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AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DISCIPULADO E 
EVANGELIZAÇÃO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Merlise dos Santos 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Nesta etapa, vamos focar no tema discipulado. Veremos o conceito de 
discípulo no Antigo Testamento, e a partir do uso da terminologia hebraica do 
termo, veremos as características do servo no texto de Isaías, bem como a visão 
que os gregos tinham de discipulado, o convite de Jesus e como os discípulos são 
descritos no evangelho de Marcos. 
A palavra que mais se aproxima do conceito de discípulo no AT é a palavra 
hebraica (ebed), que significa servo ou escravo. Um “servo” era considerado uma 
propriedade de alguém, está ligado à ideia de serviço ou obediência a alguém. 
Vamos ver o que o Antigo Testamento tem a nos dizer sobre isso. 
TEMA 1 – O DISCÍPULO NO ANTIGO TESTAMENTO 
Os sábios e profetas do AT, de uma certa forma, se designavam “servos 
de Deus” (ebed YHWH) e tinham o hábito de ensinar quem estava ao redor. O 
livro de Deuteronômio apresenta o princípio das Leis que o povo de Israel deveria 
aprender e repetir, e traz o uso da palavra servo com novos significados: 
• “Então Moisés convocou todo o Israel e lhe disse: Ouçam, ó Israel, os 
decretos e ordenanças que hoje lhes estou anunciando. Aprendam-nos e 
tenham o cuidado de cumpri-los” (Dt 5: 1). “Aprendam-nos”, usada aqui, é 
uma palavra similar no grego, mathesesthe, que significa discipulado. 
• “Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, não 
procurem imitar as coisas repugnantes que as nações de lá praticam” (Dt 
18: 9). Nesse texto, imitar é a palavra correspondente no NT para mathese, 
que tem por significado discipulado. 
• “Os seus filhos, que não conhecem esta lei, terão que ouvi-la e aprender 
a temer o Senhor, o seu Deus, enquanto vocês viverem na terra da qual 
tomarão posse quando atravessarem o Jordão” (Dt 31: 13) (Martins, 2017, 
p. 19). Aprender é a palavra correspondente da palavra grega mathesontai, 
discipulado. 
Era considerado um servo/discípulo no AT aquele que aprendia e imitava a 
Lei de Deus, um aprendiz da revelação de Deus por meio de Moisés e dos 
profetas. Um servo, no AT, se apropriava do conhecimento do seu mestre 
 
 
3 
comparando-o com a Torá, como uma espécie de aluno da Lei de Deus (Martins, 
2017, p. 19). 
Muito longe de ser comparado com a relação discípulo/mestre do NT, no 
AT, ser discípulo era ser discípulo do que foi revelado por Deus por meio da vida 
de Moisés e dos profetas. 
1.1 Uso da terminologia hebraica de discípulo 
1.1.1 LIMMÛD; TALMID 
A palavra hebraica Limmûd usada como adjetivo significa instruído, 
experiente; e usada como um substantivo tem por significado aprendiz, “pupilo, 
discípulo (Kapelrud, 1997, p. 4-8; ShöKel, 1997, p. 344-345; Holladay, 2010, p. 
250). Aparições do termo Limmûd no Antigo Testamento: 
• Isaías 8: 16; 
• Isaías 50: 4 (2x); 
• Isaías 54: 13; 
• 1 Crônicas 25: 8 (Talmid); 
• Jeremias 2: 24; 
• Jeremias 13: 23. 
Vamos analisar alguns desses textos e o sentido do termo Limmûd para 
entender o significado de discípulo no AT. 
1.2 “Guarde o mandamento com cuidado e sele a lei entre os meus 
discípulos (limmudâi)” Isaías 8: 16 
Isaías profetizou num contexto de tensão em que Deus o envia com uma 
profecia de libertação para o rei Acaz das mãos dos inimigos. O rei Rezim da Síria 
e o rei Peca de Israel do Norte se uniram para retirar o rei Acaz do trono de Judá. 
O propósito era colocar um rei que estivesse disposto a fazer uma união com eles 
na guerra que esquematizavam contra a Assíria (Schultz, 2009, p. 244-245). 
Deus enviou a profecia de libertação para o rei Acaz, afirmando que os 
planos dos inimigos não teriam sucesso, e o Senhor livraria Judá das mãos dos 
inimigos, em Isaías 7: 10-16. Contudo, o rei Acaz escolheu confiar na ajuda 
político-militar que a Assíria poderia dar, em vez de confiar em Deus. Como 
resultado, “Teve o país invadido pela Assíria, ocasião em que cedeu mais da 
 
