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Legislação de proteção animal Você vai estudar conceitos e saberes sobre a bioética no uso de animais em ensino e pesquisa, animais de companhia e produção, leis de proteção animal, direitos dos animais no ordenamento jurídico e os órgãos de controle e proteção animal. Profa. Renata Batista da Silva 1. Itens iniciais Apresentação Neste conteúdo, você vai conhecer os princípios e práticas bioéticas para o uso de animais em ensino e pesquisa, assim como para animais de companhia e produção, em conformidade com a declaração universal dos direitos dos animais e atualidades jurídicas sobre o tema, e alinhados com o funcionamento dos diferentes órgãos de proteção e bem-estar animal. Objetivos Identificar os princípios éticos e legais da experimentação animal aplicados aos animais de companhia e produção. Reconhecer o histórico e as atualidades sobre os direitos dos animais. Identificar os órgãos de controle e proteção do bem-estar animal. Introdução A legislação de proteção animal no Brasil e no mundo tem evoluído para garantir o bem-estar e a segurança das diversas espécies. Tais leis refletem uma mudança de perspectiva, reconhecendo os animais como seres sencientes, isto é, capazes de sentir dor e sofrimento. Neste conteúdo, conheceremos os princípios éticos e legais envolvidos nos experimentos com animais para ensino e pesquisa. Veremos como a bioética é atribuída aos animais de companhia e produção. Estudaremos a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, o seu histórico e as atualizações jurídicas sobre o tema. Por fim, conheceremos as organizações de controle e proteção do bem-estar animal, como as comissões de ética, o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e a Comissão de Ética no Uso de Animai (Ceua), as organizações não governamentais (ONGs) e os órgãos de proteção animal. • • • 1. Princípios éticos e legais na experimentação e no uso de animais Uso de animais para ensino e pesquisa ao longo da história Para entendermos o valor atribuído à vida animal no passar dos séculos, veremos a percepção e experiência de grandes nomes da filosofia e ciência acerca do assunto. O uso das siglas AEC (antes da Era Comum) e EC (Era Comum) tem como objetivo uma escrita inclusiva, sem distinção de crença ou cultura. São equivalentes aos termos antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). Hipócrates O emprego de animais em experimentação é reportado desde o século V AEC, nos estudos desenvolvidos pelo pai da Medicina, Hipócrates, que utilizava órgãos de animais doentes para compará-los aos de humanos, com a finalidade de demonstrar, de forma didática, suas semelhanças. Alcmeon, Herophilus e Erasistratus O filósofo Alcméon (500 AEC) e os anatomistas Herophilus (330-250 AEC) e Erasistratus (305-240 AEC) praticavam a vivissecção (utilização de animal vivo com propósito de estudo ou pesquisa) para observar estruturas orgânicas e elaborar hipóteses sobre o funcionamento dessas estruturas. Aristóteles O filósofo Aristóteles (384-322 AEC) promovia vivissecções a fim de pesquisar semelhanças e diferenças entre as estruturas animais e humanas, para verificar seu funcionamento. Aristóteles tinha por base o pensamento de que os animais existiam para servir aos humanos, pois, graças à sua irracionalidade, não possuíam direitos. Dissecação de rato para estudo de anatomia. Claudio Galeno O médico e filósofo Claudio Galeno (129-217 AEC), conhecido como pai da vivissecção, utilizou diferentes espécies animais para fins experimentais, com o intuito de compreender não só a anatomia, mas também como se dava a fisiologia nas diferentes espécies, além das ocorrências patológicas. Galeno testava variáveis ao provocar alterações nos animais e, por isso, é considerado responsável pelo estabelecimento das ciências médicas experimentais. René Descartes No século XVII, René Descartes defendia que os animais não apresentavam dor, fome ou calor, igualando-os à condição de seres autômatos, em que fenômenos involuntários, como respiração e fluxo sanguíneo, estariam atribuídos ao funcionamento do corpo. Descartes acreditava que, diferente do homem, os animais seriam desprovidos de alma. As pesquisas que utilizam animais passaram de um formato investigativo e descritivo para predominantemente experimental, a partir do século XVI. Nessa época, muitas descobertas científicas promoveram o avanço na atenção à saúde humana e animal. Os experimentos desenvolvidos com animais passaram de um aspecto investigativo para invasivo, sem que a questão moral do uso de animais fosse debatida. Há muitos séculos, animais vêm sendo utilizados em pesquisas para o conhecimento da fisiologia animal e humana. Atualmente, de forma rotineira, animais são utilizados para fins educacionais e experimentais. No ensino, a finalidade é ilustrar de forma prática conhecimentos adquiridos nas áreas de fisiologia, anatomia, estudos comportamentais, entre outros. Na pesquisa, são explorados os mecanismos de doença e cura de diversas enfermidades e a busca por novos medicamentos para tratamento e prevenção de doenças. Os animais utilizados em ensino e pesquisa são denominados da seguinte forma, confira. Convencionais As espécies convencionais são aquelas mais comumente utilizadas, pela facilidade de manejo, criação, manutenção e por apresentarem similaridade filogenética com o homem. São elas: Camundongos (Mus musculus domesticus). Ratos (Rattus norvegicus). Cobaias ou porquinhos-da-índia (Cavia porcellus). Coelhos (Oryctolagus cunicullus). Hamsters sírios (Mesocricetus auratus). Filogenética: relações entre diferentes grupos de organismos, as quais podem ser determinadas por estudos moleculares, morfológicos e genéticos das espécies envolvidas. Não convencionais As espécies não convencionais são as menos utilizadas e, normalmente, são usadas somente em pesquisas, por apresentarem um organismo mais complexo. Sua utilização deve ser amplamente justificada e somente é aceita quando não existir, para o estudo proposto, possibilidade de utilização de uma espécie convencional. As mais comuns são: Cão (Canis familiaris). Macaco Rhesus (Macaca mulatta). Macacos são menos utilizados em pesquisas. Geralmente, são usados para estudos específicos de tratamento e imunização contra certas doenças. Você sabia que camundongos são a espécie mais utilizada em pesquisa no mundo? Isso acontece por serem fáceis de criar e manter, além de sua similaridade genética com o homem. No ensino, como a utilização de animais é realizada para demonstração prática de procedimentos já conhecidos, o uso de animais é bem menor do que aquele utilizado em pesquisas, que buscam compreender fenômenos e adquirir novos conhecimentos. Dependendo do propósito do estudo, seleciona-se a espécie mais adequada, ou modelo animal ideal, capaz de fornecer resultados confiáveis e reprodutíveis. As técnicas de engenharia genética permitiram a obtenção de modelos geneticamente modificados para expressarem genes que os tornam propensos a manifestar certas doenças, como a diabetes mellitus e a hipertensão arterial, por exemplo. No vídeo a seguir, vamos conhecer grandes nomes da filosofia e da ciência e entender como eles utilizaram animais em experimentações ao longo da história. Acompanhe! • • • • • • • Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 1 O uso de animais em ensino e pesquisa é uma prática que remonta à Antiguidade e evoluiu ao longo dos séculos. Hoje, a escolha do modelo animal ideal é muito importante para garantir a validade dos resultados científicos. Essa escolha é baseada em fatores como a similaridade genética e a adequação para o propósito do estudo. Imagine um grupo de pesquisadores que está desenvolvendo um novo medicamento para o tratamento da hipertensão arterial em humanos. Eles precisam selecionar um modelo animal que lhes permita testar a eficácia e a segurança do medicamento de forma confiável. Qual das seguintes abordagens seria a maisnas demais normas aplicáveis e nas Resoluções Normativas do CONCEA; II - examinar previamente os protocolos experimentais ou pedagógicos aplicáveis aos procedimentos de ensino e de projetos de pesquisa científica a serem realizados na instituição à qual esteja vinculada, para determinar sua compatibilidade com a legislação aplicável; III - manter cadastro atualizado dos protocolos experimentais ou pedagógicos, (...) realizados na instituição ou em andamento, enviando cópia ao CONCEA, por meio CIUCA; IV - manter cadastro dos pesquisadores e docentes que desenvolvam protocolos experimentais ou pedagógicos, (...) enviando cópia ao CONCEA, por meio do CIUCA; V - expedir, no âmbito de suas atribuições, certificados que se fizerem necessários perante órgãos de financiamento de pesquisa, periódicos científicos ou outras entidades; VI - notificar imediatamente ao CONCEA e às autoridades sanitárias a ocorrência de qualquer acidente envolvendo animais nas instituições credenciadas (...); VII - investigar acidentes ocorridos no curso das atividades de criação, pesquisa e ensino e enviar o relatório respectivo ao CONCEA (...); VIII - estabelecer programas preventivos e realizar inspeções anuais, com vistas a garantir o funcionamento e a adequação das instalações sob sua responsabilidade (...); IX - solicitar e manter relatório final dos projetos realizados na instituição, que envolvam uso científico de animais; X - avaliar a qualificação e a experiência do pessoal envolvido nas atividades de criação, ensino e pesquisa científica, de modo a garantir o uso adequado dos animais; XI - divulgar normas e tomar decisões sobre procedimentos e protocolos pedagógicos e experimentais, sempre em consonância com as normas em vigor; (...) XIII - consultar formalmente o CONCEA sobre assuntos de seu interesse, quando julgar necessário; (...) XV - incentivar a adoção dos princípios de refinamento, redução e substituição no uso de animais em ensino e pesquisa científica; XVI - determinar a paralisação de qualquer procedimento em desacordo com a Lei nº 11.794/08, na execução de atividades de ensino e de pesquisa científica, até que a irregularidade seja sanada, sem prejuízo da aplicação de outras sanções cabíveis. Podemos observar que as CEUAs locais funcionam como braços do CONCEA, agindo em consonância com ele, na observância da aplicação de normas para aprovação, controle e vigilância das atividades de criação, ensino e pesquisa com animais. A CEUA não pode se omitir quanto à observância das normas estipuladas pelo CONCEA, sob risco de se submeter às sanções cabíveis, já descritas anteriormente. Os membros também respondem por prejuízos que, por dolo, venham a causar às atividades de ensino e pesquisa nas instituições que atuem. • • • • • • • • • • • • • • Médico-veterinário administrando vitaminas a hamster criado em biotério. A Resolução Normativa n° 6, de 2012 (RN 06/12) do CONCEA, institui o coordenador de biotério, ou responsável técnico, indicando que ele deverá ser médico-veterinário com conhecimento na área de ciência de animais de laboratório, e que deve gerir o biotério visando o bem-estar animal, o manejo adequado, bem como a qualidade de produção. O responsável técnico deve ainda prover cuidados veterinários aos animais criados. Para que um procedimento de ensino ou pesquisa científica que utilize animais seja aprovado, ele deve ser apresentado à CEUA, que deverá deliberar sobre sua aprovação ou não, de acordo com os princípios éticos para uso de animais. Aos pesquisadores, docentes e responsáveis por procedimentos experimentais e de ensino compete, de acordo com a RN 06/12 do CONCEA, além de outras: Submeter à CEUA proposta de atividade, especificando os protocolos a serem adotados. Apresentar à CEUA, antes do início de qualquer atividade, as informações e a respectiva documentação. Assegurar que as atividades serão iniciadas somente após decisão técnica favorável da CEUA. Solicitar a autorização prévia à CEUA para efetuar qualquer mudança nos protocolos anteriormente aprovados. Assegurar que as equipes técnicas e de apoio envolvidas nas atividades com animais recebam treinamento apropriado e estejam cientes da responsabilidade no trato destes. Notificar à CEUA as mudanças na equipe técnica. Comunicar à CEUA, imediatamente, todos os acidentes com animais, relatando as ações saneadoras adotadas. Observamos como o Brasil avançou em termos legais para o uso ético de animais em ensino e pesquisa. Procedimentos que, há algumas décadas, ocorriam sem nenhum critério com vistas ao bem-estar animal e ignorando o fato de que animais, assim como os humanos, são capazes de sentir e sofrer, hoje devem seguir protocolos que zelem pelo respeito aos animais e pelo não sofrimento físico e mental deles, com a avaliação e adoção, sempre que possível, do princípio dos 3 Rs. No vídeo a seguir, falaremos sobre a importância do CEUA e explicaremos suas competências com base em exemplos. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 2 • • • • • • • As Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) são responsáveis por monitorar localmente as atividades desenvolvidas com animais em ensino e pesquisa, remetendo ao CONCEA as informações necessárias. Sobre sua composição, atribuições e responsabilidades, é correto afirmar: A Deve ser formada, obrigatoriamente, entre outros, por médicos e médicos-veterinários. B É responsável por estabelecer programas preventivos e realizar inspeções semestrais, com vistas a garantir o funcionamento e a adequação das instalações sob sua responsabilidade. CRepresentante de sociedade protetora de animais deve participar da CEUA, não podendo ser substituído sob nenhuma hipótese, a fim de garantir a participação da sociedade na comissão. D É responsável por expedir, quando necessário, certificados a órgãos de fomento de pesquisa e periódicos científicos. E A não observância de preceitos éticos no uso científico de animais gera sanções cabíveis aos pesquisadores responsáveis, não se estendendo aos membros da CEUA. A alternativa D está correta. As CEUAs são responsáveis pela expedição de certificados junto a revistas científicas ou órgãos que fornecem verbas para o desenvolvimento de pesquisas, a fim de comprovar que possuem projetos aprovados. A não comprovação inabilita a publicação em periódico, assim como pode suspender o repasse de verba para o desenvolvimento da pesquisa. ONGs e órgãos de proteção animal Conheça algumas das entidades de proteção animal. RSPCA As primeiras leis destinadas à proteção animal surgiram na Inglaterra, no século XIX, com a criação da Sociedade para a Prevenção de Crueldades contra Animais (RSPCA). A partir de então, outras associações foram criadas na Europa e nos Estados Unidos. A RSPCA possui filiais em diferentes países da Europa, Ásia e África com serviços veterinários, programas educativos para escolas e centros de adoção de animais, entre outros. Abrigo para animais abandonados e recolhidos das ruas. UIPA No Brasil, a UIPA (União Internacional Protetora dos Animais), criada em 1895, em São Paulo, é pioneira na proteção aos animais, existindo até hoje, e se originou de manifestos publicados em jornais da época, convocando a população a discutir sobre maus-tratos a animais. O estado de São Paulo foi o que mais se destacou nas discussões sobre políticas de proteção animal no país, apesar da criação de outras organizações fora do estado. A UIPA foi uma das responsáveis pela publicação da Lei 9.605/98, que torna crime os maus-tratos imputados a animais, além de fundar o movimento antivivisseccionista brasileiro. Participa, ainda, de trabalhos contra a prática de rodeios e auxiliou na colheita de provas para decisão favorável do STF contra a Farra do Boi em Santa Catarina (a qual consiste em soltar um animal em local afastado, fazendo-o correr atrás de pessoas). Além disso, foi responsável pela redaçãoda Lei Municipal 14.146/06, que proíbe a circulação de veículos de tração animal no município de São Paulo. A UIPA conta ainda com uma clínica médico-veterinária para atendimento de animais pertencentes à população carente e promove adoção de cães e gatos, após avaliação do pretendente à adoção. Foi declarada legalmente como de utilidade pública estadual e municipal e é fomentada por meio de doações de seus associados. SUIPA A SUIPA (Sociedade União Internacional Protetora dos Animais) foi inaugurada em 1943, no Rio de Janeiro. Inicialmente voltada ao tratamento de cães recolhidos das ruas da cidade, passou a atuar ativamente, reivindicando, junto às autoridades, o cumprimento de medidas de proteção aos animais. Participou ainda de movimentos contra as carrocinhas, que coletavam animais errantes em vias públicas e os destinava à eutanásia, além de combater maus-tratos a cavalos utilizados em charretes e auxiliar na apreensão de animais silvestres encontrados em locais inadequados. É também considerada como de utilidade pública, sem fins lucrativos, e mantém atendimento médico-veterinário a animais de populações carentes a preços populares, financiando seus gastos com doações de seus associados. É inegável que a pressão exercida por organizações foi responsável pela promulgação da primeira lei brasileira que estabeleceu, de forma específica, em 1934, medidas de proteção animal (Decreto 24.645/34). A partir desse decreto, os animais passaram a ser tutelados pelo Estado, e práticas de maus-tratos passaram a ser passíveis de multas e até mesmo prisão. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que, só no Brasil, existem mais de 30 milhões de animais abandonados, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. O abandono de animais ainda é frequente e aumenta quando as festas de fim de ano e o período de férias estão próximos, sendo deixados em vias públicas. Tal prática, além de antiética, confere ameaças para a saúde pública, pela possibilidade de ocorrência de zoonoses (doenças transmissíveis entre animais e pessoas), aumenta o risco de acidentes automobilísticos com animais vagando por estradas, além de gerar problemas ecológicos, pelo impacto ambiental envolvido, e econômicos, devido à necessidade de se prever projetos de controle populacional de animais. Em 2019, o Instituto Pet Brasil, entidade criada para liderar projetos de fomento ao conhecimento, empreendedorismo e à inovação para o setor de serviços e produtos para animais de estimação, apurou a existência de 370 ONGs atuando na proteção animal. Tal dado revela o constante crescimento de se estimular discussões sobre a ética animal e as práticas humanas associadas. É necessário, cada vez mais, problematizar e compreender a dinâmica das relações entre o homem e seu ecossistema, dentro de uma análise ética, para que, ao longo da História, a proteção e os direitos dos animais possam se estruturar conforme a realidade social, política e cultural da sociedade. No vídeo a seguir, falaremos sobre o papel das ONGs e dos órgãos de proteção animal na defesa dos direitos dos animais. Citaremos as entidades RSPCA, UIPA e SUIPA, e explicaremos as consequências do abandono de animais. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 3 Uma ONG de proteção animal está preparando uma campanha de conscientização sobre o abandono de cães e gatos. Qual seria o principal argumento que a ONG deveria utilizar para demonstrar que o abandono é um problema que afeta não apenas os animais, mas toda a sociedade? A O abandono de animais aumenta os custos de infraestrutura das cidades, como a manutenção de parques e praças. B A prática de abandono é um problema que se restringe a períodos de férias e festas de fim de ano, não sendo uma questão contínua. C O abandono de animais compromete a saúde pública, pois aumenta o risco de zoonoses, além de causar problemas ecológicos e acidentes de trânsito. D O abandono é um problema que deve ser resolvido apenas pelas ONGs, pois elas são as únicas entidades autorizadas a tutelar animais. E O abandono de animais é ilegal, mas as multas e penas de prisão não são aplicáveis no Brasil. A alternativa C está correta. O abandono de animais não é apenas uma questão ética, mas um problema que acarreta ameaças para a saúde pública (risco de zoonoses), gera problemas ecológicos (impacto ambiental) e econômicos (necessidade de projetos de controle populacional), além de aumentar o risco de acidentes automobilísticos. Essa visão multidimensional do problema é o argumento mais eficaz para conscientizar a sociedade de que o abandono é um problema de todos. Aplicando o conhecimento Uma estudante de medicina veterinária, durante uma aula teórica, aprende sobre a importância do bem-estar animal em atividades de ensino e pesquisa, em conformidade com o CONCEA e o princípio dos 3 Rs. Mais tarde, ao visitar um biotério, ele observa que os animais utilizados em pesquisa, como camundongos e ratos, são mantidos em condições de manejo que parecem otimizadas para o bem-estar. Ele vê que o responsável técnico pelo biotério, um médico-veterinário, é quem garante esses cuidados. A estudante se sente inspirada com a aplicação prática dos conceitos de ética animal, mas, ao mesmo tempo, reflete sobre o propósito final desses animais serem usados para a ciência. Seu dilema ético é: como a medicina veterinária e seus profissionais, mesmo em um contexto de uso ético, podem equilibrar o avanço científico com o bem-estar e o valor inerente da vida animal? Ela busca entender a complexa relação entre o progresso da ciência e a responsabilidade de garantir uma vida digna aos animais, mesmo em um ambiente de pesquisa. Com base no caso, responda às perguntas a seguir. Questão 1 Com base no texto, qual dos seguintes órgãos é o principal responsável por garantir que as condições de manejo observadas pela estudante no biotério estejam em conformidade com a ética e o bem-estar animal? A A Declaração Universal dos Direitos dos Animais, por ser uma lei com força jurídica. B O CONCEA, órgão que estabelece e zela pelo cumprimento das normas de uso humanitário de animais para pesquisa. C A atuação isolada do pesquisador, pois tem autonomia para decidir os procedimentos. D O Ciuca, que monitora a instituição, mas não o manejo dos animais. E O RIISPOA, que se aplica apenas a animais de produção. A alternativa B está correta. O CONCEA é um órgão criado com a finalidade de garantir o tratamento humanitário e ético a todos os animais utilizados em atividades de ensino ou pesquisa científica. É ele quem estabelece as normas para uso, cuidado e manejo dos animais em biotérios, e quem credencia as instituições para que possam realizar essas atividades. Questão 2 Explique como a vivência da estudante no biotério, ao observar as boas práticas de manejo, se relaciona com o princípio dos 3 Rs. Mencione uma ação que o responsável pelo biotério pode adotar para aplicar esse princípio na prática. Chave de resposta A observação da estudante demonstra que o biotério adota o princípio dos 3 Rs para minimizar o sofrimento dos animais: refinamento, redução e substituição de procedimentos. O bom manejo melhora as condições de vida dos animais, minimizando seu estresse e desconforto. Uma ação para aplicar esse princípio, na prática, seria otimizar o desenho experimental para usar o menor número possível de animais, sem comprometer a validade científica, e garantir a qualidade da produção dos animais no biotério para evitar a necessidade de reposição constante. Questão 3 A estudante reflete sobre o dilema de equilibrar o avanço científico com o bem-estar animal. Com base no texto, qual é o principal objetivo do CONCEA e das Ceuas ao regulamentar o uso de animais em pesquisa? Chave de resposta O principal objetivo do CONCEA e das Ceuas é garantir que o uso de animais em ensino e pesquisa seja feito de forma ética e humanitária. Eles buscam um ponto de equilíbrio entre a necessidade de utilizar animais parao avanço da ciência e a obrigação moral de evitar o sofrimento e o abuso. A Ceua examina cada protocolo de pesquisa ou ensino para garantir sua compatibilidade com a legislação, assegurando que o procedimento seja justificado e que o bem-estar animal seja uma prioridade. O CONCEA estabelece normas detalhadas sobre manejo, alojamento, eutanásia e procedimentos, garantindo que mesmo os experimentos que causam algum nível de desconforto sigam diretrizes rigorosas para minimizar o sofrimento. No vídeo a seguir, apresentaremos novamente o caso prático e resolveremos as questões, comentando as respostas corretas. Resolução do caso No vídeo a seguir, a professora apresenta e comenta o caso apresentado. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 4. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? A busca pelo tratamento ético destinado a animais é de longa data. Inúmeras publicações em diferentes países buscam fomentar a discussão sobre os direitos dos animais, descrevendo-os como seres sencientes e merecedores de respeito. A Inglaterra e outros países da Europa avançam na regulamentação do uso de animais, seja para produção, ensino ou experimentação, tendo como marco a publicação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, base de toda discussão sobre direitos dos animais no mundo. No Brasil, a regulamentação para uso de animais em ensino e experimentação foi alcançada com a Lei Arouca, de 2008 (Lei n° 11.794/08), que reconhece a senciência de vertebrados e regulamenta como estudos e pesquisas devem ser conduzidos em um âmbito ético e responsável, baseado nos princípios dos 3 Rs, de Russel & Burch. O CONCEA é o órgão governamental responsável pela normatização de funcionamento de biotérios e guias para cuidados com animais em ensino e experimentação. A obrigatoriedade da instituição de Ceuas para o credenciamento de estabelecimentos de ensino e pesquisa no CONCEA tornou indispensável a avaliação de projetos de ensino/pesquisa, que devem operar dentro de princípios éticos e legais, com possível responsabilização da instituição e de seus pesquisadores associados. Os órgãos de proteção animal atuam de forma ativa dentro e fora das Ceuas, operando como membros avaliadores de procedimentos que envolvem animais. Essas instituições de proteção pressionam os órgãos governamentais a regulamentarem dispositivos que protejam animais contra maus-tratos e abusos, ao mesmo tempo em que trabalham para promover a conscientização da população de que pertencemos ao mesmo ecossistema e somos dignos de respeito e direitos. Podcast Neste episódio, a especialista Patrícia Barizon Cepeda traz uma perspectiva sobre os desafios para a implementação dos direitos dos animais no Brasil. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. • • • • • • Explore+ Conheça a publicação da FAWC sobre bem-estar animal para animais de produção. Conheça As Cinco Liberdades dos Animais acessando o site do Certified Humane Brasil. Leia outras publicações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) sobre bem- estar animal. Assista aos vídeos do Conselho Federal de Medicina Veterinária, que estão disponíveis na internet. Assista ao vídeo institucional sobre os 12 anos de criação do CONCEA disponível no site do conselho. No site do CONCEA, você encontra resoluções normativas, contendo os Guias Brasileiros de Produção, Manutenção ou Utilização de Animais em Atividades de Ensino ou Pesquisa Científica. Acesse o site da RSPCA, associação britânica que luta contra a crueldade e pelos direitos dos animais, para conhecer mais sobre seu trabalho. Para conhecer mais sobre a UIPA, acesse o site da associação brasileira mais antiga na luta pelos direitos dos animais. O jornal Diário de Pernambuco fez uma reportagem sobre touradas e montarias denominada Público de touradas na Espanha cai pela metade em menos de uma década, disponível no site do jornal. Acesse e saiba mais sobre o assunto. Referências BRASIL. Decreto n° 6.899, de 15 de julho de 2009. Dispõe sobre a composição do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal - CONCEA, estabelece as normas para o seu funcionamento e de sua Secretaria-Executiva, cria o Cadastro das Instituições de Uso Científico de Animais – CIUCA, mediante a regulamentação da Lei no 11.794, de 8 de outubro de 2008, que dispõe sobre procedimentos para o uso científico de animais, e dá outras providências. Consultado na internet em: 9 dez. 2020. BRASIL. Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. Consultado na internet em: 9 dez. 2020. BRASIL. Lei n° 11.794, de 8 de outubro de 2008. Regulamenta o inciso VII do § 1o do art. 225 da Constituição Federal, estabelecendo procedimentos para o uso científico de animais; revoga a Lei no 6.638, de 8 de maio de 1979; e dá outras providências. Consultado na internet em: 9 dez. 2020. BRASIL. Resolução Normativa n° 1, de 9 de julho de 2010 (CONCEA). Dispõe sobre a instalação e o funcionamento das Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) Publicação consolidada da Resolução Normativa nº 1, de 9 de julho de 2010, considerando as alterações introduzidas com a edição das Resoluções Normativas nº s 2, de 30 de dezembro de 2010, 3, de 14 de dezembro de 2011 e 6, de 10 de julho de 2012. Consultado na internet em: 9 dez. 2020. BRASIL. Resolução Normativa n° 6, de 10 de julho de 2012 (CONCEA). Altera a Resolução Normativa nº 1, de 9 de julho de 2010, que "Dispõe sobre a instalação e o funcionamento das Comissões de Éticas no Uso de Animais (CEUA's)". Consultado na internet em: 9 dez. 2020. • • • • • • • • • Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia (Cadernos Técnicos da Escola de Veterinária da UFMG). Bem- Estar Animal. Nº 67 – 2012 – Belo Horizonte. OLIVEIRA, E. M.; GOLDIM, J. R. Legislação de proteção animal para fins científicos e a não inclusão dos invertebrados – análise bioética. Revista Bioética (impressa). 2014; 22 (1): 45-56. PESSINI, L.; HOSSNE, W. S. A nova edição (4ª) da Enciclopédia de Bioética. Revista Bioethikos. Centro Universitário São Camilo - 2014; 8(4):359-364. TINOCO, I. A. P.; CORREIA, M. L. A. Análise Crítica sobre a Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Revista Brasileira de Direito Animal. Ano 5, vol. 7. Jul-Dez 2010. Legislação de proteção animal 1. Itens iniciais Apresentação Objetivos Introdução 1. Princípios éticos e legais na experimentação e no uso de animais Uso de animais para ensino e pesquisa ao longo da história Hipócrates Alcmeon, Herophilus e Erasistratus Aristóteles Claudio Galeno René Descartes Convencionais Não convencionais Conteúdo interativo Atividade 1 Bioética Princípios éticos da experimentação animal O princípio dos 3 Rs na experimentação animal Reduction Replacement Refinament Reduction Replacement Refinament Conteúdo interativo Atividade 2 Princípios legais da experimentação animal Lei 11.794/2008 – Lei Arouca Conteúdo interativo Atividade 3 Bem-estar animal e Terapia Assistida por Animais Conceito de bem-estar animal (BEA) Funcionamento biológico normal do animal Estado emocional do animal Capacidade de expressar comportamentos normais As Cinco Liberdades Liberdade de fome e sede Liberdade de desconforto Liberdade de dor, lesão e doença Liberdade para expressar seu comportamento natural Liberdade de medo e distresse Legislação brasileira sobre bem-estar de animais de produção Art . 12 Art. 43 Art. 88 Art. 103 Art. 496 A bioética e os animais de companhia Terapia assistida por animais (TAA) Cães Cavalos Conteúdo interativo Atividade 4 Aplicando o conhecimento Resolução do caso Conteúdo interativo 2. Direitos dos animais: histórico, evolução e atualidades Declaração Universal dos Direitos dos Animais SéculoVII Século VIII Século XIX Publicação da declaração universal dos direitos dos animais Art. 1º Art. 2º Art. 3º Análise da declaração universal dos direitos dos animais Conteúdo interativo Atividade 1 Atualidades jurídicas sobre proteção dos animais Comentário Conteúdo interativo Atividade 2 Aplicando o conhecimento Resolução do caso Conteúdo interativo 3. Órgãos de controle e proteção do bem-estar animal Mecanismos de proteção animal CONCEA Para pessoas jurídicas Para pessoas físicas Conteúdo interativo Atividade 1 Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) Conteúdo interativo Atividade 2 ONGs e órgãos de proteção animal RSPCA UIPA SUIPA Conteúdo interativo Atividade 3 Aplicando o conhecimento Resolução do caso Conteúdo interativo 4. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? Podcast Conteúdo interativo Explore+ Referênciasadequada para essa pesquisa? A A utilização de animais silvestres de grande porte, pois eles se assemelham mais à fisiologia humana. B A vivissecção de um animal em condições normais, para observar o funcionamento de seu sistema circulatório. C O uso de camundongos convencionais, devido à facilidade de criação e manutenção. D A utilização de camundongos geneticamente modificados para que expressem a doença, pois eles são o modelo ideal para estudos com doenças específicas. E A utilização de órgãos de animais mortos para comparação com órgãos humanos, como fazia Hipócrates. A alternativa D está correta. As técnicas de engenharia genética permitem a obtenção de modelos geneticamente modificados para expressar certas doenças, como a hipertensão arterial. Essa abordagem garante que os resultados obtidos sejam mais confiáveis e reprodutíveis para o propósito do estudo, que é testar um novo medicamento para essa condição específica. Bioética É considerada uma ciência recente, do início do século XX, e tem sua origem na ética. Ela nasceu da necessidade de se discutir sobre a responsabilidade ética do homem para com ele próprio e os seres vivos em geral. A partir dos anos 1970, a bioética começou a tomar dimensões maiores devido aos avanços tecnológicos na área de saúde. Em 1978, Warren Reich a definiu, em sua Enciclopédia de Bioética, como: O estudo sistemático das dimensões morais, incluindo a visão, a decisão, a conduta e as normas das ciências da vida e da saúde. Warren Reich , 1978 Ao longo dos anos, a definição de Reich foi se aprimorando devido à necessidade de se ampliar o campo da bioética, que antes era delineado pelos estudos científicos e filosóficos voltados para a biologia e medicina humanas, para uma visão globalizada e interdisciplinar. Dessa forma, a sobrevivência do homem deve levar em conta não somente a preservação de sua saúde, mas suas relações éticas com o ecossistema, a preservação da biodiversidade e a utilização ética das tecnologias biomédicas. A bioética passa, então, de uma visão antropocêntrica para uma visão biocêntrica e plural. Nesse contexto, ela busca discutir a solução de conflitos morais, éticos/bioéticos que surgem nas diferentes áreas da biologia e medicina, podendo ser delimitada de acordo com seu campo de atuação. Exemplos: Bioética médica Bioética animal Bioética ambiental Biocêntrica O biocentrismo é uma teoria que propõe a noção de que todas as formas de vida são importantes, diferentemente do antropocentrismo, no qual o homem é considerado o centro do Universo. Princípios éticos da experimentação animal O princípio dos 3 Rs na experimentação animal Com a virada do século XX e a ampliação das discussões éticas sobre o uso de animais, os pesquisadores William Russel e Rex Burch publicaram, em 1959, os princípios éticos que deveriam nortear o uso de animais em pesquisas, denominado princípio dos 3 Rs. O nome se deve ao fato de que cada princípio possui em sua grafia a inicial R: Reduction Redução • • • Replacement Substituição Refinament Refinamento Tais princípios passaram a ser os precursores no debate sobre o uso ético de animais em pesquisas. Veja mais detalhes a seguir. Reduction O primeiro princípio, reduction ou redução, recomenda a utilização do menor número possível de animais que seja capaz de produzir resultados confiáveis e reprodutíveis. Como exemplos para alcançarmos esse propósito, temos os bancos de dados para acesso a resultados, evitando-se estudos duplicados. O compartilhamento de animais em experimentos, com o devido planejamento e avaliação, e a padronização do modelo animal com qualidade sanitária e genética, proporcionando resultados uniformes e não dispersos. Replacement O segundo princípio, replacement ou substituição, orienta que, em caso de existência de método alternativo validado, o uso de animais não é justificável. Como métodos alternativos, podemos citar: As técnicas in vitro, com cultivo celular ou tecidual. Os modelos computacionais para processos fisiológicos, com o uso da bioinformática. Os procedimentos utilizando tecidos ou órgãos de animais já mortos. A utilização de animais invertebrados ou microrganismos. In vitro: significa fora do organismo vivo, ou seja, dentro de um tubo de ensaio, em uma placa de cultivo etc. Bioinformática: área da ciência que usa computadores para construir modelos das moléculas que compõem os seres vivos, como proteínas e DNA. • • • • Refinament O terceiro princípio, refinament ou refinamento, postula a aplicação de procedimentos que minimizem o sofrimento, a dor ou o estresse animal. Tal princípio pode ser praticado de inúmeras formas, como: Utilização de analgesia pré e pós-cirúrgica, bem como estabelecimento de cuidados pós- cirúrgicos. Capacitação técnica da equipe para procedimentos invasivos e críticos. Identificação precoce de sinais de dor, sofrimento e estresse para tomada de decisão premeditada. No vídeo a seguir, falaremos sobre a importância e aplicações da bioética, apresentando também o princípio dos 3 Rs na experimentação animal, a partir de exemplos. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 2 Os princípios dos 3 Rs são os balizadores para a discussão e a regulamentação de leis para o uso de animais em ensino e pesquisa científica. Sobre esses princípios, é correto afirmar: A A substituição (replacement) é recomendada para a utilização de um menor número de animais em ensino/pesquisa. B O refinamento (refinement) diz respeito à adoção de métodos alternativos ao uso de animais. C O princípio da redução (reduction) defende, dentre outros, a capacitação técnica para o uso de animais. D O refinamento (refinement) está relacionado à adoção de medidas que diminuam dor e sofrimento dos animais, como uso de analgésicos. E Os modelos computacionais, com auxílio de ferramentas da bioinformática, são exemplos de aplicação do princípio de redução (reduction). A alternativa D está correta. O refinamento busca reduzir ao máximo situações indesejáveis de dor, sofrimento e estresse animal, com uso de analgésicos, anestésicos, além de cuidados pré e pós-operatórios. • • • Princípios legais da experimentação animal No Brasil, as discussões em bioética animal tiveram início após a década de 1970. Até aquele momento, somente o bom senso do pesquisador era responsável por delinear sua conduta moral em experimentos com animais e também nas práticas de ensino nas instituições. No aspecto legal, o Decreto-Lei 24.645, de 1934, foi o primeiro a estabelecer as primeiras medidas de proteção aos animais e, em seu artigo 3º, considerava como maus tratos, entre outros: I - Praticar ato de abuso ou crueldade em qualquer animal;IV - Golpear, ferir ou mutilar, voluntariamente, qualquer órgão ou tecido de economia, exceto a castração, só para animais domésticos, ou operações outras praticadas em benefício exclusivo do animal e as exigidas para defesa do homem, ou no interesse da ciência;VI - Não dar morte rápida, livre de sofrimentos prolongados, a todo animal cujo extermínio seja necessário, para consumo ou não. Decreto-Lei 24.645, de 1934 Em 1979, a Lei 6.638 foi a primeira a estabelecer normas para a prática didático-científica da vivissecção de animais. A lei estabelecia que os biotérios e centros de experiência tinham permissão para a vivissecção animal, mas deveriam ser registrados em órgão competente. Estabelecia, ainda, que procedimentos em animais não poderiam ser realizados sem anestesia e sem a supervisão de técnico especializado e que os animais deveriam receber cuidados especiais, entre outras orientações. O artigo 225 da Constituição Brasileira, que trata do meio ambiente, veda as práticas de crueldade contra animais e preconiza ser dever do Estado a proteção da fauna brasileira. A Lei 9.605/98, também chamada de Lei de Crimes Ambientais, foi a primeira a imputar sanções penais e administrativas a quem cause danos ou prejuízos aos elementos constituidores do meioambiente, entre eles sua fauna (art. 29 a 37). Lei 11.794/2008 – Lei Arouca O marco da regulação do uso de animais em ensino e experimentação finalmente ocorreu em 2008, após 13 anos de tramitação de seu projeto, com a sanção da Lei 11.794, de autoria do então deputado Sérgio Arouca. A Lei Arouca estabelece critérios para a criação e a utilização de animais em atividades de ensino e pesquisa científica, em todo o território nacional. Dela, podemos citar as seguintes regras restritivas: Art. 1º § 1º A utilização de animais em atividades educacionais fica restrita a: I – Estabelecimentos de ensino superior. II – Estabelecimentos de educação profissional técnica de nível médio da área biomédica. Art. 2º O disposto nesta Lei aplica-se aos animais das espécies classificadas como filo Chordata, subfilo Vertebrata. Filo Chordata são animais com tubo nervoso dorsal, fendas faringianas ou branquiais (nos cordados aquáticos) e cauda em algum momento da vida (os humanos a perdem na fase embrionária). Subfilo Vertebrata são animais com vértebras e caixa craniana com encéfalo. Exemplos: anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos. A lei se refere aos animais vertebrados por considerar que eles possuem capacidade de sentir e sofrer e, portanto, estão predispostos a uma análise bioética que fundamente sua utilização. A Lei Arouca foi responsável pela criação do CONCEA (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal), com competência, entre outras, para: Credenciamento de instituições de ensino e pesquisa com animais. Avaliação de métodos alternativos ao uso de animais. Estabelecimento de normas para a criação e funcionamento de biotérios. Manutenção de cadastro de procedimentos de ensino e pesquisa no país, por meio de informações repassadas pela CEUA (Comissão de Ética no Uso de Animais). A criação do CONCEA prevê a existência de Comissões (CEUA) institucionais para avaliação de procedimentos de ensino e pesquisa conduzidos com animais, os quais somente são aprovados se desenvolvidos dentro de princípios éticos, baseados no princípio dos 3 Rs de Russel & Burch. Na área de experimentação animal, a Lei Arouca prevê que: Animais devem receber cuidados especiais e somente podem ser submetidos às intervenções aprovadas nos protocolos experimentais. A eutanásia deve ser realizada ao final do experimento ou a qualquer momento, caso seja detectado sofrimento animal. Animais utilizados em experiências ou demonstrações que não forem submetidos a eutanásia podem, em caráter excepcional, sair do biotério, ouvida a respectiva CEUA, desde que destinados a pessoas idôneas ou entidades protetoras de animais devidamente legalizadas. O número de animais e o tempo de duração do projeto devem ser o mínimo necessários para a obtenção de resultados conclusivos. Experimentos que causem dor devem apresentar em seus protocolos técnicas para sedação, analgesia ou anestesia, com proibição do uso de bloqueadores neuromusculares ou bloqueadores musculares. Para as atividades de ensino, preconiza-se, dentre outros, que: • • • • • • • • • As práticas de ensino devem ser fotografadas, filmadas ou gravadas, para reprodução e ilustração de práticas futuras, evitando-se repetição desnecessária de procedimentos. Em caso de emprego de métodos traumáticos, vários procedimentos podem ser realizados num mesmo animal, desde que todos sejam executados durante a vigência de um único anestésico. Nesse caso, o animal deve ser eutanasiado antes de recobrar a consciência. Eutanasiado Procedimento realizado para causar a morte de um animal, sem dor ou sofrimento. A lei preconiza ainda que, independentemente do procedimento a ser realizado, seja na área de ensino, seja na área de pesquisa, o mesmo deve ser supervisionado por profissional de nível superior, graduado ou pós-graduado na área biomédica. Ele deve estar vinculado à entidade de ensino ou à pesquisa credenciada pelo CONCEA. A Lei Arouca prevê penalidades para as instituições que transgredirem regras e disposições estabelecidas pela norma, bem como para as pessoas que executem procedimentos de forma indevida, ou que não sejam autorizados pelo CONCEA. As penalidades variam de multa a interdição definitiva do estabelecimento de ensino/pesquisa. Neste vídeo, apresentaremos a legislação relacionada à experimentação animal, citando e explicando brevemente o Decreto-Lei nº 24.645, de 1934; a Lei nº 6.638, de 1979; o artigo 225 da Constituição Brasileira; a Lei nº 9.605/1998 — conhecida como Lei de Crimes Ambientais; e a Lei nº 11.794/2008 — chamada Lei Arouca. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 3 A Lei n° 11.794/08, conhecida como Lei Arouca, definiu regras para o uso de animais em ensino e pesquisa, baseando-se nos princípios dos 3 Rs e visando o bem-estar animal. De acordo com o que versa a lei, podemos afirmar que: A A eutanásia em animais não utilizados em experimentação é recomendada ao final do experimento, de acordo com o protocolo de pesquisa. BProcedimentos traumáticos podem ser realizados em um único animal, porém em diferentes experimentos, sob diversos protocolos anestésicos, para que se utilize ao máximo o mesmo animal. C Procedimentos de ensino devem ser fotografados e filmados, a fim de se reduzir o número de animais utilizados. • • D Projetos de pesquisa ainda não aprovados podem ser iniciados, desde que sejam comunicados ao CONCEA. E É permitido o uso de bloqueadores neuromusculares ou bloqueadores musculares quando houver sinais perceptíveis de dor e sofrimento animal. A alternativa C está correta. Como procedimentos de ensino são realizados com o intuito de repasse de conhecimento, sempre que possível eles devem ser fotografados, filmados ou gravados para evitar repetições desnecessárias. Bem-estar animal e Terapia Assistida por Animais Conceito de bem-estar animal (BEA) O conceito de bem-estar animal (BEA) está relacionado ao equilíbrio entre os meios interno (temperatura, conteúdo hídrico etc.) e externo (temperatura, ruídos, convívio social etc.) capazes de gerar homeostase, e inclui três elementos básicos: Funcionamento biológico normal do animal Aspectos relacionados à saúde física e nutrição. Estado emocional do animal Como a ausência de dor e medo. Capacidade de expressar comportamentos normais Possibilidade de o animal manifestar seus comportamentos naturais e instintivos. A Lei 11.974/08, que regulamenta a utilização de animais em ensino e pesquisa, legalizou a discussão do bem- estar animal, obrigando as instituições que utilizam animais a promover o equilíbrio físico e mental do animal com o seu ambiente. Quanto aos animais de companhia e produção, como a questão é abordada? Veremos a seguir. As Cinco Liberdades Em 1964, no Reino Unido, a publicação do livro Animal Machines (Máquinas animais), de Ruth Harrison, discutiu sobre a cadeia produtiva de animais, que desconsiderava o sofrimento deles. O livro abordava o tratamento imposto aos animais de produção e teve como resultado a abertura, no ano seguinte, de um estudo investigativo sobre as condições de criação desses animais. A investigação foi responsável pela elaboração do Relatório Brambell, publicado em 1965, o qual recomendava as condições mínimas capazes de promover bem-estar e gerar o menor sofrimento possível aos animais em sistemas de produção. Essas recomendações são