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Ciclo celular, mitose e meiose A formação de uma nova célula somente é possível a partir de outra célula. Esse princípio da biologia foi descrito pela primeira vez no século 19, sendo denominado de doutrina celular. Esse entendimento foi fundamental para nossa compreensão da evolução e da formação e diferenciação de organismos: células surgem de células. Uma complexa sequência ordenada de eventos é necessária para a duplicação dos conteúdos celulares e sua divisão, o que se denomina ciclo celular. Em organismos unicelulares, divisões celulares produzem novos organismos. Entretanto, nos pluricelulares, cadeias de células organizadas integram as diversas estruturas que realizam as diferentes funções em um organismo. Isso permite o crescimento e diferenciação dos organismos, bem como sua manutenção, com a substituição gradativa de células mortas. Deste modo, podemos descrever a função fundamental do ciclo celular como a transmissão das informações genéticas completas e íntegras para a próxima geração de células. Para tanto, deve haver crescimento (aumento da massa e do volume), duplicação de organelas e macromoléculas e uma cópia perfeita de cada cromossomo, com sua conseguinte segregação. Esta cadeia de eventos é coordenada por proteínas quinases, que surgiram ainda nas leveduras e têm sido conservadas até os mamíferos e aves, regulando, corrigindo e conferindo a duplicação do DNA, e por diversos fatores de crescimento, que controlam a proliferação celular e a diferenciação das estruturas. De modo simplificado, o ciclo celular consiste em duas etapas: intérfase (crescimento celular, replicação do DNA e distribuição dos cromossomos duplicados às células filhas) e mitose (divisão celular). As células crescem progressivamente ao longo da intérfase, duplicando seu tamanho entre uma e outra mitoses. Para isso, entretanto, é necessário também duplicar o conteúdo cromossômico da célula. A intérfase inicia-se com a fase gap 1 (G1), que ocorre após a mitose e se estende até o início da fase S, com duração média de 11 h. Nesta etapa, a célula apresenta intensa atividade metabólica, crescendo e produzindo grande quantidade de proteínas, organelas e precursores da síntese do DNA (nucleosídeos), sendo sensível às condições extracelulares e coordenada por sinais extracelulares. Na ausência desses sinais, a célula entra em parada (G0), como ocorre em células altamente especializadas, incapazes de realizar mitose, como as musculares e nervosas. Ao final da fase G1, há um ponto de verificação (checkpoint) denominado ponto de restrição (G1/S), no qual é avaliado se a célula apresenta tamanho adequado e quantidades suficientes de proteínas e precursores de DNA para seguir para a divisão. Em seguida, se inicia a fase de síntese (fase S), com duração média de 8 h, na qual o conteúdo de DNA será duplicado, modificando temporariamente a ploidia da célula de 2n para 4n, de modo que ao final do ciclo celular ambas as células-filhas apresentem a mesma configuração cromossômica. Esse processo é catalisado pela DNA polimerase, enzima responsável pela síntese do DNA. Após a duplicação, ou replicação, do DNA, há outro checkpoint (S/G2), no qual todo o conjunto cromossômico é conferido por mecanismos de reparo que evitam a presença e a transmissão de mutações espontâneas ocorridas no processo. Caso a célula não consiga reparar o local alterado, a célula entra em morte celular programa (apoptose), impedindo a propagação do conteúdo modificado ou de instabilidades genômicas para outras gerações de células. Diversas proteínas atuam na proteção do DNA nesta etapa, como a p53. Mutações no gene da p53 podem resultar na ausência o mau funcionamento desta proteína, o que está associado a alguns tipos de câncer em humanos. Nesta etapa também ocorre a produção de proteínas histonas, que permitem a estabilização do DNA condensado em cromatina. Finalizando a intérfase, na fase gap 2 (G2) ocorre a preparação para a mitose, na qual são produzidas proteínas não-histonas que se associarão temporariamente aos cromossomos durante a divisão celular, além do acúmulo do fator promotor da maturação (MPF), que desencadeia a mitose. O MPF é responsável, dentre outras coisas, por induzir a condensação dos cromossomos, dissolver a membrana nuclear e reorganizar o citoesqueleto para a montagem dos fusos mitóticos, em associação aos centríolos. Uma vez iniciada a fase G2, seu término conduz diretamente à divisão celular, pois