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APG 1 - DMT1 e DMT2 Carla Cristina Backof 5° Período OBJETIVOS 1. Rever a morfofisiologia do pâncreas endócrino. ANATOMIA → O pâncreas é uma glândula acessória da digestão, alongada e retroperitoneal. → Situa-se atrás do estômago, entre o duodeno à direita e o baço à esquerda. O mesocolo transverso está fixado à sua margem anterior. É dividido em quatro partes: cabeça, colo, corpo e cauda. Cabeça: ● É a parte expandida da glândula que é circundada pelo duodeno em forma de C. ● Em seu trajeto para se abrir na parte descendente do duodeno, o ducto colédoco (junção do ducto cístico com o ducto hepático comum) situa-se em um sulco na face posterossuperior da cabeça ou está inserido em sua substância. Colo: ● É curto (1,5 a 2 cm) e está situado sobre os vasos mesentéricos superiores, que deixam um sulco em sua face posterior. ● A face anterior do colo, coberta por peritônio, está situada adjacente ao piloro do estômago. Corpo: ● É o prosseguimento do colo e situa-se à esquerda dos vasos mesentéricos superiores, passando sobre a aorta e a vértebra L II. ● A face anterior do corpo do pâncreas é coberta por peritônio. ● A face posterior do corpo do pâncreas não tem peritônio e está em contato com aorta, AMS, glândula suprarrenal esquerda, rim esquerdo e vasos renais esquerdos. Cauda: ● A cauda do pâncreas situa-se anteriormente ao rim esquerdo, é relativamente móvel e passa entre as camadas do ligamento esplenorrenal junto com os vasos esplênicos. → O ducto pancreático começa na cauda do pâncreas até a cabeça do pâncreas, e tem relação com o ducto colédoco, os dois se unem para formar a ampola hepatopancreática (de Vater) que se abre na parte descendente do duodeno, na papila maior do duodeno. → O ducto pancreático acessório abre-se no duodeno na papila menor do duodeno. Em geral, o ducto pancreático acessório comunica-se com o ducto pancreático. HISTOLOGIA Pâncreas endócrino - Ilhotas de Langerhans ● Micro-órgãos endócrinos localizados no pâncreas, arredondados formadas por nichos de células de coloração menos intensa, incrustados no tecido pancreático exócrino. ● São constituídas de células poligonais, dispostas em cordões em volta dos quais existe uma abundante rede de capilares sanguíneos. ● Há uma fina camada de tecido conjuntivo que envolve a ilhota e a separa do tecido pancreático exócrino. ● Por meio de imunohistoquímica e hibridização in situ, distinguem-se pelo menos cinco tipos de células nas ilhotas: alfa, beta, delta, PP e épsilon. ● As células mais abundantes são as células beta, que sintetizam e secretam insulina, seguidas das células alfa, que produzem glucagon. Os grânulos da célula beta são irregulares, enquanto os da célula alfa são arredondados e uniformes. 1 Fonte: Histologia Básica - Junqueira. A: uma ilhota de Langerhans cercada por ácinos serosos do pâncreas exócrino. B: Na Ilhota de Langerhans, utilizando a coloração de tricrômico de Gomori, é possível distinguir células alfa (A), coradas em rosa, e células beta (B), coradas em azul. Pâncreas exócrino ● É uma glândula tubuloacinosa composta. ● Cerca de 40 a 50 células acinosas formam um ácino arredondado ou oval, cujo lúmen é ocupado por três ou quatro células centroacinosas, que representam o início do sistema de ductos do pâncreas. ● Cada célula acinosa tem a forma de uma pirâmide truncada, com sua base posicionada na lâmina basal que separa as células acinosas do tecido conjuntivo. As células acinosas produzem, armazenam e liberam grande número de enzimas: amilase pancreática; lipase pancreática; esterase de colesterol pancreático; ribonuclease (RNase); desoxirribonuclease (DNase); elastase; e as proenzimas tripsinogênio, quimotripsinogênio e procarboxipolipeptidase. FISIOLOGIA Síntese de Insulina → é um hormônio peptídico, é sintetizada nas cels beta no pâncreas pelo mecanismo normal de síntese proteica: ● 1° é traduzido o RNA da insulina pelos ribossomos do RER para formar a pré-insulina; ● A pré-insulina é clivada no RE para formar a proinsulina, que consiste em 3 cadeias peptídicas A, B e C; ● Assim, a maior parte da proinsulina é clivada no complexo de Golgi para formar a insulina, que é composta pelas cadeias A e B, conectadas por ligações dissulfeto, e o peptídio da cadeia C, chamado de peptídio conector (peptídio C); ● A insulina e o peptídio C são revestidos nos grânulos secretores e secretados. → Quando a insulina é secretada na corrente sanguínea, ela circula quase inteiramente em sua forma livre, sua meia-vida é de em média 6 minutos, é removida da circulação dentro de 10 a 15 minutos. → Exceto pela porção da insulina que se liga a receptores nas células-alvo, o restante é degradado pela enzima insulinase, principalmente no fígado, em menor quantidade nos rins e músculos. Mecanismo De Ação Da Insulina ● A insulina se liga a um receptor proteico ligado a enzima de membrana, o qual é composto por 4 subunidades: duas subunidades alfa, ao lado externo da membrana e duas subunidades beta, que penetram através da membrana para o citoplasma celular; 2 ● A insulina se liga às subunidades alfa mas, por causa das ligações com as subunidades beta, as porções das subunidades beta se tornam autofosforiladas; ● A autofosforilação das subunidades beta ativa uma tirosinoquinase local, que, por sua vez, causa a fosforilação de diversas outras enzimas intracelulares, Inclusive do grupo chamado de substratos do receptor de insulina (IRS). ● O efeito global é a ativação de algumas dessas enzimas e, ao mesmo tempo, a inativação de outras. Dessa forma, a insulina direciona a maquinaria metabólica intracelular para produzir os efeitos desejados no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas. → Aumenta a captação de glicose. Acredita-se que o aumento no transporte da glicose resulte da translocação de múltiplas vesículas intracelulares para as membranas celulares, as quais contêm proteínas transportadoras de glicose, que se ligam à membrana celular e facilitam a captação de glicose nas células. Quando a insulina não está mais disponível, essas vesículas se separam da membrana celular dentro, e retornam para o interior da célula para serem utilizadas novamente; Mecanismos De Secreção Da Insulina → Aumento da concentração de glicose no sangue é o controlador primário da secreção de insulina. ● As céls. beta contém transportadores de glicose que permitem o influxo de glicose na faixa fisiológica. ● Dentro das células, a glicose é fosforilada pela glicoquinase em glicose-6-fosfato. ● A glicose-6-fosfato é oxidada e forma ATP. ● O ATP fecha canais de potássio inibidos por ATP e a membrana é despolarizada. ● Assim, canais de cálcio dependentes de voltagem se abrem e produz um influxo de cálcio. ● Esse influxo de Ca++ estimula a fusão das vesículas contendo insulina com a membrana celular e a secreção da insulina no LEC por exocitose. → Efeitos da insulina ● No metabolismo dos carboidratos, aumenta a captação de glicose principalmente no músculo (via GLUT-4) e no fígado, onde seu efeito mais importante é o armazenamento da glicose como glicogênio, além de inibir a gliconeogênese e favorecer a conversão do excesso de glicose em ácidos graxos. ● O cérebro utiliza glicose independentemente da insulina. ● No metabolismo das gorduras, a insulina estimula a síntese e o armazenamento de triglicerídeos, ativa a lipase lipoproteica, inibe a lipólise (lipase hormônio-sensível) e 3 reduz a liberação de ácidos graxos para o sangue. Sua deficiência leva ao aumento da lipólise, uso de gorduras como principal fonte energética e à cetose. ● No metabolismo das proteínas, a insulina estimula a captação de aminoácidos, a síntese proteica e inibe o catabolismo, especialmente no músculo; sua ausência provoca depleção proteica e aumento de aminoácidos plasmáticos. 