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45 ECONOMIA E NEGÓCIOS Unidade II 5 MICROECONOMIA E MERCADOS Vejamos, inicialmente, do que trata a economia. Os economistas, em geral, admitem que a discussão sobre economia surge no mesmo período da Revolução Industrial e com o desenvolvimento dos mecanismos de mercado de formação de preço e alocação dos recursos de produção. Assim, a economia é percebida como uma ciência já no século XIX e, desde então, seus especialistas debatem incansavelmente sobre seu campo de atuação e seus limites. Do ponto de vista antropológico, o ser humano vem estabelecendo relações de troca com seu grupo e com a natureza desde sempre, assim o fazendo, em parte, para garantir as condições materiais necessárias para a sua sobrevivência. Em período anterior ao século XVIII, havia atividade econômica, e sobre ela foram escritas obras e realizados estudos. Saiba mais O filme indicado a seguir mostra os diferentes estágios do desenvolvimento social da espécie humana. Embora ele tenha tomado a liberdade de colocar todos os estágios como se tivessem ocorrido simultaneamente, você poderá perceber o valor e a importância de cada transformação e o quanto nossa sociedade e nosso modo de viver foram historicamente construídos ao longo do tempo. A GUERRA do fogo. Direção: Jean‑Jacques Annaud. Canadá: Lume Filmes, 1981. 97 min. No entanto, consideramos a gênese da ciência econômica como aquela relacionada à investigação de uma determinada forma de organização econômica, qual seja, aquela que resulta das relações existentes no mercado. Uma explicação possível é que, apenas a partir do nascimento da economia de mercado tornou‑se possível falar em atos econômicos com interesses e objetivos essencialmente econômicos; que apenas a partir do advento da economia de mercado as relações sociais passaram a ser explicadas em função de um sistema econômico organizado. Como era organizada a produção de bens e serviços antes da economia de mercado? Naquele tempo, o chefe de família provia sua prole, era isso o que a sociedade esperava dele. As trocas eram realizadas não para o lucro, mas para a sobrevivência material. Produzia‑se comida não para vendê‑la e, a partir da venda, obtinha‑se lucro; produzia‑se para consumir. Após a instituição de governo, 46 Unidade II este passou a distribuir a riqueza para os cidadãos, esse era o seu papel. É apenas com o advento do capitalismo que os fatores de produção (mão de obra, terra, conhecimento técnico, capacidade empresarial e dinheiro, entre outros) não apenas são dirigidos ao mercado, mas passam a fazer parte dele. Compra‑se e vende‑se mão de obra. Compra‑se e vende‑se conhecimento. O dinheiro passa a ter um custo, mensurado por meio dos juros que os bancos cobram para fornecê‑lo sob a forma de crédito. Trabalha‑se não para produzir os bens necessários, mas para obter recursos capazes de serem trocados pelos bens necessários. Essa é uma diferença fundamental e que marca um momento de transição nas formas de organização da sociedade. Normalmente, os atos econômicos anteriores às sociedades capitalistas, ou que nelas não estejam inseridos, são objeto de estudo dos antropólogos econômicos. Considerando nossos objetivos, basta não confundirmos a economia (ciência) com o próprio sistema de mercado. Entende‑se por ciência econômica a ciência que investiga como fatores escassos de produção são alocados para a produção de bens e serviços que se destinam a saciar necessidades ilimitadas. Em contrapartida, economia de mercado, e aquela relacionada aos negócios, representa a forma pela qual, nas sociedades capitalistas, a reprodução material das sociedades passou a acontecer por meio de instituições orientadas para objetivos econômicos, como os mercados (CERQUEIRA, 2001, p. 399). Assim, nos mercados, as trocas produzem preços, sendo essas “trocas realizadas como resultado de barganha, de uma negociação, onde cada parte é livre para buscar sua vantagem e não tem que se submeter, por exemplo, a preços pré‑estabelecidos por algum agente regulador externo” (CERQUEIRA, 2001, p. 400). Portanto, compreenderemos que, na economia de mercado, toda a organização da produção é confiada aos mercados, que compõem um sistema autorregulado: indivíduos perseguindo apenas seu interesse pessoal ofertam e demandam mercadorias, fazendo com que estes bens alcancem um preço determinado. As decisões sobre o que e quanto produzir serão tomadas com base apenas nos preços informados pelos mercados, que sinalizam as expectativas de ganho em cada processo produtivo. Da mesma maneira, a distribuição do produto depende apenas de preços, já que eles formam os rendimentos de cada indivíduo: aluguel e salários são os preços do uso da terra e da força de trabalho; o lucro é a diferença entre o preço do produto e os preços dos insumos necessários para sua produção. Em resumo, a reprodução material da sociedade depende de que tudo alcance um preço, ou seja, se comporte como uma mercadoria, inclusive a terra e o trabalho (CERQUEIRA, 2001, p. 402). Seria possível haver economia sem economia de mercado? Os economistas não respondem de forma consensual e unânime à questão. Para Judensnaider e Manzalli (2011), o surgimento da economia ocorreu não apenas por que a estrutura econômica passou a ser a de mercado (finalmente havendo o que se investigar), mas porque as condições do pensamento científico daquele momento permitiram que ela, enquanto saber, se organizasse, enfim, de forma sistemática e autônoma. Também é importante ressaltar que somente naquele momento (e, de forma hegemônica, até os dias de hoje), o que se há para investigar são justamente as relações que se estabelecem no mercado. Considerar como seu objeto de análise única e simplesmente a economia de mercado significa represá‑la de forma tautológica à 47 ECONOMIA E NEGÓCIOS imutabilidade das estruturas e relações materiais tais como as desenvolvidas no Ocidente a partir do século XVIII: a economia, sob essa ótica, seria tão somente o estudo das maneiras como o Ocidente se organizou em termos de determinada estrutura econômica. Saiba mais É interessante, nos tempos atuais, a produção de uma enormidade de estudos relacionados a outras culturas, particularmente em relação às respostas dadas por elas aos problemas de produção de bens e serviços capazes de satisfazer as necessidades da comunidade. Nesse sentido, recomenda‑se acessar o site da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Disponível em: http://www.portal.abant.org.br. Acesso em: 3 abr. 2023. Embora isso acrescente dificuldade à investigação econômica, há que se considerar, portanto, que o sistema de mercado foi historicamente construído, não sendo “uma entidade acima do tempo e do espaço” (SILVEIRA, 2007, p. 8). Da mesma forma, os pressupostos comportamentais de racionalidade econômica (autointeresse e propensão para o lucro) não são naturais, mas socialmente construídos. Há economia sem mercado? Apesar de a antropologia ter demonstrado a existência de outras racionalidades socioeconômicas, “é intrínseca à racionalidade econômica moderna, como uma espécie de monopólio epistemológico e moral, a desvalorização dos outros modos de vida diferentes do conduzido pela lei do valor” (SILVEIRA, 2007, p. 7). Conforme Judensnaider e Manzalli (2011), os economistas ainda estão a debater possíveis respostas a essa pergunta e, embora esse debate seja extremamente interessante, ele extrapola os limites deste livro‑texto. Assim, assumiremos que, segundo os parâmetros científicos da modernidade, a economia nasceu na época de Adam Smith, no século XVIII, sendo Riqueza das nações um texto fundador, obra que marca uma mudança na natureza da reflexão sobre os temas econômicos, não tanto pela criação de novos conceitos, mas pelo estabelecimento de um novo arranjo dos conceitos, de um novo ponto de vista. Não se trata apenas do fato de que a reflexão sobre assuntos econômicos tenha deixado de ser tópica, fragmentada e guiada por interesses essencialmenteequilíbrio inicial. Desenhe o diagrama de oferta e demanda. Dê um nome ao preço e ao produto inicial de equilíbrio; 87 ECONOMIA E NEGÓCIOS 2. evento e deslocamento. Algum evento ocorre. Pergunte‑se como a demanda e a oferta se alterariam se o preço não mudasse de seu nível inicial. Desenhe a nova curva de oferta ou demanda; 3. permita que o preço mude. Ao preço antigo, uma falta ou um excesso do bem ocorreria. Uma falta resultará em um preço mais alto. Um excesso resultará em um preço mais baixo. Como uma mudança no preço nunca desloca as curvas, não desenhe nenhuma curva mais; 4. novo equilíbrio. O novo preço e a nova quantidade de equilíbrio estarão no ponto no qual as novas curvas de oferta e demanda se cruzem. Saiba mais Para se aprofundar nos deslocamentos das curvas de demanda e de oferta, leia o livro indicado a seguir. Há um capítulo dedicado inteiramente ao assunto e com muitos exemplos de aplicação. Não deixe de consultá‑lo. PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de economia. 7. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2016. 6 ESTRUTURAS DE MERCADO: VISÃO CONCEITUAL Esse tema aborda a forma como as empresas estão divididas nos diversos ramos de atividade econômica. Envolve analisar o tipo de produto que produzem, bem como o comportamento de seus concorrentes. Por fim, neste tópico conheceremos qual é a estratégia que as empresas utilizam para determinar seus lucros. As várias formas ou estruturas de mercado que as empresas se encontram dependem, fundamentalmente, de três características: • número de empresas que compõem esse mercado; • tipo de produto; • existência ou não de barreiras ao acesso de novas empresas. São basicamente quatro as estruturas de mercado predominantes: o mercado de concorrência perfeita, o de monopólio, a concorrência monopolística e o oligopólio. Vamos conhecê‑los? 88 Unidade II 6.1 Concorrência perfeita e imperfeita Um mercado de concorrência perfeita é um tipo de mercado em que há grande número de vendedores e de compradores, de tal sorte que cada um deles, isoladamente, detém poder insignificante, não afetando os níveis de oferta e de demanda de mercado e, consequentemente, o preço de equilíbrio. Para que um mercado seja de concorrência perfeita, algumas características devem ser reunidas, como: • grande quantidade de compradores para grande quantidade de vendedores; • produto homogêneo; • mercado transparente; • total liberdade à entrada e saída de agentes, tanto compradores quanto vendedores; • mercado atomizado; • empresas seguidoras de preços de mercado. Figura 44 – A feira livre é um exemplo de mercado em concorrência perfeita Disponível em: https://cutt.ly/QwqR0Ycs. Acesso em: 25 maio 2023. A feira livre é um exemplo de mercado onde se encontram aqueles que oferecem produtos e aqueles que têm a intenção de comprá‑los. É do encontro entre essas diferentes expectativas que se formam os preços. Nesse tipo de mercado, no longo prazo, não existem lucros extraordinários (quando as receitas superam os custos), mas apenas os chamados lucros normais, que representam a remuneração implícita do empresário. 