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LEITURA E 
INTERPRETAÇÃO 
DE DADOS NO 
JORNALISMO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Conceituar fact-checking e sua relação com o jornalismo de dados.
 > Identificar o papel do jornalismo de dados no combate às fake news e à 
desinformação.
 > Exemplificar grandes reportagens baseadas no jornalismo de dados.
Introdução 
Certamente você já se deparou com alguma desinformação circulando nas redes 
sociais ou já ouviu falar de alguém que sofreu prejuízos por acreditar em um boato. 
Com tantas mensagens circulando e sendo compartilhadas instantaneamente no 
ciberespaço, os perigos de provocar danos à vida das pessoas compartilhando 
conteúdos falsos é cada vez maior. Segundo o Instituto Ipsos (2018), 62% dos 
brasileiros admitem já terem acreditado que era verdade alguma notícia falsa 
divulgada na internet. Comparado aos demais 27 países que participaram da 
pesquisa do Ipsos, o Brasil foi o país em que mais entrevistados admitiram já 
terem dado crédito a fake news. 
A divulgação de informações incorretas coloca em dúvida a credibilidade 
do jornalismo. Quando o público recebe conteúdos pelas redes sociais, acessa 
portais de notícias, ouve uma notícia no rádio, vê uma declaração na TV, as mensa-
gens repetidas a esmo provocam inquitações a respeito da veracidade. O cidadão 
indaga se aquele conteúdo é efetivamente confiável, se os dados estão corretos 
e se um fato realmente aconteceu. A propagação de conteúdos falsos em nossa 
sociedade motiva os portais de notícias a destinarem páginas para averiguação 
Jornalismo de dados 
e desinformação
Fernando Lopes da Silva
dos fatos, o que também tem ocorrido com espaços nos telejornais destinados 
a identificar notícias falsas. Nos últimos anos, também surgiram agências espe-
cializadas na checagem de fatos (fact-checking). Todos esses eventos ocorrem 
com objetivo de que as reportagens sejam respaldadas com dados corretos para 
que o público possa ter uma percepção adequada da realidade. 
Neste capítulo, você vai identificar os conceitos que fundamentam o fact-
-checking, observando a importância de checar os fatos e como o jornalismo de 
dados pode contribuir para essa finalidade. Além disso, você também vai conferir 
como o jornalismo tem colaborado no combate à produção de fake news que 
circulam na mídia constantemente e vai averiguar as contribuições do jornalismo 
de dados para execução de grandes reportagens.
Jornalismo de dados e checagem dos fatos
A rigorosa apuração dos fatos com precisão e correção é uma das caracte-
rísticas que diferem a notícia e a reportagem jornalística de outros textos 
ficcionais comuns, como a dramaturgia, a literatura, as anedotas, entre ou-
tros. Entretanto, com o objetivo de dar uma notícia em primeira mão, muitos 
jornalistas antecipam a divulgação dos dados, antes mesmo de eles serem 
apurados corretamente. 
Segundo o jornalista Luis Costa Pereira Júnior (2006), constava na capa 
do jornal Agora São Paulo, do dia 12 de setembro de 2001, que havia 10 mil 
mortos por conta do atentado às Torres Gêmeas em Nova York. Os jornais A 
Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo, por sua vez, noticiaram 
6 mil mortos devido aos ataques terroristas às torres americanas em suas 
reportagens. Dados conflitantes foram publicados por diferentes jornais, com 
números imprecisos em meio a especulações e boatos que circulavam no 
mundo. Um ano após o atentado, foi consolidado o número de 3.025 vítimas, 
praticamente metade do que antes foi noticiado na mídia de vários países, 
incluindo o Brasil.
Sabemos a dificuldade em consolidar o número de mortos em um primeiro 
instante, após uma tragédia de grande proporção. O ideal seria admitir ao 
público a impossibilidade de informar um dado preciso, em vez de bombardeá-
-lo com informações que não foram consolidadas e que nem poderiam ser 
coletadas em um espaço tão curto de tempo. A impossibilidade de checar 
os fatos favoreceu a publicação de rumores como verdade: houve alarme de 
outros atentados acontecendo simultaneamente e noticiados na imprensa, 
como o rumor de que 10 aviões suicidas sobrevoaram os Estados Unidos, 
antes dos três ataques aéreos, sendo um deles frustado. 
Jornalismo de dados e desinformação2
Os jornalistas utilizavam os dados disponíveis, tentavam dar algum sentido 
à tragédia transmitida em tempo real pela mídia mundial. Entretanto, alerta Luis 
Costa Pereira Júnior (2006) que o sentido jornalístico é concedido na medida em 
que a narrativa reduz as incertezas, que cabe ao jornalista encontrar evidências 
em vez de se limitar a um jogo de versões e elaborações da realidade. Cada 
dado deve ser mantido e divulgado em uma notícia quando houver respaldo. 
Embora a verificação dos dados seja fundamental ao fazer jornalístico, o 
fácil acesso aos conteúdos devido às tecnologias de informação e comunicação 
e à variadade de conteúdos transmitidos em grande volume por diferente 
emissores tornou a checagem dos fatos ainda mais essencial. O que difere 
o bom jornalista dos demais emissores de conteúdos é que cabe a ele não 
apenas transmitir conteúdos, mas acessar e verificar os dados, evitando falhas 
de interpretação. Por vezes, por trás de um dado divulgado equivocadamente, 
há interesses particulares, sobretudo nas editorias política e econômica. 
