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Direito C ivil Introdução à responsabilidade jurídica * Conceito jurídico de responsabilidade = “Toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade.” > Responsabilidade = obrigação que alguém tem de assumir as consequências jurídicas de sua atividade. > “Como sabemos, o Direito Positivo congrega as regras necessárias para a convivência social, punindo todo aquele que, infringindo-as, cause lesão aos interesses jurídicos por si tutelados.” (STOLZE, 2025, P. 2) > “Responsabilidade, para o Direito, nada mais é, portanto, que uma obrigação derivada – um dever jurídico sucessivo – de assumir as consequências jurídicas de um fato, consequências essas que podem variar (reparação dos danos e/ou punição pessoal do agente lesionante) de acordo com os interesses lesados”. * Responsabilidade jurídica x moral = questões de ordem religiosa. * Responsabilidade civil x criminal = A diferença entre responsabilidade civil e criminal está em que essa impõe o cumprimento da pena estabelecida em lei, enquanto aquela acarreta a indenização do dano causado. > Um mesmo fato pode ensejar as duas responsabilidades, não havendo bis in idem em tal circunstância, justamente pelo sentido de cada uma delas e das repercussões da violação do bem jurídico tutelado”. → Art. 935. Noções gerais da responsabilidade civil * Conceito de responsabilidade civil = a responsabilidade civil deriva da agressão a um interesse eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior das coisas. Decompõe-se, pois, nos seguintes elementos, que serão estudados no decorrer desta obra: conduta (positiva ou negativa); dano; nexo de causalidade.” * Considerações iniciais = Responsabilidade subjetiva x objetiva. > Responsabilidade subjetiva: Segundo Carlos Roberto Gonçalves: “A teoria clássica, também chamada de teoria da culpa ou subjetiva, pressupõe a culpa como fundamento da responsabilidade civil. Não havendo culpa, não há responsabilidade. Diz-se, pois, ser subjetiva a responsabilidade quando esta se esteia na ideia de culpa. A prova da culpa passa a ser pressuposto necessário do dano indenizável”. > Responsabilidade objetiva: Segundo Carlos Roberto Gonçalves: “A lei impõe, entretanto, em determinadas situações, a reparação de um dano cometido sem culpa. Quando isto acontece, diz-se que a responsabilidade é legal ou objetiva, porque prescinde da culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de causalidade. Esta teoria, dita objetiva ou do risco, tem como postulado que todo dano é indenizável e deve ser reparado por quem a ele se liga por um nexo de causalidade, independentemente de culpa. Nos casos de responsabilidade objetiva, não se exige prova da culpa do agente para que este seja obrigado a reparar o dano.” > Uma das teorias que procuram justificar a responsabilidade objetiva é a teoria dos risco, segundo a qual toda pessoa que exerce alguma atividade cria um risco de dano para terceiros e deve ser obrigada a repará-lo, ainda que sua conduta seja isenta de culpa. A responsabilidade civil desloca-se da noção de culpa para a ideia de risco, ora encarada como ‘risco-proveito’, que se funda no princípio de que é reparável o dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi onus, isto é, quem aufere os cômodos (lucros) deve suportar os incômodos ou riscos); ora mais genericamente como ‘risco-criado’, a que se subordina todo aquele que, sem indagação de culpa, expuser alguém a suportá-lo, em razão de uma atividade perigosa; ora, ainda, como ‘risco-profissional’, decorrente da atividade ou profissão do lesado, como ocorre nos acidentes de trabalho”. > Responsabilidade civil contratual x extracontratual ou aquiliana: RESPONSABILIDADE CONTRATUAL RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL Se origina de um contrato. Se origina da lei. O inadimplemento presume-se culposo. O credor lesado encontra-se em posição mais favorável, pois só está obrigado a demonstrar que a prestação foi descumprida, sendo presumida, juris tantum, a culpa do inadimplente. O ÔNUS DA PROVA É DO DEVEDOR Ao lesado incumbe o ônus de provar culpa ou dolo do causador do dano. O ÔNUS DA PROVA É DA VÍTIMA. Tem