 
4 
metade da nação, e logo depois, foi assassinado por Oséias filho de Elá, 
provavelmente com o apoio de Tiglate- Pileser que tinha interesse em ver um 
aliado no governo de Israel” (Gusso, 2006, p. 100). 
Isaías é usado nesse contexto de juízo sobre o povo rebelde que as 
palavras de Isaías 8: 16 são proferidas, com a exortação de “guardar o 
testemunho e selar a Lei entre os discípulos”. 
1.3 Discipulado em Isaías 8.16 
A ideia de discipulado no texto implica alguns conceitos importantes em 
relação ao compromisso de ser um discípulo de YHWH: 
• Ser discipulado diretamente por Deus (Is 8: 11 – “O Senhor falou comigo 
[...]”; 
• Ele teme a Deus (Is 8: 13); 
• Ele espera no Senhor (Is 8: 17); 
• Ele deposita a sua esperança no Senhor (Is 8: 17); 
• Ele guarda a lei e os mandamentos (Is 8: 20). 
O discípulo em Isaías 8: 16 é aquele fiel que procura seguir as 
recomendações e orientações inspiradas no texto de Deuteronômio 18: 9-22, uma 
advertência contra as práticas pagãs, mas está com seus ouvidos abertos para as 
palavras do Senhor por meio dos profetas. 
TEMA 2 – O DISCÍPULO COMO SERVO DO SENHOR (EBED YHWH) 
O texto de Isaías que expressa a ideia do discípulo como servo é 
encontrado em Isaías 50: 4, a narrativa se dá entre os anos de 740-690 a. C. em 
Jerusalém, num contexto de guerra e exílio. É nesse contexto que Isaías é usado 
para falar ao povo. Aqui, “o servo é o profeta que sofre na sua própria carne, 
aquele que oferece a sua pessoa, seu rosto, como forma de protesto contra a 
injustiça e opressão (Silva, 2007, p. 86). “O Soberano SENHOR deu‑me uma 
língua instruída, [discípulo] [limmûdîm] para conhecer a palavra que sustém o 
cansado. Ele me acorda manhã após manhã, desperta o meu ouvido para escutar 
como alguém que está sendo ensinado [limmûdîm].” (Is 50: 4 NVI). 
Essa passagem é considerada messiânica e que faz parte de uma série de 
cânticos que apresentam a figura do ebed YHWH (servo de YHWH) (Smith, 2009, 
 
 
5 
p. 378-379). O servo de YHWH no texto é um discípulo fiel de Deus e serve como 
modelo para todos que desejam ser discípulos. 
2.1 Características do servo no texto de Isaías 
• É instruído (v. 4); 
• Conhece a palavra (v. 4); 
• Ouvidos atentos (v. 4); 
• É ensinável (v. 4); 
• Não é rebelde (v. 5); 
• Oferece a outra face (v. 6); 
• Confia e se apoia em Deus (v. 10).
O texto de Isaías 50: 4 é conhecido como o terceiro cântico do Servo de 
YHWH, e mostra que o servo fiel, antes de abrir a boca para falar, é colocado 
como um ouvinte fiel e mostra que o discípulo que aprende a falar é porque 
aprendeu a ouvir. Tanto o que se ouve como o que o discípulo fala tem um único 
objetivo, consolar o cansado (Croatto, 1998, p. 230). Segundo Croatto (1998): 
Consolar o cansado, dar forças ao fraco é uma ação do Senhor Deus 
frequente na Sagrada Escritura, mas especialmente no Segundo Isaías 
(Is 40,28- 31). Ao contrário, os deuses falsos ou quem lida com eles, 
como é o caso dos fabricantes de estátuas, estes se cansam, se fatigam 
e não oferecem esperança (Is 44, 12). Esta missão não é apenas do 
Senhor, mas de quem o ouve, de quem o segue e se faz seu discípulo. 
Esta é uma mensagem importante para o Segundo Isaías. (Croatto, 
1998, p. 230) 
O servo fiel é aquele que mantém a esperança no Deus que está próximo, 
que busca a sua presença constantemente para indicar o caminho e fortalecer os 
cansados. A mesma relação que o servo propõe entre discípulo e o ouvinte é a 
relação que o servo de YHWH estabelece com o próprio Deus. 
2.2 O servo que ouve 
O texto fala que o servo ouvia a mensagem manhã após manhã, com o 
objetivo de consolar os cansados e oprimidos. O servo de YHWH era despertado 
todas as manhãs e ouvia atentamente os ensinos que deveria passar para o povo. 
A expressão desperta o meu ouvido, segundo Champlin, aponta o recebimento 
de alguma revelação divina (Jó 36: 10,15; I Sam. 9: 15; II Sam. 7: 27) (Champlin,2001, p. 2.931). 
 