No contexto em que estamos inseridos, o jornalista americano Brooks 
Jackson criou a primeira plataforma permanente para verificar informações, a 
FactCheck.org, em parceria com a Fundação Annenberg Public Policy Center e 
a Universidade da Pensilvânia, no ano de 2003. De acordo com o pesquisador 
Marco Antônio Gehlen (2018), as campanhas presidenciais norte-americanas 
em 2008 impulsionaram essas agências de checagem de notícias, estimando-se 
que, em 2017, haveria cerca de 135 iniciativas de fact-checking em todo mundo.
Mas o que se entende atualmente como fact-checking? Em tradução literal, 
refere-se à checagem dos fatos, ato fundamental da prática jornalística antes 
mesmo da chegada da internet e das tecnologias de comunicação e infor-
mação. Segundo Fonseca (2017), o fact-checking qualifica o debate público, 
permitindo a apuração e a checagem das informações disponíveis ao público. 
Essa checagem é feita por setores específicos dos veículos de comunica-
ção, mas também contribuiu para o surgimento de agências especializadas 
em checagem de informações. Nesse contexto, a apuração ocorre a partir do 
confrontamento de histórias e discursos com pesquisa, dados e registros, com 
a finalidade de aferir a vercidade dos conteúdos que estão sendo veiculados 
socialmente para que a informação seja legítima e tenha a confiança do público.
Entre os anos de 2014 e 2018, a Agência Pública desenvolveu um 
projeto de fact-checking chamado Truco. Segundo Fonseca (2017), 
o objetivo do projeto foi analisar diferentes discursos públicos e aprimorar a 
democracia, tornando políticos e personalidades públicas mais responsáveis 
por suas declarações, sem fazer distinções partidárias e ideológicas. 
Jornalismo de dados e desinformação 3
Segundo Gehlen (2018), o blog Preto no Branco sistematizou as primeiras 
atividades de checagem de notícias da imprensa brasileira durante as eleições 
presidenciais de 2014. Ao longo de 80 dias, foram checadas 374 frases de 
candidatos a cargos políticos e foi apurado que apenas 52% delas estavam 
sem qualquer problema de conteúdo, enquanto as demais declarações foram 
consideradas equivocadas por apresentarem dados falsos, contraditórios ou 
porque o emissor da mensagem exagerou no tom do discurso proferido. A 
conta do Twitter de seção política do jornal O Globo difundiu as checagens 
produzidas pelo blog, e 15 das 20 postagens mais compartilhadas pela conta do 
Twitter em 2014 eram provenientes das checagens feitas pelo Preto no Branco. 
Se os tempos eleitorais sempre fomentaram discussões sobre a veraci-
dade dos conteúdos divulgados pela mídia e fomentaram o surgimento de 
agências de fact-checking, cabe ao jornalismo refletir em que medida pode 
vir a contribuirtanto para evitar a disseminação de notícias falsas quanto 
para propagar informação segura para o cidadão. Sendo a informação a 
matéria-prima do jornalismo, cabe à imprensa o papel de facilitar o acesso da 
população aos conteúdos relevantes para suas tomadas de decisões diárias. 
Nesse contexto, não basta articular uma coleta de dados ou ter o domínio 
de uma série de declarações para reescrevê-las entre aspas. É preciso filtrar os 
dados, escolher e preferir porta-vozes originais, confrontrar os dados coletados 
com outras informações, para só então elaborar a narrativa jornalística. Assim, 
não se pode esquecer que “[...] a notícia é construída no cuidado com a verificação, 
sobre o alicerce do levantamento de informações” (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p. 71).
Ao apurar as informações, verificar discursos e relacionar os conteúdos 
a bancos de dados acessíveis, a atividade jornalistica adiquire credibilidade 
junto ao cidadão. Embora os métodos de checagem de informação tenham 
evoluido em consonância com os avanços tecnológicos, a checagem dos 
fatos acompanha o surgimento da imprensa. A necessidade de descobrir e 
checar os acontecimentos de forma independente sempre foi um fator para 
distinguir os veículos de comunicação. Desde os tempos do Reporter Esso, 
programa radiôfonico e televisivo na década de 1940, havia a premissa de que 
o programa desempenhasse o papel de testemunha ocular da realidade. Ainda 
hoje, a checagem dos fatos é o objetivo fundamental da prática jornalística: 
corresponde às finalidades do jornalismo de dados tornar a experiência do 
público com os conteúdos mais agradável e a informação credível. 
O fácil acesso à internet tanto pode favorecer a checagem e a apresenta-
ção de dados quanto pode tirar o foco do que é mais relevante na atividade 
jornalística. Segundo os pesquisadores Kovach e Rosentiel (2003), por vezes, 
os jornalistas dispensam muito tempo procurando na internet informações 
Jornalismo de dados e desinformação4
que agreguem conteúdos a suas reportagens, buscam sintetizar um grande 
volume de dados e ignoram o risco de se tornarem passivos aos conteúdos, 
preocupando-se mais com o acesso a grandes volumes de conteúdos do 
que com compreender a extensa quantidade de dados, a usuabilidade e a 
credibilidade da informação que pretende veicular. Portanto, deve-se checar 
os conteúdos que compõem a matéria jornalística tanto no que corresponde 
à correção dos dados quanto à avaliação da clareza e da correspondência 
dos argumentos com o objetivo da matéria jornalística.
