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COMPLICAÇÕES DO TRAUMA ORTOPÉDICO P R O F . D A V I D N O R D O N Estratégia MED ORTOPEDIA Prof. David Nordon | Complicações do Trauma Ortopédico 2 @estrategiamed /estrategiamed t.me/estrategiamed Estratégia MED PROF. DAVID NORDON @drnordon APRESENTAÇÃO: A Ortopedia, diante de todas as áreas contempladas na prova de Residência, não é uma área realmente difícil. Basicamente, é necessário ter conhecimento sobre os temas, mas, principalmente, os macetes de como responder às questões – que geralmente são repetitivas. Você verá, Estrategista, que em cada tema eu apresento a vocês como as questões são geralmente cobradas e sinalizo quais são as informações realmente importantes de se saber, para não errar a questão. Ortopedia certamente não é uma das áreas mais cobradas na prova em geral, tendo uma média nacional abaixo de 1%, mas há regiões do país em que ela figura com até 4% da prova, como algumas instituições do Paraná, ou próximo a 3%, como algumas de Goiás. Dessa forma, é uma área que representa pontos importantes, que podem fazer a diferença entre você passar na instituição dos seus sonhos ou não. E, considerando-se a complexidade, são questões simples, que valem à pena ser destrinchadas e aprendidas. Neste livro de Complicações de Trauma Ortopédico, compilei todas as possíveis complicações de fraturas. Você verá que algumas delas, na realidade, não são necessariamente de fraturas − podem ser traumas por esmagamento, luxações ou cortes. Contudo, todas figuram dentro dos traumas ortopédicos e foram assim compiladas. Este livro é muito importante; logicamente, nem todo ele. Eu vou sinalizar para você quais são os temas em que realmente vale a pena investir e aqueles que são para você apenas terminar de lapidar seu conhecimento e garantir-se. Para isso, aproveite as estatísticas que coloco em cada introdução e acerte no alvo os assuntos que você precisa estudar. Bons estudos! https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://www.instagram.com/drnordon/ Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 3 SUMÁRIO 1.0 COMPLICAÇÕES DO TRAUMA ORTOPÉDICO 4 1.1. SÍNDROME COMPARTIMENTAL AGUDA 4 1.1.1 DEFINIÇÃO, ETIOLOGIA E ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS 6 1.1.2 FISIOPATOLOGIA 7 1.1.3 QUADRO CLÍNICO 9 1.1.4 DIAGNÓSTICO 11 1.1.5 DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS 13 1.1.6 CONDUTA 13 1.1.7 CONTRATURA ISQUÊMICA DE VOLKMANN 16 1.2. SÍNDROME DA EMBOLIA GORDUROSA 18 1.2.1. DEFINIÇÃO, ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA 20 1.2.2. APRESENTAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICO 23 1.2.3. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS 25 1.2.4. PREVENÇÃO E TRATAMENTO 25 1.3. LESÃO NEUROLÓGICA 28 1.3.1. O ESSENCIAL DE LESÕES NEUROLÓGICAS NO CONTEXTO DE TRAUMA ORTOPÉDICO 28 1.3.2. LESÃO DO NERVO RADIAL 31 1.3.3. OUTRAS LESÕES NEUROLÓGICAS 35 1.4. LESÃO VASCULAR 38 1.4.1 O ESSENCIAL DE LESÕES VASCULARES NO TRAUMA ORTOPÉDICO 39 1.5. SÍNDROME DA DOR COMPLEXA REGIONAL 46 1.5.1. O ESSENCIAL DA SÍNDROME DA DOR COMPLEXA REGIONAL 46 1.6. COMPLICAÇÕES GERAIS DE FRATURAS E CIRURGIAS 50 1.6.1. COMPLICAÇÕES PÓS-OPERATÓRIAS ORTOPÉDICAS 51 2.0 LISTA DE QUESTÕES 54 4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 55 3.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 55 Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 4 Síndrome compar�mental aguda Lesão neurológica QUESTÕES DE COMPLICAÇÕES DE TRAUMA ORTOPÉDICO Embolia gordurosa Lesão vascular Complicações pós-operatórias e em idosos 71 23 11 28 4 3 1.0 COMPLICAÇÕES DO TRAUMA ORTOPÉDICO CAPÍTULO Estrategista, estamos no módulo de complicações de trauma ortopédico. Este é um módulo importante, cujas questões somadas ficam em segundo lugar como tema mais comum de toda ortopedia, perdendo apenas para quadril infantil. Agora, o que eu considero uma complicação de trauma ortopédico? Basicamente, qualquer coisa que possa, direta ou indiretamente, ser ocasionada por um trauma ortopédico. Contudo, nem todas estão incluídas aqui; há algumas questões que são bem específicas, embora configurem uma complicação de fratura. Por exemplo: fratura supracondiliana. Muitas perguntas, nesse tipo de fratura, dizem respeito somente a qual nervo ou qual artéria foi lesada, portanto cairiam muito bem aqui, e eu não estaria errado em colocá-las. Mas achei melhor não, para você poder manter um fluxo didático, quando estiver estudando as fraturas supracondilianas. Da mesma forma, algumas questões de embolia gordurosa (não muitas) são abordadas pela pneumologia, por avaliarem aspectos específicos — conceitos de UTI, ou questões que direcionam muito mais para cardiologia ou pneumonia do que o bom e velho trauma. Sendo assim, o número de questões deste tema é potencialmente maior e invariavelmente associado a outros temas. Por isso, não deixe de conferir os outros livros. Veja, no gráfico a seguir (gráfico 1.0.1), a quantidade de questões de complicações do trauma ortopédico por tema: Gráfico 1.0.1. Complicações do trauma ortopédico – temas e quantidade de questões. 1.1. SÍNDROME COMPARTIMENTAL AGUDA Síndrome compartimental aguda (SCA) é o segundo tema mais cobrado em trauma ortopédico. É um tema quentíssimo, cobrado principalmente a respeito de diagnóstico e conduta. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 5 2006 Ano do Concurso TENDÊNCIA HISTÓRICA � QUESTÕES DE SCA �2006�2021 2020 20212007 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 20192008 1 2 1 4 4 3 1 1 5 4 4 5 12 9 8 7 SCA é um tema que você tem que dominar, por estar sempre presente em provas. Note a tendência histórica nos últimos 15 anos (gráfico 1.1.1): Gráfico 1.1.1. Tendência histórica de cobrança de questões de SCA (2006-2021). Como se vê, nos últimos quatro anos a SCA vem tornando-se um tema cada vez mais quente. E, dos 27 estados da federação, o tema esteve presente em 19, como você pode ver no gráfico 1.1.2. São Paulo foi o estado que mais cobrou o tema, mas é também o estado com mais concursos. Paraná veio logo em seguida e Minas Gerais, que é geralmente tímida dentro da ortopedia, mostrou as caras, ficando na quarta posição. SP PR REPRESENTATIVIDADE POR ESTADO RJ AL, MG,RS, GO BA, DF, PE PB, TO CE, ES, MA, MS, PA, PI, SE 24% 17% 10% 8% 22% 13% 6% Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 6 Agora, vamos ver como ele vem sendo cobrado. Confira no gráfico 1.1.3. Conduta Diagnós�co SUBTEMAS DE SÍNDROME COMPARTIMENTAL AGUDA Exame �sico Conhecimentos gerais Epidemiologia Fisiopatologia E�ologia Técnica de fasciotomia 30% 31% 16% 18% 1% 1% 2% 1% Conduta e diagnóstico estão quase empatados — e, de fato, geralmente andam juntos. É difícil haver uma questão que pergunte diretamente a conduta na SCA. Eles geralmente querem que você leia o caso, identifique o diagnóstico principal e, aí, dite a conduta. Quanto ao exame físico, as questões geralmente direcionam para os 7 Ps do diagnóstico da SCA – e, #spoiler, a questão queridinha é qual deles é o mais sensível ou mais precoce. Resumindo tudo isso: com um quadro-resumo que você verá nas próximas páginas, eu consigo fazer você responder, no mínimo, 79% das questões de SCA. Vamos nessa? 1.1.1 DEFINIÇÃO, ETIOLOGIA E ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS A SCA é definida pelo aumento de pressão intracompartimental, geralmente, mas não exclusivamente, secundária a um trauma. Ocorre por uma lesão muscular aguda, não necessariamente relacionada a fraturas. De fato, embora sua causa principal seja fratura de ossos da perna, a segunda principal causa é lesão de partes moles da perna (por esmagamento, por exemplo). Juntas, elas respondem por quase 50% dos casos, tornando a pernaessa é uma lesão característica do nervo radial, responsável pela extensão do punho e dos dedos nas metacarpofalângicas. Incorreta a alternativa E: tecnicamente, a flexão é do cotovelo, que é feita tanto pelo braquial, quanto pelo bíceps braquial. A supinação é predominante do bíceps (nervo musculocutâneo), enquanto a pronação é feita pelo pronador (nervo interósseo anterior). Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 38 (HOSPITAL MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP, 2017) Após uma fratura do colo da fíbula o paciente desenvolveu uma perda na dorsiflexão do tornozelo, causando o chamado "pé em gota". Esse achado resulta da lesão de qual nervo? A) Nervo fibular comum. B) Nervo tibial. C) Nervo cutâneo sural. D) Nervo safeno. COMENTÁRIO: Questão única de lesão do nervo fibular, é interessante para ilustrar o caso. Não é um trauma tão infrequente. Correta a alternativa A: a lesão do nervo fibular comum é clássica na lesão do colo da fíbula e deve ser sempre avaliada por meio 1.4. LESÃO VASCULAR Tema frio para morno. A maior parte das questões pode ser respondida com conhecimentos anatômicos. Lesão vascular no contexto de trauma ortopédico é outro daqueles temas que não deve ser uma prioridade. Contudo, foi cobrado em 2020 pelo INTO, no Rio de Janeiro. Sendo assim, vamos ver um pouco sobre suas estatísticas (gráficos 1.4.1. e 1.4.2): Anatomia Diagnós�co TEMAS DAS QUESTÕES Conduta Epidemiologia 46% 18% 18% 18% Gráfico 1.4.1. Temas das questões sobre lesão vascular no trauma ortopédico. do teste da dorsiflexão do pé e dos dedos. Incorreta a alternativa B: o nervo tibial corre posteriormente, sem relação com a fíbula. Incorreta a alternativa C: o nervo sural emerge após a passagem do fibular comum pela cabeça da fíbula e tem função sensitiva. Incorreta a alternativa D: o nervo safeno origina-se do nervo femoral e inerva a face parapatelar medial e anteromedial da perna. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 39 Poplítea Braquial ARTÉRIAS ABORDADAS Umeral 67% 16% 17% O principal conhecimento necessário, portanto, é anatomia. Perguntas de epidemiologia podem ser um pouco capciosas. Gráfico 1.4.2. Artérias abordadas nas questões. Dentre as artérias apresentadas para correlação anatômica, as artérias braquial e poplítea são as principais. Vale lembrar que essas artérias figuram também em questões de fraturas supracondilianas e traumas do joelho, que não estão incluídas aqui. Resumindo: boa parte das questões de lesão vascular pode ser respondida com conhecimento da anatomia vascular dos membros superior e inferior. 1.4.1 O ESSENCIAL DE LESÕES VASCULARES NO TRAUMA ORTOPÉDICO Da mesma forma que a lesão neurológica, a lesão vascular deve-se à íntima relação entre o vaso e o fragmento proximal da fratura. A tração do fragmento distal leva à lesão do vaso, sem necessariamente uma lesão direta. Esse é um exemplo importante na fratura do úmero e, principalmente, nas lesões do joelho, em que a artéria poplítea fica presa no canal dos adutores e sofre tração. Vamos relembrar por meio de figuras alguns vasos relevantes, que são cobrados em questões. Como você pode ver na figura 1.4.1, a artéria braquial origina-se da artéria axilar e irá nutrir todo o membro superior (não existe alternativa). Dela, originam-se as artérias umerais, que nutrem, especificamente, a cabeça do úmero. A artéria braquial está sob risco em fraturas da diáfise do úmero; ela dá origem às artérias radial (em risco na fratura do rádio, embora raro) e ulnar (fraturas da ulna, raro). Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 40 Figura 1.4.1. Anatomia vascular do braço. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 41 Em seguida, temos a anatomia vascular do joelho. Como você pode ver na figura 1.4.2, a artéria femoral profunda, principal nutridora da coxa, ao passar pelo canal dos adutores, dá origem à artéria poplítea. Por sua vez, ao passar o músculo poplíteo, a artéria poplítea dá origem a três importantes ramos: o tibial anterior, avaliado pelo pulso pedioso; o tibial posterior, avaliado pelo pulso homônimo; e a artéria fibular, bem menos significativa do que as duas anteriores. Apesar de tantos locais potenciais de lesão, nas fraturas do fêmur distal, tíbia proximal ou luxações do joelho, a principal artéria em risco é a poplítea, devido ao seu trajeto rígido no canal dos adutores. Figura 1.4.2. Anatomia vascular do joelho. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 42 Confira na tabela a seguir (1.4.1) os principais vasos cobrados em provas: Vaso Trauma Considerações Plexo venoso sacral Fratura da bacia Ocorre em mais de 60% das lesões graves de bacia e são a principal causa de morte no trauma ortopédico. Artéria poplítea Luxações e fraturas do joelho Mais de 50% de lesão nos traumas com lesão multiligamentar; é a principal artéria nessa localização, com potencial de amputação se lesada. É a favorita das questões. No joelho flutuante (fratura do fêmur e tíbia), ocorre lesão em ate 21% dos casos. Artéria braquial Fraturas do úmero Especificamente na fratura supracondiliana, pode ocorrer lesão dessa artéria em até 20% dos casos. Artéria circunflexa escapular Fratura da escápula Fraturas da escápula são raras, sendo traumas de alta energia, mas a lesão dessa artéria pode ocorrer em até 10% dos casos. Artéria femoral profunda Fraturas do fêmur (diáfise) Lesão rara, ocorre em apenas 1,6% dos casos. Considerando casos anedóticos, parece que é mais fácil você lesá-la guardando um cálice no bolso do terno de casamento (não, não é brincadeira, isso já ocorreu duas vezes e em anos recentes!). Artéria subclávia Fratura de clavícula Sua lesão é muito, muito rara, geralmente relacionada a traumas de alta energia na região proximal da clavícula. As lesões vasculares devem seguir o protocolo que discutimos no livro de politrauma ortopédico: primeiro, alinhar o membro; depois, reavaliar. Se permanecer com pulso ausente, reduzir e fixar a fratura; depois, reavaliar. Se ainda assim estiver sem pulso, está indicada intervenção vascular. Vale lembrar: a fixação da fratura é sempre prioritária à correção vascular. Artéria mais lesada nas fraturas do úmero: braquial. Artéria mais lesada nas fraturas e luxações do joelho: poplítea. CAI NA PROVA (INTO, RJ, 2020) Um paciente de 23 anos, é levado ao hospital de emergência à acidente automobilístico (auto x poste), sendo ejetado do veículo. Na admissão, paciente encontra-se entubado, pupilas isocóricas, fotorreagentes. Ausculta pulmonar e cardíacas sem alterações. Pressão arterial 110/90mmHg, Frequência cardíaca 112bpm. Membro superior direito com edema e deformidade na região do braço, com diminuição dos pulsos distais e do enchimento capilar. Apresenta também aumento de volume e equimose em coxa esquerda, com diminuição da temperatura e dos pulsos no referido membro. Abdome flácido, sem distensão. Com relação ao trauma vascular, qual das alternativas abaixo está associada com a maior incidência de lesão arterial? A) Luxação de ombro. B) Fratura diafisária de fêmur. C) Fratura de ulna. D) Luxação posterior de joelho. E) Fratura de clavícula. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 43 COMENTÁRIO: Questão basicamente de epidemiologia. Os dados são razoavelmente confiáveis no quesito de incidência de lesões vasculares, de forma que podemos responder com uma certa segurança. Incorreta a alternativa A: a luxação do ombro raramente compromete a vasculatura, pois as estruturas não são fixase ficam interpostas durante a luxação. Incorreta a alternativa B: embora propensa a muito sangramento, predominantemente por artérias intraósseas, a fratura de fêmur infrequentemente lesa a artéria femoral, que é bastante móvel na região da coxa. Contudo, quando há lesão da femoral, geralmente é catastrófica. Correta a alternativa D: essa é a fratura mais perigosa (UFES, ES, 2016) Na fratura da diáfise umeral, qual das artérias listadas abaixo pode ser lesada, indicando o reparo operatório do úmero? A) Artéria aorta. B) Artéria subclávia. C) Artéria braquial. D) Artéria radial. E) Artéria ulnar. COMENTÁRIO: Mais do que uma questão sobre trauma vascular, essa é basicamente uma questão de anatomia. Conhecendo-a, não fica dúvida de qual a artéria lesada na diáfise do úmero. Dê mais uma olhada na figura 1.4.1. Incorreta a alternativa A: não há relação anatômica entre a aorta e o úmero para ocasionar uma lesão a sua fratura. Incorreta a alternativa B: a artéria subclávia pode ser lesada durante a fratura da clavícula, não do úmero. Correta a alternativa C: a artéria braquial apresenta um Figura 1.4.1. Anatomia vascular do braço. Incorreta a alternativa C: a artéria ulnar é bem envolta por um envelope de partes moles e está segura durante fraturas da ulna. com relação ao risco de lesão arterial. Incorreta a alternativa E: a fratura de clavícula pode lesar a artéria subclávia, mas isso é muito incomum e geralmente ocorre em traumas de alta energia, na região proximal (tipo mais raro de fratura da clavícula), onde a subclávia é mais fixa. grande potencial de lesão às fraturas de diáfise de úmero. Está em especial risco quando ocorre a fratura supracondiliana do úmero. Incorreta a alternativa D: a artéria radial emerge após o cotovelo, portanto, após o úmero. Incorreta a alternativa E: a artéria ulnar, igualmente, emerge após o cotovelo. Ambas, ulnar e radial, raramente são lesadas em fraturas. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 44 (PONTIFÍCA UNIVERSIDADE CATÓLICA, PR, 2015) Paciente vítima de colisão entre moto e automóvel dá entrada na sala de emergência trazido pelo serviço de emergência com história de TCE leve e contusão em joelho direito. Ele apresenta laceração no joelho direito, sangramento local e ausência de pulso na artéria pediosa direita. A radiografia de joelho evidencia uma fratura condilar femoral. Neste caso, a lesão vascular mais provável é: A) lesão da artéria tibial anterior. B) lesão da artéria femoral superficial. C) lesão da artéria poplítea direita. D) lesão da artéria fibular. E) lesão da artéria femoral profunda. COMENTÁRIO: A única dificuldade que se apresenta nessa questão é a possibilidade de ser uma lesão da artéria tibial anterior – afinal, o pulso ausente é o pedioso. Mas, isso não significa que a lesão não possa ser mais proximal – o fato é que ele apenas não descreveu a palpação do pulso poplíteo. De qualquer forma, para responder a essa pergunta, é necessário realmente o conhecimento de onde é mais provável que ocorra lesão da vasculatura do membro inferior. Dê uma conferida na figura 1.4.2. Incorreta a alternativa A: a artéria poplítea divide-se em artérias tibial anterior, posterior e fibular após passar o músculo poplíteo – logo, distal ao côndilo. Correta a alternativa C: presa ao hiato dos adutores, (UNESP, SP, 2014) Homem de 34 anos caiu de uma árvore e teve fratura e luxação no cotovelo esquerdo. Exame físico: ausência de pulsos braquial, radial e ulnar, e perfusão da mão lentificada. A conduta é: A) Redução da fratura e da luxação, seguida por arteriografia ou ultrassonografia vascular para investigação de lesão arterial e restauração desta, se necessário. B) Abordagem cirúrgica da artéria com exploração e restauração desta, se necessário, e, depois de 48 horas, realização da redução da fratura e da luxação. C) Redução da fratura e da luxação, seguida do aquecimento do membro para aguardar o reaparecimento dos pulsos, que podem ter desaparecido por vasoespasmo. D) Redução da fratura e da luxação e posterior administração de heparina, para evitar a trombose arterial secundária. E) Colocação de uma tala no membro e manutenção do paciente com vasodilatador endovenoso até que reapareçam os pulsos COMENTÁRIO: Para fechar as questões desse tema, vamos a uma de condutas. Independentemente do membro acometido, na presença de uma fratura ou luxação, a conduta no membro sem pulso é sempre a mesma. muito próxima ao nível de fratura do côndilo, essa é a artéria em risco. Incorreta a alternativa D: a artéria fibular é mais distal ao ponto de lesão pelo hiato dos adutores. Incorreta a alternativa E: a artéria femoral profunda é mais proximal, não sendo lesada na fratura do côndilo. Incorreta a alternativa B: a artéria femoral superficial não tem relação com o côndilo femoral. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 45 Correta a alternativa A: dentre as alternativas, essa é a Incorreta a alternativa C: aquecimento do membro não é um protocolo usual. Incorreta a alternativa D: igualmente, administração de heparina não é indicada. Incorreta a alternativa E: essa é a alternativa mais absurda. É essencial reduzir a fratura, pois o desvio dos fragmentos pode estar comprimindo os vasos. Vasos mais lesados Conduta Intervenção vascular Fixar fratura Plexo venoso sacral Reduzir luxação ou fratura Reavaliar pulso Artéria poplítea Artéria braquial Artéria circunflexa da escápula Artéria femoral profunda Fratura da bacia: >60% Fratura do fêmur: 1,6% Fratura da escápula: 10% Supracondiliana do úmero: 20% Traumas mais frequentes Luxação do joelho: até 50% Joelho flutuante: 21% Lesão vascular no trauma ortopédico Figura 1.4.3. Mapa mental de lesão vascular no trauma ortopédico. melhor. Indica a redução da fratura, sem definir se cruenta ou incruenta, e reavaliação da perfusão. Incorreta a alternativa B: há um conceito importante em ortopedia: não adianta consertar a lesão arterial sem fixar a fratura, pois o osso ficará instável e há o risco de se perder o tratamento vascular. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 46 1.5. SÍNDROME DA DOR COMPLEXA REGIONAL Esse é um tema frio. Entretanto, como dor é uma área em ascensão, cabe estudar com carinho. A síndrome da dor complexa regional (SDCR) foi cobrada apenas quatro vezes em provas de Residência: em 2016, no Revalida; em 2018, em dois concursos e em 2019, em um concurso. Como eu já reiterei outras vezes quando falo sobre dor, esse é um tema em ascensão. Dor entrou como matéria oficial do TEOT (título de especialista em ortopedia) em 2019, ano em que a 1.5.1. O ESSENCIAL DA SÍNDROME DA DOR COMPLEXA REGIONAL Sinônimos: a SDCR é conhecida por diversos outros nomes: distrofia simpática reflexa, causalgia, atrofia de Sudeck. O termo mais correto, contudo, é síndrome da dor complexa regional. Definição: trata-se de uma síndrome com alteração do processamento de dor associada a sintomas autonômicos. Ocorre incapacidade da região afetada, associada às alterações tróficas, motoras, autonômicas e sensitivas. Epidemiologia: ela é mais comum em mulheres de meia idade, afetando predominantemente membros superiores e unilateralmente. Etiologia: há várias causas descritas para essa doença, que não obrigatoriamente envolvem traumas ou cirurgias. Entretanto, esses dois são os mais relevantes, do ponto de vista de provas. Cabe lembrar, contudo, que ela pode ser espontânea em 10% a 26% dos casos. Fatores de risco: diabetes mellitus, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo e dislipidemia. Exceto por diabetes, que provoca uma polineuropatia periférica e quadros de dor neuropática, não há uma explicação da associação entre as outras doenças e a SDCR.Apresentação clínica: clinicamente, ela é composta por sintomas que você pode lembrar pelo acrônimo STAMD: • Sintomas Sensoriais: hiperalgesia (sensação excessiva de dor para estímulos normalmente dolorosos) e alodínea(sensação de dor para estímulos que não são dolorosos); • Sinais Tróficos: alterações de pele e fâneros; • Sintomas Autonômicos: alterações de temperatura, cor, edema e sudorese; • Sintomas Motores: perda de força, atrofia, tremor, contraturas; e • Dor. SBOT publicou um livro do tema. Assim, considerando que muitos examinadores se baseiam em questões do TEOT para fazer suas próprias, vale a pena ficar de olho. Não somente, essa área de atuação vem ganhando força progressiva e pode ser uma opção para você, Estrategista. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 47 Veja na figura 1.5.1. Figura 1.5.1. Apresentação clínica da síndrome da dor complexa regiona. Essa doença é dividida em três estágios: • Estágio inicial: ocorrem sintomas vasomotores associados à dor. Principalmente edema, hiperemia, aumento de temperatura e hiperidrose. Alguma rigidez da articulação acometida também pode estar presente. • Estágio intermediário: ocorre entre o terceiro e o nono meses e caracteriza-se por basicamente o inverso do estágio inicial, ou seja: palidez e pele seca. A rigidez torna-se mais intensa, ocorre atrofia muscular e há dor a qualquer tentativa de movimento. • Estágio final: a partir de nove meses do início; a pele torna-se fria e pálida; pode ocorrer tanto hipotricose quanto hipertricose; a atrofia é extrema e associada a níveis variados de dor. Por fim, devido ao desuso, temos a osteoporose (Sudeck), tornando o membro muito frágil. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 48 É classificada em dois tipos: • Tipo I: não apresenta lesão de nervo; • Tipo II: apresenta lesão de nervo. Diagnóstico: o diagnóstico é clínico; não existe um exame que o confirme. A suspeita baseia-se em uma história compatível, dor e sintomas autonômicos. Diagnósticos diferenciais: há poucas doenças que podem confundir o diagnóstico com essa. Fraqueza muscular pode ocorrer em lesões neurológicas, mas não se esperam as alterações autonômicas apresentadas. Ademais, mesmo que ocorram, elas • Síndrome dolorosa, de etiologia desconhecida. Sua apresentação é lembrada pelo mnemônico STAMD (alterações sensoriais, tróficas, autonômicas, motoras e dor). • Há dois tipos: I, sem lesão neurológica, e II, com lesão. • O tratamento é basicamente por meio de fisioterapia. afetam o território inervado pelo nervo lesado, como você viu na questão sobre a lesão do nervo mediano, anteriormente neste livro. Por fim, é uma doença crônica, de longa evolução (meses a anos). Tratamento: o tratamento dessa doença é bastante complicado. São utilizadas medicações para dor, enquanto, com a fisioterapia, tentam-se técnicas de dessensibilização. Do ponto de vista de profilaxia, pode-se usar vitamina C diariamente, na dosagem de 500mg, por cinquenta dias a partir do trauma. CAI NA PROVA (UNIFESP, SP, 2019) Paciente foi submetido à osteossíntese dos ossos do antebraço direito há 4 meses sob anestesia geral. Retorna com dor em queimação e dificuldade para movimentar a mão e dedos desde a retirada do gesso. Ao exame físico: antebraço direito com pele e anexos atróficos e mais frio do que o esquerdo. Qual é o diagnóstico? A) Lesão do plexo braquial. B) Lesão do nervo ulnar. C) Síndrome miofascial. D) Osteoartrose. E) Síndrome dolorosa complexa regional. COMENTÁRIO: Mesmo que você não saiba absolutamente nada sobre a SDCR, ainda assim é possível responder a essa questão por exclusão. Contudo, saber o tema sempre permite que se responda com segurança. Vamos, agora, entender por que as outras opções estão erradas. Incorreta a alternativa A: a lesão do plexo braquial não tem relação com osteossíntese do antebraço. Além disso, a perda seria basicamente motora, sem as outras alterações descritas. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 49 Incorreta a alternativa B: a lesão do ulnar não alteraria a pele e levaria à parestesia ou anestesia na face ulnar do antebraço e perda da capacidade de abdução e adução dos dedos, com atrofia dos interósseos. Incorreta a alternativa C: a síndrome miofascial ocorre no dorso, levando à dor, às vezes com irradiação para os membros superiores. Incorreta a alternativa D: osteoartrose não provocaria estas alterações de pele, nem alterações de temperatura, e não ocorreria tão rapidamente. Correta a alternativa E: essa é uma descrição típica da SDCR. (FUNDAÇÃO BANCO DE OLHOS DE GOIÁS, GO, 2018) Síndrome da Dor Complexa Regional do Tipo 1, é caracterizado se por dor intensa, limitação e alterações autonômicas, com edema, hiperemia e sudorese, em geral acometendo uma das mãos. Ocorre normalmente após lesão nervosa, trauma, cirurgia ou imobilização. A dor tem padrão neuropático, com sensação de queimação, hiperalgesia, alodinia e disestesias. Relaciona-se com as seguintes situações, EXCETO: A) Diabetes Melito pode predispor ao seu aparecimento. B) O hipertireoidismo pode predispor ao seu aparecimento. C) A ocorrência de hiperparatireoidismo e a dislipidemia do tipo IV possam proteger do seu aparecimento. D) Frequentemente é subdiagnosticada. COMENTÁRIO: Essa é uma questão, na realidade, bem cruel. Foi feita com base em alguns artigos, tendo-se de procurar a fundo na literatura para encontrar a associação com esses fatores de risco, que normalmente não figuram em livros-texto. É uma representação clássica das questões de ortopedia de Goiás. Incorreta a alternativa A: essa afirmação está correta. DM associa-se à SDCR; como há uma origem neurológica e vascular na fisiopatologia dessa doença, a DM, pela sua lesão da vasa vasorum e vasa nervorum, tem sua participação (embora ainda não se tenha a fisiopatologia totalmente elucidada). Quanto mais altos os níveis de HbA1C, maior a incidência de SDCR. Incorreta a alternativa B: essa afirmação está correta. Embora não se saiba a explicação exata da relação, hipertireoidismo pode predispor à SDCR. Correta a alternativa C: essa afirmação está incorreta. Hiperparatireoidismo e dislipidemia tipo IV são, igualmente, fatores de risco para SDCR, ainda que sem uma explicação clara fisiopatológica. Incorreta a alternativa D: essa afirmação está correta. O diagnóstico da SDCR é difícil e frequentemente negligenciado. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 50 Figura 1.5.2. Mapa mental da síndrome da dor complexa regional. 1.6. COMPLICAÇÕES GERAIS DE FRATURAS E CIRURGIAS Apenas três perguntas enquadram-se nesse tema – todas anteriores a 2013. É um tema frio. Como se vê, esse é um tema bem frio. Foi pouco cobrado e, na realidade, não é difícil. Das questões que foram feitas sobre ele, com um pouco de lógica e conhecimentos gerais de medicina e cirurgia, é possível respondê-las. Entretanto, se você estiver com tempo e disposto a dar uma estudada nesse assunto, vou trazer a você informações relevantes do tema. Vamos que vamos! Membros superiores Alteração de cor Alteração de temperatura Sudorese Hiperalgesia Alteração de tônus Alteração de força TremorAlodínea Rigidez Dor Palidez Pele seca Atrofia Final Inicial Dor Sintomas vasomotores Atrofia Pele fria e pálida Hipo/hipertricose Vitamina C profilática OsteoporoseDor Mulheres Unilateral Diabetes Dislipidemia Meia-idade Características Fatores de risco Apresentação clínica Estágios Conduta Fisioterapia Sintomas autonômicos Hiperparatiroidismo Hipertiroidismo Síndrome da dor complexa regional Sintomas sensoriais Intermediário Sintomas motores Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIAProf. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 51 1.6.1. COMPLICAÇÕES PÓS-OPERATÓRIAS ORTOPÉDICAS • Trombose venosa profunda: principal complicação de cirurgias ortopédicas, ocorre principalmente pelo tempo prolongado e imobilização de membros. Não é algo tão preocupante em cirurgias de membros superiores, mas deve ser sempre lembrada em cirurgias de membros inferiores e pacientes acima da meia-idade, especialmente idosos. Temos diversas formas de prevenção; as melhores são o uso de meias compressivas pneumáticas e a deambulação precoce. O uso de anticoagulantes, em especial no período entre a fratura e a síntese, quando esse for prolongado, e no período pós- operatório é, também, muito importante. Esse tema é discutido mais profundamente no seu livro respectivo. • Tromboembolismo pulmonar: é a evolução catastrófica da trombose venosa profunda e tem relação direta com ela. Apresenta-se como dor torácica, dispneia e tosse, principalmente. Esse tema também tem seu respectivo livro. • Infecção: a infecção é a complicação mais temida pelos ortopedistas, pois, quando atinge o osso, torna-se quase intratável. Ocorre geralmente nas primeiras semanas, mas pode ocorrer também tardiamente. É possível que um agente infeccioso chegue, por meio da corrente sanguínea, a um implante, onde criará o que chamamos de biofilme, uma película protetora para sua colônia – gerando uma infecção um longo tempo depois da cirurgia. Osteomielite é discutida mais detalhadamente no livro de oncologia ortopédica e osteomielite. • Pseudoartrose: é a não consolidação da fratura dentro do tempo esperado; está muito bem discutida no capítulo de consolidação óssea do livro de conceitos básicos do trauma. • Morte: é importante falar que a morte, ainda que rara, é uma complicação cirúrgica ortopédica. Ocorre principalmente em pacientes politraumatizados com fratura de bacia, nos quais pode atingir até 50%, por choque hipovolêmico. Entretanto, também pode ocorrer em cirurgias eletivas, em especial na confecção de artroplastias de quadril cimentadas. O aquecimento do cimento pode gerar uma reação sistêmica e choque, extremamente perigoso se não diagnosticado e tratado imediatamente, em especial porque essa cirurgia é feita principalmente em idosos. • Outras complicações clínicas: aqui entram as complicações clínicas clássicas, como atelectasias, pneumonias, infecções urinárias e, especialmente em idosos, delirium e outras descompensações metabólicas. As principais complicações de cirurgias ortopédicas são: trombose venosa profunda, infecção e pseudoartrose. Existe uma série de complicações que se relacionam às cirurgias ortopédicas. Nós já falamos de embolia gordurosa, que ocorre não somente pela fratura em si, mas também pelo uso de hastes fresadas. Vamos ver as outras: CAI NA PROVA (HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE, RS, 2010) Qual a complicação imediata mais grave das fraturas? A) Infecção B) Lesão nervosa C) Embolia gordurosa D) Choque hipovolêmico E) Comprometimento da circulação do membro fraturado por compressão arterial Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 52 COMENTÁRIO: Essa questão é basicamente de lógica. Dentre todas as apresentadas, qual delas é imediata e tem o maior potencial de morte? Correta a alternativa D: o choque hipovolêmico, que ocorre (UEL, PR, 2012) Cirurgias ortopédicas de grande porte têm sido realizadas com maior frequência em pacientes idosos, graças ao desenvolvimento de equipamentos, tecnologia de anestesiologia e controle pré e pós-operatórios. Com base no enunciado e nos conhecimentos sobre cirurgia ortopédica em idosos, assinale a alternativa correta. A) Involução do timo e menor função dos linfócitos T aumentam o risco de infecção. B) A maior quantidade de água total diminui o risco de toxicidade por drogas. C) TVP apresenta incidência abaixo de 10% nas cirurgias de joelho e quadril. D) Delirium não é frequente no pós-operatório e relaciona-se com septicemia. E) O estado nutricional não influencia a reabilitação após fratura do fêmur. COMENTÁRIO: Questão especificamente sobre cirurgias em idosos, requer mais conhecimentos de clínica do que de ortopedia em si. Ela é uma questão única e antiga, então não fiz um capítulo especificamente para esse tema. Seu tempo será mais bem aproveitado se discutirmos alternativa por alternativa! Correta a alternativa A: de fato, uma menor função imunológica no idoso aumenta o risco de complicações infecciosas. Entretanto, Incorreta a alternativa A: do ponto de vista imediato, a infecção como complicação de fratura apresenta pouco ou nenhum risco ao paciente. Incorreta a alternativa B: da mesma forma, uma lesão nervosa, do ponto de vista imediato, não apresenta qualquer risco ao paciente. Mesmo que seja uma lesão do nervo ciático, por exemplo, não trará qualquer risco de morte ao paciente. Incorreta a alternativa C: a embolia gordurosa é uma complicação potencialmente fatal. Entretanto, ela pode levar até 72 horas para ocorrer, não apresentando, assim, um risco de morte imediato. em especial em fraturas de bacia e de ossos longos, como o fêmur, pode levar o paciente à morte rapidamente, sendo, assim, a complicação imediata mais grave das fraturas. Incorreta a alternativa E: de imediato, o comprometimento da circulação de um membro não traz sérios riscos ao paciente. Porém, conforme a área de tecido comprimida e o tempo de isquemia, após a reperfusão o paciente pode apresentar a síndrome de reperfusão – que pode ser extremamente grave. É devido a essa síndrome que raramente fazemos reimplantes de braços amputados na altura do ombro, ou de membros inferiores. Dessa forma, teríamos uma apresentação hierárquica, de maior para menor gravidade: Choque hipovolêmico > embolia gordurosa > isquemia de membro > infecção > lesão nervosa. não temos ainda nenhum protocolo diferenciado de antibioticoprofilaxia para idosos devido a isso. Incorreta a alternativa B: o idoso apresenta uma desidratação crônica, na maioria dos casos, levando a um maior risco de intoxicação por drogas. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 53 Incorreta a alternativa C: sem prevenção, a TVP pode acometer até 50% dos pacientes submetidos a essas cirurgias, e a embolia pulmonar, assustadores 3%. Incorreta a alternativa D: delirium é muito frequente no pós- operatório de idosos, em especial de superidosos. Relaciona-se não somente a infecção, mas também a toda a ruptura da sua homeostase, às drogas anestésicas e ao estresse cirúrgico. Incorreta a alternativa E: certamente influencia. Pacientes desnutridos apresentam maior dificuldade para sua recuperação − não somente para a consolidação óssea, mas para a própria cicatrização de feridas e desenvolvimento de massa muscular para a reabilitação. Figura 1.6.1. Mapa mental de complicações de cirurgias e fraturas. Fraturas Pneumonia Delirium Infecção urinária Atelectasia Infecção Embolia gordurosa Potencialmente fatal Precoce ou tardia Difícil tratamento Biofilme no implante Sangramento Fraturas da bacia Choque hipovolêmico Pseudoartrose Pós-cirúrgica Descompensação metabólica Trombose venosa profunda Deambulação precoce Cirurgias de membros inferiores Alta incidência Embolia pulmonar Prevenção Compreensão pneumática Anticoagulantes Complicações pós-cirúrgicas clássicas Fraturas de bacia e fêmur Não consolidação Erro de síntese Complicações de fraturas e cirurgias Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 54 Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula!Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app https://estr.at/2PUDaxx https://estr.at/2PUDaxx Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 55 3.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO 1. COURT-BROWN, C.M.; HECKMAN, J.D.; MCQUEEN, M.M.; RICCI, W.M.; TORNETTA, III P. (ed.). Fraturas em Adultos de Rockwood e Green. 8. ed. Barueri, São Paulo, Manole. 2016. 2761pp. 2. LIGGIERI, A.C.; TSAI, AWW; MACHADO, E.S.; MORAES, F.B.; LIU, IAW; FORNI, JEN, FIM M. Tratado de dor Musculoesquelética. Alef, Belo Horizonte, MG. 1. ed. 2019. Pp. 365-376. CAPÍTULO 4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estrategista, Assim, acabamos mais um livro de trauma ortopédico. Vimos temas importantes e com alta incidência em provas, assim como temas menos importantes e pouco cobrados. Os capítulos estão cheios de dicas para você acertar as questões, quadros-resumo e mapas mentais. Antes da prova, aproveite-os para revisar; da mesma forma, quando estiver fazendo a bateria de questões, dê uma olhada neles. A ideia é que, com eles, você grave o que é mais importante de cada tema. E, depois disso... Organize-se. Dedique-se. Estude. Conheça o estilo da prova da instituição que você quer. Devore nosso material. Assista às nossas aulas; mande dúvidas, perguntas, questionamentos; acompanhe nossas lives, nossos canais no YouTube e páginas do Instagram, pois estamos sempre postando novidades. Fazemos tudo isso por você; garantir sua aprovação é nossa razão de existir. Vamos ajudá-lo nessa caminhada e estaremos lá para comemorar sua tão desejada aprovação! Um forte abraço e bons estudos, David Nordon. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 56 https://med.estrategiaeducacional.com.br/ 1.0 COMPLICAÇÕES DO TRAUMA ORTOPÉDICO 1.1. SÍNDROME COMPARTIMENTAL AGUDA 1.1.1 Definição, etiologia e aspectos epidemiológicos 1.1.2 Fisiopatologia 1.1.3 Quadro clínico 1.1.4 Diagnóstico 1.1.5 Diagnósticos diferenciais 1.1.6 Conduta 1.1.7 Contratura isquêmica de Volkmann 1.2. SÍNDROME DA EMBOLIA GORDUROSA 1.2.1. Definição, etiologia e fisiopatologia 1.2.2. Apresentação clínica e diagnóstico 1.2.3. Diagnósticos diferenciais 1.2.4. Prevenção e tratamento 1.3. LESÃO NEUROLÓGICA 1.3.1. O essencial de lesões neurológicas no contexto de trauma ortopédico 1.3.2. Lesão do nervo radial 1.3.3. Outras lesões neurológicas 1.4. LESÃO VASCULAR 1.4.1 O essencial de lesões vasculares no trauma ortopédico 1.5. SÍNDROME DA DOR COMPLEXA REGIONAL 1.5.1. O essencial da síndrome da dor complexa regional 1.6. COMPLICAÇÕES GERAIS DE FRATURAS E CIRURGIAS 1.6.1. Complicações pós-operatórias ortopédicas 2.0 Lista de questões 4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 3.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASo local de maior acometimento da SCA. Na sequência, temos antebraço e mão. Outras causas de lesão que levam à SCA são queimaduras e choques elétricos, após reperfusão de membros ou atividades físicas exaustivas. Agora, por que justamente perna, antebraço e mãos são os lugares mais acometidos? O que todos esses lugares têm em comum? Muitos músculos são recobertos por fáscias, formando compartimentos, e têm pouco espaço para expandir. Embora a energia do trauma em fraturas de fêmur seja muito maior do que de ossos da perna, o fêmur, assim como o braço, tem bastante espaço para expansão dos compartimentos, sendo, assim, são locais mais raros de apresentar síndrome compartimental. Veja na tabela 1.1.1 os locais mais afetados por SCA. Os mais afetados Frequentemente afetados Raramente afetados Perna Antebraço Mão Pé Braço Coxa Pelve Gráfico 1.1.3. O que é cobrado de SCA nas provas? Tabela 1.1.1. Locais mais afetados por SCA. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 7 E quanto às outras causas menos frequentes de SCA? • Por choque elétrico: a descarga tem um ponto de entrada e um de saída, que geralmente são os locais mais lesados; a musculatura é destruída pela corrente, levando a importante edema e consequente SCA. • Queimadura: da mesma forma que a queimadura pode causar compressão torácica, impedindo a expansão, se circular, ela pode causar SCA por impedir a expansão do compartimento afetado. • Após reperfusão de membro em cirurgias vasculares (esse tópico será abordado mais detalhadamente pela cirurgia geral). • Por atividade física exaustiva: em maratonistas ou jogadores de futebol, o esforço imposto pela corrida pode levar a um edema da musculatura da perna, com desenvolvimento de SCA algum tempo depois da atividade física. Isso foi cobrado em uma questão do SUS-BA. 1.1.2 FISIOPATOLOGIA LESÃO MUSCULAR AUMENTO DA PIC EDEMA HIPOPERFUSÃO NECROSE A SCA é um círculo vicioso: a lesão muscular leva a um edema associado, ou não, à necrose; o edema aumenta a pressão intracompartimental, o que compromete a perfusão, causando hipoperfusão. Esta, por sua vez, gera isquemia, provocando ainda mais lesão muscular e subsequente necrose. Com isso, o ciclo reinicia-se, em um looping constante. Esse círculo vicioso só será vencido pela liberação dos compartimentos — a fasciotomia. Veja na figura 1.1.1. Figura 1.1.1. Círculo vicioso da SCA. PIC = Pressão Intracompartimental. Síndrome compartimental crônica É exatamente como a SCA, porém afeta atletas durante a atividade física, provocando formigamento e dor. Inicialmente, recrudesce com o descanso, mas vai se tornando progressivamente mais frequente. O diagnóstico é difícil, idealmente por uma ressonância logo após o início dos sintomas. O tratamento é feito por fasciotomia. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 8 CAI NA PROVA (ASSOCIAÇÃO DA SANTA CASA DE OURINHOS, SP, 2019) A síndrome compartimental desenvolve-se quando a pressão no compartimento osteofascial do músculo é suficiente para produzir isquemia e necrose subsequente. Qual das situações abaixo NÃO é considerada de alto risco para o desenvolvimento desta síndrome? A) Lesões por esmagamento importante de músculo. B) Fratura de úmero. C) Queimadura. D) Compressão externa prolongada sobre uma extremidade. COMENTÁRIO: (SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE, PE, 2020) Trabalhador da construção civil, 25 anos, vítima de esmagamento por parede de concreto. Está sendo avaliado no atendimento inicial para uma possível síndrome compartimental de membros. Assinale a alternativa que indica o(s) local(is) mais comumente afetado(s) por essa condição. A) Perna e antebraço B) Pé e mão C) Coxa D) Braço E) Pelve COMENTÁRIO: Questão exclusivamente de epidemiologia e − ainda bem − os dados para SCA são bem confiáveis nesse aspecto. Correta a alternativa A: esses são os locais mais frequen- temente acometidos por SCA. Incorreta a alternativa A: a afirmação está correta. O esmagamento muscular da perna é a segunda causa mais frequente de SCA. Correta a alternativa B: a afirmação está incorreta. A fratura do úmero não é uma fratura de risco para SCA. Há poucos músculos no úmero, e esses possuem bastante espaço compartimental, assim como a coxa, tendo baixa incidência de SCA. Alternativa C incorreta: a afirmação está correta. A queimadura pode levar a uma compressão extrínseca dos compartimentos, levando à SCA. Incorreta a alternativa D: a afirmação está correta. A compressão funciona como o esmagamento, levando à lesão muscular. Questão simples e direta, falando um pouco sobre etiologia e epidemiologia da SCA. Note que o examinador busca o item incorreto. Incorretas as alternativas B, C, D e E: são locais acometidos com menor frequência em relação a antebraço e perna. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 9 1.1.3 QUADRO CLÍNICO O quadro clínico é formado pelos 7 Ps, que são um conhecimento que você precisa tornar medular: Pain (Dor); Parestesia; Paralisia; Palpável Edema; Pulso e Perfusão diminuídos e Palidez. Veja na tabela 1.1.2. Sinal Sensibilidade Especificidade Considerações Pain (Dor) 19% 97% • Pode estar ausente em pacientes inconscientes e lesões neurológicas. • Pode ser causada a distensão do compartimento afetado. Parestesia 13% 98% • Causada por isquemia do nervo. Depende do paciente consciente. Pode estar ausente em lesão nervosa. Paralisia Baixa Baixa • Pode ter outras causas. Sinal tardio. Pulso Perfusão Palidez Baixa Baixa • Só se encontram alterados em lesões vasculares ou casos muito tardios. • Não indica nem exclui SCA. Palpável edema Baixa Baixa • Subjetivo. Tabela 1.1.2. Os 7 Ps da SCA. O paciente deve apresentar, ao longo da evolução, algum desses sete sinais. Entretanto, três deles são os mais importantes: os Golden Ps: Pain; Parestesia; e Paralisia. Por que eles são importantes? Porque são os primeiros a aparecer e, como você consegue ver na tabela, são os mais sensíveis para o diagnóstico. A dor é o mais importante, o primeiro a surgir, e é o que fará você suspeitar dessa doença: é uma dor intratável, progressivamente pior, com piora ao se distender o compartimento acometido. Esse é o principal sinal a ser apresentado em casos clínicos. A parestesia, embora seja um dos Golden Ps, é menos confiável, mas é o segundo sinal a surgir e deve figurar também no enunciado. Por fim, a paralisia é o sinal mais tardio dos Golden Ps. Todos os três, deve-se considerar, dependem de um paciente lúcido e capaz de responder a estímulos e questionamentos. Ao mesmo tempo, a parestesia e paralisia podem ocorrer por uma lesão neurológica, sendo menos específicas para o quadro. Dessa forma, algumas condições podem dificultar o diagnóstico. Fique tranquilo, Estrategista! As questões, em sua maioria, apresentarão os Golden Ps para você. É isso que você deve buscar no enunciado. A sequência cronológica de aparecimento dos sinais é: dor > parestesia > paralisia > perfusão > pulso e palidez (às vezes, os enunciados não respeitam isso). Note que o edema não figurou nessa sequência, porque ele pode estar presente em qualquer momento dessa ordem cronológica, ou sequer aparecer. Por fim, apesar de a parestesia ocorrer antes da paralisia, isso se deve ao comprometimento de vasa nervorum. O músculo, na realidade, é mais sensível à isquemia do que o nervo e resiste a apenas três horas de isquemia quente e seis de isquemia fria. A apresentação em crianças, por sua vez, é diferente (e há questões, embora poucas, que envolvem esse diagnóstico diferencial em crianças), e você deve tomar cuidado com isso. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 10 CAI NA PROVA (HOSPITAL UNIVERSITÁRIOALCIDES CARNEIRO, PB, 2013) J.D.G., masculino, 8 anos de idade, teve fratura fechada dos ossos do antebraço direito, sendo realizada redução incruenta e aparelho gessado axilopalmar. Retorna ao PS, após 6h, com dor em todo o membro superior acometido e parestesia na mão. No momento, há boa perfusão e pulso presente. Qual a sua conduta inicial? A) Orientar analgésico e manter o membro elevado, em casa. B) Contatar a equipe de ortopedia e traumatologia. C) Abrir (bivalvar) o gesso e manter o membro elevado, em observação. D) Retirar o gesso e realizar fasciotomia ampla. E) Retirar o gesso, medir a pressão intracompartimental e realizar a fasciotomia ampla. COMENTÁRIO: E aí, Estrategista? Isso é uma SCA ou não? Se você não conhecer os critérios diagnósticos de SCA em adultos e crianças, você pode ficar tentado a fazer uma fasciotomia nessa criança. #SQN Incorreta a alternativa A: a intenção de elevar o membro é para diminuir o edema que se forma com a fratura e a manipulação; entretanto, pelo risco de evoluir com uma SCA, a criança não pode ir para casa. Incorreta a alternativa B: logicamente, a equipe de ortopedia deve ser contatada, mas isso não impede o médico responsável de fazer o diagnóstico e tomar as medidas necessárias. Correta a alternativa C: essa é considerada a resposta correta, pois a criança não apresenta nenhum dos 4 As usados para o Síndrome compartimental aguda em crianças Em crianças, não são considerados os 7 Ps, mas sim os 4 As: Ansiedade; Agitação e Aumento de Analgesia. Por isso, ao se deparar com uma questão que envolva crianças, fique atento. Os sintomas descritos (dor, parestesia, paralisia) podem não significar SCA! Discutiremos isso em uma questão mais à frente. diagnóstico. Muito provavelmente, a dor se deve à manipulação e ao edema; da mesma forma, pode ter sido comprimido o nervo mediano durante a manipulação, levando a parestesia da mão (na SCA do antebraço, esperar-se-ia parestesia de todo o antebraço e mão). Sendo assim, abrir o gesso e elevar o membro são condutas imediatas que devem levar à melhora do quadro. A observação é essencial, pois, se não houver melhora, mas sim piora, deve-se proceder à suspeita de SCA. Incorreta a alternativa D: não há critérios suficientes para se considerar uma SCA. Incorreta a alternativa E: se essa alternativa não tivesse a fasciotomia, seria uma boa opção. Ao retirar-se o gesso, remove-se o que pode estar causando a SCA; ao mesmo tempo, medir a pressão intracompartimental auxilia, especialmente em crianças, que são de difícil diagnóstico. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 11 1.1.4 DIAGNÓSTICO O diagnóstico da SCA é predominantemente clínico e envolve a combinação de: trauma compatível + clínica compatível. Nesse caso, não custa lembrar: o sinal mais sensível e específico para o diagnóstico da doença é dor. Juntando história clínica e exame físico, você está autorizado a diagnosticar e tratar uma SCA sem nenhum outro exame. Preste muita atenção para os Golden Ps; são eles que você precisa procurar nas questões. Mas, e os outros sinais? O edema é subjetivo, portanto pouco confiável, embora geralmente esteja presente no enunciado. Os sinais vasculares, por sua vez, se presentes, não garantem o diagnóstico; se ausentes, não o excluem, pois são sinais tardios. Imagine que, para a perfusão ou o pulso serem comprometidos, é necessário que a pressão dentro do compartimento ultrapasse a pressão arterial. Por outro lado, isso não é necessário para ocorrer a hipoperfusão que leva à isquemia e ao ciclo vicioso da SCA. Ao mesmo tempo, uma obstrução arterial por embolia gerará dor, palidez, diminuição da perfusão e do pulso, mas não será uma SCA! Por isso, não confie em sinais vasculares. Mas há outra técnica diagnóstica? Sim, há. É a medida da pressão intracompartimental (PIC). No Brasil, isso é raramente ou nunca usado. A técnica em si é difícil e envolve a implantação da agulha no compartimento, infusão de líquido e medida com a coluna de água. Pela infusão, o próprio método pode causar SCA. Por anteceder os sintomas, ela seria o método com maior eficácia (mundo ideal); contudo, na prática, sua eficiência é baixa. Em especial, ela não consegue avaliar compartimentos profundos, como o posterior profundo da perna. A medida da PIC fica restrita aos casos em que não é possível fazer o diagnóstico clínico, ou seja, em um paciente inconsciente, ou que por algum motivo não consegue sentir o membro. Com relação a valores, deve-se subtrair da pressão diastólica o valor da pressão do compartimento; em pacientes saudáveis, essa diferença não pode ser inferior a 30mmHg (PAD – PICProf. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 13 1.1.5 DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS A maior parte das questões não exige o diagnóstico direto da síndrome compartimental aguda, mas sim que você suspeite da síndrome e dê a conduta — ou qualquer outro conhecimento a partir do diagnóstico. Isso quer dizer que, muitas vezes, você pode ser pego não claramente pelo diagnóstico de outra doença, mas pela conduta relacionada a outro diagnóstico! Sendo assim, há dois diagnósticos que valem a pena ser lembrados: trombose venosa profunda e oclusão arterial. Confira na tabela 1.1.3. Características SCA Trombose venosa profunda Oclusão arterial Paciente Jovem Meia idade a idoso Idoso História clínica Trauma Procedimento cirúrgico prévio; mulher em uso de anticoncepcional; história de câncer Sinais e sintomas de doença arterial obstrutiva periférica; tabagismo; claudicação vascular Apresentação clínica Dor súbita e incapacitante associada a parestesia, paralisia e edema Dor subaguda, edema mais discreto, empastamento de panturrilhas, sem parestesia, paralisia ou alteração de pulso Atrofia do membro, alteração de fâneros, dor associada a cianose ou palidez e alteração dos pulsos e perfusão Tabela 1.1.3. Diagnósticos diferenciais de SCA. Como você pode ver, embora os três possam apresentar dor, a SCA tem relação clara com trauma, e os sinais vasculares são menos relevantes. Na trombose, temos uma história compatível com fatores trombogênicos, a dor é menos intensa e não há alteração de pulso ou perfusão. Por outro lado, na oclusão arterial, a história é mais arrastada e os sinais vasculares são preponderantes. Não há edema. 1.1.6 CONDUTA A conduta na SCA é baseada no diagnóstico empírico, ou seja: você não precisa comprovar seu diagnóstico com absolutamente nenhum exame. Muitas vezes, a própria fasciotomia é diagnóstica. O primeiro passo é tirar ou afrouxar qualquer coisa que possa estar comprimindo o membro: imobilizações, curativos, roupas. Ocasionalmente, a causa da SCA pode ser essa. Nunca eleve o membro. Estamos falando de um problema relacionado à hipoperfusão e, por mais que o edema dê vontade de elevar o membro, isso vai apenas comprometer ainda mais a vascularização, piorando a síndrome. O segundo passo é fazer a fasciotomia, que deve ser realizada em ambiente estéril, sob anestesia. Faz- se uma incisão ampla no segmento afetado, com identificação e liberação dos compartimentos. Geralmente, o músculo edemaciado “salta” para fora do compartimento, com uma coloração arroxeada ou bem escura. Normalmente, deixamos pontos longos prendendo a pele, quase como um cadarço, para que não retraia excessivamente e depois fique muito difícil de fechar. Entretanto, é importante: a fasciotomia deve ser deixada aberta, para poder liberar a pressão interna. Vamos falar da fasciotomia da perna, que é a única cobrada em provas: fazem-se duas vias, uma anterolateral e uma posteromedial. Com isso, conseguimos descomprimir os quatro compartimentos da perna, que você vai lembrar pelo mnemônico ALPPS (Anterior, Lateral, Posteriores Profundo e Superficial). A via tem de ser bem ampla. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 14 Figura 1.1.2. Quadro-Resumo de SCA. Hot points de síndrome compartimental aguda: Definição: elevação da pressão intracompartimental por lesão muscular. Etiologia: fratura de ossos da perna ou esmagamento. Mais frequente na perna e antebraço. Fisiopatologia: edema muscular leva à hipoperfusão, isquemia, mais lesão muscular e mais edema intracompartimental. Diagnóstico: a partir dos 7 Ps (Pain, Parestesia, Paralisia, Palpável edema, Pulso e Perfusão diminuídos, Palidez). O principal é Dor (Pain), sendo o mais sensível e específico. Tratamento: afrouxar e soltar tudo que estiver prendendo o membro; fasciotomia de emergência. Nunca elevar o membro. As complicações possíveis da fasciotomia são: lesão inadvertida do nervo fibular na via anterolateral, ou do nervo e artérias tibiais na posteromedial; infecção; e dificuldades de fechamento da ferida com deiscência. Vamos resumir tudo agora em um quadro-resumo (figura 1.1.2): Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 15 CAI NA PROVA (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE, SP, 2019) Um homem de 60 anos, que trabalha em caminhão de transporte, foi “soterrado” por caixas num acidente dentro do depósito da transportadora. Ficou cerca de 4 horas com caixa de madeira de aproximadamente 140 kg sobre os membros inferiores, até conseguirem removê-lo. No hospital, estava lúcido, porém ansioso, queixando-se de muita dor nos membros inferiores. Não tinha alteração nem sinais de trauma no exame pulmonar, o abdome era flácido e a pelve estável. Em membro inferior esquerdo havia escoriação e crepitação em face anterior da perna, perda de partes moles em região do joelho e rotação externa do pé. O membro inferior direito tinha edema não compressível, equimose extensa, cianose e palidez na extremidade. pulsos distais não eram palpáveis e o membro tinha rotação externa e encurtamento. A pele estava íntegra. Conduta fundamental no atendimento inicial deste paciente, além de hidratação, analgesia, antibioticoterapia, limpeza cuidadosa dos ferimentos, alinhamento e imobilização dos membros: A) Arteriografia de membro inferior direito. B) Avaliação da cirurgia vascular, para provável revascularização de membro inferior esquerdo. C) Amputação de membro inferior esquerdo. D) Antibioticoterapia, apenas. E) Fasciotomia de membro inferior direito. COMENTÁRIO: Vamos ver o que chama a atenção nesse caso: • Trauma com esmagamento: quando isso estiver escrito no enunciado, pense imediatamente em SCA. Esmagamento de pernas é a segunda principal causa de SCA. • Fratura de ossos da perna: é a principal causa de SCA, especialmente se associada a esmagamento. • Sinais: por fim, temos muitos sinais: dor; edema; cianose; palidez; pulsos diminuídos. Não há dúvida de que se trata de uma SCA. • Condutas: já foram feitas todas as condutas ortopédicas indicadas no atendimento inicial que permitiriam recuperar perfusão, caso fosse uma lesão vascular, como alinhamento e imobilização. Isso é interessante, pois, caso houvesse de fato uma suspeita de lesão vascular, o próximo passo seria a fixação externa. Correta a alternativa E: fasciotomia de emergência é indicada Incorreta a alternativa A: a arteriografia está aí para confundir o candidato e levá-lo a pensar que se trata de uma lesão arterial. Incorreta a alternativa B: note: ele está apontando para o membro inferior esquerdo, que apresenta apenas uma fratura com lesão de partes moles, sem, a princípio, indicação de intervenção arterial. Incorreta a alternativa C: a amputação tem alguns critérios de indicação, e nós usamos principalmente o MESS na ortopedia (que é discutido em detalhes no livro de politrauma), o qual, basicamente, avalia grau de lesão e tempo de isquemia. No entanto, não há qualquer evidência de isquemia no membro inferior esquerdo. Incorreta a alternativa D: antibioticoterapia é certamente insuficiente para qualquer um dos casos. na suspeita de SCA, servindo de tratamento e diagnóstico definitivo. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 16 1.1.7 CONTRATURA ISQUÊMICA DE VOLKMANN Tema raramente cobrado. Estude se tiver tempo. A contratura isquêmica de Volkmann é o resultado final e catastrófico de uma SCA não tratada a tempo. Descrita no século XIX por Richard von Volkmann, foi apontada no antebraço, como resultado da contratura por retração fibrosa da musculatura flexora profunda (profundos dos dedos e longo do polegar) (figura 1.1.3). Ele acreditava que se devia a bandagens apertadas e que os músculos não resistiam a mais de seis horas de isquemia, sendo totalmente inviáveisem doze horas. Figura 1.1.3. Contratura isquêmica de Volkmann dos membros superiores. O conhecimento a respeito dessa síndrome foi se expandindo com conhecimentos sobre a própria SCA , com isso o diagnóstico não está mais restrito somente ao antebraço, sendo utilizado para qualquer compartimento muscular que passe pelos seguintes estágios (figura 1.1.4). Lesão muscular Edema Isquemia Isquemia irreversível SCA não tratada Necrose Formação de tecido fibroso cicatricial Encurtamento muscular Restrição de amplitude de movimentos Figura 1.1.4. Processo da contratura isquêmica de Volkmann. O que mais observamos na prática é a isquemia do compartimento posterior profundo da perna, que é o compartimento cuja SCA mais facilmente pode passar despercebida. Sua sequela clássica é o pé cavo, pela contratura do músculo tibial posterior, sendo um diagnóstico diferencial importante na avaliação do pé cavo adquirido pós-traumático. Infelizmente, o tratamento dessa contratura é restrito a sequelas: cirurgias de transferências tendíneas para compensar e equilibrar a função e os alongamentos, quando possível. CAI NA PROVA (PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA, RS, 2017) Em relação à contratura de Volkmann, afirma-se: I. Os músculos do antebraço sofrem necrose e são substituídos por fibrose. II. Desenvolve-se como resposta à isquemia prolongada no nível do antebraço. III. O flexor longo do polegar e flexor profundo dos dedos são os músculos mais frequentemente afetados. Está/Estão correta (s) a (s) afirmativa (s): A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) II e III, apenas. E) I, II e III. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 17 COMENTÁRIO: Não é uma questão fácil; pegaria, certamente, inúmeros candidatos de surpresa. Mas não você, caro Estrategista! Tenho certeza de que conseguirá responder sem dificuldades. I. Os músculos do antebraço sofrem necrose e são substituídos por fibrose. Correta. II. Desenvolve-se como resposta à isquemia prolongada no nível do antebraço. Correta. III. O flexor longo do polegar e flexor profundo dos dedos são os músculos mais frequentemente afetados. Correta. Dessa forma, estão corretas as afirmações I, II e III. Correta a alternativa E. Vamos consolidar os conhecimentos sobre SCA com um mapa conceitual (figura 1.1.5). Locais de acometimento Complicações Conduta 1o Perna 2o Antebraço 3o Mão Etiologia Fratura de ossos da perna Aumento da PIC Lesão muscular Edema Isquemia Isquemia irreversível Contratura isquêmica de Volkmann Liberar restrições Fasciotomia Fisiopatologia Diagnóstico Clínico 7Ps PAIN PARESTESIA PARALISIA Palidez Pulso diminuído Perfusão diminuída Palpável edema Medida da PIC Pouco usada PAD - PIClevam ao comprometimento da sua função: a alteração funcional pelos trombos e a lesão estrutural pelos ácidos graxos. Para os sintomas manifestarem-se, 80% da trama vascular pulmonar deve estar comprometida. A linha da alteração funcional deve-se à reação pela formação do trombo: enquanto a liberação de serotonina pelas plaquetas gera vasoconstrição e consequente efeito de espaço morto, a liberação de histamina pelos mastócitos leva a broncoconstrição e efeito shunt. Dessa forma, funcionalmente, o pulmão encontra-se comprometido. Ao mesmo tempo, e esse é o fator que leva à reação mais exuberante, a lipase liberada para digerir os microêmbolos de gordura acaba causando revés: formam-se ácidos graxos lesivos em determinados pacientes − ainda não temos uma explicação adequada do motivo −, que vão ativar neutrófilos, os quais digerirão o endotélio e a parede alveolar. Como consequência, ocorre perda do surfactante e consequente atelectasia. Resumindo: síndrome da embolia gordurosa não tem quem quer, tem quem pode (porque é necessária toda essa combinação de fatores para ocorrer). Fratura Vasoconstrição Broncoconstrição Espaço morto Efeito Shunt Atelectasia Liberação de microêmbolos de gordura Formação de trombo intravascular no pulmão Formação de ácidos graxos lesivos Edema e ativação de neutrófilos Digestão do endotélio e parede alveolar Diminuição da produção de surfactante Alteração funcional pulmonar Lesão estrutural pulmonar Liberação de lipase Agregação de plaquetas Ativação de mastócitos Liberação de serotonina Liberação de histamina Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 22 CAI NA PROVA (HOSPITAL AUSTA, SP, 2019) Além da fratura de Fêmur, são causas de embolia gordurosa: A) Fratura de bacia e pancreatite aguda. B) Pancreatite aguda e câncer gástrico. C) Abscesso esplênico e câncer gástrico. D) Fratura de bacia e câncer do cólon. COMENTÁRIO: As poucas questões de etiologia da embolia gordurosa seguem sempre esse estilo. Além do fêmur, que seria a resposta mais fácil, quais as outras causas possíveis de embolia? Correta a alternativa A: a embolia gordurosa ocorre também (FJG, RJ, 2017) O principal mecanismo fisiopatológico da embolia gordurosa é: A) neutralização e diminuição da produção de serotonina B) consumo de ácidos graxos livres C) vasodilatação compensatória D) obstrução da microcirculação COMENTÁRIO: Em si, essa não é uma questão difícil. Contudo, para responder com certeza e poder excluir todas as alternativas, é necessário conhecer mais a fundo a fisiopatologia da doença, como está apresentada na figura 1.2.1. Se precisar, dê mais uma olhada, para relembrar os detalhes dos caminhos de lesão da embolia gordurosa. Correta a alternativa D: essa é a causa base de todas as Incorreta a alternativa C: não ocorre em nenhuma dessas opções. Incorreta a alternativa D: não ocorre no câncer de cólon. Incorreta a alternativa A: as plaquetas acabam por produzir a serotonina. Incorreta a alternativa B: os êmbolos de gordura são destruídos por lipase e transformados em ácidos graxos livres, que, normalmente, não fazem mal ao organismo. Incorreta a alternativa C: ocorre vasoconstrição pela liberação da serotonina. na fratura de bacia e pancreatite aguda. Incorreta a alternativa B: não ocorre no câncer gástrico. complicações da embolia gordurosa. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 23 1.2.2. APRESENTAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICO Do ponto de vista da prova, o diagnóstico resume-se a: dispneia, confusão mental e petéquias, geralmente nas primeiras 72 horas do trauma. Confira na figura 1.2.2 um quadro resumo com a fisiopatologia e a apresentação clínica. Com ele, você não errará nenhuma questão que envolva o diagnóstico da embolia gordurosa. Figura 1.2.2. Quadro-resumo da fisiopatologia e da apresentação clínica da embolia gordurosa. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 24 Na grande maioria das questões, tudo o que você precisará é encontrar essas três palavras-chave para fechar o diagnóstico. Contudo, algumas questões já envolveram dados de exame físico ou laboratorial no enunciado da questão, talvez para confundir um pouco sua cabeça (mas que, ainda assim, foram insuficientes para atrapalhar o diagnóstico, pois a tríade se impõe). Por isso, quero trazer a você os critérios diagnósticos da doença, que podem ser conferidos na tabela 1.2.1. São necessários um critério maior e quatro critérios menores. Contudo, #ficaadica: eles são relativamente controversos, e não de todo necessários para o diagnóstico. Servem, portanto, de conhecimento complementar. Critérios maiores (1) Critérios menores (4) Adicionais • Hipoxemia (PaO2 55 • pH 35 • Dispneia • Ansiedade Tabela 1.2.1. Critérios diagnósticos da embolia gordurosa CAI NA PROVA (SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE, PE, 2020.) Um paciente foi trazido para a emergência após ter sido vítima do desabamento do edifício onde morava. Ficou retido nos escombros por oito horas, antes de ser resgatado pelos bombeiros. Queixava-se de dor abdominal, mas a tomografia foi normal. À admissão, foi diagnosticada uma fratura no fêmur direito e várias escoriações pelo corpo. Como a urina era muito escura, foi solicitado um sumário de urina que demonstrou presença de sangue, mas com sedimentoscopia normal. O paciente evoluiu com melhora clínica após as medidas iniciais, mas 48 horas depois passou a apresentar dispneia e confusão mental. Ao ser reavaliado pelo plantonista da UTI, foram observadas hipoxemia e rash petequial em pescoço e face anterior do tórax. Qual o diagnóstico mais provável para o quadro atual? A) Embolia gordurosa B) Sepse C) Hemorragia intracraniana D) Lesão pulmonar por inalação de fumaça E) Pneumotórax hipertensivo COMENTÁRIO: Essa questão representa praticamente todas as questões que buscam o diagnóstico diferencial da embolia gordurosa: um paciente com uma história compatível e o quadro clínico com a tríade: dispneia, confusão mental e petéquias. Resta discutirmos por que as outras opções estão erradas. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 25 Correta a alternativa A: essa é a apresentação mais 1.2.3. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS Existem alguns diagnósticos diferenciais que sempre figurarão nas questões de embolia gordurosa, como tromboembolismo pulmonar e pneumotórax. Confira na tabela 1.2.2. Caracterís- ticas Embolia gordurosa Tromboembolismo pulmonar Pneumotórax Sepse de foco pulmonar História Fratura de fêmur ou bacia há até 72 horas História de procedimento ou intervenção que leve à trombose venosa Trauma torácico ou apresentação súbita após tossir História compatível de infecção (febre, tosse, expectoração), associada a disfunções orgânicas (qSOFA). Quadro agudo Sinais e sintomas Confusão mental, dispneia, rash petequial Dispneia, dor torácica, tosse Dispneia, dor torácica, tosse Dispneia, tosse, febre, sinais de inflamação sistêmica Exame físico Rash petequial Pode não haver alteração Murmúrio vesicular abolido, timpanismo Consolidação pulmonar com crepitações finas localizadas e murmúrio vesicular diminuído no local de acometimento Tabela 1.2.2. Diagnósticos diferenciais de embolia gordurosa. 