não há checkpoint nesta transição. Então, a célula inicia a mitose por um estágio chamado de prófase, no qual as duas moléculas de DNA são desembaraçadas e posteriormente condensadas em forma de bastonetes, denominados cromátides-irmãs, que se mantem unidos por uma região central, o centrômero. Em seguida, ocorre gradativamente a dissolução do envelope nuclear, isso permite que os pares de cromátides-irmãs se liguem ao fuso mitótico, um conjunto de microtúbulos que orientam o material genético para a região central e posteriormente auxilia na segregação das cromátides-irmãs. Uma vez que estas estejam fixadas ao polos opostos do fuso, para os quais migraram os centríolos, nos quais ancoram-se os fusos, ocorre o alinhamento dos cromossomos formando uma estrutura na região equatorial da célula, denominada placa metafásica, caracterizando o estágio de metáfase. Então, a coesão das cromátides-irmãs é desfeita, sendo este o início do estágio da anáfase, no qual as cromátides-irmãs são separadas e puxadas para polos opostos do fuso. Em seguida, o fuso se desfaz e os cromossomos segregados são empacotados em núcleos separados no estágio de telófase. Por fim, ocorre a citocinese que cliva a célula em duas. Assim, cada célula-filha herda um dos dois núcleos, parte do citoplasma e as organelas, formando células completas em intérfase, reiniciando o ciclo. Entretanto, a mitose apenas explica a formação de células somáticas. Na formação de células gaméticas, outro evento de divisão celular ocorre, a meiose. Através deste processo, células haploides, com finalidade exclusivamente reprodutiva (gametas), são formadas a partir de células diploides. Isso implica na redução do número de cromossomos pela metade, por segregação das cromátides-irmãs de cada cromossomo, utilizando basicamente o mesmo ferramental molecular que opera a mitose. Porém, diferente do que ocorre na mitose, na formação de gametas ocorrem dois ciclos sucessivos de segregação dos cromossomos, cujas etapas são também similares à mitose. No primeiro (meiose I), porém, há uma condição exclusiva da meiose na segregação dos cromossomos homólogos. Durante a fase de paquíteno, na prófase da meiose I, um fenômeno genético de recombinação ocorre: o crossing over. Neste momento, os cromossomos homólogos, duplicados na intérfase que precedeu a meiose, estão completamente alinhados. Devido a afinidade química entre esses segmentos de material genético, rupturas e religações acontecem, permitindo um processo de troca de partes entre as cromátides-irmãs ou entre os cromossomos homólogos. Isso implica em um intenso processo de recombinação que aumenta enormemente a variabilidade na produção dos gametas, pois pode levar a perda ou ganho de sequências nucleotídicas, troca de genes ativos por outras versões, eventualmente não funcionais ou que expressam fenótipos distintos. Caso ocorra crossing over, esses segmentos permanecem quimicamente ligados, produzindo estruturas temporariamente presentes denominadas quiasmas, que são visíveis ao microscópio. Nesse sentido, a presença de quiasmas indica ter havido troca de material genético. Então, os pares de cromossomos homólogos, constituídos de suas cromátides- irmãs unidas pelo centrômero, alinham-se no fuso meiótico. Em seguida, na anáfase I da primeira meiose, os homólogos duplicados são separados e segregados em dois núcleos- filhos, dando origem a duascélulas diploides que entram em divisão novamente, agora, porém, sem haver replicação do DNA. Este ciclo é denominado de segunda meiose (meiose II), na qual as cromátides-irmãs são separadas e segregadas, de modo semelhante ao que ocorre na mitose, formando núcleos-filhos haploides distintos. Ao fim do processo, então, uma célula diploide precursora, após a meiose completa, origina quatro células haploides, com conteúdo de mais ou menos recombinado a partir da herança cromossômica materna e paterna herdada pelo indivíduo. O estudo do ciclo celular e das possibilidades de divisão celular facilitam o entendimento dos processos de manutenção e da biologia do desenvolvimento dos organismos, assim como dos processos que promovem a diversidade genética e suportam a reprodução sexual, característica de diversas espécies do planeta. Compreender bem essas etapas permite, ainda, a criação e a aplicação de diversas biotecnologias que atuam nessa maquinaria bioquímica para produzir efeitos extremamente específicos, seja no campo, na indústria, na área de saúde ou mesmo em aplicações destinadas à pesquisa.