Em tempos em que os jornalistas desempenham vários papéis nas reda-
ções e em que, por vezes, as textualidades são elaboradas e divulgadas na 
mídia com respaldo em informações pouco confiáveis, as agências de fact-
-checking colaboram com o trabalho de apuração do jornalista e também 
com o combate à desiformação verificando afirmações feitas por agentes 
públicos e revelando boatos e rumores que atendem interesses particulares. 
A disciplina de verificação dos conteúdos é tão antiga quanto a atividade 
jornalística e corresponde a um meio eficaz de evitar divulgar informações 
incorretas que prejudicariam as pessoas. 
No que se refere à apuração dos fatos, a transparência dos métodos uti-
lizados na prática de checagem é essencial para que o jornalista obtenha os 
resultados esperados no exercício da sua profissão. É fundamental que esteja 
claro quais foram as técnicas de monitoramento utilizadas pelas agências de 
fact-checking e também pelos jornalistas na verificação dos dados. 
Se o quadro valorativo que os informa não soar ao leitor justo e convincente, corre-se 
o risco de passar a impressão de tendenciosismo ou de favorecimento ao partido 
ou candidato X, ou mesmo de obediência a determinadas linhas ideológicas não 
explicitadas (CALEIRO, 2020, documento on-line). 
Portanto, as agências de fact-checking têm a prática sistematizar os mé-
todos de verificação. O primeiro critério se refere ao que será analisado, de 
preferência assuntos de interesse público e que tenham impacto na vida 
das pessoas. No Brasil, as agências LabCaos, Lupa e Aos Fatos participam 
da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN). Trata-se de um fórum 
mundial de checadores de fatos que compartilham valores e métodos de 
checagem, além das novidades sobre o tema e da realização de treinamen-
tos. Entre seus valores e práticas, destaca-se realizar análises apartidárias, 
submeter os dados a critérios iguais de verificação, utilizar banco de dados 
atualizados para fazer a checagem, observar o contexto ao fazer análises, 
evitar avaliações precipitadas e julgamento de valor sobre o emissor quando 
checar suas declarações.
Jornalismo de dados e desinformação 5
Há também setores dentro dos veículos de comunicação brasileiros que 
realizam checagem dos fatos, como é o caso do jornal O Estado de São Paulo, 
a seção “Fato ou Fake” do G1 e o Uol Confere — nesse sentido, vale ressaltar 
que a checagem dos fatos faz parte do trabalho da imprensa. Essas seções 
do noticiário têm por hábito desmistificar boatos que circulam na internet e 
ganham destaque em tempos nos quais que circulam muitas histórias falsas 
nas redes sociais. Algumas das checagens vão além da análise sobre se a 
informação está certa e errada, apontando se o emissor distorceu e deturpou 
a informação, se é fake news, manipulação, etc. 
O pesquisador Maurício Caleiro (2020) assinala o surgimento das 
agências de fact-checking em um cenário em que há a difusão diária 
e massiva de notícias mentirosas. Entretanto, no artigo que escreveu para o 
Observatório de Imprensa, “Checando as agências de fact-checking”, o pesqui-
sador também aponta as limitações dessas agências que emitem pareceres 
mais restritos do que as fake news que elas apontam, com formato narrativo 
superficial que tende a repetição e engessamento de suas análises. 
Como vimos, cabe ao jornalismo informar com precisão e correção e co-
laborar para que os cidadãos tenham condições de compreender o que está 
acontencendo na sociedade. Entretanto, deve-se entender que as premissas 
jornalísticas de impacialidade e isenção não são apenas valores e príncípios, 
mas ferramentas ideais para informar com credibilidade, como alertam Kovack 
e Rosenstiel (2003, p. 121):
Isenção e equilíbrio ganham um novo significado. Em vez de serem considerados 
como altos princípios, na verdade são técnicas — recursos — para ajudar os jorna-
listas no desenvolvimento e verificação de seus relatos. Essas técnicas, contudo, 
nunca devem ser utilizadas só na fachada ou invocadas como os objetivos do 
jornalismo. Seu valor reside em ajudar-nos a chegar mais perto de uma verificação 
autêntica e uma versão confiável dos fatos Infelizmente, com freqüência o equilíbrio 
jornalístico é mal construído e leva a um tipo de significado quase matemático, 
como se uma boa matéria fosse aquela que apresenta declarações de ambos os 
lados. Como sabem os jornalistas, uma determinada história pode ter mais de dois 
lados. E às vezes buscar o equilíbrio de todos os lados não resulta numa reflexão 
verdadeira da realidade. A imparcialidade, por sua vez, também pode ser mal 
entendida se considerada como um objetivo em si mesma. Imparcialidade deve 
significar que o jornalista está sendo equânime e isento em relação aos fatos, e 
ao entendimento que os cidadãos têm deles. 