2. Entender a classificação, epidemiologia, etiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnósticoníveis baixos de colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL), hiperglicemia e hipertensão. (Medicina Interna) - O diagnóstico da síndrome metabólica é estabelecido a partir do atendimento aos critérios listados na tabela abaixo. (Medicina Interna). Medicina Interna - Elucidando a tabela: o diagnóstico de síndrome metabólica é realizado quando o paciente apresenta pelo menos três de cinco critérios clínicos e laboratoriais: aumento da circunferência abdominal, hipertrigliceridemia, redução do HDL, elevação da pressão arterial e aumento da glicemia de jejum. A principal diferença entre os critérios antigos (ESQUERDA) e os mais atuais (DIREITA) está nos valores de circunferência abdominal, que passaram a ser ajustados conforme a etnia, enquanto os demais parâmetros permanecem semelhantes. 27 Referências II, Arthur F D.; AGUR, Anne M R. Moore Anatomia Orientada Para a Clínica. 9th ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2024. E-book. p.496. ISBN 9788527740128. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788527740128/. Acesso em: 01 mai. 2026. JUNQUEIRA, Luiz Carlos U.; CARNEIRO, José. Histologia Básica: Texto e Atlas. 14th ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023. E-book. p.438. ISBN 9788527739283. 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Classificação do diabetes – Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes – Ed. 2025 Dados Epidemiológicos SBD_comT1Dindex_2024.pptx Diabetes (diabetes mellitus) — Ministério da Saúde 28 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788527740128/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788527740128/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788527739283/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788527739283/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788595158696/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788595158696/ https://doi.org/10.29327/5412848.2024-1 https://doi.org/10.29327/5660187.2025-14 https://diretriz.diabetes.org.br/classificacao-do-diabetes/#ftoc-recomendacoes https://diabetes.org.br/wp-content/uploads/2024/09/Dados-Epidemiologicos-SBD_comT1Dindex_2024.pdf https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/diabetes 1.Predisposição genética e fator desencadeante 2.Ativação da resposta imune e autoimunidade 3.Insulite e destruição das células beta 4.Perda progressiva da função das células beta 5.Transição para diabetes clínico 6.Fase de “lua de mel” 7.Deficiência absoluta de insulinae tratamento da diabetes mellitus tipo 1 e 2. CLASSIFICAÇÃO A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda a classificação baseada na etiopatogenia do diabetes, que compreende o diabetes tipo 1 (DM1), o diabetes tipo 2 (DM2), o diabetes gestacional (DMG) e os outros tipos de diabetes (Quadro). → O DM2 é o tipo mais comum, associado à obesidade e ao envelhecimento. ● Tem início insidioso e é caracterizado por resistência à insulina e deficiência parcial de secreção de insulina pelas células ß pancreáticas. → O DM1 é causado por destruição das células ß, geralmente autoimune, o que leva a uma deficiência grave da secreção de insulina. O DM1 pode ser diagnosticado em qualquer idade. Sociedade Brasileira de Diabetes. Goldman. 4 → DIABETES GESTACIONAL - Ocorre temporariamente durante a gravidez. As taxas de açúcar no sangue ficam acima do normal, mas ainda abaixo do valor para ser classificada como diabetes tipo 2. (Min. da Saúde) - Diabetes que aparece pela primeira vez na gravidez e que normalmente regride depois do parto é denominado diabetes gestacional. - Fatores de risco: sobrepeso ou obesidade, idade avançada (> 30 anos) e uma história familiar de DM2. A maioria desenvolverá DM2 permanente durante a vida. - As alterações hormonais (aumentos do lactogênio placentário, estrogênio, progesterona) induzem resistência à insulina durante a gravidez e podem revelar defeitos latentes das células β em mulheres com predisposição. - Os lactentes de mães com diabetes melito correm o risco de vários desfechos adversos, (macrossomia, nascimento pré-termo, hipoglicemia neonatal e hiperbilirrubinemia). - Atualmente, recomenda-se um rastreamento de rotina com teste de tolerância à glicose oral em todas as mulheres grávidas com 24 a 28 semanas de gestação. - Critérios: concentração de glic. em jejum de 92 mg/dℓ ou mais; concentração de glicose de 180 mg/dℓ ou mais em 1 hora ou 153 mg/dℓ ou mais 2 horas após uma carga de glicose oral de 75 g. - Recomenda-se a terapia nutricional, com ênfase no consumo moderado de carboidratos e necessidade de evitar ganho de peso excessivo. Se a modificação da dieta não for adequada para manter a euglicemia, a insulina tem sido considerada, historicamente, como tratamento farmacológico de primeira linha para o diabetes gestacional. Medicamentos antidiabéticos orais, gliburida e metformina, estão sendo cada vez mais utilizados no tratamento, embora a sua segurança a longo prazo não tenha sido estabelecida e não tenham sido aprovados para essa indicação pela Food and Drug Administration dos EUA. - Após o parto, as mulheres com diabetes gestacional devem continuar sendo observadas quanto ao desenvolvimento de DM2. (Goldman) EPIDEMIOLOGIA - A prevalência mundial do DM aumentou drasticamente no decorrer das últimas duas décadas, de um número estimado de 30 milhões de casos em 1985 para 463 milhões em 2019. - A incidência do diabetes tipo 1 está aumentando em uma taxa de 3% ao ano no mundo inteiro, com claras diferenças geográficas. A causa desse aumento não está bem definida, porém o DM tipo 1 está sendo cada vez mais diagnosticado em idades mais jovens. - Ambos os sexos são igualmente afetados na infância, porém os homens são mais comumente afetados no início da vida adulta. - A incidência do diabetes tipo 1 na infância está aumentando rapidamente em todas as populações, em particular na faixa etária de menos de 5 anos, com um tempo de duplicação de menos de 20 anos na Europa. - A incidência crescente do diabetes tipo 1 sugere importante contribuição ambiental, porém o papel dos fatores patogênicos específicos permanece, em grande parte, incerto. A distinção entre diabetes tipo 1 e tipo 2 pode tornar-se indefinida posteriormente durante a vida, de modo que a verdadeira incidência cumulativa do distúrbio é desconhecida. (Goldman) - O diabetes tipo 2 é uma das doenças crônicas mais comuns, que afeta mais de 30 milhões de pessoas nos EUA e um número estimado de 366 milhões no mundo inteiro. - Embora o diabetes tipo 2 seja cada vez mais reconhecido em adolescentes e adultos jovens obesos, a idade avançada continua sendo um importante fator de risco. ● Mais de um quarto dos adultos a partir de 65 anos apresenta diabetes, e outros 50% têm níveis de glicose e de HbA1c na faixa alterada ou pré-diabética. - Em geral, os homens e as mulheres apresentam prevalência aproximadamente igual de diabetes tipo 2. (Goldman) 5 - De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, existem atualmente, no Brasil, mais de 13 milhões de pessoas vivendo com a doença (total), o que representa 6,9% da população nacional. Cerca de 90% dos pacientes diabéticos no Brasil têm o tipo 2. (Min. da Saúde) DM TIPO 1 ETIOLOGIA - O DM tipo 1 resulta de interações de fatores genéticos, ambientais e imunológicos que acabam acarretando a destruição das células beta pancreáticas, assim como uma deficiência de insulina. - A maioria, mas não todos, dos indivíduos tem evidência de reação autoimune dirigida às ilhotas, que é detectada pela presença de autoanticorpos contra antígenos de células beta no sangue. A presença de dois ou mais autoanticorpos é agora designada como DM tipo 1 estágio 1. - Nos indivíduos