89 ECONOMIA E NEGÓCIOS Observação Do ponto de vista da teoria microeconômica, a estrutura de mercado de concorrência perfeita é uma construção teórica, simplificada da realidade, por assumir que, a partir da construção de modelos simples, pode‑se explicar a realidade mais complexa. Construção teórica ou não, o fato é que uma empresa atuando como concorrente perfeito também terá o objetivo de lucro. Melhor ainda: terá como objetivo a maximização de seu lucro e, assim, precisa decidir quais quantidades produzidas são aquelas que atingem o objetivo. Como se trata de um mercado em que há muitos vendedores de um mesmo produto, a margem de manobra quanto ao preço de venda da mercadoria fica bastante prejudicada, por isso o preço é fixado pelo mercado. Nesse tipo de mercado, a curva de demanda tem a configuração de uma reta, mostrando o preço estabelecido pelo mercado, e todas as firmas componentes desse mercado tornam‑se tomadoras de preços. Nenhuma firma isoladamente tem condições de alterar o preço ou praticar preço superior ao fixado pelo mercado. Contudo, diante do preço dado pelo mercado, ela poderá vender quanto puder, limitada apenas por sua estrutura de produção e custos. (a) P P* P E E Q*Q* Q Q D D O (b) Cmg Figura 45 – Curvas de demanda e oferta em concorrência perfeita Em concorrência perfeita, como a quantidade demandada e a quantidade ofertada do bem se dão por muitos compradores e por muitos vendedores, o preço é estabelecido a partir do encontro das curvas de demanda e de oferta. No gráfico (b) da figura anterior, a curva de demanda se transforma na própria curva do preço que foi obtida no ponto de equilíbrio, conforme ilustrado no gráfico (a). Portanto, 90 Unidade II o preço do bem é fixado pelo mercado e, após isso, as firmas seguem o preço estipulado. Dessa forma, são também chamadas de seguidoras de preços ou tomadoras de preços. Cabe às empresas administrar sua função custo para que haja lucros normais. A função custo desse tipo de empresa é representada pela curva de custo marginal, Cmg, e o ponto de equilíbrio nesse mercado passa a ser determinado pela intersecção das curvas de demanda e custo marginal. Assim, cabe uma pergunta: onde reside o ganho da empresa em mercado de concorrência perfeita? Resposta: nas quantidades que consegue comercializar ou na oportunidade de oferecer alguma diferenciação naquilo que comercializa. Observação Embora alface seja um produto homogêneo, dentro da homogeneidade do bem, há algumas ramificações: alface lisa, crespa, romana, americana, mimosa, roxa. Referem‑se ao mesmo bem, mas são diferentes. Figura 46 – O mercado produtor de laranjas funciona praticamente em uma estrutura de concorrência perfeita Disponível em: https://bit.ly/3Ks3dWG. Acesso em: 3 abr. 2023. O mercado de monopólio apresenta condições diametralmente opostas às da concorrência perfeita. Nele existe, de um lado, um único empresário dominando inteiramente a oferta e, de outro, todos os consumidores. Não há, portanto, concorrência nem produto substituto. Nesse caso, ou os consumidores se submetem às condições impostas pelo vendedor, ou simplesmente deixarão de consumir o bem ou serviço. O fornecimento de energia elétrica nas cidades é um exemplo de empresa em monopólio. Para existir monopólios, deve haver barreiras que impeçam a entrada de novas firmas no mercado. Essas barreiras podem advir de diversas formas, sendo o monopólio puro ou natural uma delas. Esse caso ocorre quando o mercado, por suas próprias características, exige a instalação de grandes plantas industriais, as quais operam normalmente com economias de escala e a custos unitários bastante baixos, possibilitando à empresa cobrar preços baixos por seu bem ou serviço, o que acaba praticamente inviabilizando a entrada de novos concorrentes. 91 ECONOMIA E NEGÓCIOS Podemos elencar ainda como barreiras: • elevado volume de capital requerido para montar uma indústria monopolista; • as marcas e patentes; • o controle de matéria‑prima específica; • as instituições. A legislação brasileira proíbe a existência de monopólio, permitido apenas para aqueles segmentos de mercado em que, para o perfeito funcionamento, deveria existir apenas uma empresa. São os chamados monopólios institucionais ou estatais considerados estratégicos ou de segurança nacional, por exemplo, a energia elétrica e o petróleo. Figura 47 – O setor de energia elétrica representa monopólio Disponível em: https://bit.ly/40BGOf9. Acesso em: 3 abr. 2023. Diferentemente da concorrência perfeita, como existem barreiras à entrada de novas empresas, os lucros extraordinários devem persistir também no longo prazo em mercados monopolizados. Vejamos a demanda do monopolista na figura a seguir, onde: P = preço Q = quantidade Cmg = custo marginal D = demanda 92 Unidade II Rme = receita médiaRmg = receita marginal Om = quantidade ofertada pelo monopolista Pm = preço cobrado pelo monopolista Qm = quantidade demandada pelos consumidores Pmáx = preço maximizador de lucros Qmáx = quantidade maximizadora de lucros P Cmg Om E Pm Pmáx Qmáx Qm Q D = Rme Rmg Figura 48 – Demanda do monopolista Precisamos agora interpretar a leitura do gráfico para compreendê‑lo. A curva de demanda do monopolista representada por D reflete o quanto o monopolista necessita atender à demanda de mercado, pois é a única empresa a oferecer o bem e a prestar o serviço. Assim, a curva de demanda também reflete a receita média do monopolista, Rme, representando a receita por unidade de produto vendido, e é calculada pelo emprego da seguinte expressão: Rme = RT / Q 93 ECONOMIA E NEGÓCIOS Onde: Rme = receita média RT = receita total de vendas Q = quantidade vendida do bem ou serviço Nessa estrutura de mercado, a curva de demanda da empresa é a própria curva de demanda do mercado como um todo, D. Como a empresa é exclusiva no mercado, não está sujeita aos preços vigentes. Todavia, isso não significa que poderá aumentar os preços indefinidamente. A curva de custo marginal reflete as mesmas relações daquelas acentuadas para o caso da concorrência perfeita. Agora aparece mais uma curva, a receita marginal, Rmg. Apresenta o acréscimo de receita à medida que são aumentadas as quantidades comercializadas. Ela pode ser obtida pelo emprego da expressão: Rmg = ∆RT / ∆Q Onde: Rmg = receita marginal ∆RT = variação da receita total ∆Q = variação da quantidade Conforme o gráfico anterior, o monopolista não utiliza a igualdade entre oferta e demanda para determinar os preços e a quantidade de equilíbrio. A maximização dos lucros é obtida igualando‑se o custo marginal (Cmg) à receita marginal (Rmg). Essa quantidade indicada por Qmáx combina com o Pmáx, que significam, respectivamente, quantidade maximizadora de lucros e preço maximizador de lucros. Nesse ponto, o lucro econômico é normal, pois há igualdade entre Rmg e Cmg. O que se gasta a mais para produzir é exatamente o volume de receita auferida pela venda de unidades adicionais. Bem sabemos que uma situação como essa não deve perdurar em situação de monopólio puro, haja vista a existência de apenas uma unidade empresarial de oferta. Assim, a empresa em monopólio exercerá seu poder de influência de mercado e adotará uma política de preços mais elevados do que aquele que gera o lucro normal. Procurará algum ponto em que o lucro extraordinário esteja presente. Tal ponto é representado no gráfico em Om, oferta de monopólio, em que Pm, preço cobrado pelo monopolista, combine com Qmáx. O que isso significa? Significa que a empresa em monopólio oferece menores quantidades do que aquelas requeridas pela demanda, cobrando um preço mais elevado do que o real necessário. Assim, a empresa em monopólio é conhecida como ditadora de preços, estabelecedora de preços. 94 Unidade II Conforme Silva e Luiz (2018, p. 186), O monopólio puro é um tipo extremo de mercado, em que apenas uma empresa vende um produto para o qual não existem bons substitutos. A importância dessa empresa no mercado é absoluta, pois com o encerramento de suas atividades o mercado deixaria de existir, pelo fato de o bem fabricado por ela não mais ser ofertado. O produto ofertado nesse mercado é diferenciado, não homogêneo, não havendo possibilidade de ser substituído por outros satisfatoriamente. O monopólio puro também é uma situação de mercado dificilmente encontrada no mundo real. Na iniciativa privada, esse tipo de mercado não é encontrado pelo fato de ser impossível para qualquer empresa que esteja operando nesse regime impedir a entrada de outra empresa no mercado ofertando um produto similar ao seu. Os únicos casos de monopólio puro são encontrados no setor público, como o abastecimento de água de uma cidade, que está a cargo do governo estadual ou da prefeitura. Nesse caso, temos realmente um monopólio puro, pois a companhia que fornece a água é a única naquele mercado, ou seja, na cidade, e a água não tem nenhum substituto próximo satisfatório. Saiba mais Sobre o monopólio, ou situação de monopólio, leia a matéria indicada a seguir, de Brian LaSorsa. O site também possui outros textos relacionados ao assunto. LASORSA, B. Cinco maneiras de se criar um monopólio. Mises Brasil, 7 nov. 2013. Disponível em: https://bit.ly/40DYOp5. Acesso em: 3 abr. 2023. O oligopólio é um tipo de estrutura marcada por um pequeno número de empresas que dominam a oferta de mercado. Pode caracterizar‑se como um mercado em que há pequeno número de empresas, como a indústria automobilística, ou então onde há grande número de empresas, mas poucas dominam o mercado, a exemplo da indústria de bebidas. A aviação aérea é outro exemplo de oligopólio. 95 ECONOMIA E NEGÓCIOS Figura 49 – A aviação aérea comercial é um exemplo de oligopólio Disponível em: https://bit.ly/3m6FIcj. Acesso em: 3 abr. 2023. Conforme Silva e Luiz (2018, p. 186), O oligopólio é um regime de mercado intermediário entre a concorrência pura e o monopólio puro. No oligopólio, temos um número de produtores pequeno o suficiente para que cada empresa seja importante, de modo que as ações de uma afetam as demais e os preços dos bens por elas produzidos. Além disso, esses bens, apesar de perfeitamente substituíveis entre si, são diferenciados, permitindo que o consumidor saiba exatamente qual empresa produziu determinado produto. No oligopólio, tanto as quantidades ofertadas quanto os preços podem ser fixados entre as empresas por meio de conluios ou cartéis. Normalmente, as empresas discutem suas estruturas de custos, embora o mesmo não ocorra com relação a sua estratégia de produção e de marketing. Há uma empresa líder que, via de regra, fixa o preço, respeitando as estruturas de custos das demais, e há empresas satélites, que seguem as regras ditadas pelas líderes. Esse é um modelo chamado de liderança de preços. Ainda para Silva e Luiz (2018, p. 186, grifo nosso), Esse regime de mercado [o oligopólio] talvez seja o mais comumente encontrado na vida real. Os exemplos que podem ser citados são vários, indo desde bens de consumo duráveis, como os eletrodomésticos em geral e os automóveis, até bens de consumo não duráveis, como sabão em pó e pasta de dente. O que caracteriza, à primeira vista, um caso concreto de oligopólio é a marca do produto. De fato, as geladeiras, por exemplo, são conhecidas pelo consumidor por suas marcas, que identificam sua origem e a empresa que as produziu. E embora todas as geladeiras prestem o mesmo tipo de serviço e satisfaçam às mesmas necessidades, cada consumidor individualmente prefere esta ou aquela marca. O mesmo acontece com o sabão em pó e os automóveis. 96 Unidade II Quanto aos objetivos da empresa oligopolista de maximização de lucros, a teoria microeconômica apresenta duas correntes: aquela oferecida pela teoria marginalista e aquela oferecida pela organização industrial (PASSOS; NOGAMI, 2016). Pela abordagem marginalista, a maximização de lucros se dá por: LT = RT – CT Onde: LT = lucro total RT = receita total CT = custo total Observação De acordo com essa abordagem, basta então que os custos de produção sejam menores do que as receitas de vendas, que haverá lucros para essa empresa oligopolista. A abordagem da organização industrial não enfatiza a maximização de lucros pura e simples, mas sim a maximização de mark‑up. A teoria do mark‑up repousa na constatação empírica de que as empresas não conseguem prever adequadamente a demanda por seu produto e, portanto, suas receitas, mas conhecem seus custos. Como tem poder oligopolista, elas podem fixar os preços com base nos custos. Difere da teoria marginalista, na qual a empresa, para fixar seu preço no lucro máximo, precisa prever também as receitas, o que envolve conhecer a demanda por seu produto, para igualar suas receitas marginais aos custos marginais.Para que a empresa chegue a seu preço de venda, deverá ter em mente seus custos de produção e qual será sua taxa de mark‑up. Dessa forma, o preço será composto de: p = (1 + m)c Onde: p = preço do produto m = taxa de mark‑up, que é uma porcentagem sobre os custos diretos c = custo direto unitário 97 ECONOMIA E NEGÓCIOS Portanto, o mark‑up será dado pela diferença entre a receita de vendas e os custos diretos. mark‑up = RT – custos diretos Observação A taxa de mark‑up deve cobrir, além dos custos diretos, os custos fixos, e atender certa taxa de rentabilidade desejada pela empresa oligopolista. A concorrência monopolista é uma estrutura intermediária entre a concorrência perfeita e o monopólio, mas que não se confunde com o oligopólio. Há número relativamente grande de empresas com poder concorrencial, porém com segmentos de mercados e produtos diferenciados, seja por características físicas, seja por embalagens, seja por prestação de serviços. Figura 50 – Restaurantes são exemplos de concorrência monopolística Disponível em: https://bit.ly/40DwlQa. Acesso em: 3 abr. 2023. Essas empresas detêm alguma margem de manobra para fixação dos preços, mas não é muito ampla, uma vez que existem produtos substitutos no mercado. Essas características acabam conferindo um pequeno poder monopolista sobre o preço de seu produto, embora o mercado seja competitivo. Conforme explicam Silva e Luiz (2018, p. 187), A concorrência monopolística é uma situação de mercado em que há um número suficientemente grande de produtores, de modo que cada produtor individualmente não é importante. Todos eles produzem um mesmo produto, mas na mente dos consumidores cada um deles é diferente dos demais, de acordo com a empresa que o produz. Neste caso temos um elemento da concorrência perfeita, que é o razoável número de empresas produzindo o 98 Unidade II mesmo bem, de modo que a saída de uma empresa do mercado não tem efeito sobre as demais. Temos, também uma característica do oligopólio, que é o fato de cada produto ser diferente dos demais – pelo menos na mente do consumidor –, apesar de altamente substituíveis entre si. Como exemplos, temos as fábricas de roupas da moda, os produtos têxteis e a prestação de serviços em grandes cidades. O quadro a seguir sumariza as principais estruturas de mercado e suas características. Quadro 3 Estrutura Número de empresas Diferenciação do produto Condições de entrada e saída Influência sobre o preço Exemplos Concorrência perfeita Muitas Produto homogêneo Fácil Nenhuma, pois são tomadoras de preços Alguns produtos agrícolas Monopólio Uma Produto único, sem substituto próximo Difícil Forte Serviços de energia elétrica Concorrência monopolista Muitas Produto diferenciado Fácil Leve Comércio varejista, restaurantes, farmácias etc. Oligopólio Poucas Homogêneo ou diferenciado Difícil Considerável Homogêneo: alumínio Diferenciado: automóveis Adaptado de: Passos e Nogami (2016). 