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LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE DADOS NO JORNALISMO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Conceituar fact-checking e sua relação com o jornalismo de dados. > Identificar o papel do jornalismo de dados no combate às fake news e à desinformação. > Exemplificar grandes reportagens baseadas no jornalismo de dados. Introdução Certamente você já se deparou com alguma desinformação circulando nas redes sociais ou já ouviu falar de alguém que sofreu prejuízos por acreditar em um boato. Com tantas mensagens circulando e sendo compartilhadas instantaneamente no ciberespaço, os perigos de provocar danos à vida das pessoas compartilhando conteúdos falsos é cada vez maior. Segundo o Instituto Ipsos (2018), 62% dos brasileiros admitem já terem acreditado que era verdade alguma notícia falsa divulgada na internet. Comparado aos demais 27 países que participaram da pesquisa do Ipsos, o Brasil foi o país em que mais entrevistados admitiram já terem dado crédito a fake news. A divulgação de informações incorretas coloca em dúvida a credibilidade do jornalismo. Quando o público recebe conteúdos pelas redes sociais, acessa portais de notícias, ouve uma notícia no rádio, vê uma declaração na TV, as mensa- gens repetidas a esmo provocam inquitações a respeito da veracidade. O cidadão indaga se aquele conteúdo é efetivamente confiável, se os dados estão corretos e se um fato realmente aconteceu. A propagação de conteúdos falsos em nossa sociedade motiva os portais de notícias a destinarem páginas para averiguação Jornalismo de dados e desinformação Fernando Lopes da Silva dos fatos, o que também tem ocorrido com espaços nos telejornais destinados a identificar notícias falsas. Nos últimos anos, também surgiram agências espe- cializadas na checagem de fatos (fact-checking). Todos esses eventos ocorrem com objetivo de que as reportagens sejam respaldadas com dados corretos para que o público possa ter uma percepção adequada da realidade. Neste capítulo, você vai identificar os conceitos que fundamentam o fact- -checking, observando a importância de checar os fatos e como o jornalismo de dados pode contribuir para essa finalidade. Além disso, você também vai conferir como o jornalismo tem colaborado no combate à produção de fake news que circulam na mídia constantemente e vai averiguar as contribuições do jornalismo de dados para execução de grandes reportagens. Jornalismo de dados e checagem dos fatos A rigorosa apuração dos fatos com precisão e correção é uma das caracte- rísticas que diferem a notícia e a reportagem jornalística de outros textos ficcionais comuns, como a dramaturgia, a literatura, as anedotas, entre ou- tros. Entretanto, com o objetivo de dar uma notícia em primeira mão, muitos jornalistas antecipam a divulgação dos dados, antes mesmo de eles serem apurados corretamente. Segundo o jornalista Luis Costa Pereira Júnior (2006), constava na capa do jornal Agora São Paulo, do dia 12 de setembro de 2001, que havia 10 mil mortos por conta do atentado às Torres Gêmeas em Nova York. Os jornais A Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo, por sua vez, noticiaram 6 mil mortos devido aos ataques terroristas às torres americanas em suas reportagens. Dados conflitantes foram publicados por diferentes jornais, com números imprecisos em meio a especulações e boatos que circulavam no mundo. Um ano após o atentado, foi consolidado o número de 3.025 vítimas, praticamente metade do que antes foi noticiado na mídia de vários países, incluindo o Brasil. Sabemos a dificuldade em consolidar o número de mortos em um primeiro instante, após uma tragédia de grande proporção. O ideal seria admitir ao público a impossibilidade de informar um dado preciso, em vez de bombardeá- -lo com informações que não foram consolidadas e que nem poderiam ser coletadas em um espaço tão curto de tempo. A impossibilidade de checar os fatos favoreceu a publicação de rumores como verdade: houve alarme de outros atentados acontecendo simultaneamente e noticiados na imprensa, como o rumor de que 10 aviões suicidas sobrevoaram os Estados Unidos, antes dos três ataques aéreos, sendo um deles frustado. Jornalismo de dados e desinformação2 Os jornalistas utilizavam os dados disponíveis, tentavam dar algum sentido à tragédia transmitida em tempo real pela mídia mundial. Entretanto, alerta Luis Costa Pereira Júnior (2006) que o sentido jornalístico é concedido na medida em que a narrativa reduz as incertezas, que cabe ao jornalista encontrar evidências em vez de se limitar a um jogo de versões e elaborações da realidade. Cada dado deve ser mantido e divulgado em uma notícia quando houver respaldo. Embora a verificação dos dados seja fundamental ao fazer jornalístico, o fácil acesso aos conteúdos devido às tecnologias de informação e comunicação e à variadade de conteúdos transmitidos em grande volume por diferente emissores tornou a checagem dos fatos ainda mais essencial. O que difere o bom jornalista dos demais emissores de conteúdos é que cabe a ele não apenas transmitir conteúdos, mas acessar e verificar os dados, evitando falhas de interpretação. Por vezes, por