Prévia do material em texto
AULA 1 DISCIPULADO E EVANGELIZAÇÃO Prof.ª Merlise dos Santos 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa, vamos focar no tema discipulado. Veremos o conceito de discípulo no Antigo Testamento, e a partir do uso da terminologia hebraica do termo, veremos as características do servo no texto de Isaías, bem como a visão que os gregos tinham de discipulado, o convite de Jesus e como os discípulos são descritos no evangelho de Marcos. A palavra que mais se aproxima do conceito de discípulo no AT é a palavra hebraica (ebed), que significa servo ou escravo. Um “servo” era considerado uma propriedade de alguém, está ligado à ideia de serviço ou obediência a alguém. Vamos ver o que o Antigo Testamento tem a nos dizer sobre isso. TEMA 1 – O DISCÍPULO NO ANTIGO TESTAMENTO Os sábios e profetas do AT, de uma certa forma, se designavam “servos de Deus” (ebed YHWH) e tinham o hábito de ensinar quem estava ao redor. O livro de Deuteronômio apresenta o princípio das Leis que o povo de Israel deveria aprender e repetir, e traz o uso da palavra servo com novos significados: • “Então Moisés convocou todo o Israel e lhe disse: Ouçam, ó Israel, os decretos e ordenanças que hoje lhes estou anunciando. Aprendam-nos e tenham o cuidado de cumpri-los” (Dt 5: 1). “Aprendam-nos”, usada aqui, é uma palavra similar no grego, mathesesthe, que significa discipulado. • “Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, não procurem imitar as coisas repugnantes que as nações de lá praticam” (Dt 18: 9). Nesse texto, imitar é a palavra correspondente no NT para mathese, que tem por significado discipulado. • “Os seus filhos, que não conhecem esta lei, terão que ouvi-la e aprender a temer o Senhor, o seu Deus, enquanto vocês viverem na terra da qual tomarão posse quando atravessarem o Jordão” (Dt 31: 13) (Martins, 2017, p. 19). Aprender é a palavra correspondente da palavra grega mathesontai, discipulado. Era considerado um servo/discípulo no AT aquele que aprendia e imitava a Lei de Deus, um aprendiz da revelação de Deus por meio de Moisés e dos profetas. Um servo, no AT, se apropriava do conhecimento do seu mestre 3 comparando-o com a Torá, como uma espécie de aluno da Lei de Deus (Martins, 2017, p. 19). Muito longe de ser comparado com a relação discípulo/mestre do NT, no AT, ser discípulo era ser discípulo do que foi revelado por Deus por meio da vida de Moisés e dos profetas. 1.1 Uso da terminologia hebraica de discípulo 1.1.1 LIMMÛD; TALMID A palavra hebraica Limmûd usada como adjetivo significa instruído, experiente; e usada como um substantivo tem por significado aprendiz, “pupilo, discípulo (Kapelrud, 1997, p. 4-8; ShöKel, 1997, p. 344-345; Holladay, 2010, p. 250). Aparições do termo Limmûd no Antigo Testamento: • Isaías 8: 16; • Isaías 50: 4 (2x); • Isaías 54: 13; • 1 Crônicas 25: 8 (Talmid); • Jeremias 2: 24; • Jeremias 13: 23. Vamos analisar alguns desses textos e o sentido do termo Limmûd para entender o significado de discípulo no AT. 1.2 “Guarde o mandamento com cuidado e sele a lei entre os meus discípulos (limmudâi)” Isaías 8: 16 Isaías profetizou num contexto de tensão em que Deus o envia com uma profecia de libertação para o rei Acaz das mãos dos inimigos. O rei Rezim da Síria e o rei Peca de Israel do Norte se uniram para retirar o rei Acaz do trono de Judá. O propósito era colocar um rei que estivesse disposto a fazer uma união com eles na guerra que esquematizavam contra a Assíria (Schultz, 2009, p. 244-245). Deus enviou a profecia de libertação para o rei Acaz, afirmando que os planos dos inimigos não teriam sucesso, e o Senhor livraria Judá das mãos dos inimigos, em Isaías 7: 10-16. Contudo, o rei Acaz escolheu confiar na ajuda político-militar que a Assíria poderia dar, em vez de confiar em Deus. Como resultado, “Teve o país invadido pela Assíria, ocasião em que cedeu mais da 4 metade da nação, e logo depois, foi assassinado por Oséias filho de Elá, provavelmente com o apoio de Tiglate- Pileser que tinha interesse em ver um aliado no governo de Israel” (Gusso, 2006, p. 100). Isaías é usado nesse contexto de juízo sobre o povo rebelde que as palavras de Isaías 8: 16 são proferidas, com a exortação de “guardar o testemunho e selar a Lei entre os discípulos”. 