 
6 
O ouvir é uma especialidade do discípulo, apesar da frase soar 
contraditória. Brown (2012) afirma que esse termo se refere aos “seguidores 
imediatos que selaram a palavra profeticamente em seus corações” (Brown, 2012, 
p. 682). O servo de YHWH é discípulo quando tem a Palavra primeiramente 
guardada no coração, e isso se dá pelo ouvir, como afirma Artola: 
Dessa identificação do profeta com a palavra surge a firme convicção de 
que seus oráculos são Palavra do próprio Javé. De Amós a Malaquias, 
toda a literatura profética está monotonamente marcada pela fórmula: 
“assim fala Javé”. É nessa posse do profeta pela palavra que se verifica 
aquela profunda união entre Deus e a pessoa do mensageiro, que faz 
com que o oráculo profético seja atribuído à Divindade. Porém, o critério 
seguro de tal atuação divina está na eficácia de sua palavra. (Artola, 
2011, p. 27) 
A atividade profética do servo de YHWH, do discípulo, é ouvir a Palavra. E 
por isso o Senhor o capacita com a eloquência da fala. 
2.3 O servo que ensina 
“Então tiraram sortes entre jovens e velhos, mestres e discípulos para designar-lhes suas 
responsabilidades” 
1 Crônicas 25: 8 NVI 
A única ocorrência do termo discípulo/Talmid que aparece no Antigo 
Testamento se encontra no texto de 1 Cr 25: 8. O contexto é o da organização do 
serviço dos cantores levitas no templo feito por Davi. Neste texto em especial, 
vemos a ideia de discipulado internalizada, na qual aqueles que aprenderam, ou 
seja, os entendidos/mestres, tinham o ofício de ensinar/discipular os novos sem 
experiência, representados pelo termo talmid. Segundo o professor Siqueira, 
A contribuição importante desse único verso à compreensão do 
discipulado no AT é a dimensão do ato do aprendizado e ensino e a 
responsabilidade do discipular. O que aprendeu e se tornou entendido e 
competente, deve se tornar um discipulador, instruindo os que ainda não 
têm experiência e conhecimento. (Siqueira, [S.d], p. 9) 
O texto apresenta a necessidade de discipular associada ao processo de 
ensino/aprendizagem, em que os mestres se colocam como servos/cantores de 
YHWH. 
TEMA 3 – DISCIPULADO É O MÉTODO DE JESUS 
Muito se fala sobre discipulado, mas, afinal, o que é isso? Discipulado é o 
método de Jesus. É o modelo que Jesus ensinou, que serve tanto para a 
 
 
7 
expansão do Reino quanto para formação do caráter Dele em cada um. Em outras 
palavras, discipulado é o desenvolvimento de Cristo tanto no discípulo quanto no 
discipulador. É método de Jesus de formar Ele próprio nas pessoas. O termo 
discipulado carrega dois significados importantes: 
1) O ato de ser como o Jesus; 
2) O ato de formar Jesus nas pessoas. 
A partir desses dois significados, há a construção do discipulado na vida de 
cada um, porém para que o ponto número dois seja uma verdade e uma realidade 
na vida do discípulo, o primeiro ponto também precisa ser uma realidade na vida 
do discipulador. “Discipular é fazer uma cópia, é compartilhar quem eu sou 
com alguém, se você não tem comunhão com Deus, não queremos dois de 
você” (Francis Chan). 
Fazer discípulo faz sentido quando a vida de Cristo está sendo 
compartilhada primeiramente com o discipulador. Bonhoeffer (2016) afirma que: 
O chamado ao discipulado é o compromisso exclusivo com a pessoa de 
Jesus Cristo, a subversão de odo o legalismo por meio da graça daquele 
que chama. É o chamado da graça, e também o mandamento da graça. 
Vai além do antagonismo entre lei e evangelho. Cristo chama, o discípulo 
simplesmente segue. Isso é graça e mandamento unidos em uma coisa 
só [...] o discipulado é compromisso com Cristo; porque Cristo existe, 
tem de haver discipulado. (Bonhoeffer, 2016, p. 34) 
O discipulado é enxergar Jesus na vida de outra pessoa e ver Jesus na sua 
própria vida. Esse processo é importante para o amadurecimento da fé. Sem 
discipulado não há crescimento, nem compromisso de ser e viver como Jesus. 
O discipulado é o processo pelo qual uma pessoa passa por uma jornada 
de transformação, é um convite para uma vida de compromisso, aprendizado e 
crescimento contínuo. É uma resposta à chamada de Jesus para ser como Ele, 
seguir seus passos, abraçar seus ensinamentos e viver uma vida que testemunha 
o poder transformador de Jesus. 
3.1 O discipulado entre o Antigo e o Novo Testamento 
O período intertestamentário, também conhecido como o período entre o 
Antigo e o Novo Testamento, é marcado por eventos e mudanças significativas 
na história do povo judeu. Durante essa época, que abrange aproximadamente 
quatro séculos, não encontramos textos canônicos específicos sobre discipulado 
 