origem no descumprimento da convenção ou acordo de vontades. Tem origem na inobservância do dever genérico de não lesar a outrem. A capacidade sofre limitações. Somente as pessoas plenamente capazes são suscetíveis de celebrar convenções válidas. AGENTE CAPAZ, SOB PENA DE NULIDADE. Os atos ilícitos podem ser perpetrados por menores, por ex., e podem gerar o dano indenizável. AGENTE INCAPAZ PODE RESPONDER PELO DANO. A culpa obedece a certo escalonamento, sem alcançar a levíssima. A GRADAÇÃO DA CULPA É LIMITADA AO CONTRATO, GERANDO INDENIZAÇÕES ESCALONADAS. Alcança até mesmo a culpa levíssima. A apuração da falta se faz, portanto, de maneira mais rigorosa. NÃO HÁ LIMITE PARA GRADAÇÃO DA CULPA, A QUAL PODE GERAR INDENIZAÇÕES ALTÍSSIMAS. Consequência da inexecução das obrigações, arts. 389, 395 e seguintes. Arts. 186 a 188, complementados pela regulamentação dos arts. 927 e seguintes. Inadimplemento da obrigação prevista no contrato (violação de norma contratual anteriormente fixada pelas partes). Violação direta de uma norma legal. * Natureza jurídica da responsabilidade civil = No caso da responsabilidade civil originada de imposição legal, as indenizações devidas não deixam de ser sanções, que decorrem não por força de algum ato ilícito praticado pelo responsabilizado civilmente, mas sim por um reconhecimento do direito positivo (previsão legal expressa) de que os danos causados já eram potencialmente previsíveis, em função dos riscos profissionais da atividade exercida, por envolverem interesse de terceiros. (...) Por tais fundamentos, concluímos que a natureza jurídica da responsabilidade será sempre sancionadora, independentemente de se materializar como pena, indenização ou compensação pecuniária. * Função da reparação civil. A) Compensatória: encontra-se o objetivo básico e finalidade da reparação civil: retornar as coisas ao status quo ante. Repõe-se o bem perdido diretamente ou, quando não é mais possível tal circunstância, impõe-se o pagamento de um quantum indenizatório, em importância equivalente ao valor do bem material ou compensatório do direito não redutível pecuniáriamente. B) Punitiva do ofensor: Embora esta não seja a finalidade básica, a prestação imposta ao ofensor também gera um efeito punitivo pela ausência de cautela na prática de seus atos, persuadindo-o a não mais lesar. C) Desmotivação social da conduta lesiva: Cunho socioeducativo → tornar público que condutas semelhantes não serão toleradas. Assim, alcança-se, por via indireta, a própria sociedade, restabelecendo-se o equilíbrio e a segurança desejadas pelo direito. Responsabilidade extracontratual subjetiva - pressupostos: conduta (culpável) O Código de 2002 prestigia a responsabilidade objetiva e subjetiva. Responsabilidade subjetiva teremos sempre, mesmo não havendo lei prevendo-a. Decorre daquele princípio superior de Direito de que ninguém pode causar dano a outrem. Então, temos no Código atual um sistema de responsabilidade prevalentemente objetivo, porque esse é o sistema que foi montado ao longo do século XX por meio de leis especiais; sem exclusão, todavia, da responsabilidade subjetiva, que terá espaço sempre que não tivermos disposição legal expressa consagrando a responsabilidade objetiva. Cláusula geral da responsabilidade subjetiva = art. 927 (código explica o que acontece com quem pratica ato ilícito), c/c 186 (explica o que é ato ilícito), CC. * A conduta = Primeiro pressupostoda responsabilidade civil extracontratual subjetiva → conduta culposa ← O ato ilícito = art 186, CC. Conduta é gênero, ação e omissão são suas espécies. Conduta é o comportamento humano voluntário que se exterioriza através de uma ação ou omissão, produzindo consequências jurídicas. A ação ou omissão é o aspecto físico → OBJETIVO ← da conduta, sendo a vontade o seu aspecto psicológico → SUBJETIVO ← > Ação = forma mais comum de exteriorização da conduta → fora do domínio contratual, as pessoas estão obrigadas a não praticar atos que possam lesar outrem, de tal forma que a violação dessa obrigação se dá através de um fazer, ex.: destruição de coisa alheia, lesão corporal causada em alguém. > Omissão = forma menos comum de comportamento, caracteriza-se pela inatividade, abstenção de alguma conduta devida → abstenção de atividade que o omitente podia e devia realizar → não é mero não fazer, mas, sim, não fazer algo que, nas circunstâncias, era imposto ao omitente pelo Direito e que lhe era possível submeter ao seu poder final de realização. “Omissão é aquilo que se faz não fazendo.”