1.2.4. PREVENÇÃO E TRATAMENTO Essa é a parte mais simples da embolia gordurosa. Não existe tratamento adequado, pois não é possível remover os êmbolos da microcirculação. Dessa forma, o tratamento é de suporte (oxigênio). Por outro lado, temos grandesevidências de que a prevenção Incorreta a alternativa C: uma hemorragia intracraniana com uma evolução mais lenta poderia explicar a confusão mental, mas não a dispneia ou o rash petequial. Incorreta a alternativa D: a lesão pulmonar explicaria dispneia e queda de saturação, mas não um rash petequial. Incorreta a alternativa E: da mesma forma com a lesão pulmonar, o pneumotórax não explicaria o rash. Não há, também, por que pensar nesse diagnóstico após esse tempo de evolução do trauma. clássica de embolia gordurosa. Incorreta a alternativa B: para suspeitar de septicemia, esperar-se- ia: uma fonte presumida de infecção e sinais de SIRS (taquicardia, taquipneia, febre, leucocitose ou leucopenia etc.). As petéquias não ocorrem normalmente, a não ser que se pense nas lesões de pele por meningococcemia. Dessa forma, o paciente não apresenta critérios suficientes para o diagnóstico. é possível por meio da imobilização de fraturas − e, no caso do fêmur, trata-se da fixação externa. A mortalidade nessa síndrome atinge 10% a 20% dos pacientes — portanto não deve ser levada levianamente. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 26 Hot points de embolia gordurosa As principais causas de embolia gordurosa questionadas em prova são fratura do fêmur, da bacia e pancreatite. A fisiopatologia envolve a oclusão da microcirculação cerebral, pulmonar, renal e da pele. A lesão pulmonar ocorre por duas vias: reação ao trombo, com efeito shunt e espaço morto; e reação à degradação dos lipídeos, com lesão alveolar e atelectasia. O diagnóstico é predominantemente clínico: história compatível + dispneia, confusão mental e petéquias nas primeiras 72 horas após o trauma. Tratamento: suporte. Prevenção: imobilização da fratura − fixação externa do fêmur. CAI NA PROVA (HUSE, SE, 2020) Paciente internado com fratura exposta de fêmur direito. Qual a medida terapêutica mais eficaz para prevenção da síndrome da embolia gordurosa: A) Fixação da fratura B) Metilprednisona venosa C) Enoxaparina via subcutânea D) Heparina não fracionada venosa E) Hidrocortisona venosa COMENTÁRIO: Questão simples e direta sobre a prevenção da embolia gordurosa. Essa só pega o candidato despreparado − que não será seu caso, caro Estrategista! Correta a alternativa A: a fixação da fratura é a terapêutica mais eficaz para prevenir a embolia. Incorretas as alternativas B e E: metilprednisona e hidrocortisona, ambos corticoides, têm pouca aplicação na ortopedia. Os corticoides podem ser usados no contexto de: lesão do plexo braquial; e compressão medular por tumores, agudamente. Mesmo para trauma raquimedular, eles não têm mais indicação. Incorretas as alternativas C e D: heparinas (fracionadas ou não) são terapêuticas para a prevenção de trombose venosa e tromboembolismo pulmonar. Ambas são efetivas e a diferença é basicamente relacionada à facilidade de aplicação e perfil de segurança para o paciente. (PUC, PR, 2015) A síndrome da embolia pulmonar é mais comum: A) em pessoas acima dos 40 anos. B) quando a fratura do fêmur é unilateral. C) quando a fratura do fêmur é exposta. D) após o uso de hastes intramedulares não fresadas. E) em homens, quatro vezes mais do que em mulheres. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 27 Pulmão Dispneia Cérebro Pele Rins Etiologia Prevenção TratamentoSuporte Confusão Mental Fratura do Fêmur Fratura da bacia Pancreatite Outros Petéquias ClínicoDiagnóstico Sistemas comprometidos Fisiopatologia Trombo Serotonina Lipase Ácidos graxos lesivos Neutrófilos Lesão direta Atelectasia Vasoconstrição Espaço Morto Histamina Broncoconstrição Efeito Shunt Obstrução da microvasculatura Fixação externa do fêmur Imobilização de fraturas Síndrome da Embolia Gordurosa COMENTÁRIO: Essa questão foi anulada, mas ela traz algumas informações interessantes para complementarmos seus conhecimentos do tema. Vamos ver alternativa por alternativa. Incorreta a alternativa A: a síndrome é mais comum em pessoas mais jovens, pois o trauma que a provoca é de alta intensidade e mais frequente em jovens. Incorreta a alternativa B: é mais comum com fratura bilateral do fêmur – até 40% delas. Incorreta a alternativa C: não há aumento da embolia gordurosa devido à exposição da fratura. Figura 1.2.3. Mapa mental de embolia gordurosa. Questão anulada. Incorreta a alternativa D: fresar o canal para passar a haste é um processo que serve para aumentar o espaço do canal ao remover o osso trabecular. Isso provoca uma pressão que pode jogar êmbolos de gordura na circulação. Dessa forma, a síndrome é menos comum em hastes não fresadas. Incorreta a alternativa E: esse é um número exagerado. A embolia em si não tem preferência por sexo, pois não tem relação com hormônios ou genética. Fraturas de fêmur e outras causas da síndrome, por outro lado, são em geral mais frequentes em homens do que em mulheres, mas não quatro vezes mais. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 28 1.3. LESÃO NEUROLÓGICA Tema morno para quente. A grande maioria das questões de lesão neurológica no contexto de trauma ortopédico envolve diagnóstico da lesão do nervo radial. A lesão neurológica é um tema morno, mas que está progressivamente esquentando. Com 20 questões, passa muitos outros temas da ortopedia; ao mesmo tempo, se incluirmos as questões de fraturas supracondilianas que envolvem lesão neurológica, teríamos ainda mais questões. Por isso, é algo que vale ser estudado − e que é relativamente simples. Mais cobrada em Goiás, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, é quase que ignorada nos outros estados − mas figurou em 2020 na Unicamp! Pode ser, assim, uma grata surpresa encontrá-la na prova. E como a lesão neurológica é cobrada? Vejamos no gráfico 1.3.1. Gráfico 1.3.1. Conteúdo das questões de lesão neurológica. NIP: nervo interósseo posterior. Nervo radial Conhecimentos gerais CONTEÚDO DAS QUESTÕES DE LESÃO NEUROLÓGICA Nervo ulnar Epidemiologia Nervo fibular Nervo mediano NIP 57% 13% 9% 5% 4% 4% 4% Note: 57% das questões dizem respeito ao nervo radial. E, dessas, 50% são apenas para dar o diagnóstico da lesão; 16,6%, para associar ao exame físico. São, assim, questões relativamente simples. Vamos a elas! 1.3.1. O ESSENCIAL DE LESÕES NEUROLÓGICAS NO CONTEXTO DE TRAUMA ORTOPÉDICO Para conseguir responder a essas questões, é necessário o conhecimento de anatomia funcional dos membros. Por isso, apresento esse assunto nos capítulos oportunos - em especial, sobre os membros superiores, que está muito bem apresentado no capítulo de síndromes compressivas dos membros superiores. Para este capítulo que apresento a você no momento, discutirei apenas o essencial. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 29 Figura 1.3.1. Mecanismo de lesão neurológica por tração na fratura supracondiliana. A lesão neurológica pode ocorrer por: • Tração: é o mecanismo mais comum. O fragmento distal da fratura desvia e o feixe neurovascular, aderido ao fragmento proximal, é tensionado, levando à lesão. Veja na figura 1.3.1. • Lesão direta: uma transecção do nervo por um corte de arma branca, arma de fogo ou pelo próprio osso. É menos comum. A lesão de um nervo é avaliada pela classificação de Seddon (tabela 1.3.1). Essa classificação é bastante específica dos especialistas de mão e microcirurgia, mas já foi cobrada três vezes em provas de acesso direto. Em duas, foi discutida no contexto de paralisia obstétrica. Seddon Neuropraxia Axonotmese Neurotmese Sunderland I II III IV V Estrutura lesada Mielina Axônio Endoneuro Perineuro Epineuro Tinel Ausente Presente e avança Presente e avança Presente,não avança Presente, não avança Tabela 1.3.1. Classificações e características de lesão traumática de nervo periférico. Seddon dividiu a lesão em três tipos: • Neuropraxia: há lesão apenas da bainha de mielina e o prognóstico de recuperação é bom. Geralmente, são tolerados até dois anos, até que um nervo que sofreu praxia retorne ao normal. • Axonotmese: há lesão parcial do axônio, que Sunderland subdividiu em três graus, conforme a estrutura lesada: axônio; endoneuro e perineuro. • Neurotmese: secção total do nervo, com mau prognóstico de recuperação. Nesse caso, conforme Sunderland, ele atinge o epineuro, a estrutura mais externa (a lesão ocorreria, assim, de dentro para fora, ficando mais grave quanto mais externa). Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 30 Figura 1.3.2. Teste de Tinel. A maior parte das lesões neurológicas é por tração do nervo pelos fragmentos da fratura. Seddon classificou essas lesões em três graus progressivos: neuropraxia (benigna), axonotmese e neurotmese (péssimo prognóstico). CAI NA PROVA (COC, MT, 2020) As lesões neurológicas do recém-nascido podem ser leves (_______________) quando o distúrbio motor é devido ao edema da raiz nervosa e desaparece entre 1 e 2 semanas, com recuperação completa da função. Felizmente, essa é a forma mais comum. Entretanto, quando há ruptura das fibras nervosas (_______________), a recuperação é mais lenta e incompleta. Nos casos mais graves, há ruptura completa da raiz (_______________), e a recuperação espontânea nunca ocorre. Completa corretamente as lacunas a alternativa: A) Neurotmese; axonotmese; neuropraxia B) Axonotmese; neuropraxia; neurotmese C) Neuropraxia; neurotmese; axonotmese D) Neuropraxia; axonotmese; neurotmese E) Nenhuma das alternativas anteriores COMENTÁRIO: Sim, eu sei que essa questão é tecnicamente sobre lesão do plexo braquial na paralisia obstétrica. No entanto, ela é claramente sobre a classificação de Seddon, por isso é interessante para sedimentar seus conhecimentos. Essas informações podem ser expandidas para qualquer lesão neurológica. O teste de Tinel, apresentado também na tabela 1.3.1, é avaliado pela percussão do nervo, que deve gerar um choque que corre pelo seu trajeto (figura 1.3.2). Embora muito utilizado para diagnóstico de neuropatias compressivas, ele na verdade indica o processo de remielinização. Dessa forma, está ausente na neuropraxia − pois a lesão não lesou efetivamente o axônio −, mas presente nas outras lesões. Ao mesmo tempo, não avança nas lesões de perineuro e epineuro, pois não há reconstrução do nervo nessas situações. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 31 Correta a alternativa D: essa é a sequência correta: neuropraxia, axonotmese e neurotmese. Incorretas as alternativas A, B, C e E. (UNITAU, SP, 2011) Lesão completa do nervo periférico, segundo a classificação de Seddon, é chamada de: A) Neurotmese. B) Axoniotmese. C) Lesão transversa. D) Neuropraxia. E) Axioniolesa. COMENTÁRIO: Questão antiga, mas está tratando novamente da classificação, desta vez chamando-a pelo nome. Correta a alternativa A: essa é a lesão completa. Incorreta a alternativa B: lesão parcial. Incorreta a alternativa C: pode até ser a forma como ocorreu a lesão, mas não é um grau descrito por Seddon. Incorreta a alternativa D: nesse caso, a lesão é discreta, apenas da bainha de mielina. Incorreta a alternativa E: não é um termo da classificação de Seddon. 