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LEITURAS Marlene Suano 603 AFINS PMSP 1957581 MUNICIPAL CASSIANO RICARDO 0 Armamentismo e Brasil: A Guerra Deles Ricardo Arnt (org.) Carajás Desafio Político, Ecologia e Desenvolvimento Diversos Autores A "Conciliação" e Outras Estratégias Michel M. Debrun Estado Nuclear no Brasil Carlos Girotti Exterminismo e Guerra Fria - Diversos Autores Extremo Oeste Sérgio Buarque de Holanda MUSEU Guerra em Surdina História do Brasil na Segunda Grande Guerra Boris Schnaiderman Ocidente Diante da Revolução Soviética - Marc Ferro Sociedade e Estado na Filosofia Política Moderna Norberto Bobbio/Michelangelo Bovero Coleção Primeiros Passos 44342 que é Direito Internacional José Monserrat Filho que é Geografia Ruy Moreira que é Ideologia Marilena Chaui que é Imperialismo Afrânio Mendes Catani DE BIBLIOTECAS BP 994101 que é Poder - Gérard Lebrun que é Política Wolfgang Leo Maar LBN 37585 que é Propaganda Ideológica Nelson Jahr Garcia brasiliense 1986 XCopyright © Marlene Suano Capa: Carlos Matuck Revisão: Carlos T. Kurata C.M. dos Santos Esteves ÍNDICE C 069 59390 Introdução 7 2.2 Origens da Instituição 10 Museu como Instituição Pública 22 As primeiras transformações do Museu Pú- blico: museu, pesquisa e educação no século XIX 35 As transformações do século XX 49 A situação atual dos Museus: carência e pers- pectivas 86 Indicações para leitura 97 brasiliense Editora Brasiliense S.A. R. General Jardim, 160 01223 São Paulo SP Fone (011) 231-1422INTRODUÇÃO Sempre houve preocupação, por parte dos segmentos mais variados de nossa sociedade, com a compreensão de nosso passado e sua preservação. Não se deve confundir essa "preservação do passado" com a manutenção de características de uma época. Trata-se de manter e preservar testemunhos materiais dessa época que nos sirvam como pontos constantes de partida para reflexão e análise. E preservar tais testemunhos do passado é, substancialmente, dar-lhes condições de continuarem a ser utilizados no presente em toda sua potencialidade. Contudo, a vida moderna ou, melhor dizendo, a tecnologia moderna vem tornando obsoletos, inoperantes ou economicamente inviável uma variedade muito grande de tais testemunhos. De pequenos objetos a edifícios inteiros, passando por máquinas das mais diversas, nosso universo se renova com espantosa velocidade e tudo é trocado em nome da "rentabilidade", da "facilidade", da "simplicidade". Esses testemunhos passam, então, por fase de completo abandono, quando são esquecidos, escondidos ou simplesmente destruídos, fase à qual se segue, quase8 Marlene Suano que é Museu 9 sempre, período de "revalorização". A sociedade isto é, contudo, está voltada para recuperar passado e os únicos seus órgãos preservacionistas emprega, então, grande museus que se preocupam em coletar presente são esforço para salvar aquilo que abandonara pouco tempo museus de história natural e de artes plásticas. Os museus atrás. Nem sempre, porém, seus objetivos são alcançados. enciclopédicos e históricos e tecnológicos, entre nós, A degenerescência, tanto orgânica quanto de uso, uma vez continuam voltados para um passado cheio de lacunas que instalada, é de difícil recuperação. eles tentam preencher, continuam vendo presente passar Assim tem início movimento preservacionista, que ao largo, como se não lhes dissesse respeito e, dentro de representa um enorme esforço visando despertar interesse algumas déoadas, coletarão sequiosamente alguns restos e obter verbas junto às autoridades públicas. Os edifícios dos dias de hoje, que não lhes serão suficientes para enten- que se conseguem"salvar" devem, então, fazer jus a tanto der O universo formal de nosso período. esforço e assumir toda sua "importância": viram "marcos", A interrupção desse círculo vicioso não é tarefa fácil e "monumentos", e passam a abrigar ou museus ou ministé- nem pode ser realizada solitariamente. Alguns passos rios, secretarias de estado, escolas de arte ou alguma ativi- marcantes, contudo, têm sido dados. A própria definição dade considerada "nobre", raramente voltando a servir às oficial de "museu" do Conselho Internacional de Museus da funções às quais se prestava antes de ser considerado UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, "patrimônio cultural". Ciência e Cultura), que tinha como "... um estabele- Já a trajetória dos objetos tradicionais, quando revalori- cimento permanente, sem fins lucrativos, com vistas a zados, é bem mais simples: eles são entronizados em algum coletar, conservar, estudar, explorar de várias maneiras e, museu ou passam a fazer parte de alguma das inúmeras basicamente, exibir para educação e lazer, objetos de ação coleções privadas do país. cultural", tem sofrido algumas alterações, a principal sendo No caso do objeto, sua aparição como "peça de museu" a troca de "objetos de valor cultural" pela expressão "pro- lhe confere, quase sempre, uma aura de importância e um dutos da ação cultural humana", que amplia considera- estatuto de "valor cultural" que ele antes não possuía. velmente campo de atuação do museu. Em alguns casos, isso gera um mecanismo que fomenta e Esperamos, com este livro, contribuir para debate, alimenta mercado privado de antiguidades, contribuindo apresentando, de forma abrangente, que é, em nossa para que peças sejam retiradas de seu contexto original e sociedade, fenômeno "museu". trazidas para as vitrinas dos antiquários. Seria ilusório, contudo, acreditar que tal movimento possa ser impedido ou revertido, já que a circulação de bens entre diferentes segmentos da sociedade é prática que responde a oscilações inerentes à vida social. Os museus deveriam, portanto, conhecer diferentes percalços que objetos enfrentam até chegar ao museu e amealhar amostras consistentes de material que dissesse respeito às suas disciplinas. A maior parte dos museus,que é Museu 11 dades do que serem contempladas pelo homem. Foi a segurança econômica da dinastia dos Ptolomeus, no Egito do século antes de Cristo, que permitiu a Alexandria formar seu grande mouseion, cuja principal preocupação era saber enciclopédico. Ou seja, buscava-se discutir e ensinar todo o saber existente no tempo nos campos da religião, mitologia, astronomia, filosofia, medi- cina, zoologia, geografia, etc. o mouseion de Alexandria possuía, além de estátuas e obras de arte, instrumentos cirúrgicos e astronômicos, peles de animais raros, presas de AS ORIGENS DA INSTITUIÇÃO elefantes, pedras e minérios trazidos de terras distantes, etc., dispunha de biblioteca, anfiteatro, observatório, salas de trabalho, refeitório, jardim botânico e zoológico. E entre grandes trabalhos por ele abordado figuravam um dicio- nário de mitos, um sumário do pensamento filosófico e No nosso entender cotidiano, termo "museu" se refere um detalhado levantamento sobre todo conhecimento a uma coleção de espécimes de qualquer tipo e está, em geográfico de então. teoria, ligado com a educação ou diversão de qualquer Assim, com correr do tempo, a idéia de compilação pessoa que queira visitá-la. exaustiva, quase completa, sobre um tema ficou ligada à Costuma-se dizer que a instituição "museu" teve origem palavra "museu", dispensando mesmo as instalações físicas. na Grécia antiga, mas meu intuito é demonstrar como essa Ou seja, compilações sobre diversos temas eram publicados instituição, embora mantendo a unidade do nome, assumiu com nome de "museu". Assim foi com Museum Me- características diversas ao longo do tempo. tallicum, publicado por volta de 1600 pelo naturalista e Na Grécia, o mouseion, ou casa das musas, era uma colecionador Aldovrando de Bologna e do qual se dizia mistura de templo e instituição de pesquisa, voltado sobre- conter todo conhecimento da época sobre metais. No tudo para saber filosófico. As musas, na mitologia grega, século XVIII publicou-se, em Frankfurt, Alemanha, eram as filhas que Zeus gerara com Mnemosine, a divindade Museum Museorum (que era um elenco de especiarias) e, da memória. As musas, donas de memória absoluta, imagi- em Londres, Poetical Museum (coletânea de canções e nação criativa e presciência, com suas danças, músicas e poemas). E o Museum Britanicum, folhetinho publicado narrativas, ajudavam OS homens a esquecer a ansiedade e em 1791, nada mais era que compilações sobre "assuntos a tristeza. mouseion era então esse local privilegiado, elegantes para conversação" e "coisas curiosas, pitorescas e onde a mente repousava e onde o pensamento profundo e raras", segundo sua própria apresentação. criativo, liberto dos problemas e aflições cotidianos, poderia Pesquisadores que estudam museu em nossa sociedade- se dedicar às artes e às ciências. As obras de arte expostas preocuparam-se, evidentemente, em estudar fenômeno do no mouseion existiam mais em função de agradar as divin- colecionismo e passaram a dividir as coleções em categorias12 Marlene é Museu 13 do tipo "reserva-prestígio social", de "valor mágico" longo dos corredores de edifícios públicos romanos, como (objetos ofertados para pedir ou oferecer graças de deuses as termas, fóruns, as basílicas, etc. Júlio Cesar doou suas e de santos, para proteger-se do sobrenatural), de "lealdade ao templo de Vênus Genetrix, e vários outros impe- de grupo" (necessidade de firmar raízes e origens culturais), radores seguiram seu exemplo. As coleções dos templos de "curiosidade" e de "pesquisa". eram perfeitamente visitáveis pelo público comum e algu- A formação de coleções de objetos é provavelmente mas coleções particulares eram abertas à visitação, como as quase tão antiga quanto o homem e, contudo, sempre do imperador Agripa, que outros romanos a guardou significados diversos, dependendo do contexto 0 sentido de tais coleções era demonstrar "fineza, em que se inseria. Estudiosos do colecionismo crêem que educação e bom gosto", sobretudo em relação à cultura recolher aqui e ali objetos e "coisas" seja como recolher grega. Tanto assim que a partir do século II. a.C. 0 colecio- pedaços de um mundo que se quer compreender e do qual nismo entre romanso ricos se transformara em compe- se quer fazer parte ou então dominar. Por isso é que a tição que elevara tanto preços dos objetos (sobretudo coleção retrata, ao mesmo tempo, a realidade e a história pinturas e esculturas) que o próprio imperador Tibério foi de uma parte do mundo, onde foi formada, e, também, a obrigado a intervir no mercado para normalizar os preços. daquele homem ou sociedade que a coletou e transformou Contudo, na falta de objetos originais, romanos ricos em "coleção". encomendavam cópias de obras famosas aos ateliês de A arqueologia nos revela a existência de extraordinárias artistas gregos. Foram feitas, assim, cópias em série de coleções de objetos em propriedade dos faraós e impera- centenas das obras gregas mais famosas e pouquíssimos dores do mundo antigo. Objetos em ouro, prata, metais eram romanos capazes de distinguir ou que faziam vários formavam coleções que funcionavam como verda- caso em distinguir entre original e cópia. deiras "reservas econômicas" para tempos de guerra e As coleções romanas, no entanto, para além da simples que, na paz, consistiam em marca indubitável de poderio e demonstração de riqueza e "gosto", tinham por fim último prestígio social. A de Homero, contém várias men- ilustrar poderio e força dos inimigos conquistados por ções a essas coleções-tesouros, tanto em poder de privados Roma. Não raro tais riquezas faziam parte do "triunfo", como de templos. E vários autores romanos, entre quais que era desfile do vencedor de volta a Roma exibindo seu Plínio, listavam as peças pertencentes às coleções dos ricos botim. E de tal demonstração muitas vezes fazia parte romanos. Foram romanos, aliás, os grandes coleciona- próprio vencido, na pessoa do governante ou do principal dores da Antiguidade, amealhando em Roma objetos querreiro. Assim foi com Vercingetorix, chefe dos gauleses, trazidos de botins de guerra no Oriente, na Britânia, no com Arsinoè, irmã de Ptolomeu XIV e que pretendia norte da África, enfim, de todo seu vastíssimo império. posto de Cleópatra, e mesmo Juba II, da Mauritânia, que Temos, dessas coleções, tanto as privadas quanto as dos tinha cinco anos de idade quando foi exibido em um dos templos, listas detalhadas dos autores clássicos e teste- clamorosos triunfos de César. munho da arqueologia: até mesmo anexos eram construí- colecionismo mudou de face durante a Idade Média. dos junto aos templos para alojar essas coleções. E a partir que imperador Carlos Magno (742-814 de nossa do século III a.C., estátuas e pinturas eram colocadas ao era) possuía fabulosa coleção de peças antigas da Itália,14 Marlene Sua que é Museu 15 tesouros presenteados pelos embaixadores do califa Harun al-Rachid, parte do tesouro dos hunos, etc. Nessa época, contudo, 0 encanto do tesouro era a sua intocabilidade, 0 cristianismo pregava despojamento pessoal, 0 despren- dimento dos bens materiais supérfluos. A Igreja passa a ser a principal receptora de doações e forma assim verdadeiros tesouros, o principal tendo sido "tesouro de São Grande força política de então, a Igreja usava seus tesouros para lastrear alianças, formalizar pactos políticos e financiar guerras contra inimigos do Estado papal. É só no fim da Idade Média que a força de alguns príncipes das cidades repúblicas italianas começa a se fazer sentir pela formação de tesouros privados. Datam, assim, do século XIV, as primeiras coleções principescas de que temos notícia e que chegaram até nós, quer integralmente transformadas em museus quer esparsas, mas cujo conteúdo está presente em catálogos e elencos do período. Dentre as primeiras as mais notáveis foram as do doge de Veneza, as dos duques de Borgonha, na França, e as do duque de Berry, que enchia seus dezes sete castelos com manuscritos, pedras preciosas, relíquias várias, entre as quais um suposto anel de noivado de São José e um dente de leite da Virgem Maria. Jardim de um colecionador de antiguidades em Roma, com as peças amontoadas em torno das ruínas arqueológicas que despontavam ali mesmo (Gravura Cock, 1561, hoje Gabinete de Gravuras de Berlin). Até o século XV cerne dessas coleções era constituído por manuscritos, livros, mapas, gemas, porcelanas, mentos óticos, astronômicos e musicais, moedas, armas especiarias, peles. Nos séculos XV e XVI a divulgação de certos manuscritos gregos e romanos em poderio dos árabes e a revelação de estátuas e vasos romanos durante escavações fortuitas na Itália, despertaram a atenção para a Antiguidade, sobretudo sua arte, filosofia e literatura. Neste período, bem a propósito chamado de Renasci mento, objetos das civilizações grega e romana passaram 8 merecer grande interesse por parte dos colecionadores esburacava-se a esmo em busca desses tesouros do passado16 Marlene Sua que é Museu 17 Aquela arte que nada tinha a ver com a civilização cristã fascinou tanto leigos quanto príncipes da Igreja. Mas séculos XV e XVI foram também muito prolíficos na criação de obras de arte, sobretudo nos domínios da pintura, escultura e arquitetura. Os príncipes das casas reinantes européias, felizmente, não satisfeitos com os tesouros que obtinham de todas as partes do mundo com que comerciavam e dos novos mun- dos que descobriam (é a época dos descobrimentos das terras de além-mar), ainda financiavam artistas contem- porâneos (Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael, Cellini, Palladio, Tintoretto, Fra Angelico, etc., etc.) e incorporavam boa parte dessa produção em suas já magníficas coleções. Dentre elas devemos destacar as cole- ções Aldovrandi/Cospi, de Bolonha; as coleções Borghese, Farnese e Doria, de Roma; a coleção dos duques de Este, de Módena; dos Gonzaga, de Mântua; dos duques de Urbino e, a mais espetacular de todas, a coleção dos Médicis, de Florença, da qual faz parte até mesmo um raríssimo manto FERRANTE de plumas dos Tupinambá, do Brasil, levado para a Europa ainda no século XVI. Essas coleções eram símbolo vivo do poderio econômico das famílias principescas e serviam como verdadeiro termô- 0 museu particular do naturalista Ferrante Imperato, em Nápoles, conforme ilustração no frontispício do livro XXVIII de sua obra. História Natural, de 1599. metro das rivalidades entre elas. Se a Itália foi, sem dúvida, onde se reuniram as maiores coleções do Renascimento, as demais casas européias não lhe ficaram muito atrás. As coleções reais de Francisco da França (1494-1547) enchiam alas e galerias dos palácios franceses. As inglesas eram também riquíssimas e nem a dispersão das coleções de Carlos I, vendidas pelo governo revolucionário de Cromwell após a decapitação do rei em 1649, afetou sua importância. Aliás, a maior parte das coleções de Carlos I foi comprada por colecionadores na França e na Áustria, como a Inglaterra compraria, um século mais tarde, as coleções dos Gonzaga.18 Marlene que é Museu 19 WORMIANI Museu de Worms, em gravura de 1655 (Museu de Copenhague). HISTORIA LUGD BALAVORUM OFFICINA ELSENTRIANA The Museum of Francesco in and 0 museu particular de Francesco Calceolari, em Verona, Itália (gravura de Cerut e Chiocco, 1622).20 Marlene Museu 21 Havia também riquíssimas coleções formadas por estu- da natureza quer para seu próprio deleite quer para serem usadas em suas aulas nas universidades européias. Tale coleções primavam pela quantidade de espécimes nunca pela clareza da organização. De maneira geral, são essas grandes coleções principescas do Renascimento que vão dar origem à instituição museu" que conhecemos hoje. A ampliação do acesso a coleções normalmente restrito apenas às famílias amigos do colecionador foi lentíssima e motivada por várias, como veremos a seguir. Exposição da Biblioteca Sainte Geneviève de Paris em 1688. Notar a presença do machado em forma de âncora, bastão esculpido em baixo relevo do norte do Brasil, bastão cerimonial Tupinambá (hoje perdido), todos provavelmente da coleção de Claude Fabre. A ilustração aparece em Molinet, 1692.que é Museu 23 em verdadeiro exército, extremamente disciplinado, a serviço do Papado e tendo como principal arma ensino e a transmissão de cultura. De fato, a contra- reforma compreendeu perfeitamente papel da cultura na defesa e preservação da sociedade cristã, tanto assim que com tal objetivo foram criados, em 1601, por Federico Borromeo, arcebispo de Milão, a Biblioteca Ambrosiana e Academia de Belas-Artes. Nesta última, Borromeo reuniu MUSEU COMO incontáveis obras de arte e fez daquilo que chamava seu museum, um centro didático para a produção artística. INSTITUIÇÃO PÚBLICA Ou seja, este museu, visitável