 
8 
na mesma extensão que nos Evangelhos do Novo Testamento. No entanto, 
algumas práticas e eventos podem ser relacionados ao contexto do discipulado. 
O desenvolvimento das sinagogas foi uma característica importante do 
período intertestamentário. As sinagogas tornaram-se centros de ensino, estudo 
da Lei e culto comunitário. Embora não seja idêntico ao discipulado cristão 
posterior, o ambiente das sinagogas pode ter contribuído para um tipo de instrução 
e orientação espiritual informal (Tognini, 1987, p. 150). 
A preservação e interpretação das Escrituras durante esse período também 
desempenharam um papel vital. Os escribas e fariseus eram frequentemente 
responsáveis por copiar e ensinar as Escrituras, contribuindo para a transmissão 
da tradição e a instrução religiosa. Embora não fosse um modelo de discipulado 
no sentido cristão, essa transmissão de conhecimento e compromisso com a Lei 
estabeleceu um fundamento importante para a compreensão futura da fé judaica 
(Tognini, 1987, p. 149). 
No primeiro século, o discipulado era o processo pelo qual uma pessoa 
passava para se tornar um rabino. Os rabinos escolheriam jovens que 
acreditavam que poderiam se tornar rabinos no futuro. Era comum que, aos doze 
ou treze anos, um jovem fosse selecionado para se tornar um discípulo e depois 
viajasse por vários anos com seu rabino. Os rabinos frequentemente pregavam e 
ensinavam publicamente com um grupo de jovens que os seguiam, e a ideia era 
que esses jovens eram aprendizes. Você poderia chamá-los de Talmidim ou 
rabinos em treinamento (Tognini, 1987, p. 152). 
Durante seu tempo de discipulado, os jovens estavam sendo treinados no 
caminho de seu rabino. Eles seriam treinados em sua teologia, sua ideologia, seu 
estilo de ensino, sua filosofia e como ele acreditava que os judeus deveriam viver. 
A esperança dos rabinos era que, quando morressem, os jovens que 
haviam treinado assumiriam seu manto, sua maneira de fazer as coisas, e que 
depois continuassem seu legado. Essa é, em essência, a raiz e o conceito de 
discipulado. Os primeiros cristãos obviamente pegaram muito emprestado disso. 
Mas não apenas para aqueles que seriam líderes na igreja, mas para todos os 
crentes. 
O período intertestamentário, em certo sentido, pode ser considerado como 
um período de transição e preparação para o contexto em que Jesus Cristo 
apareceria. Elementos desse período contribuíram indiretamente para a 
 