1.3.2. LESÃO DO NERVO RADIAL O nervo radial é um queridinho da ortopedia, por isso ele é tão cobrado. Originando-se da corda posterior do plexo braquial, ele tem íntima relação com o úmero, correndo posteriormente, até aproximadamente quinze centímetros do cotovelo, onde ele se lateraliza. Ele inerva o tríceps braquial e, no cotovelo, divide-se em nervo interósseo posterior (NIP) e nervo cutâneo posterior. O NIP, especificamente, inerva os extensores dos punhos e das metacarpofalangeanas; os músculos responsáveis por estender os dedos no nível das interfalangeanas são os lumbricais, inervados pelo mediano (lumbricais 1 e 2) e ulnar (lumbricais 3 e 4). O terço médio diafisário, em que o nervo radial muda de posição, é o ponto mais frequente de fraturas. Por isso mesmo, a lesão do nervo radial ocorre em até 12% das fraturas diafisárias do úmero. O grande problema do nervo radial é que, assim como o NIP, basta você olhar um pouco torto e ele desenvolve uma neuropraxia. Não, não estou brincando; ele é muito frágil. Um verdadeiro quebra- mão (toca a música da “Praça é Nossa”!). Aliás, é isso mesmo: a lesão do radial ou do NIP leva à apresentação clássica da mão caída. Veja na figura 1.3.3. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 32 Figura 1.3.3. Quadro-resumo da lesão traumática do nervo radial. Sendo o NIP um ramo do radial, uma lesão isolada do nervo radial só poderia ocorrer distalmente ao NIP e, nesse caso, a perda seria sensitiva, e não motora, pois os ramos motores já emergiram. Se a lesão ocorrer proximalmente ao NIP, a perda motora será total. Entretanto, o NIP não inerva todos os músculos extensores; os extensores radiais do carpo são de ramos diretos do radial. Dessa forma, a extensão do punho feita pelos ramos do radial é com desvio radial do carpo; por outro lado, a extensão do punho feita pelo NIP é sem desvio. O que isso significa? Significa que podemos descobrir se a lesão foi no NIP, exclusivamente, ou se foi no radial, pela preservação de alguma capacidade de extensão do punho com desvio radial! Se essa ação permanecer, teremos uma lesão exclusiva do NIP. Se a perda for total, será do radial. Contudo, do ponto de vista prático, não há nenhuma diferença entre uma lesão do radial ou no NIP, pois não mudará condutas. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 33 Essas condutas, por sinal, são baseadas no tipo de lesão: • Lesão primária: o tratamento da lesão é geralmente conservador, ou seja: não é indicado explorar o foco de lesão. Em seis meses, 97% a 98% das lesões terão melhorado; e, caso não tenham, está indicada exploração da lesão ou a transferência tendínea. Nesta técnica, transferimos um músculo antagonista (por exemplo, flexor) para outra inserção, tornando-o agonista (extensor), para compensar a perda de função muscular. • Lesão iatrogênica: em uma lesão que aparece após um procedimento cirúrgico, a exploração é mandatória. CAI NA PROVA (UNICAMP, SP, 2020) Homem, 22a, é trazido ao Pronto Socorro após queda do telhado. Exame físico: PA= 130x75 mmHg, FC= 84 bpm, FR= 16 irpm, oximetria de pulso (ar ambiente)= 99%; neurológico: Escala de Coma de Glasgow= 15 e pupilas isofotorreagentes; membro superior esquerdo: deformidade e dor intensa na transição entre terço médio e distal do braço, com incapacidade de estender o punho e os dedos nas articulações metacarpofalângicas. O NERVO LESIONADO É: A) Ulnar. B) Radial. C) Mediano. D) Musculocutâneo. Correta a alternativa B: a “mão caída” é sequela clássica da lesão do radial. Incorreta a alternativa C: uma lesão do nervo mediano comprometeria a capacidade da pinça dos dedos (por meio do interósseo anterior), dos flexores e a sensibilidade da parte radial da mão. Incorreta a alternativa D: o nervo musculocutâneo inerva o bíceps e comprometeria a flexão do cotovelo e supinação. • Lesão do nervo radial ocorre em até 12% das fraturas diafisárias do úmero. • Sua apresentação clínica é a mão caída. • O tratamento é conservador. COMENTÁRIO: Questão clássica de diagnóstico da lesão do nervo radial. Praticamente todas são assim: lesão no terço médio, mão caída. Vamos, agora, discutir por que as outras respostas estão erradas. Incorreta a alternativaA: lesão do ulnar comprometeria a sensibilidade da face ulnar do antebraço e a capacidade de abdução/adução e extensão dos dedos por meio dos interósseos. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 34 (PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA, PR, 2015) Paciente do sexo masculino, vítima de queda de altura de dois metros e meio há uma hora, chega ao hospital com fratura diafisária do úmero direito. O exame neurológico indica paralisia do nervo radial. A conduta mais bem indicada para esse caso é: A) osteossíntese com haste intramedular a foco fechado. B) exploração cirúrgica do nervo radial e osteossíntese com placa e parafusos. C) exploração cirúrgica do nervo radial e osteossíntese com haste intramedular. D) tratamento conservador da fratura e da lesão nervosa. E) exploração cirúrgica do nervo radial e imobilização com tala gessada. COMENTÁRIO: Essa questão foi mal elaborada; o examinador considerou somente a lesão do nervo radial. Os dados são certamente insuficientes para se considerar se a fratura tem indicação cirúrgica ou não; não foi descrito o traço, nem apresentada uma radiografia. Correta a alternativa D: há ressalvas aqui: se a fratura (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE CURITIBA, PR, 2017) Uma criança, ao sofrer queda de skate, apoiou os membros superiores para absorção do impacto. Após avaliação médica, constatou-se fratura-luxação no terço proximal da ulna direita. No caso descrito, há maior risco de lesão no nervo: A) Radial. B) Mediano. C) Musculocutâneo. D) Interósseo posterior. COMENTÁRIO: Incorreta a alternativa A: essa opção, tecnicamente, não está errada. A depender do traço de fratura, pode ser feita uma fixação intramedular, sem mexer no foco. Entretanto, não foi mencionado nada sobre o nervo. Incorretas as alternativas B e C: a exploração não é indicada. Ora, ciente de que o tratamento das lesões nervosas na fratura do úmero é conservador, dá para perceber que a intenção do examinador, com todas as alternativas, era direcionar o candidato para essa opção. Algumas vezes, é necessário entrar na mente do examinador para compreender o que ele quer, especialmente em questões mal elaboradas. Incorreta a alternativa E: a exploração não é indicada e, uma vez que se abre para a exploração, considera-se uma fixação. Essa questão é bem respondida simplesmente com uma boa noção de anatomia. Mas vamos discutir em mais detalhes. Reveja a figura 1.3.3 e você não terá dificuldade em responder. Por sinal, a lesão é descrita como fratura-luxação; muito provavelmente, trata-se da fratura-luxação de Monteggia, em que há fratura do terço proximal da ulna e luxação da cabeça do rádio. for passível de tratamento conservador, essa é a conduta. Agora, por que esta alternativa, especificamente, é a correta, caro Estrategista? Como saber o que o examinador está pensando? Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 35 Incorreta a alternativa A: na ulna proximal, o radial já deu origem aos seus ramos tributários. Incorreta a alternativa B: o nervo mediano, que se origina da corda lateral e medial, está em risco particularmente nas fraturas supracondilianas do úmero. Ele inerva a massa flexopronadora e segue até o punho, onde é principalmente sensorial, enquanto sua subdivisão, o nervo interósseo anterior, inerva os flexores profundos dos dedos. Ele passa pela região volar do antebraço, não sendo frequentemente lesado em fraturas do antebraço. Incorreta a alternativa C: o nervo musculocutâneo origina-se da corda lateral e inerva o bíceps braquial, o coracobraquial e o braquial no braço. No antebraço, ele torna-se meramente sensório, responsável pela sensibilidade lateral do antebraço. Correta a alternativa D: o NIP é o mais frequentemente lesado nas fraturas-luxações de Monteggia. 1.3.3. OUTRAS LESÕES NEUROLÓGICAS Como comentei anteriormente, a apresentação clínica das lesões neurológicas é igual à apresentação das síndromes compressivas. Mas, para não ficar repetitivo, deixarei aqui uma tabela com as principais características dessas lesões (tabela 1.3.2). Nervo Nervo interósseo anterior (mediano) Ulnar Nervo interósseo posterior (radial) Fibular Mecanismo de lesão Fratura supracondiliana Fratura do côndilo medial do úmero ou supracondiliana Lesões em torno da cabeça do rádio Fraturas do colo da fíbula Apresentação clínica Incapacidade de pinça (sinal de Kiloh-Nevin) Mão em garra, parestesia ulnar da mão e antebraço Mão caída (ou em gota) Pé caído (perda de função do tibial anterior) Imagem Tabela 1.3.2. Características das principais lesões neurológicas traumáticas. MÃO CAÍDA Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 36 É interessante notar que o dedo anelar é inervado por três nervos diferentes; o mediano, por sua vez, é o responsável pela ponta dos dedos radiais (por isso que a síndrome do túnel do carpo dá formigamento na ponta dos dedos). Vamos para as questões! Vale lembrar, também, que, quando estamos falando de mão, a área de parestesia pode nos apontar o nervo afetado. Confira na figura 1.3.4. Figura 1.3.4. Inervação sensitiva da mão. CAI NA PROVA (PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA, RS, 2015) Paciente masculino de 25 anos apresenta história clínica de trauma na face volar do punho há 4 meses. Ao exame físico mostra insensibilidade total nas unhas dos dedos indicador e médio, o que facilita o aparecimento de lesões frequentes com dificuldade de cicatrização. Qual é a hipótese diagnóstica? (VER IMAGEM) A) Lesão do nervo ulnar. B) Lesão do nervo radial. C) Lesão do nervo mediano. D) Lesão do nervo interósseo anterior. E) Lesão do nervo interósseo posterior. Estratégia MED Complicações do Trauma OrtopédicoORTOPEDIA Prof. David Nordon | Curso Extensivo | Dezembro 2021 37 COMENTÁRIO: Questão muito interessante de lesão neurológica no trauma. Observe a fotografia e compare com as áreas de inervação da figura 1.3.4. Você consegue delimitar exatamente qual o nervo afetado, pela mudança de coloração da mão! Incorreta a alternativa A: o nervo ulnar inerva o quinto dedo e a metade ulnar do quarto dedo. Incorreta a alternativa B: o nervo radial inerva basicamente o dorso da mão, sem incluir a ponta dos dedos e os dedos ulnares. Correta a alternativa C: o nervo mediano é responsável por todo o território que agora apresenta alteração sensitiva. Incorreta a alternativa D: o nervo interósseo anterior é motor, e não sensitivo. Incorreta a alternativa E: o nervo interósseo posterior também é motor, e não sensitivo. (INSTITUTO ORTOPÉDICO DE GOIÂNIA, GO, 2011) Lesão do nervo ulnar pode causar: A) Mão simiesca. B) Falta de oposição ao polegar. C) Mão em garra D) Mão pendular ou em gota. E) Inabilidade de flexão e pronação do antebraço. COMENTÁRIO: Questão direta de lesão do ulnar. Normalmente, essa lesão é abordada mais do ponto de vista de síndrome compressiva. Incorreta a alternativa A: a mão com prega simiesca é uma alteração presente na síndrome de Down. Incorreta a alternativa B: a oponência do polegar é uma função do nervo mediano. Correta a alternativa C: a mão em garra, mão de parteira ou mão do papa é característica de lesão do nervo ulnar. Essa garra, composta pela flexão do quarto e quinto quirodáctilos, é tão mais intensa quanto mais distal a compressão. Por quê? A extensão dos dedos é feita pelos lumbricais, musculatura intrínseca da mão; a flexão é pelos flexores dos dedos, que se originam no antebraço. Se a lesão do ulnar for proximal, haverá perda de força para extensão e flexão, predominando a posição de repouso dos dedos (que é flexão leve). Se a lesão for mais distal, haverá perda de extensão, mas preservação da flexão dos dedos − fazendo uma garra mais intensa. Incorreta a alternativa D: