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HISTORIOGRAFIA GERAL I 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prezado(a) aluno(a), 
O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma formação 
de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao aluno 
autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas 
necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça 
uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, 
reflexão e realização das avaliações propostas. 
Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que 
concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em 
sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o 
diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos 
encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, 
esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, 
pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. 
Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica também 
responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a 
organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. 
Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível 
com seus compromissos pessoais e profissionais. 
Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa disposição em 
apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. 
Bons estudos! 
 
 
 
 
1 CONCEITO DE HISTORIOGRAFIA 
Segundo Barros (2020), a Historiografia, ou simplesmente História, engloba o 
vasto conjunto de realizações produzidas até hoje por historiadores e autores de 
História. Nesse sentido, pode-se dizer que a Historiografia é a "História escrita", como 
sugere literalmente sua denominação (historiografia). No entanto, além dos livros de 
história, artigos e conferências sobre diversos temas históricos, a ideia de 
historiografia envolve muito mais. Inclui também os sistemas conceituais 
desenvolvidos pelos historiadores, as metodologias que criaram ou utilizaram, os 
diversos paradigmas teóricos construídos coletivamente, as hipóteses formuladas 
para abordar diferentes objetos de estudo e até mesmo a própria ciência histórica 
como é entendida atualmente. 
A transformação da História escrita em uma modalidade científica de 
conhecimento, que ocorreu durante a transição do século XVIII para o XIX, é 
verdadeiramente a maior realização historiográfica de todas. Nesse sentido, a 
Historiografia, também abarca o campo específico de conhecimento que vem sendo 
construído pelos historiadores desde os seus primórdios até os dias atuais: um campo 
que, ao empregar diferentes abordagens teóricas e uma ampla gama de 
metodologias, investiga a própria história. 
A História, ou Historiografia, é uma das poucas áreas de conhecimento cujo 
nome da disciplina coincide diretamente com o objeto de estudo. A História estuda a 
história, portanto, "História" é tanto o nome de uma disciplina ou campo de estudo, 
quanto o objeto a ser investigado: o conjunto de processos, eventos e sociedades que 
ocorreram ao longo do tempo. Todos nós estamos imersos na história, pois ela se 
desdobra continuamente no tempo, envolvendo-nos nas sociedades em que vivemos. 
No entanto, parte dessa história pode ser estudada de forma mais sistemática por 
meio de uma ciência específica também chamada de História, quando dispomos de 
fontes e recursos para acessá-la. Para evitar confusão entre os dois significados 
diferentes impostos pela relação entre "História" e "história", podemos também utilizar 
o termo "Historiografia" para se referir à "escrita da História". 
Os livros de História, artigos, conferências e crônicas de jornais que tratam de 
temas históricos, juntamente com os verbetes de dicionários especializados na área, 
constituem apenas uma parte do amplo espectro de escritos e relatos verbais sobre a 
 
 
 
história. Isso também inclui narrativas não necessariamente científicas sobre 
processos históricos, mesmo em épocas em que a cientificidade da história não era 
amplamente reconhecida. Esse vasto conjunto de escritos e verbalizações sobre a 
história compõe a Historiografia. 
1.1 Ofício do historiador 
Conforme Freitas et al. (2019), Peter Burke descreveu os historiadores como 
guardiões dos esqueletos do armário da memória social (BURKE, 2000), ilustrando a 
perspectiva deles como preservadores da história. Essa visão reflete as mudanças e 
críticas introduzidas por Lucien Febvre e Marc Bloch no final dos anos 1920. 
Anteriormente, o modelo predominante era a "história dos grandes homens", 
advogada pelos metódicos, influenciada pelo historicismo alemão e pelas 
consequências da guerra franco-prussiana. Liderados por Gabriel Monod, Charles 
Seignobos e Gustave Charles Faganiez, esse grupo buscava uma abordagem 
histórica científica e politicamente engajada, visando a construção da identidade 
nacional. 
Nesse contexto, o historiador era encarregado de "escavar" os arquivos e 
examinar minuciosamente os documentos, valorizando a fidelidade a eles como sinal 
máximo de cientificidade. Portanto, era essencial que o historiador analisasse os 
documentos com extremo cuidado. 
Na virada do século XX, essa abordagem historiográfica era frequentemente 
criticada por usar a pretensão de cientificidade como uma fachada para promover os 
interesses das classes dominantes e para criar uma narrativa nacional que pudesse 
ser ensinada e difundida nas escolas. Devido à sua ênfase em construir narrativas 
históricas sobre o país ou figuras específicas, esse modelo historiográfico foi rotulado 
pelos críticos da geração dos Annales como "história narrativa". 
Assim, o modelo da história narrativa seria “[...] o da organização do caos de 
eventos em uma Trama da qual, antes mesmo da pesquisa, o historiador já 
conhece o seu fim. Esta narrativa linear [...] tem como modelo a biografia 
unilinear e falsamente coerente, com início e fim” (BARROS, 2010, 
documento on-line). 
De fato, os historiadores associados à escola dos Annales, doravante referidos 
como annalistas, não foram os pioneiros em criticar o modelo da Revue Historique. 
 
 
 
Comte, por exemplo, referia-se à história narrativa feita pelos metódicos como 
a simples “história literária”. 
“[...] insignificantes detalhes estudados infantilmente pela curiosidade 
irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, e defendia que fosse 
feita uma “História sem nomes” (BURKE, 1991, p. 20). 
Émile Durkheim e François Simiand também teceram críticas aos metódicos, 
argumentando que sua abordagem era excessivamente política, individualista e 
cronológica. De modo geral, todas as críticas evidenciam o desinteresse por uma 
abordagem cronológica, personalista e nacionalista, características marcantes da 
história narrativa promovida pelo grupo da Revue Historique. No entanto, é justo 
reconhecer que os metódicos desempenharam um papel fundamental ao enfatizarem 
a importância dos documentos e dos arquivos. Esse foco contribuiu significativamente 
para estabelecer as bases iniciais do trabalho do historiador como cientista social e 
para desenvolver as primeiras metodologias científicas da historiografia. 
De fato, as críticas anteriormente destacadas são pertinentes. No intuito de 
manter uma imparcialidade científica, os historiadores da escola dos Annales 
argumentavam que os metódicos e historicistas, em sua maioria, construíam 
narrativas que negligenciavam questões mais amplas, favorecendo principalmente os 
fatos e os personagens históricos em detrimento das experiências populares e de 
outros segmentos sociais. 
Contra essa perspectiva restrita da história narrativa, dois jovens historiadores 
francesesembora se pretendesse 
objetividade, percebe-se uma preocupação com a moralidade, os exemplos, o 
comportamento dos cidadãos e as ações dos imperadores romanos. Nesse contexto, 
a palavra-chave para explicar esse teor é o "exemplum", que se refere à apresentação 
de precedentes e padrões de comportamento moral (BRAUND, 2002). 
Nesse contexto, os textos literários desempenhavam o papel de transmitir as 
concepções das elites dirigentes romanas e ofereciam aos leitores um conjunto de 
modelos para inspiração. Essa prática era enraizada na tradição romana, onde os 
membros de famílias proeminentes cresciam cercados pelas imagens das máscaras 
fúnebres (imagines) de seus antepassados, exibidas desde a infância no átrio (a área 
de recepção pública) de suas casas. Assim, eram constantemente lembrados de sua 
linhagem familiar. 
Durante os funerais familiares, essas imagens eram usadas por pessoas que 
se apresentavam em uma procissão pública pelas ruas de Roma, culminando em um 
 
 
 
discurso no Fórum, onde o falecido era enaltecido por suas virtudes e as de seus 
antepassados. 
Todos os esforços eram direcionados para incentivar os jovens romanos de boa 
linhagem a seguir os padrões positivos representados por seus ancestrais. De acordo 
com Braund (2002), essa não era uma sociedade que promovia o individualismo 
característico das sociedades ocidentais modernas. Afinal, o sucesso político 
individual dependia do apoio e da conformidade social. 
Muitas das obras dos historiadores romanos que escreveram a partir de 
meados do primeiro século Antes da Era Comum (AEC) foram perdidas ao longo do 
tempo, restando apenas uma pequena parcela dos escritos da República Romana 
Tardia e do Principado de Roma que chegaram até os dias atuais. Portanto, todas as 
nossas avaliações dos historiadores antigos são baseadas em uma porção limitada 
do que existia na época. Assim, considerar essas representações que possuímos 
como a "verdade" em relação à história, seja de um objeto ou de uma sociedade, é 
algo um tanto ingênuo. 
Até o momento, possuímos apenas fragmentos do passado, os quais são 
interpretados e analisados à luz das questões do historiador contemporâneo. 
Os historiadores do período Augustano2, assim como os do Império, 
desempenham um papel significativo na preservação de elementos literários e 
históricos da época. Eles contribuem para a narrativa da história romana, refletindo as 
posições sociais dos autores e oferecendo uma visão da forma como os relatos eram 
concebidos naquele período. Os historiógrafos romanos representam verdadeiros 
testemunhos da evolução da escrita literária, das perspectivas dos grupos sociais, do 
louvor à grandeza de Roma e das críticas e elogios aos seus governantes (MARTIN; 
GAILLARD, 1990). 
É relevante observar que a transição no estilo da escrita histórica da República 
Romana Tardia para o período de Augusto não ocorreu de maneira clara, direta e 
imediata. Isso se deve, em parte, à presença contínua de uma geração mais antiga 
de historiadores que permaneciam leais aos valores e perspectivas da República. Por 
exemplo, Salústio é frequentemente considerado um autor republicano, apesar de ter 
vivido durante os primeiros anos de Augusto, quando Virgílio e Horácio estavam 
iniciando suas obras. 
 
 
 
A historiografia Augustana reflete as influências dos eventos como a Batalha 
de Alexandria e de Ácio, bem como o impacto da paz estabelecida por Augusto. 
Portanto, os escritores da época testemunhavam e retratavam a transição para uma 
nova ordem social após um período de caos e instabilidade política em Roma. 
3.1 Tito Lívio 
Dentre os historiógrafos do período Augustano, destaca-se Tito Lívio (64/59 
AEC −17 Era Comum (EC)), natural de Patauium (Pádua), cidade que ele considera 
mais antiga que Roma (História de Roma, I. 1. 2-3). Lívio viveu em uma das maiores 
cidades do Império Romano, conhecida por sua economia próspera, especialmente 
devido ao comércio de lã. 
Tito Lívio não pertencia a uma linhagem senatorial, o que o colocava entre os 
escritores profissionais da época. Em suas obras, ele frequentemente defendia Roma 
e as tradições ancestrais (mos maiorum), possivelmente expressando sua convicção 
na eficácia do sistema urbano. 
Ao estudarmos suas obras, percebemos que Tito Lívio testemunhou o 
surgimento do Principado, mesmo que ainda estivesse influenciado pelo ideal de 
grandeza da República (CITRONI; CONSOLINO; LABATE; NARDUCCI, 2006; 
LEVENE, 2007; FONTAN, 2011). 
É sabido que os trabalhos retóricos e filosóficos de Tito Lívio não sobreviveram 
até os dias atuais. Seu principal legado é a obra "Ab Urbe Condita Libri" (História de 
Roma), que narra os acontecimentos romanos desde os tempos primordiais até a 
morte de Druso em 9 AEC. Originalmente composta por 142 volumes, apenas os livros 
1-10 e 21-45 foram bem preservados. O restante da obra, correspondendo a mais de 
três quartos, é conhecido apenas por resumos, extratos ou fragmentos. Concordamos 
com a perspectiva de Mario Citroni de que a História de Roma de Tito Lívio reflete a 
confiança do autor e sua defesa dos ideais romanos, além de apresentar sua visão 
das mudanças sociais ocorridas durante seu tempo (CITRONI; CONSOLINO; 
LABATE; NARDUCCI, 2006). 
Segundo os comentaristas da obra, o primeiro livro de Tito Lívio parece ter sido 
escrito após Otaviano assumir o título de Augustus em 27 AEC, coincidindo com o 
fechamento do templo de Jano, um símbolo de uma nova era de paz, novamente em 
 
 
 
25 AEC (História de Roma, I 19. 3). Isso sugere que o trabalho foi elaborado em 
sequência contínua. De acordo com Michael Von Albrecht (1997), uma estimativa 
simples indica uma média de três a quatro livros por ano, embora o ritmo real de 
produção possa ter variado. Albrecht sugere que os livros foram publicados apenas 
após a morte de Augusto em 14 “Era Comum” (EC). 
A estrutura do conteúdo é organizada da seguinte maneira: nos livros 1-15, 
encontramos a narrativa da História Antiga até a véspera da Primeira Guerra Púnica 
(265 AEC); nos livros 16-30, aborda-se o período das duas primeiras guerras púnicas 
(264-201 AEC); nos livros 31-45, explora-se o período das demais guerras de Roma 
(201-267 AEC), apresentado em três conjuntos de cinco livros. Não devemos 
esquecer as partes perdidas da obra, que teriam retratado diferentes personalidades 
que moldaram a política romana: Cipião Menor (livros 46-60); Mário (61-75); Sula (76-
90); Pompeu (91-105); Júlio César (106-120), assim como a luta de Otaviano para 
garantir a Pax Augusta (121-135). 
O autor também recorre ao uso de fontes e outros escritores antigos, como 
Políbio, Fábio Pictor, Valério Antias e Licínio Macer. Ele compreende os monumentos 
e outros elementos que configuravam seu tempo como vestígios desse passado. No 
que diz respeito aos livros que retratavam seu próprio período, é provável que sua 
vivência e experiência tenham sido levadas em consideração, como testemunha 
ocular dos eventos. 
Além disso, seu método de utilizar fontes é fortemente influenciado pela 
historiografia. Ao contrário dos analistas, ele não tende a alterar a imagem para torná-
la mais moderna, nem acrescenta elementos românticos fictícios. Isso indica que, 
dentro dos limites impostos, sua meta era a veracidade. Ele empregou o peripatético 
em boa parte dos livros e sua técnica literária pode ser descrita como analítica, 
seguindo uma narrativa em anais, com seções cronológicas dos eventos considerados 
importantes para a sociedade. 
A utilização de Tito Lívio para o estudo sobre Otávio Augusto inclui os 
detalhados relatos sobre a formação das instituições religiosas romanas, os rituais e 
as trajetórias das famílias proeminentes ao longo da História de Roma. Por exemplo, 
Lívio descreve, com base na tradição oral, o processo de construção dos principais 
sacerdócios em Roma, destacando as motivações políticas por trás dessaorganização e as funções atribuídas a eles, conforme estabelecidas pelo mítico rei 
Sabino Numa. 
A obra de Tito Lívio ganha relevância nesse contexto devido aos papéis 
desempenhados pelos sacerdócios durante o período republicano, os quais foram 
retomados e reformulados conforme os interesses do princeps. Lívio se torna uma 
base essencial para o estudo político e cultural do Principado de Augusto, revelando 
as redes de sociabilidade entre os sacerdócios romanos, as famílias e as apropriações 
dos símbolos e valores cívicos, como a auctoritas e a pietas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3.2 Historiografia do período principado 
De acordo com Hecko (2019), ao avançarmos em nossas análises, notamos 
que a historiografia do Principado se dedicou a retratar o papel político dos 
imperadores na organização e administração do vasto Império Romano, que se 
estendia por territórios significativos, como Britânia, Germânia, Mauritânia, Trácia e o 
leste da Ásia Menor, incluindo a Lícia. Além disso, líderes como Trajano conquistaram 
territórios como Dácia, Armênia e Mesopotâmia. A eficiência das estradas romanas 
possibilitava a conexão da capital com as regiões mais remotas do Império. 
Itens luxuosos, como pedras preciosas da Índia e seda chinesa, eram 
importados para a Itália, enquanto Roma exportava seus vinhos, azeite e produtos 
como terra sigilata, principalmente para as províncias do Ocidente. Roma e a 
Princeps: ‘primeiro’ ou ‘líder’, um título antigo e apropriado por Augusto para denotar o seu 
comando e poder (CAMPOS, 2017, p. 387). 
Auctoritas: a capacidade de exercer poder sobre as pessoas e eventos através do status de 
alguém sem o uso da força ou violência física como condicionante, devido a reputação pessoal 
(CAMPOS, 2017, p. 381). 
Ao procurarmos narrativas sobre a pietas, foi possível observar que ela se configurava como uma 
abstração de um valor social, a qual passou a ser cultuada, como uma divindade, posteriormente, 
personificando o apego, o amor e a veneração, bem como o dever para com a Vrbs, os deuses e 
a família (CAMPOS, 2017, p. 108). 
 
 
 
 
 
 
Península Itálica mantinham sua posição central no comércio marítimo do 
Mediterrâneo. 
 Esse intenso comércio e interação entre diferentes regiões promoveram a 
difusão da língua e do modelo administrativo grego, especialmente nas províncias 
orientais, enquanto o latim e a cultura latina eram predominantes nas províncias do 
Ocidente. É relevante destacar que também ocorreram áreas de hibridização cultural, 
como em Apolônia. 
Durante os séculos I a III EC, em meio à manutenção da ordem social do 
Império, observamos o surgimento de obras historiográficas que refletiam essa 
expansão e o novo contexto político e cultural. Com a reconfiguração dos papéis do 
Senado e dos magistrados republicanos sob o Principado Augustano, novos escritores 
começaram a emergir no cenário imperial, provenientes de diversos segmentos 
sociais. Por exemplo, líderes militares da guarda pretoriana aumentaram sua 
influência junto aos imperadores. 
Portanto, embora uma fachada republicana fosse mantida, nos bastidores, uma 
burocracia imperial emergia, integrando membros da plebe e libertos em sua 
administração. Isso resultou na reconfiguração dos perfis das figuras públicas em 
Roma. Além disso, observamos a expansão das narrativas historiográficas sobre os 
imperadores, contribuindo para o desenvolvimento da literatura da época. 
 
3.3 Veleio Patérculo 
Dentro do amplo conjunto de escritores do Principado, concordamos com Alain 
M. Gowing (2007) sobre a importância de revisitar algumas obras clássicas que foram 
negligenciadas. O autor destaca que, frequentemente, as gerações de estudiosos dos 
séculos XIX e XX estabeleceram certos estigmas em relação a temas e autores 
relacionados ao estudo do Principado Augustano. 
A obra História Romana, de Veleio Patérculo, é um exemplo de uma narrativa 
subestimada pela academia devido à percepção de sua superficialidade e seu 
aparente desejo de agradar o imperador Tibério, sendo vista como um veículo de 
propaganda imperial. Esta visão resultou em uma falta de atenção acadêmica em 
 
 
 
relação aos historiógrafos romanos, uma atitude que pode ser considerada 
preocupante, dado que várias outras obras possuíam propósitos semelhantes. 
Alain Gowing (2007) destaca como a breve narrativa de Marco Veleio Patérculo 
(19 a.C.-31 d. C), abrangendo dois livros que vão desde a fundação de Roma até 29 
EC, estabelecendo conexões e marca transições da República para o Principado. 
Para o autor, o valor de Marco Veleio Patérculo, reside em seu contexto social como 
um dos principais artefatos literários que surgiram logo após Augusto, sendo, portanto, 
um produto do novo sistema, o Principado. 
Gowing (2007) ressalta que sua abordagem é valiosa por oferecer o que ele 
descreve como um antídoto ao cinismo de Tácito, que tinha poucas dúvidas de que o 
Principado de Augusto levou à queda da República em Roma. Isso significa que os 
leitores modernos, muitas vezes inclinados a adotar a perspectiva taciteana, expressa 
de forma poderosa e envolvente, e tendem a desconsiderar o otimismo de veleio sobre 
o período, mesmo que sua narrativa seja menos convincente. 
Além disso, de acordo com Gowing (2007), esse desprezo acadêmico foi 
evidenciado pela escassez de traduções e análises sobre Marco Veleio Patérculo, que 
foram relegadas em favor de outros historiógrafos contemporâneos. Este é um fato 
incontestável. Veleio Patérculo (20/19 AEC - EC) era natural da aristocracia municipal 
romana, uma classe social que crescia em importância naquele período. 
Seu avô paterno, C. Veleio, ocupara o cargo de praefectus fabrum sob Pompeu, 
enquanto seu pai servira como praefectus equitum sob Augusto e era cliente de 
Tibério Claudio Nero, pai biológico do imperador Tibério. Do ponto de vista da 
historiografia, Marco Veleio Patérculo, destacava-se como um proeminente cliens 
(cliente) de Tibério, exercendo assim uma influência significativa no cenário político 
de Roma (MORENO, 2011; GOWING, 2007). 
Suas narrativas em "História Romana" refletem suas próprias experiências 
políticas. Veleio serviu como tribuno militar nas legiões da Trácia e Macedônia (2.2. 
101. 3) e em 4 EC, testemunhou Otávio Augusto adotar Tibério (2.103. 3) e foi elevado 
a praefectus equitum (2.104. 3), acompanhando Tibério em uma expedição ao Reno. 
Mais tarde, em 6 EC, tornou-se questor, embora não tenha conseguido exercer o 
cargo devido à necessidade de auxiliar Tibério durante um motim na província da 
Panônia (2.111. 3). Entre 9 e 11, acompanhou Tibério em suas campanhas nas 
 
 
 
Germânias e testemunhou seu triunfo em Roma, em 12 EC (2.121. 3). Em 15 EC, 
alcançou a posição de pretor (2.124. 4). 
Sua obra foi dedicada a M. Vinicius, filho de seu antigo comandante militar, e é 
notável por sua concisão, possivelmente delimitada pela extensão solicitada. Veleio 
propôs-se a abordar pelo menos o período desde o início da guerra civil entre César 
e Pompeu até seus próprios dias como sujeito narrador. Através de sua produção, 
podemos vislumbrar sua própria biografia por meio dos vestígios deixados em sua 
obra. 
Nesse contexto, observamos a presença do tema do "novus homo", a devoção 
de um soldado por Tibério e sua proximidade com o círculo literário dos Vinicii. 
Segundo Alain Gowing e Isabel Moreno, Marco Veleio Patérculo, enfatizava a 
necessidade de promover valores morais no Principado de Tibério, não apenas em 
relação à figura do próprio Tibério. Essa abordagem assemelha-se à estratégia 
adotada por Tito Lívio, que também recorreu aos padrões e modelos republicanos em 
sua escrita (MORENO, 2011; GOWING, 2007). 
Portanto, concordamos com Gowing quanto à perspectiva de que havia uma 
intenção de demonstrar, por meio de figuras do passado, o conjunto de virtudes que 
o cidadão mais nobre da República deveria possuir ao assumir aliderança de Roma, 
ou seja, aquele que se tornaria o "optimus princeps". 
Seguindo essa abordagem, destacamos que a História Romana de Veleio narra 
não a origem do Principado, mas sim a dos líderes em uma República que poderia ser 
restaurada. Para servir a essa "República Imperial", ele resgata qualidades que 
considera essenciais para serem personificadas na figura mais proeminente da época. 
Assim, embora Veleio tenha hesitado em reconhecer a transformação do sistema 
político da República para o novo Principado, seu uso dos exempla revela como a 
paisagem política e cultural foi modificada nas últimas décadas do século I AEC e do 
século I EC. 
A História Romana de Veleio é composta por dois livros, o primeiro, embora 
apresente uma lacuna significativa nos capítulos 8/9 e esteja mutilado no início, 
aborda o período que vai desde o final da Guerra de Tróia até 146 AEC, ao longo de 
18 capítulos. Já o segundo livro é mais extenso, composto por 131 capítulos, e se 
dedica minuciosamente ao período de 146 AEC até o próprio Marco Veleio Patérculo, 
finalizando com um panegírico em homenagem a Tibério. Isabel Moreno descreve a 
 
 
 
obra como um breviário, uma composição pessoal que revela uma clara 
intencionalidade e um manejo peculiar e específico das fontes por parte do autor. 
Isabel Moreno destaca que a obra de Veleio apresenta uma originalidade 
distinta e complexa em sua abordagem retórica do tema. Além de dialogar com 
historiógrafos anteriores, como Tito Lívio e Salústio, Marco Veleio Patérculo, também 
se baseava em sua própria experiência pessoal. Ele tinha acesso às Atas do Senado 
e a outros arquivos imperiais, utilizando-os como fundamentos documentais para sua 
narrativa, como apontado por Isabel Moreno (2011). 
A obra de Veleio Patérculo emerge como uma fonte intrigante para entender o 
cenário político de Roma. Seus relatos nos permitem acompanhar o processo desde 
a adoção de Otávio Augusto por Júlio César até a morte do princeps em 14 EC. Esses 
relatos são valiosos para complementar as biografias de Augusto. Portanto, 
consideramos Veleio Patérculo como uma base importante para refletir sobre as 
perspectivas políticas dos aristocratas romanos durante esse período de 
transformação política e cultural gradual. 
3.4 Cornélio Tácito 
Cornélio Tácito é uma figura de destaque e controvérsia na historiografia 
romana. No entanto, conforme observado por Ettore Paratore (1987), há poucas 
informações disponíveis sobre detalhes como seu praenomen, sua cidade natal e as 
datas de nascimento e morte. 
Paratore destaca que ao examinarmos o Mediceu I, considerado como o único 
manuscrito que supostamente preserva os seis primeiros livros dos Annales, 
encontramos o praenomen "Publius" mencionado duas vezes. No entanto, ao 
analisarmos outras fontes manuscritas, como as apresentadas por Sidônio Apolinário, 
o termo "Gaius" também é atribuído a Tácito, conforme observa Paratore. 
Paratore apresenta duas possibilidades controversas sobre a origem de Tácito. 
Uma sugere que ele seria romano, o que explicaria seu compromisso com Roma e 
com a dignitas. Por outro lado, há relatos que o consideram originário da Gália, ideia 
corroborada por textos antigos como os de Plínio, o Velho. Segundo Ettore Paratore, 
Tácito ascendeu como advogado em Roma e percorreu o cursus honorum para se 
estabelecer politicamente. 
 
 
 
Tácito teve a sorte de contar com o apoio de um proeminente general, Cn. Júlio 
Agrícola, que, em 78 EC, após ter ocupado o cargo de cônsul, casou sua filha com 
Tácito. Este evento marcou o início de sua ascensão, tornando-se questor em 79 EC. 
Em 88 EC, alcançou o posto de pretor e, no ano seguinte, partiu de Roma para assumir 
sua propretura nas regiões do norte ocidental, conforme indicado por Paratore. 
No entanto, momentos sombrios obscureceram a trajetória de Tácito quando 
ele entrou em conflito com o imperador Domiciano, o que obstruiu seu progresso no 
cursus honorum e possivelmente resultou na morte de Agrícola. Com as mudanças 
políticas ocorridas em Roma, com o Principado de Nerva ou Trajano, Tácito finalmente 
conseguiu alcançar o tão almejado cargo de cônsul sufectus. Pouco depois, durante 
o Principado de Adriano, ascendeu à posição de senador. 
Destacamos que Tácito produziu diversas obras, sendo sua primeira conhecida 
como "Diálogos dos Oradores" (Dialogus de Oratoribus). No entanto, nosso interesse 
se concentra a partir do ano de 98 EC, quando Tácito iniciou sua produção literária. 
Suas obras, principalmente de natureza temática, envolvem debates sobre os 
problemas do império. Anderson de Araújo Martins Esteves (2010), destaca que as 
observações de Tácito sobre o Principado refletem o perfil crítico do autor e seu 
sentimento de nostalgia pelo período republicano. 
É relevante recordar as adversidades enfrentadas pela família de Tácito 
durante o regime de Domiciano, como mencionamos anteriormente. Nesse contexto, 
optamos por focar nossa pesquisa nos Annales de Tácito. Essa obra possibilita uma 
compreensão detalhada do exercício do poder pelo princeps, ao mesmo tempo, em 
que oferece visões valiosos sobre a instituição do Principado estabelecida por 
Augusto. 
Michael Von Albrecht (1997) destaca que apenas cerca de dois terços dos 
Annales estão preservados: os Livros de 1 a 4; as primeiras páginas do Livro 5; o Livro 
6 sem sua abertura; e os Livros 11 a 16 com lacunas no início e no final. Portanto, 
nossa análise se concentra nos primeiros seis livros, que abrangem o período da 
morte de Augusto até a de Tibério. Detalhes, críticas e narrativas de conflitos podem 
nos ajudar a compreender as nuances das associações que Augusto teve que 
gerenciar, permitindo uma visão mais crítica de sua imagem. 
 
 
 
3.5 Dião Cássio 
Dos historiadores gregos do período do Principado, especialmente do século 
III EC, poucos são os que chegaram até nós na atualidade. Um desses destacados é 
Dião Cássio (Cassius Dio – 163/229 EC), originário de Niceia, na província oriental da 
Bitínia. De acordo com Fergus Millar (1964, p. VI – IX), parte da obra de Dião chegou 
até nós, embora de forma parcial. Seu trabalho mais conhecido é a "História Romana", 
abrangendo desde as origens até o ano 229 EC, e composta por oitenta livros. 
Dião Cássio pertencia a uma família proeminente, seu pai sendo um oficial 
imperial. Em 180 EC, ele mudou-se para Roma, onde passou a integrar os círculos 
políticos imperiais. Sua ascensão continuou sendo eleito senador em 192 durante o 
governo de Cômodo, tornando-se pretor em 194 sob Pertinax, e alcançando o 
consulado duas vezes sob Sétimo Severo, em 229. Entre os anos de 218 e 228, 
desempenhou papéis importantes, atuando como curador de Esmirna e Pérgamo, 
procônsul da África e legado na Dalmácia. 
Ao longo de sua carreira, Dião Cássio testemunhou o reinado de vários 
imperadores, muitos dos quais foram marcados por ações tirânicas. Essa experiência 
se reflete em seu trabalho, que abrange o período de 180 a 229 EC. Desde o reinado 
de Cômodo até o de Severo Alexandre, o Império Romano passou por uma época de 
rápida transformação e agitação, marcada por uma crescente nostalgia, pela era 
áurea dos Antoninos e por novas pressões nas fronteiras imperiais. Em muitos 
aspectos, Dião Cássio personifica o antigo modo de vida senatorial, refletindo os 
valores e as perspectivas da aristocracia romana de sua época. 
Portanto, a análise de Fergus Millar (1964, p. VI – IX) ressalta a importância de 
Dião Cássio no estudo da política na História de Roma, tanto em termos de conteúdo 
quanto pela abordagem pessoal que ele emprega em suas análises nos livros. Nesse 
sentido, Benedikt Simons (2009) destaca a perspectiva política aguçada, presente nas 
obras de Dião Cássio, que permite uma compreensão dos jogos de poder e das 
tensões na estrutura de poder em Roma e nas províncias. Essa visão política, 
construída a partir da perspectivade um provincial assimilado ao centro de Roma, 
torna-se particularmente intrigante. 
As análises de Fergus Millar e Benedikt Simons sobre a obra de Dião Cássio 
destacam a importância fundamental de seus livros para as pesquisas em História de 
 
 
 
Roma. Isso se deve, principalmente, à abrangência temporal do autor, que cobre 
desde a fundação até o ano de 229. Simons observa a riqueza de dados e fontes 
utilizados pelo antigo historiador na construção de seu trabalho, o que é extremamente 
proveitoso para os estudiosos contemporâneos. 
Vale ressaltar a polifonia presente nos escritos de Dião, que dialoga com outros 
autores clássicos como Políbio, Tito Lívio, Nicolau de Damasco, Aufídio Basso, 
Sêneca e Suetônio, entre outros. A História de um vasto império territorial continua a 
cativar e intrigar as sociedades até os dias de hoje, e já recebeu diversas 
interpretações ao longo dos séculos. Dião Cássio mesmo relata que dedicou dez anos 
à coleta de material para sua obra e outros doze anos à sua escrita (72.23.5). 
Segundo Bowersock (1985), Benedikt Simons (2009), Fergus Millar (1964) e 
Peter Swan (2004), os vinte e dois anos dedicados por Dião Cássio à sua obra devem 
ter se estendido, pelo menos, um pouco além de 229 E.C., considerando o término da 
narrativa. Esses estudiosos convergem ao observar que o método de Dião para usar 
as fontes é variado e fundamentado em suas experiências, seleções e análises 
políticas para a construção de seus discursos. 
Segundo Fergus Millar (1964), a obra História Romana de Dião Cássio foi 
substancialmente preservada apenas nos livros 36-54, abrangendo os eventos de 68-
10 AEC. Fragmentos consistentes também são encontrados nos livros 55-60, que 
narram acontecimentos de 9 AEC a 46 EC, e uma seção resumida cobrindo parte dos 
Livros 79-80, a partir da morte de Caracala até Sétimo Severo. Apesar de Dião Cássio 
ser conhecedor do estilo grego de escrita factual de Tucídides, ele opta por seguir a 
mesma organização dos anais, caracterizada por seus precursores latinos. Dessa 
forma, Dião adota a estrutura dos anais romanos, frequentemente empregando um 
estilo de crônica seca, típico desse gênero histórico. A contagem dos anos em sua 
obra reflete os imperativos dos anais, os quais têm suas raízes no ritmo da vida pública 
durante a República Romana. 
Contudo, Dião Cássio não se limita apenas a relatar eventos históricos em suas 
composições, mas também expressa seus próprios propósitos e reflexões, como 
evidenciado nos livros 51-55, especialmente ao discorrer sobre a figura de Augusto. 
Além disso, Dião adota uma narrativa mais fluída em sua obra. É possível inferir que, 
devido à sua ampla leitura e absorção do modus operandi das fontes disponíveis, os 
 
 
 
anais romanos podem ser considerados como uma das principais bases documentais 
para sua escrita. 
Segundo Bowersock (1985), Dião Cássio não hesitava em inserir referências 
ao seu próprio tempo, utilizando-as como meio de comparação com práticas de 
épocas anteriores. Isso lhe concedia uma notável liberdade tanto em termos de 
conteúdo quanto de estilo em seus escritos. Um exemplo marcante são os discursos 
atribuídos a Agripa e Mecenas no início do Principado. Contudo, Michael Grant (1995, 
p. 100-101) destaca essas interferências e algumas discrepâncias nas datas como 
pontos que exigem cautela nas interpretações dos trabalhos de Dião. Essa 
perspectiva, no entanto, é contestada por Fergus Millar (1964) e Peter M. Swan 
(2004). 
Além disso, os estudiosos observam que muitas vezes o que é interpretado 
como um anacronismo histórico em Dião Cássio, na verdade, reflete seu próprio estilo 
de escrita, incorporando análises e reflexões pessoais ao texto. No que diz respeito à 
cronologia, há questões sobre as datas das conspirações contra Augusto. No entanto, 
Fergus Millar argumenta que os eventos descritos são plausíveis em relação a outras 
fontes, o que não compromete sua utilidade. Millar sugere que a divergência nas datas 
pode ser atribuída ao uso de outras fontes, as quais, apesar de apresentarem 
diferenças, não são significativamente distantes no tempo e no espaço. 
Essa visão é reforçada por Karl Galinsky (2012), que destaca Dião Cássio como 
uma das fontes mais importantes para entender o governo de Augusto, oferecendo 
uma documentação contínua e essencial, com apenas pequenas interrupções na 
narrativa. 
Além disso, o estudo da obra de Dião Cássio é fundamental para o ensino e a 
pesquisa sobre o regime de Augusto. Dião via Augusto como um paradigma, 
destacando-o e considerando-o um exemplo intrigante para a sociedade romana. 
Peter Swan observa que, quando Dião escreveu sua obra, já haviam se passado dois 
séculos desde os feitos de Augusto, e sua autoridade canônica não era mais única, 
havia uma concorrência com outras personalidades. 
Isso torna ainda mais interessante a seleção e ênfase dada por Dião a Augusto. 
É importante ressaltar que outros imperadores, como Trajano, Adriano, Antonino Pio 
e Marco Aurélio, também foram populares e apresentaram virtudes dignas de 
destaque, promovendo expansões territoriais, organização social e incentivos 
 
 
 
literários e arquitetônicos. Swan destaca que, no meio do segundo século, a dinastia 
Antonina alcançou tanto carisma quanto os Júlio-Claudianos antes deles, a ponto de 
os imperadores Severianos se associarem à linhagem Antonina. 
A escolha pragmática de Augusto não se limita à mera continuidade do 
Principado ou à manutenção de uma tradição. Segundo Dião Cássio, a reinvenção de 
Augusto e seu governo era crucial para que os grupos senatoriais pudessem legitimar 
um discurso de reorganização social, utilizando-o como exemplo supremo de um 
"optimus princeps", incontestável para a época. 
Essa estratégia visava evitar possíveis abalos e fragmentações no Império 
durante o período Severiano. Na nossa análise, Dião buscava repensar as questões 
político-culturais de Roma, recorrendo a modelos do passado e tecendo críticas 
àqueles que se desviavam do padrão de conduta considerado romano. Isso é evidente 
na forma como ele vilipendiou a imagem de Heliogábalo em suas obras. 
4 A RELIGIÃO CRISTÃ NA ANTIGUIDADE E NA IDADE MÉDIA 
A transição do politeísmo para o monoteísmo na Idade Antiga 
Conforme Dionizio et al. (2020), a história da humanidade e a história das 
religiões estão profundamente entrelaçadas, sendo difícil separar uma da outra. Ao 
longo do tempo e em diferentes contextos, os rituais, práticas religiosas e 
comportamentos têm desempenhado um papel excepcional na ajuda psicológica da 
humanidade para lidar com questões existenciais desafiadoras. Essas tradições não 
apenas simbolizam, mas também criam momentos de felicidade em torno das 
crenças, ao mesmo tempo, em que fornecem estruturas para lidar com rituais de 
passagem dolorosos, como a morte (DURKHEIM, 1996). 
Independentemente da visão de mundo adotada, as instituições religiosas 
fundamentam-se na ideia do sagrado, atribuem significados simbólicos à realidade, 
propõem uma visão sobre o ser humano, promovem a formação de comunidades e 
estabelecem padrões de conduta baseados em normas. Esse conjunto de práticas, 
símbolos e comunidades religiosas reflete a busca por algo transcendental inerente à 
necessidade religiosa. Além disso, é possível compreender a transição do politeísmo 
para o monoteísmo na Antiguidade por meio desse prisma. 
 
 
 
Embora muitos acreditem que a religião na antiguidade ocidental fosse 
amplamente aceita, a crítica ao politeísmo grego já era evidente mesmo durante o 
período clássico. Algumas interpretações, como a de Jaerger em "Paideia" (2011), 
destacam um movimento histórico semelhante à ascensão iluminista do século XVIII. 
Isso se deve ao fato de que, a partir do governo de Péricles, diversos pensadores 
atenienses começaram a se opor ao discurso religioso. 
Geralmente, a crítica ao discurso religioso na Antiguidadeé atribuída 
principalmente aos filósofos; no entanto, figuras como Hipócrates, o médico, também 
se destacaram como críticos fervorosos. Para Hipócrates, as doenças e males 
deveriam ser tratados a partir de causas naturais, rejeitando explicações 
sobrenaturais. Além disso, outros pensadores contribuíram para essa oposição, como 
Tucídides, que explorou a sociedade através da história; Demócrito, que via a religião 
como uma criação humana motivada pelo medo e pela falta de explicação natural; e 
Anaxágoras, que, ao estudar meteoros, investigou os corpos celestes e concluiu que 
não eram divindades (JAEGER, 2011). 
Além disso, em outras explicações notáveis, encontramos Platão (2000), que 
associa o conhecimento às formas ideais e à inteligibilidade, e Protágoras, que 
argumenta que a necessidade dos deuses é secundária, uma vez que a necessidade 
do fogo e da sabedoria vem antes. 
Um dos mitos mais emblemáticos que exemplifica a interação entre humanos 
e divindades na cultura grega é, sem dúvida, o "Rei Édipo", que narra uma profecia 
predestinada. Édipo foi condenado à morte logo após seu nascimento, pois o rei Laio, 
seu pai, ouviu do oráculo de Delfos que seu filho cresceria para matá-lo e se casar 
com a rainha Jocasta, sua própria mãe. 
Dessa forma, Laio decidiu que o bebê deveria ser morto e, para isso, contratou 
um pastor para pendurá-lo pelos pés numa árvore nas encostas do monte Citerão, 
onde seria deixado para ser devorado por aves de rapina e outros animais 
(SÓFOCLES, 1995. No entanto, o pastor, comovido, não teve coragem de abandonar 
o bebê e o entregou à família real de Corinto, liderada por Políbio, que o adotou como 
seu próprio filho. Quando Édipo cresceu, seus pais adotivos revelaram a verdade, o 
que o deixou furioso. Saindo transtornado, acabou se envolvendo numa briga com 
alguns viajantes e os matou. 
 
 
 
Sem saber que um dos viajantes mortos era seu pai biológico, Édipo prossegue 
em sua jornada solitária. Ao chegar a Tebas, Édipo enfrenta um desafio proposto pela 
Esfinge: "Qual criatura, pela manhã, tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde 
tem três?" (SÓFOCLES, 1995). 
Na história de Édipo, o enigma resolvido significa compreender a jornada do 
ser humano desde a infância até a velhice: primeiro rastejando, depois andando ereto 
e, por fim, apoiado em uma bengala. Quem decifrasse essa charada estava destinado 
a se tornar rei e desposar Jocasta, a rainha. Édipo, sem saber, casa-se com sua 
própria mãe, com quem tem quatro filhos. Quando consulta o oráculo, percebe que 
realizou o que estava predestinado. Em um momento de profundo arrependimento, 
fura os próprios olhos e passa a vagar como um mendigo. 
Este mito exemplifica a primazia da dimensão religiosa sobre a racionalidade, 
conforme destacado por Sófocles. Édipo, ao decifrar o enigma da Esfinge, demonstra 
sua capacidade racional, porém essa habilidade não o ajuda a compreender os 
eventos de sua própria vida. Ele tenta entender seu destino sem sucesso. O politeísmo 
grego sugere que os seres humanos buscam, no divino, respostas para questões que 
a razão não pode resolver por si só. Além disso, Sófocles expressa a crença na justiça 
divina, que muitas vezes transcende a compreensão humana. 
Nesse contexto, a religião grega, embora tenha sido eclipsada, conserva para 
a humanidade que mais tarde se converteria ao cristianismo um papel fundamental. 
Diversos fatores contribuem para essa transição, sendo um deles a ascensão da 
filosofia como uma busca racional pelo conhecimento da realidade. Entretanto, 
durante o período do helenismo, observamos tanto o embate entre o politeísmo e o 
monoteísmo quanto a fusão e sincretismo de ambas as doutrinas. Essa dinâmica foi 
viabilizada na maioria pela expansão cultural liderada por Alexandre. Embora não 
tenha sido sua intenção primordial difundir a cultura grega para outros povos, acabou 
por estabelecer uma interconexão entre elas, facilitando o surgimento de crenças 
distintas do politeísmo. 
O cristianismo primitivo, que surgiu após a era de Alexandre, o Grande, 
inicialmente rejeitou e repudiou a filosofia considerada pagã. No entanto, é possível 
notar um movimento de aproximação com algumas escolas helenísticas, como os 
epicuristas, estoicos, céticos e ecléticos. Essas correntes filosóficas compartilhavam 
 
 
 
certos valores com o cristianismo, como a ênfase na simplicidade de vida, a 
importância do perdão e do amor ao próximo, entre outros aspectos. 
Do ponto de vista histórico, a relação entre o cristianismo e o helenismo pode 
ser entendida como uma disputa pela verdade. Em um primeiro momento, gregos e 
cristãos competiam pela adesão à religião que melhor poderia explicar a realidade e 
estabelecer-se como universal. Essa relação era tanto de correlação quanto de 
oposição: enquanto o cristianismo se consolidava ao incorporar elementos do 
helenismo e sua estrutura intelectual, o helenismo também era influenciado e utilizado 
pelo cristianismo. Assim, essa interação entre as duas correntes representou uma 
dinâmica complexa de intercâmbio e conflito. 
Podemos abordar essa questão da conversão dos gregos ao cristianismo ou 
se foi uma imposição cristã sob diferentes perspectivas, que se entrelaçam e se 
complementam (PEPIN, 1983): 
• A expansão territorial e o aumento do sincretismo cultural levaram à perda 
da clareza da identidade grega entre os indivíduos, que anteriormente se 
orientavam por ideais claros de cidadania na pólis e de pertencimento à 
cultura grega. Esse cenário propiciou a adesão de uma parcela dos gregos 
ao cristianismo; 
• Foram estabelecidas comparações entre a narrativa cosmogônica grega e a 
cristã. 
Nesse contexto, Justino apresenta um argumento à população de Alexandria, 
defendendo que a criação do mundo é obra de Deus, identificado como o logos, pois 
toda a inteligência emana dele. Outros argumentos foram reinterpretados para 
enfatizar a criação divina, como o de Taciano, que via o Verbo como a manifestação 
do mundo exterior a si, implicando que o Verbo é Deus; e o conceito de que Deus é o 
Ser por excelência, implicando que tudo o que não é Deus só poderia ter origem em 
algo que já existe. 
Nesse período, surge a figura do discípulo Paulo, que argumentava que a 
verdade cristã não precisava se fundamentar na inteligência, mas sim na experiência 
espiritual, defendendo que a sabedoria da filosofia residia na persuasão. No entanto, 
é importante notar que Paulo, em seus ensinamentos cristãos, recorria 
frequentemente a conceitos platônicos e estoicos. 
 
 
 
 Ele afirmava que o divino, entendido platonicamente como a Ideia, não se 
manifesta completamente nas obras humanas, as quais são apenas representações 
imperfeitas de Deus. Além disso, Paulo destacava que o que tem valor para os 
homens, como riquezas e bens materiais, não tem valor para Deus. 
Essa abordagem do cristianismo, influenciada pela filosofia grega, perdurou 
nos anos seguintes na tradição cristã, marcada tanto pela aproximação entre religião 
e filosofia grega quanto pela discordância entre ambas. Além disso, é com Paulo, ao 
elaborar a interpretação da Santa Trindade, que se estabelece uma antropologia 
específica para a religião cristã. Em outras palavras, a visão de Paulo concebe o ser 
humano de três maneiras distintas segundo Pepin (1983): 
• O ser humano é descrito como aquele que carrega sua fragilidade no corpo, 
na carne; 
• No entanto, o ser humano também é caracterizado como alguém que possui 
vida; 
• O ser humano é dotado de uma força espiritual que lhe permite estabelecer 
uma relação espiritual com Deus. 
Podemos concluir que a transição do politeísmo ao monoteísmo não ocorreu 
de maneira repentina. Isso nos leva a entender que o cristianismo não simplesmente 
adotou os argumentos filosóficos para fundamentar logicamente a existência divina, 
mas sim representou uma realização intelectual do ser humano como umsujeito 
histórico, inserido na história. 
4.1 Cristianismo: bases de uma religião milenar 
 Segundo o Dicionário Virtual, o Cristianismo é uma religião monoteísta que se 
baseia na fé em Jesus Cristo, seus ensinamentos e sua vida, considerando-o como 
filho de Deus. Originário da Palestina, região sob domínio romano desde 64 a.C., o 
Cristianismo tem suas raízes na tradição judaica, que antecipava a chegada de um 
Messias capaz de trazer salvação para aqueles que nele depositassem sua fé. 
Ele é o Messias (Ungido) de Deus prometido, e o qual o Seu povo esperava; 
Ele é o Salvador esperado pelos judeus, mas foi rejeitado por eles (cf. Jo 
1.11). [...] ao verem o Senhor Jesus servindo aos homens e dando Sua vida 
por eles, os judeus não aceitaram, pois lhes era inconcebível que aquele que 
se declarava o “Messias” se rebaixasse tanto assim. Contudo, este é um dos 
pontos principais do Evangelho de Cristo e da Vida Cristã: humildade para 
 
 
 
servir a Deus e ao próximo, mansidão para não reivindicarmos nossa honra 
e direitos em face de outras pessoas (PEREIRA, 2019, p. 5). 
Os pontos de desacordo entre os rabinos e Jesus estavam relacionados à 
interpretação e à aplicação das leis sagradas. 
Os rabinos tomaram a Lei e a transformaram num código legal de 613 
mandamentos. Ataram fardos pesados sobre os ombros das pessoas, fardos 
estes que nem mesmo os próprios rabinos ousavam encostar um dedo, mas, 
exigiam das pessoas obediência (Mt 23.4). Viviam debatendo sobre qual seria 
o “mais pesado” e o “mais leve” dos mandamentos. Então o Senhor Jesus 
lhes diz que se alguém violasse um dos mandamentos, ainda que fosse 
considerado o mais leve (conforme a concepção deles), seria “considerado 
mínimo no reino dos céus”. O Senhor Jesus não está aqui concordando com 
essa interpretação dos rabinos, mas, sim, mostrando que todos os 
mandamentos têm igual importância, e violar qualquer um deles é coisa muito 
séria! Quando Ele diz em Mt 23.23 sobre “os preceitos mais importantes da 
Lei: a justiça, a misericórdia e a fé”, não está dizendo que existem 
mandamentos mais importantes que outros, mas, sim, que estes preceitos 
estão no âmago da Lei, e, cumprir qualquer mandamento sem observar esses 
três preceitos não tem valor algum aos olhos de Deus (PEREIRA, 2019, p. 
61). 
Assim, Jesus emerge como figura central, delineando os fundamentos do que 
entendemos como cristianismo. A vida de Jesus teve um impacto tão significativo na 
história das civilizações ocidentais que o calendário é dividido em antes e depois de 
sua existência. Segundo relatos históricos, após seu nascimento, Jesus foi levado ao 
Egito e, posteriormente, mudou-se com sua família para Nazaré, na Galileia. 
Conforme o livro de Mateus na Bíblia, essa mudança para o Egito ocorreu para evitar 
a ordem de Herodes, que ao saber do nascimento do "Filho de Deus", ordenou a morte 
de todas as crianças com até dois anos nascidas em Belém. Assim, a infância e 
adolescência de Jesus transcorreram em Nazaré. 
Na fase adulta, Jesus foi fortemente influenciado pelas pregações de João 
Batista, a ponto de solicitar o batismo a ele. Após esse evento, ocorrido nas águas do 
Rio Jordão, Jesus dedicou-se à pregação e à realização de milagres. Assim como 
João Batista, Jesus percebia o mundo de forma dualista, reconhecendo a existência 
do bem e do mal. 
Ao examinar o ambiente em que Jesus viveu durante sua fase adulta, é notável 
que a Palestina não estava completamente subjugada pelo domínio romano. Isso 
resultou em uma abordagem repressiva por parte do Império em relação à população 
 
 
 
local, que frequentemente respondia com movimentos armados contra a presença 
romana. 
No meio desse clima político tenso, a mensagem de Jesus não tinha 
conotações políticas nem representava uma ameaça ao domínio romano. Em vez 
disso, ela se baseava no amor ao próximo, no perdão das ofensas e no desapego aos 
bens materiais. No entanto, Jesus se tornou uma ameaça para Roma devido à 
conjunção entre a volatilidade da região e a política romana de suprimir qualquer 
liderança que pudesse desestabilizar o Império. O Estado romano buscava 
frequentemente aliar-se às elites locais para exercer controle sobre as massas 
populares; portanto, a condenação de Jesus pelos romanos poderia ser vista como 
um gesto de solidariedade para com as autoridades religiosas judaicas, que o 
acusavam de traição e blasfêmia. 
Conforme Costa (2016) e os relatos dos Evangelhos no Novo Testamento, 
Jesus foi detido pelas autoridades romanas, acusado de conspirar contra o Império, e 
posteriormente condenado à crucificação aos 33 anos, após ser submetido a torturas, 
por ordem do procurador romano Pôncio Pilatos. 
Após a morte de Jesus, a tradição que deu origem ao cristianismo foi 
estabelecida, sendo inicialmente disseminada pelos seus apóstolos e seguidores. 
Pedro, um dos discípulos de Jesus, foi o primeiro a difundir os ensinamentos de Jesus, 
uma vez que recebeu a incumbência direta de Cristo para fundar sua igreja. 
Paulo, outro discípulo de Jesus, desempenhou um papel fundamental na 
disseminação da mensagem cristã com uma abordagem mais universal, tornando o 
cristianismo acessível a todas as pessoas. Ele escreveu cartas tanto para 
comunidades cristãs quanto não cristãs, desvinculando o cristianismo da ideia de ser 
um privilégio reservado a um povo eleito por Deus. 
Ao longo da história, uma discussão tem ocorrido entre pensadores e líderes 
religiosos a respeito das cartas de Paulo e se ele genuinamente propagou ou distorceu 
a mensagem central do Evangelho de Jesus. A disseminação das mensagens de 
Paulo no Império Romano contribuiu significativamente para a formação da 
cristandade como a conhecemos hoje. No entanto, há um ponto de discordância 
considerável sobre se Paulo comprometeu a integridade da mensagem original de 
Jesus ao fazer concessões para atrair seguidores, o que desagradou alguns dos 
discípulos de Jesus. 
 
 
 
Antes de se tornar conhecido como Paulo, ele era chamado de Saulo, um jovem 
judeu que perseguia os discípulos e seguidores de Jesus. Por volta do ano 34 d.C., 
Saulo estava envolvido em atrocidades contra os cristãos. Sob a autorização do 
Sinédrio, uma assembleia de anciãos na Palestina, ele invadia casas de forma 
violenta, torturava seus habitantes e os prendia sob a acusação de heresia e 
desobediência à lei de Moisés. Nesse período, a mensagem de Jesus se espalhava 
rapidamente por toda a Palestina, e os seguidores de Jesus eram alvos de intensa 
perseguição, especialmente por parte dos judeus. 
Segundo as Escrituras Sagradas, um evento em Damasco, no qual Saulo/Paulo 
relata ter ouvido a voz de Deus, provocou uma mudança radical em sua vida. De 
perseguidor dos seguidores de Jesus, ele se transformou em Paulo, o mensageiro de 
Deus. Essa transformação pode explicar sua abordagem em relação aos judeus e 
suas possíveis concessões e interpretações da mensagem central do cristianismo. No 
entanto, essa questão permanece em aberto e é objeto de debate. É importante 
ressaltar que as cartas de Paulo desempenharam um papel fundamental na 
disseminação do cristianismo para além dos limites da Palestina, tornando-o acessível 
e conhecido em outras regiões. 
Consequentemente, à medida que o comportamento de Paulo mudava, os atos 
de perseguição contra os cristãos diminuíam, embora não fossem completamente 
erradicados. Os imperadores muitas vezes utilizavam as perseguições aos cristãos 
com motivações mais políticas do que religiosas. Isso ocorria porque os cristãos se 
recusavam a prestar culto a Roma, vista como símbolo da unidade imperial, e a 
reconhecer os imperadores como divindades. 
A mensagem de redenção do cristianismo teve um impacto significativo 
inicialmente entre aqueles que estavam à margem da sociedade romana, como 
mulheres, pobres e escravos. A ampla aceitação do cristianismo como religião 
conferiu-lhe um caráter considerado perigoso pelosromanos, que se tornaram cientes 
dos riscos que essa nova crença representava. As perseguições que se seguiram 
acabaram por fortalecer o cristianismo, tornando-o ainda mais resiliente. 
Em meio à falência das instituições públicas e a uma crise generalizada, os 
seguidores do cristianismo começaram a se unir e a aceitar o martírio, confiando na 
promessa de salvação. Esse contexto levou a um aumento significativo no número de 
adeptos da religião. O cristianismo passou a ser uma fonte de conforto espiritual para 
 
 
 
uma população desiludida com o Império Romano, cujo caráter divino estava sendo 
questionado e negado. 
Consequentemente, as perseguições aos cristãos tornaram-se mais 
desafiadoras, pois o número de fiéis continuava a crescer, enquanto a organização da 
comunidade cristã se tornava mais rígida. A crise do Império contribuiu para o 
aumento do número de pessoas marginalizadas, uma classe que encontrava no 
cristianismo um refúgio espiritual. 
Nesse período desafiador para o Império Romano, tornou-se cada vez mais 
difícil manter uma postura repressiva em relação a um grupo crescente de cristãos. 
Como resultado, no início do século IV, foi concedida liberdade de culto aos cristãos 
por meio do Édito de Milão (CARLAN, 2009). 
No ano de 390, o cristianismo foi oficialmente estabelecido como a religião 
oficial do Império Romano, à medida que suas estruturas administrativas começavam 
a deteriorar-se. Essa decisão foi tomada como uma forma de utilizar a organização da 
Igreja como um meio de exercer controle sobre a crença cristã e de integrar o poder 
do Império a essa estrutura teocrática. 
Em 476, com a deposição do último imperador romano, ocorreu a queda do 
lado ocidental do Império Romano, enquanto o cristianismo continuava a prosperar na 
maioria da Europa. Muitos bárbaros já haviam se convertido ao cristianismo na época 
ou o fariam nas décadas seguintes. Dessa forma, o Império Romano desempenhou 
um papel significativo na expansão do cristianismo (CARLAN, 2009). 
Após a queda do Império Romano, os povos conhecidos como bárbaros 
estabeleceram diversos reinos nos territórios anteriormente controlados pelos 
romanos, iniciando assim o processo de formação política que caracterizaria a 
sociedade medieval. O crescimento do feudalismo, uma das principais características 
desse período, coincidiu com o fortalecimento do cristianismo e da Igreja Católica. A 
influência da Igreja Católica se manifestava na estruturação da sociedade em clero, 
nobreza e servos, além da crença na Santíssima Trindade. 
Mais tarde, durante o período da Grande Divergência, marcado pelo Iluminismo 
e pela Revolução Científica, ocorreram grandes transformações sociais. O 
cristianismo foi desafiado por várias correntes céticas e por ideologias políticas 
modernas, incluindo versões do socialismo e do liberalismo. Eventos como a 
Revolução Francesa, a Guerra Civil Espanhola e a hostilidade dos movimentos 
 
 
 
marxistas, como a Revolução Russa de 1917, resultaram em novas perseguições aos 
cristãos. 
Em toda a Europa, diversas denominações cristãs estiveram envolvidas em 
competições entre si e com o Estado, variando em intensidade conforme as 
circunstâncias. O tamanho relativo das denominações e a orientação religiosa, política 
e ideológica do Estado foram fatores determinantes nesses conflitos (CARLAN, 2007). 
As novas perseguições, disputas internas dentro da própria Igreja e divergências em 
relação a rituais, concepções de santidade e compreensão do Sagrado contribuíram 
para uma divisão dentro do cristianismo, resultando no surgimento de diferentes 
vertentes. 
4.2 Vertentes cristãs 
Os ensinamentos cristãos de Paulo e a estrutura da Igreja não se 
estabeleceram como hegemônicos, porém, serviram como fundamentos para 
desenvolvimentos que acompanharam o fluxo do tempo histórico, adaptando-se ao 
contexto em que estavam inseridos. 
A religião cristã tem três vertentes principais: o catolicismo romano 
(subordinado ao bispo romano), a ortodoxia oriental (se dividiu da Igreja 
Católica em 1054 após o Grande Cisma) e o protestantismo (que surgiu 
durante a Reforma do século XVI). O protestantismo é dividido em grupos 
menores chamados de denominações (SILVA, 2004, p. 142). 
Na parte ocidental do Império, houve um extenso período de desintegração, 
durante o qual a Igreja foi a única instituição a manter-se intacta, assumindo 
gradualmente o papel das antigas instituições romanas. Além disso, a Igreja 
desempenhou um papel crucial na preservação da força intelectual remanescente, 
principalmente por meio de seus monges e da vida monástica. 
A separação do cristianismo em dois ramos, o católico romano e o católico 
ortodoxo, foram o resultado de um processo gradual de alienação que ocorreu na 
igreja cristã entre os séculos VII e XII. Durante esse período, houve diversos 
movimentos e tentativas de reunificação das igrejas, mas todas foram mal sucedidas, 
resultando em um rompimento que persiste até os dias atuais. 
Em 1517, ocorreu outra grande cisma na história do cristianismo, conhecido 
como Reforma Protestante, que resultou na divisão do cristianismo ocidental em 
 
 
 
várias denominações. O monge Martinho Lutero liderou esse movimento ao contestar 
diversos pontos fundamentais da doutrina católica romana estabelecida. Uma das 
críticas de Lutero foi dirigida à prática da venda de indulgências, na qual a igreja 
oferecia a absolvição dos pecados em troca de pagamento. Outros líderes importantes 
da Reforma, como Zwingli e Calvino, também criticaram o ensino e as práticas da 
igreja católica romana (SILVA, 2004). 
Esses desafios desenvolveram o movimento chamado de protestantismo, 
que questionou e repudiou o primado do papa, o papel da tradição, os sete 
sacramentos e outras doutrinas e práticas. Na Inglaterra, a Reforma começou 
em 1534, quando o Rei Henrique VIII tinha se declarado chefe da Igreja da 
Inglaterra (CASTRO, 2014, p. 45). 
 