trás de um dado divulgado equivocadamente, há interesses particulares, sobretudo nas editorias política e econômica. No contexto em que estamos inseridos, o jornalista americano Brooks Jackson criou a primeira plataforma permanente para verificar informações, a FactCheck.org, em parceria com a Fundação Annenberg Public Policy Center e a Universidade da Pensilvânia, no ano de 2003. De acordo com o pesquisador Marco Antônio Gehlen (2018), as campanhas presidenciais norte-americanas em 2008 impulsionaram essas agências de checagem de notícias, estimando-se que, em 2017, haveria cerca de 135 iniciativas de fact-checking em todo mundo. Mas o que se entende atualmente como fact-checking? Em tradução literal, refere-se à checagem dos fatos, ato fundamental da prática jornalística antes mesmo da chegada da internet e das tecnologias de comunicação e infor- mação. Segundo Fonseca (2017), o fact-checking qualifica o debate público, permitindo a apuração e a checagem das informações disponíveis ao público. Essa checagem é feita por setores específicos dos veículos de comunica- ção, mas também contribuiu para o surgimento de agências especializadas em checagem de informações. Nesse contexto, a apuração ocorre a partir do confrontamento de histórias e discursos com pesquisa, dados e registros, com a finalidade de aferir a vercidade dos conteúdos que estão sendo veiculados socialmente para que a informação seja legítima e tenha a confiança do público. Entre os anos de 2014 e 2018, a Agência Pública desenvolveu um projeto de fact-checking chamado Truco. Segundo Fonseca (2017), o objetivo do projeto foi analisar diferentes discursos públicos e aprimorar a democracia, tornando políticos e personalidades públicas mais responsáveis por suas declarações, sem fazer distinções partidárias e ideológicas. Jornalismo de dados e desinformação 3 Segundo Gehlen (2018), o blog Preto no Branco sistematizou as primeiras atividades de checagem de notícias da imprensa brasileira durante as eleições presidenciais de 2014. Ao longo de 80 dias, foram checadas 374 frases de candidatos a cargos políticos e foi apurado que apenas 52% delas estavam sem qualquer problema de conteúdo, enquanto as demais declarações foram consideradas equivocadas por apresentarem dados falsos, contraditórios ou porque o emissor da mensagem exagerou no tom do discurso proferido. A conta do Twitter de seção política do jornal O Globo difundiu as checagens produzidas pelo blog, e 15 das 20 postagens mais compartilhadas pela conta do Twitter em 2014 eram provenientes das checagens feitas pelo Preto no Branco. Se os tempos eleitorais sempre fomentaram discussões sobre a veraci- dade dos conteúdos divulgados pela mídia e fomentaram o surgimento de agências de fact-checking, cabe ao jornalismo refletir em que medida pode vir a contribuirtanto para evitar a disseminação de notícias falsas quanto para propagar informação segura para o cidadão. Sendo a informação a matéria-prima do jornalismo, cabe à imprensa o papel de facilitar o acesso da população aos conteúdos relevantes para suas tomadas de decisões diárias. Nesse contexto, não basta articular uma coleta de dados ou ter o domínio de uma série de declarações para reescrevê-las entre aspas. É preciso filtrar os dados, escolher e preferir porta-vozes originais, confrontrar os dados coletados com outras informações, para só então elaborar a narrativa jornalística. Assim, não se pode esquecer que “[...] a notícia é construída no cuidado com a verificação, sobre o alicerce do levantamento de informações” (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p. 71). Ao apurar as informações, verificar discursos e relacionar os conteúdos a bancos de dados acessíveis, a atividade jornalistica adiquire credibilidade junto ao cidadão. Embora os métodos de checagem de informação tenham evoluido em consonância com os avanços tecnológicos, a checagem dos fatos acompanha o surgimento da imprensa. A necessidade de descobrir e checar os acontecimentos de forma independente sempre foi um fator para distinguir os veículos de comunicação. Desde os tempos do Reporter Esso, programa radiôfonico e televisivo na década de 1940, havia a premissa de que o programa desempenhasse o papel de testemunha ocular da realidade. Ainda hoje, a checagem dos fatos é o objetivo fundamental da prática jornalística: corresponde às finalidades do jornalismo de dados tornar a experiência do público com os conteúdos mais agradável e a informação credível. O fácil acesso à internet tanto pode favorecer a checagem e a apresenta- ção de dados quanto pode tirar o foco do que é mais relevante na atividade jornalística. Segundo os pesquisadores Kovach e Rosentiel (2003), por vezes, os jornalistas dispensam muito tempo procurando na internet informações Jornalismo de dados e desinformação4 que agreguem conteúdos a suas reportagens, buscam sintetizar um grande volume de dados e ignoram o risco de se tornarem passivos aos conteúdos, preocupando-se mais com o acesso a grandes volumes de conteúdos do que com compreender a extensa quantidade de dados, a usuabilidade e a credibilidade da informação que pretende veicular. Portanto, deve-se checar os conteúdos que compõem