99 ECONOMIA E NEGÓCIOS Resumo Esta unidade apresentou o estudo da teoria microeconômica. Iniciamos o texto descrevendo as questões centrais da teoria, e a principal delas é que, para analisar um mercado específico, a microeconomia desenvolveu um conjunto de pressupostos que garante a aplicabilidade dos dados analisados. Isso é permitido pelo uso da hipótese coeteris paribus, em que o analista microeconômico, ou microeconomista, se preferir, consegue direcionar seu foco exclusivamente ao mercado escolhido para análise. Outro pressuposto de grande importância reside no princípio da racionalidade, indicando que os agentes econômicos envolvidos no estudo buscarão sempre a maximização de sua função utilidade. Depois, passamos a entender a teoria do consumidor, quando acentuamos a teoria da demanda. Percebemos que esta explica o comportamento racional do consumidor diante da grande variedade de bens que têm à sua disposição. Para o desenvolvimento da teoria da demanda, destacamos conceitos e definições do que influencia o consumo, bem como a função demanda com seus determinantes. Vimos que o preço do bem não é o único fator que determina consumo e que deve ser analisado ponderando‑se as condições do momento. Avançamos na teoria com a apresentação da curva de demanda e a lei geral da demanda. Também acentuamos os ofertantes. Após apresentar a teoria da oferta, percebemos que ela explica o comportamento do vendedor, do produtor, do ofertante, portanto, que a análise deste difere completamente da análise do consumidor. Nesse aspecto, estudamos a lei geral da oferta, sobretudo, a curva de oferta. Como os conceitos de demanda e oferta pressupõem a ideia de mercado, esta unidade ilustrou o funcionamento de mercado a partir das funções mencionadas anteriormente. Percebemos que, apesar da existência de conflitos entre as duas partes – demandantes e ofertantes –, há um ponto de satisfação entre eles. Chamamos esse ponto de ponto de equilíbrio. No curto prazo, o ponto de equilíbrio é estático, porém não permanente no longo prazo. Condições da demanda ou da oferta, ou seja, condições de mercado, deslocam o ponto de equilíbrio entre preços e quantidades para mais ou para menos, dependendo da influência recebida. Para tanto, deslocamentos das curvas de demanda e de oferta foram analisados. 100 Unidade II Em seguida, estudamos as estruturas de mercado, notadamente, o reconhecimento de como são estabelecidos os preços de mercado por diferentes empresas em diferentes situações de produção e concorrência. A concorrência perfeita foi o primeiro mercado a ser estudado, por apresentar‑se mais simples do que os demais. Vimos que a principal característica desse tipo de mercado é a ausência de poder de decisão aos agentes individuais, mas forte em termos coletivos. O monopólio, estrutura de mercado extremamente diferente da concorrência perfeita, também foi considerado. Neste, o poder de mercado está nas mãos do ofertante, pois é único em seu mercado específico. Nesse sentido, sua existência é importante para a sociedade quanto à oferta do bem específico. Contudo, causa ineficiência em termos de alocação de recursos pela geração do peso morto ao consumidor. O oligopólio é outra estrutura de mercado em que existem poucas grandes empresas dominando a oferta de um bem ou serviço que pode ser padronizado ou diferenciado. A concorrência acirrada entre os participantes é forte, principalmente na oferta, o que faz que a empresa oligopolista tenha que administrar de forma eficiente sua estrutura de custos para bem poder precificar o que vende ou produz. Por fim, a concorrência monopolista, ou monopolística para alguns autores, coloca‑se entre a concorrência perfeita e o monopólio, reunindo características desses dois mercados. Na teoria microeconômica, preocupamo‑nos com a abordagem de equilíbrio parcial, analisando determinado mercado sem considerar os efeitos que esse mercado pode ocasionar sobre os demais. A preocupação central estava em descobrir o comportamento dos preços de uma mercadoria, quantidades produzidas de outra ou a fixação de condições de lucratividade por empresas estabelecidas em diferentes mercados. 101 ECONOMIA E NEGÓCIOS Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir. O preço de equilíbrio é o único preço em que os planos dos consumidores e os planos dos produtores concordam, ou seja, nesse caso, a quantidade que os consumidores desejam comprar do produto (quantidade demandada) é equivalente à quantidade que os produtores desejam vender (quantidade ofertada). Essa quantidade em comum é chamada de quantidade de equilíbrio. Para qualquer outro preço, a quantidade demandada não se iguala à quantidade ofertada. Logo, o mercado não está em equilíbrio naquele preço. A palavra equilíbrio significa harmonia. Se um mercado está em seu preço e em sua quantidade de equilíbrio, então não há motivo para afastar‑se daquele ponto. Entretanto, se um mercado não está em equilíbrio,as pressões econômicas surgem para movê‑lo em direção ao preço e à quantidade de equilíbrio. Se o preço for maior do que o preço de equilíbrio, poderá existir mais oferta do que procura. Se o preço for menor do que o preço de equilíbrio, poderá existir mais procura do que oferta. Adaptado de: https://bit.ly/3zjxVKY. Acesso em: 28 mar. 2023. Suponha que, para determinado produto, as curvas de demanda (D) e de oferta (O) sejam as apresentadas na figura a seguir. Preço (R$) Quantidade 2.500,00 2.400,00 2.300,00 2.200,00 2.100,00 2.000,00 1.900,00 1.800,00 1.700,00 1.600,00 1.500,00 1.400,00 1.300,00 1.200,00 1.100,00 1.000,00 900,00 800,00 700,00 600,00 500,00 400,00 300,00 200,00 100,00 ‑ Demanda Oferta 12011511010510095908580757065605550454035302520151050 Figura 51 102 Unidade II Para essa situação, avalie as afirmativas a seguir. I – O ponto de equilíbrio ocorre quando o preço for R$ 1.400,00. II – A quantidade de equilíbrio é 65 unidades. III – Se o preço de cada unidade for R$ 1.100,00, haverá escassez de produtos em 65 unidades. IV – Se o preço de cada unidade for R$ 1.500,00, haverá excesso de oferta em 15 unidades. É correto apenas o que se afirma em: A) I. B) II e III. C) I, III e IV. D) I, II e IV. E) I e II. Resposta correta: alternativa D. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: o ponto de equilíbrio é aquele em que, para determinado preço, a quantidade demandada é igual à quantidade ofertada. Isso ocorre no ponto de intersecção entre as curvas de oferta e de demanda. A figura a seguir mostra o ponto de equilíbrio. 103 ECONOMIA E NEGÓCIOS Preço (R$) Quantidade 2.500,00 2.400,00 2.300,00 2.200,00 2.100,00 2.000,00 1.900,00 1.800,00 1.700,00 1.600,00 1.500,00 1.400,00 1.300,00 1.200,00 1.100,00 1.000,00 900,00 800,00 700,00 600,00 500,00 400,00 300,00 200,00 100,00 ‑ 12011511010510095908580757065605550454035302520151050 Oferta Demanda Quantidade de equilíbrio = 65 Preço de equilíbrio = R$ 1.400,00 Ponto de equilíbrio Figura 52 A figura mostra que o preço de equilíbrio é R$ 1.400,00. II – Afirmativa correta. Justificativa: a resolução da afirmativa anterior mostra que, no preço de equilíbrio, a quantidade demandada e ofertada é 65 unidades. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: quando marcamos no gráfico de oferta e de demanda o valor de R$ 1.100,00, obtemos o apresentado na figura a seguir. Preço (R$) Quantidade 2.500,00 2.400,00 2.300,00 2.200,00 2.100,00 2.000,00 1.900,00 1.800,00 1.700,00 1.600,00 1.500,00 1.400,00 1.300,00 1.200,00 1.100,00 1.000,00 900,00 800,00 700,00 600,00 500,00 400,00 300,00 200,00 100,00 ‑ Demanda Oferta 12011511010510095908580757065605550454035302520151050 Quantidade demandada 95 unidades Quantidade ofertada 50 unidades Ponto de equilíbrio Preço = R$ 1.100,00 Figura 53 104 Unidade II Na figura anterior, podemos observar que, quando o preço de cada unidade é R$ 1.100,00, não existe equilíbrio, e a demanda é maior do que a oferta. Para esse preço, a quantidade ofertada é 50 unidades e a quantidade demandada é 95 unidades. Isso significa que haverá escassez de 45 unidades. IV – Afirmativa correta. Justificativa: para o preço de R$ 1.500,00 as quantidades ofertada e demandada são as mostradas na figura a seguir. Preço (R$) Quantidade 2.500,00 2.400,00 2.300,00 2.200,00 2.100,00 2.000,00 1.900,00 1.800,00 1.700,00 1.600,00 1.500,00 1.400,00 1.300,00 1.200,00 1.100,00 1.000,00 900,00 800,00 700,00 600,00 500,00 400,00 300,00 200,00 100,00 ‑ Demanda Oferta 12011511010510095908580757065605550454035302520151050 Preço = R$ 1.500,00 Quantidade ofertada 70 unidades Quantidade demandada 55 unidades Ponto de equilíbrio Figura 54 Na figura anterior, podemos observar que, para o preço de R$ 1.500,00, a quantidade ofertada é 70 unidades, e a quantidade demandada é 55 unidades. Isso significa que haverá excesso de oferta em 15 unidades. 105 ECONOMIA E NEGÓCIOS Questão 2. As quatro estruturas de mercado predominantes são a concorrência perfeita, o monopólio, a concorrência monopolística e o oligopólio. Com relação ao oligopólio, avalie as afirmativas a seguir. I – O oligopólio caracteriza‑se pela presença de poucas empresas, que consideram sua interdependência estratégica no momento de suas decisões. II – No oligopólio existe uma empresa líder, que determina o preço, e as empresas satélites, que seguem a líder. III – No modelo de oligopólio, a empresa líder escolhe primeiro o preço, tendo como premissa a maximização do lucro. IV – No oligopólio, há grande número de vendedores e de compradores, de tal sorte que cada um deles, isoladamente, detém poder insignificante, não afetando os níveis de oferta e de demanda de mercado. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) II e III, apenas. C) I, II e III, apenas. D) I, III e IV, apenas. E) I, II, III e IV. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: no oligopólio, existem poucas empresas no setor, que tomam decisões estratégicas independentes. Um exemplo de oligopólio é a indústria automobilística. II – Afirmativa correta. Justificativa: no oligopólio, normalmente, as empresas discutem suas estruturas de custos, embora o mesmo não ocorra com relação às estratégias de produção e de marketing. Há uma empresa líder, que, 106 Unidade II geralmente, fixa o preço, respeitando as estruturas de custos das demais, e há empresas satélites, que seguem as regras ditadas pelas líderes. III – Afirmativa correta. Justificativa: no oligopólio, a empresa líder fixa o preço, tendo como objetivo a maximização do lucro. Ela faz isso com base em seus custos. IV – Afirmativa incorreta. Justificativa: a estrutura de mercado em que há grande número de vendedores e de compradores, de tal sorte que cada um deles, isoladamente, detém poder insignificante, não afetando os níveis de oferta e de demanda de mercado, é a estrutura de concorrência perfeita.práticos, como nos escritos mercantilistas. Importa, sobretudo, que ela tenha ganhado a forma de uma disciplina autônoma, desligada da ética e da filosofia política, no interior das quais a escolástica e as doutrinas do direito natural ainda a enquadravam (CERQUEIRA, 2001, p. 397). É evidente que a compreensão do contexto histórico que vai ensejar o nascimento das ciências econômicas traz à tona uma questão vital: afinal, se a economia surge por meio do esforço de se distinguir da história, da sociologia, da ética, da filosofia moral e da política, poderíamos ser levados a crer na existência de uma distância entre ela e essas outras áreas, especialmente do ponto de vista da delimitação do seu objeto de estudo ou da determinação de sua metodologia de investigação. Esse é um problema que economistas da atualidade vêm buscando lidar e equacionar. Assim, debateremos 48 Unidade II aqui não apenas as condições necessárias para o surgimento da economia de mercado, mas também os desafios que esse sistema e sua investigação têm de enfrentar hoje. 5.1 Sistemas de preços e mercado de bens A microeconomia, a mais antiga forma de produzir análise econômica, fornece um instrumental analítico que é empregado por praticamente todos os ramos do pensamento econômico dominante. O prefixo micro é derivado da palavra grega mikros, que representa “pequeno”. Assim, a microeconomia estuda o comportamento de unidades econômicas muito específicas, por exemplo, um consumidor, um trabalhador, uma empresa, uma família, uma indústria, mercados específicos etc. De acordo com Vasconcellos e Oliveira (2000), os princípios que caracterizam a elaboração da teoria microeconômica apoiam‑se em duas condições: • Pressupõe‑se que a economia seja composta de unidades tomadoras de decisão, também chamadas de agentes econômicos, entendidos estes como empresas enquanto produtoras e vendedoras de mercadorias, e as famílias como consumidoras das mercadorias produzidas pelas empresas. • Cada um desses agentes detém um único objetivo – a maximização de seu bem‑estar, ou a maximização de seus resultados. No caso dos agentes individuais, consumidores ou famílias, seus objetivos são de melhorar seu padrão de consumo diante das oportunidades de consumo que lhe são oferecidas e diante de sua capacidade de consumo, ou seja, de sua restrição orçamentária. Por sua vez, o agente econômico empresa deve cumprir seu objetivo de obtenção de lucro e maximizá‑lo, também diante de restrições que lhe são impostas pelo ambiente econômico. A teoria microeconômica, ou análise de equilíbrio parcial, preocupa‑se em dar respostas às seguintes questões: • O que determina o preço dos diversos tipos de bens e serviços? • O que define a remuneração de um trabalhador? • O que estipula o quanto de cada mercadoria será produzida? • O que determina a maneira pela qual um indivíduo gasta sua renda entre os mais diversos tipos de bens e serviços? Em sentido mais amplo, a teoria microeconômica, ao presumir que o sistema econômico oferece limites para a obtenção dos objetivos a serem atingidos pelos agentes econômicos, e que esses limites são relativamente determinados pela escassez de recursos, procura descobrir quais são os melhores resultados alcançados em um sistema econômico diante das restrições que o sistema econômico impõe aos agentes. 49 ECONOMIA E NEGÓCIOS Para responder tais questionamentos, construindo modelos que representam de forma simplificada a realidade, a teoria microeconômica lança mão de algumas técnicas empregadas na construção dos modelos, a exemplo da teoria do consumidor, bem como dos estudos das diferentes estruturas de mercado em que as mais diversas empresas estão inseridas. Passemos, então, ao conhecimento dessas teorias e seus desdobramentos. 5.1.1 Teoria do consumidor Trata do estudo de como a demanda se fundamenta no comportamento dos consumidores. A teoria: • serve de guia para a elaboração e interpretação de pesquisas de mercado, principalmente as relacionadas com o lançamento de novo produto; • fornece métodos para comparar a eficácia de diferentes políticas de incentivo ao consumidor; • fornece elementos à avaliação da eficiência dos sistemas econômicos. A teoria do consumidor divide‑se em duas outras: a teoria da utilidade e a teoria de escolha. A primeira pode ser entendida como uma medida de satisfação, ao explicar a diferença entre utilidade total e utilidade marginal. Para entendermos essas duas teorias, utilidade e escolha, vamos efetuar um simples raciocínio: se as pessoas demandam mercadorias, ou seja, se consomem determinadas mercadorias, isso ocorre porque as mercadorias são necessárias à manutenção da vida, portanto, o consumo deve promover algum tipo de prazer ou satisfação. Como vimos em definições anteriores, precisamos efetuar escolhas para melhor alocação de nossos esforços. Em se tratando do consumo de mercadorias, dado que nossa renda não é o bastante para consumir tudo aquilo que desejamos, o agente econômico, agindo de forma racional, procurará empregar seus recursos limitados entre as melhores alternativas de uso possível. Abstraindo dessa ideia para a noção de consumo, se devemos, agindo racionalmente e pensando na maximização de nossos bem‑estar, despender parte de nossa renda ao consumo de mercadorias necessárias à manutenção de nossa vida, fica estabelecido então que as mercadorias que desejamos são úteis e raras. Observação Note que consumo de necessidade é diferente de consumo de desejo. Sabe diferenciar um do outro? 50 Unidade II Imaginando que o prazer ou a satisfação percebida pelo consumidor ao adquirir uma mercadoria possam ser medidos, teríamos então uma medida de satisfação traduzida em utilidade. Conforme Silva e Luiz (2018, p. 153‑154), A utilidade de um bem ou de um serviço é sua capacidade de satisfazer às necessidades das pessoas. Assim, a utilidade da água é saciar a sede, de um automóvel é sua capacidade de transportar pessoas, objetos etc. Podemos dizer, então, que um consumidor, agindo racionalmente, procurará obter a maior utilidade possível a partir de sua renda, que recebe o nome de orçamento. Para obter essa utilidade, sua renda será usada na aquisição de bens e serviços, que chamamos de cesta de mercadorias. Assim sendo, é razoável pensar que, quanto maior o orçamento do consumidor, maiores serão suas possibilidades de obter maior quantidade de utilidade, ou seja, de melhor satisfazer às necessidades. Para maximizar sua utilidade, isto é, obter o maior grau possível de satisfação, o consumidor deve escolher quais bens e serviços vai adquirir e também em que quantidade, pois seu orçamento já apresenta, por si só, uma limitação. Como as pessoas deveriam alocar seus recursos escassos de modo a obter o maior valor? Para um economista responder a tal questionamento, utilizará da análise marginal: “a análise dos benefícios e custos da unidade marginal de um bem” (WESSELS, 2002, p. 10). Um exemplo bastante simples, o paradoxo da água e do diamante, usado por uma grande quantidade de autores, ilustra o que estamos dizendo. Por que a água, mais necessária à vida humana, é relativamente barata, e o diamante, supérfluo, tem preço tão elevado? Ocorre que a água tem grande utilidade total, mas, como é encontrada em abundância, tem baixa utilidade marginal, enquanto o diamante, por ser escasso, tem grande utilidade marginal. Traduzindo: o que se tem em grande quantidade, valoriza‑se pouco; o que se tem em pouca quantidade, valoriza‑se muito! Outro exemplo, agora pensando em uma barra de chocolate e em uma criança que nunca havia experimentado tal produto. A primeira barra de chocolate apresentada a uma criança deve resultar em um elevado grau de satisfação quando consumida. Portanto, ela terá um elevado grau de utilidade, tanto total quanto marginal. Se uma segunda barra é dada à mesma criança, o grau de satisfação também será elevado, assim como serão as utilidades totais e marginais. Conformeformos aduzindo unidades crescentes de barras de chocolates à mesma criança, chegará um momento em que o grau de satisfação já não será mais elevado quanto o da primeira e, portanto, sua utilidade marginal será decrescente. Vejamos a curva de utilidade total e o que ela demonstra. 51 ECONOMIA E NEGÓCIOS Consumo Utilidade total Figura 16 – Curva de utilidade total Observando a curva de utilidade total, notamos que ela mostra que, à medida que aumentamos as quantidades consumidas de uma mesma mercadoria, há elevação no grau de satisfação, ou seja, em sua utilidade total, até um ponto em que acréscimos no consumo resultam em utilidades constantes e, desse ponto em diante, decrescentes. Esse fenômeno é resultado de outro conceito de satisfação: o conceito de utilidade marginal. Vejamos a curva. Consumo Utilidade marginal Figura 17 – Curva de utilidade marginal De acordo com a curva de utilidade marginal, percebemos que o grau de satisfação diminui à medida que são aumentadas as quantidades de consumo de determinada mercadoria. Isso pode refletir aquele exemplo das barras de chocolates e a criança. Ou seja, a última unidade de chocolate acrescida ao consumo traz menos satisfação, produz menor utilidade marginal, ou seja, diminui a utilidade total. Tome como exemplo o bem H2OH: nem é refrigerante, nem é água, é um misto dos dois; assim, o fabricante diz não ser refrigerante por conter menor quantidade de gases em relação aos conhecidos. Quando o bem foi lançado, a empresa fez uma grande campanha de marketing para fazer‑se conhecida. E o consumidor? Insatisfeito por natureza, desejará conhecer o novo produto. Pois bem: conhece ao comprar e beber. E depois? Se gostou, volta a comprar, e assim por diante. Há como medir o grau de satisfação desse consumidor ao beber o primeiro gole do bem H2OH? E o segundo gole? É possível como medir? Highlight 52 Unidade II É disso que estamos tratando ao apresentar as noções de utilidade total e utilidade marginal. Nesse exemplo, a utilidade total surgirá quando o consumidor conseguir “matar a curiosidade”, quando experimentar o bem. Depois, continuando a consumir o bem, este já não será mais novidade, será costume. Podemos dizer, portanto, que há um decréscimo em sua utilidade marginal: a cada nova unidade do bem que for consumido, menos satisfação terá o consumidor. É por essa razão que as empresas devem sempre inovar, inventar coisas ou novas formas de fazer o consumidor sentir utilidade total novamente: troca de embalagem, mudança em formulação, campanhas publicitárias e promocionais são alguns exemplos de chamada do consumidor. Outra forma é retirar momentaneamente o bem de circulação para que o consumidor sinta falta dele e, ao retornar, o consumidor volta a adquiri‑lo, às vezes, a preços maiores. Exemplo de aplicação Se alguém está com sede, o que satisfaz necessidade: água ou algum outro bem que possa exercer a função da água? O que é consumo de necessidade e o que é consumo de desejo? Procure responder: por qual deles pagamos mais? Ao entender a utilidade total e a marginal, sabemos como a ciência econômica investiga o comportamento do consumidor, assumido como racional. Partindo do princípio de que o consumidor adquira somente produtos que lhe gerem satisfação combinada com seu nível de renda, é interessante inserir na análise o papel desempenhado pelos preços dos produtos. Vejamos agora como se dá o comportamento do consumidor a partir da teoria da demanda. 