Como resposta à Reforma Protestante, a Igreja Católica Romana iniciou um 
processo de renovação e reforma conhecido como Contrarreforma ou Reforma 
Católica. Esse período representou uma fase de profunda reflexão e busca por uma 
compreensão renovada do catolicismo pela própria Igreja. Além de reagir 
vigorosamente à Reforma, a Contrarreforma foi caracterizada pelo fechamento em 
relação às ideias de liberdade promovidas pelo mundo moderno, o que, em grande 
medida, limitou as possibilidades de diálogo crítico e construtivo. 
A Reforma Protestante desempenhou um papel significativo na redescoberta 
do classicismo e na revitalização do cristianismo, favorecendo assim um movimento 
de renovação. Este período testemunhou um esforço para integrar as duas tradições, 
promovendo o que poderia ser chamado de um "humanismo integral", que valoriza a 
pessoa em todas as suas dimensões e reconhece a transcendência como uma 
resposta fundamental à busca por significado (PIANA, 2019, documento online). 
Conforme observado por Piana (2019), Erasmo de Roterdã emergiu como um 
proeminente defensor do diálogo nesse período. Ele, sendo um membro do mundo 
católico, conseguiu engajar-se em um diálogo frutífero com Lutero, ao mesmo tempo, 
em que mantinha uma conexão estreita com os princípios do humanismo secular, 
adotando suas demandas fundamentais. 
No século XX, um significativo movimento conhecido como ecumênico iniciou, 
conforme destacado por Silva (2004). Esse movimento visava fortalecer os laços entre 
as igrejas protestantes, ortodoxas e católica, desempenhando um papel essencial no 
desenvolvimento da religião ao longo da história humana. O movimento ecumênico, 
 
 
 
intrinsecamente ligado ao cristianismo, buscava reduzir as diferenças entre as 
denominações religiosas por meio da aproximação e compreensão mútua das 
diversas crenças dentro da mesma fé. 
Sob a perspectiva teológica, o movimento ecumênico concentra-se 
principalmente no diálogo entregrupos religiosos que compartilham crenças ou 
características semelhantes, centrando-se na confissão e no testemunho da 
mensagem religiosa de Jesus Cristo. 
A história do movimento ecumênico é uma história de reações contra desafios 
filosóficos, científicos, econômico-políticos e mesmo religiosos, diante dos 
quais a desunião do cristianismo protestante, em certos momentos, se 
apresentou com preocupante fraqueza (MENDONÇA, 2008, documento on-
line). 
O ecumenismo representa a colaboração em atividades compartilhadas que 
não entram em conflito com os princípios da fé cristã, conforme apontado por 
Mendonça (2008). Ele esclarece que o sincretismo religioso não é a base do 
movimento ecumênico. Por essa razão, em algumas situações, é viável a expressão 
do movimento ecumênico entre segmentos do cristianismo que historicamente 
estiveram em conflito (MENDONÇA, 2008). 
Por ocasião da chegada do cristianismo ao Brasil, embora o território fosse 
originalmente habitado por povos com crenças indígenas e politeístas, a ocupação 
territorial pelos portugueses a partir de 1500 teve um impacto significativo na 
disseminação do cristianismo. Um exemplo marcante desse processo foi a realização 
de uma missa organizada por Pedro Álvares Cabral logo após sua chegada, marcando 
o início da implantação de raízes profundamente cristãs em nossa sociedade, raízes 
essas que se mantêm presentes até os dias atuais. 
Desde então, o Brasil se consolidou como um dos países com maior presença 
cristã. No entanto, nas últimas décadas, temos testemunhado também uma 
diversificação religiosa em nosso país. O Brasil é caracterizado pelo pluralismo 
religioso, no qual se destaca uma crescente diversidade de expressões cristãs. 
Nesse cenário, além da presença marcante do catolicismo, observa-se um 
significativo crescimento dos segmentos de pessoas sem religião e do protestantismo 
pentecostal. No entanto, o pluralismo religioso transcende a diversidade cristã, 
refletindo um nível mais amplo de desenvolvimento social, que não se limita apenas à 
 
 
 
liberdade formal e legal de culto. No Brasil, por exemplo, apesar da liberdade de 
prática religiosa, as religiões de matriz africana ainda não possuem reconhecimento 
legal, o que destaca uma discrepância entre a legislação e a realidade observada. 
Os princípios do pluralismo cultural, tolerância religiosa e democracia 
enfrentam desafios diante da limitada diversidade religiosa, na maioria devido à forte 
predominância do cristianismo na sociedade brasileira. Para promover um diálogo 
inter-religioso eficaz, é necessário cultivar uma cultura de respeito e tolerância mútua, 
que contrarie os frequentes ataques dirigidos a religiões minoritárias, como as de 
origem afro-brasileira. Esses ataques têm contribuído significativamente para o 
declínio dessas religiões. 
No cenário religioso brasileiro, em 2000, emergiu uma categoria denominada 
"neocristianismo", abrangendo instituições religiosas que se aproximam do 
protestantismo, porém com doutrinas distintas das da Bíblia. Anteriormente, esses 
grupos eram agrupados simplesmente como "outras religiões", incluindo as 
Testemunhas de Jeová, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 
conhecida como Mórmons, e a Legião da Boa Vontade (LBV). 
No final do século XIX, o espiritismo também passou a ser considerado parte 
desse conjunto de novas religiões. No entanto, é importante notar que essa inclusão 
foi mais uma decisão sociológica do que teológica. Isso se deve ao fato de que os 
espíritas enfatizam a prática do princípio cristão da caridade por meio de obras de 
assistência social e conferem centralidade ao culto a Jesus Cristo, conforme expresso 
no livro "O Evangelho segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, publicado em 1864. 
Por esses motivos, o espiritismo também é reconhecido como uma vertente cristã. 
Em síntese, o cristianismo no Brasil engloba a maioria da população, 
apresentando uma diversidade significativa, especialmente com a inclusão do 
espiritismo como parte do pequeno, porém notável, grupo neocristão. 
Devido à predominância do cristianismo no Brasil, a presença de outras 
religiões é relativamente pequena em termos culturais e políticos. O cenário religioso 
brasileiro é majoritariamente composto por instituições cristãs, e o que é comumente 
chamado de diversidade religiosa muitas vezes se resume a uma variedade dentro do 
mundo cristão. 
 
 
 
5 IDADE MÉDIA: DIFERENTES VISÕES AO LONGO DO TEMPO 
Conforme Bauer et al. (2020), o historiador francês Jacques Le Goff, renomado 
especialista em história medieval, expressou o seguinte em uma obra de divulgação 
científica: 
Eu diria que a Idade Média não é o período dourado que certos românticos 
quiseram imaginar, mas também não é, apesar das fraquezas e aspectos dos 
quais não gostamos, uma época obscurantista e triste, imagem que os 
humanistas e os iluministas queriam propagar. É preciso considerá-la no seu 
conjunto (LE GOFF, 2007, p. 18). 
O primeiro ponto a ser considerado é que a denominação "Idade Média" não 
era contemporânea aos próprios eventos. Em outras palavras, os habitantes do 
território que posteriormente se tornaria a Europa não se referiam à sua época como 
"Idade Média". Como apontado por Franco Jr. (2006), "Se usássemos a expressão 
'Idade Média' em uma conversa com os habitantes medievais, eles não teriam ideia 
do que isso significaria. Eles, assim como todas as pessoas em todos os períodos 
históricos, viam-se vivendo na época contemporânea". 
Isso evidencia que, em geral, as cronologias e periodizações são operações 
intelectuais realizadas retroativamente. Portanto, as expressões "Idade das Trevas" e 
"Idade Média" surgiram após aqueles períodos, marcando uma distinção entre um 
"antes" e um "depois". Essas denominações refletem certos interesses por parte dos 
humanistas e renascentistas inicialmente, e mais tarde dos historiadores iluministas. 
[...] o termo [Idade Média] expressava um desprezo indisfarçado pelos 
séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este 
se via como o Renascimento da civilização greco-latina, e, portanto, tudo que 
estivera entre esses picos de criatividade artístico-literária (de seu próprio 
ponto de vista, é claro) não passava de um hiato, de um intervalo. Logo, de 
um tempo intermediário, de uma Idade Média (FRANCO JR. 2006, p. 17). 
A expressão "Idade Média" estabeleceu-se na historiografia, denotando um 
período intermediário entre a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e a 
conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos (1453). No entanto, nos últimos 
anos, esses marcos têm sido objeto de questionamento. 
Na verdade, as datas retidas importam pouco, pois toda periodização é uma 
convenção artificial, em parte arbitrária, e enganadora se lhe são conferidas 
mais virtudes do que ela pode oferecer. Reter-se-á apenas que a ideia 
tradicional da Idade Média refe 
re-se a esse milênio de história europeia, que se estende do século V ao 
século XV (BASCHET, 2006, p. 34) 
É importante considerar a diversidade de experiências culturais, econômicas, 
políticas e sociais ao longo dos aproximadamente mil anos rotulados como Idade 
Média. Essa diversidade não se limitava apenas em termos cronológicos, ao longo do 
 
 
 
tempo, mas também em aspectos espaciais. No entanto, por vezes, tem-se a falsa 
impressão de que a Idade Média foi um período de homogeneidade, caracterizado 
pela ausência de mudanças, o que está longe de corresponder à realidade. 
O termo "medievalismo" se refere à forma como a história é registrada sobre o 
período conhecido como "Idade Média". De acordo com Leslie J. Workman (citado por 
MARTINS, 2017), há três abordagens distintas nesse contexto: o estudo da Idade 
Média realizado no meio acadêmico; a representação ou uso desse passado em 
épocas posteriores à Idade Média; e a análise dessas representações. 
Contudo, o autor argumentaque essa divisão é apenas superficial. 
“[...] o estudo da Idade Média é sempre, por definição, pós-medieval, ou seja, 
pode ser considerado uma ‘representação’ ou ‘uso’ desta, faz parte do 
‘processo contínuo de criação’ da própria Idade Média” (MARTINS, 2017, p. 
34.) 
Conforme Franco Jr. (2006, p. 17), o historiador italiano Petrarca (1304–1374), 
juntamente com outros escritores, já utilizava o termo “tenebrae” para se referir ao 
período, termo do qual derivou a concepção das "trevas". No entanto, foi durante o 
Renascimento e o Humanismo que as noções de tempo médio, ruínas e trevas se 
popularizaram. 
5.1 Fontes no estudo da Idade Média 
A prática da escrita histórica se fundamenta na análise de evidências, vestígios 
e registros deixados por diferentes sociedades, os quais os historiadores interpretam 
como fontes históricas. Enquanto algumas civilizações legaram uma vasta gama de 
materiais documentais, outras tiveram seus registros destruídos ao longo do tempo 
ou intencionalmente, seja por ação humana ou pelo curso natural dos eventos. Em 
contrapartida, há povos cuja história é transmitida oralmente, o que pode resultar na 
perda de informações com o passar das gerações. Cada tipo de fonte histórica 
pressupõe a aplicação de conceitos, metodologias e teorias específicas, que variam 
conforme a disciplina histórica, tais como arqueologia, etnografia, paleografia, entre 
outras. 
Como os estudiosos da Idade Média abordam suas fontes? Além das análises 
críticas internas e externas dos documentos, há outra perspectiva a considerar, como 
aponta. 
O medievalista continua realizando essa crítica, mas hoje o que está em foco 
nos estudos medievais são as novas perspectivas sobre fontes já conhecidas, 
 
 
 
sejam textos escritos ou elementos da cultura material. A releitura e 
reconsideração das fontes, somada ao aprofundamento de uma perspectiva 
interdisciplinar, tem proporcionado uma profunda renovação do 
conhecimento das sociedades medievais (VIDOTTE, 2010, documento on-
line) 
Durante os mil anos da Idade Média, alguns períodos cronológicos possuem 
documentação mais robusta do que outros. Além disso, a preservação de registros e 
materiais variou entre os diferentes reinos e povos, entre outras circunstâncias que 
impactam diretamente a escrita da história medieval. Em geral, os historiadores lidam 
com informações fragmentadas provenientes de fontes bastante diversas, 
destacando-se pela sua diversidade mais do que pela sua quantidade. 
Conforme Linage Conde (1997), é viável identificar diversas categorias de 
documentos que servem como fontes para a composição da história medieval. 
• A historiografia medieval: é composta por obras escritas por historiadores 
e outros intelectuais contemporâneos aos eventos que ocorreram durante a 
Idade Média. Essas obras representam fontes valiosas para entender não 
apenas os eventos em si, mas também os métodos de escrita histórica da 
época, as noções temporais, os conceitos empregados e os dados concretos 
apresentados pelos autores. 
• Crônicas medievais: abrangem escritos que tratam principalmente de 
assuntos históricos, englobando eventos do passado, contemporâneos ao 
autor e até mesmo testemunhados por ele. É interessante examinar quais 
eventos os cronistas consideravam dignos de registro e os argumentos que 
sustentavam essa seleção. Algumas questões têm sido levantadas pelos 
historiadores em relação aos cronistas e suas crônicas, questionando se 
podem ser classificados como "historiadores" e se suas obras se inserem 
numa "tradição historiográfica 
• Fontes intelectuais: incluem documentos gerados pelas universidades, 
como catálogos de bibliotecas. 
• Fontes jurídicas: incluem leis, tratados e processos legais que fornecem 
percepções sobre as instituições, costumes, profissões e noções de justiça 
da época. 
• Fontes relacionadas às mentalidades: abrangem aspectos culturais, 
religiosos e tradicionais, como tradição oral, brasões, normas de conduta 
cristã, hagiografia, liturgias, música e cantos. 
 
 
 
• Fontes naturais, incluindo biológicas e geológicas: como achados 
arqueológicos e fósseis de animais e plantas, juntamente com mudanças na 
paisagem, oferecem percepções valiosos sobre uma variedade de eventos 
e informações da Idade Média. 
• Fontes científicas: como estudos de astronomia, mapas cartográficos e 
marítimos, e regulamentos médicos, oferecem importantes perspectivas 
para compreender diversos aspectos da Idade Média. 
• Fontes materiais: como achados arqueológicos como moedas, vestuários, 
armas e cerâmica, oferecem informações valiosas sobre a cultura material 
da Idade Média. 
• Fontes artísticas: como arquitetura, tapeçaria, artes plásticas, poesia e 
prosa, oferecem percepções significativos sobre a vida e a cultura na Idade 
Média. 
5.2 Desafios das pesquisas sobre a Idade Média 
De acordo com Bauer et al. (2020), os historiadores especializados na Idade 
Média enfrentam diversos desafios ao escrever sobre esse período histórico. 
Um dos principais obstáculos diz respeito à disponibilidade de fontes. Embora 
possa ser presumido que haja uma escassez de registros escritos ou 
materiais dessa época, essa suposição não reflete necessariamente a 
realidade enfrentada pelos pesquisadores. 
para essas investigações não estavam disponíveis acervos específicos, 
manuscritos ou impressos, em arquivos públicos ou privados, nem coleções 
monumentais. O problema não era propriamente a ausência de documentos, 
mas sim a sua dispersão. As tipologias tradicionais dos documentos não 
colaboravam nessa busca que culminou no agrupamento e na análise de 
fontes dos mais variados tipos, sobretudo aquelas produzidas com outros 
objetivos [...] (SANTOS, 2010, documento on-line). 
Isso evidencia que o principal desafio de acesso às fontes não é a ausência 
delas, mas sim a sua dispersão. Essa situação é explicada pela diversidade tipológica 
dos vestígios e de seus autores, resultando em uma multiplicidade de acervos 
fragmentados. Felizmente, graças aos projetos de digitalização de documentos, é 
viável realizar buscas documentais online, eliminando a necessidade de visitar 
fisicamente os arquivos dispersos por diversas regiões e países europeus. 
 
 
 
A informática e a internet não apenas tornaram o acesso aos documentos mais 
fácil, mas também ampliaram as possibilidades metodológicas de crítica às fontes. O 
advento da digitalização permitiu que pesquisadores de diferentes partes do mundo 
pudessem acessar fontes primárias disponibilizadas virtualmente, democratizando 
assim o acesso à informação. Como afirmado por Santos (2010), "Atualmente é 
impossível medir a extensão total desses acervos na rede, dada a quantidade e 
variedade da oferta". 
No que diz respeito às oportunidades metodológicas para lidar com as fontes, 
a informática tem facilitado o desenvolvimento do campo da história seriada. Isso 
possibilita a análise de dados quantitativos ao longo de séculos, algo que as máquinas 
podem realizar em questão de segundos, representando uma verdadeira revolução 
desde os anos 1970. Além disso, surgiram recentemente softwares de mineração de 
dados, permitindo análises semânticas a partir da interseção entre história e 
humanidades digitais. 
Uma vez superados os desafios relacionados ao acesso às fontes, é essencial 
dedicar-se à crítica interna, isto é, compreender a estruturação de cada documento e 
confrontar a fragmentação típica das sociedades europeias medievais presentes 
nesses vestígios. Um exemplo disso é a variação na contagem dos anos adotada 
pelos diferentes reinos medievais e nas diversas regiões dentro desses reinos. 
Conforme apontado por Franco Jr. (2006), a adoção do ano de 365 dias remonta ao 
Egito faraônico. 
No entanto, porque essa contagem não estava em perfeita correspondência 
com os ciclos solares (os quais hoje são ajustados com anos bissextos), surgiram 
diferenças substanciaisna cronologia dos anos. 
Um exemplo adicional é o calendário cristão e seus marcos estabelecidos a 
partir do nascimento de Jesus Cristo. Este calendário foi proposto pelo monge 
Dionísio, o Pequeno, no século VI, e difundido por Beda, o Venerável, no século VIII. 
A sua adoção pelos francos ocorreu no século IX, pelos germânicos no século X, e 
apenas no século XII pelos habitantes da Península Ibérica. Isso implica que, até 
esses momentos específicos, esses reinos utilizavam formas distintas de contagem 
temporal, destacando a importância para os historiadores que trabalham nesse 
período de estarem atentos a tais variações. 
 
 
 
Por último, outra ilustração das dificuldades em conceber um tempo único ou 
uniforme durante a Idade Média surge das disparidades entre o calendário civil e o 
religioso. Somente por meio das reformas implementadas pelo papa Gregório XIII, em 
1582, é que ocorreu uma padronização desse calendário. 
Antes dessa data, existiam diferenças significativas entre o calendário civil e o 
religioso. 
Na França do Norte e Países-Baixos, o ano começava na Páscoa, que sendo 
festa móvel fazia alguns anos terem 13 meses e outros apenas 11. Na França 
do Sul e parte da Itália, na festa da Anunciação (25 de março). Na Inglaterra, 
Alemanha, Espanha e Portugal, o ano civil coincidia com o litúrgico, 
começando no Natal. As mudanças de sistema não eram raras e acentuavam 
a confusão, como na Inglaterra do século XIV, que passou a adotar o 25 de 
março (FRANCO JR., 2006, p. 22–23) 
Como pode ser observado, um dos desafios enfrentados pelos medievalistas é 
a busca por parâmetros temporais estáveis para suas análises. As diversas formas de 
contagem de tempo e de percepção temporal geram dificuldades na consideração das 
simultaneidades, uma vez que é possível que reinos geograficamente contíguos 
tenham datas diferentes para eventos sincrônicos. O historiador que se dedica à 
escrita da história desse período deve estar atento a essas nuances culturais e 
religiosas para compreender adequadamente a natureza de suas fontes de pesquisa. 
5.3 A contagem do tempo Medievo 
Conforme as análises de Franco Jr. (2006), durante a Idade Média, havia duas 
concepções distintas do tempo: uma influenciada pelas interpretações teológicas e 
outra de origem pré-cristã. Embora essa divisão possa parecer simplista, entre o 
tempo religioso e o pagão, ela possui certa validade. 
A concepção temporal pagã, disseminada entre diversos povos, era 
caracterizada por um tempo cíclico, que se baseava em fenômenos astronômicos e 
naturais, com a ideia de um "retorno". Não havia uma noção de historicidade nem de 
irreversibilidade dos acontecimentos. A contagem do tempo servia principalmente 
para marcar a repetição de determinados eventos, festas e rituais cotidianos. 
Conforme observado por Franco Jr. (2006), "Daí a importância da festa de Ano Novo, 
que era uma retomada do tempo no seu começo, isto é, uma repetição da 
cosmogonia, com ritos de expulsão de demônios e de doenças". 
 
 
 
Essa visão temporal foi assimilada e reconfigurada tanto pelo judaísmo quanto, 
especialmente, pelo cristianismo, resultando na formulação de uma narrativa histórica 
linear: "há um ponto de partida (Gênese), um ponto de viragem (Encarnação) e um 
ponto final (Juízo Final)". 
Contudo, se o cristianismo reinterpretava a história, não podia deixar de sentir 
seu peso, por isso sua liturgia baseia-se na repetição periódica e real da 
Natividade, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, quer dizer, o fiel, ao 
participar da reprodução do evento divino, volta ao tempo em que ele se deu. 
Ou seja, a cristianização das camadas populares não aboliu a teoria cíclica, 
pelo contrário, permitiu por influência dela o reforço de certas categorias do 
pensamento mítico (FRANCO JR., 2006, p. 21). 
Dessa maneira, a sociedade medieval apresentava três diferentes concepções 
temporais: o tempo cíclico, o tempo linear e um tempo escatológico, relacionado aos 
eventos finais da existência, conhecidos somente por Deus. Semelhante à 
Antiguidade Romana, o dia era dividido em 12 horas, assim como a noite, 
independentemente da estação do ano, o que resultava em dias (no verão) ou noites 
(no inverno) mais longos. No entanto, a contagem precisa dessas horas só foi 
aprimorada com o desenvolvimento do relógio mecânico no século XIV. 
Apenas o clero, por necessidades litúrgicas, estabeleceu um controle maior 
sobre as goras, contando-as grosseiramente de três em três a partir da meia 
noite (matinas, laudes, primas, terça, sexta, nona, vésperas, completas). 
Esse sistema, contudo, era impreciso e não se adequava às atividades laicas 
(FRANCO JR. 2006, p. 22). 
Em geral, a contagem das horas na Idade Média era imprecisa devido à falta 
de uma necessidade percebida para um controle rigoroso do tempo. Com a maioria 
da população vivendo em áreas rurais, o ritmo de vida era ditado pelos ciclos naturais, 
pela lua, pelo sol e pelas estações do ano. A contagem dos anos era problemática, o 
que também gerava desafios para os estudiosos desse período. Mas e quanto à 
contagem dos dias? Conforme as palavras de Franco Jr. (2006): 
A contagem dos dias agrupava-os em semanas de sete, adotadas no 
Ocidente por volta do século IV. No Sul os dias receberam nomes de deuses 
romanos e no Norte de deuses germânicos. [...] O agrupamento em meses, 
por sua vez, de origem muito antiga, passou para a Europa medieval, latina 
e germânica, com seus nomes romanos (FRANCO JR. 2006, p. 22). 
Jacques Le Goff (1980), em "Para um novo conceito de Idade Média", delineia 
a ideia de múltiplas vivências de temporalidades na Idade Média, indo além da mera 
contagem do tempo do calendário. Ele identifica três principais: o tempo rural, clerical 
e leigo; o tempo dos mercadores ou o tempo urbano; e o tempo religioso. Estas 
temporalidades não coexistiam de forma isolada, mas sim em uma interconexão 
articulada e interdependente. 
 
 
 
Conforme descrito pelo autor, o tempo rural, clerical e leigo emerge como uma 
das características mais marcantes da Idade Média. Essa temporalidade era 
predominantemente cíclica, ligada às atividades agrícolas como plantio e colheita, 
bem como aos ciclos naturais, como o dia e a noite e as estações do ano. Além das 
tarefas agrícolas, períodos de orações eram observados, e eventos astronômicos 
também eram celebrados em dias santos (LE GOFF, 1980). 
O tempo dos mercadores, conhecido como tempo urbano, estava 
intrinsecamente ligado a diversas atividades sociais, o que implicava em uma noção 
de progressão e linearidade, com tarefas realizadas dentro de cronogramas definidos 
por critérios distintos. Por exemplo, as feiras estavam diretamente relacionadas a 
eventos religiosos e outros fatores, como as distâncias entre vilas e o tempo 
necessário para a produção de mercadorias. Como aponta Le Goff (1980), para os 
mercadores, a tecnologia introduziu um novo tempo, mensurável e previsível, 
contrastando com o tempo cíclico e imprevisível da natureza. 
Quando se trata do tempo religioso, é fundamental destacar sua conexão com 
a divindade, sendo considerado como pertencente a Deus e associado à concepção 
de eternidade, transcender os limites da vida terrena e abranger tanto o presente 
quanto o além-vida. 
5.4 A literatura Medieval 
Diferentemente da contemporaneidade, na era medieval, a literatura 
desempenhou um papel fundamental como meio de instrução religiosa, promovendo 
os ensinamentos do Cristianismo sob a égide da Igreja Católica. Os escritores desse 
período eram predominantemente figuras eclesiásticas, incluindo bispos, padres e, 
em alguns casos, até mesmo papas, que se engajavam na produção literária. No 
entanto, o público consumidor dessas obras consistia principalmente em membros do 
clero e uma parcela da nobreza. 
Além das influências religiosas que constituíam a base essencial das obras, 
também se observava a presença das ideias filosóficas,propuseram uma abordagem mais abrangente, assemelhando-a a uma 
"psicologia social", que consideraria diversos aspectos da vida das pessoas. Além 
disso, essa abordagem seria interdisciplinar, estabelecendo diálogos com outros 
campos do conhecimento, como a geografia e a psicologia. Com isso, surgia a ideia 
de uma História Total ou História Problema, numa clara tentativa de romper com o 
modelo então predominante. Como observado pelo professor José D'Assunção 
Barros. 
“[...] constituem a identidade dos Annales como um movimento: a 
interdisciplinaridade, a problematização da história, e as novas proposições 
nas formas de conceber o Tempo” (BARROS.2010, documento on-line). 
 
 
 
 
Já em um artigo publicado na Revista de história econômica e social em 15 de 
janeiro de 1929, era enfatizada a importância do intercâmbio entre historiadores e 
cientistas sociais (BURKE, 1991). Essa proposta ficou conhecida como "histoire 
totale”. 
Trata-se de reconstruir o vivido mediante problemas e motivações da época 
do próprio historiador. Para além disto, trabalhar com um “problema” 
pressupõe o gesto de reconhecer e explicitar para os leitores os conceitos e 
fundamentos que estão por trás do problema e das escolhas historiográficas, 
e não esconder estes conceitos dos olhos do leitor, para forjar o mito da 
neutralidade (BARROS, 2010, documento on-line). 
De acordo com essa nova abordagem, o fato histórico não é mais considerado 
como algo dado, mas sim como uma construção do historiador. Isso porque o trabalho 
do historiador passa a ser centrado em um problema formulado por ele mesmo, em 
consonância com as questões pertinentes à sua época. 
Essa será a essência dos Annales: a construção de uma história baseada 
nesses princípios de problematização. O historiador assume uma postura dupla, 
semelhante à de Janus (o deus romano de duas faces, uma voltada para o passado 
e outra para o futuro), buscando compreender o passado para elucidar questões 
contemporâneas. Dessa forma, o historiador não se limita mais à narração de eventos 
com uma perspectiva nacionalista, mas concentra-se em temas que despertam seu 
interesse no presente, investigando como essas questões se desdobraram ao longo 
do tempo. 
Essa nova abordagem não pode ser dissociada da célebre frase de Bloch: “A 
incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado” (BLOCH, 
2001, p. 65). Daí a ênfase dele e de Braudel em examinar o passado à luz dos desafios 
contemporâneos, uma abordagem que tem sido central na revista Annales d’histoire 
économique et sociale ao longo das gerações. Embora haja mudanças metodológicas 
e de foco, o foco da revista permanece em analisar o passado a partir das questões 
do presente. 
Essa revista desempenhou um papel importante na formulação e consolidação 
da abordagem da História Problema proposta por Febvre e Bloch. Essa abordagem 
basicamente ocorreu quando. 
 
 
 
 
“[...] os historiadores atribuem um sentido ao objeto e lhe direcionam 
questionamentos que oportunizam a inversão do que se pensa sobre ele, 
expressando um produto inédito” (SANTOS; ANDRADE, 2015, documento 
on-line). 
Esse objeto de estudo deixou de ser as biografias de figuras históricas 
proeminentes e os eventos políticos de uma nação para se concentrar em sistemas 
de crenças. Isso é evidente, por exemplo, na obra "Os Reis Taumaturgos", de Marc 
Bloch, ou em "Martinho Lutero, um Destino", de Lucien Febvre. 
A revista sofreu um golpe severo quando, em 1944, Marc Bloch foi detido, 
submetido a tortura e executado pelo regime nazista. Este episódio ocorreu durante a 
Segunda Guerra Mundial, quando a França estava ocupada pelos nazistas desde 
1940. Isso resultou em uma série de mudanças na revista, incluindo a alteração de 
seu título para "Mélanges d'histoire sociale" a partir de 1942 (o que permaneceu até 
1944) e a exclusão de Bloch do corpo editorial devido à sua origem judaica, sendo 
vetado pelo regime nazista. Mesmo após a morte de Bloch, Febvre continuou a 
publicação da revista, que continua sendo publicada até hoje sob o título "Annales. 
Histoire, Sciences Sociales" (Annales HSS), reinventando-se constantemente. 
1.2 O giro linguístico 
Segundo Freitas et al. (2019), no decorrer do século XX, a historiografia passou 
por uma significativa transformação conhecida como "giro linguístico", iniciado pelo 
renomado historiador norte-americano Hayden White (1928–2018), um dos principais 
teóricos da história moderna. Segundo Silva (2015), o "giro linguístico" representou 
um verdadeiro desafio para a historiografia, além disso, é importante estabelecer 
definições precisas para conceitos fundamentais dentro da área historiográfica. 
O conceito primordial a ser considerado é o de "acontecimento". Na história, os 
acontecimentos são o foco principal, sendo definidos como fatos que ocorreram e não 
se repetirão. No entanto, a questão torna-se mais complexa quando percebemos que 
nem todo acontecimento se torna objeto de estudo histórico. É necessário que haja 
algo que o singularize, conferindo-lhe caráter "histórico". 
Nesse sentido, é essencial descartar a mera materialidade de um 
acontecimento como critério para sua inclusão na história. Um exemplo ilustrativo 
disso é o caso da Bastilha em Paris: embora a população parisiense passasse 
 
 
 
diariamente em frente a ela, foi somente em 14 de julho de 1789 que essa mesma 
população a tomou, marcando o início da Revolução Francesa. 
“[...] o que definitivamente individualiza um acontecimento é que ele acontece 
em um determinado momento” (CARDOSO, JÚNIOR, 2005, documento on-
line). 
O segundo conceito fundamental é o de "discurso". Desde os primórdios da 
escola dos Annales, observou-se uma proliferação de discursos historiográficos, que 
abrangem desde a história cultural até a história das ideias, e culminam na micro-
história. Mas o que exatamente significa "discurso" no contexto da produção do 
historiador? Refere-se essencialmente ao trabalho do historiador, ao relato que ele 
elabora sobre os acontecimentos, buscando reconstruir, por meio de uma narrativa 
lógica, os fatos do passado. 
Durante esse processo, são empregados aparatos conceituais específicos, de 
modo que cada ramo da produção historiográfica faz uso de seus próprios conceitos, 
os quais moldam o formato do discurso. 
A expressão "giro linguístico" desencadeia um debate sobre o que é dito sobre 
o real e como é dito, o que tem profunda relevância para o trabalho do historiador, 
intrinsecamente narrativo. Surge a questão central: o objeto da análise histórica é uma 
questão de linguagem ou de fato? Essa interrogação suscita o interesse da filosofia 
da linguagem pela história. Para Jacques Derrida (1930–2004), o discurso é 
autorreferencial, ou seja, não há nada fora dele, sugerindo assim a autonomia da 
linguagem, que se contém em si. Roland Barthes (1915–1980) adota uma posição 
ainda mais radical, propondo que o fato tenha apenas existência linguística. 
[...] o giro linguístico veio a tornar-se um rótulo conveniente para evocar a 
afirmação de que a linguagem é autorreferente. Ou seja, no lugar da ideia de 
que a linguagem se constitui basicamente como um meio para referir-se a 
objetos do mundo real (portanto como um elemento neutro para referir-se, 
nomear ou qualificar o real), ela possui sua especificidade e está longe de ser 
neutra (SILVA, 2015, documento on-line). 
É amplamente aceito que o historiador não pode ser neutro ao criar sua 
narrativa, pois é impossível que qualquer discurso se refira à realidade sem influenciar 
de alguma forma. 
 
