noção de 
direitos básicos para todos, principalmente por meio de dois documentos: a Declaração 
de Independência, dos Estados Unidos, e a Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão, escrita durante a Revolução Francesa. 
Declaração de independência dos Estados Unidos 
Esse documento foi resultado da insatisfação dos estadunidenses, naquele momento 
conhecidos como as Treze Colônias Inglesas da América, com a metrópole Inglaterra. 
Na época, os colonos viviam com uma relativa independência política e econômica até 
que foram convocados pela Inglaterra a se envolver numa guerra contra os franceses, a 
Guerra dos Sete Anos. 
Mesmo indo à batalha e garantindo a vitória inglesa no conflito, os americanos se 
viram, ao final da Guerra dos Sete Anos, obrigados a pagar dívidas inglesas e a 
obedecer a ordens autoritárias da metrópole. 
Insatisfeitos, os colonos se reuniram e escreveram uma carta ao rei e ao parlamento 
inglês, na qual declaravam sua fidelidade à Inglaterra, mas reclamavam das medidas 
adotadas. A carta não teve a resposta esperada e, em 1776, os colonos americanos 
voltaram a se reunir no Segundo Congresso da Filadélfia, onde redigiram a Declaração 
de Independência, na qual informavam à metrópole os motivos pelos quais estavam 
rompendo com a Inglaterra e não fariam mais parte do reino inglês. 
 
Declaração de Independência, John Trumbull, 1819. 
Essa declaração americana anuncia que todos os homens são criados iguais por Deus e 
que recebem Dele direitos que não lhes deveriam ser retirados: a vida, a liberdade e a 
busca da felicidade. 
Esses direitos são vistos pelos autores do documento como verdades 'autoevidentes', ou 
seja, direitos natos a todos os seres humanos que, caso não sejam respeitados pelo 
governo, dão ao povo o direito e o dever de substituir o governante ou mudar as regras 
da política até que possam ser desfrutados com segurança. 
A finalidade da declaração de independência dos Estados Unidos não era estabelecer 
direitos básicos, pois, segundo os redatores, esses direitos são autoevidentes e estariam 
naturalmente disponíveis em uma nação justa. Em vez disso, o documento argumentava 
a necessidade de rompimento com a metrópole devido à falta de respeito a esses 
direitos, criando as bases para a nova nação que iria surgir. 
A declaração de independência dos Estados Unidos demonstrou as intenções daquele 
momento, mas ainda não tornava oficiais esses direitos, o que só aconteceu 
posteriormente, em 1787, quando foi assinada a Constituição dos Estados Unidos. Neste 
novo documento, nota-se que alguns daqueles direitos autoevidentes não foram 
respeitados. 
As leis estadunidenses permitiam que a escravidão permanecesse legal nos Estados 
Unidos, recusando aos trabalhadores escravizados ao menos dois dos três direitos 
básicos apresentados na declaração de independência, como a liberdade e a busca pela 
felicidade. 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão 
Foi resultado de um conflito que teve início com a insatisfação do povo com o seu 
governante. Dessa vez, o descontentamento era dos franceses com o rei absolutista Luís 
XVI. 
Após o envolvimento da França para apoiar os americanos na Guerra de Independência 
dos Estados Unidos, o monarca francês tentou controlar a crise econômica aumentando 
os impostos cobrados da população, mas manteve as classes privilegiadas isentas de 
contribuição. 
Inspirados também pelos valores iluministas, o povo se rebelou e se proclamou, em 
Assembleia Nacional, para subordinar o rei a uma constituição. Assistindo às 
movimentações nas ruas e sem conseguir controlar a situação, o rei reconheceu a 
legitimidade da Assembleia e orientou que os grupos privilegiados também fossem 
cobrados. 
Em 1789, com todas as classes reunidas, a Assembleia francesa aprovou a Declaração 
dos Direitos do Homem e do Cidadão. 
 
Assembleia Nacional que aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 
1789. 
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão defendeu que a ignorância, a 
negligência ou o menosprezo aos direitos dos homens eram a razão da difícil situação 
em que o povo se encontrava e que, para mudar a situação, era necessário defender de 
forma solene os direitos considerados naturais, inalienáveis e sagrados do homem. 
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão também afirma a existência de 
direitos naturais aos homens. Porém, diferentemente da ideia americana, esses direitos 
não são evidentes por si só e precisam ser ditos e defendidos. Como podemos observar 
no primeiro direito da declaração francesa, que afirma que os homens não só nascem, 
como devem permanecer livres e iguais, ou seja, uma condição inerente ao ser humano 
e não provisória. 
Se compararmos a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, com a 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, encontraremos diferençase direitos fundamentais, uma vez que compreendemos que alguns 
países elevam em suas constituições tais direitos (e outros de seu interesse) à 
categoria de direitos fundamentais. Pense na palavra fundamental: ela 
transforma a concepção de direitos humanos, uma proposição histórica, em 
direitos fundamentais (que não podem ser abdicados). 
Vamos então ratificar nossas conceituações sobre o tema, para facilitar ainda 
mais a nossa compreensão, entenda! 
Direitos humanos 
Visam assegurar, no plano internacional e nos respectivos sistemas jurídicos 
nacionais, as condições mínimas para a sobrevivência das pessoas, tais como 
o direito ao nascimento com vida e criação até a idade adulta, à integridade 
física e moral, além de temas como ir e vir, saúde, educação, trabalho, direitos 
políticos, acesso à justiça e outros temas relevantes para uma vida digna. 
Abrangem também as medidas de prevenção e reparação das violações 
ocorridas. 
Direitos fundamentais 
Estão assegurados na ordem jurídica interna de cada país e integram o rol de 
temas entendidos como superiores em categoria aos demais direitos que 
regula. Se tal país é signatário de documentos jurídicos internacionais que 
declaram direitos humanos, terá, em seu rol de direitos fundamentais, os 
mesmos direitos, além, eventualmente, de outros mais explicitados e que 
reflitam realidades nacionais, nem sempre dimensionadas no macro. Os 
direitos fundamentais podem refletir realidades de bens e interesses materiais 
e imateriais. 
Com tais conceituações, é possível chegarmos à conclusão de que países como 
o Brasil, por exemplo, têm uma dupla proteção jurídica no tocante aos 
direitos humanos e que tais expressões não são excludentes, mas sim 
fortalecedoras de que os sistemas jurídicos internacional e nacional estão 
afinados, cada qual ao seu modo. Competências, decisões e força coerciva: 
esses países irão tomar todas as providências para proteger os direitos de uma 
vida digna para as pessoas. 
E mais: na esfera internacional, os atores jurídicos são os países e estados 
membros (no caso dos blocos) e há, portanto, um predomínio da linguagem de 
direitos humanos mais ampla, com expressões macro indefinidas no 
detalhamento de como deveriam ser integralmente respeitados os direitos nos 
espaços políticos e jurídicos dos países. 
 
Entrada do Museu do Apartheid em Joanesburgo. 
É justamente aí que temos um grande problema de execução, pois há situações 
em que os países não conseguem pôr em prática os direitos humanos 
consagrados internacionalmente, considerando fatores locais, inclusive de 
natureza cultural, ligados a tradições e costumes diversos. 
 
 
Casos históricos do Apartheid na África do Sul e a mutilação de partes do 
órgão sexual feminino da Nigéria são alguns exemplos de tradição de culturas 
que são consideradas, por princípios, contra os direitos humanos. 
Já na esfera dos sistemas jurídicos internos dos países, o acesso primário à 
justiça é das pessoas naturais e jurídicas, normalmente visando esgotar o tema 
com as normas jurídicas mais próximas, entre particulares e particulares ou 
mesmo contra o poder público. Nesse espaço, para os países que fazem a 
diferenciação de direitos fundamentais, busca-se primeiro a proteção a essas 
normas, evoluindo-se, conforme o caso, instâncias e violações ao espaço de 
tutela e atuação de organismos internacionais. 
Exemplo 
É o caso da Comissão Interamericana de direitos humanos, criada para 
observar casos de violação. Os procedimentos começam com uma denúncia e 
podem culminar com sanções econômicas aos países signatários (OEA, 2021). 
No caso do Brasil, há um ingrediente a mais logo como princípio fundamental 
de nossa CRFB 88, que é a dignidade da pessoa humana. Essa é mais uma 
demonstração do Brasil como país. 
Na Assembleia Constituinte de 1987, o país valorizou a vida humana, assim 
entendida como o direito ao nascimento, à alimentação, à moradia, ao meio 
ambiente saudável, à criação dos pais em uma família, ao acesso à educação, 
ao trabalho, à segurança pública; e o direito de ir e vir, de competir e crescer 
em igualdade de condições pela propriedade privada, entre outros. 
Tudo isso deve ser assegurado às pessoas durante todo o seu tempo de vida. 
Aliás, no caso dos bebês, até antes, pois nosso Código Civil põe a salvo os 
direitos do nascituro. 
É possível afirmar que, em termos de documentos jurídicos, o Brasil é um país 
extremamente protetivo dos direitos humanos, do Princípio da Dignidade da 
Pessoa Humana e, claro, dos direitos fundamentais, não só na CRFB 88, mas 
também em sua legislação infraconstitucional. 
É também comum que os entes federativos do Brasil, isto é, a União, o 
Distrito Federal, os estados, territórios e municípios tenham em suas estruturas 
órgãos de tutela dos direitos humanos, como ministérios ou secretarias. Veja 
alguns exemplos! 
Município 
Ministério Secretaria Municipal de Assistência Social e direitos humanos. 
União 
Ministério da Mulher, da Família e dos direitos humanos. 
Estado 
Secretaria de Justiça, direitos humanos e Desenvolvimento Social. 
A imagem a seguir reflete certa confusão conceitual não só entre direitos 
humanos e direitos fundamentais, mas com o sistema jurídico como um todo, 
pois, se o direito está pautado para as relações das pessoas entre si e com o 
Estado, todas as áreas deveriam entender que os aspectos inerentes aos 
direitos humanos necessitariam estar presentes. 
Exemplo de relação entre os elementos. 
A existência de órgãos e estruturas públicas quase que exclusivamente 
dedicadas a proteger e tutelar essa categoria de direitos demonstra o quão 
longe estamos do equilíbrio e da naturalização de sua aplicação nas relações 
da vida. 
Agora que conseguimos decifrar essas questões terminológicas e seus 
significados, vamos voltar aos direitos humanos, sua classificação e teorias, de 
modo a compreendermos como, de fato, podemos atuar preventiva e 
reativamente para a proteção de tais direitos. Isso sem esquecer da percepção 
do que devemos ou não praticar como profissionais de mercado, pois já vimos 
que, quando lidamos com pessoas, também lidamos com um ou mais de seus 
direitos humanos. 
 
Considerações sobre a teorização e classificação dos 
direitos humanos 
Após tratarmos da terminologia e dos espaços dos direitos humanos e 
fundamentais, vamos trabalhar com a teorização e classificação dos direitos 
humanos, pois, dependendo do referencial de partida, a abrangência e 
aplicação prática deles pode variar muito. É preciso entender que base teórica 
e critério de classificação vamos seguir para o escopo de nossos objetivos. 
Partindo de um método mais tradicional, é possível buscar uma linha de 
raciocínio cronológico, tendo como referência maior a própria teorização e 
conceituação do direito, partindo da ideia do Jusnaturalismo, que contempla 
ideias e bens jurídicos em tese sempre presentes na proteção a ser consagrada 
ao ser humano em sociedade. 
Tratam-se de princípios atrelados à existência do próprio homem, não 
necessariamente dependentes da ideia posterior de humanidade, convívio 
coletivo e pactos sociais diversos. 
Comentário 
Historicamente, nas sociedades patriarcais como a nossa, adotamos “homem” 
para designar humanidade ou o total das pessoas. Teremos que reproduzir 
alguns desses usos, mas se aproximando da contemporaneidade eles ganham 
formas mais igualitárias de tratamento. 
Sem prejuízo dos diversos momentos e correntes do Jusnaturalismo, 
obviamente ele tem uma sustentação muito favorável à defesa de direitos 
humanos, considerando sua própria ideia formadora como algo inerente à 
existência do homem. Se existe o homem, sua vida em existência 
(principalmente coletiva) depende de standards mínimos para a sua 
manutenção, ao menos em teorização primária. 
Seguindo, em dualidade à ordem jurídica do direito natural, encontramos já 
bem-sedimentada e aceita na doutrina a ordem jurídica do direito positivo, 
que, apesar de ser apresentada como uma sucessora mais segura – menossuscetível a vontades e divindades potencialmente variadas para a 
essencialidade de proteção do ser humano originado do divino –, fica à mercê 
do caráter temporal de sua criação normativa e vigência. 
O apontamento inicial serve para inserirmos os direitos humanos como 
conteúdo capaz de estar em espaços e fontes do direito natural e do direito 
positivo, bastando, para isso, que os alicerces de cada movimento de 
teorização do direito os reconheçam como tal. 
Pela ótica do pensamento jusnaturalista e ético, a matriz orientadora da 
fundamentação dos direitos humanos prevalecentes tem um caráter mais 
Jusnaturalista ou de Positivismo Jurídico, vamos comparar! 
Jusnaturalista 
Matriz orientadora da fundamentação dos direitos humanos prevalecentes. 
Tem um caráter mais objetivista, pautado nas ideias essenciais e universais, 
imutáveis ao tempo, espaço e respectiva história. Essa fundamentação tem 
maior relevância na base mais por sua razão de ser do que por seus efeitos. 
 
Positivismo Jurídico 
Ideias fundamentadas em uma perspectiva mais subjetiva, embora sejam 
formalmente garantidas pelo sistema, estão ancoradas nas realidades 
temporais, espaciais e culturais, sem necessariamente refletir algum padrão 
relacionado à suposta essência divina da criação humana ou algo semelhante. 
Sendo assim, se em tal tempo e lugar a proteção jurídica ao corpo humano 
(material e imaterial) for algo extremamente valorizado, ela poderá, sim, 
figurar como parte integrante do rol dos direitos humanos da referida época e 
legislação. Tal proteção poderia, em um século seguinte, por exemplo, ser 
completamente rechaçada pelo ordenamento jurídico de um país, bloco ou 
mesmo por grandes organizações internacionais. Pensemos no caso de uma 
família que se dissolve, veja! 
Caso 1 
Um filho homem pode ter direito às posses do pai, e o compromisso de passar 
a manter toda a família poderia ser um direito. 
 
Caso 2 
Em uma sociedade como a nossa, em que o direito das mulheres é visto de 
outra forma e a liberdade ganha um caráter de escolhas, o direito na relação 
seria aplicado em outro sentido. 
 
Dentro de tal realidade, a matriz de natureza mais subjetivista lista a 
dificuldade de sustentar a existência universal dos direitos humanos, 
considerando as próprias limitações globais entre povos e países. Parte do 
conteúdo de direitos humanos que estamos estudando aqui é considerado ato 
atentatório à dignidade da própria vida em alguns países do Oriente cuja 
formação e existência político-religiosa tem base no Islã, por exemplo. 
 
Malala Yousafzai, ativista paquistanesa ganhadora do Nobel da Paz em 2014. 
Não confunda! No caso Malala, a negação do direito aos estudos era 
contestável, inclusive internamente. Ela pleiteia esse direito e recebe uma 
violência marcante como forma de manter uma tradição que não dialoga com 
os direitos locais. Os costumes poderiam aceitar a negação de seu direito de 
estudar, mas um conjunto vinculado à proteção e tutela dos direitos humanos 
apontaria que seria necessária uma revisão da primeira, e uma completa 
inaceitação da violência sofrida por ela em consequência de pleitear tal 
direito. 
Tal realidade sustenta a tese de que a matriz orientadora dos direitos humanos 
tem natureza mais subjetivista, sendo que a maior prova disso é o que se 
coloca em parâmetros e compromissos em documentos internacionais 
(declarações, cartas, tratados ou convenções), e o mesmo vale para os sistemas 
jurídicos internos dos países, como vimos há pouco. 
E que fique claro que não temos aqui o propósito de convencer sobre qual 
alinhamento matricial é o certo ou errado. 
A ideia é apresentar as bases e, de certo modo, fazer você perceber que, no 
modelo dos direitos humanos da atualidade, matrizes mais subjetivas acabam 
por prevalecer nas democracias ocidentais, ainda que tenhamos um número 
cada vez maior de direitos assegurados. 
Tais matrizes vêm sustentando cada vez mais direitos humanos na sociedade 
contemporânea e, certamente, também dentro do direito positivo, que se 
pratica principalmente desde a consagração do movimento constitucionalista 
do século XX e os importantes apontamentos feitos no período após a 
Segunda Guerra Mundial. 
 
Classificação dos direitos humanos: critérios 
diferenciados e Teoria do Status 
A classificação de um instituto em qualquer área da ciência pressupõe a 
eleição de um ou mais critérios que possam isolar quantitativa e 
qualitativamente partes ou o todo de um elemento já conceituado. Estamos 
falando sobre os direitos humanos que já tratamos nos itens anteriores. 
Sabemos já importantes questões terminológicas a seu respeito, juntamente 
com os chamados direito fundamentais, e conhecemos as matrizes 
orientadoras de sua origem e sustentação ao longo dos séculos até os dias 
atuais. Agora, aprenderemos a classificá-los e dividi-los para, na sequência, 
melhor entendê-los. 
Antes de iniciarmos, vamos deixar claro que já contamos com alguns modelos 
e critérios tradicionais de classificação. Podemos classificar os direitos 
humanos a partir de 3 importantes critérios e planos de identificação. 
I 
Plano segundo a Teoria do Status (Georg Jellinek) 
II 
Plano de gerações ou momentos 
III 
Plano internacional e nacional 
A seguir, iremos apresentar cada plano de maneira aprofundada, vamos lá! 
I - Plano segundo a Teoria do Status (Georg Jellinek) 
Os direitos humanos estariam vinculados e poderiam ser classificados de 
acordo com a interatividade e proteção jurídica dos indivíduos com o Estado 
(Poder Público). As 4 possibilidades jurídicas de se invocar direitos 
fundamentais seriam os status apresentados a seguir, entenda! 
Passivo 
Tendo o indivíduo como um sujeito em estado de submissão ao Poder Público 
e que tem uma série de comportamentos exigidos. 
Ativo-negativo 
Tendo o indivíduo o direito de resistir em face do Poder Público, pois existem 
garantias do não agir estatal. É um critério negativo para o Estado que não 
pode agir, sob pena de ferir os direitos do indivíduo. 
Positivo-pretensão 
Tendo o indivíduo um papel de demandar do Estado uma série de medidas em 
prol do respeito aos seus direitos. Refere-se à liberdade de agir, muito 
associada à ideia de pretensão. 
Ativo-acessibilidade 
Tendo o indivíduo uma série de possibilidades de integrar a estrutura do 
Estado, do Poder. Na maioria das vezes, ocorre por atendimento a 
contratações públicas diversas, ou mesmo pleitos de candidaturas e processos 
de licitação vinculantes. 
II – Plano de gerações ou momentos 
Os direitos humanos são classificados de acordo com a linha temporal e o tipo 
de direitos protegidos em cada momento de surgimento normativo. Por tal 
critério de classificação, surgido no final dos anos 1970 e defendido 
por Karel Vasakos, os direitos são divididos em 3 gerações que veremos 
melhor a seguir. 
Primeira Geração (Liberdades dos indivíduos) 
 
Aqueles ligados ao exercício de liberdades para cada indivíduo e limitações ao 
agir do poder público estatal. São os tradicionais direitos civis e políticos, 
como liberdade, isonomia e acesso à propriedade. 
O Brasil sempre valorizou muito o direito de propriedade no âmbito de nosso 
ordenamento jurídico. Durante o século XIX, a regulação do direito e acesso à 
propriedade imobiliária, a aprovação das chamadas leis abolicionistas e, em 
especial, a Lei do Ventre Livre (Lei nº 2040, de 1871) revelaram a 
preponderância da propriedade versus a dignidade da pessoa humana, ao até 
permitir que os filhos nascidos de pessoas escravizadas à época fossem 
libertos em dado momento da vida, mas com uma espécie de indenização ao 
“Sr. Proprietário”. 
Tal conceito e ideia viriam a ser equilibrados e elevados a conteúdo de 
Princípio Fundamental da CRFB 88, mais de 100 anos depois. (art. 1º, III da 
CRFB 88). 
Segunda Geração (Igualdade social) 
 
Aqueles direcionados a possibilitar, de fato e de direito, um sentimento de 
igualdade de condições de competição. São os direitos ditos sociais, como 
educação, trabalho, assistência, saúde emoradia, entre outros. 
O direito fundamental de acesso a um trabalho seguro e saudável é ainda uma 
importante pauta internacional e nos sistemas internos dos países. A 
Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, desenvolve desde 
1919 uma atividade crescente na tutela dos interesses das pessoas em 
atividade laboral – ou seja, de todos nós! 
Saiba Mais 
A OIT está disponível nas redes. Ela atua na lógica da proteção, mais uma vez 
marcada pelo tempo com a mudança nas formas de trabalho e a necessidade 
de regulação da superioridade do empregador diante do quadro desfavorável 
do trabalhador. 
Terceira Geração (Fraternidade) 
 
Aqueles destinados ao maior equilíbrio de vida social, tal como a paz pelo 
bem-estar social, meio ambiente saudável, solidariedade, diversidade, respeito 
às características étnicas, entre outros. 
Certamente você já ouviu falar das preocupações mundiais a respeito do meio 
ambiente em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Seja pelas 
violações mais ordinárias, como falta de saneamento básico e destinação 
correta do lixo urbano, rural, residencial ou da produção econômica, o direito 
ao meio ambiente é um direito constitucionalmente protegido e de todos. 
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso 
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder 
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes 
e futuras gerações. 
(Art. 225 da CRFB 88) 
Ele é tido como coletivo, numa linguagem mais universal, e “difuso”, no 
Brasil. Segundo as nossas leis, o direito ao meio ambiente pode e deve ser 
tutelado por qualquer um do povo e, em especial, pela figura do Ministério 
Público por todos os entes federativos em competência concorrente. Sendo 
assim, há campo de fiscalização e legislação para todos. 
Dessa forma, atualmente podemos afirmar que proteger nossa fauna e flora de 
um modo geral são atitudes que tutelam os direitos fundamentais e despertam 
discussões ferrenhas no campo social, econômico, político e até jurídico, na 
esfera nacional e internacional. Em compensação, há poucas décadas o ideal 
de progresso defendia ocupação, distribuição de terras e abertura de estradas 
como forma de proteção e de levar o melhor do mundo a todos. 
III – Plano internacional e nacional 
Os direitos humanos podem estar mais ou menos protegidos no plano 
internacional e no plano dos direitos nacionais dos países. Trata-se de um 
critério que busca identificar, reconhecer e separar, quando for o caso, tutelas 
diferenciadas de diversos níveis de direitos humanos, no sistema de proteção 
internacional e nacional desses direitos. 
Atenção 
Os critérios ou planos de classificação não são necessariamente excludentes 
entre si, e visam apenas a uma abordagem temática diferenciada, de acordo 
com maior ou menor interesse, por um ou outro critério e seus resultados em 
determinado momento de uma região, país ou bloco de países. 
As nações ou países não são os únicos atores envolvidos. Setores públicos, 
privados e terceiro setor devem ser pensados nesse conjunto, sendo “países” 
uma maneira de se referir a todos. 
Mais do que decorar teorias e critérios de classificação dos direitos humanos, 
é importante saber reconhecê-los nas atividades profissionais do cotidiano e 
em todas as áreas do conhecimento. No plano internacional, tratados e 
convenções de direitos humanos têm exigido compromisso do Poder Público e 
de empresas privadas no cumprimento de metas e políticas públicas de 
medidas sanatórias das desigualdades sociais oriundas da falta de acesso a um 
ou outro direito, considerando-o como inerente e necessário à condição 
humana. 
Direitos humanos X Direitos fundamentais no Brasil 
 
Reflexões sobre os direitos humanos 
Os direitos humanos ocupam um lugar de destaque no cenário internacional e 
nos sistemas jurídicos de países e blocos de países ao redor do mundo, com 
especial destaque para os que se enquadram como Estados Democráticos de 
Direito, que adotam regimes políticos baseados na democracia (representação 
direta do povo), ainda que de maneiras diferentes, na escolha dos membros 
dos poderes, em especial legislativo e lideranças dos poderes executivos. 
 
Soldados chilenos queimando livros durante a ditadura militar chilena de 
Pinochet, 1973. 
Mas como reconhecer as características gerais dos direitos humanos? 
 
Como atentar para as especificidades de sua aplicação na diversificada 
realidade de cada país do mundo global? 
 
Regimes ditatoriais, regimes de exceção e outras formas de aristocracia 
adotam em via de regra o corpo legislativo de interesse do grupo, não da 
população. Logo, para eles, direitos humanos são desnecessários ou não 
existem. 
Podemos considerar uma única idealização, uma única visão dimensional 
teórica e prática dos direitos humanos? Vamos lá descobrir as respostas a estes 
questionamentos. 
O que faz um direito ser um direito humano? 
 
Caracterização dos direitos humanos 
Apesar de contarmos com importantes documentos históricos no âmbito 
internacional com indicativos importantes a respeito do conteúdo jurídico dos 
direitos humanos, sabemos que, na prática, a doutrina e os tribunais vêm 
aplicando muito mais peso às características do que a nominata de direitos 
propriamente dita. 
Tal situação ocorre também pelo fato de cada vez mais direitos humanos 
estarem espalhados em legislações infraconstitucional dos variados ramos do 
direito. 
 
Congresso Nacional do Brasil, Brasília. 
Se o corpo legislativo não é um código específico encontrado em um vade 
mecum (um manual específico de leis), como podemos fazer para reconhecê-
lo difuso nas leis de um país, ou mais especificamente nas leis brasileiras? 
 
 
Vamos conhecer algumas características do corpo legislativo e, em seguida, 
acompanhar comentários, conexões e exemplificações de interesse. 
Universalidade 
O alcance dos direitos humanos não é excludente de qualquer ser humano por 
qualquer razão ligada à pessoa humana. Outros fatores locais e normativos 
podem fazê-los não chegar até o indivíduo, mas sendo possível chegar, toda 
pessoa humana é agraciada. 
É talvez uma característica mais desejada do que efetivamente alcançada, 
considerando a diversidade cultural dos países no mundo. Para além da 
tradicional divisão entre Oriente e Ocidente, dentro dos próprios continentes 
do chamado mundo ocidental são encontradas inclusões e exclusões. 
Temas como alimentação, caça aos animais, trabalhos forçados em sistemas 
prisionais, pena de morte, legislação do trabalho, seguridade social e educação 
são tratados de forma bem diferenciada. Veja alguns exemplos! 
 
