Prévia do material em texto
| 46 GVEXECUTIVO • V 15 • N 1 • JAN/JUN 2016 CE | O BRASIL NO MUNDO • ECONOMIA VERDE E SUSTENTABILIDADE GLOBAL: UM DESAFIO PARA TODOS | 46 GVEXECUTIVO • V 15 • N 1 • JAN/JUN 2016 GVEXECUTIVO • V 15 • N 1 • JAN/JUN 2016 47 | | POR ISABELA BALEEIRO CURADO A questão da sustentabilidade global exige um olhar multifacetado para apresentar seus principais vetores e desafios. A começar pela compre- ensão de que os conceitos de sus- tentabilidade e economia verde (EV) estão em processo de institucionali- zação, com o objetivo de trazer essa discussão para o cen- tro do processo decisório de governos, sociedade e empre- sas, visando influenciar o atual modelo de desenvolvimento. Pensar em sustentabilidade e EV envolve equilibrar os desafios de desenvolvimento e os limites ambientais, con- siderando que muito do conhecimento necessário para en- tender esses limites ainda está sendo construído. Entre os cientistas, há quase um consenso em relação às mudanças climáticas causadas pela emissão de gases de efeito estu- fa (GEE) pelo ser humano. Se nada for feito, no ano 2100 a temperatura média global irá aumentar entre 3,7 e 4,8°C em relação ao nível pré-industrial − utilizado como refe- rência para avaliar a emissão de GEE pela ação do homem. Essa preocupação faz parte da agenda global há décadas. O protocolo de Kyoto, assinado em 1997, fixou metas de re- dução de emissão de gases para os países desenvolvidos: 5,2% em relação aos níveis de 1990, no período entre 2008 e 2012. Apesar de ter sido aceito por 55 países, o acordo não foi assinado por China e Estados Unidos, os dois maiores emissores de GEE. Mesmo com a redução do índice na maior parte dos países sig- natários, as emissões globais aumentaram 24% entre 2000 e 2010. O Protocolo de Kyoto expirou em 2012 e, em dezem- bro de 2015, na 21ª Conferência das Partes (COP 21), da Não é fácil equilibrar limitações ambientais e desenvolvimento. Ações globais para a sustentabilidade são complexas e envolvem esforços de diversos atores. Apesar das ações investidas pelo Brasil, o país ainda não apresenta resultados satisfatórios. Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), foi assinado um novo acordo histórico: o Acordo de Paris, que está relacionado ao aumento da temperatu- ra global. Dessa vez, os 195 países concordaram em agir contra as mudanças climáticas, buscando limitar o aumento do aquec- imento global em 1,5°C em relação à média pré-industrial, até 2100. Apesar de ser um avanço, o Acordo de Paris é vago: não aponta qual deverá ser a meta de redução de emissão de GEE e as metas voluntárias indicadas pelos países não são suficientes para garantir que o objetivo proposto será alcançado. BAIXO CARBONO: UMA AÇÃO CONJUNTA A discussão sobre as mudanças climáticas é uma amos- tra de como ações globais concretas para a sustentabilidade e para a EV são complexas e envolvem esforço de diversos atores: governos, empresas e sociedade civil. No encontro da COP 21, cada país apresentou sua esti- mativa de contribuição (Intended Nationally Determined Contribution – INDC) como parte das negociações do acor- do. O objetivo do Brasil é reduzir 37% das emissões de GEE até 2025 e 43% até 2030. Para tanto, foram sinalizadas polí- ticas públicas, decretos e diretrizes que estão sendo e serão implementadas em diversos setores. Por exemplo, no agro- pecuário, o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é uma forma de controlar o desmatamento. Já no setor de transportes, po- líticas de incentivo ao transporte ferroviário podem dimi- nuir a emissão de GEE por combustíveis fósseis. Governos estaduais e municipais também podem adot- ar medidas nesse sentido. São Paulo, por exemplo, tem ações ECONOMIA VERDE E SUSTENTABILIDADE GLOBAL: UM DESAFIO PARA TODOS https://pt.wikipedia.org/wiki/2008 https://pt.wikipedia.org/wiki/2012 http://www4.unfccc.int/submissions/INDC/Published Documents/Brazil/1/BRAZIL iNDC english FINAL.pdf http://www4.unfccc.int/submissions/INDC/Published