 
9 
compreensão judaica que influenciou os ensinamentos e práticas cristãs 
posteriormente (Tognini, 1987, p. 160). 
Embora não haja um registro explícito de discipulado no período 
intertestamentário, vemos elementos que podem ter contribuído para o ambiente 
religioso e educacional que moldou o contexto em que o discipulado cristão mais 
tarde floresceu. Esse período serve como uma ponte entre o Antigo e o Novo 
Testamento, preparando o terreno para os eventos e ensinamentos significativos 
que surgiriam na era seguinte (Tognini, 1987, p. 161). 
3.2 Os Gregos e a visão de discipulado 
Os gregos também tinham um sistema de discipulado e orientação. Eles 
não chamavam isso de discipulado – eles usaram terminologias diferentes. Mas 
os gregos mais velhos certamente tinham uma abordagem robusta de como 
pretendiam formare moldar os gregos mais jovens à medida que atingiam a idade. 
O objetivo não era que os jovens adultos “fossem seu próprio homem” ou 
de alguma forma “fossem fieis a si mesmos”, mas, em vez disso, o objetivo era 
que os jovens adultos fossem treinados para abraçar a sabedoria e a filosofia dos 
professores das gerações anteriores. Essa abordagem grega era uma espécie de 
discipulado. Eles estavam fazendo discípulos da cultura grega e da filosofia grega 
para garantir que o modo de vida grego pudesse ser propagado e florescer. E isso 
funcionou por muitos séculos. 
Para garantir que a cultura grega florescesse, os gregos desenvolveram 
sua Paideia. Essa seria sua melhor defesa contra a tirania e seu melhor trunfo na 
propagação da cultura grega. O que é Paideia? (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 
28). 
Paideia refere-se a uma visão de mundo, um modo de vida ou conjunto de 
valores culturais. A palavra paideia era frequentemente usada na Grécia antiga 
para descrever a visão de mundo que eles acreditavam que uma pessoa precisava 
ter para que essa pessoa fosse uma boa cidadã grega. A paideia grega incorporou 
sua abordagem à educação, que estava comprometida em dar aos alunos uma 
ampla compreensão do mundo e estava focada em treiná-los para pensar, 
raciocinar e se comunicar bem (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 28). 
 
 
 
10 
3.2.1 Platão 
Platão, um dos filósofos mais eminentes da Antiguidade clássica, moldou 
não apenas a filosofia como disciplina, mas também influenciou profundamente 
seus discípulos, criando uma tradição de pensamento que ecoou através dos 
séculos, a partir do diálogo. Nascido em Atenas por volta de 427 a.C., Platão 
fundou a Academia, uma instituição que se tornaria um centro vital de ensino 
filosófico por mais de nove séculos (Gaardier, 1991, 96). 
Seu discípulo mais notável foi Aristóteles, que frequentou a Academia por 
cerca de vinte anos antes de se tornar um dos maiores pensadores da história. 
Aristóteles absorveu a rica filosofia platônica, mas também a questionou, levando 
a uma divergência de ideias em áreas como epistemologia, ética e metafísica. A 
obra de Aristóteles, entretanto, continuou a tradição platônica enquanto 
desenvolvia suas próprias teorias, criando uma base para a filosofia ocidental 
(Gaardier, 1991, p. 96-97). 
Platão não apenas moldou a filosofia por meio de suas próprias ideias, mas 
também criou uma linhagem filosófica distinta por meio de seus discípulos. Essa 
tradição, transmitida ao longo dos séculos, continua a desempenhar um papel 
fundamental na compreensão da natureza da realidade, do conhecimento e da 
ética na tradição filosófica ocidental. 
TEMA 4 – DISTINÇÕES ENTRE OS DISCÍPULOS JUDAICOS E GREGOS 
De certa forma, a abordagem de treinamento Paideia da Grécia antiga era 
de natureza mais acadêmica do que a abordagem hebraica. Alguns podem 
chamá-la de mais racional, ou seja, tendia a ser mais focada em aprendizado, 
história, gramática, lógica e retórica (Diez; Marcon; Santos, 2016, p. 28). 
A abordagem do discipulado judaico certamente compartilhava alguns 
desses componentes gregos, mas estava mais centrada em aprender a viver 
como seu rabino, como se comportar, como orar, como funcionar dentro de uma 
família, como adorar, etc. A abordagem do discipulado judaico foi aparentemente 
melhor em reunir os componentes acadêmicos do discipulado com os elementos 
pessoais, de coração e emocionais do discipulado. 
 
 
 