por público seleto, sobretudo servia como "receituário" da estética aprovada pela Igreja. No mesmo período, Collegio Romano, sede da Companhia de Jesus em Roma, dava espaço ao padre Atanasius Kircker para a organização de um museu com- É importante distinguir entre o significado de coleçõe posto tanto de material clássico quanto de peças vindas "abertas ao público" e o verdadeiro sentido de uma inst das missões jesuíticas espalhadas por todo mundo, museu tuição a serviço do público. esse que ele dirigiria até sua morte, em 1680. segundo Nos tempos modernos, foi o Papado, que não escapar diretor, Bonanni, reestruturou 0 museu e deu início à ao colecionismo do período, que pela primeira vez abr sua transformação em máquina pedagógica a ser largamente suas coleções ao público em 1471, num utilizada pelos jesuítas. Assim é que final do século organizado pelo papa Pio VI. XVII e começo do XVIII viram a cristalização da insti- Este final do século XV e grande parte do XVI viram tuição museu em sua função social de expor objetos que Europa alvoroçada pelo movimento da Reforma religio documentassem passado e presente e celebrassem a que tirou da Igreja Católica Romana controle de quas e a historiografia oficiais. Esta problemática foi metade do mundo cristão. A contra-reforma, analizada por Lanfranco Binni e Giovanni Pinna, profis- romana, entra em ação relativamente tarde, quando sionais de museu italianos que bem notaram que não havia Reforma já havia solidificado religiões protestantes sobr lugar, nesses museus, para as idéias e descobertas de Galileo tudo nos países anglo-germânicos mas que atingiram tan Galilei. bém a França, Países-Baixos e a Europa Oriental. Nes Interessantíssimo notar que havia pensadores nesse contra-reforma católica tiveram importante papel, além período dedicados ao método experimental das ciências instituição da Inquisição, as congregações religiosas. e filósofos empenhados em divulgar idéias sobre educação dentre as congregações, devemos ressaltar a Companhia divergentes da escolástica oficial e mesmo em propor Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loyola, em Par formas alternativas de governo, sendo que a maior parte e aprovada pelo Papado em 1540. A Companhia de deles sofreram nas malhas da Inquisição. Dentre eles,24 Marlene que Museu 25 Tommaso Campanella (1568-1639), frei domini- cano, escreveu magnífica obra, chamada A Cidade do Sol, prisão onde se encontrava por ter divulgado manifesto am defesa de Galileo. Nesta utópica cidade, haveria um mouseion bem diferente do modelo da época. Ele seria uma revolucionária sede do pensamento científico, sem paredes, onde as crianças aprenderiam brincando todas as e artes. Tal "museu" seria a modelar antítese do sistema escolástico jesuíta, de férrea disciplina e com aprendizado baseado na memorização. Nesta mesma época inaugurava-se, na Inglaterra, primeiro museu público europeu: Ashmolean Museum, de Oxford, aberto em 1683. Sua origem foi a doação da coleção de John Tradeskin a Elias Ashmole, com a reco- mendação específica de que este a transformasse em museu na Universidade de Oxford. Contudo, tanto a visitação às instituições da Igreja quanto ao Ashmolean era bastante restrita. No primeiro caso, a ela tinham direito convidados especiais da cúpula da Igreja, artistas e a elite governante, enquanto no segundo era reservada a especialistas, estudiosos e estudan- universitários. Já nesse final de século XVII havia algumas galerias de palácios reais que eram abertas à visitação. Era caso, por exemplo, da Galeria de Apolo, no Palácio do Louvre, em Paris, abertas, desde 1681, a visitas de artistas e estudantes. Mas foi a política econômica dos séculos XVI-XVIII que gerou uma política educacional e cultural responsável, em parte, pela ampliação do acesso às grandes coleções. A política mercantilista, vigente nesse período, significava basicamente acúmulo de divisas nos tesouros nacionais, sobretudo em forma de ouro e prata. A importação de Museu Kirckeriano, organizado pelo padre Kircker Collegio Romano, sede da ordem dos jesuitas em Roma, e de onde vieram obras de arte era vista como escoamento de riquezas perfei- algumas peças da pré-história italiana hoje no Museu de tamente evitável caso artistas nacionais produzissem de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. forma a contentar mercado interno. Era necessário,26 Marlene que é Museu 27 portanto, propiciar-lhes oportunidades de convívio com as Tal comportamento servia então para ciúme que os obras de arte das coleções reais e criarem-se academias de colecionadores tinham de suas preciosidades, fazendo com arte que servissem ao aprendizado e ao crescimento artís- que eles afirmassem que "as visitas do povo" rompiam tico. De fato, por volta de 1730, um ministro dinamarquês, de contemplação" em que OS objetos deveriam ser Struensee, chegava a afirmar textualmente que "a Academia de Arte é útil ao Estado e às finanças dos reis porque forma Em 1773, na Inglaterra, tal problema é muito bem artistas que serão menos caros que OS estrangeiros". pela publicação de uma nota da parte de Sir Assim, pouco a pouco, permissão para visitas a galerias Ashton de Alkrington Hall (Manchester) em jornais ingleses: dos palácios, aos "gabinetes", "guardarobas" e mesmo "museus", como eram chamados lugares onde se guar- "Isto é para informar Público que, tendo-me cansado davam as coleções, começam a surgir em toda a Europa. da insolência do Povo comum, a quem beneficiei com Em 1747, o polemista frances Lafont de Saint-Yenne visitas a meu museu, cheguei à resolução de recusar acesso escreve um panfleto contra o segredo das coleções reais, à classe baixa, exceto quando seus membros vierem acom- onde "não-iniciados" (isto é, não-artistas) não tinham panhados com um bilhete de um Gentleman ou Lady do ingresso. Em 1750, parte da coleção real francesa foi meu círculo de amizades. E por meio deste eu autorizo aberta ao público em geral, no Palácio de Luxemburgo, em cada um de meus amigos a fornecer um bilhete a qual- Paris, dois dias por semana, além daqueles já dedicados aos quer homem ordeiro para que ele traga onze pessoas, além artistas e estudantes. Em 1755 público era admitido às dele próprio, e por cujo comportamento ele seja respon- galerias do Palácio de Potsdam, na Prússia de Frederico II, sável, de acordo com as instruções que ele receberá na o Grande (1712-1786). Na Rússia, Catarina II (1729- entrada. Eles não serão admitidos quando Gentlemen e 1796) também permitia visitas do público às coleções Ladies estiverem no Museu. Se eles vierem em momento alojadas no Palácio Hermitage, em São Petersburgo, atual considerado impróprio para sua entrada, deverão voltar Leningrado: desde que as pessoas se encontrassem vestidas em outro dia". com trajes de cerimonial da corte russa! É fácil compreender as restrições que se faziam à visita- Devemos sempre lembrar que a Europa vivia, nesse ção pública indiscriminada. Elas não se atinham somente, período, sob crescente tensão social. 0 autoritarismo dos como se poderia imaginar, ao problema de segurança reis e da nobreza atingira pontos extremos e a reação contra roubos. grande problema era que na Europa, até popular começava a se fazer sentir, iniciando-se com a o século XVIII e mesmo XIX, era muito grande número deposição e decapitação do rei Carlos na Inglaterra de pessoas incapazes de ler ou escrever, sem nenhuma (1649), lançando raízes no continente e culminando com educação ou informação sobre o mundo para além de sua a Revolução Francesa de 1789, que teve conseqüências pequena vila ou cidade. E para esse enorme contingente, duradouras em toda a Europa. coisas raras e curiosas estavam associadas aos circos e feiras Na realidade, foi somente movimento revolucionário ambulantes. Dessa forma, suas visitas às coleções da nobreza do final do século XVIII que abriu definitivamente eram sempre feitas em alegre e "desrespeitosa" algazarra. acesso às grandes coleções, tornando-as efetivamente28 Marlene Museu 29 públicas. A revolução burguesa organizou saber e conheci- ambos voltados ao desenvolvimento do pensa- mento de forma a consolidar o poder recém-adquirido. mento científico em função de suas realizações práticas. É fruto desse período a vultosa empresa de redação da Foi na esteira dessa movimentação social que, entre Enciclopédia das Ciências, das Artes e dos Ofícios, diri fins do século XVIII e primeira metade do século XIX, gida por Diderot, em Paris, de 1751 a 1772 e que resultou foram inaugurados aqueles que, além do Louvre, são, em 28 volumes com verbetes escritos por estudiosos de hoje, maiores e mais importantes museus da Europa: cada assunto. Os enciclopedistas, e todos aqueles influen- Belvedere de Viena (1783), Museu Real dos Países- ciados por seu espírito, muito insistiam na necessidade de Baixos, em Amsterdam (1808), Museu do Prado, em educação como a grande arma dos países modernos. A Madri (1819), Altes Museum, em Berlim (1810), aristocracia e a Igreja tentaram inutilmente impedir que a Museu do Hermitage, em Leningrado (1852). burguesia reinstaurasse primado da descoberta e da A Igreja continuava atenta à importância da instituição transformação sobre a estagnação daqueles últimos duzen museu. Aquele primeiro antiquarium de 1471 organizado tos anos. pelo papa Pio VI, foi reformulado pelo papa Benedito XIV, museu prestava-se muito bem às necessidades da em 1749, tornando-se Museu Capitolino. Júlio Farnese, burguesia de se estabelecer como classe dirigente. No ano papa Júlio deu especial atenção às coleções papais, de 1791, as assembléias revolucionárias propuseram, e a chegando a nomear Rafael como "superintendente das Convenção Nacional aprovou em 1792, a criação de quatro galerias" de Roma. Os papas Clemente XIII, Clemente museus, de objetivo explicitamente político e a serviço da XIV e Pio V reuniram, a partir de meados do século XVIII, nova ordem. Foram eles: (1) Museu do Louvre, aberto todas essas coleções no chamado Museu Pio-Clementino, em 1793 e disponível ao público, indiscriminadamente, instalado em 1782 e célula daquilo que são hoje Museus três dias em cada dez, com o fim de educar a nação francesa Vaticanos, que contam entre maiores e mais impor- nos valores clássicos da Grécia e de Roma e naquilo que tantes do mundo. representava sua herança contemporânea; Louvre, além Além das grandes coleções principescas transformadas das coleções reais, foi enriquecido por material vindo de em museus na Itália e França e dos demais museus acima igrejas saqueadas pelos revolucionários e, mais tarde, pelos mencionados, apenas três outros grandes museus europeus botins que Napoleão trazia de toda a Europa e até do dignos de nota tiveram diverso início. Egito; (2) Museu dos Monumentos, destinado a reconstruir Um é mais importante museu da Dinamarca, a Glipto- o grande passado da França revolucionária e que privilegiou teca Ny Carlsberg, que abriga coleções egípcias, greco- frutos do neoclassicismo em detrimento do patrimônio romanas, de arte oriental, pinturas e esculturas de quase herdado do período medieval. Isso é muito todos estilos e períodos da arte européia. Tais coleções pois neoclassicismo e imperialismo de Napoleão são pertenciam a Carl Jacopsen (1842-1914), formadas a partir fruto da mesma ideologia de uma França que se julgava de 1882 e por ele doadas ao Estado em 1888. herdeira de Grécia e Roma na hegemonia da Europa; Igualmente originado a partir de doação particular foi (3) Museu de História Natural e (4) o Museu de Artes e Museu Britânico, em Londres. Em 1753, a grande coleção de antiguidades, pinturas, moedas, livros, pedras, minérios,30 Marlene Museu 31 MUNICIPAL fósseis, animais, plantas, etc., etc., formada por Sir Han retratando uma Em uma das salas por Sloane, foi por ele doada à nação. Alojada inicialmente exemplo, coexistiam modelos de navios, bronzes do Oriente, bairro londrino de South Kensington, museu foi aumen antiguidades romanas. Um grande número de dados espar- tando, sempre devido a doações particulares, e desmem nos revelam que Museu Britânico não diferia absolu- brou-se, no século XIX, em Museu de História Natura tamente dos demais museus dessa época. (até hoje em South Kensington) e museu de antiguidades Contudo, nem todos os museus públicos desse período e etnografia, que conservou a denominação de Museu possuem história semelhante. Nos Estados Unidos, onde se Britânico e recebeu o prédio de estilo neoclássico onde se encontram hoje alguns dos maiores museus do mundo, a encontra até hoje. Deste museu, por sua vez, desenvolveu-se de forma bastante diversa. Ali a se, em 1970, toda a seção de etnografia, que passou a maioria dos museus já nasceu como instituição constituir Museu da Humanidade (Museum of Mankind). voltada para público, onde qualquer um tinha acesso Museu Britânico, constituído, desde seus inícios mediante pequeno pagamento. Uma galinha com quatro como museu público, tinha a obrigatoriedade de abrir-se e quatro pernas, dedo indicador (que pressiona à visitação. ingresso, porém, se fazia mediante pagamento gatilho) de um criminoso condenado, eram alguns dos aliás bastante alto, de bilhete que deveria ser adquirido com objetos que faziam parte da coleção Peale, de Filadélfia, antecedência de pelo menos duas semanas. A visita era aberta ao público em 1782. Em 1786 a coleção era já, rápida, guiada por funcionários descorteses e o Museu Peale. Apesar do estranho início, Regulamento do Museu ("Rules and Acts") referente à esto museu foi responsável por importantes inovações admissão de "artistas e estranhos", publicado em 1808, no campo da educação, como a de exibir animais em estabelecia que o museu estaria aberto às segundas, terças, de seus habitats naturais, com espelhos represen- quartas e quintas-feiras e que qualquer pessoa que quisesse tando água, rochas para répteis e assim por diante. Não visitá-lo deveria inscrever-se, no próprio museu, entre mais pedestais de mármore, estantes e vitrinas de madeira onze horas e meio-dia. Apenas oito grupos, de no máximo metal: surgiam os "dioramas", recriação artificial de quinze pessoas cada, eram admitidos por dia. A autorização ambientes de que os americanos são, até hoje, mestres para a visita, contudo, levava até meses para ser concedida. E, uma vez dentro do museu, que via visitante Sabe-se Outro museu americano do mesmo período é Museu que, pelo menos até 1840, a situação era bastante de Charleston, na Carolina do Sul, tido como mais antigo Materiais diversos eram colocados ao acaso, com parca do país. De fato, a Sociedade da Biblioteca de Charles- identificação, amontoados, sem iluminação. Há um criada em 1748, lançou a idéia de museu em 1773. publicado em 1838, por um certo Edwards, interessado A Sociedade pedia, através de avisos em jornais, que lhe segundo ele, em orientar seus sobrinhos, e que se chama enviados espécimes de solo, rochas, minerais, Uma Visita ao Museu Britânico. Nele vem descrito saguão plantas, frutos, animais, coisas raras e interessantes, assim de entrada do museu como contendo uma estátua de como observações úteis sobre cada exemplar. Em poucos Shakespeare, ídolos hindus, esqueleto de um a coleção era já bastante grande e, entre animais, pinturas ilustrando as Metamorfoses de Ovídio, quadro armas, vestimentas, existiam também as terríveis32 Marlene que é Museu 33 "curiosidades", como a cabeça de "um chefe da Nov da Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro Zelândia"! museu, que cobrava um quarto de dólar por (que teve início em 1815, como Escola Real de Ciências, ingresso, cresceu, estabeleceu laços com a Universidade Artes e Ofícios) e Museu Nacional do Rio de Janeiro de Charleston e em 1857 a revista Harper's dava como (criado em 1818 como Museu Real), ambos iniciativa de sendo um dos melhores museus dos Estados Unidos. Hoje D. João VI. modernizado, ele é mantido pela prefeitura. Apenas cinco anos mais tarde continente teria outros Outro grande museu criado nos Estados Unidos no museus: Museu de História Natural de Buenos Aires e final do século XVIII foi da Sociedade Marítima da Museu Nacional de Bogotá, ambos abertos em 1823. Índias Ocidentais, em Salem, em 1799, e conhecido como Os demais museus nacionais das capitais sul-americanas Museu de Salem até meados do século XIX, quando foram criados nesses primeiros dez anos que se seguiram à comprado e anexado às coleções do Instituto Essex, trans conquista da independência por parte das nações sul- formando-se no Museu Peabody da Universidade de Harvard americanas. Essa ligação de interesses privados com interesse No Brasil, tanto a Escola Real quanto Museu Real público, grande constante na criação de tantas instituições foram criados nos moldes europeus, embora muito mais americanas, ainda perdura naquele país. Não mais modestamente. Para acervo inicial da Escola Real, D. João ções para promover a reunião de "curiosidades", as socie- VI doou quadros que trouxera em sua bagagem quando dades foram, de fato, inteligente solução para a criação deixara Portugal às pressas, fugindo de Napoleão, em e manutenção de escolas, institutos, hospitais, museus, 1808. Já Museu Real, ou Museu Nacional nossa pri- Assim é que em 1872 se criava, em Nova lorque, aquele meira instituição científica -, hoje maior museu do país, que é maior e mais importante museu das Américas e teve por núcleo uma pequena coleção de história natural, aquele que, entre todos museus ocidentais, engloba 0 conhecida, antes da criação do museu, como "Casa dos período mais longo da história humana, com quase Pássaros". mil anos de nossa história representados, da pré-história Museu Nacional era voltado principalmente à história Oriente à arte moderna: Museu Metropolitano de Nova natural do Brasil e pouquíssimo herdou da família real lorque. portuguesa. Único acréscimo por ela feito, digno de nota, é Sendo mantidos, em grande parte, por fundos e doações das coleções de arqueologia clássica trazidas pela impera- de privados, a cobrança de ingressos nos museus dos Estados triz Teresa Cristina, princesa da casa de Bourbon, quando Unidos é mais comum do que na Europa. De fato, na de seu casamento com D. Pedro II, em 1853. Com a Repú- Inglaterra, por exemplo, a cobrança de ingressos é proibida blica, Museu foi instalado, em 1892, na Quinta da Boa por lei. Nos Estados Unidos, contudo, laços do museu Vista, onde permanece até hoje, ligado à Universidade com a comunidade são bem fortes. As Sociedades de Nacional do Rio de Janeiro desde 1946. Amigos do Museu são organizações poderosas e ricas, com Outros museus surgiram no