. Só pode ser responsabilizado por omissão quem tiver o dever jurídico de agir, vale dizer, estiver numa situação jurídica que o obrigue a impedir a ocorrência do resultado = Somente os pais, respondem, civil e penalmente, pela omissão alimentar dos filhos, porque a eles cabe o dever legal de alimentá-los; somente o médico contratado pelo paciente, ou que está adstrito ao atendimento, responde pela falta desse atendimento, porque assumiu a posição de garantidor (ou garante) da não ocorrência do resultado, e assim por diante. > Fato próprio, de outrem e da coisa = A lei, algumas vezes faz emergir a responsabilidade do fato de outrem ou de terceiro, a quem o responsável está ligado, de algum modo, por um dever de guarda, vigilância e cuidado → art. 932, CC → Em última instância, estas pessoas não respondem por fato de outrem, mas pelo fato próprio da omissão. * A imputabilidade = “Imputar” é atribuir a alguém a responsabilidade por alguma coisa. Imputabilidade é, pois, o conjunto de condições pessoais que dão ao agente capacidade para poder responder pelas consequências de uma conduta contrária ao dever; imputável é aquele que podia e devia ter agido de outro modo. OBS.: não há como responsabilizar quem quer que seja pela prática de um ato danoso se, no momento em que o pratica, não tem capacidade de entender o caráter reprovável de sua conduta e de determinar-se de acordo com esse entendimento → imputável é o agente mentalmente são e desenvolvido, capaz de entender o caráter de sua conduta e de determinar-se de acordo com esse entendimento. > Menoridade: Os menores de 16 anos não são responsáveis porque são incapazes, nos termos do art. 3º do Código Civil. Falta-lhes maturidade, desenvolvimento mental suficiente para autodeterminar-se. Por eles respondem os pais, se estiverem sob sua autoridade e em sua companhia. O ECA, dispõe, em seu art. 116, que, tratando-se de ato infracional com reflexos patrimoniais, a autoridade poderá determinar que o adolescente restitua a coisa, promova o ressarcimento do dano ou, por outra forma, compense o prejuízo da vítima. “Adolescente”, segundo o art. 2º do mesmo estatuto, é a pessoa entre 12 e 18 anos de idade. > Insanidade: São igualmente irresponsáveis os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil → A inimputabilidade dos “amentais” tem por causa a falta de higidez mental, insanidade de todo gênero, que lhes tira a capacidade de entendimento e autodeterminação, e isso decorre de condições físicas e psicológicas da pessoa e não de regra legal. Respondem pelos deficientes mentais os curadores, nas mesmas condições dos pais em relação aos filhos. > Responsabilidade dos incapazes: art. 928, CC/2002 → A indenização, todavia, deve ser calculada de modo a não prejudicar os alimentos do inimputável, nem os deveres legais de alimentos que recaiam sobre ele. >> a inimputabilidade não exclui o dever de reparar o dano → condições: a) ser o ato tal que, se praticado por alguém imputável, configure a violação de um dever e; b) ter o inimputável bens em valor superior ao necessário para lhe assegurar os alimentos adequados ao seu estado e condição e os alimentos que legalmente deva a outrem. A culpa lato sensu A responsabilidade subjetiva é assim chamada porque exige, ainda, o elemento culpa → A vítima de um dano só poderá pleitear ressarcimento de alguém se conseguir provar que esse alguém agiu com culpa; caso contrário, terá que conformar-se com a sua má sorte e sozinha suportar o prejuízo. * Conceito de culpa: Conduta voluntária contrária ao dever de cuidado imposto pelo Direito, com a produção de um evento danoso involuntário, porém previsto ou previsível. * Elementos da culpa: a) Voluntariedade do comportamento do agente - atuação voluntária para que se possa reconhecer a culpabilidade → Na culpa em sentido estrito (negligência, imprudência