1.3 Discipulado em Isaías 8.16 A ideia de discipulado no texto implica alguns conceitos importantes em relação ao compromisso de ser um discípulo de YHWH: • Ser discipulado diretamente por Deus (Is 8: 11 – “O Senhor falou comigo [...]”; • Ele teme a Deus (Is 8: 13); • Ele espera no Senhor (Is 8: 17); • Ele deposita a sua esperança no Senhor (Is 8: 17); • Ele guarda a lei e os mandamentos (Is 8: 20). O discípulo em Isaías 8: 16 é aquele fiel que procura seguir as recomendações e orientações inspiradas no texto de Deuteronômio 18: 9-22, uma advertência contra as práticas pagãs, mas está com seus ouvidos abertos para as palavras do Senhor por meio dos profetas. TEMA 2 – O DISCÍPULO COMO SERVO DO SENHOR (EBED YHWH) O texto de Isaías que expressa a ideia do discípulo como servo é encontrado em Isaías 50: 4, a narrativa se dá entre os anos de 740-690 a. C. em Jerusalém, num contexto de guerra e exílio. É nesse contexto que Isaías é usado para falar ao povo. Aqui, “o servo é o profeta que sofre na sua própria carne, aquele que oferece a sua pessoa, seu rosto, como forma de protesto contra a injustiça e opressão (Silva, 2007, p. 86). “O Soberano SENHOR deu‑me uma língua instruída, [discípulo] [limmûdîm] para conhecer a palavra que sustém o cansado. Ele me acorda manhã após manhã, desperta o meu ouvido para escutar como alguém que está sendo ensinado [limmûdîm].” (Is 50: 4 NVI). Essa passagem é considerada messiânica e que faz parte de uma série de cânticos que apresentam a figura do ebed YHWH (servo de YHWH) (Smith, 2009, 5 p. 378-379). O servo de YHWH no texto é um discípulo fiel de Deus e serve como modelo para todos que desejam ser discípulos. 2.1 Características do servo no texto de Isaías • É instruído (v. 4); • Conhece a palavra (v. 4); • Ouvidos atentos (v. 4); • É ensinável (v. 4); • Não é rebelde (v. 5); • Oferece a outra face (v. 6); • Confia e se apoia em Deus (v. 10). O texto de Isaías 50: 4 é conhecido como o terceiro cântico do Servo de YHWH, e mostra que o servo fiel, antes de abrir a boca para falar, é colocado como um ouvinte fiel e mostra que o discípulo que aprende a falar é porque aprendeu a ouvir. Tanto o que se ouve como o que o discípulo fala tem um único objetivo, consolar o cansado (Croatto, 1998, p. 230). Segundo Croatto (1998): Consolar o cansado, dar forças ao fraco é uma ação do Senhor Deus frequente na Sagrada Escritura, mas especialmente no Segundo Isaías (Is 40,28- 31). Ao contrário, os deuses falsos ou quem lida com eles, como é o caso dos fabricantes de estátuas, estes se cansam, se fatigam e não oferecem esperança (Is 44, 12). Esta missão não é apenas do Senhor, mas de quem o ouve, de quem o segue e se faz seu discípulo. Esta é uma mensagem importante para o Segundo Isaías. (Croatto, 1998, p. 230) O servo fiel é aquele que mantém a esperança no Deus que está próximo, que busca a sua presença constantemente para indicar o caminho e fortalecer os cansados. A mesma relação que o servo propõe entre discípulo e o ouvinte é a relação que o servo de YHWH estabelece com o próprio Deus. 2.2 O servo que ouve O texto fala que o servo ouvia a mensagem manhã após manhã, com o objetivo de consolar os cansados e oprimidos. O servo de YHWH era despertado todas as manhãs e ouvia atentamente os ensinos que deveria passar para o povo. A expressão desperta o meu ouvido, segundo Champlin, aponta o recebimento de alguma revelação divina (Jó 36: 10,15; I Sam. 9: 15; II Sam. 7: 27) (Champlin,2001, p. 2.931). 6 O ouvir é uma especialidade do discípulo, apesar da frase soar contraditória. Brown (2012) afirma que esse termo se refere aos “seguidores imediatos que selaram a palavra profeticamente em seus corações” (Brown, 2012, p. 682). O servo de YHWH é discípulo quando tem a Palavra primeiramente guardada no coração, e isso se dá pelo ouvir, como afirma Artola: Dessa identificação do profeta com a palavra surge a firme convicção de que seus oráculos são Palavra do próprio Javé. De Amós a Malaquias, toda a literatura profética está monotonamente marcada pela fórmula: “assim fala Javé”. É nessa posse do profeta pela palavra que se verifica aquela profunda