 
 
No entanto, quando se menciona o giro linguístico no contexto da história, 
imediatamente se associa a Hayden White (1928–2018). Inspirado nos trabalhos de 
Derrida e Barthes, White desenvolveu sua própria teoria sobre a linguagem na história, 
apresentada em seu livro "Meta-história", publicado em 1992. Para White, a narrativacom reflexões inspiradas em 
pensadores como Aristóteles e Platão, embora em menor escala durante a Alta Idade 
Média. O corpo eclesiástico, que valorizava o conhecimento das diversas facetas da 
 
 
 
arte greco-romana, desempenhava o papel de guardião e preservador de numerosas 
bibliotecas e valiosas obras de arte do mundo clássico. 
Durante esse período, a Igreja, por meio dos princípios sagrados da doutrina 
cristã, incentivou os escritores medievais a explorarem o imaginário cultural, social e 
religioso que permeava a complexa estrutura da sociedade medieval. Esses autores 
optaram por retratar em suas obras passagens bíblicas, criando biografias 
romanceadas sobre a vida de santos católicos, sempre reforçando a sacralidade por 
meio da presença de Deus e da promessa da vida eterna. 
Na literatura, por outro lado, à primeira vista a fronteira entre os dois pólos 
culturais estava colocada no idioma utilizado, o latino na cultura clerical e o 
vernáculo na vulgar. De fato, segundo Bruce Rosenberg, a literatura medieval 
em língua vulgar está mais impregnada de elementos folclóricos do que a de 
qualquer outra época. No entanto, a questão é mais complexa. Na literatura 
latina, ao lado de uma produção nitidamente clerical (crônicas, poesias de 
cunho clássico), havia uma de espírito popular (hagiografia) e outra erudita, 
mas anti eclesiástica (goliárdica). Na literatura vernácula, havia gêneros com 
forte coloração clerical (canção de gesta, ciclo do Graal) e outros 
acentuadamente laicos (lais, fabliaux). Em termos culturais, portanto, e não 
apenas linguísticos, boa parte da literatura da Idade Média Central estava na 
zona da cultura intermediária (FRANCO JR., 2001, p. 144). 
Os historiadores Le Goff (2018) e Gombrich (1999) concordam em dois pontos 
essenciais relacionados à Idade Média: em primeiro lugar, refutam a ideia errônea do 
termo renascentista "idade das trevas", argumentando que ao longo dos quase mil 
anos do período medieval ocorreram diversos "renascimentos"; em segundo lugar, 
destacam que as diferentes camadas sociais que viveram entre os séculos V e X não 
tinham uma compreensão nem uma identificação claras com os estilos artísticos, tanto 
nas artes quanto na literatura, devido à multiplicidade de influências artístico-culturais. 
Apenas a partir do século XI, com o desenvolvimento de um processo civilizatório mais 
sólido, os estilos artísticos passariam a ser melhor compreendidos e apreciados. 
A partir do século XII, conforme a perspectiva de alguns estudiosos da Idade 
Média, o trovadorismo desencadeou transformações significativas na literatura. 
Temas como o amor, aventura, contos épicos e sátiras passaram a ganhar mais 
destaque, embora ainda sob a influência da Igreja e muitos deles considerados 
profanos. Conforme apontado por Barros (2015). 
O Amor Cortês encontra seus principais veículos de expressão nas cantigas 
dos trovadores, nos romances corteses, nas “cortes de amor” e, em muitos 
casos, nas próprias “vidas” dos poetas-cantores que percorriam as cortes 
feudais da Europa Medieval e que por vezes acabavam transformando a sua 
própria existência errante em uma autêntica obra de arte. O século XII 
também nos legou o famoso Tratado do Amor Cortês, de André Capelão, que 
procura refletir sobre o Amor à maneira dos tratadistas medievais, sendo esta 
 
 
 
também uma importante fonte para a compreensão dos novos padrões de 
sensibilidade (BARROS 2015, p. 216) 
No entanto, a partir desse ponto em diante, a literatura assume um novo papel 
no imaginário da época. 
5.5 Entre Fé e a Razão: a filosofia medieval 
A Igreja Católica assumiu o papel de uma instituição supranacional, engajando-
se em diálogos e forjando alianças com as elites dominantes, consolidando assim sua 
influência nos campos cultural, social e político. Isso levou à expansão de sua 
presença física e à acumulação de riquezas materiais, resultando na posse de 
aproximadamente um terço das terras férteis da Europa. Nesse período, em que a 
posse de grandes propriedades representava prestígio, poder e riqueza, a Igreja 
emergiu como uma figura central. 
Com isso, seu plano universalista abarcou diferentes territórios, mediando 
muitas celeumas entre a fé e a razão. A partir disso, a Igreja estabeleceu, do ponto de 
vista da cultura, uma estratégia intelectual, na qual a fé cristã seria a base primordial 
de todo o conhecimento humano. Portanto, a fé fundamentava-se em um processo de 
doutrinação contínua e plena às revelações feitas por Deus aos homens, registradas 
na Bíblia, com os devidos esclarecimentos feitos pela autoridade da Igreja Católica. 
Inicialmente, é importante considerar que o cerne do debate para a formação 
da filosofia na Idade Média reside no conflito entre fé e razão. Este foi um período 
profundamente teocêntrico, no qual os filósofos também eram religiosos, possuindo 
uma sólida formação teológica. Sua principal preocupação era encontrar um equilíbrio 
entre fé e razão. Reconhecendo que incorporar a razão à fé cristã poderia aumentar 
o número de seguidores da Igreja Católica, era necessário diferenciar e, ao mesmo 
tempo, conciliar os dogmas da fé com as descobertas da razão. No entanto, como 
aponta Franco Jr. (2001). 
[...] o campo cultural em que melhor se expressou a tentativa de 
harmonização do passado clássico com o cristianismo foi o da Filosofia. Na 
verdade, tal pretensão não foi apenas a dos primeiros tempos medievais, mas 
de toda a Idade Média, como veremos mais adiante. Na fase que ora 
examinamos, isso transparece na corrente conhecida por Patrística. Na 
essência, ela procurava provar que a doutrina cristã não conflitava com a 
razão, demonstrando assim a falsidade do paganismo, para tanto, ela 
recorreu à filosofia grega, sobretudo ao platonismo, que se adequava melhor 
à mensagem cristã (FRANCO JR. 2001, p. 146). 
 
 
 
Agostinho de Hipona, posteriormente conhecido como Santo Agostinho, foi o 
primeiro filósofo e teólogo a promover a aproximação entre fé e razão. Em sua obra 
"Cidade de Deus", escrita por volta de 426 d.C., o pensador cristão refutou diversas 
heresias de sua época, incluindo o Maniqueísmo (uma crença dualista oriunda da 
Pérsia, que separava o bem e o mal), o Donatismo (uma corrente contrária à 
autoridade dos líderes da Igreja com ligações estatais), o Arianismo (uma 
compreensão de Jesus como humano, não divino) e o Pelagianismo (uma visão que 
enfatizava a responsabilidade humana na salvação). 
Agostinho foi o principal representante da Patrística, uma corrente filosófica que 
se dedicou a compreender a relação entre corpo e alma, fé e razão. O que diferenciou 
Agostinho foi sua reinterpretação do mundo sensorial da Antiguidade Clássica, 
influenciado pela filosofia de Platão. A partir desse mundo sensorial, Agostinho propôs 
uma reflexão que integrava o conhecimento, a razão, o pensamento e os sentidos 
humanos no contexto do debate teológico da doutrina cristã. 
Conforme aponta Gomes (2002): 
A bifurcação da escatologia cristã consumou-se com a teologia agostiniana, 
mantendo o cristianismo numa permanente tensão entre instituição e 
inspiração, entre poder e carisma. Agostinho refutou o milenarismo e a 
escatologia iminente, rejeitando a possibilidade da identificação de um reino 
visível de Cristo na terra antes do Juízo Final e falando antes de uma 
presença invisível do Reino de Deus na Igreja. Nesta escatologia que se 
tornou oficial na Cristandade medieval, o futuro prometido era reconhecido 
como já presente no culto, na proclamação da Palavra de Deus, nos 
sacramentos, na Igreja. Dava-se deste modo uma quase identificação do 
Reino de Deus com a Igreja numa espécie de “êxtase” da realização no 
presente do futuro prometido. Era como que um “mito” do presente (GOMES, 
2002, p. 222). 
Inspirado pelas ideias de Agostinho de Hipona, o teólogo e filósofo Anselmo de 
Cantuária, originalmente nascido como Anselmo de Aosta na cidade de Aosta, Itália,e hoje reconhecido como Santo Anselmo, adotava como lema principal a expressão 
"fides quaerens intellectum" (a fé em busca de entendimento). Ele baseava-se em um 
argumento ontológico, também derivado da tradição platônica, que questionava "o que 
é isso?". Anselmo defendia a noção de que Deus era um ser perfeito e, portanto, sua 
existência decorria dessa perfeição. Ele argumentava que, se Deus era perfeito, era 
inconcebível para a mente humana negar sua existência. A tarefa da Igreja, segundo 
ele, era traduzir quem, e o que era Deus. Em suas obras, Anselmo expressava suas 
preocupações com os debates que envolviam a conciliação entre fé e razão. 
 
 
 
No livro "Monológio", Anselmo empreende uma tentativa de demonstrar a 
existência de Deus por meio da razão, sem recorrer às escrituras sagradas. Em sua 
obra "Proslógio", ele também desenvolve uma argumentação fundamentada na razão 
para fortalecer a fé. Além de ser um intelectual comprometido com o aprimoramento 
filosófico através do equilíbrio entre a razão filosófica e teológica, o pensador cristão 
também desempenhou um papel político na sustentação e defesa da doutrina cristã e 
da Igreja. 
Conforme observado por Chesterton (2015), Tomás de Aquino ocupou o cargo 
de professor na Universidade de Paris e era membro da Ordem dos Dominicanos. Ele 
desempenhou um papel significativo na ampliação do projeto universalista da Igreja 
ao desenvolver a Escolástica, um método característico das universidades medievais 
europeias entre os séculos IX e XVI. Segundo o autor, Tomás de Aquino empregou 
as escolásticas para introduzir e explorar os ensinamentos de Aristóteles, 
especialmente na área da metafísica aristotélica, focalizando nas causas primárias ou 
na origem das coisas. 
Seu objetivo era conciliar a fé cristã com o pensamento racional, explorando 
questões que estabeleciam uma conexão entre teologia e filosofia. Em essência, 
Tomás de Aquino propôs uma investigação e fundamentação racional da fé. 
Quanto ao método de estudo, aplicava-se a Escolástica, assim chamada 
devido ao local em que nascera, a escola urbana. Tratava-se de um conjunto 
de leis sobre como pensar determinado assunto. Inicialmente, leis da 
linguagem, buscando-se o exato sentido das palavras, já que por meio delas 
é que se desenvolve o raciocínio, são elas o instrumental que constrói o 
pensamento. Depois, leis da demonstração, por meio da dialética, isto é, 
forma de provar certa posição recorrendo-se a argumentos contrários. A 
seguir, leis da autoridade*, ou seja, o recurso às fontes cristãs [Bíblia, Pais 
da Igreja*) e do pensamento clássico (Platão, Aristóteles) para fundamentar 
as ideias defendidas. Por fim, leis da razão, utilizáveis para uma 
compreensão mais profunda de tudo, mesmo de assuntos da fé. A aplicação 
do método escolástico ao ensino fazia com que este se desenrolasse em dois 
momentos básicos, a lectio ou leitura, comentário e análise de texto, e a 
disputatio ou debate sobre tudo aquilo (FRANCO JR., 2001, p. 161) 
Durante o período de consolidação de seu poder, a Igreja Católica conseguiu 
reconhecer os anseios de uma parte da população medieval ávida por conhecimento, 
buscando conciliar a razão com o universo sobrenatural e supersticioso característico 
da época. As elaborações teológicas e explicações demandavam um elemento capaz 
de estabelecer uma ligação entre o mundo da fé cristã e o antigo mundo clássico, que 
havia sido superado pelas numerosas transformações demográficas e pela perda do 
poder centralizador romano. 
 
 
 
 
 
6 RENASCIMENTO 
Conforme Byington (2009), o Renascimento, um período que abrange os 
séculos XIV ao XVII, marcou a transição da Idade Média para a Era Moderna, iniciado 
por mudanças socioeconômicas significativas, como o aumento do comércio, que 
minou o sistema feudal. Embora fundamentado no resgate dos ideais de beleza e 
conhecimento da Antiguidade, o Renascimento não era simplesmente uma nostalgia 
pelo passado. O movimento renascentista era caracterizado por um forte sentimento 
de superioridade em relação aos séculos anteriores, combinado com uma atitude 
otimista em relação ao presente e ao futuro. 
Isso proporcionou a oportunidade para que as pessoas entrassem em contato 
com culturas diversas e períodos históricos distintos, resultando em uma abertura para 
novas perspectivas sem limitações ou imitações. 
Quanto à sociedade renascentista, Godinho afirmava que: 
“A sociedade renascentista apresentava novas relações sociais em seu 
cotidiano, um novo comportamento no trabalho, na diversão, no tipo de 
moradia, nos encontros nas ruas. Essa mudança demonstra que o 
Renascimento representou uma nova concepção de vida e não apenas um 
movimento de alguns artistas, embora tenha sido exaltado e difundido nas 
obras de arte. Tal concepção de vida, não era totalmente nova, apesar de 
revolucionária, uma vez que se caracterizou por um renovado interesse pelo 
passado gregoromano clássico” (GODINHO, 2012, p.01). 
As primeiras manifestações dessas características ocorreram na Itália, onde os 
dogmas da Igreja foram questionados pelo pensamento lógico e houve o declínio das 
municipalidades italianas, possibilitando a defesa igualitária dos direitos de todos, não 
apenas dos senhores responsáveis pelas municipalidades. De acordo com Barreto 
(1983), esse período pode ser dividido em duas fases: a fase da consciência e a fase 
historiográfica. O autor caracteriza a fase da consciência como, “Corresponde à 
criação duma ideia global sobre a idade que se vive e as outras que passaram na 
formação da consciência ocidental, período que decorre entre os finais do século XVI” 
(BARRETO, 1983, p. 14). 
E a fase historiográfica como, corresponde à passagem duma ideia de 
consciência existencial para o campo do saber erudito e historiográfico, tornando-se 
aí conceito operatório definidor dum determinado clima epocal. Esta segunda vida 
inicia-se nos finais do século XVII e vem até aos nossos dias (BARRETO, 1983, p. 
14). 
 
 
 
O período renascentista se destaca como um dos mais notáveis da história, 
conforme apontado por Reclus (2009), pois é nesse movimento que surgem 
sociedades que valorizam as individualidades de forma consciente. Os ideais desse 
período logo se difundiram para outras regiões, ampliando significativamente sua 
influência. Isso resultou em uma transformação na maneira como percebemos e 
analisamos o mundo e na estrutura da sociedade como a conhecíamos, afetando 
todas as áreas, incluindo as classes sociais, a religião, a ciência, a política e a arte. 
 
➢ Renascimento nas classes sociais 
Na história antiga até o Renascimento, a estrutura social seguia um padrão 
altamente hierárquico e estratificado, com a sociedade organizada em três principais 
estratos: a aristocracia, o clero e a plebe. 
No topo da hierarquia encontrava-se o clero, composto por membros da igreja, 
como sacerdotes, bispos e cardeais. Esta classe social destacava-se pela sua grande 
influência política e religiosa, incumbida da manutenção da ordem espiritual e moral 
na sociedade. 
A aristocracia era composta por indivíduos de maior riqueza e autoridade, 
frequentemente proprietários de terras. Essa classe detinha influência significativa na 
sociedade, assumindo funções prestigiosas, como liderança militar em tempos de 
conflito e supervisão das atividades comerciais e financeiras. 
Na base da pirâmide social estava a plebe, composta por artífices, 
comerciantes e lavradores. Essa classe, em sua maioria, tinha pouca ou nenhuma 
influência política e era responsável por fornecer mão de obra e recursos para as 
classes superiores. 
Durante o Renascimento, o surgimento de novas ideias sobre igualdade e 
liberdade individual questionou a estrutura social estabelecida. O aumento dos 
estudos científicos e racionais resultou em avanços significativos em áreas como 
medicina, arquitetura e navegação, beneficiando tanto a aristocraciaquanto a 
burguesia. 
É importante destacar que os benefícios resultantes não foram exclusivos das 
classes mais privilegiadas. Valores como igualdade social e direitos humanos eram 
defendidos por movimentos populares e camponeses. No entanto, o Renascimento 
também trouxe prejuízos para as classes menos favorecidas, que não tiveram as 
 
 
 
mesmas oportunidades de acesso às mudanças e ainda enfrentaram a exploração da 
aristocracia. Resumindo, o Renascimento representou uma época de mudanças 
radicais na Europa, com impactos que se estenderam por todas as classes sociais. 
Por meio de sua aspiração por igualdade e justiça, os movimentos populares e 
camponeses foram motivados a lutar por melhores condições. 
 
➢ Renascimento na Religião 
As ideias promovidas durante o Renascimento provocaram uma transformação 
significativa no pensamento religioso europeu. Os intelectuais, ao expor suas ideias, 
questionaram a noção de que a religião era o único caminho para a salvação, 
desencadeando debates entre humanistas e cientistas sobre os dogmas 
estabelecidos pela Igreja. De acordo com Ernst Cassirer, filósofo, o Renascimento foi 
um período em que "a razão se libertou do dogmatismo religioso", abrindo espaço 
para questionamentos sobre a natureza de Deus, a existência do inferno e outras 
doutrinas religiosas. 
No cenário de crescente crítica à Igreja e no contexto do embate entre esta e o 
Estado Monárquico, surge na Europa do século XVI a Reforma Protestante, liderada 
por Martinho Lutero. Entretanto, antes que o movimento alcançasse a amplitude 
promovida por Lutero, a Europa já testemunhava protestos contra os ensinamentos 
da Igreja, tendo como um de seus líderes John Wycliff (1325-1384). 
“Wycliff denunciou as irregularidades praticadas pelo clero, como as relíquias, 
as peregrinações, veneração dos santos, purgatório e as indulgências. Tinha 
a Bíblia como norma de fé e prática e defendia que cada pessoa tinha o direito 
de ler e interpretá-la individualmente, ponto este que foi explorado 
posteriormente por Martinho Lutero” (SANTOS, 2012, p. 33). 
Por meio de suas iniciativas, Wycliff exerceu influência na disseminação de 
seus ideais, o que resultou no surgimento de outros estudiosos pré-reformadores, 
entre os quais se destaca John Hus (1372-1415). De acordo com Santos (2012), Hus, 
inspirado por Wycliff, enfatizava a autoridade suprema das Escrituras e afirmava que 
Cristo, e não o Papa, era o cabeça da Igreja. Por defender essas ideias contrárias à 
doutrina romana, ele foi condenado à fogueira. 
Esses pensadores serviram como referências intelectuais para o movimento 
liderado por Lutero, cujo início oficial remonta ao dia 31 de outubro de 1517. Através 
de suas 95 teses, o estudioso iniciou suas críticas à Igreja, ganhando impulso ao 
traduzir a Bíblia para o vernáculo. O movimento de reforma, impulsionado por esse 
 
 
 
objetivo maior, cresceu significativamente. Segundo Santos (2012) as publicações de 
Lutero, entre 1517 e 1520, venderam mais de 300 mil exemplares. 
A Reforma Protestante também enfatizou o investimento na educação, como 
aponta Santos (2012): 
Uma das principais convicções dos reformadores era a necessidade da 
educação do povo de uma forma geral. Eles acreditavam que a alfabetização 
dos leigos e uma educação mais significativa para o clero seriam fatores que 
contribuíram para a evangelização dos povos. Por isso, não mediram 
esforços para ver concretizado estes propósitos” (SANTOS, 2012, p.36). 
A Reforma liderada por Lutero em 1517 teve implicações profundas na Europa 
do século XVI, resultando na divisão do cristianismo em várias correntes. Em resumo, 
o Renascimento causou um impacto significativo na religião ao questionar as tradições 
e a autoridade da Igreja Católica, e ao promover o surgimento de diferentes correntes 
religiosas. Além disso, o pensamento renascentista foi importante para o surgimento 
do processo de secularização, que se consolidou nos séculos seguintes e ainda 
exerce influência na vida religiosa e na sociedade. 
 
➢ Renascimento Científico 
Os novos pensamentos resultaram em uma revolução no pensamento científico 
europeu, promovendo avanços significativos em áreas como medicina, astronomia, 
matemática e física. Conforme Godinho (2012) ressalta, o Renascimento alterou as 
ideias e as perspectivas humanas em relação à vida, introduzindo um método 
científico que revolucionou o pensamento e deu origem a uma visão renascentista e 
moderna. Essa mudança de paradigma representou um marco na história intelectual 
da humanidade, trazendo consigo uma abordagem mais crítica e analítica em relação 
ao conhecimento científico e à compreensão do mundo. 
“A grande revolução do pensamento, que possibilitou o surgimento da visão 
renascentista da natureza, foi o rompimento da visão geocêntrica do cosmos, 
construída desde a Antiguidade Clássica por Ptolomeu e pela Bíblia, que 
havia sido dogma por mais de mil anos. Tal concepção considerava o cosmos 
como um todo ordenado e perfeito, instituído e regido pelas forças divinas. 
Era uma totalidade fechada e estática” (GODINHO, 2012, p. 03). 
Antes, a ciência baseava-se principalmente na observação e na argumentação 
lógica. No entanto, com a introdução do método científico, passou-se a valorizar a 
experimentação e a verificação empírica, exigindo que as hipóteses fossem testadas 
por meio de experimentos e observações controladas. Esse enfoque resultou em uma 
ruptura em relação à visão predominante na Antiguidade Clássica. É importante 
ressaltar, no entanto, que o Renascimento não representou necessariamente uma 
 
 
 
separação irreconciliável entre ciência e religião. Pelo contrário, durante esse período, 
ciência e religião muitas vezes coexistiram e até mesmo colaboraram, compartilhando 
espaços e influências (DAMIÃO, 2018). 
Francis Bacon e Galileu Galilei emergiram como defensores proeminentes do 
método científico, enfatizando a importância da observação empírica, da 
experimentação e da formulação de teorias baseadas em evidências concretas. De 
acordo com Damião (2018), ambos contribuíram significativamente para uma 
mudança na percepção da ciência, conferindo-lhe uma finalidade distinta daquela 
tradicionalmente atribuída à filosofia e à teologia. Seus trabalhos fundamentaram a 
epistemologia moderna, fortalecendo a confiança no método científico como a 
abordagem primordial para investigar e compreender o mundo natural. 
Francis Bacon é reconhecido por sua abordagem metodológica pioneira, 
centrada na exploração do problema do método nas ciências experimentais, bem 
como na definição clara de seu objeto e finalidade (DAMIÃO, 2018). Seus estudos 
influenciaram significativamente o desenvolvimento da mentalidade pragmática que 
caracteriza a ciência moderna. 
“Galileu definiu com clareza a distinção necessária entre filosofia, teologia e 
ciência, a partir do objeto concernente a cada uma delas: a filosofia diz 
respeito às verdades ontológicas, a teologia, às verdades religiosas e a 
ciência, às verdades naturais (as leis que regem os fenômenos da natureza). 
Portanto, a ciência não pode contaminar-se nem pelo pensamento religioso, 
nem pelo teológico e, tampouco, podem os cientistas invocarem as máximas 
filosóficas ou apelar para os exemplos bíblicos para justificarem suas 
investigações. Nada há de mais vexatório para o cientista do que recorrer a 
trabalhos de outras áreas e de outras épocas para justificar seus 
experimentos atuais” (DAMIÃO, 2018, p. 31). 
Galileu se destacava por sua abordagem investigativa na metodologia 
científica, enfatizando a observação cuidadosa dos fenômenos como o caminho para 
alcançar o verdadeiro conhecimento. Ele defendia que a ciência estava sujeita aos 
limites da experiência, destacando que os resultados obtidos dependiam das 
condições nas quais os experimentos eram realizados. Segundo Damião (2018), 
Galileu acreditava que, desde que o observador semantivesse atento e focado em 
seu raciocínio, a ciência não o levaria a equívocos. 
Percebe-se, assim, que o Renascimento exerceu uma influência marcante 
sobre a ciência, incentivando a aplicação do método científico e propiciando avanços 
significativos. Um exemplo claro desse impacto são os cientistas que foram 
 
 
 
fundamentais na moldagem da ciência moderna, deixando um legado para a 
humanidade. 
 
➢ Renascimento Político 
O aprofundamento do conhecimento durante o Renascimento deu origem a 
uma valorização dos estudos da razão e da busca pela verdade. Esse movimento 
resultou no desenvolvimento do humanismo, uma corrente que exaltava a importância 
do ser humano e seu potencial educacional. De acordo com Brotton (2006), o 
humanismo renascentista tinha como propósito prático de fornecer uma base para o 
progresso pessoal, especialmente para capacitar os indivíduos para assumirem 
responsabilidades governamentais. 
Quanto à exaltação do ser humano promovida pelos humanistas, Weyne 
observa: 
 “Assim como a concepção medieval de homem, pode-se observar que o 
humanismo renascentista influenciava-se tipicamente pela concepção 
bíblico-cristã de homem, segundo a qual este é uma criatura única em razão 
de haver sido criado à imagem e semelhança de Deus (WEYNE, 2013, p. 
219). 
Brotton ressalta o crescimento e o sucesso dos ideais humanistas na Europa 
ao observar: 
“O sucesso do humanismo reside em sua pretensão de oferecer duas coisas 
a seus seguidores. Primeiro, fomentou a crença de que o domínio dos 
clássicos o tornava uma pessoa melhor, mais “humanitária”, capaz de refletir 
sobre os problemas morais e éticos que o indivíduo enfrentava em relação ao 
seu mundo social. Em segundo lugar, convenceu estudantes e empregadores 
de que o estudo de textos clássicos fornecia as habilidades práticas 
necessárias para uma futura carreira como embaixador, advogado, padre ou 
secretário nas camadas da administração burocrática que começaram a 
surgir na Europa do século XV. O treinamento humanista em tradução, 
redação de cartas e oratória era visto como uma educação altamente 
comercializável para aqueles que desejavam entrar nas fileiras da elite social” 
(BROTTON, 2006, p. 40). 
Com o crescimento do pensamento humanista na Europa, surge uma 
abordagem que funde o conceito de Deus com o papel do homem, que passa a ser 
central nesse contexto. De acordo com Weyne (2013), referenciando as ideias de Luiz 
Feracine (2005), o homem é visto como protagonista na criação e transformação da 
matéria e do mundo. Assim, esses estudos não implicam em uma ruptura com a 
religião, mas sim em um reconhecimento do papel destacado que o homem deve 
desempenhar na sociedade como um líder, um papel que, segundo o autor, é 
designado por Deus. 
 
 
 
Nesse contexto, emergiram novas correntes de pensamento político que 
confrontavam o feudalismo e a teologia predominantes na Europa medieval. O 
humanismo, ao buscar resgatar os ideais da Roma Antiga, promovia a valorização da 
liberdade, da razão e da dignidade humana. 
A reinterpretação dos escritos antigos de filósofos como Aristóteles, Platão e 
Cícero desencadeou uma nova compreensão da política e de seus fundamentos. Os 
princípios resultantes desse movimento influenciaram significativamente importantes 
pensadores políticos, que contribuíram para a formulação de novas estruturas de 
governo e organização social. 
Durante esse período, dois autores destacaram-se no contexto da política 
moderna: Maquiavel e John Locke. Maquiavel, considerado por muitos como o "Pai 
do pensamento político", advogava a centralização do Estado e a necessidade de um 
governo forte. Segundo Bignotto (2003), em seus estudos sobre Maquiavel, as 
questões por ele abordadas respeitam integralmente a tradição. Seus ideais 
fundamentavam-se na razão e na capacidade de tomar ações sem se submeter a 
outras formas de moralidade e ética. Conforme os ideais de Maquiavel, Bignotto 
(2003) argumenta que o governante teria sucesso se conseguisse viver segundo as 
normas da ética cristã, ou seja, o bom governante seria aquele que primava pela ética. 
Por outro lado, John Locke adotou uma posição diametralmente oposta à 
defendida por Maquiavel, ao pleitear a limitação do poder governamental como meio 
eficaz para garantir efetivamente a liberdade e a propriedade dos cidadãos. Locke se 
posicionou contra tiranias, mas a favor de um governo que assegurasse justiça e 
liberdade para todos, dentro dos princípios do liberalismo político. Conforme 
observado por Vilela: 
“Para que se possa compreender a origem do poder político e do Estado 
liberal, sua função e objetivos, é preciso partir da condição natural em que se 
encontrava a humanidade originariamente, isto é, considerar o estado de 
natureza lockeano” (VILELA, 2016, p. 03). 
Com base na tese de John Locke sobre a sociedade e sua política, o autor 
também destaca que: 
“A sociedade civil (ou política), sendo a superação do estado de natureza, é 
instituída unicamente para que os homens vejam seus direitos ainda mais 
protegidos e assegurados. Em suma, o Estado teorizado por Locke é aquele 
que atende unicamente aos interesses da classe burguesa, interesses esses 
que encontravam no Antigo Regime (no caso da Inglaterra, o absolutismo 
monárquico) um grande obstáculo. O pensamento político de Locke era o 
argumento de que a burguesia precisava para lutar contra o absolutismo e 
 
 
 
ganhar força política; no entanto, Locke o formulou ex post facto à Revolução 
Gloriosa” (VILELA, 2016, p. 07). 
Todas essas contribuições culminaram em um impacto profundo na política 
moderna durante o Renascimento, influenciando revoluções políticas significativas, 
como a Revolução Francesa e a Revolução Americana. Além disso, os ideais de 
liberdade e humanismo perpetuados por esse período continuam a inspirar 
movimentos políticos e sociais ao redor do mundo até os dias atuais. 
 
➢ Renascimento Cultural 
Visto como um movimento cultural, o Renascimento proporcionou o surgimento 
de uma nova abordagem em relação à arte, resultando em um impacto significativo 
na maneira como a produção artística se desdobrou a partir do século XIV. 
Durante esse período, o Ocidente testemunhou o surgimento de um conjunto 
de ideias e obras monumentais provenientes de diversas formas de expressão 
artística, exercendo influência nas gerações subsequentes. De acordo com Godinho 
(2012), os artistas renascentistas conferiram equilíbrio e elegância às suas obras, 
explorando não apenas temas religiosos, mas também a mitologia e cenas do 
cotidiano. Isso demonstra que esse período se destacou pela expansão e pelo desejo 
de compreender o funcionamento e as formas da natureza, desviando-se dos padrões 
da arte clássica, embora esta ainda estivesse presente, embora com uma abordagem 
diferente. 
Adicionalmente, nesse período, os artistas começaram a explorar novas 
técnicas e materiais em suas obras, o que contribuiu para destacá-los dos demais. 
Como mencionado por Godinho: 
“A arte renascentista era proporcional e baseada em figuras matemáticas, 
como a esfera, o cubo, o triângulo e a pirâmide. A perfeição geométrica e a 
beleza artística andavam juntas e atuavam em perfeita harmonia” 
(GODINHO, 2012, p. 04). 
Dessa forma, houve um aumento significativo no uso da geometria, bem como 
o domínio de novas técnicas de pintura, incorporando o uso de óleos e telas como 
suporte durante o processo criativo. Essas inovações deram origem a novos artistas 
e correntes artísticas, que proporcionaram interpretações renovadas sobre o mundo 
e a sociedade. A arte assumiu um papel mais amplo e engajado, indo além do caráter 
puramente decorativo, passando a ser uma ferramenta para expressar críticas sociais, 
políticas e religiosas. Isso refletiu os ideais do Renascimento, que desafiou e quebrou 
 
 
 
os paradigmas estabelecidos há séculos, permitindo que a arte espelhasse os valores 
e ideaisde uma sociedade em constante transformação. 
Para ressaltar a importância das artes na transmissão de ideias durante o 
Renascimento, Godinho recorre a Lenoble: 
“[...] vários pintores italianos como Leonardo Da Vinci, Rafael e Michelangelo 
mostram na maioria de suas obras temas religiosos. Entretanto colocam a 
expressão nos rostos, que possuem aparência humana e sugerem aos 
corpos uma graça carnal que nada reflete da graça divina. A luz não vem do 
alto, mas das invenções humanas, do jogo das sombras, da profundidade 
produzida pela perspectiva que surge nessa época, dos sorrisos 
emocionados pela beleza das coisas e não arrebatados pelo êxtase” 
(LENOBLE, apud GODINHO, 2012, p. 05). 
Por essa razão, observa-se que os artistas renascentistas procuravam se 
distanciar dos ensinamentos dogmáticos da Igreja, na maioria devido aos princípios 
humanistas prevalentes na época. Isso resultou no surgimento de diversas obras que 
criticavam esses ideais, tanto na pintura quanto na literatura e no teatro. Um exemplo 
destacado por Godinho (2012) é a peça "A Mandrágora", de Nicolau Maquiavel, na 
qual o autor se esforçou para elucidar as contradições de sua sociedade, não 
recorrendo a explicações transcendentes, mas sim a análises científicas concretas. 
Isso mostra que os autores proeminentes da época buscavam novas abordagens para 
entender o comportamento humano, afastando-se do enfoque divino defendido pela 
Igreja. 
Portanto, podemos afirmar que o Renascimento trouxe consigo mudanças 
profundas que moldaram a arte ocidental. É evidente que numerosas expressões 
artísticas posteriores, como o Modernismo e a arte contemporânea, foram 
influenciadas por esse período. Além disso, o Renascimento alterou tanto a maneira 
de produzir quanto de apreciar a arte, incitando nos espectadores uma reflexão crítica 
sobre aquilo que estão contemplando. 
6.1 Literatura do Renascimento 
➢ Livro antes da impressão 
Segundo Gracia (2016), para compreendermos a disseminação da literatura 
durante o Renascimento, é essencial examinar o fator crucial que levou ao surgimento 
dos livros impressos na Europa no século XV. Anteriormente, a maioria dos livros era 
feita de pergaminho, uma alternativa ao papiro. De acordo com Gracia, o pergaminho 
era obtido a partir do couro de carneiros, vitelos e bezerros, que, uma vez limpos, 
 
 
 
eram raspados, prensados e secos ao sol, resultando em uma superfície adequada 
para receber a escrita em ambos os lados. Embora mais resistente que o papiro, sua 
fabricação era demorada e cara, o que limitava sua produção e acesso. 
Para produzir os livros, as páginas eram escritas manualmente e, após secas, 
eram prensadas, agrupadas e encadernadas, formando o que conhecemos como 
códice. Esse formato de suporte foi amplamente utilizado por muito tempo devido à 
sua maleabilidade e durabilidade, conforme observado por Gracia (2016). No entanto, 
o processo era caro, o que levou à busca por uma alternativa mais acessível para 
impulsionar a produção literária. Assim, surgiu o papel como uma solução viável para 
atender à crescente demanda por livros na época. 
 