Jornalismo de dados e desinformação6
Assim, para a correta checagem dos fatos, Kovach e Rosentiel (2003) asse-
guram que alguns questionamentos devem balizar a matéria jornalística antes 
de sua publicação, a começar pelos dados que vão compor a reportagem. O 
repórter deve indagar-se, por exemplos, se os dados mensurados permitem o 
público compreender a matéria. Foram checados todos os dados apresentados 
e a correção de números, nomes, endereços e títulos apresentados no texto? 
As declarações estão claras e demonstram o que os porta-vozes disseram 
com precisão? Há suposições por detrás de algumas sentenças do texto? Em 
caso afirmativo,quem fez esssas insinuações? Foi o repórter? A declaração 
de algum entrevistado? A informação de alguma fonte pesquisada?
Portanto, são várias as indagações que, feitas antecipadamente, atestam 
a credibilidade da matéria jornalística. É preferível que o jornalista analise 
o texto linha por linha e evite cometer erros que podem comprometer a 
correção do que foi publicado. Na impossibilidade de ter acessasso a algum 
dado, deve-se manter a transparência com o público, redigindo a notícia até 
o ponto em que foi possível fazer uma apuração. 
Transparência é também apresentar com clareza as fontes e os métodos 
de pesquisa empregadas na notícia, esquivando-se de erros e da divulgação 
de fatos iverídicos. Se não for possível conseguir dados de uma fonte com 
a credibilidade que se espera, é preciso procurar outros meios de fornecer 
informações credíveis. Como exemplo, vimos a iniciativa do consórcio feito 
entre veículos de comunicação com objetivo de apurar junto às secretarias 
estaduais os casos de covid-19 no Brasil em resposta aos atrasos do Governo 
Federal em coletar e publicar informações sobre a doença nos sites institu-
cionais. Práticas como essas validam a apuração da notícia e a transparência 
dos métodos de checagem, além de demonstrar o quanto os jornalistas e 
os veículos de comunicação respeitam o público do noticiário e viabilizam a 
confiança no que foi informado.
Contribuições para o combate das fake news 
e da desinformação
Notícias a respeito de um vírus no ano de 2020 até então desconhecido do 
público deixaram as pessoas assustadas no mundo inteiro. Chamava a aten-
ção a sua fácil propagação e os primeiros óbitos noticiados pela imprensa 
internacional. Por se tratar da mutação de um vírus de uma grande família, o 
coronavírus (SARS-CoV-2) foi identificado inicialmente em Wuhan, na China, e 
causou a covid-19; pouco tempo depois, foram noticiados os primeiros casos 
Jornalismo de dados e desinformação 7
de morte na China e, depois, na Itália. Vários países enfrentaram dificuldades 
no sistema de saúde, e a proliferação do vírus levou uma grande quantidade 
de pessoas a precisarem de cuidados médicos simultaneamente. Não demorou 
para os primeiros casos serem notificados no Brasil, e estados como São 
Paulo, Rio de Janeiro e Amazônia foram os primeiros a enfrentar problemas 
de saúde pública. Rapidamente destacou-se a letalidade dos casos, os di-
ferentes sintomas relatados pelos pacientes e a dificuldade em estabelecer 
protocolos de prevenção.
Concomitante à situação de pandemia deflagrada em março de 2020, 
surgiram as primeiras informações desencontradas a respeito da doença. 
A começar pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que, diversas vezes, 
mudou o tom do diálogo, algo compreensível pelo pouco conhecimento dos 
casos e da mutação do vírus. Vários países negaram a situação pandêmica: a 
política pública estava pouco preparada para os casos da doença e os casos 
foram aumentando de forma exponencial. Em contrapartida ao crescimento 
do número de casos, aumentaram as informações falsas divulgadas pela 
mídia, as chamadas fake news, que, se antes influenciaram em grande es-
cala as questões políticas e eleitorais, em 2020, também contribuíram para 
o negacionismo da doença, para a automedicação, para campanhas que 
desacreditam as vacinações e até para a veiculação de informações políticas 
que não condiziam com a realidade dos fatos. 
Segundo a Fiocruz (ESTUDO..., 2020), de acordo com dados coletados pelo 
aplicativo Eu Fiscalizo, das notícias falsas entre 11 de abril e 13 de maio de 
2020, destacam-se receitas caseiras para prevenir o contágio do coronavírus 
e para curar a doença, a defesa de uso de medicamentos sem comprovação 
médica, informações de que a doença é estratégia política, golpes financei-
ros, propagandas apontando malefício do uso de máscaras, recriminando 
o distanciamento social e desacreditando casos de óbito da doença. Essas 
fake news, por vezes, apareciam falsamente respaldadas por fontes como 
a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde e profissionais sem 
habilitação médica. As notícias falsas eram compartilhadas compulsivamente 
e ofereciam riscos à saúde coletiva.
Jornalismo de dados e desinformação8
O Datafolha (2020) realizou uma pesquisa no mês de abril de 2020 a 
fim de identificar quais eram os meios de se informar considerados 
mais confiáveis sobre o coronavírus para os brasileiros. Veja os dados coletados 
no quadro a seguir.
Mídia Índices percentuais
Programas 
jornalísticos 
na TV
Têm um índice de confiabilidade de 83% na transmissão de 
conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 54% declararam que confiam;
 � 29% declararam que confiam em parte; 
 � 14% disseram que não confiam; 
 � 2% afirmaram que não assistem.