união entre Deus e a pessoa do mensageiro, que faz com que o oráculo profético seja atribuído à Divindade. Porém, o critério seguro de tal atuação divina está na eficácia de sua palavra. (Artola, 2011, p. 27) A atividade profética do servo de YHWH, do discípulo, é ouvir a Palavra. E por isso o Senhor o capacita com a eloquência da fala. 2.3 O servo que ensina “Então tiraram sortes entre jovens e velhos, mestres e discípulos para designar-lhes suas responsabilidades” 1 Crônicas 25: 8 NVI A única ocorrência do termo discípulo/Talmid que aparece no Antigo Testamento se encontra no texto de 1 Cr 25: 8. O contexto é o da organização do serviço dos cantores levitas no templo feito por Davi. Neste texto em especial, vemos a ideia de discipulado internalizada, na qual aqueles que aprenderam, ou seja, os entendidos/mestres, tinham o ofício de ensinar/discipular os novos sem experiência, representados pelo termo talmid. Segundo o professor Siqueira, A contribuição importante desse único verso à compreensão do discipulado no AT é a dimensão do ato do aprendizado e ensino e a responsabilidade do discipular. O que aprendeu e se tornou entendido e competente, deve se tornar um discipulador, instruindo os que ainda não têm experiência e conhecimento. (Siqueira, [S.d], p. 9) O texto apresenta a necessidade de discipular associada ao processo de ensino/aprendizagem, em que os mestres se colocam como servos/cantores de YHWH. TEMA 3 – DISCIPULADO É O MÉTODO DE JESUS Muito se fala sobre discipulado, mas, afinal, o que é isso? Discipulado é o método de Jesus. É o modelo que Jesus ensinou, que serve tanto para a 7 expansão do Reino quanto para formação do caráter Dele em cada um. Em outras palavras, discipulado é o desenvolvimento de Cristo tanto no discípulo quanto no discipulador. É método de Jesus de formar Ele próprio nas pessoas. O termo discipulado carrega dois significados importantes: 1) O ato de ser como o Jesus; 2) O ato de formar Jesus nas pessoas. A partir desses dois significados, há a construção do discipulado na vida de cada um, porém para que o ponto número dois seja uma verdade e uma realidade na vida do discípulo, o primeiro ponto também precisa ser uma realidade na vida do discipulador. “Discipular é fazer uma cópia, é compartilhar quem eu sou com alguém, se você não tem comunhão com Deus, não queremos dois de você” (Francis Chan). Fazer discípulo faz sentido quando a vida de Cristo está sendo compartilhada primeiramente com o discipulador. Bonhoeffer (2016) afirma que: O chamado ao discipulado é o compromisso exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo, a subversão de odo o legalismo por meio da graça daquele que chama. É o chamado da graça, e também o mandamento da graça. Vai além do antagonismo entre lei e evangelho. Cristo chama, o discípulo simplesmente segue. Isso é graça e mandamento unidos em uma coisa só [...] o discipulado é compromisso com Cristo; porque Cristo existe, tem de haver discipulado. (Bonhoeffer, 2016, p. 34) O discipulado é enxergar Jesus na vida de outra pessoa e ver Jesus na sua própria vida. Esse processo é importante para o amadurecimento da fé. Sem discipulado não há crescimento, nem compromisso de ser e viver como Jesus. O discipulado é o processo pelo qual uma pessoa passa por uma jornada de transformação, é um convite para uma vida de compromisso, aprendizado e crescimento contínuo. É uma resposta à chamada de Jesus para ser como Ele, seguir seus passos, abraçar seus ensinamentos e viver uma vida que testemunha o poder transformador de Jesus. 3.1 O discipulado entre o Antigo e o Novo Testamento O período intertestamentário, também conhecido como o período entre o Antigo e o Novo Testamento, é marcado por eventos e mudanças significativas na história do povo judeu. Durante essa época, que abrange aproximadamente quatro séculos, não encontramos textos canônicos específicos sobre discipulado 8 na mesma extensão que nos Evangelhos do Novo Testamento. No entanto, algumas práticas e eventos podem ser relacionados ao contexto do discipulado. O desenvolvimento das sinagogas foi uma característica importante do período intertestamentário. As sinagogas tornaram-se centros de ensino, estudo