Caça Regulada 
O direito e a prática da caça no Brasil e nos Estados Unidos da América 
 
Contrastes Culturais 
A diferença entre a cultura de vida nos centros urbanos e no meio rural 
Observe quanta variação podemos ter. Entendeu a dificuldade da 
universalidade? Soma-se a isso o maior número de relações sociais virtuais e 
presenciais entre pessoas e culturas diferentes em razão das atuais tecnologias 
de comunicação, bem como por consequência das facilidades para se viajar. 
Essencialidade 
Corolário da característica anterior, a essencialidade confirma a 
universalidade e vice-versa. Só é universal pois é essencial à existência e 
sobrevivência de todo ser humano. 
Seguindo o comentário e a característica anteriores, resta saber o conteúdo 
essencial em cada país e sua interpretação jurídica interna de validar ou não o 
referido conteúdo. Para tal exemplo, podemos apontar a maior ou menor 
tolerância que os governos têm na execução de políticas públicas em torno da 
população carcerária e suas famílias. 
 
O Massacre do Carandiru, 1992 
Certamente você já ouviu a expressão direitos humanos relacionada a temas 
de tratamento das pessoas apenadas preventivamente ou em caráter reativo (e 
possivelmente também já ouviu muitas críticas a esse respeito), mas o fato é 
que a essencialidade é discutível, por mais difícilque possa parecer para cada 
um de nós, a respeito da visão dos gestores públicos nacionais e 
internacionais. 
É também um tema de conflitos constantes entre autoridades de um país e 
organizações internacionais que realizam estudos e outras atividades 
relacionadas aos direitos humanos e direitos fundamentais das populações 
carcerárias. Vamos conhecer o debate sobre o direito ao uso de armas, ouça! 
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03:48 
Imprescritibilidade 
A regra geral da segurança formal do direito no tempo não atinge os direitos 
humanos. O bem jurídico tutelado supera o decurso temporal formal. 
Obviamente, deve ser o titular do direito violado ou ameaçado diligente em 
sua ação do Poder Judiciário, mas não há que se falar em prescrição. 
 
É uma característica de maior segurança jurídica, que pretende evitar que 
casos de violações de direitos fundamentais fiquem impunes. Como exemplo, 
temos as notícias sobre abusos da integridade física e moral de pessoas, 
rotulados de assédios, ou abusos majoritariamente com apelo sexual. 
A área do entretenimento e o campo das instituições religiosas vivem dramas 
constantes com situações do gênero. A Lei Maria da Penha seria um direito 
humano? Segundo o texto da lei, sim, mas segundo a decisão do STF 
(Supremo Tribunal Federal) sobre ela, não. 
Ouça e saiba mais sobre a Lei Maria da Penha. 
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04:28 
Inalienabilidade 
Ao contrário de outros direitos disponíveis, no caso dos direitos humanos a 
inalienabilidade visa blindar direitos oriundos da própria condição do ser 
humano, evitando assim que abusos ou negócios provenientes da exploração 
de mercado e suas leis próprias afetem em especial os direitos das pessoas 
menos favorecidas socialmente. 
 
Antes 
Foto do Rana Plaza, um prédio de oito pisos que abrigava fábricas de 
vestuário prestadoras de serviço para grandes marcas e um centro comercial 
em Savar, Bangladesh, em 2012. O imóvel apresentava rachaduras e corria 
risco de desabamento. 
 
 
Depois 
O prédio continuou ocupado, até que em 2013 ocorreu o colapso, deixando 
cerca de mil trabalhadores mortos. A tragédia inflamou debates sobre direitos 
humanos e a importância de uma cadeia de produção mais sustentável para a 
moda. 
A pressão do capital e de outros possíveis direitos e interesses são históricos 
na vida humana, em especial nos espaços de maior liberalismo, fruto da 
contemporaneidade. Ocorre que, com o aumento formal de direitos 
fundamentais, foi necessário taxar de inalienável o rol de direitos que cada 
país traz como integrante de sua categoria diferenciada. 
Casos tradicionais colocados à prova diariamente, como os reiterados usos de 
pessoas com crescimento físico diferenciado, modelos de pele negra e 
comércio de órgãos são apenas alguns exemplos da necessidade de proteger a 
mercantilização de direitos fundamentais, esbarrando sempre nos limites 
morais das respectivas sociedades. 
Vamos pensar agora sobre as crenças e os efeitos da intolerência religiosa, 
acompanhe! 
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04:22 
Irrenunciabilidade 
Não se pode renunciar elemento ou parte integrante de seu todo, sob pena de 
esvaziamento do todo. É uma incoerência lógica e jurídica. Visa, em última 
análise, a evitar uma forma diversa da inalienabilidade negativa. Agora é a vez 
de pensarmos o direito ao trabalho sob a perspectiva dos direitos humanos. 
Vamos ouvir! 
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04:53 
Trata-se de característica também presente em grande parte dos sistemas 
jurídicos dos Estados Democráticos de Direito no mundo ocidental. Visa 
evitar uma forma diferenciada de mercantilização às avessas e, na maioria das 
vezes, com base no próprio ordenamento legal. Está normalmente associada 
ao direito material e ao acesso à justiça pelas pessoas naturais. 
Inviolabilidade 
Os ordenamentos jurídicos dos países não podem violar os direitos humanos, 
mitigando seus valores de forma indireta em normas que possam burlar as 
proteções legais. Tais direitos são invioláveis. 
Uma meta a ser atingida: essa é maneira mais honesta e transparente de 
comentar e exemplificar a característica acima, pois, infelizmente, os direitos 
fundamentais são diariamente violados pelas pessoas e pelo poder público. 
Um dos exemplos mais marcantes na atualidade é o direito fundamental à 
saúde. 
 
Refugiados esperam assistência de voluntários em um campo de refugiados na 
fronteira entre Grécia e Macedônia, 2016. 
Não é preciso se esforçar muito para constatar uma violação direta ou indireta. 
O fato é que, apesar de haver trocas de responsabilidade entre os 
juridicamente responsáveis, percebemos violações constantes há algum 
tempo. Isso necessita ser revisto, sob risco de termos um sistema eternamente 
tolerante às violações legais e constitucionais do tema. 
Refletir a hipótese da venda de órgãos sob a perspectiva dos direitos humanos 
também é importante, vamos ouvir! 
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03:12 
Historicidade 
São construções históricas, derivadas de marcos importantes e normalmente 
associados a eventos com grandes perdas humanas e violações de outros 
direitos correlatos. A característica geral da historicidade ratifica a percepção 
a respeito das origens e possível caracterização de novos direitos na linha do 
tempo e do espaço. 
A historicidade é um elemento que dificulta a implementação da 
universalidade dos direitos fundamentais, pois costumes, tradições e outros 
movimentos fazem parte da vida e não de regras imutáveis. Além disso, não 
são fruto de uma evolução linear melhor ou pior, mas sim resultados da 
realidade social. 
 
Mulher com a bandeira palestina em frente aos soldados das Forças de Defesa 
de Israel durante manifestações, 2010. 
A historicidade vai, portanto, variar bastante nos continentes e realidades de 
cada país, além de gerar conflitos jurídicos supranacionais, principalmente no 
mundo atual. É preciso ficarmos atentos para não sermos complacentes e 
intolerantes com as diferenças, ainda que, na esfera internacional, elas estejam 
sob o mantra dos direitos fundamentais e humanos. 
Mas está no meu livro, na minha liberdade de culto, este povo sempre teve 
direito a esta terra: ouça um debate sobre Israel e Palestina. 
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02:55 
Interdependência 
Os direitos fundamentais estão interligados, conectados entre si nos 
importantes documentos jurídicos internacionais e na legislação interna de 
cada país. 
A interdependência dos direitos fundamentais é uma importante característica 
(mais prática do que teórica) e, por isso, falaremos dela. É pela via da 
interdependência que validamos nossos sistemas jurídicos, principalmente em 
países como o Brasil, com diferentes espaços de competência legislativa, 
judiciária e executiva. Tal característica é essencial para uma pretensa 
harmonização em busca de maiores níveis de eficiência da tutela dos direitos 
fundamentais. 
Um assunto relacionado ao direito fundamental é o acesso à justiça dos 
consumidores, categoria da qual dificilmente escapamos e que cada vez mais 
se envolve em situações jurídicas de prestação de serviços, compra e venda, 
restrição de crédito e outras violações, inclusive de seus dados. Os 
consumidores têm atualmente, à sua disposição, espaços diferenciados de 
consensualidade no âmbito federal, estadual e municipal. Vejamos o exemplo 
das opções de um consumidor residente no Rio de Janeiro. 
 
Âmbito federal 
 
Âmbito estadual 
 
Âmbito municipal 
Agora que você distinguiu as características gerais e específicas dos direitos 
humanos, está apto a seguir para a contextualização de tais direitos na visão 
dimensional, na teoria e na prática. Vamos lá! 
 
Visão dimensional dos direitos humanos 
O estudo dos direitos humanos, sua terminologia, teorias, características e 
classificação ao longo dos séculos é base para a compreensão de como tais 
direitos são operados dos sistemas jurídicos atuais dos países e também nas 
possibilidades e limitações no campo de um direito supranacional que possa 
ser aplicado em relações jurídicas estatais e situações complexas envolvendo 
pessoas naturais, grandescorporações de atuação transnacional e outros fatos 
que podem afetar a vida das pessoas em partes diferentes do globo. 
Dentro da lógica desenvolvida e sedimentada, nos documentos históricos que 
tratam dos direitos humanos e, no caso do Brasil e de alguns países europeus, 
na tradição dos direitos fundamentais, tais direitos fundamentais são 
entendidos como aqueles assegurados na ordem jurídica interna de cada um 
dos países. 
 
Ativistas em favor do voto feminino no Reino Unido, direito ainda tratado de 
acordo com regras nacionais em muitos países, 1908. 
Eles integram o rol de temas que um país entende como mais importante em 
categoria aos demais direitos que regula. 
 
 
Se tal país é signatário de documentos jurídicos internacionais que declaram 
direitos humanos, é comum ter, em seu rol de direitos fundamentais, os 
mesmos direitos, além de, eventualmente, outros direitos mais explicitados e 
que refletem realidades nacionais, nem sempre dimensionadas no macro. 
 
 
É possível reconhecer uma divisão ou classificação em gerações, etapas ou, 
como tem sido feito ultimamente, em dimensões diferenciadas no tempo e 
conteúdo. 
Assim, ao falarmos de como os direitos humanos são atualmente enquadrados 
pelos Estados de Direito (para além dos importantes referenciais históricos, já 
reconhecidos baluartes de iluminação global), é no campo dos direitos 
fundamentais que reconhecemos os efeitos da divisão geracional que pode 
refletir direitos materiais e instrumentais de acesso à justiça e outros atos de 
cidadania das pessoas em caráter individual ou coletivo. 
Portanto, os direitos humanos são valorizados e enquadrados em dimensões 
ou gerações, seguindo um encadeamento básico que vamos recapitular agora. 
Direitos de 1ª Geração - Liberdade dos indivíduos 
São aqueles ligados ao exercício de liberdades para cada indivíduo e a 
limitações do agir do poder público estatal. São os tradicionais direitos civis e 
políticos: liberdade, isonomia e acesso à propriedade. 
Direitos de 2ª Geração - Igualdade social 
São aqueles direcionados a possibilitar, de fato e de direito, um sentimento de 
igualdade de condições de competição. São os direitos ditos sociais, como 
educação, trabalho, assistência, saúde, moradia, entre outros. 
Direitos de 3ª Geração - Fraternidade 
São aqueles destinados ao maior equilíbrio de vida social, tais como paz, bem-
estar social, meio ambiente saudável, solidariedade, diversidade, respeito às 
características étnicas, entre outros. 
Direitos de 4ª Geração - Novos direitos 
Essa geração, que não é consensual, ligada aos direitos de acesso à 
informação e comunicação digital em rede, ao regime mais democrático 
possível, e novos direitos da bioética. 
Seja como for, segundo Domenico de Masi, em sua ideia de paradigma, 
vivemos atualmente as transformações mais intensas e rápidas desde o 
Renascimento, Iluminismo, Revolução Industrial e outros importantes 
movimentos, em um período que traduz os efeitos da ação e reação da 
sociedade civil, do mercado e dos poderes estatais em uma espiral intensa e 
com giros dentro de uma mesma geração. 
Não são mudanças simplesmente de uma sociedade líquida. Para além da 
liquidez, há a superação de teses, antíteses, tradições, costumes e outras 
variáveis de mudança de comportamento. Reflita alguns questionamentos! 
• Que Estado atenderá aos desejos e às necessidades da geração presente, 
que vive consideravelmente mais que as duas anteriores? 
• Que educação será adequada? 
• A educação será adequada apenas para a visão de mercado ou sob 
outras premissas sociais mais amplas? 
Não são questões enceradas, mas servem como fundamentação para defesa de 
revisitação dos direitos humanos e respectivos direitos fundamentais de 
maneira mais intensa. Este ponto evidencia uma das razões não para haver 
unanimidade na ideia de dimensões sequenciais e sem fim, mas sim uma 
revisitação e criação de novos direitos para novas realidades a serem 
incorporados ao conjunto da obra. 
Ocorre que essa visão geracional está muito ligada à noção predominante de 
período/tempo e a um movimento mais positivista do direito, tendente a 
regulações mais específicas, o que acaba gerando um “fatiamento” legislativo 
dos direitos humanos e criando barreiras práticas para sua aplicação. 
 
Refugiados venezuelanos buscando acesso a outros países da América Latina, 
fugindo da crise de segurança e liberdade em seu país de origem, 2018. 
Quando trabalhamos com a ideia dimensional, estamos pensando em direitos 
humanos ou fundamentais que podem ser analisados sem separação ou 
hierarquia nas seguintes dimensões, veja! 
 
Se paração das dimensões em relação aos direitos humanos. 
Não há, como na didática anterior geracional, a ideia de tanta fragmentação 
integrar uma única realidade dinâmica. Veja, por exemplo, o Direito 
Fundamental de Acesso à Justiça, previsto no art. 5º, inciso XXXV da CRFB 
88, que traz sob o prisma da igualdade a mensagem de que “a lei não excluirá 
da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Entenda melhor 
cada uma das 3 dimensões. Vamos lá! 
Individual/Liberal 
Na medida que tal acesso pode ser realizado por qualquer um do povo, pessoa 
jurídica de direito privado ou público, interna ou estrangeira. 
Social 
Pode ter provocação e resposta de natureza coletiva, atingindo direitos 
difusos, coletivos e individuais homogêneos. 
Fraterna 
Mundialmente, a Justiça pode se dar cada vez mais por métodos adequados e 
consensuais de solução ou gestão de conflitos, como mediação, conciliação e 
justiça restaurativa, por exemplo. É o que chamam de Cultura da Paz, Bem-
Estar Social, entre outros. 
Um importante direito que está ligado a várias dimensões não é limitado ou 
hermético a um conceito, bem jurídico ou instituto específico; não está isolado 
em período “A” ou “B” e pode ser referenciado pelos documentos históricos 
mais antigos do século XIII, da Independência dos Estados Unidos e 
certamente da Revolução Francesa no século XVIII; e até mesmo estudos e 
referenciais teóricos mais modernos, como os trabalhos de Cappelletti e Garth 
do Projeto Florença e seu extrato mais conhecido, a obra Acesso à Justiça 
(1998). 
Atualmente, não se trabalha mais na prática com a clássica divisão Geracional 
e Temporal. Estamos todos em uma ambiência única, na mesma espiral. O que 
importa é garantir o não retrocesso, assegurando que as pessoas possam 
exercer seus direitos e que os Estados atuem como defensores tanto de forma 
preventiva quanto reativa. 
Sem nenhum passo atrás! 
 
A Organização das Nações Unidas e os direitos 
humanos 
 
O escritório das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça, é o segundo maior 
centro da ONU depois da sede das Nações Unidas, em Nova York. 
Neste módulo, aprenderemos como está estruturado e como opera o sistema 
universal de proteção dos direitos humanos, também conhecido como 
sistema onusiano (Sistema da Organização das Nações Unidas) ou sistema 
global de proteção dos direitos humanos. 
 
O objetivo do módulo é proporcionar a compreensão da arquitetura existente 
na área da ONU para a proteção dos direitos humanos, notadamente por meio 
da análise de seus principais instrumentos normativos e da estrutura 
organizacional especificamente relacionada à proteção de tais direitos. 
A criação das Nações Unidas e o início da edificação do templo dos direitos 
humanos 
 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos é a porta de entrada do templo 
dos direitos humanos. 
(Cassin, 1951) 
Antes do término da Segunda Guerra Mundial, os países aliados já 
arquitetavam a construção de um novo organismo internacional — que viria 
substituir a antiga Liga das Nações — que tivesse como um de seus mais 
importantes objetivos a proteção da vida e a salvaguarda da dignidade humana 
em uma escala global. 
 
É nesse contexto que nasce a Organização das Nações Unidas (ONU), 
criada por meio da Carta das Nações Unidas (ou Carta de São Francisco), 
um tratado internacional assinado em São Francisco (EUA), em 26 de junhode 1945, por ocasião da Conferência de Organização Internacional da Nações 
Unidas. 
A Carta das Nações Unidas dispôs que uma das principais finalidades da 
organização é a promoção dos direitos humanos e sua efetivação em nível 
global, assim como a manutenção da paz e da segurança internacional (arts. 
1º; 13.1, b; 55, c; 62, 2; 68 e 76, c). Desse modo, logo após a sua instituição, a 
ONU passou a desenvolver trabalhos específicos para o alcance de tais 
objetivos. O primeiro resultado desses esforços foi a proclamação da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada e proclamada 
pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217 A III), em 10 de 
dezembro de 1948. 
 
Não há dúvida de que a DUDH constitui um documento marco na história 
mundial dos direitos humanos, sendo responsável pela gênese e pelo 
desenvolvimento da proteção internacional desses direitos, hoje 
consubstanciada em um ramo específico do direito internacional, denominado 
e conhecido globalmente como direito internacional dos direitos 
humanos (DIDH), que visa proteger e promover a dignidade humana em todo 
o mundo ao consagrar uma série de direitos (universais, indivisíveis e 
interdependentes) dirigidos a todas as pessoas, sem distinção de qualquer 
natureza, inclusive de nacionalidade ou do Estado em que o indivíduo se 
encontre. 
 
A DUDH inaugurou uma nova era na história internacional, dando origem à 
concepção moderna ou contemporânea dos direitos humanos, especialmente 
por ser um instrumento que transcendeu as fronteiras nacionais, ultrapassando 
os espaços soberanos em que a precária proteção dos direitos se encontrava 
confinada até então, dando voz a uma herança cultural de toda a humanidade e 
alçando a proteção desses direitos ao nível internacional. 
 
A brasileira Bertha Lutz na Conferência de São Francisco, nos Estados 
Unidos, que elaborou a Carta da Organização das Nações Unidas. 
Seja no plano ideológico, filosófico ou jurídico-normativo, nenhum 
documento na história da humanidade tem contribuído tanto para a defesa e 
garantia dos direitos humanos como a DUDH, razão pela qual é sempre 
importante uma reflexão sobre a sua origem, natureza e seu legado, dentre 
outros aspectos que envolvem esse notável documento. 
Nas palavras de René Cassin (1951, p. 277, tradução nossa, grifo nosso), um 
dos grandes juristas responsáveis pela redação do texto final, a DUDH teve 
como mérito constituir o “pórtico de entrada do grande templo dos direitos 
humanos que foi construído a partir dela”. 
O arcabouço normativo de proteção dos direitos humanos no âmbito da ONU 
 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948. 
Com a criação da ONU e, mais especificamente, com a proclamação da 
DUDH, aos poucos o sistema global de proteção dos direitos humanos foi 
ganhando forma e contornos cada vez mais específicos. Impulsionados pela 
ONU, os Estados-membros da organização sucessivamente passaram a adotar 
uma série de tratados internacionais, juridicamente vinculantes para os 
Estados, bem como outros instrumentos de caráter não vinculante (por 
exemplo, resoluções, declarações, regras mínimas, princípios etc.), todos eles 
voltados genérica ou especificamente para a proteção universal dos direitos 
humanos. 
Como fruto dessa atividade, temos atualmente um amplo arcabouço 
normativo que constitui o corpus juris internacional de proteção dos direitos 
humanos. Esses textos normativos têm sido aplicados em larga escala para a 
solução de muitos tipos de conflitos, tanto pelas cortes e tribunais internos 
dos Estados, como pela Justiça Internacional, composta por cortes, 
tribunais, comissões e comitês, entre outros órgãos internacionais de 
proteção dos direitos humanos. 
Dois tratados de grande importância no âmbito da ONU são o Pacto 
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto 
Internacional dos Direitos Sociais, Econômicos e Culturais (PIDSEC), 
ambos adotados pela Assembleia Geral da ONU em 1966, responsáveis por 
complementar material e processualmente a DUDH, e que em conjunto com 
ela receberam o nome de Carta Internacional dos Direitos Humanos. 
 
Além desses, vale a pena conhecermos outros instrumentos normativos 
onusianos, responsáveis por consagrar os direitos humanos para todas as 
pessoas, independentemente de qualquer fator comumente utilizado para 
promover a discriminação. São documentos que estabelecem uma proteção 
genérica (para todos) ou específicas (mulheres, negros, crianças, idosos, 
pessoas com deficiência etc.) ao redor do globo. 
 
Alguns desses importantes instrumentos, juridicamente vinculantes para os 
Estados-partes são: 
 
• Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio 
(1948). 
 
• Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951). 
 
• Convenção Suplementar sobre Abolição da Escravatura, do Tráfico de 
Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Escravatura (1956). 
 
• Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e 
Políticos (1966). 
 
• Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de 
Discriminação Racial (1966). 
 
• Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados (1967). 
 
• Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 
contra a Mulher (CEDAW) (1979). 
 
• Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, 
Desumanos ou Degradantes (1984). 
 
• Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis 
e Políticos (1989). 
 
• Convenção sobre os Direitos da Criança (1989). 
 
• Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os 
Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias (1990). 
 
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Todas as 
Formas de Discriminação contra a Mulher (1999). 
 
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança 
Referente à Venda de Crianças, à Prostituição Infantil e à Pornografia Infantil 
(2000). 
 
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança 
Relativo ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados (2000). 
 
• Protocolo de Prevenção, Supressão e Punição do Tráfico de Pessoas, 
especialmente Mulheres e Crianças, Complementar à Convenção das Nações 
Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (2000). 
 
• Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e Outros 
Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (2002). 
 
• Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o 
Desaparecimento Forçado (2006). 
 
• Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 
e seu Protocolo Facultativo (2007). 
 
• Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Sociais, 
Econômicos e Culturais (2008). 
 
Outras regras que não são juridicamente vinculantes, mas que servem de 
diretrizes e princípios para a atuação dos Estados-membros da ONU no 
tocante à proteção dos direitos humanos são: 
 
1955 
As Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos 
(Regras de Mandela). 
1985 
As Regras Mínimas da ONU para Administração da Justiça da Infância e 
Juventude (Regras de Beijing). 
1990 
As Regras Mínimas da ONU para Proteção dos Jovens Privados de 
Liberdade. 
1993 
A Declaração e Programa de Ação de Viena. 
2010 
As Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e 
Medidas não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras (Regras 
de Bangkok). 
A estrutura organizacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da 
ONU 
 
Palácio das Nações, escritório das Nações Unidas em Genebra (Suíça). 
Ao lado da proteção de caráter normativo, que se dá por meio dos tratados 
internacionais e por textos de outra natureza, conforme elencados 
anteriormente, o sistema global de proteção dos direitos humanos conta ainda 
com órgãos e mecanismos internacionais de proteção e monitoramento 
dos direitos humanos, responsáveis pela aplicação e efetivação das normas 
internacionais relativas a esses direitose por prestar auxílio aos Estados no 
tocante ao fomento e efetivação dos direitos humanos em seus respectivos 
territórios. 
A ONU possui órgãos próprios e também relações de apoio administrativo e 
técnico com vários órgãos criados pelos diversos tratados internacionais 
elaborados sob seu patrocínio, voltados à proteção dos direitos humanos. 
Esse conjunto de mecanismos de proteção geridos tanto pelos próprios 
órgãos onusianos quanto por aqueles previstos nos tratados também integra 
o denominado sistema global de direitos humanos. 
O que une tais órgãos é a atuação da ONU, quer diretamente, por meio 
daqueles da própria organização; ou indiretamente, mediante a atuação de 
organismos independentes, previstos em tratados elaborados sob seu 
patrocínio e que recebem apoio técnico e administrativo da organização. 
Vamos conferir quais são os principais. 
 
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos 
(ACNUDH) é o principal órgão da ONU encarregado de promover e proteger 
os direitos humanos. Foi criado pela Resolução nº 48/141 da Assembleia 
Geral da ONU, de 1993, a partir de recomendação da Conferência Mundial 
sobre Direitos Humanos de Viena, ocorrida no mesmo ano. 
 
… [a] função precípua do OHCHR é promover e proteger os direitos humanos 
no mundo e liderar os esforços das Nações Unidas nesse sentido, conferindo 
também maior relevância política ao tratamento do tema (...) inclui, entre suas 
competências específicas, o apoio aos demais órgãos da ONU envolvidos com 
a matéria, abrangendo a coordenação das atividades que desenvolvem e o 
esforço para que todas as áreas das Nações Unidas incluam considerações 
relativas à proteção da dignidade humana no tratamento dos temas de sua 
competência. 
(Portela, 2017, p. 914) 
 
Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio 
das Nações, em Genebra (Suíça). 
Outro importante órgão da ONU é o Conselho de Direitos Humanos, criado 
em 2006, por meio da Resolução nº 60/251 da Assembleia Geral da ONU. O 
Conselho substituiu a antiga Comissão de Direitos Humanos (1946-2006), que 
havia sido criada pelo Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC). 
Sua principal função é promover o respeito universal aos direitos humanos por 
meio da supervisão do cumprimento dos compromissos internacionais 
celebrados pelos entes estatais na matéria. É composto por 47 Estados-
membros, escolhidos por votação secreta da Assembleia Geral da ONU, para 
um mandato de três anos. Tem competência para promover e fiscalizar a 
observância da proteção de direitos humanos pelos Estados da ONU e fazer, 
atualmente, a gestão do Sistema de Procedimentos Especiais e do Mecanismo 
da Revisão Periódica Universal (RPU), instrumentos pelos quais fiscaliza o 
cumprimento e a proteção dos direitos humanos por parte dos Estados-
membros da ONU. 
 