➢ Expansão do papel na Europa 
O papel foi inventado na China por volta de 105 d.C. pelo eunuco Tsai Lun. Ele 
desenvolveu esse material utilizando restos de seda e fibras vegetais, que eram 
batidos e misturados antes de serem secos ao sol. Esse processo resultava na 
formação da folha de papel. 
[...] juntavam-se as matérias primas (refugos de seda, entrecasca da amoreira 
e do bambu e restos de produtos feitos com fibras vegetais) num tanque de 
água e batia-se para separar as fibras. A polpa líquida resultante era colhida 
numa peneira retangular, deixando-se escorrer a água. Retirada e posta a 
secar, a película formada pela camada de fibras sobre a peneira resultava na 
folha de papel (CAMPOS, 1994, p.76). 
Ao adotar o papel como material de escrita, houve uma redução significativa 
nos custos de produção, o que beneficiou os cofres chineses. Gracia (2016) observa 
que, por muitos anos, o conhecimento sobre a fabricação do papel não era 
compartilhado com outras civilizações. Os chineses mantinham segredo sobre o 
processo de produção, a fim de garantir sua exclusividade na fabricação e, assim, 
controlar a oferta e a importação desse recurso. 
A produção em larga escala do papel iniciou após o Japão iniciar sua fabricação 
no século VI, expandindo-se por todo o império asiático. Bacelar (1999) atribui a 
chegada do papel a alguns países europeus ao fato de os árabes terem obtido o 
conhecimento por meio de prisioneiros chineses no século VIII, sendo posteriormente 
introduzido na Europa nos séculos XII e XIII. 
No século XII, na Itália, o papel foi introduzido como uma alternativa de suporte 
para a escrita, especialmente por mercadores. No entanto, de acordo com Febvre e 
Martin (2000), o papel não possuía as mesmas características externas de 
 
 
 
durabilidade do pergaminho. Inicialmente, seu uso estava restrito a documentos 
menos importantes, como cartas ou rascunhos, devido à sua estrutura mais fina e 
menor resistência, tornando-o propenso a rasgar com facilidade. 
Por essa razão, os escribas continuaram preferindo o pergaminho para 
assuntos de maior importância. A substituição do pergaminho pelo papel foi um 
processo gradual, uma vez que havia certa resistência e desconfiança em relação ao 
novo suporte. Gracia (2016) destaca que essa resistência levou o Imperador Federico 
II Hohenstaufen (1194-1250) a proibir, em 1231, o uso do papel em diplomas e 
documentos públicos, devido a preocupações sobre sua durabilidade. 
No entanto, reconhecendo o potencial futuro do papel nos negócios, a cidade 
de Fabriano, na Itália, continuou a operar seus moinhos de papel. Em 1276, de acordo 
com Gracia (2016), a cidade emergiu como um importante centro de produção de 
papel, estabelecendo-se como uma referência na fabricação desse material. 
Apesar disso, o papel gradualmente conquistou mais espaço nos mercados 
europeus. Devido ao custo elevado de produção do pergaminho, sua demanda 
começou a diminuir, levando o mercado a buscar alternativas. Como Bacelar aponta: 
“O papel de farrapo foi-se tornando cada vez mais barato e abundante e, 
simultaneamente, a alfabetização expandia-se. Em parte, os dois processos 
aceleraram por se estimularem mutuamente. A necessidade de 
documentação aumentava com o desenvolvimento do comércio, assim como 
com o aumento da complexidade dos processos de governo e administração 
política e religiosa. Por seu lado, os processos comerciais mais sofisticados 
e o número de funcionários necessários para manter em funcionamento as 
crescentes burocracias políticas, religiosas e comerciais, criaram a 
necessidade de um sistema de ensino que produzisse esses mesmos 
funcionários. Para tal era necessária a existência e disponibilidade de 
material escrito” (BACELAR, 1999, p. 02). 
De acordo com Febvre e Martin (1991), com o aumento da demanda, os 
fabricantes de papel se viram obrigados a priorizar a quantidade em detrimento da 
qualidade. Isso levou à adoção do papel produzido a partir da celulose, embora 
considerado inferior, sua característica principal era a rápida fabricação para atender 
à demanda crescente. Assim, na Itália, surgiram os primeiros centros de produção e 
uma expansão significativa no uso desse suporte, de modo que, a partir da metade 
do século XIII, o papel começou a substituir o pergaminho em algumas regiões da 
Europa. Sobre o crescimento do uso do papel, Frebvre, (2000) afirma que: 
“Durante a segunda metade do século XIII, já é usado em registros no sul da 
França (1248, registros de notários marselhes; 1248, registro dos inquisidores 
do Languedoque; 1243-1248, registro dos inquiridores de Afonso de Poitiers; 
1272-1274, registro dos inquiridores reais em Toulousain). No final do século 
XIII e princípio do século XIV, o papel é de uso comum na Suíça. Na mesma 
 
 
 
data, é poucoa pouco adoptado no norte da França e, em 1340, os escrivães 
da Chancelaria real utilizam um registro de papel hoje conservado no Trésor 
des Chartes. Ao mesmo tempo, o novo material espalha-se pelos países 
Baixos e norte da Alemanha, numa altura em que, a sul, os mercadores 
venezianos de há muito o tinham tornado de uso corrente” (FREBVRE, 2000, 
p. 35) 
6.2 Renascimento e a arquitetura 
O Renascimento marcou uma revolução na história da arquitetura, 
acompanhado por mudanças históricas significativas, como a abertura de rotas 
comerciais e a ascensão de instituições bancárias, combinadas com a assimilação de 
novos conhecimentos. A disseminação rápida desse conhecimento foi facilitada pela 
invenção das prensas tipográficas. Paralelamente, a descoberta do desenho em 
perspectiva, creditada a Fillipo Brunelleschi (1377-1446) em torno de (1425), teve um 
papel essencial nas transformações arquitetônicas. Embora se atribua o início da 
arquitetura renascentista à obra de Brunelleschi (1377-1446), especialmente à cúpula 
que ele adicionou à catedral de Florença entre (1420 e 1436), seu estilo rapidamente 
se difundiu pela Europa. 
 Além disso, tratados arquitetônicos da Antiguidade foram republicados nesse 
período, como o de Alberti em (1966). Esse conjunto de eventos e descobertas 
marcou uma nova era na arquitetura, caracterizada por uma abordagem mais 
científica e estética, que influenciou profundamente a paisagem urbana europeia. 
No Renascimento europeu, ocorreu uma valorização sem precedentes do papel 
humano, refletida na busca por proporções harmoniosas inspiradas no corpo humano 
idealizado, que refletia a imagem de Deus. Os tratados da época enfatizavam a 
importância das proporções matemáticas, uma espécie de geometria sagrada, que 
desempenhou um papel fundamental na formação da mentalidade renascentista. 
Nessa visão, o homem deixou de ser visto como impotente diante de um Deus todo-
poderoso; ao contrário, tornou-se um agente independente de Deus, capaz de 
expressar sua vontade por meio das artes, incluindo a arquitetura. 
No contexto renascentista, o arquiteto não mais se limitava ao papel de 
projetista-pedreiro, muitas vezes anônimo, como era comum no período gótico. Pelo 
contrário, sua função ganhou destaque, assim como sua autoimagem e ego. Ele se 
via como um mediador entre o mundo terreno e o divino, capaz de criar obras que 
refletiam não apenas sua habilidade técnica, mas também sua compreensão das 
 
 
 
proporções divinas e sua própria importância no universo. Essa nova posição do 
arquiteto como um intelectual criativo e influente foi uma das características marcantes 
da arquitetura renascentista. 
 
➢ Perspectiva Renascentista 
Brunelleschi (1377-1446), percebeu que, a partir de um único ponto de vista 
fixo, linhas paralelas aparentam convergir em um único ponto distante. Ao aplicar um 
único ponto de fuga em suas representações, ele desenvolveu um método para 
calcular a profundidade. Em um experimento famoso, ele observou por espelhos e 
esboçou o batistério de Florença em perspectiva perfeita. Essa técnica permitiu que 
ele calculasse matematicamente a escala dos objetos em uma composição, 
conferindo-lhes uma aparência mais realista. 
Sua descoberta foi monumental e rapidamente adotada por artistas, 
influenciando significativamente suas pinturas. Embora os estudos originais de 
perspectiva de Brunelleschi (1377-1446), não tenham tido impacto imediato nas 
pinturas, ele influenciou diretamente a arquitetura com suas descobertas. A primeira 
pintura conhecida a demonstrar a perspectiva linear é "A Santíssima Trindade" de 
Masaccio. Nesse afresco, uma sala fictícia foi criada na parede plana da igreja usando 
a perspectiva para simular arquitetura, demonstrando o impacto duradouro das 
contribuições de Brunelleschi (1377-1446), para a arte e a arquitetura renascentistas. 
 
➢ O quattrocento 
Por volta de 1400, o Estado Florentino enfrentava ameaças, e conseguiu se 
opor a Milão de forma bem-sucedida por uma guerra liderada por humanistas. 
Implicado nisso, havia um orgulho patriótico e um apelo à grandeza associados a 
Florença, considerada a "Nova Atenas". Nesse contexto, um amplo programa de 
decoração escultórica das igrejas foi realizado no Estado de Florença, estendendo-se 
por mais de trinta anos, com custos elevados. 
 Esse empreendimento fazia parte de um movimento de entusiasmo cívico, 
onde as artes plásticas eram vistas como essenciais para o ressurgimento da "alma 
florentina". Inicialmente baseadas em "ofícios artesanais" e promovidas por artistas, 
essas práticas acabaram se disseminando por toda a Europa Ocidental, 
principalmente por meio da escultura. 
 
 
 
 
➢ Exemplos do classicismo renascentista 
A arquitetura do Renascimento é fundamentada em uma visão de mundo 
baseada em dois princípios essenciais: o Classicismo, que envolve o retorno aos 
autores e temas da Antiguidade, e o Humanismo. Embora mantenha algumas 
conexões com os valores e costumes medievais, essa arquitetura representa uma 
ruptura consciente e efetiva com a produção artística da Idade Média, especialmente 
o estilo gótico. O momento considerado como o início da arquitetura renascentista é 
frequentemente associado à construção da cúpula da Catedral de Santa Maria del 
Fiore em Florença, por Brunelleschi (1377-1446). Esse evento não apenas marca uma 
mudança no estilo predominante na arquitetura florentina, mas também simboliza a 
ruptura que o Renascimento representou na forma de conceber a arquitetura, abrindo 
caminho não apenas para a redescoberta do Classicismo, mas também para a 
promoção da teoria arquitetônica. Um dos principais expoentes desse movimento foi 
o arquiteto italiano Andrea Palladio. 
 
➢ Definições e problematizações 
Anteriormente, acreditava-se que o Renascimento Pleno era uma evolução 
natural do Proto-Renascimento. Supunha-se que os mestres do século XVI 
compartilhavam os ideais de seus antecessores, porém, os reinterpretavam de forma 
tão distinta e específica que se tornaram sinônimo de perfeição. Este período 
representava o auge do Renascimento, embora tenha sido breve, assim como o 
próprio período renascentista. No entanto, essa ideia de continuidade foi 
posteriormente considerada limitada, pois para muitos, esse "período pleno" foi um 
ponto de partida que, na realidade, cessou com seus criadores. Apesar disso, é 
inegável o impacto significativo que ele teve em períodos posteriores. 
Em última análise, a arquitetura e o planejamento urbano renascentistas 
buscavam ser racionais e humanos. Todos os monumentos fundamentais desse 
período foram construídos entre 1495 e 1520, sendo Leonardo da Vinci (1452-1519) 
um dos primeiros mestres a influenciar essa transformação. 
 
 
 
7 ILUMINISMO 
Conforme Grespan (2014), para historiadores, todos os eventos, inclusive os 
distantes, mantêm uma relevância contínua. Essa afirmação é particularmente 
aplicável à Revolução Francesa de 1789, cujo impacto foi tão profundo que influenciou 
até mesmo aqueles que têm conhecimento limitado sobre ela. É justo afirmar que essa 
revolução desempenhou um papel significativo na configuração do mundo ocidental 
moderno, contribuindo para a formação das instituições e ideais que hoje 
consideramos fundamentais e generalizadamente válidos. 
A partir desse marco histórico, uma mudança definitiva ocorreu na concepção 
tradicional da natureza humana, que por milênios sustentava a ideia de que alguns 
indivíduos eram inerentemente superiores a outros, em uma hierarquia arraigada. 
Essa visão foi substituída, relativamente recentemente, pela noção de igualdade 
universal. Essa transformação permitiu a formulação da exigência essencial da 
cidadania, promovendo a participação geral dos cidadãos na tomada de decisões 
políticas que afetam seu destino coletivo. Além disso, essa mudança também 
impulsionou a reivindicação por justiça social, onde as diferençasde classe são vistas 
como passíveis de serem atenuadas ou até eliminadas. 
Desse evento crucial, surgiram os ideais modernos dos direitos humanos e da 
igualdade perante a lei, bem como a concepção da "revolução" como uma 
transformação necessária e radical das estruturas sociais, uma mudança que continua 
a ser uma característica crítica da modernidade. 
No entanto, é argumentado que a Revolução Francesa principalmente 
consolidou na prática as ideias de liberdade e igualdade que foram promovidas pelo 
movimento filosófico conhecido como Iluminismo. De fato, desde o século XVIII, houve 
uma crença generalizada de que o Iluminismo desempenhou um papel fundamental 
ao preparar as mentes para a queda da ordem social existente durante a Revolução 
Francesa de 1789. Embora alguns historiadores contemporâneos tenham levantado 
dúvidas sobre a natureza intrínseca dessa conexão entre a filosofia e a revolução, não 
se deve descartar completamente a convicção estabelecida anteriormente. 
É importante não separar de forma absoluta esses dois domínios, considerando 
que o Iluminismo não se restringiu apenas a uma elaboração teórica, e a Revolução 
não foi apenas um movimento prático. 
 
 
 
O Iluminismo é considerado aqui não apenas como uma reflexão sobre um 
processo revolucionário, como o ocorrido na Inglaterra do século XVII, que 
estabeleceu princípios fundamentais para a filosofia política, moral e até natural. O 
desenvolvimento desses princípios no século seguinte inevitavelmente assumiu um 
caráter ativo, envolvendo intervenção crítica e transformação da sociedade da época. 
Por outro lado, a Revolução Francesa não apenas concretizou os ideais iluministas, 
mas também contribuiu para sua elaboração teórica, destacando os desafios e a 
necessidade de transcender aquele marco filosófico. 
Portanto, é inevitável incluir a narrativa de alguns eventos dessa história para 
embasar sua análise, reconhecendo que é impossível abranger completamente a 
riqueza e a extensão do que ocorreu. Também rejeitamos a ideia ingênua do 
historicismo, que alega poder contar a história exatamente como aconteceu. O critério 
para selecionar o que será abordado deve derivar da relação entre o Iluminismo e a 
Revolução, ou seja, do entendimento de como ambos se influenciaram mutuamente. 
Em vez de eliminar a diversidade de interpretações possíveis, essa abordagem busca 
destacar uma conexão significativa que oferece uma nova perspectiva para essas 
interpretações. 
O pensamento cético se alinha muito mais com os objetivos dos grandes 
filósofos do século XVIII do que o dogmatismo frequentemente erroneamente 
atribuído a eles. Além disso, o conceito de razão no Iluminismo era distinto do 
racionalismo cartesiano, abrindo espaço para a valorização da experiência, dos 
sentidos e dos sentimentos, o que inclusive permitiu o surgimento, dentro do próprio 
Iluminismo, do movimento frequentemente considerado seu oposto: o Romantismo. 
 
➢ O que é iluminismo? 
Conforme Grespan (2014), no final do século XVIII, uma questão central 
emergiu na Alemanha, estimulando um importante debate sobre o significado do 
Iluminismo. Entre 1783 e 1784, esse debate alcançou destaque, destacando-se as 
contribuições notáveis de Immanuel Kant (1724-1804), que lecionava na Universidade 
de Königsberg. No entanto, mesmo antes desse período, diversos intelectuais já se 
empenhavam em compreender o motivo pelo qual a era de transformações em que 
estavam imersos era denominada "século das luzes" ou "do esclarecimento". 
 
 
 
A metáfora da luz, simbolizando a clareza das ideias, embora sugestiva, 
revelava-se imprecisa em relação aos seus possíveis significados. Esse debate 
persistiu durante séculos, continuando até os dias atuais, suscitando uma ampla gama 
de definições e interpretações. 
A complexidade da questão se intensifica ao considerarmos a relação entre o 
pensamento Iluminista e a Revolução Francesa de 1789. Essa conexão foi destacada 
tanto pelos revolucionários quanto pelos primeiros analistas dos eventos da época. 
Em determinado momento, essa relação foi tão reconhecida que Voltaire e Rousseau, 
pensadores rivais, foram agraciados com a mais alta honra, sendo seus restos mortais 
transladados para o Panteão dos heróis nacionais, em uma homenagem que os uniu 
postumamente. 
Ao homenagear Voltaire (1694-1778), e Rousseau (1712-1778), a Revolução 
Francesa demonstrou que não estava preocupada com as diferenças entre suas 
obras, mas sim em reconhecer a dívida intelectual que tinha para com a profunda 
crítica social e política contida em ambas. No entanto, essa união póstuma entre os 
dois pensadores logo chamou a atenção de intérpretes posteriores, que começaram 
a questionar a naturalidade da ligação entre a Revolução e o Iluminismo. 
De fato, nem todos os pensadores do "século das luzes", incluindo o próprio 
Voltaire, endossariam integralmente os eventos que se desenrolaram na França após 
1789. Além disso, ao ignorar a oposição entre os dois homenageados, evidenciava-
se não apenas uma compreensão superficial das "luzes" por parte dos 
revolucionários, mas também a falta de coesão intelectual dentro do Iluminismo. 
Rousseau e Voltaire, apesar de serem pensadores rivais, foram unidos pela 
posteridade como inspiradores da Revolução. Isso reflete que o Iluminismo não 
constituía uma "escola" intelectual única, mas sim um movimento de ideias que 
rejeitava qualquer sistema de pensamento rígido e definitivo. 
No que diz respeito à influência da filosofia sobre a Revolução, surge a questão 
da difusão das ideias iluministas. Após estudos detalhados conduzidos pelo 
historiador Daniel Mornet (1878-1954) na década de 1930, historiadores mais 
recentes, como Norman Hampson (1995) e Robert Darnton (1996), demonstraram 
que, antes da Revolução, a circulação dos livros que tratavam de filosofia e política 
era relativamente restrita. Por exemplo, Rousseau era mais conhecido pelo romance 
 
 
 
"A Nova Heloísa" e pelo projeto pedagógico apresentado em "Emílio" do que por sua 
obra política, "O Contrato Social". 
A literatura, abrangendo desde obras de cunho erótico até outras formas de 
expressão, foi amplamente publicada, adquirida e lida durante esse período. Surge 
então a questão de como os ideais do Iluminismo poderiam ter contribuído de alguma 
forma para os ideais da Revolução. Além disso, considerando que os livros eram caros 
e disponíveis em quantidades limitadas, muitas vezes sujeitos à censura régia, é difícil 
conceber como eles poderiam ter alcançado as camadas sociais mais baixas da 
sociedade, que eram precisamente as mais mobilizadas e envolvidas na Revolução, 
a ponto de terem sido influenciadas por eles. 
No que diz respeito à falta de coesão das próprias ideias iluministas, os estudos 
contemporâneos sobre elas e seus autores destacam de forma precisa as diferenças 
substanciais entre essas correntes de pensamento. 
Tornou-se amplamente reconhecido que o Iluminismo não pode ser 
caracterizado como um sistema de pensamento coeso e homogêneo, nem mesmo 
possui a mínima unidade necessária para ser classificado como uma "escola" 
filosófica. Diante disso, surge a pergunta: o que os revolucionários tinham em mente 
ao atribuir ao Iluminismo sua origem intelectual? 
 Considerando as grandes divergências entre os pensamentos e os pensadores 
do século XVIII, que vão além das diferenças entre Voltaire e Rousseau, é difícil 
fornecer uma resposta definitiva a essa questão. Portanto, há quem argumente que o 
Iluminismo foi uma construção dos próprios revolucionários em busca de legitimação 
ou coesão política, ou ainda uma reconstrução posterior realizada por historiadores 
na tentativa de delinear seu objeto de estudo. 
No entanto, não há necessidade de exigir do Iluminismo que apresente 
características idênticas às de outros movimentos intelectuais. Mesmo que não tenha 
sido um sistema de pensamento completo ouuma "escola" definida, isso não significa 
que deva ser rotulado como uma invenção ou construção arbitrária. Ao abranger uma 
vasta gama de ideias e campos de estudo, o Iluminismo não endossa simplesmente 
qualquer ideia; ao contrário, ele exclui e critica certos conceitos. De fato, era 
principalmente por meio de sua atitude crítica que as "luzes" eram definidas aos olhos 
de seus contemporâneos. 
 
 
 
Portanto, podemos partir dessa consciência da época, pois ela confere uma 
base de realidade ao Iluminismo. No entanto, a liberdade para criticar não se limita a 
uma postura negativa, que apenas exclui determinados objetos ou abordagens de 
estudo. A crítica também aponta para o que deve ser aceito e afirmado. 
Na obra dos diversos filósofos iluministas, há um conjunto de temas e questões 
recorrentes, assim como pressupostos que permeiam seus escritos. Portanto, o 
Iluminismo não se resume apenas a uma atitude crítica; ele implica necessariamente 
um ponto de vista a partir do qual essa crítica é feita. Contudo, a crítica desempenhou 
um papel fundamental no movimento das ideias, conferindo-lhes dinamismo e 
evitando que se consolidassem em uma totalidade estática e pré-determinada. 
O Iluminismo não poderia ser caracterizado por uma forma sistemática, uma 
vez que era definido pela rejeição de qualquer sistema de pensamento rígido e 
definitivo. Além de ser uma postura mental, o Iluminismo representava um movimento 
de ideias, no sentido mais amplo de um processo contínuo de formação e acumulação 
de conhecimento, constantemente sujeito a revisão e modificação, inclusive em seus 
fundamentos mais básicos. 
Esse é o significado da máxima latina com a qual Kant definiu o Iluminismo em 
sua resposta à polêmica de 1784, mencionada anteriormente: "sapere aude" - "ousa 
saber", ou seja, "ousa usar o teu próprio entendimento", sem simplesmente imitar ou 
aceitar passivamente as ideias das autoridades reconhecidas e temidas. Mais do que 
um chamado ao estudo, esse lema é um apelo à independência intelectual em relação 
aos outros, incluindo os grandes filósofos; é um chamado à independência diante dos 
modos consagrados de ver o mundo, diante de todo conhecimento que se apresenta 
como definitivo, e diante dos pressupostos nos quais o saber está fundamentado, 
inclusive o próprio saber. 
A máxima de Kant reflete a postura generalizada de inconformismo que 
caracteriza o seu século e, consequentemente, define o Iluminismo como um 
verdadeiro movimento das ideias. Embora muitos pontos de partida filosóficos tenham 
permanecido intocados, na prática - como os temas e questões recorrentes 
mencionados anteriormente -, a disposição iluminista incluía a capacidade de 
modificá-los. Nesse sentido, é inteiramente iluminista a proposta que Kant 
desenvolveu para sua obra filosófica a partir de 1780: uma vez que a razão se 
 
 
 
apresentava como o direito de questionar tudo, ela própria deveria ser submetida ao 
escrutínio, o que se manifesta na "crítica da razão pela razão”. 
O Iluminismo demonstra, portanto, a capacidade de autocriticar-se e até 
mesmo de virar-se contra si próprio, evidenciando uma trajetória de constantes 
mudanças, durante a qual se desenvolveu em direções diversas e conflitantes. Como 
será observado, é da radicalização de sua postura geral de suspeição que surge a 
tendência ao ceticismo, destacada em figuras como Voltaire e especialmente Hume, 
contradizendo uma concepção amplamente difundida do Iluminismo como otimista 
quanto às possibilidades de explicar e compreender tudo. Além disso, é dentro do 
próprio movimento que se desenvolve o cultivo da subjetividade individual e da análise 
psicológica íntima, exemplificada pelo romance, que eventualmente culminará no 
movimento literário e filosófico do Romantismo, que critica profundamente os ideais 
do Iluminismo. 
Portanto, para além das interpretações que meramente observam a falta de 
homogeneidade nas ideias iluministas, é importante reconhecer sua ambiguidade, 
caracterizada por uma unidade complexa e precária. Essa ambiguidade, por sua vez, 
gera conflitos e tensões que impulsionam o movimento do Iluminismo, levando ao 
desenvolvimento de conceitos e raciocínios latentes que se tornam explícitos através 
do confronto com suas contraposições. Esse processo ocorre conforme uma dialética 
que transcende a concepção de unidade das ideias apenas como homogeneidade e 
coerência absoluta. 
Com essa definição do Iluminismo, torna-se visível a relação entre o Iluminismo 
e a Revolução. Tradicionalmente, esses dois fenômenos são apresentados como 
distintos, mesmo em interpretações mais elaboradas que os associam como imagens 
refletidas mutuamente, uma no campo das ideias e outra na ação. No entanto, o 
vínculo entre eles é mais estreito do que se pensa. Afinal, o Iluminismo também era 
uma prática pela qual as ideias eram geradas, difundidas, criticadas e modificadas. 
A Revolução também possuía uma dimensão inevitável de projeto elaborado 
no campo teórico, embora sua implementação ultrapassasse essa dimensão inicial. 
De qualquer forma, o Iluminismo, enquanto movimento de crítica, possui um aspecto 
revolucionário: por sua própria definição, ele nunca pode estabelecer fundamentos 
rígidos e construir um sistema acabado e imutável de ideias, mas, ao contrário, está 
 
 
 
sempre desafiando e modificando-as. Aqui surge um primeiro conceito de revolução, 
ligado à maneira como a prática teórica iluminista se constituía. 
Além da dinâmica das ideias, é importante considerar o conteúdo político e 
social que define o conceito mais amplo de revolução. No entanto, devemos evitar 
ampliar tanto esse conceito a ponto de ele se distanciar da autoconsciência do século 
XVIII, pois foi dentro desse contexto que os projetos revolucionários foram elaborados. 
Uma definição anacrônica poderia reavivar a dicotomia entre os campos da 
teoria iluminista e da ação revolucionária, sugerindo que esta última teria sentido 
independente das ideias em jogo. Em vez disso, é mais produtivo questionar: qual era 
o significado da palavra "revolução" naquele contexto e como esse significado evoluiu 
durante a própria Revolução? Ou ainda, como a prática política influenciou os 
conceitos em jogo? É importante notar que as homenagens a Voltaire e Rousseau 
ocorreram em momentos distintos do processo - 1791 e 1794, respectivamente - o 
que contribui para explicar a peculiaridade dessa reunião entre os dois filósofos 
adversários. Em cada momento, a concepção da Revolução era diferente, refletindo 
mais a obra de um deles do que a do outro, conferindo a cada um, um significado 
específico. 
A íntima relação entre teoria e prática também explica a forma de 
desenvolvimento das ideias iluministas, que eram revolucionárias por estarem 
inseridas em um contexto maior de uma revolução real. Em outras palavras, o 
Iluminismo emerge de um contexto revolucionário, o qual lhe conferiu o aspecto crítico 
pelo qual se definiu e estabeleceu. Mais adiante, examinaremos detalhadamente 
como, no contexto das Revoluções na Inglaterra do século XVII - a Puritana de 1640 
e a Gloriosa de 1688 - um pensamento crítico foi elaborado e consagrado, 
influenciando decisivamente o século seguinte em toda a Europa. 
O que emergiu desse contexto foi uma primeira refutação e rejeição do 
Absolutismo monárquico como forma de governo, associando-o à tirania e à 
usurpação dos direitos tradicionais do povo. A doutrina clássica do "direito natural" 
desempenhou um papel fundamental nessa definição dos direitos e de sua usurpação: 
esses direitos eram concebidos como inerentes ao ser humano por sua natureza, não 
sendo algo concedido pelas leis de um governo ou de uma sociedade específica. 
Portanto, em qualquer situação política ou social, seria ilegítimo confiscar ou 
enfraquecer esses direitos. 
 
 
 
Aqueles que o fizessem seriam, por definição, considerados tiranos, e ao povoseria permitido depô-los. Dessa forma, o direito à rebelião ou revolução foi 
assegurado, estabelecendo um precedente histórico de grande significado. 
Com efeito, o século XVIII absorveu essa importante lição, e enquanto os 
ingleses vigilavam zelosamente para preservar a liberdade conquistada, outras 
nações europeias observavam com admiração o exemplo deles, aspirando a obter um 
sistema semelhante. O Iluminismo, por sua vez, tratou de extrair as consequências 
teóricas dessa premissa da existência dos "direitos naturais", que sempre estiveram 
presentes nas obras dos filósofos mais importantes, embora formulados de maneiras 
diversas. 
Esses direitos constituíam a base a partir da qual a crítica ao despotismo e ao 
dogmatismo se manifestava, delineando a missão das "luzes". Assim, se a filosofia se 
fundamentava nessa base, apresentando-se como guardiã desses direitos, então sua 
defesa e realização por meio de uma revolução constituíam a execução do próprio 
programa filosófico. Nesse sentido, a relação entre o Iluminismo e a Revolução estava 
estabelecida desde o início e por princípio. 
7.1 Entre duas relações 
Segundo Grespan (2003), a ordem social e política predominante durante o 
período do Iluminismo, à qual esse movimento se opôs em diferentes graus que foi 
finalmente derrubada pela Revolução Francesa, passou a ser conhecida, a partir de 
1789, como o "antigo regime". É crucial compreendê-lo em seus diversos aspectos 
para contextualizar o surgimento do pensamento iluminista, identificando suas 
limitações e delineando o alvo de suas críticas. 
O "antigo regime" foi caracterizado principalmente pela estrutura de poder, que 
se baseava na relação entre a aristocracia e a monarquia, resultando na centralização 
do poder conhecida como monarquia absoluta. Por outro lado, o Iluminismo se 
destacou por suas objeções de natureza liberal a essa estrutura. Na sociedade 
francesa do século XVIII, ainda predominava uma forte hierarquia aristocrática, com o 
governo centrado na figura do rei, que exercia poder de forma inquestionável. 
Por outro lado, os pensadores iluministas sentiam uma profunda necessidade 
de mudar esse cenário, inspirando-se no sistema político adotado pela Inglaterra após 
 
 
 
o extenso processo revolucionário do século anterior. Esse sistema garantiu a posição 
crucial do Parlamento ao lado da monarquia, ao mesmo tempo, em que consolidou o 
pensamento político correspondente a essa forma de governo, o liberalismo. Portanto, 
o liberalismo torna-se central na crítica iluminista, moldando seu projeto filosófico e 
suas propostas de intervenção social. Em torno desse princípio, são organizados os 
outros elementos distintivos do Iluminismo, como a filosofia da natureza, do 
conhecimento e da história. Assim, é por meio desse ponto central que devemos iniciar 
nosso estudo sobre o tema. 
➢ Absolutismo monárquico 
Na Era Moderna, um evento significativo foi o surgimento dos Estados 
nacionais na Europa, que se manifestou predominantemente na forma da monarquia 
absoluta. A prolongada crise econômica e política dos séculos XIV e XV havia 
enfraquecido o poder local dos senhores feudais e das cidades, que desfrutavam de 
uma certa autonomia. Isso possibilitou que os reis os combatessem com uma eficácia 
crescente, especialmente na França, Inglaterra, Portugal e Espanha. 
Entretanto, o termo "absolutismo" não denota um regime em que o monarca 
governa sozinho, como se possuísse total e absoluto controle político. Além de 
consultar seus conselheiros, geralmente de origem nobre, os reis eram 
ocasionalmente obrigados a convocar Parlamentos ou assembleias gerais compostas 
por representantes das diversas camadas da sociedade, conforme a tradicional 
divisão em três "estados" ou "ordens" sociais: o clero, a nobreza e a burguesia. Essas 
assembleias tinham o poder de estabelecer leis ou anular as promulgadas pela Coroa 
e, especialmente, de aprovar aumentos de impostos ou a criação de taxas especiais, 
essenciais para financiar as frequentes guerras e outros empreendimentos 
dispendiosos. 
Para evitar fazer concessões nessas situações inevitáveis, os reis optavam por 
utilizar recursos do tesouro real ou criar outras fontes de receita, como a venda de 
cargos administrativos e títulos nobiliárquicos, ou ainda o direito de cobrar impostos. 
Embora conseguissem, dessa maneira, evitar convocar os órgãos representativos por 
muitos anos, ou até décadas, eventualmente, alguma crise econômica ou financeira 
do Estado os obrigava a fazê-lo. Isso poderia inaugurar um período de conflito, como 
foi o caso na Inglaterra em 1640 ou na França em 1789. 
 