suscetíveis, acredita-se que o processo autoimune seja desencadeado por um estímulo infeccioso ou ambiental. Autoanticorpos contra antígenos de células beta aparecem depois desse evento desencadeante, seguidos de perda progressiva da secreção de insulina. - As características do diabetes só se tornam evidentes após ser alcançado um limiar de perda de secreção de insulina e de massa de células beta. - Após a manifestação clínica inicial do DM tipo 1, pode seguir-se uma fase de “lua de mel”, durante a qual o controle glicêmico é conseguido com doses moderadas de insulina ou, raramente, a insulina não é necessária. Entretanto, essa fase transitória de produção endógena de insulina pelas células beta residuais desaparece, e o indivíduo torna-se deficiente em insulina. - A suscetibilidade ao DM tipo 1 envolve múltiplos genes. ● A concordância do DM tipo 1 em gêmeos idênticos varia entre 30 e 70%, indicando que fatores modificadores adicionais provavelmente participam para determinar se o diabetes irá se instalar. - O principal gene de suscetibilidade ao DM tipo 1 fica localizado na região HLA (human leukocyte antigen) no cromossomo 6. ● Os polimorfismos no complexo HLA são responsáveis por aproximadamente 50% do risco genético para o surgimento de DM tipo 1. ● Muitos indivíduos com DM tipo 1 possuem o haplótipo HLA DR3 e/ou DR4. ● Além das associações do MHC classe II, estudos de associação ampla do genoma identificaram mais de 60 loci genéticos adicionais, que contribuem para a suscetibilidade ao DM tipo 1 (i.e., polimorfismos na região promotora do gene da insulina, gene CTLA-4, receptor de interleucina 2 e PTPN22 etc.). - Embora o risco de desenvolver DM tipo 1 seja maior em parentes de indivíduos com a doença, o risco é relativamente baixo: 1 a 9% se o genitor tiver DM tipo 1 e 6 a 7% em um irmão (dependendo dos haplótipos HLA compartilhados). Assim, a maioria dos indivíduos com DM tipo 1 (> 90%) não tem um familiar com esse transtorno. (Medicina Interna) - Fatores ambientais: Foram propostos inúmeros eventos ambientais como desencadeantes do processo autoimune em indivíduos geneticamente suscetíveis; contudo, nenhum deles foi associado de maneira conclusiva ao diabetes. A identificação de um desencadeante ambiental tem sido difícil, pois o evento pode preceder o início do DM em vários anos. Os supostos fatores ambientais desencadeantes incluem vírus (Coxsackie, rubéola, enterovírus de modo mais proeminente), proteínas do leite de vaca, compostos de nitrosureia, deficiência de vitamina D e toxinas ambientais. Há um interesse crescente no microbioma e diabetes tipo 1. (Medicina Interna) 6 https://www.diabetes.org.br/ Modelotemporal para o desenvolvimento do diabetes tipo 1. Os indivíduos com predisposição genética são expostos a um fator desencadeante que inicia um processo autoimune, resultando no desenvolvimento de autoanticorpos contra as ilhotas pancreáticas e declínio gradual na massa e função das células beta. A doença no estágio 1 caracteriza-se pelo desenvolvimento de dois ou mais autoanticorpos contra as células das ilhotas, porém com manutenção da normoglicemia. A doença no estágio 2 é definida por autoimunidade continuada e desenvolvimento de disglicemia. O estágio 3 é definido pelo desenvolvimento de hiperglicemia que excede os critérios diagnósticos para o diagnóstico de diabetes. A inclinação descendente da massa de células beta varia entre indivíduos e pode não ser contínua. Pode-se observar uma fase de “lua de mel” nos primeiros 1 ou 2 anos após o início do diabetes, que está associada a uma redução das necessidades de insulina. (Medicina Interna) FISIOPATOLOGIA - Patologicamente, as ilhotas pancreáticas apresentam uma infiltração modesta de linfócitos (insulite); no entanto, a frequência de insulite é heterogênea tanto dentro como entre os indivíduos. - Estudos do processo autoimune identificaram as seguintes anormalidades nas divisões inatas e adaptativas do sistema imunológico: (1) autoanticorpos contra as células das ilhotas (ICAs); (2) linfócitos ativados nas ilhotas e nos linfonodos peripancreáticos; (3) linfócitos T que proliferam quando estimulados por proteínas das ilhotas; e (4) liberação de citocinas dentro da insulite. ● Os ICAs são uma combinação de diferentes anticorpos dirigidos contra moléculas das ilhotas pancreáticas, como GAD, insulina, IA-2/ICA-512 e ZnT-8, e funcionam como marcadores do processo autoimune do DM tipo 1. ● Embora os ICAs possam ser detectados no soro e sua presença seja um importante biomarcador de risco de diabetes tipo 1, os anticorpos não têm um papel direto na morte das células beta. - A destruição de células beta se dá por citotoxicidade direta, mediada por células T CD8+. As células beta podem exacerbar esse processo por meio do desenvolvimento de proteínas modificadas ou “neoantígenos” e pelo aumento da apresentação desses antígenos na superfície celular por meio da regulação positiva das moléculas do MHC classe I. 7 - Além disso, as células beta podem ser danificadas pelos efeitos tóxicos das citocinas (ou seja, TNF-α, gamainterferon e interleucina 1), bem como espécies reativas de oxigênio geradas pela infiltração de células imunes. - Os esforços para suprimir o processo autoimune por ocasião do diagnóstico de diabetes têm sido, em grande parte, ineficazes ou apenas temporariamente efetivos para diminuir a velocidade de destruição das células beta. Por esse motivo, dá-se maior ênfase atualmente às intervenções mais precoces na evolução da doença (i.e., durante os estágios 1 e 2 da doença. - Embora outros tipos de células das ilhotas (células alfa [produtoras de glucagon], células delta [produtoras de somatostatina] ou células PP [produtoras do polipeptídeo pancreático]) sejam funcional e embriologicamente semelhantes às células beta, são poupadas da destruição autoimune. Entretanto, padrões alterados de secreção hormonal por esses outros tipos de células no DM tipo 1 provavelmente contribuem para a instabilidade metabólica. A disfunção das células alfa é refletida por hiperglucagonemia em jejum e pós-prandial, mas resposta prejudicada do glucagon à hipoglicemia. (Medicina Interna) ➔ CASCATA FISIOPATOLÓGICA 1. Predisposição genética e fator desencadeante O diabetes mellitus tipo 1 inicia-se em indivíduos geneticamente suscetíveis (sistema HLA classe II), que favorecem respostas imunes anormais. Entretanto, também há um gatilho ambiental, como infecções virais, que desencadeia a ativação do sistema imunológico contra as células beta pancreáticas. 2. Ativação da resposta imune e autoimunidade Após o estímulo inicial, ocorre ativação da imunidade inata e adaptativa, com apresentação de antígenos das células beta às células T. Desenvolve-se então um processo de autoimunidade, marcado pela presença de autoanticorpos (anti-GAD, anti-insulina, IA-2, ZnT8). Paralelamente, há ativação de linfócitos T, principalmente os T CD8+, que são os principais responsáveis pela lesão celular. 3. Insulite e destruição das células beta Insulite, caracterizada por infiltração linfocitária nas ilhotas pancreáticas. Há liberação de citocinas inflamatórias (TNF-α, IL-1, IFN-γ) e espécies reativas de oxigênio, que promovem dano celular. A destruição das células beta ocorre tanto por citotoxicidade direta mediada por linfócitos T quanto por mecanismos inflamatórios. As próprias células beta podem intensificar o processo ao expressar neoantígenos e aumentar a apresentação antigênica. 4. Perda progressiva da função das células beta Ocorre redução gradual da massa e da função das células beta, levando à diminuição progressiva da secreção de insulina. Essa fase pode durar anos e é geralmente assintomática, com presença de autoanticorpos e, em fases mais avançadas, alterações discretas da glicemia (disglicemia). 