conhecidas como as Cinco Liberdades, consideradas norteadoras para a prática de exploração animal. Confira a seguir. Animais de produção Animais criados em fazendas (sistema de produção pecuária), geralmente para consumo humano. Exemplos: suínos, bovinos, caprinos, aves etc. Liberdade de fome e sede Acesso irrestrito à água e a alimento adequado às necessidades dos animais, a fim de que se mantenham saudáveis. Liberdade de desconforto Permanência em ambiente adequado, provido de abrigo e área para descanso. Liberdade de dor, lesão e doença Programaspreventivos contra doenças, ferimentos ou sofrimento, com pronta assistência médico- veterinária caso algum problema seja detectado. Liberdade para expressar seu comportamento natural Espaço adequado que favoreça a expressão de suas necessidades naturais e companhia de outros animais da mesma espécie, de acordo com seus hábitos e suas necessidades sociais. Liberdade de medo e distresse Condições de manutenção e tratamento que evitem sofrimento psicológico e emocional. Como resultado do relatório e da publicação das Cinco Liberdades, foi criado, em 1979, o Farm Animal Welfare Council, órgão do governo britânico responsável pela elaboração da regulamentação sobre o sistema agropecuário na União Europeia, o qual influencia a discussão da bioética animal no Brasil. As Cinco Liberdades constituem indicadores de avaliação do bem-estar animal, a partir do comprometimento de organizações e profissionais envolvidos na produção animal (aplicável também aos animais utilizados em ensino e pesquisa) e serve de alerta à população em geral sobre como tratamos os animais e de que forma podemos modificar nossas atitudes. Assegurar tais liberdades significa agir de forma ética com os animais. Legislação brasileira sobre bem-estar de animais de produção No Brasil, o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), publicado através do Decreto 9.013/2017, prevê, entre outras normas, o seguinte: Art . 12 A inspeção e a fiscalização industrial e sanitária de produtos de origem animal abrangem, entre outros, os seguintes procedimentos: VIII - avaliação do bem-estar dos animais destinados ao abate. Art. 43 Os estabelecimentos de carnes e derivados, respeitadas as particularidades tecnológicas cabíveis, também devem dispor de: I - Instalações e equipamentos para recepção e acomodação dos animais, com vistas ao atendimento dos preceitos de bem-estar animal, localizados a uma distância que não comprometa a inocuidade dos produtos. Art. 88 O estabelecimento é obrigado a adotar medidas para evitar maus-tratos aos animais e aplicar ações que visem à proteção e ao bem-estar animal, desde o embarque na origem até o momento do abate. Art. 103 É proibido o abate de animais que não tenham permanecido em descanso, jejum e dieta hídrica, respeitadas as particularidades de cada espécie e as situações emergenciais que comprometem o bem-estar animal. Art. 496 Constituem infrações ao disposto neste Decreto, além de outras previstas: VIII - Desobedecer ou inobservar os preceitos de bem-estar animal dispostos neste Decreto e em normas complementares referentes aos produtos de origem animal. Vale lembrar que o novo RIISPOA substituiu o regulamento anterior, publicado em 1952 e vigente até então. O antigo regulamento não mencionava sequer a questão do bem-estar animal. Isso demonstra por quanto tempo permanecemos excludentes quanto à discussão bioética sobre o sistema produtivo animal. Outra norma que regulamenta o uso de animais de produção é a Lei 10.519/02, que dispõe sobre a promoção e a fiscalização da defesa sanitária animal a respeito da realização de rodeios. De acordo com a norma: “Art. 3º Caberá à entidade promotora do rodeio, a suas expensas, prover: II – Médico-veterinário habilitado, responsável pela garantia da boa condição física e sanitária dos animais e pelo cumprimento das normas disciplinadoras, impedindo maus tratos e injúrias de qualquer ordem.” “Art. 4º Os apetrechos técnicos utilizados nas montarias, bem como as características do arreamento, não poderão causar injúrias ou ferimentos aos animais...” 1º As cintas, cilhas e as barrigueiras deverão ser confeccionadas em lã natural com dimensões adequadas para garantir o conforto dos animais. 2º Fica expressamente proibido o uso de esporas com rosetas pontiagudas ou qualquer outro instrumento que cause ferimentos nos animais, incluindo aparelhos que provoquem choques elétricos. 3º As cordas utilizadas nas provas de laço deverão dispor de redutor de impacto para o animal.” Apesar da existência de leis que regulamentam a forma como os animais devem ser tratados com vistas à promoção de seu bem-estar, é possível garantir que isso ocorra? Podemos de fato assegurar que os animais pertencentes a sistemas produtivos estão livres de estresse, dor ou sofrimento pelo simples cumprimento da lei? Chave de resposta Nenhum animal nasce consciente de que está sendo criado para morrer. Ainda que técnicas voltadas para a promoção do bem-estar animal sejam implementadas e, frequentemente, monitoradas, o ponto de vista analisado será sempre o do homem, nunca do animal. A bioética e os animais de companhia Desde longa data, animais de companhia são considerados elementos importantes dentro do contexto familiar, principalmente nos momentos atuais, com dados apontando para a queda do número de casais com filhos e o aumento do número das atualmente denominadas famílias multiespécie, ou seja, aquelas formadas por animais humanos e não humanos. Os laços entre o homem e os animais foram se estreitando na história da humanidade, pela necessidade humana de socialização e afeto. A relação de afeto e companheirismo do homem com seu animal de estimação e a percepção, por parte do homem, de que o animal consegue compreendê-lo, faz da humanização animal uma realidade. O ser humano passa a infantilizar o animal, adotando práticas comprometedoras de seu bem-estar. Algumas dessas práticas, como, por exemplo, dar banho no animal de forma muito frequente, para que ele fique sempre cheiroso, ou utilizar perfumes fortes após procedimento de tosa e banho, prejudicando o faro dos animais, ferem diretamente as Cinco Liberdades já citadas, por causarem estresse, desconforto e serem contrárias à natureza animal. • • • Ao retirar o animal de seu ambiente natural para domesticação, o homem, agora na posição de guardião, passa a ser responsável pela segurança, saúde e pelo bem-estar daquele. Por vezes, alguns desses são utilizados em zooterapia, também conhecida como terapia assistida por animais, ou TAA. Terapia assistida por animais (TAA) A TAA é conduzida por profissionais da área da saúde, e caracteriza-se pela interação de pacientes que apresentem problemas cognitivos, emocionais ou sociais com animais (geralmente cães e equinos) considerados saudáveis e sociáveis. Geralmente, a TAA é conduzida com: Cães A melhoria no quadro de pacientes em coterapia com cães é notória, com diminuição do tempo de internação e redução na percepção de dor, além da melhora do humor e da sociabilidade de pacientes. Cavalos A equoterapia, ou terapia com cavalos, é também reconhecida pela medicina e utiliza cavalos de competição já aposentados, com a justificativa de mantê-los ativos. É importante destacarmos que a TAA é um processo adotado no mundo todo, porém somente padronizado nos Estados Unidos da América. No Brasil, é realizada em centros de reabilitação e hospitais, por meio do credenciamento de animais e tutores, e envolve diferentes profissionais, como fisioterapeutas, psiquiatras, assistentes sociais, entre outros. Apesar do ganho para os pacientes, cabe a discussão sobre a utilização desses animais do ponto de vista ético. Ainda que o animal seja considerado o protagonista do processo, ele não pode ser questionado quanto à sua vontade ou escolha em participar do programa, bem como não é possível mensurar se há algum benefício direto para o animal nem como avaliar em tempo real seu bem-estar. A prática necessita de regulamentação e de profissionalização de todos os serviços envolvidos, tais como adestramento, certificação de animais, transporte e monitoramento da saúde deles, evitando sua mercantilização. O animal deve ser assistido constantemente por um profissional, a fim de serem avaliados sinais de estresse ou sobrecarga em virtude da função, com dosagem frequente dos níveis de catecolaminas. Com exceção da proibição de abuso e maus-tratos aos animais, conforme art. 32 da Lei de Crimes Ambientais (9.605/98), e previsãode pena de detenção, o Brasil não possui regulamentação específica para promoção do bem-estar de animais de companhia. É necessário considerar que a utilização de animais para companhia ou TAA demanda a elaboração de diretrizes éticas e prescritivas, visando a tutela responsável e permitindo ao poder público mediar a decisão sobre a tutela do animal, combatendo sua exploração. Catecolaminas Hormônios produzidos pelas glândulas suprarrenais em situações de estresse e liberados na corrente sanguínea. Neste vídeo, falaremos sobre o conceito de bem-estar animal e apresentaremos a legislação brasileira relacionada ao tema, incluindo o RIISPOA e a Lei nº 10.519/2002, que trata da promoção e fiscalização da defesa sanitária animal na realização de rodeios. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 4 A bioética aplicada à medicina veterinária aborda questões morais e éticas que surgem na relação entre humanos e animais. A legislação, como o RIISPOA, busca regulamentar práticas para garantir o bem-estar animal. Uma agroindústria de processamento de carne está sendo inspecionada. O inspetor, um médico-veterinário do Ministério da Agricultura, nota que a empresa cumpre as exigências sanitárias e regulamentares do RIISPOA. No entanto, os animais são mantidos em currais superlotados e sem acesso adequado à água por longos períodos antes do abate. Com base na perspectiva da bioética, qual é a principal contradição observada na conduta da empresa? A A empresa atende aos requisitos de sanidade, mas ignora por completo a legislação de rodeios. B A agroindústria adere ao conceito de funcionamento biológico normal, mas não à dimensão do estado emocional dos animais. C A empresa cumpre a regulamentação do RIISPOA, mas viola as Cinco Liberdades ao não garantir a liberdade de fome e sede e a de desconforto. D A empresa ainda segue o regulamento antigo, de 1952, que não aborda o bem-estar animal. E A empresa prioriza o bem-estar animal em detrimento do lucro e da produtividade. A alternativa C está correta. A contradição está no fato de que, embora cumpra a regulamentação sanitária, a empresa falha em assegurar o bem-estar dos animais. As condições de superlotação e a falta de acesso à água por longos períodos violam diretamente as Cinco Liberdades, sobretudo a liberdade de fome e sede e a liberdade de desconforto, que são princípios norteadores da bioética animal e que vão além do simples cumprimento da lei. Aplicando o conhecimento Um médico-veterinário é contratado para monitorar a saúde e o bem-estar dos cavalos em um centro de equoterapia. O centro atende crianças com deficiência, e a terapia com cavalos é a principal ferramenta de reabilitação. O proprietário do centro utiliza cavalos de competição aposentados, que agora trabalham em tempo integral na terapia. O veterinário percebe que, embora os cavalos não apresentem sinais de lesões graves, eles demonstram comportamentos de estresse, como balançar a cabeça e mastigar o ar de forma repetitiva. Além disso, a dieta deles é inadequada, baseada apenas em feno de baixa qualidade, e eles passam a maior parte do dia em baias pequenas. O proprietário do centro afirma que está cumprindo a lei, pois os cavalos não sofrem maus-tratos diretos. O veterinário precisa, então, explicar ao proprietário a diferença entre evitar o abuso e garantir o bem-estar animal, demonstrando que as condições atuais ferem os