Brasil em fins do século XIX: muita autoridade nos conselhos diretores dos museus, em como Museu do Exército (1864); Museu da Marinha nada comparáveis às suas congêneres européias. (1868); o Museu Paraense Emílio Goeldi, criado como Quanto à América do Sul, os mais antigos museus são Sociedade Filomática (1866), passado ao Estado em 1871 e34 Marlene Su transformado por Emílio Goeldi (1894) em instituição de pesquisa; o Museu Paranaense, criado como instituição privada, em 1876 e oficializado em 1883; Museu Paulista, [também conhecido como Museu do criado em 1892 e ligado à Universidade de São Paulo desde 1969, e Museu do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, criado em 1894 junto com o próprio Instituto. A esmagadora maioria dos demais museus brasileiros foi AS PRIMEIRAS criada a partir dos anos 30 e 40, sempre como iniciativas oficiais. Alguns tiveram tramitação demorada, como TRANSFORMAÇÕES DO MUSEU Museu da Cidade do Rio de Janeiro, solicitado e discutido PÚBLICO: MUSEU, PESQUISA em 1891 e só criado em 1934. Outros foram criados pela simples assinatura de decretos, como a série de cerca de E EDUCAÇÃO NO SÉCULO XIX vinte museus "históricos e pedagógicos" do Estado de São Paulo criados pelo governo do estado de fins dos anos 50 aos anos 60 e até hoje não totalmente instalados. É parquíssima a presença de museus privados entre Os primeiros cinqüenta anos do museu público europeu Um dos mais notáveis é Museu de Armas Zatti, em considerando-se 1759, a abertura do Museu Britânico, Porto Alegre, RG, funcionando desde 1920. como ponto de partida não foram seu período mais Retornando aos primórdios do museu público, vemos feliz e fecundo. Os edifícios, mas principalmente as cole- que ele chegou até a metade do século XIX como uma estavam carregados de um simbolismo negativo, mistura de conceitos mal compreendidos, abarcando desde completamente alheio à origem e função dos objetos que idéias de contemplação, de templo do saber, até as de compunham. Para povo, tais riquezas representavam, em última análise, a expropriação a que tinham sido subme- representante do "caráter nacional", sob cuja égide foi criada a esmagadora maioria dos museus em países recém- tidos ao longo de séculos e desmandos e arrogância da independentes, sobretudo no Terceiro Mundo. nobreza e monarquia enfim suplantadas ou, ao menos, com É a partir da segunda metade do século XIX que poderes agora bastante diminuídos. Não é de se estranhar, museu vai começar a sofrer alterações de monta, como que revolucionários ingleses tivessem vendido veremos a seguir. coleções reais de Carlos como vimos acima, nem que em 1789, tivessem destruído com tanto prazer ou vendido, como objetos indesejáveis, tantos pertences, inclusive mobiliário pesado, dos palácios franceses. Os sentimentos da nobreza e das classes educadas para com D museu eram também extremamente negativos, com componentes de ciúme pela perda de algo que, antes, era do usufruto apenas seu.36 Marlene é Museu 37 "Tudo é silêncio, estou neste deserto para encontrar- análise, controle e inteligibilidade, solidamente interli- te, amada Roma? Todas aquelas figuras que uma vez, gadas, atingem a política, a economia e a tecnologia cientí- em outro lugar, eu prazerosamente cumprimen- Em outras palavras, não se domina o que não se tava Aqui um fragmento de estátua, ali um busto, conhece e conhece-se melhor pelo ordenamento sistemático pernas cruelmente desmembradas tudo amontoado da realidade a ser conhecida. Por isso a sociedade procedeu nesta lúgubre sala: em um museu! Medo e tristeza registro geral permanente das Forças Armadas, ao or- me perseguem." denamento especial dos homens, à regulamentação da cir- dos bens, à classificação do mundo natural animal Era como se exprimia o poeta alemão J. Herder (1744 vegetal, classificação das doenças, tudo em função de um 1803) a respeito do museu que descolocava objetos de sua quadro econômico que levasse ao enriquecimento acele- "amada Roma" eos colocava ao alcance do público E poeta francês Edmond de Goncourt (1822-1896), na Nesse cenário o museu cresceu e multiplicou-se. Por um introdução ao catálogo de sua coleção, que seria leiloada lado, era a instituição ideal para abrigar as coleções neces- após sua morte, dizia textualmente: às ciências naturais para suas tarefas classificatórias. meu desejo que objetos de arte que contri- Por outro, era também a instituição ideal para espelhar as mudanças em curso na sociedade européia. A burguesia, a buíram para minha felicidade não sejam enterrados exemplo da aristocracia, passou a fazer uso do museu como na fria sepultura de um museu." palco para exibição de suas conquistas. Datam, contudo, do início do século XIX estudos Nessa primeira metade do século XIX, a Europa, liderada sérios sobre aprendizado, a educação e a necessidade de pela Inglaterra, despertara para a era das máquinas, cujo educar-se maior número possível de pessoas, de todas as aproveitamento causou mudanças tão radicais na sociedade classes da sociedade e que terminariam por influir direta- de então que período é conhecido como sendo da Industrial. Centenas e centenas de fábricas, de mente no museu. Estamos exatamente dentro do apogeu da filosofia do "iluminismo", que defendia primado da todos tipos, são construídas, e nelas trabalham homens, razão, da liberdade de pensamento, a educação e progres- mulheres e crianças em jornadas de catorze horas. A popu- das cidades cresce enormemente, concentrada em so, e que combatia autoritarismo e despotismo. Ora, qual seria papel do museu em um tal quadro? torno das fábricas. A dupla necessidade de matéria-prima o grande desafio para a burguesia vitoriosa dos fins do de mercados consolida colonialismo europeu na Ásia, século XVIII foi desmantelamento dos quadros de poder na nas Américas. da aristocracia e a instituição de novos quadros Para nosso argumento interessa saber que objetos e trativos. filósofo e historiador francês Michel Foucault instrumentos há séculos produzidos manualmente são agora em máquinas em grande escala. Isso causou captou muito bem como a necessidade da classe burguesa em observar, controlar e regularizar a sociedade influiu na discussões e debates inflamados sobre artesanato, a arte, a mentalidade do século XIX. As operações de distribuição produção industrial, ao mesmo tempo que se discutia aumento da produtividade e se organizavam as "grandes38 Marlene é Museu 39 industrializados. exposições" internacionais para a mostra de "Senhor, depois que o Patrão lê o Times eu o pego e estamos contentes com o que o senhor diz da Expo- Para alojar a Grande Mostra de Todas as Nações, real sição, nós empregados e outras pessoas medianas. E zada em Londres em 1851, construiu-se especialmente gostaríamos que o senhor publicasse que só alguns magnífico Palácio de Cristal, enorme edifício que fazia us empregados podem ir à Exposição, pois trens não das recém-adquiridas técnicas de trabalhar estruturas di nos ajudam nem um pouco. Um trem de excursão sai ferro, com espaços vedados por vidro. Essa exposição de de manhã e volta à noite e outro leva cinco dias; Londres possuía, inclusive, um Departamento de Ciências assim, nenhum serve: um é muito curto e outro de Artes, onde se discutia com empenho as possívei longo demais; o Patrão não pode passar sem nós e políticas de educação e instrução pública. Esse Departa nem nós sem o dinheiro. Nós queremos três dias ao mento transformou-se, após o final da exposição, no invés de cinco e esperamos que o senhor diga isso à Victoria and Albert Museum, em homenagem à rainha (cia. de trens) Western. Vitória e seu consorte, grande protetor das artes. Dentro desse debate, como eram vistos os museus Seu, humildemente, Como poderiam ser utilizados num processo de educação Um empregado do Interior pública? Se, por um lado, havia já a consciência do impor tante papel que essa instituição poderia desempenhar, po Não eram poucos sinais de que exposições, galerias, o outro se sabia que a tarefa não seria fácil. nuseu, enfim, atingiam "uma classe da sociedade que não De fato, instalados em enormes e suntuosos palácios ou ode ser atingida de nenhuma outra forma", conforme então em edifícios especialmente construídos para eles lisse um certo senhor Worshop, funcionário do Museu mas sempre imitando palácios ou fachadas, colunas e em 1869. escadarias de templos greco-romanos, tais museus eram Já em 1857, na Inglaterra, John Ruskin, estudioso de inibidores por excelência. 0 público neles se sentia pouco de arte, apresentara projeto a uma comissão parla- à vontade, deslocado no meio de tanta grandiosidade. mentar para "que se desse uma função mais educativa ao Alentador sinal de que o público começava, enfim, a museu: apresentar os objetos com visão crítica e não pura- apropriar devidamente do museu é o aparecimento, neste mente expositiva". fim do século XIX, justamente, das primeiras críticas Um dos primeiros sinais de que museu não deveria reivindicatórias a respeito da apresentação das coleções, dos servir para produzir espanto e choque diante de atendentes, da iluminação, dos horários, etc. tantas riquezas mas sim funcionar como local de prazer, 0 papel das grandes exposições industriais no despertar elaxamento e aprendizado tranqüilo foi a introdução, nesse do interesse do público, mesmo aquele das classes mais mesmo ano de 1857, de grandes salões para descanso, chá baixas da população, foi grande, como se vê em uma carta refrescos, no novo edifício do Museu de História Natural escrita ao jornal The Times de Londres em 26 de agosto de Londres. de 1851: Para a maioria, contudo, museu continuava sendo "o local onde os grandes mestres residem, na serenidade de uma glória que não está mais em discussão", conforme40 que é Museu 41 expressado por Paul Manz em 1860, na Gazette des Beau Arts, revista publicada em Paris. nico, sempre reclamada pelos franceses. museu se via, assim, diante da herança cristalizado Algumas nações, aliás, começaram a pedir, desde 1970, de todas essas tendências e posições: templo dos grand mais insistentemente nos anos 80, a devolução desse seu mestres do passado, do apogeu da civilização clássi patrimônio. Casos existem em que as nações produtoras greco-romana, grande exposição de "tudo" que a nature de tal patrimônio precisam ir a Londres para conhecê-lo. e homem criassem de importante ou de exótico. Apenas a Itália, contudo, talvez por lhe ser fácil compreen- zes de traçar seu próprio caminho nesse emaranhado di der as agruras de ser saqueada (já que é até hoje, pelos grandes antiquários da rota tem dado mostras vertentes, museu a todas incorporou, adquirindo sua características de museu "enciclopédico", álbum abert de participar de tal movimento. Fato significativo foi a de tudo que a natureza e o homem conhecia, expressão devolução à Albânia, em janeiro de 1982, da Dea di Bu- pujança econômica e territorial das nações européia trinto, uma magnífica cabeça de mármore encontrada em verdadeiro retrato tridimensional da nação e de seus feito Butrinto e datada do século III a.C., presenteada a Musso- Ainda hoje, nos grandes museus europeus, pode-se ver a traje lini quando a Albânia estava sob domínio italiano (1939- tória do colonialismo europeu do século XIX. Obelisco 1943). A posição italiana, contudo, é a de devolver apenas inteiros removidos do Egito para as praças de Paris pela objetos desviados nos últimos cem anos. forças de Napoleão; estátuas colossais, pedaços de templos Evidentemente, para explorar com mais proveito as centenas de milhares de objetos menores recheando a Europa precisava aprimorar sempre conheci- vitrinas dos museus das grandes potências daquele sécul mento que delas tinha. Eram constantes, assim, as explo- Museu Britânico, por exemplo, de 1800 a 1840, rações científicas para estudar meio ambiente físico, a enriquecido por material trazido das colônias e proteto flora, a fauna e nativos das colônias e conseqüente rados ingleses ou, simplesmente, de lugares onde a envio de enormes e bem formadas coleções de botânica, todo-poderosa Inglaterra tivesse influência. caso mai mineralogia, etnografia e mesmo arqueologia para assombroso é o dos mármores hoje chamados mármore as metrópoles. Essas coleções alimentavam a prática das Elgin, que nada mais são que as esculturas que revestiar classificatórias na Europa, como dissemos acima, "representavam" homem e a humanidade fora da Parthenon o maior templo da Acrópole de Atenas que foram tirados da Grécia por Lord Elgin, em 1806 como eram vistos pelo europeu. Nem Brasil, como pedras para lastrear navios ingleses. Mas há, tam apesar de oficialmente independente de Portugal desde bém, interessantes saques aos saqueadores: a famosíssima 1822, escapou a esse processo. Muitas expedições e cien- Pedra da Rosetta, descoberta no Egito pelos franceses em tistas europeus, alguns até autonomamente, nos visitaram 1799 (com inscrição trilíngüe, em grego, hieroglifos e demó como um dos resultados temos, hoje, importante material tico, que possibilitou ao estudioso francês Champollion brasileiro em museus e instituições científicas da Europa. Todo material das pesquisas de Pedro Guilherme Lund a decifração, em 1822, da escrita hieroglífica egípcia), integrou o botim que os ingleses levaram em 1815, na Lagoa Santa de Minas Gerais, por exemplo, encontra-se vencerem Napoleão. Ela se hoje no Museu Brita na Dinamarca, no Museu de Zoologia de Copenhague. Portanto uma importante alteração ocorreria nesse42 Marlene que é Museu 43 mesmo momento no âmago dos principais museus europeus recém-fundadas Sociedades de Etnografia. Só na Alemanha a sua transformação em instituições de pesquisa científica foram criados, nesse período, cinco museus etnográficos e Que tal mudança pouco significou em termos de proveito as principais capitais européias também criaram os seus. imediato para público é bastante óbvio pelas críticas Os museus de etnografia eram tidos como instrumentos que reproduzimos acima, mas a tal ponto voltaremos ideais para se estudar e ensinar tipos de cultura pelos oportunamente. quais passara a humanidade e progresso da sociedade Foram a paixão pela antiguidade clássica vigente no em relação a esse quadro evolutivo da história do século XVIII, debates levantados pelas "grandes expo- homem. De fato, a publicação, em 1852, da obra Teoria da sições" do século XIX e a mentalidade classificatória da Evolução de Herbert Spencer muito influenciou a Arqueo- ciência de então as razões principais de tal mudança. logia, a História e a Antropologia de forma geral. No rastro Por um lado, a arte clássica passava a ser vista como da teoria da evolução de formas inferiores a formas supe- importante instrumento para o estudo da civilização greco- riores de vida, evolucionismo via a história da humanidade romana. Assim, além dos textos, devia-se buscar objetos numa escala linear que crescia da "selvageria" até a "civili- que eram revelados pela Arqueologia. E a Arqueologia zação". Nesse quadro, ganhou muita importância a pesquisa obrigava, justamente, museu a sair de seu papel de simples arqueológica que levasse "às origens" e que provasse que depósito para transformar-se em promotor das pesquisas "a Bíblia tinha razão". As expedições arqueológicas à de campo. A descoberta, em 1750, de Pompéia, cidade Mesopotâmia e à Palestina tiveram, nessa época, uma romana de 30 mil habitantes que fora soterrada pelo grandeza que nunca mais conheceram, patrocinadas sobre- Vesúvio em 79 d.C. sua escavação, que se procedeu tudo pelos ingleses e franceses. lentamente, deram grande impulso a tal mudança. 0 alemão Evidentemente, a pedra de toque, a "civilização" por Winckelmann publicou sua História da Arte na Antiguidade excelência era aquela do observador, a cultura européia do em 1764. Era a primeira publicação do gênero e garantia século XIX. Não é por acaso que 0 Museu Pigorini, de estatuto de documento de valor e importância à arte Roma (criado em 1876 a partir das coleções do padre antiga. Na França, a decifração dos hieroglifos egípcios por Atanasio Kircher, formadas no século XVII), englo- Champollion, em 1822, consolidou as pesquisas em epigrafia bava a Etnografia e a Pré-História e que etnógrafo dina- antiga. Em 1826, Museu do Louvre criava Departamento marquês Kristian Bahson exortava indivíduos e governos Egípcio e pouco tempo depois Museu Britânico explici- a coletarem e manterem "anterior a nós" e "diverso". tava suas áreas de especialidade. Este etnógrafo publicou, em 1888, uma apresentação de É interessante notar que museus de etnografia nasce- todos museus de etnografia então existentes, defendendo ram separadamente daqueles de "arte", sobretudo dos de sua importância de forma bastante enfática. Compreensi- "arte antiga". primeiro deles foi Museu das Colônias, velmente, no confronto com tais culturas "primitivas", a fundado na Dinamarca em 1839, e por muito tempo supremacia da sociedade européia se sobressaía e sua maior da Europa, subsistindo hoje com nome de Museu trajetória além do custo social para perpetrá-la se Etnográfico Dinamarquês. Os demais se seguiram na segunda justificava. metade do século XIX, grandemente incentivados pelas Nessa segunda metade do século XIX museu, enquanto44 Marlene é Museu 45 instituição pública, passou a refletir também de forma quanto as tendências nacionalistas ou regionalistas que imediata problemas sociais pelos quais passava a Europa. criaram. Nesse período de definições de fronteiras e de conquista da Mas nem todos museus possuíam uma política que soberania dos Estados (criação do Estado alemão do definisse e orientasse por mais negativa que ela fosse Estado italiano sendo as principais), museu foi usado e se acumulava e se exibia. despertar ou enraizar a consciência nacional. Sobretudo para E assim, a "fadiga, desinteresse e tédio diante dos salões Alemanha, os museus eram propositadamente dirigidos na que se sucediam", conforme descrição de visita ao Museu encorajar sentimentos patrióticos. Museu das Antiguida- para do Louvre feita por Emile Zola em seu livro L'Assomoir, des da Pátria, em Bonn, foi fundado especialmente de 1877, tornou-se lugar-comum das visitas a museus. que, "através da educação e do afeto, cidadãos para Foi a introdução da pesquisa no museu que levou não desenvolver um interesse entusiástico pelo passado possam alemão apenas a especializar-se enquanto área de conhecimento e a vontade de trabalhar para o crescimento e fortaleci- como, ainda, obrigou-o a um remanejamento interno de mento do Estado", conforme consta da publicação de distribuição de responsabilidades e