Jornais 
impressos
Apresentam um percentual de 79% de confiança na transmissão 
de conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 51% afirmam que confiam;
 � 28% declaram que confiam em partes;
 � 12% disseram que não confiam; 
 � 9% afirmaram que não assistem.
Sites de 
notícias
Têm um índice de confiabilidade de 72% na transmissão de 
conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 35% declararam que confiam;
 � 37% declararam que confiam em parte; 
 � 20% disseram que não confiam; 
 � 7% afirmaram que não assistem.
Programas 
jornalísticos 
no rádio
Apresentam um percentual de 64% de confiança na transmissão 
de conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 46% declararam que confiam;
 � 18% declararam que confiam em parte; 
 � 11% disseram que não confiam;
 � 26% afirmaram que não assistem.
(Continua)
Jornalismo de dados e desinformação 9
Mídia Índices percentuais
Informações 
distribuídas 
no Facebook
Têm um índice de confiabilidade de 30% na transmissão de 
conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 8% declararam que confiam;
 � 22% declararam que confiam em parte; 
 � 55% disseram que não confiam; 
 � 15% afirmaram que não assistem.
Informações 
distribuídas 
por Whatsapp
Apresentam um percentual de 28% de confiança na transmissão 
de conteúdos referentes ao coronavírus:
 � 8% declararam que confiam;
 � 20% declararam que confiam em parte; 
 � 65% disseram que não confiam;
 � 7% afirmaram que não assistem.
Fonte: Adaptado de Datafolha (2020).
Os meios jornalísticos desempenhados pela imprensa tradicional, como 
a TV e o jornal impresso, aparecem com maior índice de confiabilidade. Em 
contrapartida, os meios digitais e as redes sociais demonstram maior fragilidade 
quanto aos conteúdos distribuídos sobre o coronavírus.
A veiculação dos conteúdos jornalísticos favorece o acesso a informa-
ções necessárias para a tomada de decisão dos cidadãos, e o conhecimento 
dos fatos é essencial para a formação de opinião sobre diversos assuntos, 
ampliando nossa capacidade de identificar as notícias falsas. Ainda que a 
mensagem jornalística tenha sofrido críticas a respeito de sua credibilidade 
e dos interesses por detrás dos emissores dos conteúdos, os meios de co-
municação cumprem a importante função social de fornecer informações de 
qualidade ao cidadão. A abrangência de alguns meios é relativamente maior 
que a de outros, como é o caso da televisão e do baixo custo dos aparelhos 
de rádio em um país continental como o Brasil. 
O melhor modo de reconhecer fake news é ir além das manchetes e dos 
títulos dos textos recebidos e lê-los atentamente — nesse contexto, conteú-
dos alarmistas e informações vagas demonstram a pouca credibilidade da 
mensagem . Assim, é preciso desconfiar do excesso de adjetivos, de títulos 
sensacionalistas e de dados que não indicam de onde foram tirados. Entre-
tanto, se o dado for atribuído a alguma instituição ou pesquisa, é importante 
(Continuação)
Jornalismo de dados e desinformação10
fazer uma busca e verificar se a informação também foi apresentada em outros 
locais, incluindo quem emitiu os dados ou especialistas mencionados no texto. 
É essencial, além disso, observar se a informação não foi publicada por 
outro veículo de informação — às vezes,descobre-se que a situação rela-
tada ocorreu anteriormente, em outro contexto e até em outro território. Da 
mesma forma, quando não for possível verificar uma informação ou suspeitar 
que se trate de situações inverídicas, deve-se evitar repassar o conteúdo. É 
sempre preferível compartilhar informações de instituições idôneas e com 
credibilidade; afinal, há várias campanhas de desinformação nas redes sociais 
com finalidade particulares e que têm por objetivo obter vantagens com a 
propagação de conteúdos inverídicos e opiniões antidemocráticas.
Ademais, cabe ao jornalista aprimorar suas habilidades de apuração das 
informações que capta e redige, verificando dados e discursos emitidos em 
entrevistas, assim como a origem de comentários que objetivam a produção 
de rumores. Nesse contexto, o jornalismo de dados orienta a correta utilização 
de informações e propõe o tratamento adequado de dados a respeito de 
determinado assunto, favorecendo o uso das informações que se tem sobre 
algo com precisão. 
Também são objetivo do jornalismo de dados o encadeamento e a cor-
relação das informações, de modo que os conteúdos sejam apresentados 
corretamente e com clareza para o público. O conhecimento dos dados cole-
tados e que respaldam o texto jornalístico é fundamental para a reportagem. 
Correspondem, além disso, às habilidades do jornalista, as competências 
de produzir e transmitir conhecimentos, “[...] arrumar as coisas e seres em 
categorias, estabelecer relações, definir, explicar, estipular uma série de 
operações lógicas sobre dados e extrair conclusões que se deve comprovar 
empiricamente” (LAGE, 2006, p.7). 
Portanto, além de organizar e lidar com dados dispostos em coleções, é 
preciso identificar correlações entre as informações, os dados que necessi-
tam de mais atenção, analisando-os e evitando justaposição de informações 
contraditórias. Todo esse esforço reverte em credibilidade, característica 
esperada de uma reportagem. 