Documents/Brazil/1/BRAZIL iNDC english FINAL.pdf | O BRASIL NO MUNDO • ECONOMIA VERDE E SUSTENTABILIDADE GLOBAL: UM DESAFIO PARA TODOS | 48 GVEXECUTIVO • V 15 • N 1 • JAN/JUN 2016 previstas no documento de planejamento do município (Plano SP 2040), como a substituição do diesel pelo biodiesel no trans- porte público até 2018. Além disso, desde 2010, Curitiba está testando uma frota a biodiesel e ônibus híbridos. A experiên- cia tem apresentado reduções significativas na emissão de GEE (30% no caso do biodiesel e até 90% no caso do híbrido). Diversas empresas automobilísticas, como Agrale, Eletra, Volvo, Scania e Mercedes-Benz, estão desenvolvendo mo- tores com combustíveis alternativos. Porém, o custo destes ainda é muito superior ao dos motores movidos a diesel. Para garantir a redução de gases é necessário que a socie- dade utilize meios de transporte menos poluentes. Enquanto em Curitiba os ônibus correspondem a 60% dos desloca- mentos com veículos motorizados, em São Paulo esse nu- mero é de apenas 41%. É importante lembrar que a emissão dos GEE também pode ser reduzida pela utilização de eta- nol e uso das ciclovias, as quais têm ganho espaço relevante, especialmente na capital paulista. Dessa forma, a redução da emissão de GEE faz cada vez mais parte da pauta diplomática global, sendo que várias ações estão sendo endereçadas e priorizadas nesse sentido. CONSCIÊNCIA E EFICIÊNCIA NO USO DE RECURSOS NATURAIS O melhor uso dos recursos naturais, tanto renovavéis quan- to não renováveis, é fundamental, principalmente quando le- vamos em consideração o crescimento populacional do pla- neta – de acordo com as previsões, seremos 9 bilhões de habitantes em 2050, 28% a mais do que os atuais 7 bilhões. No caso dos recursos naturais não renováveis (petróleo, ouro, cobre, ferro, etc.) é necessário fazer o uso racional e pensar em processos de reutilização e reciclagem. No caso dos recur- sos naturais renováveis, precisamos considerar que eles são potencialmente renováveis, já que a ação do ser humano pode causar o seu fim. A questão da reciclagem é um grande exemplo dos desa- fios a serem enfrentados nesse sentido. Enquanto 28% dos resíduos sólidos dos Estados Unidos foram reciclados em 2010, segundo a Environmental Protection Agency (EPA), no Brasil esse índice foi de apenas 2%. Em Curitiba, cap- ital com o melhor programa de reciclagem do país, esti- ma-se que 19% do lixo seja reaproveitado. Ações de conscientização do uso racional dos recursos naturais são recentes na sociedade brasileira. A escassez de água nas principais capitais, por exemplo, fez com que essa temática começasse a ser endereçada de forma mais estruturada. Porém, ainda há muito para ser feito. Além de buscar o reaproveitamento por meio da reciclagem, tam- bém é necessário direcionar esforços para o desenvolvi- mento de tecnologias mais eficientes e que utilizem menos recursos naturais. No Brasil, já existem algumas ações nesse sentido, como o desenvolvimento de ônibus híbridos movidos a biodiesel de cana e de soja. O ônibus híbrido da Eletra, desenvolvido aqui, utiliza um motor elétrico ener- gizado pelas baterias e recarregado com o aproveitamento das frenagens, economizando cerca de 28% no consumo 0 500 1000 1500 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2000 2500 3000 Energia Tratamento de resíduos Processos industriais Agropecuária Uso da terra e florestas Emissão de gases de efeito estufa no Brasil em CO2 (1990 – 2012) M ilh õe s de t on el ad as • O Brasil é a 7ª nação mais emissora de GEE do mundo, representando 2,8% do índice mundial. • A emissão de GEE aumentou 6,6% no Brasil, enquanto as emissões mundiais cresceram 37%. • Nossas emissões geradas por energia, tratamento de resíduos e agropecuária no país dobraram. • O setor de uso da terra e florestas deixou de ser o maior emissor em 2009. • O setor energético elevou suas emissõesem 143%, sobretudo devido ao uso de combustíveis fósseis (diesel e gasolina). Fonte: Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI), 