5.1.1.1 Teoria da demanda Preocupa‑se com o comportamento do consumidor em relação ao consumo de mercadorias. Entende‑se por demanda a procura de um indivíduo por um determinado bem ou serviço. Demanda refere‑se, então, à quantidade de um bem ou serviço que o consumidor está disposto e capacitado a comprar em determinado período. Observação A expressão demanda remete a uma condição de vontade de consumo, o que difere do ato da compra. Está ligada à necessidade ou mesmo ao desejo de consumir. A demanda, diferentemente de compra, representa uma intenção de compra, sobretudo por causa da restrição orçamentária e de outros determinantes da demanda. Vejamos, então, alguns determinantes de demanda: 53 ECONOMIA E NEGÓCIOS • preço do bem ou serviço; • renda ou riqueza do consumidor; • gostos e preferências do consumidor; • preços de bens relacionados (substitutos ou complementares) na demanda; • demais determinantes. Com os determinantes da demanda, podemos obter uma função demanda: Função demanda = Qdx = ƒ (P, R, PBR, G, E) Onde: Qdx = quantidade demandada do bem x P = preço do bem x R = renda ou orçamento do consumidor PBR = preço de bens relacionados no consumo do bem x, a exemplo dos substitutos e/ou complementares G = gosto e preferência do consumidor E = expectativa do consumidor sobre o mercado do bem x Veja o seguinte: quando o preço dos televisores está mais baixo nas lojas de venda especializada desse tipo de bem durável, o que ocorre com o comportamento do consumidor? Podemos desenhar uma função demanda para esse caso: Qdt = ƒ (Pt) Onde: Qdt = quantidade demandada de televisores (Pt) = preço do televisor Como sugerimos queda de preços, então a função pode ser representada da seguinte forma: ↑ Qdt = ƒ (↓Pt) 54 Unidade II O que ela indica? Que o consumidor apresenta uma tendência de demandar mais televisores quando os preços desse tipo de bem estão mais baixos. Mais: que o consumidor apresenta tendência em aumentar as quantidades demandadas de televisores. Pode ser que já exista um na residência do consumidor e que ele deseje mais um. Portanto, o que influenciou a quantidade demandada de televisores foi o preço do bem, e não a renda do consumidor, por exemplo. E se a renda fosse a grande influenciadora da demanda por televisores, como seria a função? Qdt = ƒ (R) Onde: Qdt = quantidade demandada de televisores (R) = renda Pois bem: se a renda do consumidor aumentar, o que ocorre? E se diminuir? O efeito será o mesmo? Não, e nem pode ser. Em caso de aumento na renda, o consumidor agora tem mais condições de adquirir mais televisores, portanto, a demanda por televisores aumentará. ↑ Qdt = ƒ (↑R) Você já é capaz de entender o efeito de diminuição de renda? Lembra‑se de como surge a renda da uma sociedade? Dos tipos de renda existentes? Outro determinante da demanda é o PBR: preço de bens relacionados na demanda, chamados de complementares ou substitutos. Bens complementares são tipos de bens que o consumo de um enseja, necessariamente, o consumo de outro. Exemplos: pão e manteiga, dispositivos móveis e serviços de streaming, máquinas fotográficas e cartão de memória, impressoras e papel, impressoras e cartuchos de tinta. Imagine que em determinado tempo tenha aumentado muito o preço das impressoras. Como será a função demanda por impressoras? Qdi = ƒ (Pi) Onde: Qdi = quantidade demandada de impressoras (Pi) = preço da impressora E o efeito? Queda de demanda de impressoras, conforme a função a seguir. ↓ Qdi = ƒ (↑ Pi) 55 ECONOMIA E NEGÓCIOS Reflita um pouco: anteriormente, destacamos que existe um bem complementar à impressora. Lembra‑se qual é? Sim, muito bem: os cartuchos de tinta. Haverá influência no mercado de cartuchos de tinta caso haja queda de demanda por impressoras? Resposta: sim! Qual é a função demanda de cartuchos de tintas em função do preço das impressoras? Qdct = ƒ (Pi) Onde: Qdct = quantidade demandada de cartuchos de impressora (Pi) = preço da impressora Se haverá queda na demanda por impressoras, porque seu preço está mais elevado, menor quantidade de impressoras serão adquiridas. Assim, menos cartuchos de tinta serão adquiridos. O efeito, então, será: ↓ Qdct = ƒ (↑ Pi) Figura 18 – Automóvel e combustível: bens complementares Disponível em: https://bit.ly/3KVp0pV. Acesso em: 3 abr. 2023. Por outro lado, bens substitutos são aqueles que o consumidor tem condições de escolher entre um ou outro. Exemplo: manteiga ou margarina, pão francês ou pão de forma,maçã ou pera, feijão‑carioca ou feijão‑preto. Os dois atendem às necessidades de consumo. Em outras palavras, o consumo de um pode substituir o consumo do outro. Se a ida ao supermercado mostra que os preços do feijão‑carioca estão exorbitantemente mais elevados em relação aos preços do feijão‑preto, qual adquirir? Como são substitutos, o preço de cada um deles exercerá influência sobre o consumidor. Lembrando que o consumidor é tratado na microeconomia como racional, comparará os preços dos dois 56 Unidade II bens e, entendendo estar diante de bens substitutos entre si, levará aquele que estiver com preço mais baixo. Demonstrando em função, teríamos: Qdfp = ƒ (Pfc) Nesse caso, o preço do feijão‑carioca (Pfc) influencia na demanda de feijão‑preto Qdfp. Ou Qdfc = ƒ (Pfp) Em que o preço do feijão‑preto (Pfp) influencia na demanda de feijão‑carioca Qdfc. Conforme o exemplo, haverá aumento na demanda de feijão‑preto em função da elevação no preço do feijão‑carioca. ↑ Qdfp = ƒ (↑ Pfc) A) B) Figura 19 – Bovinos e suínos: sua carne são bens substitutos Disponível em: A) https://bit.ly/3Kyor5h; B) https://bit.ly/3ZH0psX. Acesso em: 3 abr. 2023. Entretanto, e se o consumidor não gostar de forma alguma de feijão‑preto? Mesmo com o preço mais baixo em relação ao feijão‑carioca, o consumidor não foi tocado a adquirir feijão‑preto, não gosta desse tipo de produto! Assim, entra em cena mais um determinante da demanda, qual seja, G, gosto e preferência do consumidor. O gosto ou preferência do consumidor apresenta‑se como um elemento subjetivo que influencia a demanda. Como medir o gosto do consumidor por feijão‑preto em relação ao feijão‑carioca? Se seu consumo, digamos mensal, não inclui feijão‑preto ou pouco inclui em relação ao outro, dizemos que feijão‑carioca é preferível ao feijão‑preto. Por ser preferível, coloca‑se com certa subjetividade e pode influenciar a demanda de bens. O mesmo ocorre com outros determinantes da demanda, a exemplo das expectativas de mercado. 57 ECONOMIA E NEGÓCIOS Os consumidores costumam tomar conhecimento dos preços dos bens que consomem, bem como ficar atentos às informações acerca dos setores que produzem tais bens. A formação de expectativas também influencia a demanda. Basta imaginar se por um período qualquer o Governo Federal anunciar que alguns bens de consumo durável, a exemplo de automóveis e eletrodomésticos de linha‑branca, estariam isentos de determinados impostos. O que faria boa parte da sociedade? Na expectativa de que o governo, findo o período de isenção, não mais adotasse a mesma medida, acabaria por antecipar compras, independentemente de suas formas de pagamento. Como todos os determinantes da demanda sofrem variações simultaneamente, de consumidor para consumidor, e como pode haver modificação de influenciadores da demanda para um mesmo consumidor, a teoria microeconômica lança mão da utilização da condição coeteris paribus. O que vem a ser tal condição? Imagine a seguinte situação: houve diminuição dos preços dos televisores e, ao mesmo tempo, elevação da renda da sociedade, diminuição do preço dos planos de TV por assinatura e serviços de streaming e aumento do custo da energia elétrica consumida pelos lares! Quatro coisas acontecendo ao mesmo tempo. Como estimar a demanda de televisores diante desse quadro? A condição coeteris paribus significa “iguais às demais coisas” e permite à microeconomia analisar o que ocorre em um determinado mercado diante da modificação de alguma condição isolada, mantendo os demais influenciadores constantes. Exemplificando, se queremos saber o que ocorre com o mercado de leite diante do crescimento da renda de uma população, a teoria microeconômica analisa os impactos nesse mercado diante somente da modificação da renda, para, em um segundo momento, examinar o que ocorre com esse mercado quando houver modificação em alguma outra relação da demanda. Se desejo saber o que ocorre no mercado de televisores, primeiro verificamos a influência que os preços exercem sobre a demanda desse tipo de bem. Depois, apura‑se a influência da renda do consumidor na demanda desse produto, desconsiderando‑se a influência do preço. Pela expressão economicamente correta, a pergunta seria: o que ocorre com o mercado de televisores diante da elevação da renda do consumidor, coeteris paribus? Como deve‑se ler tal pergunta: o que ocorre com o mercado de televisores diante da elevação da renda do consumidor, permanecendo tudo o mais constante? A mesma pergunta pode ser feita desta forma: O que ocorre com o mercado de TV por assinatura e serviços de streaming, coeteris paribus, diante da elevação na renda do consumidor? Como ler? O que ocorre com o mercado de TV por assinatura e serviços de streaming, permanecendo tudo o mais constante, diante da elevação na renda do consumidor? Quer outra? Vamos lá! Considerando apenas a diminuição no preço da manteiga, qual é o impacto na demanda por margarina? Utilizando a expressão ficaria: coeteris paribus, qual é o comportamento do mercado de margarina diante da diminuição no preço da manteiga? 58 Unidade II Exemplo de aplicação Tendo em mente o exemplo anterior, complete a frase a seguir. Esquecendo, ou não considerando, demais fatores... A condição coeteris paribus permite simplificar a realidade e, dessa forma, consegue dar respostas de comportamento de mercados no curto prazo. Essa condição significa que não há modificação de outras características ou circunstâncias além daquelas supostas na análise. Consiste, essencialmente, em compartilhar a economia de modo que os principais efeitos de uma mudança de parâmetro em determinado minimercado possam ser ressaltados sem considerar os efeitos colaterais em outros mercados, inclusive as reações, ou seu feedback. Saiba mais Para conhecer melhor a aplicação inicial da condição coeteris paribus na análise econômica, leia a obra de Marshall indicada a seguir. A concepção geral dessa obra se baseia em uma visão microeconômica neoclássica do regime capitalista de produção, supondo‑se uma tendência natural para o equilíbrio, na qual as forças do mercado distribuíam os recursos da melhor maneira possível entre os diversos usos alternativos. Seu método de análise enfatiza as chamadas análises de equilíbrio parcial, com amplo uso da abordagem coeteris paribus, uma das mais famosas contribuições de Marshall. MARSHALL, A. Princípios de economia. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Coleção Os Economistas). Na teoria da demanda, o comportamento do consumidor representativo é demonstrado por uma relação entre preços dos bens que este consumidor está interessado em adquirir e suas respectivas quantidades. Tal relação é indicada por uma curva: a curva da demanda. Ela é formada pela combinação de pontos de preços de uma mercadoria (P) no eixo vertical com suas quantidades demandadas (Q) no eixo horizontal. Destaca uma lei geral: a lei geral da demanda. Observe a seguir essa curva. 59 ECONOMIA E NEGÓCIOS P D Q Figura 20 – Curva da demanda A lei geral da demanda diz que as quantidades demandadas de um bem qualquer caminham em sentido contrário aos preços deste. De forma análoga, a curva de demanda mostra a relação inversa entre preços e quantidades demandadas. Quando o preço de uma mercadoria é elevado, as quantidades demandadas dessa mercadoria são baixas; quando são baixos, as quantidades são elevadas. Observe com atenção a tabela a seguir. Tabela 2 – Escala de demanda Preço (UM$) Quantidade demandada Ponto 10,00 20 A 8,00 25 B 6,00 30 C 4,00 35 D Com as informações dessa escala, podemos então construir a curva de demanda individual (figura a seguir). 60 Unidade II 10 8 6 4 AA P B C D Q 20 25 30 35 Figura 21 – Curva de demanda individual Observação Tanto pela escada de demanda quanto pela curva de demanda, é possível perceber a ocorrência da lei geral da demanda. Analisando as informações da tabela bem como da curva de demanda, percebe‑seque, à medida que o preço apresenta queda, as quantidades demandadas aumentam. Quando o preço dessa mercadoria qualquer é UM$ 10,00, a quantidade demandada é de 20 unidades; quando o preço é de UM$ 8,00, 25 unidades; quando o preço é de UM$ 6,00, há aumento de cinco unidades nas quantidades demandadas, ou seja, passam a ser 30 unidades; por fim, quando o preço é UM$ 4,00, 35 unidades. Observação Note que demanda é diferente de quantidades demandadas. Demanda é intenção de compra, já quantidades demandadas representam, de fato, o quanto se consome em determinado nível de preços. Lembrete Como a demanda representa relação inversa entre preços e quantidades, você poderia pensar no exemplo acentuado para o caso de os preços subirem. Nesse caso, as quantidades demandadas apresentariam queda. 