5. Transição para diabetes clínico Quando a perda de células beta atinge um limiar crítico, a produção de insulina torna-se insuficiente para manter a glicemia normal. Surge então a hiperglicemia clínica, marcando o diagnóstico do diabetes tipo 1. Esse momento pode ser precipitado por situações de maior demanda de insulina, como infecções ou puberdade. 6. Fase de “lua de mel” Após o início do tratamento, pode ocorrer uma fase transitória chamada “lua de mel”, na qual ainda existe produção residual de insulina pelas células beta remanescentes, permitindo melhor controle glicêmico com menores doses de insulina. Essa fase é temporária. 7. Deficiência absoluta de insulina Com a progressão da destruição autoimune, ocorre perda quase completa das células beta, resultando em deficiência absoluta de insulina e necessidade permanente de insulinoterapia. 8 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - Foi claramente estabelecido que o diabetes tipo 1 apresenta uma longa fase pré-clínica. Por ocasião do diagnóstico clínico, cerca de 10 a 20% da massa original de células β podem ainda ser funcionais. - Na maioria dos casos, a hiperglicemia manifesta (e a cetose, se estiver presente) pode ser precipitada por uma doença clínica não relacionada ou por estresse imposto a uma reserva das ilhotas já limitada, desencadeando, assim, as manifestações clínicas diagnósticas. - Normalmente, a hiperglicemia sintomática, manifestada por poliúria, polidipsia, perda de peso e fadiga, ocorre de maneira abrupta na criança ou no adulto jovem saudáveis nos demais aspectos. - Em minoria dos pacientes, a apresentação inicial pode consistir em cetoacidose diabética (CAD), que pode ocorrer se houver atraso no reconhecimento dos sintomas do diabetes. ● Caracterizada por náuseas, vômitos, dor abdominal, desidratação, respiração de Kussmaul (profunda e rápida) e hálito cetônico, podendo evoluir para alteração do nível de consciência se não tratada. - A maior incidência de DM tipo 1 no inverno, antes atribuída a infecções virais, também pode estar relacionada ao aumento de hormônios contrarreguladores, que favorecem hiperglicemia em indivíduos com função β já reduzida. Da mesma forma, o aparecimento na puberdade se associa à maior resistência à insulina causada por hormônios sexuais e do crescimento. DIAGNÓSTICO - O DM é diagnosticado com base em um de vários critérios, incluindo concentração plasmática de glicose em jejum, concentração plasmática de glicose após a administração de uma carga de glicose padrão oral de 75 g (teste de tolerância à glicose oral) e porcentagem da hemoglobina glicada (HbA1c). (Goldman-Cecil e SBD) *Pelo que eu pesquisei, os valores diagnósticos são os mesmos pra ambos os tipos; o que diferencia é a clínica, a idade do diagnóstico e alguns exames auxiliares, como dosagemde autoanticorpos (rara – será citada após os critérios clínicos). - GLICEMIA DE JEJUM: A glicemia de jejum é realizada por meio da coleta de sangue venoso após um período de jejum de pelo menos 8 horas, sendo permitido apenas o consumo de água. - Esse exame avalia a concentração basal de glicose no plasma, sem influência recente da ingestão alimentar, refletindo a capacidade do organismo de manter níveis glicêmicos adequados em condições de repouso metabólico. - TTOG: O teste oral de tolerância à glicose é realizado após jejum de 8 horas, com coleta inicial de sangue para glicemia, seguida da ingestão de uma solução contendo 75 g de glicose. - Após a ingestão, o paciente permanece em repouso e uma nova coleta é feita após 2 horas, permitindo avaliar a capacidade do organismo de metabolizar uma carga glicêmica e identificar alterações na tolerância à glicose. *O TTOG de 1h é a coleta intermediária, entre a coleta de jejum e a coleta de 2h. - HbA1c: A hemoglobina glicada é dosada por meio de uma coleta de sangue venoso, sem necessidade de jejum, e expressa a porcentagem de hemoglobina ligada à glicose. - Esse exame reflete a média dos níveis glicêmicos nos últimos 2 a 3 meses, uma vez que a glicação ocorre de forma progressiva ao longo da vida das hemácias, sendo útil para avaliação do controle glicêmico crônico. - Os testes laboratoriais para o diagnóstico de DM devem ser feitos em todos os indivíduos com sintomatologia sugestiva de diabetes, e em indivíduos assintomáticos com risco aumentado de desenvolver essa condição. (SBD) - Ao realizar testes para diagnóstico de DM, também podem ser identificadas pessoas com hiperglicemia leve, que não preenchem critérios para DM. De acordo com a International 9 Diabetes Federation (IDF), esses casos constituem a “hiperglicemia intermediária”, composta pela “glicemia de jejum alterada”, nos casos em que a disglicemia leve ocorre em jejum e pela “intolerância à glicose”, na situação em que há hiperglicemia leve após TTGO, sem preencher critérios para DM. ● A American Diabetes Association (ADA) e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) utilizam a nomenclatura “pré-diabetes” para estes indivíduos, embora nem todos os indivíduos desse grupo evoluam para DM. (SBD) Sociedade Brasileira de Diabetes – Diagnóstico da DM - Se apenas um exame estiver alterado, este deverá ser repetido para confirmação. (SBD) - O DM pode ser diagnosticado quando há hiperglicemia inequívoca (concentração plasmática de glicose casual > 200 mg/dℓ) e manifestações típicas de hiperglicemia, como poliúria (produção excessiva de urina), polidipsia (sede excessiva) e perda de peso. (SBD e Goldman-Cecil) ➔ Especificamente, sobre a DM 1: (Goldman-Cecil) - Raramente, efetua-se a medição dos anticorpos antiácido glutâmico descarboxilase, porém a determinação da etiologia do tipo 1 é, em geral, realizada em bases clínicas. ● Após o início da terapia com insulina e a estabilização dos níveis plasmáticos de glicose, o paciente pode passar por um período de várias semanas a meses de hiperglicemia relativamente fácil de controlar. - Essa denominada fase de “lua de mel” do diabetes tipo 1 resulta da melhora do estresse subjacente, na existência de uma função das células β que ainda não declinou totalmente, e reflete a destruição grave, porém não total, das células β, com secreção contínua (porém reduzida) de insulina. ● Subsequentemente, o declínio contínuo e progressivo da produção de insulina geralmente leva a níveis indetectáveis depois de alguns anos. ● Entretanto, com a disponibilidade de ensaios altamente sensíveis para o peptídio C, foram detectados baixos níveis de produção de insulina em alguns pacientes com diabetes tipo 1 de longa duração, que demonstram um controle glicêmico mais estável. * O peptídeo C é um fragmento produzido quando a pró-insulina é clivada para formar insulina ativa. Ou seja, quando o pâncreas produz insulina, ele libera insulina + peptídeo C em quantidades equivalentes. Por isso, é um marcador indireto da produção endógena de insulina à na DM1 ele está baixo ou indetectável por conta da não produção de insulina. ● Em pacientes com início de diabetes tipo 1 na idade adulta, a apresentação clínica pode seguir uma evolução mais indolente (o denominado diabetes autoimune latente em adultos), talvez devido ao declínio da massa de células β em um ritmo mais lento. Com 10 efeito, o diabetes tipo 1 pode ser diagnosticado de modo incorreto como tipo 2 em muitos desses pacientes até que a progressão da deficiência de insulina revele o fenótipo de dependência completa e permanente de insulina. (Goldman-Cecil) TRATAMENTO TRATAMENTO FARMACOLÓGICO (principal) - Ao diagnóstico do DM1, os indivíduos apresentam insulinopenia e, portanto, encontram-se altamente propensos a evoluírem para a cetoacidose diabética (CAD), uma condição potencialmente grave, caracterizada por aumento de corpos cetônicos, acidose metabólica, hiperglicemia e distúrbios hidroeletrolíticos que resultam da diminuição acentuada da insulinemia