11 
4.1 O convite 
A maioria dos rabinos no primeiro século só permitiu que seu convite ao 
discipulado fosse aberto aos poucos e a poucas pessoas. Foi apresentado apenas 
a jovens judeus que demonstraram alta inteligência e alta aptidão, mas em Marcos 
8, Jesus lançou as bases para que esse convite se tornasse universal. 
“Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser 
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8: 34). O 
versículo que nos exorta a "negar a si mesmo e tomar a cruz" está presente nos 
Evangelhos, sendo registrado em Mateus 16: 24, Marcos 8: 34 e Lucas 9: 23. 
Essas palavras são atribuídas a Jesus e encapsulam um princípio central do 
cristianismo, chamando os seguidores a uma entrega completa e sacrificial. 
A passagem de Mateus 16: 24 (NVI) diz: "Então Jesus disse aos seus 
discípulos: 'Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua 
cruz e siga-me'". 
Essa instrução de Jesus vai além da renúncia meramente material; ela 
toca no âmago da transformação espiritual e comprometimento total com a 
vontade de Deus. Vamos explorar alguns aspectos dessa declaração profunda: 
1) Negar a si mesmo: este é um chamado à renúncia do egoísmo, dos desejos 
egocêntricos e da busca exclusiva por interesses pessoais. Significa 
reconhecer que a vida não é apenas sobre nossas vontades, mas sobre 
viver em submissão ao propósito divino. 
2) Tomar a sua cruz: a cruz, além de ser um instrumento de sofrimento e morte 
na época de Jesus, simboliza o sacrifício e a entrega total. Tomar a cruz 
implica aceitar os desafios, as tribulações e as responsabilidades que vêm 
com o seguir a Cristo, independentemente do custo pessoal. 
3) Seguir a Jesus: o convite para seguir Jesus não é apenas uma jornada 
física, mas uma jornada espiritual e moral. Significa modelar nossa vida 
pelos ensinamentos e exemplos de Jesus, buscando viver de maneira 
justa, amorosa e alinhada com a vontade divina. 
Essa passagem é um chamado à radicalidade do compromisso cristão. Ao 
exigir que os seguidores neguem a si mesmos e tomem a cruz, Jesus está 
estabelecendo um padrão elevado para a autenticidade da fé. Ele antecipa que 
seguir Seus passos pode envolver dificuldades e adversidades, mas também 
destaca que esse caminho é o caminho da verdadeira vida. 
 
 
12 
Além disso, essa instrução reflete a inversão dos valores do mundo. Ao 
invés de buscar a autopreservação a todo custo, Jesus ensina que encontrar a 
verdadeira vida muitas vezes requer a disposição de perdê-la por causa d'Ele. É 
uma chamada para uma entrega que transcende as preocupações terrenas e se 
volta para a eternidade. 
O convite de Jesus para "negar a si mesmo e tomar a cruz" é uma 
exortação à entrega total, uma renúncia aos interesses egoístas em favor de 
seguir o caminho do Mestre. É um desafio a uma fé profunda, comprometida e 
transformadora. 
O convite de Jesus não era para imaturos, crianças na fé, e sim para 
homens e mulheres, judeus, gentios e pessoas de todas as nações. Não era 
apenas para os ricos, mas também para os pobres. Não foi apenas para aqueles 
que demonstram altas aptidões acadêmicas, mas para todas as pessoas de todas 
as esferas da vida. O chamado para ser um discípulo de Jesus está aberto. 
4.2 Jesus chama para fazer discípulos 
O chamado de Jesus para cada discípulo é que seja mais parecido com 
Ele. O chamado Dele em Mateus 28 é: “Portanto, vão e façam discípulos de todas 
as nações, batizando-os em nome do Pai e do filho e do Espírito Santo, 
ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com 
vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28: 19-20). 
O fazer discípulo de Jesus é um chamamento, uma ordem. Ele está 
dizendo “façam discípulos”, o verbo está no imperativo. No original grego, o façam 
é um verbo e nele está implícita uma ordem direta. Mas o verbo grego vão, na 
verdade, não é uma ordem, e sim um gerúndio (indo). O único mandamento da 
continuação da obra de Jesus na terra é “fazeis discípulos de todas as nações” 
(Wiersbe, 2006, p. 140). Em outras versões, encontramos o: ide, esse ide não 
está implicado por uma ordem. Na tradução para o português, ficou vão ou ide, 
mas no original está indo. O que isso dignifica? Que enquanto caminhamos, 
enquanto estamos indo, devemos fazer discípulos. 
 As últimas palavras de Jesus pós-ressurreição e antes da ascensão é fazei 
discípulos, assim a grande comissão se aplica a toda a igreja, nãoé exclusividade 
do pastor ou dos líderes. Nessa ordem estão contidos o batismo, que é a 
identificação pública, um ato simbólico que mostra a sua experiência espiritual e 
o ensino. O verbo ensinar, que Jesus aponta no texto, significa que deviam ensinar 
 