a matéria jornalística tanto no que corresponde à correção dos dados quanto à avaliação da clareza e da correspondência dos argumentos com o objetivo da matéria jornalística. Em tempos em que os jornalistas desempenham vários papéis nas reda- ções e em que, por vezes, as textualidades são elaboradas e divulgadas na mídia com respaldo em informações pouco confiáveis, as agências de fact- -checking colaboram com o trabalho de apuração do jornalista e também com o combate à desiformação verificando afirmações feitas por agentes públicos e revelando boatos e rumores que atendem interesses particulares. A disciplina de verificação dos conteúdos é tão antiga quanto a atividade jornalística e corresponde a um meio eficaz de evitar divulgar informações incorretas que prejudicariam as pessoas. No que se refere à apuração dos fatos, a transparência dos métodos uti- lizados na prática de checagem é essencial para que o jornalista obtenha os resultados esperados no exercício da sua profissão. É fundamental que esteja claro quais foram as técnicas de monitoramento utilizadas pelas agências de fact-checking e também pelos jornalistas na verificação dos dados. Se o quadro valorativo que os informa não soar ao leitor justo e convincente, corre-se o risco de passar a impressão de tendenciosismo ou de favorecimento ao partido ou candidato X, ou mesmo de obediência a determinadas linhas ideológicas não explicitadas (CALEIRO, 2020, documento on-line). Portanto, as agências de fact-checking têm a prática sistematizar os mé- todos de verificação. O primeiro critério se refere ao que será analisado, de preferência assuntos de interesse público e que tenham impacto na vida das pessoas. No Brasil, as agências LabCaos, Lupa e Aos Fatos participam da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN). Trata-se de um fórum mundial de checadores de fatos que compartilham valores e métodos de checagem, além das novidades sobre o tema e da realização de treinamen- tos. Entre seus valores e práticas, destaca-se realizar análises apartidárias, submeter os dados a critérios iguais de verificação, utilizar banco de dados atualizados para fazer a checagem, observar o contexto ao fazer análises, evitar avaliações precipitadas e julgamento de valor sobre o emissor quando checar suas declarações. Jornalismo de dados e desinformação 5 Há também setores dentro dos veículos de comunicação brasileiros que realizam checagem dos fatos, como é o caso do jornal O Estado de São Paulo, a seção “Fato ou Fake” do G1 e o Uol Confere — nesse sentido, vale ressaltar que a checagem dos fatos faz parte do trabalho da imprensa. Essas seções do noticiário têm por hábito desmistificar boatos que circulam na internet e ganham destaque em tempos nos quais que circulam muitas histórias falsas nas redes sociais. Algumas das checagens vão além da análise sobre se a informação está certa e errada, apontando se o emissor distorceu e deturpou a informação, se é fake news, manipulação, etc. O pesquisador Maurício Caleiro (2020) assinala o surgimento das agências de fact-checking em um cenário em que há a difusão diária e massiva de notícias mentirosas. Entretanto, no artigo que escreveu para o Observatório de Imprensa, “Checando as agências de fact-checking”, o pesqui- sador também aponta as limitações dessas agências que emitem pareceres mais restritos do que as fake news que elas apontam, com formato narrativo superficial que tende a repetição e engessamento de suas análises. Como vimos, cabe ao jornalismo informar com precisão e correção e co- laborar para que os cidadãos tenham condições de compreender o que está acontencendo na sociedade. Entretanto, deve-se entender que as premissas jornalísticas de impacialidade e isenção não são apenas valores e príncípios, mas ferramentas ideais para informar com credibilidade, como alertam Kovack e Rosenstiel (2003, p. 121): Isenção e equilíbrio ganham um novo significado. Em vez de serem considerados como altos princípios, na verdade são técnicas — recursos — para ajudar os jorna- listas no desenvolvimento e verificação de seus relatos. Essas técnicas, contudo, nunca devem ser utilizadas só na fachada ou invocadas como os objetivos do jornalismo. Seu valor reside em ajudar-nos a chegar mais perto de uma verificação autêntica e uma versão confiável dos fatos Infelizmente, com freqüência o equilíbrio jornalístico é mal construído e leva a um tipo de significado quase matemático, como se uma boa matéria fosse aquela que apresenta declarações de ambos os lados. Como sabem os jornalistas, uma determinada história pode ter mais de dois lados. E às vezes buscar o equilíbrio de todos os lados não resulta numa reflexão verdadeira da realidade. A imparcialidade, por sua vez, também pode ser mal entendida se considerada como um objetivo em si mesma. Imparcialidade deve significar que o jornalista está sendo equânime e isento em relação aos fatos, e ao entendimento que os cidadãos têm deles. Jornalismo de dados e desinformação6 Assim, para a correta checagem dos fatos, Kovach e Rosentiel (2003) asse- guram que alguns questionamentos devem balizar a matéria jornalística antes de sua publicação, a começar pelos dados que vão compor a