estabeleci- museus alemães. H. von Petrokovits, em 1970, sobre centenário de alguns mento de planos de ação. Nessa reformulação, o museu discutido e questionado exaustivamente. Pontos vitais, A Hungria também fez esse uso ideológico de seu museu como sua arquitetura, sua ambientação, serviços que nacional. Mas nesse caso não foi Estado lançando mão oferecia ao público, são tópicos constantes dos debates. do museu mas povo ele próprio que viu no museu Podemos ver, nas revistas dos últimos trinta anos do concentração de provas de sua identidade nacional, aumen- a século XIX que tratavam de assuntos culturais, sobretudo tando seu acervo mediante pagamento de impostos especiais na francesa Gazette des Beaux Arts, sugestões para "rotei- estabelecidos por eles próprios. E foi das escadarias do prefixados" dentro dos museus e para "guias perma- Museu Nacional de Budapeste que, em 1848, se iniciava nentes" para escolares e crianças, idéias para se implantar húngaros do domínio da Áustria. Mas esse é ainda um a nova fase de luta para a conquista da libertação dos um especialmente voltado para público, etc., etc. isolado. Via de regra é Estado, na maior parte das vezes caso As transformações propostas, todavia, eram tantas e de representado por governos nacionalistas, sobretudo tal monta que acabaram por ficar a meio caminho, semi- Terceiro Mundo, que criam ou remodelam seus museus no completas, às vezes apenas esboçadas. Verbas e pessoal com expresso objetivo de exaltar caráter "nacional". Insuficiente e/ou inadequado são as causas isoladas como A mais fantástica expressão desse tipo de museu é Museu responsáveis pela impossibilidade de se executarem as Nacional de Antropologia do México, que reafirma mudanças propostas. enaltece as raízes indígenas do povo mexicano. Certas e Interessante notar que já se começava a apontar a regiões da Europa também têm-se valido do museu necessidade de "pessoal especializado" para trabalho instrumento de exaltação do regionalismo, como museu como nos museus. Mas um dos critérios era numérico: quanto de Cardiff (País de Gales) e Museu de Arlaten, na Pro- mais museus conhecesse a pessoa, mais indicada seria ela vença. Tais museus sobreviverão, evidentemente, tanto para trabalhar em um. Proliferam, nesse período, as viagens46 Marlene que é Museu 47 dos responsáveis por museus em visita a seus congêneres seu papel junto à sociedade. A especialização por áreas de conseqüentes publicações de tais visitas. saber era, sem dúvida, passo mais importante até então Datam também desse final de século XIX as primeiras dado rumo à maioridade da instituição. grandes tentativas de reformulação dos grandes museus, Mas esse importante passo não chegava a beneficiar alguns dos quais já em seu centenário de existência. Infe- público porque museu, ensimesmado, tentava definir-se lizmente, as novas concepções de claridade, espaços amplos, sem, contudo, traçar um plano cultural ou educacional que poucos objetos à mostra, terminaram por fazer com que atendesse sua clientela imediata. Esse descompasso entre muitos objetos fossem descartados, colocados em depó- que museu faz e que ele efetivamente mostra é, até sitos, onde se estragaram, ou simplesmente queimados. hoje, um dos problemas cruciais da instituição. impor- Hoje, sem dúvida, daríamos muito valor à maior parte tante é perceber-se que havia, no período em pauta, plena desses objetos. consciência da importância do museu no processo educa- Mas essas tantativas de "limpar" um pouco as expo- cional mas não dos mecanismos para tornar efetivo qual- sições dos museus não funcionaram, pois OS museus rece- quer programa específico. biam constantes doações de peças e coleções que "deveriam Nos países colonizados ou simplesmente periféricos à ser usadas para estudo e pesquisa", segundo rezava nos Europa, a situação refletia, com certos agravantes, quadro testamentos dos doadores. E o pessoal dos museus polemi- europeu. 0 público escolar, principal cliente do museu, em zava, buscando já filtrar, selecionar as peças e coleções que suas visitas obrigatórias à instituição, iam andando, deveriam ser olhando, passando como um fio d'água passa numa Toda essa argumentação e tentativa de mudança auxi- lâmina de vidro uma "tristeza de se ver", liaram muito museus novos, aqueles que estavam sendo conforme palavras de Roquete Pinto sobre visitas de esco- criados na crista do debate. Tal foi caso dos museus dos lares ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, que ele dirigiu países nórdicos, abertos entre 1870 e 1890. Neste período, no começo deste século e que aparecem na sua A História tanto na Suécia quanto na Dinamarca, Noruega, Holanda Natural dos Pequeninos, publicada no Rio de Janeiro Finlândia, abriram-se museus de artes e tradições populares, em 1926. de etnografia e museus ao ar livre, verdadeiros parques Se na Europa e países dela dependentes culturalmente contendo flora e fauna regionais. situação podia ser promissora porém ainda pouco clara, Em 1881, Berlim inaugurava um grande museu de arte quadro bem diverso começava a ganhar contornos nos aplicada, ligado à Escola de Arte Decorativa e Industrial, Estados Unidos. Era ali filosofia bastante corrente acreditar que contava com cerca de mil alunos. Um museu também as pessoas perfeitamente capazes de "auto-educar-se", voltado para servir estudante, artesão designer, foi desde que oportunidades apropriadas lhes fossem fornecidas Cooper Union Museum, em Nova lorque, aberto em pelo poder público. museu seria local por excelência 1890. primogênito de tais museus, foi, contudo, onde tal processo teria lugar. A publicação de Thomas Victoria and Albert Museum de Londres, fruto da Grande Greenwood, em 1888, denominada Museus e Galerias de Mostra de 1851. Arte (Museums and Art Galleries), continha, além de museu, assim, tomava fôlego e empenhava-se em traçar arrazoado crítico de museus existentes nos dois lados do48 Marlene Suan Atlântico, um pequeno manual de "Regras úteis para ter-se em mente quando visitando um museu" que dizia, entre outras coisas: Antes de entrar num museu, pergunte-se que você quer ver, (...) consulte atendente sobre OS espécimes interessantes em cada sala. Lembre-se que principal objetivo dos espécimes é instruir. Tenha um caderninho onde anotar suas impres- AS TRANSFORMAÇÕES sões (...). DO SÉCULO XX Visite periodicamente o museu mais próximo de instrução" você e faça dele sua escola avançada de auto- (grifo meu). "cada geração se viu forçada a interpretar esse termo impreciso museu de acordo com as sociais Tal filosofia, contudo, embora não desconhecida na da época". Europa, nunca chegou a angariar adeptos de peso. Ali, de F. Taylor, 1938. maneira geral, foi criticado por muitos, desprezado pela grande maioria, desprotegido pelas autoridades públicas e O início do século XX se viu às voltas com problemas em grave crise interna de identidade que museu iniciou século pela grande proliferação dos museus do final do Não é de estranhar, portanto, que Manifesto Futurista século XIX, conforme apontamos anteriormente. Para ter-se de F. Marinetti, publicado na Itália, em 1909, contivesse uma idéia numérica, basta dizer que a Inglaterra possuía um item "demolir museus" pois estes, segundo ele, nada museus em 1850 e que deste ano a 1914 outros 295 foram criados! Havia tanto interesse em reformar e "dina- mais eram que "cemitérios idênticos pela sinistra promis- cuidade de tantos corpos que não se conhecem, dormitórios museus que foi possível a criação, em 1888, da públicos onde se repousa para sempre junto a seres odiados Associação de Museus inglesa, hoje internacional, e que ou ignotos, absurdas misturas de pintores e escultores que passou a funcionar efetivamente no início de nosso século, se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e de linhas uma revista especializada, a Museums Journal, e contidas ao longo de paredes". um boletim informativo, 0 Museum News. Os objetivos século veria, contudo, grandes transformações no estatutários dessa Associação mostram bem a problemática dominante no período: museu, como será exposto a seguir. 1) Meios para realizar intercâmbios de duplicatas e espécimes extras.50 Marlene que Museu 51 ções. 2) Meios para obter modelos, moldes e reprodu- Nesse quadro o museu vai viver, contudo, experiências bastante interessantes. A primeira é aquela projetada por 3) Esquema para fornecimento de etiquetas, Hitler e nunca concluída, e a segunda se refere aos usos do legendas, ilustrações, informações. museu pelas revoluções socialistas. 4) Plano uniforme para organizar coleções de Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) Hitler história natural. for uso da instituição museu como lugar privilegiado para 5) Esquema para assegurar serviços de especialistas. mostrar a ascensão germânica e sua hegemonia sobre a 6) Melhoria da regulamentação de uso dos museus No projeto de reurbanização da cidade de Linz, e bibliotecas. da província natal de Hitler na Áustria, museu 7) Indexação do acerco dos museus. ser a maior e mais rica galeria de arte do mundo, 8) Promoção de conferências para trabalhadores. dos botins que Hitler já vinha realizando na Europa 9) Preparo de pequenas coleções para circular, sob por seus exércitos. Esse museu proporcionaria empréstimo, nas escolas. de história e educaria artisticamente visitante 10) Ação coordenada para obter fundos do governo, de enfoque especial dado ao "melhor" da produção além de doações, empréstimos, etc. cada artista ou de cada período ou lugar da história da 11) Publicação de revista periódica sobre assuntos humanidade. Como bem notam os estudiosos italianos de museu. Lanfranco Binni e Giovanni Pinna, museu do nazismo as necessidades de propaganda do Estado com Eram já, embora camufladas de entusiasmo de novidad as possibilidades de educação individual e sintetizava todas as primeiras tentativas de salvar uma instituição que conquistas dos museus europeus criados pelas burguesias encontrava à beira da falência total. nacionais do século XIX com a mais moderna crítica de De fato, no século sem a função de retratar arte européia do período. Tal proposta seria, assim, um escalada da burguesia e de representar mito da "civil empreendimento de vanguarda em relação à museologia zação" por ela criado, o museu estagnou. A instituição e se caso se tivesse concretizado, pois ele seria, na conteúdo não respondiam às necessidades e inquietaçõe profissional do museu burguês, a melhor ex- da sociedade pós-revolução industrial. 0 proletariad pressão da sociedade capitalista. conscientizava-se de seus direitos e passava a exigi-los A Revolução Russa de 1917 não depredou nem saqueou a burguesia não conseguia mais gerir a sociedade com casas e palácios da aristocracia. 0 governo revolucionário mesma facilidade de antes. museu, dispensável ness levou, contudo, quase dez anos para começar a concretizar quadro de tensões, assume ares de ilha protegida e calma metas estabelecidas pelo Comitê Central para a Guarda volta-se para si mesmo, deixa de ter apelo junto ao público de Objetos de Arte e Arqueologia, criado em 1921. De fato, sobrevive pela inércia. Nas primeiras décadas de noss não era tarefa de pouca monta inventariar, reordenar, século, tal estado de coisas provocou, inclusive, a deterio e redistribuir aquele patrimônio tão vasto. Alguns ração e conseqüente perda de muitos objetos, até mesmo palácios foram adaptados para servir como colônias de coleções inteiras, em quase todos os museus do mundo. e de repouso para operários doentes, outros passaram52 Marlene Museu 53 a abrigar sedes de academias e instituições científicas e, a Revolução de 1917, sem preocupação com as figuras finalmente, alguns foram deixados para testemunhar czares ou demais personagens "importantes" mas sim passado da Rússia pré-revolucionária. Tanto as coleções da com estrutura de seu império, sua maneira de exercer família imperial quanto as particulares foram desmem noder e seu programa para a Rússia e sua população no bradas para formar novos museus nas cidades de província esquema museográfico da ala do Palácio de Peter- Esses museus foram todos estruturados de acordo com a que apresenta czar Nicolau e a czarina Alexandra é teoria marxista para transmitir determinadas interpretações simples e eficaz, extraindo-se da disposição do passado e mensagens ideológicas para futuro. Partindc aposentos e de seu conteúdo e antigo uso a interpre- do princípio de que a cultura e assim a obra de arte das principais linhas que regiam a família imperial: não é neutra mas é cultura multiforme, diversamente relação de dependência do czar Nicolau com a czarina gerada por classes sociais diferentes, museu soviético passa Alexandra (para se atingir a sala de trabalho do czar é a ter por objetivo mostrar justamente isso, as diferenças de atravessar salão de estar de Alexandra), a classe, as constantes lutas entre as classes pela sobrevivência de consolidar império pelo herdeiro homem e pelo poder de controle da sociedade. Como operar tal for vários aposentos das várias princesas e, afinal, do objetivo na prática? Uma importante contribuição da nova filho mais novo e a parafernália para sua educação), proje- museografia soviética foi romper com as apresentações de reação e retorno a um passado idealizado (decoração estanques das diversas técnicas artísicas. Ou seja, passou-se de estilo medieval) e desejos de isolamento e fuga da a mostrar juntamente a pintura, a gravura, a escultura, a realidade (a sala de jantar é cópia exata daquela do iate cerâmica, abandonando-se a exibição do "gênio imperial). em privilégio de uma visão de conjunto da produção artís- Os demais castelos da aristocracia russa transformados tica em um determinado momento da história do homem. museus seguem, via de regra, esse mesmo tipo de apre- As obras não são mais expostas segundo um critério pura com païnéis indicando gastos e atividades das mente estilístico mas sim de forma a evidenciar contexto classes superiores e as condições de vida de seus servidores que as gerou. Assim é que as forças produtivas, as relações do campesinato de forma geral. de produção e as ideologias formam o pano de fundo Além desses acima descritos e dos museus de ciência qual as obras de arte e qualquer outro produto humano tecnologia, a Rússia montou também toda uma rede de são inseridas. No Hermitage, contudo, todas as tentativas "museus de higiene" (chamados de Museu para a Proteção de reestruturação fracassaram devido ao seu próprio gigan- Mãe e da Criança), museus da agricultura (com a história tismo. Nos demais museus de arte, objetivo acima descrito dos primórdios da humanidade até a prática é obtido pelo constante recurso de painéis fotográficos e do trabalho socializado) e museus anticlericais, para mostrar textos intercalados com as obras expostas. Nos museus entre Igreja e Estado no domínio das classes históricos a tarefa é bem mais simples. Não se buscou, (o mais notável é montado na Catedral neles, a leitura simplista do "luxo injusto" dos czares Leningrado). comparado à "miséria dos camponeses". A idéia básica é Os dados que dispomos sobre a China e Cuba são, mostrar processo pelo qual passou a Rússia até culminar mais parcos. Sabemos que ambas, após a54 Marlene 55 que é Museu vitória de suas revoluções, também montaram museus função social é imediatamente política: apresentar 0 "planos reguladores até hoje mais eficazes passado do ponto de vista do presente. 0 Museu da Revolu instrumentos na preservação do patrimônio cultural. A ção, em Havana, ensina a história da opressão sob a qual França e a Itália são as nações mais inquietas e férteis do viveram pais e avós do visitante, indicando socia período: criam-se programas culturais novos e aparece lismo como a única via de ruptura com passado. Na com destaque a figura do "agente cultural" e do "museó- China, museus são periodicamente fechados e logo", ambas de incerta definição. lados segundo as linhas de pensamento vigentes dentro do Neste segundo pós-guerra, museu passa a refletir Partido Comunista Chinês. interesses da sociedade européia e americana pela ecologia, No período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial a pela preservação do meio ambiente, pela prática da agri- situação do museu na Europa era gritantemente diferente cultura, pela vida cotidiana e não mais pelos "grandes daquela do museu americano. Na Europa, museus, feitos", "grandes datas" e "grandes heróis". 