61 ECONOMIA E NEGÓCIOS Denominamos de curva de demanda individual as combinações das quantidades de uma mesma mercadoria que um consumidor isolado está apto a adquirir, por unidade de tempo, em relação aos comportamentos dos preços dessa mercadoria. Chamaremos curva de demanda de mercado quando uma escala de demanda apresentar as intenções de mais de um consumidor. Vejamos então uma nova escala de demanda. Tabela 3 – Escala de demanda para vários consumidores Preço (UM$) Consumidor 1 Consumidor 2 Consumidor 3 Consumo total Ponto 10,00 10 7 13 30 A 8,00 12 8 16 36 B 7,00 13 8 17 38 C 6,00 14 9 19 42 D 4,00 16 10 28 54 E A escala ilustrada relaciona, para cada nível de preço, quantidades demandadas diferentes para cada um dos consumidores, demonstrando, dessa forma, a demanda total de mercado por um produto qualquer. Então, podemos proceder ao conhecimento da curva de demanda de mercado, que nada mais será do que demonstrar a relação entre os níveis de preços dessa mercadoria com as respectivas quantidades demandadas por todos os seus consumidores. Exemplo de aplicação Considerando a tabela anterior, você pode criar a curva de demanda individual para cada um dos consumidores. Faça a curva de demanda para o consumidor 1, relacionando o preço do bem como as quantidades que ele demanda. Construa a curva de demanda para o consumidor 2 relacionando, agora, o preço do bem com as quantidades que este consumidor demanda. Faça o mesmo com o consumidor 3. A P B C D E Q30 36 38 42 54 10 8 7 6 4 Figura 22 – Curva de demanda de vários consumidores 62 Unidade II Observe que a curva de demanda para vários consumidores reflete a mesma lei geral de demanda, e a análise pode ser por meio da queda de preços ou de sua elevação. Quando o preço do bem é de UM$ 10,00, preço comum para todos os consumidores, o consumidor 1 adquire 10 unidades, o consumidor 2 adquire sete e o consumidor 3 adquire 13. Assim, cada consumidor contribui com uma parcela do consumo total, que é de 30 unidades nesse nível de preços. Quando o preço cai para UM$ 8,00, o que ocorre? O consumo total de mercado sobe para 36 unidades. Vejamos o comportamento de cada consumidor: o consumidor 1 adquire mais duas unidades, o consumidor 2 adquire somente mais uma, enquanto o consumidor 3 adquire mais três. Mesmo que o preço seja idêntico para todos os consumidores, o comportamento de cada um deles é diferente. E quando o preço passa a ser de UM$ 7,00? O consumidor 1 adquire mais uma unidade; agora, seu consumo individual é de 13 unidades, e o consumidor 2 não adquire quantidades adicionais, permanecendo no mesmo nível de consumo de quando o preço era de UM$ 8,00. Ele continua consumindo apenas oito unidades, enquanto o consumidor 3 aumenta em mais uma unidade seu consumo, adquirindo agora 17 unidades. Você pode continuar o raciocínio quando os preços são de UM$ 6,00 e de UM$ 4,00. O que explica comportamentos diferentes de consumo de um mesmo bem a diferentes preços? Várias podem ser as respostas. Podemos pensar em algumas: • a renda do consumidor influencia no consumo; • trata‑se de um bem de consumo saciado; • como o produto é novo no mercado, inicialmente, os consumidores o adquiriram para conhecê‑lo; alguns continuam consumindo, enquanto outros se mostram indiferentes; • pode ser um produto sazonal, a exemplo daquele consumo que acontece no período de Páscoa, Natal e outras datas comemorativas, por exemplo; • o bem pode proporcionar elevado ou baixo grau de utilidade. Exemplo de aplicação As respostas anteriores correspondem à análise positiva ou normativa? Reflita, responda e procure apresentar outras hipóteses. Da mesma forma que quantidades demandadas são influenciadas pelo preço do bem, a curva de demanda também sofre influência. Nesse caso, dependendo do determinante da demanda (renda do consumidor, preço de bens relacionados, gosto ou preferência do consumidor), a curva de demanda sofre deslocamentos positivos ou negativos. Aqui, precisamos efetuar uma distinção entre o que são movimentos da curva, também chamados de deslocamentos da curva, e movimentos ao longo da curva. 63 ECONOMIA E NEGÓCIOS Movimentos ao longo da curva são percebidos quando o influenciador da demanda é o preço do bem. Pense no seguinte: coeteris paribus, o que ocorre com a quantidade demandada de carne de frango quando há diminuição de seus preços? Aumento ou diminuição nas quantidades demandadas? Aumento, muito bem. Como representar a curva de demanda por carne de frango? Mais: como representar a curva de demanda por carne de frango e o efeito das quantidades demandadas diante da diminuição de preço? Vamos lá. Suponha que o quilo do preço da carne de frango esteja em UM$ 9,00 e que os consumidores, em conjunto, adquiram 1.200 kg. O preço do quilo cai para UM$ 7,20 e o consumo de mercado passa a ser de 2.200 kg. Temos aqui uma escala de demanda. Tabela 4 – Escala de demanda por carne de frango Ponto Preço (UM$) Quantidade demandada (kg) A 9,00 1.200 B 7,20 2.200 Vejamos a representação da curva de demanda por carne de frango e o efeito das quantidades demandadas diante da diminuição de preço. 9,00 7,20 P B D Qdcf A 1.200 2.200 Figura 23 – Curva de demanda por carne de frango Como houve diminuição no preço da carne de frango, P, e os consumidores passaram a adquirir maior quantidade do bem, (Qdcf), há um deslocamento de pontos ao longo da curva. O ponto inicial está em A, correspondendo ao preço UM$ 9,00 e a 1.200 kg. A queda de preços para UM$ 7,20 faz que as quantidades demandadas do bem sejam de 2.200 kg, o que é representado pelo ponto B. Assim, a modificação no preço provocou movimento de pontos ao longo da curva de demanda, D. Se o preço aumentar, o efeito será o contrário: deslocamento de ponto ao longo da curva de B para A. 64 Unidade II Observação Você pode chamar deslocamento de pontos ao longo da curva ou simplesmente movimento ao longo da curva. De forma diferente, deslocamentos da curva de demanda ocorrem quando a renda do consumidor, o preço de bens relacionados ou gosto ou preferência do consumidor apresentarem alteração individual ou em conjunto. Em função da condição coeteris paribus, admite‑se que a alteração seja individual: um determinante de cada vez exercendo influência sobre a demanda. Lembrete Da mesma forma que quantidades demandadas são influenciadas pelo preço do bem, a curva de demanda também sofre influência. Voltemos ao exemplo em que a renda do consumidor influencia na demanda por televisores. Qdt = ƒ (R) Onde: Qdt = quantidade demandada de televisores (R) = Renda Admita, coeteris paribus, crescimento da renda: o que ocorre? Você deve ter respondido que será elevada a demanda por televisores. E mais: deve ter imaginado rapidamente a função demanda para o caso proposto: ↑ Qdt = ƒ (↑R) E qual é o impacto na curva de demanda? 65 ECONOMIA E NEGÓCIOS P P BA D’ D Q1 Q2 Qdt Figura 24 – Demanda por televisores Com a elevação na renda do consumidor, maior será a demanda por televisores, coeteris paribus. Assim, a curva de demanda original, D, combina o preço dos televisores com determinada quantidade,Q1, antes da alteração da renda, ponto A. Com a alteração da renda, a curva de demanda por televisores sofre deslocamento positivo, e agora é chamada D’. O ponto B demonstra novas, e maiores, quantidades demandadas de televisores, Q2, e o preço permanece constante. Observação O fato de o preço ter permanecido constante deve‑se à alteração somente da função demanda influenciada pelo determinante renda. Como tudo o mais permaneceu constante, também permaneceu constante a influência da oferta e do comportamento do mercado. Vejamos outro exemplo. Estamos agora preocupados em investigar o que acontece com o mercado de margarina se houver uma diminuição do preço da manteiga. Tratando‑se de bens substitutos, o consumidor racional tomará qual atitude? Se você está pensando que nosso agente racional demandará mais manteiga e menos margarina, acertou! Parabéns. Observe a seguir a representação gráfica. 66 Unidade II B Dmant (a) Demanda de manteiga A Q1 Q2 P1 P2 Q1 Dmarg C (b) Demanda de margarina Dmarg’ Figura 25 – Demanda de manteiga e de margarina Em (a) temos a representação da demanda por manteiga, Dmant; em (b), da demanda por margarina, Dmarg. No início, a demanda por manteiga – Dmant – está no ponto A, onde P1 corresponde a Q1. A demanda por margarina está no ponto C. Com a queda de preço de manteiga, a nova quantidade demandada passa a ser B: P2,Q2. A diminuição no preço força queda de demanda por margarina, e a curva de demanda desse produto sofre deslocamento negativo, ou para a esquerda, e agora é representada por Dmarg’. No gráfico (b), a quantidade demandada de margarina permanece constante em Q1, mas, na prática, a quantidade demandada diminuirá. Por que isso ocorre? Porque, no momento, estamos trabalhando somente com a demanda. Para que o consumidor possa exercer sua demanda por bens, alguém tem que ofertá‑los. Nesse sentido, passamos a considerar a teoria da oferta. 5.1.1.2 Teoria da oferta Preocupa‑se com o comportamento dos empresários em relação à oferta de mercadorias. A oferta refere‑se à quantidade de um bem ou serviço que o produtor ou vendedor está disposto e capacitado a ofertar em determinado período de tempo. De forma análoga à da demanda, a oferta será diferente de venda, porque representa uma intenção de venda, em função principalmente de alguns determinantes da oferta. Vejamos alguns determinantes da oferta: • preço do bem ou serviço; • preço dos fatores de produção; 67 ECONOMIA E NEGÓCIOS • tecnologia; • preço de bens relacionados (substitutos ou complementares) na oferta; • clima; • demais determinantes. Com os determinantes da oferta, podemos obter uma função oferta: Função oferta = Qox = ƒ (P, PFP, T, PBR, C, E) Onde: Qox = quantidade ofertada do bem x P = preço do bem x PFP = preço dos fatores de produção (custo dos fatores) T = tecnologia de produção PBR = preço de bens relacionados na produção do bem x, a exemplo dos substitutos e/ou complementares C = condições climáticas e de solo E = expectativa do ofertante sobre o mercado do bem x Na oferta, o preço do bem impacta positivamente o crescimento de quantidades. Por qual motivo? Se um empresário qualquer percebe que o mercado está pagando um preço elevado pelo produto que vende, terá maior incentivo para aumentar a produção. Suponha um agricultor do setor de soja. Ao perceber que o consumo de soja mostra elevação, terá maior incentivo a continuar em tal produção, pois há demanda. Assim, poderá praticar uma política de crescimento de preços, uma vez que os consumidores se mostram favoráveis a tal produto. Se continuarem consumindo após o crescimento do preço, mais incentivado estará nosso agricultor a continuar com sua produção. Por outro lado, se o mercado apresenta saturação e não valoriza o bem que se oferta, o empresário de qualquer setor sentir‑se‑á desmotivado e poderá procurar por outra atividade. Portanto, preços elevados influenciam positivamente quantidades ofertadas, e preços baixos influenciam negativamente quantidades ofertadas. Utilizando os termos da função oferta, temos: 68 Unidade II ↑Qo = ƒ (↑P) E ↓Qo = ƒ (↓P) Onde: Qo = quantidade ofertada P = preço do bem Acompanhe outro exemplo: suponha que em determinado momento o preço dos tecidos tenha sofrido elevação em função de uma queda de produção. O que deve ocorrer com a oferta de calças? Observação Estamos supondo que o tecido seja um fator de produção de calças. Se houve diminuição na oferta de tecidos, as indústrias produtoras de calças terão menos fator de produção à sua disposição e, portanto, deverão produzir menor quantidade de calças. Dessa forma, haverá diminuição na oferta de calças. Vejamos a função que representa tal situação. Qo = ƒ (PFP) Onde: Qo = quantidade ofertada PFP = preço dos fatores de produção Então, a função anterior seleciona apenas um determinante da oferta, qual seja, o preço dos fatores de produção. Aplicada ao exemplo, a função será: ↓ Qoc = ƒ (↑ Pt) Onde: Qoc = quantidade ofertada de calças Pt = preço do tecido 69 ECONOMIA E NEGÓCIOS A função representa exatamente a conclusão a que chegamos: o aumento do preço do tecido devido à diminuição da oferta desse fator de produção impacta negativamente o mercado de calças, causando a diminuição da oferta. Observação Percebeu que, para os exemplos, novamente usamos um determinante da oferta de cada vez? É a condição coeteris paribus também presente na teoria da oferta. Outro exemplo? Agora vamos utilizar a tecnologia como determinante da oferta. Suponha uma indústria de bebidas que produza refrigerantes. Seu processo de produção é por esteira rolante; os recipientes são transportados pela esteira até o local em que receberão o líquido. Depois, o processo continua até o recebimento da tampa plástica para vedação. Estamos pensando em uma indústria que produza refrigerantes acondicionados em garrafas do tipo PET. Figura 26 – Garrafas PET Disponível em: https://cutt.ly/XwqCFtRN. Acesso em: 3 abr. 2023. Há um mecanismo específico que fecha a garrafa após estar completada com o líquido correspondente. É uma máquina que coloca a tampa e fecha a garrafa. A empresa pensa em modernizar tal mecanismo aplicando uma nova tecnologia, que fará tal processo em menos tempo, o que resultará em mais agilidade no fechamento de cada garrafa, ou seja, mais garrafas estarão prontas em menos tempo. 