reportagem. O repórter deve indagar-se, por exemplos, se os dados mensurados permitem o público compreender a matéria. Foram checados todos os dados apresentados e a correção de números, nomes, endereços e títulos apresentados no texto? As declarações estão claras e demonstram o que os porta-vozes disseram com precisão? Há suposições por detrás de algumas sentenças do texto? Em caso afirmativo,quem fez esssas insinuações? Foi o repórter? A declaração de algum entrevistado? A informação de alguma fonte pesquisada? Portanto, são várias as indagações que, feitas antecipadamente, atestam a credibilidade da matéria jornalística. É preferível que o jornalista analise o texto linha por linha e evite cometer erros que podem comprometer a correção do que foi publicado. Na impossibilidade de ter acessasso a algum dado, deve-se manter a transparência com o público, redigindo a notícia até o ponto em que foi possível fazer uma apuração. Transparência é também apresentar com clareza as fontes e os métodos de pesquisa empregadas na notícia, esquivando-se de erros e da divulgação de fatos iverídicos. Se não for possível conseguir dados de uma fonte com a credibilidade que se espera, é preciso procurar outros meios de fornecer informações credíveis. Como exemplo, vimos a iniciativa do consórcio feito entre veículos de comunicação com objetivo de apurar junto às secretarias estaduais os casos de covid-19 no Brasil em resposta aos atrasos do Governo Federal em coletar e publicar informações sobre a doença nos sites institu- cionais. Práticas como essas validam a apuração da notícia e a transparência dos métodos de checagem, além de demonstrar o quanto os jornalistas e os veículos de comunicação respeitam o público do noticiário e viabilizam a confiança no que foi informado. Contribuições para o combate das fake news e da desinformação Notícias a respeito de um vírus no ano de 2020 até então desconhecido do público deixaram as pessoas assustadas no mundo inteiro. Chamava a aten- ção a sua fácil propagação e os primeiros óbitos noticiados pela imprensa internacional. Por se tratar da mutação de um vírus de uma grande família, o coronavírus (SARS-CoV-2) foi identificado inicialmente em Wuhan, na China, e causou a covid-19; pouco tempo depois, foram noticiados os primeiros casos Jornalismo de dados e desinformação 7 de morte na China e, depois, na Itália. Vários países enfrentaram dificuldades no sistema de saúde, e a proliferação do vírus levou uma grande quantidade de pessoas a precisarem de cuidados médicos simultaneamente. Não demorou para os primeiros casos serem notificados no Brasil, e estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Amazônia foram os primeiros a enfrentar problemas de saúde pública. Rapidamente destacou-se a letalidade dos casos, os di- ferentes sintomas relatados pelos pacientes e a dificuldade em estabelecer protocolos de prevenção. Concomitante à situação de pandemia deflagrada em março de 2020, surgiram as primeiras informações desencontradas a respeito da doença. A começar pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que, diversas vezes, mudou o tom do diálogo, algo compreensível pelo pouco conhecimento dos casos e da mutação do vírus. Vários países negaram a situação pandêmica: a política pública estava pouco preparada para os casos da doença e os casos foram aumentando de forma exponencial. Em contrapartida ao crescimento do número de casos, aumentaram as informações falsas divulgadas pela mídia, as chamadas fake news, que, se antes influenciaram em grande es- cala as questões políticas e eleitorais, em 2020, também contribuíram para o negacionismo da doença, para a automedicação, para campanhas que desacreditam as vacinações e até para a veiculação de informações políticas que não condiziam com a realidade dos fatos. Segundo a Fiocruz (ESTUDO..., 2020), de acordo com dados coletados pelo aplicativo Eu Fiscalizo, das notícias falsas entre 11 de abril e 13 de maio de 2020, destacam-se receitas caseiras para prevenir o contágio do coronavírus e para curar a doença, a defesa de uso de medicamentos sem comprovação médica, informações de que a doença é estratégia política, golpes financei- ros, propagandas apontando malefício do uso de máscaras, recriminando o distanciamento social e desacreditando casos de óbito da doença. Essas fake news, por vezes, apareciam falsamente respaldadas por fontes como a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde e profissionais sem habilitação médica. As notícias falsas eram compartilhadas compulsivamente e ofereciam riscos à saúde coletiva. Jornalismo de dados e desinformação8 O Datafolha (2020) realizou uma pesquisa no mês de abril de 2020 a fim de identificar quais eram os meios de se informar considerados mais confiáveis sobre o coronavírus para os brasileiros. Veja os dados coletados no quadro a seguir. Mídia Índices percentuais Programas jornalísticos na TV Têm um índice de confiabilidade de 83% na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 54% declararam que confiam; � 29% declararam que confiam em parte; � 14% disseram que não confiam; � 2% afirmaram que não assistem. Jornais impressos Apresentam um percentual de 79% de