e do subsequente aumento de substâncias contrarreguladoras, como catecolaminas, glucagon, cortisol e hormônio do crescimento. *Muito basicamente, a cetoacidose acontece pois a insulina é um “poupador de gordura” (quando ela está disponível, potencializa a utilização de glicose e inibe a lipólise). Na sua ausência, o corpo reduz a captação de glicose pelos tecidos periféricos como fonte energética e se obriga a quebrar gordura para suprir essa função à com a intensa lipólise, há liberação de ácidos graxos livres, que são convertidos no fígado em corpos cetônicos. O acúmulo dessas cetonas, que são ácidas, leva à acidificação do sangue, caracterizando a cetoacidose. (SBD) ● A chave para o sucesso do tratamento do diabetes tipo 1 consiste em efetuar uma reposição fisiológica de insulina, ou seja, reproduzir a relação normal e estritamente regulada entre a glicose plasmática e a secreção de insulina. O controle bem-sucedido da glicose exige um compromisso substancial por parte do paciente e do profissional de saúde. (Goldman-Cecil) - A insulinoterapia em esquema intensivo, seja por MDI ou SICI, constitui a terapêutica fundamental desde as fases iniciais da doença, em todas as idades. ● A estratégia de eleição é a terapia basal-bolus, que deve ser instituída precocemente, com múltiplas aplicações diárias de insulina (múltiplas doses de insulina – MDI) ou com a bomba de infusão de insulina (sistema de infusão contínua de insulina – SICI). (SBD) - A reposição de insulina em pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 deve ser feita de forma a imitar a secreção fisiológica do organismo. *Em pessoas sem diabetes, o pâncreas libera insulina BASAL (pequenas quantidades, mesmo em jejum, para controlar a glicose entre refeições e durante a noite) e PRANDIAL (pico de insulina quando a pessoa come, para controlar o aumento da glicose após a comida). ● Em geral, considera-se que cerca de 50% da necessidade diária corresponde ao componente basal, responsável por manter níveis glicêmicos estáveis ao longo do dia e da noite, enquanto os outros 50% correspondem ao componente prandial, liberado em resposta às refeições. - Para isso, utilizam-se insulinas basais para o controle contínuo e insulinas prandiais, preferencialmente análogos de ação rápida ou ultrarrápida, administradas antes das refeições. (SBD) - A aplicação pode ser feita por meio de MDI ou SICI. (SBD) - A dose total diária de insulina é geralmente estimada com base no peso corporal, variando entre 0,4 e 1,0 U/kg/dia, podendo ser maior em situações como puberdade, gestação ou infecções. ● O componente prandial costuma ser dividido em três ou quatro aplicações ao longo do dia, realizadas antes das principais refeições. ● O tempo de aplicação varia conforme o tipo de insulina utilizada: cerca de 30 minutos antes da refeição para a insulina regular, aproximadamente 20 minutos antes para os 11análogos de ação rápida e imediatamente antes da refeição para os análogos ultrarrápidos. (SBD) RELAÇÃO ENTRE MODO DE APLICAÇÃO E BASAL X PRANDIAL: - No esquema de múltiplas doses diárias, ambos (basal e prandial) são administrados por meio de injeções subcutâneas, sendo o componente basal aplicado uma ou duas vezes ao dia e o prandial dividido em três ou quatro aplicações antes das refeições. Já no sistema de infusão contínua de insulina (bomba), o componente basal é fornecido automaticamente de forma contínua ao longo das 24 horas, sem necessidade de aplicações repetidas, enquanto o componente prandial continua sendo necessário, mas é administrado na forma de bolus programados na bomba antes das refeições, sem novas punções. - Dessa forma, a principal diferença entre os métodos está na forma de administração da insulina. Formulações de insulina disponíveis no Brasil - SBD - Dentro do manual de insulinoterapia da SBD, são apontadas recomendações; entre elas: ● Todos os pacientes devem receber insulina imediatamente após o diagnóstico, de modo que imite a liberação fisiológica à esquema basal-bolus (basal e prandial), visando reduzir o risco de hipoglicemia. ● Os análogos de insulina de ação longa DEVEM SER CONSIDERADOS para insulinização basal, por apresentarem menor variabilidade glicêmica e menor incidência de hipoglicemia noturna, em comparação com a insulina NPH. 12 ● Os análogos de ação ultralonga PODEM SER CONSIDERADOS para insulinização basal de pessoas com risco aumentado para hipoglicemia, por estarem associados à menor incidência de hipoglicemia e à maior flexibilidade. ● É RECOMENDADO o sistema de infusão subcutânea contínua de insulina como opção terapêutica efetiva para a obtenção de controle glicêmico adequado, quando este não for possível ser obtido com a terapia de múltiplas aplicações de insulina. - Basicamente, as recomendações funcionam em “hierarquia”: algumas são mandatórias, como o uso de insulinoterapia intensiva com esquema basal-bolus em pacientes com DM1, enquanto outras, como a escolha do tipo de insulina ou do método de administração, são individualizadas conforme o contexto clínico. TRATAMENTO COM DIETA E ESTILO DE VIDA (Goldman-Cecil) - No diabetes tipo 1, o foco do planejamento dietético concentra-se na estimativa acurada do conteúdo de carboidratos da refeição, de modo a possibilitar a dosagem adequada da insulina prandial. - Isso pode ser obtido por meio da promoção da “consistência de carboidratos” de refeição para refeição e uso de uma dose de insulina pré-refeição relativamente fixa. ● Uma conduta mais flexível consiste em o paciente aprender a “contagem de carboidratos”, que especifica uma dose de insulina por quantidade de carboidratos na refeição. ● Com qualquer uma dessas abordagens, os pacientes precisam monitorar o teor de nutrientes de suas refeições. - Evitar doces concentrados e outras refeições ricas em carboidratos, incluindo aquelas com elevado “índice glicêmico”, tende a facilitar a dosagem acurada da insulina e a minimizar as variações glicêmicas pós-prandiais. Diferentemente do diabetes tipo 2, a maioria dos pacientes com diabetes tipo 1 não apresenta sobrepeso nem obesidade, e a restrição calórica não é necessária nem útil. Diversos padrões de alimentação são considerados aceitáveis, e as recomendações para uma dieta “saudável para o coração” (baixo teor de gorduras saturadas e colesterol) são as mesmas que aquelas para a população em geral. AUTOMONITORAMENTO DA GLICOSE (Goldman-Cecil) - O controle do Diabetes Mellitus tipo 1 depende de monitorização frequente da glicemia, realizada várias vezes ao dia, geralmente antes das refeições e ao deitar. ● Isso permite ajustar a insulina prandial, corrigir hiperglicemias e identificar episódios de hipoglicemia. Além dos glicosímetros tradicionais, que armazenam dados para análise, há o monitoramento contínuo da glicose (CGM), que mede a glicose intersticial em tempo real, identifica padrões glicêmicos e pode emitir alertas. Essa tecnologia tem mostrado melhorar o controle glicêmico e reduzir o risco de hipoglicemia, podendo inclusive ser integrada a bombas de insulina. - Além disso, pacientes devem avaliar cetonas urinárias (com tiras reagentes) quando houver hiperglicemia persistente ou sintomas sugestivos de cetoacidose. Pequenas quantidades não são preocupantes, mas níveis moderados a altos indicam risco de cetoacidose diabética e exigem atendimento médico imediato. TRANSPLANTE DE PÂNCREAS TOTAL E DE CÉLULAS DAS ILHOTAS (Goldman-Cecil) - O transplante de pâncreas e de células das ilhotas é uma estratégia que busca uma possível “cura” do Diabetes Mellitus tipo 1 por meio da reposição de células produtoras de insulina. ● O transplante de pâncreas total já é realizado há décadas, com boa sobrevida do enxerto, porém é um procedimento complexo e exige imunossupressão por toda a 13 vida, sendo geralmente indicado para pacientes