2014. http://www.epa.gov/ Um movimento importante em prol da sustentabilidade foi a definição dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, realizada em setembro de 2015: GVEXECUTIVO • V 15 • N 1 • JAN/JUN 2016 49 | de diesel. Outros exemplos interessantes estão relaciona- dos à geração de energia solar e eólica e aos esforços de implantar sistemas produtivos mais limpos. SOCIALMENTE INCLUSIVO? Das três características da EV − baixo uso de carbono, efi- ciência na utilização dos recursos naturais e socialmente inclu- siva – essa última é o maior desafio para o Brasil. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país ocupa uma posição intermediária no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede a longo pra- zo o progresso de três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde (medida pela expectativa de vida). O IDH brasileiro em 2014 foi de 0,755 (75º lugar entre 188 países). Apesar desse resultado refletir avanços con- sistentes, as desigualdades sociais estão presentes em todo o país, tanto que no IDH-D (IDH ajustado à desigualdade) o Brasil apresenta 0,557, índice muito abaixo da média da América Latina, que é de 0,570. Inclusão social envolve ações de longo prazo e mudança cul- tural. O Brasil tem adotado políticas públicas para endereçar o tema, como programas de transferência de renda para famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, entre eles o Bolsa Família; política de cotas para alunos de escolas públicas; co- tas raciais; e programas de valorização das mulheres. Alguns resultados já podem ser vistos, como a queda da pobreza ex- trema, de 14% em 2001 para 4,2% em 2011. Inclusão social ISABELA BALEEIRO CURADO > Professora da FGV/EAESP > isabela.curado@fgv.br PARA SABER MAIS: - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Estimativas anuais de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. 2ª edição, 2014. Disponível em: mct.gov.br/upd_blob/0235/235580.pdf - José Eli da Veiga. A desgovernança mundial da sustentabilidade. Editora 34. 2013. - United Nations Environment Programme (UNEP). Rumo a uma economia verde. Caminhos para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza: síntese para tomadores de decisão. 2011. Disponível em: unep.org/greeneconomy/Portals/88/documents/ger/ GER_synthesis_pt.pdf - United Nations Environment Programme (UNEP). Keeping track of our changing environment: from Rio to Rio+20 (1992-2012). 2011. Disponível em: onu.org.br/rio20/ img/2012/01/Keeping-Track-of-Changing-Environment-UNEP.pdf também passa necessariamente pela inclusão racial. Enquanto 75,2% da classe A/B é branca, 72,6% dos pobres são negros ou pardos. Dados do governo apontam que os negros e pardos contabilizam 75% das famílias que recebem o Bolsa Família e 68% das unidades do Minha Casa Minha Vida. Inclusão social por meio de políticas públicas distributivas não é suficiente para alterar o IDH-D no curto/médio prazo. É preciso investir nos outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Como foi mencionado anteriormente, ações globais focando a sustentabilidade e a EV não são sim- ples e envolvem esforços de diversos atores: governo, em- presas e, principalmente, sociedade civil, tanto a organizada (ONGs) quanto a dispersa, a qual pode aliar-se em função de uma determinada causa (movimentos de solidariedade, crowdsourcing, etc.). Muito tem sido feito, mas ainda há muito o que fazer. Uma sociedade consciente da necessidade de mudanças e participativa pode fazer muita diferença. Fonte: Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável mailto:isabela.curado@fgv.br http://www.mct.gov.br/upd_blob/0235/235580.pdf http://www.unep.org/greeneconomy/Portals/88/documents/ger/GER_synthesis_pt.pdf http://www.unep.org/greeneconomy/Portals/88/documents/ger/GER_synthesis_pt.pdf http://www.onu.org.br/rio20/img/2012/01/Keeping-Track-of-Changing-Environment-UNEP.pdf http://www.onu.org.br/rio20/img/2012/01/Keeping-Track-of-Changing-Environment-UNEP.pdf