confiança na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 51% afirmam que confiam; � 28% declaram que confiam em partes; � 12% disseram que não confiam; � 9% afirmaram que não assistem. Sites de notícias Têm um índice de confiabilidade de 72% na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 35% declararam que confiam; � 37% declararam que confiam em parte; � 20% disseram que não confiam; � 7% afirmaram que não assistem. Programas jornalísticos no rádio Apresentam um percentual de 64% de confiança na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 46% declararam que confiam; � 18% declararam que confiam em parte; � 11% disseram que não confiam; � 26% afirmaram que não assistem. (Continua) Jornalismo de dados e desinformação 9 Mídia Índices percentuais Informações distribuídas no Facebook Têm um índice de confiabilidade de 30% na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 8% declararam que confiam; � 22% declararam que confiam em parte; � 55% disseram que não confiam; � 15% afirmaram que não assistem. Informações distribuídas por Whatsapp Apresentam um percentual de 28% de confiança na transmissão de conteúdos referentes ao coronavírus: � 8% declararam que confiam; � 20% declararam que confiam em parte; � 65% disseram que não confiam; � 7% afirmaram que não assistem. Fonte: Adaptado de Datafolha (2020). Os meios jornalísticos desempenhados pela imprensa tradicional, como a TV e o jornal impresso, aparecem com maior índice de confiabilidade. Em contrapartida, os meios digitais e as redes sociais demonstram maior fragilidade quanto aos conteúdos distribuídos sobre o coronavírus. A veiculação dos conteúdos jornalísticos favorece o acesso a informa- ções necessárias para a tomada de decisão dos cidadãos, e o conhecimento dos fatos é essencial para a formação de opinião sobre diversos assuntos, ampliando nossa capacidade de identificar as notícias falsas. Ainda que a mensagem jornalística tenha sofrido críticas a respeito de sua credibilidade e dos interesses por detrás dos emissores dos conteúdos, os meios de co- municação cumprem a importante função social de fornecer informações de qualidade ao cidadão. A abrangência de alguns meios é relativamente maior que a de outros, como é o caso da televisão e do baixo custo dos aparelhos de rádio em um país continental como o Brasil. O melhor modo de reconhecer fake news é ir além das manchetes e dos títulos dos textos recebidos e lê-los atentamente — nesse contexto, conteú- dos alarmistas e informações vagas demonstram a pouca credibilidade da mensagem . Assim, é preciso desconfiar do excesso de adjetivos, de títulos sensacionalistas e de dados que não indicam de onde foram tirados. Entre- tanto, se o dado for atribuído a alguma instituição ou pesquisa, é importante (Continuação) Jornalismo de dados e desinformação10 fazer uma busca e verificar se a informação também foi apresentada em outros locais, incluindo quem emitiu os dados ou especialistas mencionados no texto. É essencial, além disso, observar se a informação não foi publicada por outro veículo de informação — às vezes,descobre-se que a situação rela- tada ocorreu anteriormente, em outro contexto e até em outro território. Da mesma forma, quando não for possível verificar uma informação ou suspeitar que se trate de situações inverídicas, deve-se evitar repassar o conteúdo. É sempre preferível compartilhar informações de instituições idôneas e com credibilidade; afinal, há várias campanhas de desinformação nas redes sociais com finalidade particulares e que têm por objetivo obter vantagens com a propagação de conteúdos inverídicos e opiniões antidemocráticas. Ademais, cabe ao jornalista aprimorar suas habilidades de apuração das informações que capta e redige, verificando dados e discursos emitidos em entrevistas, assim como a origem de comentários que objetivam a produção de rumores. Nesse contexto, o jornalismo de dados orienta a correta utilização de informações e propõe o tratamento adequado de dados a respeito de determinado assunto, favorecendo o uso das informações que se tem sobre algo com precisão. Também são objetivo do jornalismo de dados o encadeamento e a cor- relação das informações, de modo que os conteúdos sejam apresentados corretamente e com clareza para o público. O conhecimento dos dados cole- tados e que respaldam o texto jornalístico é fundamental para a reportagem. Correspondem, além disso, às habilidades do jornalista, as competências de produzir e transmitir conhecimentos, “[...] arrumar as coisas e seres em categorias, estabelecer relações, definir, explicar, estipular uma série de operações lógicas sobre dados e extrair conclusões que se deve comprovar empiricamente” (LAGE, 2006, p.7). Portanto, além de organizar e lidar com dados dispostos em coleções, é preciso identificar correlações entre as informações, os dados que necessi- tam de mais atenção, analisando-os e evitando justaposição de informações contraditórias. Todo esse esforço reverte em credibilidade, característica esperada de uma reportagem. A baixa expectativa de confiabilidade dos internautas em relação à im- prensa e às redes sociais no que diz respeito ao coronavírus não se refere apenas à