Sala usada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em Nova 
York (EUA). 
Os Relatores Especiais de Direitos Humanos também são órgãos onusianos 
de proteção dos direitos humanos. A partir da criação dos procedimentos 
especiais pelas Resoluções nº 1235 (procedimento público) e nº 1503 
(procedimento confidencial) do Conselho Econômico e Social da ONU 
(ECOSOC), especialmente em razão do primeiro, surgiu a necessidade de 
nomeação de órgãos de averiguação de violações de direitos humanos, cuja 
abrangência pode ser geográfica (por país) ou temática. 
Tais órgãos podem ser unipessoais ou coletivos e a denominação é variada, 
isto é, nos casos unipessoais, há o uso da expressão “relator especial” ou ainda 
“especialista independente”; no caso dos órgãos colegiados, utiliza-se a 
expressão “grupo de trabalho”. 
 
Conforme explica André de Carvalho Ramos (2021), o trabalho desses órgãos 
“consiste em realizar visitas aos países, em missões de coleta de dados (fact-
finding missions), bem como em agir diante de violações de direitos humanos 
solicitando (não podem exigir) atenção do Estado infrator sobre os casos. Seus 
relatórios não vinculam, apenas contêm recomendações, que são enviadas aos 
Estados e também ao Conselho de Direitos Humanos e Assembleia Geral da 
ONU”. 
 
Por fim, importante também mencionar os comitês criados por tratados 
internacionais de âmbito universal, que têm como principal atribuição 
monitorar o cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados dentro do 
sistema global ao aderirem ou ratificarem determinado tratado. Estão 
voltados, portanto, para assegurar a observância das normas convencionais, 
seja de um único tratado ou de uma restrita série de acordos específicos. 
 
Sra. Navanethem Pillay, alta comissária para os Direitos Humanos, no Dia da 
Eliminação da Discriminação Racial de 2010. 
São exemplos desses comitês: o Comitê de Direitos Humanos; o Comitê de 
Direitos Sociais, Econômicos e Culturais; o Comitê para a Eliminação da 
Discriminação Racial; o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a 
Mulher; o Comitê contra a Tortura; o Comitê para os Direitos da Criança; o 
Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; e o Comitê contra 
Desaparecimentos Forçados. 
Esses comitês geralmente podem ter a sua competência reconhecida pelos 
Estados para analisar petições de indivíduos que lhes serão dirigidas 
noticiando violações de direitos humanos. 
Em termos conclusivos, podemos afirmar que, no âmbito da ONU, existe 
atualmente um sofisticado sistema de proteção dos direitos humanos em nível 
universal voltado para todas as pessoas pelo simples fato de serem humanas, 
sem discriminação de qualquer natureza. 
 
Sistemas regionais de proteção de direitos humanos 
 
Sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho 
da Europa na antiga Casa da Europa em Estrasburgo em 1967. 
Paralelamente à ONU, outras organizações internacionais regionais 
começaram a surgir após o término da Segunda Guerra Mundial, tais como a 
Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1948; o Conselho da 
Europa (CE), em 1949; e, um pouco mais tarde, a Organização da Unidade 
Africana (OUA), de 1963, que teve como sucessora a União Africana (UA), 
em 2002. Na área dessas organizações também surgiram e passaram e ser 
desenvolvidos sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, com 
vistas a complementar a proteção global desses direitos, anteriormente 
instituída pela ONU. Na atualidade coexistem, em uma relação de 
complementariedade, o sistema global e os sistemas regionais de proteção dos 
direitos humanos. 
Atualmente, existem três sistemas que se encontram estruturados em 
diferentes continentes: 
 
Sistema europeu 
O sistema europeu de proteção dos direitos humanos, arquitetado no âmbito 
do Conselho da Europa (CE). 
 
Sistema interamericano 
O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, arquitetado no 
âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). 
 
Sistema africano 
O sistema africano de proteção dos direitos humanos, arquitetado no âmbito 
da União Africana (UA). 
Apesar da existência de alguns documentos voltados à proteção dos direitos 
humanos no plano regional árabe-islâmico, não é possível afirmar, na 
atualidade, a existência de um sistema árabe-islâmico de proteção dos direitos 
humanos, o que ainda é uma grande aspiração. Nesse contexto, é possível 
destacar a existência de alguns poucos instrumentos: (i) a Declaração 
Universal Islâmica de Direitos Humanos, de 1981; (ii) a Declaração dos 
Direitos Humanos do Cairo ou Declaração dos Direitos Humanos do Islã, 
adotada em 1990 pela Organização para a Cooperação Islâmica (OCI); e (iii) a 
Carta Árabe dos Direitos do Homem, adotada pelo Conselho da Liga dos 
Estados Árabes, em 1994 e atualizada em 2004. 
Vale destacar também que os direitos humanos para os povos árabes 
geralmente se apresentam como um poder derivado de um poder divino, o 
que acaba por produzir situações complexas e violadoras de direitos 
humanos para determinados segmentos sociais, como mulheres e crianças. 
Por sua vez, no continente asiático não existe até o presente momento 
qualquer documento relevantesobre a proteção dos direitos humanos e sequer 
uma expectativa de conclusão de uma convenção regional ou sub-regional de 
direitos humanos. 
 
Antes de passarmos à análise específica de cada um dos sistemas regionais, é 
necessário esclarecer que eles atuam paralela e complementarmente ao 
sistema global. Portanto, esses sistemas internacionais de proteção dos direitos 
humanos não se excluem, ao contrário, se completam. A finalidade do sistema 
global é atuar de forma ampla em todos os Estados soberanos, ao passo que os 
sistemas regionais têm uma atuação complementar àquele, buscando 
aperfeiçoar e fortalecer as determinações dos moldes gerais, bem como tratar 
das especificidades relativas aos direitos humanos em cada âmbito regional. 
 
Rhona K. M. Smith (2014, p. 87), ao apontar algumas vantagens dos sistemas 
regionais, destaca que, “na medida em que um número menor de Estados está 
envolvido, o consenso político se torna mais facilitado, seja com relação aos 
textos convencionais, seja quanto aos mecanismos de monitoramento. Muitas 
regiões são ainda relativamente homogêneas, com respeito à cultura, à língua 
e às tradições, o que oferece vantagens”. 
 
O sistema regional europeu de proteção dos direitos 
humanos 
O sistema europeu de proteção dos direitos humanos é atualmente o mais 
desenvolvido dos sistemas regionais. Foi o primeiro efetivamente instalado, 
fato que se deu em 4 de novembro de 1950, com a adoção da Convenção 
Europeia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades 
Fundamentais ou simplesmente Convenção Europeia de Direitos Humanos 
(CEDH). A Convenção foi elaborada no âmbito do Conselho da Europa, 
órgão criado em 5 de maio de 1949, com o objetivo de unificar a Europa. 
O arcabouço normativo 
A CEDH é o tratado-regente do sistema europeu, que entrou em vigor 
internacional em 3 de setembro de 1953, e continua a ser o mais expressivo 
catálogo europeu de direitos humanos. Logo em seu art. 1º, estabelece a 
obrigação geral de os Estados-partes respeitarem os direitos humanos. 
 
A principal finalidade da CEDH é disciplinar as diretrizes referentes à 
proteção dos direitos da pessoa humana e garantir os instrumentos para sua 
aplicação. Ela também institucionaliza um compromisso dos Estados europeus 
em cumprir efetivamente as normas protetivas nela previstas, não adotando 
quaisquer concepções contrárias em seus respectivos ordenamentos jurídicos 
internos. 
 
Edifício do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem em Estrasburgo, na 
França. 
A CEDH também determina a submissão dos países europeus ao Tribunal 
Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), órgão criado para atuar 
jurisdicionalmente caso haja o desrespeito às normas impostas pela 
Convenção, julgando e condenando os Estados violadores de suas disposições 
e de outras normas integrantes do sistema europeu de proteção. 
 
A CEDH é estruturada basicamente em três partes. 
 
A primeira (arts. 2º a 18) regulamenta os direitos e as liberdades fundamentais 
de natureza civil e política, que se baseiam no direito à vida, na proibição da 
tortura, na proibição da escravidão e do trabalho forçado, na garantia da 
liberdade, da segurança, da vida privada e familiar, do processo judicial 
equitativo e nas liberdades de expressão, pensamento, consciência e religião, 
na liberdade de reunião e de associação, na proibição da discriminação, entre 
outros. 
 
A segunda parte do texto (arts. 19 a 51) diz respeito à estrutura interna e 
funcionamento da Corte EDH, órgão responsável por julgar os casos de 
violação de direitos humanos consagrados e positivados pela Convenção. 
 
Por fim, a terceira parte (arts. 52 a 59) estabelece disposições gerais, tais como 
a assinatura e ratificação, as reservas, a denúncia e a aplicação territorial. 
 
Além do texto principal da CEDH, vários outros instrumentos normativos 
foram criados para a consagração desses direitos no continente europeu, com 
destaque para os protocolos relativos à Convenção, que ampliaram o rol dos 
direitos protegidos. A seguir, estão destacados os protocolos mais 
importantes: 
 
• Protocolo nº 1 (1952), que dispôs sobre o direito de propriedade; o 
Protocolo nº 2 (1993), que trata do direito à educação. 
 
• Protocolo nº 4 (1963), que cuida da liberdade de locomoção. 
 
• Protocolo nº 6 (1983), que dispôs sobre a abolição da pena de morte em 
tempo de paz. 
 
• Protocolo nº 7 (1984), que estabeleceu o direito de apelar em questões 
de natureza criminal, o direito a uma justa compensação por erro judiciário e o 
direito à igualdade entre os cônjuges. 
 
• Protocolo nº 12 (2000), que prevê o direito à não discriminação. 
 
• Protocolo nº 13 (2002), que trata da abolição da pena de morte em 
tempo de guerra. 
 
Junto à CEDH e aos seus protocolos, o sistema europeu conta atualmente com 
mais de 185 instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, 
todos adotados pelo Conselho da Europa. Dentre eles, merecem destaque a 
Convenção Europeia para a Prevenção da Tortura e de Tratamentos 
Desumanos e Degradantes (1987), a Carta Europeia para as Línguas 
Regionais ou de Minorias (1992) e a Convenção para a Proteção de Minorias 
Nacionais (1995). 
 
Os órgãos componentes do sistema 
 
Salão da Corte Europeia de Direitos Humanos. 
De início, com a finalidade de monitorar os direitos previstos na CEDH e 
desenvolver métodos eficazes na produção de resultados protetivos dos 
direitos consagrados, a própria Convenção estabeleceu três órgãos distintos, 
cada um com competências específicas previamente instituídas: a Comissão 
Europeia de Direitos Humanos, a Corte Europeia de Direitos Humanos e 
o Comitê de Ministros do Conselho da Europa. 
Enquanto um dos órgãos inicialmente criados pela CEDH, a Comissão tinha 
uma competência política e “semijudicial”. Sua função era analisar as queixas 
ou comunicações apresentadas pelos Estados-membros do sistema europeu e 
também pelos indivíduos (ONGs ou grupos de indivíduos), acerca de uma 
violação da Convenção, buscando resolver o problema de uma maneira mais 
informal e conciliatória, privilegiando-se a busca pela solução rápida. 
 
A Comissão realizava uma espécie de juízo de admissibilidade das petições 
protocoladas, atuando como mecanismo de filtragem para decidir quais 
petições seriam consideradas admissíveis. Também atuava propondo aos 
litigantes a solução pacífica dos conflitos e também aplicando medidas 
protetivas de caráter preliminar. Caso restassem infrutíferas as tentativas de 
conciliação e solução dos litígios, à Comissão cabia submeter o caso à Corte. 
Um dos órgãos mais importantes criados pela CEDH foi a Corte, instituída 
em 20 de abril de 1959, com função jurisdicional. A sua principal tarefa era 
a aplicação das premissas da Convenção ao julgar os casos que lhe eram 
submetidos e a cominação de eventuais sanções aos países violadores dos 
direitos protegidos, realizando assim o juízo de mérito dos casos. 
Ao logo do tempo, contudo, o sistema europeu passou por vários processos de 
aperfeiçoamento, concretizados por diversos protocolos (tratados 
modificativos e complementares à CEDH). Em razão do Protocolo nº 11 
(1998), profundas alterações foram realizadas no âmbito do sistema, dentre 
elas a extinção da Comissão e da Corte inicialmente criadas (que atuavam em 
tempo parcial) e a criação do Tribunal Europeu dos Direitos do 
Homem (TEDH), agora único e permanente, com competência obrigatória 
para a realização dos juízos de admissibilidade e de mérito dos casos de 
violações de direitos humanos que lhe são submetidos. 
 
Nesse contexto, vale ressaltarmos que o sistema europeu também se destaca 
por ser o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite 
o acesso direto de indivíduos, ONGs e grupos de indivíduos ao TEDH (jus 
standi), a fim de que possam, por meio do exercício do direito de 
petição (CEDH, art. 34), exigir uma reparação devido à violação de direitos 
por um Estado-parte na CEDH. Essa alteração ocorreu por meio do Protocolo 
nº11; antes dele, somente Estados e a extinta Comissão eram legitimados para 
provocar a Corte. 
 
Com sede em Estrasburgo, o TEDH é regulado pela CEDH e 
tem competência contenciosa para se pronunciar sobre todas as questões 
relativas à interpretação e à aplicação da Convenção (arts. 32 a 46). Pode 
receber petições de qualquer pessoa singular, ONG ou grupo de particulares 
que se considerem vítimas de violação dos direitos previstos na Convenção 
pelos Estados-partes (art. 34) e também pode apreciar denúncias feitas por um 
Estado-parte sobre a violação de tais direitos por outro Estado-parte (art. 33). 
Contudo, para que o Tribunal possa conhecer as questões que lhe são 
submetidas, condições de admissibilidade devem estar presentes, dentre elas, 
o esgotamento dos recursos internos (art. 35). 
 
Além da competência contenciosa, o TEDH tem também uma competência 
consultiva, segundo a qual, por solicitação do Comitê de Ministros, formula 
pareceres e opiniões consultivas sobre questões jurídicas relativas à 
interpretação da CEDH e de seus protocolos (arts. 47 e 48). 
 
O TEDH é composto por um número de juízes equivalente ao número de 
Estados-partes da CEDH (art. 20). Todos eles exercem suas funções a título 
individual — com independência e não como representantes de seus Estados 
de origem — e devem gozar da mais alta reputação moral, bem como reunir 
as condições requeridas para o exercício de altas funções judiciais ou ser 
jurisconsultos de reconhecida competência (art. 21). Os juízes são eleitos, por 
maioria de votos expressos, pela Assembleia Parlamentar, com base em uma 
lista de três candidatos indicados por cada Estado-parte da CEDH (art. 22), 
para um período de nove anos, não sendo reelegíveis (art. 23). 
 
Quanto à sua estrutura interna de funcionamento, o TEDH atua por meio de 
um Tribunal Singular, comitês, seções e Tribunal Pleno (art. 26). As decisões, 
quando proferidas pelo Tribunal Pleno, são definitivas (art. 44) e têm força 
vinculante para os Estados condenados, que devem cumprir integralmente as 
condenações fixadas nas sentenças proferidas (art. 46). 
 
O sistema regional interamericano de proteção dos 
direitos humanos 
O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos está arquitetado 
no âmbito da OEA, uma organização de vocação regional, criada pela Carta 
da Organização dos Estados Americanos (ou Carta da OEA), aprovada na 
IX Conferência Internacional Pan-Americana, realizada em Bogotá, em 1948. 
Pode-se afirmar que tal sistema foi “inaugurado” formalmente por esse 
tratado, que destacou em seu preâmbulo a necessidade de contemplar um 
sistema capaz de garantir o respeito aos direitos humanos no continente 
americano. 
 
Edifício da sede da União Pan-Americana em Washington em 1943. 
Na mesma Conferência em que foi adotada a Carta da OEA, os Estados 
americanos também proclamaram a Declaração Americana dos Direitos e 
Deveres do Homem (1948), que foi o primeiro instrumento regional 
americano específico sobre direitos humanos. 
O arcabouço normativo 
A Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (CADH), também 
conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, é o tratado-regente do 
sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. Foi adotada na 
Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, ocorrida 
em San José, Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, e entrou em vigor 
internacional em 18 de julho de 1978. 
 
Trata-se do texto de direitos humanos mais importante e expressivo das 
Américas, tornando-se um dos pilares da proteção dos direitos humanos, ao 
consagrar direitos políticos e civis, bem como os relacionados à integridade 
pessoal, à liberdade e à proteção judicial. Em seu art. 1º, estabelece a 
obrigação geral de os Estados-partes respeitarem os direitos e as liberdades 
nela reconhecidos e garantirem seu livre e pleno exercício a toda pessoa que 
esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação de qualquer natureza. 
 
Além de prever um amplo rol de direitos civis e políticos, a principal 
finalidade da CADH é estabelecer as diretrizes referentes à proteção dos 
direitos da pessoa humana, garantindo importantes mecanismos para sua 
aplicação. Ela também institucionaliza um compromisso dos Estados-partes 
em cumprir efetivamente as normas protetivas nela previstas, não adotando 
quaisquer concepções contrárias em seus respectivos ordenamentos jurídicos 
internos. 
 
A CADH é estruturada basicamente em três partes. 
 
A primeira (arts. 1º a 32) regulamenta os direitos e as liberdades fundamentais 
de natureza civil e política, que se baseiam no direito à vida, à integridade 
pessoal, na proibição da escravidão e da servidão, no direito à liberdade 
pessoal, nas garantias judiciais, na proteção da honra e da dignidade, na 
liberdade de consciência e de religião, na liberdade de pensamento e de 
expressão, no direito à nacionalidade, na proteção da família, nos direitos 
políticos e de personalidade, entre outros. 
 
A segunda parte (arts. 33 a 73) diz respeito à estrutura interna e 
funcionamento dos órgãos de proteção dos direitos humanos componentes do 
sistema. 
 
Por fim, a terceira parte (arts. 74 a 82) trata das disposições transitórias, 
abordando tópicos como assinatura, ratificação, reserva, emenda, protocolo e 
denúncia à Convenção, bem como disposições gerais sobre a Comissão e a 
Corte. 
 
O Brasil aderiu à CADH em 25 de setembro de 1992, mediante o depósito da 
carta de adesão junto à Secretaria Geral da OEA, momento em que entrou em 
vigor no plano internacional para o Estado brasileiro. No plano interno, o 
Congresso Nacional aprovou a Convenção por meio do Decreto Legislativo nº 
27, de 26 de maio de 1992, mas somente entrou em vigor no plano doméstico 
brasileiro em 6 de novembro de 1992, com a promulgação do Decreto nº 678, 
pelo presidente da República, momento em que passou a integrar o direito 
brasileiro, conforme a prática brasileira de internalização dos tratados. 
Além da Carta OEA, da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do 
Homem e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, o sistema 
interamericano conta ainda com diversos outros instrumentos (tratados e 
declarações) que compõem o corpus juris interamericano. 
Dentre os principais instrumentos juridicamente vinculantes podemos citar os 
seguintes: 
 
• Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). 
 
• Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos 
em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, conhecido como 
Protocolo de San Salvador (1988). 
 
• Protocolo à Convenção Americana sobre Direitos Humanos referente à 
Abolição da Pena de Morte (1990). 
 
• Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência 
contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará (1994). 
 
• Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de 
Pessoas (1994). 
 
• Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de 
Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência (1999). 
 
• Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e 
Formas Correlatas de Intolerância (2013). 
 
• Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e 
Intolerância (2013). 
 
• Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos das 
Pessoas Idosas (2015). 
 
Dentre os instrumentos que não possuem força jurídica vinculante para os 
Estados, podemos destacar a Declaração de Princípios sobre Liberdade de 
Expressão (2000), a Carta Democrática Interamericana (2001), e a Declaração 
Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2016). 
Os órgãos componentes do sistema 
 
Sede da Corte Interamericana de Direitos Humanos, na cidade de San Jose, na 
Costa Rica. 
Visando garantir a promoção, fiscalização e efetiva proteção dos direitos 
humanos previstos na CADH e nos demais instrumentos normativos do 
sistema interamericano, foram instituídos dois importantes órgãos: a 
Comissão Interamericana de DireitosHumanos (CIDH) e a Corte 
Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), previstos no art. 33 da 
CADH e disciplinados especialmente em outros dispositivos da Convenção. 
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos 
 
Edifício da sede da União Pan-Americana em Washington, nos EUA. 
A Comissão é um órgão criado inicialmente pela OEA para “promover o 
respeito e a defesa dos direitos humanos e servir como órgão consultivo da 
Organização” sobre a matéria (Carta da OEA, art. 106 e CADH, art. 41). Por 
determinação da norma prevista na Carta da OEA, a CADH regulamentou a 
Comissão, dispondo sobre a sua organização, suas funções, sua competência e 
seu procedimento em seus arts. 34 a 51 (salvo disposição em contrário, os 
artigos citados a seguir estão previstos na CADH). Além dessas previsões, a 
Comissão conta também com um estatuto e um regulamento. 
 
Situada em Washington D.C. (EUA), a Comissão realiza pelo menos dois 
períodos ordinários de sessões por ano, no lapso determinado previamente, 
bem como tantas sessões extraordinárias quantas considerem necessárias. 
 
É composta por sete membros, denominados comissários ou comissionados, 
que devem ser pessoas de alta autoridade moral e de reconhecido saber em 
matéria de direitos humanos (art. 34). Esses membros são eleitos a título 
pessoal (não como representantes dos seus Estados de origem), pela 
Assembleia Geral da OEA, de uma lista de candidatos propostos pelos 
governos dos Estados-membros, sendo que cada governo pode propor até três 
candidatos, nacionais do Estado que os propuser ou de qualquer outro Estado-
membro da OEA. Quando for proposta uma lista de três candidatos, pelo 
menos um deles deverá ser de Estado diferente do proponente (CADH, art. 
36). No tocante ao mandato de seus membros, eles serão eleitos por quatro 
anos e só poderão ser reeleitos uma única vez, não podendo fazer parte da 
Comissão mais de um comissário de um mesmo Estado (art. 37). 
 
A CADH criou um sistema de petições individuais e de comunicações 
interestatais, possibilitando à Comissão o recebimento de denúncias ou 
queixas contendo alegações de violações de direitos humanos protegidos pela 
Convenção e por outros instrumentos normativos do Sistema interamericano 
de proteção dos direitos humanos (SIDH). 
 
O procedimento de petição individual é considerado de adesão obrigatória 
para os Estados que aderem ou ratificam a CADH (art. 44). Por outro lado, o 
procedimento de comunicação interestatal (entre Estados) é estabelecido pela 
própria Convenção como facultativo (art. 45). 
Para que um procedimento de petição individual contendo uma denúncia ou 
queixa de violação dos direitos humanos previstos na CADH possa ser 
iniciado junto à Comissão, devem estar presentes algumas condições de 
admissibilidade, conforme o estabelecido pelo art. 46 da Convenção. Em 
suma, são elas: (i) o esgotamento dos recursos internos (local remedies rule); 
(ii) a ausência do decurso do prazo de 6 meses, contados do esgotamento dos 
recursos internos, para a apresentação da petição; (iii) ausência de 
litispendência internacional; (iv) ausência de coisa julgada internacional; e (v) 
identificação do peticionário. 
 
A Comissão já apreciou diversos casos envolvendo várias espécies de 
violação de direitos humanos pelo Estado brasileiro, sendo que um deles 
resultou em uma recomendação ao país para elaboração de uma lei voltada à 
prevenção e ao combate à violência doméstica, que resultou na edição da Lei 
nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha. 
A Corte Interamericana de Direitos Humanos 
O segundo órgão de proteção dos direitos humanos do SIDH é a Corte 
Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), uma instituição judicial 
autônoma que é um órgão da CADH. Sua criação decorre diretamente do art. 
33, “b”, da Convenção. 
A Corte IDH tem sua principal disciplina jurídica na CADH, que 
estabeleceu a sua organização, suas competências, funções, seus 
procedimentos e suas disposições comuns nos arts. 52 a 73. Assim como a 
Comissão, além da regulação prevista na Convenção, a Corte também conta 
com normas regulamentadoras em seu estatuto e regulamento. 
Em 22 de maio 1979, durante o VII Período Extraordinário de Sessões da 
Assembleia Geral da OEA, os Estados-partes na CADH elegeram os membros 
que, por sua capacidade pessoal, seriam os primeiros juízes a compor a Corte. 
A sua primeira reunião foi realizada em 29 e 30 de junho de 1979, na sede da 
OEA, em Washington. Atualmente a sede da Corte está situada em San José, 
capital da Costa Rica. 
 
De acordo com o art. 1º do seu estatuto, a Corte “é uma instituição judiciária 
autônoma cujo objetivo é a aplicação e a interpretação da Convenção 
Americana sobre Direitos Humanos”, exercendo suas funções em 
conformidade com as disposições da Convenção e do seu Estatuto. Trata-se, 
portanto, de um tribunal “com o propósito primordial de resolver os casos que 
lhe são apresentados por supostas violações aos direitos humanos protegidos 
pela Convenção Americana” (Guerra, 2015, p. 166). 
 
Em relação ao seu funcionamento, de acordo com o art. 22.1 do seu estatuto, a 
Corte pode realizar sessões ordinárias e extraordinárias (pois não é um 
tribunal permanente como o TEDH), sendo que os períodos ordinários de 
sessões serão determinados regularmente pela própria Corte (art. 22.2) e os 
períodos extraordinários de sessões serão convocados pelo presidente ou por 
solicitação da maioria dos juízes (art. 22.3). 
 
Conforme estabelece o art. 11 de seu regulamento, a Corte realizará os 
períodos ordinários de sessões que se fizerem necessários durante o ano para o 
pleno exercício de suas funções, nas datas que tiver fixado em sua sessão 
ordinária imediatamente anterior. 
 
No tocante à sua composição, conforme dispõe o art. 52.1 da CADH, a Corte 
IDH é composta de sete juízes, nacionais dos Estados membros da OEA, 
eleitos a título pessoal, que devem ser pessoas de alta autoridade moral e de 
reconhecida competência em matéria de direitos humanos, reunindo as 
condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de 
acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais, ou do Estado que os 
propuser como candidatos. 
 
Seus juízes são eleitos por um período de seis anos e só poderão ser reeleitos 
uma vez (art. 54.1). A eleição ocorre por meio de votação secreta e pelo voto 
da maioria absoluta dos Estados-partes da Convenção, na Assembleia Geral 
da OEA, de uma lista de candidatos propostos pelos mesmos Estados (CADH, 
art. 53.1). Cada governo pode propor até três candidatos, nacionais do Estado 
que os propuser ou de qualquer outro Estado membro da OEA. Quando for 
proposta uma lista de três candidatos, pelo menos um deles deverá ser 
nacional de Estado diferente do proponente (CADH, art. 53.2). Não deve 
haver dois juízes da mesma nacionalidade compondo a Corte simultaneamente 
(CADH, art. 52.2). 
 