 
 
Como, então, podemos entender essas monarquias chamadas de "absolutas"? 
O termo se refere essencialmente à centralização do poder que ocorreu nesse período 
em várias esferas da vida pública. Em primeiro lugar, houve o esforço para consolidar 
um território unificado no qual a autoridade real pudesse ser imposta, combatendo, 
como mencionado anteriormente, os feudos senhoriais e as cidades com relativa 
autonomia, ambas ansiosas por manter sua parcela de independência. 
Apesar de serem formalmente vassalos do rei, conforme a estrutura jurídica 
medieval, na prática, essas entidades aproveitavam as enormes dificuldades de 
transporte e comunicação para ignorar a vontade do soberano e manter o exercício 
do poder local que lhes era conferido pelo sistema feudal. Apenas por meio de uma 
política persistente ao longo de séculos, que incluiu guerras internas e concessões 
habilmente concedidas e depois retiradas, os reis puderam gradualmente conquistar 
o controle de regiões mais distantes do núcleo original, onde sua autoridade era 
reconhecida. 
Além de confrontar diretamente seus adversários, a estratégia para alcançar a 
centralização do poder variava segundo as circunstâncias. No entanto, no 
enfrentamento com a aristocracia, prevaleceu uma abordagem de cooptação. Por um 
lado, a nobreza rural gradualmente perdeu sua capacidade militar para reprimir as 
crescentes revoltas camponesas, contando, para isso, com o apoio das tropas reais, 
uma aliança essencial para a sobrevivência do sistema feudal. 
Por outro lado, o fenômeno contínuo da inflação durante o século XVI, 
vinculado ao influxo de metais preciosos provenientes da recém-conquistada América, 
levou muitas das tradicionais casas aristocráticas medievais à ruína financeira. Isso 
as obrigou a vender seus domínios para a nobreza emergente de posição inferior ou 
para membros da crescente burguesia urbana, que buscavam a nobilitação por meio 
da aquisição de terras. 
Esse processo foi especialmente pronunciado na Inglaterra, onde as terras da 
Igreja Católica confiscadas durante a Reforma Anglicana foram vendidas pela Coroa, 
como uma estratégia para evitar a convocação do Parlamento. Surgiu então uma nova 
classe aristocrática, conhecida como "gentry" (os gentis-homens), frequentemente de 
origem burguesa, que adotou uma abordagem capitalista na exploração de suas 
propriedades rurais. Essa mentalidade influenciou os remanescentes da antiga 
aristocracia tradicional. 
 
 
 
Os títulos de nobreza, essenciais para o reconhecimento da posição desse 
grupo, eram concedidos ou vendidos pelo monarca, que gradualmente consolidou sua 
posição como a única fonte de nobilitação - um privilégio que anteriormente 
compartilhava com os senhores mais proeminentes, conforme os códigos de 
suserania da Idade Média. 
Mesmo na França, onde a importância dos "gentis-homens" era menor, 
também havia a prática de venda de títulos nobiliárquicos e a ascensão social de 
funcionários da Coroa, conhecidos como "nobreza de toga". Com essas mudanças, 
os reis conseguiram consolidar em torno de si uma aristocracia, representada em 
cortes significativamente expandidas. 
Como resultado de tudo isso, os reis conseguiram atrair a aristocracia para 
perto de si, em cortes significativamente expandidas.Um exemplo notável desse 
movimento é a construção do Palácio de Versalhes por Luís XIV em 1682, onde ele 
reuniu os nobres, que passaram a orbitar em torno do "rei-sol" de maneira jovial. Uma 
consequência desse processo, juntamente com a reestruturação militar, foi o gradual 
desarmamento da aristocracia, que perdeu a função distintiva que historicamente 
possuía na tradição feudal. 
Após o processo de centralização do enobrecimento pelo monarca, segue-se o 
processo de centralização da violência, ou seja, o direito exclusivo do uso da força 
pelo Estado. No que diz respeito às cidades e suas burguesias de mercadores e 
artesãos, a centralização do poder resultou na retirada da autonomia delas para 
determinar a qualidade e a quantidade dos bens produzidos e comercializados. 
Essa autonomia, que era garantida na Idade Média devido à fragmentação da 
autoridade, entrava em conflito com a necessidade de concentração do Estado 
moderno, resultando em um longo embate de interesses entre o Estado e as elites 
urbanas, por vezes muito influentes. Esse período marca o início do chamado 
"mercantilismo", uma política de regulação econômica pelo governo, que passa a ser 
vista como uma esfera de interesse público além do privado. Concomitantemente à 
integração política do território, ocorre a formação de mercados "internos" mais 
amplos, dentro de regiões cada vez maiores, até que se configure um mercado 
nacional unificado. 
No entanto, é importante notar que o poder central não simplesmente elimina 
as fronteiras e barreiras existentes; ao invés disso, ele as subjuga e mantém, 
 
 
 
passando a controlá-las e coordená-las em benefício próprio. Um exemplo disso são 
os "Regulamentos" das manufaturas francesas, instituídos em 1663 por Colbert, o 
superministro da economia de Luís XIV. Mantidos por mais de um século, esses 
regulamentos preservaram as limitações características das antigas corporações de 
ofício e comércio. Eles estabeleciam a forma de produção, o número de mestres, 
aprendizes e trabalhadores assalariados em cada manufatura, assim como o tipo e 
quantidade de cada produto e sua esfera de comercialização. 
Outros Estados europeus estavam passando por um processo semelhante de 
estabelecimento de "guildas" nacionais, ao mesmo tempo, em que o poder econômico 
local e regional dos senhores feudais estava enfraquecendo. Anteriormente, esses 
senhores tinham o direito de cunhar moedas, estabelecer pesos e medidas, impor 
taxas e cobrar pedágios sobre a passagem de mercadorias por suas terras. No 
entanto, gradualmente, esses direitos foram sendo retirados deles e concentrados 
pelo poder central da monarquia. 
 A cunhagem de moedas e a padronização de medidas tornara-se monopólio 
do Estado central, assim como o controle dos pedágios, que ainda existiam, mas 
agora eram administrados pela Coroa, como exemplificado claramente pelo sistema 
da Alcabala na Espanha. 
➢ A crítica com princípio 
Ambos nascidos em famílias de boa linhagem e relativamente jovens, já 
desfrutando de reconhecimento por suas primeiras obras literárias e com perspectivas 
promissoras para o futuro, Montesquieu e Voltaire decidiram, mais ou menos ao 
mesmo tempo, empreender viagens pela Europa para expandir seus horizontes. 
Embora tenha inicialmente visitado outros países, Charles Louis de Secondat - o 
Barão de Montesquieu - passou um período significativo na Inglaterra, onde fez 
amizades importantes e foi admitido como membro da Academia Real. 
François Marie Arouet (1694-1778) – logo conhecido pelo pseudônimo de 
Voltaire – foi direto a Londres, depois de uma confusão provocada por alguns versos 
satíricos, que lhe valeu um encarceramento na Bastilha. Não chegaram a se 
encontrar, mas ficaram ambos encantados com as instituições e as ideias liberais, de 
que a sua França parecia tão distante. 
 
 
 
 
Na década de 1730, a Inglaterra estava em um período de agitação intelectual, 
política e econômica. O crescimento visível do comércio e das manufaturas coincidia 
com o funcionamento eficiente das instituições administrativas e políticas, com o 
Parlamento liderando, compartilhando poder com uma Coroa mais moderada. A 
realidade parecia estar em total consonância com as teorias dos filósofos dominantes 
da época, como Locke (1632-1704) e Newton, cujos pensamentos haviam sido 
amplamente consagrados. Essas ideias audaciosas sobre o mundo humano e natural 
estavam revolucionando a tradição do século XVII, na qual a Europa continental ainda 
estava imersa. 
De volta à França, Montesquieu (1689-1755) e Voltaire (1694-1778) assumiram 
a responsabilidade de difundir e adaptar o pensamento inglês às condições francesas. 
Em 1734, logo após seu retorno, Voltaire publicou as "Cartas Filosóficas", inicialmente 
intituladas "Cartas escritas de Londres sobre os ingleses". Nelas, ele elogiava as 
instituições e a filosofia do país vizinho, usando-as como base para julgar e criticar 
seus compatriotas franceses, o que teve um grande impacto no público. 
 Posteriormente, ele se dedicou a traduzir e divulgar o pensamento de Newton 
e Locke, mantendo sempre uma postura crítica. Montesquieu, por sua vez, escreveu 
um "Ensaio sobre a Constituição Inglesa", e a influência de sua estada na Inglaterra 
foi evidente em obras posteriores, incluindo sua obra mais importante, "O Espírito das 
Leis", publicada em 1748. Eles perceberam que uma transformação intelectual estava 
ocorrendo do outro lado do Canal da Mancha, uma transformação que foi garantida e 
implementada pela revolução política de 1688. Eles consideravam essa revolução um 
exemplo muito mais digno de ser seguido do que a Revolução de 1642, que foi 
sangrenta e socialmente radical. 
Tanto Montesquieu quanto Voltaire reconheciam as características peculiares 
e os desafios únicos enfrentados pela França, mas enxergavam na abordagem 
inglesa uma oportunidade para destacar essas questões de uma maneira diferente, 
revelando tensões e lacunas anteriormente não percebidas. Na verdade, o 
desenvolvimento de suas ideias fez com que essas características distintas também 
exigissem ajustes no enfoque trazido da Inglaterra, adaptando-o ao contexto francês. 
Foi assim que surgiu o movimento intelectual conhecido como "Iluminismo". 
Para além das divergências entre o Iluminismo inglês, francês e outras 
variantes europeias, como o Iluminismo alemão e italiano, há uma origem comum que 
 
 
 
os marca desde o início: o princípio da crítica herdado da Revolução. Em todas as 
suas vertentes, o Iluminismo adota a postura de que tudo pode ser examinado, 
dissecado e exposto; nenhum assunto ou questão tem o direito de ser protegido da 
investigação, escondido na sombra sob a justificativa da autoridade ou do dogma. 
O Iluminismo se volta fundamentalmente contra o dogmatismo, que pressupõe 
a existência de verdades inquestionáveis que devem ser aceitas sem discussão. Sua 
crítica não é arbitrária; ela é direcionada ao contexto histórico em que surge, 
enraizando-se nas circunstâncias da guerra civil e religiosa contra o absolutismo 
monárquico. Os dogmas fundamentais desse sistema de poder se tornam, portanto, 
o alvo principal do ataque iluminista, que pode ser analisado em suas três principais 
frentes de combate. 
Dogma político: No Iluminismo, o dogma político predominante era o da 
soberania popular e da democracia representativa. Os pensadores iluministas 
argumentavam que o governo legítimo deveria derivar seu poder do consentimento 
dos governados e defender os direitos naturais e individuais dos cidadãos. Eles 
criticavam os sistemas políticos absolutistas e defendiam a separação de poderes 
como forma de evitar o abuso de autoridade. Além disso, muitos iluministas 
promoviam ideias de igualdade perante a lei, liberdade de expressão e tolerância 
política. Essas ideias influenciaram profundamente os movimentos revolucionários 
que culminaram nas Revoluções Americana e Francesa,histórica, incapaz de apreender objetivamente os acontecimentos históricos, uma vez 
que o historiador não tem acesso direto a eles, é essencialmente uma produção 
literária. Esse foi o principal desafio do giro linguístico para a historiografia, gerando 
intensa controvérsia entre os historiadores. White colocou a questão da seguinte 
maneira: quem aspira ser historiador deve escrever menos; caso contrário, deveria se 
dedicar à literatura. 
A resposta às ideias de White foi variada, com alguns historiadores 
argumentando que ele não teve impacto significativo na historiografia subsequente, 
enquanto outros afirmaram que houve, de fato, uma transformação na disciplina após 
o giro linguístico. Alguns trabalhos históricos foram influenciados pelas concepções 
de White, nos quais a narrativa tradicional é abandonada em favor de compilações 
quase enciclopédicas de fatos, características e figuras proeminentes, juntamente 
com reproduções de textos da época. No entanto, mesmo em uma obra estruturada 
dessa maneira, a subjetividade do historiador continua presente, influenciando a 
seleção dos temas, sua ordem de apresentação, o título da obra, entre outros 
aspectos. 
1.3 Formação do discurso histórico e da escrita da história 
Segundo Reinhart Koselleck (1923–2006), historiador alemão cujas ideias 
exerceram grande influência na teoria da história e em sua relação com a 
comunicação e a linguagem, a história não é composta pelos fatos em si, mas sim 
pela maneira como são interpretados e escritos. Esse pensamento ganha destaque 
devido a duas questões fundamentais: primeiro, as constantes reflexões dos 
historiadores sobre o método histórico; e segundo a crescente importância da 
interseção entre história e linguística, destacando a necessidade de cautela por parte 
do historiador ao empregar palavras e conceitos na escrita da história. 
Uma das principais teses de Reinhart Koselleck em sua obra é a relação entre 
a experiência do passado e a expectativa em relação ao futuro. Para o autor, como 
 
 
 
uma sociedade lida com seu passado, ao mesmo tempo, em que projeta seu futuro, é 
o que define o tempo histórico. Em outras palavras, o tempo histórico é moldado pela 
consciência humana, não sendo um tempo natural, pois o presente se estende 
mantendo as mesmas relações entre passado e futuro por um longo período. 
Koselleck apresenta exemplos relevantes dos relacionamentos entre o 
presente, o passado e o futuro, especialmente na perspectiva europeia (REIS, 1996), 
que ilustram como o próprio conceito de histórico é moldado pela história. Na 
antiguidade, caracterizada pela expressão "história mestra da vida", a experiência 
prevalecia sobre a expectativa, pois era a experiência que ditava os rumos do futuro. 
Já na Idade Média, o tempo se acelera devido à escatologia cristã, que antecipava o 
juízo final em um futuro próximo. Nos tempos modernos, a partir do século XVI, ocorre 
uma nova separação entre passado e futuro, ampliando novamente a distância entre 
eles. 
No entanto, a lição do passado perde relevância, dando lugar à ênfase na ação 
presente para moldar o futuro. Por fim, na contemporaneidade, a aceleração do tempo 
é atenuada devido ao controle técnico da natureza, o que resulta em um planejamento 
mais estruturado e um ritmo mais deliberado na tomada de decisões. Essas diversas 
percepções do tempo histórico se tornam elementos fundamentais do discurso e da 
narrativa histórica correspondentes a cada época. 
Atualmente, na produção acadêmica, espera-se que historiadores adotem um 
estilo claro e objetivo, direcionado ao cerne da questão, sem espaço para elaborações 
narrativas mais imaginativas que empreguem técnicas literárias. Além disso, observa-
se uma padronização na estruturação dos textos, como evidenciado nos repositórios 
de dissertações e teses das ciências humanas. A cada nova era, é comum declarar 
obsoleto o que veio antes dela. Isso reflete um desejo de distanciamento do passado, 
frequentemente manifestado por meio de grandes rupturas históricas, como as 
revoluções. 
 Essa dinâmica influencia o trabalho dos historiadores, que se deparam com 
novas construções históricas associadas às novas percepções do tempo. Pode-se 
examinar importantes correntes historiográficas contemporâneas, cada uma 
apresentando seus próprios discursos e maneiras peculiares de escrever a história: 
• A micro-história: é um tipo de historiografia originada na Itália nos anos 
1970. Ela se destaca por realizar recortes extremamente específicos, como 
 
 
 
exemplificado no livro "O Queijo e os Vermes", de Carlo Ginzburg, que 
reconstrói detalhadamente a vida de um homem do final da Idade Média. Entre 
os principais historiadores dessa corrente estão Carlo Ginzburg e Giovanni 
Levi. 
 
• A história das mulheres: teve origem nos Estados Unidos na década de 
1970, visando preencher uma lacuna na academia ao não contemplar reflexões 
consistentes sobre o papel da mulher na história. Esta corrente está 
intimamente ligada à luta das mulheres por direitos iguais, conhecida como 
feminismo. Uma das principais historiadoras dessa abordagem é Joan Scott. 
 
• Na pesquisa histórica oral: os historiadores adotam uma abordagem 
metodológica específica para conduzir entrevistas, diferenciando-se do estilo 
empregado por jornalistas. Nesse contexto, a ênfase recai sobre a 
subjetividade expressa nas falas, nas pausas e nas recordações dos 
entrevistados. Essa abordagem se revela essencial para o estudo de 
sociedades que não deixaram registros escritos de sua história, permitindo a 
construção da memória por meio dos relatos de testemunhas de eventos 
históricos. Verena Alberti é reconhecida como uma das principais autoridades 
nesse campo de pesquisa. 
 
• A história da leitura: investiga não apenas quem lê, mas também o quê e 
como é lido ao longo das eras. Essa abordagem parte do pressuposto de que 
a prática da leitura é historicamente situada, com significados variados 
conforme o contexto temporal e espacial. A leitura é considerada um fenômeno 
social, cujas nuances podem fornecer visões valiosas sobre as sociedades do 
passado por meio das reações e comportamentos dos leitores. Robert Darnton 
emerge como uma figura proeminente nessa vertente historiográfica. 
 
• História das imagens: desde os anos 1970, os historiadores têm mostrado 
crescente interesse pela cultura pop, destacando as imagens como uma de 
suas principais formas de expressão. Esse período marca o surgimento de 
estudos que investigam o desenvolvimento histórico das imagens em uma 
 
 
 
sociedade cada vez mais saturada pela mídia visual, abrangendo campos como 
publicidade, fotojornalismo, cinema e televisão. Ivan Gaskell se destaca como 
um dos autores fundamentais nesse campo da história das imagens. 
 
• A história do corpo: revela que até mesmo a anatomia humana pode ser 
analisada como uma construção histórica. Ao longo dos séculos e em diversas 
sociedades, as concepções sobre o corpo sofreram transformações 
significativas. Desde a celebração do nu na Grécia Antiga até a repressão total 
do corpo na Idade Média, suas representações foram vivenciadas e expressas 
de maneira complexa. Nesse sentido, o corpo se torna um objeto de 
investigação histórica ímpar, explorando suas percepções ao longo do tempo. 
O historiador Roy Porter é reconhecido como uma das figuras proeminentes 
nesse campo de estudo. 
1.4 A nova história cultural 
De acordo com Freitas et al. (2019), a partir das últimas décadas do século XX 
e início do século XXI, observamos o surgimento de diversas correntes na 
historiografia, sendo possível agrupá-las sob o termo "Nova História Cultural". 
Enquanto entre as décadas de 1950 e 1970 predominava a abordagem da história 
econômica, desde então houve um ressurgimento do interesse pela história política, 
denominada por alguns como "Nova História Política". 
Simultaneamente, novos camposlevando a mudanças 
significativas na estrutura política e social da época. 
 Dogma religioso: No Iluminismo, o dogma religioso foi desafiado em favor da 
razão e do pensamento crítico. Os pensadores iluministas questionaram as doutrinas 
religiosas tradicionais, defendendo a liberdade de pensamento e crença. Eles 
buscavam reduzir o poder da Igreja sobre assuntos políticos e sociais, promovendo a 
separação entre Estado e religião. Além disso, muitos iluministas argumentavam a 
favor da tolerância religiosa, defendendo o direito das pessoas de praticarem sua fé 
sem interferência ou perseguição por parte do Estado. Essas ideias contribuíram para 
o surgimento de uma sociedade mais secular e pluralista, onde a religião não ditava 
as políticas públicas e a liberdade individual era valorizada. 
 
 
 
Dogma da razão: O dogma da razão no Iluminismo refere-se à crença 
fundamental na primazia da razão como uma ferramenta essencial para compreender 
o mundo, formular políticas e buscar o progresso humano. Durante o Iluminismo, os 
pensadores enfatizavam a importância da razão sobre a tradição religiosa e 
autoridade absoluta, argumentando que a razão poderia libertar a humanidade da 
ignorância, superstição e opressão. Essa crença na capacidade da razão de promover 
o conhecimento, a liberdade e o progresso social foram centrais para muitos dos ideais 
iluministas, como a tolerância religiosa, a separação entre Estado e igreja, e o governo 
baseado na razão e no consentimento dos governados. 
8 HISTORIOGRAFIA LATINO AMERICANO 
Conforme Wasserman (2011), tem como propósito analisar as teorias e 
declarações referentes à identidade nacional na historiografia da América Latina, 
desde o movimento de independência no início do século XIX até o período logo após 
a emancipação. O conjunto de autores analisados neste estudo inclui indivíduos que 
desempenharam papéis ativos durante o processo de emancipação, como cronistas, 
memorialistas e historiadores autodidatas, que produziram uma historiografia centrada 
na descrição de eventos políticos e militares (JARAMILLO URIBE, 1986). 
Além disso, há outro grupo de acadêmicos ligados a instituições de história, 
tanto nacionais quanto locais, bem como a centros e institutos de história, que 
surgiram em muitos países latino-americanos na segunda metade do século XIX 
(JARAMILLO URIBE, 1986). 
A ampla abordagem e o escopo abrangente foram intencionais, embora haja o 
risco de perder detalhes sobre cada autor examinado, essa abordagem possibilita 
entender padrões comuns no discurso sobre a questão nacional na América Latina. 
Ao analisar diversos autores de diferentes países latino-americanos de forma 
simultânea, é possível compreender a região como uma totalidade articulada, indo 
além das especificidades individuais. 
Carlos Aguirre argumenta que a historiografia latino-americana ainda não foi 
estudada o suficiente para permitir uma síntese completa de sua trajetória, que 
poderia consolidar uma "história global da historiografia da América Latina" (AGUIRRE 
ROJAS, 2001), nem mesmo para produzir uma história intelectual latino-americana 
 
 
 
satisfatória. No entanto, ele reconhece que o período analisado representa a primeira 
fase do desenvolvimento da historiografia latino-americana. Este é um momento de 
primeiras reflexões intelectuais que questionam a identidade das novas nações e 
investigam as raízes históricas que supostamente moldaram os valores e 
características específicas de cada país. 
Há muito tempo, os intelectuais e historiadores latino-americanos têm 
explorado os temas da questão nacional e da identidade nacional, desde as origens 
da nação e da nacionalidade. A busca pelo caráter nacional e pelas raízes da nação 
está intimamente ligada às dificuldades de estabelecer ordenamentos políticos 
estáveis na região. Além disso, há o desafio de lidar com uma população 
"transplantada", com origens diversas, dependendo do país. Durante muito tempo, as 
elites latino-americanas consideraram o nascimento fora da Europa como uma 
"fatalidade" (ANDERSON, 1989), e menosprezaram as características particulares de 
cada país e de sua população. 
Após as independências, as primeiras reflexões sobre a identidade nacional, o 
surgimento das nações e os desafios para sua consolidação surgiram, 
predominantemente, como uma preocupação política expressa pelos protagonistas do 
processo. Nos países da América Latina, os debates pós-independência giraram em 
torno de questões constitucionais, colonização e das medidas necessárias para 
estabelecer sistemas políticos e administrativos independentes das metrópoles. 
Políticos e intelectuais envolvidos na formação dos novos Estados também 
participaram dessas discussões e contribuíram para moldar as administrações 
estatais. 
Na segunda metade do século XIX, surgiram os primeiros "historiadores", 
intelectuais associados a academias de história ou centros e institutos de pesquisa 
histórica. Apesar da ausência de uma profissionalização formal, esses indivíduos 
demonstravam um interesse genuíno pela investigação histórica. Suas obras, embora 
não fossem produzidas por historiadores de profissão, acabaram por constituir um 
valioso legado documental para as gerações futuras de historiadores. Além disso, o 
processo de disseminação desse conhecimento sugere que, ao ser 
"monumentalizado", o discurso sobre a nacionalidade tornou-se parte intrínseca da 
própria história. 
 
 
 
Muitos dos primeiros historiadores latino-americanos concebiam as identidades 
nacionais como elementos intrínsecos e imutáveis, tratando as nações como 
entidades sociais fundamentais. Para alguns, essas identidades remontavam ao 
período pré-colonial, enquanto para outros surgiram durante o período colonial ou, 
mais comumente, no contexto das independências. 
Concretamente indefinida, a identidade nacional aparece como um dado para 
autores do século XIX. Mais do que isso, a nação faz parte do horizonte de 
expectativas destes autores e vinha sendo construída por estas versões que se 
consagraram como a historiografia da região. A crença disseminada sobre a ontologia 
da questão nacional está bem delimitada teoricamente pelos autores europeus que 
discutiram o tema. Entretanto, não existem estudos de síntese do pensamento latino-
americano acerca da questão nacional, ainda mais no que se refere ao século XIX. 
Sobre a questão das origens das nacionalidades na América Latina, é preciso 
evitar conclusões precipitadas sobre o suposto consenso entre os estudiosos. Apenas 
uma análise empírica das manifestações sobre esse tema pode revelar os aspectos 
mais comuns. Tal estudo possibilita delimitar empiricamente a historiografia latino-
americana do século XIX, considerando suas expectativas em relação às entidades 
políticas em processo de formação. 
Frequentemente, como observado nos militares envolvidos nos movimentos de 
independência, a crença na existência prévia de identidades nacionais surgia do 
desejo de que tais nações e nacionalidades existissem nesses territórios, em vez de 
ser resultado de uma observação empírica objetiva por parte desses líderes políticos. 
Em outras situações, os políticos e intelectuais que propuseram essas noções 
de identidades nacionais originais estavam influenciados pelos modelos francês, 
inglês ou norte-americano. Ao confrontar esses modelos estrangeiros com a realidade 
latino-americana e as dificuldades na construção de estruturas políticas estáveis em 
toda a região, esses pensadores passaram a acreditar que a América Latina sofria de 
desvios e distorções no processo de formação nacional, ou que esses processos 
estavam longe de serem concluídos. 
Essas características do pensamento latino-americano em relação à questão 
nacional - como a crença na existência ontológica das nações, a atração por modelos 
externos, a identificação de desvios e distorções no processo de formação dasnações, além das ideias de incompletude e frustração - permeiam toda a história do 
 
 
 
subcontinente e têm consequências significativas no campo da historiografia, assim 
como implicações político-sociais. 
A concepção de que sempre existiram inimigos da nação, os quais impuseram 
obstáculos ao processo de formação nacional, contribuindo para sua incompletude, 
desvios e deformações, surgiu como uma decorrência dessas análises. 
A narrativa histórica é uma construção que confere sentido ao passado, sendo 
moldada pelo historiador, que desempenha um papel essencial nesse processo. 
Mesmo aqueles que não são membros das academias de história participam dessa 
operação, transformando uma tradição em objeto do passado. Essa atividade é 
realizada a partir de um determinado contexto social, práticas científicas e uma escrita 
que organiza os dados disponíveis (DE CERTEAU, 2000) 
A análise da escrita da história no contexto da questão nacional busca 
desmistificar narrativas arraigadas, desnaturalizando a relação entre história e 
identidade. Muitas vezes, a história tem sido usada para legitimar e respaldar a 
construção identitária, buscando no passado remoto evidências que sustentem uma 
memória sobre identidades recentemente constituídas (GUIMARÃES, 2000). 
Na América Latina, os escritos de líderes como Bolívar, Mariano Moreno e José 
Bonifácio, que desempenharam papéis proeminentes nos movimentos de 
emancipação colonial, são considerados os primeiros marcos da historiografia na 
região. Ao longo do século XIX, a história emergiu como uma disciplina acadêmica 
legítima para examinar o passado. Durante esse período, os historiadores 
desempenharam um papel importante ao endossar os projetos de construção nacional 
promovidos pelas elites oligárquicas. 
Através das diferentes eras, é possível observar como os historiadores e 
intelectuais que se dedicaram à escrita da história nacional desempenharam um papel 
fundamental na construção de uma versão da nação e das identidades nacionais. 
Essas "versões" não são necessariamente falsas ou desconectadas de eventos 
passados reais, mas estão intrinsecamente ligadas aos desafios contemporâneos e 
forneceram uma explicação razoavelmente sólida para um futuro que poderia parecer 
incerto. 
A escrita da história, especialmente no contexto da narrativa da "história 
nacional", revela o que Reinhart Koselleck descreve como o "espaço de experiências", 
ao mesmo tempo, em que aponta para o "horizonte de expectativas" dos historiadores 
 
 
 
e da sociedade em determinada época (KOSELLECK, 2006). As mudanças nas 
narrativas estabelecidas, a desmitificação de mitos, indicam a existência de uma crise, 
acompanhada por uma alteração no regime de historicidade da época. Isso se 
manifesta na modificação dos enredos da história nacional, sem que os historiadores 
"modernos" percam de vista as normas de cientificidade estabelecidas desde o século 
XIX. 
8.1 O contexto das independências e identidades 
Essa "primeira" historiografia latino-americana ofereceu interpretações sobre a 
identidade das regiões recentemente emancipadas das metrópoles ibéricas que não 
refletiam necessariamente o contexto político-social real. Uma análise detalhada dos 
processos empíricos envolvidos na formação desses países como unidades 
independentes das respectivas metrópoles revela que o sentimento nacional estava 
pouco desenvolvido. Antes das emancipações políticas, havia diversas opiniões 
contrárias à ideia de independência, especialmente devido ao receio das elites 
coloniais de perder a coesão imposta pelas metrópoles ibéricas. 
Também é bastante desafiador determinar em que momento os portugueses 
nascidos no Brasil ou os espanhóis nascidos no México e na Argentina começaram a 
se identificar como americanos, e ainda mais como mexicanos, brasileiros ou 
argentinos. Por muito tempo, persistiram as ideias de que o nascimento fora da 
Espanha ou de Portugal era algo inevitável entre os descendentes de portugueses e 
espanhóis na América, mesmo após os processos de independência. 
A transição desses indivíduos, passando de uma identidade como peninsulares 
ou europeus para se reconhecerem como americanos, mexicanos, peruanos, 
brasileiros, foi dificultada por diferenças étnicas e sociais que os separavam da maioria 
composta por índios e negros, com diversas formas de mestiçagem, das elites 
coloniais proprietárias. Os sentimentos antilusitanos e antiespanhóis, que 
caracterizavam o senso de ser "americano", estiveram presentes nos processos de 
emancipação, mas só foram adotados pelas elites coloniais quando se tornou claro 
que esses movimentos emancipatórios eram irreversíveis. 
No Brasil, um exemplo ilustrativo é o do Visconde de Cairu, que, em 1821, 
manifestou-se contra as intenções recolonizadoras das cortes portuguesas, embora 
 
 
 
fosse a favor da continuidade da união com a metrópole. Cairu defendia a 
independência econômica e a aplicação dos princípios do "laissez-faire". No entanto, 
mesmo em 1822, quando já parecia resignado à separação entre Brasil e Portugal, 
ele ainda nutria a preferência pela manutenção da União, considerando-a como uma 
possibilidade viável economicamente e lucrativa para ambos os lados (FENELON, 
1983). 
A conjuntura global que precedeu a emancipação política das colônias 
espanholas na América era extraordinária. Com a invasão napoleônica na Península 
Ibérica, enquanto as cortes portuguesas se refugiaram no Brasil, os espanhóis lutaram 
até a captura do Rei Fernando VII, da dinastia Bourbon, e sua substituição pelo irmão 
de Napoleão, José Bonaparte. No Rio da Prata, uma das primeiras reações a essa 
situação peculiar foi a lealdade à dinastia Bourbon, a resistência aos franceses e a 
deposição do vice-rei Santiago de Liniers, que tinha origem francesa. 
Diante da situação singular da metrópole, as opções eram limitadas: ceder ao 
domínio francês, aguardar os desdobramentos nos campos de batalha europeus ou 
estabelecer uma junta de governo local e iniciar o processo de independência colonial. 
Não se pode determinar com certeza se os primeiros líderes das Jornadas de Maio, 
responsáveis pela formação da junta de governo das Províncias Unidas do Rio da 
Prata, tinham a intenção clara de iniciar a emancipação. Muitos espanhóis 
consideravam mais prudente formar a junta de governo, defender o rei cativo e 
aguardar os acontecimentos. 
A proposta de Buenos Aires, baseada em seu prestígio como a cidade mais 
proeminente do vice-reinado, para convocar as províncias e os cabildos e estabelecer 
uma junta em substituição ao vice-rei, não foi amplamente aceita. Enfrentou 
resistência de várias regiões, como Córdoba, onde Liniers havia se refugiado, além 
de Mendoza e Salta, e também enfrentou contrarrevolução do Alto Peru, Paraguai e 
Montevidéu. 
A iniciativa de Buenos Aires – resultado de sua posição destacada como a 
cidade mais influente do vice-reinado – em convocar as províncias e os cabildos e 
optar pela substituição do vice-rei por uma junta, não foi recebida com entusiasmo por 
muitos. A oposição veio de várias direções, como de Córdoba, onde Liniers se 
refugiara, de Mendoza e de Salta, além da contrarrevolução que se originou no Alto 
Peru, Paraguai e Montevideo. Nesse contexto, Felix Luna comentou que, o que 
 
 
 
ocorreu em Buenos Aires era considerado excessivamente escandaloso para ser 
aceito sem protestos. A substituição de um representante do rei ou da Junta, seguida 
pela instauração de uma nova Junta, era vista como algo difícil de ser aceito nas 
regiões mais leais ao vice-reinado (LUNA, 1995). 
O autor descreve as adversidades enfrentadas por D. Faustino Ansái, que se 
recusou a reconhecer a legitimidade da Junta de Buenos Aires, derrotado em 
Mendoza, preso e enviado para Las Bruscas. Ansái conseguiu escapar para 
Montevidéu, mas foi recapturado quando as tropas de Buenos Aires tomaram a 
cidade.Além disso, destaca a resistência dos habitantes de Jujuy em se submeterem 
ao domínio de Salta, buscando estabelecer seu próprio governo (LUNA, 1995). Esses 
relatos evidenciam a natureza da oposição ao processo de independência no Rio da 
Prata e as campanhas militares necessárias para formalizar a independência 
argentina em julho de 1816, embora tenha sido reconhecida por muitos apenas após 
a Batalha de Cepeda, em 1820. 
A independência mexicana, proclamada em 1821, foi caracterizada como uma 
"restauração". Esse termo reflete a tentativa da elite colonial de recuperar os 
privilégios que detinha antes de 1810, quando o padre Miguel Hidalgo e o sacerdote 
J. M. Morelos lideraram uma tentativa de transformar a luta pela independência em 
um movimento de libertação indígena. Enquanto as elites proprietárias permaneceram 
leais ao rei cativo após a prisão de Fernando VII, os sacerdotes viram na situação uma 
oportunidade para abolir a opressão, a escravidão, os tributos e a expropriação de 
terras. Eles não nutriam sentimentos de identidade mexicana ou americana e não 
faziam distinção entre os "ricos" nascidos na América e os nascidos na Espanha. 
Foram rotulados como "inimigos da Nação" e associados ao "partido da tirania" 
todos os ricos, nobres e guachupines (espanhóis). Embora tenham sido 
posteriormente aclamados como "símbolos da independência" e da "nacionalidade", 
segundo Morelos (apud BRADING, 1991), eram originalmente vistos como símbolos 
da resistência indígena contra a usurpação. Esses indivíduos foram violentamente 
reprimidos, e a independência proclamada em 1821 restaurou os poderes da elite 
criolla. Mesmo que essa elite não estivesse totalmente satisfeita com a separação da 
metrópole, ela havia convidado Fernando VII da Espanha para ocupar o trono como 
imperador do México. 
 