A baixa expectativa de confiabilidade dos internautas em relação à im-
prensa e às redes sociais no que diz respeito ao coronavírus não se refere 
apenas à situação de pandemia, mas à propagação de conteúdos falsos e ao 
uso intenso da mídia para fins particulares. A correção e a exposição clara 
dos dados devem atender as necessidades básicas do cidadão de se manter 
informado sobre as questões que lhe são importantes.
Jornalismo de dados e desinformação 11
As narrativas por vezes extremistas e os argumentos popularizados em 
nossa sociedade proporcionam um clima de ceticismo em relação à mídia e 
a seu papel social. Em diferentes momentos, o jornalismo sofreu represálias, 
sobretudo ao criticar interesses de quem está no poder, o que faz a jornalista 
e pesquisadora Giannina Segnini (2019, documento on-line) considerar que 
“[...] em um momento na história em que as pessoas deveriam estar mais bem 
informadas do que nunca, há mais ruído e mais conteúdo raso sendo gerados 
todos os dias do que jornalismo de fato, com qualidade e profundidade”. 
As publicações que circulam nas redes sociais questionando as narrativas 
e os métodos do jornalismo também colaboram para a falta de confiança do 
público nos conteúdos apresentados pelos meios de comunicação, uma vez que 
estamos em meio a uma disputa de perspectivas políticas e sociais polarizadas.
Em tempos de fake news, a imprensa também tem demonstrado 
índices frágeis de confiança e engajamento. Segundo o estudo global 
Edelman Trust Barometer, publicado no Portal Imprensa (2018), 71% dos entrevis-
tados acreditam que os meios de comunicação sacrificam a precisão dos fatos 
pelo furo jornalístico. A pesquisa também apurou que 39% dos entrevistados 
estão desengajados e consomem notícias menos de uma vez por semana; outros 
23% consomem notícias cerca de uma ou duas vezes por semana e 38% leem 
notícias mais vezes de duas vezes por semana e compartilham ou postam esses 
conteúdos várias vezes por mês. 
Sendo a credibilidade a premissa do jornalismo e expectativa fundamental 
do público que acessa uma notícia ou reportagem, o jornalismo de dados fornece 
meios para que a reportagem apresente conteúdos com qualidade. Ao acessar 
um veículo de comunicação, as pessoas esperam se orientar por informações 
completas e confiáveis e, na medida do possível, interagir com os conteúdos e 
estabelecer conexão com o que está sendo apresentado com formato intuitivo. 
Assim, é fundamental o tratamento adequado aos dados e das informações que 
compõem a matéria jornalística, assim como também é necessária a capacidade 
analítica dos profissionais que atuam nos veículos de comunicação.
Reportagens baseadas no jornalismo 
de dados
O repórter de dados do portal de notícias norte-americano BuzzFeed News, 
John Templon (2016), disse que não sabe jogar tênis. Entretanto, confessou 
em entrevista que sempre interagiu muito bem com pesquisas e números. 
Jornalismo de dados e desinformação12
Templon (2016) passou 15 meses coletando e analisando dados sobre as 
apostas em torno dos resultados dos torneios americanos tênis. Ele percebeu 
no monitoramento que, antes de uma partida do esporte, é esperado que 
algumas pessoas apostem na vitória de um jogador e que outras apostem 
no seu adversário. Entretanto, quando grandes apostas começam a se con-
centrar em poucos apostadores, poucas pessoas parecem saber mais sobre 
o resultado de uma partida que todos os demais torcedores, jogadores e até 
mesmo os corretores de apostas. 
A partir da coleta e da análise dos dados, o repórter apresentou uma 
estimativa sobre manipulação nos resultados dos torneios profissionais 
de tênis. A base de dados foi composta por 26 mil partidas entre os anos 
de 2009 e 2015. Um pequeno número de pessoas apostava muito dinheiro 
contra certos jogadores, que, por sua vez, perdiam suas partidas com mais 
frequência, contrariando as estimativas de especialistas da modalidade e 
até corretores das casas de apostas. 
Para se ter uma ideia, quatro jogadores chegaram a perder praticamente 
todas as partidas e, de acordo com a casa de apostas, a chance de eles terem 
um resultado tão inexpressivo era de uma em mil. Ainda que um bom jogador 
possa apresentar resultado ruim por conta de uma lesão ou um dia de azar, 
Templon (2016) considerou improvável que sempre um pequeno grupo de 
jogadores tenha inesperadamente resultados ruins em partidas nas quais 
poucos apostadores arriscavam somas enormes de dinheiro e lucravam caso 
o jogador perdesse. É como se esses apostadores tivessem informações pri-
vilegiadas, já que as derrotas dos mesmos jogadores se repetiam no intervalo 
dos anos pesquisados e sempre as mesmas pessoas lucravam com a situação.
Se, por um lado, houve, por parte do repórter, um esforço para pesquisa e 
tratamento dos dados de vitórias e derrotas de milhares de partidas durante 
anos, por outro, é preciso destacar que ele teve acesso apenas às informações 
abertas sobre apostas e resultados da partida. Evidências forenses, registros 
bancários dos jogadores e apostadores suspeitos certamente dariam conta da 
conclusão das investigações de manipulação dos resultados, permitindo que o 
BuzzFeed News publicasse o nome dos jogadores com comportamentos atípicos 
nos torneios e se de fato eles estavam levando vantagens financeiras. Entretanto, 
a situação suspeita relatada na reportagem chamou a atenção das autoridades.