De acordo com a CADH, a Corte IDH pode exercer uma função consultiva 
(art. 64), segundo a qual emite pareceres ou opiniões em resposta às consultas 
que lhe são dirigidas pelos Estados, bem como uma função contenciosa (arts. 
61, 62 e 63), de acordo com a qual analisa e julga os casos de violações de 
direitos humanos que lhe são submetidos. 
 
A competência contenciosa da Corte não é automática, mas precisa ser 
reconhecida expressamente pelo Estado-parte da CADH. Assim, para que a 
Corte possa exercer sua jurisdição contenciosa sobre determinado Estado, no 
momento da adesão ou ratificação (ou em qualquer outro momento), o ente 
estatal deve declarar expressamente que reconhece como obrigatória, de 
pleno direito e sem convenção especial a competência da Corte em todos os 
casos relativos à interpretação ou aplicação da Convenção (CADH, art. 62.1). 
No Brasil, esse reconhecimento foi aprovado pelo Congresso Nacional por 
meio do Decreto Legislativo nº 89, de 3 de dezembro de 1998. Por meio de 
nota transmitida ao secretário-geral da OEA no dia 10 de dezembro de 
1998, o Brasil reconheceuimportantes. Vamos conferi-las! 
 
Declaração americana 
Apontou para a existência de alguns direitos básicos para defender um outro propósito, 
a independência. Documento no qual um comitê, representando as Treze Colônias, 
localizadas na América do Norte, foi nomeado pelo Congresso para redigir a 
declaração. 
 
 
Declaração francesa 
Listou e defendeu os direitos considerados essenciais. Documento legal escrito por uma 
Assembleia reconhecida pelo Estado e que se tornou a base da Constituição aprovada 
posteriormente, repercutindo em direitos legais que tiveram atuação real. 
As duas declarações alimentaram o início do debate sobre os direitos humanos e 
serviram de exemplo durante todo o século XIX para a criação de novos regimes 
políticos, incentivando os processos de independência das colônias americanas, criando 
um novo mundo. 
Declaração Universal de Direitos Humanos 
No século XX, os valores do mundo se transformaram mais uma vez, não por meio de 
processos revolucionários, mas por duas conhecidas guerras que se iniciaram na Europa, 
envolveram países de todos os continentes e deixaram um rastro de barbárie e mortes. 
Vamos acompanhar como as duas guerras mundiais influenciaram a criação dos direitos 
humanos como existem atualmente e como isso culminou na criação da Declaração 
Universal dos Direitos Humanos. 
 
Primeira Guerra Mundial 
Em janeiro de 1919, pouco depois de seu término, as nações vitoriosas se reuniram na 
Conferência de Paz de Paris e assinaram o Tratado de Versalhes, que criou a Liga das 
Nações, uma organização internacional destinada a promover a paz e prevenir futuros 
conflitos, com foco na cooperação e na resolução pacífica de disputas. 
 
Segunda Guerra Mundial 
Apesar dos esforços da Liga das Nações, poucos anos depois, um novo conflito de 
proporções ainda maiores viria acontecer, a Segunda Guerra Mundial. O mundo se 
chocou ao viver o horror do uso de novas tecnologias de guerra, de campos de 
concentração e de extermínio em massa, pelos dois lados do conflito, que só terminou 
em setembro de 1945. 
No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os países vitoriosos se reuniram e 
assinaram acordos para restabelecer a paz mundial. Entre essas decisões, criou-se a 
Organização das Nações Unidas (ONU), uma organização internacional neutra 
destinada a substituir a Liga das Nações. 
 
Estados membros das Nações Unidas no final de 1945: em azul claro, os membros 
fundadores; em azul escuro, os protetorados e territórios dos membros fundadores; em 
cinza, estados não membros. 
A Carta das Nações Unidas, produzida e assinada em São Francisco, nos Estados 
Unidos, no mesmo ano, define os objetivos da ONU como um pacto entre as nações 
para mediar ações e decisões coletivas. 
Seu propósito é "preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra" e reafirmar a "fé 
nos direitos fundamentais do homem e no valor da pessoa humana; na igualdade de 
direitos dos homens e das mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas". 
Além disso, o documento visa manter a justiça, promovendo: 
• Respeito 
 
• Liberdade 
 
• Progresso social 
 
• Melhores condições de vida 
Para alcançar esses objetivos, três anos depois, em 1948, a ONU elaborou a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos. 
A Assembleia Geral da ONU desejava que essa declaração fosse um ideal comum a ser 
buscado por todos os povos e nações, anunciando trinta artigos que compreendem 
direitos como a proteção e segurança pessoal, a abominação à escravatura ou servidão, à 
tortura, ao reconhecimento de todos os indivíduos como seres jurídicos, ao casamento e 
ao fim dele, ao trabalho e ao repouso, entre outros. 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos tornou-se extremamente importante na 
busca pelos direitos básicos, pois não foi um documento regional, como as declarações 
americana e francesa, mas um tratado internacional. Ela trabalhou e ainda atua para que 
esses direitos estejam mais próximos de todos os seres humanos. 
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, são reconhecidos como direitos 
inalienáveis: 
Liberdade 
Justiça 
Paz 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos introduz um conceito importante que 
envolve todos os seres humanos em um patamar de igualdade: a ideia de que fazemos 
parte de uma mesma família, a família humana. 
Essa ideia afirma que não há diferença entre os seres humanos, pois todos os indivíduos 
são parentes e têm a mesma origem. Isso traz um sentimento de afeto, reforçando que 
devemos respeitar o próximo e ter empatia por ele. 
A Declaração das Nações Unidas de 1948 é o maior documento legal de direitos 
humanos produzido. 
Para chegar a todos os seres humanos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos se 
tornou o texto mais traduzido no mundo. Devido à sua ampla tradução para vários 
idiomas e ao grande esforço de circulação, a declaração foi e continua sendo analisada e 
estudada intensivamente por juristas de todas as nacionalidades. 
 
 
Universalidade 
A primeira característica dos direitos humanos é que eles são universais. Isso 
significa que devem estar disponíveis para todos os membros da família 
humana igualmente, sem restrições para ninguém. 
Se alguém não puder gozar de algum desses direitos, todos os demais 
membros da família humana estão ameaçados, pois esses direitos não estão 
em pleno funcionamento. Portanto, não é permitido que algum direito seja 
aplicado apenas a uma pessoa ou grupo. 
Exemplo 
Vamos pensar no direito à liberdade: se em algum lugar do mundo for 
permitido que um ser humano seja submetido a condições de trabalho escravo, 
isso significa que todos os outros seres humanos correm o mesmo risco. Se 
vale para um, vale para todos. 
Interdependência 
Um direito complementa o outro, a existência de um direito está condicionada 
à existência de todos os demais. Nenhum direito é mais importante do que os 
outros, pois eles se apoiam, como em um castelo de cartas. Se um for 
ameaçado, todo o conjunto pode ruir. 
Exemplo 
Se alguém estiver passando fome, ou seja, se tiver seu direito à alimentação 
adequada ameaçado, essa pessoa pode não conseguir exercer seu direito à 
liberdade. Nada mais lhe interessará, e todos os seus esforços estarão focados 
em alimentar-se, levando-a a aceitar qualquer condição imposta. Sua liberdade 
dependerá do acesso à alimentação. Assim, podemos dizer que um direito só 
funciona se todos os outros também funcionarem. 
Indivisibilidade 
Não pode haver uma divisão dos direitos humanos em categorias. É preciso 
entendê-los e respeitá-los como um todo, reconhecendo que os direitos 
individuais, políticos, sociais e econômicos interagem e não podem ser 
separados. 
Exemplo 
Nos primeiros anos da República no Brasil, no final do século XIX e início do 
século XX, novos direitos políticos foram criados, permitindo que alguns 
homens votassem e escolhessem seus governantes. No entanto, não foram 
criadas condições para que o direito individual fosse respeitado, e esses 
eleitores eram ameaçados pela prática de manipulação eleitoral, conhecida 
como voto de cabresto, para que o voto fosse dado a um candidato específico. 
Isso demonstra que o direito político e o direito individual não estão divididos 
e separados; um direito não existe sem o outro. 
Não é possível que uma nação mova esforços para garantir alguns direitos 
humanos da sua população sem garantir todos, pois esses direitos não estão 
separados. 
Ao acompanhar a trajetória dos direitos humanos, entendemos que seus 
objetivos e suas características foram construídas ao longo do tempo. Vamos 
conferi-la! 
Primeira geraçãoSegunda geraçãoTerceira geração 
Representada pelas declarações americana e francesa do século XVIII, o foco 
principal era a conquista da liberdade individual. Essas declarações buscaram 
rejeitar o controle dos Estados absolutistas e limitar os poderes autoritários 
que interferiam diretamente no livre arbítrio das decisões individuais. 
A questão dos direitos demanda atualização constante e esforço contínuo pora jurisdição e a competência obrigatória da Corte 
IDH, conforme disposto no Decreto nº 4.463, de 8 de novembro de 2002. 
Acerca da legitimidade para provocar a Corte IDH, de acordo com o art. 61 da 
CADH, somente os Estados-partes (que tenham também reconhecido a 
jurisdição da Corte) e a Comissão têm o direito de submeter casos para sua 
apreciação e julgamento. Contrariamente ao que ocorre no âmbito do sistema 
europeu, no SIDH os indivíduos dependem da Comissão ou de outro Estado 
(actio popularis) para que suas vindicações possam chegar à Corte IDH, pois 
até o presente momento lhe é vedado o direito de ação internacional (jus 
standi). 
 
As sentenças proferidas pela Corte IDH são de cumprimento obrigatório por 
parte dos Estados-partes na CADH em todo caso em que forem partes, 
conforme disposto no art. 68.1 da CADH. O art. 67 da CADH determina que a 
sentença é definitiva e inapelável, sendo que no caso de divergência sobre o 
sentido ou alcance da decisão, a Corte deverá interpretá-la, a pedido de 
qualquer das partes. 
Desde o ano de 2006, a Corte IDH já julgou dez casos envolvendo o Brasil, 
sendo que apenas em um deles o país não foi condenado. São eles: Caso 
Ximenes Lopes versus Brasil (2006); Caso Nogueira de Carvalho e 
outros versus Brasil (2006); Caso Escher e outros versus Brasil (2009); Caso 
Garibaldi versus Brasil (2009); Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do 
Araguaia”) versus Brasil (2010); Caso Trabalhadores da Fazenda Brasil 
Verde versus Brasil (2016); Caso Cosme Rosa Genoveva, Evando de Oliveira 
e outros (“Favela Nova Brasília”) versus Brasil (2017); Caso do Povo 
Indígena Xucuru e seus membros versus Brasil (2018); Caso Herzog e 
outros versus Brasil (2018); e Caso Empregados da Fábrica de Fogos de 
Santo Antônio de Jesus e seus familiares versus Brasil (2020). 
 
Além dos casos já julgados, até o presente momento outros três casos 
envolvendo o país encontram-se pendentes de julgamento. São eles: Caso 
Barbosa de Souza e outros versus Brasil (2019), Caso Barbosa de Souza e 
outros versus Brasil (2020) e Caso Tavares Pereira e outros versus Brasil 
(2021). 
 
A execução forçada das decisões da Corte IDH, em sentido próprio, não 
existe. Os casos de não cumprimento dessas decisões por parte de um Estado 
condenado podem ser levados ao conhecimento da Assembleia Geral da OEA 
por meio de um relatório anual. Desse modo, é ativado um shaming 
mechanism (mecanismo da vergonha), visando motivar o Estado envolvido à 
execução da decisão. 
 
 
O sistema regional africano de proteção dos direitos 
humanos 
 
Cúpula do 50º aniversário da União Africana em Adis Abeba, Etiópia. 
O sistema regional africano de proteção dos direitos humanos está estruturado 
no âmbito da União Africana (UA) e nasceu somente em 1981, com a adoção 
da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP), também 
conhecida como Carta de Banjul. A Carta foi aprovada na Conferência 
Ministerial da então Organização da Unidade Africana (atualmente 
denominada União Africana), em Banjul, Gâmbia, entrou em vigor 
internacional em 1986, e constitui-se o tratado-regente do referido sistema. 
Em uma escala de desenvolvimento, o sistema europeu é o mais desenvolvido 
e o sistema interamericano se encontra em uma posição intermediária. Já o 
sistema africano é ainda incipiente e se encontra em processo de construção, 
evolução e amadurecimento. 
O arcabouço normativo 
A CADHP está estruturada em três partes. 
 
A primeira (arts. 1º a 29) elenca os direitos e os deveres dos cidadãos, 
contemplando-se, inclusive, além dos direitos de 1ª e 2ª geração, também os 
direitos de 3ª geração, tais como o direito ao meio ambiente sadio, ao 
desenvolvimento e à paz. 
 
A segunda parte (arts. 30 a 63) estabelece as medidas de salvaguarda da Carta, 
dispondo sobre a composição e a organização da Comissão Africana dos 
Direitos Humanos e dos Povos (Comissão ADHP), sobre o processo perante a 
Comissão, além dos princípios aplicáveis. 
 
Por fim, a última parte (arts. 64 a 68) fixa disposições diversas, tais como a 
entrada em vigor da Carta e o processo para emenda ou revisão do texto. 
 
Vários outros instrumentos integram o arcabouço normativo do sistema 
africano de direitos humanos, tais como a Convenção da UA que Regula 
Aspectos Específicos dos Problemas dos Refugiados na África (1969), a Carta 
Africana dos Direitos e Bem-Estar da Criança (1990), o Protocolo à Carta 
Africana dos Direitos Humanos e Dos Povos sobre os Direitos das Mulheres 
na África (2003), a Carta Africana para a Democracia, Eleições e Governação 
(2011) e o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos 
sobre os Direitos das Pessoas Idosas na África (2018). Há, ainda, outras 
disposições não dotadas de força vinculante, como princípios e diretrizes. 
Além da CADHP e dos instrumentos regionais mencionados, os Estados 
africanos também aderiram e ratificaram a maioria dos instrumentos 
normativos de proteção dos direitos humanos do sistema global (ONU). 
Os órgãos componentes do sistema 
Diferentemente dos sistemas europeu e interamericano, que inicialmente 
estabeleceram dois órgãos de proteção dos direitos humanos (uma Comissão e 
uma Corte), a CADHP criou apenas a Comissão ADHP. Foi somente em 
2004, quando entrou em vigor o Protocolo à Carta ADHP, adotado em 1998, 
que surgiu a Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (Corte 
ADHP). Por isso, costuma-se dizer que o sistema africano se desenvolveu em 
duas etapas. 
A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos 
À semelhança da extinta Comissão EDH e da Comissão IDH, a função da 
Comissão ADHP, em funcionamento desde 1987, é promover os direitos 
humanos e dos povos e assegurar sua respectiva proteção no continente 
africano. Ressalta-se que esse foi o primeiro e único órgão de proteção dos 
direitos humanos criado pela Carta ADHP (art. 30). 
 
A Comissão é composta por onze membros, que devem ser escolhidos entre 
personalidades africanas que gozem da mais alta consideração, conhecidas 
pela sua alta moralidade, sua integridade e sua imparcialidade, e que possuam 
competência em matéria dos direitos humanos e dos povos (art. 31). São 
eleitos, a título individual (para uma atuação com independência), por 
escrutínio secreto pela Conferência dos Chefes de Estado e de Governo, de 
uma lista de pessoas apresentadas para esse efeito pelos Estados-partes na 
Carta ADHP (art. 33). Os membros da Comissão são eleitos para um mandato 
de seis anos, sendo renovável (art. 36). 
 
A Comissão ADHP exerce sua função de proteção dos direitos humanos 
mediante aceitação (i) de petições individuais, que lhe são enviadas por 
indivíduos ou ONGs, denunciando violações de direitos previstos na Carta 
ADHP, bem como (ii) de comunicações estatais, feitas pelos Estados-partes 
da Carta, nas quais igualmente denunciam tais violações. 
A Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos 
A Corte ADHP foi criada pelo Protocolo à Carta Africana dos Direitos 
Humanos e dos Povos (art. 1º), adotado em 10 de junho de 1998, por ocasião 
da 34ª Sessão Ordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo 
da Organização de Unidade Africana (atual União Africana), reunida em 
Ouagadougou, no Burkina Faso. O Protocolo entrou em vigor internacional 
em 25 de janeiro de 2004 e a Corte foi oficialmente inaugurada em 2006, 
tendo a sua sede permanente em Arusha, República Unida da Tanzânia. 
 
Conforme dispõe o próprio preâmbulo do Protocolo, a criação da Corte ADHP 
tem como finalidade o fortalecimento da proteção dos direitos humanos e dos 
povos consagrados na Carta ADHP, visando conferir maior eficácia à atuação 
da Comissão. 
 
A Corte é composta por onze juízes, que devem ser nacionais dos Estados-
membros da UA. São eleitos por sua capacidade individual e devem ter 
elevada reputação moral e reconhecida competência em matéria de direitos 
humanos e dos povos, não podendo haver dois juízes nacionais do mesmo 
Estado (Protocolo, art. 11). Os juízes são eleitos para ummandato de seis anos 
e podem ser reeleitos uma única vez (Protocolo, art. 15.1). 
 
Podem submeter casos à Corte ADHP: (i) a Comissão ADHP; (ii) o Estado-
parte que submeteu o caso perante a Comissão; (iii) o Estado-parte contra o 
qual o caso na Comissão foi submetido; e, (iv) as organizações africanas 
intergovernamentais (Protocolo, art. 5.1). 
 
O Protocolo também prevê que a Corte “poderá conferir a relevantes 
organizações não governamentais com status de observadora perante a 
Comissão e a indivíduos a prerrogativa de submeter-lhe casos diretamente, de 
acordo com o art. 34 (6) do Protocolo” (art. 5.3). Esse dispositivo 
convencional revela a previsão de acesso direto de indivíduos e ONGs à Corte 
ADHP (jus standi), ainda que tal fato esteja condicionado ao aceite do Estado, 
conforme prevê o art. 34.6 do Protocolo. 
 
Tal como ocorre com a Corte IDH, a Corte ADHP tem uma competência 
consultiva e também contenciosa. 
Competência consultiva 
No exercício de sua competência consultiva, a pedido de um Estado-membro 
da União Africana, da própria UA, de um de seus organismos ou de uma 
organização africana reconhecida pela UA, a Corte ADHP pode emitir 
pareceres ou opiniões consultivas sobre a interpretação da Carta ADHP ou de 
outro instrumento de direitos humanos (Protocolo, art. 4º). 
Competência contenciosa 
No tocante à sua competência contenciosa, a Corte ADHP tem competência 
por todos os casos e litígios que lhe forem apresentados relativos à 
interpretação e aplicação da Carta ADHP, do Protocolo sobre o 
estabelecimento da Corte e de outros instrumentos de direitos humanos que 
tenham sido ratificados pelos Estados envolvidos (Protocolo, art. 3º). 
As decisões da Corte ADHP são vinculativas para os Estados-partes 
envolvidos no litígio, que estão obrigados a garantir a execução da decisão em 
seus respetivos territórios (Protocolo, art. 30). O monitoramento da execução 
de uma decisão é responsabilidade de um Conselho de Ministros (Protocolo, 
art. 29.2). A execução forçada das decisões da Corte em sentido próprio não 
existe. Os casos de não cumprimento dessas decisões por parte de um Estado 
podem ser levados ao conhecimento da Assembleia dos Chefes de Estado e de 
Governo em um relatório anual. Desse modo, deve ser ativado um shaming 
mechanism (mecanismo da vergonha), visando motivar o Estado envolvido à 
execução da decisão. 
 
Em 2008, foi adotado o Protocolo Relativo aos Estatutos do Tribunal 
Africano de Justiça e dos Direitos Humanos, mediante o qual se faz uma 
fusão do Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos e do Tribunal 
de Justiça da União Africana (este último, criado pelo Protocolo do Tribunal 
de Justiça da União Africana, adotado pela Conferência da União em Maputo, 
Moçambique, em 2003). 
 
O Tribunal Penal Internacional e o direito penal 
internacional 
Fala, mestre! 
O palestrante aborda a importância da atuação dos operadores do direito, 
destacando tanto a busca por satisfação pessoal e reconhecimento quanto a 
responsabilidade social e democrática. Enfatiza que o direito molda a 
civilização e influencia nas relações sociais e institucionais, promovendo 
avanços e protegendo a diversidade. Ressalta a importância da interpretação 
jurídica em estabelecer novos costumes e direitos, bem como a missão de 
deixar um legado positivo para as futuras gerações. 
 
Artilharia Real durante o treinamento em Ellesmere, na Inglaterra, em agosto 
de 1943. 
A história da humanidade é marcada por incontáveis guerras através dos 
séculos, sendo esse um de seus aspectos mais sombrios. Como é de 
conhecimento geral, o mundo já presenciou duas grandes guerras mundiais, 
sendo que a Segunda Guerra constituiu o mais sangrento e brutal conflito 
armado já ocorrido. Milhões de vidas foram ceifadas, tanto combatentes como 
civis. O número exato nunca saberemos. 
 
Além dessas guerras de abrangência mundial, inúmeros conflitos armados já 
ocorreram internamente a muitos países ao redor do globo. Tristemente, as 
guerras civis também têm sido frequentes na história humana, deixando por 
vezes um rastro de atrocidades e violações da vida e da dignidade humana. 
 
Judeus holandeses no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. 
É nesse contexto que surge a conhecida expressão genocídio, aqui entendido 
como o extermínio em massa de pessoas ou, mais tecnicamente, como uma 
ação coordenada para exterminar uma nação, um povo ou um grupo étnico. A 
história humana é marcada por genocídios, tais como os que ocorreram na 
Circássia (1864 a 1867), na Armênia (1915 a 1922), no Holocausto (1939 a 
1945), no Camboja (1975 a 1979), em Ruanda (1994) e na antiga Iugoslávia 
(1995), que conjuntamente a muitos outros, vitimaram milhões de pessoas. 
Como uma reação a esse triste quadro, alguns países e, posteriormente, toda 
a sociedade internacional estabeleceram um conjunto de normas jurídicas 
destinadas à punição dos responsáveis pelos horrendos crimes cometidos, 
bem como criaram órgãos específicos para realizar o julgamento e aplicação 
das penas impostas. 
Surge assim o direito internacional penal (DIP), entendido como um ramo 
do direito ou das ciências jurídicas que se ocupa de assuntos criminais em 
uma esfera global, mediante o estabelecimento de normas jurídicas voltadas à 
tipificação de condutas que configuram graves crimes que atingem a 
consciência da humanidade. Essas normas criam e regulamentam a jurisdição 
e a competência para o julgamento e a aplicação de sanções penais por órgãos 
internacionais de natureza penal, vinculados à justiça internacional, tal como 
reconhecida pela sociedade internacional. Nas palavras de Kai Ambos (2005, 
p. 1), trata-se do “conjunto de todas as normas de direito internacional que 
estabelecem consequências jurídico-penais”. 
 
Ex-oficiais nazistas no banco dos réus no Julgamento de Nurembergs, entre 
1945 e 1948. 
Adjacente ao conjunto de normas voltado à punição de indivíduos 
responsáveis por genocídios e massacres em larga escala, tribunais penais 
também passaram a ser instituídos com o objetivo específico de julgar os 
crimes cometidos nesse cenário. A título de exemplo, citamos o Tribunal de 
Nuremberg, o Tribunal Militar Internacional de Tóquio e os Tribunais Penais 
para Ruanda e para a ex-Iugoslávia. 
Esses tribunais, conhecidos como tribunais de exceção ou tribunais ad hoc, 
sempre foram muito criticados, especialmente por serem constituídos em 
caráter temporário ou excepcional, após a ocorrência dos fatos (e não ex post 
facto). 
 
Outra crítica preponderante se deve à sua composição por juízes que, em tese, 
não teriam a imparcialidade necessária para o julgamento, uma vez que não 
são previamente investidos de jurisdição de acordo com leis estabelecidas, 
ofendendo-se com isso o princípio do juiz natural, consagrado no direito 
internacional e no âmbito do direito interno dos Estados. 
 
É nesse cenário que a sociedade internacional viu a necessidade de criar um 
Tribunal Penal Internacional de caráter permanente e com competência 
legalmente instituída para o julgamento dos graves e bárbaros crimes que 
atentam contra a consciência coletiva de toda a humanidade. Ademais, seria 
até mesmo falacioso falar-se na proteção internacional dos direitos humanos 
(global e regional), sem a contrapartida da instituição da responsabilidade 
criminal dos indivíduos no plano internacional (Mazzuoli, 2019). 
 
O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional e 
a criação do Tribunal Penal Internacional (TPI) 
O TPI foi criado pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, 
um tratado internacional adotado pela Conferência das Nações Unidas de 
Plenipotenciários para o estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional, 
em 17 de julho de 1998. Entrou em vigor em 1° de julho de 2002, conforme 
estabelecido em seu art. 126, e somente os Estados que expressaram 
formalmente o seu consentimento são obrigados a se submeter às previsões do 
TPI. 
 
Edifício do Tribunal Penal Internacional, em Haia, naHolanda. 
O Brasil é um dos Estados-partes do referido tratado, submetendo-se à 
jurisdição do TPI. O estatuto foi aprovado pelo Congresso Nacional, por meio 
do Decreto Legislativo nº 112, de 6 de junho de 2002. Posteriormente, foi 
ratificado pelo país por meio do depósito do instrumento de ratificação em 14 
de junho de 2002, passando a integrar o ordenamento jurídico brasileiro por 
meio do Decreto nº 4.388, de 25 de setembro de 2002. Além da ratificação do 
estatuto, que foi suficiente para caracterizar a submissão do Estado brasileiro à 
jurisdição do TPI, visando reforçar o reconhecimento do Tribunal, a Emenda 
Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004, incluiu o § 4º ao art. 5º 
da CRFB, que assim dispôs: “O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal 
Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão”. 
 
O Estatuto de Roma do TPI é composto por 128 artigos que abrangem um 
preâmbulo e 13 partes assim divididas: 
 
I. Criação do Tribunal 
II. Competência, admissibilidade e direito aplicável 
III. Princípios gerais de direito penal 
IV. Composição e administração do Tribunal 
V. Inquérito e procedimento criminal 
VI. O julgamento 
VII. As penas 
VIII. Recurso e revisão 
IX. Cooperação internacional e auxílio judiciário 
X. Execução da pena 
XI. Assembleia dos Estados-partes 
XII. Financiamento 
XIII. Cláusulas finais 
 
Principais aspectos do Tribunal Penal Internacional 
Instalado oficialmente em 11 de março de 2003, em Haia, na Holanda, o TPI 
foi criado (Estatuto, art. 1º) mediante o reconhecimento pelos Estados de que 
“milhões de crianças, homens e mulheres têm sido vítimas de atrocidades 
inimagináveis que chocam profundamente a consciência da humanidade”, e 
que “os crimes de maior gravidade, que afetam a comunidade internacional no 
seu conjunto, não devem ficar impunes e que a sua repressão deve ser 
efetivamente assegurada através da adoção de medidas em nível nacional e do 
reforço da cooperação internacional”, conforme dispõe o Preâmbulo do 
Estatuto. 
 
O Tribunal, que é independente e tem personalidade jurídica internacional 
(Estatuto, art. 4.1), é “uma instituição permanente, com jurisdição sobre as 
pessoas responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance 
internacional (...) e será complementar às jurisdições penais nacionais” 
(Estatuto, art. 1º), sendo que a competência e o funcionamento do Tribunal 
são regidos pelo seu Estatuto constitutivo. Precisamos destacar, portanto, que 
a sua atuação é subsidiária, pois de acordo com o próprio Estatuto, atua 
“complementarmente” à jurisdição dos Estados soberanos, não visando 
substituir esta última. 
Atenção 
É importante salientarmos que o TPI julga indivíduos (pessoas físicas) pelo 
cometimento dos crimes de sua competência, diferentemente das demais 
cortes internacionais de direitos humanos, competentes para julgar Estados 
por violações de direitos humanos. 
Competência 
Os crimes de competência do TPI, que são imprescritíveis (Estatuto, art. 29), 
estão previstos no art. 5º do Estatuto, sendo eles: o crime de genocídio, os 
crimes contra a humanidade, os crimes de guerra, e o crime de agressão. 
Crime de genocídio 
De acordo com o Estatuto, o genocídio é entendido como qualquer ato 
praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, 
étnico, racial ou religioso, o que compreende segundo o art. 6º: 
 
• Homicídio de membros do grupo. 
• Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo. 
• Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar 
a sua destruição física, total ou parcial. 
• Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do 
grupo. 
• Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo. 
Crimes contra a humanidade 
 
Imagem do genocídio armênio perpetrado pelo Império Otomano durante a 
Primeira Guerra Mundial. 
O Estatuto compreende qualquer ato cometido no quadro de um ataque, 
generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo 
conhecimento desse ataque. Compreende-se especificamente os vários atos 
descritos no art. 7º do Estatuto, 15 ao todo, pelos quais pode ser cometido um 
crime contra a humanidade. Dentre eles, destacam-se: 
• Homicídio. 
• Extermínio. 
• Escravidão. 
• Deportação ou transferência forçada de uma população. 
• Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em 
violação das normas fundamentais de direito internacional. 
• Tortura. 
• Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez 
forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo 
sexual de gravidade comparável. 
• Desaparecimento forçado de pessoas. 
• Crime de apartheid. 
 
Conforme afirma Valerio Mazzuoli (2019), a “expressão ‘crimes contra a 
humanidade’ geralmente conota quaisquer atrocidades e violações de direitos 
humanos perpetrados no planeta em larga escala, para cuja punição é possível 
aplicar-se o princípio da jurisdição universal”. 
Crimes de guerra 
Também conhecidos como crimes contra as leis e costumes aplicáveis em 
conflitos armados, “são fruto de uma longa evolução do direito internacional 
humanitário, desde o século passado, tendo sido impulsionado pelo Comitê 
Internacional da Cruz Vermelha, ganhando foros de juridicidade com as 
quatro Convenções de Genebra, de 12 de agosto de 1949, e com as bases 
teóricas do direito costumeiro de guerra” (Mazzuoli, 2019). 
 
Assinatura da primeira Convenção de Genebra em 1864, retratada por Charles 
Édouard Armand-Dumaresq. 
Conforme dispõe o Estatuto, os crimes de guerra são entendidos como graves 
violações às Convenções de Genebra, consistentes nos atos enumerados no 
art. 8.2(a) do Estatuto, dirigidos contra pessoas ou bens protegidos nos termos. 
Destacam-se as Convenções de Genebra que estabelecem o direito 
internacional humanitário, isto é, o direito aplicável na guerra – jus in bello, 
notadamente para a proteção dos direitos humanos. 
 
Ainda conforme estabelece o art. 8.2(b) do Estatuto, também são considerados 
crimes de guerra “outras violações graves das leis e costumes aplicáveis em 
conflitos armados internacionais no âmbito do direito internacional”, 
conforme os atos enumerados no referido dispositivo convencional. 
O Estatuto determina que, no caso de conflitos armados que não sejam de 
índole internacional, também são considerados crimes de guerra as graves 
violações do artigo 3º comum às quatro Convenções de Genebra, consistentes 
nos atos descritos no art. 8.2(c) do Estatuto, cometidos contra pessoas que não 
participem diretamente nas hostilidades, incluindo os membros das forças 
armadas que tenham deposto armas e os que tenham ficado impedidos de 
continuar a combater devido à doença, lesão, prisão ou a qualquer outro 
motivo, assim como outras graves violações das leis e costumes aplicáveis aos 
conflitos armados que não têm caráter internacional, no quadro do direito 
internacional, conforme os atos enumerados no art. 8.2(e) do Estatuto. 
Crime de agressão 
Inicialmente, não havia no Estatuto de Roma uma definição do que seria o 
crime de agressão. Previa-se somente que o Tribunal poderia exercer a sua 
competência em relação a tal crime desde que, nos termos dos arts. 121 e 123 
do Estatuto, fosse aprovada uma disposição definindo o crime em questão — 
obrigatoriamente compatível com as disposições pertinentes da Carta das 
Nações Unidas (art. 5.2) — e que se enunciassem as condições em que o 
Tribunal teria competência relativamente a esse crime. 
 
A definição do crime foi adotada por meio da emenda do Estatuto de Roma do 
TPI, na primeira Conferência de Revisão do Estatuto em Kampala, Uganda, 
em 2010, de modo que o crime de agressão foi definido como “o uso de força 
armada por um Estado contra a soberania, integridade ou independência de 
outro Estado”. Em 15 de dezembro de 2017, a Assembleia dos Estados-partes 
adotou, por consenso, uma resolução sobre a ativação da jurisdição do 
Tribunal sobre o crime de agressão a partirde 17 de julho de 2018. 
Composição e funcionamento 
No tocante à sua composição, o TPI é composto pelos seguintes órgãos: a 
Presidência, responsável pela administração do Tribunal; uma Seção de 
Recursos, uma Seção de Julgamento em Primeira Instância e uma Seção de 
Instrução; o Gabinete do Procurador; e a Secretaria (Estatuto, art. 34). 
Nos termos do Estatuto, o TPI é uma pessoa jurídica de Direito 
Internacional que tem a capacidade necessária para o desempenho de suas 
funções e de seus objetivos no território de qualquer Estado-parte e, por 
acordo especial, no território de qualquer outro Estado, conforme o disposto 
no próprio Estatuto (art. 4º). 
O TPI é composto atualmente por 18 juízes, eleitos pela Assembleia dos 
Estados-partes no Estatuto. Seus membros devem ser pessoas de elevada 
idoneidade moral, imparcialidade e integridade, que reúnam os requisitos para 
o exercício das mais altas funções judiciais nos seus respectivos países, e têm 
mandatos de nove anos não renováveis (Estatuto, art. 36). No âmbito de suas 
atividades, garantem julgamentos justos e proferem suas sentenças, emitem 
mandados de prisão ou intimações para o comparecimento perante o Tribunal, 
autorizam as vítimas a participar dos julgamentos e ordenam medidas de 
proteção às testemunhas, dentre outras atividades. Também elegem, entre si, o 
presidente do Tribunal e dois vice-presidentes. 
 
O Tribunal possui três divisões judiciais, que julgam as matérias em diferentes 
fases do processo: prejulgamento, julgamento e recursos. 
 
Em suma, os juízes de prejulgamento (geralmente três juízes por caso) 
decidem se há evidências suficientes para um caso ir a julgamento e, em caso 
afirmativo, confirmam as acusações e submetem o caso para julgamento. 
 
Os juízes de julgamento (geralmente três juízes por caso) conduzem 
julgamentos justos, decidindo se há evidências suficientes para provar, além 
de qualquer dúvida razoável, que o acusado é culpado da acusação e, em caso 
afirmativo, os julgam pronunciado a sentença em público, momento no qual 
emitem ordens de reparação às vítimas, incluindo a restituição, a compensação 
e a reabilitação. 
 
Por fim, os juízes de recursos (cinco juízes) apreciam os recursos apresentados 
pelas partes, podendo confirmar, reverter ou alterar uma decisão sobre a culpa 
ou inocência, ou sobre a sentença e, se necessário, solicitam um novo 
julgamento perante uma Câmara de Julgamento diferente. 
 
 
Reconhecimento dos povos indígenas e do 
multiculturalismo 
A Constituição de 1988 inovou ao trazer um capítulo próprio acerca da 
proteção dos povos indígenas. Nos arts. 231 e 232 do texto constitucional 
brasileiro, encontramos os dispositivos que conferem essa proteção 
diferenciada. 
 
Aqui, precisamos nos recordar de que, historicamente, o Estado Brasileiro 
negou reconhecimento aos povos indígenas. De fato, na história do Brasil, os 
índios foram sujeitos a reiterados casos de genocídio, além da constante 
tentativa de apagamento de sua cultura e sua religiosidade. Esse projeto 
político operou por diversas razões. 
Interesses econômicos 
De um lado, por interesses econômicos — especialmente relacionados à 
apropriação das terras indígenas. 
 
Interesses sociais 
De outro, por interesses sociais, políticos e culturais diversos, que buscaram 
negar humanidade e o respeito a essa parcela da população. 
A pretexto de “integrar” os índios à sociedade brasileira, buscou-se o 
apagamento dos traços característicos desses grupos — desde sua 
religiosidade, passando por sua linguagem e seus costumes. Ainda hoje 
encontramos em diferentes cursos e manuais jurídicos referências 
depreciativas aos indígenas — tratados como incivilizados, ingênuos ou 
menos capazes do que os não indígenas. 
Nisso repousa, então, a inovação do texto constitucional brasileiro. 
Ao dedicar um capítulo ao tratamento dos indígenas em suas especificidades, 
a Constituição Federal passou a reconhecer a condição do indígena não só 
como sujeito de direito universal, mas também como sujeito de direitos 
específicos. 
Atenção 
Em outras palavras, aos indígenas são garantidos todos os direitos previstos 
no texto constitucional, tanto quanto os direitos específicos que a condição de 
povos indígenas exige. 
Nesse aspecto, a Constituição incorporou a ideia de reconhecimento do 
multiculturalismo, ou seja, da ideia de que determinadas sociedades (e cada 
vez mais outras delas) são compostas por diferentes grupos étnicos que 
partilham modos de vida, cultura e saberes diferenciados. 
Em uma sociedade multicultural, então, não basta assegurar a todos os 
mesmos direitos (igualdade formal). É necessário assegurar também o direito 
à diferença, conferindo a cada grupo o tratamento jurídico compatível com 
suas particularidades. 
Em nossa análise, vamos verificar como esse grupo vem sendo percebido e 
tratado pelo Poder Judiciário. Tradicionalmente, referimo-nos ao Poder 
Judiciário como um fórum importante de efetivação dos direitos de grupos 
vulneráveis, porque, diferentemente de outros poderes, o Judiciário não estaria 
sujeito às reações da política majoritária. Juízes são independentes e, por isso, 
podem decidir contra a vontade da maioria, protegendo direitos e minorias. 
 
No entanto, nem sempre é assim: juízes e juízas também são pessoas inseridas 
na sociedade, de modo que, se a sociedade é marcada por desigualdades 
estruturais (como racismo, machismo e etarismo), juízes e juízas também 
estão sujeitos a reproduzir essas desigualdades, por vezes perpetuando 
discriminações. Ainda assim, muitas vezes a Justiça é capaz de exercer seu 
papel fundamental de avançar nos direitos dos grupos vulneráveis. 
 
Direitos assegurados aos indígenas 
Vamos conhecer, agora, os direitos assegurados aos indígenas no texto 
constitucional brasileiro, sob a perspectiva do direito à diferença e ao 
reconhecimento. 
 
Já no art. 231, no caput da Constituição, são reconhecidos direitos em favor 
dos povos indígenas, os quais podemos classificar em dois grupos. 
Em primeiro lugar 
Vêm os direitos relacionados ao reconhecimento de sua cultura, de seus 
modos de vida e de seus saberes (reconhecimento étnico-cultural). É do que 
trata o dispositivo ao afirmar que: “São reconhecidos aos índios sua 
organização social, costumes, línguas, crenças e tradições” 
(CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, art. 231). 
Em segundo lugar 
O dispositivo reconhece o direito dos povos indígenas “sobre as terras que 
tradicionalmente ocupam” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, art. 231). 
Em uma primeira leitura, poderíamos concluir que o direito à terra se trata de 
um direito puramente econômico — o direito de propriedade sobre as terras. 
E, de fato, o art. 231 e seus parágrafos 1º, 2º e 3º versam sobre aspectos 
eminentemente econômicos relacionados às terras indígenas. É necessário, no 
entanto, tecermos algumas distinções. 
Primeiro, as terras indígenas integram o conjunto de bens da União, 
conforme dispõe o art. 20, inciso XI, da Constituição. São os indígenas, 
contudo, que detêm a posse permanente dessas terras, nos termos do art. 
231, podendo usufruir de suas riquezas com exclusividade. 
Mais que isso: a exploração de recursos hídricos pelo Estado — por exemplo, 
para construir uma hidrelétrica — não só depende de um processo mais difícil, 
exigindo a autorização do Congresso Nacional, como também da oitiva das 
comunidades indígenas. 
No entanto, precisamos lembrar que a terra, para povos indígenas (e para 
povos quilombolas, de que a Constituição trata em outros momentos) não tem 
um significado puramente econômico, apesar de também ser fonte de 
subsistência. A terra também tem um sentido existencial: há uma conexão 
intrínseca entre a comunidade e sua identidade e a terra que ela habita. 
Isso significa que, para os povos indígenas, a terra consubstancia múltiplos 
direitos. São eles: 
1º – Direito à dignidade humana como direito ao reconhecimento 
Na medida em que a dignidade da pessoa humana exige o reconhecimento e a 
proteção de valores comunitáriosde povos indígenas, a terra — como 
integrante desses valores comunitários — exsurge (ergue-se) como um direito 
digno de tutela. 
2º – Direito à moradia 
A terra indígena também é o local onde os povos indígenas vivem e 
reproduzem seus saberes e sua cultura. 
3º – Direito à identidade coletiva 
A terra indígena não só é condição para a reprodução desses povos, mas 
também um elo que une os diferentes indivíduos integrantes desses grupos. 
Isso significa que, retirados de suas terras, diversos povos indígenas poderiam 
desaparecer em seu vínculo coletivo — cada indivíduo buscando sua 
subsistência em uma parte da geografia do Brasil, levando, assim, à extinção 
da própria coletividade protegida pela Constituição. 
É por essa razão que a própria Constituição dispõe, no art. 231, parágrafo 4º, 
que as terras indígenas são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos que 
repousam sobre elas são imprescritíveis. Em outros termos, os povos 
indígenas, que possuem direito de posse e de usufruto sobre suas terras, não 
podem vendê-las a outras coletividades ou a outros indivíduos. 
 
Do contrário, seria possível facilmente desvirtuar o direito previsto na 
Constituição, já que a pressão econômica exercida por elites locais sobre as 
comunidades indígenas (muitas vezes, pobres) levaria a que todas as terras 
demarcadas fossem rapidamente vendidas. Assim, a proteção que a própria 
Constituição tentou estabelecer seria esvaziada. 
 
Portanto, para os povos indígenas, a terra não tem sentido eminentemente 
econômico, e sim existencial. 
Ainda que essa afirmação não seja totalmente precisa — ou seja, que haja 
indivíduos ou mesmo grupos de indígenas que vislumbram um caráter 
eminentemente econômico em suas terras —, o fato é que a tutela 
constitucional do direito à terra de povos indígenas reveste-se dessa 
característica existencial. 
 
Tal caráter existencial das terras indígenas fica ainda mais claro se repararmos 
o que afirma o parágrafo 5º do art. 231 da Constituição. 
O dispositivo veda que grupos indígenas sejam removidos de suas terras, 
salvo na hipótese de catástrofe ou epidemia. Mesmo no caso de interesse da 
soberania do país, a remoção só pode ser temporária e depende sempre de 
deliberação do Congresso Nacional. 
Estamos falando aqui, de fato, de proteção aos povos indígenas em sua 
integralidade — como coletividade, cuja identidade é forjada tanto por seus 
usos e costumes quanto por sua terra. 
 
Terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas 
Historicamente, a maior parte (senão toda) das terras brasileiras foi ocupada 
por indígenas, expulsos delas desde o processo de colonização portuguesa. No 
entanto, esta não pareceu ser a reivindicação dos movimentos dos povos 
indígenas abarcada pela constituinte. 
O que se pretendeu, de fato, foi tutelar os povos indígenas que havia em 1988 
e que viam suas terras sujeitas a constantes investidas advindas do Estado e de 
particulares. Ainda assim, foi necessário que o Supremo Tribunal Federal 
definisse os parâmetros para o reconhecimento do direito a tais terras. 
 
Foi o que ocorreu no caso Raposa Serra do Sol (Petição nº 3.388), em que o 
Tribunal estabeleceu que a definição de “terras tradicionalmente ocupadas” 
pelos indígenas tem como marco temporal a promulgação da Constituição, ou 
seja, 5 de outubro de 1988. Isso significa que eventuais aldeamentos indígenas 
que já não existiam à data de promulgação da Constituição não mais teriam 
reconhecidos direitos às terras que, no passado, ocupavam. 
 
Assim, são terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas aquelas que, em 
1988, eram ocupadas por povos indígenas. As terras que apenas no passado 
foram ocupadas por indígenas, mas que não mais o eram em 1988, não são 
resguardadas pelo art. 231 da Constituição. 
Exemplo 
O que acontece no caso de, por exemplo, um aldeamento indígena haver sido 
violentamente expulso de suas terras alguns anos antes da promulgação da 
Constituição? 
 
Imagine um caso de esbulho possessório ocorrido antes da promulgação da 
Constituição, ou seja, a situação em que um terceiro impede que indígenas 
exerçam a posse sobre suas terras, muitas vezes mediante violência ou grave 
ameaça. 
Seria possível negar o direito desses povos indevidamente expulsos, mas que 
seguiam disputando a posse dessas terras, pelo simples fato de terem sido 
impedidos de exercer sua posse sobre aquelas terras em 5 de outubro de 
1988? 
 
A resposta é negativa. Para o Supremo Tribunal Federal, estes casos — o 
chamado “esbulho renitente” — são uma exceção à exigência de que os povos 
indígenas ocupassem as terras à data da Constituição de 1988. 
 
Como consequência da proteção constitucional às terras indígenas, a 
Constituição prevê, no parágrafo 6º do art. 231, que serão considerados nulos 
e extintos todos os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a 
posse dessas terras. Em outros termos, se um terceiro, não indígena, possuía 
determinado título que lhe reconhecesse direitos sobre terras que, em 
realidade, são tradicionalmente ocupadas por pessoas indígenas, esse título 
seria imediatamente anulado e extinto, em favor dos povos ocupantes da terra. 
 
O Supremo Tribunal Federal decidiu nesse sentido, por exemplo, na Ação 
Originária nº 312, em que declarou a nulidade de título de propriedade que 
tinha como objeto imóveis localizados na Reserva Indígena Caramuru-
Catarina Paraguassu — terras tradicionalmente ocupadas pelo grupo indígena 
Pataxó Hã-hã-hãe. 
Atenção 
Assim, a Constituição de 1988 reconhece o direito à terra dos povos indígenas 
como forma de assegurar a proteção a esse grupo étnico-racial sob uma 
perspectiva eminentemente existencial e econômica. O direito à terra para 
povos indígenas é uma proteção à sua identidade coletiva, ao seu direito à 
moradia, à sua dignidade humana. 
Essas terras são definidas de acordo com o dia 5 de outubro de 1988: os povos 
que ocupavam terras naquela data tiveram seu direito assegurado pela 
Constituição, mas também aqueles povos que se encontrassem em disputa 
sobre terras — judicializada ou não — teriam seus direitos reconhecidos. 
Ficaram de fora tão somente aquelas coletividades indígenas que, muito antes 
da Constituição de 1988, haviam deixado de ocupar as terras ou mesmo 
aquelas que haviam desaparecido ao longo dos anos. 
 
Proteção de direitos de povos indígenas 
 
Diversas particularidades que conformam o direito às terras de povos 
indígenas não estão textualmente previstas na Constituição. De fato, nenhuma 
lei é capaz de antecipar todas as controvérsias interpretativas que pode gerar. 
Disso resulta a importância do Supremo Tribunal Federal, que, ao dar 
contornos específicos aos direitos previstos na Constituição, pode assegurar 
em maior ou em menor grau a proteção desses grupos vulneráveis. 
 
É por isso que não basta a mera previsão textual de direitos para que eles 
sejam assegurados. Direitos fundamentais também exigem a existência de 
organizações e procedimentos capazes de protegê-los tanto de ofício quanto 
mediante provocação dos interessados. 
Em outras palavras, como os povos indígenas poderão se proteger diante de 
violações ou ameaças de violações a seus direitos? 
Aqui repousa, então, a importância de irmos além do art. 231 da Constituição. 
Não muito além: é o art. 232 que traz importante previsão quanto à 
organização e procedimentos de proteção de direitos de povos indígenas. Nos 
termos desse dispositivo, é garantido aos indígenas, a suas comunidades e a 
suas organizações a legitimidade para ingressar em juízo em defesa de seus 
direitos e interesses. 
 
O dispositivo prevê, assim, que os povos indígenas não precisam constituir-se 
na forma de Pessoas Jurídicas específicas para que possam ajuizar uma ação 
judicial em defesa de seus interesses. Essa previsão é importante, porque, por 
terem seus próprios modos de vida, formas e organização, muitas vezes, os 
povos indígenas não vão estruturar sua ação coletiva da mesma forma que os 
não indígenas. 
Exemplo 
Enquantooutras coletividades, por exemplo, podem formar associações civis 
como forma de atender a determinados interesses em comum, povos indígenas 
não possuem esse costume nem estão sujeitos a essa exigência. 
Uma relevante discussão surge a partir dessa previsão. Apesar de não trazer 
grandes controvérsias nas instâncias judiciais de primeiro grau, o dispositivo 
pode gerar certas dúvidas com relação aos casos trazidos diretamente ao 
Supremo Tribunal Federal. 
 
Em especial, surge a pergunta: se forem sujeitados a atos violadores de seus 
direitos (previstos na Constituição), os povos indígenas poderão ajuizar 
ações de controle de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal 
Federal? 
 
A dúvida surge, porque o ajuizamento de ações de controle de 
constitucionalidade é limitado aos legitimados previstos no art. 103 da 
Constituição Federal. Em uma primeira leitura, os povos indígenas não estão 
previstos nessa lista de legitimados ativos. A questão foi solucionada pelo 
Supremo Tribunal Federal em 2020, no julgamento da Arguição de 
Descumprimento de Preceito Fundamental nº 709 (ADPF nº 709). 
 
A ADPF foi ajuizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) 
diante da inércia do Poder Executivo Federal no combate à pandemia da 
Covid-19 em comunidades indígenas. Afinal, a pandemia gerou impacto 
desproporcional sobre esses grupos, causando níveis altíssimos de mortes sem 
uma resposta adequada do governo federal. 
 
Porém, a primeira pergunta que o Supremo precisava responder era: poderia a 
APIB, uma articulação que não era constituída como Pessoa Jurídica, ajuizar a 
ação de controle de constitucionalidade? 
 
A resposta foi positiva. No entendimento do Supremo Tribunal Federal, o 
conceito de “entidade de classe” também abarca as organizações de 
movimentos sociais. No caso específico dos indígenas, em relação aos quais a 
Carta Magna dispensa a constituição de Pessoa Jurídica específica (art. 232), o 
relator, ministro Luis Roberto Barroso, entendeu que: 
“Não se pode pretender que tais povos [indígenas] se organizem do mesmo 
modo que nos organizamos. Assegurar o respeito a seus costumes e [a suas] 
instituições significa respeitar os meios pelos quais articulam a sua 
representação à luz da sua cultura.” 
BRASIL, 2020 
Portanto, o Supremo Tribunal Federal não só conferiu certos contornos aos 
direitos fundamentais de povos indígenas ao longo dos anos como também 
reconheceu a possibilidade de que tais povos acessem a jurisdição 
constitucional, o que permitirá, com o decorrer do tempo, que novos casos de 
violações possam ser levados e solucionados por essa instância do Poder 
Judiciário. 
 
O direito à terra dos povos indígenas: propriedade ou 
identidade? 
 
Questões de gênero abarcadas na Constituição 
Já vimos que grupos vulneráveis receberam especial atenção da Constituição 
Federal. Isso se deve a diversos fatores. Um dos principais tem relação com a 
própria origem da Constituição brasileira. 
A Carta de 1988 foi elaborada no contexto da redemocratização, marcado pela 
efervescência de diversos movimentos sociais preocupados com o avanço nas 
pautas de promoção da igualdade e dos direitos humanos. Movimentos como 
os de povos indígenas e de negros, entre tantos outros, fizeram-se diretamente 
presentes na Assembleia Constituinte, ou indiretamente, por meio da pressão 
social que marcou o processo de elaboração da Constituição. 
É natural, portanto, que o movimento feminista também encontrasse eco em 
suas pautas, muitas das quais foram expressamente adotadas pelo texto 
expresso da Carta Magna. Assim, para listarmos os exemplos mais evidentes, 
são previstos na Constituição: 
 
• O combate à discriminação de gênero - art. 3º, inciso IV 
• A igualdade de gênero - art. 5º, inciso I 
• A proibição de discriminação de gênero no mercado de trabalho - art. 7º 
inciso XXX 
 
No entanto, como vimos no caso dos indígenas, não basta a previsão textual 
de direitos para que eles sejam assegurados ou mesmo para que saibamos de 
antemão o que significam os dispositivos constitucionais. É apenas a partir da 
interpretação que conferimos sentido ao texto constitucional, transformando 
texto em norma. 
 
Essa transformação, enfim, permite-nos identificar os comandos 
constitucionais e verificar as violações à Constituição. Nesse processo, 
novamente o Supremo Tribunal Federal é um agente muito importante. 
 
Tipos de discriminação 
Fala, mestre! 
Uma mulher compartilha sua experiência profissional na Petrobras, onde 
ocupou cargos gerenciais e de diretoria, incluindo a presidência. Ela expressa 
tristeza e preocupação pelo fato de que, mesmo após ela ter sido pioneira em 
várias dessas posições, nenhuma outra mulher a sucedeu nesses cargos. Ela 
menciona que desde os anos 1980 e 1990, quando iniciou em funções técnicas 
importantes, mas de pouca atuação empresarial, até hoje, o cenário de 
liderança feminina na empresa não progrediu significativamente. 
 
Um dos mais importantes casos julgados pelo Supremo Tribunal Federal em 
matéria de gênero foi a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1.946 (ADI nº 
1.946), julgada em 2003. O caso não parecia, a princípio, ter qualquer relação 
com o tema da discriminação de gênero. O que se questionava ali era o 
estabelecimento de um teto de benefícios do regime geral de Previdência 
Social estabelecido pela Emenda Constitucional nº 20/1998. 
 
De acordo com as alterações trazidas pela emenda, os benefícios advindos 
desse regime previdenciário seriam limitados a R$1.200,00, de modo que 
caberia, a princípio, aos empregadores arcar com os valores excedentes desse 
teto. Mais uma vez, o texto nada dizia sobre homens e mulheres. Ocorre que, 
ao julgar a ADI nº 1.946, o Supremo Tribunal Federal identificou o risco de se 
produzir, com aquela norma, uma verdadeira discriminação indireta. 
Do ponto de vista jurídico, a discriminação consiste na negação de direitos a 
coletividades historicamente marginalizadas. 
Essa discriminação pode ocorrer de duas formas: 
Discriminação direta 
Quando uma lei expressamente prejudica pessoas negras, mulheres, pessoas 
com deficiência ou outros grupos vulneráveis. 
 
Discriminação indireta 
Quando uma lei ou uma prática não nega expressamente direitos a um grupo, 
mas, aplicada de fato, acaba produzindo efeitos semelhantes aos que 
produziria se discriminasse expressamente. 
Foi exatamente isso que o Supremo Tribunal Federal entendeu que 
aconteceria quando da aplicação do art. 14 da Emenda Constitucional nº 
20/1998 à licença-maternidade. 
A lógica, antevista pelo STF, é bastante clara: caso o empregador fosse 
obrigado a arcar com todo valor que exceda R$1.200,00, inclusive da licença-
maternidade, um incentivo à discriminação de gênero no mercado de trabalho 
seria criado. Afinal, para qualquer função cuja remuneração excedesse o teto, 
o custo do empregador com relação a uma trabalhadora seria potencialmente 
superior ao de trabalhadores homens. 
Consequentemente, essa nova norma constitucional iria de encontro ao 
objetivo de promoção da igualdade de gênero no mercado de trabalho. Por 
essa razão, o STF excluiu da aplicação do mencionado dispositivo o benefício 
da licença-maternidade, que deixou de estar sujeito ao teto geral. 
 
Veja que nada na Constituição afirmava expressamente que o teto de 
benefícios previdenciários não poderia atingir a licença-maternidade. Porém, 
por meio de uma interpretação sistemática, teleológica (argumentativa) e com 
a aplicação do princípio da unidade da Constituição, o Supremo Tribunal 
Federal deu concretude à proteção constitucional às mulheres como grupo 
vulnerável ainda sujeito à intensa discriminação no mercado de trabalho e em 
outros espaços. 
 
Papel do Supremo Tribunal Federal na questão do 
aborto 
A discussão sobre gênero se desenvolveu no STF para abarcar cada vez mais 
debates. Um dos mais relevantes e que se seguiu à ADI nº 1.946/2003 ocorreu 
na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 (ADPF nº 
54). Neste caso, discutia-sea constitucionalidade da criminalização do aborto 
(arts. 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal) no caso dofeto 
anencéfalo. 
A discussão sobre o aborto desse tipo de feto tinha relevância na perspectiva 
do gênero, porque, a pretexto de se proteger uma vida absolutamente inviável, 
centenas de mulheres eram forçadas a se submeter à grave dor psicológica de 
manter uma gestação sem frutos por até nove meses. 
Para além da dor psicológica, médicos e médicas também se viam sujeitos a 
graves riscos jurídicos por realizarem a interrupção da gestação, na medida em 
que pairava insegurança jurídica acerca da caracterização do aborto. 
Assim, ao ponderar a inexistência de vida no caso do feto anencéfalo e a 
liberdade sexual e reprodutiva da mulher, bem como seu direito à saúde e à 
autodeterminação, o Supremo Tribunal Federal entendeu que os artigos do 
Código Penal que criminalizam o aborto não foram recepcionados pela 
Constituição de 1988 em relação à interrupção desse tipo de feto. 
O STF não decidiu que a criminalização do aborto é inconstitucional, e sim 
que a criminalização do aborto do feto anencéfalo o é, por impor restrições 
significativas aos direitos da mulher, sem gerar qualquer benefício possível 
para o feto. 
 
Em termos mais amplos, a questão do aborto foi levada ao STF em dois casos 
que já são paradigmáticos. 
 
1. O primeiro consistiu em uma ação individual — um Habeas Corpus (HC nº 
124.306) — julgada pela 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal. Nesse caso, 
a turma entendeu que a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação 
não poderia ser equiparada ao aborto, tendo em vista o direito à autonomia da 
mulher e o impacto desproporcional da criminalização sobre as mulheres mais 
pobres. 
Como se tratava de caso individual e julgado por turma (e não pelo Plenário) 
do STF, o entendimento trazido no Habeas Corpus não significou que o 
Supremo, como instituição, reconheceu a inconstitucionalidade da 
criminalização do aborto. 
 
2. O segundo caso foi a análise da compatibilidade entre o crime de aborto e a 
Constituição, feita pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF nº 
442, cuja relatora é a ministra Rosa Weber. Nessa arguição, questiona-se a 
recepção dos arts. 124 e 126 do Código Penal, tendo em vista a tutela 
constitucional: 
 
• À dignidade da pessoa humana 
• À cidadania. 
• À não discriminação. 
• À inviolabilidade da vida. 
• À liberdade. 
• À igualdade. 
• À proibição de tortura ou de tratamento desumano ou degradante. 
• À saúde e ao planejamento familiar das mulheres. 
• Aos direitos sexuais e reprodutivos. 
 
Até o final de 2020 o caso não havia sido julgado. É certo que caberia ao STF 
analisar se a legislação editada em 1940 ainda é adequada à proteção dos bens 
jurídicos constitucionais fundamentais, ou se ela revela uma 
incompatibilidade, total ou parcial, com o novo ordenamento constitucional 
brasileiro. 
 
Direitos das pessoas trans 
 
De 2010 a 2020, os debates que envolvem questões de gênero ampliaram-se 
para além das discussões sobre igualdade entre homens e mulheres. Nesse 
período, verificamos, no Brasil e no mundo, o fortalecimento de movimentos 
sociais voltados à proteção de minorias de gênero que, historicamente, foram 
marginalizadas, e cujas identidades foram até mesmo tratadas como 
enfermidades. 
 
Falamos, aqui, especialmente das questões que envolvem pessoas transexuais, 
transgêneros e travestis (pessoas trans). Dentro desse grupo estão: 
Homens transexuais 
Identificados no nascimento como se fossem mulheres. 
Mulheres transexuais 
Identificadas no nascimento como se fossem homens. 
Travestis, não binários e agêneros 
Outros grupos que não se identificam nem como homens nem como mulheres. 
E o que o direito tem a ver com isso? 
 
Ora, pessoas trans foram historicamente relegadas à margem da sociedade, e a 
elas foram fechadas as portas do mercado de trabalho, do acesso a direitos 
básicos e do tratamento respeitoso, em uma sociedade marcada por 
discriminações e intolerância. 
Apenas em 2018 a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a 
transexualidade da lista de transtornos mentais, dando um importante passo 
para compreendermos a necessidade de proteção desses grupos sociais. 
 
Considerando o compromisso igualitário da Constituição Federal, o 
reconhecimento do tratamento discriminatório conferido pela sociedade 
brasileira às pessoas trans exige a atuação das instâncias jurídicas e políticas 
com o objetivo de resguardar seus direitos. 
 
Nesse sentido, dois casos importantes avançaram na pauta da proteção de 
direitos de pessoas trans no Supremo Tribunal Federal. 
 
A ADI nº 4.275, ajuizada em 2009 e julgada apenas em 2018, voltava-se 
contra o disposto no art. 58 da Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/1973), 
que estabelece parâmetros para a alteração do prenome. Para todas as pessoas, 
o direito ao próprio nome é um dos primeiros passos para o reconhecimento 
de sua identidade. 
 
Pessoas cisgênero não enfrentam, em geral, maiores problemas com relação a 
esse aspecto de sua identidade. Existem duas exceções: 
Grave constrangimento 
Quando o prenome causa grave constrangimento à pessoa. 
Apelido público notório 
Quando a pessoa adota, ao longo de sua vida, um apelido público notório, pelo 
qual, por vezes, é mais conhecida do que por seu prenome real. 
Nesses dois casos, a legislação e a jurisprudência sempre admitiram a 
alteração do prenome. 
Exemplo 
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a apresentadora Xuxa e com o político 
Lula. 
No entanto, mesmo os tribunais brasileiros sempre tiveram grande resistência 
a autorizar a alteração do nome de pessoas transexuais pelo chamado nome 
social. 
 
Disso resulta o fato de que, para pessoas trans, o nome registral sempre tenha 
sido uma lembrança constante do não reconhecimento pelo Estado e pela 
sociedade de suas identidades e de sua dignidade. 
 
O sofrimento psicológico de serem identificadas, em todos os documentos 
públicos, por um nome que não condiz com sua identidade, com sua aparência 
e com seu gênero foi, então, um dos principais motivadores para o 
ajuizamento da mencionada ADI nº 4.275. 
 
Com fundamento nesse fato, o STF estabeleceu, no julgamento da referida 
ADI, o direito das pessoas trans a alterarem não só seu nome como também 
seu sexo no registro público, independentemente da realização de cirurgias e 
mesmo do ajuizamento de ação judicial. 
Em outros termos, a partir do julgado do STF, as pessoas trans tiveram 
reconhecido seu direito de buscar, administrativamente — ou seja, 
diretamente junto ao cartório competente de Registro Civil de Pessoas 
Naturais —, a mudança de seu nome e sexo, para que fosse compatível com 
sua identidade de gênero. 
Ao passo que pessoas trans começaram a obter maior visibilidade social, 
também tornou-se mais exposta a discriminação sofrida por elas — ora uma 
discriminação que se produz no campo da negação de acesso a espaços, ora 
uma discriminação que se converte até mesmo em casos de homicídio que 
afetam desproporcionalmente essa população. 
 
Para lidar com isso, o STF julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade por 
Omissão nº 26 (ADO nº 26). Nesta, argumentou-se que a Constituição de 
1988 impunha o dever do legislador no sentido de criminalizar não apenas o 
racismo como também toda forma de discriminação, nos termos do art. 5º, 
incisos XLI e XLII, da Constituição Federal. 
 
No entanto, mais de 30 anos depois da promulgação do texto constitucional, 
jamais avançaram os projetos de lei tendentes a criminalizar as chamadas: 
Homofobia 
Discriminação contra pessoas homossexuais. 
Bifobia 
Discriminação contra pessoas bissexuais. 
Transfobia 
Discriminação contra pessoas trans. 
Assim, sustentou-se perante o Supremo Tribunal Federal que essa omissão 
legislativa violaria o dever de legislar imposto pela Constituição, cabendo ao 
Supremo suprir tal omissão até que sobreviesse a legislação criminalizadora. 
 
De fato, o STF acolheu os argumentos apresentados na ADO,afirmando que, 
até que sobrevenha a legislação especificamente voltada para a 
homotransfobia, deve-se considerar tais manifestações como expressões de 
racismo, compreendido em sua dimensão social. Isso significa que, nos termos 
da decisão do Supremo nessa ADO, as práticas de racismo criminalizadas pela 
Lei nº 7.716/1989 também englobam as discriminações de gênero voltadas 
contra pessoas trans. 
 
Discriminação e desigualdade de gênero 
Antes de concluirmos a análise da abordagem do Supremo Tribunal Federal 
com relação a questões de gênero, não podemos deixar de tratar de outro 
conjunto de casos que recebeu a análise da Corte. 
 
A visibilidade de pessoas trans gerou reações acaloradas em grupos 
conservadores e em grupos avessos à garantia de igualdade em favor de tais 
minorias sociais. Então, esses grupos organizaram-se nacionalmente, 
buscando aprovar diversas leis que tinham por objetivo combater o discurso 
inclusivo e igualitário de pessoas trans no campo do ensino. 
Em outras palavras, tanto no âmbito nacional quanto nos âmbitos municipal e 
estadual, foram apresentados projetos de lei que pretendiam excluir do debate 
escolar as questões relativas à discriminação e à desigualdade de gênero. Em 
alguns casos, esses projetos foram aprovados e converteram-se em leis, que, 
por sua vez, foram impugnadas no STF. 
Assim, na ADPF nº 457, o Supremo entendeu que leis desse tipo, as quais 
buscam impedir o debate sobre gênero nas escolas — essencial para a 
formação de novas gerações capazes de respeitar a diferença e o outro — 
violam à Constituição sob duas perspectivas: 
Competência legislativa sobre currículo escolar 
Não cabe aos Estados e municípios editar normas gerais sobre o currículo 
escolar — e a ação versava sobre lei municipal. 
Vedação à censura 
A Constituição veda a imposição do silêncio e a censura, especialmente 
quando esse silêncio vai de encontro ao necessário combate a toda forma de 
discriminação, estabelecido no art. 3º, inciso IV, da Carta Magna. 
Com isso, vimos como são diversas as questões de gênero trazidas ao 
Supremo: desde casos envolvendo a discriminação de gênero no mercado de 
trabalho, a (in)constitucionalidade do crime de aborto até a proteção dos 
direitos de pessoas trans. 
 
São muitos os temas nos quais o Supremo Tribunal Federal atua, tomando 
decisões — todas, até então, em favor da proteção dos grupos vulneráveis: 
mulheres (transgênero e cisgênero) e pessoas trans. Mais uma vez percebemos 
como a atuação do STF é capaz de conferir maior especificidade e densidade 
normativa ao texto constitucional, assegurando o objetivo constitucional de 
inclusão, de promoção da igualdade e de combate à discriminação. 
 
Direito à identidade de pessoas transexuais, 
transgêneros e travestis 
 
Conceito de idoso 
Vamos voltar nossa atenção para um terceiro grupo vulnerável que, por vezes, 
é negligenciado em seu tratamento jurídico e constitucional: as pessoas idosas. 
 
Sabemos que, no Brasil, tornar-se idoso é um direito que a realidade social, 
muitas vezes, transforma em privilégio: a população brasileira jovem e negra, 
por exemplo, é atingida por altíssimos níveis de violência e letalidade, 
impedindo-lhe um envelhecimento saudável e o gozo da vida na chamada 
terceira idade. 
O fato é, sem prejuízo disso, que as pessoas idosas estão sujeitas a uma forma 
específica de vulnerabilidade social: muitas vezes, são acometidas por 
problemas de saúde diretamente relacionados à idade, mas também por 
doenças psicológicas que as afetam desproporcionalmente. 
Fora do campo da saúde, a pessoa idosa também encontra dificuldades ora 
para ser incluída no mercado de trabalho, quando assim deseja, ora para gozar 
de seu direito à vida em um momento precioso que coroa toda uma existência 
ao longo de décadas. 
 
É nessa linha que o texto constitucional brasileiro buscou conferir amparo 
aos idosos, o que se realiza não só por meio de direitos específicos como 
também de políticas públicas especificamente voltadas para essa população. 
 
Fora do campo da saúde, a pessoa idosa também encontra dificuldades ora 
para ser incluída no mercado de trabalho, quando assim deseja, ora para gozar 
de seu direito à vida em um momento precioso que coroa toda uma existência 
ao longo de décadas. 
 
É nessa linha que o texto constitucional brasileiro buscou conferir amparo 
aos idosos, o que se realiza não só por meio de direitos específicos como 
também de políticas públicas especificamente voltadas para essa população. 
Antes de analisarmos tais dispositivos, precisamos, no entanto, definir quem 
se qualifica juridicamente como idoso. 
 
O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) considera idosa toda pessoa com 
idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. 
 
Diante do envelhecimento da população brasileira, diversos projetos de lei 
foram apresentados ao longo dos anos com o objetivo de alterar a idade a 
partir da qual se considera idosa uma pessoa. 
Mais especificamente, há quem defenda a alteração do parâmetro: dos atuais 
60 (sessenta) anos para 65 (sessenta e cinco) anos. Até que advenha uma 
alteração legislativa, no entanto, precisaremos atentar ao Estatuto do Idoso 
vigente. 
Perceba, a este respeito, como estamos, aqui, diante de uma situação na qual a 
Constituição nos apresenta um conceito jurídico indeterminado, que depende 
da atuação legislativa para sua concretização. Assim, poderíamos considerar 
como idosos pessoas acima de 80, de 70 ou de 60 anos, e todas essas 
alternativas poderiam estar corretas. 
 
Como a própria Constituição não nos dá a resposta, o legislador acaba, 
então, definindo o recorte aplicável nos limites do que é permitido pelo 
conceito. 
Atenção 
Aqui, surge um ponto importante: uma lei não poderia definir como idoso, por 
exemplo, os maiores de 30 anos, porque sabemos, com segurança, que pessoas 
com mais de 30 anos não são idosas. Da mesma forma, a lei não poderia 
restringir o conceito de idoso às pessoas acima de 100 anos. Afinal, 
pouquíssimos brasileiros chegam a essa idade, e implementar uma 
classificação desse tipo esvaziaria o princípio constitucional da proteção da 
pessoa idosa. 
Contudo, o legislador goza, sim, de discricionariedade para definir, nos limites 
semânticos da palavra “idoso” o recorte que seja adequado à proteção 
constitucional e aos objetivos da Carta Magna. 
 
Constituição e tutela à pessoa idosa 
O idoso é sujeito de direito e goza dos mesmos direitos fundamentais que as 
demais pessoas. O Estatuto do Idoso teve a preocupação de prever essa 
proteção a esse grupo social: 
Art. 2º O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa 
humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, 
assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e 
facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu 
aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de 
liberdade e dignidade. 
LEI Nº 10.741, 2003 
Feito esse esclarecimento, passamos à análise do texto constitucional. 
 
Um primeiro direito assegurado à pessoa idosa está previsto no art. 203, inciso 
V, da Constituição. Trata-se da garantia de um salário-mínimo de benefício 
mensal à pessoa idosa que não possua meios de prover a própria manutenção 
nem tenha família que possa provê-lo. Esse benefício, denominado “benefício 
de prestação continuada”, foi regulado pela Lei Orgânica da Assistência 
Social (Lei nº 8.742/1993), que o limitou a pessoas idosas com 65 (sessenta e 
cinco) anos ou mais. Mais uma vez, diante do silêncio do texto constitucional, 
é razoável que a legislação estabeleça determinado parâmetro para definir 
quem é a pessoa idosa tutelada pelo benefício. 
 
Já no capítulo voltado especificamente para a família, a criança, o adolescente 
e o idoso, a Constituição consagrou, em seu art. 230, o dever do Estado, da 
família e da sociedade de amparar as pessoas idosas: 
Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as 
pessoas idosas, assegurandosua participação na comunidade, defendendo 
sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. 
CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 
Trata-se, aqui, de um dispositivo que reflete o que o ministro Carlos Ayres 
Britto do Supremo Tribunal Federal denominou “constitucionalismo 
fraternal”, que exige a efetivação de uma solidariedade social em favor da 
pessoa idosa. 
 
Igualmente, o art. 230, em seu parágrafo 2º, estabelece o direito dos maiores 
de 65 anos à gratuidade dos transportes coletivos urbanos. Apesar da previsão 
constitucional expressa, a matéria chegou a ser levada ao Supremo Tribunal 
Federal em ação que impugnava o art. 39 do Estatuto do Idoso, que reproduzia 
este dispositivo. 
No entendimento do STF, diante da garantia de gratuidade inserida na 
Constituição, não se poderia falar em violação pela legislação que reitera o 
texto constitucional. 
 
Dado o reconhecimento do direito dos idosos pelo Supremo Tribunal Federal, 
vale conferir o julgado na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.768 (ADI 
nº 3.768): 
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 39 DA LEI N. 
10.741, DE 1º DE OUTUBRO DE 2003 (ESTATUTO DO IDOSO), QUE 
ASSEGURA GRATUIDADE DOS TRANSPORTES PÚBLICOS 
URBANOS E SEMIURBANOS AOS QUE TÊM MAIS DE 65 (SESSENTA 
E CINCO) ANOS. DIREITO CONSTITUCIONAL. NORMA 
CONSTITUCIONAL DE EFICÁCIA PLENA E APLICABILIDADE 
IMEDIATA. NORMA LEGAL QUE REPETE A NORMA 
CONSTITUCIONAL GARANTIDORA DO DIREITO. 
IMPROCEDÊNCIA DA AÇÃO. 
 
1. O art. 39 da Lei n. 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) apenas repete o que 
dispõe o § 2º do art. 230 da Constituição do Brasil. A norma constitucional é 
de eficácia plena e aplicabilidade imediata, pelo que não há eiva de 
invalidade jurídica na norma legal que repete os seus termos e determina 
que se concretize o quanto constitucionalmente disposto. 
 
2. Ação direta de inconstitucionalidade julgada improcedente 
ADI Nº 3.768, 2007 
 
Direito preferencial de recebimento de precatórios 
Outro importante direito assegurado pela Constituição à pessoa idosa diz 
respeito à preferência no recebimento de precatórios. 
 
A Constituição Federal, em seu art. 100, estabeleceu um mecanismo próprio 
de pagamento das condenações pecuniárias contra a Fazenda Pública, 
buscando assegurar impessoalidade na satisfação a credores. 
 
Diferentemente do que acontece com um indivíduo que perde em uma ação 
judicial, a Fazenda Pública não deve pagar as condenações judiciais 
imediatamente. Esse pagamento é feito pelo mecanismo do precatório: a 
dívida é inscrita no orçamento das entidades de direito público até 1º de julho, 
para que seja realizado o pagamento até o final do exercício seguinte, na 
ordem cronológica de apresentação dos precatórios. 
 
Isso significa que o prazo para pagamento de condenações judiciais pela 
Fazenda Pública nunca será inferior a aproximadamente seis meses. 
Na prática, porém, diversos entes públicos reiteradamente descumprem o 
dever de pagar seus precatórios, mesmo quando já há muito está esgotado o 
prazo de pagamento. Em razão disso, diversas emendas à Constituição foram 
editadas, de forma a reduzir tais dívidas e facilitar o pagamento pelos entes. 
É nesse contexto de “calote” dos precatórios que surge um tratamento 
diferenciado e privilegiado em favor da pessoa idosa. Nos termos do art. 100, 
parágrafo 2º, da Constituição, os créditos de natureza alimentícia inscritos em 
precatório serão pagos com preferência, caso seus titulares tenham 60 
(sessenta) anos de idade ou mais: 
Art. 100. 
 
§ 2º Os débitos de natureza alimentícia cujos titulares, originários ou por 
sucessão hereditária, tenham 60 (sessenta) anos de idade, ou sejam 
portadores de doença grave, ou pessoas com deficiência, assim definidos na 
forma da lei, serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até 
o valor equivalente ao triplo fixado em lei para os fins do disposto no § 3º 
deste artigo, admitido o fracionamento para essa finalidade, sendo que o 
restante será pago na ordem cronológica de apresentação do precatório. 
CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 
Essa previsão tem um objetivo específico que vai além da vulnerabilidade da 
pessoa idosa. O texto constitucional concluiu que, sem esse tratamento 
diferenciado, seria possível que diversas pessoas idosas jamais recebessem o 
pagamento das condenações judiciais promovidas em seu favor ou mesmo 
que, recebendo após anos, não pudessem gozar dessas condenações. 
 
Papel do Supremo Tribunal Federal na proteção à 
pessoa idosa 
É interessante notarmos que, diferentemente do que ocorre com os povos 
indígenas e com as minorias de gênero, a jurisprudência do Supremo Tribunal 
Federal ainda é escassa em matéria de proteção à pessoa idosa. Isso ocorre 
principalmente pelo fato de que a Constituição não previu amplos direitos em 
favor desse grupo, o que reduz o parâmetro de controle de atos do Poder 
Público. 
 
Além disso, no sistema jurisdicional brasileiro, a proteção da pessoa idosa 
depende, em larga medida, da implementação de políticas públicas no campo 
da saúde, do emprego, do lazer, da moradia e do mercado de trabalho, cuja 
implementação e desenho recaem com muito mais peso sobre: 
Poder Legislativo 
Define seus objetivos, suas fontes de financiamento e seus parâmetros gerais. 
Poder Executivo 
Efetivamente implementa as medidas concretas necessárias ao atingimento 
das finalidades constitucionais. 
Isso não significa que os desafios da proteção da pessoa idosa estejam 
superados. Longe disso, há muito que se avançar nesse sentido. O Supremo 
Tribunal Federal pode, eventualmente, ser chamado a avaliar omissões e 
violações aos direitos desse grupo. 
 
Hoje, no entanto, a tutela da pessoa idosa ocorre especialmente fora do debate 
da jurisdição constitucional, evidenciando para nós, estudiosos do Direito, 
como os direitos fundamentais dependem, em geral, da atuação de outros 
agentes externos ao sistema de Justiça. 
 
A proteção do idoso como dever da família e do 
Estado: entre solidariedade e políticas públicassua manutenção. Afinal, apesar da intenção de estabelecer direitos básicos, 
nenhuma das três declarações mencionadas teve valor constitucional, ou seja, 
nenhuma foi incorporada à legislação para garantir direitos universais ou 
prevenir retrocessos. 
Exemplo 
Logo após a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a França 
retornou ao regime monárquico, e após a promulgação da Declaração 
Universal dos Direitos Humanos, o mundo continuou a testemunhar conflitos 
armados, genocídios e regimes ditatoriais. 
Entendemos que esses direitos não são garantias, e, sim, um trabalho em 
progresso. Por isso, precisamos estar sempre vigilantes para não 
retrocedermos em nenhuma conquista. 
 