da Lei e culto comunitário. Embora não seja idêntico ao discipulado cristão posterior, o ambiente das sinagogas pode ter contribuído para um tipo de instrução e orientação espiritual informal (Tognini, 1987, p. 150). A preservação e interpretação das Escrituras durante esse período também desempenharam um papel vital. Os escribas e fariseus eram frequentemente responsáveis por copiar e ensinar as Escrituras, contribuindo para a transmissão da tradição e a instrução religiosa. Embora não fosse um modelo de discipulado no sentido cristão, essa transmissão de conhecimento e compromisso com a Lei estabeleceu um fundamento importante para a compreensão futura da fé judaica (Tognini, 1987, p. 149). No primeiro século, o discipulado era o processo pelo qual uma pessoa passava para se tornar um rabino. Os rabinos escolheriam jovens que acreditavam que poderiam se tornar rabinos no futuro. Era comum que, aos doze ou treze anos, um jovem fosse selecionado para se tornar um discípulo e depois viajasse por vários anos com seu rabino. Os rabinos frequentemente pregavam e ensinavam publicamente com um grupo de jovens que os seguiam, e a ideia era que esses jovens eram aprendizes. Você poderia chamá-los de Talmidim ou rabinos em treinamento (Tognini, 1987, p. 152). Durante seu tempo de discipulado, os jovens estavam sendo treinados no caminho de seu rabino. Eles seriam treinados em sua teologia, sua ideologia, seu estilo de ensino, sua filosofia e como ele acreditava que os judeus deveriam viver. A esperança dos rabinos era que, quando morressem, os jovens que haviam treinado assumiriam seu manto, sua maneira de fazer as coisas, e que depois continuassem seu legado. Essa é, em essência, a raiz e o conceito de discipulado. Os primeiros cristãos obviamente pegaram muito emprestado disso. Mas não apenas para aqueles que seriam líderes na igreja, mas para todos os crentes. O período intertestamentário, em certo sentido, pode ser considerado como um período de transição e preparação para o contexto em que Jesus Cristo apareceria. Elementos desse período contribuíram indiretamente para a 9 compreensão judaica que influenciou os ensinamentos e práticas cristãs posteriormente (Tognini, 1987, p. 160). Embora não haja um registro explícito de discipulado no período intertestamentário, vemos elementos que podem ter contribuído para o ambiente religioso e educacional que moldou o contexto em que o discipulado cristão mais tarde floresceu. Esse período serve como uma ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, preparando o terreno para os eventos e ensinamentos significativos que surgiriam na era seguinte (Tognini, 1987, p. 161). 3.2 Os Gregos e a visão de discipulado Os gregos também tinham um sistema de discipulado e orientação. Eles não chamavam isso de discipulado – eles usaram terminologias diferentes. Mas os gregos mais velhos certamente tinham uma abordagem robusta de como pretendiam formare moldar os gregos mais jovens à medida que atingiam a idade. O objetivo não era que os jovens adultos “fossem seu próprio homem” ou de alguma forma “fossem fieis a si mesmos”, mas, em vez disso, o objetivo era que os jovens adultos fossem treinados para abraçar a sabedoria e a filosofia dos professores das gerações anteriores. Essa abordagem grega era uma espécie de discipulado. Eles estavam fazendo discípulos da cultura grega e da filosofia grega para garantir que o modo de vida grego pudesse ser propagado e florescer. E isso funcionou por muitos séculos. Para garantir que a cultura grega florescesse, os gregos desenvolveram sua Paideia. Essa seria sua melhor defesa contra a tirania e seu melhor trunfo na propagação da cultura grega. O que é Paideia? (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 28). Paideia refere-se a uma visão de mundo, um modo de vida ou conjunto de valores culturais. A palavra paideia era frequentemente usada na Grécia antiga para descrever a visão de mundo que eles acreditavam que uma pessoa precisava ter para que essa pessoa fosse uma boa cidadã grega. A paideia grega incorporou sua abordagem à educação, que estava comprometida em dar aos alunos uma ampla compreensão do mundo e estava focada em treiná-los para pensar, raciocinar e se comunicar bem (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 28). 