0 museu vai muitos deles saqueados em benefício do "supermuseu" do à escola, com pequenas mostras circulantes, vai às fábricas, nazismo, não eram vistos como prioridade na reconstrução As prisões, à periferia e à zona rural, em forma de "trem- do continente devastado. Assim, pereciam, sem verbas e museu" ou "museobus". Em sua sede, organiza atividades sem pessoal, em meio ao desinteresse oficial e do público, para grupos infantis e juvenis, mostras periódicas, ateliês de Na União Soviética e países do Leste europeu, museus criatividade para público em geral e reformula-se para, continuavam a se multiplicar, segundo o modelo russo através da pesquisa e departamentos com pessoal especia- acima descrito. lizado, atender a contento todas essas novas frentes. Refor- Já nos Estados Unidos o quadro é realmente mula-se também o ambiente físico do museu, com adapta- 0 museu aparece perfeitamente inserido no quadro da ções inclusive para visitas de deficientes físicos e mesmo produção capitalista, em estreita ligação com a indústria grupos de prisioneiros sob custódia. cultural, com a universidade, com a produção artística. Datam também dessa época a criação das principais Cunha-se, nesse período, a expressão "museu dinâmico" escolas especializadas para formação de profissionais de para definir essa instituição que abrigava obras de arte, museu, tanto na Europa ocidental quanto do Leste e arquivos, espécimes raros do mundo mineral, vegetal e Estados Unidos. animal e que oferecia serviços educacionais, concertos de Todas as alternativas de ação acima apontadas foram música, desfiles de moda, ciclos de debate, etc. geradas na crista de um debate que, ao longo dos últimos É só nos anos 60 que a Europa vai conhecer movi- trinta anos, tem sido muito profícuo para a instituição, mentos para "dinamizar" seus museus, dentro da sobretudo na Europa e EUA mas atingindo também, embora cação pela democratização da cultura que agitou final de forma diversa, a África e o Extremo Oriente. da década e produziu substanciais mudanças nas estruturas É interessante notar que esse debate foi em grande parte culturais existentes, do museu à universidade. E as promovido pelas agremiações profissionais que nasceram danças atingiram a cidade em cheio (melhoria de condições junto com século XX e que se responsabilizaram por de vivência, circulação e lazer) e acabaram dando ênfase aos encontros, congressos, seminários, além de terem dado início à publicação sistemática de revistas especializadas57 56 Marlene que é Museu sobre assunto museu. A mais antiga delas é a Museum que se recuperava e florescia. Tal movimento, por propiciar Journal, editada desde 1901 pela Associação dos Museu a um número cada vez maior de pessoas o conhecimento sediada em Londres. Office Internationale des direto com realidades, povos e culturas antes acessíveis começou a editar em 1927, em Paris, a revista Mouseion apenas nos museus ou através de filmes e fotografias, que tomou, a partir de 1948, nome Museum, sob colocou museu em difícil situação. Ele passou a ser auspícios da UNESCO e do recém-criado International considerado "estagnado", "morto", "sepulcral" e não tinha Council of Museums (ICOM). Em 1924 surge a Museum como rivalizar com pitoresco e colorido das visitas in loco News, órgão da American Association of Museums, com às antiguidades clássicas na Grécia e em Roma, aos safáris sede em Washington. Essas revistas não devem ser confun- na África, etc. Passado, contudo, primeiro momento de didas com aquelas muito mais antigas que grandes espanto e impotência, as discussões se centraram em real- museus publicavam e em muitos casos ainda publicam mente tentar entender a sociedade que mantinha museu ra divulgar suas pesquisas 0 Museu Etnográfico de e como melhor servi-la. E tendo a sociedade ocidental Berlim, por exemplo, tem sua revista científica desde cristã focos cíclicos de interesse a educação de massas, 0 referido debate organizou-se basicamente em torno do reforma das estruturas sociais e a guerra nos anos 60, a eixo "as relações entre museu e sociedade". Contudo, a ecologia, as drogas e a pobreza nos anos 70, a questão falta de contato cultural entre Leste e Oeste e a propaganda nuclear nos anos 80 a discussão tem continuado atrelada antimarxista e anticomunista que grassou no mundo ao eixo museu e sociedade. tal nas primeiras sete décadas de nosso século impediram Tal eixo poderia ser dividido basicamente em três focos que a renovação dos museus soviéticos pudesse ser apreen- de interesse: a comunidade, a pesquisa científica, a museo- dida pelas instituições e especialistas ocidentais. Tal debate grafia e formação de pessoal. Embora tais temas estejam, foi, por isso mesmo, quase que exclusivamente centrado evidentemente, entrelaçados, discuti-los isoladamente am- nos problemas das grandes potências ocidentais, com raras pliará nossa possibilidade de melhor compreendê-los. incursões pelo Terceiro Mundo. Nem por isso, contudo, ele preendê-lo. deixa de nos dizer respeito e é bastante necessário com- Museu e comunidade No início, os seminários, congressos e publicações deixavam transparecer como a súbita perda de identidade Antes de mais nada é importante notar que termo da instituição afetava tais De fato, a sociedade "comunidade", que comparece em todas as publicações capitalista do pós-guerra apresentava mudanças profundas especializadas, serve como simples sinônimo de "popula- onde museu, tal qual era, não mais cabia. Dados que ção", ou então, mais especificamente, para devemos considerar são a rapidez e facilidade nos desloca- definir um agregado determinado de pessoas que possuem mentos transcontinentais, propiciados por aviões de linha, interesses e atividades afins ou qualquer outra característica crescente número de viagens turísticas entre os países da em comum. É nesse último sentido que se usa termo Europa, da América à Europa, da América do Sul à Europa "a comunidade dos artistas", a "comunidade e da Europa à Ásia e África, permitidas pela economia e assim por diante. Nos assuntos de museu, termo "comu-58 59 Marlene Suano é Museu nidade" vem sempre associado ao público servido pelo museu e que usam, este fazer raramente é questionado. museu e às tentativas de "educação". Assim, poucos determinam e nem sempre por critérios Embora se postule desde os séculos XVIII e XIX que explícitos o que muitos devem consumir. museu, uma das funções do museu seria a de educar, podemos portanto, tem a oportunidade de ser mais elitista e mais dizer que assunto nunca foi levado tão a sério quanto nas autoritário do que a escola e raríssimos são aqueles que décadas de 60 e 70 de nosso século. A ciência, a educação, a deixam tal oportunidade escapar. cultura e mesmo lazer esta criação da sociedade pós- Nos anos 60 o Ocidente cristão via a primeira geração do industrial são muito susceptíveis de serem gerenciados e pós-guerra atingir a maioridade e apenas pequena porção conduzidos por um grupo restrito de pessoas, normalmente dela conseguir assento em universidades e institutos de sob a égide do Estado. Correntes alternativas e "subter- ensino superior. Geração profundamente insatisfeita e râneas" sempre existiram na área da cultura e do lazer, igualmente determinada, ela deu início a atuações e movi- mas é simples compreender-se que a ciência e a educação mentos de protesto, marchando contra as estruturas de requerem orçamentos consideráveis e dependem do Estado educação e cultura e, sobretudo, a sociedade que as man- e de instituições privadas especiais. Estas últimas existem, tinha. 0 movimento variou muito de país a país, embora aliás em grande número, mantidas por empresas e funda- compartilhasse de muitas vontades comuns, como a demo- ções criadas por indivíduos ou associações. A quase totali- cratização da universidade, a quebra do controle do Estado dade de museus de que temos notícia é mantida pelo poder sobre a cultura, a recusa ao imperialismo das grandes público, por fundações privadas ou por empresas. potências e, grande ponto de união, repúdio à guerra do De maneira geral, tanto a escola quanto museu trans- Vietnã. As manifestações se atinham, de início, às mesas mitem aquilo que seu mantenedor deseja. No caso da de debate, congressos, seminários e publicações especiali- escola, há leis e diretrizes nacionais que, comumente, zadas, com demonstrações dentro das áreas das universi- mesmo os estabelecimentos privados devem seguir. Nos dades. Em 1968, contudo, movimento ganha as ruas, de museus, essas determinações e sua respectiva execução e forma particularmente organizada e violenta em Paris, controle são de mais fácil implementação. Em primeiro gerando uma crise que abalou profundamente governo lugar, o público da escola é numeroso e fixo por determi- de Gaulle. Mas foram as universidades e a cultura euro- nado número de anos. trabalho do escolar é submetido a péias as mais abaladas, tendo entrado em irreversível todo um programa transmitido oralmente e seu rendi- processo de mudança. Um exemplo claro é da Universi- mento é passível de avaliações periódicas. Tal sistema dade de Roma, que de 1968 a 1969 dobrou número de acaba necessariamente por instaurar diálogo, a inquie- alunos (sem ter dobrado a estrutura de ensino), pois fora tação, a contestação. Já público do museu é variável, abolido conceito de "vaga": a universidade seria para flutuante, não há obrigatoriedade de freqüência e, sobre- todos que quisessem freqüentá-la. tudo, raramente existem contato e avaliações entre Não nos cabe aqui entrar nesta discussão mas tão- visitante e profissionais de museu. Em outras palavras, somente ver em que medida a fermentação e ação dos anos a comunidade, de forma geral, busca museu em suas 60 atingiram museu. Foi nesse clima de insatisfação horas vagas e por não haver contato entre que fazem o cultural que se realizou, na França, a primeira análise siste-60 Marlene Suan 0 que é Museu 61 mática, quantitativa e qualitativa, do público dos museus de A importância do museu para atingir tais metas foi arte europeus, publicada em forma de livro (P. Bourdieu e logo percebida, sobretudo nos EUA, onde estudioso A. Darbel, L'Amour de l'Art, Paris, 1969). Cinco anos mais americano T. R. Adam afirmava, em 1937, que museu, tarde, primeiro grande fruto, a primeira grande resposta: por possuir meios de educar de forma mais "desimpedida" Centro Nacional de Arte e Cultura Pompidou, mais que a escola, deveria talvez declarar-se uma instituição de conhecido como Beaubourg, cantado como o "museu do educação popular básica. Mas, infelizmente, percepção de erguido ao custo de um bilhão de francos no um potencial e sua realização podem ser separados de coração da velha Paris. Qual foi caminho, qual foi a ponte forma bastante profunda: conforme notou com muita entre antigo museu "depósito" e Beaubourg, centro perspicácia estudioso inglês K. Hudson, "os museus multifacetado de cultura, mistura de museu, casa de espe- sempre tiveram notável poder de fazer com que homem táculo e praça pública ? sem estudos se sentisse inferior." Os museus deveriam, portanto, antes de lançar-se em grande aventura educa- cional, aferir em que grau suas exposições, seu edifício, até A vivência, a cultura e a educação: mesmo a grandiosidade de seus mármores e seus vidros o museu como instrumento cuidadosamente polidos não amedrontam visitante comum. de extensão cultural As idéias do uso educacional do museu atingiram Brasil ainda nos anos 30, através de estudiosos da geração do Por extensão cultural entende-se toda a forma de edu- educador Anísio Teixeira e que como ele trabalhavam cação generalizada que, operada sem estar necessariamente dentro do conceito da "Escola Nova". É importante lem- ligada às escolas, visa completar trabalho das instituições brar aqui trabalhos de Paschoal Lemme, de F. Venâncio escolares ou, às vezes, oferecer a única alternativa para Filho, de E. Sussekind de Mendonça e de José Valladares. quem não possui escolaridade alguma. No trabalho de Sussekind de Mendonça vemos sugestões Essa modalidade de atividade ganhou corpo no início de grande alcance e profundidade que até hoje nossos do século, sobretudo nos EUA mas também nos países museus não souberam absorver. Ele apontava, por exemplo, industrializados da Europa. Seu fim mais imediato na para a necessidade de o museu se incorporar à educação Europa era atingir as grandes levas de adultos que, sugados regular, sobretudo infantil, de forma precisa e coordenada pelas fábricas desde crianças, chegavam à maturidade e não como local de simples visitas anuais, por mais anima- "embrutecidos" e "violentos", segundo as autoridades que das que fossem. No campo da ação educativa supletiva do se ocupavam da educação e cultura. Na realidade, era museu, seu trabalho sugeria temas, contatos com associa- crença das elites dirigentes que o proletariado era violento ções, horário noturno de abertura, mudança de instalações, apenas por ser ignorante, daí a necessidade de educá-lo. recursos audiovisuais, metodização das visitas, salas espe- Nos EUA, o objetivo da extensão cultural era, por assim ciais para crianças, etc. dizer, aclimatar e ambientar os contingentes de imigrantes Se tais idéias, entre nós, não frutificaram, mesmo não à língua, costumes e tradições americanas. ocorreu na Europa, nos EUA e mesmo na Ásia e na África.62 Marlene Suano que é Museu 63 Nesses países é muito comum, até hoje, museus possuí- Esses museus educam para a modernização da agricultura rem "clubes de adultos" e "clubes de crianças", que se ao mesmo tempo em que enaltecem a beleza da tecnologia reúnem semanalmente em torno do acervo e de atividades passada. Esse tipo de museu cedo desenvolveu unidades predeterminadas do museu, sob orientação de seus técnicos. móveis capazes de levar versões abreviadas de seu con- Uma variante muito específica do museu como instru- teúdo para locais distantes da cidade-sede: eram o museobus mento educativo são "museus infantis" ou "museus da e o trem-museu, que tiveram grande penetração e foram infância". Embora não exista uma clara definição desse logo copiadas pelos demais museus. A IV Conferência tipo de museu, seu sujeito principal é a criança. Em uns é Geral do ICOM, realizada em 1952 em Paris, passava o mundo infantil do passado (brinquedos, móveis, contos, resolução que visava promover museobus. A partir de canções) que é colocado à vista para a criança de hoje. Em então vários projetos foram desenvolvidos e as publicações outros as coleções são enciclopédicas, referentes ao mundo especializadas contam com grande variedade de artigos natural (geologia, flora, meio ambiente, etc.) e animal narrando o sucesso dos mais variados empreendimentos (a fauna, a evolução das espécies, o homem e sua história) desse gênero. e disponíveis em uma abordagem que privilegia a ótica museu participava assim amplamente da implemen- infantil. tação das diretrizes nacionais no campo da educação, qual Essas atividades educativas se aprofundaram e técni- instrumento preciso e certeiro. E importante frizar COS de museu acabaram por especializá-las ao extremo, instrumento nas mãos do Estado, em um quadro em que a criando, a partir delas, mecanismos de educação especial comunidade era, e ainda é, apenas a recipiente de idéias nos campos da ciência e tecnologia, agricultura e saúde. geradas fora dela. Mas seria possível quebrar esse esquema de museu estruturado por poucos para o consumo de muitos? Museus especiais: o museu como difusor de técnicas de trabalho Ecomuseu: o museu estilhaçado na/da comunidade Essa busca de maior contato entre o museu e a popu- lação acabou por criar tipos especiais de museu, em tudo diferentes do museu tradicional. A eficácia da educação Em meados dos anos 60, profissionais ingleses começa- supletiva ministrada através dos museus fez com que esses ram a abrir as portas do museu para um público que não museus especiais se voltassem sobretudo para mundo do mais participava como "paciente" mas como autor mesmo trabalho e melhoria das condições de vida. Os países socia- de suas exposições. A experiência teve início no Imperial listas, a Ásia e recém-formados Estados nacionais afri- War Museum (Museu Imperial da Guerra), cujo Departa- canos criaram inúmeros "museus da agricultura", onde mento de Arquivos passou a registrar depoimentos dos técnicas de operar solo, de plantio e de colheita são participantes daqueles eventos que documentava. Tais mostradas de forma simples e direta, amplamente ilustradas. pessoas, em número cada vez mais crescente, passaram64 Marlene Suano que é Museu 65 também a subsidiar técnicos em montagens de expo- exposições dos edifícios do museu. Tal projeto, entregue sições, reconhecimento e catalogação de peças, etc. No em 1972, foi imediatamente posto em execução, consti- início dos anos 70, curso de pós-graduação em estudos tuindo-se num dos primeiros casos europeus em que museológicos da Universidade de Leicester (Inglaterra) museu deixou de existir como tal para, por assim dizer, orientou equipes de alunos na elaboração de dois projetos materializar-se entre a comunidade que gerou e viveu pioneiros. primeiro, para a English China Clay Company processo que ele pretendia retratar. segundo projeto teve (Companhia Inglesa de Caulim) teve uma equipe de quatro uma equipe de três pessoas (um historiador, um geógrafo pessoas (dois historiadores, um e um e um e prendeu-se à viabilização de um museu da qual o Autor participou na qualidade de arqueólogo. para a primeira ponte de ferro fundido construída na 0 projeto apresentado era bastante diferente do museu de Inglaterra, conhecida simplesmente como Ironbridge indústria tão comum na Inglaterra. Ao invés de nova e (ponte de ferro) e erguida sobre rio Severn, no Glouces- pomposa instalação, com belas vitrinas e painéis de acrílico, tershire em 1709. Neste local, mestre-ferreiro Abraham projeto previa uma sede de trabalho, com modesta área Darby foi pioneiro em fundir ferro usando carvão de exposição que serviria, na realidade, tão-somente para coque como combustível. Abria-se assim caminho para orientar OS visitantes em um roteiro externo que os faria primeiros trilhos de ferro, pontes, barcos, aquedutos e percorrer toda a história da companhia naquela parte da estruturas de edifícios em ferro fundido, caminho este que Cornualha (St. Austell), através de visitas a antigas instala- fez da Inglaterra primeiro país industrial e líder da ções desativadas (séculos XVIII-XIX), velhas casas operárias chamada "revolução industrial" que tão radicalmente (séculos XVIII-XX), poços de extração do caulim já exau- transformou nosso mundo. projeto, entregue em ridos e assim por diante. Nas antigas instalações seriam 1973 e implantado a seguir, montou um museu ao longo montadas pequenas mostras dos produtos da companhia de 4 km do vale do rio Severn, articulando estruturas naquele período, das condições de vida dos operários existentes do século XVIII, incluindo altos-fornos, casa comparadas com as de outras categorias de trabalhadores de pedágio da ponte, comportas do Severn (construída daquele mesmo período e papel da companhia no cenário em 1793), mina de carvão, etc. Esta região, situada entre industrial de toda a Inglaterra e Europa. Inovações e rompi- Bristol e Manchester, continuou densamente industrializada mentos ao longo da trajetória da companhia seriam igual- e a comunidade tem grande interesse pelo seu passado. Ao mente expostos. Reuniram-se documentos desses três longo de dezoito meses, realizou-se levantamento com séculos passados e locais neles mencionados foram participação da população escolar de todos os equipa- percorridos junto com habitantes da região que, como a mentos de trabalho e domésticos existentes na zona. maioria daquela comunidade, depende da companhia de Casas, oficinas, fabriquetas e grandes indústrias fazem caulim. Ficou tão patente a integração entre a companhia igualmente parte do roteiro geral do Ironbridge Gorge e a comunidade que, com a concordância de ambas, Museum. museu se propunha a mostrar justamente isso ao visitante. Esse tipo de experiência e seu significado podem ser Assim, casas particulares foram incluídas no roteiro e melhor aferidos em trabalho de Hughes de Varine-Bohan, dessa forma seu conteúdo não foi retirado para figurar nas publicado em 1973 na revista Museum. Neste trabalho66 67 Marlene Suano que é Museu ele apresenta o projeto do Museu do Homem e da Indústria hoje por 75 acres, nos quais coexistem 120 edifícios. da cidadezinha mineira de Le Creuzot-Montceau-les-Mines, museu promove pesquisas, seminários, encontros, festi- na França, definindo-o como um ecomuseu, "estilhaçado" vais de música e teatro, ciclos de medicina popular, de