Construção teórica dos direitos humanos 
Ao acompanhar a trajetória dos direitos humanos, entendemos que eles são 
frutos de um processo histórico que combinou ideias, pensamentos e 
necessidades de muitos momentos e grupos. 
Atualmente, rejeitamos a ideia de um rei com todo o poder concentrado em 
suas mãos e de uma sociedade que define nosso lugar social desde o 
nascimento, sem chances de definirmos nossas próprias vidas. No entanto, 
nem sempre foi assim. 
Para que direitos como a limitação de poder e o princípio de igualdade se 
efetivassem como tratados ou leis, foi necessário construir uma grande 
argumentação teórica baseada em tradicionais correntes jurídicas filosóficas. 
Os direitos humanos podem ser justificados por, pelo menos, três correntes 
filosóficas: jusnaturalista, positivista e moral. Vamos analisar essas correntes 
e compreender suas argumentações e críticas! 
Jusnaturalismo 
Para a corrente jusnaturalista, o direito é visto como algo intrínseco e natural 
ao ser humano, funcionando antes mesmo de ser legalizado pelas 
constituições ou pelo Estado. 
Na Antiguidade, os direitos jusnaturalistas foram interpretados como direitos 
de origem divina. Posteriormente, na Modernidade, passaram a ser entendidos 
pelo uso da razão humana e vistos como direitos naturais. 
Segundo essa corrente, os direitos existem porque haveria uma demanda 
natural da sociedade por certos princípios. Eles são uma consequência 
natural da organização dos homens e mulheres, existindo independentemente 
de qualquer constituição ou diploma legal. 
Exemplo 
Os jusnaturalistas acreditavam que, se as pessoas têm naturalmente a ideia de 
que tirar a vida de outro ser humano é um ato injusto, seria desnecessário uma 
lei para impedir que as pessoas se matem. 
O uso do argumento jusnaturalista para defender os direitos humanos sofre 
uma crítica: acompanhando o desenvolvimento histórico, entende-se que os 
direitos humanos não são pré-existentes ou uma necessidade natural da vida 
em sociedade. Como nos mostra a história, os direitos humanos são fruto da 
evolução, da necessidade e do entendimento de um grupo. 
Na crítica ao fundamento jusnaturalista, podemos ressaltar o questionamento 
feito pela professora Lynn Hunt sobre a natureza “autoevidente”, definida pela 
Declaração de Independência dos Estados Unidos: se esses são direitos tão 
óbvios, por que precisam ser reafirmados de tempos em tempos?" 
Positivismo 
A corrente jurídica do positivismo entende que os direitos não são elementos 
naturais em uma sociedade. Eles seriam o resultado de discussões e 
entendimentos do Estado, que decide pela oficialização e legalização de certas 
normas. 
Segundo essa corrente, o direito só existe por determinação legal. Ou seja, os 
direitos humanos só passam a existir quando são institucionalizados e recebem 
reconhecimento em forma de lei, seja em constituições ou em tratados 
internacionais. 
Para os positivistas, não existem direitos como ideias abstratas. Os direitos 
humanos são apenas o que a lei determina que são direitos humanos. Se estão 
representados apenas por declarações, segundo a perspectiva positivista, eles 
não existem e ninguém tem a obrigação de segui-los. A crítica a essa corrente 
jurídica aponta que essa interpretação literal do que é um direito enfraquece a 
proteção dos direitos humanos. 
A corrente positivista deixa de fora uma série de direitos importantes, que são 
reconhecidos pela comunidade ou que ainda estão sendo discutidos, antes de 
serem inscritos em alguma legislação. Considerar apenas o que está previsto 
em lei implica numa redução de direitos. 
Moralismo 
A corrente moralista, assim como a jusnaturalista, defende que os direitos são 
normas que não precisam ser oficializadas em leis e constituições para terem 
validade. Sua importância está diretamente relacionada às necessidades e 
valores da sociedade em que estão inseridos. 
No entanto, diferentemente do jusnaturalismo, o direito moral não surge 
naturalmente na sociedade; ele se baseia nos valores morais e éticos 
específicos de um determinado grupo. 
Exemplo 
Não há uma lei que obrigue as pessoas a respeitar uma fila que tenha se 
formado. Ninguém será preso por furar uma fila. Em algumas culturas, essa 
regra é muito importante, e uma pessoa que se ausenta da fila por algum 
motivo pode retornar e ter seu lugar garantido. Em outros grupos, passar à 
frente de uma pessoa desatenta não é um grande problema e pode até ser 
considerado normal. 
A crítica a essa corrente aponta para uma limitação que põe em risco os 
direitos, pois, se cada sociedade possui seu próprio conjunto de valores e 
entendimento moral, vários direitos humanos diferentes seriam reivindicados 
ao redor do mundo. Isso enfraqueceria o conjunto de direitos humanos como 
um direito universal. 
Neste vídeo, falaremos sobre as correntes jusnaturalista, positivista e 
moralista, que influenciaram profundamente o desenvolvimento dos direitos 
humanos ao longo da história. 
Apesar das diferenças evidentes, as teorias jusnaturalista, positivista e 
moralista não se contradizem nem disputam entre si; elas se complementam e 
colaboram para que os direitos humanos tenham uma sustentação e atuação 
mais fortes na sociedade. 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos e os demais tratados da ONU 
são declarações de intenção, ou seja, não são leis válidas por si só. Eles estão 
baseados nas teorias moral e jusnatural e precisam do esforço e das estruturas 
legais dos países inscritos nas Nações Unidas para que se positivem, ou seja, 
que se tornem leis e, de fato, possam ser acessados com mais efetividade por 
todos. 
Sem o entendimento jusnatural, sem uma base moral e sem os esforços das 
Nações Unidas, os defensores desses direitos não teriam argumentos no 
debate para conseguir valor legal em todos os lugares do mundo e, assim, 
alcançar toda a família humana. 
Reflexão 
Se os direitos humanos fossem somente de natureza jusnatural, sem apoio 
moral, ou seja, se não estivessem de acordo com os valores da sociedade, não 
haveria um entendimento da sua urgência e eles não teriam aplicação prática. 
Da mesma forma, se os direitos humanos não tivessem uma argumentação 
baseada nos valores morais da sociedade, dificilmente eles se transformariam 
em discussões e, posteriormente, em leis, e não seriam positivados. 
O direito defendido pelo artigo 5º da Declaração de 1945, que diz que 
“ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, 
desumanos ou degradantes”. Pela doutrina jusnatural, ninguém deveria ser 
submetido à tortura, pois isso é um direito autoevidente; é um entendimento 
natural que isso não deve acontecer. 
No entanto, se o ato não for ilegal naquela nação, ou se aquele valor não 
estiver inscrito na moral daquela sociedade, corre-se o risco de que se ignore o 
senso comum e a tortura, de fato, aconteça. 
Para entender a complexidade dessas correntes, podemos pensar nas 
discussões do tribunal de Nuremberg, uma corte internacional formada ao 
final da Segunda Guerra Mundial para julgar os oficiais de alta patente do 
regime nazista alemão pela acusação de crimes contra a humanidade. 
 
Prisioneiros em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra 
Mundial. 
 
Vista do banco dos réus no tribunal de Nuremberg, 1945. 
Na ocasião, a defesados militares nazistas foi montada sob o argumento de 
que seus atos eram legais dentro do sistema de leis alemãs vigente no 
momento das ações. Ou seja, quando os crimes foram cometidos, nos locais 
em que foram cometidos, eles não infringiram nenhuma lei. 
Nesta argumentação, pela teoria jusnaturalista, deve-se descartar o 
argumento da legalidade e condenar os atos como crimes, por se tratar de 
atitudes que deveriam ser naturalmente rejeitadas por todos. 
Por outro lado, a corrente positivista alega legitimidade dos atos dentro do 
sistema legal da nação onde ocorreram. Essa ideologia ficou abalada e foi 
amplamente questionada por ter dado respaldo legal a ações dessa natureza, 
legitimando atuações com indiferença aos valores éticos. 
 
As políticas dos regimes fascistas, além do debate sobre a legalidade, foram 
um marco para as discussões sobre violação de direitos e a sobre a 
responsabilidade da comunidade internacional diante dessas violações. 
A filósofa alemã e judia Hannah Arendt produziu reflexões importantes sobre 
o tema, visto que, até a primeira metade do século XX, apesar dos debates 
políticos e teóricos sobre direitos universais, parecia que todo o esforço 
político e filosófico não havia produzido efeitos práticos na sociedade. 
 
Hannah Arendt. 
Analisando os acontecimentos da época, Arendt, cujos estudos foram escritos 
na metade do século XX, propôs que ocorreu uma ruptura nos direitos 
humanos não apenas devido aos regimes totalitários de direita e esquerda, 
incluindo o stalinista na União Soviética, mas também devido às políticas 
imperialistas praticadas. 
 
Naquele período, alguns países impuseram políticas racistas de exploração e 
domínio sobre povos africanos e asiáticos. 
 
Se, após anos de debate sobre o assunto, o mundo vivenciou tais políticas 
bárbaras de desrespeito à vida, era necessário refletir e criar novas condições 
para uma reconstrução dos direitos universais. 
Segundo a filósofa, reconstruir esses direitos envolve dar atenção aos homens 
e mulheres que perderam seu lugar na sociedade e na política, seja por serem 
minorias ou por terem sido obrigados a deixar seu local de origem, tornando-
se apátridas ou refugiados. 
Este foi o problema crucial que se intensificou no período entre guerras. Após 
a dissolução dos impérios ao final da Primeira Guerra Mundial, grupos como 
armênios, húngaros e romenos perderam sua nacionalidade, tornando-se 
apátridas. 
Outros grupos foram forçados a fugir e buscar refúgio em países estrangeiros, 
como milhares de judeus alemães que escaparam das políticas antissemitas do 
regime nazista – incluindo a própria Hannah Arendt e seus familiares. Houve 
também aqueles perseguidos por suas escolhas religiosas, orientação afetiva 
ou convicções políticas, como anarquistas e comunistas. 
 
Uma menina judia refugiada em Xangai, com suas amigas chinesas, durante a 
Segunda Guerra Mundial. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um significativo deslocamento 
geográfico pela Europa. Ao fugir de seus lares, muitos tornaram-se imigrantes 
em outros países, perdendo a proteção legal de seus Estados. 
Para Arendt, o grupo dos apátridas foi o que teve a situação mais angustiante e 
o que mais precisava de atenção, pois, além de terem perdido seus direitos, 
eles não eram reconhecidos como iguais perante a lei, já que a lei nem existia 
mais para eles. 
O apátrida, ao ser expulso de sua comunidade, se vê isolado e privado de sua 
humanidade. Após a Segunda Guerra Mundial, com tantas pessoas sem a 
proteção de um Estado, surge a necessidade de uma política internacional que 
garanta o respeito aos direitos dessas pessoas, independentemente de sua 
situação. 
A ideia central de Hannah Arendt para a reconstrução dos direitos humanos é 
que o primeiro direito a ser defendido deve ser o direito a ter direitos. Em 
lugares do mundo onde indivíduos não têm acesso a nenhum direito, ou onde 
até mesmo lhes é negado o direito de participar dos debates políticos, eles 
estão excluídos desse sistema internacional. 
Segundo Arendt, seria necessário garantir que todos os homens e mulheres, 
sem condições ou exceções, obtenham proteção jurídica na mesma medida 
que todos os demais. O indivíduo deveria ser reconhecido como cidadão do 
mundo ou, como foi dito na declaração da ONU, membro da família humana, 
sem distinção entre nativo e estrangeiro. 
Esta nova situação, na qual a humanidade assumiu antes um papel atribuído à 
natureza, ou à história, significaria nesse contexto que o direito a ter direito, 
ou o direito de cada indivíduo a pertencer à humanidade deveria ser garantido 
pela própria humanidade. 
(Arendt, 2004, p. 332) 
Se o indivíduo precisa ter direitos acima do Estado, ele também necessita de 
um Estado para transformar o princípio dos direitos humanos em lei na 
sociedade em que vive. 
Os direitos humanos são conquistas progressivas que devem ser 
continuamente defendidas, fundamentadas em argumentos bem construídos, 
teoria sólida e ações positivas. Ao observarmos as rupturas sofridas, 
entendemos que seu estabelecimento não é definitivo e precisa ser 
questionado e redefinido de tempos em tempos. 
 
O ano de 1948 marcou um ponto crucial na história dos direitos humanos: as 
Nações Unidas proclamaram sua Declaração Universal dos Direitos Humanos, 
propondo que esses direitos estivessem à disposição de todas as pessoas da 
família humana. Esta declaração pretendia servir como base para garantir 
direitos em todos os lugares do mundo. 
No entanto, não foi denominada uma declaração internacional, mas 
autointitulada de declaração universal. A escolha do nome refletia a ideia de 
que esses direitos deveriam transcender fronteiras nacionais e afirmava que 
pertencem a todos, sem condições ou exceções. 
Ao ponderar sobre essa universalidade, surgiu o inevitável questionamento: 
seria possível criar um direito básico que atendesse a todas as demandas, 
independentemente de gênero, religião, nacionalidade ou qualquer outra 
característica pessoal? Os direitos humanos deveriam ou poderiam ser 
universais? 
A ideia de um recurso legal básico disponível para o mundo inteiro parecia 
ideal e irrecusável. Se os direitos são vistos como benefícios, não haveria 
razão para serem rejeitados por alguém, mas, apesar das boas intenções, a 
ideia não foi unanimemente aceita. 
Há anos, a questão vinha sendo discutida e a universalidade desses direitos 
vinha sendo contestada, principalmente pelos países não europeus. Eles não 
concordavam que essa declaração atendesse a todas as culturas, pois 
percebiam fortes tendências eurocêntricas nos princípios ocidentais que a 
sustentavam. Argumentavam que a proposta impunha uma visão unilateral 
que deveria ser acolhida por todos, sem considerar as diversas culturas, 
demandas sociais e religiões que existem em diferentes partes do globo. 
Esses países apontavam que a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi 
moldada a partir de perspectivas ocidentais e cristãs, deixando de lado 
outras formas de organização política e crenças religiosas. A contestação 
enfatizava a necessidade de reconhecer a diversidade cultural e social global, 
questionando se seria possível uma única declaração de direitos humanos 
abarcar todas as particularidades culturais e sociais do mundo. 
Críticas ao universalismo 
Para os críticos da universalidade dos direitos humanos, a ideia de criar um 
conjunto de direitos básicos capazes de atender a todos pode parecer soberba, 
considerando que foi elaborado por um grupo específico, e não por todas as 
nações. 
A partir dessa perspectiva, surge a preocupação de que existe um grupo que 
presume entender sozinho as necessidades globais e pode decidir 
unilateralmente o que é necessário para garantir uma vida digna, sem 
consultar aqueles que serão afetados por esses direitos. Isso reforça a ideia de 
hierarquia e desigualdade, sugerindo que um grupo ou cultura possa tutelar o 
mundo em detrimento de outros. 
Além disso, surge a crítica de que uma declaração universal dosdireitos 
humanos pode ser vista como um instrumento de prática imperialista, onde 
políticas de um grupo são impostas sobre outros. Segundo Hannah Arendt, as 
políticas imperialistas da Europa no final do século XIX romperam com os 
Direitos Humanos no passado, contribuindo para os grandes conflitos do 
século XX. 
A universalidade torna-se um objetivo contraditório: busca garantir direitos 
universais enquanto potencialmente contribui para sua própria ruptura. 
Respondendo à acusação de ser uma declaração imperialista imposta ao 
mundo, os defensores do caráter universal da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos argumentam que, desde sua elaboração, diversos países de 
todos os continentes e culturas variadas aderiram voluntariamente ao 
documento. Assim, a legitimidade do caráter universal da declaração mostrou-
se naturalmente, à medida que os países se empenham em adaptar suas 
constituições a esses valores. 
No entanto, é importante lembrar que a declaração de 1948 é um produto 
histórico, moldado pelas necessidades de sua época e pela sociedade que a 
produziu. Está em constante evolução e adaptação, nunca sendo finalizada, 
sempre aberta a melhorias. 
Multiculturalismo 
É uma corrente que contesta a visão universalista e amplia as possibilidades 
de inclusão dos direitos humanos em todo o mundo. Um dos principais 
defensores dessa corrente é o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que, 
apesar de português, critica a visão eurocêntrica da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos e busca discutir as diferenças culturais globais para 
contribuir com uma declaração mais pluralista. 
Boaventura de Sousa Santos argumenta que é natural que todas as culturas 
vejam seus próprios princípios como os mais corretos, algo que deveria ser 
respeitado pelos outros ou não seriam cultivados. Ele ressalta que os 
ocidentais são frequentemente os únicos a transcender esses limites, buscando 
expandir e impor seus valores ao restante do mundo. 
Ao adotar a ideia de universalidade dos direitos humanos, há o risco de impor 
normas locais a todos, o que poderia ser amenizado ao aceitar e valorizar as 
diferenças culturais como fundamentais. Caso contrário, a declaração poderia 
inflamar conflitos entre civilizações. No entanto, também há a igualmente 
arriscada armadilha de relativizar ao extremo todas as atitudes em nome dos 
valores locais, sem questionamento crítico. 
Como lidar com sociedades que, por exemplo, permitem o mutilamento 
genital de meninas e mulheres em nome da cultura? Reconhecer as 
imperfeições e os limites culturais é fundamental para a construção de direitos 
humanos multiculturais. 
Para Santos, o multiculturalismo representa o equilíbrio entre a competência 
global e a legitimidade local, ou seja, entre o que deve ser um denominador 
comum universal e o respeito às características de cada comunidade. Antes de 
tudo, é crucial estabelecer um conjunto de direitos que promova a igualdade, 
ao mesmo tempo em que respeite as diversas diferenças culturais das 
comunidades. 
[...] temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e 
temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. 
Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma 
diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades. 
(Santos, 2003, p. 56) 
 
Devemos reconhecer as diferenças entre os seres humanos, mas essa 
diversidade não deve resultar em desigualdade ou hierarquias que 
classifiquem pessoas como superiores ou inferiores, determinando quem deve 
comandar, quem deve obedecer, quem deve ser respeitado e quem deve se 
submeter. 
Diversidade cultural 
É fundamental buscar, através do diálogo intercultural, atitudes que possam 
ser adotadas em diversos grupos ou praticadas de formas diferentes, mas que 
tenham o mesmo objetivo de não inferiorizar o outro. 
Nunca se deve assumir que uma cultura ou grupo seja mais correto que outro, 
buscando sempre uma relação entre diferença e igualdade. 
Exemplo 
O tratamento de homens e mulheres na sociedade, que, apesar das diferenças, 
não deve haver desigualdade. As doutrinas cristã e judaica, que oferecem 
visões religiosas distintas, mas que não devem gerar hierarquias ou disputas 
entre seus praticantes. 
As culturas são dinâmicas e igualdade não é sinônimo de uniformidade. Por 
exemplo, estadunidenses, brasileiros e argentinos, apesar de originários do 
mesmo continente, possuem características distintas que devem ser entendidas 
separadamente, a fim de não gerar falsas generalizações. 
Dentro do grupo dos islâmicos, por exemplo, existem diferentes correntes 
como xiitas e sunitas, cujas ideias podem ser semelhantes em alguns aspectos 
e radicalmente diferentes em outros. 
Todas as diferenças devem ser aceitas, desde que nenhum valor inferiorize ou 
ameace o outro. 
A aceitação das diferenças é crucial para garantir que os direitos humanos 
sejam efetivamente atendidos. Porque, em cada sociedade, a interpretação de 
um direito pode variar, e princípios que vão contra práticas locais podem 
resultar no descumprimento contínuo desses direitos, mesmo que sejam 
formalmente reconhecidos como lei. Sem o apoio da comunidade, um direito 
pode perder sua eficácia. 
Os direitos humanos estão em constante debate e evolução, e as Nações 
Unidas desempenham um papel crucial ao mediar interesses globais e 
promover debates para reorganizar os direitos universais. 
Apesar das críticas existentes, é importante reconhecer o esforço da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos e de tantos outros tratados e 
documentos redigidos pela ONU. 
Esses documentos são fundamentais para mobilizar um debate global que visa 
fortalecer os sistemas jurídicos dos países, buscando uma condição 
confortável para todos, mesmo que algumas posições sejam questionáveis. A 
sociedade deve continuar aprendendo a tratar todas as pessoas com igualdade 
e a compreender as diversas nuances da família humana. 
 
Se em um primeiro momento as declarações de direitos essenciais 
preocuparam-se com a garantia da liberdade e da igualdade, no século XX, 
outro conceito passou a ser considerado fundamental: o respeito à dignidade 
da pessoa humana. 
O primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações 
Unidas, assinada em 1948, afirma: “Todos os seres humanos nascem livres e 
iguais em dignidade e direitos”. 
O Brasil, como membro da ONU e comprometido com a garantia dos direitos 
humanos, positivou essa ideia na Constituição de 1988, que está em vigor. 
No primeiro artigo de nossa Carta Magna, registra-se que a República 
Federativa do Brasil tem como fundamentos: 
Soberania 
Cidadania 
Dignidade da pessoa humana 
Além do primeiro artigo da Constituição de 1988, a importância da dignidade 
é tratada em outros trechos de nossa Carta Magna. 
Exemplo 
No artigo 170, consta que toda ação econômica tem como finalidade garantir 
uma existência digna. Já o artigo 230 define que é dever da família, da 
sociedade e do Estado defender a dignidade das pessoas idosas. 
Conceito de dignidade da pessoa humana 
Refere-se às condições mínimas necessárias para que alguém viva uma vida 
justa, em circunstâncias adequadas e sem depreciação. Este é um valor 
absoluto que regula todos os objetivos humanos, pois nada é mais crucial do 
que assegurar as condições vitais para a sobrevivência neste mundo. 
É uma noção incomensurável e insubstituível, que não pode ser equiparada a 
nenhum outro valor. A dignidade humana não pode ser substituída por nada, 
sendo um valor que não pode ser mensurado de forma quantitativa ou 
qualitativa. 
Não há uma definição legal única que determine essas condições, pois elas 
variam entre culturas e sociedades. Para entendermos melhor, vamos conferir 
os exemplos: 
 
Pessoa árabe e praticante do islamismo 
A dignidade pode estar amparada na possibilidade de constituir uma família e 
de criar seus filhos dentro dos princípios da sua religião. 
 
Pessoa europeia e ateia 
A dignidade pode estar completamentebaseada nas conquistas financeiras e 
na possibilidade de desenvolvimento da sua carreira ou do seu negócio. 
Todos os grupos e culturas nutrem valores básicos que formam seu conceito 
de dignidade humana. Nas sociedades ocidentais, essas condições de 
dignidade estão refletidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos da 
ONU, que foi escrita por representantes da cultura ocidental. Embora 
proponha valores universais, ela não necessariamente reflete as condições de 
dignidade humana em todas as culturas do mundo. 
Segundo o sociólogo Boaventura de Souza Santos, para que os direitos 
humanos sejam verdadeiramente multiculturais e alcancem o maior número 
de pessoas, é fundamental reconhecer que cada cultura possui sua própria 
concepção de dignidade humana. Nem todas essas concepções serão 
contempladas nos termos da declaração das Nações Unidas. 
Dado que algumas concepções de dignidade humana podem ser opostas ou 
contraditórias, uma solução para alcançar um melhor consenso seria buscar 
atender ao maior número possível de pessoas. Isso implica adotar uma visão 
mais inclusiva da dignidade humana, que possa ser aceita dentro das 
particularidades das diversas culturas. 
Dentro de uma mesma cultura pode haver correntes divergentes, algumas mais 
conservadoras e outras mais progressistas. Por exemplo, nos regimes políticos 
ocidentais, existem tanto regimes democráticos quanto autoritários. Nesse 
contexto, o diálogo é sempre essencial, pois nenhuma concepção de direitos 
humanos conseguirá agradar a todas. 
Transformações no conceito de direitos humanos 
Assim como os direitos humanos são um conceito construído a partir das 
demandas históricas que se modificam na medida em que novos 
acontecimentos surgem, a noção de dignidade da pessoa humana de cada 
grupo e de cada época também é mutável. 
Uma significativa transformação desse conceito aconteceu após a Segunda 
Guerra Mundial, quando houve a chamada “virada kantiana”, que enfatizou a 
dignidade humana como um fim em si mesma, rejeitando qualquer forma de 
coisificação e instrumentalização dos indivíduos. A dignidade da pessoa 
humana passou a ser considerada um fim para a humanidade e não um meio 
para a construção do mundo. 
Atualmente, a responsabilidade de construir uma sociedade agradável não 
recai apenas sobre os indivíduos, mas sobre a sociedade e suas instituições, 
que devem ser estruturadas de modo a permitir que as pessoas vivam em 
plenitude, seguras e felizes. 
Estruturação dos direitos universais 
No momento em que se inverte a lógica e se assume que é a sociedade que 
deve acolher as pessoas, e não o contrário, surge a carta de direitos humanos 
universais das Nações Unidas. 
A partir desse ponto, segundo o professor Fernando Quintana (1999), 
podemos separar os esforços da ONU com os Direitos Humanos Universais 
em três fases de composição: 
Primeira faseSegunda faseTerceira fase 
Período burocrático da definição dos direitos humanos. 
Para assegurar o sucesso dessa declaração e o acesso aos direitos 
fundamentais para toda a “família humana”, foi necessário comprometer os 
países a assumirem tratados e construírem um sistema capaz de efetivá-los. 
Desde 1966 até hoje, foram assinados nove tratados que devem ser 
observados e implementados pelos países membros, abordando questões 
como tortura, imigração, direitos das crianças, pessoas com deficiência, 
discriminação racial e de gênero, entre outros. 
Além disso, constituiu-se uma estrutura chamada Sistema Internacional de 
Proteção dos Direitos Humanos, composto por órgãos como os comitês 
regionais, tais como: 
• Sistema Interamericano de Direitos Humanos 
 
• Sistema Europeu de Direitos Humanos 
 
• Sistema Africano de Direitos Humanos 
Esses sistemas regionais acompanham diretamente os países integrantes e se 
responsabilizam pelos demais países que não fazem parte de nenhum comitê 
regional, não ficando estes excluídos de acionar os direitos internacionais. 
Os comitês regionais têm o papel de proteger indivíduos de países que não 
possuem estruturas similares. Assim, eles devem estender sua ajuda a países e 
cidadãos que necessitam de acolhimento e proteção, seguindo o princípio de 
que, antes de pertencer a um país, o indivíduo é parte da família humana. 
 
Na primeira metade do século XX, a Segunda Guerra Mundial foi crucial para 
que a Europa Ocidental e a América do Norte começassem a considerar os 
direitos humanos como os entendemos hoje. No entanto, o Brasil, sem 
participação direta no conflito e com uma história, sociedade e problemas 
sociais distintos, seguiu um caminho diferente na construção e garantia desses 
direitos. 
Participamos do esforço inicial das Nações Unidas, mas nossos trabalhos 
foram interrompidos por 21 anos. Somente no final da década de 1980, com o 
fim da ditadura militar, conseguimos incorporá-los à nossa Constituição de 
1988. 
 