princípios da bioética e as Cinco Liberdades. Com base neste caso, responda às perguntas a seguir. Questão 1 Qual das Cinco Liberdades é diretamente violada pela dieta e pelo manejo dos cavalos no centro de equoterapia descrito no caso? A Liberdade de dor, lesão e doença, pois a dieta inadequada pode causar problemas de saúde a longo prazo. B Liberdade de fome e sede e liberdade para expressar seu comportamento natural, pois a dieta é de baixa qualidade e o confinamento restringe o movimento. C Liberdade de desconforto, já que a dieta inadequada e o confinamento causam dor e estresse. D Liberdade de medo e distresse, pois o balançar de cabeça indica estresse emocional. E Liberdade para expressar seu comportamento natural, pois os cavalos são utilizados em uma terapia e não podem se comportar como em seu ambiente original. A alternativa B está correta. Os cavalos recebem uma dieta baseada apenas em feno de baixa qualidade, o que viola a liberdade de fome e sede (ao não fornecer nutrição adequada). Além disso, o confinamento em baias pequenas impede que eles se exercitem e manifestem comportamentos de pastoreio, violando a liberdade para expressar seu comportamento natural. Questão 2 Como explicar ao proprietário do centro de equoterapia a diferença entre o que ele entende por cumprir a lei e a necessidade de garantir o bem-estar animal? Explique como a abordagem do proprietário, de fato, se alinha ao conceito de não causar maus-tratos, mas falha em proporcionar estado de funcionamento biológico normal e estado emocional para os animais. Chave de resposta O proprietário se baseia na Lei de Crimes Ambientais, que proíbe maus-tratos e injúrias. Aparentemente, os cavalos não têm lesões físicas diretas, o que o faz crer que está cumprindo a legislação. No entanto, o conceito de bem-estar animal vai além da ausência de maus-tratos. Assim, o veterinário deve explicar que o bem-estar animal exige três elementos básicos. Nessa perspectiva, o funcionamento biológico normal está comprometido pela dieta inadequada (falha na nutrição). O estado emocional, por sua vez, está comprometido pelo estresse (evidenciado pelo balançar da cabeça e mastigar o ar), que causa sofrimento mental e distresse. Por último, a capacidade de expressar comportamentos naturais e instintivos está comprometida pelo confinamento nas baias pequenas. Portanto, a ausência de dor e lesão não significa, por si só, que o animal desfruta de bem-estar pleno, pois suas necessidades nutricionais e comportamentais não são atendidas. Questão 3 Considerando que a equoterapia é uma terapia assistida por animais (TAA), cite e discuta a principal preocupação ética que o texto levanta sobre o uso desses animais. Em sua resposta, proponha uma medida de manejo que o veterinário poderia recomendar para mitigar essa preocupação e justifique sua importância. Chave de resposta Uma preocupação ética fundamental sobre a TAA é o fato de o animal ser o protagonista do processo, mas não poder ser questionado sobre sua vontade ou escolha de participar. Assim, não é possível mensurar os benefícios diretos para o animal, e há um risco de sobrecarga e estresse devido à função. A questão ética, portanto, está na ausência de consentimento e na possibilidade de uso excessivo e não monitorado. O veterinário poderia recomendar a implementação de um protocolo de rodízio de animais na terapia. Em vez de utilizar os cavalos em tempo integral, eles trabalhariam em turnos ou em dias alternados, com períodos de descanso adequados. Essa medida é importante porque mitiga o risco de estresse e sobrecarga, permite que o veterinário monitore o bem-estar individual de cada animal e garante que eles não sejam tratados como meros instrumentos, o que se alinha à necessidade de regulamentação e profissionalização da prática. Resolução do caso No vídeo a seguir, a professora apresenta e comenta o caso apresentado. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 2. Direitos dos animais: histórico, evolução e atualidades Declaração Universal dos Direitos dos Animais Os princípios éticos, apesar de não mandatórios, passaram a nortear as regulamentações de uso de animais em ensino e pesquisa, assim como para os animais de produção. Entretanto, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais chancelou a responsabilidade do homem em tratar animais de forma digna, responsabilizando-se por eles, como seres pertencentes ao mesmo ecossistema. Ao longo dos tempos, a visão do homem sobre a utilização de animais em experimentosvem sendo modificada, conforme veremos no breve histórico a seguir. Século VII René Descartes, na França do século XVII, comparava animais a máquinas desprovidas de sentimentos, que teriam sido criados por Deus apenas para usufruto do homem, porém seriam privados de alma. Nessa época, a maioria dos estudos em animais seguia um modelo especulativo e descritivo. Século VIII O filósofo alemão Immanuel Kant, no século XVIII, admitia que os animais sentiam dor e prazer e que, portanto, o ser humano teria obrigações para com eles. Apesar disso, Kant concluía que a utilização dos animais pelo homem era justificável, já que os primeiros não possuíam consciência, atribuição unicamente humana. Nessa época, os estudos em animais já incluíam procedimentos invasivos e predominantemente experimentais. O pensamento de Jeremy Bentham, filósofo inglês do século XVIII, foi precursor nas discussões acerca do uso de animais e serviu de base para o que hoje entendemos como proteção dos animais. Bentham defendia que todos os seres possuíam direitos iguais, pelo fato de sentirem e sofrerem, introduzindo a questão da senciência (capacidade de os seres terem sensações e sentimentos, como medo, dor e alegria de forma consciente) animal. Para o filósofo, “o problema não consiste em saber se os animais podem raciocinar; tampouco interessa se falam ou não; o verdadeiro problema é este: podem eles sofrer?“. À época, permanecia a ideia de que o homem poderia usufruir dos animais, contanto que não os fizesse sofrer. Predominava, portanto, a visão antropocêntrica de instrumentalização do animal. Século XIX Na França do século XIX, Claude Bernard defendia as pesquisas desenvolvidas com animais caso ocorressem de acordo com um método científico, o que garantiria a fidedignidade e reprodutibilidade dos resultados, justificando o uso dos animais. Certa vez, para demonstração em uma de suas aulas, Bernard utilizou o cachorro de sua própria filha, o que levou a esposa a fundar a primeira associação para defesa dos direitos dos animais de laboratório. O século XIX foi marcado pelo início do crescimento do interesse no debate sobre proteção dos animais, especialmente na Inglaterra. Apesar de as primeiras leis de proteção animal terem surgido ainda no século XVII com o intuito de proteger o homem e sua moralidade, mas não a saúde ou integridade física dos animais, avanços foram obtidos desde então, com a criação das primeiras associações de proteção animal. A primeira entidade criada para promover o bem-estar animal foi a SPCA, ou Sociedade para a Prevenção de Crueldades contra Animais, na Inglaterra. A sociedade passou, em 1840, a contar com a associação de membros da nobreza e da própria rainha Victoria, obtendo status de Sociedade Real, com sua sigla alterada para RSCPA. Publicação da declaração universal dos direitos dos animais Alguns outros atos e declarações publicados na Europa levantaram o debate sobre os direitos dos animais ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, mas somente em 1978 a Organização das Nações Unidas (ONU), baseando-se na Declaração Universal dos Direitos dos Homens (1948), promulgou, em Bruxelas, a primeira norma sobre proibição de maus-tratos a animais, da qual vários países são signatários, incluindo o Brasil. A Declaração Universal dos Direitos dos Animais reconhece o valor da vida de todos os seres vivos e a obrigação do homem em respeitar e tratar os animais de forma digna. A declaração não possui força jurídica, mas serve até hoje de base para a regulamentação de leis de proteção animal. Veja o que ela proclama a seguir. Art. 1º Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência. Art. 2º Todo animal tem direito a ser respeitado. O homem, enquanto espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito, e tem o dever de colocar os seus conhecimentos a serviço dos animais. Todo animal tem direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem. Art. 3º Nenhum animal será submetido a maus-tratos ou a atos cruéis. Se a morte de um animal for necessária, deve ser instantânea, sem dor ou angústia. 1. 2. 3. 1. 2. Análise da declaração universal dos direitos dos animais Embora a declaração tenha como objetivo influenciar novas discussões legais sobre proteção dos animais e não possua força de lei, é notório que novos valores passam a ser reconhecidos, o que acaba estimulando uma nova tomada de consciência pela sociedade e, subsequentemente, induzindo a elaboração de normas regulamentares. A declaração defende o abolicionismo animal quando revela, no art. 1°, que os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência. Abolicionismo animal Abordagem de direito dos animais que defende a abolição total da exploração animal, mesmo que regulamentada, embasada na senciência animal. De forma contraditória, reconhece que animais podem ser explorados pelo homem, desde que sejam tratados com respeito e dignidade, como demonstram os artigos 7° e 9°. Ou seja, a exploração animal para interesse do homem é possível, desde que sejam empregados padrões de tratamento considerados éticos, premissas essas relacionadas pelos que defendem o bem-estar animal, de cunho utilitarista. Utilitarista O utilitarismo foi criado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill no século XVIII, e consiste em uma teoria filosófica que considera um ato como moral e ético se seus efeitos promoverem o bem-estar geral (ou da maioria das pessoas). De acordo com a declaração, animais não devem sofrer, a não ser que seja necessário para atender aos interesses humanos. Nesse caso, a adoção de medidas que promovam o bem-estar animal e o sofrimento desnecessário seriam suficientes. Para a corrente abolicionista, diferentemente da bem-estarista (defende o bem-estar animal), o sofrimento e a morte de animais não são moralmente justificáveis, pois animais possuem valor inerente, interesse em se manterem vivos (conferido pela senciência) e não devem ser tratados como objetos de posse. Cabe, então, refletir se, de fato, a declaração defende o direito à vida dos animais, o que nos leva a outro conceito importante, o de especismo. O termo, criado em 1970 pelo psicólogo britânico Richard Ryder, diz respeito à discriminação do homem por espécies que ele considera inferiores a ele. O especismo conduz à exploração animal, por entender que animais não fazem parte da esfera de consideração moral do homem. No vídeo a seguir, apresentaremos a Declaração Universal dos Direitos dos Animais e sua importância no contexto mundial. Falaremos sobre conceitos como abolicionismo animal e utilitarismo, comparando os direitos animais na Europa e no Brasil. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 1 A Declaração Universal dos Direitos dos Animais, publicada em 1978, confere, de forma clara, direitos aos animais, como o direito à vida e à liberdade, apesar de não possuir força de lei. Sobre seu conteúdo, é correto dizer: A Espetáculos que utilizam animais são incompatíveis com a dignidade deles. B Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais não necessitam de representação em nível governamental. C Todo animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre, porém pode, sob determinadas circunstâncias, ser capturado. D A experimentação animal, ainda que implique sofrimento físico e psicológico, pode ser fundamentada se houver benefício para o homem. E Nenhum animal deve ser criado para alimentação. A alternativa A está correta. Qualquer ato que utilize animais para divertimento do homem é considerado cruel. Atualidades jurídicas sobre proteção dos animais Em alguns países, como a Inglaterra ou os Estados Unidos, o direito animal é uma área específica dentro do direito, o que não ocorre no Brasil. Nesses países, o sistema jurídico é o da commom law, isto é, formado pelo conjunto de costumes e decisões de tribunais. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê,em seu artigo 225, o direito comum ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e proíbe práticas que extingam espécies ou submetam os animais a crueldade. Entretanto, o Código Civil de 2002, no artigo 82, indica: São móveis os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social. Código Civil, 2002, artigo 82 O Código Civil Brasileiro considera animais com capacidade de movimento próprio bens ou coisas, o que não ocorre há algumas décadas em países como Áustria, Suíça e Holanda, os quais adotam, assim como no Brasil, a civil law, isto é, o sistema jurídico baseado no conjunto de leis positivadas (escritas) nos códigos. Tentativas de modificar o Código Civil sobre essa questão vêm sendo defendidas, como o Projeto de Lei do Senado n° 351, de 2015 (PLS 351/15), que acrescenta um parágrafo único ao art. 82, determinando que animais não serão considerados coisas. O pedido se justifica pelo avanço de países europeus em suas legislações, que consideram expressamente que animais não são objetos nem coisas. O projeto destaca ainda a necessidade de se regular os direitos dos animais, a exemplo de outros países europeus, que tratam da dignidade do animal como ser vivo possuidor de direitos. O PLS encontra-se atualmente na Câmara dos Deputados, aguardando votação. O Projeto de Lei Complementar 27/2018 (PLC 27/18) acrescenta dispositivos à Lei nº 9.605/98, a fim de discutir a natureza jurídica dos animais, determinando que: Os animais domésticos e silvestres possuem natureza jurídica sui generis, sendo sujeitos de direitos despersonificados, dos quais podem gozar e obter a tutela jurisdicional em caso de violação, sendo vedado o seu tratamento como coisa. Projeto de Lei Complementar 27/2018 (PLC 27/18) Sujeitos de direitos despersonificados são entidades que não possuem, no direito, autorização para a prática de atos, por não serem consideradas pessoas (físicas ou jurídicas) e necessitam de regulamentação complementar. Com a mudança, busca-se conferir aos animais tratamento de seres sencientes. Críticas ao PLC foram feitas, sob alegação de possíveis problemas para a economia do país, conforme fala do senador Telmário Mota (Pros-RR): “Pode-se exigir o uso de anestésico para abate de animais, uma vez que a lei estipula agora que os animais são sencientes e, por isso, não poderiam sofrer qualquer tipo de dor ao ser abatido. Imaginem quanto isso pode custar para todos os produtores de carne do país! Imaginem o valor que o quilo de alimento poderá custar para nós, consumidores.” O PLC foi aprovado pelo Plenário e se encontra atualmente na Câmara dos Deputados, para votação. Sobre o comentário do parlamentar, que não possui formação técnica nem conhecimento na área, é importante ressaltar que existem procedimentos de abate que não preveem o uso de anestésicos e que são permitidos nos regulamentos para abate de animais publicados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, como a pistola de dardo cativo e a insensibilização elétrica. Importante também destacar que o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em julgamento de Recurso Especial (REsp 1.797.175/SP), utilizou, em seu relatório, o termo guarda, em vez de posse, atribuindo dignidade de direitos aos animais. Adicionalmente, o STJ vem regulamentando visitas a animais de estimação após a dissolução de união estável ou casamento, fixando regime de visitas para ex-companheiros. O STJ entende que animais não podem ser considerados coisas inanimadas. Importante ressaltar que, para o caso em questão, buscou-se preservar a dignidade da pessoa humana e a proteção de seu vínculo afetivo com o animal, e não uma tentativa de humanização do animal, tratando-o como pessoa ou sujeito de direito. Animais silvestres vendidos em mercados clandestinos. Tourada na Espanha. Já o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, em março de 2020, a suspensão, em âmbito nacional, de decisões que autorizem o sacrifício de animais silvestres ou domésticos apreendidos em situação de maus- tratos, incluídos nesses casos os animais de rinhas de galo ou cães. De acordo com o Tribunal, a prática de sacrifício ofenderia preceitos fundamentais inscritos no artigo 225 (parágrafo 1º, inciso VII) da Constituição Federal, descrito a seguir, e, em vez de proteger os animais apreendidos em situação de maus-tratos, estaria permitindo a prática de crueldade. Art. 225 Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. § 1º assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade. Em oposição à deliberação vista, o Congresso Nacional publicou, em 2017, a Emenda Constitucional n° 96 (EC 96/17), que libera vaquejadas e rodeios em todo o território brasileiro. O texto define que não são consideradas modalidades desportivas com animais aquelas que sejam parte de manifestações culturais registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro. A vaquejada e o rodeio já haviam sido reconhecidos dessa forma por lei anterior (Lei 13.364/16). O STF, por sua vez, concluiu em julgamento de Recurso Extraordinário (RE 494.601-RS) que, em matéria de sacrifício de animais em virtude de cultos ou atividades religiosas, não há de se falar em inconstitucionalidade, uma vez que a Constituição Federal edita normas gerais de proteção ambiental, não se pronunciando em relação ao abate de animais para fins religiosos. Portanto, tal regulamentação ficaria a cargo dos estados, que podem permitir o sacrifício de animais pautando-se pela liberdade de crença, considerada princípio constitucional. Apesar de muitos países terem avançado no que diz respeito à proteção animal, ainda é possível verificar que a utilização de animais é adotada com fins econômicos, como no caso das touradas na Espanha. Os eventos, promovidos pelo Ministério da Cultura da Espanha, reúnem cerca de 1 milhão de pessoas anualmente e movimentam mais de 4 bilhões de reais por ano. Apesar de ser considerada como patrimônio cultural, a atividade vem rendendo discussões e protestos contra a morte de touros. Comentário Estima-se que, anualmente, 250 mil touros são mortos em touradas na Espanha. Essa atividade também ocorre, em menor número, em países como Portugal, México, Colômbia e Peru. É possível verificar que o direito dos animais é uma área ainda em crescimento dentro do direito, dada a necessidade de se fomentar discussões acerca da proteção dos animais e da lacuna existente quanto à regulamentação na área. Portanto, é necessário que se desenvolvam projetos visando a conscientização da sociedade e de profissionais da área do direito, para que trabalhem conjuntamente na defesa dos direitos fundamentais do homem, que perpassam os direitos dos animais, em convivência harmoniosa. A comoção e a conscientização por parte da sociedade devem ser os propulsores para a elaboração de leis que regulamentem a proteção aos animais. Outro avanço recente é a Lei n° 15.046, de 2024, que autoriza a criação do Cadastro Nacional de Animais Domésticos. O intuito é centralizar as informações sobre cães e gatos no Brasil, visando combater o abandono e os maus-tratos, facilitar a localização de animais perdidos, reforçar o controle de zoonoses e garantir o bem-estar animal por meio de um registro unificado e padronizado a nível nacional. Já a Lei n° 7.535, de 2024, uma lei do Distrito Federal (DF), reconhece os animais como seres sencientes, capazes de sentir dor e sofrimento, garantindo proteção jurídica contra maus-tratos e assegurando o direito à tutela em caso de violação desses direitos. No vídeo a seguir, explicaremosalgumas leis e projetos de lei atuais relacionados aos direitos dos animais. Analisaremos o que está mudando e o impacto da legislação sobre o bem-estar e a manutenção dos direitos dos animais domésticos, de produção e silvestres. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 2 Os direitos dos animais é assunto ainda carente de discussão no ordenamento jurídico brasileiro. Sobre esse tema, pode-se afirmar: A De acordo com entendimento do STF, qualquer animal silvestre ou doméstico apreendido em situação de maus-tratos deve ser eutanasiado, no intuito de aliviar seu sofrimento. B O Código Civil Brasileiro considera animais como coisas e, portanto, não detentores de direitos. C O STF proibiu a prática de rodeios e vaquejadas em território nacional, por entender que elas estão associadas a práticas de maus-tratos e crueldades contra animais. D Países como Estados Unidos e Inglaterra apresentaram, assim como o Brasil, pouco avanço na discussão para a regulamentação sobre direitos dos animais. E O artigo 225 da Constituição Federal Brasileira profere que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo- se ao Poder Público o dever de preservá-lo”. A alternativa B está correta. O Código Civil Brasileiro considera animais (seres semoventes, ou seja, seres móveis que se movimentam por conta própria) como coisas. Por serem desprovidos de personalidade, não possuem direitos. Aplicando o conhecimento Um médico-veterinário é contratado para atuar como responsável técnico em um evento de vaquejada, uma atividade que, segundo a legislação, é considerada uma manifestação cultural. Durante o evento, ele observa que, apesar de a organização seguir a norma que proíbe instrumentos que causem ferimentos graves, como esporas pontiagudas, os bois e cavalos demonstram sinais de estresse e exaustão, com respiração ofegante e sinais de desconforto evidentes após as provas. O veterinário se depara com um dilema ético: a atividade é legalmente permitida e faz parte do patrimônio cultural, mas, do ponto de vista da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, submeter os animais a essa situação de estresse e desconforto vai contra o princípio de "não submeter a atos cruéis". Assim, ele precisa decidir como conciliar sua responsabilidade técnica e legal com seu dever moral de proteger os animais, levantando a questão sobre a contradição entre a lei e os princípios éticos que deveriam nortear sua profissão. Com base no caso, responda às perguntas a seguir. Questão 1 Com base no caso prático e nos princípios da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, qual é a principal contradição enfrentada pelo veterinário? A A legislação brasileira sobre rodeios e vaquejadas proíbe a participação de cavalos e bois. B A Declaração Universal dos Direitos dos Animais defende o abolicionismo animal, proibindo qualquer tipo de exploração. C A atividade é legalizada no Brasil como manifestação cultural, mas os animais são submetidos a sofrimento e angústia, violando o princípio de não crueldade da declaração. D A Declaração Universal dos Direitos dos Animais não se aplica a animais utilizados em eventos esportivos ou culturais. E O STF determinou que o sacrifício de animais em eventos culturais é inconstitucional. A alternativa C está correta. O caso prático ilustra a contradição entre a legalidade da vaquejada, que é protegida por uma Emenda Constitucional, e os princípios éticos da Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Embora a lei não considere a atividade cruel, a exposição dos animais a estresse e desconforto, como observado pelo veterinário, viola o princípio da declaração que defende que nenhum animal deve ser submetido a maus- tratos ou atos cruéis, nem a angústia. Questão 2 Explique o conflito ético que o veterinário enfrenta, considerando a visão do especismo e o conceito de utilitarismo. Como a atitude do veterinário, ao se preocupar com o bem-estar dos animais, se diferencia da visão de que animais não fazem parte da esfera de consideração moral? Chave de resposta O veterinário enfrenta um conflito entre o que é legal e o que é moralmente aceitável. A legalização da vaquejada como manifestação cultural pode ser vista como uma manifestação do especismo, em que o interesse humano (cultura e entretenimento) é colocado acima do sofrimento dos animais. A visão utilitarista presente na Declaração Universal permite a exploração animal desde que o sofrimento seja minimizado, o que a vaquejada relatada no caso, com estresse e desconforto, falha em fazer. A atitude do veterinário se diferencia por sua preocupação com o bem-estar dos animais, mesmo em um evento cultural, demonstrando que ele os inclui em sua esfera de consideração moral, reconhecendo que eles são seres sencientes e que seu sofrimento não é justificável, mesmo que a lei não o proíba de maneira explícita. Questão 3 Considerando que a Declaração Universal dos Direitos dos Animais não tem força jurídica, mas serve de base para novas legislações, qual seria a melhor forma de o veterinário usar os princípios dessa declaração para promover a melhoria do bem-estar dos animais na vaquejada, sem só proibir a atividade? Proponha uma ação concreta e justifique-a. Chave de resposta Possível ação concreta: o veterinário poderia elaborar um protocolo de bem-estar para o evento, baseado nos princípios da declaração, e apresentá-lo à organização. Esse protocolo incluiria medidas como a redução do tempo de permanência dos animais nos currais, o fornecimento de água e alimento de alta qualidade em abundância, a limitação do número de participações de um mesmo animal por dia e a criação de áreas de descanso sombreadas. Essa ação é justificada porque o veterinário deve agir como um agente de mudança, influenciando a adoção de práticas que minimizem o sofrimento animal. Ao usar a declaração como base para a regulamentação, ele demonstra que é possível conciliar a atividade cultural com o respeito à dignidade e à integridade dos animais, elevando os padrões de bem-estar e servindo de exemplo para outras atividades semelhantes. Resolução do caso No vídeo a seguir, a professora apresenta e comenta o caso apresentado. Acompanhe! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 3. Órgãos de controle e proteção do bem-estar animal Mecanismos de proteção animal Ao longo da História, o antropocentrismo foi sendo substituído pelo ecocentrismo, reconhecendo que o homem faz parte de um ecossistema e que os outros seres são também merecedores de respeito e de direitos. O homem não mais se encontra no centro do Universo, mas é parte integrante dele, juntamente aos outros seres. Pudemos também verificar como o direito evoluiu nesse sentido, ao regulamentar o uso de animais nos diferentes segmentos. Porém, de que forma os animais podem ser protegidos, já que não são detentores de direitos em nosso ordenamento jurídico? Antropocentrismo É uma concepção que considera que a humanidade deve permanecer no centro do entendimento dos humanos, isto é, o Universo deve ser avaliado de acordo com a sua relação com o ser humano, sendo que as demais espécies, bem como tudo o que existe, estão aí para servir ao homem. CONCEA É o órgão do atual Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e foi criado pela Lei 11.794/08 (Lei Arouca), com a finalidade de garantir tratamento humanitário e ético a todos os animais utilizados em atividades de ensino ou pesquisa científica no território nacional. As referências adotadas pelo CONCEA para a proposição de normas se originam de agências regulatórias internacionais, principalmente dos Estados Unidos da América e de países da Europa, em virtude do avanço das discussões sobre políticas éticas para o uso de animais nesses países. O CONCEA é um órgão deliberativo, normativo, consultivo e recursal. Com a sua criação e o estabelecimento de regras para o uso de animais emensino e pesquisa, o princípio dos 3 Rs passou a ser obrigatoriamente adotado. O Decreto 6.899/09 estabelece as normas para o funcionamento do CONCEA e cria o CIUCA (Cadastro das Instituições de Uso Científico de Animais). Como competências do CONCEA, podemos destacar as seguintes: Formular e zelar pelo cumprimento das normas relativas à utilização humanitária e ética de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica. Credenciar instituições para criação ou utilização de animais com finalidade de ensino ou pesquisa científica, estabelecendo e revendo normas de credenciamento. Monitorar e avaliar a introdução de técnicas alternativas que substituam a utilização de animais em ensino ou pesquisa científica. Estabelecer e rever, periodicamente, as normas para uso e cuidados com animais para ensino e pesquisa científica, em consonância com as convenções internacionais das quais o Brasil seja signatário. Manter cadastro atualizado de protocolos experimentais ou pedagógicos, assim como dos pesquisadores, a partir de informações remetidas pelas CEUAs. Apreciar e decidir recursos interpostos contra decisões das CEUAs. • • • • • • Biotério para criação de animais utilizados em pesquisas. O CONCEA é presidido pelo ministro da Ciência e Tecnologia, por representantes de outros ministérios e por cidadãos brasileiros com grau acadêmico de doutor ou equivalente nas áreas de ciências agrárias e biológicas, saúde humana e animal, biotecnologia, bioquímica ou ética, caracterizando a multidisciplinaridade do órgão. O CIUCA destina-se ao registro das instituições para criação ou utilização de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica, dos protocolos experimentais ou pedagógicos em andamento no país, assim como dos pesquisadores, a partir de informações remetidas pelas CEUAs, além das solicitações de credenciamento institucional no CONCEA. O CONCEA também delibera quanto à aplicação de sanções para o uso indevido de animais, e considera como infração administrativa o que consta do artigo 46 do decreto, conforme descrito abaixo: I - criar ou utilizar animais em atividades de ensino e pesquisa científica como pessoa física em atuação autônoma; II - criar ou utilizar animais em atividades de ensino e pesquisa científica sem estar credenciado no CONCEA ou em desacordo com as normas por ele expedidas; III - deixar de oferecer cuidados especiais aos animais antes, durante e após as intervenções recomendadas nos protocolos dos experimentos(...); IV - deixar de submeter o animal a eutanásia, dada as prescrições pertinentes a cada espécie, conforme as diretrizes do Ministério da Ciência e Tecnologia, sempre que, encerrado o experimento ou em qualquer de suas fases, for tecnicamente recomendado o procedimento ou quando ocorrer intenso sofrimento (...); V - realizar experimentos que possam causar dor ou angústia sem sedação, analgesia ou anestesia adequadas; VI - realizar experimentos cujo objetivo seja o estudo dos processos relacionados à dor e à angústia sem autorização específica da CEUA; VII - utilizar bloqueadores neuromusculares ou relaxantes musculares em substituição a substâncias sedativas, analgésicas ou anestésicas; VIII - reutilizar o mesmo animal depois de alcançado o objetivo principal do projeto de pesquisa; IX - realizar trabalhos de criação e experimentação de animais em sistemas fechados em desacordo com as condições e normas de segurança recomendadas pelos organismos internacionais aos quais o Brasil se vincula; X - realizar, em programa de ensino, vários procedimentos traumáticos num mesmo animal, sem que todos os procedimentos sejam executados durante os efeitos de um único anestésico ou sem que o animal seja sacrificado antes de recobrar o sentido; XI - realizar pesquisa científica ou atividade de ensino reguladas por esse Decreto sem supervisão de profissional de nível superior, graduado ou pós-graduado na área biomédica (...). • • • • • • • • • • • O CONCEA não possui poder fiscalizatório, mas determina que qualquer pessoa pode oferecer denúncia a respeito de procedimentos em desacordo com o Decreto 6.899/09 ao próprio CONCEA e a órgão ou entidade de fiscalização competente, como os conselhos de regulamentação profissional. Em caso de conclusão de prática em desacordo com o que regulamenta o CONCEA, as sanções previstas são as seguintes: Para pessoas jurídicas São consideradas pessoas jurídicas os estabelecimentos credenciados no CONCEA ou em situação de clandestinidade, aos quais se aplicam: Advertência. Multa de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) a R$ 20.000,00 (vinte mil reais). Interdição temporária. Suspensão de financiamentos provenientes de fontes oficiais de crédito e fomento científico. Interdição definitiva. Para pessoas físicas São consideradas pessoas físicas os pesquisadores envolvidos em experimentos e docentes em procedimentos pedagógicos, aos quais se aplicam: Advertência. Multa de R$ 1.000,00 (mil reais) a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Suspensão temporária. Interdição definitiva para o exercício da atividade. O CONCEA é também responsável pela publicação de guias para cuidado, criação, manejo e experimentação destinadas às diferentes espécies animais utilizadas em ensino e pesquisa, que fornecem de forma detalhada os procedimentos permitidos ou proibidos conduzidos com animais. Neste vídeo, falaremos sobre a função e a importância do CONCEA, suas principais competências e as infrações que fiscaliza, a partir de exemplos. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade 1 • • • • • • • • • O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), órgão criado pela Lei Arouca e pertencente ao atual Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, possui como competências, entre outras: A Credenciar as comissões de ética no uso de animais. B Manter cadastro de protocolos experimentais ou de ensino, repassados pelas CEUAs locais. C Fiscalizar estabelecimentos credenciados, para atendimento a denúncias de procedimentos proibidos ou inadequados. D Implementar a introdução de técnicas alternativas que substituam a utilização de animais. E Apreciar e decidir sobre recursos interpostos contra decisões dos conselhos regionais de medicina veterinária. A alternativa B está correta. Uma das competências do CONCEA é manter cadastro atualizado dos protocolos de ensino/pesquisa, assim como dos pesquisadores vinculados, a fim de monitorar o uso de animais nas instituições credenciadas. Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) As CEUAs foram instituídas pela Lei Arouca (Lei 11.794/08), a qual condiciona o credenciamento institucional no CONCEA à constituição prévia da CEUA. A Resolução Normativa n° 1, de 2010 (RN 01/10) do CONCEA, estabelece que cada instituição de ensino (técnico ou superior) ou pesquisa científica com animais (pública ou privada) deverá constituir sua própria CEUA, que deverá ser integrada, obrigatoriamente, por: Médicos-veterinários e biólogos. Docentes e pesquisadores na área específica. Um representante de sociedades protetoras de animais legalmente estabelecidas no país, na forma do regulamento. Caso não ocorra indicação de membro de sociedade protetora de animais, deve ser apresentada recusa de no mínimo três convites formais destinados a essas instituições com posterior indicação de consultor ad hoc (O termo significa “para esta finalidade”), com notório saber e experiência em uso ético de animais. Os membros da CEUA, de acordo com o Decreto 6.899/09, devem possuir reconhecida competência técnica e notório saber, em nível superior ou pós-graduação, e com destacada atividade profissional nas áreas anteriormente descritas. A CEUA deve contar com membros titulares e suplentes. • • • Destacam-se como competências da CEUA, de acordo com o artigo 6º da RN 01/10, entre outras: I - cumprir e fazer cumprir (...) o disposto na Lei n.º 11.794/08,