10 3.2.1 Platão Platão, um dos filósofos mais eminentes da Antiguidade clássica, moldou não apenas a filosofia como disciplina, mas também influenciou profundamente seus discípulos, criando uma tradição de pensamento que ecoou através dos séculos, a partir do diálogo. Nascido em Atenas por volta de 427 a.C., Platão fundou a Academia, uma instituição que se tornaria um centro vital de ensino filosófico por mais de nove séculos (Gaardier, 1991, 96). Seu discípulo mais notável foi Aristóteles, que frequentou a Academia por cerca de vinte anos antes de se tornar um dos maiores pensadores da história. Aristóteles absorveu a rica filosofia platônica, mas também a questionou, levando a uma divergência de ideias em áreas como epistemologia, ética e metafísica. A obra de Aristóteles, entretanto, continuou a tradição platônica enquanto desenvolvia suas próprias teorias, criando uma base para a filosofia ocidental (Gaardier, 1991, p. 96-97). Platão não apenas moldou a filosofia por meio de suas próprias ideias, mas também criou uma linhagem filosófica distinta por meio de seus discípulos. Essa tradição, transmitida ao longo dos séculos, continua a desempenhar um papel fundamental na compreensão da natureza da realidade, do conhecimento e da ética na tradição filosófica ocidental. TEMA 4 – DISTINÇÕES ENTRE OS DISCÍPULOS JUDAICOS E GREGOS De certa forma, a abordagem de treinamento Paideia da Grécia antiga era de natureza mais acadêmica do que a abordagem hebraica. Alguns podem chamá-la de mais racional, ou seja, tendia a ser mais focada em aprendizado, história, gramática, lógica e retórica (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 28). A abordagem do discipulado judaico certamente compartilhava alguns desses componentes gregos, mas estava mais centrada em aprender a viver como seu rabino, como se comportar, como orar, como funcionar dentro de uma família, como adorar, etc. A abordagem do discipulado judaico foi aparentemente melhor em reunir os componentes acadêmicos do discipulado com os elementos pessoais, de coração e emocionais do discipulado. 11 4.1 O convite A maioria dos rabinos no primeiro século só permitiu que seu convite ao discipulado fosse aberto aos poucos e a poucas pessoas. Foi apresentado apenas a jovens judeus que demonstraram alta inteligência e alta aptidão, mas em Marcos 8, Jesus lançou as bases para que esse convite se tornasse universal. “Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8: 34). O versículo que nos exorta a "negar a si mesmo e tomar a cruz" está presente nos Evangelhos, sendo registrado em Mateus 16: 24, Marcos 8: 34 e Lucas 9: 23. Essas palavras são atribuídas a Jesus e encapsulam um princípio central do cristianismo, chamando os seguidores a uma entrega completa e sacrificial. A passagem de Mateus 16: 24 (NVI) diz: "Então Jesus disse aos seus discípulos: 'Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me'". Essa instrução de Jesus vai além da renúncia meramente material; ela toca no âmago da transformação espiritual e comprometimento total com a vontade de Deus. Vamos explorar alguns aspectos dessa declaração profunda: 1) Negar a si mesmo: este é um chamado à renúncia do egoísmo, dos desejos egocêntricos e da busca exclusiva por interesses pessoais. Significa reconhecer que a vida não é apenas sobre nossas vontades, mas sobre viver em submissão ao propósito divino. 2) Tomar a sua cruz: a cruz, além de ser um instrumento de sofrimento e morte na época de Jesus, simboliza o sacrifício e a entrega total. Tomar a cruz implica aceitar os desafios, as tribulações e as responsabilidades que vêm com o seguir a Cristo, independentemente do custo pessoal. 