na comunidade. culinária tradicional e assim por diante. Este tipo de museu A grande vantagem dessa estrutura de museu é a sua tornou-se bastante comum na Escandinávia e em toda a efetiva contribuição na preservação de tradições e Europa. Um dentre os mais famosos é de Lyngby, ligado tumes de uma comunidade pela valorização in loco e não administrativamente ao Museu Nacional da Dinamarca e pela retirada de certos objetos "importantes" de seu con- situado nos arredores de Copenhague. Ele ocupa aproxi- texto de uso para "local privilegiado" das vitrinas do madamente 300 hectares de terreno onde estão reunidos museu. Tal museu significa um roteiro que visa retraçar a cerca de duzentos edifícios e construções várias. Igrejas, trajetória de um determinado período da história daquela pontes, escolas, fabriquetas, casas de fazenda, residências comunidade, integrando-a com o seu significado presente. urbanas, etc., etc., foram trazidas de todas as partes da A proposta de museu "estilhaçado" nada tem a ver com os Dinamarca e remontadas ali, em situações de terreno seme- museus "ao ar livre" ou "vilarejo-museu" e os museus à sua implantação original. Muitas dessas cons- comunitários, como veremos a seguir. truções, aliás, representam hoje os únicos exemplares que restaram de um determinado tipo de arquitetura. Na União Soviética tal experiência foi incorporada mas museu ao ar livre já com feições preventivas: deu-se estatuto de cidade- museu às cidades medievais de Suzdal e Wladimir, que ou "vilarejo-museu": imitações recebem hoje cerca de 10 mil visitantes por dia. de vida ou participação? Nos EUA, o museu ao ar livre também chamado "museu de sítio" teve grande desenvolvimento. Richard Este museu consiste, na maioria dos casos, de um con- Perrin, um estudioso de museus americano, ao publicar junto de edifícios que ilustram o modo de vida de uma dada um trabalho sobre museus ao ar livre, em 1975, explicitou comunidade em uma determinada época do passado: dois dos pilares que sustentaram a paixão americana por residências, escola, igreja, moinho, galpões de artesanato, seus museus. Em primeiro lugar, a emoção de ver os lugares cervejaria, matadouro, etc., etc., etc. A principal técnica freqüentados no passado por homens famosos (já apontada museográfica deste tipo de museu é criar um ambiente em pelo romano Cícero como sendo mais forte e mais interes- tudo parecido com real, evitando ao máximo vitrinas, sante do que ler seus escritos ou ouvir narrativas sobre seus legendas, enfim, tudo o que possa lembrar aparato tradi- atos) foi a motivação básica para a manutenção de grande cional de um museu. primeiro desses museus foi criado parte de edifícios americanos. Em segundo lugar senti- na Suécia, em 1891, pelo filólogo Artur Hazelius, com mento, nas palavras do arquiteto inglês William Lethaby, nome de Skansen, e com a finalidade de preservar caracte- morto em 1931, de que "a história através dos monu- rísticas culturais nórdicas em vias de desaparecimento mentos é provocante e vital: pode ser tocada e a história devido ao avanço da industrialização. Este museu se estende que pode ser vista e tocada é um forte e estimulador alimen-69 9 68 Marlene Suano que é Museu to para a alma, inteiramente diferente da maçante e vaga his- do museu). Além disso, o museu americano reproduz a tória escrita". Os EUA possuem hoje cerca de 150 museus ao principal característica da democracia americana: a igual- ar livre, ou "vilarejos-museu", de vários tipos e tamanhos, e dade de todos. Assim, grandes homens americanos foram um mercado de antiguidades tão florescente quanto enga- homens comuns, de extração social idêntica à de grande noso: tudo que tenha mais de cinqüenta anos é considerado massa de americanos. A distância entre eles e os cidadãos como "antiguidade" e existe tal ansiedade de compra que se comuns sempre foi tão pequena que é possível igualar-se a torna cada vez mais difícil a preservação pública de seja lá eles, e museu faz a magia: casas e ruas onde se lutou pela o que for. A necessidade do passado como ponto de apoio Independência, quartos e camas em que dormiram George nacional é tão grande que, na ausência dos originais, simples- Washington, cadeiras onde se sentou Abraham Lincoln, mente se reconstrói o "monumento vilarejo janelas por onde olhou Jefferson. Obtém-se, pela repetição de New Salem, onde morou e estudou Abraham Lincoln, do ato, a incorporação da grandeza do outro, igualar-se a hoje transformado em vilarejo-museu, tem apenas um edifí- ele pela repetição de seus movimentos, por mais banais que cio original, sendo todos os demais reconstruídos a partir sejam, pelo simples perambular por locais a ele habituais. de pesquisas arqueológicas e arquivísticas. Mas mesmo Num país de história européia recente, como os EUA, é edifícios originais, remontados para recompor uma cidade- compreensível a necessidade de exacerbarem-se "fatos zinha dos anos 1790-1840, como é caso de Old Sturbridge históricos" e supervalorizarem-se as "personagens histó- Village, parecem não bastar como "realismo ricas", usadas como pontos de gancho vitais para se dar ao Neste vilarejo-museu da Nova Inglaterra, pessoas vestidas novo país uma feição reconhecível por todos. Ao visitante com trajes antigos perambulam pelas ruas, guardam animais, é dada a possibilidade de "fazer de conta" que ele viveu ali, fazem a horta, trabalham na olaria, meninas cobertas de que ele também participou daqueles eventos, que ele é rendas tocam piano, mulheres suarentas operam fornos e igualmente responsável por aquelas batalhas e conquistas. fogões, etc., etc. mais impressionante desse gênero de Como agente agregador e formador de "consciência nacio- empreendimento nos EUA é sem dúvida o vilarejo de nal", este tipo de museu é extremamente eficiente e a comu- Colonial Williamsburg, que ocupa 173 acres de terreno e nidade o admira, apóia e defende. cuja origem data do século XVII. Custeada em grande parte Em termos de se mostrar simplesmente "a vida de antes", por John D. Rockefeller Jr., a reconstrução dos edifícios foi museus de arte e tradições populares europeus são menos minuciosa e neles se encontram em exibição mais de 100 pirotécnicos e mais eficientes. melhor exemplo é mil objetos da época! A Colonial Williamsburgo foi palco de Museu de Artes e Tradições Populares de Paris, onde importantes momentos da história americana e os mantene- ambientes da vida e do trabalho franceses na área rural e dores do atual vilarejo-museu vêem na sua preservação a urbana são recompostos de forma séria e com resultado de preservação mesma dos "princípios básicos da autogestão e impressionante beleza. liberdade individual que os americanos fundaram em Retornando ao argumento anterior, vemos então a Williamsburg", além de representar uma lição perene sobre grande diferença entre eco-museu e museu ao ar livre: "o patriotismo, altos ideais e devoção desprendida dos primeiro visa proteger e manter que existe em uma antepassados para com bem comum" (de um folhetinho comunidade viva, com a participação de seus membros,71 70 Marlene Suano 0 que é Museu 9 enquanto o segundo protege, pela imobilização, obras a melhoria das condições de vida passaram a ser a espinha materiais do passado, muitas vezes recriando tal passado de dorsal do Museu de Anacostia, que serviu de modelo para forma idealizada e com claro endereço ideológico. centenas de congêneres nos EUA e em áreas deterioradas da Europa. Uma outra modalidade de museu diretamente envolvido Os museus comunitários ou de vizinato: com a população começou a nascer na África, nos anos 70, e não foi batizado com nenhum nome especial. primeiro reflexão sobre o presente deles foi o de Niamey, na Nigéria. Em um grande parque, na cidade, os diferentes grupos étnicos que fazem parte do Os museus comunitários ou "de vizinato" divergem Estado nigeriano estabeleceram exemplares de suas casas, ainda mais do eco-museu. Enquanto que no eco-museu a onde artesãos praticam diariamente seus ofícios tradicionais população conscientemente preserva suas bases materiais diante dos visitantes. A grande proposta dos museus afri- de convivência, algo de seu, por assim dizer, já consagrado, canos é servirem de patamar para a agregação nacional, uma museus comunitários surgem como mecanismos propi- duríssima tarefa quando se sabe que colonialismo europeu ciadores de reflexão em momentos de crise, sobretudo em na África criou Estados inteiramente irreais e artificiais, bairros pobres dos EUA. mais notável deles é de Ana- cujas fronteiras cortam ao meio e separam um mesmo costia, bairro de Washington habitado quase exclusivamente grupo étnico e unem, no mesmo processo, grupos e tribos por negros de baixa renda, onde índice de desemprego é antes rivais seculares. museu serviria assim para levar bastante alto. projeto teve início em 1967, sob patro- conhecimento sobre cada um desses componentes étnicos e cínio da Smithsonian Institute, uma rica instituição cultural oferecê-lo ao conhecimento de todos, numa tentativa de americana, mantenedora de grande museu e financiadora de fomentar contato e boa vontade. importantes pesquisas e publicações científicas no campo Esse uso do museu como formador de consciências, da História Natural e da Antropologia. Embora Museu de mais precisamente, como "criador de consciência cívica" Anacostia seja hoje responsabilidade de um corpo especia- teve um certo vôo bastante curto na Europa da virada lizado, qualquer habitante do bairro pode fazer parte de deste século. Entre anos de 1902 e 1912, Edinburgo, na um dos seus vários comitês consultivos e diretivos. A crise Escócia, foi palco de estudos do então chamado "museu que levou a população de Anacostia a reunir-se e criar um cívico", criação de Patrick Geddes, que difundia como museu foi a grave situação ambiental do bairro, que era sendo a estrutura necessária a toda cidade grande na sua castigado por grande presença de ratos que infestavam as tarefa de "educar para a cidadania". Muitos estudiosos de casas e mordiam as pessoas adormecidas, sobretudo crianças. museu vêem no museu cívico de Geddes primeiro germe A primeira exposição do futuro museu tratava justamente do museu de cidade, embora, a meu ver, a distância entre de tal praga e como combatê-la. Posteriormente, uma expo- um e outro resida em concepções profundamente diferentes sição preparada com desenhos e depoimentos infantis dos conceitos de "educação" e "cidadania". narrava a "convivência com ratos". Tal exposição circu- lou pelos EUA e chocou as autoridades. A reurbanização e73 que é Museu 9 72 Marlene Suano vivesse para ela, de maneira "calma, pacífica e Museu de cidade: educação, memória, o museu de cidade deveria servir para desenvolver cons- ciência crítica e fomentar a participação na vida e transfor- preservação, desenvolvimento mação da cidade. museu de cidade deveria ser importante veículo coletor de problemas, lugar privilegiado onde a museu é, sem dúvida, uma instituição urbana por população discutisse e fórum de decisões sobre a vida excelência. Contudo, a cidade que abriga e mantém rara- urbana. passado da cidade seria aí explicado como mente é um de seus objetos de reflexão. museu cívico produto do trabalho das diversas classes sociais e como os idealizado por Geddes propunha-se a "desvendar a cidade" interesses de cada uma ficou à mostra até mesmo no tra- para seu habitante, fazer com que ele a conhecesse, amasse çado das ruas, nas praças e jardins e assim por diante. Tal e respeitasse. Acreditava-se, então, que o aparecimento das museu agregaria, dessa forma, as funções que não são em grandes cidades com mais de um milhão de habitantes esti- absoluto conflitantes de preservação daquilo que de vesse tornando as pessoas desencontradas e confusas diante material nos ficou do passado e de desenvolvimento da de sua grandeza. Entre confusão e agressão via-se pequena cidade. Ele teria, também, devidos mecanismos para distância e assim se justificavam os crescentes problemas viabilizar a participação da população enquanto agente e urbanos. Hoje, o museu da cidade é bastante comum em não mera espectadora num museu que seria a memória todo o mundo, embora os preceitos diretores de Geddes viva e pulsante da cidade. tenham sido de há muito esquecidos. Em tais museus, a cidade é objeto de detalhada suas origens, glórias, filhos ilustres, seus feitos. Onde a Museu Beaubourg de Paris: poluição, desemprego, as condições subumanas de mora- dia, a deficiência dos transportes públicos, as precárias o museu e a praça condições sanitárias, etc., etc.? Tais questões, tão pre- mentes em nossas cidades, não tem nenhum lugar em seus Beaubourg como é conhecido pelos franceses o museus porque, claro, não divertem e não distraem. Centro Nacional de Artes e Cultura Georges Pompidou historiador do urbanismo G. Hardoy, argentino, fez tal que tem por eixo a cultura francesa contemporânea, foi constatação sobre os museus de cidade na América Latina, criado para reunir atividades antes dispersas em vários nos quais está ausente exatamente o fenômeno urbano. pontos da cidade. edifício, resultado de concurso interna- Entre nós, o assunto não tem merecido a atenção dos cional, é obra do arquiteto italiano Renzo Piano e equipe. especialistas, salvo pelos estudos de U. Bezerra de Meneses, Ele se ergue por andaimes e patamares de aço com diversas de recente publicação. escadas rolantes panorâmicas entre os diversos pisos onde Foi dito acima que a principal diferença entre o museu divisórias leves formam ambientes mas não bloqueiam o cívico de Geddes e aquilo que deveria ser um verdadeiro som. A privacidade! é pequena, o nível de concentração é museu de cidade está na concepção de cidadania e educação baixo, mas esse museu consegue conter em si infindáveis de cada um. De fato, enquanto museu cívico se propunha espaços de convivência, como se formado por inúmeras e a amoldar indivíduo à cidade, fazendo com que ele75 74 Marlene Suano que é Museu 9 ruidosas praças públicas. A música e burburinho lembram A coleta responderia, assim, a indagações bem definidas de as praças em dia de feira. Não há direções obrigatórias a tal projeto. Além do mais, tanto projeto quanto seguir ou pedidos de silêncio; as crianças correm, casais critérios que norteiam devem ser bem explicitados para namoram e temos certeza, ao visitá-lo, que Beaubourg que as conclusões possam ser checadas e para que todo o recuperou a magia, a beleza, a alegria e o calor de nossas trabalho tenha validade futura, quando outros cientistas antigas praças públicas. Ele não deixa, contudo, de cumprir precisarem de tal pesquisa para o andamento de outros seu papel de depositário de parte da criação material da trabalhos. Tais princípios são perfeitamente válidos para cultura francesa contemporânea, tendo equipe de especia- todos os tipos de museu e para qualquer coleção que listas servindo de suporte e ponte de ligação com a produ- museu forme. ção artística de toda a França. Suas exposições se renovam Devemos também contar, evidentemente, com coleções com grande freqüência, e público não apenas supera formadas por amadores, em tempos passados, e que muitas numericamente aquele do Museu do Louvre como, ainda, vezes se revelam de grande valia para a pesquisa científica, é composto por franceses, algo que não sempre que acompanhadas dos dados vitais de identificação ocorre em nenhum dos grandes museus de Paris. e proveniência dos espécimes e/ou objetos. Embora toda e qualquer área do conhecimento humano pudesse, via de regra, estruturar seu museu, ele é, de fato museu e a pesquisa científica a instituição básica para funcionamento de apenas algu- mas delas. São as pesquisas de história natural (zoologia, segundo foco de interesse do eixo "museu e socie- biologia, botânica, geologia) e de cultura material (arqueo- dade" é, como foi dito à p. 57, a pesquisa científica. logia, etnografia, história, artes) que dependem do museu Vimos, nestas últimas páginas, que o museu batalhou para se desenvolverem a contento. Tais disciplinas exigem arduamente para deixar de ser um armazém de objetos e pesquisa de campo e formação de coleções que apenas transformar-se em gerenciador de cultura. E é sabido, museu pode abrigar e processar convenientemente. A afinal, que museu será tão sólido quanto seja a pesquisa etnografia, na realidade, poderia fazer uso apenas da pes- científica que nele se processa. quisa de campo e de documentação visual (fotos, desenhos, desenvolvimento da ciência no século XIX tirou da filmes) mas avanço do mundo dito "civilizado" sobre as coleção caráter de simples curiosidade e deu-lhe esta- culturas primitivas tem-na aconselhado a formar coleções tuto científico que até hoje a acompanha. A definição de representativas da cultura material de grupos que, infeliz- museu que vimos à p. 9 coloca "coletar" e "estudar" mente, tendem a desaparecer enquanto culturas autônomas. como as tarefas iniciais do museu, seguidas de "expor com No caso do museu de artes plásticas para as quais existe fins educativos ou de lazer". Em princípio, não há distin- possante mercado privado museu serve, também, como ção entre "coletar" e "estudar", a não ser como passos importante veículo democratizador, que possibilita diversos da pesquisa científica. Isso porque a coleta não usufruto de obras que a quase totalidade dos indivíduos deveria jamais ser feita a esmo mas sempre dentro de um jamais poderá comprar. projeto de estudo bem delineado e com critérios precisos. Como ensino acadêmico da maioria das disciplinas76 Marlene Suano que é Museu mencionadas acima se dá na universidade, raros são os encarado quase como uma fatalidade pelos especialistas, da museus que não mantenham contato com ela ou não que preferem ocupar-se apenas da pesquisa de campo e sejam dela diretamente dependentes. preservação dos bens culturais no âmbito executivo da A pesquisa científica no museu é, dessa forma, ao superintendência. Assim, enquanto museus cientificamente ativos são menos teoricamente, privilegiada pela estrutura à sua disposição. Teoricamente porque depende quase sempre de abertos e oferecem constantes possibilidades de pesquisa verbas oficiais, sendo que nos países do Terceiro Mundo aos cientistas, museus inativos vão-se fechando cada vez essa dependência é quase total. mais sobre si mesmos e seus "pesquisadores" se transfor- Quando se fala em pesquisa científica é conveniente mam em tristes e amargos guardiães de um tesouro sem lembrar que ela oferece sérios riscos ao museu. De fato, há valor algum. Os museus universitários poderiam, em