 
 
Nesse contexto, que se repetia em diversas regiões ibero-americanas, é 
evidente que, no momento das independências, as identidades nacionais e até 
mesmo subcontinentais que conhecemos atualmente ainda não estavam 
consolidadas. Essa ausência de identificações nacionais permitia, inclusive, que os 
militares e líderes independentistas de um "país" atuassem em diferentes pontos do 
subcontinente. Sobre esse aspecto, Edelberto Torres Rivas observa que "a crise do 
Estado colonial marcou o fim da noção de uma nação hispânica ou hispano-
americana. O ideal de Bolívar não passou de um sonho" (TORRES RIVAS, 1977). 
8.2 Os próceres das independências: a nação latino-americana como dados 
antológicos 
Simon Bolívar, San Martin, José Bonifácio e Mariano Moreno lideraram os 
movimentos de independência que surgiram após o término do domínio colonial. 
Diante da necessidade de consolidar os novos Estados, esses líderes se viram 
inspirados pelo modelo norte-americano, que representava um protótipo de uma 
grande nação. Além disso, foram influenciados pelos exemplos da França e da 
Inglaterra, o que estimulou o desejo de construir uma única nação latino-americana 
ou, pelo menos, várias nações de grande porte. 
Os líderes da independência inicialmente consideraram a possibilidade de 
manter a monarquia espanhola representada pelo rei Fernando VII, que estava sob o 
controle de Napoleão Bonaparte. No entanto, com a mudança do cenário internacional 
e as tentativas de restauração do sistema colonial, surgiram indivíduos dispostos a 
lutar pela independência, mesmo sem o respaldo do rei espanhol. 
A partir de 1815, o rei tornou-se um símbolo da iminente restauração do Antigo 
Regime, e os líderes do processo de emancipação começaram a evocar países 
virtuais, caracterizados por um forte sentimento antiespanhol. Esse sentimento não 
era resultado de uma identidade nacional reprimida ao longo dos anos de dominação 
colonial, mas sim uma percepção dos líderes da independência americana diante da 
rápida mudança no panorama internacional. O que antes parecia inimaginável passou 
a ser defendido com fervor. A ideia de preservar os direitos do monarca cativo foi 
rapidamente substituída pela convicção de que era hora de consagrar a emancipação. 
 
 
 
O conteúdo do Plano Revolucionário de Operações de 1810, associado a 
Mariano Moreno, assim como o Manifesto de Cartagena e a Carta da Jamaica, 
redigidos por Bolívar em 1812 e 1815, respectivamente, são registros históricos que 
evidenciam a adoção de ideias antiespanholas e o desejo intenso de replicar a 
experiência norte-americana no subcontinente. Esses documentos também indicam 
que esses autores estavam firmemente convencidos da existência de uma 
comunidade nacional, com uma identidade cultural distinta, que já estava presente 
mesmo antes do processo de emancipação. 
No Plano Revolucionário de Operações, solicitado a Mariano Moreno pela 
Junta de Governo estabelecida na região platina e redigido em 1810, é evidente a 
tentativa de identificar um modelo ideal. 
A realização da obra de nossa liberdade é tão grandiosa que, à primeira vista, 
assemelha-se aos palácios de Sião, que, apesar de suas magníficas entradas, 
abrigam apenas edifícios baixos e frágeis; mas, pela Providência que do alto examina 
a justiça de nossa causa, ela certamente a protegerá, permitindo-nos extrair lições 
valiosas dos desastres. Pois, embora alguns anos antes da instalação do novo 
governo tenham sido considerados, discutidos e feitas algumas combinações para 
realizar a obra de nossa independência, podemos dizer que foram meios capazes e 
suficientes para concretizar a independência do Sul, pensá-la, falar dela e preveni-la? 
Permita-me dizer aqui que, às vezes, a casualidade é a mãe dos 
acontecimentos, pois se uma revolução não for bem dirigida, se o espírito de intriga e 
ambição sufocar o espírito público, então o estado volta a cair na mais terrível 
anarquia. Minha pátria, quantas mutações você precisa suportar! Onde estão, nobre 
e grande Washington, as lições de seu político? Onde estão as regras laboriosas da 
arquitetura de sua grande obra? Seus princípios e seu regime seriam capazes de nos 
guiar, fornecendo-nos suas luzes, para alcançar os objetivos que nos propusemos. 
Nesta verdade, as histórias antigas e modernas das revoluções nos instruem 
completamente sobre seus feitos, e devemos segui-las para consolidar nosso sistema, 
(MORENO, 1975). 
Durante seu exílio, Bolívar escreveu as Cartas de Jamaica, após as tentativas 
fracassadas de proteção do Rei Fernando VII. Em vez de evocar o exemplo norte-
americano, ele desdenhava do sistema federativo e propunha a centralização política 
como meio de conter o caos e a anarquia do período. Simultaneamente, ele delineava 
 
 
 
os critérios que orientavam a identificação dos povos americanos e sua união em uma 
única nação: 
É uma ideia grandiosa pretender formar de todo o Mundo Novo uma só nação 
com um único vínculo que ligue as suas diversas partes ao todo. Visto que 
têm uma única origem, uma língua, idênticos costumes e uma mesma religião 
deveria, muito naturalmente, ter um único governo que confederasse os 
diferentes estados que se formem; mas não é possível, porque climas 
remotos, situações diversas, interesses opostos, caracteres dissemelhantes 
dividem a América. Como seria belo se o istmo do Panamá fosse para nós o 
que o de Corinto era para os gregos! Oxalá tivéssemos a sorte de instalar ali 
um augusto congresso dos representantes das repúblicas, reinos e impérios, 
para tratar e discutir os altos interesses da paz e da guerra com as nações 
das outras três partes do mundo [...] (BOLÍVAR, 1977, p. 98). 
Os critérios apontados por Bolívar, que sugerem a existência prévia de uma 
identidade americana - como origem, língua, costumes e religião - não devem ser 
considerados os únicos elementos para a identificação de uma comunidade nacional. 
Além disso, essas ideias de uma identidade pré-existente e da "justiça de nossa 
causa", como mencionadas por Moreno, refletem o desejo dos militares envolvidos na 
lutapela emancipação, mas não correspondem necessariamente à realidade concreta 
desses elementos ou de outros que poderiam comprovar os laços entre essas regiões. 
Bolívar até mesmo reconhece os obstáculos reais que surgiram em seu caminho, 
antecipando de certa forma as ideias de determinismo geoclimático que seriam 
predominantes no período pós-independência. 
A insurgência pela independência, liderada pelo padre José Maria Morelos no 
sul do México, era caracterizada por elementos mais radicais, já que incluía propostas 
de reforma na estrutura de propriedade da terra. No entanto, em termos de identidade 
coletiva, seu foco principal estava nos adversários europeus. 
Com exceção dos europeus, os demais habitantes não serão mais 
denominados como índios, mulatos ou outras castas, mas sim geralmente 
americanos. Ninguém mais pagará tributos e não haverá escravos daqui para frente 
(MORELOS, apud BRADING, 1991). 
Nesse trecho, percebemos não apenas a sugestão de uma identidade coletiva 
pré-existente, mas também uma confusão espacial que caracterizou o pensamento 
do século XIX: a que escala essa identidade existia? Era continental, nacional ou 
provincial? É relevante destacar que a rebelião de Morelos no México apresentava 
elementos jacobinos e foi reprimida em 1815, o que adiou o processo de 
independência mexicana por mais seis anos. 
 
 
 
A perspectiva dos líderes dos movimentos de independência na América Latina 
era profundamente subjetiva; seus textos estavam impregnados de adjetivos e 
imagens carregadas de juízos de valor, refletindo suas metas políticas e militares 
consideradas urgentes. Na narrativa desses líderes, é evidente uma espécie de 
autoelogio, como apontado por Pierre Nora na introdução de seu livro "Les lieux de 
mémoire": "Quanto mais grandiosas forem as origens, mais grandiosos nos tornamos. 
Somos nós que somos venerados através do passado" (NORA, 1984). 
De fato, o aumento dos regionalismos e o processo de ruralização, que se 
iniciou no final do século XVIII e foi intensificado durante as reformas bourbonianas, 
dificultaram a aproximação entre as diferentes regiões do subcontinente. Isso também 
tornou mais desafiadora a implementação de estruturas políticas estáveis nos países 
que, durante o período colonial, eram considerados unidades administrativas coesas. 
Apesar da realidade concreta dos países latino-americanos não corresponder 
plenamente às afirmações de líderes como Bolívar, San Martin, Hidalgo, Morelos e 
Moreno, suas ideias sobre os elementos identitários desses povos se tornaram 
fundamentais no pensamento político da região. Essas concepções políticas, assim 
como as científicas e filosóficas, passaram então a analisar os obstáculos que 
impediam a concretização do que era considerado uma realidade preexistente, com 
elementos fundamentais já presentes, faltando apenas a conclusão do processo: a 
formação das novas nações. 
Os sentimentos de nacionalidade na América portuguesa não estavam 
plenamente consolidados. Na historiografia brasileira do século XIX, a Insurreição 
Pernambucana foi considerada um possível prenúncio desse sentimento identitário. 
No entanto, a luta dos "brasileiros", em conjunto com os portugueses, visava expulsar 
principalmente a Companhia das Índias Ocidentais, motivada por interesses 
econômicos e políticos, e não por demandas nacionalistas. 
As chamadas "revoltas nativistas", lideradas por colonos nascidos no Brasil, 
ocorreram em várias regiões da colônia no final do século XVII e início do XVIII. Esses 
movimentos reivindicavam questões relacionadas ao monopólio, à escravização dos 
indígenas, aos impostos da mineração e à administração colonial. No entanto, essas 
revoltas não representavam uma oposição direta ao sistema colonial na totalidade; 
em vez disso, envolviam grupos com interesses diversos entre os próprios colonos e 
abordavam problemáticas regionais específicas. 
 
 
 
As revoltas ocorridas no final do século XVIII e início do XIX em Minas Gerais, 
Bahia e Pernambuco assumiram um caráter distinto. Nessas insurreições, já estava 
presente um sentimento de oposição à metrópole; as ideias das Revoluções 
burguesas e da independência dos Estados Unidos começaram a influenciar os 
"inconfidentes". No entanto, a identificação entre as elites coloniais e a monarquia, 
consolidada durante a permanência da família real no Brasil, resultou em uma 
simbiose que postergou o surgimento de uma identidade nacional em contraposição 
à metropolitana. 
Foi somente durante o período monárquico que a formação de partidos 
brasileiros e portugueses, juntamente com críticas ao autoritarismo de D. Pedro I e 
revoltas como a Confederação do Equador, contribuíram para o desenvolvimento do 
que poderia ser considerado como perspectivas verdadeiramente nacionalistas. 
Durante as reuniões da Constituinte de 1823, José Bonifácio de Andrade e 
Silva, conhecido como o "patriarca da independência" do Brasil, expressou sua 
preferência pela identidade ibérica. Ele defendeu a preservação dos usos e costumes 
simples e naturais do Brasil, em oposição à influência estrangeira: "Os políticos da 
moda querem que o Brasil se torne Inglaterra ou França: eu quisera que ele nunca 
perdesse os seus usos e costumes simples e naturais, e antes retrogradasse do que 
se corrompesse". Além disso, Bonifácio enfatizava a importância de reconhecer o 
Brasil como uma nação independente, mesmo antes do processo de independência. 
Ele argumentava que o Brasil já era uma nação e merecia ocupar seu lugar sem 
depender do reconhecimento de outras potências (BONIFÁCIO, 2004). 
Os líderes e figuras-chave dos movimentos de independência na América 
Espanhola e Portuguesa não apenas idealizavam a fraternidade entre as nações 
como justificativa para a emancipação, mas também enfrentavam desafios práticos 
relacionados ao reconhecimento da independência, à resistência em guerras e à 
elaboração de novas constituições. Por essa razão, muitas de suas narrativas são 
bastante explícitas e refletem interesses políticos imediatos. 
 
 
 
 
 
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Paulo: Nova Cultural, 1987.de estudo têm sido explorados dentro do 
âmbito da cultura. Assim, podemos perceber que boa parte da produção 
historiográfica recente está inserida em uma dessas correntes. 
Para uma compreensão completa do arcabouço teórico e conceitual da Nova 
História Cultural, é essencial considerarmos os seguintes conceitos: práticas, 
representações, ideologia, imaginário e cultura política. Esses elementos são 
fundamentais para analisar as dinâmicas sociais, as formas de pensamento e as 
expressões culturais em diferentes contextos históricos. 
Práticas e representações são conceitos interligados que desempenham 
papéis complementares na compreensão das transformações históricas. José 
D'Assunção Barros (2011) oferece um exemplo ilustrativo dessa relação. Ele nos 
 
 
 
conduz a refletir sobre um mendigo na Idade Média, quando este era considerado um 
meio de salvação para os ricos, que obtinham o perdão de seus pecados ao praticar 
a caridade. 
À medida que avançamos no tempo, chegamos à era da acumulação primitiva 
do capital, na qual, sob a perspectiva da burguesia ascendente, nenhum indivíduo 
poderia ficar desocupado, pois isso significaria uma falta na produção de riqueza. 
Essa mudança de mentalidade influenciou a transformação na representação social 
da mendicância. Agora, na nova era, os mendigos são perseguidos e surgem leis 
destinadas a combater o que é percebido como "vadiagem". 
Por sua vez, a ideologia, já destacada como um objeto de estudo por Marx e 
Engels, desempenha um papel fundamental nos novos estudos culturais. Na 
perspectiva da história cultural, a ideologia é concebida como uma forma de estruturar 
ou organizar as representações, visando atender aos interesses gerais das classes 
dominantes. A questão de até que ponto a ideologia é "planejada" ou espontânea 
ainda é motivo de debates no âmbito das ciências humanas. 
O imaginário é uma categoria conceitual que teve origem inicialmente no 
campo da psicologia e posteriormente se tornou um conceito polissêmico nos estudos 
histórico-culturais. Geralmente, é entendido como a fonte de toda produção humana, 
representando tanto a capacidade de criação quanto o substrato simbólico no qual 
essa criação se baseia. 
Por último, abordamos o conceito de cultura política, que começou a emergir 
por volta da década de 1960. Dentro das pesquisas da história cultural, a cultura 
política desempenha um papel fundamental ao fornecer um contexto para entender 
as expressões e significados de um sistema político específico, bem como é percebido 
e avaliado pela sociedade que o constitui. 
Com a introdução da Nova História Cultural, uma variedade de novos conceitos 
foram adotados pelos historiadores. Esse novo conjunto de ideias teve um impacto 
significativo na forma como a história começou a ser narrada desde o final do século 
XX até o início do XXI. As novas abordagens, questionamentos e modelos explicativos 
não apenas influenciam, mas também determinam a construção dos discursos 
históricos contemporâneos. 
 
 
 
1.5 Contexto de surgimento da nova história cultural 
Conforme Freitas et al. (2019), para compreendermos o surgimento da Nova 
História Cultural (NHC), é essencial considerá-la como uma corrente historiográfica 
contemporânea que nos estimula a repensar e questionar a realidade de uma maneira 
renovada. Dentro dessa abordagem, os métodos de pesquisa e análise histórica são 
baseados em novas premissas de compreensão, destacando a importância do 
conceito de representação para explorar a formação, a manutenção ou a 
transformação da sociedade. No entanto, para avançarmos nas discussões sobre a 
NHC, é fundamental esclarecer como ela se desenvolveu no contexto contemporâneo. 
Embora haja debates contemporâneos sobre a Nova História Cultural (NHC), é 
relevante notar que sua origem não é tão recente, remontando à chamada História 
Cultural. De acordo com Burke (2008), para fins de clareza didática, essa abordagem 
pode ser dividida em quatro fases. 
➢ Primeira fase: História clássica de 1800 a 1950; 
➢ Segunda fase: História social da arte de 1930 a 1940; 
➢ Terceira fase: Redescoberta da história cultural popular 1950 a 1960; 
➢ Quarta fase: Nova história cultural a partir dos anos 70. 
 
Há um longo histórico de discussões sobre História Cultural entre historiadores 
e pesquisadores, e essa área está ganhando cada vez mais destaque na sociedade. 
De acordo com Burke (2008), ao longo dos anos, durante o período da história das 
culturas clássicas, na Alemanha, houve um desenvolvimento de pesquisas e estudos 
históricos mais voltados para perspectivas políticas do que culturais, refletindo a 
realidade da época. 
Posteriormente, começaram a surgir os primeiros estudos direcionados à 
cultura e à sociedade, destacando-se: 
➢ Max Weber (1904) examina a ética e o espírito do capitalismo com o intuito 
de oferecer uma explicação cultural para as mudanças econômicas. 
➢ Norbert Elias (1939) investiga o processo civilizador ao analisar a história 
das maneiras à mesa. 
➢ Aby Warburg, embora não fosse acadêmico, realizou estudos detalhados 
sobre a história do Renascimento. 
 
 
 
➢ Ernst Gombrich (1960) examina a relação entre "verdade e estereótipos" e 
"fórmula e experiência". 
➢ Perry Miller (1939) dedica-se ao estudo da história das ideias. 
 
No contexto do surgimento da Nova História Cultural (NHC), além da influência 
da História Cultural em suas diversas fases, ela também se fortaleceu e se 
fundamentou a partir da Escola dos Annales (1929), iniciada por Marc Bloch e Lucien 
Febvre (CHARTIER, 1990). 
Esse movimento surgiu como uma resposta à historiografia tradicional e 
positivista. Inicialmente, a Escola dos Annales direcionava seus interesses e 
investigações para uma perspectiva de história social e econômica, que contrastava 
com as narrativas da história tradicional centradas nos feitos dos grandes heróis 
nacionais. 
O nome do movimento foi inspirado na publicação dos Annales D'Histoire 
Économique et Sociale, considerada a primeira geração do movimento. A partir de 
1940, a Escola dos Annales entrou em sua segunda geração, liderada principalmente 
por Fernand Braudel e caracterizada pelo interesse nas ciências sociais. 
No final da década de 1960 e início dos anos 1970, houve uma diminuição do 
interesse pelas questões socioeconômicas e o surgimento de temas pouco explorados 
até então, como família, morte, sexualidade, criminalidade, entre outros. Foi nesse 
contexto que surgiu a terceira geração da Escola dos Annales, caracterizada por 
pesquisas históricas focadas em temas culturais (CHARTIER, 1990). 
Nesse contexto, observamos o surgimento da Nova História Cultural (NHC), 
que, apesar de seu interesse nas questões sociais, não tinha força suficiente para 
romper completamente com a abordagem que considera os eventos históricos como 
reflexos das divisões sociais e econômicas. A definição da História Cultural como uma 
modalidade historiográfica que se concentra na "alteridade" também serviu como base 
para o trabalho de muitos historiadores culturais. Para eles, determinadas situações 
oferecem oportunidades únicas para estudos históricos sob a perspectiva cultural. Por 
exemplo, o confronto entre duas sociedades, cada uma representando uma cultura 
distinta, pode fornecer uma oportunidade excepcional para entender uma cultura 
através da outra (BARROS, 2011). 
 
 
 
De acordo com Burke (2008), o próprio termo "cultura", já desafiador de definir, 
foi expandido para incorporar o conceito antropológico, que abrange heranças de 
artefatos, bens, processos técnicos, ideias, hábitos e valores. Nesse sentido, emerge 
a "antropologia histórica" e, consequentemente, a "nova história cultural", que está 
atualmente presente na disciplina histórica com o propósito de analisar os fenômenos 
econômicos através da lente cultural. 
A Nova História Cultural, referida pelo próprio Burke como "NHC", começoua 
ser explorada por historiadores e pesquisadores a partir do final da década de 1980. 
Essa abordagem histórica propôs um novo paradigma de análise centrado na 
investigação da história das mentalidades, sentimentos, suposições e outros aspectos 
culturais. Embora a NHC busque explorar temas desafiadores dentro do campo 
cultural, suas investigações são fundamentadas nas teorias propostas por importantes 
teóricos, como Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Michel Foucault e Pierre Bourdieu 
(BURKE, 2008). 
Conforme Barros (2011), a história cultural, em sua amplitude, abrange desde 
as representações que o ser humano cria de si, da sociedade em que vive e do mundo 
ao seu redor, até as condições sociais de produção e circulação dos objetos culturais, 
bem como os mecanismos de sua recepção. Nessa abordagem, a história da cultura 
é organizada em um campo interdisciplinar que engloba várias perspectivas a partir 
de suas diversas dimensões, e em seu arcabouço teórico visa compreender a 
realidade contemporânea permeada pela matriz cultural. 
Dessa forma, percebemos que o conceito de história cultural é bastante flexível 
e aberto, adaptando-se a contextos específicos, o que é inevitável considerando que 
a cultura está constantemente em transformação, se ajustando continuamente às 
novas realidades de tempo e espaço. 
2 OS HOMENS QUE SABIAM DEMAIS: HERÓDOTO E TUCÍDIDES 
Heródoto e Tucídides são figuras centrais na história da historiografia ocidental. 
Suas obras, "História" e "História da Guerra do Peloponeso", respectivamente, não 
apenas registraram eventos históricos marcantes, mas também determinaram como 
o Ocidente passou a vivenciar e entender a experiência histórica. 
 
 
 
Para compreender a contribuição desses dois autores para a formação do que 
atualmente chamamos de historiografia, é essencial contextualizá-los dentro de seus 
períodos históricos e compreender as preocupações que os motivaram a escrever. 
Heródoto, conhecido como "o Pai da História", viveu durante o século V a.C., 
em um período marcado pela expansão do Império Persa e pelas Guerras Greco-
Persas. Tucídides, por sua vez, foi contemporâneo de Heródoto, vivendo também no 
século V a.C., e testemunhou a Guerra do Peloponeso, um conflito que dividiu as 
cidades-estados gregas. Ambos os autores, em suas obras, refletiram as 
preocupações e os desafios de suas épocas, buscando entender os eventos históricos 
e suas causas de maneira crítica e analítica. 
Considerando a importância da obra dos dois autores, nos próximos tópicos 
vamos examinar suas obras e contribuições que eles trouxeram para o campo da 
historiografia. Nesse sentido, é importante notar que eles não podem ser entendidos 
simplesmente como precursores da forma moderna de fazer história, mas como 
exemplos de manifestação e expressão da experiência histórica, na forma como ela 
se manifesta e representa a cultura e as questões da época em que viveram. 
Veremos, assim, que não se trata apenas de contar "história cientificamente", 
mas da maneira como eles foram capazes de falar dos costumes, hábitos e 
inquietudes da época em que viveram, formando o lugar do que podemos chamar de 
uma história existencial e interdisciplinar, onde a compreensão do espaço, dos hábitos 
e das questões políticas são dimensões essenciais que fazem do contar a história 
uma experiência científica, política e cultural. 
 
2.1 Heródoto: historiador, etnográfico, geógrafo (aspectos de sua biografia) 
Conforme Pollini (2008), Heródoto é reconhecido como o pioneiro da história, 
da etnografia e da geografia. No entanto, ele também enfrentou críticas, 
especialmente entre seus contemporâneos, sendo acusado de simpatizar com os 
povos "não civilizados" e inimigos dos gregos. Sua curiosidade o levava a investigar 
as causas dos eventos. Em algum sentido, também foi crítico em relação a figuras 
respeitadas da Grécia clássica. A obra de Heródoto apresenta uma ampla gama de 
facetas, conforme é possível constatar em seus textos que chegaram até nós. 
 
 
 
O escritor romano do século I a.C., Cícero, foi o primeiro a atribuir a Heródoto 
o título de "pai da história". Essa designação é compreensível à luz de suas "Histórias", 
um trabalho monumental composto por 9 livros que narram os conflitos entre gregos 
e persas durante as Guerras Médicas, ocorridas na primeira metade do século V a.C. 
O confronto entre algumas pequenas cidades gregas e o poderoso Império Persa foi 
um evento de grande relevância. O império persa dominava a maioria do mundo 
conhecido, estendendo-se da Índia ao Mediterrâneo e do Egito às margens do Mar 
Negro. 
No entanto, a contribuição de Heródoto vai além da mera narração dos eventos 
relacionados às Guerras Médicas. Embora essa seja a parte central de sua obra, 
Heródoto demonstra uma grande curiosidade ao descrever quase todo o mundo 
conhecido em sua época. Por isso, quando aborda as causas da guerra entre persas 
e gregos, Heródoto revisita o histórico das conquistas persas, desde Ciro até Dario, 
abrangendo um período que vai de meados do século VI até as batalhas contra os 
gregos em 479 a.C. 
Toda essa introdução ao relato principal abrange mais da metade da obra. 
Heródoto aproveita a oportunidade para descrever minuciosamente as regiões e os 
povos sob o domínio persa, assim como os povos vizinhos, estendendo-se até os 
limites do mundo conhecido. Esses desvios frequentes, embora afastem o historiador 
de seu objetivo principal, constituem uma das grandes riquezas de sua obra. Portanto, 
atualmente poderíamos reconhecer Heródoto não apenas como o "pai da história", 
mas também como o "pai da etnografia" e o "pai da geografia". 
Heródoto possui uma biografia repleta de aventuras e marcada por numerosas 
viagens, as quais fornecem a base para seus estudos etnográficos e geográficos. O 
aspecto mais fascinante, sem dúvida, reside na análise do método que ele emprega 
em seus relatos históricos, etnográficos e geográficos, além de destacar a importância 
das descrições de maravilhas e elementos fantásticos que frequentemente se 
encontram nos confins do mundo conhecido, tal como os gregos os interpretavam ou 
imaginavam. 
Heródoto abre sua obra se identificando como "Heródoto de Halicarnasso", 
indicado nos nove manuscritos que o mundo moderno herdou da Idade Média. 
Informações oriundas de fontes antigas confirmam que ele nasceu e passou parte de 
sua juventude em Halicarnasso. A origem de Heródoto é documentada de forma 
 
 
 
incontestável em uma inscrição na base de uma estátua que decorava a biblioteca de 
Pérgamo, construída por Eumênio II na primeira metade do século II a.C. 
Um dos aspectos mais notáveis da vida de Heródoto foi sua estadia em Atenas 
por volta do século V a.C. (MOLES, 1999), especialmente no que se refere à sua 
produção intelectual. Nesse contexto, a possível amizade entre o historiador e o 
dramaturgo Sófocles é bastante sugestiva. Além do aspecto curioso das relações 
entre esses dois escritores, é relevante destacar que vários elementos da obra de 
Heródoto refletem uma forte influência dos círculos intelectuais presentes em Atenas 
naquela época, notadamente as ideias propagadas pelos sofistas (BAKKER, 2002). 
Outro relato relevante sugere que a inspiração de Tucídides para se tornar 
historiador surgiu após assistir a uma recitação pública das obras de Heródoto em 
Atenas. Essa anedota é significativa para nossa investigação, pois ressalta o papel 
crucial da oralidade durante o período em que as Histórias estavam sendo compostas. 
Era comum na época que os intelectuais recitassem trechos de suas obras em 
público, muitas vezes recebendo pagamento por isso. Além dos sofistas e outros 
grupos de eruditos, Heródoto provavelmente estava entre aqueles que ganhavam 
para declamar suas obras na praça pública, na ágora. Dessa forma, um dos propósitos 
de Heródoto em Atenas, assim como em outras cidades gregas, era apresentarsua 
obra ao público, fazendo circular suas posições e interpretação da história e da cultura 
de seu tempo. Essa era uma oportunidade para despertar o interesse dos gregos em 
suas narrativas sobre as Guerras Médicas e as várias regiões que ele explorou 
durante sua vida. 
Outro aspecto marcante na vida de Heródoto são suas extensas viagens. 
Embora tenhamos hoje apenas conjecturas baseadas em alguns elementos de sua 
própria obra, os detalhes de suas descrições são tão significativos que a maioria dos 
especialistas descarta as dúvidas levantadas por alguns filólogos céticos. A lista de 
locais visitados pelo historiador é impressionante, incluindo Babilônia, Cirene, Egito, 
Macedônia, Ólbia da Crimeia, Peônia, Síria e outros. 
A informação da Suda sugere até que ele teria sido sepultado na ágora de Túrio 
o que vai de encontro aos costumes gregos que proíbem o enterro dos falecidos 
dentro das muralhas da cidade. No entanto, a possibilidade de uma assinatura como 
cidadão de Túrio sugere a hipótese de que Heródoto possa ter escrito, ao menos em 
parte, suas Histórias enquanto residia nessa cidade da Magna Grécia. 
 