 
13 
a viver como Jesus mandou que vivessem, ensinar a obedecer a Jesus e não 
apenas transferir conhecimentos. 
TEMA 5 – COMO MARCOS NOS APRESENTA O DISCIPULADO? 
Ao longo do Evangelho de Marcos, há vários grandes exemplos de Jesus 
chamando as pessoas ao discipulado. Marcos nos dá uma imagem clara do que 
Jesus quer dizer quando chama as pessoas para segui-lo. O discípulo é mostrado 
em todo o Evangelho de Marcos de várias maneiras diferentes, do início até o fim 
do livro. 
5.1 O primeiro grupo de discípulos 
Em Marcos 1: 14-20, Jesus está chamando seus discípulos. Ele está 
seguindo o sistema do primeiro século, quando muitos rabinos recrutavam jovens 
para segui-los. A esperança era que o rabino treinasse os jovens para que, uma 
vez que morressem ou se aposentassem, pudessem ensinar sua teologia e 
filosofia. Jesus está fazendo o que muitos rabinos fizeram antes dele (Wiersbe, 
2006, p. 145). 
Em Marcos 1: 15, Jesus diz: “É chegada a hora. O reino de Deus está 
próximo. Arrependa-se e acredite nas boas notícias”. Jesus previu que o Reino de 
Deus estava sendo inaugurado no mundo. Isso foi para que os ideais, valores e 
verdades de Deus estivessem agora prontos para invadir todas as sociedades e 
culturas do mundo. Jesus veio para virar as coisas de cabeça para baixo (Wiersbe, 
2006, p. 145). 
No entanto, os discípulos de Jesus foram os principais instrumentos nesse 
processo. Jesus diz que o Reino de Deus está chegando e, imediatamente depois, 
ele recruta pessoas para ajudá-lo com a missão. Em última análise, é assim que 
o Reino de Deus se espalha, por meio de pessoas recrutando outros para seguir 
Jesus e espalhar os ideais do Reino de Deus. Marcos quer mostrar que o 
discipulado é como o Reino de Deus, será espalhado por todo o mundo. 
Discipulado é chamar outros ao arrependimento e acreditar nas boas notícias 
(Wiersbe, 2006, p. 146). 
 
 
 
14 
5.2 Levi (Mc 2.13-17) 
Em todo evangelho, vemos Jesus chamando seus discípulos. Vemos uma 
interação única no livro de Marcos, entre Jesus e Levi, que mais tarde foi chamado 
de Mateus. Levi era um coletor de impostos. Ele era um judeu que havia escolhido 
ser empregado pelo governo romano. Como funcionário dos romanos, ele cobrava 
impostos dos judeus. Portanto, ele era odiado por muitos dos judeus porque 
representava o governo romano que os oprimia há séculos (Wiersbe, 2006, p. 
150). 
No entanto, como ele era judeu, ele era odiado pelos romanos. Não importa 
o quão bom ele fosse em seu trabalho, ele nunca seria amado e totalmente aceito 
pelos romanos. Ao recrutar Levi para ser um de seus discípulos, Jesus está 
mostrando a aceitação de seguir a Deus. Jesus está mostrando que a família de 
Deus transcende as barreiras étnicas e políticas. Ele estabelece o precedente de 
que não apenas oferecemos o convite do amor de Deus para pessoas que 
gostamos ou para aquelas com quem queremos nos corresponder, o convite é 
para todos (Wiersbe, 2006, p. 150). 
Isso teria sido extremamente controverso no primeiro século, um Jesus 
judeu pedindo a um coletor de impostos romano para ser um de seus discípulos. 
Foi vergonhoso na mente dos judeus “mais zelosos” (Wiersbe, 2006, p. 150). Mas 
o evangelho de Jesus transcende as normas da sociedade. 
5.3 A parábola do semeador e o discipulado em Mc 4: 3-20 
A parábola do semeador nos ajuda a entender que o efeito produzido pela 
verdade depende do estado espiritual dos ouvintes (Kunz, 2014, p. 64). Na 
parábola, o próprio Jesus faz a interpretação, conforme apresenta Kunz (2014): 
• A semente: a palavra de Deus; 
• As aves: Satanás, tirando do coração a palavra semeada; 
• A pedra coberta de pouca terra, que ocasionou o rápido nascimento da 
semente e também a repentina morte da planta: o recebimento da doutrina 
sem afetar profundamente o coração; 
• O ardor do sol: provação e tribulação; 
• Os espinhos, dos quais deu quatro interpretações: os cuidados deste 
mundo, o engano das riquezas, os prazeres desta vida e a ambição de 
outras coisas; 
 