princípio, museus que acentuam quase que exclusivamente seu papel na área científica e perdem, dessa forma, contato com superar tais riscos, próximos que estão de um público jovem e aberto à aprendizagem. Eles padecem, coritudo, salvo público que não seja especializado. Nesse ponto, por mais contraditório que possa parecer, são museus universi- raras exceções, de inadequada organização interna, e a maior parte deles ainda não conquistou estatuto verdadei- tários que menor preocupação demonstram para com ramente científico. E corpo discente, ao tentar participar público. As tarefas "didáticas" são normalmente vistas com de suas atividades, acaba quase sempre servindo como desdém pelo especialista que, via de regra, as evita. As mão-de-obra barata (ou até mesmo grátis) sob a figura de exposições são raramente renovadas e a linguagem de sua apresentação é hermética, sempre além da compreensão "estagiários". Tal quadro sofrerá alterações apenas quando museu aprender a integrar os iniciantes em seus projetos do visitante comum. necessário equilíbrio entre pesquisa científica e de pesquisa. Além da pesquisa de campo e de seu acervo, museu divulgação ao público, antes de mais nada, precisa ser desejado e planejado. Tal equilíbrio custa esforço constante comporta, ainda, atividades de restauro, conservações e e apenas os grandes museus autônomos dos EUA, Canadá publicações, todas elas intimamente ligadas à realização e Europa têm conseguido mantê-lo. A autonomia parece ser da pesquisa científica. As atividades de conservação e restauro não devem ser a chave propiciadora de tal equilíbrio. Na maior parte das vistas como "serviços de reparo" cujo objetivo principal vezes em que o museu depende de uma outra instituição, os seria tornar as peças mais vistosas. Elas só podem surtir especialistas empenham-se muito mais na vida da instituição- efeito positivo quando executadas dentro de um contexto mãe e o museu é facilmente abandonado. Tal situação é de dupla pesquisa. Por um lado, elas comportam técnicas muito clara na Itália, onde a maior parte dos museus serve como depósito de coleções importantíssimas mas que não precisas, que envolvem conhecimento de química, física, biologia, etc., e não apenas habilidade manual. o restau- são usadas para produzir conhecimento, sendo uma ou rador deve estar sempre em dia com técnicas e materiais outra vez consultadas por algum pesquisador mais erudito. Dependentes quase sempre das superintendências arqueo- pertinentes à sua área de atuação e ser plenamente capaz de realizar pesquisa para melhor resolver casos incomuns. lógicas ou de artes plásticas e arquitetura, o museu é ali78 Marlene Suano que é Museu 79 0 restauro, além disso, deve ser seguido de perto pelo Museografia e formação de pessoal especialista de quem seu estudo científico depende. Tal procedimento visa não apenas orientar restaurador no Ao discutir este tópico que é, ou deveria ser, um dos tocante a determinadas respostas a serem buscadas como, principais pilares sobre quais se assenta museu, deve- ainda, retirar de cada passo da ação do restaurador infor- mos, antes de mais nada, discutir 0 significado dos termos mações a respeito da peça que sofre processo de res- museologia e museografia. tauração. Além do mais, especialista da área, e não Observa-se uma ampla tendência, no círculo dos espe- restaurador, é quem deve determinar momento de parar cialistas, de se definir museologia como "o pensar-se processo de restauro, deixando a peça com determinadas museu" e a museografia como "fazer-se museu". Em características e não avançando além. outras palavras, a museologia comportaria a elaboração de As publicações, em um museu, deveriam refletir sempre projetos, programas, linhas de abordagem, enquanto que produto do trabalho do museu, fosse ele científico ou a museografia executaria em sua concretitude física puramente de divulgação e educação dirigida. Catálogos, (vitrinas, painéis, iluminação, segurança, etc.). folhetos, livretos e revistas científicas são, sempre, faces da termo museologia significa, literalmente, "a ciência mesma moeda: a produção cultural em curso no museu. do museu" (logia sendo sufixo derivado de logos, palavra Assim é que a maioria dos museus procura publicar em grega que significa ciência) e dele se pode dizer que, na todos OS níveis apontados acima e algumas dessas publi- melhor das hipóteses, estaria tirando da palavra ciência cações são muito procuradas pela pertinência e acuidade valor e peso que são próprios. De fato, pela definição com que tratam seus temas. As publicações refletem, além mais corriqueira de ciência conjunto de conheci- disso, grau de inserção do museu em seu meio científico: mentos humanos sobre a natureza, a sociedade, pensa- sabidamente cientistas entregam seus trabalhos para publi- mento, adquiridos pela descoberta de leis objetivas dos cação apenas a revistas de prestígio. Assim, muitas vezes, a fenômenos e sua vemos claramente que publicação de trabalhos de pessoal que não pertence ao montar projetos e programas para a manutenção de uma quadro funcional do museu pode refletir conceito de que instituição não se constitui em uma disciplina científica. esse museu goza entre especialistas da área. Já termo museografia se revela menos impróprio para 0 Vemos, portanto, que a pesquisa científica pode ter objeto que procura definir. termo significa "descrição de vida autônoma no museu, de sua formulação à própria museu" (graphê, em grego, significa descrição). Ou seja, publicação dos resultados. mais comum, contudo, é que estudos sobre depósitos, iluminação, condições ambientais as pesquisas se refiram ao acervo do museu ou, quando do museu, etc., são objeto próprio da museografia. pesquisas de campo, que tragam acervo para o museu. Apesar da impropriedade dos termos, há, de fato, uma Assim ocorre com museus de arte e museus de histó- diferença marcada, e muito lógica, entre dois tipos de ria natural, deixando muito a desejar no caso dos museus trabalho. Em primeiro lugar, apenas especialista em uma que tratam da cultura material. Sobretudo entre nós, obje- das áreas de conhecimento do acervo do museu (antro- tos ainda servem, prioritariamente, para serem classificados e pólogo, geólogo, historiador, conforme tipo datados, sem que estudos ousem vôos mais consistentes. de museu) é que estará apto a tratar com pertinência e80 Marlene Suano que é Museu 81 MUNICIPAL profundidade as linhas, programas de atuação da insti- contato com o pesquisador que tuição e a apresentação ao público daquilo que ele produz: ser executado, para inicial seja transmitida isto é, conhecimento sobre uma determinada realidade. de forma clara e objetiva. Traçadas as linhas, definidos programas, projetados A formação de pessoal habilitado a trabalhar em museus parte deles (como, por exemplo, exposições), passa-se à deveria, portanto, responder a tais necessidades e isso de sua execução propriamente dita enquanto apresentação fato já ocorre em muitos países. Os três grandes cursos de física. Ou seja, organização de vitrinas, elaboração de formação em estudos de museu ("estudos de museu" e painéis e legendas, sistema de segurança do acervo, etc., não "museologia"!) existentes na Europa (Manchester e tudo com base nas exigências traçadas pelo especialista Leicester, na Inglaterra e Brno, na Tchecoslováquia) exigem naquele acervo a ser mostrado. do aluno graduação em uma das disciplinas que fazem uso A primeira fase traçar diretrizes e elaborar programas do acervo de um museu. Os cursos, então, discutirão envolve posicionamento teórico e político. Ela deve pres- sobretudo legislação pertinente aos bens culturais, admi- supor o ambiente cultural em que está inserido museu, nistração pública e privada, relações internas do museu e comportando o meio ambiente e a história da relação do intermuseus, filosofia e política que orienta a preservação homem com esse meio ambiente, especificando que essa dos bens culturais, usos do museu na sociedade e, final- relação histórica produziu. Assuntos e temas externos à mente, noções de museografia e restauração que permitam região devem ser a ela reportados, num quadro histórico ao aluno discutir e interferir em tais serviços quando mais. abrangente. Importante lembrar que a distância realizados no museu onde trabalhará após curso. Tais nunca é grande demais: uma exposição da cultura egípcia cursos são todos, portanto, a nível de pós-graduação. antiga realizada no interior paulista pode perfeitamente É também importante lembrar que, na Europa e EUA, enfatizar valores universais sobre a concepção de vida e serviços de museografia são normalmente executados da morte, por exemplo, já que essa é uma das variáveis mais por arquitetos (muitas vezes com auxílio de programador notáveis da cultura egípcia do tempo dos faraós. Só assim visual) altamente especializados, na maior parte das vezes haverá integração entre museu e público, uma das pedras pertencentes a firmas que só executam esse tipo de serviço de base do atual conceito de museu. (e, portanto, fora dos quadros de funcionários do museu). A segunda fase consiste, basicamente, na implantação No caso brasileiro temos dois modelos diversos de cursos: daquilo que se projetou na primeira fase. Aqui, princípio um de graduação e outro de pós-graduação. primeiro mais importante é de usar linguagem visual clara e precisa e enfrenta a impossibilidade de formar um especialista e meios de comunicação que não marginalizem nenhuma das limita-se a fornecer "informações gerais" sobre as disci- categorias de visitantes do museu. Vitrinas, etiquetas, plinas que estudam acervo do museu e sobre tais painéis com textos, iluminação, circulação, área de repouso, segundo caso, embora a nível de pós-graduação, não tudo deve compor um quadro informal e sereno sem, exige vínculo de uma graduação compatível com tipo contudo, reproduzir as condições de "santuário" que alguns de museu a que aluno pretende se dedicar. Podemos, museus ainda insistem em manter. técnico de museu assim, ter bacharéis em direito, trabalhando museus (ou museógrafo) deve forçosamente trabalhar em estreito de tecnologia.82 Marlene Suano que é Museu 83 De qualquer forma, em ambos casos, pessoal assim trabalhador no início do século em confronto com modo formado poderá render muito, profissionalmente, sempre de vida das elites governantes, os movimentos reivindi- que orientado pelo especialista, pelo pesquisador respon- catórios, etc. sável pelo acervo do museu. De fato, desta interação depen- Não que museu devesse jogar no lixo as suas belas derá desenvolvimento de várias linhas de estudo do mu- liteiras! Pelo contrário! Mas que passe a apresentá-las sem seu, como a avaliação das relações museu e público, entre omitir homens que as carregavam, os que iam dentro e museu e artista e entre museu e o mercado artístico as diferenças entre eles, única forma de dar perspectiva (no caso de museus de artes plásticas). e profundidade ao presente. Assim, embora a formação de pessoal varie de acordo Os recursos museográficos hoje à disposição do profis- com as necessidades locais, certas características são, sional de museu para a concretização de suas propostas inegavelmente, vitais e comuns a todos os casos. Em pri- são variados e muito ricos. Nós poderíamos aqui dividi-los, meiro lugar, não se pode aceitar no corpo funcional do apenas para melhor apresentá-los, entre aqueles que afetam museu pessoas que tenham qualquer envolvimento com o estudo do acervo e aqueles que se referem à apresentação mercado artístico ou com antiquariato. Nessa mesma desse estudo e desse acervo ao público. linha de comportamento ético, é vedado ao profissional Em relação ao acervo e à pesquisa científica, a museo- de museu desenvolver coleções particulares paralelas àquelas grafia faz-se notar desde a divisão interna do espaço, a existentes no museu onde presta serviços. Tais pontos, que circulação entre salas de pesquisadores, biblioteca e depó- fazem parte do código de ética do ICOM/UNESCO nunca sito do acervo não visível ao público. As atividades de foi muito respeitado em nosso país. pesquisa compreendem os processamentos técnicos de Uma das principais características do profissional de classificação e documentação (fotográfica e gráfica), além museu e que deveria ser tratada com seriedade em todos de exigirem constante uso da biblioteca. espaço do cursos de formação é a capacidade para reelaboração museu deve, portanto, prever áreas para tais atividades, cultural. Isto é, profissional de museu deveria, como além de salas para pesquisadores. Os grandes museus bem notaram Binni e Pinna em 1980, compreender e geralmente reservam um grande salão que serve de labora- absorver a cultura local, participando ativamente das tório de preparo de exposições, além de um laboratório de ocorrências políticas, econômicas, científicas, sociais, e conservação e restauro e um laboratório fotográfico. saber reelaborá-las na prática, na sua área de especialidade Como tais espaços e aqueles destinados ao uso público científica. Essa tarefa não é absolutamente impossível e, são ordenados entre si? Muito se tem discutido, nos cursos aliás, nem mesmo difícil. No Brasil de hoje, por exemplo, e revistas especializadas, sobre a existência ou não de uma atravessando uma de suas maiores crises econômicas, com "arquitetura de museu". A resposta a tal questão tanto perda de poder aquisitivo das classes médias e baixas, pode ser um "sim" quanto um "não". Por um lado, sabe- parece-me óbvio que um verdadeiro museu de história mos perfeitamente bem que homem tem conseguido deveria estar discutindo a verdadeira história do país: transformar e adaptar edifícios para mais diversos usos: arregimentação da mão-de-obra na colônia, a industri- residências transformadas em hospitais, hospitais em alização e os contingentes de imigrantes, a situação do escolas, escolas em hotéis e assim por diante. Dessa forma,84 Marlene Suano que é Museu 85 edifícios construídos para outros fins têm sido adaptados técnico de museu vê-se quase sempre constrangido a exercer para servirem como museu e, verdade seja dita, até com sua criatividade em improvisações, enfrentando situações muito sucesso, preservando-se a arquitetura original e de extrema precariedade. fazendo dela um foco de interesse a mais na visita. Não Assim, com um sólido eixo para suas discussões e preo- podemos acreditar, portanto, na existência de um "código" cupando-se com recursos museográficos, a formação de que regeria a construção de museus, como se pudesse haver pessoal e as publicações, museu passou, ao longo desse um padrão universal de museu. Ora, museu, tanto quanto nosso século XX, por transformações de monta, que espe- qualquer edifício público ou privado, reflete os padrões ramos ter apontado nesse capítulo. Contudo, mesmo culturais do meio onde é erguido. Assim sendo, são esses museus mais ativos e mais dedicados à implantação das padrões locais e todas suas variantes ao longo do tempo novas linhas geradas nos últimos decênios continuam que balizarão as construções novas e mesmo o reaprovei- privilegiando 0 "ver" em detrimento do "incorporar, tamento das antigas. século XIX, nos Estados Unidos, digerir e criar", como veremos a seguir. construiu seus museus e bancos, indistintamente, com fachadas imitando templos gregos antigos! São, por- tanto, conceito de museu e as funções que a sociedade lhe determina que moldarão sua forma física e, claro, tam- bém sua apresentação interna. A existência de saídas de incêndio, alarmes contra roubo, mecanismos de prevenção de incêndios e vários outros sistemas protetores são comuns, hoje, não só aos museus como à maioria de edifícios públi- COS e mesmo privados. Não são tais sistemas, portanto, que servirão para testemunhar a favor de uma "arquitetura de museu" específica. Aliás, nos dias de hoje, a transformação de espaços é bastante facilitada pela tecnologia existente e possibilita grandes vôos de criatividade, independentemente de câno- nes preestabelecidos. A apresentação do acervo ao público amealhou, ao longo dos últimos anos, grandes aliados junto às empresas especializadas em feiras comerciais. De tal atividade puderam receber e adaptar convenientemente painéis, divisórias, móveis, iluminação direcionada, sistemas de alarme e segurança e assim por diante. técnico de museu deve agir com inteligência nessa adaptação para que ela produza melhores resultados. Em nosso meio, con- tudo, dada a constante falta de recursos adequados,() que é Museu 87 fosse qual fosse, pudesse ser cumprido? A maioria dos responsáveis por museus responderia a tal questão com binômio "verba e pessoal". Ou seja, segundo eles, à maioria dos museus faltariam recursos financeiros e humanos. A tal se ajuntaria, quase certa- mente, que "as autoridades públicas não dão valor ao museu". Dissemos, ao finalizar capítulo anterior, que a maioria A SITUAÇÃO ATUAL dos museus continua a privilegiar "ver" em detrimento do "incorporar, digerir, criar" e é esta linha diretiva, no nosso DOS MUSEUS: CARÊNCIAS entender, mais que qualquer questão de verba e de pessoal, E PERSPECTIVAS a principal carência dos museus hoje. Como incorporar e digerir que museu apresenta e, a partir daí, criar? A tarefa não cabe ao visitante, isolada- mente. Ela é responsabilidade básica, antes de mais nada, dos museus. Tem sido fartamente dito e documentado pelos cientistas Em primeiro lugar, privilégio do "ver" deveria ser sociais algo que é hoje de domínio comum: nunca a socie- seriamente revisto. "ver" muito certamente "com esses dade humana passou por transformações tão violentas e olhos que a terra há de comer" está muito ligado ao profundas como as do último século. Essas transformações culto do objeto "verdadeiro", "de época", "raro", "pre- ocorrem no bojo de um desenvolvimento tecnológico sem cioso" e "histórico". A cadeira bonita, de madeira de par na história do homem, sobretudo pelo ritmo acelerado lei, de estilo X em que sempre se sentava D. Pedro não é em que ele se dá. Para apreciarmos tal ritmo basta lembrar- mais "histórica" que qualquer das outras cadeiras daquela mos que apenas cem anos separam a descoberta do pri- época. fato de que nela se sentava D. Pedro I não lhe meiro motor de propulsão interna da primeira ida do conferiu nenhum atributo que a distinguisse das demais homem à Lua (1860-1969). Ou então que, na sua penúltima tanto assim que, se misturada com outras do mesmo estilo, aparição em 1910 o cometa Halley foi pela primeira vez não mais a individuaríamos. Foi nossa cultura, portanto, a fotografado