No Brasil, de acordo com o jornal Folha de São Paulo (PETROCILO, 2020), 
estão sendo conduzidas investigações pela polícia civil de nove casos de 
suspeitas de fraude e manipulação de resultados do futebol brasileiro. Se-
gundo a reportagem, aliciadores procuram jogadores e árbitro e oferecem 
dinheiro a fim de manipular resultados dos jogos e favorecer apostadores. 
Jornalismo de dados e desinformação 13
Entretanto, essas investigações não partiram de denúncias ou análise de 
dados da imprensa brasileira, que apenas faz a cobertura noticiosa da questão.
No caso dos jornalistas Blake e Templon (2016), observe como a coletae a 
análise dos dados em uma linha histórica de seis anos, tanto no que se refere 
ao resultado das partidas de tênis quanto ao volume de apostas e em quais 
jogadores, possibilitou aos repórteres respaldar as suas suspeitas e fazer 
uma boa reportagem. A investigação jornalística baseou-se em documentos 
vazados, em análise de dados dos resultados e de apostas ocorridas em 26 mil 
partidas da modalidade, em entrevista com jogadores de tênis e especialistas 
da modalidade esportiva em três continentes. 
O BuzzFeed News (BLAKE; TEMPLON, 2016) chegou a desenvolver um algo-
ritmo para analisar os dados das partidas e relacionar com o rendimento dos 
competidores e com os dados referentes as apostas em jogos de azar. Vale 
ressaltar a relevância da reportagem, que, valendo-se da compilação desses 
dados, descortinou situações suspeitas envolvendo torneios profissionais de 
tênis e despertou a atenção das autoridades para as práticas ilegais na mo-
dalidade. Nesse aspecto, destaca-se o valor da reportagem não apenas como 
relato de um fato, mas como “[...] relato ampliado de um acontecimento que 
já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas 
pela instituição jornalística” (MELO, 1985, p. 49).
Observe que a reportagem contextualiza o fato, amplia a narrativa e en-
cadeia uma sucessão de dados e análises que permitem ao leitor aprofundar 
seus conhecimentos sobre o tema que acessou. Nesse aspecto, o jornalismo 
de dados pode agregar à reportagem, uma vez que possibilita ao repórter 
valer-se de elementos informativos e, ao profissional, correlacionar os dados 
com os acontecimentos, indo além do relato dos fatos. Afinal, esses procedi-
mentos de pesquisa em torno da matéria jornalística fazem com que o texto 
apresente a devida profundidade narrativa que o público espera. 
Os repórteres de dados devem nortear o seu trabalho pelas cinco 
perguntas básicas do jornalismo? Simon Rogers (2014), jornalista 
de dados, respondeu essa questão que direciona o tratamento de dados para 
reportagem, confira a seguir.
Jornalismo de dados e desinformação14
 � Quem: de onde vêm os dados e qual a sua importância? Rogers (2014) argumenta 
que o jornalista deve questionar os dados e seu modo de captação mesmo 
quando venham de sites confiáveis, observando o quanto a informação é precisa 
e confiável. Ainda alerta para o fato de que muitos repórteres tratam os núme-
ros com uma confiança entusiástica que jamais teriam com uma declaração de 
entrevista. Portanto, o melhor é averiguar antes de incluí-los na reportagem.
 � O quê: o que esses dados significam? O que eles querem dizer dentro do 
texto jornalístico? Traduzir dados e fazer a ponte entre a informação e o 
público fundamenta o melhor jornalismo de dados, que deve apresentar o 
conteúdo de forma clara e segura na narrativa, editando a informação crua 
e tornando-a compreensível na reportagem.
 � Quando: a pergunta a se fazer é qual é a idade dos dados? Quando eles fo-
ram produzidos? Segundo Rogers (2014), se os dados são de fonte oficiais, é 
possível que eles tenham sido coletados há pelo menos um ano. Posto isso, 
repórteres de dados têm utilizado métodos de coletas de dados mais atuais 
e com suporte tecnológico — alguns em tempo real, como o caso do mapa 
de homícidio de Chicago colhido de feeds oficiais.
 � Onde: é preciso saber a origem dos dados, uma vez que esse conhecimento pode 
favorecer a elaboração da reportagem. A geolocalização de dados é importante 
ferramenta para uma análise setorial. Com o auxílio de mapas, o repórter pode, 
por exemplo, apresentar dados referentes a diferentes regiões, como também as 
características, as políticas e os cuidados específicos que convêm a cada setor.
 � Por quê: compreender como se compara a variação dos dados é fundamental 
para correlacionar as informações no texto da reportagem. Por vezes, há uma 
grande quantidade de dados disponíveis. Ao selecioná-los, o reporter deve 
pensar nos motivos de ter engendrado os dados na narrativa e compreender 
o melhor modo de apresentá-los na narrativa jornalística.
O jornalismo de dados e as grandes reportagens
É comum ouvirmos o termo “grande reportagem” associado às reportagens 
do jornalismo investigativo, por vezes, em referência a assuntos políticos, po-
liciais, as tentativas de apurar e esmiuçar questões relacionadas a um evento 
ou um tema com rigor. No século XX, algumas dessas grandes reportagens 
eram publicadas em séries nas edições de domingos dos jornais, trazendo a 
cada semana a continuidade da narrativa jornalística sobre um tema. 