3) Seguir a Jesus: o convite para seguir Jesus não é apenas uma jornada física, mas uma jornada espiritual e moral. Significa modelar nossa vida pelos ensinamentos e exemplos de Jesus, buscando viver de maneira justa, amorosa e alinhada com a vontade divina. Essa passagem é um chamado à radicalidade do compromisso cristão. Ao exigir que os seguidores neguem a si mesmos e tomem a cruz, Jesus está estabelecendo um padrão elevado para a autenticidade da fé. Ele antecipa que seguir Seus passos pode envolver dificuldades e adversidades, mas também destaca que esse caminho é o caminho da verdadeira vida. 12 Além disso, essa instrução reflete a inversão dos valores do mundo. Ao invés de buscar a autopreservação a todo custo, Jesus ensina que encontrar a verdadeira vida muitas vezes requer a disposição de perdê-la por causa d'Ele. É uma chamada para uma entrega que transcende as preocupações terrenas e se volta para a eternidade. O convite de Jesus para "negar a si mesmo e tomar a cruz" é uma exortação à entrega total, uma renúncia aos interesses egoístas em favor de seguir o caminho do Mestre. É um desafio a uma fé profunda, comprometida e transformadora. O convite de Jesus não era para imaturos, crianças na fé, e sim para homens e mulheres, judeus, gentios e pessoas de todas as nações. Não era apenas para os ricos, mas também para os pobres. Não foi apenas para aqueles que demonstram altas aptidões acadêmicas, mas para todas as pessoas de todas as esferas da vida. O chamado para ser um discípulo de Jesus está aberto. 4.2 Jesus chama para fazer discípulos O chamado de Jesus para cada discípulo é que seja mais parecido com Ele. O chamado Dele em Mateus 28 é: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28: 19-20). O fazer discípulo de Jesus é um chamamento, uma ordem. Ele está dizendo “façam discípulos”, o verbo está no imperativo. No original grego, o façam é um verbo e nele está implícita uma ordem direta. Mas o verbo grego vão, na verdade, não é uma ordem, e sim um gerúndio (indo). O único mandamento da continuação da obra de Jesus na terra é “fazeis discípulos de todas as nações” (Wiersbe, 2006, p. 140). Em outras versões, encontramos o: ide, esse ide não está implicado por uma ordem. Na tradução para o português, ficou vão ou ide, mas no original está indo. O que isso dignifica? Que enquanto caminhamos, enquanto estamos indo, devemos fazer discípulos. As últimas palavras de Jesus pós-ressurreição e antes da ascensão é fazei discípulos, assim a grande comissão se aplica a toda a igreja, nãoé exclusividade do pastor ou dos líderes. Nessa ordem estão contidos o batismo, que é a identificação pública, um ato simbólico que mostra a sua experiência espiritual e o ensino. O verbo ensinar, que Jesus aponta no texto, significa que deviam ensinar 13 a viver como Jesus mandou que vivessem, ensinar a obedecer a Jesus e não apenas transferir conhecimentos. TEMA 5 – COMO MARCOS NOS APRESENTA O DISCIPULADO? Ao longo do Evangelho de Marcos, há vários grandes exemplos de Jesus chamando as pessoas ao discipulado. Marcos nos dá uma imagem clara do que Jesus quer dizer quando chama as pessoas para segui-lo. O discípulo é mostrado em todo o Evangelho de Marcos de várias maneiras diferentes, do início até o fim do livro. 5.1 O primeiro grupo de discípulos Em Marcos 1: 14-20, Jesus está chamando seus discípulos. Ele está seguindo o sistema do primeiro século, quando muitos rabinos recrutavam jovens para segui-los. A esperança era que o rabino treinasse os jovens para que, uma vez que morressem ou se aposentassem, pudessem ensinar sua teologia e filosofia. Jesus está fazendo o que muitos rabinos fizeram antes dele (Wiersbe, 2006, p. 145). Em Marcos 1: 15, Jesus diz: “É chegada a hora. O reino de Deus está próximo. Arrependa-se e acredite nas boas notícias”. Jesus previu que o Reino de Deus estava sendo inaugurado no mundo. Isso foi para que os ideais, valores e verdades de Deus estivessem agora prontos para invadir todas as sociedades e culturas do mundo. Jesus veio para virar as coisas de cabeça para baixo (Wiersbe, 2006, p. 145). No entanto, os discípulos de Jesus foram os principais instrumentos nesse processo. Jesus diz que o Reino de Deus está chegando e, imediatamente depois, ele recruta pessoas para ajudá-lo com a missão. Em última análise, é assim que o Reino de Deus se espalha, por meio de pessoas recrutando outros para seguir Jesus e espalhar os ideais do Reino de Deus. Marcos quer mostrar que o discipulado é como o Reino de Deus, será espalhado por todo o mundo. Discipulado é chamar outros ao arrependimento e acreditar nas boas notícias (Wiersbe, 2006, p. 146). 