70 Unidade II A função que representa a situação anterior será: Qor = ƒ (↑T) Onde: Qor = quantidade ofertada de refrigerantes T = tecnologia Saiba mais Saiba mais sobre a produção de refrigerantes acessando o site da Afebras (Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil). Há notícias interessantes na plataforma. Disponível em: http://afrebras.org.br. Acesso em: 3 abr. 2023. Como todos os determinantes da oferta variam simultaneamente, de produtor para produtor, e como pode haver modificação no comportamento dos influenciadores da oferta para um mesmo produtor, a teoria microeconômica, assim como o faz na teoria da demanda, lança mão da utilização da condição coeteris paribus. Tal condição permite à microeconomia analisar o que ocorre em um determinado mercado diante da modificação de alguma condição isolada, mantendo os demais influenciadores constantes. Exemplificando: se nosso interesse é saber o que ocorre com o mercado de alfaces diante de um clima frio extremamente rigoroso, a teoria microeconômica analisa os impactos nesse mercado ponderando somente a condição do clima para, depois, analisar o que ocorre com esse mercado quando houver modificação em algum outro determinante da oferta. Observação Considerando o exemplo anterior, e olhando para a função oferta, o determinante utilizado foi a condição climática. Exemplo de aplicação Você pode investigar como os bens relacionados na oferta, os chamados substitutos ou complementares, são tratados na teoria. Basta procurar livros de microeconomia para encontrar situações interessantes.71 ECONOMIA E NEGÓCIOS Na teoria da oferta, o comportamento do produtor representativo é demonstrado por uma relação entre preços dos bens que esse produtor está interessado em ofertar e suas respectivas quantidades. Tal relação é indicada por uma curva: a curva da oferta. Ela é formada pela combinação de pontos de preços de uma mercadoria (P) no eixo vertical com suas quantidades ofertadas (Q) no eixo horizontal. Demonstra uma lei geral: a lei geral da oferta. Vejamos a curva de oferta. O P Q Figura 27 – Curva de oferta A lei geral da oferta diz que as quantidades ofertadas de uma mercadoria qualquer caminham no mesmo sentido dos preços dessa mercadoria. De forma análoga, a curva de oferta mostra a relação direta entre preços e quantidades ofertadas. Quando o preço de uma mercadoria é elevado, as quantidades ofertadas dessa mercadoria são também elevadas; quando os preços são baixos, as quantidades ofertadas dessa mercadoria serão baixas. Observe com atenção a tabela a seguir. Tabela 5 – Escala de oferta Preço (UM$) Quantidade ofertada Ponto 4,00 20 A 6,00 25 B 8,00 30 C 10,00 35 D 72 Unidade II Com as informações dessa escala, podemos, então, construir a curva de oferta individual. 10 8 6 4 20 25 30 35 O P Q Figura 28 – Curva de oferta individual Observação Tanto pela escada de oferta quanto pela curva de oferta, é possível perceber a ocorrência da lei geral da oferta. Analisando as informações da tabela, bem como da curva de oferta, percebe‑se que, à medida que o preço apresenta queda, as quantidades ofertadas aumentam. Quando o preço dessa mercadoria qualquer é UM$ 10,00, a quantidade ofertada é de 35 unidades; quando o preço é de UM$ 8,00, 30 unidades; quando o preço é de UM$ 6,00, há diminuição de cinco unidades nas quantidades ofertadas, ou seja, passam a ser 25; por fim, quando o preço é UM$ 4,00, 20 unidades. Observação Note que oferta é diferente de quantidades ofertadas. Oferta é intenção de produção ou de venda, enquanto quantidades ofertadas representam, de fato, o quanto se oferece a determinado nível de preços. Como a oferta representa relação direta entre preços e quantidades, você poderia pensar no exemplo acentuado para o caso de os preços subirem. Nesse caso, as quantidades ofertadas apresentariam elevação. Denominamos curva de oferta individual as combinações das quantidades de uma mesma mercadoria que um produtor está apto a ofertar por unidade de tempo em relação aos comportamentos dos preços dessa mercadoria. Chamaremos de curva de oferta de mercado quando em uma escala de oferta estiverem demonstradas as informações de mais do que um produtor em relação a um mesmo produto. Vejamos então uma nova escala de oferta. Agora, a escala de oferta para vários produtores. 73 ECONOMIA E NEGÓCIOS Tabela 6 – Escala de oferta para vários produtores Preço (UM$) Produtor 1 Produtor 2 Produtor 3 Oferta total Ponto 4,00 10 7 13 30 A 6,00 12 8 16 36 B 7,00 13 9 16 38 C 8,00 14 9 19 42 D 10,00 16 10 28 54 E A escala acentuada relaciona, para cada nível de preço, quantidades ofertadas diferentes para cada um dos produtores, demonstrando, assim, a oferta total de mercado por um produto qualquer. Podemos, então, proceder ao conhecimento da curva de oferta de mercado, que nada mais será do que demonstrar a relação entre os níveis de preços dessa mercadoria com as respectivas quantidades ofertadas por todos os produtores dessa mercadoria. Exemplo de aplicação Considerando a tabela anterior, você pode criar a curva de oferta individual para cada um dos produtores. Construa a curva de oferta para o produtor 1 relacionando o preço do bem como as quantidades que ele oferta. Faça a curva de oferta para o produtor 2 relacionando, agora, o preço do bem com as quantidades que esse produtor oferece. Faça o mesmo com o produtor 3. 30 36 38 42 54 Q 10 8 7 6 4 P A B C D E O Figura 29 – Curva de oferta para vários produtores Observe que a curva de oferta para vários produtores reflete a mesma lei geral de oferta, e a análise pode ser por meio da queda de preços ou de sua elevação. Quando o preço do bem é de UM$ 10,00, preço comum para todos os produtores, o produtor 1 está disposto a oferecer 16 unidades, o produtor 2 oferece 10 unidades e o produtor 3 está apto a ofertar 28 unidades. Assim, cada produtor contribui com uma parcela da oferta total, que é de 54 unidades nesse nível de preços. 74 Unidade II Quando o preço cai para UM$ 8,00, o que ocorre? A produção total de mercado cai para 42 unidades. Vejamos o comportamento de cada produtor: o produtor 1 oferece duas unidades a menos, o produtor 2 diminui a oferta em uma unidade, enquanto o produtor 3 diminui em nove unidades sua oferta. Mesmo que o preço seja idêntico para todos os produtores, o comportamento de cada um deles é diferente. E quando o preço passa a ser de UM$ 7,00? O produtor 1 oferta uma unidade a menos (agora sua oferta individual passa a ser de 13 unidades) e o consumidor 2 não altera seu padrão de oferta, permanecendo no mesmo nível de oferta de quando o preço era de UM$ 8,00. Ele continua ofertando apenas nove unidades, enquanto o produtor 3 diminui outras três unidades de sua oferta, passando a oferecer agora apenas 16 unidades. Você pode continuar o raciocínio quando os preços são de UM$ 6,00 e de UM$ 4,00. O que explica comportamentos diferentes de produção (oferta) de um mesmo bem a diferentes preços? Várias podem ser as respostas. Uma delas: a queda de preços não cobre os custos de produção, de modo que o produtor poderá incorrer em lucros menores. Da mesma forma que quantidades ofertadas são influenciadas pelo preço do bem, a curva de oferta também sofre influência. Nesse caso, dependendo do determinante da oferta (preço dos fatores de produção, preço dos bens relacionados, tecnologia, condições climáticas), a curva de oferta sofre deslocamentos positivos ou negativos. Aqui vale a mesma distinção apresentada quando do tratamento da teoria da demanda: entre o que são movimentos da curva, também chamados de deslocamentos da curva, e movimentos ao longo da curva. Movimentos ao longo da curva são percebidos quando o influenciador da oferta é o preço do bem. Pense no seguinte: coeteris paribus, o que ocorre com a quantidade ofertada de leite diante da diminuição de seus preços? Aumento ou diminuição nas quantidades ofertadas? Diminuição, pois se trata de relação direta entre preços e quantidades. Como representar a curva de oferta de leite? Mais: como indicar a curva de oferta de leite e o efeito das quantidades ofertadas diante da diminuição de preço? Vamos lá. Figura 30 – O leite e sua fonte Disponível em: https://cutt.ly/4wqR03K5. Acesso em: 15 maio 2023. 75 ECONOMIA E NEGÓCIOS Suponha que o preço do litro de leite seja UM$ 3,00 e que os vendedores, em conjunto, ofertem 12.000 litros. O preço do litro cai para UM$ 2,80 e a oferta de mercado passa a ser de 10.700 litros. Temos aqui uma escala de oferta. Tabela 7 – Escala de oferta de leite Ponto Preço (UM$) Quantidade ofertada (litros) A 3,00 12.000 B 2,80 10.700 Vejamos a representação da curva de oferta de leite e o efeito das quantidades ofertadas diante da diminuição de preço. 10.700 12.000 QoI 3,00 2,80 O A B P Figura 31 – Curva de oferta de leite Como houve diminuição no preço do leite, P, e os produtores passaram a ofertar menor quantidade do bem, (Qol), há um deslocamento de pontos ao longo da curva. O ponto inicial está em A, correspondendo ao preço UM$ 3,00 e a 12.000 litros. A queda de preços para UM$ 2,80 faz que as quantidades ofertadas do bem sejam de 10.700 litros, o que é representado pelo ponto B. Assim, a modificação no preço provocou movimento de pontos ao longo da curva de oferta, O. Se o preço aumentar, o efeito será o contrário: deslocamento de ponto ao longo da curva de B paraA. De forma diferente, deslocamentos da curva de oferta ocorrem quando o preço dos fatores de produção, o preço dos bens relacionados, a tecnologia ou condições climáticas apresentarem alteração individual ou em conjunto. 76 Unidade II Observação Em função da condição coeteris paribus, admite‑se que a alteração seja individual: um determinante de cada vez exercendo influência sobre a oferta. Voltemos ao exemplo da oferta de calças em função do tecido: Qoc = ƒ (PFP) Onde: Qoc = quantidade ofertada de calças (PFP) = preço de fator de produção Figura 32 – Indústria têxtil Disponível em: https://bit.ly/41lH95w. Acesso em: 3 abr. 2023. Admita, coeteris paribus, diminuição da oferta de tecido e, portanto, crescimento no preço do tecido: o que ocorre? Você deve ter respondido que diminuirá a oferta de calças. E mais – deve ter imaginado rapidamente a função oferta para o caso proposto: ↓ Qoc = ƒ (↑Pt) E qual é o impacto na curva de oferta? 77 ECONOMIA E NEGÓCIOS P P B A O’ O Q2 Q1 Qoc Figura 33 – Oferta de calças Com a queda na oferta de tecidos, menor será a oferta de calças, coeteris paribus. Assim, a curva de oferta original, O, combina o preço das calças com determinada quantidade, Q1, antes da alteração do preço e da queda de oferta de tecidos, ponto A. Com a alteração no mercado de tecidos, a curva de oferta de calças sofre deslocamento negativo, e agora é chamada de O’. O ponto B demonstra novas, e menores, quantidades ofertadas de calças, Q2, e o preço permanece constante. Observação O fato de o preço ter permanecido constante deve‑se à alteração somente da função oferta influenciada pelo determinante preço de fatores de produção. Como tudo o mais permaneceu constante, também permaneceu constante a influência da demanda e do comportamento do mercado. Estudemos outro exemplo. Analisando um agricultor, estamos agora preocupados em investigar o que acontece com o mercado de soja se houver uma diminuição do preço do milho. 78 Unidade II Figura 34 – Milho Disponível em: https://bit.ly/3GekRdI. Acesso em: 3 abr. 2023. Tratando‑se de bens substitutos na produção, o produtor racional tomará qual atitude? Se você está pensando que nosso agente racional mudará a produção para o cultivo de soja, acertou! Parabéns. Por qual motivo? Simplesmente pelo fato de a queda do preço do milho desencorajar continuidade na produção, estimulando mudança para o cultivo de soja. Observe a seguir a representação gráfica. Qom (b) Oferta de soja C D Os’ Q1 Q2 Qos Os (a) Oferta de milho P P1 P2 BB A Om Q2 Q1 P Figura 35 – Oferta de milho e soja 79 ECONOMIA E NEGÓCIOS Em (a) temos a representação da oferta de milho, Om; em (b), a de soja, Os. No início, a oferta de milho, Om, está no ponto A, onde P1 corresponde a Q1. A oferta de soja está no ponto C. Com a queda do preço do milho, a nova quantidade ofertada passa a ser B: P2,Q2. A diminuição no preço força o aumento da oferta de soja, e a curva de oferta desse produto sofre deslocamento positivo, ou para a direita, e agora é representada por Os’. No gráfico (b), a quantidade ofertada de soja passa a ser Q2. Figura 36 – Soja Disponível em: https://bit.ly/3oDdBlT. Acesso em: 3 abr. 2023. Pois bem: até o momento olhamos as duas teorias em separado: a da demanda e a da oferta, ambas com seus determinantes e deslocamentos. Agora vamos examinar como elas se comportam juntas. 