situação de pandemia, mas à propagação de conteúdos falsos e ao uso intenso da mídia para fins particulares. A correção e a exposição clara dos dados devem atender as necessidades básicas do cidadão de se manter informado sobre as questões que lhe são importantes. Jornalismo de dados e desinformação 11 As narrativas por vezes extremistas e os argumentos popularizados em nossa sociedade proporcionam um clima de ceticismo em relação à mídia e a seu papel social. Em diferentes momentos, o jornalismo sofreu represálias, sobretudo ao criticar interesses de quem está no poder, o que faz a jornalista e pesquisadora Giannina Segnini (2019, documento on-line) considerar que “[...] em um momento na história em que as pessoas deveriam estar mais bem informadas do que nunca, há mais ruído e mais conteúdo raso sendo gerados todos os dias do que jornalismo de fato, com qualidade e profundidade”. As publicações que circulam nas redes sociais questionando as narrativas e os métodos do jornalismo também colaboram para a falta de confiança do público nos conteúdos apresentados pelos meios de comunicação, uma vez que estamos em meio a uma disputa de perspectivas políticas e sociais polarizadas. Em tempos de fake news, a imprensa também tem demonstrado índices frágeis de confiança e engajamento. Segundo o estudo global Edelman Trust Barometer, publicado no Portal Imprensa (2018), 71% dos entrevis- tados acreditam que os meios de comunicação sacrificam a precisão dos fatos pelo furo jornalístico. A pesquisa também apurou que 39% dos entrevistados estão desengajados e consomem notícias menos de uma vez por semana; outros 23% consomem notícias cerca de uma ou duas vezes por semana e 38% leem notícias mais vezes de duas vezes por semana e compartilham ou postam esses conteúdos várias vezes por mês. Sendo a credibilidade a premissa do jornalismo e expectativa fundamental do público que acessa uma notícia ou reportagem, o jornalismo de dados fornece meios para que a reportagem apresente conteúdos com qualidade. Ao acessar um veículo de comunicação, as pessoas esperam se orientar por informações completas e confiáveis e, na medida do possível, interagir com os conteúdos e estabelecer conexão com o que está sendo apresentado com formato intuitivo. Assim, é fundamental o tratamento adequado aos dados e das informações que compõem a matéria jornalística, assim como também é necessária a capacidade analítica dos profissionais que atuam nos veículos de comunicação. Reportagens baseadas no jornalismo de dados O repórter de dados do portal de notícias norte-americano BuzzFeed News, John Templon (2016), disse que não sabe jogar tênis. Entretanto, confessou em entrevista que sempre interagiu muito bem com pesquisas e números. Jornalismo de dados e desinformação12 Templon (2016) passou 15 meses coletando e analisando dados sobre as apostas em torno dos resultados dos torneios americanos tênis. Ele percebeu no monitoramento que, antes de uma partida do esporte, é esperado que algumas pessoas apostem na vitória de um jogador e que outras apostem no seu adversário. Entretanto, quando grandes apostas começam a se con- centrar em poucos apostadores, poucas pessoas parecem saber mais sobre o resultado de uma partida que todos os demais torcedores, jogadores e até mesmo os corretores de apostas. A partir da coleta e da análise dos dados, o repórter apresentou uma estimativa sobre manipulação nos resultados dos torneios profissionais de tênis. A base de dados foi composta por 26 mil partidas entre os anos de 2009 e 2015. Um pequeno número de pessoas apostava muito dinheiro contra certos jogadores, que, por sua vez, perdiam suas partidas com mais frequência, contrariando as estimativas de especialistas da modalidade e até corretores das casas de apostas. Para se ter uma ideia, quatro jogadores chegaram a perder praticamente todas as partidas e, de acordo com a casa de apostas, a chance de eles terem um resultado tão inexpressivo era de uma em mil. Ainda que um bom jogador possa apresentar resultado ruim por conta de uma lesão ou um dia de azar, Templon (2016) considerou improvável que sempre um pequeno grupo de jogadores tenha inesperadamente resultados ruins em partidas nas quais poucos apostadores arriscavam somas enormes de dinheiro e lucravam caso o jogador perdesse. É como se esses apostadores tivessem informações pri- vilegiadas, já que as derrotas dos mesmos jogadores se repetiam no intervalo dos anos pesquisados e sempre as mesmas pessoas lucravam com a situação. Se, por um lado, houve, por parte do repórter, um esforço para pesquisa e tratamento dos dados de vitórias e derrotas de milhares de partidas durante anos, por outro, é preciso destacar que ele teve acesso apenas às informações abertas sobre apostas e resultados da partida. Evidências forenses, registros bancários dos jogadores e apostadores suspeitos certamente dariam conta da conclusão das investigações de manipulação dos resultados, permitindo que o BuzzFeed News publicasse o nome dos jogadores com comportamentos atípicos nos torneios e se de fato eles estavam levando vantagens financeiras. Entretanto, a situação suspeita relatada na reportagem chamou a atenção das autoridades. No