que também necessitam de transplante renal ou apresentam complicações graves do diabetes. Já o transplante de células das ilhotas apresenta vantagens potenciais por ser menos invasivo, mas ainda é considerado experimental, também requer imunossupressão e é realizado principalmente em contexto de pesquisa. DM TIPO 2 ETIOLOGIA - O diabetes tipo 2 caracteriza-se por defeitos variáveis na secreção e na ação da insulina. - O fenótipo metabólico subjacente é distintamente heterogêneo entre indivíduos com a doença; alguns exibem um defeito mais pronunciado na secreção de insulina, enquanto outros têm maior resistência à ação da insulina. ● Apesar de ser heterogêneo, o diabetes tipo 2 caracteriza-se, em todos os casos, pela secreção inadequada de insulina para o nível de glicose prevalecente e o grau de sensibilidade à insulina. - A deficiência relativa de insulina, que é característica do diabetes tipo 2, parece ser uma consequência de fatores tanto funcionais (i. e., redução da responsividade aos secretagogos) quanto quantitativos (i. e., redução da massa de células β). ● Estima-se que pessoas com DM2 possam perder até 60% das células β, mas isso sozinho não explica o problema, já que pessoas saudáveis conseguem manter a glicemia normal mesmo após perder parte do pâncreas. O principal defeito é funcional: as células β não reconhecem bem a glicose, falhando em liberar insulina quando o açúcar do sangue aumenta, embora ainda respondam a outros estímulos, como certos aminoácidos. ● Além disso, a secreção de insulina ocorre de forma desorganizada, com alteração do ritmo normal de liberação, e a insulina é produzida de maneira ineficiente, levando ao aumento da liberação de proinsulina, que indica maior risco de diabetes. Também há acúmulo de amiloide nas ilhotas pancreáticas, o que prejudica ainda mais a função das células β. - Por fim, os defeitos das células β no DM2 são causados por vários fatores, incluindo genética, exposição prolongada à glicose alta (glicotoxicidade) e aos lipídios (lipotoxicidade), e pioram com o tempo à medida que a doença evolui. - A resistência aos efeitos metabólicos da insulina também constitui uma característica, embora variável, do diabetes tipo 2. A hiperinsulinemia, que se acredita ser uma resposta compensatória à ação comprometida da insulina, pode ser demonstrada em pacientes com pré-diabetes e em muitos pacientes com diabetes tipo 2 estabelecido, particularmente no início de seu curso. ● A resistência à insulina está estreitamente associada à obesidade, mas também possui determinantes genéticos. ● Com frequência, a resistência à insulina ocorre como parte de um conjunto de características, denominado síndrome metabólica, que consiste em hipertensão, obesidade abdominal, dislipidemia, intolerância à glicose e aumento do risco cardiovascular. - Existem múltiplos mecanismos moleculares que podem levar à resistência à ação fisiológica da insulina, incluindo defeitos pré-receptores (p. ex., moléculade insulina anormal) e receptores de insulina anormais (p. ex., devido a mutações gênicas). - As formas comuns de resistência à insulina que ocorrem em associação ao diabetes tipo 2 resultam, em geral, de defeitos pós-receptores, isto é, de anormalidades na sinalização intracelular. 14 ● Nos tecidos-alvo da insulina, a sinalização por meio da via da fosfatidilinositol 3-quinase é responsável pela translocação do transportador de glicose GLUT4, que é necessário para a captação de glicose no interior da célula. Foram descritos vários defeitos dessa via, incluindo anormalidades no substrato do receptor de insulina 1 e na proteinoquinase B/Akt2. (Goldman) - O diabetes tipo 2 tem uma forte influência genética. A chance de duas pessoas geneticamente iguais (gêmeos idênticos) terem a doença é alta, entre 70% e 90%. Pessoas com pai ou mãe diabéticos têm maior risco, e esse risco pode chegar a cerca de 70% quando ambos os pais têm DM2. - Apesar disso, o DM2 não depende só da genética. Ele é uma doença poligênica e multifatorial, ou seja, envolve muitos genes e também fatores ambientais, como obesidade, alimentação e nível de atividade física. O ambiente compartilhado na família e até o ambiente durante a gestação influenciam o risco: tanto baixo quanto alto peso ao nascer aumentam a chance de DM2 no futuro, assim como a exposição à hiperglicemia na gestação. - Vários genes já foram associados ao DM2, cada um contribuindo com um pequeno aumento de risco. ● Um dos mais importantes é o gene relacionado ao fator de transcrição TCF7L2, além de outros genes ligados à função das células β e à secreção de insulina. ● No entanto, ainda se conhece apenas uma pequena parte do risco genético total, e atualmente não é possível prever com segurança quem desenvolverá diabetes tipo 2 apenas com testes genéticos. (Harrison) - O sobrepeso ou a obesidade aumenta de maneira substancial o risco de DM2 e,, é responsável pelo acentuado aumento da prevalência de diabetes nas últimas décadas. ● único preditor clínico mais importante do DM2, particularmente em indivíduos jovens ou de meia-idade. - A relação entre o IMC e o DM2 é linear, e pode-se observar um aumento do risco até mesmo na faixa de IMC definida como normal (o que resulta em hiperglicemia de jejum e menor armazenamento de glicogênio pelo fígado no estado pós-prandial. Mesmo com níveis elevados de insulina no sangue (hiperinsulinemia), o fígado não responde adequadamente a esse hormônio. Obs.: A insulina inibe a gliconeogênese, mas devido à resistência hepática, essa inibição não ocorre. Como consequência, o fígado continua produzindo glicose mesmo em jejum, levando à hiperglicemia de jejum. Após as refeições (estado pós-prandial), a insulina deveria estimular o fígado a armazenar glicose na forma de glicogênio. Porém, pela resistência à insulina, esse armazenamento é reduzido, contribuindo para níveis elevados de glicose no sangue após a alimentação. ● A maior produção hepática de glicose ocorre no início da evolução do diabetes, após o início das anormalidades secretoras de insulina e glucagon e da resistência à insulina no músculo esquelético. ● No tecido adiposo, a lipólise e o fluxo de ácidos graxos livres a partir dos adipócitos aumentam e são eliminados de maneira eficiente pelo fígado, levando a um aumento na síntese de lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL)-triglicerídeos nos hepatócitos e secreção hepática. ● Isso também é responsável pela dislipidemia (triglicerídeos elevados, HDL reduzida e maior número de pequenas partículas densas de LDL). Se esse lipídeo for retido, a esteatose hepática pode levar à doença hepática gordurosa não alcoólica e a provas anormais de função hepática. (Medicina Interna) MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - DIABETES TIPO 2 TÍPICO - Sintomas clássicos de hiperglicemia: poliúria, polidipsia e perda de peso, quando o limiar renal para reabsorção de glicose (cerca de 180 mg/dℓ) é ultrapassado, e ocorre glicosúria com diurese osmótica. - Os pacientes podem apresentar concentração plasmática de glicose elevada, porém abaixo desse limiar, durante anos ou até mesmo décadas antes do aparecimento de sintomas específicos. - Muitos pacientes são diagnosticados com diabetes durante um rastreamento de rotina ou durante uma investigação de outro distúrbio (normalmente DCV). - A apresentação inicial em alguns pacientes pode consistir em hiperglicemia descompensada grave, com desidratação profunda, desequilíbrio eletrolítico e níveis plasmáticos de glicose de 400 mg/dℓ ou mais, sendo os exemplos mais notáveis o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) e a CAD. ● Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH): ocorre principalmente no diabetes tipo 2, caracterizado por glicemias extremamente elevadas, desidratação intensa e aumento da osmolaridade plasmática, geralmente sem cetose significativa. ● Cetoacidose Diabética (CAD): mais comum no diabetes tipo 1, mas possível no tipo 2, caracterizada por deficiência de insulina suficiente para levar à produção de corpos cetônicos, resultando em acidose metabólica, além da hiperglicemia. - Uma característica do DMT2 é que os defeitos metabólicos tendem a se agravar com o tempo. 