Em agosto de 1897, o jornalista Euclides da Cunha foi fazer a cobertura 
da Guerra de Canudos para o jornal O Estado de S. Paulo. Antes de a obra Os 
sertões ser publicada no formato livresco, em 1902, a apuração do jornalista 
ocupou as páginas do jornal. O mesmo aconteceu com outras séries de grandes 
reportagens, como o livro Transamazônica, de Fernando de Moraes. Antes 
Jornalismo de dados e desinformação 15
de a obra ser lançada no formato livresco, ocupou as páginas do Jornal da 
Tarde, foi publicada durante seis edições dominicais do periódico e chegou 
a vencer o Prêmio Esso de Jornalismo. 
Ambas as grandes reportagens tratadas têm em comum o fato de serem 
publicadas em várias edições dos jornais e em formato livresco. Também têm 
em seu conteúdo o apreço pela investigação, um trabalho de pesquisa e de 
contextualização dos dados, de apuração dos fatos, com uma boa narrativa 
que fez com que o leitor encontrasse naquelas reportagens conteúdos que 
não estavam disponíveis em outras coberturas jornalísticas. Pontua o pes-
quisador Edvaldo Pereira Lima (2009) que oito periódicos enviaram jornalistas 
para cobertura da Guerra de Canudos; desses, apenas Euclides da Cunha 
voltou com material documental e análises suficientes para escrever um 
livro considerado clássico.
O termo “grande reportagem” utilizado no impresso também é usado na te-
levisão para designar um esforço em aprofundar no tema de uma reportagem. 
Sobre a grande reportagem na TV, Curado (2002) entende que respalda seus 
conteúdos com fatos, dados e, por vezes, o jornalista anuncia ao telespectador 
que o tema continua no próximo bloco, mantendo-se o assunto com outro 
enfoque. Por isso, é comum vermos programas televisivos com essa prática 
entre intervalos comerciais ou, ainda, séries de reportagens especiais que 
são apresentadas durante a semana nos telejornais, cada edição com dados, 
conteúdos e enfoques que se complementam.
Os dados são essenciais para essas grandes reportagens, que aprofun-
dam um assunto e permitem que o público saiba mais a respeito do tema 
que desperta seu interesse. Nesse sentido, o jornalismo de dados vem para 
facilitar o trabalho do jornalista que precisa lidar com uma grande quan-
tidade de informações e apresentá-las corretamente para o público, com 
ferramentas dinâmicas e intuitivas, que facilitam a compreensão do público 
e que despertem sua atenção.
No dia 13 de maio de 2018, o portal BBC Brasil fez uma grande repor-
tagem a respeito dos 130 anos da lei que abolia a escravidão (Figura 
1). Longe da previsibilidade de apenas noticiar uma data comemorativa, o portal 
fez um apanhado histórico sobre o contexto em que foi promulgada a lei da 
abolição votada no Senado e assinada pela princesa Isabel. A matéria jornalística 
fez uso de fotos, arquivos de jornais, documentos oficiais relativos à abolição, 
gráficos sobre a emigração dos negros no Brasil e mapas com a rotas do tráfico 
negreiro. A matéria foi apresentada em quatro abas: “A luta pela abolição”, “O 
movimento abolicionista”, “Revoltas” e “E depois ?”.
Jornalismo de dados e desinformação16
Figura 1. Matéria da BBC sobre o fim da escravidão.
Fonte: Rossi e Gragnani (2018, documento on-line).
A história de cada personagem da reportagem é contada a partir dos dados que 
a matéria jornalística apresenta e, embora haja um grande trabalho documental, 
a narrativa traz vários recursos gráficos que tornam a leituramais agradável e 
despertam a atenção do público à medida que ele avança o conteúdo. Entretanto, a 
reportagem não se restringe a documentar os eventos históricos: oportunamente, 
atualiza as questões raciais, as causas defendidas pelos abolicionistas que ainda 
hoje não foram atendidas e como está a situação do negro hoje no Brasil. É um 
bom exemplo de grande reportagem na mídia contemporânea.
Embora as grandes reportagens tenham por premissa a habilidade do 
jornalista de contar uma boa história, a narrativa em torno de personagens 
cativantes, os dados jornalísticos desempenham importante papel na nar-
rativa da imprensa desde o seu surgimento e vêm ganhando mais destaque 
em tempos em que a comunicação social ocorre também espaço digital. Na 
contemporaneidade, as habilidades de lidar com as ferramentas tecnológicas 
são essenciais para o profissional que atua na área de jornalismo. 
Enquanto muitos repórteres relacionam o jornalismo de dados a números, 
estatísticas, gráficos, a jornalista e pesquisadora Giannina Segnini (2019, 
documento on-line) pondera sobre o jornalismo de dados, que se refere a:
[...] encontrar histórias relevantes por meio do uso de dados e da tecnologia como 
ferramentas para complementar as habilidades essenciais de um jornalista com-
petente e completo, alguém que tem pensamento crítico e curiosidade para “ligar 
os pontos” e entender o mundo ao nosso redor.
Jornalismo de dados e desinformação 17
Referências
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Leitura recomendada
BARBOSA, S. (org.). Jornalismo digital de terceira geração. Covilhã: LABCOM, 2007.
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