5.2 Equilíbrio entre oferta e demanda e possibilidades de desequilíbrio Como já estudamos a demanda e a oferta, devemos acentuar outro ponto, que é o local onde as relações da demanda se defrontam com as relações da oferta. Nesse local, quem quer comprar uma mercadoria relaciona‑se com quem quer vender determinada mercadoria e vice‑versa. Chamamos esse local de mercado. No mercado, por meio da determinação de preços de mercadorias e suas respectivas quantidades, são realizadas todas as transações entre os agentes e, dessa forma, todas as relações da demanda são postas em ação, assim como acontece com as relações da oferta. Então, se em um mercado existe o encontro de demandantes de mercadorias com os ofertantes de mercadorias, podemos representá‑los da seguinte forma: 80 Unidade II P O D Q Figura 37 – Representação do funcionamento do mercado Assim, o mercado de uma mercadoria qualquer é representado posicionando as curvas de demanda e de oferta em um mesmo gráfico. Aqui, a curva de demanda indicará as quantidades demandadas de uma mercadoria em relação aos seus preços, e a curva de oferta, por sua vez, também ilustrará as quantidades ofertadas de uma mercadoria em relação ao comportamento de seus preços. Mas lembre‑se: os determinantes da demanda e da oferta também estão representados nas curvas específicas. Segundo a teoria da demanda, as quantidades que os consumidores estão interessados em adquirir reagem de forma inversa aos preços; ou seja, para preços maiores, as quantidades demandadas serão menores, e também vale o inverso. Já a teoria da oferta demonstra que as quantidades que os produtores estão interessados em oferecer reagem de forma direta aos preços; ou seja, para preços maiores, as quantidades ofertadas serão maiores, e para preços menores, elas também serão menores. Então, parece haver desencontro de interesses entre os que ofertam e os que demandam mercadorias. Esse desencontro é resolvido quando os demandantes passam a aceitar pagar os preços que os ofertantes desejam receber; de forma análoga, o desencontro também passa a ser resolvido quando os produtores ofertam mercadorias na real quantidade em que os consumidores desejam adquirir. Estamos nos referindo a um ponto de equilíbrio. No ponto de equilíbrio, que no próximo gráfico está representado pela letra E, serão harmonizados os interesses conflitantes de demandantes e ofertantes de mercadorias. Se os ofertantes desejarem cobrar preços mais elevados do que aqueles que os demandantes aceitam pagar, haverá mais quantidades ofertadas do que aquelas que serão consumidas. Existirá, portanto, um excesso de oferta. De outra forma, se os consumidores desejarem adquirir maiores quantidades do que aquelas ofertadas pelos produtores, existirá escassez. Representando o ponto de equilíbrio, temos: 81 ECONOMIA E NEGÓCIOS P E O D Q Figura 38 – Representação do equilíbrio de mercado Vamos representar numericamente as relações do equilíbrio de mercado, recordando tanto a escala de demanda de mercado quanto a escala de oferta de mercado acentuadas nas teorias da demanda e da oferta. A escala de demanda de mercado está elencada na tabela a seguir. Tabela 8 – Escala de demanda para vários consumidores Preço (UM$) Consumidor 1 Consumidor 2 Consumidor 3 Consumo total Ponto 10,00 10 7 13 30 A 8,00 12 8 16 36 B 7,00 13 8 17 38 C 6,00 14 9 19 42 D 4,00 16 10 28 54 E Quanto à escala de oferta de mercado, a apresentada foi a seguinte: Tabela 9 – Escala de oferta para vários produtores Preço (UM$) Produtor 1 Produtor 2 Produtor 3 Oferta total Ponto 4,00 10 7 13 30 A 6,00 12 8 16 36 B 7,00 13 9 16 38 C 8,00 14 9 19 42 D 10,00 16 10 28 54 E 82 Unidade II Observação Como estamos tratando do assunto equilíbrio de mercado, trouxemos aqui novamente as informações acerca dos participantes do mercado: todos demandantes e ofertantes de um mesmo bem. A partir das duas escalas separadas, é possível construir uma escala que represente, para um mesmo nível de preços, as quantidades demandadas e as quantidades ofertadas de certa mercadoria. É o que ilustra a próxima tabela. Tabela 10 – Escala de mercado Preço (UM$) Quantidades demandadas Quantidades ofertadas Ponto 4,00 54 30 A 6,00 42 36 B 7,00 38 38 C 8,00 36 42 D 10,00 30 54 E Feita a escala de mercado, que combina quantidades demandadas e quantidades ofertadas de uma mesma mercadoria para diferentes níveis de preços, poderemos então representar o ponto de equilíbrio para esse mercado. Antes disso, observeos números da tabela: ao preço de UM$ 4,00, quantidades demandadas e ofertadas são diferentes; ao preço de UM$ 6,00, idem. O mesmo ocorre aos preços de UM$ 8,00 e UM$ 10,00. Mas e ao preço de UM$ 7,00? As quantidades demandadas são idênticas às ofertadas. Portanto, ao preço UM$ 7,00, as quantidades demandadas e ofertadas são de 38 unidades, representando o ponto de equilíbrio nesse mercado. Observação Note o que ocorre quando o preço é superior ao de equilíbrio bem como quando é inferior ao equilíbrio. Precisaremos disso adiante. Na tabela anterior, estão representadas as leis gerais tanto da demanda quanto da oferta, cada uma delas com suas relações específicas: na demanda relação inversa e na oferta, direta. O gráfico a seguir acentua numericamente o equilíbrio de mercado. 83 ECONOMIA E NEGÓCIOS P E O D 38 7,00 Q Figura 39 – Equilíbrio de mercado Com a representação, vemos que ao preço de UM$ 7,00 as quantidades demandadas e ofertadas são as mesmas, ou seja, 38 unidades. Para qualquer preço superior a UM$ 7,00, as quantidades ofertadas serão maiores do que as demandadas, gerando excesso de oferta. De outra forma, para preços menores do que UM$ 7,00, as quantidades demandadas serão maiores do que as ofertadas, gerando excesso de demanda, chamada, portando, escassez. Exemplo de aplicação Procure retomar as informações da tabela 10 (escala de mercado). Estabeleça, para cada nível de preços, se há excesso de demanda ou excesso de oferta e quais são as quantidades de tais excessos. Para não ocorrer nem excesso de oferta nem de demanda, o comportamento dos consumidores e de vendedores deverá se adaptar às condições do próprio mercado, em que um exercerá pressão sobre o comportamento do outro. Da mesma forma que o comportamento dos consumidores em relação aos preços praticados pelos vendedores modifica as relações de mercado dos vendedores, qualquer modificação em cada um daqueles influenciadores da demanda ou influenciadores da oferta também afeta o equilíbrio de mercado. Por exemplo, dada a ocorrência de elevação na renda dos consumidores, a tendência é a de que maiores quantidades de mercadorias sejam consumidas. Da mesma forma, se existir, por exemplo, uma melhoria no clima, tornando mais propícia a produção de bens agrícolas, a tendência é que exista maior oferta desses tipos de bens. Assim, as quantidades demandadas e ofertadas de determinada mercadoria, bem como seus preços, sofrem modificações de acordo com o comportamento dos integrantes da demanda e/ou da oferta. Portanto, a cada modificação da demanda ou da oferta, desloca‑se o ponto de equilíbrio. Exemplificando: vamos supor que variações na renda dos consumidores influenciem a demanda por automóveis. Portanto, se a renda dos consumidores aumentar, a procura por automóveis também deve aumentar; se a renda dos consumidores diminuir, a procura por automóveis deve caminhar na mesma direção. 84 Unidade II Observação Note que estamos nos utilizando da condição coeteris paribus. Nesse caso, um único bem: automóvel; um único influenciador da demanda: renda do consumidor. Representaremos, então, o deslocamento do ponto de equilíbrio diante de uma maior procura por automóveis. Quando esta procura é maior, a curva de demanda descola‑se para a direita, agora indicada por D’, mostrando que maiores quantidades dessa mercadoria são procuradas pelos consumidores. Mantendo‑se constante as relações de oferta, o deslocamento positivo da curva de demanda estabelece um novo ponto de equilíbrio, ilustrado por E’. Nesse novo ponto de equilíbrio, percebe‑se que maiores quantidades desse bem são transacionadas, mas a preços maiores. Vejamos a representação gráfica. P E E’ D D’ Q O Figura 40 – Modificações do equilíbrio a partir de crescimento de demanda Nesse caso, o preço do bem sofre elevação, pois, já que os consumidores aumentaram a demanda em função de suas rendas, os ofertantes deverão aumentar as quantidades de automóveis produzidos, cobrando mais por isso. Vejamos outro exemplo. Sabemos que, para uma máquina fotográfica exercer sua função, deve ser utilizada conjuntamente a seus componentes, a exemplo de baterias ou cartões de memória. Vamos supor, por simplificação, que o uso desse tipo de aparelho requeira a utilização de baterias e que os fornecedores de máquinas fotográficas tenham provocado uma elevação nos preços de venda desse tipo de produto. O que deve ocorrer com a quantidade demandada de baterias? Como já sabemos pelo estudo da teoria da demanda, sempre que o preço de um bem aumenta, as quantidades demandadas desse bem tendem a diminuir. Portanto, a resposta a nossa pergunta deverá ser 85 ECONOMIA E NEGÓCIOS que as quantidades demandadas de máquinas fotográficas deverão diminuir. Contudo, o que isso tem de relação com o mercado de baterias? Se menos máquinas fotográficas são vendidas, logo, menos quantidades de baterias também serão utilizadas, diminuindo a demanda por baterias. Representando o que ocorre no mercado de baterias, teremos um deslocamento para a esquerda na curva de demanda, agora chamada D’. O deslocamento da curva de demanda para a esquerda exercerá pressão para queda de preços das baterias, e o novo ponto de equilíbrio nesse mercado está em E’. P E’ E O D’ D Q Figura 41 – Modificações do equilíbrio a partir de diminuição da demanda De outra forma, os influenciadores da oferta também alteram o equilíbrio dos diversos mercados. Vamos verificar como operam alguns desses influenciadores. Vamos supor que, para a produção de pneus, seja necessária a utilização da borracha enquanto fator de produção, que os vendedores de borracha estejam com uma produção muito elevada e que isso tenha diminuído o preço da borracha em seu mercado. Logo, os demandantes de borracha, que nesse caso serão os produtores de pneus, desejarão consumir mais borracha para poderem produzir mais pneus e assim ofertarem maiores quantidades de sua produção. Dessa forma, como se comporta o mercado de pneus? Vejamos graficamente antes de explicar. P E E’ D Q O O’ Figura 42 – Modificações do equilíbrio a partir do aumento da oferta 86 Unidade II Como a produção de pneus foi beneficiada pela grande quantidade de borracha, melhoraram as condições de oferta e, dessa forma, maiores quantidades de pneus serão ofertadas, o que é demonstrado pelo deslocamento positivo da curva de oferta, agora indicada por O’. Como nada ocorreu com relação à demanda, ela permaneceu constante, e um novo ponto de equilíbrio será estabelecido nesse mercado, representado agora por E’, acentuando que maiores quantidades de pneus serão transacionadas a preços menores. Pensemos agora no mercado de beterrabas. Sabemos que as beterrabas são produtos da agricultura, a qual depende, entre outros fatores, de um clima propício para a produção. Vamos supor que uma geada tenha provocado dificuldade muito grande no cultivo desse tipo de produto, ocasionando perda de produção. Assim, os produtores de beterraba ofertarão menores quantidades. Como demonstrar esse evento? Vejamos. P E’ E D Q O’ O Figura 43 – Modificações do equilíbrio a partir de queda na oferta Verificamos que, nesse caso, houve deslocamento negativo (para a esquerda) da curva de oferta, indicada agora por O’, demonstrando que menores quantidades de beterrabas estão sendo oferecidas. Como em nosso exemplo não houve modificação nas relações de demanda desse produto, o deslocamento para a esquerda da curva de oferta original, de O para O’, estabelece um novo equilíbrio para esse mercado, destacado pelo ponto E’, onde menores quantidades de beterrabas são transacionadas a preços maiores. Nesse ponto, vale destacar o que recomenda Wessels (2002, p. 48‑49): Lembre‑se: uma mudança no preço nunca elevará a curva de demanda ou de oferta. As curvas mostram todos os efeitos da mudança de preço. Use os procedimentos abaixo para evitar erros ao analisar como os eventos afetam a oferta e a demanda. [...] 1.