17 ● Um paciente no início do curso pode manter um controle da glicose com uma modificação dietética e perda de peso modesta. Para muitos pacientes, essas medidas isoladas falham com o passar do tempo, e tornam-se necessárias combinações de medicações orais e, com frequência, insulinoterapia para controlar os níveis de glicemia. - Embora a característica clínica que define o diabetes tipo 2 seja a hiperglicemia, são, na realidade, as complicações vasculares da doença que causam maiores morbidade e mortalidade. Em minoria de pacientes, a apresentação clínica inicial do diabetes pode consistir na presença de complicações microvasculares diabéticas (retinopatia, neuropatia, nefropatia), que habitualmente indicam muitos anos de hiperglicemia não reconhecida. - O aspecto mais típico é o início insidioso de complicações microvasculares sintomáticas depois de muitos anos de diabetes, particularmente se for inadequadamente controlado. - DIABETES ATÍPICO - A CAD pode constituir a apresentação clínica inicial em minoria de pacientes com DM2, que subsequentemente recuperam a função das células β e não necessitam de tratamento com insulina. - Tipicamente, esses pacientes carecem de marcadores de autoimunidade das células β e apresentam uma forte história familiar de DM2. - Quando o episódio inicial de CAD é tratado e ocorre estabilização dos níveis de glicose, os pacientes podem ter remissões quase normoglicêmicas de muitos anos de duração. ● A patogenia dessa forma ainda não foi esclarecida, porém foi proposta predisposição singular das células β à dessensibilização da glicose (“toxicidade de glicose”). DIAGNÓSTICO - Os critérios e valores laboratoriais são os mesmos para a DM1 e DM2 e já foram elucidados na DM1. Aqui, serão citadas as recomendações relacionadas a DM2 presentes no manual diagnóstico da SBD. ● Quando indicada a realização de TTGO, É RECOMENDADO o uso de TTGO-1h para diagnóstico de DM2 e detecção de pré-diabetes, por ser superior e mais prático do que o TTGO-2h. - No TTGO-1h, É RECOMENDADO utilizar, como ponto de corte para diagnóstico de DM2, a glicemia maior ou igual a 209 mg/dl; e, para detecção de pré-diabetes, glicemia maior ou igual a 155 mg/dl. ● Em adultos com pré-diabetes, definido previamente por glicemia de jejum e HbA1c, É RECOMENDADO a realização adicional do TTGO-1h para diagnóstico de casos de DM2 não anteriormente detectados (se maior ou igual a 209 mg/dl) ou para predizer risco futuro de DM2 (se maior ou igual a 155 mg/dl e menor do que 209 mg/dl). *Um adendo sobre as recomendações da SBD: são divididas em classes, que indicam a força da recomendação, e níveis de evidência, que refletem a qualidade dos estudos que a sustentam. Quando um tratamento é descrito como “é RECOMENDADO”, trata-se de uma recomendação forte (classe I), devendo ser adotado na maioria dos pacientes, independentemente do nível de evidência. Já quando fala em CONSIDERADO, indicam recomendações de menor força (classes IIa e IIb), nas quais a decisão deve ser individualizada conforme as características do paciente. RASTREAMENTO - É RECOMENDADO o rastreamento de DM2 para todos os indivíduos com idade maior ou igual a 35 anos e para adultos com sobrepeso ou obesidade, que tenham pelo menos um fator de risco adicional para DM2, e ou que apresentem FINDRISC alto ou muito alto. (SBD) 18 Fatores de risco – SBD Questionário FINDRISC – SBD - É RECOMENDADO utilizar a glicemia de jejum e/ou a HbA1c como primeiros testes de rastreamento de DM2. A escolha deve ser baseada na disponibilidade local para realização da dosagem de HbA1c. 19 - No rastreamento do DM2, se houver glicemia de jejum menor a 100 mg/dl e HbA1c menor que 5,7% em pessoas com 3 ou mais fatores de risco ou FINDRISC alto/muito alto, É RECOMENDADO realizar o TTGO-1h para complementar a investigação de DM e pré-diabetes. - Frequência de rastreamento da DM2: SBD - É RECOMENDADO que pacientes que irão iniciar medicações com potencial efeito hiperglicemiante, como glicocorticoides ou antipsicóticos, sejam rastreados para DM antes e após o início do tratamento. - É RECOMENDADO realizar triagem de DM2 em crianças e adolescentes a partir de 10 anos de idade ou após o início da puberdade, quando houver sobrepeso/obesidade e pelo menos um fator de risco adicional para DM2. SBD TRATAMENTO - O tratamento do diabetes tipo 2 (DM2) evoluiu de uma visão focada no controle da glicemia para uma abordagem ampla, abrangendo proteção cardiorrenal, controle da obesidade e intensificação oportuna do controle glicêmico, buscando reduzir complicações a longo prazo. (SBD) ● Grandes ensaios clínicos randomizados mostram a eficácia da redução sustentada da hemoglobina glicada (HbA1c) para abaixo de 7% em desfechos microvasculares, como retinopatia, doença renal e neuropatia. - Estudos indicam que cada 1% de redução na HbA1c leva a uma redução de risco de 14% de infarto agudo do miocárdio (IAM) e de 12% em acidentes vasculares cerebraisfatais e não fatais (AVC). 20 ● Outro ponto importante para o tratamento do DM2 é o foco no controle do peso corporal. A obesidade está associada a piores desfechos relacionados ao diabetes, à piora do controle glicêmico e à maior mortalidade. ABORDAGEM INICIAL - É RECOMENDADO que todos os adultos com DM2 sejam avaliados quanto ao seu risco cardiovascular, índice de massa corporal, HbA1c e função renal antes de definir a estratégia de uso dos agentes antidiabéticos. - Abordagens não farmacológicas, como a intervenção nutricional com foco no controle do peso, dieta saudável, atividade física, diminuição do tempo sentado, melhora da duração do 21 sono, cessação do tabagismo, controle do estresse e utilização do CGM (monitoração contínua da glicemia) (quando disponível) SÃO RECOMENDADAS em todas as categorias de risco, durante todo o tratamento do DM2, para melhora do controle glicêmico. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO - Dispõe-se de várias categorias de fármacos que reduzem as concentrações de glicose para pacientes com DM2; os fármacos disponíveis no brasil são: (SBD) METFORMINA (classe das biguanidas) - MECANISMO DE AÇÃO: A metformina é a única biguanida comercializada atualmente. - Uma explicação completa do mecanismo de ação das biguanidas continua sendo investigada, porém seu principal efeito consiste em reduzir a gliconeogênese hepática. (Farmacologia Básica) Além de inibir a gliconeogênese, aumenta a sensibilidade periférica à insulina, especialmente em músculo e tecido adiposo, favorecendo a captação de glicose pelas células. Seu efeito está relacionado, em grande parte, à ativação da AMPK, que promove um estado metabólico de economia energética. A metformina também diminui discretamente a absorção intestinal de glicose e, de modo geral, não estimula a secreção de insulina, o que explica seu baixo risco de causar hipoglicemia. - EFEITOS ADVERSOS: As reações adversas mais comuns da metformina são gastrintestinais (anorexia, náusea, vômitos, desconforto abdominal e diarreia) e ocorrem em até 20% dos pacientes. Estão relacionadas com a dose, tendem a ocorrer no início da terapia e, com frequência, são transitórias. A metformina interfere na absorção do complexo vitamina B12-fator intrínseco no íleo terminal de modo dependente de cálcio. Portanto, pode ocorrer deficiência de vitamina B12 depois de muitos anos de uso do fármaco. (Farmaco Básica) INIBIDORES DO SGLT2 (dapaglifozina, empaglifozina) - MECANISMO