e 76 anos depois, uma sonda, feita pelo homem, conferir-lhe uma "aura" que a pobre cadeira não tem. cruzou sua órbita e recolheu elementos que possibilitarão E o visitante é induzido a "ver" esta aura e a maioria a análise de sua composição, inclusive fotografando seu acaba felizmente por ver exatamente o que ali está: núcleo! uma simples cadeira. E essa mesma maioria acaba por E qual seria o papel do museu nessa sociedade em concluir, e com razão, que "museu é coisa chata". mudança? Tal tema preocupa tanto especialistas que Os responsáveis por museus podem dourar a pílula já foi objeto de uma das reuniões internacionais do órgão como bem quiserem, com enfeites, efeitos sonoros, luz e da UNESCO dedicado aos museus (ICOM). E, também, sombras e, mesmo assim, o museu que eles acreditam quais as carências a serem supridas para que tal papel,88 Marlene Suano que é Museu 89 "dinâmico" continuará sendo "chato" na mesma medida etc., etc. objeto antigo é mostrado como "embrião" de de sua insistência em emprestar seus olhos e suas fanta- nosso presente, um símbolo de "matriz", segundo G. sias ao visitante. Baudrillard. Tal simbologia confere um caráter autoritário A mediação de informação, presente por excelência no ao objeto "único", que concentra em si a realidade. Esse museu, acaba por afugentar visitante, pela impossibilidade fenômeno da "unicidade" está ligado à ilusão de volta ao de diálogo entre ele e quadros interpretativos que lhe passado e nostalgia das origens. E essa nostalgia nega são oferecidos. Essa situação é bastante minimizada nos processo histórico, privilegiando momento do nasci- museus de ciências sobretudo após a introdução de pro- mento, em detrimento do que se seguiu. gramas de computador que permitem ao visitante formular questões e elucidar dúvidas. É no caso dos museus históri- Essa valorização do "único" é também fenômeno ligado COS que a barreira é bastante palpável. à sociedade de massas. Interessante notar que foi essa Antes de mais nada, não podemos nos esquecer que mesma sociedade de massas a dessacralizar, em um primeiro museu é o local último no longo processo de perda de momento, a peça "única" através de reproduções perfeitas. filósofo W. Benjamin, em seu estudo "Obras de arte funções originais ou processo de museificação pelo qual objeto atravessa. Fora de seu contexto original, Técnicas de reprodução", mostra justamente como a fundi- valorizado por características a ele totalmente alheias, ção, cunhagem, gravura, litografia, fotografia e cinema não objeto deixa de ser objeto e passa a ser "documento" e só permitiram a difusão de a partir de um original aquilo que ele tem de mais intrínseco, que é ser produto e como transformaram a reprodução na maneira própria de se produzir certos objetos artísticos. vetor de ação humana, conforme estudado por U. T. Bezerra de Menezes, não é levado em consideração. museu deveria, portanto, abandonar a devoção litúr- o estudo primeiro do objeto deveria ser sempre aquele gica pelo "verdadeiro" e pelo "único", deixar de lado que nos permitisse atingir as maneiras segundo as quais culto do passado, do exótico e mesmo do "belo"; deixar homens se organizaram em sociedade para produzi-lo e de privilegiar "incomum", raro, para focar no comum, quais eram suas funções nessa sociedade. no banal; deixar de considerar apenas a minoria, apresen- tando também a maioria; não privilegiar 0 objeto fora do que ocorre é totalmente contrário, e nosso museu acaba servindo para justificar a idéia de "progresso". contexto, mas zelar pelo patrimônio cultural e ambiental Mostrando "o velho" sem inseri-lo em seu contexto de como um todo orgânico. produção e consumo, museu permite apenas a rasteira Cada uma dessas questões mereceria tratamento especial comparação de "mudança" e Isso gera ou, de qualquer forma, cuidadoso manuseio. que tem "admiração" pelo "avanço" atual, auxiliando a não ques- ocorrido, em tempos recentes, sobretudo entre nós, é tionar dilacerantes problemas de nosso tempo. As exposi- aproveitamento inadequado, embora bem intencionado, de ções das românticas liteiras gritam por si sós as maravilhas tais propostas. Quando constatamos que museu sempre do automóvel: conforto e rapidez. E não se questionam privilegiou privilégio (a riqueza, a beleza, as elites, heróis) não podemos simplesmente reverter a moeda e poluição, uso abusivo de combustíveis fósseis, deteriora- ção da qualidade da vida urbana, número de acidentes fatais, acreditar estarmos fazendo um museu melhor do que anterior. Ao privilegiarmos, em nossa abordagem, reverso90 Marlene Suano que é Museu 91 da medalha (o comum, banal, o cotidiano, as classes próprios interesses, a ele, museu, caberá continuar como subalternas) estaremos cometendo o mesmo equívoco, parte do quadro geral, dizendo apenas que "patrão" apresentando uma visão capenga da realidade. Deixando permite. E "patrão" não permite que seja dito nada de mostrar que D. Pedro ergueu ao dar contra ele e seu "clube" por pessoas e institutos mantidos Grito do Ipiranga" e apresentando "a primeira filarmônica com fundos que ele acredita serem seus. Desse pueril que tocou no Brás" continuaremos a não contribuir em equívoco de nossos governantes nascem e são mantidas nada para a compreensão da realidade sócio-cultural em instituições castradas que formam profissionais à sua que vivemos. Não é trocando grandioso pelo humilde ou imagem e semelhança e que, quando despertam, ou aban- os mitos oficiais pelo "pitoresco e singelo" de aventuras donam o barco ou enlouquecem (para não falar dos que nunca narradas que conseguiremos ver que se passou e acreditam possível realizar suas novas propostas e são se passa ao nosso redor. Devemos mostrar indistintamente sumariamente dispensados). 0 círculo então se fecha dois lados da moeda (afinal, é uma moeda só!) e discutir definitivamente: aos museus é consignada verba que lhes equilíbrio e o conflito que permeiam. permite sobreviver no limiar da indecência, para que Em poucas palavras, museu deveria abandonar seu sirvam de fachada à "política cultural" dos dirigentes. silêncio diante da sociedade que o mantém e abordar A sociedade não exige nada para museu porque museu movimento, sobretudo conflito, deixando de ser o templo não se interessa por ela, não lhe diz respeito. E 0 museu para ser fórum. 0 americano D. Cameron foi muito feliz estertora e espasmodicamente busca "atrair" visitantes nessa sua formulação, que data de 1971, quando publicou com que engordar suas estatísticas e assim justificar artigo "Museu: templo ou fórum?". Ele comparou anuais pedidos de migalhas de orçamento. muito bem as vitrinas aos "altares do templo" onde as quadro pode parecer trágico mas todos aqueles que obras humanas eram admiradas, tanto assim que o Museu trabalham em museus facilmente reconheceriam sua situa- Nacional de Ontário, no Canadá, anuncia, em seu frontão: ção e até poderiam rechear ainda mais desencanto dessas "Os trabalhos de Deus através dos tempos, as artes do linhas. homem através dos anos". 0 oposto do templo seria fó- que fazer? Que rumo tomar aquele realmente interes- rum, a praça pública da antigüidade romana onde tudo se dis- sado pela instituição museu ou por um museu específico ? cutia e se analisava, onde se comerciava, onde se davam 0 verdadeiro caminho, que resolveria não só essa como mais importantes discursos políticos, onde, enfim, se dava tantas outras questões, é longo e penoso: ele passa pela grosso das relações sociais. Embora Cameron acreditasse, formação de uma verdadeira classe política que sirva à quando escreveu seu trabalho, que ambos tipos de causa pública ao invés de servir-se dela para proveito pró- museu poderiam coexistir, bastando que público fosse prio. Países sem tremendo peso negativo de nosso passado avisado sobre o conteúdo que o esperaria, a empreitada não colonial, de nação "inventada" para ser justamente explo- é simples. Enquanto museu estiver sob a tutela de entes rada, percorreram árdua estrada para atingir a estrutura de públicos que desconhecem frontalmente que seja coisa sociedade civil que tanta falta nos faz. Assim, de imediato, pública e que operam como se fossem organismos privados, como o filho que para livrar-se dos danos de um pai auto- usando fundos públicos para refletir a imagem de seus ritário deve pagar sua própria psicanálise, museu deveria92 Marlene Suano que é Museu 93 seriamente pensar em manter-se (senão totalmente, ao e o acervo operacional. Por acervo institucional entenda-se menos alguns programas específicos). Ao atingir a socie- tudo aquilo que museu aloja, pela propriedade ou pela dade e com ela interagir, museu estará entrando no posse (objetos e coleções). acervo operacional, contrá- caminho da automanutenção, fenômeno bastante comum rio, significa todo o patrimônio cultural e ambiental da na Europa e nos Estados Unidos, não apenas entre os região onde se insere 0 museu: meio ambiente físico, museus "subalternos" como, também, entre alguns mons- estruturas urbanas, monumentos, edifícios, festas e jogos tros de eficiência e sucesso, como Museu de Arte Mo- e tudo o mais produto da ação da sociedade. Enquanto derna de Nova lorque. o acervo institucional continuará sendo tratado da forma Claro está que o fenômeno do patronato americano é costumeira (pelos caminhos da coleta, preservação, estudo difícil de ser imitado. Ali, é prática de há muito tradicional e exposição ao público), 0 acervo operacional deverá ser a manutenção, pela iniciativa privada, sem fins lucrativos, estudado, discutido e conhecido através de visitas progra- de museus, casas de espetáculo, companhias artísticas e madas e gerenciadas pelo museu. museu seria pólo instituições de pesquisa. Mesmo em nível inferior a este, irradiador do conhecimento da cidade e da região e, no enquanto gasto, é lugar-comum doações de obras e dinheiro sentido inverso, captador de questões e fórum onde elas a museus, escolas, universidades, hospitais e demais insti- seriam discutidas e encaminhadas. museu se transfor- tuições de atendimento ao público. Mas mesmo em socie- maria, assim, do "lugar do passado" em "lugar dc pre- dades muito diversas da americana o museu tem aprendido onde ambos, passado e presente, estariam sob a se automanter. o fascinante Museu Nacional de Niamey constante discussão e avaliação. E não apenas passado e (Nigéria) e museus municipais como o de Badalona, na presente em forma de criação artística, mas também social Espanha, são mantidos sem a participação do Estado, e política, verdadeiras molas da cultura. através de associações de caráter privado. As "associações Importante notar, aqui, que alguns museus de artes de amigos de museu", aliás, conseguem contribuir enor- plásticas bem estruturados já desenvolvem, entre nós, essas memente para a independência em relação às verbas oficiais, funções. Os demais museus, sobretudo os históricos e como bem demonstram as experiências de centenas de tecnológicos, deveriam seguir também outra trilha dos museus em todo mundo. Sua própria criação junto a museus de arte: coletar a produção material do presente. um museu, aliás, já bem demonstra a mentalidade de tal Assim fazendo, museu propiciaria a constante reflexão museu, uma vez que é consideravelmente mais difícil digestão e criação sobre a cultura material contempo- prestar contas de ações e gastos 9 leigos do que à máquina rânea e faria de cada visitante um agente potencial do burocrática estatal. E, fio da mesma meada, solicitar à museu. Tal mecanismo, já com larga prática na Europa e sociedade que contribua significa abrir-se ao debate, pois EUA, é de fácil implementação. Tanto se coleta com o ela perguntará certamente: "contribuir por que e para objetivo imediato de montar ambientes cotidianos (salas Assim fazendo, estará lançado primeiro germe do de visita, dormitórios, banheiros, etc., de diferentes classes museu fórum. E qual seria a continuidade? sociais em diversas culturas) como, também, se formam museu fórum deveria, antes de mais nada, saber grandes coleções para uso futuro. Inúmeros são museus, trabalhar com dois tipos de acervo: o acervo institucional sobretudo nos EUA, que compram anualmente, de catá-94 Marlene Suano que é Museu 95 logos de venda postal, amostragens inteiras que vão desde e biblioteca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro utensílios domésticos até azulejos e botões para jeans. em 1978. que dizer, então, daquele outro objetivo Também é comum a realização de acordos entre museu e fundamental, que seria da coleta de novo material ? os fabricantes que, de bom-grado, doam ao museu, anual- Pode-se contar nos dedos aqueles que a fazem de forma mente, amostras de sua produção. Vemos, portanto, que a criteriosa e regidos por projeto específico. Os profissionais formação de tais coleções, que garantiriam ao futuro de museu conscienciosos debatem-se entre a inércia da consistente documentação sobre a cultura material de máquina, que não conseguem vencer, e os eventos espas- nossos dias, pode, até, ser empreendida sem ônus financeiro módicos que são obrigados a promover por determinação para museu. E, através da organização daquilo que se de diretores nem sempre aptos a compreender a insti- conhece de perto, visitante se desinibiria em relação ao tuição que administram, alheios que são às disciplinas museu e sua participação em vários programas poderia ser científicas representadas no museu. E resultado é que a assegurada. museu estaria, então, no caminho que o sociedade se afasta cada vez mais do museu. levaria a transformar-se em uma célula viva da sociedade, Tristemente, as idéias apresentadas nesse livro não mantido com recursos vários, diminuindo-se a participação caracterizam nenhuma "vanguarda". 0 cerne do "eco- do Estado e deixando de ser o atual peso morto que vive de museu", do "acervo do "visitante como migalhas de verbas públicas mendigadas aqui e ali e sem agente e não como paciente" já era conhecido de um forças para manter sozinho próprio teto. anônimo colaborador do jornal República, de Itu (SP), que A título de conclusão julgo dever enfatizar que há a 29 de maio de 1906 escrevia: muito se sabe, em nosso país, que nossos museus não servem nem mesmo a um de seus objetivos mais imediatos "Museu humano" e corriqueiros que seria o de preservar acervo sob sua tutela. Tal acervo tem sido vítima de agressões que, inte- Preciso é convencermo-nos de que não há 'museu' ressante notar, não partem do exterior do museu, tanto mais curioso, colleção mais variada, nem bibliotheca assim que roubos são extremamente raros. Os danos mais completa, que a própria natureza. Provemol-o. são causados sobretudo pela incompetência de seus admi- Houve quem dissesse que homens prezam a mentira nistradores e descaso dos poderes públicos. Assim é que a ponto de não poderem viver sem ella. Suppondo nosso acervo vem servindo de pasto para cupins, carunchos que não nos enganámos, o auctor primitivo desse e roedores, além de ser dilapidado, não raro, por misteriosos lúcido theorema foi, por força, magno e infeliz desaparecimentos de peças que não se encontravam nem Adão. Até deviam ser aquellas as suas primeiras mesmo expostas ao público e que reapareceram no circuito palavras no momento em que acabava de converter a comercial de antiquariato (e nem por isso as autoridades vida numa triste verdade. Ora, parece ser do irrepa- responsáveis agem com a presteza e determinação que lhes rável peccado do nosso pae comum, que data essa faculta a lei). amadorismo leva, fatalmente, à negligência, contínua e mal calculada indifferença a que o homem sobretudo em termos de segurança, permitindo desastres de votou o vasto campo (...) da realidade para se grande porte, como incêndio que destruiu todo o acervo ennovelar nos vapores hybridos (...) da illusão. AMarlene Suan 6 mácula varreu-lhe do cérebro e dos sentidos a facul- dade de se impressionar pelo mundo cheirável, palpável e visível (...). A natureza afigurou-se-lhe muito mais apreciável depois de morta, e é nesse estado que a sciência humana a preferiu, desde então, para estudal-à e copial-a. (...) Acho muito mais rica, muito mais variada, muito mais completa, muito mais perfeita, muito mais significativa, urna bibliotheca de vivos, que uma bibliotheca de mortos; um 'museu' de natureza buliçosa e palpitante, que um museu de natureza ampalhada e hermeticamente arro- INDICAÇÕES PARA LEITURA num frasco. No mais curto passeio que dêmos, na mais simples e abreviada conversa que tenhamos com qualquer pessoa, no contrato de relações que façamos com um novo indivíduo em duas famílias de classe e e- Infelizmente, é pouco que existe publicado em português. ducação diversas que visitamos, encontramos muito A maior parte das publicações especializadas encontra-se maior número de phenômenos, do que indo à 'história em inglês e francês, e em seguida italiano, alemão, espanhol e estudamos com muito mais vantagem, apreci- Os itens abaixo relacionados que estão longe de exaurir a amos com muito mais lucidez (...) do que dando ba- bibliografia disponíve! representam uma orientação sistemá- lanço às bibliothecas de papel, ou ouvindo (...) as pre- tica para quem deseje continuar a abordar tema Reco- leções encyclopédicas das nossas cathedráticas escolas. mendável, seria, igualmente, a consulta programada aos perió- dicos especializados aqui listados. Para mim, é nas habitações, nas ruas, nos passeios, nos Todas as publicações, salvo as marcadas por asterisco, são mercados em toda a parte, emfim, onde aparece um encontráveis nas bibliotecas da Escola de Comunicações e nhô Felix apregoando este ou aquelle espetáculo; um Artes, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, no Museu de humilde tirador de esmolas para este ou aquelle Arqueologia e no Museu de Arte Contemporânea da Universi- dade de São Paulo, em São Porém muitas delas, sobretudo santo, revestido da sua opa, que 'museu' vive com DS periódicos, devem existir também nos demais museus e insti- todo esplendor do seu colorido. É ahí, onde se uições de ensino do país. vêm, onde se sentem, além dos phenomenos phisicos, Periódicos todos os phenomenos do espírito que um museu artificial não pode empalhar nem metter dentro de Museum News, American Association of Museums, Washington, um frasco (grifo meu). desde 1924. G." Journal, Museums Association, Londres, desde 1901. seion). UNESCO-ICOM, Paris, desde 1948 (anteriormente Mou- Documento recolhido pelo pesquisador Jaelson Bitran Trindade na Hemeroteca Newton Costa, de Itu (SP). Curator, American Museum of Natural History, Nova lorque, vol. 1958.