Manifestações reivindicando eleições diretas para a presidência da República, 
no Plenário da Câmara dos Deputados, em abril de 1984. 
Nossa adesão tardia aos direitos humanos indica que ainda estamos em 
processo de desenvolvê-los. Considerando a situação atual do país e da 
população brasileira, é evidente que ainda enfrentaremos muitos desafios para 
consolidá-los. Diante dessa constatação, surgem muitas questões que devem 
ser levantadas, como: 
• Conseguiremos superar nosso passado de atraso? 
 
• Em qual estado nos encontramos e quais são nossas perspectivas? 
 
• Como desenvolver leis que tenham por princípio que todas as pessoas 
são iguais em um país de extrema desigualdade? 
Formação política e social 
O Brasil é um país consideravelmente jovem e em pleno desenvolvimento 
político. Da nossa trajetória histórica, costumávamos conhecer e contar apenas 
uma parte, a partir da chegada dos europeus neste território, no ano de 1500. 
 
Desembarque de Cabral em Porto Seguro, Oscar Pereira da Silva, 1904. 
O ano de 1500 foi marcante para os povos que habitavam esta terra, pois logo 
após o primeiro contato dos nativos com os portugueses, os interesses 
europeus passaram a dominar a dinâmica local e se sobrepusessem às 
necessidades dos povos indígenas. 
A partir daquele momento, houve silenciamento e uma brutal transformação 
cultural, política e social. Por bastante tempo, fomos colônia de Portugal. 
Inicialmente, houve pouco interesse da metrópole em explorar nosso 
território. As primeiras políticas implementadas aqui tiveram o objetivo de 
ocupar as terras para que não fossem tomadas por franceses e holandeses. 
A intensa produção de açúcar era sustentada por uma estrutura na qual uma 
pequena elite administrava os engenhos, utilizando amplamente mão-de-obra 
de indígenas e africanos escravizados, que trabalhavam arduamente. Com a 
descoberta do ouro em Minas Gerais, a população aumentou, mas a 
sociedade continuou dividida entre uma pequena elite enriquecida e 
trabalhadores escravizados que suavam nas minas. 
 
Pintura retratando a lavra do ouro em Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, 
Minas Gerais, 1825. 
Em 1822, o Brasil se tornou oficialmente independente de Portugal, porém 
grande parte da estrutura colonial permaneceu intacta. Ao contrário de outros 
países, o presidencialismo não substituiu a monarquia, e o trabalho escravo 
não foi interrompido. 
O governo imperial retardou a abolição da escravidão até quando não foi 
mais possível, tornando o Brasil o último país a assinar a abolição da 
escravatura. 
A partir da Lei Áurea, os escravizados foram libertos, mas não foram 
implementadas políticas para assisti-los. Abandonados pelo poder público, 
enfrentaram inúmeras dificuldades para sobreviver. 
 
Lei Áurea, 1888. 
Ao contrário de outros países, o presidencialismo não substituiu a monarquia, 
e o trabalho escravo não foi interrompido. 
 
O governo imperial retardou a abolição da escravidão até quando não foi mais 
possível, tornando o Brasil o último país a assinar a abolição da escravatura. 
 
A partir da Lei Áurea, aprovada em 12 de maio de 1888, os escravizadosforam libertos, mas não foram implementadas políticas para assisti-los. 
Abandonados pelo poder público, enfrentaram inúmeras dificuldades para 
sobreviver. 
Um ano depois da abolição, em 1889, foi proclamada a República no Brasil. 
Nos primeiros anos, a participação política se manteve limitada a uma 
pequena parcela da sociedade. Somente ao longo do tempo que conseguimos 
conquistar a ampliação dos direitos políticos para todos. 
Nas primeiras décadas desse regime, mulheres, indígenas e analfabetos não 
podiam votar para eleger um representante e tampouco se candidatar para 
lutar pelos seus direitos. 
A República brasileira é considerada um regime político bastante frágil. Ao 
longo dos anos, enfrentamos processos de impeachment e passamos por dois 
longos períodos de ditadura, nos quais o Congresso Nacional foi fechado, a 
Constituição perdeu sua autoridade legal e uma série de direitos do povo foi 
suspensa. 
Foi somente em 1988, ao final do regime militar, que conquistamos uma nova 
Constituição que garante amplos direitos para o povo, vigente até os dias 
atuais. Devido à extensa proteção de direitos que oferece, essa Constituição 
ficou conhecida como Constituição Cidadã. 
Constituição de 1988 
A Constituição de 1988 é a oitava Constituição escrita no nosso país, um 
número considerado muito alto. Alguns países, como os Estados Unidos, 
usam a mesma Constituição desde o início de sua formação jurídica, ou 
precisaram passar por poucas renovações. 
A necessidade de múltiplas reescritas em nosso país reflete nossa instabilidade 
política e a inadequação de nosso conjunto de leis no passado para garantir 
direitos universais e atender às demandas sociais. 
 
Sessão parlamentar que instituiu a atual Constituição da República Federativa 
do Brasil de 1988. 
A atual Constituição foi redigida para superar as restrições aos direitos 
durante o regime militar, restaurar a democracia e promover a redução da 
desigualdade social e o combate à corrupção. 
 
Sua elaboração foi um processo de mais de um ano e meio, conduzido por 
deputados e senadores eleitos democraticamente em 1986. 
 
É crucial notar que, dos mais de 500 congressistas envolvidos, menos de 30 
eram mulheres, nenhuma delas ocupando uma cadeira no Senado Federal, 
destacando a significativa desigualdade de gênero na representação legislativa 
no Brasil. 
Essa Carta Magna consagra os princípios fundamentais do Brasil, como: 
• Liberdade de expressão 
 
• Igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres 
 
• Separação de poderes para evitar a concentração de autoridade, típica 
de regimes absolutistas 
Além disso, garante uma série de direitos sociais, incluindo acesso 
permanente a: 
• Educação 
 
• Trabalho 
 
• Saúde 
 
• Lazer 
Além de ampliar os direitos dos brasileiros, a Constituição de 1988 também se 
compromete com os direitos em nível universal. Logo nos primeiros artigos, 
estabelece que o Brasil deve primar pelo predomínio dos direitos humanos nas 
relações internacionais. O compromisso nacional inclui participação em 
tribunais internacionais que discutem tais direitos, e determina que a 
Defensoria Pública tem a função de promover e defender os direitos humanos 
em todo o país. 
Embora tenhamos uma Constituição escrita de forma democrática que prevê 
muitos direitos sociais para o povo, ela por si só não é suficiente para garantir 
uma vida digna aos brasileiros. As determinações constitucionais estabelecem 
princípios que devem ser implementados no país, mas isso requer a 
formulação de políticas e medidas específicas para que se tornem efetivas. 
Para que a nossa Constituição não passe a ser um mero documento de 
intenção, os poderes Executivo e Legislativo devem colaborar mutuamente. 
Exemplo 
Não basta a Constituição determinar acesso gratuito à saúde; é essencial que o 
poder Executivo desenvolva uma estrutura de hospitais e serviços médicos 
para garantir esses direitos a todos, transformando as disposições 
constitucionais em realidade prática. 
Fala, mestre! 
O vídeo aborda a importância dos tratados de direitos humanos no Brasil, que 
foram elevados ao nível de dispositivos constitucionais, tornando seus 
retrocessos inadmissíveis. Além disso, destaca a trajetória de protagonismo do 
Brasil na agenda internacional de direitos humanos, enfatizando sua 
participação histórica em conferências e negociações internacionais. O vídeo 
também ressalta a relevância do multilateralismo na política externa brasileira, 
exemplificando com o papel do Brasil na negociação do direito do mar. Por 
fim, aborda o impacto dos costumes no direito internacional, evidenciando 
práticas como a concessão de asilo diplomático na América Latina. 
 
Brasil na proteção dos direitos humanos 
O Brasil foi um dos países fundadores das Nações Unidas em 1945. Apesar de 
contribuir para a elaboração da Declaração Universal de Direitos Humanos, 
no início da década de 1960, o país interrompeu a consolidação desses direitos 
durante duas décadas de regime militar, que suspendeu a Constituição e 
muitos direitos civis e políticos. 
Atualmente, com os direitos restabelecidos, retomamos o processo de 
consolidação dos direitos humanos e fazemos parte do Sistema Internacional 
de Proteção aos Direitos Humanos e do Sistema Interamericano de Direitos 
Humanos. Estes sistemas visam garantir a efetivação dos direitos humanos em 
nível regional e oferecer suporte aos cidadãos de países que não recebem 
assistência adequada do Estado. 
 
Bandeiras da ONU, do Brasil e dos objetivos do desenvolvimento sustentável 
da ONU, na Casa das Nações Unidas no Brasil. 
O Brasil possui compromisso ratificado com oito tratados internacionais da 
ONU: 
1. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 
 
2. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos 
 
3. Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 
Racial 
 
4. Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 
contra a Mulher 
 
5. Convenção contra a Tortura 
 
6. Convenção sobre os Direitos da Criança 
 
7. Convenção para a Proteção de Todas as Pessoas contra os 
Desaparecimentos Forçados 
 
8. Convenção sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência 
Nos últimos anos, o Brasil tem se destacado pela sua participação ativa nas 
Nações Unidas. Além de ratificar tratados internacionais, acompanhamos de 
perto a agenda de debates e tivemos a honra de integrar o Conselho de 
Segurança da ONU em algumas ocasiões. 
Atualmente, mantemos uma participação permanente na Assembleia Geral. 
Em 2011, a então presidenta Dilma Rousseff fez história ao ser a primeira 
mulher a abrir os debates dessa reunião. 
Brasil na proteção dos direitos humanos 
Neste vídeo, falaremos sobre a atuação do Brasil no cenário internacional sob 
a perspectiva dos direitos humanos, considerando os inúmeros desafios 
enfrentados pelo país. 
Aplicações e desafios dos direitos humanos no Brasil 
A Constituição e as políticas públicas são as principais ferramentas para 
aplicar os direitos humanos dentro de uma nação. 
Se essas estruturas não estiverem sendo suficientes para garantir os direitos 
básicos e a dignidade da pessoa humana, qualquer pessoa ou organização pode 
e deve cobrar do governo a fiscalização e a implementação desses direitos. 
Vamos entender como ocorre esse processo! 
O Estado não atende 
Quando um Estado não atende aos seus cidadãos, ainda temos a possibilidade 
de acionar os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos. No 
caso do Brasil, podemos recorrer ao Sistema Interamericano de Direitos 
Humanos. 
Acionamento dos órgãos competentes 
Ao serem acionados, os órgãos competentes irão investigar e podem condenar 
o país por violação dos direitos humanos. Essas condenações ocorrem quando 
se identifica que os direitos foram gravemente descumpridos e que somente 
uma decisão judicial ou uma indenização não seriam suficientes para reparar o 
problema. 
Pressão sobre o Estado 
Quando uma sentença internacional é proferida,seu objetivo é pressionar o 
Estado a debater o problema, revisar os sistemas que estejam provocando 
essas violações e desenvolver leis e políticas públicas que evitem novas 
violações dos direitos humanos. 
Em nossa história, o Brasil foi condenado oito vezes pela Corte 
Interamericana. Uma dessas condenações foi no caso conhecido como Maria 
da Penha. 
Em 1983, Maria da Penha sofreu uma tentativa de homicídio por parte de seu 
marido, e o processo que deveria condená-lo foi tão extenso e inconclusivo 
que passaram-se 15 anos sem que o culpado fosse preso. 
 
Maria da Penha, a sobrevivente que dá nome à lei de combate à violência 
doméstica no Brasil. 
O caso foi levado à Comissão Interamericana que, em 2001, quase 20 anos 
depois, responsabilizou o Estado brasileiro por negligência, omissão e 
tolerância à violência contra as mulheres. 
 
O caso repercutiu na nossa sociedade e, atualmente, temos uma lei com o 
nome da vítima, cujo objetivo é estipular punição adequada e coibir a 
violência contra as mulheres. 
 
Em nossa sociedade, é comum vermos pessoas relativizando o uso dos 
Direitos Humanos e desacreditando sua importância. Isso prova que vivemos 
em um Estado de constante violação dos direitos humanos, onde o desrespeito 
por direitos básicos é comum e pouco se faz para garantir a dignidade da 
pessoa humana. 
No cenário atual do país, ainda é necessário reforçar as instituições 
democráticas, promover muitos debates, criar políticas públicas e buscar a 
conscientização popular para que esse conjunto de direitos seja respeitado, 
permitindo que nossa comunidade viva com mais dignidade e menos 
desigualdade. 
 
Expressões jurídicas e seu contexto na realidade social 
Uma das grandes preocupações dos estudiosos da aplicação do direito é 
justamente a terminologia (estudo dos termos, das palavras e seu sentido) 
utilizada ao longo do tempo nos mais diversos documentos jurídicos, tais 
como leis, códigos, decretos, constituições, entre outros. Uma não rara 
incompatibilidade entre discursos políticos e jurídicos, espécies normativas e 
o direito que acaba sendo aplicado nem sempre é percebida pela sociedade 
civil e pelos atores da operação do direito. 
Comentário 
O senso comum crê que os termos do direito são incompreensíveis e 
entendidos quase como um código secreto. Ambos os lados precisam se 
esforçar, pois têm muito a contribuir entre si. 
Não estamos falando necessariamente da falta de conhecimento técnico das 
pessoas não letradas nas ciências jurídicas, mas sim de muitas inconsistências 
terminológicas criadas e/ou perpetuadas por fontes de reprodução de conteúdo 
“não muito científicas”, por assim dizer (sem metodologia aplicada às teorias 
e práticas da área do direito e suas relações com o restante do mundo). 
Sim, o mundo jurídico tem seu próprio vocabulário escrito e falado, criado 
nem sempre à imagem e semelhança da melhor técnica. 
Pior do que não conhecer o vocabulário técnico, algo normal em qualquer 
área, é não conhecê-lo e, por ouvir dizer, passar a acreditar que ele significa 
algo que não tem sentido. 
Não conhecer o vocabulário técnico também se agrava, em tese, com a 
realidade espacial do momento mais globalizado do mundo, com 
possibilidades de trocas intensas, principalmente nas comunicações, que 
incentiva ideias de maior amplitude de aplicação de normas jurídicas; ou com 
traduções menos científicas ainda, potencialmente universais, que acabam 
sofrendo resistência quando aplicadas em determinado território, povo e em 
realidades cultural e economicamente distintas. 
E ainda mais se o desafio for tratar de direitos humanos, que são entendidos 
como aplicáveis a todos os seres humanos. Vamos adentrar agora esse campo 
para conhecermos as divergências terminológicas, teorias e classificações dos 
direitos humanos que impactam as relações cotidianas, seja qual for a sua área 
de atuação profissional ou interesse pessoal. 
Em outras palavras, foi criado um conceito chamado pós-verdade, que pensa 
nossa sociedade. 
 
Segundo esse conceito, passamos a crer menos no exercício racional. Tendo 
em vista a fácil legitimidade de qualquer troca de pensamento nas redes de 
comunicação, passa a ser desnecessária a reflexão científica. 
Assim, se você acredita em algo e busca aquilo que reforça o seu olhar – 
independentemente do grau de absurdo –, isso é suficiente para que a crença 
se torne verdade. Veja um exemplo! 
 
01 
Verdade e exercício racional 
 
 
02 
Pós-verdade e reforço da crença 
 
Direitos humanos ou direitos fundamentais: qual o 
começo e qual o nosso referencial? 
Os direitos humanos normalmente aparecem no mundo ao largo da história 
em momentos sequenciais de grandes tragédias humanas e ou humanitárias. O 
ser humano, sim, ele mesmo que é tão protegido e regulado pelo direito 
protagoniza, não raro, atos e fatos sociais que mancham a linha cronológica de 
sua própria existência. Seja por valores e interesses materiais normalmente 
ligados ao direito de propriedade ou exploração comercial, incluindo 
dominação de povos e territórios, conceitos e ideologias de cunho filosófico 
ou religioso e até mesmo biológicos, a história relata um número exaustivo de 
ações de humanos contra humanos. 
Não são casos de disputas ou rixas individuais por culpa ou dolo dos 
protagonistas da cena em si, mas, sim, batalhas orquestradas e executadas com 
propósitos coletivos, normalmente associados a liderança de um povo, estado 
ou coletivo menor que intenta impor suas ideias a força para os demais; ou 
castiga, quando percebe que não conseguiu seu objetivo primário. 
Aqui estão algumas atrocidades lidadas na sociedade com naturalidade. 
Acompanhe! 
 
Tirania do rei Leopoldo II da Bélgica, na África 
 
Bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki 
 
Holocausto judaico 
 
Massacre de Armênios 
Para evitar lágrimas, queremos apenas que você perceba que fala-se em 
direitos humanos quando os sujeitos percebem o que suas ideias e verdades 
são capazes de fazer com o outro. Negar ou justificar qualquer tipo de 
massacre faz com que você esteja reproduzindo exatamente as ideias que nos 
levaram a tais massacres. Pense nisso! Vamos continuar. 
Comentário 
Podemos conceber algumas ideias do Jusnaturalismo mais clássico que 
assimilava direitos ou ideias de princípios da natureza e do cosmos como 
sendo parte integrante também do ser humano. Com divergências e 
segmentações diversas, os antigos filósofos foram pioneiros em agregar essas 
ideias de direitos e características. Cícero foi um desses filósofos, um dos 
grandes nomes de Roma. Segundo ele, o homem deve seguir a natureza, e 
então perceber como funciona a característica individual de cada grupo. A 
ideia de mudança social, por exemplo, é algo visto com estranheza. Quem 
nasce para ser filósofo será filósofo, e ir contra sua natureza por qualquer 
interesse fará com que seu percurso seja antinatural. O mesmo vale para a 
justiça. 
Estamos aqui falando de um período que se estende de quatro a cinco séculos 
antes de Cristo e que encontra um importante marco temporal de nossa 
contagem histórica com a chegada do conceito de dignidade de cada uma das 
pessoas, baseando-se no judaísmo e na filosofia cristã, sem prejuízo do que a 
força religiosa da Igreja Católica iria proporcionar na Idade Média nos 
séculos seguintes. 
Se olharmos para o período do século X até a chegada ao entorno 
contemporâneo, perceberemos claramente a produção de legislações que 
procuraram proteger melhor os direitos inicialmente individuais (e depois 
coletivos) dos seres humanos. 
(MELLO, 2021) 
Fato é que, partindo do Jusnaturalismo, na poeira dos séculos, a fé, a filosofia 
cristã e o direito travariam intensos debates e batalhas para atuar em direitos 
naturais, dignidade pessoal, liberdades individuais, propriedades e no contato 
e atuação com a população indígena e com os negros como pessoas 
escravizadas. Em outras palavras, ao longo do tempo tivemos uma oscilação 
entre a defesa da dominação do outro, justificada de formas diversas,e a 
obrigação moral de protegê-lo. 
Já imaginou o conflito? Para não irmos muito além, podemos aqui apontar 
duas atuações em especial veja! 
 
Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, Benedito, Calixto, 1927. 
Jesuítas e a atuação da Companhia de Jesus 
A ordem Jesuíta tinha a missão de catequizar e cuidar dos índios, mas foi 
acusada de exploração, escravidão e legitimação da escravidão. 
 
Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravizados. O 
jantar. Passatempos depois do jantar, Jean-Baptiste Debret, 1830. 
Escravidão da população negra e a Lei do Ventre Livre 
O ordenamento jurídico no texto da lei fala em proteção da pessoa humana, 
mas continua permitindo a escravização da população negra como um todo. 
 
Eleanor Roosevelt segurando pôster da Declaração Universal dos direitos 
humanos,1949. 
Após a Segunda Guerra Mundial, foi criada a Declaração Universal dos 
direitos humanos em 1948, um marco universal do tema que ilumina, desde 
então, as reformas legislativas e a busca de um norte referencial para o 
comportamento humano social, ainda que com diferenciados níveis de 
aceitabilidade e aplicabilidade prática. 
Caso queira, leia a declaração na íntegra e a use para acompanhar o material 
daqui em diante. 
Conheça alguns dos documentos mais importantes para a evolução desse 
pensamento. 
1888 
Declarações de León 
1215 
Magna Carta Inglesa 
1628 
Petição de Direitos 
1649 
Habeas Corpus Act 
1659 
Toleration Act 
1689 
Bill of Rights 
1776 
Declaração de Independência dos Estados Unidos da América 
1787 
Constituição dos Estados Unidos da América 
1789 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão 
1791 
Declaração de Direitos 
1864 
Convenção de Genebra 
1888 
Lei Áurea do Brasil 
1919 
Convenção da Liga das Nações 
1948 
Declaração Universal dos direitos humanos 
1963 
Carta Encíclica do Papa João XXIII 
Essa é só uma amostra da variedade geográfica e temporal das declarações 
que podem ser encontradas ao longo da história defendendo interesses que 
passam ao longo dos séculos e são encorpados ou associados a uma ideia 
maior dos direitos humanos. 
Muitos dos documentos mencionados, bem como diversos acontecimentos 
contemporâneos a eles, ocorreram, principalmente, como resposta a tragédias 
ou grandes violações históricas dos direitos das pessoas. Não podemos 
esquecer que nem sempre “todos eram iguais perante a lei”, mesmo nos 
territórios atuais de importantes países e lideranças mundiais. 
Reside aí, talvez, a primeira e maior violação contra o ser humano, que afeta a 
própria ideia de um standard (padrão ou modelo) mínimo refletido em alguns 
países como o Brasil, no Princípio Fundamental da Dignidade da Pessoa 
Humana (CRFB 88, art. 1º, III). 
Não podemos esquecer que antigamente os costumes e tradições 
influenciavam o comportamento humano e os limites da atuação dos poderes, 
em maior medida do que o direito formal dos chamados Estados, uma 
realidade que nem sempre foi a mesma que vemos hoje em dia. 
 
Tradição inventada 
Aliás, o tema dos costumes e tradições é muito bem-tratado na obra A 
Invenção das Tradições (HOBSBAWN, 2012), quando o autor busca explicar 
o conceito de tradição inventada e sua diferenciação dos costumes, sendo mais 
um indicativo da dificuldade de termos, na prática, um rol hermético ou mais 
unificado de direitos humanos universais. 
Nosso hábito de voltar muito no tempo para explicar uma sociedade é uma 
invenção. Os processos que se aportam no passado são de interesse de um 
grupo em afirmar que nós pertencemos a ele. Por isso, no Brasil vivemos com 
a ideia de ter um passado tão europeu. 
Nesse sentido, para além dos exemplos e documentos históricos citados e 
apresentados acima, os direitos humanos no século XX, principalmente desde 
o Pós-Guerra de 1945 até a chegada aos nosso dias, estão consolidados como 
direitos que visam assegurar, no plano internacional e nos respectivos 
sistemas jurídicos nacionais, as condições mínimas para a sobrevivência das 
pessoas. 
 
Como exemplos, podemos citar o direito ao nascimento com vida e criação até 
a idade adulta, à integridade física e moral, além de temas como ir e vir, 
saúde, educação, trabalho, direitos políticos, acesso à justiça e outros temas 
relevantes para uma vida digna. 
Abrangem também as medidas de prevenção e reparação das violações 
ocorridas. Vida digna não tem relação com “finanças”, mas, sim, com acesso e 
com impedir que as pessoas não tenham condições de dignidade humana. 
A memória da guerra e da violência do seu entorno é mais importante e 
trabalha problemas mais próximos do que uma tradição histórica, que serve, 
de fato, para legitimar e naturalizar violências. 
 
Publicação das Consolidação das Leis do Trabalho no Diário Oficial, 1943. 
A própria evolução da legislação e justiça do trabalho no Brasil é um exemplo 
claro de como um documento jurídico interno protege direitos humanos. 
 
 
O maior expoente foi, sem dúvida, a Consolidação das Leis do Trabalho 
(CLT) pelo Decreto nº 5452 de 1º de maio de 1943. 
 
 
Ela reuniu esforços criando uma legislação trabalhista antes espalhada em 
legislações diversas, e as demais legislações trabalhistas são referenciadas e 
aparecem na mesma CLT. 
 
 
A CLT está disponível no site da Casa Civil do Governo Federal. 
Você percebeu que alcançamos o nosso conceito contemporâneo de direitos 
humanos? 
Os direitos humanos na contemporaneidade são direitos que visam assegurar 
os direitos humanos no plano internacional e nos respectivos sistemas 
jurídicos nacionais. Abrangem também as medidas de prevenção e reparação 
das violações ocorridas. 
 
Terminologia dos direitos fundamentais 
Quando discutimos a terminologia dos direitos fundamentais, a sensação é de 
que estamos tratando de coisas muito parecidas até aqui, não é? Então por que 
falarmos ora direitos humanos, ora direitos fundamentais? 
E mais: o que os profissionais atualmente precisam conhecer sobre cada um 
deles em suas respectivas áreas de atuação? Pois todos nós somos afetados em 
nossas atividades pelas proteções jurídicas e sanções possíveis de violações 
dos tais direitos humanos e dos direitos fundamentais. 
 
Recibo de venda da escrava nagô Francisca a Maria Antônia Teixeira, 1848. 
Vejamos agora que nem sempre basta um documento jurídico ter uma 
expressão técnica para garantir ações e resultados esperados. 
 
 
A Constituição Imperial do Brasil, de 1824 ( encontrada na íntegra no site da 
Casa Civil), continha no seu Título 8º, ao final do texto constitucional, uma 
série de artigos destinados aos direitos fundamentais entendidos como 
essenciais à época, incluindo o direito à propriedade, utilizado também para o 
tráfico e escravização de pessoas de origem africana, principalmente nas 
atividades econômicas de então, como bem sabemos. 
Não será difícil você perceber o ponto de conexão entre as duas expressões. 
Partindo, inclusive de um conceito mais jurídico, é possível ver no detalhe 
como a conexão ocorre. 
Os direitos fundamentais são conceituados como direitos subjetivos, assentes 
no direito objetivo, positivados no texto constitucional, ou não, com aplicação 
nas relações das pessoas com o Estado ou na sociedade. 
(MORAES, 2000) 
Repare que, quando conceituamos os direitos fundamentais na 
contemporaneidade, destacamos que os países os regulam nos sistemas 
jurídicos nacionais, isto é, em suas Constituições, Códigos e Leis diversas. E 
quando o fazem, buscam diferenciar ainda mais os direitos humanos (ou parte 
deles) como direitos que estariam acima de outros direitos nacionalmente 
protegidos. É uma maneira de dar maior destaque e normalmente aferir 
medidas de proteção e sanção diferenciadas. É o caso do Brasil, inclusive, 
que traz na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB 
88), em seus arts. 5º a 17, o Título chamado Dos Direitos e Garantias 
Fundamentais. 
 
Ulysses Guimarães segurando uma cópia da Constituição de 1988. 
Ora, já começamos a entender um pouco melhor a terminologia de direitos 
humanos

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