 
 
Além das extensas viagens pelo mundo antigo, Heródoto provavelmente 
participou da expedição colonial pan-helênica de Túrio, no sul da Itália, atual Calábria. 
Embora sua cidade natal seja reconhecida como Halicarnasso e todos os manuscritos 
medievais confirmem essa indicação, não é certo que tenha assinado suas "Histórias" 
dessa forma. Fontes antigas, como a Suda, Estrabão e Plutarco, sugerem que, após 
suas viagens e pelo menos uma estadia em Atenas, Heródoto emigrou para o sul da 
Itália e possivelmente fez parte do grupo de fundadores da colônia de Túrio. Essa 
fundação ocorreu por volta de 444 a.C., a partir da iniciativa dos atenienses. 
Se não podemos confirmar sua participação na fundação da nova cidade, 
Heródoto era reconhecido como cidadão de Túrio, conforme registros de Estrabão 
(XIV.2,16), Plutarco (Da Malícia de Heródoto, 868A) e uma crônica de Lindos (A 
Crônica do Templo de Lindos, 29; Shaya, 2005, p. 423-442), redigida durante a 
primeira metade do século I a.C. Ele próprio afirmava ser cidadão de Túrio, conforme 
testemunhos de Plutarco e Aristóteles. Plutarco (Do Exílio, 13) menciona que, em sua 
época, havia manuscritos circulando com a indicação "Heródoto de Túrio", e o 
manuscrito usado por Aristóteles em sua citação na Retórica (Retórica, 1409 ⁠ª 28) 
também continha essa referência. Independentemente de como assinou sua obra 
(LEGRAND, 2003, p. 14), é certo que Heródoto não apenas emigrou para Túrio, mas 
também viveu lá por um período significativo de sua vida, possivelmente até sua 
morte. 
2.2 Heródoto historiador 
Conforme destacado por Pollini (2008) no prefácio de sua obra 'História', 
Heródoto delineia a origem e a finalidade de seu trabalho. Segundo o autor, o 
propósito do historiador grego é relatar os feitos notáveis tanto dos gregos quanto dos 
povos bárbaros, descrever as maravilhas do mundo e, sobretudo, esclarecer as 
razões subjacentes aos conflitos que os envolveram. 
Como demonstrado desde o início, o foco principal de sua obra é nas Guerras 
Médicas, nas quais diversas cidades-estado gregas, apesar de unidas, enfrentaram o 
Império Persa em 490 a.C. e posteriormente em 480 e 479 a.C. No entanto, Heródoto 
vai além da mera narrativa dos conflitos. Sua singularidade reside no desejo de 
compreender as causas desses embates, revelando assim uma abordagem 
 
 
 
historiográfica inovadora. Nesse sentido, é importante compreender o título de sua 
obra, “Historiai” (ou “Historiè” no dialeto jônico utilizado por Heródoto), que significa 
"pesquisas". A partir de Heródoto, ser historiador e escrever sobre a história é realizar 
pesquisas, buscando as causas dos eventos observados. 
Na sua investigação das causas das Guerras Médicas, Heródoto segue uma 
ordem cronológica, apesar das digressões presentes (FORNARA, 1971, p. 4-5; 
GRAY, 2002). No entanto, essas digressões não minam a ideia de que sua obra seja 
coesa e tenha sido cuidadosamente planejada na totalidade. Ele inicia sua narrativa 
descrevendo a conquista das cidades gregas da costa da Ásia Menor pelo rei da Lídia, 
Creso, em 561 a.C. Posteriormente, relata a queda do reino lídio para os persas em 
546 a.C., resultando na submissão das cidades gregas à hegemonia persa. Dessa 
forma, Heródoto investiga a trajetória do império persa, desde o início do reinado de 
Ciro em 557 a.C., passando pelos seus sucessores Cambises e Dario. 
É o momento em que Heródoto detalha as conquistas persas na Ásia Menor, 
Babilônia e Egito. Ele descreve a tentativa fracassada de Dario em subjugar os citas, 
uma população nômade da Ásia Central, e a conquista da Líbia. Assim, os primeiros 
quatro livros das Histórias, que compõem a maioria do relato, não abordam as Guerras 
Médicas, mas fornecem uma visão geral da expansão persa na segunda metade do 
século VI a.C. Somente a partir do livro V é que Heródoto inicia a narrativa dos conflitos 
entre gregos e persas. 
O historiador emerge como o pioneiro na literatura ocidental a buscar uma 
explicação completamente racional para os eventos. Ele não apenas foi 
possivelmente o primeiro a identificar as causas primárias desses conflitos, como o 
desejo de conquista, mas também reconheceu as razões secundárias. Essas causas 
secundárias estão intrinsecamente ligadas à história pessoal de certos indivíduos e 
são evidenciadas por intrigas, ambições e ressentimentos. Com frequência, nos 
relatos dos eventos, Heródoto destaca tanto os méritos quanto os erros dos 
indivíduos, não necessariamente com uma inclinação moralista, mas sim para iluminar 
as causas subjacentes dos acontecimentos na grande narrativa histórica. 
Desde o início de sua obra, Heródoto faz críticas fundamentadas às diversas 
lendas que envolvem as rivalidades entre gregos e asiáticos, especialmente às 
explicações oferecidas por alguns cronistas persas. Ele menciona, por exemplo, as 
lendas dos famosos raptores Io, Europa, Medeia e Helena. Heródoto observa que os 
 
 
 
persas não davam grande importância aos raptores de certas mulheres, mesmo que 
fossem princesas. Em contraste, os gregos, para vingar o rapto de Helena, 
envolveram-se em uma grande guerra que resultou na destruição da poderosa cidade 
de Tróia (I.4). 
2.3 Heródoto etnógrafo 
Segundo Heródoto, conforme expresso no prefácio de sua obra (I.1), seu 
principal intento é relatar os acontecimentos das Guerras Médicas e, especialmente, 
esclarecer as razões que levaram gregos e persas a entrarem em conflito. Como já 
mencionado, nesse contexto, ele procura identificar causas tanto objetivas quanto 
subjetivas para esses eventos. As causas objetivas têm um caráter coletivo, referindo-
se às condições de vida entre os povos. Já as causas subjetivas, dizem respeito aos 
traços das lideranças e às ambições pessoais, que surgem em conexão com as 
condições objetivas. Isso confere à obra uma representação da vida em sociedade e 
das circunstâncias de existência dos indivíduos. 
Nesse contexto, Heródoto demonstra interesse pela estrutura do império persa, 
que constitui grande parte de sua obra, abrangendo do livro I ao livro IV. Durante essa 
exploração, o autor descreve uma variedade de povos considerados bárbaros, ou 
seja, não-gregos, com idiomas, crenças e costumes distintos daqueles dos gregos, o 
que dá sua obra o caráter etnográfico, antecipando, assim, algumas preocupações da 
antropologia moderna. 
Alguns estudiosos contemporâneos sugerem que essa parte da obra de 
Heródoto serve principalmente como uma oportunidade para ele demonstrar sua 
cultura, erudição e conhecimentos. Outros críticos, também influenciados pelo 
julgamento negativo de autores antigos como Tucídides (I. 22), argumentam que o 
objetivo era atrair a atenção do público, frequentemente reunido em praças públicas, 
para ouvir as narrativas do historiado,já que é uma tendência dos povos e pessoas 
se interessar pelo que pode parecer exótico ou fantasioso. De qualquer forma, essa 
seção de sua obra não apenas lhe garante o título de "pai da história" (Cícero, Das 
Leis, I.1,5), mas também o de "pai da etnografia". 
O texto de Heródoto, conforme observado por Legrand (2003), é reconhecido 
como o mais antigo relato histórico, etnográfico e geográfico que chegou até nós. 
 
 
 
Poucas exceções existem, como alguns raros e breves fragmentos de autores mais 
antigos, como Hecateu de Mileto, que podem ser situados nesse contexto. A 
importância da obra de Heródoto reside em diversos aspectos, como indicamos ou 
sugerimos, anteriormente. 
Primeiramente, suas narrativas fazem um registro detalhado dos eventos 
históricos, das culturas e das geografias das regiões que ele visitou e descreveu. Além 
disso, Heródoto foi um dos primeiros a adotar uma abordagem investigativa e crítica 
em seus relatos, buscando compreender as causas e os contextos dos 
acontecimentos, em vez de apenas registrar os fatos de maneira superficial ou mesmo 
dar uma explicação que estivesse fundada no discurso mítico de alguma cultura. 
Sua obra também é relevante por apresentar uma visão relativamente imparcial 
das diferentes sociedades e povos, mesmo que essa objetividade seja discutível em 
alguns casos. Por fim, a escrita vívida e envolvente de Heródoto contribui para tornar 
sua obra capaz de cativar os leitores, o que ajudou a estabelecê-lo como uma figura 
central na historiografia ocidental. 
 
2.4 Tucídides 
Conforme Marshall (1996), Tucídides, um historiador grego do século V a.C., é 
conhecido por sua obra que narra os eventos da Guerra do Peloponeso. Ele dedicou-
se a preservar a memória dos conflitos entre os peloponésios e os atenienses, 
considerando-a uma guerra de magnitude sem precedentes até então. 
A Atenas do século V, onde Tucídides viveu, tem sido frequentemente estudada 
por suas características singulares e sua notável inovação em vários campos do 
conhecimento e da cultura, sendo uma referência para o mundo contemporâneo e 
também para culturas e sociedades posteriores. Tucídides escreveu sua obra em 
profunda sintonia com o contexto histórico que o cercava. Este ambiente, a Atenas do 
século V, foi marcado por uma crescente busca por compreensão racional do mundo, 
impulsionada pela curiosidade científica emergente. 
Imersa nesse contexto propício à reflexão racional, a obra de Tucídides 
demonstra uma clara afinidade metodológica e semântica com outras formas 
contemporâneas de investigação empírica e racionalista, como a medicina e a 
 
 
 
investigação forense, bem como a filosofia grega. Além disso, seu universo aborda 
temas que permeiam a filosofia, a sofística, a política e a tragédia. Segundo Marschall: 
Impossível esquecer que se trata de uma época de maturidade filosófica e 
artística da cultura grega, quando as reflexões e doutrinas filosóficas, ainda 
que antes de Platão e Aristóteles, já ofereciam um apreciável e variado acervo 
de concepções ontológicas, éticas e políticas. Além da presença sempre 
marcante da poesia épica, de Homero e Hesíodo, acrescentavam-se os 
aportes da tradição poética lírica, da assim chamada filosofia pré-socrática, 
propagando-se ainda com crescente intensidade as ideias da filosofia 
sofística clássica, com seu antropocentrismo e projetos cientificistas. As 
novas doutrinas retomavam e punham em cheque as tradições históricas, 
filosóficas e jurídicas gregas, apresentando novas alternativas culturais e 
políticas. Era, portanto, grande a efervescência cultural sob o impacto das 
lições dos vários mestres sofistas presentes na cidade de Atenas, como 
Górgias, que lá chegou em 427 a.C., e também Protágoras, Hípias e Antífon, 
entre muitos outros, sem esquecer o velho mestre de Péricles, Anaxágoras, 
presente em Atenas desde aproximadamente 461 a.C. (MARSHALL, 1996 p. 
219). 
Nesse contexto, é importante salientar as diferenças entre as concepções de 
Tucídides e Heródoto sobre o fazer histórico. Enquanto Heródoto é muitas vezes 
caracterizado como o "pai da história" devido ao seu interesse em relatar eventos 
históricos e mitos de maneira narrativa e descritiva, Tucídides é reconhecido por 
adotar uma abordagem mais analítica e crítica, buscando investigar as causas e 
motivações por trás dos acontecimentos. Ou seja, o aspecto analítico presente no 
trabalho de Heródoto toma a forma de um método em Tucídides, o que se expressa 
na escolha e delimitação do objeto, como será apresentado no próximo tópico. 
2.5 A escolha do Objeto: O critério axiológico 
Tucídides expressou críticas a Heródoto em diversos aspectos, porém, como o 
historiador de Halicarnasso, ele inevitavelmente seguiu certos princípios fundamentais 
de composição narrativa. No entanto, diferenciou-se pela busca de uma delimitação 
mais precisa do objeto de estudo e dos critérios analíticos. Isso fica evidente desde a 
escolha do tema de suas obras. Heródoto escreveu sobre as guerras contra os persas, 
mas desviando-se para analises de caráter etnográfico e geográfico, Tucídides 
dedicou-se à narrativa da guerra entre peloponésios e atenienses, mantendo o foco 
nesse tema, buscando refletir mais sobre as causas e o sentido da Guerra. Por outro 
lado, é importante salientar que ambos compartilham uma tradição que remonta a 
Homero, que descreveu a Guerra de Tróia tanto na Ilíada quanto na Odisseia, como 
apontado por Momigliano (1993) 
 
 
 
A guerra é um tema que, por excelência, encontramos na épica e, 
posteriormente, na obra de historiadores como Heródoto e Tucídides. Xenofonte, 
Políbio, César, Tito Lívio e Salústio também abordaram guerras e revoluções em suas 
obras, conforme observado por Momigliano (1993), indicando a crescente importância 
desse tema na escrita histórica. Para fundamentar a grandiosidade e a importância do 
tema investigado e narrado, ou seja, a Guerra do Peloponeso, Tucídides apresenta 
argumentos que destacam sua excepcionalidade. Segundo ele, nunca tantos 
indivíduos estiveram envolvidos, nem tantos recursos - como exércitos, soldados e 
navios - estiveram disponíveis durante uma guerra 
Além dos critérios de grandiosidade, Tucídides acrescenta, ao final do prólogo, 
elementos que comprovam a excepcionalmente destrutiva eficácia da guerra entre 
peloponésios e atenienses: nunca tantas cidades foram capturadas ou despovoadas, 
nem tantos exílios e massacres foram registrados. Ele enfatiza ainda que essa guerra 
acarretou sofrimentos para a Hélade como nunca ocorridos em tempos semelhantes. 
Além disso, foram regstrados terremotos intensos, eclipses frequentes, prolongadas 
secas e a terrível epidemia da peste. Tucídides destaca que todos esses eventos 
ocorreram simultaneamente ao longo desta guerra. 
Conforme Murari Pires (1999), desde o proêmio Tucídides se coloca ao lado do 
Épos, não só na escolha do objeto, mas também ao reafirmar o mérito e a relevância 
do evento que propõe contar, a guerra entre peloponésios e atenienses, que seria 
“grande e mais digna de relato do que os precedentes” e mais, “esta comoção seria a 
maior já ocorrida para os helenos e para uma parcela dos bárbaros, podendo-se 
mesmo dizer para a maioria da humanidade”. Esta ênfase na magnitude da guerra se 
justifica por ser fundamentadora da eleição deste tema, uma vez que sua grandeza 
reclama o mérito da narração. 
No prólogo de sua obra, segundo Murari Pires (1999), 
Tucídides reafirma as convenções estabelecidas pelo épico homérico ao reiterar o 
princípio axiológico que orienta a seleção do episódio histórico narrado, considerando 
sua grandeza trágica como critério determinante. A importância da tragédia como 
critério de seleção do tema abordado na narrativa é ressaltada por Tucídides no 
prólogo, onde ele enfatiza os aspectos devastadores associados à guerra que está 
narrando. Destaca-se os males, desastres naturais e sofrimentos infligidospelos 
 
 
 
homens em conflito, ampliando o cenário sombrio com as numerosas mortes 
ocorridas. 
Na análise do trabalho de Tucídides realizada por Murari Pires, ele desenvolve 
um conjunto de princípios interpretativos a partir do pressuposto básico da repetição 
contínua de princípios que organizam o discurso, estabelecendo conexões entre a 
epopeia e formas posteriores de expressão, especialmente a historiografia. Ele 
argumenta que as similaridades formais entre os discursos não são apenas resultado 
das escolhas estilísticas dos autores, mas têm suas raízes em um fundamento 
epistemológico compartilhado. 
Os princípios narrativos fundamentais, originados da epopeia, são identificados 
no prólogo de Tucídides, onde são apresentados de forma abrangente. Estes 
princípios incluem: o princípio onomasiológico (referente ao protagonista), o princípio 
axiológico (relacionado à importância do evento), o princípio metodológico (ligado à 
busca pela verdade), o princípio arqueológico (sobre a origem do evento), o princípio 
etiológico (acerca das causas) e o princípio teleológico (referente à finalidade ou 
utilidade do evento). 
Seguir esses princípios de interpretação não apenas nos auxilia a compreender 
os fundamentos epistemológicos subjacentes ao discurso de Tucídides e a discernir 
mais claramente as escolhas estilísticas e epistemológicas do autor, em contraste com 
a metodologia defendida por ele, mas também destaca os elementos estruturais que 
permitem identificar esse discurso historiográfico com as robustas tradições 
provenientes da cultura épica, que continuavam exercendo sua influência no século V 
a.C. Isso evidencia a relação de Tucídides com Heródoto, embora não apague as 
diferenças entre os dois autores. 
2.6 Tucídides e as narrativas tradicionais 
Conforme Pires (1995), Tucídides é influenciado por estruturas narrativas 
tradicionais, especialmente aquelas originadas na poesia épica. Isso determina seu 
tratamento do objeto de estudo, ou seja, o problema da guerra e seu lugar na 
experiência humana. Desde o tema em si até a magnitude da guerra escolhida, é 
notável a influência da poesia épica na dignidade conferida ao discurso. Contudo, a 
narrativa busca também critérios para que a exigência de veracidade de seu relato 
 
 
 
possa se efetivar. Essa preocupação com verdade, surge, como critério axiológico 
fundamental pelo qual podemos elencar diferenças e proximidades do discurso do 
autor com aquele da poesia épica. 
Assim, Tucídides estabelece um novo padrão para a escrita da história, 
influenciando profundamente o desenvolvimento da historiografia ocidental. A 
elaboração de uma narrativa fundamentada na necessidade de autenticidade dos 
eventos está intimamente associada à sua representação precisa, a qual, por sua vez, 
requer a observação direta ou a presença nos acontecimentos. 
 Dessa forma, ao longo de sua investigação, o historiador frequentemente 
indica as fontes de informação das quais extrai os elementos de seu relato, ancorando 
assim a realidade descrita na condição de observação indireta de estudos de fontes 
que possam ser analisadas e pensadas como fidedignas. No caso de Tucídides, um 
dos critérios é o testemunho. Ele declara explicitamente que testemunhou os eventos 
e, por isso, pode reproduzir fielmente o relato daqueles que estiveram presentes 
(PIRES, 1995). 
Na poesia épica, as Musas são invocadas como guardiãs da veracidade do 
relato, proporcionando uma garantia de autenticidade. A verdade do que é contato e 
seu sentido surge de uma condição mítica ou sobrenatural. No entanto, quando se 
trata de eventos distantes no tempo, como aqueles que remontam aos períodos mais 
remotos, Tucídides recorre à analogia para reconstruir a história do passado no início 
de sua obra, comumente denominado como "arqueologia". 
Quando Tucídides aborda a história contemporânea, ele se dedica à 
investigação dos eventos e utiliza indícios para narrar a "Guerra do Peloponeso". É 
importante notar que ele escreve não apenas uma história sobre a guerra, mas a 
própria guerra em si. Essa distinção sutil reflete a intenção do historiador de relatar 
fielmente os acontecimentos que testemunhou e participou. Ao estabelecer essa 
conexão direta entre palavras e fatos, Tucídides sugere que a objetividade não é uma 
questão problemática, mas sim um princípio fundamental. 
Tucídides segue o exemplo de Heródoto e Hecateu ao assumir o papel central 
em sua própria narrativa desde o início. Ele se responsabiliza pela apresentação dos 
eventos, os quais investigou minuciosamente, buscando retratar a verdade dos 
acontecimentos de maneira fiel e precisa. Hartog destaca a distinção entre os 
parágrafos introdutórios de Heródoto e Tucídides, observando que "ao comparar as 
 
 
 
duas aberturas, percebemos que a abordagem de Heródoto é substituída pela escrita 
de Tucídides". Enquanto Heródoto apresenta o resultado de suas investigações, 
Tucídides aborda a guerra entre peloponésios e atenienses, reforçando a ideia de 
testemunho como base epistemológica de sua narrativa. 
A forma de apresentação utilizada por Heródoto remonta ao contexto da 
oralidade, enquanto o termo escolhido por Tucídides o situa, desde o início, no 
contexto da escrita. Isso visa garantir ainda mais a veracidade de seu discurso, 
reconhecendo que a escrita é uma maneira de organizar os pensamentos e analisar 
o significado dos fatos. Sobre esse aspecto, afirma Vernant: 
A escrita tem um papel assegurador da objetividade na época de Tucídides, 
a escrita em prosa constitui, em relação à tradição oral e às criações poéticas, 
não só uma nova forma de expressão, mas uma nova forma de pensamento, 
onde o logos se impõe como valor de racionalidade demonstrativa, “a 
organização do discurso escrito é paralela a uma análise mais cerrada, a um 
ordenamento mais estrito para a matéria conceitual (VERNANT, 1992, 173). 
 
Na obra escrita, encontramos uma legalidade diferente daquela da oralidade. 
O conjunto de regras que torna possível a narrativa é diferente das que estão 
presentes na oralidade, apontando para uma dinâmica que envolve a expressão, a 
verdade e a experiência do que está sendo dito. Enquanto a palavra falada precisa 
cativar imediatamente o público, a escrita não enfrenta essa mesma pressão de 
agradar instantaneamente à plateia. Além disso, a escrita também transforma a 
linguagem em um artefato visível, suscetível de preservação sem depender 
exclusivamente da memória, conforme destacado por E. Havelock. (1859-1939) Isso 
significa que pode ser recomposto, reordenado e repensado, o que favorece a 
reflexão. 
O advento da escrita também influenciou a percepção do público, Vernant 
(1992) observa que a leitura requer uma postura mais distante e exigente por parte 
dos leitores, e os gregos estavam conscientes disso. Eles preferiam frequentemente 
a seriedade um pouco mais austera, mas mais rigorosa, do texto escrito, em contraste 
com a sedução necessária para manter o público cativado pela palavra falada. Além 
de contrastar seriedade e sedução, também opunham utilidade ao prazer. Vernant 
(1992) argumenta que a utilidade pode ser encontrada em um texto que pode ser 
mantido à vista e que contém um ensinamento de valor duradouro. 
 
 
 
A ideia de contrapor a utilidade ao prazer é precisamente o que Tucídides 
propõe ao escrever que sua obra, por não enfatizar o aspecto fabuloso, pode não ser 
do agrado do público. Nas palavras do autor: 
[...] e para o auditório o caráter não fabuloso dos fatos narrados parecerá 
talvez menos atraente; mas se todos quantos querem examinar o que há de 
claro nos acontecimentos passados e nos que um dia, dado o seu caráter 
humano, serão semelhantes ou análogos, virem sua utilidade, será o 
bastante. Constituem mais uma aquisição para sempre que uma peça para 
um auditório do momento (TUCÍDIDES, 1987, I: 22). 
O aspecto de permanência conferido pela escrita,ao contrário da natureza 
efêmera da palavra falada, está intrinsecamente ligado à noção de uma aquisição 
duradoura. A obra, ao ser registrada por escrito, pode se transformar em um volume 
na estante de alguém, garantindo sua preservação ao longo do tempo. Para Hartog, 
a ideia de "aquisição para sempre", ou ktema eis aiei, só pode ser plenamente 
compreendida no contexto da escrita: enquanto a palavra falada é efêmera e sujeita 
às circunstâncias, a escrita supera essas limitações. A existência da escrita favorece 
a pretensão de perenidade de Tucídides, pois sua obra se torna independente do favor 
imediato da plateia ou do sucesso do espetáculo. 
 Além disso, a intencionalidade clara do autor sugere que a permanência de 
sua obra se deve à grandeza e à validade do conhecimento histórico ali apresentado, 
em vez de depender do estilo ou da beleza do discurso. No entanto, é importante 
reconhecer que, sem o recurso da escrita, um discurso que aparentemente 
negligencia o estilo e a beleza teria dificuldade em sobreviver. 
2.7 Proêmio de Tucídides 
 Além de evocar os proêmios épicos discutidos anteriormente, o proêmio de 
Tucídides contém elementos que refletem seu projeto histórico e as verdades que ele 
explora nos capítulos subsequentes da "Guerra do Peloponeso". 
Ao contrário dos proêmios épicos, onde o sujeito é a Musa, o prólogo da 
"Guerra do Peloponeso" apresenta Tucídides como o autor. As primeiras palavras do 
texto são "Tucídides de Atenas escreveu", evidenciando o projeto de estabelecer uma 
episteme humana. Ao se declarar como autor, Tucídides se distancia da figura da 
Musa; a autoridade que sustenta o relato é ele próprio. Essa mudança de sujeito 
marca o início de um novo tipo de discurso e conhecimento, cuja verdade é definida 
pelos atos realizados pelos cidadãos mencionados. 
 
 
 
De Atenas, Tucídides acrescenta após seu nome, estabelecendo assim sua 
identidade e situando-se no contexto da cidade, o que revela um sujeito político 
tratando de um objeto político. O primeiro parágrafo do proêmio prossegue 
especificando seu objeto: "escreveu a guerra dos peloponésios e atenienses como a 
fizeram uns contra os outros." Já foi discutido o papel da escrita como garantia de 
objetividade; a "Guerra do Peloponeso" não é a narrativa de um logógrafo, mas sim 
um discurso gráfico sujeito ao exame objetivo que a escrita pressupõe. 
Tucídides assegura ter "começado a narração logo a partir da eclosão da 
guerra, tendo prognosticado que ela haveria de ganhar grandes proporções e que 
seria mais digna de menção do que as já travadas." Com essa afirmação, Tucídides 
não apenas destaca o início de sua narrativa, mas também busca ressaltar sua 
capacidade de perceber a importância política do conflito desde o seu princípio. Ele 
valoriza a qualidade e a extensão das informações disponíveis para ele, 
apresentando-se como uma autoridade em percepção política. No entanto, há 
especulações entre os estudiosos sobre a possibilidade de uma escrita retroativa do 
proêmio, que teria sido feita à luz de acontecimentos posteriores. 
As interpretações sobre como Tucídides escreveu sua narrativa são diversas. 
Alguns comentaristas afirmam que ele escreveu conforme os eventos se 
desdobravam, registrando a história dos primeiros dez anos da guerra e 
interrompendo-a com o tratado de paz de Nícias, presumindo que a guerra havia 
acabado. Quando o conflito foi retomado sete anos depois, no Livro V, ele teria 
retomado a narrativa com uma nova introdução. 
Por outro lado, outros autores argumentam que Tucídides trabalhou 
retroativamente, revisando seu texto várias vezes e ajustando o que já havia escrito. 
Eles sugerem que algumas partes do Livro I só poderiam ter sido escritas à luz dos 
acontecimentos posteriores, como a oração fúnebre de Péricles, que reflete a 
perspectiva de uma cidade derrotada. 
John Finley Jr. sugere, de acordo com Proctor, que a Guerra do Peloponeso foi 
completamente escrita após a queda de Atenas em 404, mas a visão predominante 
na atualidade é de que Tucídides elaborou sua obra ao longo dos 30 anos que se 
passaram desde o início do conflito até sua própria morte. Como historiador, a missão 
de Tucídides é investigar e compreender os eventos que desencadearam a "Guerra 
 
 
 
do Peloponeso" e o próprio confronto, utilizando métodos sistemáticos que o ajudem 
a inferir tais acontecimentos por meio de indícios disponíveis. 
Ao examinar a "metodologia" de Tucídides em busca de termos que descrevam 
as operações mentais envolvidas no processo de busca pela verdade, encontramos 
palavras-chave que denotam métodos específicos de investigação. Entre esses 
termos, destacam-se tekmairestai (inferir por indícios), skopeín (examinar indícios) e 
zetein (investigar). Essa linguagem técnica é essencial para Tucídides, pois está 
diretamente relacionada ao seu método de investigação. 
Tekmairestai, que significa inferir a partir de evidências, é a operação 
característica do discurso histórico, que deduz eventos antigos a partir de dados 
contemporâneos, uma inferência que se faz necessária. Esse processo pode ser 
comparado a uma conclusão indiscutível derivada das premissas de um silogismo. 
Por outro lado, zeteín (investigar) é um termo de grande importância no 
contexto do espírito científico e técnico do século V, segundo Knox. Ele é 
especialmente associado às pesquisas e investigações filosóficas, técnicas e 
científicas da época. 
Já o termo skopeín é o verbo que descreve o exame minucioso necessário para 
interpretar as informações e situações encontradas durante a investigação. Ele denota 
os atos investigativos que visam descobrir a verdade. 
É notável a ausência da palavra "historein" (investigar/inferir) no texto de 
Tucídides, mesmo sendo este termo parte do vocabulário científico comum do século 
V a.C. Enquanto Heródoto utiliza essa palavra desde o prólogo de sua obra para 
descrever sua atividade investigativa, Tucídides, por sua vez, evita deliberadamente 
o seu uso. Essa escolha pode ser interpretada como uma maneira de se distanciar de 
Heródoto, já que o termo estava fortemente associado a ele. 
Na "Guerra do Peloponeso", não fica explicitado o que Tucídides pensava 
sobre a história. Não fica claro se ele considerava importante escrever uma narrativa 
precisa da guerra por si só ou se acreditava que essa narrativa seria um legado. Essas 
questões não eram óbvias em sua época, uma vez que a prática de escrever história 
estava apenas começando. 
Julgar Tucídides com base apenas em sua obra "Guerra do Peloponeso" pode 
levar a desafios e contradições. Muitos estudiosos têm enfrentado dificuldades ao 
tentar reconciliar a imagem de um autor que demonstra grande atenção aos detalhes 
 
 
 
com lacunas surpreendentes em sua narrativa. Nesse sentido, M. I. Finley retrata 
Tucídides como alguém desprovido de humor, pessimista, cético e altamente 
inteligente, com uma frieza superficial, mas que, ocasionalmente, revelava intensas 
emoções em comentários incisivos e apaixonados. 
Tucídides, contemporâneo e participante dos eventos que descreveu, 
estabeleceu um padrão de rigor notável para sua época, no século V a.C. Ele avançou 
ao adotar a premissa de que a história humana era um assunto passível de análise e 
compreensão exclusivamente por meio de padrões e comportamentos humanos, sem 
recorrer ao sobrenatural. 
 Essa abordagem ecoa nos escritos hipocráticos e em princípios da sofística 
clássica, demonstrando uma visão progressista para a época. É irônico que, no século 
XIX, Tucídides tenha sido amplamente reverenciado como um grande historiador, 
apesar de sua convicção de que somente a história contemporânea merecia ser 
registrada. Essa contradição ressalta a maneira como ele se tornou um modelo para 
estudiosos para os quais a história do passado era de importância central. 
3 HISTORIOGRAFIA ROMANA 
Segundo Hecko (2019), na Historiografia Romana,

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