Brasil, de acordo com o jornal Folha de São Paulo (PETROCILO, 2020), estão sendo conduzidas investigações pela polícia civil de nove casos de suspeitas de fraude e manipulação de resultados do futebol brasileiro. Se- gundo a reportagem, aliciadores procuram jogadores e árbitro e oferecem dinheiro a fim de manipular resultados dos jogos e favorecer apostadores. Jornalismo de dados e desinformação 13 Entretanto, essas investigações não partiram de denúncias ou análise de dados da imprensa brasileira, que apenas faz a cobertura noticiosa da questão. No caso dos jornalistas Blake e Templon (2016), observe como a coletae a análise dos dados em uma linha histórica de seis anos, tanto no que se refere ao resultado das partidas de tênis quanto ao volume de apostas e em quais jogadores, possibilitou aos repórteres respaldar as suas suspeitas e fazer uma boa reportagem. A investigação jornalística baseou-se em documentos vazados, em análise de dados dos resultados e de apostas ocorridas em 26 mil partidas da modalidade, em entrevista com jogadores de tênis e especialistas da modalidade esportiva em três continentes. O BuzzFeed News (BLAKE; TEMPLON, 2016) chegou a desenvolver um algo- ritmo para analisar os dados das partidas e relacionar com o rendimento dos competidores e com os dados referentes as apostas em jogos de azar. Vale ressaltar a relevância da reportagem, que, valendo-se da compilação desses dados, descortinou situações suspeitas envolvendo torneios profissionais de tênis e despertou a atenção das autoridades para as práticas ilegais na mo- dalidade. Nesse aspecto, destaca-se o valor da reportagem não apenas como relato de um fato, mas como “[...] relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística” (MELO, 1985, p. 49). Observe que a reportagem contextualiza o fato, amplia a narrativa e en- cadeia uma sucessão de dados e análises que permitem ao leitor aprofundar seus conhecimentos sobre o tema que acessou. Nesse aspecto, o jornalismo de dados pode agregar à reportagem, uma vez que possibilita ao repórter valer-se de elementos informativos e, ao profissional, correlacionar os dados com os acontecimentos, indo além do relato dos fatos. Afinal, esses procedi- mentos de pesquisa em torno da matéria jornalística fazem com que o texto apresente a devida profundidade narrativa que o público espera. Os repórteres de dados devem nortear o seu trabalho pelas cinco perguntas básicas do jornalismo? Simon Rogers (2014), jornalista de dados, respondeu essa questão que direciona o tratamento de dados para reportagem, confira a seguir. Jornalismo de dados e desinformação14 � Quem: de onde vêm os dados e qual a sua importância? Rogers (2014) argumenta que o jornalista deve questionar os dados e seu modo de captação mesmo quando venham de sites confiáveis, observando o quanto a informação é precisa e confiável. Ainda alerta para o fato de que muitos repórteres tratam os núme- ros com uma confiança entusiástica que jamais teriam com uma declaração de entrevista. Portanto, o melhor é averiguar antes de incluí-los na reportagem. � O quê: o que esses dados significam? O que eles querem dizer dentro do texto jornalístico? Traduzir dados e fazer a ponte entre a informação e o público fundamenta o melhor jornalismo de dados, que deve apresentar o conteúdo de forma clara e segura na narrativa, editando a informação crua e tornando-a compreensível na reportagem. � Quando: a pergunta a se fazer é qual é a idade dos dados? Quando eles fo- ram produzidos? Segundo Rogers (2014), se os dados são de fonte oficiais, é possível que eles tenham sido coletados há pelo menos um ano. Posto isso, repórteres de dados têm utilizado métodos de coletas de dados mais atuais e com suporte tecnológico — alguns em tempo real, como o caso do mapa de homícidio de Chicago colhido de feeds oficiais. � Onde: é preciso saber a origem dos dados, uma vez que esse conhecimento pode favorecer a elaboração da reportagem. A geolocalização de dados é importante ferramenta para uma análise setorial. Com o auxílio de mapas, o repórter pode, por exemplo, apresentar dados referentes a diferentes regiões, como também as características, as políticas e os cuidados específicos que convêm a cada setor. � Por quê: compreender como se compara a variação dos dados é fundamental para correlacionar as informações no texto da reportagem. Por vezes, há uma grande quantidade de dados disponíveis. Ao selecioná-los, o reporter deve pensar nos motivos de ter engendrado os dados na narrativa e compreender o melhor modo de apresentá-los na narrativa jornalística. O jornalismo de dados e as grandes reportagens É comum ouvirmos o termo “grande reportagem” associado às reportagens do jornalismo investigativo, por vezes, em referência a assuntos políticos, po- liciais, as tentativas de apurar e esmiuçar questões relacionadas a um evento ou um tema com rigor. No século XX, algumas dessas grandes reportagens eram publicadas em séries nas edições de domingos dos jornais, trazendo a cada semana a continuidade da narrativa jornalística sobre um tema. Em agosto de 1897, o jornalista Euclides da Cunha foi fazer a cobertura da Guerra de Canudos para o jornal O Estado de S. Paulo. Antes de a obra Os sertões ser publicada no formato livresco, em 1902, a apuração do jornalista ocupou as páginas do jornal. O mesmo aconteceu com outras séries de grandes reportagens, como o livro Transamazônica, de Fernando de Moraes. Antes Jornalismo de dados e desinformação 15 de a obra ser lançada no formato livresco, ocupou as páginas do Jornal da Tarde, foi publicada durante seis edições dominicais do periódico e chegou a vencer o Prêmio Esso de Jornalismo. Ambas as grandes reportagens tratadas têm em comum o fato de serem publicadas em várias edições dos jornais e em formato livresco. Também têm em seu conteúdo o apreço pela investigação, um trabalho de pesquisa e de contextualização dos dados, de apuração dos fatos, com uma boa narrativa que fez com que o leitor encontrasse naquelas reportagens conteúdos que não estavam disponíveis em outras coberturas jornalísticas. Pontua o pes- quisador Edvaldo Pereira Lima (2009) que oito periódicos enviaram jornalistas para cobertura da Guerra de Canudos; desses, apenas Euclides da Cunha voltou com material documental e análises suficientes para escrever um livro considerado clássico. O termo “grande reportagem” utilizado no impresso também é usado na te- levisão para designar um esforço em aprofundar no tema de uma reportagem. Sobre a grande reportagem na TV, Curado (2002) entende que respalda seus conteúdos com fatos, dados e, por vezes, o jornalista anuncia ao telespectador que o tema continua no próximo bloco, mantendo-se o assunto com outro enfoque. Por isso, é comum vermos programas televisivos com essa prática entre intervalos comerciais ou, ainda, séries de reportagens especiais que são apresentadas durante a semana nos telejornais, cada edição com dados, conteúdos e enfoques que se complementam. Os dados são essenciais para essas grandes reportagens, que aprofun- dam um assunto e permitem que o público saiba mais a respeito do tema que desperta seu interesse. Nesse sentido, o jornalismo de dados vem para facilitar o trabalho do jornalista que precisa lidar com uma grande quan- tidade de informações e apresentá-las corretamente para o público, com ferramentas dinâmicas e intuitivas, que facilitam a compreensão do público e que despertem sua atenção. No dia 13 de maio de 2018, o portal BBC Brasil fez uma grande repor- tagem a respeito dos 130 anos da lei que abolia a escravidão (Figura 1). Longe da previsibilidade de apenas noticiar uma data comemorativa, o portal fez um apanhado histórico sobre o contexto em que foi promulgada a lei da abolição votada no Senado e assinada pela princesa Isabel. A matéria jornalística fez uso de fotos, arquivos de jornais, documentos oficiais relativos à abolição, gráficos sobre a emigração dos negros no Brasil e mapas com a rotas do tráfico negreiro. A matéria foi apresentada em quatro abas: “A luta pela abolição”, “O movimento abolicionista”, “Revoltas” e “E depois ?”. Jornalismo de dados e desinformação16 Figura 1. Matéria da BBC sobre o fim da escravidão. Fonte: Rossi e Gragnani (2018, documento on-line). A história de cada personagem da reportagem é contada a partir dos dados que a matéria jornalística apresenta e, embora haja um grande trabalho documental, a narrativa traz vários recursos gráficos que tornam a leituramais agradável e despertam a atenção do público à medida que ele avança o conteúdo. Entretanto, a reportagem não se restringe a documentar os eventos históricos: oportunamente, atualiza as questões raciais, as causas defendidas pelos abolicionistas que ainda hoje não foram atendidas e como está a situação do negro hoje no Brasil. É um bom exemplo de grande reportagem na mídia contemporânea. Embora as grandes reportagens tenham por premissa a habilidade do jornalista de contar uma boa história, a narrativa em torno de personagens cativantes, os dados jornalísticos desempenham importante papel na nar- rativa da imprensa desde o seu surgimento e vêm ganhando mais destaque em tempos em que a comunicação social ocorre também espaço digital. Na contemporaneidade, as habilidades de lidar com as ferramentas tecnológicas são essenciais para o profissional que atua na área de jornalismo. Enquanto muitos repórteres relacionam o jornalismo de dados a números, estatísticas, gráficos, a jornalista e pesquisadora Giannina Segnini (2019, documento on-line) pondera sobre o jornalismo de dados, que se refere a: [...] encontrar histórias relevantes por meio do uso de dados e da tecnologia como ferramentas para complementar as habilidades essenciais de um jornalista com- petente e completo, alguém que tem pensamento crítico e curiosidade para “ligar os pontos” e entender o mundo ao nosso redor. Jornalismo de dados e desinformação 17 Referências BLAKE, H.; TEMPLON, J. The tennis racket. BuzzFeed.News, Jan. 2016. Disponível em: https://www.buzzfeednews.com/article/heidiblake/the-tennis-racket#.nnZ8bYLw2. Acesso em: 20 out. 2020. CALEIRO, M. Checando as agências de fact-checking. Observatório de Imprensa, fev. 2020. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/checagem-de- -informacoes/checando-as-agencias-de-fact-checking/. Acesso em: 20 out. 2020. CURADO, O. 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