14 5.2 Levi (Mc 2.13-17) Em todo evangelho, vemos Jesus chamando seus discípulos. Vemos uma interação única no livro de Marcos, entre Jesus e Levi, que mais tarde foi chamado de Mateus. Levi era um coletor de impostos. Ele era um judeu que havia escolhido ser empregado pelo governo romano. Como funcionário dos romanos, ele cobrava impostos dos judeus. Portanto, ele era odiado por muitos dos judeus porque representava o governo romano que os oprimia há séculos (Wiersbe, 2006, p. 150). No entanto, como ele era judeu, ele era odiado pelos romanos. Não importa o quão bom ele fosse em seu trabalho, ele nunca seria amado e totalmente aceito pelos romanos. Ao recrutar Levi para ser um de seus discípulos, Jesus está mostrando a aceitação de seguir a Deus. Jesus está mostrando que a família de Deus transcende as barreiras étnicas e políticas. Ele estabelece o precedente de que não apenas oferecemos o convite do amor de Deus para pessoas que gostamos ou para aquelas com quem queremos nos corresponder, o convite é para todos (Wiersbe, 2006, p. 150). Isso teria sido extremamente controverso no primeiro século, um Jesus judeu pedindo a um coletor de impostos romano para ser um de seus discípulos. Foi vergonhoso na mente dos judeus “mais zelosos” (Wiersbe, 2006, p. 150). Mas o evangelho de Jesus transcende as normas da sociedade. 5.3 A parábola do semeador e o discipulado em Mc 4: 3-20 A parábola do semeador nos ajuda a entender que o efeito produzido pela verdade depende do estado espiritual dos ouvintes (Kunz, 2014, p. 64). Na parábola, o próprio Jesus faz a interpretação, conforme apresenta Kunz (2014): • A semente: a palavra de Deus; • As aves: Satanás, tirando do coração a palavra semeada; • A pedra coberta de pouca terra, que ocasionou o rápido nascimento da semente e também a repentina morte da planta: o recebimento da doutrina sem afetar profundamente o coração; • O ardor do sol: provação e tribulação; • Os espinhos, dos quais deu quatro interpretações: os cuidados deste mundo, o engano das riquezas, os prazeres desta vida e a ambição de outras coisas; 15 • O êxito da semente em boa terra: o receber, entender e conservar a verdade em um coração honesto e bom (Kunz, 2014, p. 34). Jesus dá exemplos de pessoas que respondem ao evangelho de maneiras diferentes. Algumas pessoas ouvem a palavra de Deus e respondem, algumas ouvem a palavra de Deus e ela não se enraíza, outras pessoas ouvem o evangelho e ele parece se enraizar, mas então Satanás o tira, e algumas pessoas têm corações tão endurecidos que o evangelho não pode se enraizar em nenhum sentido. Jesus está nos dizendo que há quatro tipos diferentes de pessoas ao ouvir o evangelho. Para ajudar a discipular essas pessoas, ele nos dá maneiras de ajudá-las a receber o evangelho. A parábola ilustra os diversos estados do coração que se encontram entre os homens a quem chega a mensagem do evangelho (Kunz, 2014, p. 64). 5.4 As mulheres em Mc 16 Imediatamente depois que Jesus foi ressuscitado dos mortos, ele teve uma interação com Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Elas tinham vindo ao túmulo para colocar especiarias no corpo de Jesus, assumindo que ele ainda estava morto. No entanto, Jesus ressuscitou dos mortos. Elas descobrem que Jesus não está no túmulo. Elas então são encontradas por um homem de manto branco, que na verdade era um anjo. O anjo diz a elas: “Não se assustem. Vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ele ressuscitou dos mortos'” (Marcos 16: 6). Bem aqui, o anjo dá instruções específicas para ir contar aos outros discípulos as boas novas, e especificamente para Pedro. As mulheres foram as primeiras a anunciar a mensagem gloriosa do evangelho da ressurreição. Maria Madalena correu para contar a Pedro e João o que acontecera. E foi para ela que Jesus apareceu (Mc 16: 9) (Wiersbe, 2006, p. 215-216). E depois Jesus apareceu para outras mulheres (Mt 28: 9-10). As mulheres tiveram um encontro com o próprio Jesus e nunca mais foram as mesmas, porque quando o verdadeiro discípulo se encontramos a verdade de Jesus (mestre), corajosamente contará isso ao mundo. 