 
15 
• O êxito da semente em boa terra: o receber, entender e conservar a 
verdade em um coração honesto e bom (Kunz, 2014, p. 34). 
Jesus dá exemplos de pessoas que respondem ao evangelho de maneiras 
diferentes. Algumas pessoas ouvem a palavra de Deus e respondem, algumas 
ouvem a palavra de Deus e ela não se enraíza, outras pessoas ouvem o 
evangelho e ele parece se enraizar, mas então Satanás o tira, e algumas pessoas 
têm corações tão endurecidos que o evangelho não pode se enraizar em nenhum 
sentido. 
Jesus está nos dizendo que há quatro tipos diferentes de pessoas ao ouvir 
o evangelho. Para ajudar a discipular essas pessoas, ele nos dá maneiras de 
ajudá-las a receber o evangelho. A parábola ilustra os diversos estados do 
coração que se encontram entre os homens a quem chega a mensagem do 
evangelho (Kunz, 2014, p. 64). 
5.4 As mulheres em Mc 16 
Imediatamente depois que Jesus foi ressuscitado dos mortos, ele teve uma 
interação com Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Elas tinham vindo 
ao túmulo para colocar especiarias no corpo de Jesus, assumindo que ele ainda 
estava morto. No entanto, Jesus ressuscitou dos mortos. Elas descobrem que 
Jesus não está no túmulo. 
Elas então são encontradas por um homem de manto branco, que na 
verdade era um anjo. O anjo diz a elas: “Não se assustem. Vocês estão 
procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ele 
ressuscitou dos mortos'” (Marcos 16: 6). Bem aqui, o anjo dá instruções 
específicas para ir contar aos outros discípulos as boas novas, e especificamente 
para Pedro. 
As mulheres foram as primeiras a anunciar a mensagem gloriosa do 
evangelho da ressurreição. Maria Madalena correu para contar a Pedro e João o 
que acontecera. E foi para ela que Jesus apareceu (Mc 16: 9) (Wiersbe, 2006, p. 
215-216). E depois Jesus apareceu para outras mulheres (Mt 28: 9-10). 
As mulheres tiveram um encontro com o próprio Jesus e nunca mais foram 
as mesmas, porque quando o verdadeiro discípulo se encontramos a verdade de 
Jesus (mestre), corajosamente contará isso ao mundo. 
 
 
 
16 
5.5 Marcos o discípulo 
Marcos foi originalmente recrutado por Paulo e Barnabé para ir em missões 
com eles, mas Marcos os abandonou e desistiu durante a primeira jornada 
missionária (Atos 13). Mais tarde, Barnabé queria dar a Marcos uma segunda 
chance de trazê-lo junto na segunda jornada missionária, mas Paulo discordou 
veementemente. Paulo não acreditava que Marcos tinha o que era necessário 
para ser um discípulo. Então, eles acabaram se separando. Barnabé levou Marcos 
em uma viagem missionária para um local diferente de Paulo que levou Silas (Atos 
15) (Wiersbe, 2006, p. 603) 
A história da igreja nos ensina que Marcos é muito bem-sucedido com 
Barnabé e, eventualmente, voltou para Israel, onde serviu sob o comando do 
apóstolo Pedro. Na verdade, a maioria dos estudiosos acredita que o evangelho 
de Marcos foi escrito principalmente quando ele estava servindo sob o discipulado 
do apóstolo Pedro. Em essência, o evangelho de Marcos também é, de certa 
forma, o evangelho de Pedro. 
Marcos mostra que qualquer pessoa pode fazer grandes coisas em nome 
de Deus, se estiver disposto a ser disciplinado e orientado por discípulos com o 
coração voltado para Deus. Neste caso, Pedro e Barnabé acabam dando um 
grande exemplo de discipulado a Marcos. 
FINALIZANDO 
Chegamos ao final desta etapa, na qual tivemos a oportunidade de 
relembrar conceitos importantes para o entendimento do desdobramento da 
relação que existe entre o discípulo e o discipulado. Eles representam não apenas 
um aspecto fundamental da tradiçãocristã, mas também um chamado contínuo à 
jornada de fé e crescimento espiritual. Ao longo da história, os discípulos têm sido 
desafiados a seguir os passos de Jesus Cristo, aprendendo com seu exemplo de 
amor, serviço e sacrifício. O discipulado é, portanto, mais do que um simples 
conceito teológico; é um convite para uma vida transformada, dedicada a 
conhecer, amar e servir a Deus e ao próximo. 
 
 
 
17 
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