DE AÇÃO: A glicose é filtrada pelos glomérulos renais de forma livre, e sofre reabsorção nos túbulos proximais pela ação de transportadores de sódio-glicose (SGLTs, do inglês sodium-glucose transporters). O transportador de sódio-glicose 2 (SGLT2) é responsável por 90% da reabsorção de glicose, e a sua inibição provoca glicosúria, além de reduzir as concentrações de glicose em pacientes com DM2. (Farmaco Básica) - EFEITOS ADVERSOS: As principais reações adversas consistem em aumento da incidência de infecções micóticas genitais e infecções do trato urinário, que afetam cerca de 8 a 9% dos pacientes. Houve também relatos de casos de pielonefrite e de septicemia que exigiram hospitalização. (Farmaco Básica) ANÁLOGOS DO GLP-1 (semaglutida oral e injetável, liraglutida) - MECANISMO DE AÇÃO: mimetizam a ação desse hormônio incretínico (finge ser o hormônio), ligando-se aos seus receptores e potencializando seus efeitos fisiológicos. Eles estimulam a secreção de insulina pelas células beta de forma dependente da glicose, reduzem a liberação de glucagon pelas células alfa, retardam o esvaziamento gástrico e aumentam a sensação de saciedade. Como resultado, promovem redução da glicemia — especialmente pós-prandial — além de contribuírem para perda de peso, com baixo risco de hipoglicemia, já que sua ação depende dos níveis de glicose circulante. ** Os hormônios incretínicos são substâncias produzidas pelo intestino e liberadas após a ingestão de alimentos, que têm como principal função aumentar a secreção de insulina de forma dependente da glicose. Os principais são o GLP-1 e o GIP, que atuam estimulando a liberação de insulina, reduzindo a secreção de glucagon e contribuindo para o controle da glicemia, especialmente após as refeições, com baixo risco de hipoglicemia. - EFEITOS ADVERSOS: As reações adversas mais frequentes dos agonistas do receptor de GLP-1 consistem em náusea (11-40%%), vômitos (4-13%) e diarreia (9-17%). As reações são mais frequentes com doses mais elevadas. Todos os agonistas do receptor de GLP-1 podem 22 aumentar o risco de pancreatite. Os pacientes em uso desses fármacos devem ser aconselhados a procurar assistência médica imediata se tiverem dor abdominal intensa, persistente e inexplicável. (Farmaco Básica) CO-AGONISTAS DO RECEPTOR GLP-1/GIP (tirzepatida) à não sei como, mas o livro sequer cita essa classe. - MECANISMO DE AÇÃO: atuam estimulando simultaneamente os receptores do GLP-1 e do GIP, dois hormônios incretínicos. Com isso, promovem aumento da secreção de insulina de forma dependente da glicose, redução da liberação de glucagon, retardamento do esvaziamento gástrico e aumento da saciedade. Além disso, o efeito combinado potencializa a melhora da sensibilidade à insulina e contribui para maior redução da glicemia e do peso corporal em comparação aos agonistas isolados de GLP-1. - EFEITOS ADVERSOS: Seus efeitos adversos são predominantemente gastrointestinais, como náuseas, vômitos e diarreia, podendo ocorrer também risco de colelitíase, pancreatite e hipoglicemia, especialmente quando associados a outras terapias hipoglicemiantes. **FÁRMACOS QUE ESTIMULAM LIBERAÇÃO DE INSULINA (GLP-1 e GLP-1 + GIP) X RESISTÊNCIA NA DM2: Embora o diabetes tipo 2 envolva resistência à insulina, há também uma deficiência relativa na sua secreção, de modo que o aumento da liberação de insulina contribui para o controle glicêmico. Além disso, esses fármacos reduzem a secreção de glucagon, retardam o esvaziamento gástrico e promovem perda de peso, o que ajuda indiretamente a melhorar a sensibilidade à insulina e o controle global da glicemia. PIOGLITAZONA (classe das tiazolidinedionas) - MECANISMO DE AÇÃO: A pioglitazona atua como agonista do receptor nuclear PPAR-γ, presente principalmente no tecido adiposo, músculo e fígado, modulando a expressão de genes envolvidos no metabolismo da glicose e dos lipídios. Com isso, promove aumento da sensibilidade à insulina, por meio do aumento da expressão dos transportadores de glicose (GLUT1 e GLUT4), redução dos ácidos graxos livres e diminuição da produção hepática de glicose. Além disso, aumenta a adiponectina e reduz substâncias inflamatórias e hormônios relacionados à resistência insulínica, como a resistina, contribuindo para melhora global da ação da insulina nos tecidos periféricos. (Farmaco Básica) - A pioglitazona diminui as concentrações de triglicerídeos e aumenta o colesterol HDL, sem afetar o colesterol total e o colesterol LDL. (Farmaco Básica) - EFEITOS ADVERSOS: essa classe (não especificamente o fármaco citado) pode causar retenção hídrica (3–4% em monoterapia e até 10–15% quando associada à insulina), podendo evoluir para insuficiência cardíaca, sendo contraindicada em pacientes com IC classe III–IV da NYHA. Também pode provocar ganho de peso (por retenção de líquidos e aumento de gordura), anemia por hemodiluição, redução da densidade mineral óssea com aumento do risco de fraturas (especialmente em mulheres) e, mais raramente, edema macular reversível após suspensão. Há ainda controvérsia quanto ao risco de câncer de bexiga, com estudos apresentando resultados divergentes. SULFONILUREIAS (Gliclazida, glimepirida) - MECANISMO DE AÇÃO: A principal ação das sulfonilureias consiste em aumentar a liberação de insulina do pâncreas. Elas ligam-se a um receptor de sulfonilureia de alta afinidade de 140 kDa que está associado a um canal de potássio sensível ao ATP, retificador interno da célula β.A ligação da sulfonilureia inibe o efluxo de íons potássio pelo canal, com consequente despolarização. Isto resulta na abertura de canais de cálcio regulados por voltagem, resultando em influxo de cálcio e liberação de insulina pré-formada. (Farmaco Básica) - As mais usadas são as de SEGUNDA GERAÇÃO (100-200x mais potentes que as de primeira geração), exemplos são a gliclazida e glimepirida. 23 - EFEITOS ADVERSOS: A hipoglicemia e o ganho de peso constituem os efeitos adversos mais comuns das sulfonilureias. (Farmaco Básica) INIBIDORES DA DPP-IV (Sitagliptina, vildagliptina) - MECANISMO DE AÇÃO: atuam bloqueando a enzima responsável por degradar as incretinas, especialmente o GLP-1 e o GIP. Com isso, aumentam e prolongam a ação dessas incretinas, que estimulam a secreção de insulina pelas células beta de forma dependente da glicose e inibem a liberação de glucagon pelas células alfa. O resultado é a redução da glicemia, principalmente no período pós-prandial, com baixo risco de hipoglicemia, já que o efeito ocorre apenas quando os níveis de glicose estão elevados. - EFEITOS ADVERSOS: A principal reação adversa dos inibidores da DPP-4 parece ser uma predisposição à nasofaringite ou à infecção das vias respiratórias superiores. (Farmaco Básica) - Os agentes são classificados em AD, AD1 e TBI (a metformina não entra nessa classificação, pois é a base do tratamento à começa a tratar com ela; se não funcionar ou houver contraindicação, vai adequando de acordo com a classificação) ● AD1: Fármacos com comprovado benefício cardiorrenal: Inibidores do SGLT2 e Agonistas do GLP-1 (prioridade maior) ● AD: Fármacos redutores de glicemia com segurança cardiovascular comprovada: Gliclazida e Glimepirida (sulfonilureias), Pioglitazona e Inibidores da DPP-4 ● TBI: Terapia baseada em insulina: Insulinoterapia basal, Insulinoterapia rápida, Coformulação de insulina basal/GLP-1. (SBD) - A escolha desses agentes deve ser individualizada, considerando aspectos como a estratificação de risco cardiovascular (CV), o IMC, a HbA1c e a taxa de filtração glomerular. Adicionalmente, devem ser considerados aspectos como eficácia, risco de hipoglicemia, tolerabilidade, custo, potenciais efeitos adversos e a preferência do paciente. SBD TRATAMENTO INICIAL (A partir daqui tudo da SBD) RISCO BAIXO OU INTERMEDIÁRIO SEM SOBREPESO OU OBESIDADE COM HbA1c