16 5.5 Marcos o discípulo Marcos foi originalmente recrutado por Paulo e Barnabé para ir em missões com eles, mas Marcos os abandonou e desistiu durante a primeira jornada missionária (Atos 13). Mais tarde, Barnabé queria dar a Marcos uma segunda chance de trazê-lo junto na segunda jornada missionária, mas Paulo discordou veementemente. Paulo não acreditava que Marcos tinha o que era necessário para ser um discípulo. Então, eles acabaram se separando. Barnabé levou Marcos em uma viagem missionária para um local diferente de Paulo que levou Silas (Atos 15) (Wiersbe, 2006, p. 603) A história da igreja nos ensina que Marcos é muito bem-sucedido com Barnabé e, eventualmente, voltou para Israel, onde serviu sob o comando do apóstolo Pedro. Na verdade, a maioria dos estudiosos acredita que o evangelho de Marcos foi escrito principalmente quando ele estava servindo sob o discipulado do apóstolo Pedro. Em essência, o evangelho de Marcos também é, de certa forma, o evangelho de Pedro. Marcos mostra que qualquer pessoa pode fazer grandes coisas em nome de Deus, se estiver disposto a ser disciplinado e orientado por discípulos com o coração voltado para Deus. Neste caso, Pedro e Barnabé acabam dando um grande exemplo de discipulado a Marcos. FINALIZANDO Chegamos ao final desta etapa, na qual tivemos a oportunidade de relembrar conceitos importantes para o entendimento do desdobramento da relação que existe entre o discípulo e o discipulado. Eles representam não apenas um aspecto fundamental da tradiçãocristã, mas também um chamado contínuo à jornada de fé e crescimento espiritual. Ao longo da história, os discípulos têm sido desafiados a seguir os passos de Jesus Cristo, aprendendo com seu exemplo de amor, serviço e sacrifício. O discipulado é, portanto, mais do que um simples conceito teológico; é um convite para uma vida transformada, dedicada a conhecer, amar e servir a Deus e ao próximo. 17 REFERÊNCIAS ARTOLA, A. M. A Bíblia e a Palavra de Deus. São Paulo: Ave Maria, 2011. (Coleção Introdução aos estudos bíblicos). v. 2. BONHEFFER, D. Discipulado. Trad. Murilo Jardelino, Célia Barqueta. São Paulo: Mundo Cristão, 2016. BROWN, R. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. Tradução: Celso Eronides Fernandes. Santo André: Academia Cristã, São Paulo: Paulus, 2012. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Vol. 5, 2. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. CROATTO, J. S. Isaías. A palavra profética e sua releitura hermenêutica. Vol. II: 40- 55. A libertação possível. Petrópolis: Vozes, 1998. DIEZ, C. L. F.; MARCON, S. B. W.; SANTOS, V. Paidéia e os caminhos da educação. Barbarói, v. 46, p. 22-32. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2024. GAARDIER, J. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. 1991. HOLLADAY, W. L. Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010. GUSSO, A. R. Panorama histórico de Israel – para estudantes da Bíblia. Curitiba: AD Santos, 2006. JARSCHEL, H. (Org.). Dimensões sociais da fé no Antigo Israel: uma homenagem a Milton Schwantes. 1. ed. São Paulo: Paulinas, 2007. v. 1. p. 85-99. KAPELRUD, A. S. Lâmad, limmûd, malmâd, talmîd. In: BOTTERWECK, G. J.; RINGGREN, H.; FABRY H. J. (Ed.). Theological Dictionary of the Old Testament. Grand Rapids/MI: William B. Eerdmans, 1997. v. 8. p. 4-10. KUNZ, C. A. As parábolas de Jesus e seu ensino sobre o Reino de Deus: desvendando o mistério das 42 parábolas muito além do óbvio. Curitiba: AD Santos, 2014. SCHULTZ, S. J. A história de Israel no Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2009. 18 SHÖKEL, L. A. Dicionário bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997. SILVA, V. da. "O Senhor Javé deu-me língua de discípulo" Leitura do terceiro canto do Servo do Senhor segundo Is 50,4-9a. In: KAEFER, J. A.; JARSCHEL, H. (Org.). Dimensões sociais da fé no Antigo Israel: uma homenagem a Milton Schwantes. 1. ed. São Paulo: Paulinas, 2007. v. 1. p. 85-99. SMITH, G. V. Isaiah 40-66. The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman Pub., 2009. v. 15B. TOGNINI, E. O período intrebíblico: 400 anos de silêncio profético. São Paulo: Louvores do coração, 1987. WIERSBE, WARREN W. Comentário bíblico expositivo. Trad. Susana E. Klassen. São André: Geográfica, 2006. v. 1.