ou imperícia), o dano resulta da violação de um dever de cuidado, sem que o agente tenha a vontade posicionada no sentido da realização do dano. b) previsibilidade - só se pode apontar a culpa se o prejuízo causado era previsível → saindo do campo da previsibilidade, ingressamos na seara do fortuito que exime o agente da obrigação de indenizar. c) violação de um dever de cuidado * Graus e formas de manifestação da culpa em sentido estrito (negligência, imprudência e imperícia) = a) culpa grave = embora não intencional, o comportamento do agente demonstra que ele atuou “como se tivesse querido o prejuízo causado à vítima”. b) culpa leve = é a falta de diligência média que um homem normal observa em sua conduta. c) culpa levíssima = trata-se da falta cometida por força de uma conduta que escaparia ao padrão médio, mas que um diligentíssimo pater famílias, especialmente cuidadoso e atento, guardaria. >> Obs: No direito civil, a sanção está condicionada à extensão do dano, portanto, para indenizar, não se distingue o dolo da culpa leve → ainda que levíssima, a culpa obriga a indenizar. >> Formas de manifestação de culpa (art. 186, CC): a) Negligência = é a falta de observância do dever de cuidado → omissão ← ex.: quando o motorista causa grave acidente por não haver consertado a sua lanterna traseira, por desídia. b) Imprudência = esta se caracteriza quando o agente culpado resolve enfrentar desnecessariamente o perigo, atuando contra as regras básicas de cautela → ex.: indivíduo que manda o seu filho menor alimentar um cão de guarda, expondo-o ao perigo. c) Imperícia = exteriorização da culpa decorre da falta de aptidão ou habilidade específica para a realização de uma atividade técnica ou científica → ex.: o erro médico em uma cirurgia em que não se empregou corretamente a técnica de incisão ou quando o advogado deixa de interpor recurso que possibilitaria, segundo jurisprudência dominante, acolhimento da pretensão do seu cliente. * Espécies de culpa = Culpa contratual (prevista no contrato) X culpa extracontratual (afronta à lei) → exemplos ilustrativos abarcados pela responsabilidade objetiva, estão presentes no art. 932, CC. → culpa in comittendo ou culpa in faciendo = quando o agente realiza um ato positivo, violando um dever jurídico. → culpa in omittendo, culpa in negligendo ou culpa in non faciendo = quando o agente realiza uma abstenção culposa, negligenciando um dever de cuidado. * Culpa concorrente = Em paralelo à conduta do agente causador do dano, há também conduta culposa da vítima, de modo que o evento danoso decorre do comportamento culposo de ambos → Havendo culpa concorrente, a doutrina e a jurisprudência recomendam dividir a indenização, nãonecessariamente pela metade, como queriam alguns, mas proporcionalmente ao grau de culpabilidade de cada um dos envolvidos → art. 945, CC Dolo * Conceito: dolo = conduta intencional dirigida a um resultado ilícito → vontade conscientemente dirigida à produção de um resultado ilícito. * Elementos: representação do resultado, consciência da ilicitude e a vontade de realizar o resultado → representação = previsão do resultado → antes de realizar a conduta, o agente prevê o resultado danoso → o agente sabe também ser ilícito o resultado que intenciona alcançar com sua conduta → age de forma contrária ao dever jurídico, embora lhe seja possível agir de forma diferente. * Distinção de dolo e culpa: em ambos há conduta voluntária do agente → no dolo a conduta já nasce ilícita, enquanto que na culpa a conduta nasce lícita, tornando-se ilícita na medida em que se desvia dos padrões socialmente adequados. Obs: não constituem conduta = atos reflexos, os casos de sonambulismo, hipnose e outros estados de inconsciência; caso da coação física absoluta (irresistível), quando o ato não será do coato, mas de quem dele se serviu como instrumento → nos casos de força física irresistível, aquele que causa o dano ou lesão em terceira pessoa nada mais é do que um instrumento nas mãos do agente coator. Direito Civil Introdução à responsabilidade jurídica Noções gerais da responsabilidade civil Responsabilidade extracontratual subjetiva - pressupostos: conduta (culpável)